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A Revista do Expresso

EDIÇÃO 2447
21/SETEMBRO/2019

EspecialModa

Billie
Eilish,
Quem
+
Matteo Salvini
O populista A estrela pop do momento falou
é ela?

ao Expresso sobre a ameaça das


Monges da Cartuxa alterações climáticas, a opção
O silêncio vegetariana, a importância da
família, a armadilha da depressão
Piotr Anderszewski e a liberdade da moda. Tem 17
O pianista anos e é o retrato da nova geração
Por Mário Rui Vieira

© Todos os direitos reservados. A cópia ou distribuição não autorizada é proibida. Ficheiro gerado para o utilizador 1557312 - franciscops@netcabo.pt - 172.17.21.101 (21-09-19 02:51)
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PLUMA CAPRICHOSA

O DEBATE NO OÁSIS

M
ESTAMOS AQUI PARA SERVIR OS CLIENTES
E NÃO PARA PENSAR. ESTAMOS NO OÁSIS

ais de dois milhões e meio viram construídos. E o impacte ambiental? Será “mitigado”. Como é que se
o debate. O presumível choque mitiga o impacte ambiental? Com “medidas”, evidentemente. Vamos
de titãs do dia, para animar passar a ter dois aeroportos a poluir o céu de Lisboa.
as vidas, a necessidade de Costa também não conseguiu explicar a razão por que muitos
encontrar um vencedor. portugueses, jovens, continuam a fugir de Portugal, preferindo
Nada de essencial separa a incerteza no país do ‘Brexit’ a um futuro num país de velhos e
António Costa de Rui Rio. O que reformados, onde as pensões serão pagas pelos filhos que o casal
se observou foi uma conversa estatístico não tem. E meia dúzia de imigrantes que não desistam. Costa
civilizada entre dois gerentes assegurou a sustentabilidade da Segurança Social por 22 anos. Alguém
desta empresa em perpétua ânsia pode levar a profecia a sério? Como é possível prever, com as crises e
de breakeven chamada Portugal. as alterações climáticas e o custo fundamental para as economias, a
Dois homens de meia idade, amaciados pela maquilhagem HD, um sustentabilidade a 22 anos?
bocado cansados das andanças, embora um esteja mais fresco do que o A propósito de alterações climáticas, o país continua a discutir a crise
outro. O primeiro-ministro parecia condescendente com o adversário dos combustíveis muito mais do que novas soluções de mobilidade,
e farto de apresentar as mesmas explicações, ou seja, as continhas do uma nebulosa de mais “medidas” que não chegam a ser enunciadas. Os
défice e os números heroicos do nosso desenvolvimento e superioridade. comboios portugueses são o que são, o TGV agora chama-se trem de alta
Ninguém em seu perfeito juízo lhe invejaria o cargo, uma sinecura mal velocidade, e continuamos sem um, Lisboa e Porto são ligadas por aviões
paga e ingrata que só os admiradores das liturgias do poder e da guerra e automóveis com uma formidável pegada de carbono. Demoramos
de tronos (e os videirinhos adjacentes) podem achar remuneratória. Rio hoje a chegar ao Porto tanto tempo como há 20 anos. Em compensação,
estava mais fresco, a oposição não o mobiliza tanto como o Governo e temos autoestradas e portagens que enchem os cofres do Estado e das
sabendo de antemão que para o governo não irá, tem margem para dizer câmaras municipais com os proveitos do estacionamento, razão pela
umas verdades. Costa surpreendeu-se com a vivacidade do outro, e não qual os carros nunca serão retirados das cidades. O tema é tão antigo
resistiu, Costa sendo Costa, a um golpe baixo a propósito da Justiça, como o objetivo de repovoar Lisboa, sabemos no que deu, na expulsão
único tema em que Rui Rio demonstrou um módico de paixão. dos habitantes para entrarem os turistas. Juntem-se o salto tecnológico, o
Vistas bem as coisas, estes dois gerentes são pessoas decentes com bons novo aeroporto e o TGV ao ramalhete. Nunca se chegou lá.
modos, cortesia e virtude democrática. Nunca causarão dano a Portugal Na carga fiscal, Rio parecia bem preparado, melhor do que muitos
e aos portugueses, pelo menos deliberadamente. Pelo contrário, jaz em julgavam, mas nada impede o crescimento da dívida pública do país
cada um, ainda, o desejo de fazer bem. Louvados sejam. Comparados e a destruição dos serviços públicos para manter o défice a zeros.
com os demagogos inflamados e os imbecis e ignorantes que dominam Que Costa tente vender o estado calamitoso destes serviços como um
a política mundial, constituem-se como um privilégio português, aquilo foco de investimento e progresso é um dos seus talentos. O SNS está
que faz de Portugal um oásis num mundo espinhoso. descontrolado, e nenhum dos dois estadistas quis dizer aquilo que
Portugal é, ciclicamente, abençoado com a teoria do oásis. Um país queríamos ouvir, que o país precisa criar mais riqueza e que o Estado
pequeno metido a cantinho ajardinado onde sobrevive um povinho de português precisa de reforma. Essa reforma “estrutural”, como se diz,
boa índole e destituído de agressividade, apreciado por anglo-saxónicos custa dinheiro e sacrifício e seria fundamental que PS e PSD se pusessem
agastados com os Boris e os Trumps que lhes caíram em cima, ou de acordo para combater os interesses corporativos e partidários. Ou o
estimado por reformados, retirados e gente de grosso rendimento e país continuará como até aqui. Vegetal, remediado, remendado.
taxação simples. Para quem é estrangeiro com dinheiro, com centenas E quanto a política externa, não temos. Nem relação com a China e o
de metros quadrados com vista para a água, com casa de lazer na investimento chinês. Estamos aqui para servir os clientes e não para
costa ou na montanha, serviçais baratos e uma vida sem preocupações pensar. Estamos no oásis. b
logísticas, o cantinho é o paraíso. São imunes aos problemas de um
país pobre, onde a maioria da população se conforma com o baixo
salário, o alto imposto, o capitalismo rentista e o progressismo de um
Estado entremeado pela corrupção e a tacanhez, e onde a palavra
desenvolvimento serve para desculpar e tolerar todos os desmandos.
Portugal é, há tantos anos que já não nos lembramos, um país
economicamente estagnado. No que resiste à estagnação, o mérito não
é apenas da governação ou da burocracia vigente, mas da iniciativa
privada dos pequenos e médios portugueses que agarram todas as
oportunidades de sobrevivência, como acontece agora com o turismo e
a “hospitalidade”, abanando a árvore das patacas até mirrar de vez.
A conversa sobre o aeroporto foi esclarecedora. Toda a gente quer um
aeroporto novo, precisamos de um aeroporto novo, e o aeroporto novo
tem de ser feito e rápido no sítio mais barato porque não há tempo e
dinheiro para mais. Ninguém explicou como é que os passageiros desse
aeroporto na outra banda vão atravessar o rio, visto que se sabe que as / CLARA
pontes são insuficientes e os ferries também, e que não haverá terceira
travessia sobre o Tejo. Costa nunca ouviu falar no assunto, ao contrário
FERREIRA
de gente que se lembra desses megaprojetos infraestruturais jamais ALVES

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SUMÁRIO
EDIÇÃO 2447
21/SETEMBRO/2019

fisga +E Culturas Vícios

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA


7 | Medicamentos
Será que pagamos o preço
certo por eles?
10 | Do Céu ao Inferno
+ Batata Quente
24 | Billie Eilish A grande
revelação musical de
2019 que está a dar cartas
no mundo da moda
36 | Matteo Salvini
65 | Rentrée
O que aí vem no mundo
da literatura, do cinema,
da música, da televisão,
do teatro e da dança
e da arte
93 | Moda O que dizem
as semanas da moda
de Nova Iorque,
Londres, Milão e Paris
96 | Receita
46
Cartuxa O adeus
dos monges e as razões
O antigo apresentador de Por José Avillez
12 | Déjà Vu + Altifalante rádio e camaleão político 72 | Livros Mia Couto de uma partida que
está a marcar um novo e José Eduardo Agualusa 97 | Vinhos conseguiu ser adiada
14 | O Que Eu Andei e notável capítulo da Por João Paulo Martins
para Aqui Chegar G3 76 | Cinema
por 30 anos
democracia na era
das redes sociais Festival de Toronto 98 | Sobre Mesa
16 | Planetário Festival Por Fortunato da Câmara
VillaMix em Portugal 56 | Piotr Anderszewski 80 | Televisão
Entrevista a um pianista “The Hot Zone” 99 | Recomendações
internacional de topo De “Boa Cama Boa Mesa”
nos seus 50 anos 82 | Música “Solo”,
de Bernardo Sassetti 100 | Design
Por Guta Moura Guedes
86 | Teatro & Dança
“A Morte de Danton”, 101 | Moda
de Georg Büchner Por Gabriela Pinheiro

88 | Exposições As duas 102 | Há Homem FICHA


mostras de Sarah Affonso Por Luís Pedro Nunes TÉCNICA
90 | Obrigatório Tudo 104 | Passatempos Diretor
o que não vai querer perder João Vieira Pereira
105 | 10 Perguntas a... Diretor-Adjunto
Adriana Calcanhotto Miguel Cadete
Por Inês Maria Meneses mcadete@impresa.pt
Diretor de Arte
Marco Grieco
Editor
Jorge Araújo
jmsaraujo@expresso.impresa.pt

Coordenadores
CRÓNICAS Ricardo Marques
rmarques@expresso.impresa.pt
Rui Tentúgal
3 Pluma Caprichosa por Clara Ferreira Alves | 20 Cartas Abertas por Comendador Marques de Correia rtentugal@expresso.impresa.pt

73 Isto Anda Tudo Ligado por Ana Cristina Leonardo | 83 A Desarmonia das Esferas por João Lisboa Coordenadores Gerais de Arte
Jaime Figueiredo (Infografia)
89 A Tabela Periódica por Jorge Calado | 103 Diário de Um Psiquiatra por José Gameiro João Carlos Santos (Fotografia)
106 Fraco Consolo por Pedro Mexia Mário Henriques (Desenho)

FOTOGRAFIA DA CAPA: JUCO/THE SUNDAY TIMES/FOTOBANCO.PT

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“QUEM SABE TUDO É PORQUE ANDA MUITO MAL INFORMADO”

O preço
a pagar
pela cura
QUANTO VALEM OS MEDICAMENTOS QUE TOMAMOS?
NEGOCIAR COM AS EMPRESAS FARMACÊUTICAS NÃO É FÁCIL,
E TALVEZ ESTEJAMOS A PAGAR MAIS DO QUE PODEMOS E
GETTY IMAGES

DEVEMOS GASTAR. A NÍVEL EUROPEU, A BATALHA POR


MEDICAMENTOS ACESSÍVEIS A TODOS JÁ COMEÇOU
TEXTO TIAGO SOARES INFOGRAFIA CARLOS ESTEVES

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fisga
GASTOS TOTAIS COM MEDICAMENTOS
Em percentagem do PIB, 2017

Grécia 2,20
EUA 2,04
Hungria 1,92
Eslováquia 1,78
Lituânia 1,66

N
inguém devia esperar por um tratamento. Suíça 1,66 inovadores”, que estão sob patente (não
A frase que começa este texto não foi Espanha 1,65 genéricos) e em que “a concorrência é muito
proferida por um médico, mas sim por Letónia 1,63 menor.” Em média demoramos 634 dias para
Lionel Messi. Em 2017, o futebolista argentino Alemanha 1,58 avançar, um tempo de resposta cinco vezes
deu a cara pela campanha Tour N’ Cure, Itália 1,55 pior que o alemão, o melhor da Europa. Além
criada pelo Governo do Egito com o objetivo Rússia 1,52 disso, não podemos pagar preços elevados pelos
de erradicar a hepatite C. Em cima da mesa Eslovénia 1,51 medicamentos, e “a indústria farmacêutica tem
estava um medicamento inovador e respetivo França 1,50 procurado preços crescentes para os produtos que
tratamento para curar a doença, mais uns dias Bélgica 1,47 introduz no mercado”.
de turismo pelo país. Um plano pouco ortodoxo Polónia 1,33 Lembra-se do medicamento inovador que cura
mas eficaz: 200 mil pessoas ficaram curadas, PORTUGAL 1,31 a hepatite C, e do facto de não se saber quanto
cerca de 96% dos pacientes envolvidos. O slogan Áustria 1,27 custou? A maior parte dos Estados segue valores
da campanha — “Stop the Wait”, “Acaba com Rep. Checa 1,23 de referência de outros países para chegar a um
a Espera” — ressoava na Europa, onde vários Estónia 1,17 preço. O problema é que esta é “uma prática que
países negociavam em separado com a empresa Reino Unido 1,15 deixou de fazer sentido a partir do momento em
farmacêutica Gilead o preço de um medicamento Finlândia 1,13 que passaram a existir acordos confidenciais”,
em tudo similar. Com uma diferença: enquanto Suécia 1,08 porque “os preços de referência internacionais
que a cura egípcia custava 6 mil euros, a Gilead Irlanda 0,93 são apenas sobre os preços anunciados.” Além
exigia, a outros, um valor estimado entre Islândia 0,91 de lenta, a própria regulação “inadvertidamente
os 28 e os 51 mil euros (o valor concreto é Holanda 0,74 concorre para preços elevados”, sobretudo na
confidencial). Portugal foi um dos países que fez Noruega 0,74 avaliação custo/benefício. Muitas vezes é aceite
esse mesmo acordo, assegurando o tratamento Dinamarca 0,64 um novo medicamento por estar dentro dos
comparticipado a mais de 15 mil pessoas nesse Luxemburgo 0,61 valores de referência, mesmo que tenha um custo
ano. NOTA: Não inclui medicamentos administrados em internamentos nos hospitais demasiado elevado para “o contributo inovador”
Segundo o Observatório Português dos Sistemas FONTE: OCDE
que apresenta. É necessário negociar, e não
de Saúde, Portugal é dos países da UE que menos “aceitar automaticamente o preço mais elevado
gasta em medicamentos — €308 per capita — mais baixa entre 23 países europeus, mas a mais que respeite o critério [do valor de referência]”,
longe da média europeia de €417, numa descida alta desde 2010. Ao mesmo tempo, a indústria é adverte Pita Barros.
que se verifica desde 2012. O país europeu acusada por organismos como a European Public Um relatório da Comissão Europeia publicado
onde mais dinheiro é gasto em medicamentos Health Alliance de gastar mais em marketing e este ano é claro: “Os preços elevados dos
é também o que tem a indústria mais robusta: lobbying do que no desenvolvimento de melhores medicamentos impõem um fardo sobre os
a Suíça, com €742 por cidadão. Entre 2010 medicamentos. Nos EUA, o conflito já há muito serviços nacionais de saúde.” Entre 2007 e 2019
e 2018, o SNS diminuiu os encargos com os que subiu de tom, com centenas de processos mais de 100 investigações e 30 intervenções
medicamentos em ambulatório (farmácias) em judiciais movidos contra várias empresas, vistas resultaram em multas no valor de mil milhões de
23,5%, e gastou mais 17,5% em medicamentos como culpadas pela crise de opioides, que só em euros a empresas do sector por abuso da posição
para uso hospitalar. Contas feitas, o preço dos 2018 matou quase 48 mil pessoas. Um inquérito dominante, cartelização e restrições propositadas
medicamentos desceu à volta de 26,8%, também recente concluiu que quase 60% dos norte- de produto. A preocupação é de que “as práticas
graças aos genéricos representarem quase americanos odeiam a indústria farmacêutica mais anticompetitivas das empresas farmacêuticas
metade do fluxo total. Segundo a Apifarma, que do que qualquer outra coisa. Não deverá ajudar podem colocar em perigo o acesso dos pacientes a
representa o sector português, nunca houve o facto de só as três maiores empresas do sector medicamentos acessíveis e inovadores”.
tantos medicamentos à disposição — quase a nível mundial (Jonhson & Johnson, Roche, e Alguns governos europeus ensaiam agora os
17 mil em 2017, sendo que para 92% destes é Pfeizer) terem lucrado em 2018 mais de 40 mil primeiros passos conjuntos para combater a
necessária receita médica. Ao mesmo tempo, milhões de euros. situação. Portugal e outros seis países assinaram
cerca de 55 mil foram apresentados ao Infarmed a Declaração de La Valletta, para alcançar uma
(a entidade reguladora). De todo este arsenal BRAÇO DE FERRO CONSTANTE “negociação coletiva” e justa dos preços. Pita
para combater as mais variadas doenças, 70% Na Europa, Portugal é dos últimos países a Barros diz que é imperativo uma avaliação
está nas farmácias, e 30% nos hospitais. É um aprovar medicamentos. Pedro Pita Barros, profunda da “componente de poder de mercado
indicador da OCDE referente a 2017: em Portugal, economista na área da saúde, explica ao Expresso abusivo nos preços propostos”, e propõe
os medicamentos representaram 14,6% de toda a que isto acontece “sobretudo em medicamentos “mecanismos para estimular e remunerar a
despesa com a saúde. inovação”. Em 2015 foram revistos os preços dos
Criar medicamentos é um processo difícil e medicamentos em Portugal; dois anos depois,
dispendioso, que requer constante pesquisa uma descida máxima de 10% no preço foi fixada,
e desenvolvimento. A Federação Europeia da mas este ano a Apifarma já avisou que estes terão
Indústria Farmacêutica (EFPIA) indica que de ficar mais caros “inevitavelmente.” Um estudo
em 2017 os laboratórios europeus investiram CRIAR MEDICAMENTOS É UM realizado no ano passado avança com outra
mais de 35 mil milhões de euros nesse mesmo PROCESSO DIFÍCIL E DISPENDIOSO, percentagem: 11% dos portugueses já optaram
progresso científico, além de 55 mil milhões por não comprar determinado medicamento
gastos nos EUA. Em Portugal, este indicador QUE REQUER CONSTANTE prescrito pelo médico. A razão? O preço
rondou os 100 milhões de euros, a 5ª quantia PESQUISA E DESENVOLVIMENTO demasiado elevado do mesmo. b

