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Projeto

PERGUNIE
E
RESPONDEREMOS
ON-LlNE

Apostolado Veritatis Splendor


com autorização de
Dom Estêvão Tavares Bettencourt, osb
(in mamariam)
APRESENTAÇÃO
DA EDiÇÃO ON-L1NE
Diz sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razAo da
nossa esperança a todo aquele que no-Ia
pedir 11Pedro 3,15).
Esta necessidade de darmos
conta da nossa esperança e da nossa ré
hoje é mais premente do que outrora,
.'. " .
visto que somos bombardeados por
numerosas correnles filosóficas e
religiosas contrárias à fé católica. SOmos
assim Incitados a procurar oonsolidar
nossa crença católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste slte Pergunte e
Responderemos propõe aos seus leitores:
aborda questaes da atualidade
controvertidas, elucidando·as do ponto de
vista cristão a fim de que as dúvidas se
YIoI,:.a '", dissipem e a vivência católica se fortaleca
- - - no Brasil e no mundo. Queira Deus
abençoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que S8
encarrega do respectivo sita.
Rio de Janeiro, 30 de Julho de 2003.
Pe. &10"'" Bettencourt. OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convênio com d. Estevão Benencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico • filosófica ·Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicação.
A d. EstêvAo Benencourt agradecemos a confiaça
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
Índice

PAULO VI, o PAPA DO DIAL.OGO •.... 36'

M.lar um Inocent. 1
o ABORTO OIANTE DA LEI NO BRAS il

Utn liv ro undenle :


· PECADO: O QUE ~ 1" . . . .... . .. . ... . ... . .• . . . •... . . ..... .. . 373

Em Puebla. 1\0 1II'.lco:


E A lU CONFER@NCIA 00 EPISCOPADO LATINQ·AMERJOA.NO 7 . . , 389

No clIMma:
" CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU" .. 399

LIVRO EM ESTANTE ....... . . ............... . . ... . . . . 3' c'P'

COM ..,ROYAÇ.l.O ECLEIIAmCA

NO PtOXIMO NOMERO,
Oobi.provela e Engenharia geflllico. - Existe no ser humano olm(l
OIpirituol ? - E (I riqueza do Vaticano?

--- x

.PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
AssInatura anual ........ . ........ ... . .. ... . Cr$ 100.00
Número avu'so de Qualquer mês Cr$ 10.00
aEDAçAO DE PR ADI\ItNISTRACA.O
Livraria ~Illslodrla Editora
Cal... Postal 2.888 Rua MéJdoo, 168-B (CUtelo)
zo.oo 20.081 Rio de J'....elt'O (RJl
20 ,000 Rio de Janeiro (RJ) Tel.: 224-0059
PAULO VI, O PAPA DO DIÁLOGO
Aos 6 de agosto PP" o mundo catóUco (e grande parte
do nio católko) foi impressionado pela noticia do faleci·
mento do Papa Paulo:vI. Fora chamado à Casa do Pai para
receber o galardão de uma vida cheia de labutas e mérltos.

Não é fácU exprimir em poucas paJavÍ'aS os traços no-


bres e grandiosos da fJgura de tal Pontltice. Como quer que
seja. tentaremos caracterizã-Io como co Papa do dW.ogo:t.

Com efeito. Já na sua _p rimeira encíclica (cEccleslam


suam.) datada de 6 de agosto de 1964 Paulo VI utiUzava a
palavra dlálogo. Introduzindo esse vocábulo na linguagem
oficial da Igreja. Apresentava o diAlogo como lnldativa do
próprio Deus em relacão aos homens,... iniciativa que os
homens deveriam continuar uns com os outros:
"eis, V.n.r'~I. Irmlos, a origem transcendente do dIAlogo. Eat6 no
plano de CauI .•. A reveraçlo sobrenatural que Deus tomou a Iniciativa de
renovar com a humanidade, podemos Imagln'·la como diAlogo . . . EISe
col6qu1o p,lemal o .,nIO, InlorromplClO ontre Deus e o homem polo peçado
originai, • maravllhosamenle lOatado no decurso do. lempos.... hl.lórla da
.alvaç:lo narra as,e diAlogo longo a varlldo •.. no qual Deus di .onlOnder
alguma col.. mal. de SI. . . • diz em resumo como quer Nr conhecido
- Elo' Amor - e como quor ser honrado e urvldo por n61 - amor ,.
o mandamento lupremo que nos IlIlpOe. O dl'logo toma..e pleno I COI'to
Ilanll; f convite pata • criança, 6 consumaçlo pua o ml.Uco" ("EccIMlam
suam" n9 72).

Consciente de que dialogar é algo de divino 0Ur no caso,


é a atitude do Bom Pastor t Paulo VI quis empreender e
diéJogt:! com todos os homens dentro e fora da Igreja. Come
nenhum outro Pontlflce, usando dos modernos meios de comu·
• nicação social, viajou pelo mundo a fim de se encontrar com
os homens, ouvindo-os e falando.lhes: chegou até as FUiplnas
e a Austrália; esteve em Nova Iorque, onde se dirigiu à As-
sembléia Geral das Nações Unidas, num apelo à fraternidade
e à paz; foi 8 Istambul e Jerusalém, onde abraçou repeUda..
mente o PatrIarca Atenágoras, representante dos crlstAos
ortodoxos; visitou Genebra para estar com os membros da
Organização Internacional do Trabalho e com os do Conse-
lho Mundial das Igrejas; vejo à Colômbia por· ocasião do
399 Congresso Eucaristlco Internacional, após ter estado,
cemo Cardeal, no Brasll . .. Manteve intercAmbio com os
dirigentes do mundo socialista, a fim de obter mais liberdade
para os tl~ls cat6l1cos sufocados por regimes ateus ...

-361-
Paulo VI sofreu não pouco por manter esse diálogo;
nem todos compreendiam, no momento, o alcance das suas
Intenç6es. Os extremamente conservadores o tinham por Ube·
reJ, enquanto os avançados o consideravam timido. Princi-
palmente as intervenções no setor da ética sexual lhe foram
ocasiões de Intenso sofrimento por parte de wna sociedade
jâ embotada para valores inerentes à dignidade humana. Na
verdade, a tarefa de Paulo .VI era excepcionalmente árdua,
dadas as clrcW\StAnclas de transição em que governou a
IgrejL Ele SÓ e. pôde levar a bom tenno porque encontrou
na oração o esteio da sua vida; sIm, além de hábil e ver-
sado no trato com os homens, o S. Padre Paulo VI era
homem de grande vida interior e de profunda união com
Deus, como atestam as suas alocuções aos peregrinos proferi.
das às qua.J'tas..felras e aos domingos; aliãs. a ültima destas
voltava-se com especial carinho para os famintos, os deso·
cupados, OS que sofrem . .. fazendo eco aos seus documentos
referentes à questão social e às relações entre os povos.

As exéquIas do Papa, celebradas com grande dignidade


aos 12/08 em presença de numerosas delegações estrangei.
raso derem ocasião e. que o mundo prestasse a Paulo VI a
Ctltlma homenagem.. . homenagem de estima e admiração,
expressas por palmas sucessivas, não previstas' pelo cerimo-
nial O fiel servidor que perseverou e padeceu heroicamente
até o fim, recebeu a merecida comagração!

Eis. pois, um dos aspecbos mais Importantes do legado


de Paulo VI à Igreja e à humanidade, a prãtica do dlâlogo.
Nesta época em que a inteligência vai caindo em descrédito
OU em crise (poIs os homens tendem a relativizar 0$ valores
maIs fundamentals) , o dlãIogo se apresenta como wna expres- •
são das JnteUgêncla e da magnanimidade dos homens esclare-
cidos. Só nio 4laloga quem Dia quer raciocinar ou quem
se obceca. Na falta de cHAlogo, a vIolência e o totalitarismo
tendem a reger as relações entre os homens; multiplicam-se
as atitudes meramente emotivas ou mesmo Irracionais.

Possa a humanidade guardar e cultivar [lelmente essa


nobre licão de Paulo VI! E que o Esplrito de Deus InspIre
seu digno sucessor, a fim de qUe continue a guiar a S, Igreja
e os homens todos pelas vias da fraternJdade e da concórdia
em demanda do AbSOluto!
E.D.

-362-
" PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XIX - N' 225 - Setembro de 1978

Matar um Inocente?

o aborto diante da lei no brasil


Em .lnteI.: O presente Inloo, da auloria do Prol. Newton ".ufo
Teixeira dOI Sanlos, abOlda o tema "aborto" principalmente aob o uPleto
iurldlco. Ap6. propor I deflnlçJo de aborto, mostra que o Código Pena'
8r•• II.lro o consldar. 'eglHmo quando 'erapêullco ou quando ••ntlmem.-I
(moral): o COdlgo. porém, dala da 1940: dlld8 IInllo li medicina Idqulrtu
Aleu !'t01 par. revir adlanlO a gr....ldez de uma mulher enferma .om lhe oxtl1llr
o fato li lIIu10 'er.p'ullco, da modo qUI li daalgnaçlo "aborto tarap6ullco"
1.1' ultrap ....d.. OUllnlo 110 aborto •• ntlmental ou mora' Caborto realizado
Im conseqolncla de estupro), o Código Penal promulgado am 1973. mil
nunel poltO li'"
vigor. I' nlo O reconhecI como leglUrno. Nolo-ta .rnd.
qUI o Código da lS040 ainda asl6 vigente, embora em 1969 e em 18n
tenham lido promulgados novo. texlos que o alteravam, mas que nunca
prevaleceram. por moll'lOs pol/llcos.

Aguarda-se nova l!IIude da nossos teglsladores lranle ao problema do


abor1o. A parml••1YIdade luplantará a sensatez? - Formulando votoa pal'l.
que o contri,lo .. dt, o autor ancarra o seu artigo.

• • •

o autor deste artigo é o Prof. Newton Paulo Teixeira


dos Santos. da Escola de Comunicação da Universidade Fe·
deral do Rio de Janeiro. já eonheeldo aos leitores de PR pelo
estudo que publicou em PR 222/ 1978, pp. 231·250 sobre a
nova legtslaCio do divórclo no Brasil. O articulista aborda
agora a questão do aborto. que vem sendo focalIzada com
especial atenção pelos legisladores e estudiosos do pais. As
ponderaç6es do Prol. Teixeira dos Santos eontrlbuirão para
projetar luz sobre o delicado assunto; pelo que a dlreçio de
PR lhe agradece mais esta interessante colaboração.
Seja permitido observar que a respeito do aborto dito
«terapêutico. PR já publicou diverSos artigos, mostrando

-363 -
4 .PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 225/ 1978

como, à luz da medicina moderna. jã não há necessldade de


recorrer ao aborto para tratar de moléstias que outrora emm
Udas <orno exlglUv.. de aborto. Cf. PR 201/1976, pp. 392•
.400; 202/1976, pp. 434-443; 203/1976, pp. 485·489.

o ABORTO E A LEI

1. O problema
Lê.se no domal do Brasil.. de 20 de maio de 1978
(1' cad.. p. 11) que O Mo'YimeD.tu em favor da Vida. e1viou
ao PresIdente da Repúbllca, Giovanni Leone, uma petlcão
assinada por 97.000 italianos, suplicando-lhe que não assl.
nasse a lei do aborto. O requerimento pede a Leone que se
valha da prerrogativa presidencial que lhe faculta não Q.SS,i.
nar determinada lei, remetendo·a novamente ao Congresso
para novo debate.
Esta é uma das resls~nclas opostas aos ventos que vaI"
. rem o mundo moderno, no intuito de destruir valores dados
como u1trapassados. O curioso é que esses valores sempre
Coram questionados, desde que o homem, como animal social,
pretendeu organizar.se. O que mantém equUlbrada a nossa
estrutura, é justamente essa disputai ora prevalecem posições
conservadoras, ora as que se julgam cnovas., sem saber que
em outros tempos as cnovas. já tiveram vez, até que toro
naram a prevalecer os valores que não são modernos nem
antigos, mas eternos. Jean Guitton já diz.1a que nós viajamos
num automóvel, com freio e acelerador. Ai de quem não
usar com eficiência os dois pés, o direito e o esquerdo!

o nosso Código Penal vigente data de 1940. Em 1969


ele loi julgado ultrapassado, e o Decreto-Lei n 9 1.004 formu·
lou um texto nOvo, que não entrou em vigor. Em 1973, a
Ui n' 6.016 introduziu.lhe inovacões, pretendendo estimular
a sua vigência, mas também não teve forças. Em ambas as
oportunidades, a questão do aborto foi colocado.: as pena1f-
dades em geral foram abrandadas, e em 1973 o aborto sen-
timental deixou de ser licito, como veremos. 'I\Jdo sem resul.
tado, poJs até hoje prevnlece o texto de 1940, por wna série
de injunções poUtlcas.
-364 -
o ABORTO E A LEI NO BRASIL

2. O aborto segundo o Direi'"
Mas que vem a ser o aborto. para o jurista? 1: precIso
dlstIngulr o aborto glnecológl::o do aborto previsto em leL
Em obstetricia, 'lê a interrupção da prenhez antes da vttalJ~
dade do feto, isto ê, até o sexto mês_ 1. ~ o Direito
Penal, como ensina Jlménez de Asúa, I é 'lO aniquilamento
do produto da concepção, em qualquer dos momentos ante-
rIores ao término da gravidez, seja pela expulsão violenta do
feto, seja por sua destruição no ventre da mãe:a~.

AlcAntara Machado definiu o aborto em seu Projeto, no


que nlo o imitou o legislador de 40, deixando à jurispru-
dência a soluçlo. Talvez andasse bem, porquanto o tontlnuo
progresso da medicina vem refletir-se no conceito desse Clime
como em nenhwn outro ponto do Código 4, Mas creio que
podemos dizer, com Carrara, que aborto ê a dolosa o,cclsão
do feto no útero, ou a sua violenta expulsão do ventre ma-
temo, da qual resulte a morte 11.
Vé·se, pois, que a morte do feto é condIcão 'lslne qua
non, para que haja crime. E ela se verifica ou pela destrui.
ção do óvulo, ou peja expulsão prematura do feto. cSe não
se produz, aflnna Asúa, e o feto expulso por violência. vIve,
haverâ uma tentativa de aborto penal, mas não um delito
perfeito» ' . Sobretudo nos primeiros períodos da gravidez, ao
invés de eliminado para o exterior. pode ocorrer que o em-
brião acabe por dlssolver·se e ser absorvido. Ou entlo pode
sofrer um processo de mwnificação ou maceração, perma·
n~ndo dentre do útero éOmo um côrpo estranho. OUtras
vezes ó sujeito a um proeesso de calciflca!:ão. Por outro
lado, observa Nélson Hungria. pode ocorrer que. nAo obs-
tante a provocada expulsão prematura, o feto nasça vivo e
vital, delxando, portanto, ·de co1Ulgurar·se o crime de aborto,
cujo momento consumativo é a morte do teto. Ainda mais:
pode acontecer' que o feto já estivesse morto antes da provo·
cação do aborto, e, assim, apesar da sua expulsão, não se
apresenta o crime, mas uma tentativa inadequada. que escapa
à punição» T. Tampouco pode ser objeto de crime de aborto
o produto de um desenvolvimento anonnal do ovo (mola).
O f4:!to é protegido na medida em que é um embrião de vida
humana. Se tal não for o caso, a figura carece de objeto I,
O agente ativo do crime deverá agir dolosamente. Deve
ser' movido por uma vontade consciente e livre de Interrom·

-365-
6 cPERGUNTE_E RESPONDEREMOS). 22li/19!.8__ _

per a gravidez, ou eliminar o produto da concepção, ou, pelo


menos, concordar com tais resultados. Se a Intencão do
agente era outra, como a de abreviar o parto e alcantar
benefícios testamentários, deixa de configurar-se o crime de
aborto, respondendQ o agente por Icsõcs ou eventual morte
da gestante. Se no caso se trata de aut0-8bo11.0, nenhum
crime haverá'.

