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Q 2008 Museu de Astronomia e Ciências Afins . 'I'.

,
. }' ediç:'l.o:ou[Ubro de 2008

CIP-BRASIL. CATALOGAÇAO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL nos EDITORES DE LIVROS, RI

CSIl
.Surhário
Ciência, histÓria e hismriograli" / Marta. de Almei~a e Moema de Re:zende Vergara,
organizadoras. - São Paulo: Via Lettcra ; RIO de: Janclro : MAST, 2008.
400p, ,11.'

Textos organizados originalmclUc para as mcsas-.redondas do Scminário História


das Ciências no Brasil, rcali7,ado em 2006, comemorativo dos 21 anos do MAST
ISBN 978-85-7636-078-0

~ - 1. Ciência. História. 2. Ciência - Historiografia. 3. Ciência c civili~,ação..•1. ~l-


meida, Marta. 11. Vergara, Moem3 dc Rczende ..JII. Museu de: Astrononua e:Clcncl3s
Afins.

08-4279. CDD,509
cnu, 5(091)

01.10.08 07,10,08 009071 APRESENTAÇÃO 7


.-

MÓDULO I.CItNCIA,NAÇÃOE~O.DER 11

Pedro Eduardo Mesquita de:Monteiro ~arinho

Dt po/itlcriic~sa mgrohtiror: a rogmharia mire a sociedadecivil ta


Todos os direitOS resc(\'ados. Nenhuma parte dcste livro pode ser reproduzida ou util~zada
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C3pa Mário César Maria Amélia M. Dantes _ ~."
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Pela saúde da na(ão. O pmsamtnto mldiro sobrea epilepsia e a constru(iJoda ordem no Brasil 81
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2008

L

Trajetórias museológicas, biografias de


objetos, percursos metodológicos.

Maria Margaret Lopes'

INTRODUÇÃO

«Biografias" ou trajct6rias" de objetos de coleções científicas2 - são ainda temas


U
.,
• i

inovadores no Brasil nos estudos de intersecção da Museologia c da História das ciências. I


,

Têm nos possibilitado um adensamento de nossas pesquisas em curso sobre a análise I

das dimensões inseparáveis da atuação musco16gica, científica, política de Hermann von


lhering (1850-1927) - na direção do Museu Paulista entre 1894 c 1916.' A discussão
que se segue, sobre a recente produção que reconhecendo a .importância metodológica
I
das cién-cias museológie.s (Piekstone, 1994) p.rtilha os pressupostos que conferem às
I coleções status de l/sujeitos" de investigação (Albcrti, 2005), tem nos referenciado para a
I, reflcxão em torno da ccotralidade das coleções na obra muscológica de lhcring.