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fisga
DO CÉU AO INFERNO
A SEMANA EM REVISTA POR PEDRO CORDEIRO
Onde se homenageia dois veteranos lusos. Onde se anuncia um novo teatro em Lisboa e um novo
partido em Roma. Onde se execra o despautério de um ex-chefe de Estado brasileiro, a
indigência de um líder partidário britânico de nome infeliz e a irresponsabilidade das forças
políticas do país vizinho, onde pela segunda vez consecutiva (depois da crise de 2015-16) umas
eleições legislativas não conduzem à formação de um Governo. Ouçamos mas é o novo disco de
uma artista que poderemos ouvir ao vivo, em Algés, no verão do próximo ano. BATATA
QUENTE
PERGUNTAS
IMPERTINENTES
Jorge Sampaio
O antigo Presidente da República
fez 80 anos na quarta-feira. Dias antes,
mostrou enorme lucidez e visão numa
Faz sentido
Taylor Swift
palestra sobre populismo, em Óbidos.
Por ambas as ocasiões, parabéns!
proibir
A cantora americana,
que lançou
Álvaro Siza a carne
recentemente
o estimulante
Vieira
Os 65 anos de
de vaca
álbum “Lover”, é
o primeiro grande
atividade são
motivo para uma
na cantina?
nome anunciado para exposição antológica
o NOS Alive 2020. em Serralves. Ao mesmo Faz sentido, já que há
Será a sua primeira tempo, está em construção o alternativas alimentares e
atuação em Portugal. seu primeiro edifício em Nova a Universidade de Coimbra
Iorque. É obra, literalmente! comprometeu-se em ser
neutra em carbono até 2030.
A redução de produção e
consumo de gado bovino é
Teatro do Bairro Alto uma das medidas do roteiro
A antiga morada da
Matteo Renzi nacional para a neutralida-
Cornucópia reabre a 11 de O ex-primeiro-ministro de carbónica, que prevê a
outubro, com nova equipa, italiano saiu do Partido redução de 10% a 25% do
programa e ideias. Um novo Democrático (centro- número de cabeças de gado
teatro municipal é sempre esquerda) para fundar
o Itália Viva, que se quer estabulado em Portugal até
algo que festejar e este
nasce com bitola alta. liberal e reformista. Projeto 2050. Globalmente, o siste-
pessoal? Cópia de Macron? ma de produção de carne e
Para já mantém o apoio produtos lácteos é responsá-
ao recém-formado vel por um quinto das emis-
Governo de Giuseppe
Conte e ainda bem.
sões de dióxido de carbono e
gases equivalentes (CO2 eq).
Em Portugal, essa contribui-
ção fica por 10%. Em média,
um quilo de bife pode emitir
tanto CO2 eq como o emitido
por uma viagem de carro de
146 quilómetros. Ora, nas 14
Michel Temer cantinas desta Universidade
Dick Braine Três anos depois da destituição consomem-se 20 toneladas
O líder do Partido pela Políticos espanhóis de Dilma Rousseff, que fez de de carne de vaca por ano. É
Independência do Reino O povo volta às urnas a 10 de novembro, si inglório Presidente do Brasil, fazer as contas. “Num tempo
Unido (UKIP, eurocético) diz que afinal se tratou de “um
depois de as legislativas de 28 de abril de emergência climática
falta à conferência anual não terem gerado um Governo. Ou golpe”. E repete, como disse
do mesmo por ter havido em entrevista ao Expresso, temos de colocar travão
melhor, depois de os partidos terem à catástrofe anunciada”,
escassa procura de posto interesses particulares à frente que nunca o apoiou. Haverá
entradas. Ainda tentou da sua função, que é encontrar soluções limites para a desonestidade frisou o reitor Amílcar Falcão
cancelá-la, mas políticas. intelectual? em defesa da medida que
sem êxito. entrará em vigor em 2020. A
Confederação dos Agri-
cultores de Portugal disse
estar “perplexa” e defendeu
a importância das pastagens
biodiversas para fixar CO2.
Porém, não é destas que cos-
tuma vir a carne das cantinas.
/ CARLA TOMÁS

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21 set — 18 nov

Oriente
Ocidente

Gurdjieff Ensemble
& Hewar
Lusine Grigoryan
Jordi Savall
Tigran Hamasyan
Consulte o programa
completo online
jordi savall © david ignaszewski

GULBENKIAN.PT

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UN PHOTO/YUTAKA NAGATA
1972
DÉJÀ VU
O FUTURO FOI ONTEM

Salvar o planeta
Mudanças climáticas, limitar a utilização de pes- No final da Conferência de Estocolmo elabo- continuou implacável. Na próxima semana, em
ticidas na agricultura, discutir as bases para um rou-se a primeira “Declaração da Conferên- Nova Iorque, António Guterres irá liderar a “Ci-
desenvolvimento do mundo mais sustentável ou cia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente meira da Ação Climática”, onde governantes
reduzir a quantidade de lixo de metais pesados... Humano” com o compromisso de travar o com- do mundo irão prestar contas e apresentar so-
Foram estas as principais questões em cima da bate à poluição atmosférica e acautelar o uso luções para a iminência de uma catástrofe am-
mesa na primeira cimeira organizada pela ONU. dos recursos naturais. Mas o cerco ao planeta biental. / ANA SOROMENHO

ALTIFALANTE Não há dúvida que ele tem razão,


embora as principais vítimas dessa
inteiramente real. Essa ideia de que a
escolha é entre magistrados ou pessoas
faz sentido. Quem alega que também
poderá contribuir para a politização da
NAS ENTRELINHAS relação imprensa-agentes da Justiça politicamente escolhidas ignora Justiça esquece que o mal começa
não sejam os líderes políticos, com experiências de países democráticos no sistema judicial, onde as fações
os amplos meios de defesa de que que têm igualmente outro tipo de políticas não estão ausentes, como
Alternativa dispõem — inclusive na própria imprensa
cuja promiscuidade com eles Rio critica
membros nesses conselhos. Porque não
incluir neles representantes designados
infelizmente se tem visto.
A maneira como se define um
No debate com António Costa, Rui — e sim as dezenas ou centenas de por outras instituições, eventualmente problema muitas vezes é escolhida
Rio voltou a criticar a forma como cidadãos comuns que veem à partida até leigos? Alguém com experiência para recomendar uma determinada
a justiça criminal funciona. “Os dado como garantido na imprensa o aflorou há uns tempos essa ideia, e ela solução. Se o dilema for apenas entre
julgamentos, em vez de se fazerem crime que terão cometido, às vezes magistrados e políticos, isso abre
em tribunal, fazem-se nas tabacarias”, sem sequer o ‘alegado’ da praxe. Referir caminho a entendimentos entre
afirmou. Deplorando que as pessoas vítimas como um ministro das Finanças esses dois poderes onde a Justiça
muitas vezes sejam “penduradas na para justificar medidas como o aumento “Qual é a não fica necessariamente a ganhar.
praça pública”, perguntou: “Qual é a
autoridade moral deste regime sobre
da presença de políticos (ou de pessoas
nomeadas por eles) nos conselhos
autoridade Se a sociedade civil também tiver
lá realmente um pé, talvez seja mais
o Estado Novo quando faz uma coisa superiores das magistraturas sugere, moral deste difícil. Uma alternativa inconcebível?
destas?”. E deu um exemplo: “Um
ministro das Finanças vai ao futebol e
mais do que qualquer outra coisa, uma
vontade de controlar a Justiça.
regime sobre o Nos tribunais portugueses acontecem
coisas que o são bastante mais, e
fazem buscas no ministério. É contra Ainda por cima, reforçando uma Estado Novo...?” se calhar mostram que é tempo de
isso que eu estou.” perceção das alternativas que não é começar a concebê-la. / LUÍS M. FARIA

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fisga
O QUE EU ANDEI PARA AQUI CHEGAR
UM CURRÍCULO VISUAL

G3
Ao fim de 57 anos a servir o Exército português, a velhinha espingarda automática vai ser substituída. É o culminar de um longo
processo, que esteve para acontecer várias vezes. Mas é sobretudo o fim de uma arma que, nas mãos dos militares, viu e participou em
alguns dos momentos mais marcantes do século XX português. Foi produzida por cá e viajou pelo mundo inteiro, tendo sido escolhida
pelos exércitos de mais de 50 países. No seu cano cabe um cravo. / JOÃO DIOGO CORREIA

2019
1959 Fim da G3
Nove anos de parto Para o seu lugar vem a belga
Nasce com 4,4 quilos, um metro de SCAR-L (do inglês Special
comprimento (metade disso no cano) Operations Forces Combat Assault
e 7,62 mm de calibre. A empresa alemã Rifle), mais moderna e de calibre
Heckler & Koch começa o fabrico 5,56 mm, alinhada com o padrão da
no início da década e só no final a NATO. Durante 57 anos, nasceram
Gewehr 3 (G3) é adotada pelas Forças cerca de 500 mil G3 em Portugal.
Armadas da Alemanha. Há de tornar-se O abate será faseado, tal como a
a arma principal de mais de 50 países. chegada das SCAR, até 2023.

ROBERT NICKELSBERG/GETTY IMAGES

1962 2018
A namorada Ajuda externa
Com um embargo de armas imposto É lançado o concurso para substituir a
pelos EUA, o regime português vira-se arma ligeira do Exército, agora através
para as G3. É da Fábrica do Braço de da agência de apoio e compras da NATO
Prata que saem as primeiras, servindo (NSPA, na sigla inglesa). A G3 mantém-se
os militares na guerra colonial. Passa na Marinha e na Força Aérea.
a ser conhecida entre eles como “a
namorada”, aquela com quem dormem.

1974
Abril e outros meses 2001
A imagem do “menino com o
cravo na G3” torna-se o símbolo
Descontinuada
máximo da Revolução de Abril. Com uma cadência de 550 a 600
Diogo Bandeira Freire tinha, tiros por minuto (um número teórico,
precisamente, três anos quando foi já que no carregador só cabem
fotografado por Sérgio Guimarães. 20 munições), a G3 deixa de ser
O país muda, a arma mantém-se. produzida pela Heckler & Koch. A
fabricante continua, no entanto, a 2004
1996
usá-la como base para outras armas. Tiros ao lado
O ministro da Defesa, Paulo Portas,
A duas velocidades abre concurso para mudar a arma. O
Começa a mais longa presença portuguesa processo cai em 2007 por problemas
nas missões de paz da ONU no estrangeiro jurídicos, é novamente lançado e
— 16 anos, desde o fim da guerra da Bósnia volta a cair em 2012, por problemas
até 2012. Ao mesmo tempo, em Portugal financeiros (do país). Portas mantém
reinicia-se a discussão sobre o imperativo que, à época, o estado da arte era de
de modernizar o armamento. “absoluta vetustez dos equipamentos”.

E 14

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fisga
PLANETÁRIO
NO CAMINHO DAS ESTRELAS
POR NUNO GALOPIM

FLASHES FESTIVAL

VillaMix fará
pontes entre
DISCO
Os Rolling Stones vão assinalar em
a lusofonia
novembro os 50 anos sobre a edição

ALISSON DEMETRIO
de “Let It Bleed” com uma edição es-
pecial que inclui novas prensagens do
disco em vinil (tanto em mono como O festival VillaMix vai aprofundar o seu investimento
em estéreo), dois SACD, uma repro- em Portugal nos próximos cinco anos, tomando a
dução do single ‘Honky Tonk Women’ extensão portuguesa como o possível começo de uma
e ainda um livro de 80 páginas com futura expansão a outros países. “A edição de Portugal
fotos e um novo texto de David Fricke.
é o início da internacionalização do festival” nascido a estrutura física e tamanho de palco” e o leque de
no Brasil “e existem outros projetos de expansão em artistas. Hoje em dia, tem uma “média de 20 edições
COLÓQUIO andamento”, revelou ao Expresso Pedro Neto, diretor do por ano em 24 cidades”. Pedro Neto explica que este
A Fundação Gulbenkian vai apresen- VillaMix, que admite que, por enquanto, “nos próximos “distingue-se dos outros festivais principalmente pelo
tar no dia 28 um colóquio que assi- cinco anos” a concentração de atenções será feita em cartaz com prioridade para os artistas brasileiros, bem
nala os 40 anos sobre a publicação Portugal, com o objetivo de “fortalecer o VillaMix como pelo projeto diferenciado das infraestruturas,
de “Os Cus de Judas” e “Memória de Lisboa como uma grande edição do festival na Europa”. principalmente o palco” que atualmente tem “o recorde
Elefante”, os dois primeiros romances Com o processo em curso de internacionalização do do maior do mundo pelo ‘Guinness Book’”.
de António Lobo Antunes. Ao longo festival, “além do cartaz com grandes nomes da música O VillaMix chegou a Lisboa em 2018 e na edição de
do dia, das 10h às 19h, vão ouvir-se brasileira, a ideia é a junção de artistas internacionais 2019 ampliou o cartaz para dois dias, uma vez mais
figuras como Bernard Henry-Lévy,
e principalmente artistas de sucesso local e do espaço tendo decorrido na Altice Arena, trazendo figuras da
Dinu Flamand, Mircea Martin, Daniel
lusófono, como foi o caso deste ano com os Calema e música sertaneja e do funk brasileiro. O sucesso das
Sampaio, Nuno Lobo Antunes, Maria
Alzira Seixo, Jeff Gordon Love ou
Djodje”. duas edições gerou já o desejo de “investir cerca de 15
Guilherme d’Oliveira Martins. A vida Quando foi criado, em 2011, o festival “tinha como milhões de euros nos próximos cinco anos, no reforço
e a obra do escritor estarão no foco intenção reunir num único palco artistas sertanejos”. e expansão do festival e na evolução permanente do
das atenções. Em pouco tempo foi alargado “o número de edições, cartaz, no espaço e na oferta de entretenimento”.

REINO UNIDO
PHOTO
MATON Memória dos Beatles
abre ao turismo
São várias as referências a lugares de Liverpool. Um novo centro construído
Liverpool que se cruzam com a história nos jardins de Strawberry Fields tem um
e até mesmo as canções dos Beatles. café e quer cativar atenções com uma
Um deles, celebrado na canção de exposição interativa sobre a história
1967 ‘Strawberry Fields Forever’, era daquele local e também as memórias
na verdade um terreno ocupado por da criação e gravação da canção dos
uma mansão neogótica do século XIX Beatles.
que, depois dos anos 30 do século
XX, foi transformada numa casa de
acolhimento do Exército da Salvação.
John Lennon viveu os dias de infância
bem perto e não perdia nunca a festa
Steve Parke, que foi diretor de arte em Paisley Park (tendo assinado, entre de verão que ali se realizava todos
outros projetos, a capa de “Graffiti Bridge”) fotografou Prince enquanto com os anos e na qual ouvia, encantado, a
ele ali trabalhou. Uma seleção dessas imagens, com curadoria partilhada por banda do Exército da Salvação. O local
Ana Moura, está patente no Arrábida Shopping (em Vila Nova de Gaia). As acaba de ser recuperado e abriu este
imagens integram também o livro/catálogo “Picturing Prince: An Intimate mês as portas a visitas, integrando
Portrait by Steve Parke”. agora os roteiros de turismo de

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se compromete contigo, com a tua segurança
e o teu bem-estar. E não deixes de ser como és.

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RESPONSABILIDADE SOCIAL
ajustam de acordo com o
formato de acolhimento
em que os 38 jovens

DAR A MÃO
beneficiários do PORTA,
com idades entre os 17 e
os 25 anos, se enquadram:
12 estão já numa fase de

A PESSOAS EM RISCO
pré-autonomia dentro
da Aldeia SOS, sem a
presença permanente de
um cuidador, mantendo-se

DE EXCLUSÃO SOCIAL
os restantes 26 em Casas
SOS, ao cuidado direto de
colaboradores. Agregada à
implementação desta nova
ferramenta, que dá pelo
Conheça três instituições com projetos relevantes que promovem a satisfação de necessidades nome de Referencial para a
básicas e a transição ou reinserção na vida ativa de jovens e adultos em situação de Promoção da Autonomia,
vulnerabilidade social. Esta semana foram reconhecidas com o Prémio BPI “la Caixa” Solidário está uma vertente de
avaliação, que irá validar
o processo com vista a ser
replicado por todas as casas
Há mais de uma década que aumentar o número de era muitas vezes o grande que, numa determinada de acolhimento residencial
o Centro Paroquial de Bem- beneficiários, uma vez entrave no acesso ao altura do seu percurso, e por do país com jovens nesta
-Estar Social de Arrentela que a nossa capacidade emprego.” O projeto nasceu, razões diversas, se viram fase das suas vidas.
(Seixal) tem um programa de armazenamento irá ser assim, com a premissa desprovidos da proteção
de distribuição alimentar maior e com muito mais de empoderar 75 jovens das suas famílias. Esta 23 NOVOS PROJETOS PARA
aos mais carenciados. qualidade, diminuindo e adultos, entre os 18 e os associação, com “casas” em AJUDAR QUEM MAIS PRECISA
À medida que o número gastos com a eletricidade e a 54 anos, em situação de Bicesse (Cascais), Guarda Promover a transição ou a
de utentes foi aumentando nossa pegada ecológica”. exclusão social com vista à e Gulpilhares (Vila Nova reinserção na vida ativa de
— em parte devido à sua reintegração no mercado de Gaia), além de cuidar jovens e adultos em situação
parceria com a Associação ESCOLHER CRIAR UM PLANO de trabalho ou à criação deles, tem como missão de vulnerabilidade social
Dá-me a Tua Mão, que DE VIDA E DE CARREIRA do seu próprio emprego, última proporcionar-lhes e satisfazer necessidades
apoia os sem-abrigo do Ser a Escolha é uma questão porque, acrescenta a ferramentas para que básicas são os principais
concelho, e também ao de atitude para mudar a vida presidente, “queremos se tornem autónomos objetivos do Prémio
protocolo realizado com a e o nome da mais recente atuar sobre a capacidade e cidadãos plenos, Solidário, dinamizadoBPI
Segurança Social em 2017 ação da Associação Querer de agir dessas pessoas conscientes e ativos e a Fundação “la Caixa” no
— assim foram comprando Ser, sediada em Rio Tinto para que regressem à vida na sua vida adulta. âmbito da sua política de
frigoríficos e arcas (Gondomar). Constituída ativa”. Esta capacitação O projeto PORTA (Promover responsabilidade social.
congeladoras para poderem em 2006 por um grupo passa pelo treino de Oportunidades de Desde que foi instituída,
armazenar os alimentos de pessoas determinadas competências pessoais, Reintegração e Transição em 2016, a iniciativa já
(entre secos, frescos e a capacitar famílias em sociais e profissionais, bem para a Autonomia) apoiou até à data, nas suas
congelados, a instituição situação de desemprego como de soft skills, como a visa precisamente dar quatro edições, dezenas de
lida mensalmente com de longa duração para atitude, a comunicação, o continuidade àquele instituições particulares de
cerca de três mil toneladas o mundo do trabalho e pensamento crítico, a ética propósito, mas de uma solidariedade social sem
de produtos para serem do empreendedorismo, laboral e os relacionamentos forma diferenciadora. fins lucrativos de norte a
distribuídos a mais de 600 esta associação nortenha interpessoais, entre Segundo Guida Bernardo, sul do país e ilhas com um
pessoas sinalizadas com intervém no combate à outras. Está ainda previsto diretora pedagógica total de 2,9 milhões de
carências económicas). pobreza. “O nosso trabalho o lançamento de um de todas as respostas euros, distribuídos por 76
Toda esta situação, quer a tem sido no sentido, não guia de integração no sociais da instituição, a projetos. Só na última edição
nível logístico, de custos tanto de ‘dar o peixe’ às mercado de trabalho para iniciativa “é muito focada foram 23 os distinguidos,
e até ambiental, começou pessoas, mas sim de as desempregados, que irá na participação juvenil, entre um universo de 132
a tornar-se insustentável. ensinar ‘a pescar’”, destaca estar disponível online enquanto sentimento candidaturas recebidas,
Foi então que surgiu a ideia Isabel Alves, presidente e em papel. de autoria, ou seja, está aos quais foi atribuído um
de equipar um espaço já da direção. “Entretanto, assente naquilo que os donativo total de 750 mil
existente (uma sala de procurámos encontrar PORTA ABERTA PARA jovens identificam como euros. Para financiar os
cerca de 20 a 30 m2) com uma característica A EMANCIPAÇÃO PLENA sendo fundamental para a projetos aqui referenciados,
uma câmara frigorífica que comum a todos os nossos As Aldeias de Crianças promoção da sua própria ao Centro Paroquial de
garanta o armazenamento beneficiários e chegámos à SOS são conhecidas por, autonomia e no significado Bem-Estar Social de
dos alimentos em conclusão de que a falta de em ambiente familiar, que dão a este conceito para Arrentela coube a “fatia”
melhores condições, motivação e de orientação acolherem crianças e jovens ‘criarem’ o seu caminho de 24.750 euros, à Querer
projeto que dá pelo de desenvolvimento Ser — Associação para o
nome de Fresco e Verde. pessoal”. A intervenção Desenvolvimento Social
De acordo com Mónica “O apoio alimentar tem sido muito está organizada em torno foram concedidos 51.930
Lopes, assistente social e
responsável pelos projetos
bom! Permite-me ter as outras de três eixos (transição
para a vida adulta,
euros e a Associação das
Aldeias de Crianças SOS
deste centro paroquial, contas em dia (como água e luz).” promoção da autonomia de Portugal recebeu
a câmara “vai permitir A. F. — Centro Paroquial de Bem-Estar Social de Arrentela e emancipação), que se 38.230 euros.