Aborto doloso, de acordo com 8 nossa lei, é aquele em


que o agente quer o resultado ou assume o risco de produ.
zi-Io. Será 6Ofrld'O, quando a mulher fOr vítima; exemplo, o
do art. 125 (provocar aborto sem o consentimento da ges·
tante; pena: três a dez anos de prisão). Consentido, se tl
mu1her autorizar a ação (art. 126: pl'ovoear aborto com o
consentimento da gestante; pena: reclusiio de um a quatro .
a nos, combinado com a última parte do art. 124, quando 11;
pena é de detenção de um a t rês anos). E l'rDCurado, na
espécie a que se refere o art. 124, prlmeh'a parte (provocar
aborto em si mesma; pena: detenção de um u lrês anos) "",

Naturalmente, exige.se o estado fIsiológico da gravidez,


c o aborto pode ser provocado ou por substâncias ditas abor.
tivas, ou por proczssos mecânicos. Não existem substâncias
propriamente abortivas. São tóxicos que, Ingeridos, atingem
todo o organismo, produzindo às vezes hemorragias que des·
locam o ovo e acarretam o aborto, Citam-se 8 srusaparrilha,
a arruda, o centeio espigado, etc. Os meios mecânicos com -
preendem as violências que agem extra-genltalmente, e as
de ação direta sobre o útero cheio. Temos as massagens, a
ducha vaginal, Il perfuração ou o deslocamento das membra-
nas, e métodos mais modernos, baseados no uso do. eletrici-
dade e nos hormônios ".
Podemos classificar o aborto em espontâneo e llrovocado.
O primeiro é conseqüente de estados patológicos da mãe ou
do feto, que impedt:!m o prosseguimento da gestação. Evi.
dentemente, não fere a norma juridica, nem a moral. O pro·
vocado pode ser legal ou criminoso, e tanto O legal como o
criminoso atingem n normu moral.
~ Ver o le",lo !õomplllo dU'e. Irtlgos enlre as pp. 372 e 373 desle
1.lIClculo {NOII di redaçBol.

- 366-
o ABORTO E A LEI NO BRASIL 7

3. Leg~jmjdacl...gundo o Di.. ~
Em duas hipóteses a lei pennIte 8 provocação do aborto:
para salvar a vida da gestante quando não houver outro
recurso, e para interromper a gravidez resultante de estu·
pro. No primeiro caso, é chamado aborto m6d100, tenpêll'
tlco ou neoea'rlo. No segundo, é chamado aborto 1eDt1meu-
tal Oll moral.

Fora desses casos, todo aborto será criminoso, seja c


eugênico (para impedir prole tarada). seja o econômico
(para satisfazer acs Ideais maltuslanos). seja o estético (para
que a gravidez não desfigure a mulher).

3.I. Aborto dito c.eraplutico»

o aborto terapêutico. se bem que aceito pelOS nossos


Códigos, Inclusive pelo Decreto.Lei 1.004 e pela Lei 6.016,
é ainda discutido na sua procedência. «Essa é a única oca-
sião em sua vida profissional, diz LeoIÚdio Ribeiro, em que
o clinico tem o direito, e, mais do que isso, o dever de abrir
exceção à regra do preceito 'Não matarãs' e, ainda assim,
depois de ouvir a opinião de outros COlegas, quando o prl-
melro não esteja de acordo com a intezvenção.. Mas Souza
Uma assim se exprime: .. Rejeito absolutamente semelhante
teoria. NAo reconheço ao facultativo o direito de escolhe-r
vidas, sob P1'êtexto algum; ~ emergência, sua obriga-
ção é procurar salvar ambas, e, sempre que um meJo for
apropriado a esse deslderatmn, deve ser empregado de pre-
ferência, embora arriscado. Supr1mir a vida de um em bene-
ficio de outro, seja Quem for, por mais preciosa e est1ma~
que se afigure, é uma atribuIção que escapa à alçada e com-
petência do médico_ 11. Asúa acred1ta que deve prevalecer
a vida da mãe, «que é, sem dúvida, o ser mais importante,
e do qual, em regra, necessitam outros seres, como o marido
e OS filhos anteriores,. 12.
IINo Brasil, a legislacão é unifonne nesse sentido. O Có-
digo Penal de 1890 dizia em seu art. 302: cSe o médico ou
parteiro, praticando O aborto legal, ou aborto necessâ.rio para
salvar a vJda da gestante da morte lnevltãvel, ocaslonar·lhe
a morte, por Imperfela ou negligência: pena de prisão celu-
lar por dois meses a dois anos e privação do exerclclo da

-367-
8 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS' 22511978

profissão por Igual tempo,. No Projeto da Comissão Legis-


lativa, lê-se no art. 173: cNão será passivel de pena o mé·
cUco dJplomado que, para salvar a vida de algwna mulher,
lhe causar o aborto, como recurso extremo». Alcântara Ma-
chado também admitiu a exceção: cNão serã o aborto pro-
vocado por médIco habilitado quando outro meio não houver
de .salvar El vida da · gestante. . O Código Penal de 1940 o
autoriza em seu art. 128: .Não se pune o aborto praticado
por médico, se não há outro meio de salvar a vida da ges·
tanteJ, regra mantida, como se disse acima, pelos novos tex-
tos, que tiveram a vlgêneia protelada.

No entanto, a medicina moderna vem condenando o


aborto terapêutico, por estar superado pelas modernas técni-
cas ciEmtifiC8.S_ Eastman. professor de obstetrícia da Johns
Hopk1ns University School of Medic.ine, dizia, em 1954, Que
na sua opinião a orientação deve ser .sempre a conservaç'io
do produto da concepção IIS. Entre as indicações mais fre-
qüentes e alegadas para a prática do aborto terapêutico, figu-
ram as cardlopatlas, a hipertensão arterial, a tubertulose
pulmonar e os vOmltos Incoercíveis. Em todas elas. entre-
tanto, os autores conscienciosos contra-indicam a inteIVenção
abortiva.

o Prot. Dauve, de Anvers, observando 20 .000 gêStantes


cardIacas durante trinta anos, afirmou nunca lhe haver ocor-
rido a necess.idade de valer-se dessa prãtlca.

Schaeffer, Douglas e Drelspon, em 1955, após meticulosa


observação de tuberculosas grávidas no New York Lying In
Hospital. divu1garom as seguintes conclusões:

Resultados dos C&5()J Com aborto Sem aborto


oboervados terapêutico tera~utleo
!ó""
melhorados 13% 56%

inalterados 47 % 38%
agravados 33 % 3%
mortes 7% 3%
-368 -
o ABORTO E A LEI NO BRASIL 9

Nos casos de vOmitas incoercivels, o Prot. Rnul Briquet


ath"ltlou que cnão prevalece se a gestante recebeu tratamentc:l
bem orientado durante três a quatro semanas» a,

Vê.se, portanto, que se trata de uma questão aberta.


Aberta, tendo em vista os textQS legais em vigor. Mas. se
consJderannos que acima das afinnaçãe.s citadas já trans·
correram vinte anos. há que se admitir que os progressos da
ciência não podem mais autorizar semelhante exceção.

3 .2 . Aborto Mntimental

A questão do aborto sentimental foi provocada quando


na Franta e na Bélgica, durante a guerra de 1914, mulheres
violadas por soldados inimigos se julgaram no direito de eli·
minar o produto c1a concepção que lhes fora imposta. Vários
tribunais absolveram, então, mães responsáveis pela prática
do aborto, e até casos de lnfanticldío, sob a alegação de que
se tratava de frutos de estupro.

o assunto no Brasil foi amplamente cUscutido. Em 1915,


Leonidlo Ribeiro, ainda estudante, colige opinlaes de flguras
destacadas da medicina e do direito, que sempre se mostra·
ram contrárias a semelhante prática. Fernando de Magalhães
assim se manifesta: cO embrião é um sujeito de direito e,
pelo Código Civil, todo sujeito' de direito é uma Pessoa, é
um indlviduD, ,é alguém, e, pelo Código Penal. matar alguém
é crime. Por conseguinte, o aborto estã incluído dentro do
Código Penal como um crime, porque tem perfeitamente a
figura juridIca da morte de alguém» lU.

De outro lado, Porto Carreira notava que a personali.


dade civU do homem só começa com o nascimento com vida.
Logo, dizia, o aborto não deve ser assimilado ao crime de
homlcidio.
Satisfazendo 6s duas correntes (ou a nenhuma das duas
correntes), o legislador de 1940 adotou o crIme, mas abriu
exceções, Veja·se O artigo 128: cNão se pune o aborto pra·
ticado por médico, se a gravidez resulta de estupro •.
cO aborto moral, diz Hélio Gomes, é uma feliz inova·
ção do C6dJgo Penai em vigor. A mulher, vitima de um
-369-
10 cPERGUN'fE E RESPONDEREMOS, 225/1978

estupro, pode engrav!dar. ::e uma gravidez adntaS8, hurnJ·


·lhante, produto de um crime monstruoso. Todo o seu orga·
nismo, todo o seu sentimento, toda a sua alma se revoltam
em se ver grévlda de um . bruto, que a violentOu. Essa gra·
videz cria um verdadeiro estado de humilhação crônica. de
indignação, de inconformls.mo, agravado ainda mais se o estu.
prador é de raça e .cor diferentes das da vitima. A lei fez
bem em autorizar o aborto nesses casos. Qual seria a solu-
ção para o desespero de uma jovem engravidada por um
bruto, se nâo pudesse abortar legalmente? O aborto crimi-
noso. A lei, permitindo o aborto em caso de estupro, evitou
o aborto crimInoso, que seria a solução forçada para o caso
lnsolúveb 11.
Dificuldades de ordem prática, porém, como a espera de
um pronunciamento judiciário, difleultam, para não dlzer que
impedem. uma intervenção oportuna.

4. ProspectiYos e interrogações
O novo "CódIgo Penal Brasileiro, em sua redação atual,
eliminou a pennissão do aborto sentimental, como já se disse.
Permite apenas o aborto terapêutico, praticado por médico,
«quando é a único recurso para evitar a morte da gestante_.
precedIdo, sempre que possivel, da conflnnação ou concor-
dâncIa de outro médIco.
No momenoo, os ventos que sopram da Europa e dos
Estados UnJdos, deixam temer que o legislador tome o lado
da pennlsslvldade. Cifras, embora não atuallzadas, dizem que,
na Rússia, 75% das gestações são interrompidas; nos Estados
.Unldos, registra-se um aborto para cada três gestacôes: no
BrasU, a situacão se aproxima à da naçio norte-americana;
no Japão, em 1957. o número de abortos foi avaliado em
2.000.000; nas estatísticas suecas e dinamarquesas, o número
de abortos supera o de nasc1mentos. Acrescentados, se pos-
sivel, OI abortos mantidos em segredo, os resultados seriam
bem mais elevados 11. O que taz com que Helena Clãudio
Fragoso diga em obra recente:
" NI/ma 'poca em ql/e por toela parte \/al pre\lalleendo tenddnefa IIb&-
ralOrla. I lei br... llelra caminha para trjs. caleul&-ae qUI em nOlso paf.
pf1lUeam ... Ir" abortos por minuto" (R•• lldade. Julho d. 1972) l i .

-370-
Ora. nunca a Ilroliferacão de um crime justlficou 8. frou·
xidão da lei; ao contrãrlo! Ao legislador cumpre, sobretudo
em matéria penal. ser mais rigoroso quando wna realidade
social se mostra decadente e permissiva. O Estado não é
um espelho da sociedade, mas o seu mentor. Tem o dever
de fonnA.1a e dirigl.la. Problema Idêntico ocorre :lO uso
de tóxicos, nas infrações de trânsito e em outras áreas, como
na dissolução da famllia. Amoldo Medeiros já notava, há
alguns anos, que o numero de divórcIos se acentua quando a
jurisprudência é frouxa e a legislação o consente. Dizer-se
que não adianta punir o mal, porque ele existirá apesar disso,
seria o mesmo que condenar o Código Inteiro, porque 9
crime existe e existirá sempre. Como, em outro plano, seria
o mesmo que condenar definitivamente o Homem, po~ue ele
peca e pecará sempre.

Aqui reside o mistério da nossa condição, que aproxima,


e até mesmo identifica, o apóstolo e o jurista : ambos pro-
curam pennanentemente a perfeição, mesmo na certeza, e
na dor, de que jamais a alcançarão.

No quadro que vem a seguir, pode-se comparar o texto


legal vigente (1940) com as inovações trazidas em 1969. ÀS
vezes a penalidade foi majorada, como no caso do auto.
-aborto, mas em regra foi abandonada. Foram introduzida$
algumas modificações técnicas, e criou-se uma nova figura
como a do aborto por motivo de honra, onde a penalidade
ficou bem allvlada.: detenção de seis meses a dois anos. Outra
espécie de aborto não prevista pelo Código em vigor vem
consignada no art. 129, a do aborto preterdoloso, que e cau-
sado involuntariamente pelo emprego de violência eontra
mulher cuja gravidez o agente não Ignore, ou é manifesta.

As duas hip6tesêS de aborto legal foram mantidas. Em


1973, no entanto, o aborto sentimental foI abolido. Na ver-
dade, a pennanêncla dessa exceção é que seria um ato senti..
mental: já não hA argumento que a justifique.

Vamos, agora, esperar pela vigência do novo Código,


fazendo votos para Que a sensatez prevaleça sobre a permls-
sividade, nessa matéria que é tão grave, mas que vem tra-
tada, muitas vezes, com tanta tolerância.

-371-
12 cPERGUNTE'- E RESPONDEREMOS~ 225J1978

NOTAS
1 Flamlnio Favero. Medicina Legal, p. 25.

1 Ubertad de Amar y Oerecho de Morlr, p. 319.

1 "0 C6dlgo, ao Incriminar o aborto. nlo discrimina antre óvulo fe-


cundado, embrlAo ou leto: Interrompida a gravidez antes de NU termo
normal, hi o crime da aborto. Qualquer que seja e fase da gral/ldez (desde
a concepçlo al6 o Infçlo do parto, I.to é, até o rornplmenlO da membrana
an1l6tical, provocar a s ua Interrupçlo 6 provocar o crime de aborto. A
occblo do feto (.il'lela .. s ua maturidade ou .0 emprego dos meios abo rtl-
Il0l). depois de iniciado o processo do parto, é Inranlle/dlo, e nlo aborto
criminoso" (In Nelson Hungria. COmantirlos ao C6dlgo Penal, p. 252).

• Assim, por eJ(amplo, detrnl90es como as de Tardleu. C8fTnlgn.nl.