I Professam do lnstituto de Geociências - UNlCAMP.
1 Desde meados dos anos de 1980, os estudos antropológicos sobre biogrúia cultUr.t1 de coisas. de objetos. se
constitUem em uma área ccpressiva de investigaçAo. mais consolidada no campo dos estudos de cultUra material
e para O caso dos museus nas Arcas de história. arqueologia c antropologia e menos incorporada nos estUdos de
História das Ciências. particularmente de História das Ciências Naturais e Museus. -The cultUral Biography of
Things" (Kop)1off.lgor. Appadurai, A [Ed.) 7b~ srxia//ift oflhings: ((Jmmf)(/itia in m/lum/ pmp«ti'Ut').ln: Cam.
bridge: Cambridge Univ. Press, 1986. p. 64-91) é um dos textos fundacionais dessas abordagens constantemente
referido por diversos autores. A partir de suas anAlises sobre a cscn'lvidão e do tratamento dos escravos como
commoditics. KOP)'lOff propõe colocar aos objetos questões similares àquelas que colocamos às pessoas.
J Ver os projetos: Lopes, Maria Ml'lrgarct. ContribuiçAo à História das Ciêncil'ls Paleontológicas no Sul da
América (1780-19J 1). Auxílio individual à pesquisa. FA)ESP proc. 2004/11272-2 (2004-2006) e Lopes, Ma-
ria Margaret. A Muscologia Histórica e sua contrihuiçlio à construção das cuhuras cientificas no Brasil (]I):
polemizando em torno das concepç6e.<; e práticas de Museus de Ciências NatUrais no Brasil- Museu Paulista
e Museu Nacional do Rio de Janeiro (1890 - final dos anos de 1930). Projeto de Bolsa de produtividade em
Pesquisa (CNPq, 2004-2007).
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HISTÓRIA DAS COLEÇÕES, DOS MUSEUS, DAS Clf;NCIAS mentos vigiados, mcrcccndo cspccial atcnção o texto já clássico dc Ton)' Bcnnctt (J 995)
cm sua já 10' cdição c os estudos dc Eilcan Hoopcr-Greenhill (1992), mais amplamente
o aprofundamento das intersecções da :Museologia e da História das ciências tem conhecidos dos pesquisadores brasileiros. Histórias institucionais de museus por todo O
me levado a acompanhar os desdobramentos dos interesses que os museus passaram a des- mundo, construídas nos marcos das análises eurocêntricas da disseminação das ciências
pertar entre os historiadores das ciências, desde o início dos anos de 1980. Essc crescente foram relidas, questionadas entre outras abordagens. pejos estudos sobre a mundialização
interesse é atribuído finalmente, agora no início dos anos 2000, ao reconhccimento de que das ciências, que .trouxeram ao debate as experiências situadas dos museus de fora do
os estudos históricos dos museus foram se constituindo em uma disciplina própria." O mundo norte-atlântico.
simpósio realizado em 1983, que resultou na publicação Ih, Origins o[Musellm.< (Impe)' e Sem intenção de apresentar aqui, uma revisão da área de estudos, cabe lembrar que
MacGregor, 1985) e na fillldação do fOllmal o[IIJ, Hislory o[Colleclio1lS - a que constan- nossos próprios estudos dos museus brasileiros c argentinos evidenciaram, para além dos
temente nos referimos em nossas pesquisas - são identificados por Jim Bennett (2005) processos de construção das ciências naturais loc.us, que nem sempre propostas muscoló-
como marcos nesse processo que contribuíram para criar a percepção de que uma área gicas que resultaram extremamente cxitosas partiram de objetivos políticos absolutamente
específica de pesquisa se conformava na discussão da história dos museus e das coleções. planejados, tendo sido ampla a margem de ação e negociação de seus protagonistas, em
Tais estudos em história das coleções. e dos museus têm se desenvolvido em diver- seus específicos contextos. Estudos sobre museus de diversos países europeus, entre outros
sos horizontes teórico-metodológicos de análises. E, evidentemente, os museus, por se aspectos, têm mostrado como essas instiruições combinaram no ,final do século XIX seus
caracterizarem como instinlições articuladas em tomo dc objetos materiais, têm sido am- interesses e disputas locais com visões cosmopolitas e imperialistas, especialmente quanto
plamente considerados no univcrso da cultura material (!\1cnezcs, 1992). A antropologia aos estudos etnográficos. lnvestigaçôes sobre os museus norte-americanos entre os anos de
c os estudos culturais enfatizaram a autoridade política e econômica dos construtores de l880 e 1920 exploraram o quanto a "procura racional pela ordem" dominou a política ame-
museus que moldaram o conhecimento e o funcionamento dos museus do século XlII ao ricana e a vida pública (Kohlstedt, 2005). Abordagens sobre arquiterura de museus como as
XX. Embora, nem sempre, muitos desses estudos tenham se voltado para as discussões de Sophie Forgan (1994 e 2005) desconstruíram os ediflcios dos museus, para cntendê-los
em tomo da ccntralidade da história e da classificação dos objetos para a construção das como sítios complexos de convivência e negociação de diferentes interesses científicos e
culnmls científicas especificamente no campo das ciências naturais. A título de exemplo recreativos.
o excelentc artigo de Shelton (1997) sobrc as coleções renascentistas e o Novo Mundo A "l1CW museU111 idea" de William Flower, articulada por um círculo de naturalistas in-
na importante coletânea de Elsner e Cardinal sobre "lhe cultures of collecting", discute teressados nas coleçõcs dc História Natural do Museu Britânico e em oposição a Riehard,
como a Renascença inicialmente aceitou o significado das coleções expressas através dos Owen, seu diretor, não só definiu o museu moderno pelo estabelecimento de suas duas prin-
conceitos medievais de estética e alegoria e foi incorporando mais tarde à lenta transfor- cipais funções, pesquisa e exposição, como continuou articulando toda uma discussão arual
mação da racionalidade teológica da Idade :Média em uma racionalidade secular, em que sobre as transformaçõcs gcstadas pclos museus do)(]X (Rupke, 1994; Beckman, 2004). Es-
príncipes comerciantes e aristocratas passaram a exibir cm seus gabinetes expressões da tudos feministas questionaram aspectos fundamentais sobre a musealização de conceitos de
habilidade da visão de mundo européia dc incorporação e domesticação de (jnovos" costu- raça e gênero apoiados nas investigaçõcs consideradas "científicas e neutras" no século XlX.s
mes c mundos potencialmente transgressivos (Shelton, 1997, p. 184 c 203). No entanto, o Para nós que pesquisamos a intersecção da Tnuseologia e história das ciências na-
enfoque do artigo não incorpora as discussões relacionadas à contribuição desses gabinetes turais, não há como ignorar os objetos, as coleções que foram a razão de ser das áreas de
dos séculos XVI ao Ã'VJ1I à construção das ciências modernas. conhecimento que se construíram, construindo esses espaços. Na análise de Shapin (l996)
f\1uitos estudos museológicos explicitam Seus débitos para com as análises dc ins- a exigência baconiana de uma coleção ou história natural particular de todos os prodígios
piração foucaultianas sobre práticas codificadas, conhecimentos disciplinados, comporta-