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CARTAS ABERTAS

/ COMENDADOR
MARQUES DE CORREIA

EU SEI LÁ SE AINDA VAMOS


A TEMPO. O MELHOR É FAZER COM

L
QUE O TEMPO VOLTE PARA TRÁS
AQUELE SENHOR QUE ERA PAI DO ARNALDO E FILHO DO JÚLIO, O TONY
DE MATOS, É QUE TINHA RAZÃO. TODA A FAMÍLIA (JÁ FALECIDA) TINHA RAZÃO

ê-se num cartaz de um famoso e também pela utilização intensiva do gado e animais
partido que, por motivos de domesticados vários, em nada contribui para a harmonia da
campanha não direi que é o PAN, natureza nem para a diminuição do efeito de estufa.
que “ainda vamos a tempo”. O Foi por razões destas que achámos melhor recuar ao
cartaz mostra a fotografia de uma esclavagismo. Claro que isto provocaria a diminuição de
baleia que parece com certa pressa direitos da maioria da população, mas ter-se-á de ver que não
para comprar um passe familiar passaria de uma fase que tem em vista a igualdade real de todas
ou ser operada a uma otite no SNS. as pessoas. Ainda que, mesmo assim os esgotos (ou cloacas)
Porém, independentemente das a céu aberto fossem uma nojeira e a mania de atirar dejetos e
razões que o tal partido aduz, eu detritos (não apenas beatas) para o meio da rua seja intolerável.
confesso que não sei se vamos a Um dos nossos mais ativos membros propôs aquilo que alguns
tempo de salvar as baleias (será de nós já sabíamos: o retorno às cavernas! Aí sim, seria o
que é a isso que o partido se refere? paraíso ecológico! Ainda que... Sim, há certos problemas como
Talvez!). Mas, de que nos vale ir a tempo de salvar as baleias se o de saber quem fica com as cavernas maiores, com as zonas
não nos salvarmos a nós? A baleia, por generoso paquiderme de caça melhores, com os cursos de água mais abundantes
aquático que seja, da grande família dos mamíferos, como a e limpos. É sempre o mesmo problema, disse um de nós. A
generalidade dos políticos e dos futebolistas que estão sempre ganância, a falta de entrega ao outro.
à espera que lhes passem a bola (e por isso se diz que “estão à Concordámos, entristecidos. Nem nas cavernas haveria o
mama”), não substitui nem pode corrigir a monstruosa obra prometido comunismo primitivo, quando o comunismo era
desenvolvida pelo ser humano (e pela cera humana, que houve verde. Como resolver este problema?
ao longo dos tempos muita gente a fazer cera). Por um lado, Até que um dos mais argutos do grupo se saiu com uma ideia:
porque como explica com razoável incerteza e ignorância Esperem lá — disse ele — já recuámos aí uns 10 mil anos, ou
Friedrich Engels no seu livro do séc. XIX “A Origem da Família, mais, o que significa que temos tempo para pensar muito bem
da Propriedade Privada e do Estado”, “não têm um polegar no que devemos fazer para resolver isso. Sim, ainda vamos
que se oponha aos outros dedos”. Por outro, porque já não há a tempo! b
habitações grandes onde as baleias possam estar descansadas.
O que aqui me traz é a reunião que um grupo de que faço
parte — e que ao contrário dos que andam por aí a pregar é
ecologista a sério — se dedicou a estudar as condições para
que a gente vá, de facto, a tempo. E que condições são essas?
Em primeiro lugar acabar com o capitalismo, pois como
muito bem explicitou esse precursor da ecologia e do Partido
Ecologista ‘Os Verdes’, que se opõe aos Partidos Ecologistas
‘Os Amarelos’ e os ‘Vermelhos às Riscas’ — volto a citar — “o
capitalismo não é verde!”. Claro que o comunismo, por ser
vermelho, não é alternativa, nem o socialismo, por ser rosa, ou
o PSD, por ser laranja, o CDS, por ser azul, e o dr. Rui Rio, por
ser cor de burro quando foge. Resta um grupo como o nosso,
verde a sério, só comparável ao Sporting e ao Celtic de Glasgow.
ILUSTRAÇÃO DE CRISTIANO SALGADO

Destruir o capitalismo, que como todos sabem é cinzento


e triste como uma página de Charles Dickens a descrever
a malograda tentativa de Oliver Twist em repetir a dose
do almoço no reformatório, é pois a primeira condição.
Recuaríamos, assim, ao feudalismo. Claro que isto provocaria
desemprego e fome, além de doenças infetocontagiosas várias
que seriam os danos colaterais dessa demanda maior do que a
vida que é salvar a vida. Porém, o feudalismo, como se explica
pela destruição das florestas para expandir a agricultura,

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P A L H I N H A D E B A M B U

OPTE POR PRODUTOS


R E U T I L I Z ÁV E I S

MUDAR
O MUNDO
NUM GESTO DE CADA VEZ
Limitado ao stock existente. Procure nos pontos de venda aderentes.

Na VISÃO, levamos o tema do ambiente muito (Cont.)


N DA
PROCU

a sério. E é no dia a dia, com pequenos gestos,


que todos podemos contribuir para PALHINHA
a sustentabilidade ambiental. DE BAMBU
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Diariamente, são usadas milhões de palhinhas


E

N
E

no mundo, grande parte das quais acabam OS S


nos oceanos. Com esta ação, queremos ajudar PONTO
a produzir menos plástico, um gesto simbólico
para inspirar uma nova atitude.

Pelo planeta, por todos nós.

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CATEGORIA
PRODUTOS TRANSFORMADOS

Queijo de cabra, infusões,


preparados de risotto e
aguardente: aqui há bons
produtos portugueses
Conheça os pré-finalistas na categoria Produtos Transformados
do Prémio Intermarché Produção Nacional. A iniciativa, agora na sua 6.ª edição,
tem vindo a reconhecer anualmente, desde 2014, o que de melhor se faz
no sector primário português

MIGUEL GONÇALO DE BARROS Vedras então construídas. Muitas lavoura, com o objetivo de escoar recai agora na divulgação da
E VASCONCELOS GUISADO dessas árvores de fruto, com perto a produção da pera oriunda destes marca, registada no final de 2018,
Old Nosey, de 160 anos, fazem ainda hoje
parte da Quinta da Póvoa, uma
pomares antigos e tradicionais
de sequeiro e elevada qualidade,
para crescer tando no mercado
nacional como internacional.
a aguardente propriedade com 63 hectares, produzindo uma bebida
de pera-rocha localizada em Aldeia da Serra espirituosa premium. “Foi há cerca SUGESTÃO BOA CAMA BOA MESA
(Turcifal), então quartel-general de seis anos que comecei a fazer O que têm o bife Wellington e a
com história das tropas e por onde terá passado experiências até chegar ao produto aguardente de perada em comum?
o célebre general britânico diferenciador que temos hoje e “Old Nosey” (“velho narigudo”) era
Os pomares instalados na encosta Wellington. Daí o nome (Old que tem todas as condições para a alcunha do general entre as tropas,
basáltica do Monte Socorro, na Nosey) daquela que é atualmente ser um sucesso”, refere o produtor. devido ao seu pronunciado nariz.
zona oeste de Portugal, terão uma marca de aguardente de Com uma produção anual O detalhe é marcante no logótipo
servido de principal centro de perada de pera-rocha. O projeto de pera-rocha próxima das da marca desta versátil aguardente
observação e comunicação, no nasceu pela mão do proprietário 40 toneladas e uma capacidade utilizada na confeção do famoso prato.
início do século XIX, durante da quinta, Manuel Guisado, cujos para destilar cerca de cinco mil
a defesa das Linhas de Torres antepassados já ali se dedicavam à garrafas de aguardente, a aposta BÉZÉ ARTE E DECORAÇÃO
O queijo de cabra
amanteigado
biológico
fabricado
“com mimo”
As tradições queijeiras artesanais
da família foram uma inspiração
para, em 2018, Anabela Gaspar
agarrar no projeto "Queijo
da Fonte". Afamado por ser
amanteigado e ter pouco sal,
pouco comum num queijo de
cabra, a história deste produto de
sabor intenso e textura aveludada
remonta, no entanto, há cerca de
uma década, quando os antigos
proprietários da queijaria que o
produzia procuraram desenvolver
um queijo de excelência e único.
“Gostávamos muito deste queijo,

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a sua própria marca, sobretudo Primeiro com a com a produção
direcionada para o mercado de cogumelos shiitake, o produto-
nacional, produzindo, secando, -estrela da empresa que nasce
embalando e comercializando em troncos de árvore, depois
ervas aromáticas em forma de com a transformação, sobretudo,
infusões e condimentos. A aposta de frutas e legumes oriundos
na qualidade e na inovação tem de produtores da região que,
valido ao Cantinho e aos seus por motivos vários, estavam
produtos uma série de prémios destinados a ser deitados
e distinções, nomeadamente os fora. “Sentimos que havia a
Great Taste Awards, uma espécie possibilidade de nos dedicarmos
de “óscares” da comida que à transformação e começarmos a
o único amanteigado de cabra que em Santarém, aprecie o sabor único premeiam os melhores sabores em aproveitar alguns cogumelos que
conhecemos, pelo que quando e textura amanteigada deste queijo vários países do mundo, incluindo eram considerados desperdício e
soubemos que os donos queriam biológico e saudável, elaborado Portugal. O objetivo é elevar as esta foi a motivação inicial”,
fechar a queijaria decidimos exclusivamente com leite de cabras infusões ao estado de arte e é diz o diretor-geral Tiago Maurício.
aprender a fazê-lo e ficar com a sapadoras, sem recurso a quaisquer para isso que Luís Alves trabalha E foi sob o signo destas
mesma”, revela esta produtora aditivos. todos os dias: “Queremos que as preocupações ambientais, que
do Ladoeiro (Idanha-a-Nova) que, pessoas sintam prazer ao beber as norteiam todas as decisões da
além disso, pretende acrescentar CANTINHO DAS AROMÁTICAS infusões, que as saibam identificar marca, que a IWPS Solutions
valor e criar dinâmica económica
nesta biorregião da Beira Baixa.
Elevar e preparar e que o seu consumo se
democratize”.
adquiriu um desidratador que
trabalha 95% a energia solar, um
O leite usado na sua confeção está as infusões processo de secagem não industrial
certificado como biológico, o que ao estado de arte SUGESTÃO BOA CAMA BOA MESA que veio marcar a diferença
não acontecia anteriormente, Workshops de culinária, apicultura, por ser mais amigo do ambiente
e é oriundo exclusivamente de O agrónomo Luís Alves foi durante aromaterapia e agricultura biológica, e da saúde. A partir daí começou
explorações das redondezas, cujos muitos anos o responsável pelos provas de infusões e oficinas a desenvolver produtos concretos
caprinos pastoreiam livremente jardins da Casa de Serralves, no sobre ervas aromáticas são apenas que respondessem à questão do
em pastagens naturais. Como Porto, mas tinha o sonho de ser algumas das atividades em que pode desperdício alimentar, como snacks
tem pouco sal e é fabricado agricultor. O seu gosto por bichos aprofundar conhecimentos sobre de fruta desidratada, e, mais
artesanalmente (não há dois e plantas leva-o a arrendar parte as ervas e plantas cultivadas neste recentemente, os preparados
queijos iguais), implica uma de uma quinta medieval, onde espaço singular de Vila Nova de Gaia. de risotto com legumes ou só com
componente manual mais Pedro e Inês viveram no século XIV, cogumelos. O futuro passa por
trabalhosa. “É preciso tratá-lo para aí fundar o seu Cantinho das IWPS Solutions continuar a promover estilos de
com mimo, mas vale a pena,
pois confere ao queijo uma maior
Aromáticas com as mais de 150
espécies que detinha. Começou por
Os preparados vida mais saudáveis, provando
que é possível fazer refeições
qualidade”, explica Anabela. cultivá-las em vasos para vender de risotto rápidas com alternativas práticas
O projeto prevê, no futuro e numa para outros hortos, mais tarde que nasceram e cem por cento naturais.
perspetiva de economia circular, decide produzi-las ao ar livre,
aproveitar o soro do leite na sua sempre em modo biológico, e para combater SUGESTÃO BOA CAMA BOA MESA
totalidade, em subprodutos como exportar a granel para a indústria o desperdício Risotto de shiitake com vinho do Porto
iogurte, queijo fresco, manteiga cosmética a farmacêutica. “De e creme de avelã e chocolate saudável
e requeijão. 2007 a 2013, produzimos aqui perto Em 2016, uma antiga agropecuária são duas das receitas que pode criar
de sete toneladas de plantas secas”, em Ribeira de Cima (Porto de tendo como base estes preparados
SUGESTÃO BOA CAMA BOA MESA conta o produtor, instalado no Mós) deu origem a um projeto que de frutos e legumes desidratados.
No restaurante Zé do Pipo, em Canidelo (Vila Nova de Gaia). desde o início se quis afirmar pela Encontre mais opções deliciosas
Idanha-a-Nova, ou no Dois Petiscos, É então que, em 2014, resolve criar sua sustentabilidade, o Gwiker. e saudáveis no site da Gwiker.

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EspecialModa

Quem
é esta
miúda?
Considerada a grande revelação musical de 2019, Billie Eilish
tem vindo a somar elogios e fãs como há muito não se via.
Aquando da estreia em palcos portugueses, a estrela
de 17 anos sentou-se à conversa com o Expresso
TEXTO MÁRIO RUI VIEIRA

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JUCO/ THE SUNDAY TIMES/FOTOBANCO.PT

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viria a relançar o tema como single, levando-o ao top
100 em vários países.

“NÃO PODEMOS FICAR ZANGADOS”


O ainda curto, mas meteórico, percurso de Billie Ei-
lish é indissociável da relação criativa que mantém
com o irmão mais velho. Escreve praticamente todas
as suas canções em parceria com Finneas num pe-
queno quarto em casa dos pais e é ele quem depois as
produz (a cantora não poupa nos elogios às qualida-
des de produtor do irmão). “Aquilo que posso dizer
é que o meu irmão é o meu melhor amigo e que tem
sido realmente bom ter um melhor amigo comigo
a toda à hora, desde o início”, confidencia-nos, “e
só me apercebi disso recentemente, porque nunca
tinha pensado no que teria sido se tivesse passado
por tudo sozinha, sem ele. Acho que não teria gos-
ar visivelmente aborrecido, mascando pastilha tado nada nem estaria feliz. Passei por muita coisa,
elástica e escondendo os olhos azul-mar por trás mesmo com ele, com a minha mãe e o meu pai ao
de uns minúsculos óculos de sol. Não parecia abor- meu lado, portanto se tivesse estado sozinha… Nem
recida com o facto de ter entrevistas para fazer, era consigo imaginar. Faz-me ter pena daquelas pessoas
mais aquele enfado típico de uma adolescente que que conheço, desta indústria, que tiveram de passar
repete “duh” vezes sem conta (interjeição que, de por uma experiência destas sem ninguém. Especial-
resto, ajudou a trazer de novo para o vocabulário mente quando são jovens”. Claro que não nega mo-
corrente com o seu primeiro grande sucesso, ‘Bad mentos de tensão entre irmãos, “pode ser bastan-
Guy’). O facto de ter torcido os dois tornozelos no te irritante, mas aquilo que é bom connosco é que
espaço de um mês — levando mesmo a uma rotura até podemos passar rapidamente do amor ao ódio,
de ligamentos — e de estar a passar por uma crise mas depois voltamos rapidamente ao amor”. Eilish
de sinusite não ajudava, certamente. não se imagina a colaborar com outra pessoa: “Se
Depois de se sentar à nossa frente, a mãe, Maggie trabalhas com alguém que não é da tua família ou
Baird, também cantora mas essencialmente atriz e de quem não és tão próximo e tens uma discussão,
argumentista, aproxima-se de Eilish e encosta-lhe aquilo acaba ali. Um dos dois vai embora zangado e
um frasco ao nariz. Só mais tarde, com o avançar da talvez não falem durante um tempo. E depois o que
conversa, perceberíamos o que continha o pequeno acontece? Fica estranho. ‘O que faço agora?’, ‘tenho
recipiente. “Para ser sincera, acho que nunca pensei de ir pedir desculpa’... Com o meu irmão, posso gri-
em contar isto a alguém… A minha mãe anda sempre tar, ele pode gritar de volta, depois ele diz qualquer
com uns óleos essenciais que ajudam imenso”, con- coisa engraçada, rimos os dois e fica tudo normal
uando pensamos em adolescentes de sucesso, que fidencia, referindo-se aos seus problemas de ansie- novamente. Não podemos ficar zangados nem dizer
se tornam figuras com apelo à escala planetária dade, “assim que ela puxa deles fico logo ‘lá está ela que já não somos amigos, porque vamos ser sempre
quase instantaneamente, a ideia que primeiro nos com os óleos’. Um deles chama-se ‘alegria’, outro irmãos. Torna as coisas mais fáceis e há menos pres-
ocorre é: “Um acidente à espera de acontecer”. A chama-se ‘amor’, outro ‘determinação’, outro ‘bra- são para sermos simpáticos um com o outro”.
cantora-sensação do momento podia muito bem vura’... Por muito estúpido que seja, basta ela abrir No rescaldo do sucesso de ‘Ocean Eyes’, Eilish
cair nessa categoria — e quem sabe se não cairá? —, um frasco e eu cheirar, colocar no pulso ou têmporas e Finneas, agora com um contrato discográfico nas
mas o certo é que, até ver, tudo parece correr-lhe de ou esfregar nas mãos para me sentir logo melhor”. mãos, aceleraram o passo e no espaço de três anos
feição. Dona de uma voz bonita, autora e intérprete Finda a entrevista, a própria progenitora nos falaria conseguiram fazer crescer um verdadeiro culto em
de uma música que se propõe quebrar regras ins- dos referidos óleos, explicando que os problemas de torno da adolescente, com canções como ‘Idont-
tituídas há décadas no mundo da pop, apoiada por ansiedade e depressão de Eilish se deveram muito ao wannabeyouanymore’, ‘Copycat’ ou ‘My Boy’ a
milhões de fãs, esforçada, preocupada com o am- facto de ter tido uma lesão grave que a impediu de mostrarem a versatilidade de interpretação e pro-
biente, defensora dos direitos dos animais, vegeta- dançar, atividade física que praticou desde criança. dução. Foi depois da edição do EP de estreia, “Don’t
riana convicta… Tudo atributos e detalhes da vida “Antes ou depois de um concerto ou quando vejo Smile At Me”, que a cantora se tornou alvo de acla-
de Billie Eilish que quem acompanha o seu percur- algo na internet que me perturba, basta-me chei- mação mais alargada, com o sucesso de ‘Lovely’, du-
so de perto conhece bem mas que comprovámos, rar aquilo”, acrescenta a cantora, “sempre tive uma eto sensível com Khalid, incluído na banda sonora
presencialmente, na entrevista que deu ao Expresso grande sensibilidade olfativa. Os cheiros desenca- da segunda temporada da série juvenil “13 Reasons
poucas horas antes de se estrear em palcos nacio- deiam em mim muitas emoções diferentes, que po- Why” (a primeira já tinha contado com ‘Bored’). A
nais. Chegados ao local onde decorreria a conver- dem ser muito más ou muito boas”. Baird confiden- ligação ao mundo do audiovisual seria, já no início
sa, deparámo-nos com o aparato normal neste tipo ciou-nos que, além da sua “receita caseira”, tam- deste ano, alargada com ‘When I Grow Up’, canção
de situações: managers, pessoal da editora, outros bém ajuda o facto de a filha já ter conseguido fazer inspirada no filme mexicano “Roma”, vencedor do
jornalistas, todos visivelmente nervosos por saber amigos entre a equipa que anda com ela em digres- Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, que rapidamen-
que as atenções recairiam sobre uma nova estrela são. “No início era mais difícil porque ela era muito te ficou para segundo plano quando os fãs já aguar-
de apenas 17 anos, que, como tal, se revela bastan- nova e ficava aborrecida por não ter com quem falar, davam a edição do primeiro longa-duração. “Ado-
te imprevisível sempre que fala à imprensa. A azá- mas entretanto criou amizades”. Filha de artistas — ro esse filme”, diz-nos Eilish, “[mas] o que aprendi
fama que se vive no momento em que, finalmente, o pai, Patrick O’Connell, também é ator — e irmã de com essa canção foi que ninguém gostou dela, o que
Eilish entra na sala contrasta com o silêncio que Finneas O’Connell — que além de ser o produtor e é uma treta porque é superdifícil. Apareceu de for-
se seguiria: holofotes, microfones, câmaras foto- coautor da sua música mantém uma carreira musi- ma tão inesperada e não está no álbum, portanto en-
gráficas e de filmar e uma gigante tela de chroma cal em nome próprio e já participou em séries de te- tendo por que razão ninguém lhe ligou nenhuma”.
key ajudam a criar o ambiente para a primeira en- levisão como “Glee”, “Uma Família Muito Moderna” Sobre o tema, esteticamente diferente do que tinha
trevista, radiofónica, a uma emissora francesa que ou “Aquarius” —, Eilish começou o seu percurso na feito até então, explica que começou a ser escrito no
se deslocou propositadamente a Lisboa para falar música em 2016, quando a primeira canção que fez quarto do irmão, no fim de semana de Ação de Gra-
com ela. A artista chega, ladeada pela mãe, que a com o irmão, ‘Ocean Eyes’, se tornou viral. Rapida- ças do ano passado. “Nos dias em que estávamos a
acompanha sempre de perto, e pela manager, com mente, foi “pescada” por uma grande editora, que gravá-la, houve um episódio muito traumático na