Garralld a oulras li anv.ll'lec.ntm, poia exigiam a axpulaio do frulo con-
cebido.

~lApud Enciclopédia S.rai.... de Direito, S . Paulo, 1977. Vbl. Aborto.

~ Ob. cPt .• p. 319.

• Ob. clt., p, 215. Também ; Solef, Detecho Penal Argentino 111, p. 113.

IV. Soler, ob. clt., p. 111 . Também : "No c.so de gravidez extra-ute-
rIna, dh: Hélio Gomes, lmpa.se o aborto necess"io. a fim de s.I....'~e a
vida da oestante. de OultO 18110 condenada à rnorte certa, pel. ruptura lub4-
ric. InevItável. Provoca r a eJ(pulslo da mola - produto conceplivo dege-
nerado, Intransformável e m enle hum.no - 1'110 ser' também aborto cri-
minoso; ser' IIcU" intervençlo médica" (In Medicina Legal, p. 126).

• V. Solar, ob. çfl.. p. 114; l1u"9rl., ob. çlt., p, 254.

~o V. Hélio Gomes, ob. cll., p. 129 e segts.

11 V. Leonldlo Ribeiro. O novo Código Penal e I Medicina Legal,


p. 46 e 49.

11 EI Estado de twcessldad, pp. 36 e 53.

la Clt. Enciclopédia clt.

to Cfr. enciclopédia cito


U Apud l eonldlo Ribeiro. ob. clt., p. 75.
\I Ob. clt., li, p. 127 e IGIs.
1T Clr. Enciclopédia clt.
11· Uç* de Direito Pen.1. S . Paulo, 1978. I. p_ 139,

-372 -
1 14 D

-~borIo provoeJ,o Art. 124 - Provocar abor1o em si mesma ou consenUr em que outrem Co
do pell 9nllnte provoque.
OU com seu con-
senllmenlo. Pena : detenç~ de 1 a 3 anos.
-Aborto provoca- Art. 125 - Provocar aborto sem o consentimento da gesllnle,
do por terceiro.
Pena : reetullo de 3 .ti 10 anos.

Art. 121 - Provocar aborto com o consentimento da gostante.


Pena: reclusão de 1 8 .. anos.

§ (mico - Apllca·se a pena do altigo anterior se a gestanlt


nlo é maior de 14 anos, ou é nlienada ou débil menla', Ol
8e o consentimento e obtido modianta 118Udo, grave amsaçr
ou violência.

- Aborto quallll- Ar!. 127 - 11\8 penas cominadas nos dois arUgos antertores alo aumen-
cado. tadas dI!! 1/3. Sê, em conseqüência do abono ou dOI meiOl
empregados par. provocá'lo, a gestante solro leslo COrporl
de nalure:a grave: e são duplicadas, se, por quatquor deSSa!
causas, lhe sobrevém a morte.

- Aborto necesd- A,.. 121 - Nlo &e pune o aborto praticado por médico :
rio.
I - se nAo hã outro meio de ,alvar a vida da gestante:
11 - Se a \lravlde: resulta de estupro e o aborto • precedid<
de consentimento da gestante ou, quando tncapu, de UI
representante legal.
Ar!. 12. _ Empregar violência conlra mulher cuja gravlde: 010 Ign(
ou , manHesla. causando-fhe involunlariamente o aborto.
Pena : delenção de 3 meses a 1 ano, 116m da pena corre.
pondente à vlol6ncia.
1• I •

- Aulo-abOt'lo. Art. 12. - Provocar a geslante o próprio aborto.


a 4 anos.

-Aborto com o Art. 125 _ Provocar aborto, com o conhecimento de ge.tante.


conhecimento da
gestanle. Pena : delençio de 1 a • anOS.
§ 6A1co - Na mesma pena incorre a g8'anle contencleola.
- Aueflocla ou in· Art. 1211 - Provocar aborto sem o consentimento da oaalanle, ou, .e esta
vaJklade do con- 6 menor de 16 anos, doente, ou cfellcltnle mental, ou H IW
senllmento da consenlimento 6 obUdo mediante freude ou coaçio.
gestante. Pena : racluslo de 2 a 8 ano' .

_ Aborto quemJ- Arl. 127 - A. penas cominadas no capul do art. 125 e no art. 126 alo
cado. aumentadas de lJa ali <li melade, .., em eOl'lU<lü6ncia do
aborlo ou dos meios empregadO$ ou do modo de empregll..tos,
a gestanla vem a morrer ou .fIofre lesA0 grave .

_ Aborto por mo- Ari 121 - Provocar aborto em 5i mes ma, para ocultar desonra pr6prla.
tlvo de honra.
Pena : detençlo de 6 meses a 2 aoos.
§ único - Na mesma pena Incorre quem provoca o aborto com
o consentimento da geslanle, para evitar a desonre.

-Aborto prelerdo- Art. 128 - Empregar violência contrl! mulher cuja gravidez nlo I§lnora
loso. ou • manUe,ta eausando-Ihe Involuntariame nte o aborto.
Pena : doatençlo de 3 meses • 1 ano, além da pena cOlTes·
pondenla • violência .
- Aborto terapêu- Art. 130 - Não conslllui crime o a borto praticado pcr médico:
tico ou quando
a gravidez re· I- Quando. o único recurso para evilar li morte da ge,tanle :
eulla de e,tupro.
11 - S. a gray;dez resultou d. estupro, :seja real ou preaum}da
• vlolêncta.
§ "oitO - No caso do número I, deve preceder, sempre que
posslver, 8 conllrmaçl o ou concordAncla cfe oulro
mêdlco, a, no caso do número 11, deve anteceder o
eOl'l!8l'1timêl'lló da vitima ou, qu. ndo esta é Inc.pa%.,
de seu represenlante le gal, desde que comproyada
a existência do crime.
1 • 7J
Ar1. 123 - Pl'O'Iocar a ;Mlanle o próprio aborto.
Pena: daten-;Io de 1 a 4 .nos.

AI1. 124 - ProYocar aborto, com o conhecimento ell geslanlo,


pana : delançlo de 1 a " anos.
§. (rnlco - Na me-sma pana Incorre a gestanle conaeReianla.
Art 125 - Provocar aborto .em o consenlimenlo da gestante, oll, se esta é menor
da 16 anos, doenla, ou deflclente mental, ou se seu consentimento" obtido
mecHaRia fraude ou cOlçlO.
Pena : recluslo de 2 • 8 .Inos.
Art 121 - As penas cominadas no ceput do art. 124 e no al1. 125 alo aumentadaa
de 1/:]. a'• • metade, .. , om conseqú6ncla do abono ou dos meios IImph!!-
gadol ou do modo de empregA·los, a oelllnle YGm li morrer ou aOl,e
16110 arava.

Art 127 - Provocar aborto em si mesma, para ocultar desonra própria.


Pena: delençlio de 6 meses a 2. anos.
S unico - Na mesma pena Incorre quem provoca o aborlo com o consan-
tlmanlo da geslanle, par. evllar a de5CInra.
Art. ua - Empregar violtncla contra a mulher cuia graYldez nio ignora ou é mani-
'n'a, causando-Ihe o aborto. (1)
PeNl; dalençlo de 3 meses a 1 ano, além da pene correspondente l
vlollncla.

Art. 121 - Nlo cOMUtul crlma o aborto praUcado pelo médico, quando li O (1Rlco
recurso pa'e evitar a mor1a ds gestante.
f (mico - No ceio previlto neila artigo, dave preeeder, sempre que pos·
.I'/tl, • eonnrmsçlo ou eoncordAncis de oulro m6dlço.

U) - N. a . : Como .. w, foi cencelado o advérbio Involun.t.rIAIMnte.


Um Imo candente :

"peca
do: o que e'1"
de Ambroslu8 KarI Ru'

Em .fnl_: O aulor é um dominicano atemlo que, apóa mOltrar


a crise do conceito de pecado (concebIdo de maneira demulado Jurfdlca1.
percorre a hl.t6rla de tal noçAo I nnalmenta propOa uma pIsta palll • lollJ-
çlo. Tendo sugerido Que nlo pode I'Iaver peçado grava ou motlal unia
na hora da morta do Individuo, parece I/ollar elr65 • termina o seu livro
propondo IrAs tipos de pec.do: o pecado P"I • morte (1Jo 5,1681. o qual
.6 pode0 oeorrer no momento do desenlace IIn81 ; o ptcado gr.... que se
dA desde QUI com Intenlldadl o hom.m opte pelo mal no decorrer d..ta
I/Ida; a o pecedo leva. qUI' um lia hum.no Imperfeito a Só Impropr....
menle pode sar tido como pecado.

Esta t,.. dI PIei Schoon"enbarg, reafirmada por A. K. Rur, reconhaca


qua poda havlr pecado. graves no dlcurso ma. mo da vida len_lra de
cadl homem. Ora 1,10 , sunclente pat. salvaguardar a doutrina ortodoxA.
Embora o homem nlio uJa sempre c.pu: de mobilizar todu as aulS potan--
claUdades quando faz as l uas opç6e. ou mamo quando fu IUI opçlo
fundamenlal, pode hal/er opçOes re'atlvamenta lundamenlals qUI empenhem
I plena conscllncla. e I 'lIponubllldlde do lulello 1 que. por cons.Quin..,
podem ,ar gravemente peclmlnosas.

O livro. da resto, • por \/tIzes obscuro a revela certl Instgurança de


pel1$llmlnto do aulot. Ap6s ha...r dIscorrido por dlverlal I..",. concluI a
, ua obra em lermos oortlllos e aOl1l6vels.

• • •
Oomeatirlo: Acaba de ser publicado mais um livro sobre
o tema cpecado:t. que hoje em dia vem sendo amplamente
estudado. O autor é um dominicano alemão, que, dotado de
ampla erudição, expõe o problema da conceJtuação de "pe-
cado» em nossos dias e sugere pistas de soluçio que suscl4
tem. reflexões. Ambroslus Karl Rui pondera os diversos fato·
reg e as variáveis do problema, usando de linguagem um
tanto dl1IeU, que a tradução brasileira nem sempre concorre
para aclarar. Dada a importância do assunto, vamos abaixo
apresentar o conteúdo dwe livro, BO qual aparemos algumu
pond...~
-373-
14 ~PERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 225/1978

1. O conteúdo do livro
1•1• O prohlema

1. 1.1. Criw do concelto cl6ssico d& «pecado»

o autor observa, logo de lnido, que <> tema «pecado»


hoje em dia é tido como imprópria e antiquaclo; não obstante,
diz, cem nenhuma época a pregação cristã poderá deixar de
falar de pecaclo. (p. 12).

E quais seriam as razões pelas quais hOje em dia o con·


ceito de «pecado. caJu em descrédito ?
O autor assinala as seguintes:
a) Acentua.se exageradamente o aspecto juridico do
pecado. Este é tido como contravenção é. lei de Deus ou 8
uma ordem de coisas Institulda pelo Senhor Deus, sem se
ponderar suficientemente o rela(ionamento do pecado com o
Amor.

b) A ordem violada é concebida como algo de estático


e fixo, de tal modo que não se levam em conta situações
pessoa.is e contingências novas acarretadas pela vida contem-
porlmea.
c) Não se consideram suficientemente OS matizes de
responsabilidade e liberdade com que a pessoa humana cos-
tuma agir. Em outros termos: não se tem bastante presente
o fato de que os atos hwnanos nem sempre são Igualmente
imputáveis a Quem os pratica; as reações espontâneas, instin·
tivas e passIonais, podem, em grau maior ou menor, deter·
minar o conteúdo e as modalidades do agir humano.

1 . 1 . 2. As conseqü'ndal da mie
Dado que a nocão de pecado parece não corresponder
aos referenciais da vida contemporânea, verifica-se que
1) Sob a influência da ciência e â técnica, para muitos,
os critérios do bem e do mal jã não são os. valores éticos,
mas os pragmá tiÇQ3 e \ltiU~rio~. cÊ moralmente bom o que
-374-
..PECADO: O QUE Ê 1. 15

é Otlb; esta tese vem a ser, para multos. o referencial para


se escalonarem 'Os diversos tipos de comportamento hUl1l8Ilo.
2) A pluralidade de aUtudes fDosóflcas e religiosas pro·
fessadas pelos cidadãos que compõem a sociedade civtl, leva
muitos cristãos ao relativismo ético; nAo reconhecem maIs a
necessidade ou a realidade de wna ordem moral ob1etiva, já
que, afinal de contas, várias atitudes cboas e honestas:. se
cotejam em nome de princlplos filosófico-religiosos diferentes..

3) A opinião púbHca - em grande parte, suscitada e


alimentada pelos padrões dos protagonistas das nwelas e dos
filmes - contribui para abalar as convicções éticas de não
poucos cidadãos. Perguntam se realmente é peeado aquilo
Que a Moral teórica considera como tal, contrariamente à
opinião de 60, 80 ou 90 % dos homens (leve.se em conta o
modo de pensar assaz generalizado a respeito das relações
pré-matrlmonlals, da masturbação e do homossexualismo .. . l.
Não estarjam enganados aqueles que, em nome de Deus,
estabelecem exigêndas que, para a maioria dos cldadlos,
parecem Irreais e às quais, por Isto mesmo, não se ju1gam
obrigados!
Diante da perplexidade em que muitos se vfem em vir-
tude do problema do pecado hoje, alguns mestres propõem
o que se chamaria ca Moral nova..

1.1 . 3 . A Moral nova

.AJ!. novas tendências da Moral, consoante OS rumos da


filosofia mod~rna existencialista, tendem a fazer do sujeito
- e do sujeIto posto em sua sltuaCio concreta e peuoal -
o critério para se aferir o bem e o mal. Não se dJga mais
que cada Individuo constituJ wn caso de aplicação de prin·
clpios imutáveis e eternos; ao contririo, dl7em, toda declslo
moral tem caráter único, irrepetivel e definitivo, que só se
pode entender através da sJtu8t'Ao e das clrcunstAnclas em
que ela é tomada. Tal é a ética da situação, segundo a qual
o bem e o mal hão de ser apontados tio somente mediante
a consideração do quadro em que o sujeito deve tomar suas
decisões.
O fUósofo e>dstenclaJlsta S. KJerkegaard (t 1855) é D
Inspirador remoto d. tal oonc:opção. Recentemente o bispo
-375-
16 fPERG~"'E E RESPONDEREMOS, 225/ 1978

anglicano John Roblnson, em seu livro cHonest to God,.


desenvolveu tais idéias. lX)stulando uma Moral indutiva em
lugar de uma Moral dedutiva. Isto quer dizer: em vez de
olhar para princípios e leis eternos a fim de deduzir a qua-
lificação moral de determinado ato, examinem-se indutiva-
mente as circunstâncias em que o sujeito se acha e procla-
me-se a conseqüente qualificação do agir dessa pessoa_ A lei
de Cristo está recapitulada na lei do amor; é este - subJe-
tivamente entendido - que define o que haja de bom e o
que haja de mau no agir humano_
J. FJetcher retomou os conceitos de Robinson, acen-
tuando com grande ênfase o aspecto SUbjetivo do ato moul:
8 boa intenção de quem age, produz sempre atos moral-
mente bons. Por conseguinte, o fim justifica os meios. - Os
adeptos desta 'teSe pouco se Interessam por nonnas e leis
existentes, mas valorizam o aspecto concreto e prãtlco do
problema que se coloca a quem queira tomar decisões éticas.
Mais ainda: a Moral nova enfatiza altamente o conceito
de consciência.. . AliAs. este também é importante na clãs-
sica Moral. Todavia. ao passo que c1assioamente se diz que
a consciência subjetiva tem de procurar orientar-se em nor·
mas objetivas, a Moral nova faz da. conscl!ncla o supremo e
definitivo critério de avaliação dos atos humanos. :e conce-
bida como um farejar ou apÜl'eo, isto e, como · fonna de
conhecimento que, além de um JUÍZO radonal, inclui intuição
e sentimento.
A esta altura observa o autor do livro em questão,
K. A. Rut:
"Ouando I. vi como hoje que. na oplnllo do glande plibl1eo, OI mel.
varladoa modos ,ticos de agir silo legitimados com relerllncla • COM-
cltncla do Individuo, nllo se deve ..tranhar que multol erltlcol!I dea neva.
idéias dnconllem de tal noçlo de conecltnela • da coneepçlo de decido
61lea qUI I .10 .e prende. Cem toda razlo podw. multas vazas duvidar
que multol dOI que 88 gabam da uma nova conçepçlo da MoOral, 16 nloO
po$Suem uma noçJ.oO daQuel.. lanómano. enencl.l. que .empre pertence-
ram 100 nücl~ da 61l<:a crlat'" (p. 31).