S A recriaçllo hipotética - a partir das pc=gadas de indivíduos de diferentes tamanhos caminhando lado 11 lado,
prescrvadns nas lavas da Tanzânia - eomo se trntando de um casal, em quc um macho maior e protctor cllVol\'c
• O \'olume 96, de 2005 da IS1S. o principal periódico inten13cional na área de História das Cit!ncias dedicou
uma fême:l menor pelo ombro, preparnda para a exposiçao "Biologia Humana e E\'Olução" exibida no Museu
SUascção "Focus" ao~ Museus c História da Ciência. Os artigos de conhecidos especialistas da área re6nem um
de Históri:a Natural de NO\'3 lorque em 1993, por exemplo, foi objeto de análise de estudiosas de gênero eomo
1c\'3nt:lme.nto rnzoá\ocl da área de pesquisas, particularmente em lingua inglesa, chegando a referenciar um dos
Londa Schiebinger (1999). Análises da incorporação acrírica de estereótipos de masculinidade nas exibições do
nossos at1~~ pu~licado na OJiris (Lopes e PodgOfll)', 2001). Na mesma linha de argumenta~o, tmos sobre
Museu de História Natural de Nova Iorquc também foram realizadas por Donna Hllraw'3)' (1989) espc=cialmente
j\~"scologJa hlstÓ~lal. como os amplamente utilizados por mim, de: Brigola (2000) já vinham chamando a aten-
no capítulo "Teddy Bear Patriarchy". Exibições públicas de seres humanos nas feiras populares e E:posições
~~~ ~J,Ull a consobdaçlio ~a árca d~ estudos e para o fato de que di .•.
-crsos temas f.'lmiliarcs à historiografia das
internacionais caractcnstic.1s do século XJX, em que se destacam os estudos sobre a "Vênus Hotentote: também
clenc.,l:;, não recebcram amda análises de uma pcrspecth~J que conte:mple o musca!.
vêm sendo objeto de 3nálises de gênero. como no estudo já clássico de Fausto-Sterling (1995).
.,

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e produtos monstruosos da natureza, de tudo que é novo, raro e invulgar justificou teórica consumidores; elas eram do público, propriedade da nação, representativas de sua proemi~
c programaticamcnte a proliferação dos gabinetes de História Natural, que os humanis- nência cultural. Elas não eram expostas para o público, elas deviam ser organizadas de acordo
tas, os curiosos, armazenaram por todos os cantos da Europa desde o início das ciências com os mais avançados princípios que todos pudessem absorver, ao menos em princípio. O
modernas. Provas eloqüentes das especificidades c da fantástica variedade da natureza, Estado, ao revelar a ordem da natureza) se tornava parte dessa ordem natural. Ordenar era
repletos de coisas incomuns, os gabinetes constituíram-se na l'prova" mais acessível de que a função dos curadores, professores, médicos, já cientistas, que podiam ir além e inclusivc
no céu e na Terra existiam mais coisas do que sonhavam as filosofias tradicionais (11ac- destruir aparências superficiais, dissecar, analisar sistemas fisiológicos .internos, escavar em
Gregor, 1989, p. 207-212). Emblemático nesse sentido, nunca é dcmais .lembrar, é o título profundidade de acordo com as dcmandas de seus métodos de aná.liscs (p. 119). E para isso
do best-seUer dc Georges Louis Leclerc, Conde de Bu/fon (J 707-1788), que consolidou precisavam de extensas séries de objetos colecionáveis. Nesses contextoS ganham sentido os
a investigação da História Natural na sua direção do i\1uséum de Paris: liisto;re nahlrelle, estudos dessas imensas séries acumuladas de coleções de objetos, de corpos tornados artefa-
glnlrale et particuliére. ave<la demiption du Cabinet du Roi de 1749. Paula Findlcn (J 994) tos) de instrumentos utilizados nesses processos, não s6 nos museus e jardins, mas também
entre OUITOS pesquisadores, inicia seu texto, amplamente citado em nossos traballios, com nos serviços geológicos, nos departamentos das universidades, nos hospitais,
a explicitação de que suas histórias dos museus e da História Natural são duas histórias Em muitos desses processos, conjuntos de fenômenos anterionnente desconhecidos,
que se entrelaçam e se fundem, avançando inclusive para considerar a materialidade dos ignorados, dispersos são transformados em objetos científicos das mais diversas ordens,
próprios catálogos, na ampliação do alcance das coleções, capazes de serem observados, manipulados, colecionados, gerando novas questões teóricas
Na mcsma linha de compreensão, partilhada por diversos autores como Nyhart (1997), e empíricas, transfonnando-se em entidade ontológicas para Lorraine Daston (2000). Par-
Outram (1997) e na tentativa de construir uma história sociológica da ciência, tecnologia e tindo da compreensão de que os objetos são artefatos culturais, propõe escapar da oposição
medicina (C, T, 1\1) ,integradora, apoiada na profusão de artigos especializados em estudos dualista presente na historiografia entre os "fatos" positivistas e as leituras culturais que, res-
socias das ciências nos últimos trinta anos, John Pickstone (1994) propôs identificar como saltando a plasticidade dos significados, mantêm um confronto com "intransigência bruta
"ciência analítica/comparativa ou museológica/diagnóstica" prnticas científicas que, desenvol- da matéria". I\1uito mais do que um modismo, tornar os objetos científicos) as coleções cien-