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PRIMÓRDIOS
Eilish começou o seu
percurso na música
em 2016, quando a
primeira canção que
fez com o irmão,
‘Ocean Eyes’, se
tornou viral

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RITA CARMO/BLITZ
SUCESSO No início
minha vida. Ninguém na internet sabe e nunca vou que colocou de forma tão direta no título do álbum,
de setembro o
falar sobre isso, mas foi algo muito mau, que me é rápida a responder. “Não cheguei a lado nenhum, concerto da cantora
traumatizou mesmo e que foi muito assustador. Por- mas consegui tirar dessa pergunta um bom álbum”, teve lotação esgotada
tanto, cada vez que ouço essa canção sinto o mesmo diz, divertida, “coloquei essa questão porque não no Altice Arena,
que senti nessa semana. É muito estranho porque é sabia a resposta e também porque, na verdade, não em Lisboa
efetivamente uma das minhas canções favoritas”, tem resposta. Não sei se alguém sabe. E mesmo que
acrescenta ainda sobre ‘When I Grow Up’, que não nos deem uma explicação científica que nos mos-
deixa de incluir no alinhamento dos concertos. “É tre aonde vamos quando estamos a dormir e aquilo
estranho a forma como a música é tão poderosa. Fico que o nosso cérebro faz durante o sono, isso não me
ali a pensar no ‘Roma’, mas também na roupa que dá a resposta que quero, porque quero saber o por-
estava a usar nesse dia. É assim que o trauma fun- quê!”. As perguntas existenciais não se ficam por
ciona. Ficou gravado no meu cérebro o que estava aí. Visivelmente entusiasmada com os segredos do
a acontecer naquele período, os sentimentos extre- universo, continua: “O sol é um grupo de bolas de “o meu irmão também tem, o meu pai também e
mos que experienciei naquela semana, mesmo que gás, basicamente, e são tão quentes que se olhas di- o que é engraçado é que temos, os três, sentidos
depois tenha ficado tudo bem.” retamente para ele ficas cego. É o que é. Sim, mas completamente diferentes de cores para tudo. Para
porquê? Eu entendo a explicação, mas porque é que mim, uma canção pode ser verde e para o meu ir-
PARA ONDE VAMOS QUANDO DORMIMOS? é assim? Porque precisamos de oxigénio para respi- mão pode ser preta. É tão esquisito, porque é mui-
Quando “When We All Fall Asleep, Where Do We rar? Não sei. ‘Oh, porque não conseguimos sobre- to forte. E quando outra pessoa associa a algo uma
Go?”, o tão aguardado álbum, chegou às lojas e pla- viver sem ele’. Sim, mas PORQUÊ? Podia continuar cor diferente da tua ficas ‘mas como é possível?’.
taformas de streaming, a 29 de março passado, Ei- por aí fora. Não entendo o mundo.” É como se alguém, olhando para a cor azul, te dis-
lish já era “o” nome do momento. O fenómeno até A sensibilidade de Eilish alastra a outras áreas sesse: ‘Isto não é azul, é amarelo.’ É exatamente a
então praticamente juvenil começava a contagiar do comportamento humano, mesmo àquelas que mesma coisa. Para mim acontece com números,
gerações e a imagem de “cantora pop estranha” era permanecem envoltas em mistério. Além de sofrer cores, dias da semana, cheiros, texturas, tempera-
alimentada por vídeos góticos, que tanto a mostra- do síndrome de Tourette, transtorno que se mani- turas. Mas nada disto tem sentido. Da mesma forma
vam a beber e a chorar um líquido da cor do pe- festa em tiques vocais ou motores (assunto sobre que as cores não têm sentido. Porque é que azul é a
tróleo (‘When the Party’s Over’) como a regurgitar o qual fomos aconselhados a não falar durante a cor azul? Porque é. Nada faz com que ela seja azul, é
uma aranha viva (‘You Should See Me in a Crown’). conversa), a cantora revelou que, desde pequena, simplesmente azul. É a mesma coisa. O teu cérebro
O sucesso foi instantâneo: o disco escalou as tabe- experiencia sinestesia, uma sensação secundária está ali simplesmente a inventar coisas para tudo.”
las de vendas não só nos Estados Unidos e Portugal, que acompanha uma perceção, ou seja, quando Apesar de ter apenas 17 anos, a sensibilidade
como em países tão diversos quanto Austrália, Rei- sente um cheiro, ouve uma canção ou olha para de Eilish quanto a questões ambientais e sociais é
no Unido, Noruega ou Canadá. Quando a questio- um número associa-o automaticamente a uma cor. apurada. Não só está atenta a esse tipo de discus-
namos sobre uma eventual resposta para a questão “Parece não ter qualquer significado”, defende, sões como não pretende ficar de braços cruzados.

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Apesar de ter apenas 17 anos, “É tão talentosa! Nem tenho palavras para a descre-
ver”, diz, esquivando-se quando lhe perguntamos

a sensibilidade de Billie Eilish se a colaboração algum dia verá a luz do dia, “tem
de lhe perguntar a ela. Não quero dizer nada que ela

quanto a questões ambientais não queira revelar”.


A digressão que levou à capital catalã antece-

e sociais é apurada deu a edição de “When We All Fall Asleep, Whe-


re Do We Go?” e o concerto a que Lisboa assistiu
(numa Altice Arena lotada), no início de setembro,
foi já muito diferente. “Os fãs são tão bons quanto
sempre foram, mas agora tenho a oportunidade de
ver mais gente todas as noites, o que é muito entu-
siasmante”, defende, “vejo muitos a dizerem que
sentem falta dos concertos intimistas, mas eu di-
ria que quando vens a um espetáculo como o desta
noite, numa arena para 20 mil pessoas, a energia é
exatamente a mesma. Não sinto que seja diferen-
Quando lhe dizemos que nos parece ser uma pes- camisola mais pequena, mas quero dar-lhes o mai- te”. “Há algo que as pessoas não compreendem:
soa muito conscienciosa e equilibrada, encolhe os or número de tamanhos que possam querer”, ex- os concertos pequenos eram, na realidade, bas-
ombros e faz um riso pouco crédulo, mas não se plica, “também quero disponibilizar uma alterna- tante miseráveis”, continua, “os camarins cheira-
coíbe de dizer que gostava de mudar o mundo. Ve- tiva para as pessoas que simplesmente não querem vam mal e às vezes nem tinham casa de banho. Era
getariana desde sempre — explicou numa entrevis- usar uma camisola justa. Por que razão teriam de muito perigoso sair, porque podia haver pessoas lá
ta recente à revista “Rolling Stone” que a única vez usar? A roupa é algo em que devemos sentir-nos fora. Percebo que sintam falta dos concertos mais
que quebrou o regime alimentar foi quando ingeriu, confortáveis e não algo que nos serve”. Eilish não pequenos, mas, por favor, fiquem felizes por mim
acidentalmente, uma formiga num copo de leite de critica, contudo, quem gostar de vestir números e por estar mais segura agora”. Eilish acredita que
soja —, incentiva os milhões de fãs que a seguem nas mais pequenos, “se uma camisola for demasiado mesmo as canções menos efusivas resultam bem
redes sociais a deixarem de comer proteína animal. pequena e não te servir e mesmo assim quiseres com multidões à sua frente. “A ‘I Love You’, por
A preocupação com as alterações climáticas é outro usá-la, usa-a. O que interessa se alguém te diz que exemplo, é o momento mais bonito para mim. Eu
assunto que a apoquenta, “fico muito incomodada não te fica bem se te sentires bem com ela vestida? e o meu irmão sentamo-nos numa cama que está
porque as pessoas fingem estar preocupadas com a Se gostas de camisolas maiores e te ficam muito presa ao teto e que é elevada muito alto. Deviam
situação. Não sabem, na verdade, nada sobre o as- largas mas te sentes confortável, usa-as”. “Aquilo ver o que eu vejo lá de cima. Fico tão emocionada.”
sunto”, atira. “Na semana em que aquela fotografia, que quero fazer, principalmente, é dar às pessoas a Sobre o que lhe reserva o futuro, tendo em conta
linda e horrível, dos incêndios na Amazónia andou oportunidade de usarem o que querem usar”, con- que está a conseguir realizar um grande sonho neste
a circular, lembro-me de ver todos os meus amigos clui, “há tanta roupa justa no mundo que sinto que momento, não tem grande coisa a dizer. Nem quan-
e toda a gente que algum dia conheci a partilharem- já há suficiente, portanto aqui está o outro lado. Mas do a questionamos sobre o que mais a entusiasma e
-na e a dizerem ‘isto é um horror, precisamos de tenho merchandising mais justo, tamanhos mais preocupa relativamente ao momento de emanci-
salvar o planeta’. Fiquei ali a pensar: ‘vocês nem se pequenos. Se é a tua cena, é a tua cena”. pação (tal como o irmão, a cantora foi educada em
deram ao trabalho de pesquisar o porquê de a flores- casa). “Emancipação? O que significa essa pala-
ta estar a arder. Se o tivessem feito, seus pequenos FÃS DE LUXO vra?”, pergunta, olhando para a mãe, que rapida-
idiotas, não andavam aí a questionar-se sobre quem Apesar de ter sido, inicialmente, o público mais jo- mente lhe explica. “Bom… Não sei”, responde, meio
provocou aquilo... Porque foram vocês’”, exalta-se, vem a identificar-se com a sua música, o apelo de hesitante, “sempre quis tornar-me independente,
“sabem por que razão a Amazónia está a arder, seus Billie Eilish tem vindo a alargar-se. E tal não se veri- viver sozinha e fazer coisas sozinha, mas agora sin-
cretinos? Sabem porquê? Porque para haver quintas fica apenas entre o público anónimo, visto que mú- to que não consigo porque sou ‘famosa’. Percebe?
com gado, para criar vacas e matá-las para as colo- sicos com créditos firmados, como Dave Grohl, vo- Quando a minha mãe não está comigo, há sempre
carem nos vossos pratos, começaram a derrubar ár- calista dos Foo Fighters e ex-baterista dos Nirvana, muita gente à minha volta, vá eu onde for, portan-
vores com o intuito de arranjar mais espaço. Como ou Thom Yorke, dos Radiohead, também tropeçaram to mesmo que esteja a planear umas férias nunca
isso se tornou crime, passaram a incendiar florestas na música da jovem depois de os filhos lhes falarem posso ir sozinha. Não é seguro. E é estranho pensar
para criar espaço. Isto não está a acontecer de for- dela. Grohl já comparou o seu sucesso inicial ao dos nisso, porque quando não tens fama, ou o que quer
ma espontânea, há mesmo pessoas a provocar in- Nirvana, Yorke diz que é a única pessoa a fazer algo que lhe queiras chamar, nem pensas nisso. Quando
cêndios para acabar com as árvores. E vocês, depois de interessante neste momento. Entusiasmada com as celebridades fazem algo sozinhas são importu-
de darem uma dentada, afastam-se e partilham nas os elogios dos seus pares, a cantora parece, no en- nadas pelas pessoas e têm de levar com isso porque
redes sociais a vossa indignação com os incêndios. tanto, deixar-se deslumbrar mais com as opiniões não têm ninguém para as ajudar ou proteger. Não
Se calhar, em vez de sacarem dos vossos sacos e pra- de duas das suas grandes referências... Justin Bie- sei se posso realmente pensar em estar sozinha na
tos de plástico para porem um pedaço de carne em ber era um dos seus ídolos de criança e já conseguiu minha vida. Não sei se alguma vez estarei”. Quanto
cima dele, podiam PARAR! Não o façam... Fico doi- gravar com ele uma versão de ‘Bad Guy’, e Lana Del a objetivos de carreira, começa por dizer, entre ri-
da... Não suporto as pessoas.” Rey, a quem é muitas vezes comparada, referiu-se sos, “só espero que a música que farei no futuro não
A forma como a roupa pode influenciar o bem- recentemente a ela como “prodigiosa”. Entre loas seja um fracasso. Continuo a ouvir coisas do género
-estar de alguém que sofre de transtorno dismór- a “Norman Fucking Rockwell”, o novo longa-du- ‘ela está a quebrar regras’, ‘ela é o antipop’, ‘está a
fico corporal é outra causa que lhe é muito próxi- ração da diva, exclama: “Tenho zero maus pensa- fazer o oposto daquilo que os outros fazem’ ou ‘ela é
ma. Adepta da moda confortável, sendo conheci- mentos sobre a Lana. E isso é tão raro para mim... Há tão diferente’, mas espero que as pessoas não digam
da por vestir uns bons números acima daqueles outras pessoas que também adoro que me deixam isso apenas porque gostam daquilo que tenho feito.
que assentariam mais justos à sua figura, a cantora algumas reservas, às vezes, mas a Lana? Vá lá. Nem Não acho que seja justo, porque há muitos artistas a
criou várias linhas de merchandising que seguem a consigo acreditar que ela goste de mim. Está muito fazer o mesmo e ninguém diz nada porque não gos-
sua filosofia de “conforto acima do resto”. Em abril acima de toda a gente. Quando tiver 70 anos, ela vai tam da música que fazem. Se no futuro fizer músi-
deste ano, colaborou com o artista japonês Takashi continuar lá em cima, independentemente do que ca diferente daquela que tenho editado até ao mo-
Murakami numa série de artigos de vestuário (ca- outras pessoas tenham feito. É a rainha disto tudo. mento, espero que as pessoas não venham dizer ‘ela
misolas, t-shirts e acessórios) e, mais recentemen- Uma deusa.” Sempre atenta, Eilish também se des- mudou’. Se me elogiam por ser diferente no início,
te, divulgou uma coleção de moda unissexo criada dobra em elogios à catalã Rosalía, que marcou pre- porque hão de dizer mal se eu mudar?” b
em parceria com a marca Bershka. “A intenção é sença no concerto a que assistimos, em março, em
incluir pessoas que não conseguiriam vestir uma Barcelona, e com quem partilhou tempo de estúdio. mrvieira@blitz.impresa.pt

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COLABORAÇÃO
A cantora com uma das
peças da coleção Billie
Eilish x Bershka, com
propostas que
incorporam o seu
estilo casual

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EspecialModa

A it girl
da geração Z
Com as suas roupas largas, cores berrantes prints saídos do Anime e monogra-
mas XXL das grandes marcas de luxo,
e logos XXL de marcas de luxo, a nova menina de embora, ao contrário do que se possa
ouro da pop subverte as regras de como pensar, nem todas sejam peças origi-
uma artista feminina se deve apresentar. nais. Quando atuou em Coachella, em
abril, duas semanas depois do lança-
Mas em dezembro faz 18 anos e deixa o aviso: mento do seu primeiro álbum, apre-
“Vou ser mulher. Quero mostrar o corpo” sentou-se em palco com um conjun-
TEXTO NELSON MARQUES to azul com enormes logos da Lou-
is Vuitton, uma criação do artista
Imran Moosvi, aka @Imran_Potato,
sequer comportar-me normalmente. que conquistou diversas estrelas com
Não conseguia olhar-me ao espelho”, as suas roupas que usam símbolos das
confessou à “Rolling Stone”. grandes casas de luxo.
A opção pelas roupas largas e des- Foi também naquele que é um dos
portivas — que alguns dizem lembrar mais mediáticos festivais de música
Avril Lavigne no início dos anos 2000 que Eilish exibiu outro dos seus looks
— não é por isso inocente, explicou na mais memoráveis: de cabelo pintado
campanha #MyTruth da Calvin Klein, de azul marinho, vestiu uma t-shirt
marca que, curiosamente, tem acu- verde néon, colete de cabedal reple-
mulado nos últimos anos acusações to de monogramas da Louis Vuitton
de sexualizar crianças: “Não quero e umas calças de pelo azul, que usou
casaco aberto e num top branco bá- que o mundo saiba tudo sobre mim. todo o dia apesar de as temperaturas
sico. Eilish tem 17 anos e, apesar da É por isso que uso roupas largas. Nin- terem chegado aos 33°C. As sapati-
súbita fama global, aquele foi o dia guém pode ter uma opinião porque lhas são outra das suas escolhas de
em que o mundo descobriu que ela não viram o que está debaixo. Não eleição. Prefere-as robustas e volu-
tinha mamas. “Nasci com um ADN podem dizer ‘ela é magra, ela não é mosas, como as Air Jordan ou as Air
que me deu um peito grande”, dis- magra, ela não tem rabo, ela tem um Force 1, ou modelos de luxo de mar-
se à “Elle”, num artigo que será pu- rabo grande’. Não podem dizer nada cas como Gucci, Prada ou Balencia-
blicado na edição de outubro. É algo disso porque não sabem.” Eilish tem ga. Não esperem vê-la com ténis para
com que teve de lidar desde cedo. 17 anos e veste a sua idade. Não con- mulheres, ou com os Vans que andam
“Alguém com mamas mais pequenas tem com ela para vender lingerie. nos pés de tanta gente e motivaram
podia usar um top e quando eu usava É uma opção que não podia con- um comentário mordaz: “Se vejo al-
o mesmo top era tratada como uma trastar mais com a hipersexualização guém com uns, não consigo deixar
vadia porque as minhas são maiores. de estrelas como Madonna, Rihanna de pensar: ‘aquele gajo tem uma pila
Isso é estúpido. É o mesmo top!” ou Miley Cyrus, só para citar alguns pequena’.”
Seria, por isso, fácil (e simplis- casos. Ela é praticamente a anties- Com a jovem artista nada é dis-
ta) dizer apenas que as sweaters e os trela pop, considerando que os este- creto: vê-se a roupa antes de se ver
calções oversize inspirados no stree- reótipos de género “são antiquados” a pessoa. Há dois anos, ainda longe
twear que se tornaram uma das suas e subvertendo as regras de como uma de se tornar um fenómeno global,
imagens de marca são uma armadu- artista feminina se deve apresentar. admitia que o seu estilo “bastante
ra para desviar as atenções e não ser “Se fosse um rapaz e usasse estas estranho” era uma forma de se des-
julgada pelas formas do seu corpo. As roupas largas, ninguém repararia. Há tacar da multidão. “Gosto de vestir
raízes são mais profundas e remon- pessoas que dizem: ‘Veste-te como fora da zona de conforto. Se estiver
illie Eilish tem mamas. É certo que tam à época em que entrou para uma uma rapariga! Usa roupas justas que numa sala cheia de pessoas vestidas
isso não deveria ser surpresa, mas pe- companhia de dança e passou a estar serás mais bonita e a tua carreira será normalmente, quero sentir “Oooh,
los vistos a constatação foi suficiente rodeada “de raparigas muito boni- muito melhor.’ Não, não seria. Literal- aposto que está toda a gente a olhar
para incendiar o Twitter em junho e tas”. Tinha 12 anos e começou a so- mente não”, disse ao site NME. para mim’. Casual para mim é isso”,
merecer até destaque no site da CNN, frer de dismorfofobia corporal, uma explicou à “Harper’s Bazaar”.
apesar de ela ser menor. Bastou para doença psicológica em que a pessoa COR, MUITA COR Mais recentemente, numa con-
isso à nova princesa da pop ter saído acredita ter defeitos físicos que não A sua página de Instagram, segui- versa com o músico Pharrell Williams
do autocarro de digressão para cum- tem ou possui num nível mínimo. da por mais de 38 milhões de pes- para a “V Magazine”, abordou os
primentar alguns fãs antes de um “Foi provavelmente a altura em que soas, podia ser a de uma it girl do equívocos que existem sobre a sua
concerto em Nashville e um deles ter me senti mais insegura. Não tinha streetwear, mostrando uma predi- forma de vestir. “Uso merdas largas
tirado uma foto em que ela surge de confiança. Não conseguia falar ou leção por cores berrantes, enormes e uso o que quero. Mas, claro, toda a