Como se vé, A. K. Ruf não apregoa a Moral nova, em·


bora aceite a insuficiência ou inadequacão da Moral conce-
bida nos tennos clássicos. K. Rur julga que a nova Moral
enfatl2a exageradamente o aspecto individualista dos crité-
rios da moralldade j ela S\lpge uma iluminação direta da
-376 -
cPECADO: o QUE l: !, 17

parte de Deus que indique ao cristão o que deva fazer, sem


levar em conta o carâter ecleslal e comunitário da vida
cristã:
"A 'taorla da lIumlnaçlo', .. qual deve condutlr conseqüentamante ..
'moral nova" anquanlo ela 8. desenvolve no terraf')() da étlça crlatl. nlo ,
compaUvel cem a. defendida. concepç4ea bjslc.s da teologia, Ela levl a
uma aupervalorluçlo do IndivIduo, prOVQCando uma dluoluçAo de rela-
cionamento eclallal, no qual o batizado .. encontra aldltenclaImenle. Na
questlo do conhecimento moral, aspeclalmente na dlstlnçlo do bem .. do
msl, a direta l1umlnaçlo por Deus nlo poda valer como via normal" (p. 34).

Rejeitando o subjeUvismo ético, A. K.. Ruf também se


mostra contrArio ao aforismo: cO fim santifica os meIos. ou
à chamada cética da intenção •. Esta coloca todo o significado
do ato moral na intençlo de quem o pratica, sem levar em
conta suficiente o ato externo ou aquUo que se faz concre·
tamente ccom boa Intenção., Ora na verdade tanto a inten.
ção subjetiva como a reaJIdade material do ato pratieado con.
tribuem para qualificar moralmente o ato humano.
AssIm enunciado o problema da conceituação do pecado
em nossos dias,. A. K. Rut passa à consulta das fontes biblJ·
caso as quais são impresclndlveis para se refonnular 6utentl-
camente a noção de pecado.

1.2 . A doutrina hlhllca

1. O pecado é tema de todas as confissões reUglosas.


Na BIblla ele aparece descle as primeiras pAginas como ato
do qual o homem é responsável e que acarreta graves con·
seqüências para o futuro da humanidade. Slgnlflca ruptura
do diálogo do homem com Deus, diálogo, porém, que o Se-
nhor Deus retoma cheio de misericórdia. Cf. Gn 2-3. onde
se expõem a transgressão original e a promessa de alguém
que esmagará a cabeça da serpente.

Posterionnente, no Antigo Testamento manifesta.se wna


concepção de pecado fortemente objetiva: pecado é qualquer
infracão da Lei do Senhor, ainda que praticada inconsciente-
mente; levava.se em conta o ato muito mais do que a inten·
ção ou o Animo de quem o praticava. Contra tal noção os
profetas levantaram a voz, acentuando, porém, principalmente
O sigD1flcado da int(!nção ou Q papel do coração do homem:

- :rr1-
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 225/1918

o pecado nasce no coracão e, para extirpá-lo, ê necessário


converter o coraçAo.

2 . No Novo Testamento aparece a figura de Jesus


Cnsto. que veio para salvar os pecadores. Jesus condena o
pecado, mas demonstra compreensão para os que erram a
fim de que possam retomar o caminho certo. Tal atitude
se manifesta por excelência no episódio da mulher adúltera
(.lo 8.1-11): Jesus não diz que o adultério já não é um mal
e, por Isto, não merece punição, mas tenciona oferecer nova
chance à mulher pecadora: "Vai, e não tornes a pecar»
(Jo 8,11). Algo de semelhante ocorre na parábola do tuho
pródigo: o pai recebe de braços abertos o jovem que retoma
arrependido. Isto significa que Deus não retira do homem a
sua amizade. mas estA sempre pronto a recebê-lo e ajudá-lo
a combater o pecado (cf. Lc 15,11-32). Aliás, 3esus mesmo
venceu a tentação, obtendo para os homens a graça de supe-
rar as insidias do Maligno (cf. Mt 4,1-11).

NAo se deve esquecer que, tanto no Antigo como no


Novo Testamento, o pecado tem também um caráter social.
Quando alguém pe~, retorça o pecado que domina o mundo,
e ao mesmo tempo se torna instnunento do pecado. Por con-
seguinte, cada pecado, por mais secreto que seja. acarreta
dano para a comunidade; por isto a comunidade se preocupa
com o <peCado e procura ajudar seus membros a vencer
o mal.

1 . 3. Um pouco da fI'st6r4a do conc.eito

1. Nos primeiros séculos a Igreja deu grande relevo


ao fato de que o pecado não é só ofensa a Deus, mas tam·
bém lesão à comunidade dos Irmãos. Dai a instituição da
reconeUlação pUblica, que a. Igreja ministrava aos pecadores
após um perlodo de penitência pÚbli~, cuja duração era ava-
liada segwtdo a gravidade das faltas cometidas. A penitência
pública foi praticada até a Idade Média, embora a partir do
século VI houvesse ao seu lado formas de reconciliação par-
ticular.
s. Agostinho (t 430) teve o mérito de enfat1za.r que o
pecado não é um ato mau por sua natureza, mas, sim, wn
atQ que eareçe do bem que ele deveria ter; essa carência é

-378 -
ePECADO : o QUE 1: 1, 19

devida ao livre arbItrio c!a homem e, por isto, imputável à


responsabllJdade deste; é no fato de que o homem decida
contra Deus e sua ordem, que se encontra o aspecto esped.
fico de todo pecado.
Na Idade Média registra. se inicialmente a consciência de
que nem todos os pecados são igualmente graves. Após os
estudos de teólogos anteriores. S. Tomás de Aquino (t 1274)
propÔS a tese de que o pecado grave é sempre uma apeio .
contra Deus, ao passo que o pecado leve é uma falha no
tocante ao uso das criaturas ou à atitude correta para eom
estas. Esta falha pode ser uma expressão de indiferenca ou
negllgência para com Deus; ela significa uma disposição pat.
quica e moral do pecador que poderá levar ao ~ado grave
ou à. direta ruptura para com Deus. Todavia tal negligência
leve não é ainda, nõ sentido próprio, uma repulsa a Deus;
por isto falta·lhe o momento constitutivo do pecado; só em
sentido translato pode·se dizer que o pecado leve é pecado
(d. S. Tomás de Aqulno, Suma Teológica I/II, quo 88,
a. 1, ad 1).
Nos séculos subseqüentes, os teólogos passaram a se
preocupar menos com a ...tenção de quem comete um ato
tido como pecaminosoj mais se interessaram pelo objeto ou
pela lID&~rla dos atos tidos como pecados. A razão deste
novo enfoque talvez fosse o intuito de esclarecer e facll1tar
a administração do sacramento da Penitência, ao qual devia
servir a casulstlca. Esta, considerando a matéria dos peca.
dos, procurava saber se detennlnada açlo ainda deveria ser
considerada como pecado ltWl' ou se já seria um pecado grave.
Foi no sécu!() XIX Que a Teologia Moral conheceu novo
surta: os te6logos começaram a utilizar maJs a Biblla para
dela deduzir a noção de pecado; reavivaram também o con·
ceito de conscIência moral. faculdade pela qual o homem,
concretamente situado. dá a sua resposta ao Senhor. A iUo.
sofia moderna, de resto, acentuando fortemente os valores
subjetivos, fez que o estudo do pecado voltasse e. levar em
conta a responsabilidade e o papel do sujeJto agente, o que
tem ooorrldo mesmo de maneira C2X8gerada .e errônea, como
se vju sob o titulo 1. 1. 3 (cA Moral nova:.) deste artigo.
Expostas as grandes linhas da história do conceitO, de
pecado, A. K. R.uf passa à quarta e última parte do seu tra·
balho, que estuda novos princlpios na compreensão do pecado.

- 379-
20 <PERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 225/ 1918

1 .4. Noyos prindplol na compreenHio do pecado

Eis O que o teólogo dominicano propõe:

1) Para conceltuar o pecado, é necessârl0 levar em


conta tanto o aspecto objetlvo (ou seja, a matéria) do ato
mau quanto o seu aspecto subjetivo (a intenção e as dispo-
sições do sujeito agente). A consideração do aspecto mera·
mente objetivo acarreta o perigo do legalismo, ao passo que
a pondera~ão exagerada do momento sUbjetivo leva a afir·
mar o principio de que o tim (a inten~ão) santifica os meios
e semelhantes normas arbitrárias. Todavia A. K. Ruf julga
que o momento subjetivo do pecado merece prioritariamente
a aten~ão do estudioso.
2) O aspecto subjetivo do pecado há de ser elucidado
pela noção (hoje em dia, cada vez mais estudada) de opçio
hllldameDtaI.

Opção fundamental é a escolha do valor supremo que


deve nortear todas as demais opções e todos os atos da peso
soa. O cristão faz sua opção fundamental por Deus e pelo
convite de amor que este lhe dirige. Acontece, porém, que o
homem na terra só imperfeitamente conhece a Deus; esse
conhecimento naturalmente admite graus; nWlca, porém, é a
vlsá.o face.a.face reservada para o Além. Conseqüentemente
é variável e. int~nsidade da opção do homem por Deus aqui
na terra, visto que a adesão a determinado bem é propor·
cional ao conhecimento que a pessoa tenha desse bem. A
variedade de graus na Intensidade da opção por Deus expll·
ca·se também pelo fato de que a pessoa. que opta está. ass0.-
ciada à ua.tureza humana. ou seja, a um conjunto de elemen·
tos Instintivos, cegos, irracionais. Que dificultam ou dlmJ·
nuem a ação plenamente consciente e livre do sujeito.

Ora todo abrandamento da intensidade com a. qual li


pessoa age, Implica um abrandamento do caráter moral da
ação correspondente. A responsabilidade e a imputabilidade
moral de um ato são proporcionais ao empenho com que
alguém o pratica. O programa de vida de todo cristão con-
siste em fazer Que sua opção fundamental e as opções decor-
rentes desta sejam cada vez mais pessoais, Jntensas e livres.
- Estes prlncipios são agora aplicados à eluclda~ão do con-
ceito ele- J)eÇa<lo.
-380-
c:PECAOO: o QUE Ê ?" 21

3) O pecado vem a ser uma opeão fundamental contra


Deus, OU seja, uma opelo oriunda dllB profundezas da pessoa
humana. Quando não ocorre plenamente esse Upo de opção
fundamental, só se pode falar de pecado leve ou em' sentido
anilogo. Note-se, porém, que a opção fundamental pec:am1-
nosa não precisa de traduzir.se numa rebel1ão plenamente
consciente contra Deus: o pecado mortal geralmente nlo tem
o caráter de revolta expllclta contra. o Senhor Deus_

A luz destas e.!lrma~, torna-se, por vezes, dificil rec0-


nhecer se detenninado pecado é leve ou grave. Fica sempre
lugar para a pergunta: com que grau de Intensidade eu agi
bem ou mal?

4) Levando às últimas conseqüências tais proposições,


A. K. Rur alnda pondera: a atual condição de existência
do homem imerso na matéria e na COrpcreldBde faz que
praticamente todas as suas ações estejam sob o signo da
natureza ou do semi-Instintivo, semiconsciente, semt-irrespon.
sãvel. Coloca-se, pois, uma questão decisIva: aInda exJste
pecado grave ou pecado mortal? (p. 89). Diante desta per·
gunta, A. K. Ruf insinua que realmente. no comum dos
casos, o homem não é capu de wna opção fwldamental tio
intensa que possa ser considerada peca.d6 grave; tooavia, diz
ela, há os casos extraordinArtos em que é posslvel uma opção
oriunda das profundidades do homem, a ponto de ser «lu!-
valente a um pecado grave.

5) se no decorrer da sua vIda mortal o homem não


tem condições de realizar uma opção realmente fundamental,
esta chance lhe é dada na hora . da morte: em tal momento
o homem estâ livre de todas as determinações e Influêndu
que atuam sobre o seu conheclmento e a sua , liberdade;
defronta·se diretamente com Deus, que lhe aparece como o
SUmo Bem. A morte é, pois, a ocasião únJca que o homem
tem de decidIr segundo a medJda plena de suas capaeidades.
Como se compreende, a opção final que o homem faz eom
toda a lucldez na hora da morte, estari sempre em conti.
nuldade COm as opcões feitas anteriormente no decorrer desta
vida terrestre. cCada um morre eomo vlveu~. diz a sabe--
dorla popular.
Por conseguinte, é somente na hora da morte que o
homem se toma capaz de um. pecado propriamente dito_ Este
-381-
~ ~ERGUNTE E RESPONDEREMOS. 225/1978

ocorre caso a pessoa rejeite o convite ao amor que o Senhor


Deus com toda a clareza então lhe dirige.
6) Esta a!1nnaçio talvez pareça insinuar que durante
toda a sua vida o homem não comete senão pecados leves ou
impropriamente ditos. Todavia A. K. Ruf não aceita tal
conclusão!. . . Em conseqüência, no final do seu livro (pp.
95.97), distlngue três tipos de pecado:
a) o pecado para. a. morte (cI. lJo 5,168), que é o
pecado propriamente ditOi este é possível tão somente na
hora do desenlace final, porque SÓ este proporciona ao ho·
mem a lucidez (' a intensidade de intenção pressupostas p!lo
pecado estritamente entendido. A opção para a morte feita
na hora da morte é irrevogável.
b) O pecado grave. Este é uma opção para o mal rea·
J.lzada com ponderãvel Intensidade no decorrer desta vida,
mas não definitiva nem lrrevogável.
c) O pecado Leve, opção efetuada com pouca intensl .
dade ou ato Imperfeitamente hwnano.

Assim ~ K. Ruf conclui a sua obra. Encerra·a talvez


um pouco bM.LSCa e sumariamente. Seria para desejar que
explanasse melhor as suas consideracóes finais (principal·
mente a noCio de pecado grave), e as pusesse em harmonia
com as ponderatões anteri()res. O leitor se sente interpelado
pelo contato com o livro e desejoso de refletir sobre os dize·
res do mesmo. - :t: o que vamos fazer em seguida.