vidas no início do século XIX, permaneceram atuantes, identificáveis, até bem adentrado o sé- tíficas, como l'sujeitos" cujas trajetórias merecem investigação, significa historiá-los, Como
culo XX.6 Considera os caminhos) pelos quais os trabalhos analíticos constituídos a partir de os objetos são centrais para as culturas dos museus, traçar suas biografias, suas trajetórias,
extensas séries de coleções nos museus) hospitais, jardins, serviços geológicos, mineralógicos, se coloca como um instrumento poderoso de análise. Tornar as l'coisas" eloqüentes, como
na Botânica) Zoologia, :Morfologia, Fisiologia experimental, Frcnologia, Craniologia, Ana- sugere Daston (20Ó4), tem sido uma estratégia instigante para o questionamento das visões
tomia etc. vieram a ser rivalizados e freqüentemente subordinados pelo experimentalismo que por longo tempo, por considerarem os objetos científicos inexoráveis e universais como
abrigado nos laboratórios e cursos universitários na transição para o século XX, Confirmando a própria natureza, narraram a história desses objetos - a história da ciência - também
as idéias de que determinadas práticas de conhecimentos baseadas em coleçõcs forjaram os como inexorável e universal. Devolver às coleções a sua proeminência nos processos cons-
espaços que melhor se adequavam a elas e nesses processos se consolidaram e se validaram. trutores das ciências tem implicado romper, para ampliar seus alcances, com as histórias das
Justificando que muitas dessas práticas se originaram no período anterior dos "savants" ciências tradicionalmente orientadas para o estudo dos textos e pelo descaso à iconografia e
e afirmando que, se quisennos ser dramáticos, 1793-1795 em Paris seria o "momento mu- às coleções de qualquer tipo como possíveis geradoras de investigações.7
seol6gico" (p.1 J 8), Pickstone reafirma que O que está se passando a tratar em .larga escaIa (e
que se aprofundará ao longo do XIX e se manterá no:XX) são novas conjunções de objetos) de
1 No mesmo sentido, a História dos instrumentos ciemíficos que sc coloca ainda hoje como urna das áreas mais
públicos, de políticas e de profissionais. Como outros autores, considera que as coleções nos
promissoras' e desafiadoras de pesquisa na interface de áreas tão dh'crsas como História da Cultura material,
museus ou cm outros espaços não eram pam o público, no nosso sentido de público como arqueologia industrial, História Econômica, das Ciências e Tecnologia, História das coleções e dos museus. Dcs-
de os anos de 1960/1970 iniciou-se um processo de se deixar de tratar os instrumentos, os aparatos, como não
problemáticos, como objctos que ajudam apenas a quantificar conceitos. mas que não contem ou são capazes de
gerar conceitos. Como objetos detenninados por teorias cujo principal propósito era confirmá-las. Correntes da
I>~~s outros utipos" de identificação de práticas científicas são dcnominados: savantlconnoisseur ou clássico. hege- História dos Jnstrumemos Ciemfficos começaram a romper com as visôcs que consideravam que os pri'lclpios
mon~co no .século xvm e cxperimentalista e tccnociência, séculos XIX c )"'X. Em si, a idéia da periodização apoiada científicos residiam na teoria e mlve7. no m~todo experimenral. mas nunca nos instrumcntos, nas coleções. Para
em tlpologJas de pníticas científicas não é C-\.1l.tamenteinovadora. O que nos interessa ressaltar da daboraçáo do se assumir toda a complexidade do papel dos instrumentos nas inter-relações das ciências e da experimentação,
conhecido historiador da .Medicina é sua apropriação de abordagens te6rico-metodológicas - carncterísticas dos foi preciso retirar os instrumentos do lugar subordir\ll.do. de meros ilustradores dc conclusões obtidas pela boa
estudos da Hist6ria natural, dos museus, das coleções (analíticakomparativ3 ou muscológicaldia&'llóstica) _ c sua Física feita Q prian, por raciocínios lógicos que concepçõcs idealistas fortementc inAuentes até hoje os ha,iam
aten~o. por i~e1ltifica~o p.ara os estudos da História da Medicina, da Tecnologia, rdletindo de algum modo 11 mantido confinados durante longos anos. Sobre essa discussão ver o volume lnstrumenrs. OSIRJS, 1995, Van
contnbtução e mAuéncl3 mais geral dos campos de CStudos dos museus e da história naturnl. Hclden e Hankins (Eds.).
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Abordando a história dos museus através dos objetos de Suas coleções, Samuc1.Alberti observando pessoas (especialmente suas práticas c instituições). Através de suas vidas, ob-
(2005), scguindo Kopytoff (1986), convida os historiadorcs das ciências a colocar aos ob- jetos de museus assumem diferentes significados c \'alores: coletores, curadores, audiências
jetos questões similares àquelas proPOStas nos estudos biográficos de pessoas. Considera deparam-se com objetos de diferentes modos. (Alberti. p. 561)
três fases na vida dos objetos: a coleta e sua proveniênc.ia - momento em que o coletor
confere ao objeto um significado relativamente estável que o acompanhará em sua carreira
atrav~s do mu.seu. Aqui são consideradas as redes de coletores c os locais que eventualmente MOLUSCOS NO MUSEU PAULISTA