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gente vê isso como ‘Ela não quer ser
sexualizada’ e ‘ela está a dizer não a
ser vista como o estereótipo de mu-
lher’.” Preocupa-a sobretudo que os
elogios à forma como se apresenta em
público sirvam para denegrir outras
mulheres. “As pessoas ainda não en-
tenderam. O ponto não é: vamos cha-
mar vadias a estas raparigas por não
se vestirem como a Billie Eilish. Isso
enfurece-me.”
A sua opção por um estilo origi-
nal, que mistura extravagância com
peças desportivas, ajudou a transfor-
má-la na it girl da geração Z, nascida
após o ano 2000. Razão mais que su- no vestuário não fazem sentido para
ficiente para cada vez mais marcas, ela”, reconheceu a stylist da cantora,
das cadeias de fast fashion às casas de Samantha Burkhart, ao “New York Ti-
luxo, se quererem associar a ela. De- mes”. A cantora de LA é uma das em-
pois de colaborar com a californiana baixadoras do movimento que está a
Freak City, favorita de celebridades fazer com que a moda andrógina deixe
como Rita Ora, Nicki Minaj ou M.I.A., de ser um fenómeno de nicho.
e com as meias Stance, é a protago- Nem todos concordam que este
nista, ao lado do rapper Childish Ma- movimento “não binário” seja um
jor, da nova campanha da marca de fenómeno novo: nos anos 90, por
roupa e de acessórios de luxo MCM e exemplo, muitas jovens mulheres
também da nova coleção genderless usavam camisas de flanela e botas
(sem género) da Bershka, que chegou Dr. Martens. Não lhe chamavam an-
às lojas no final de agosto. droginia, mas grunge. Ou até antes
Pelo caminho, ficou uma colabo- disso. “As adolescentes usam swea-
ração com a Siberia Hills, depois de ters e ténis desde os anos 70, quan-
a marca ter sido acusada de se apro- do estávamos realmente a começar a
priar de uma personagem do Ani- combater os estereótipos de género”,
me. As peças foram imediatamente escreveu na revista “The Spectator”
retiradas da loja online da cantora, a escritora canadiana Meghan Mur- se quiser fazer um vídeo com um ar COVER GIRL Aos 17 anos,
onde é possível encontrar t-shirts e phy, autora do site “Feminist Cur- desejável?”, pergunta na entrevista Billie Eilish já foi capa de
sweaters desenhadas por Eilish para rent”. “Só hoje é que pretensos libe- da “Elle” que vai para as bancas no algumas das mais prestigiadas
a sua marca, a Blosh, uma ambição rais modernaços querem fingir que final do mês. A cantora sabe que mui- revistas do mundo, incluindo
que confessara já desde os 15 anos. vestir calças e casacos de homem ta gente dirá que perdeu todo o res- a “Vogue”, a “Rolling Stone”,
“Moda e estilo inspiram-me, estou a definem uma pessoa ao ponto de que peito por ela. Outros apressar-se-ão a “Elle” e muitas outras
aprender e a fazer algumas das mi- ela se torna sem género, e que pôr um a chamar-lhe “vadia”. É provavel-
nhas peças. Espero que algum dia elas eyeliner mas definir-se como ‘andró- mente a adolescente mais comenta-
possam tornar-se uma marca ou uma gino’ torna alguém diferente de todos da do planeta e sabe que isso tem um
colaboração”, disse ao site Milk Xyz. os outros. Como se os outros fossem custo: haverá sempre alguém pron-
estereótipos ambulantes, com as suas to a atacá-la ou a dissecar cada op-
UMA NOVA ETAPA calças de género, t-shirts binárias e ção sua. Para quem tem só 17 anos,
Para alguns especialistas, o estilo camisolas cis.” já ganhou uma carapaça forte. Talvez
unissexo da nova sensação da pop indie Em dezembro, Billie Eilish fará 18 acredite que está na hora de retirar a
marca a forma como a geração Z está anos e já começou a preparar os fãs armadura. b
a desafiar as regras mais tradicionais para a mudança. “Vou ser uma mu-
da moda. “Os estereótipos de género lher, quero mostrar o meu corpo. E nmarques@expresso.impresa.pt

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MATTEO SALVINI
Como ser populista
— o manual de instruções
Surge na linha da frente da política italiana e
europeia, e é o homem que os seus rivais mais
temem. O antigo apresentador de rádio e
camaleão político está a marcar um novo e notável
capítulo da democracia na era das redes sociais
TEXTO RACHEL DONADIO/“THE ATLANTIC”

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E
Em lugar disso, o Movimento Cinco Estrelas e o Par- Ao fazê-lo, abriu uma batalha sobre a alma da
tido Democrático, de centro-esquerda — um repre- Itália: se é um país de “bons samaritanos” com um
sentando o populismo antiestablishment, o outro o es- grande coração que Salvini despreza, ou de duros
tablishment —, puseram de lado a animosidade mútua defensores de fronteiras. O foco de Salvini nos mi-
de longa data para formarem o novo Governo mais grantes não tem só que ver com imigração. É um qua-
estranho da história italiana recente, com um único dro fluido que se expande rapidamente em questões
objetivo: bloquear Salvini. emocionais e mais vagas de identidade nacional, raça
Salvini poderá ter calculado mal — por húbris, e pertença. Um político astuto pode pescar nessas
talvez — mas permanece na linha da frente da po- águas profundas durante anos. Há algo de “retorno
lítica italiana e europeia; é o centro de gravidade, o dos oprimidos” em Salvini. Ele é um produto da má
homem que os seus rivais mais temem. A ascensão gestão da crise da imigração pela Europa (e Itália) e da
deste carismático antigo apresentador de rádio, ca- crise da dívida. Tem acesso fácil aos sentimentos ita-
maleão político e tecnopopulista a turbo é instrutiva, lianos de raiva, impotência, instabilidade económica
marcando um novo e notável capítulo da democracia — sentimentos que ajudaram os populistas a chegar
na era das redes sociais. Salvini mudou rápida e dra- ao poder em 2018, quando o Movimento Cinco Estre-
maticamente a cultura em Itália, humanizando a re- las, que promete um rendimento básico mínimo para
tórica de extrema-direita e tornando o discurso pú- os italianos mais pobres, ficou em primeiro, o Partido
blico e sentimento de rua mais duro e agressivo. Não Democrático em segundo e a Liga em terceiro.
é simplesmente um fac-símile de Donald Trump na Os tweets de Trump provocam incidentes interna-
Europa, nem apenas o arquétipo de um nacionalista cionais; os de Salvini são o subconsciente italiano em
zangado na linha de Viktor Orbán. Ele está a escre- direto. Isto permite-lhe ser ao mesmo tempo ubíquo
ver um manual de instruções inteiramente novo para e totalmente opaco — e manter toda a gente a tentar
o populismo do século XXI. adivinhar os seus motivos e convicções, sempre pre-
Mais do que uma estufa mediterrânica, Itália sente online mas raramente clarificando a sua posição
m maio, Matteo Salvini, então ministro do Interior e foi sempre um laboratório político, um prenúncio em assuntos importantes. O controlo quase total que
vice-primeiro-ministro no primeiro Governo popu- de coisas a vir. As suas revoluções foram sempre de Salvini exerce sobre o partido e a sua mensagem tor-
lista de Itália, apareceu em frente à catedral de Milão extrema-direita — do fascismo ao futurismo a Silvio nam extremamente difícil defini-lo. Quão à direita é
com outros políticos de extrema-direita europeus, se- Berlusconi. Mas o que se tem estado a desenvolver ele, exatamente? Ficaria mais moderado se se tornas-
gurando um terço, e apelou a uma defesa da Europa com Salvini tem implicações além de Itália — para se primeiro-ministro? Aproximaria a Itália do grupo
cristã contra a sua substituição por estrangeiros. Em o resto da Europa e para outras democracias. Mais de Visegrado, com países do centro e do leste da Eu-
agosto, esteve em campanha e fez de DJ — de tronco do que qualquer outro político no mundo, hoje ele ropa, ou trabalharia com Bruxelas? A Itália tem sete
nu, cruz ao pescoço, mojito na mão — num clube de tem vindo a testar a relação entre cliques e consen- bases da NATO; o que pensa ele sobre a NATO? Quais
praia onde as dançarinas em fatos de banho bastan- so — se instituições morosas em Itália e na Europa, os seus pontos de vista sobre raça? E sobre o euro?
te cavados com padrões de leopardo giravam ao som para não falar dos partidos políticos rivais, podem Em que acredita ele realmente, além da sua própria
do hino nacional italiano. Ao mesmo tempo, as suas aguentar o uso de redes sociais extremamente ve- vontade de poder?
contas nas redes sociais publicavam um fluxo cons- lozes e reativas. Donald Trump tem usado o Twitter, Pus estas questões em Itália durante meses, à me-
tante de vídeos de cães, gatos, comida e imigrantes a tanto durante a campanha como no seu cargo, para dida que Salvini subia cada vez mais nas sondagens.
portarem-se mal. estabelecer a agenda noticiosa. Salvini vai um pas- Entrevistei dezenas de pessoas. E, durante meses, fui
A fórmula de Salvini tem sido combinar um dis- so mais à frente. Usa-o para pôr os seus apoiantes baralhada por assessores de Salvini que rejeitavam
curso duro de “eles versus nós” sobre imigração com mais perto dele, fazendo-os sentir que é um deles. as minhas perguntas como típicas dos media mains-
defesas emocionais, porém vagas, da identidade na- Enquanto os comícios de Trump parecem ser onde tream, ou me diziam que Salvini não tencionava al-
cional, com a fiabilidade de um comum italiano. ele se sente mais em casa, para Salvini é também nos terar nenhum dos tratados já existentes, mas recu-
“Buongiorno, amici!” é a sua forma normal de cumpri- momentos a seguir, quando ele passa horas, de bra- savam falar em on por não terem permissão para tal.
mento. Após cada comício, posa para selfies, às vezes ço estendido, a tirar selfies com os seus apoiantes. E Deparei-me com expressões vazias, e vi-me olhada
durante horas. Cada selfie um voto, eis a sua estraté- embora as missivas de Trump nas redes sociais te- como se fosse louca. O que quer dizer com “evolução
gia. O seu uso astuto das redes sociais — a sua página nham um ar de reatividade aleatória, as de Salvini política”? O que quer dizer com “acreditar”? Algu-
de Facebook tem mais engajamento genérico do que fazem parte de uma máquina bem afinada que pres- mas das melhores mentes de Itália disseram-me que
a de Donald Trump — ajudou-o a construir um culto ta atenção significativa a saber se os likes do Face- achavam que nem Salvini sabia aquilo que queria ou
da personalidade que é laboriosamente trabalhado book se traduzem em votos. em que acreditava, para lá das sondagens.
para o fazer parecer espontâneo. A sua popularidade Em muitos aspetos, Salvini, a quem os apoiantes Muitos italianos veem a ascensão de Salvini e a
permitiu-lhe transcender o partido, a Liga, de extre- chamam “Il Capitano”, o capitão, é um produto das sua transformação da Liga em termos de pura polí-
ma-direita, e tornar-se a face de Itália, eclipsando o circunstâncias. Berlusconi, que deixou o cargo de tica de poder maquiavélica. “Não há ideologia”, dis-
primeiro-ministro na imaginação pública. primeiro-ministro em 2011, abriu o caminho. A sua se-me Maurizio Molinari, editor do “La Stampa”, um
Em 15 meses como membro do Governo, a in- Forza Itália também era um movimento carismático diário italiano. Salvini “venderia até a própria mãe”
cansável campanha de Salvini — enquanto ministro e impediu o crescimento de uma direita italiana não se isso o ajudasse a conseguir votos. Flavio Tosi, an-
do Interior — ajudou o seu partido a duplicar a per- baseada em personalidade. Foram os canais privados tigo presidente da Câmara de Verona pela Liga que se
centagem nas sondagens, ultrapassando claramente de Berlusconi que criaram a audiência que a seguir desentendeu com Salvini, disse-me que ele acredita
todos os outros partidos, incluindo o antigo parceiro se tornou em eleitorado, anos antes de Trump fazer “no que quer que o ajude eleitoralmente” a cada mo-
de coligação, o Movimento Cinco Estrelas, antiestab- o mesmo com “O Aprendiz”. Durante o seu tempo mento. “Se amanhã os italianos quisessem a imigra-
lishment. A Liga ficou em primeiro nas eleições para no poder, a economia italiana perdeu anos — mal ção, ele também a quereria”, explicou Tosi. Alessan-
o Parlamento Europeu em maio, com 34% dos votos. cresceu em duas décadas — e o eleitorado, já cínico, dro Trocino, que acompanhou Salvini durante duas
Enquanto isso, Salvini não respondia a questões so- ficou ainda mais desiludido. Então veio Trump, que décadas como repórter para o “Corriere della Sera”
bre os laços da Liga à Rússia e se realmente quer que encorajou as cópias nativistas pelo mundo fora. Sal- e escreveu uma história da Liga, descreve uma qua-
Itália permaneça no euro. vini partilha com Trump uma mentalidade de cerco. lidade Jekyll-and-Hyde que Salvini tem. Ao jantar,
O avanço aparentemente imparável de Salvini en- Defendeu uma lei que legitima disparar sobre intru- “é completamente razoável, diz coisas sensatas, ja-
corajou-o a testar a sua popularidade. Retirou o apoio sos em autodefesa, e outra que permitiria a castração mais é extremo. É muito simpático e um grande co-
do seu partido ao Governo e forçou uma crise, na es- química de violadores. O que a fronteira a sul é para municador”; a seguir, nos seus comícios, diz coisas
perança de que novas eleições fizessem dele o pri- Trump, são os portos para Salvini, e ele tem prome- “monstruosas”; por exemplo, que as cidades italia-
meiro líder de um governo de extrema-direita numa tido fechá-los àquilo a que chama “invasão” de imi- nas precisam de uma “limpeza maciça” que as livre
grande potência europeia. Desta vez não conseguiu. grantes que entram no país ilegalmente. de imigrantes.

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FRANCESCA VOLPI/BL

TELEMÓVEL Sozinho, através do Facebook e do Tiwtter, ou acompanhado, em fotografias na praia ou em qualquer praça italiana, Salvini tem nas redes sociais
e no telemóvel a arma definitiva para chegar aos italianos. Como munições recorre com a mesma facilidade a imagens de animais e a ataques à imigração
STEFANO MONTESI/CORBIS/GETTY IMAGES
ANTONIO PARRINELLO/REUTERS

Trocino, como a maioria dos jornalistas políticos para aquilo que o partido via como um sul violento, vagamente céltica, chamada Padânia, que o partido
veteranos no país, considera isto um mero jogo de infestado pelo crime organizado. A t-shirt diz: “Milão dizia querer separar-se de Itália. A cor do partido era
poder descarado. Salvini viu uma abertura à direita trabalha, Roma rouba, Nápoles dispara.” verde e o seu logótipo uma roda de vagão cujos raios
após o declínio de Berlusconi e apropriou-se dela, o eram folhas. Quando Salvini foi eleito líder do partido
que implicou virar à direita em questões de imigração XENOFOBIA E FOLCLORE em dezembro de 2013, este estava com 4% nas son-
e de valores. Disse-me também que ainda tem uma A Liga foi fundada em 1989 como Liga do Norte, um dagens e imerso num escândalo, com o cofundador
t-shirt que Salvini lhe ofereceu quando era líder dos partido separatista que queria sobretudo mais au- e outros funcionários acusados de terem fugido com
Jovens Padoanos, o grupo de juventude da Liga, nos tonomia fiscal para o rico norte de Itália. A sua re- €49 milhões de dinheiros públicos (um tribunal dei-
tempos em que o partido se chamava Liga do Norte tórica tendia para a xenofobia mesmo nessa altura, xou cair as acusações de fraude, dizendo que o prazo
e protestava contra o roubo por Roma dos seus ren- e tinha elementos de folclore — a veneração do rio de prescrição tinha sido atingido, mas decidiu que
dimentos fiscais arduamente ganhos e o envio deles Po e a crença numa pátria ficcional, de inspiração mesmo assim o partido tinha de devolver os fundos).