2. Comentários ao livro
ÁJJ várias ponderações que a obra de A. K. Rut sugere,
podem ser resumidas em quatro ítens.

2. 1 • Reflexóo geral

o leitor não pode deixar de perceber os numerosos


t.:val-e vem_ por que passa o pensamento do a utor; propõe
oplniOes, parece derrubá· las, mas volta a estudá· las e afiro
má~las. Ora dIr.se.I;a que é partidário do relativismo ~ do

-382 -
cPECAOO: o QUE Ê ?~

esvaziamento dos concettcs; ora dê. a impressão de querer


guardar equlllbrlo sadio e construtivo. Ademais note-se que
o esWo do autor é assaz pesadoj a tradução brasUel.re. guar·
dou multo. de tal estUo, de tal. modo que, nem sempre Com
facUidade, se compreende o que certas passagens querem
&isnifloar. - Na verdade, o pensamento de A. K. Ruf parece
não se ter cristalizado de maneJra clara e definitiva; aUãs,
o próprio autor adverte no prefácio da obra: «Este livro foi
escrlto para os que não se contentam com solucões prontas,
mas procuram eles mesmos wna respos.ta, servindo·se das
reflexões que lhes são proporcionadas pela teologia .. . O
leitor, portanto, não espere uma fórmula que lhe resolva as
dúvidas. (p. 10).

Esta observação, feita no Inicio do livro, merece ser


relida ao término da leitura da obra, pois corresponde bem
ao tipo de conteúdo do livro.

2.2. A tese do livro

1 . Segundo os dizeres das pp. 89s, poder-se-ia crer que


o autor só admitiria duas fonnas de pecado: e) o grave ou
mortal, possivel tão somente na hora da morte .OU em oca-
siões extraordinárias da vida terrestre; b) e o pecado leve
ou impropriamente dito, por se tratar de um ato humano
incompleto ou prejudicado por elementos Irracionais e instin-
tivos. Estaria então dlstante a possibWdade de pecado grave
durante a trajetória de vida do homem mortalj via de regra,
não haveria mais pecado propriamente dito a não ser na hora
da morte!
Todavia A. K. Ruf parece ter-se espantado diante de tal
sentença incluída nos dizeres das pp. 89.94 do livro. Por Isto
nas três últimas pâginas da obra houve por bem admitir com
Piet Schoonenberg a distinção entre pecado para 8 JIlOrte,
pecado grave e pooodo leve. O pecado grave fica reservado
par.a os dIas mortais de todo homem. Desta manelra, A. K.
Ruf volta praUcamente a distinguir entre pecado leve e pe-
cado grave (ou pecado venJal e pecado mortal, na termino-
logia clássica).
2. A respeito do pecado para 8 morte, irrevogável por-
que cometido no último instante desta peregrinação, pode-se
perguntar: será que realmente todo bomem \lSYfrul, na hora
-383-
24 ~PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 225/1978

da morte, da clareza de 1ntu1~ão que A. K. Ruf e outros


autores lhe atribuem? Nio poucos Jndlvldues morrem em
condlcôes de arteriosclerose. semiconsciência. anamnésia ••. ,
mostrando ter l1OÇáo cada vez menos lúcida do que coneeme
A sua própria pessoa e ao respectivo ambiente. A doença, a
velhice e achaques diversos fazem que. para muitos, os últ!·
mos tempos da vida terrestre sejam os menos rentáveis, mar.
cados como estão por uma cllmlnulção geral das atividades
mais tlpicas (o que não quer dizer não haia também o con·
trâ.r1o). Como então admitir, de modo geral, que toda peso
soa, no instante da morte, possa exercer uma atividade cons·
ciente mais lacida do que no decorrer da sua exlsténcia ter·
restre? Esta perspectiva parece Dus6ria; seria, antes, para
desejar que todo homem procurasse exercer as suas ativi·
dades com o máximo de consciência e intensidade nos belos
dias de saúde e vigor da sua peregrinação terrestre.
Aliás, ° próprio A. K. RuI confessa que ca teoria da
opção final é uma opinião teológica que nem de 14Jnge foi
cabalmente debatida, . .. ainda deIxa em aberto não poucas
questões. fazendo muitos teólogos desistir dela~ (p. 92).
3. Quanto à Incapacidade de praticar uma verdadeira
opção fundamental, ou seja, uma op~lo que proceda do mais
tundo do pslquismo humano, deve·se reconhecer que real-
mente muitas pessoas são superficiais ou semi.superflclaIs
durante os anos de sua vida terrestre; a natureza é lenta e
tende a resistir aos belos propósitos que a inteligência i1umi·
nada pela fé lhe quer incutir. Isto, porém, não significa que
o homem se deve. resignar de antemão a aceitar tal condI.
ção humilhante; resta.lhe sempre o honroso dever de pro·
curar mobilizar suas mais profundas potencia1ldades em de-
manda do mais nobre Ideal. Foi o que os santos tentaram
fazer e conseguiram realmente; é também o que todo hom~m
que não Queira morrer anão ou Inacabado, deve almejar e
procurar pOr em prática.
Ademais, para que haja pecado grave ou mortal, basta
que o ser humano se empenhe em favor do mal com as ener·
gias e potencialidades de que seja capaz dia por dia durante
a sua vida mortal. A experiência ensina que há. realmente
opções sérJas e eonsclentes contra Deus e os valores do bem
antes da morte de numerosos Individuas. A propósito, con-
vém citar o livro de Karl Mennlnger, psiquiatra norte·ame·
ricano, tntltuJado cO pecado de nossa éP9C'-~ (Livraria José
-384 -
«PECADO: O QUE 1: b 25

Olymplo Editora, Rio de Janeiro 1975): o autor, n8 qualI.


dade de médico, verifica que a omissão da palavra «pecado»
na linguagem moderna é ilusória e doentia. Na verdade, o
pecado, e pecado grave, é ma1s do que evidente na hJstórla
contemporânea: ódios, guerras, violências, furtos, escravização
de homens, mulheres e crianças, alcoolismo e vlcios diversos
marcam profundamenteavida moderna. Seriam atos come·
Udos irresponsavelmente pelos seus autores? K. Mennlnger,
como psiquiatra, julga. que nlio se pode alegar isto. Seria,
POis. salutar que os homens reconhecessem a existência do
pecado e assumissem a responsabilida.de do mesmo, pois Isto
os aliviaria psiquicamente; a kathársis é um processo tera·
pêutIco de alto valor. - Entre parênteses. notamos que
tal conclusão do Dr. Mennlnger coincide exatamente com
as perspectivas da teologia, A respeito do Uvro, veja PR
205/ 1977, pp. 14·26.
Mais: é oportuno lembrar que um dos mais recentes
documentos da Igreja sobre o pecado emprega equivalente-
mente as expressões cpecado mortal::. e «pecado grave::.; nAo
segue, pois, a disUnçlo sugerida por Piet Schoonenberg entre
pecado para a morte (00 mortal), pecado grave e pecado
leve. Cf. DeclaracAo cPersona Humana~ 90bre pontos de
l:tlca Sexual, n' 10:
"Na reaJldede, ti sem dOvlda a opçlo funcfamontal que deftne. em
"lllma anêllse, a dllpoalçlo moral de uma peSSOL No entanto, a opçlo
fundamental de uma pesSOI pode aer mudada lolalmante por alol parth:u1e-
rea, lobreludo quando .. I.. tenllam Ikfo ·preplradol - como IcontlCe
muUa veZ" - por 110. anle,lor" mal, auper1lclal,. Em lodo CAIO nlo 6
verdade que um ,6 deste, alo. particulares nlo posaa Itr luRclenle para
que haja pecado mortll.

Sagundo a doulflna di Igrela, o "..:acfo mortal que .e oph a o...


nlo consltte .".nu na ,..,I,ltnçfa fonnel • d'rete 110 preceito da G<81td1ld1:
ele ,erme... Igualmente naquele opotlplo to amor ItUtIntlco que • •
Incluldl em toda u,arwg....Jo ckllber.da, Im m"'dl grtlNt.... eMIe lIII'Ia
da lela morais . •.

. .. O homem, portento, ptCII morteJmem., nIo e6 quando l i . . . .


~ prooecltm cio dHpl'UO cnNIo do amor de Deut e do pr6almo, ma
lamWm qUlndo . , col'IlClenll e IIv....n.nll, r. a eecoltIa clt um obfeto
gr..,.,...nte claorclaMClo,; ..'a Clual for o motivo d.... tua MOODlL NHN
e.colha, de falo, . .tA Inclulclo o desprezo do mancUmtnlo de DI\II ; o
homem eparta-M de Delll e pe" e caridade.

Ora bem: segundo I lradlçlo crlatl e a doutrfna da IgreJa, a con--


lormo l'(Içon~ç, ta,nbtm areia rllZlo, I ordem moral da ..xualldade com--

-385-
26 (PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 225/1978

porta para a vida humana valores tio elevados que tode vlolaçli) dlteta da
mesma orelem 6 obJellvamenle gra.....

~ verdade que na. 'allu de ordem sexual, tendo em vlata a. IIU.S


CondlçÕh .Ipeelals • as lU" causas, .ucada mais lacllmant. que nlo
lhe. lOJa dado plenamlnto um consenllmanto Ilvr. - o que h6 di levar.
proceder com caulela em lodo JuIz.o li fazer quanto .. responaablllel.de
subJe Uva de laia latias, t cpo para recordar em partIcular aquelas pata-
VIIS da Sagrada Escritura : "O homem olha a aparêncIa, ao passo que
OIU' olha o cor.~lo" (15m 16,7), Entretanto o recomendar ell18 prudência
no ajuizar sobre a gravidade aubJetlva de um alo pecaminoso partIc ular
nlo equ/Yale. de maneira nanhume, a sustentar que em mat'rla aexual nlo
le C<lmatam pecados morta"".

2.3. Objeto do pecado e Intens40 do pecador

A. K. Rut tem razão ao apregoar maior atenção para


o aspecto pessoal e subjetivo dos atos maus, A Moral pro-
cura relacionar o ser humano, como filho, com Deus, que é
Pai e o grande Tu de cada criatura racional; nisto ela se
diCerencia do Direito. que põe o homem Crente a uma ordem
institulda, neutra e impessoal. AssIm o pecado toma signifi-
cado profundo para todo cristão.
Além disto, dentro 00 ser humano é necessârio levar em
conta. os matizes de consciência e liberdade com que cada
qual age; nem tudo o que é materialmente pecado, é tam-
bém fonnalmente pecado. O pecado formal ou proprIamente
dito supõe sempre três elementos:
- consciência do mal a ser cometido,
- vontade de cometê-lo,
- matéria grave.
Como se vê, os dols primeiros elementos são subjetivos,
ao passo que o terceiro é objetivo. Embora se acentue a
importância dos traços subjetivos, não se poderia Jamais
negligenciar o peso do objeto para avaliar ou qualificar o
ato humano que com ele se relaciona.
Os autores modernos reaJcam sabiamente o papel da
intencã,o de quem age; nunca, porém, sem licito fazê-lo a
ponto de dizer que o fim justifIca os melas ou de reduzir
os crItérIos de qUalificaçáo de um ato humano aos seus ele-
mentos subjetivos.
-386 -
cPECAOO: o QUE Ê ? ~

AliAs, a respeito de sadia mudança do conceito de pe-o


cado nos últimos tempos já. (lI publicado um artigo em
PR 137/1971, pp. 217.228.

2 ... . A1euns pontos portlc'-!Iores

Ainda ê de Interesse chamar a atenção para a p. 22 do


livro em questão, onde se 1ê:
"Nlo faz alnela m'-!1I0 tempo, era proibido ao sacerdote, sob 'pecado
grave', recUar o ClnM da Missa em vern6culo. Hole Islo nlo 86 • costume
10Jerado, aenlo prescrlçlo obrIgatória. Entre os pecados gravtl .nume-
rava"," a transgraaslo das prascrlç0e9 do Jajum; e oa livros da Moral,
qua ainda alguma. d6cadas atrAs foram Impresaos a flg'-!ram na. aalan_
da maioria dOI ucerdoles, referem mellculosamente com quanto' aram..
da carne - consumidos 6s sextas-feIras - começa o pecado gravt, HoJa,
de falo, nlnguem mais pergunta pelos subtillzados mandam.ntca da absti-
nêncIa, pol. - com aprovaçlo achulbllca - IA .a permIta a cremaçlo
doS cadiveres, ler livros de lellura consIderada pecaminosa, eobr. OI qual.
pesavam severas pan.. eclesl4sllcaa. Ao passo qua antea parlanela ao.
mars Inlames a.c11l6g108 locar com mies nlo consagradas o Corpo do
Sanhor, hoJa racaba.,a - como crlallo moderno - a comunhlo nlo na
boca, mas na mio.

Podarl.moa alongar a lIata, mas OI alCemploa bastam. Quando pen-


samos que utat modlllceçOes se rntroduzlram em menos da uma dbda,
compreendel'l'l(ls (I efello que resullar6 sobre a eonsc/olnela do pecado,
Ao confIança em uma InslAncla que '",o erra', encontra-se fundamonlalmente
abaloda, a para aqueles ecostumadoa • orlenlar-se pala autorldada da Inl-
llIulçlo apresent.s. a Inquletanta pergunta se tudo aquilO que hoje ainda
vale como ~cad(l emenl'\1 se" abolido, e ser' mandamento aqulto que
eslava proibido al6 agora. Eles la perguntam ae 010 16m razIo aqueloa
qua hoje contrariam as normas e ae Interessam pouco palas OrMl\a atuara.
Ouem quer qua Indague acerca da entncla do pecado, de'ronta-'le com tais
problemas".

A propOsJto observamos:

O autor- cita exemplos de mudanças das prescrições da


Igreja: assim as que se referem ao vernãcul0 na Liturgia, ê.
cremação dos cadáveres, ao jejum e i\ abstinência. . . Ora
tais pontos pertencem à dJsclpllDa. da Igreja .e não às S\18!I
proposições de fé. Foi necessário em épocas passadas que a
Igreja adotasse normas disciplinares que em nossos dias 'A
nAo têm razão de ser, como hoje é oportuno que adote me-
didas discIplinares que outrora não teriam sentido. A mu·
dança de d1sc1plina em pontos que não afetam as verdades
reveiadu, f! slnal de vitalidade e sadia çompreenlio vlgen-
-387 -
2!:1 ~PERGUJ\'TE E RESPONl>EREMOS) 225/1,",,,,---
,,, 8 _ __

tes na Igreja; se nem todos os fiéls entendem tais mudanças.


a deficiência está nestes e nâo no fato de que ti disciplina
mude sadiamente.
Quanto aos ~livros de leitura considerada pecaminosa:.,
já não estio no lndex. que foi extinto em 1966. Todavia
não foi abolida a norma moral. válida para todo cristão, de
não se expor. sem graves motivos. ao pecadG; 8 ninguém é
licito em consciência entregar-se a leituras lascivas ou ofen -
si.vas à té e aos bons costumes pOr baixo pruer ou por
mera curiosidade. Peca o cristão que cometa tais atos, mesmo
depois de abolldo o 1ndex; este tinha slgnlflcação jurldica;
os valores morais que o justificavam. continuam sendo vaJo ..
res e têm em seu favor a tutela da reta consciência de cada
cristão. Cf. PR 193/ 1976, pp. 25-28.
São estas algumas ponderações que nos pareciam opor-
blnas a propósito do livro de A. K . Ruf. A sua leitura
poderá será útil a estudiosos especialistas e... pacientes;
não parece contudo a mais recomendAvel a quem se queira
iniciar no assunto.
A propc»lto ."eJa :
Sagrada Con5lregaçlo para a Doutrina da Fé, Deelaraç.lo "Peraon_
Humana" sobre alguns pontOI de titica Sexual,

K. Mennlnger. "O pecado de nOSS8 época", Rio de Juelro 1975.

L Monden, "ConscIência renovlda", Slo Paulo 1968.