canallz.am objetos para o museu; as distinções nem sempre claramente demarcadas entre
museus c espaços comerciais, os mecanismos de aquisição, intercâmbio, doação, que muitas As trajetórias das coleções de conchas de moluscos fósseis e viventes reunidas por
vc~es ga.ran~cm pam sempre a visibilidade das conexões entre pcs~oas e objetos, tornando os Hermann von fhering no :Museu Paulista se colocam como um desafio para serem conside-
obJctos lIlalienavelmente associados aos seus coJetores, doadores, benfeitores (p. 565). radas à luz das proposições sobre as diversas dimensões das trajetórias das coleções como as
, , A scgunda fase das biografias dos objetos de A1bcrti - a vida na coleção - sc inicia sugeridas por Lorraine Daston (2004a) que inspiram essa parte da pesquisa. Os moluscos
! com a Incorporação do objeto na coleção. Esse talvez seja o evento mais significante na de lhering nunca exerceram o mesmo o fascínio das "Glass Flowers" do Harvard l\Jluseum
I
vida de um objeto de museu, e o ponto em que sua documentação tende a ser a mais r.ien. of Natural History cm Cambridge, Massachusetts - O MCZ de Agassiz, de Ja)' Gould.'
O impacto da chegada de um objeto ao museu c sua inserção na coleção varia enorme- 1\1ateriaJi?..ando arte, história, trabalho, ciência, cor, vidro, muito do encantamento dessas
mente quanto ao seu significado e valor, desde aqueles objetos raros, únicos, com histórias coleções de flores de vidro, resulta de serem cópias. Copias perfeitas, que não há mais por-
que serem copiadas, ganhando de algum modo um 110VO sentido de autenticidade,lançando
I~ espetaculares, até aqueles que, chegando sem muito alarido, se tornam centrais c em-
blemáticos para uma instituição (p. 566), Caso do qual as coleções dc moluscos fósscis moda no mundo dos museus e da Botânica, estabelecendo padrões cientificos de precisão.
,I e Viventes de Bermann von Jhering mais se aproximam. Como todos os outros objetos As conchas de lhering não eram modelos, não incorporaram em sua perfeição trabalho hu-
I também os de museu são poJissêmicos, sujeitos a múltiplas interpret~tções e, se estamo; mano, mas acumularam matéria bmta por milhares de anos. Aliás, algumas poucas, fósseis,
falando em museus de História Natural, aqui se situam as práticas c1assificatórias taxonô- podem ter sido seus moldes e não as próprias conchas. As conchas de lhering percorreram
no entanto trajetórias também instigantes. Não se tem notícia de que tenham causado
Ili ~icas, tornando a biografia dos objetos um recurso valioso para traçar as mudanças dos
Sistemas de classificação, dos quadros teóricos e dos debates sobre os objetos. qualquer grande admiração, embora tenham causado muita polêmica, seja como base das

I . E, e~ "Visão do objeto" - a terceira fase -, Alberti lembra que o significado de um


objeto vana não só no tempo e no espaço, mas também ~e acordo com o quem o vê, de
modo que as relações que se estabelecem entre coletores, curadores e objetos se ampliam
teorias de lhering, seja durante o processo que o afastou da direção do l\1useu Paulista. Não
chegaram a ser copiadas, mas foram fotografadas, reproduzidas em desenhos, transforma-
das nos "proxies" dc Rudwick (2000) - documentos que ocupam agora os lugarcs dos ob-
l
II
para as audiências quando estes objetos estão expostos. Objetos adquirem assim um novo jetos das coleções dos naturalistas, que expressos em suas relaçõcs, nos pennitctll recontar
suas "histórias naturais" mesmo que aqueles objetos tenham se perdido.
conjunto de significados e valores que têm sido constantemente ignorados nas Histórias
:! das ciências e museus. AJberti lembra que o crescimento do "público" nos museus do sé- Conchas viventes ou fósseis tiveram seu reinado enquanto objetos privilegiados de
culo XIX, que passou a ser contabilizado, mudou não somente o status do visitante como colcções de museus dcsdc a Renascença até o fim do século XVIII. Evocando marcs dis-
também os métodos dc monitorá-.los (p,569). ' tantes ou inacessíveis, sustentando especulações sobre as "Teorias da Terra" quando en-
Para Albcrti - que reconhece a importfmcia dos imighls e das duas décadas de debate contradas no alto das montanhas, a crítica ao modismo então corrente do colecionismo
das teorias de ator-lletwark associadas aos debates dos estudos sociais de ciência c tecnolo. de conchas, que relegava a segundo plano a história dos "vermes" chegou até mesmo a
gia, se~ subscre~er ~ programa como um todo -, selecionar "vidas" de objetos particulares merecer a Memória de Alexandre Rodrigues Fcrreira sobrc o "Abuso da cOllchiologia",9
e consl~er~r a hlstóna d~s coleções c museus a partir da perspectiva do objeto, não signi-
fica atnbUlr poder excesSIvo às próprias coisas.
8Tivc a oportunidade de visitar esse Museu e admimr essa f."l.lltáslicacoleção pela primeira ve7.. quando, com uma
bolsa, Short-term visiting fellowship da Smithsonian lnstitulion, .Washington, D.C., USA. 1993, participei do
Fazer.isso seria diminuir a atuação dos humanos na história - coisas não agem por direito Congresso Norte-americano de Geologia ~lizado em Boston.
