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O discurso comunista mudou muito ao longo dos tempos.

Começou declarando que a classe


revolucionária, incumbida de destruir o capitalismo, era o proletariado industrial. Desde Herbert
Marcuse, acredita que os proletários são uns vendidos e que a tarefa de transformar o mundo
cabe aos estudantes, prostitutas, bandidos e drogados (e, no Brasil, aos funcionários públicos,
que Marx considerava aliados naturais da burguesia). Começou proclamando que idéias e
doutrinas eram apenas um véu de aparências tecido em cima do interesse de classe. Decorrido
um século e meio, admite, com Ernesto Laclau, que as classes nem mesmo existem, que são
criadas pela propaganda revolucionária conforme os interesses do Partido no momento.

É difícil debater com gente que muda de conversa cada vez que a discussão aperta.

Mas uma coisa é inegável: a mentalidade comunista, que no início era um bloco dogmático de
idéias prontas, foi se tornando uma trama obscura e proteiforme, um labirinto móvel de
subterfúgios e desconversas, quase impossível de descrever. Na mesma medida, a adesão ao
comunismo, que era a aceitação pura e simples de um esquema explicativo prêt-à-porter, foi se
transmutando num processo psicológico complexo que se parece menos com a crença numa
“ideologia” do que com a contaminação neurótica numa massa turva de sentimentos confusos.

Esse processo reflete a adaptação progressiva do movimento comunista a situações culturais


criadas pelo descrédito intelectual do marxismo originário e pela necessidade de substituí-lo por
novas versões cada vez mais escorregadias, imunes à crítica racional.

Ao longo desse processo, a propaganda comunista, que no início era propriamente uma
“doutrinação”, repetição obsessiva de teses dogmáticas, foi se transformando cada vez mais num
envolvimento emocional sem conteúdo doutrinal explícito, inoculando nos militantes menos
uma concepção do mundo que um sentimento de participação comunitária fundado no ódio a
entidades cada vez mais vagas e menos definíveis.

Em vez de perder credibilidade, porém, o discurso comunista ganhou força com isso,
precisamente na medida em que já não é mais um “discurso” em sentido estrito e sim um
aglomerado de símbolos de grande penetração emotiva, muitos deles não-verbais, que apelam
por igual às frustrações e ressentimentos mais disparatados, unificando, por incrível que pareça,
o ódio de feministas e gayzistas à moralidade religiosa tradicional e a hostilidade
fundamentalista islâmica ao imoralismo decadentista das sociedades ocidentais. A coerência do
discurso ideológico já não importa mais: só o que conta é a sedução, infinitamente adaptável aos
interesses mutuamente contraditórios dos grupos sociais mais diversos, todos mesclados numa
atmosfera emocional difusa onde todos os gatos são pardos e todos os pretextos são bem-
vindos.

Por isso mesmo, a mente dos comunistas individuais, especialmente daqueles que atuam
publicamente como “intelectuais”, foi se tornando cada vez mais complexa e inapreensível, suas
falas cada vez mais elusivas e escorregadias, ao ponto de que suas opiniões já não podem ser
“discutidas”, apenas analisadas como sintomas de um estado de espírito nebuloso que elas não
expressam diretamente, apenas insinuam por entre sombras, como na linguagem dos sonhos.

A coesão de um discurso pode ser interna ou externa. No primeiro caso, as partes estão unidas
umas às outras por um vínculo lógico. No segundo, pela referência a um conjunto de fatos ou
coisas reconhecíveis. As duas formas de coesão podem vir articuladas, quando a coerência
interna do discurso busca refletir com fidelidade um conjunto de relações objetivas.

Mas há ainda uma quarta possibilidade: o discurso nem é coerente consigo mesmo, nem reflete
adequadamente uma realidade, nem articula essas duas exigências, mas continua exercendo, ao
menos sobre certo público, um efeito persuasivo como se realizasse perfeitamente, e
simultaneamente, as duas modalidades de coerência.

Isso acontece quando, sob a aparência de defender idéias ou expor fatos, ele não faz realmente
nem isto nem aquilo, mas expressa apenas o sentimento de identidade do grupo social a que se
destina. Como aí as idéias e fatos já não interessam por si mesmos, mas apenas como símbolos
evocadores de certas reações emocionais, tudo o que o discurso precisa para que o aceitem
como veraz e coerente, sem ser uma coisa nem a outra, é usar os símbolos corretos, capazes de
despertar automaticamente as respostas instintivas desejadas. Para isso, evidentemente, esses
símbolos têm de ser de uso geral e corrente no público-alvo: têm de ser lugares-comuns,
chavões, frases feitas, clichês.