A. Mosar, "O pecado alnd. 1.II1.le'" Slo Paulo 1976,

PR 13711971 , pp. 217·228 (valide mudança do concello de pecado).

PR, 193119711. pp , 25""8 {lnde.ll e censura de livros'.

-388 -
Em Puebl81 no México :

e a III conferência do episcopado


latino -americano?

Em .Intne: Oe 12. a 28/ 10/78 reunlr-s'" em Puebla (Mblco) •


111 Conferência Geral do Epllcopado latino-americano, que vem deaper-
tlinclo grande Inler.,", Dele p-rUçlptrlo delegado. dos blepOl de cada
pale da ,,",,6ric8 latina, assim como ,..p....entant•• da Santa Sé, a 11m da
estudar o t.ma MA evangallzaçlo no pretant • • no futuro da Am6r1ce
latlna", Em vlstt das la grande 8nembléla, foi elaborado um documento-
-bU4, o qual, enviado a cada bispo do contlnent., 101 objeto de raflexee.
a debatee .rra n!val diocesano ou em nlvel regional. Tal. d.batea redunda-
ram em propostas e augeatOe. que (otam levades em eonla pala ComluID
redltora I 11m de te ellbor.r novo telltO, mais corres pondente 101 anaeloa
dos putores e dos fI.l s lellno-amerlclno•.

Estando próxima I r.allzaçlo da Conlerêncla de Puebla. Importa a


todoa OI fléla católico. pedir ao Sennot .. lU" lutes a fim de que o
encontro programado seja penhor da uma avangelluçlo cada vez mala
frutuosa do continente 'aUrM>8m.rlcano.

- ..
Comentário: Têm suscitado grande Interesse não só nos
meios eclesiásticos, mas também no público em geral, os estu-
dos feitos em vista da m Assembléia Geral do Eplscopado
Latino,americano ou do CELAM (Conselho Episcopal La·
Uno-americano), a qual terá lugar em Puebla (México) de
12 a 28 de outubro de 1978. A imprensa vem notldando
reuniões realizadas e ainda a se realizar em função do
(rande encontrol que vem despertando a atenção dos obser-
vadores pelaS conseqUênclas que poderá ter no desenrolar
da ação da · Igreja nos palses latino·americanas.

:e prematuro querer esboçar os resultados de tal assem·


blêla; contudo é necessArlo infonnar Os cristãos e o público
em geral a respeito da estrutura e dó slgtillleadó da mesma.
-389-
30 c.PERGUNI'E E RESPONDEREMOS, 225/ 1978

t O que tencionamos fazer nas páginas subseqüentes de ma·


nelra clara e sisteméUca, pondo em loco as Unhas essencIais
do acontec1mento.

1. O fundo histórico
Podem-se assinalar três grandes momentos em que os
bispos da. Aqlérlca Latina (AL) procuraram, até os nossos
dIas, refletir sobre a sua missão evangelizadora: o primeiro
ConclUo Plenário da América Latina (Roma 1899) , a pri-
meira Conferência GêraJ do CELAM (Rio de Janeiro 1955),
a segunda Conferêncla Geral do CELAM (Medellin, Colôm.
bla 1968).

1 .1 . O Condllo pltn6rto

Nos séculos XVI. XVII e XVID, a Igreja na América


Latina se viu sob o severo controle das monarquias euro·
pélas, que sustentavam o regime de colon;zaçAo; o direito
que no Brasil se chamava cde padroado, e que tinha seus
equivalentes nos paises vizinhos, pennitia aos monarcas inter-
ferir nas relações entre os bispos locais e a Santa Sé, de
tal modo que a autoridade pontifícia pouco se exercia na
América Latina.
No inicio do século XIX as guerras civis em prol da
Independência contribuíram para dividir os cristãos neste
continente, permitindo notAvel influência da Franco· maçona-
ria anti-eclesiástica. Todavia em várias nações do continente
o estadista Slmón Bollvar deu Inicio a um revlgoramento das
estruturas eclesials e da ação do episcopado. Na segunda
metade do século :xo<: os bispos foram recuperando sua auto·
nomia perante o Estado; todavia lutavam com sérios proble-
mas, como O da escassez de clero, a ação maçônica, os con-
flitos Internos dos povos latino-americanos.
Em 1870, o Concilio do Vaticano I fortaleceu a organi-
zação da Igreja Universal reatlnnando a aut(lrldade do seu
governo central ou do Pontlflce Romano.
Ora no fim cIo século. em comemoração do quarto cen.
tenârJQ da cj(!$coberta da América, o Papa Leão XIII houve

-390 -
A CON.FER:E:NCIA DE 'PUEBI...A 31

por bem convocar os bispos da. América. Latina para ceIe·


brarem em Roma o I ConcIlie Plenã.rio Latino·americano de
23 de maio a 9 de julho de 1899.
Esta assembléia, notiLvel e decisiva para o futuro do
continente, lmpulsionou a reorganizacão da Igreja na Amé-
rica LaUna, promoveu a ação conjunta dos episcopados hls-
pano..amerlcano e brasileiro. Estipulou a realização de reu-
niões periódicas de bispos do conUnente, a fim de estudarem
conjuntamente as linhas de pregação da fé e da ação dou·
trinal. . . Desta forma a Igreja na AL oomeçou a tomar
sua fisionomia própria e assumir participação mais ativa na
história da Igreja universal.

1.2. A I Conferência GenJl do Episa»pado da AL IRlo 1955.

Por ocasião do XXXVI Congresso Eucaristico Internacio.


nal realizado no Rio de Janeiro em julho de 1955, o S. Pa·
dre Pio xn, mediante a Carta Apost611<::a «Ad Ecc1eslam,.,
convocou os bispos da América Latina para nova reflexão
conjunta sobre os assuntos que Interessavam ao seu minis·
tério apostólico.

O tema Cêntral da assembléIa foi a escassez de clero e


os problemas dai decorrentes. Foram abordadas outrossim
questões referentes à educatão, às missões, aos indlgenas, à
juventude, 'às m1graCÕe5t à responsabilidade dvico·poUt1ca do.s
cristãos .. , Foi outrossim constituído o CEL.AM (COnselho
Episcopal Latlno·amerlcano) como órgão destinado a facilitar
o Intercâmbio e a colaboração dos Srs. Bispos entre si; tal
organismo foi dotado de Departamentos especializados em
. vista das diversas tarefas a serem preenchidas pela Igreja
no continente laUno-americano: educação, catequese. liturgia,
missôes. ação social, etc.
Após a grande assembléia do Rio de Janeiro, os acon·
teclmentos desenrolaram-se com certa rapidez; o continente
latino-americano configurou-se cada vez mais com seus e.spec-
tos de TerceIro Mundo; os Papas João xxrn e Paulo VI,
mediante importantes enclcltcas sociais. tentaram caracterl-
zA-Jos, traçando Unhes de açãO para a Igreja; os episcopados
nacionais do continente foram, por sua vez. voltando sua

-391-
32 ,PERCUNTE E RESPONDEREMOS) 225/1978

atenção para tais questões. - O ConclUo do Vaticano li


(1962~1965) deu ocasião a qut se avivasse a consciência de
coleglal1dade epIscopal e se pensasse na convoca cão de nova
assembléia do CELAM.

1 .3. A 11 Confe~"da Geral cio Episcopado da AL

Reali2ada em anexo 8.0 Congresso Eucarístico Interna·


cional de Bogotá (agosto de 1968), tal assembléia rol Inau·
gurada pelo próprio Papa Paulo VI, contando com a pre-
sença de 8 cardeais. 45 arcebispos, 92 bispos, 70 sacerdotes
e Religiosos e 9 observadores não católicos.
Teve por tema central cA Igreja na atual transformação
da AL à luz do Conemo», Os debates visavam à aplicação
das diretrizes do Concilio à situação concreta da América
Latina, dai resultando · dezesseis documentos, que represen-
tam decldldas opções do episcopado. Desses escritos cinco
versavam sobre Promoção Humana (Justiça, Paz, Famllia e
Demografia, Educação, Juventude), e onze sobre Evangell.
zação e Crescimento na Fé (Pastoral das Massas, Pastoral
de elites, Catequese, Liturgia, Movimentos de Leigos, Sacer·
dotes. Rellgiosas, Formação do Clero, Pobreza da Igreja.
Pastoral de conjunto, Meios de Comunicação Social).

A Conferência Geral de MedeUln contribuiu vivamente


para despertar n<lVOS tipos de atuação da Igreja na AL.
Dez anos depois reunlr·se·é, em Puebla (México) a Ir Con-
ferência Geral do Episcopado Latino-americano em Puebla
(11 a 28 de outubro de 1978). :t: esta Conferência que
passamos diretamente 8 apresentar.

2. Puebla: estrutura da Conferência


Aos 12 de dezembro de 1971, após: diligentes preparati·
vos, o S. Padre Paulo VI houve por bem convocar a III
assembléia geral do CELAM, que estudará o tema «A evan·
gelização no presente e no futuro da AL».
Deste certame particlparão:

-392 -
A CON.FER:E:NCIA DE PUEBLA 33

1) os presidentes das Conferências Eplsoopals Nacio.


nals da América Latina;
2) os bispos representantes dessas Conferênclas. eleitos
segundo os seguintes critérios: .

_ um por cada cinco membros nas Conterênclas que


contêm a~ cem membros; ou

_ um por ~da cinco membros até a primeira centena..


e um por cada dez membros após a primeira centena, nas
demais Conferências;
3) o presidente. os dois Vice-presidentes, os responsâ-
veis pelos Departamentos e Secções do CELAMj o Secretá-
rio Geral deste;
4) todos os componentes da Pontificia Comissão para
a América Latina (CAL);

5) os presidentes dos organismos episcopais naeionaJa


Que se destinam a prestar üjuda à Igreja na AL:
6) os presidentes e Secretários Gerais das Conferências
Episcopais dos Estados Unidos e do Canadá e do Conselho
das Conferências Episcopais d. Europa; o Slmpclol6 das Con.
ferênclas Episcopais da Europa; o Slmpclolo das Confer!nclas
Episcopais da Afrlca e de Madagascar, o presidente e o Se-
cretArio Geral da Federação de Conferências dos BJspos da
Asla:

7) os representantes pontificios (Núncios, Delegados


APOStólicos . . . ) na ALô

8) alguns representantes das confissões cristãs que


exercem atividades no continente;
9) vinte e do1s sacerdotes (diocesanos ou regulares)
nomeados pela Santa Sê após indicação feita pelas Conferên.
elas Eplscopats;

10) quatro diáconos permanentes;


11) dez lel8'0s, nomeados segundo os critérios do n' 9;
-393-
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 225/1918

12) OUtras pessoas nomeadas diretamente pelo Sumo


PonUftce.
Serão presidentes da assembléia de Puebla o Cardeal
SebaStião Bagglo, presidente da Pontificla Comissão para a
América Latina; o Cardeal Aloisio Lorschelder, arcebispo
de Fortaleza e presidente do CELAM, D. Ernesto ColTipio
Ahumada, arcebispo da cidade do México. O Secretário Ge.
ral da Conferência serA D. Afonso López Trujillo, bispo auxi.
liar de Bogotá e SecretArio Geral do CELAM.
Vejamos agora

3. Pwblo: etapas prepar.crt6rias e objetivos


3. t . Etopol prcparat6ricn

Os preparativos da m Conferência Geral do CELAM


tiveram Inicio em fevereiro de 1977 na reunião geral de
coordenação celebrada em Medellin. Ficou então estipulado
que, em se tratando de assembléia episcopal, os primeiros a
ser oonsultados deveriam ser os Srs. Bispos; por isto se rea-
lizariam reuniões regionais de Bispos (nas Antilhas, na região
da América Central e do MéxJeo, nos países bollvarianos, no
Cone SUl). com a participação dos presidentes e SecretArias
gerais das COnferénclas Episcopais.

As reuniões assim efetuadas ofereceram denso material


que foi ulteriormente elaborado por comissões de especialis·
tas, os quais assim redigiram um Documento de Consulta
(De) a ser enviado às Conferências Episcopais. Na segunda
qub1zena de dezembro de 1977 tal documento foi enviado a
cada wn dos bispos laUno·americanos, à Santa Sé e a outros
organismos.

Esse Documento de Consulta foi estudado por grupos de


Bispos e sacerdotes, (lue procuraram aprofundá-lo e fOrnlular
suas sugestões a respeito. Em julho de 1978 as contribuições
resultantes das consultas foram utilizadas pela equlpe de
coordenação dos preparativos para. confeccIonar o Documento
de Base (DB), que em agosto e setembro foI finalmente
enviado a todos quantos participarão da Conferência de Pue·

- 394-
A CONFERSNClA DE PUEBLA 35

bla. a fim de que em outubro, reunidos na cIdade de Puebla,


tenham o substrato oportuno pare suas reflexões e debates.

3.2. ObltfJvas

Os objetivos almejados pela Conferência de Puebla dedu·


zem·se do próprio titulo do respectivo tema. Com efeIto,

a) A evangeUzação. . . A tarefa de comunicar aos ho-


mens a Boa·Nova de Cristo será o objeto central dos estu·
dos dos bispos latino-americanos. Aliás, nos últimos anos
toda a Igreja parece estar especialmente preocupada com esse
magno encargo: em 1974, -o Slnodo Mundial dos Bispos teve
por tema cA Evangelizacão do mundo contemporâneo», resul·
tando de seus estudos a Exortação Apostólica. cEvangel1l
Nuntlandi" (Para anunciar o Evangelho), da lavra do S. pa.
dre Paulo VI. Em 1977, o Sinodo Mundial houve por bem
estudar um dOS aspectos mais delicados do mesmo tema, ou
seja, a catequese, com referência especial aos jovens e às
crianças. Ora é de crer que estes dois Sínodos Mundials con·
trlbuirão para Inspirar os trabalhos do episcopado reunido
em Puebla.
b) . . . No momento presente da. Amériea LatiDa ...
A tarefa de evangelizar obrIga os pastores a estudar com
sinceridade a situação concreta dos destinatários da mensa·
gemo Após quatro séculos e meio de evangelizac.ão, hão de
p~rguntar a que ponto chegou tal missão. .. . qual o seu grau
de pr.ofundidade, .,. que circunstâncias 8 favorecem, ... que
obstáculos se lhe opõem, .. , em que proporções se sentem
as populações latino.amerlcanas comprom.rudas com o Evan·
gelho. .. São estas algumas interrogações que deveria me-
recer a atenção dos bispos reunidos em Puebla.

c) . .. E no futuro da América La.tIna. A evangelização


é tarefa que deve prolongar.se em favor das geraç6es vin·
douras. Por isto necessita de ser constantemente reconside-
rada. Não podem os arautos da Boa-Nova contentar· se com
a transmissão rotineira do Evangelho, sem. levar em conta
os desafios dos tempos que mudam. Será 'Preciso Indagar
quais os valores a que serão mais senslveis os homens do
futuro a fún de que sejam uti1lzados como 1'«W'SOS de
evangeJlzacão,
-395-
36 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS, 225/1918

Do estudo destas interrogações e da formulação das


respectivas respostas. espera-se que a Igreja possa exercer
melhor a sua missão no contexto do continente latino-ame-
ricano,
Passemos agora iL anâ.Jise de

4. A temática de Puebla
o .documento dr! consulrn enviado aos bispos da América
Latina era assaz extenso (214 páginas e 1.159 parãgrafos).
Foi objeto de estudos e debates. Duas opiniões a respeito
defrontaram·se: havia. de um lado, os que o julgavam ade-
quado e apto a promover a ação da Igreja na Amê-rica La-
Una, enquanto outros o tinham na conta de «antiquado:...
destoante da posJção adotada peJa Igreja em Medellln.