.,As concepções e o intere.~ sob~ os fósseis na Ilusrra~o portuguCS3 são consideradas em meu artigo: Lopes.l'vl.l\'1.
pr~pno, ma~ atua-se sobre a cultura materiaJ. As pessoas conferem vaJorese significado às
"'Raras Petrificações"; regiStros e considençOO sobre os fósseis na América Porruguesa. Con~sso Internacional: O
co~sas,malllpulando e contestando seus significados ao longo do tempo. Atua-se sobre os Espaço Atlântico de Antigo Regime: Poderes e Sociedades. 1112005. Lisboa. Portugal (no prelo). Sohre a discussão
objetos que são modificados e alterados enquanto meios.de relaciollamentos, mas os objetos da centrnlidade das concll3s llas coleções de museus como fundamentos de teorias da tem, ver o capítulo 1, O mo\;,-
permanecem inanimados. Nós estamos olhando do ponto de vista do objeto, mas estamos mento ascendente dos fósseis. na te.rra \;Ir,l de Leonardo da Vinei. Parte l.Arlr r Ciinn" (Gould. 2003, p. 27-59).
312
313
irl No final do século XIX, quando, "invertendo" o sentido evolutivo, os dinossauros come-
i I Tinham os objetos de suas coleções no "coração'" de suas discussões quer para a
çaram a ocupar os espaços dos mamíferos do XV1Il nos museus, as conchas, mesmo que
pesquisa quer para a exposição. Kohlstedt (2005) sugere que a instabilidade dos vários
numerosas, lindas ou exóticas, não tinham mais qualquer apelo de público, particularmen-
esquemas interpretativos vigentes era justamente contrabalaçada pela "estabilidade" dos
te aquelas pequenas, cmhranqucciclas pelo tempo, fossiliz...1.clas.
Talvez também por isso
objetos que acumulavam camadas de significados c que pelo simples deslocamento de
lhering não se preocupasse especialmente com sua exposição e se sentisse confortável em
estantes - que passaram a ganhar rodas -, no Smithsonian de Goode, podiam mudar
querer confiná-Ias ao interesse exclusivo dos naturalistas, mesmo que para isso necessitasse
completamente de significados. Lembra que tais percepções de estabilidade foram pro-
de um 1\1useu especializado. Enquanto isso, seu museu público, sua expressão mais visível
blemati7.adas por Hooper-Greenhill (1992), que analisando os museus nos interstícios
- as salas de exposição - privilegiava a exibição da diversidade da fauna neotrópica, "possi-
da ciência cultura política os apontava como loei do classificar, ordenar, moldar c onde a
bilitando aos habitantes da cidade que sc urbanizava a apropriação 'dos animais da florcsta'
materialidade c~nferia esse sentido artificial de estabilidade. Essa geração de diretores de
e o controle dos perigos que ainda os rodeava".lo
museus, plenamente convicta das missões públicas, culturais, educacionais de suas ciên-
No final do século À1X, os museus "evolucionistas"(Bennett, 2004) foram revigorados
ciasll cuidou atentamente de suas exibições, diferenciando-as por temor às feiras e aos
e multiplicados pelas polêmicas em torno das teorias darwinistas. Como já mencionamos
circos, como no caso austra1iano,12 ou como Goode, que foi ~m critico dos excessos das
em outros lugares, ao contrário do que preferiu fazer crer uma historiografia reducionista
tentativas de Osborn de "animar o passado'" exibindo as espécies extintas em posturas de
das ciências da vida, que concedeu um peso exagerado ao tema da transformação de mu-
vida ativas (no caso específico de esqueletos de antigos cavalos correndo). Discutindo os
seus em laboratório c de substituição da História Natural pela Biologia, Nyhart (1997,
limites entre arte e ciência, Goode desprezava alguns desses trabalhos como "arte", dadas
p. 435) considera que apresentar tais mudanças como "a'"transformação institucional em
as imprecisões técnicas nas exposições que podiam atrair o público, mas de forma ques-
Biologia é não apreender a visão do todo. Enquanto no final do século XJX, desdobrava-se
tionável (Rainger, 1991).
a vertiginosa especialização da biologia experimental c, nas diversas universidades alemãs
Diferente de um dos sentidos que Jean BaudriUard encontrou em seu O Sisl(ma dos
e norte-americanas, novos laboratórios eram construídos, a Paleontologia, não só de ver-
Objelos13 para a palavra objeto, no Dicionário Li/tré: "algo que é causa ou sujeito de uma pai-
tebrados - evidentemente um tema de menor interesse frente às novas especialidades _,
xão (...)" (BaudriUard, 1997, p. 7), os colecionadores de objetos, construtores de museus de
ainda vivcnciava um período de expressiva produção. Impulsionando pesquisas e constru-
história natural da geração de Goode precisavam de qualquer outra coisa que não paixão por
ção de museus, revigorada pelas fabulosas ossadas encontradas nas l\1ontanhas Rochosas
seus objetos, ou pelo menos escamotéa-la pela racionalidade científica. Aqueles que então se
norte-americanas, na Patagônia Argentina, no Norte da África, a Paleontologia continuou
acreditavam IIReformadorcs sem paixão'" (Goode, 1895) precisavam diferenciar seus museus
a avançar e a atrair interesse de público e de especialistas de museus, embora perdesse
científicos, evolucionistas, que se cspeciali1.avam em áreas e subáreas disciplinares daqueles