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PIER MARCO TACCA/GETTY IMAGES

ANGELO CARCONI/ EPA


Salvini transformou a Liga num partido nacio- prestigiados de Milão. (A sua família não era politi- Salvini distinguiu-se a responder a perguntas dos
nal, substituindo Roma por Bruxelas — sede efetiva camente ativa e apoiava um pequeno partido gover- (frequentemente zangados) ouvintes.
da União Europeia — como o inimigo e o subjugador. namental de centro-direita.) Salvini deixou a Univer- “Era uma grande escola”, disse-me Alessandro
Agora protesta contra a tirania da UE, em particular sidade de Milão quando lhe faltavam alguns exames Morelli, um fiel de Salvini que dirigiu a Radio Pada-
os seus fracassos na imigração e as suas regras irri- para terminar o curso de História e tornou-se ativista nia depois dele e é agora deputado da Liga, tendo sido
tantes, incluindo uma que requer que Itália mantenha da Liga do Norte. presidente do comité de transportes do Parlamen-
baixo o seu défice. A cor do partido mudou para azul Na sua longa carreira política, porém, a evolu- to italiano no Governo anterior. “É a única rádio que
e o seu logótipo é um cavaleiro montado com uma ção intelectual e ideológica é difícil de fixar. Antes deixa as pessoas telefonarem sem filtro.” Os apresen-
espada na mão, uma espécie de Joana D’Arc mascu- de abandonar a universidade, Salvini ponderou es- tadores escolhiam os tópicos quentes do momento e
lina a defender a nação. Sob a direção de Salvini, a crever uma tese sobre o industrial Adriano Olivetti, tomavam o pulso. Salvini era um talento natural. Até
Liga tem cortejado e conquistado votantes do sul de um socialista católico com ideias inovadoras para hoje, ele vibra no rápido ‘resposta contra resposta’ de
Itália, territórios de estagnação económica e desem- melhorar a sociedade. “Ele disse, ‘não me posso for- uma conferência de imprensa ou um debate televisi-
prego elevado — as mesmas regiões das quais o seu mar, estou obcecado com a política’”, contou-me vo. (Também beneficiou imenso da relativa docilida-
partido em tempos se queria separar. Guilio Sapelli, professor de História Económica na de da imprensa italiana, que tende a focar-se obses-
Um modelo para a transformação do partido é a Universidade de Milão, a quem Salvini pediu que o sivamente em tensões políticas menores em vez de
União Nacional, de Marine Le Pen. Ambos os parti- aconselhasse na tese que nunca chegou a escrever. no quadro mais geral — e que tende a ser próxima do
dos, ao longo dos anos, foram absorvendo votantes Nessa altura, Sapelli recomendou-lhe alguns livros poder. Alguns dos apresentadores televisivos e colu-
que costumavam votar comunista. Mas com Salvini, — “A Ascensão e Queda das Grandes Potências”, de nistas de jornal mais populares ajudaram na ascen-
a ascensão da Liga tem sido astronómica, enquanto Paul Kennedy, livros de Henry Kissinger e da filó- são de Salvini escrevendo favoravelmente sobre ele,
Le Pen ainda não conseguiu o poder a nível nacional, sofa francesa Simone Weil, bem como o “Manifesto lisonjeando-o ou deixando-o falar sobre como tinha
em parte devido às diferenças entre os sistemas elei- ao Serviço do Personalismo”, de Emmanuel Mou- ganhado peso durante a campanha, em vez de lhe fa-
torais dos dois países. Há um ano, Le Pen era mentora nier, um livro que, segundo Sapelli, Salvini “apre- zerem perguntas incisivas.)
de Salvini. Hoje, ele tornou-se um modelo para polí- ciou muito”. Mounier fundou o personalismo, uma Quando estávamos no escritório de Morelli, no
ticos de extrema-direita. escola de pensamento antimarxista que valorizava Parlamento — que chegara tarde, após uma reunião
A expansão da Liga criou algumas tensões in- o indivíduo. Sapelli disse-me que não reconhecia com Salvini no Ministério do Interior, explicou — pe-
ternas. A norte, ela governa as prósperas regiões da realmente o jovem Salvini no Salvini de hoje. “É uma di-lhe histórias dos tempos de Salvini na Radio Pa-
Lombardia e de Veneto, que ainda querem mais au- pessoa muito diferente”, disse. dania Libera. Decerto tinha algumas histórias boas?
tonomia fiscal, ao mesmo tempo que Salvini corteja Os talentos performativos de Salvini foram evi- Não, disse Morelli, não vinha nada à cabeça. A sério?
os votantes do sul. Mas Salvini fez à Liga o que Trump dentes desde tenra idade. Em adolescente, brilhava Não, a sério, disse-me. Apenas que Salvini era um
fez ao Partido Republicano — a velha guarda pode ter como concorrente em programas televisivos de jo- grande líder e um grande comunicador.
prioridades diferentes, mas teme os efeitos de romper gos. Em 1993, quando tinha 20 anos, foi eleito para a As observações de Morelli — amigáveis e polidas,
com um líder tão poderoso e tão popular entre as ba- assembleia municipal de Milão com a bênção do lí- mas vagas — correspondiam a um padrão: a Liga é
ses. (Ou, pelo menos, que o era até a sua aposta levar der e cofundador da Liga, Umberto Bossi. (Bossi, cuja um partido extremamente disciplinado, em especial
o partido para a oposição.) imagem ficou associada aos charutos que mascava, foi sob a direção de Salvini. Quando falam, não falam. E
A tomada da Liga por Salvini marcou uma rara um dos acusados no escândalo sobre o financiamento os poucos que falam tendem a dizer a mesma coisa.
transição de gerações dentro de um partido político do partido.) Uns anos depois, Salvini tornou-se jorna- Membros da Liga explicaram-me tantas vezes que
italiano, mas ele preparou-se para isso durante toda lista no “La Padania”, o jornal da Liga do Norte, onde Salvini era o seu próprio estratego de media — “Quem
a vida. Nascido em Milão em 1973, vem de uma famí- editava as cartas dos leitores. Mas a sua oportunida- é o spin doctor de Salvini? A resposta é Matteo Salvi-
lia de classe média. O pai era funcionário de escritó- de decisiva surgiu em 1999, quando Bossi o foi buscar ni”, disse-me Morelli, sem eu perguntar —, o que
rio numa fábrica de químicos e a mãe tradutora de para trabalhar na Radio Padania Libera, uma estação começou a parecer quase uma forma de autoincrimi-
alemão. Aderiu à então Liga do Norte na adolescên- muito básica mas eficaz de talk-radio, conhecida pe- nação. Sem dúvida, Salvini percebe que os vídeos de
cia, quando estudava num dos liceus públicos mais los seus programas com participação do público. Aí, gato e os ataques a imigrantes ganham tração online,

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TONY VECE/ EPA

PROXIMIDADE A ideia que fica quando se


assiste a um comício de Salvini é a de que as
mas quanto mais os seus leais rejeitavam à partida a rendimento das obrigações italianas estavam tão ele- pessoas admiram o que entendem ser a
ideia de que os algoritmos determinassem a sua men- vadas que por momentos pareceu que o país ia neces- sinceridade do político, a sua proximidade.
sagem, mais eu começava a suspeitar que a sua má- sitar de um resgate. Foi substituído por um Governo Ele sabe, como poucos, usar os seus
quina secreta de redes sociais podia ser ainda mais de emergência nacional dirigido por Mario Monti, um defeitos em proveito próprio. Custa-lhe
significativa do que o pouco que o público conhece. tecnocrata apoiado tanto pela esquerda como pela di- deixar de fumar e tem barriga a mais, admite
Salvini não me concedeu uma entrevista, e mui- reita. (A Liga estava na oposição.) O Governo de Monti
tos dos altos funcionários da Liga também não. Ele e instituiu medidas de austeridade, incluindo a subida
o Movimento Cinco Estrelas essencialmente fecha- da idade da reforma, que este Governo populista tem por ele ser um especulador, não por ser judeu”, dis-
ram-se à imprensa estrangeira. O seu tipo de popu- tentado inverter — embora ninguém saiba onde Itália se. O financeiro nascido na Hungria foi de facto um
lismo implica controlar a própria mensagem. Salvini iria arranjar o dinheiro para isso. especulador com as moedas nacionais nos anos 90,
dignou-se falar à revista “Time”, que o pôs na capa A posição de Salvini em relação ao euro permane- mas Salvini só o refere no contexto da imigração. Eis
como “o homem mais temido da Europa”. As coisas ce ambígua. Há anos que a Liga governa a nível local onde Itália parece estar a seguir a Hungria de Orbán:
não eram assim tão diferentes com Berlusconi, e não e regional nas regiões mais ricas do norte de Itália, um país com poucos judeus mas com antissemitis-
é invulgar os líderes europeus — Angela Merkel, Vla- sede de empresas que têm prosperado sob o euro, mas mo sub-reptício.
dimir Putin e Orbán, por exemplo — recusarem en- quando Salvini tomou conta da Liga ele, Morelli e al- Há muito que Salvini tem a obsessão da imigração
trevistas com media estrangeiros, mas há uma dife- guns outros andaram a percorrer o país numa carava- como força negativa em Itália. Quando era criança,
rença hoje em Itália, com Salvini (e o Cinco Estrelas) na durante a campanha para as eleições de 2014 com a sua família mudou-se para um apartamento novo
a dar o tom: nenhum país europeu ocidental do G7 uma plataforma de “Basta euro” — um esforço con- mas descobriu que os anteriores inquilinos recusa-
alguma vez foi dirigido por um Governo tão virado cebido por Claudio Borghi, que seria líder do comité vam sair. “É estranho dizê-lo, mas a história repe-
para dentro na era do pós-guerra. orçamental no Parlamento italiano até o Governo cair. te-se: o inquilino não era italiano!”, escreve ele em
Quando esta primavera me encontrei com Borghi no “Secondo Matteo”. (Este título, com a sua hábil refe-
BRUXELAS VISTA DE ITÁLIA gabinete palaciano que tem no Parlamento, disse-me rência ao Evangelho Segundo Mateus, é típico de Sal-
Ao longo dos anos, Salvini tem mostrado consistên- que abandonar o euro já não estava na mesa, pois a vini: ao mesmo tempo pomposo e irónico sobre a sua
cia em algumas áreas: ceticismo sobre a UE e o euro; Liga governava numa coligação “cujo programa não própria pomposidade. A estratégia é crucial para a sua
raiva com a perceção de ameaça que a imigração põe inclui deixar o euro”. Salvini e outros membros da imagem — ele faz de homem forte mas pisca o olho ao
à Itália; uma crença na família heteronormativa tra- Liga dizem querer que a UE mude as suas regras, in- seu público. É ao mesmo tempo duro e desarmante.)
dicional; e uma admiração por autocratas. Na sua au- cluindo aquela que requer que os países dentro da Em 2009, quando era membro da assembleia muni-
tobiografia de 2016, “Secondo Matteo” (Segundo Ma- zona euro mantenham os seus défices orçamentais cipal de Milão, Salvini sugeriu que a cidade conside-
tteo), Salvini compara a UE a um “superestado que abaixo de 3% do PIB. rasse reservar lugares especiais nos transportes pú-
não é assim tão diferente da velha União Soviética”. Isto exigiria mudar os tratados europeus, uma hi- blicos para “os milaneses” e para “pessoas com boas
Não importa que a UE jamais tenha mandado alguém pótese remota. Também é demasiado técnico para a maneiras” — com o subtexto de que os estrangeiros
para o gulag; Salvini capta a genuína frustração de maioria dos votantes compreenderem. Salvini ataca não preenchiam esses critérios. Os seus críticos na
Itália com o euro. O país não geriu particularmen- aquilo a que chama uma Europa dirigida por “ban- altura, incluindo no partido então dirigido por Ber-
te bem a transição da lira, com os preços a subirem queiros, bons samaritanos e burocratas”. E com fre- lusconi, disseram que a sugestão lembrava a prática
acentuadamente comparados com os salários. Até quência destaca o financeiro milionário George Soros de exigir aos judeus que usassem estrelas amarelas.
hoje, muitos italianos culpam a moeda única pelos em tons de conspiração. No seu discurso em Milão Em discursos e na sua autobiografia, Salvini aflo-
seus males económicos. antes das eleições europeias em maio, Salvini acusou ra a retórica da “grande substituição”, mais recen-
Esses sentimentos multiplicaram-se após o início algumas “elites” — Merkel, Macron, Soros — de traí- temente desenvolvida pelo filósofo francês Renaud
da crise da dívida europeia, que fez subir imenso as rem a Europa, e disse que Soros estava a pagar às ONG Camus, que afirma que população europeia de maio-
taxas de juro e levou à queda de governos na Grécia, para trazerem imigrantes para a Europa. Não é essa ria branca está a ser substituída por gente de cor.
em Espanha e em Itália. No outono de 2011, Berlusco- escolha de Soros como alvo um clássico antissemita? Esta teoria da conspiração foi adotada por radicais
ni tinha deixado o poder, saindo quando as taxas de Insisti com Borghi sobre isso. “Salvini fala de Soros de extrema-direita, incluindo autores de massacres

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recentes nos EUA e na Nova Zelândia. Salvini não Na minha tentativa de entender onde situar Sal- a revelar-se. Ezio Mauro, colunista do “La Repubbli-
apoiou tal violência, mas também não renunciou a vini, fui visitar Gennaro Sangiuliano, chefe do pro- ca”, fala em “fascismo 2.0”. “A banalização crescente
uma teoria que a motiva. (O jornalista italiano Claudio grama noticioso “Tg2”, na RAI, televisão estatal. Esse e cada vez mais espalhada do fascismo verificada em
Gatti diz num livro recente que um dos amigos mais programa tornou-se uma parte crucial da máquina décadas recentes tem tido como resultado o apaga-
próximos de Salvini no liceu veio a tornar-se líder no mediática de Salvini — um jornal chamou-lhe “tele- mento da história, a remoção do seu sentido, o en-
Forza Nuova, um grupo neofascista que celebra Sal- -Salvini”. Perguntei-lhe em que acreditava Salvini. fraquecimento do seu julgamento”, escreveu Mauro.
vini, e que os dois homens têm permanecido ami- Sangiuliano é napolitano e o seu discurso tende para Não, os tanques não estão a avançar, mas a direita ita-
gos desde há décadas). Em 2016, Salvini foi ao ponto o barroco. Sempre que lhe fazia perguntas sobre a es- liana e Salvini precisam de clarificar onde se situam
de considerar a chegada de imigrantes a Itália “uma tratégia de Salvini, respondia-me com longos discur- em relação à Constituição italiana, a base da repúbli-
substituição étnica”. Ele oferece uma versão mais sos sobre filósofos e académicos. Ele é autor de vários ca italiana criada após a II Guerra Mundial, que Itália
branda disso em “Secondo Matteo”: “Itália hoje não livros, entre eles “O Quarto Reich: Como a Alemanha começou como uma das potências do eixo e terminou
está a atravessar um fenómeno de imigração mas uma Subjugou a Europa”, e biografias de Winston Chur- ao lado dos aliados.
substituição real e verdadeira: os nossos jovens es- chill, Hillary Clinton e Putin, que admira. A certa al- Mesmo antes do seu tour em tronco nu, Salvini já
tão a ir embora e a ser substituídos por estrangeiros.” tura, embarcou num desvio sobre história america- mostrava um fraquinho por homens fortes. Tem de-
Para combater isto, Salvini propõe bónus à fran- na e um discurso (errado) sobre as raízes da palavra clarado a sua grande admiração por Trump, Orbán e
cesa para estimular a taxa de nascimentos — mas só conservador, que disse ter origem na palavra para a Putin. Em “Secondo Matteo” fala da visita de Putin a
para famílias de cidadãos italianos. “Queremos re- pessoa que mantinha acesa a chama em tribos an- Milão em 2015. “Tenho de admitir que nunca houve
gressar à alegria de poder ter crianças sem recorrer tigas. Por fim, respondeu à minha pergunta: “Acho, ninguém na minha vida (...) que me mesmerizasse do
ao horror da mudança populacional através da imi- acho, não sei, que Salvini acredita em valores conser- mesmo modo que Putin. A sua maneira de ser, a sua
gração descontrolada”, defende no seu livro. Nunca vadores, no sentido de regressar aos velhos valores de voz decisiva, o seu firme aperto de mão: tudo confir-
perde uma oportunidade de retratar a esquerda como Deus, pátria, família.” mou que eu estava perante um verdadeiro líder.” A
gente que destruirá famílias e fará mal às crianças. Estas três palavras têm ecos dos pilares do fascis- Liga opõe-se às sanções europeias contra a Rússia por
Em praticamente todos os seus comícios e discursos mo. E Salvini está bem consciente disso. Em maio, causa da invasão da Crimeia, com o argumento de que
públicos, Salvini defende a família tradicional contra em Forli [província de Emília-Romanha], fez um dis- prejudicam empresas italianas. Nisto a Liga não está
o que vê como a ameaça dos casais do mesmo sexo, curso de campanha no mesmo balcão onde Musso- sozinha em Itália, mas é o único partido do país que
dizendo: “Uma família é uma mamma e um papa.” lini uma vez falou. Os apoiantes de Salvini incluem o assinou um acordo de cooperação com o partido de
CasaPound, um grupo de extrema-direita que gos- Putin, Rússia Unida. Foi no tempo de Salvini, em 2017.
FAMÍLIA E POLÍTICA ta de demolir acampamentos ciganos nos subúrbios O Partido da Liberdade austríaco, de Heinz-Chris-
A Liga neste momento tem o governo da Lombardia empobrecidos das cidades. (Vai buscar o seu nome ao tian Strache, e a União Nacional de Le Pen assinaram
e de Veneto, e governa numa coligação de extrema- poeta americano Ezra Pound, que tarde na vida de- acordos similares com o Rússia Unida. Pouco tempo
-direita em Friuli Venezia Giulia, na Sardenha, na re- fendeu o regime fascista de Mussolini.). Salvini não depois, o partido de Le Pen obteve um empréstimo de
gião central de Abruzzo e em Basilicata, a sul. A nível rejeitou o apoio do grupo e na verdade fez questão de um banco russo. A Liga disse que o acordo não envol-
municipal, tem vindo a ganhar força na Toscana, na ordenar que acampamentos de ciganos fossem arra- veu nenhuma transferência de dinheiro.
Umbria e em Emília-Romanha, zonas que em tem- sados. Mas tende a troçar da sua própria retórica. O Porém, a relação com a Rússia pode afetar a cre-
pos pendiam para a esquerda. (As duas últimas terão mês passado, logo depois de o Parlamento aprovar dibilidade da Liga. Recentemente, a revista italiana
eleições regionais neste outono.) Ainda que o novo uma lei de segurança que atribui mais poderes ao mi- “L’Espresso” e a “BuzzFeed News” publicaram inves-
governo tenha empurrado a Liga para a oposição a nistério do Interior, Salvini fez campanha em Sabau- tigações embaraçosas sobre um encontro em Mosco-
nível nacional, o partido continua forte a nível local. dia, uma cidade costeira perto de Roma, em frente a vo no passado outono, onde associados próximos de
Salvini pode ser um tradicionalista, mas não é um um memorial da era fascista que honra Mussolini — Salvini discutiram um negócio de energia que alega-
moralista. Tem dois filhos de duas relações diferen- sem dúvida, uma escolha cuidadosa — e brincou que damente teria desviado fundos para a Liga antes das
tes: uma filha ainda na escola primária, Mirta, e um ia “arranjar problemas” por estar ali, dizendo-se sur- eleições para o Parlamento Europeu em maio, violan-
filho adolescente, Federico. Publica constantemente preendido por políticos de esquerda ainda não terem do a lei italiana sobre financiamento de campanhas.
imagens deles nas redes sociais. Fala bastante sobre deitado abaixo o monumento. Em julho a “BuzzFeed” publicou registos áudio do
ser pai e sobre os desafios de permanecer casado. (Ja- Esta ambiguidade está na essência do estilo de encontro — um dos sinais mais claros já revelados de
mais se representa como filho; os seus pais são pra- Salvini, invoca a admiração por Mussolini ao mesmo como a Rússia está a tentar influenciar e desestabi-
ticamente invisíveis, embora ele mencione pérolas tempo que pisca o olho ao aspeto transgressivo dessa lizar a política europeia. Não há provas de que o ne-
de sabedoria da sua avó.) Namora atualmente com admiração. Ao anunciar que se retirava do Governo, gócio de energia tenha acontecido, e Salvini e os seus
Francesca Verdini, 26 anos, dona de um restaurante, disse que queria eleições antecipadas e “plenos po- associados negaram quaisquer ilegalidades, mas o
cujo pai é um antigo aliado de Berlusconi condena- deres” — as exatas palavras que Mussolini usou no Ministério Público de Milão abriu uma investigação.
do por abuso de dinheiros públicos e por organizar discurso que o levou ao poder em 1922. Os defenso- Salvini recusou responder a perguntas específi-
uma loja maçónica ilegal. O casal fez a primeira apa- res de Salvini com frequência rejeitam essas preocu- cas de jornalistas ou membros do Parlamento. Até
rição pública esta primavera, na estreia italiana de pações por ele jogar com o imaginário fascista como agora, os escândalos não pegaram. Os de Berlusconi
“Dumbo”. Os tabloides italianos — populares com uma espécie de totalitarismo da esquerda. Mas o também não pegavam. O eleitorado italiano costuma
mulheres mais velhas que foram membros cruciais comportamento de Salvini suscita sempre esta ques- ter uma visão bastante negra da ética dos políticos.
do eleitorado de Berlusconi — mostraram Verdini a tão: ele é fascista ou um “suposto fascista”? A Itália é
caminhar algo embaraçada no dia seguinte, usan- uma democracia, mas com Salvini algo de novo está O PESO DA IMIGRAÇÃO
do roupa de Salvini, uma imagem que acaba por lhe Até o Governo mudar, Salvini esteve sempre na ofen-
dar um ar viril. siva. Embora seja excelente a vitimizar-se, muitas ve-
O próprio Salvini admite que nunca foi particular-
mente religioso. Mas nos seus esforços para seduzir Para Salvini, zes obriga os outros a debaterem com ele e a desafiá-
-lo nos seus próprios termos. Ao descrever a imigra-
votantes, em especial no sul, ele tem exibido terços e
crucifixos em aparições públicas, uma imagem que tal como para ção como uma ameaça, fez dela uma arma.
Segundo a lei europeia, os países devem registar
nacionaliza a sua mensagem de “os italianos primei-
ro”. Ultrapassa a direita e a esquerda; tem que ver Donald Trump, os candidatos a asilo no primeiro país onde eles che-
gam. Desde 2014, mais de meio milhão de pessoas
com a defesa de valores cristãos. Isso também abriu
um debate em Itália sobre a instrumentalização de a retórica da — candidatos a asilo e migrantes económicos — de-
sembarcaram em Itália, um país com 60 milhões de
símbolos religiosos. (Por contraste, em França, Le Pen
apresenta-se como grande defensora do secularismo “invasão” é pessoas e 80% de costa. Muitos desses migrantes fo-
ram distribuídos por “centros de boas-vindas”, um
francês, uma insistência em que a religião esteja au-
sente da esfera pública.) fundamental nome pouco adequado. Aí ficam durante anos, sujei-
tos a exploração por grupos de crime organizado, até