Os bispos em suas dioceses e as Conferências Episcopais


Nacionais propuseram sugestões diversas a fim de reformar
ou aperfeiçoar o documento. Tais sugestões não são senão
etapas na elaboração de um texto-programa que só atingirá
sua forma definItiva em Puebla. Abaixo apresentamos a sin-
tese do documento-base que o teólogo Frei Clodovis Boff
elaborou em vista de suas reflexões sobre o mesmo:
"A AL ..I' ,'ullmen~ ,..llurIdo I 'Ir_I~" '.,...~' O" ' pa"l9Im'
lMfII o tipo di soclld8de ct"•."ado 'u,blno-Indu.lrlar {2~280). 0'.. o ,llCo
..t' em ela .. modlrla, sobra OI cio. únicos mod,los di IOCIe-cl'~ urbano-
-Industrlll que boi. ,. ofe,ecsm : o 'colltll/Llmo 10"11",10' • o 'capitulamo
eçonOmlc~', Mil a. doi' .10 ·secula,Is..., (234.237). Ora' aqui qUI anlr.
o papal da 11I,.'a: . al\lagu.,dsr a rellglosldlde crlstl dos povos Iltlno-ama-
rlcanOI na. IInlaçAo em CUfltO da uma nO'la sociedade (MO).

Acttm.... lunto com a IndUltrlllluçao, , e6 a unlflçaçlo dos vir lo.


povo. di AL que permlth' a 1111 contlnen.. ,alr da aeu papal ,ubordlnado
e mlllllnll na hlll6,la unl.,er..1 (2415). 0'.. par. 1&1 unlllclçlo a Igrala
raplnlnl. um fllol d, pllmelrfulma Importancla, 41.,ldo Jltlllmanta I cul-
turl prO"'ndamenle crlsla cias popallÇ6•• I.lfno-ame,'çan.. (211). Por 1110,
a ml..l o que la Ipr.,n'a .. Ig,e,a hoje lem uma dlme",lo hl,t6,Ica par-
tlcula, e uma ,llIftlllcaçlo untva"'l' (243, 258, 259. 311), O 'novo ...-vIço',
I 'lmaRla tarlf.' (2159) 41,11 da.1I11 I IgraJa (19), COM." nadl mlll nld.
""no. qua am conduzir a 'Iupe"ilo' (212, 880) da 'grlnda contracUçlo
da I'lOIIO tempo' qua 6 a 'rlglda anemlUva' entrl llberalllmo e cOlet!wl5lftO,
ambOl IteuI. cada um a ..1,1 modo (312). A mendorrada 'IUp8r1çio' ..
ach.rll n.I dl'telo da uma IlI,col,a ulda - ',In lHe nou I genlll' do
'olpll11lo111 • ao ',mporll' ('1$) - .. d. ~. 'ç",,,~,~ 9r!!,I" (~1V. 'ai 6,

-396 -
A CONFElttNCIA DE PUEBLA

portanto, • tanl" bl.!6tlca d. 111'1" na AL d, fIol. : '&Ir Igrola .nlmador.


da nova clvlllzaçlo: • clVlllz'ÇIO do .mo,' (123, clt. P.ulo VO".

Frei Clodovis SOU, autor da sfntese, nota:


"Reconheçamos Que • perspectlv. acima llboçld. nlo & Cllrente da
grandeza. E • tarale da Igreja lO apresenta c:omo realm,nto exaltaola.
Sa,l. um. c:ontrlbulçlo qua marc.rla dav.,.. • história "nlv.,.... a que
mudaria . p.ls.gem .Iuat do mundo" ("A lIualo de um. nO'la C,lstandad."
em REB, lase. 1049, março 1978, p. 7).

Frei Clodovls julga que tal perspectiva sugerida pelo


documento de consulta é lnvaUdada pelo fato de propor a
volta ao regime (tido como ultrapassado) de Cristandade, ou
&eja, de implantar;ão de uma ordem social cristã e de nova
civilização cristã. Tal ideal seria anacrOnlco; por conseguinte.
toda a programação concebida em vista do mesmo seria des-
propositada (opInião esta que nos parece radical e extre-
mada).

Não há Interesse em diseutir aqui o documento de con-


sulta e as criticas a ele feitas, visto que não são senão fases
de processo que já está quase no fim e cujos resultados estão
sendo aguardados para o mês de outubro pr, O que importa
80 povo de Deus lat1no·amerJoeano. é pedir ao Senhor queira
llumlIta.r os seus bispos e teólogos a fim de que nas próxi-
mas semanas e em Puebla (12.18/10/78) consigam dlscer·
nir o plano de Deus a respeito da AL e elaborem dlretrlzes
aptas a promover a vivência do Evangelho e o Reino de
Deus. em nossas terras!

AP~NDICE

Abaixo apresentamos um quadro que define o número


de sacerdotes, seminaristas e Religiosas no continente latino·
·amerlcano. COnfirma as palavras do Senhor, segundo as
quais c8 messe é grande, mas os operàrios do poucos»
(Mt 10,378); esta averiguação, que se constitui em sério pro·
blema para os fIéis oatóUCO$ do nosso continente, exige dos
mesmos o empenho de suas preces e de seu trabalho em
tavor do aumento das vocações aos minIstérios ecleslAsticos.

-397-
... 'AIS OU COHnltNo"
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I I
I 204 839 7.019 I
I I -I 1-1-
I 16 I 0483 I
1
2
3
Antilhas
Argentina
Bcllvla I 217
843
I 2.304 2.775 1 5.079 5.018 I
605 822 6.671 I 187
51
636
I
1.115
I 12.530
1.605
I 5&
I 18
I'...
434
4.964.000
25.720.000
5.790.000
.
,

I
6.000.000
30.107.000
6.....000
4 BrlSlr . 5.146 7.545 12.691 I 8.546 I 2.267 / 38.517 I 217 I 6.035 109. 180.000 I 125.5C3.000
5.130 I 4.662 I 1.259 I 58 I 2.300
5 CoI6mbla 3.070 2.060
I 18.123
'I ,.S
24.718.000 I 33.6~1.ooo
2.9061 .000

6 COSIa. FIIce. 257 126 363 5.053 / '03 S85 / 2.010.000
7
8
Cuba
Chile
104
732
94
1.308
198 ' 46.600
2.038 5.157
69
I 44'
206
3.581
6
2S
227
7.4
9.528.000
1<1.450.000
11.019.000
12.540.000
9 Equador 593 758 1.351 04.635 '57 8.074 22 97' 7.305.000 I a.473.ClOO
10
11
12
EI Salvador
Guatemala
Halll
19S
191
199
201
475
204
I
394
766
403 I
9.609
7.510
12.254
II 1S
24'
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1.011

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4.110.000
6.260.000
4.584.000
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5.907.()(Y.)
8.103.000
5.9-88.000
13
14
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6.819
136
2.581
220
9.380
7.703
6.8-48
23
2.651
31.
23.3n

69
163
3.288
3.040.000
62.329.000 II 3.5-57.000
67.2.88.000
15 Nlcar'gua 107 18-4 291 7.483 48 890 6 173 2.330.000 3.!J.47.000
16 Panam6 71 194 265 6.422 34 429 8 127 1.720.000
l 2.254.000
17
18
19
P.aragual
Peru
Porlo Alco
171
860
222 I
267
1 1.370
465
I •. I
.
438
230
687
5 .638
6.940
" .252
88
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94
802
4.395
1.405
11
42
5
/

I
23.
1.172
240
2.720.000
16.090.000
3.120.900
4.121.<100
21 .612.000
4.1):00.000
20 Rap. Demlnlcan8 108 I 394 I 502 I 9.735 129 1.276 6 I 190 4.840.000 6.3.00.000
21 Uruguai 2D6 I 395/ "" / " .992 47 1.432 10 I 216 3.100.000 3.377.000
22 Ve nal.uela 847 I 1.245 U92 6.058 206 3 .~ 21 I 903 12.361 .090 17.546.000
I I I I
No cinema:

"contatos Imediatos do terceiro grau"

Em almu.: o !lime "Contatol Imediatos do lercelro grau" partenco


*' cat.goria da IIcçlo clenllllca. Apresenta a aproxfmoçlo a a atarrllUgem
de uma nave espacial, que proVôea grande IIpanto antra OI homena pelos
fenOmenos sinistros alll,lm desenead.edot, m.. que Ilnalmenle • portadora
de mensagem da paz. Os homens da la"a chagam a embarcar... nela.
Assim o IIIme pretenda tranqúlffzar o póbllco a raspallo de habltant.a eM
outro, planelu. Todavia o anrado de ··Contatoi Imediatos do 'arclliro grau"
6 menQ3 rico em menlagem do que o da '·2.001. Odla"la no eapaço"; asla
filme abordava queall5a, fundamenlala relaUvas *' origem e *' vocaçlo do
homam a..lm como no locante ao problema "~omem li m'qulrta".

"Contltos Imediatos . .. " lembra o " mlsí6rlo·· do TrlAngulo das Ber·


muda ou do Diabo, axcltando aentlmenlos e amoçOeI corroboradas pela
grendlo,ldade de luaa cenal e a belaza do seu colorido a do sau som.

• • •

Comentário: Está em voga o tume ..Contatos Imediatos


do Terceiro Grau. de Steven Spielberg, atraindo multidões
de diversas capitais do Brasil e do mundo. As razões peJas
quais este fasclnio se exerce, são diversas. merecendo, sem
dúvida, a atenção dos estudiosos. Eis por que abaixo dedl·
caremos algumas reflexões à referida pelicula.

1. O entedio do filme
A pelicula abre.se no deserto de Sonora (México), onde
alguns exploradores mllltar!S examinam aviões IA abandona·
dos em 1945, tendo desaparecido os respectivos pUotos.
A seguIt", em Municie (Estado de Indiana, U .S.A . ) apa·
nce um menino de quatro anos de idade, chamado Barry,
que percebe a presença de fenômenos estranhos em sua casa
e nos aiTedons: luminosidade. ventanias, arremessos de
utensUlos domésticos, abalos de móveis, etc. O seu pai Roy
- 399-
40 ... PERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 225/ 1978

é eletricista; envlam·no a examinar as insta.lações elétricas


de Wyonúng, onde falta luz em conseqUência de desabamento
de cabos. R()y dirige-se s() local, mas em viagem é acome-
tido peJo estranho tenOmeno de luminosidade, ventanias, ruldo
de motores, pânico em tomo de si. .. Tais fatos preocupam
Roy, que começa a ter a Intuição de Um bloco de rocha, em
lonna de torre, que para ele deve ter alguma signllicação.
Desenha e talhn W bloco, levado pela pe~pçAo (telepática!
. extra.sensorial?) do mesmo. Um belo dla. a televisão dá
noticia de derramamento de gás venenoso na região de
Wyomlng. onde existe a famosa «Torre do Diabo~ (bloco
maciço de rocha) . Roy para lã se dirige com a sua esposa ...
O menino Barry desaparecera, arrebatado pela (Inda dos fenO-
menos estranhos ...

o Governo nort@.amerlcano, n~ região da Torre do Diabo,


construlrn uma enorme estacão receptora dos discos voado·
res e de sew tripulantes, cuja presença nas imediações da
terra tora captada por técnicos. Queria estabelecer contatos
com tais seres extra· terrestres mediante sinais musicais, que
o engenheiro francês Lacombe estipulara reproduzindo me-
lodias indianas. TodavIa as autoridades mUitares desejavam
afastar () povo da referida região; por isto é que anunciavam
envenenamento da atmosfera local. Roy, porém, e sua esposa,
juntamente ~m nUmerosos populares. acorriam â. Torre do
Diabo, cujo acesso era severamente vedado. Enfrentando to·
das as ameaças, Roy prova que o ar não está Infeccionado no
lugar (tira a mAscara anti.gás) e decidldamente põe·se a
galgar a montanha «Torre do Diabo, com sua esposa. Che-
gando ao cume, tem a visão de bela estação espacial, onde
os engenheiros se preparavam para recepcionar uma nave
espacial prestes a aterrissar. Esta desceu realmente ao solo;
dela desembarcaram pilotos e oficiais desaparecidos desde
decênios (haviam sido levados por discos voadores) assim
como o menino Barry; o contato mediante sinais musicais e
luminosos fof efetuado... Em conseqüência do bom relacio-
namento travado, embarcaram na nave espacial diversos ho·
mens, inclUSive o eletricista Roy ...

Assim se termina o enredo, que. em ultima instância,


parece significar que, embora os: discos voadores sejam à
primeira vista terriflcantes, nada há de se temer da parte
de seus tripulantes; haveria mesmo possibilidade de entendi·
mentos ImJgâvel$ entre seres terrestrH e enra.-terrestre,s,
-400-
cCONl'ATOS IMEDIA1'OS DO 3' GRAU:. 41

o filme, de modo geral, é Impressionante tanto pelo &eU


enredo original COJ1l() pela riqueza. de suas cores e seus S()ns.
A menr;ão da «Torre do Dlabo:t contribui para avivar, talvez
subconscJentemente, 0$ senUmentO$ ào públko Já despertados
por fllmes como cO Exorcista:., cA Profecia» e outros. Além
disto, pode·se observar uma alusão ao Triângulo das Ber·
mudas tanto pela referência a Fort LauderdaJe como pelo
desaparecimento (e reaparecimento) de oficiais da Marinha
e da Aeronáutica, que assinalam o inicio e o fim do lUme.
Sabe-se que na região do Caribe, também chamada cMar do
Diabo:t e cTrJingulo da Morte:t, têm ocorrido graves desas.
tres de avIação e de navegae;áo, não se encontrando vestlglo
dos trlpulanres e passageiros actdentados. O pãnlco que tals
desastres têm suscitado no público, leva alguns estudiosos a
supor que as pessoas assim desaparecldas hajam sido rapta·
das por habitantes de outros planetas em excurs6es à terraj
cf. PR 224/ 1978, pp. 335·347.
Perguntamo.nos: que dizer a respeito de tais proposIções?