progressivamente sua proeminência no campo das ciências biológicas e se firmasse entre
ainda enciclopédicos, resquícios de musealizaçõcs de ciências de períodos anteriores, para
as ciências geológicas, especialmente estratigráficas, para as quais as coleções de conchas
de lhering se revestiam da maior importância. •
A geração de diretores desses museus da transição do século XX era de especialistas de
suas respectivas áreas disciplinares, consolidadas e abrigadas nos museus: Zoologia, Paleon- 11 Ver especialmente em Tonr Bennett. 2005, o caphulo 1 - The formanon of the ~us.eum - em que h;t uma
ampla discussão apoiada em Habermas sobre os museus frente à formação da esfera publ~Ol hUrgues2. Para To~)'
tologia, Antropologia. George Brown Goode do Smithsonian, Flower do British Museum,
8ennett a formação do museu público enquanto um processo complexo deve ser anahs:ada no contexto m:us
Henl)' Osbom do Ameriean Museum ofNatural Histol)' de Nova York dirigiam o mundo abrangente em que a cultura inter-relacionada às formas modernas de governo liberal passou a ser \;sta como
das ciências dos museus, familiarizados com os enfrentamenros entre os naturalistas e os útil para os govemos, sendo modelada como um veículo para o exercício de no-r.lS formas de poder, como um
recurso li ser usado para regular o campo do comportamento social. Em nossos estudos, temos lido os p~os
emergentes grupos de biólogos, disputando, nestes espaços em que a Zoologia passava a pre-
de consolidaçll.o das ciências naturais para o final do século XIX também no Bl1lsil- ~r~s~da~ a~ n:ces~nas
dominar, as inserções te6rico-metodológicas da Paleontologia e da Antropologia, atentos às distâncias - como inseridos nos hori1.ontes do que Tumer (1980) consagrou como CiênCia publica. Nume-
funções públicas de que dependiam seus nem sempre volumosos e necessários orçamentos. rosos estud~s atualmente estabeleceram firmemente que o conteúdo intelectual, a orient2çAo metodológica e
a organi7.ação profissional da ciência n~o se dissociam de seu ambiente social e cultural. ]~tegrn~os a ordens
mais amplas os "cientistas" de hoje e de ontem continuam fazendo pa~te ~e ~ma ord~~ sooal ~:lIS a~pla, que
os b-a a justificar suas atividades jUntO aos poderes políticos e oums instituiçÕes SOCUl.IS, de cujas pohttcas. boa
\'ontade. mecenato e coopera.çll.o dependem. Com esse entendimento. a ciéncia pública é proposta como corpo
10 Essa é minha interprctaçAo da intcressante leitura sobre ti. exposiç;lo do Museu Paulista apresentada peJos
de retórica, argumentos e poMmicas produ7jdos nesse processo socillil,considerando aqueles que sustentam esse
profs. drs. Eni de Mesquita Samara c Carlos R. F. Rnlndfto, no Semin:\rio de Pesquisa: Hist6ria Nahtrol, História
empreendimento como cientistas públicos., .. ..
Narional, nopn'mriro mustJl dt Silo Paulo. O Musnl Paulista df: Hmnnnn 't)()1t .lhmng. Coord. Heloisa Bllrbu)'. São
U Vcr em Bennctt (2004) especialmente o capítulo 1 - Dead cirroses: cxpcrnsc, exJ\lblhon,SO'~mment, p. 12-35.
Paulo, 21/06/2007.
I) Ver a traduç5.o de "Sr:t~me des objects" (1968) -]ht Systtm ofCc/l«ting- em Elsner e Cardinal (1997).
314 315

co~o:-í-los a serviço das novas racionalidades científicas, da educação política, cultural, moral receber mais um "caixãozinho de conchas", lhering inicia a carta em que, lamentando o
CX1gtdapelas políticas liberais de modernização conservadora do final do XIX. fato de o amigo não tec conseguido uma posição no i\.1uscu de Buenos Aires, comunica a
Ameghino em seu mal português que aceitou a direção do :Muscu que ainda não existe.
Para o final do séculoX1X, uma rede internacional de museus tinha se estabelecido basean- (RGS, 13/2/1893) (Lopes e Figueiróa, 2002/2003).
do suas práticas na síntese pós-darwiniana das ciências históricas estabelecendo um novo Suas conchas serão sua base segura para a rcconstru£ão paleogcográfica dos moder-
conjunto de tempo~.jn~erconectados publicamente perceptí\'el. O musealizar cada tempo na nos continentes: sul-americano, africano e austral.ia~o. Ao longo de seus trabalhos,lhering
for~a de uma sequen~la de d:senvolvimento linear fornecia as condições para sua amalga-
traçou as configurações de seus continentes c mares apoiadas nos questionamentos aos
maç~o em uma narrativa totaI17••'lIltc, na qual a história da terra calihrava as histórias de vida
posicionamentos de Wallacc sobre a "invariabilidade das grandes profundidades dos oce-
na lcrra e aquelas das civilizações, culturas e tecnologias humanas. (Bennett, 2004, p. 24)
anos". Foram suaS"conchas de mares rasos e de água doce. que o inseriram diretamente
nos debates geológicos que marcamrn a transição do século sobre as origens e desenvolvi-
Partimos da hip6tese de que Hennann von lhering com seu museu, suas coleções
mentos das montanhas, dos continentes c oceanos. Sua cobrança por bases sólidas para a
de conchas, cartas e textos inseria-se nessa ampla rede. As coleções de moluscos fósseis e
Zoogeografia - a especialidade que pretendia demarcar englobando faunas fósseis e atuais
viventes reunidas por Hcrmann \'on lhering durante sua gestão à frente do Museu Paulis-