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que as autoridades italianas avaliem as suas candi- Roberto Saviano, autor e figura dos media que vive sob salvamento, e da Constituição italiana. A legislação
daturas. Isto criou uma situação de barril de pólvora, proteção policial há mais de uma década por causa também cancela a “proteção humanitária”, um esta-
especialmente em cidades pequenas não habituadas de ameaças de morte da Camorra, o grupo de crime tuto que dava às pessoas a oportunidade de se candi-
à imigração. organizado napolitano, emergiu como outro crítico datarem a asilo em Itália se se constatasse terem sido
Para Salvini, como para Trump, a retórica da “in- assumido de Salvini. Este, em troca, ataca-o regular- vítimas de tortura ou violações de direitos humanos
vasão” é fundamental. Com este Governo, as notícias mente em discursos e ameaçou retirar-lhe a proteção não só nos seus países de origem mas também num
da noite na RAI abundam em imagens de estrangeiros policial (uma posição peculiar num ministro que su- país de trânsito — tais como os campos de detenção
com pele escura a chegarem à costa de Itália em bar- pervisiona a polícia italiana). na Líbia. A alteração foi significativa, mas demasiado
cos. Também há mais cobertura de crime, frequen- Por acaso, encontrei Boldrini pela primeira vez em técnica para a maioria dos votantes a processarem.
temente cometido por gente de cor. Há um novo foco 2011, em Lampedusa, quando a primavera árabe esta- E é aí que intervêm as aptidões de Salvini nas re-
nos grupos de crime organizado nigerianos a operar va a começar mas antes de os EUA invadirem a Líbia e des sociais. Imediatamente antes de anunciar que se
na Sicília e no sul de Itália, ainda que esse território engajarem uma Itália relutante na operação para de- queria retirar do Governo, Salvini tweetou um vídeo
continue a ser controlado por grupos italianos. (A por Muammar Kadhafi. A crise da migração na Eu- de dois homens negros a lutarem numa rua de Pádua,
taxa de crimes em Itália baixou, embora os inciden- ropa ia então apenas no início, e o pequeno cemité- cidade governada pelo Partido Democrático, de cen-
tes racistas estejam a aumentar.) rio da ilha estava cheio com campas não identificadas tro-esquerda, com as palavras “Cenas da tolerante e
As imagens dos barcos a chegar persistem, ape- de pessoas que tinham morrido no mar. Perguntei a acolhedora” Pádua. “E esses bons samaritanos cha-
sar de o fluxo de imigrantes ter caído a pique desde Boldrini se ela jamais teria imaginado, quando ainda mam ao meu decreto de segurança ‘desumano’ e a
2016, quando a UE fez um acordo com a Turquia, pa- estava no ACNUR, como tudo isto teria evoluído, e Salvini ‘criminoso’”, escreveu. No dia seguinte, twee-
gando-lhe um milhão de euros a troco de Ancara não que algum dia uma figura como Salvini pudesse apa- tou um vídeo de um homem que disse ser nigeriano,
permitir a partida de candidatos a asilo. O fluxo ainda recer em Itália. “Em 2011 não poderia ter imaginado lavando-se em público em Salerno. “Estava-se a lavar
desceu mais após um acordo discutível entre Roma isso”, disse-me. E a União Europeia foi lenta a reagir. completamente nu em público, perturbando as pes-
e a Líbia em 2017. Esse país do norte de África con- “Houve um afluxo de gente antes de eles perceberem soas em Salerno. É este o ‘estilo de vida’ que alguém
cordou em deter os eventuais migrantes em campos que isto não é um problema italiano ou um problema na esquerda deseja como o nosso ‘futuro’?”
onde críticos dizem que os acordos de Genebra são grego, mas um problema europeu. Levou muitos anos Em quase todas as suas aparições em público e
violados. “Não há invasão”, disse-me Flavio di Gia- para eles compreenderem isso.” nas redes sociais, Salvini diz preventivamente que
como, porta-voz da Organização Internacional para Mas Salvini não se tem exatamente esforçado por os seus críticos gostam de lhe chamar “um racista” e
as Migrações, que acompanha a migração e o tráfico conseguir mais ajuda europeia. Este verão faltou a um “um fascista” e mesmo “um nazi”, mas garante não
humano. “O que mudou foi a opinião pública.” encontro com outros ministros do Interior europeus ver cores. “Podem ter pele castanha, verde, verme-
No outono de 2013, pouco antes de Salvini tomar em França para discutir a imigração. Pessoas familia- lha”, desde que respeitem “as nossas tradições”. Os
conta da Liga, houve uma onda nacional de solida- rizadas com os bastidores do anterior Governo dizem seus posts usam códigos raciais, e ele tem virado o
riedade quando 500 migrantes morreram depois de o que ele não domina os pormenores das políticas e evi- debate para uma espécie de choque de civilizações
seu barco se incendiar ao largo da ilha de Lampedusa. ta situações onde sente que vai perder o pé. “Fazem- que transcende o quadro tradicional direita versus es-
“As pessoas disseram, ‘Essa pobre gente’ e ‘Quem es- -lhe perguntas técnicas e ele não sabe as respostas”, querda. Catherine Fieschi, autora de “Populocracy” e
tiver perdido no mar deve ser salvo’”, lembra di Gia- disse-me Stefano Folli, colunista do “La Repubblica”. estudiosa do populismo, disse-me que vê a aborda-
como. Atualmente já não. No dia em que me encon- Onde ele brilha é na propaganda. “Deixar pessoas gem de Salvini como uma espécie de “nacionalismo
trei com di Giacomo, durante o verão, surgiram notí- à deriva no mar não é uma política, é media”, disse- do ignorante”. Tem menos que ver com “superiorida-
cias da fronteira EUA-México sobre crianças a serem -me Nathalie Tochi, diretora do Instituto de Assuntos de e inferioridade e mais com incompatibilidade en-
separadas das suas famílias. As coisas estavam más Internacionais, um think-tank com sede em Roma. A tre culturas e valores. Ou é um dos nossos, ou não é.
em todo o lado, notei. “O seu país tem anticorpos”, imigração — isto é, o número de chegadas a Itália em As pessoas tendem a pensar no populismo como uma
respondeu di Giacomo. Quão fortes são os da Itália? barcos oriundos do norte de África — é um assunto política da emoção. Não penso que seja emoção. Isso
Salvini tornou-se mestre em transformar proble- concreto, governável, que Salvini não tem interesse dá um mau nome à emoção. É instinto”, disse. “Ou lá
mas complexos como a imigração em imagens sim- em resolver. “Ele construiu toda a sua carreira nisto, dentro de si você sabe, ou não é de facto um de nós.”
ples — barcos a chegar, barcos a serem rejeitados. portanto o que acontece quando os bárbaros parti-
Aqui ele serve-se de Laura Boldrini, uma antiga por- rem?” Hoje, de cada vez que um barco com 50 pes- TUDO O QUE VEM NAS REDES
ta-voz do Alto-Comissariado das Nações Unidas para soas aparece junto a Itália, Salvini cria um caso fede- Muitos políticos têm capitalizado no aspeto emocio-
os Refugiados (ACNUR) que mais tarde foi eleita para ral. “Isto não é gestão”, diz Tocci. “É cinema. É uma nal da política, mas nem todos com a feroz operação
o Parlamento como parte de uma pequena formação ficção. É uma vergonha.” de redes sociais que ele tem. A conta de Salvini no
de esquerda, acabando por se tornar porta-voz da Mas ultimamente Salvini tem defendido algumas Facebook tem 3,8 milhões de seguidores, e mais en-
câmara baixa. Ela nunca ultrapassou o facto de ter alterações de políticas. Leis de segurança recente- gajamento — isto é, comentários e reações — do que
dito que os imigrantes eram um recurso para a Itália, mente aprovadas dão ao ministro do Interior pode- a de Trump, segundo o CrownTangle, uma ferramen-
e agora Salvini, em ataques regulares no Twitter, re- res muito maiores e criminalizam ainda mais a imi- ta analítica que é propriedade do Facebook. No Fa-
trata-a como a encarnação — feminizada — de tudo gração ilegal, impondo multas aos barcos que salvam cebook, no Twitter (1,1 milhões de seguidores) e no
o que houve de errado no modo como a esquerda ita- imigrantes de se afogarem no mar, numa possível Instagram (1,7 milhões), Salvini adora publicar vídeos
liana lidou com a emigração. Num comício em 2016, violação das normas internacionais sobre busca e onde ele próprio segura o telefone, uma pose que não
Salvini ergueu uma boneca erótica insuflada e disse resulta inteiramente lisonjeira e mostra o seu queixo
que era Boldrini, perante o aplauso da multidão. An- barbudo, agora polvilhado de cinzento, mas lhe pro-
tes das eleições para o Parlamento Europeu em maio,
publicou uns tweets depreciativos sobre ela, dizendo Salvini pode ser porciona falar diretamente ao povo.
Divertido, autoconsciente e sardónico, ele desar-
que se Boldrini votava no Partido Democrático era
mais uma razão para votar na Liga. tradicionalista, ma o seu próprio discurso duro com humor autode-
preciativo. Enquanto Macron, outro líder europeu da
Para Boldrini, a equação é simples: o apoio a Sal-
vini baseia-se na onda prévia de imigrantes, e na mas não é mesma geração, se porta como o estudante mais in-
teligente da turma, Salvini parece o miúdo que pode
ameaça de chegarem mais. Ela disse-me que rece-
beu ameaças de violação depois dos ataques de Sal- moralista. não se ter saído assim tão bem na escola mas foi sem-
pre mais popular, um pouco rebelde. Usa capuzes que
vini com a boneca, e que alguém enviou uma bala
ao seu escritório pelo correio. Uma vez que Salvini Tem dois filhos dizem Itália e mostra o seu estômago flácido na praia.
Fala sobre as suas dificuldades em deixar de fumar.
estava sempre em campanha e raramente no Mi-
nistério do Interior, ela começou a responder-lhe no de relações É uma figura reconhecível, o tipo da porta ao lado,
a falar senso comum. “Não prometemos milagres”,
Twitter com o #WhenDoYouWork? [“Quando é que
trabalhas?”], que se tornou temporariamente viral. diferentes diz em todos os seus comícios de campanha. Só quer
voltar a tornar a Itália grande.

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Os seus feeds nas redes sociais são uma janela para está a chegar! Ponham-se de lado, toda a gente terá organização partidária são profundas. Salvini já acu-
o cérebro, ou o estômago, do italiano médio. Adora tempo para fotos!” Com a sua pronúncia milanesa, sou o novo Governo de ter sido engendrado por “Pa-
emojis e publica imensos vídeos de gatos e cães, “os Salvini fez um discurso típico — vocês são os mestres ris, Berlim e Bruxelas”. A sua base permanece forte.
nossos amigos de quatro patas”, como lhes chama, das vossas próprias casas; prendamos os imigrantes O que vemos em Itália é território desconhecido.
assim como de comida — esparguete, Nutella, um que vêm para aqui passar drogas; bloquearei os por- O país está na linha da frente da política antipolíti-
copo de vinho — alternando isso com clips de imi- tos, baixarei a idade da reforma, consertarei o nosso ca. Não é um lugar meritocrático, mas sim um onde
grantes mostrados a uma luz negativa. Enquanto os sistema de saúde falido. as redes de poder com frequência transcendem es-
tweets do Presidente americano muitas vezes surgem Mas foi o que aconteceu após o discurso que me querda e direita. Hoje, esquerda e direita, norte e sul
como uma surpresa mesmo para os seus assessores chamou a atenção. Eu estava num banco enquan- misturam-se num voto de protesto zangado, cínico,
mais próximos, há algo de engenharia reversa nos to as pessoas tiravam selfies com Salvini, olhando os que elegeu uma coligação confusa onde Governo e
feeds de Salvini, uma combinação astuta de carisma seus rostos quando emergiam do palco. Eles luziam oposição eram funcionalmente intercambiáveis. Em
pessoal genuíno e cálculo extremo. — como se tivessem sido abençoados por uma divin- França, o movimento de protesto dos ‘coletes ama-
Para obter dados sobre o engajamento do público, dade, ou no mínimo uma celebridade. Sentiam-se relos’ esteve nas ruas durante meses com apelos à
a equipa de redes sociais de Salvini usa um sofisticado vistos. Os seus amigos e famílias juntavam-se à volta deposição de Macron. Em Itália, o equivalente a este
software alcunhado “A Besta”. A equipa de cerca de do telefone para ver a imagem que haviam tirado. As movimento francês tem governado o país desde 2018.
uma dúzia de pessoas é dirigida por Luca Morisi, um mulheres chamavam-lhe un bell’uomo, um homem Berlusconi pode ter criado as bases para Salvi-
especialista de marketing com pouco mais de 30 anos bonito, e un simpaticone, um tipo simpático. Outros ni, na sua capacidade para desconectar imagem e
e um fiel da Liga. Morisi raramente dá entrevistas, chamavam-lhe una persona sincera. Um uomo concre- realidade. Mas Salvini explorou outras direções, di-
mas quando dá, cinge-se à mensagem — recordem, to, de pés no chão. Nenhum outro político em Itália, vorciando ainda mais as palavras do sentido ou das
Salvini é o seu próprio spin doctor. Numa entrevista ou mesmo na Europa, tem nada que se pareça com consequências e banalizando alguns dos piores ca-
dada o ano passado à “YouTrend”, um portal italiano este poder de estrela. pítulos da história italiana do século XX. Durante
de sondagens e comunicações, Morisi explicou como Uma noite em Tolve, uma cidade de 3200 pessoas meses, enquanto seguia Salvini pela Itália fora e via o
encorajou Salvini a fazer mais vídeos no Facebook em Basilicata, centenas juntaram-se na praça para ou- seu rosto subir para o topo dos meus feeds nas redes
Live, levando a sua mensagem diretamente aos vo- vir Salvini. Ele fez o seu habitual discurso de campa- sociais, recordava alguns linhas de “As Origens do
tantes. “Há um jogo de espelhos nos media tradicio- nha e no fim da performance, após a canção de Vasco Totalitarismo”, de Hannah Arendt. Ela escreve so-
nais”, diz Morisi. “O líder fala em tempo real, mas a Rossi ‘Un Mondo Migliore’, berrada nas colunas, con- bre gente que cai sob o domínio de autocratas, sobre
seguir as suas palavras são comentadas na discussão versei com algumas pessoas que haviam tirado selfies a “mistura curiosamente variável de credulidade e
pública, por exemplo em talk-shows.” com Salvini. Vito Gruosso, de 22 anos, disse que parti- cinismo com a qual se espera que cada membro (...)
Falei com Morisi em Milão durante um evento em lhava a linha de Salvini em matéria de imigração. “Não reaja às afirmações falsas e mutáveis dos líderes”.
abril, quando Salvini e outros líderes de extrema-di- acho que ele seja um fascista ou um racista. É pelos di- Isto descreve algo no eleitorado italiano, como o
reita anunciaram uma aliança antes de eleições para reitos dos italianos. As pessoas que vêm de África de- faz outra passagem de Arendt, na qual escreve que
o Parlamento Europeu. Pálido e ligeiramente frágil, vem adaptar-se ao nosso país.” Acrescentou que Sal- “neste mundo sempre em mudança e incompreen-
Morisi usava AirPods e tinha o ar de não ter visto o vini estava “próximo das pessoas”. Quando pergun- sível, as massas chegaram ao ponto em que acredi-
sol desde há dias. Enquanto Salvini faz campanha em tei se isso significava muito presente das redes sociais, tariam ao mesmo tempo em tudo e em nada, pensa-
praças e praias, Morisi dirige o escritório. Perguntei- Gruosso e um amigo fizeram que sim com a cabeça. riam que tudo é possível e nada era verdade”.
-lhe se tinha detetado uma relação entre likes no Fa- “Ajuda a dar-lhe um ar normal”, disse Gruosso. Nos anos 30, não longe de onde eu vi Salvini em
cebook e apoio político. “Há muita simetria entre os Isto foi o gesto mais inteligente de Salvini. Ele campanha esta primavera, o regime fascista italiano
dois campos”, disse-me em inglês fluente. No verão compreendeu que estar próximo das pessoas signi- enviou Carlo Levi, um médico, escritor e pintor nas-
de 2018, por exemplo, Salvini fechou os portos ita- fica estar nos seus ecrãs o tempo todo. Buongiorno, cido numa família judia em Berlim, para o exílio in-
lianos a um barco chamado “Aquarius”, que trans- amici! Ele é o homem do momento para uma era de terno como castigo pelo seu ativismo antifascista. Ele
portava centenas de imigrantes, forçando-o a atra- redes sociais onde a indignação está em alta, os ci- escreveu sobre isso, e sobre a pobreza que testemu-
car em Espanha. Após Salvini publicar posts sobre o clos de atenção são curtos e a memória histórica ain- nhou em Basilicata, no seu assombrado romance de
barco, “tivemos um aumento de likes no Facebook da é mais curta. 1945, “Cristo Parou em Eboli”. Levi descreve a men-
de 2 milhões para 3 milhões em apenas três meses, e talidade de pessoas que estiveram sujeitas ao domí-
nas sondagens de 20% para 30%”, disse-me Morisi. TERRITÓRIO DESCONHECIDO nio estrangeiro, incluindo o de Roma, durante sécu-
“Houve uma relação.” A sua aposta de forçar eleições antecipadas deparou los. Esta parte do sul era uma terra de laços familiares
Morisi atribuiu o sucesso de Salvini à sua capaci- com um obstáculo. Salvini tem os números nas son- e de rendeiros, uma economia que não tinha mudado
dade para dominar três áreas ao mesmo tempo: redes dagens, mas não no Parlamento. As selfies subiram- muito desde o feudalismo, escreve Levi. Um lugar que
sociais, televisão e a praça. E também há as selfies. Em -lhe à cabeça. O medo que um governo de extrema- resistia à própria ideia de progresso. Hoje sente-se ul-
março, segui Salvini na campanha antes das eleições -direita surgisse em Itália bastou para que inimigos trapassado pela economia global.
regionais em Basilicata, a palma da bota, a zona mais antes jurados invertessem completamente as suas Ao olhar para os rostos nas multidões dos comí-
pobre de Itália, uma área cuja principal exportação, posições anteriores e se juntassem. Esta aliança não cios de Salvini em Basilicata, pensei em Levi. Alguns
como em grande parte do sul, poderá bem ser os seus deverá ser fácil, pois é mais baseada em táticas do tinham vindo por curiosidade, ou por Salvini ser o
migrantes. Queria ver como é que Salvini se estava a que em políticas. As diferenças de estilo, substância e exemplo raro de um ministro que se dignava fazer
sair entre votantes que até há não muito tempo eram uma visita. Mas havia algo mais. Eles queriam estar
o inimigo designado da então Liga do Norte. Acontece na sua presença. Queriam estar perto do poder. Nos
que se estava a sair muito bem. Basilicata votou pelo
Movimento 5 Estrelas em eleições regionais no ano O que vemos em seus olhos vi resignação mas também esperança. Não
importava que a Liga enfrentasse escândalos de cor-
passado, mas uma coligação de centro-direita onde
consta a Liga de Salvini venceu as eleições regionais Itália é território rupção, ou que Salvini admirasse autocratas como
Putin e Orbán. Aquelas eram as caras de pessoas que
nesta primavera.
O que testemunhei em Basilicate foi o carisma ge- desconhecido. se sentiam deixadas para trás. Estavam fartas, e Sal-
vini parecia compreender. Ele via-as. Tirava retratos
nuíno, inegável de Salvini. Uma manhã em Muro Lu-
cano, uma vila de cinco mil almas, um punhado de O país está na com elas. Queriam mudança, e ele parecia ser a mu-
dança. Algumas esperavam um homem forte, outras
homens mais velhos com bonés de lã sentavam-se
debaixo de uma árvore, uma magnólia ainda não em linha da frente um líder. E, bem, quando olhavam para o horizonte,
Salvini era o único que conseguiam ver. b
flor. Gente de todas as idades ia afluindo à praça, e um
político local aquecia a multidão. “Queremos mandar da política e@expresso.impresa.pt
embora a esquerda? Sim! Queremos mudança? Sim!”
E pouco depois: “Il Capitano è in arrivo!” “O capitão antipolítica Tradução Luís M. Faria