2. Habitantes de outros planetas


A hipótese de existirem habitantes em outros planetas e,
por conseguinte, naves espaciais fabrlcadas pelos mesmos não
entra em choque com a mensagem do Cristianismo. A rigor,
Deus pode ter crJado seres inteligentes adaptados às condi-
ções de vida de outras regiões do universo; o primeiro pen·
sador cristão que tenha fonnulado esta hipó~se, data do
século XV : é o cardeal Nieolau de Cue na sua obra. cDe
docta 19norantJa:t (1440) : afinnava (na sua linguagem Im-
precisa) não haver uma estrela da qual estejamos autoriza-
dos a excluir a existência de seres hwnanos, 'POr multo dIfe-·
rentes que sejam de nÓS. Foi, porém, no skulo XIX e no
&éculo XX que tal tese tomou vulto entre os teólogos: dizem
alguns que é conveniente a existência de seres inteligentes
esparsos pelos outros sistemas solares, pois tela criaturas
prestariam homenagem ao Criador em nome do enonne nú.
mero de estrelas e planetas que são incapazes de reconhecer
e glorlfJcar o Oiador.
Caso alguém admita a existência de homens extra-ter-
restres (hipótese esta que só a ciência pode elucidar, pois a
f~ ~I.Q .. promUlc!' , .-..peito), mtom aborta algum..

-401-
42 c:PERCUNTE E RESPONDEREMOS~ 225/ 1978

questões para as quais não temos resposta: esses homen.s te-


rão sido chamados à filiação divina -como nós, habitantes da
terra? Terão sido submetidos a uma prova originai? Have·
rão dito Sim ou Não ao Criador? Em Ç8SQ de Nio, terão
sido redimidos como nós fomos resgatados pelo sangue do
Fnho de Deus? Todas estas indagações (que nos levam longe
no plano das hipóteses) ficam fora do alcance da Revelação
que Deus nos fez; por conseguinte. perderia tempo quem lhes
quisesse dar resposta. Em qualquer hipótese, porém. deve-
reQlOS reconhecer que

- OS hipotéticos habitantes de outros planetas são cria-


turas do mesmo Deus que nos fez. pois não hã senão um
Deus, soberano Senhor de tudo o que existe;
- tais homens devem ter congênita a mesma lei natu·
ral que trazemos nós,. .. lei colO preceito bãsico é: ePra~
tJca o bem, evita o mal.. Esta nonna fundamental se des·
dobra em outras: eNio mates,. eNão roubes., eRespelta pai
e mãe" etc.
Todavia quanto ao tipo fisico, qua.nto ao grau de lnt(!-
ligêncla e eultura. e quanto à Indole moral de tais criaturas,
nada em absoluto podemos afirmar de seguro. Ê tà ciência
qu~ toca dizer a primeIra palavra 8 respeito, logo que tenha
algum fundamento para tanto.

3. S.res desencamodos e reencarnados?


Em parte, o Interesse do público pela temâtica dos dis-
cos voadores é alimentado por correntes esplritas, que Iden·
Uflcam os seres extra-terrestres com espiritos que, tendo
vivido na terra, se desencarnaram e foram reencarnar·se
em outros mundos. Aparecendo a nós, esses irmãos estariam
procurando ajudar·nos. Como expressA0 desta tese, existem,
entre outros, os Uvros de Chico Xavier, tidos como resultado
das crevelações» de Ramatfs. - Na verdade, esta posição ê
arbitrária ou destituida de fundamento. A hipótese da reen·
carnação carece de provas em seu favor; os casos de eregres-
são à. vida anterlor~ e Os fenômenos psicológiCOS geralmente
aduzidos em prol da reencarnação, são suficientemente expli.
cados pela parapsicologia como expressões do psiqulco do
paçlente Influenciado por fatores dB própria vida terrestre.
-402 -
«CONTATOS IMEDIATOS 00 3' GRAU» 43

Aliás, quem lê a bibliografia cpsloografada. atribulda a habl·


tantes de Marte. encontra ai a expresoão da lmaginaçlo
crlativa e, às vezes, contraditória dos próprios médiuns.
Quanto ao Triângulo das Bennudas ou do Diabo, 08
estudi0905 e cientistas não vêem necessidade de recorrer ao
Além para explicar os desastres marltimos e aéreos nele ocor-
ridos; a inclemêncIa do mar, dos ventos e da atmosfera, assim
como a lmpeIicla dos navegantes são suficientes para elucidar
os nústerlosos casos. ApeS8l' disto, o púbUco em geral se im·
pressiona tom as explicações fantasistas que têm sido forjadas
para o caso, pois, como demonstra a psicologia, existe em
todo homem o gosto do sensacional e até mesmo. . . do tri.-
gico. Cf. PR 224n978. pp. 3468.

4. O. livro.... Eridl ••n Dãnl"'n •..


A opinião pública éStá motivada para debater fUmes
como «Contatos imediatos ... :. tamlrem por causa das obras.
muito divulgadas, de Erlch voe Dãniken: «Eram os déU8eS
astronautas?-, cDe volta la estrelas:., «Aparições.... Ora é
de conhecimento públioo que Erich von Dãniken não é um
cientista, mas um viajante que colecionou dados arqUéOl6g:I.
cos e construiu sobre eles urna série de hipóteses .fantas~
tas; estas incluem discos voadores e comunicações com seres
extra-terrestres de alta inteligência. Todavia Erich von Dini-
ken nem sempre foi honesto; lmaglnou e falsificou documen.
tos para fundamentar suas teses,. e por Isto foi processado
em tribunais, tendo tido, em conseqüência, que pagar eleva·
das multas. Veja-se a revista «Realidade:., outubro 1973.
pp. 92-95 e PR 210/1977. pp. 256-268.

. O fllme «Conta tos imediatos ... ~ talvez faça eco anti~.


tico à tese de E. von Dãniken no seu livro «Eram os deuses
astronautash. Com. efeito, na pelfeula os cinco sons que ser-
vem à comunIcação entre os homens da terra e os do espaco,
são os mesmos da melodia dos Indianos que aparecem a
certa altura do enredo. . . Ora OS astronautas que respondem
a tais sons, evidentemente nio são deuses, mas 810 homens.
Steven Splelberg houve por bem frisar, no seu enredo, que
os astronautas nada têm de transcendental ou mlsUco.
-403-
44 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS' 225/1978

5. Conclusão
Refletindo sobre o filme cContatos imedJatos ... ~. veri·
flca·se que é rJco em recursos técnicos, coloridos e sons; o
mesmo, porém, não se pode dizer no tocante à sua mensa·
gemo Qual seria esta? - Cremos que poderia ser entendida
como tentativa de desrnltiflcar o tema chabltantes de outros
planetas». mostrando que estes nada têm de transcendentaJ
ou mistlcoi ao contrãrio, são criaturas capazes de entrar em
comunicação amigável com os habitantes da terra, a ta)
ponto que os homens telúricos poderãCJ viajar e conviver
com eles.

o filme em foco tem sido comparado a c2 .001. Odis·


séia no espaço~. que fez grande sucesso. Cremos, porém, que
esta outra pellcuJa é portadora de mensagem multo mais
expres.s1va e importante do que a de cContatos imediatos ••.••
Sim i cQdlsséla . .. :t propõe a Divindade presente ao homem
desde os albores da história até o momento da morte de
cada um, servlndo·se para tanto de um monolito negro, que
atrai e fascina o homem ao mesmo tempo que lhe Impõe
reverência." Mais: cOd1sséla» apresenta bem o problema da
luta da mAquina contra o homem, luta na qua1 os robôs
tentam superar o seu pr6~rio artífice humano.
Todavia cContatos Imediatos ... :t vem obtendo grande
êxito, porque, de algum modo, fala do desconhecido e do
misterioso. Ora todos nós tomos feitos para algo de major
do que aquilo que vemos e conhecemos; tomos feitos para ()
Infinito, () Absoluto ou Deus, de tal maneira que tudo o que
nos faJa de mistério toca de perto a nossa senslbUidade reli·
giosa ou m1stlca. Assim «Contatos Imediatos .... pode ser
tido como mais um dos filmes contemporâneos que indireta·
mente despertam o senso religioso ou místico existente em
todo homem.
Eotêvio BeUenoourt, O . S . B.

- 404-
" FELICIDADE 1 " . 11 POR AQUI'"

NÃO SE INCOMODE SE FICAR PDA OLTIMO,


PORaUE TODO O QUE PASIAA NA. 8UA FRENTE,
VAI DIZER " OBRIGADO" E DAR·LHE UM BOM 80RAISO •• •

E QUANDO. ENFIM. vOCI CHEGAR. DEPOIS DE TOD08,


CONDECO ..... DO. ILUMINADO DE aORA'SOS RECEBIDOS.
vERi QUE' OS OUTROS ESTARia J.. SUA !SPEAA
P'RA QUE VOCI ENTRE ,.IIMEIRO'

(ext,aldo de "Mensagalro do Coraçlo de Jesus". n9 931.


abril 1976. p. 181)

livro em estante
Sacramento da Panlt'ncla. O patdlo de Deus na comunldMla ec,"t.t.
por MArio de França Miranda. Coleçlo "Teologia o I!Ylngetlzaçfo" -11.
- Ed. Loyolo 1'978. 141 x 210 mm. 100 pp.

o Sacramento da Penltlncla • o que mal, .ollel" a pMloe humana;


por Ilto .ambtm • o que mal. dIficuldade. pode causar 1'18 paltora' da
tgreJa. No perlodo pós-conclllar, Y'rlos rumo," foram levl.namente dlfu~
dldOl a seu re.pelto, a" que em 1972 a Santa SI eltaboleceu daflnltlva-
me:'!!e ., nova. modaJtdade. da admlnl.tra-Io. o..ta•. duu alo onllnl.rl.. :
11 a conflsslo autlcular e a rec:oncl1laçlo em quadro ..trltamonle ..creio;
2) a confbslo auricular e a rec!)nclllaçlo am quadro comunltirk). Hi
alllda uma terceira modalidade, eJllraordlnArla ata, oeVundo a qual o
:>acordote dA a abao lvlçlo geral a um grupo de n61. em clrcunattnclas
oapecla'a (que aumenle ao Bispo diocesano compele av.lI.r), ficando OI
pe"U.nles obrigados .. conflsslo auricular dOI pecados abllolvldOl dentro
do pr.lo da um .no.

ê: aObro e.le lundo de cena que vem a lume o livro do Pe. França
Miranda S. J .• jovem 116[ogo. dlsclpulo de Karl RaMer. & obra da grande
profundidade, que aborda variado, •• pacto. 1.ol6glcos • putorelo do
Slcramellto da reconcll1aç'o, guard.lldo plena lldelldada ao pensamento'
pecedo qua 14111' .. morta" (I Jo 5,le) *
da IgraJo. Chamarlamoa a .tençlo p.ra as lUIS ponde,e~ .. aoore "O
p. 22, sobra • nactuldlde de
confinA0 Integra e IndivIduai la pp. 151-72, bam como a .... pelto da con-
lisalo 'raqQenta : da maneira sabia, o autor moatr. o sentido desta pratIca.
aInda que "Ao l uponha pacedol morialo: o Pe. r:'lnça Mlfllnda noa dll enllo
texlualmente:
"Por que "'O poderiam ser certu laIt'I, laves aol nossoa olhos. o
eco IonVlnquo da um egolamo de base 7 Por que do podaria aar um.
certa IlIdlferença na ylda cristA O alnll de um. IIId1lerença prolunda com
refaç'!) a Oeua? Nestes casos terlamos o que chamamo. da pecado grave.
E. cemo todos comatemos pecados yanlal •. devamo. lemer pelol frutoa do
nosso cor.clo, que nlo 1110 os frutos do "plrlto. logo. dlstlnçAo le6rlca
O'llre oacado oraya o pecado yonlal ,evelBoSa manos cla" em nlval ex.·
renclal : devemo. portanlo continuamente recorrar ao pardlo dlYlno, I.n-
ça.,do-lIol à sua misericórdia, pol. noss••• I.... çlo , .. condlda • ulé
~emp'e ame.çada" (P . i8).

S6 podamos ag rlldecer ao PII. França MIranda o teu b:l1hant. a.tudo


a rll comandé-Jo ao publico.
MENSAGEM AOS JOVENS
SE . • ,
(Ccm Ilc.nç. de KlppllnSl e d. outro. SE',)

Pe. H6ber Sllvador di Llml, S . J .

SE voe' PRECISAR DE DESCANSO,


NÃO DESCANSE MUITO MAIS QUE o NECESSJ.AIO.
PORQUE nARO PARADO ENFERRUJA,
AaUA ES'TAQNADA APODRECE . •.
f, AL.éM DI8S0, TALVEZ MAIS TARDE FALTE TEMPO
P'RA TERMINAR A TAAEFA DA EXISTêNCIA.
E I! TRAGICO DEMAIS MORRER INACABADO.
SE voeI: FOR Al.EGA E E FEUZ,
NÃo RIA AI.. TO DE MAIS,
PARA QUE SUA GARGALHADA
NÃO VÁ lORHAR MAIS DOLOROSO
o GEMIDO DE ALOUtM. NA CASA AO LADO.
SE, NAS ODRES, voeI! SOLUÇAR,
FAÇA.O BAIXINHO, BEM NO FUNDO, BEM LA DENTRO,
PARA NÃO APAGAR ALGUM SORRISO
NO SEMBLANTE DE ALGUtM, NO ANDAR DE CIMA.

SE voeI ESCORREGAR NA ESTRAD'A DA EXIST(NCIA


E AT! MESMO CAIA MAIS DE UMA VEZ,
NÃO FIOUE DEITADO NO SOLO CLAMANDO o
DESTINO,
PORQUE LHE FALTA AINDA MUITO CHÃO,
MUITO CAMINHO PARA ANDAR
E, ALtM DISSO, vocl! SO VAI ATRAPALHAR
A PASSAGEM DOS OUTROS,
QUE PODEM TROPEÇAR NO SEU CORPO CAlDO ..•
e, SE e TRISTE CAIA, MUITO MAIS TRISTE AINDA
li!: ARRASURMOS ALQutM NA NOSSA CUEDA.

SE ALGUM DIA, TALVEZ, voeI! PERC'!R A LINHA


E DER VAzlo AO GRITO. A COLERA, A. REVOLTA,
COM GANAS DE QUEBRAR O MUNDO A SEU REOOR,
NÃO ARREBENTE TUDO, AMIGO, POR FAVOR,
PORQUE, ATIl4S DE VOC~, VEM MUITA GENTE AINDA,
QUE DESEJA ENCONTR AR o MUNDO INTEIRO E BELO.

SE vocl. ENCONTRAR UMA SEMENTE OU MUDA


DO RARO ARBUSTO DA FEUCIDADE,
NiO VA PLANTA·LO EM SEU QUINTAL TODO CERCADO,
MAS SIM AO LADO OE UM CAMINHO. FREQOENTADO,
PARA QUE "mITOS POSSAM DESCANSAR A SUA SOMIRA
E COMER OS SEUS FRUTOS,
SEM PAGAR I

MAS, SE ENCONTRAR APENAS O CAMINI-IO


QUE LEVA A ESSA j,RVORE BENDITA,
NI0 VA POR ELE SOZINHO,
MAS FIQUE BEM A ENTRADA DELE
COM UM BRAÇO ESTENDIDO, ASSIM ... COMO UMA R.EXA,
APONTANOO E D1ZENDO:
(COnUnUII na 3' c.p.)