- partia de sua dedicação à malacologia.
t~ se r~vcstem de especial interesse para através delas continuarmos a desvelar aspectos da
Materializando o que talvez lhering tivesse desejado ser sua própria trajetória, essas
hlst6na desse 1\1useu. Essas conchas marcaram presença constante nas páginas da ReviJta
•• do Museu Paulista. coleções reunidas, as suas coleções de cartas e muitas de suas publicações e fotos foram
parar em Buenos Aires. ] mobilizados e presos aos esquemas que lhes fixam uma idade ou
. Explicando a at~nção dedicada às conchas marinhas do sul da América logo no pri-
um espaço territorial pela posição na prateleira, alguns poucos exemplares dessas cole-
meIro volume da RevISta do Mu.seu Paulista, Hermann von Ihering afirmava:
ções estão hoje depois de inúmeras viagens expostos nas vitrines do J\1useu Argentino de

Ao mesmo tempo em que estudei as conchas marjnhas de nossa COSta,oC\lpci-me também


Ciências Naturais.
Tênues indícios de uma vida passada, em nada revdadores do que se presen'a na
da~ conchas terciárias que na Patagônia (Santa Cruz) foram coligidas pelo sr. Carlos Ame-
ghmo c que s.eu irmão, o ilustre paleontologista Florcntino Ameghino, me enviou. É para coleção de estudos do museu, esses moluscos fósseis e viventes foram levados a desafiar
estranhar a nqueza destas camadas terciárias dc Santa Cruz em conchas fósseis e, se por limites temporais ou territoriais, a se deslocar no tempo, percorrer diferentes mares e con-
dez.~nas n~stc ~olume tenho de descrever as cspécies novas, cada exploração nova naqucla tinentes, mudar de identidade e abandonar suas famílias nas sucessivas classificações em
re~lao dara maiS outras formas novas para 11 ciência. Foi csta a razão porque neste ano man- que foram inseridos. Em seus percursos traçaram rotas migratórias, enfrentaram barreiras,
dei o sr. [Beniamino) Bicego em excursão ao Rio da Prata, esperando que tanto em conchas desenharam mapas, criaram, mobUi7..arame destruíram pontes e continentes. Coletados por
rccentes como em outras petrificadas há de trazer boas coleções (...). Assim este volume é diferentes mãos, sob diferentes suspeitas, mobilizados por cartas, viajando como objetos
dedicado em grande parte ao estudo das conchas marinhas do Brasil e das regiões adjaccn- sem valor, sofrendo processo judicial;1S adquirindo preço de mercado, transformados em
tes da América do Sul. Espero quc até certo ponto possa considerar neste ano concluído objetos científieos, conformaram-se pelos trabalbos de Ihering em mais de 352 taxas de
esta parte dos meus estudos, de modo que nos volumes seguintes da Rroisla possa tratar dos
fósseis Mollusm do Terciário ao Pleistoceno, na esplêndida coleção de mais de 900 lotes
vertebrados do Estado de SP. (p. 4-5)
de material, cuidadosamente organizada na década de 1940 e revista, senão outras vezes,
novamente nos anos de 1990 (Parodiz, 1996).16.i\1uitos de seus IIproxies"foram e voltaram
1\1a5a mesma explicação continuará se repetindo e diversos outros volumes se voltarão
em grande parte ao csrudo das conchas marinhas do Brasil e da América do Sul.
As próprias conchas ou menções a elas não faltaram praticamente em nenhuma das U Esse foi por exemplo o caso de Hennann von lhering, que doou sua correspondência com Ameghino e vendeu
cartas trocadas entre Ihcring e Florentino AmcghinoY' lnsistcnte e com esperança de suas coleções ao Nluseu de Buenos Aires, quando foi obrigado a deixar a direção do Museu Paulista em S,"o
Paulo, em 1916. Seu processo de saída do museu foi acompanhado por uma sindicânciaj~ que foi acusado de
roubo de colcçõcs.
16 Nos Camcgic Museums, em Pittsburgh, em 1999, fui recebida pelo professor Parodiz, a quem devo muito do meu
;:~s;;olumosa :orrcs~ndéncia entre os ~ois naruralist3 continua !:Cnda um material inesgotável para nossas interesse e do que sei sobre as coleçôcs de '1hering. Nas viagens reali7.•1das, a Buenos Ajres desde 1998, nos marcos

r~ . gnçõcs Oorcelh, 1939). Temos rc:ah7.ado um levantamento entre as mais dc 300cart


br õ d Ih .

c~d'
.
. d 300
as e as mms e
Icaç c.~ e ermg que ~~ referiam as conchas com o objeth'O inclusive de identificar suas associações. Este
ntllmen( lo está sendo utilizado em nossos artigos. Como exemplo do tratamento do materia.l ver Lopes e
do Programa da Fundaci6n Rockefeller "Pro Scientia et patria" dei Musca Etnográflco de la Faculrad de Hlosofia
y Letras de la Unh-ersidad de Buenos Aires, e a convite dc=pesquirndores argentinos e especialmente da Profa. Dra.
Jrina Podgom)', com quem mantenho um trnbalho estn:ito de cooperação científica, tive oportunidade de \isitar
Po gom}' no prelo) ..
essas coleçoo e analisar a documentaçio existente no Musco de Ciencias Naturales Bernardino Rh'llda\ia.
316 317

de Buenos Aires c La PIata a São Paulo, detalhados em inúmeras cartas e daí percorreram ____ The principies af museums administration. Reports ofproceedings with lhe pa-
o

caminhos jnsuspeitados nos mais de 200 títulos que Hermann von Ihering publicou a pers read at the sixth annual general meeting held in New Castle-upon- Tyne,}uly 1895.
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