Uma linguagem de clichês pode ser usada deliberadamente, com arte e técnica, por um
demagogo ou propagandista hábil, dominador dos meios de manipular as emoções do público.
Mas também pode acontecer que, usada em excesso, ela se dissemine ao ponto de usurpar o
lugar das outras formas de discurso, tornando-se o linguajar geral e espontâneo, o modo de
pensar de todo um grupo falante, de toda uma coletividade de “intelectuais”. Neste caso, a
intenção de manipular torna-se praticamente inconsciente, o que era demagogia torna-se uma
forma de inocência perversa cujo praticante já não pode enganar os outros senão na medida em
que se engana a si mesmo. A mentira deliberada desaparece do horizonte de consciência e se
transmuta em fingimento histérico, constantemente reforçado pela autopersuasão compulsiva,
em que a falsidade absoluta dos pretextos alegados contrasta pateticamente com a intensidade
real dos sentimentos que despertam. O processo culmina num estado de completa alienação,
em que vidas inteiras se constróem sobre a ignorância radical das condições objetivas que as
fundamentam.

Quanto mais vasto o grupo social envolvido nesse jogo de teatro, mais vigoroso o reforço que
cada um dos atores recebe de seus pares. Na mesma proporção, vai-se ampliando a permissão
para a prática costumeira da incoerência e da falsidade, até que todo resíduo de compromisso
com a razão e os fatos seja por fim abolido, trocado pela intensificação crescente do sentimento
de identidade grupal, que a essa altura passa a valer como o único critério de veracidade
concebível.

Não é preciso dizer que esse sentimento, na medida em que se intensifica, fortalece a coesão e a
capacidade de ação unificada do grupo envolvido, resultando, por vezes, em acréscimo do seu
poder político. Assim se explica o paradoxo aparente de que, ao longo do século XX, os grupos
mais intoxicados de idéias inverídicas e absurdas – os comunistas e os nazistas – saíssem
freqüentemente vencedores na disputa com adversários mais sensatos e realistas. Invertendo o
otimismo inaugural da modernidade, que pela boca de Sir Francis Bacon proclamava
“Conhecimento é poder”, a evolução dos acontecimentos mostrou que, se esse slogan continua
válido no campo da ciência, da técnica e da indústria, na política a ignorância, a inconsciência e a
loucura são armas nada desprezíveis – e isto não apenas no sentido banal de que a sonsice das
massas pode ser manipulada por um demagogo esperto, mas no sentido mais temível de que o
manipulador pode ser tornar tanto mais eficiente na medida em que ele próprio é ignorante,
inconsciente e louco.

No Brasil, o fenômeno de alienação aqui descrito se apossou de praticamente toda a


intelectualidade esquerdista ao longo do processo mesmo da conquista da hegemonia e do
poder pelos partidos de esquerda, o sucesso político reforçando a loucura ao mesmo tempo que
se beneficiava dela.

Há muitos anos não leio uma só linha escrita por intelectual de esquerda neste país onde não
note uma linguagem de chavões auto-hipnóticos substituindo e abolindo as exigências mais
elementares da razão e do senso de realidade. Os exemplos são tantos e tão onipresentes, que a
única dificuldade em colhê-los é o embarras de choix. Em compensação, eles se parecem tanto
uns com os outros, a uniformidade psíquica que os inspira no fundo é tão patente e repetitiva,
que examinar um deles é, de certo modo, dar conta de todos eles.

Em artigos seguintes desta série examinarei com certa minúcia um desses escritos, tomado
como amostra de laboratório. Ele não se distingue em quase nada de seus similares que circulam
às pencas pela mídia impressa e pela internet. Escolhi-o por duas razões apenas: (1) É texto que
alude à minha pessoa, o que me facilita a averiguação dos fatos por testemunho direto. (2) Ele
manifesta de maneira especialmente clara o estado mental da intelectualidade esquerdista, por
ter sido escrito por um dos membros mais tipicamente burros e loucos da comunidade, o sr. Caio
Navarro de Toledo.