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TEXTO
CHRISTIANA MARTINS
FOTOGRAFIAS
ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

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Peregrinos do

SILÊNCIO
Os monges cartuxos, os mais solitários dos solitários,
vão deixar Portugal. Com eles levam uma dimensão
religiosa ímpar e a surpresa de terem sido tocados
pela saudade. As razões de uma partida que
conseguiu ser adiada por 30 anos

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Q
uando um monge cartuxo morre, os companhei-
ros de clausura fecham-lhe sobre o rosto o capu-
cho branco, costurando-o, para que ao chegar à
eternidade só veja o rosto de Deus. Nas mãos, colo-
cam-lhe um terço. Sob o corpo, uma tábua. Desce
à terra e nesta é posta uma cruz de ferro, sem iden-
tificação. No claustro do Mosteiro de Scala Coeli, às
portas de Évora, o ritual repetiu-se 120 vezes entre
os séculos XVII a XIX; houve seis defuntos no sé-
culo XX e duas cruzes foram acrescentadas nesta
era. As últimas.
Em outubro, os quatro resistentes que ali vivem
vão partir para Espanha. Não queriam abandonar
o mosteiro de Scala Coeli — escada para o céu em
latim —, concluído em 1598. Desejavam morrer no
Alentejo, mas a Ordem assim o determinou. Com
eles levam o imenso silêncio que os caracteriza,
deixando o testemunho de austeridade da única
ordem contemplativa masculina em Portugal. Mas
há mil anos que os cartuxos sabem que “Stat Crux
dum volvitur orbis” (“o mundo roda e a cruz fica”).
Até à véspera da partida — ainda sem dia certo,
à espera do “amigo espanhol” que os levará de au-
tomóvel às imediações de Barcelona, à Cartuxa de
Santa Maria de Montalegre — vão cantar. Suportados rezam e quando o sino repica, assomam à porta. de fé que mesmo “um pequeno número podia vi-
por uma fé de dimensão ímpar que os fez calar para Esperam a chamada para as Matinas e as Laudes ver integralmente a vida cartusiana”.
o mundo, em busca da integração íntima com Deus. da Santíssima Virgem. Dirigem-se à igreja, à meia- Como superior de Scala Coeli, padre Antão de-
Calaram-se para ouvir a voz divina. Padre Antão -luz, onde oram, cantando as melodias gregoria- clarou a intenção dos companheiros, que acabou
López, um espanhol de 85 anos, que estudou Letras nas durante duas a três horas. A cena repete-se nos por ser aceite pelos demais priores e foi-lhes dada
e Filosofia; padre Isidoro, espanhol, 92, ex-estudan- mosteiros da Ordem há 935 anos, desde que Bruno permissão de permanecer na casa onde viviam.
te; irmão José, 91, um marceneiro espanhol; e irmão Hartenfaust, nascido em Colónia a 6 de outubro de Passados quase dez anos, restam quatro monges.
António, o único português, 82, ex-funcionário das 1032, criou com seis amigos, entre as pedras dos ar- Fragilizados, mas resistentes. “Nem uma só noite
alfândegas. Estão velhos, não cansados. redores de Grenoble Chartreuse — zona em França foram omitidas as Matinas [oração da manhã, pro-
O superior de Scala Coeli aceitou estabelecer que deu nome à Ordem —, que ficariam conhecidos ferida à meia-noite].” Em nada aqueles homens ce-
uma correspondência digital com o Expresso, em como o Grande Deserto cartusiano. deram, todas as regras foram cumpridas. “Mas era
que responde às dúvidas e, sobretudo, conta a his- Nesta história milenar, foram precisos qua- cada vez mais heroico, sobretudo para os dois no-
tória nunca partilhada dos bastidores da partida se cinco séculos para começar o calvário de Scala nagenários”, desabafa. O Capítulo Geral deste ano
da Ordem de Portugal. E explica por que motivo os Coeli, como conta padre Antão López. “Os cartuxos acabou por determinar o encerramento do úni-
portugueses não têm perfil para serem cartuxos. na Europa são poucos e idosos e por isso, em 2011, co mosteiro cartuxo em Portugal, sem margem de
Passo a passo, conforme dita o ritmo cartusiano, o Capítulo Geral — onde a cada dois anos se reú- contestação. Ou, como prefere explicar o superior,
Antão López dialoga por correio eletrónico, porque nem os priores das várias cartuxas para governar a casa-mãe “teve razão e caridade ao decidir a mu-
o claustro está vedado às mulheres. a Ordem — decidiu o termo de Scala Coeli, onde dança desses monges para serem cuidados noutra
apenas moravam cinco octogenários.” A definitiva Cartuxa”. Serão enterrados noutro chão.
MATINAS, 23H30, ACORDAR decisão do encerramento, agora anunciada, tem, O mosteiro português foi construído no fim do
A rotina dos cartuxos está dividida em três grandes portanto, pelo menos oito anos, mas foi na altura século XVI pelo arcebispo D. Teotónio, da Casa de
partes. A mais importante são as oito horas diárias recusada pelos idosos monges. “Recusaram, não Bragança, que não poupou em dotá-lo de tesouros
dedicadas à oração, mas há oito horas de trabalho e desobedecendo, mas convencendo”, diz o superior, artísticos, como o pórtico e a fachada em mármo-
oito de descanso. Os dias dos monges começam an- assumindo uma missão ainda mais pesada do que a re. No século XVIII chega outro ex-líbris, por or-
tes da meia-noite. No íntimo da cela, levantam-se, que já tinham: a de demonstrar aos companheiros dem de D. João V: a talha dourada, que fez com que

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por ele. Continuamente pedira, no portão, ao tele-
fone ou pelos correios, orações por todo o tipo de
necessidades. Espirituais, dramáticas, familiares,
profissionais, de saúde e até económicas. Esta confi-
ança explica-se por este povo católico ser ainda tra-
dicionalmente religioso, piedoso, devoto.” Durante
anos, os monges cumpriram os serviços a que esta-
vam votados — a intercessão e o testemunho. Mas
o superior partilha o revés: “A este sucesso do mos-
teiro ou da Ordem não correspondeu um equivalen-
te fruto vocacional.” Faltaram-lhes os portugueses.
Os candidatos foram chegando, mas a um rit-
mo insuficiente para garantir a sobrevivência da
comunidade cartusiana portuguesa e, quase seis
décadas após a reabertura do mosteiro alenteja-
no, há apenas cinco monges portugueses em toda
a Ordem. “E três enterrados”, detalha, rigoroso,
padre Antão para explicar: “O feitio luso é emoti-
vo, sentimental. Cantam chorando, ausentam-se
com saudade, revoltam-se com flores, convidam
cada semana um vizinho. A solidão e a rutura com
a família são exigências que dificultaram e impedi-
ram a muitos a entrada no deserto.” Mais uma vez,
a fé suportou o homem. “Deus dispôs que [após a
partida] fique um nome, uma fama, um estilo de
vida, uma mensagem, uma espiritualidade, uma
conceção do cristianismo, que já fez muito bem a
este país e pode continuar a fazê-lo, se este nome
de cartuxa ficar para evocar tudo o que isso signi-
fica”, anseia o superior de Scala Coeli.
“Octogenários, nunca omitimos as duas horas
de canto à meia-noite”, garante padre Antão, expli-
cando que ao não se confirmar o encerramento do
mosteiro, os priores das demais casas exclamaram
espantados: “Milagre da Virgem de Fátima!” Mas,
por mais que os monges de Évora insistissem que
queriam morrer em Scala Coeli, Roma pediu a todas
as ordens que unissem as comunidades mais reduzi-
das e, explica Antão López, “por caridade com estes
heroicos velhinhos”, este ano, os demais superiores
decidiram uni-los à mini-Cartuxa de Montalegre, a
30 quilómetros de Barcelona, onde os esperam ou-
tros oito monges. As comunidades contemplativas
são sempre reduzidas e as cartusianas, ainda mais.
a igreja fosse declarada monumento nacional em
1910. O edifício é simples, a traça assemelha-se à “O feitio luso Sobretudo quando em causa está a pureza da tradi-
ção eremítica, cumprida à risca em Évora.
da de Santa Cecília, em Trastevere, mas é generoso
em espaço, abrigando o maior claustro de Portugal, é emotivo, ANGELUS, 7H, MISSA, ESTUDO E ALMOÇO, 12H
com cada lateral a medir quase 100 metros.
Testemunha das mudanças políticas do país, sentimental. O repouso após as Matinas e as Laudes prolonga-se
até às 6h30, meia hora mais tarde é o momento do
em 1834, o mosteiro foi tomado pelas forças revo-
lucionárias e os cartuxos expulsos. O Estado assu- Cantam Angelus e depois da missa conventual. A seguir será
tempo de regressar à cela, na verdade uma pequena

chorando,
miu a propriedade, aproveitando-o para a Escola de casa com dois pisos e várias divisões, para estudar,
Agricultura, e a igreja serviu de celeiro. No fim do meditar sobre textos bíblicos ou simplesmente orar.

ausentam-se
século XIX, a família Eugénio de Almeida comprou Também haverá tempo para sentir o sol, ler ou tra-
o que restava. Ruínas. Até que Vasco Maria, conde balhar; cada monge no seu jardim privado, no mais

com saudade,
de Vil’alva, avançou com o restauro do edificado, estrito silêncio. O almoço, elaborado por um irmão,
devolvendo-o à Ordem que lhe dera sentido. E o é entregue por uma janela, sem qualquer troca de

revoltam-se
círculo pareceu fechar-se: sete monges fundaram palavras. Só peixe ou ovos e vegetais, nunca carne.
o mosteiro em 1587 e sete foram chamados para o E há dias em que se impõe o jejum.

com flores”,
refundar em 1960. Mas agora nem sete há para o Uma das forças da Ordem vem da sua constân-
encerrar. Em Portugal, a Ordem mirrou. cia — “O que procuras?”, perguntam os monges aos

explica o padre
“Esses 60 anos foram um sucesso para a Cartu- que chegam. “Graça”, respondem os candidatos.
xa, não para os cartuxos”, assume padre Antão, no “Ergue-te”, dizem os que já lá estão, para recebe-
tom de quem pesa bem o que fala porque fala pouco. rem os noviços com um abraço. Para ingressar, de-
“A Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli converteu-se
numa instituição estimada e aproveitada em todo
Antão López vem ter entre 20 e 45 anos, desejar o recolhimento
e buscar a contemplação. Padre Antão é um exem-
Portugal. Dizemos aproveitada porque o povo cris- plo. Ao nascer, os pais chamaram-lhe Eduardo e,
tão a viu como de facto era, destinada a interceder quando aos 20 anos, ingressou na Ordem, deixou

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para trás o futebol, o serviço militar que fez dele um Quando chegou a hora de partirem cartuxos para
marinheiro e a paixão pela música clássica e pela fo- o Brasil para abrir uma nova casa no Rio Grande do
tografia. Como monge queria chamar-se Paulo, mas Sul, os monges com esta tarefa passaram um ano em
a mãe disse que preferia António e o filho acedeu, Évora para dominar a língua. Assimilar um idioma
mas impôs-se: “Não o de Lisboa, mas o do deserto.” com pessoas que não falam ou falam muito pouco,
E para sempre ficou Antão, um dos mais célebres deve ser curioso. O superior de Scala Coeli partilha
eremitas que viveram no deserto egípcio, no século que os monges aprenderam português com os fun-
III d.C., e serviram de inspiração aos cartuxos. Pas- cionários na vacaria e escreviam “priore” e “não
saram-se 65 anos desde então e o homem mante- faz male”. Quando os monges quiseram conhecer a
ve o humor andaluz — diz que a partida de Évora é ermida do Carmo e pediram ajuda aos rapazes que
o seu “Cartexit” — e gosto pela imagem — guarda encontraram no caminho, o resultado custou-lhes
uma máquina fotográfica no bolso do hábito. algumas dores nas pernas. “O Carmo está perto?”;
Há 30 anos que, como superior da Cartuxa de “Sim, está aberto.”, mas só quilómetros mais tarde,
Évora vive uma vida dupla, de dia à disposição da chegariam à ermida. É no silêncio que aqueles ho-
comunidade, dos operários do mosteiro, das visitas. mens se encontram. “Além de santificador, facilita
“O dia é para os homens, a noite para Deus”, afirma. a vida prática”, garante Antão López.
Antão quase não dorme: “Os outros dizem missa de Outra especificidade cartusiana é que os mon-
dia, eu às três da madrugada. E por isso, a oração das ges falam dos homens a Deus e não de Deus aos
três da tarde, um quarto de hora em memória da homens. “Oração, amor, eis a nossa vida, vida útil
Paixão de Jesus, tenho de a rezar passeando, pois se à Igreja pelo exemplo e pela intercessão”, ensina.
me sento, me durmo.” Obrigações que se somam às Mesmo com tanto distanciamento, o impacto car-
difíceis tarefas de prior num mosteiro com tão pou- tusiano na comunidade é tão efetivo que o supe-
cos monges. As regras determinam, por exemplo, rior de Scala Coeli acostumou-se a ouvir que “os
que sejam os próprios a cuidar do espaço, mas em arcebispos diziam na cidade preferir ter seis pa-
Évora, onde a comunidade chegou a ter 20 monges dres, mantendo aberto em Évora o único mostei-
nos bons momentos e em média o total rondou uma ro masculino de Portugal, a ter ser coadjutores nas
dúzia, a idade e as doenças limitaram-nos e são al- paróquias”. Durante as mais de cinco décadas que
guns trabalhadores e os irmãos leigos que os ajudam. esteve no Alentejo, passaram por Antão cinco ar-
A rigidez da Ordem é tal que aos candidatos cebispos, que diz terem sido sempre entusiastas da
pede-se que procurem um médico para confirmar Cartuxa. Gostavam de visitá-los e de cantar as Vés-
se têm estrutura física para suportar a interrupção peras com os monges e não faltavam as efemérides
diária do sono, a alimentação frugal, os recorrentes da Ordem, para as presidir e prestigiar. Queridos
jejuns e o rigor do método. Nem todos os chamados da comunidade, aos domingos, às dez da manhã,
verão abrir-se a porta da clausura. Desequilíbrios os cartuxos celebravam uma missa, fora da clausu-
emocionais ou psicológicos são motivo de recusa, ra, para vizinhos e amigos que chegavam a vir de
afinal, situações que no ruído da sociedade pode- longe só para com eles comungar a fé.
riam passar despercebidas, na clareza do silêncio Inseriram-se tão bem na região que nem o 25 de
assumem ressonâncias preocupantes. São sete os Abril lhes causou distúrbios. “Respeitámos e fomos
anos de caminhada antes da definitiva consagra- respeitados. À condessa de Vil’alva, como em todo
ção à Cartuxa. E os que entram fazem três votos o Alentejo, ‘ocuparam-lhe’ as terras; a nós, não nos
comuns a outras ordens — pobreza, obediência e tocaram”, conta, recordando que se alguma vez o
castidade —, a que têm de somar, os cartusianos automóvel do mosteiro, carregado de homens com
silêncio, penitência e contemplação. hábitos brancos, atravessava uma estrada corta-
Conversas somente com os demais cartuxos e da por piquetes de homens armados, a resposta foi
apenas aos domingos, após o almoço, nos dias de sempre a mesma: “São os irmãos, passem.” Diz até Depois, antes dos Angelus, mais um momento de
festas litúrgicas, e às segundas-feiras, no passeio que certa vez, “um comunista comprou à Cartuxa leitura da palavra de Deus. Entretanto, pode fazer-
que os monges dão pelos arredores do mosteiro, em uns bezerros charoleses e dias depois, voltou com -se uma frugal refeição, ainda mais leve do que o
que vão dois a dois, cabendo aos mais velhos esco- amigos. ‘Venham ver uma ‘cooperativa’ bem leva- almoço. O circuito do dia aproxima-se do encerra-
lherem o parceiro entre os companheiros de que da’, disse então. A que um dos monges respondeu: mento, altura de balanços. E questionado sobre o
menos gostam, como mais uma forma de sacrifício. ‘Nós também temos tudo em comum, o hábito que início da sua história em Évora, a memória trans-
As visitas são permitidas aos familiares mais pró- levo hoje deixou-me um irmão.’” porta padre Antão ao início de tudo.
ximos e só duas vezes por ano. No mosteiro não há Os episódios demonstram que o sacrifício da Chegou em 1964 e cinco anos mais tarde, Sca-
rádio, televisão ou jornais. É o superior que mantém solidão assumida pelos monges não é a base da la Coeli abriu-se ao noviciado, a que aderiram seis
os companheiros a par do que se passa, selecionan- Ordem, mas um facilitador do objetivo final de al- candidatos, que chegaram aos votos solenes. Mas a
do o que de relevante aconteceu. E ao mutismo vo- cançar um nível muito profundo de oração. Uma seguir, diz o superior do mosteiro alentejano, “o frio
cal soma-se o silêncio social. Sem distrações, Deus solidão que faz da Ordem a mais austera da Igreja pós-conciliar [Concílio Vaticano II] diminuiu as en-
impõe-se na vida dos monges, ocupando todos os Católica e, como não podem trabalhar para se sus- tradas”. Mesmo assim, todos os anos continuaram
espaços e calando a sede espiritual. tentarem, os monges devem gastar o menos pos- a aparecer novos candidatos, mas ao escasso ritmo
Na Liturgia, a língua é muito importante. Quan- sível. Tanta renúncia não se pode, contudo, trans- de um a um e “essa solidão, acrescida à da cela, difi-
do padre Antão chegou a Évora, antes do Concílio formar num obstáculo à oração. “Não é preciso ir a cultou-lhes a perseverança”. Em 1985, a estabilida-
Vaticano II, tudo era expresso em latim; depois, prostíbulos para saber que existem. Ou clínicas de de parecia um dado adquirido e a comunidade fun-
assumiu-se o português e a primeira consequên- aborto. Desconhecemos e conhecemos. Acho que dadora entregou a direção de Scala Coeli aos portu-
cia foi que os irmãos leigos puderam cantar com os conhecendo o mundo será mais difícil amá-lo. Mas gueses que ali se tinham formado. E, mais uma vez,
padres, sem que as melodias gregorianas tivessem basta pedir a Deus por ele”, garante o superior de padre Antão partilha os bastidores da Ordem. “Na
de ser alteradas. Na convivência, o idioma não os Scala Coeli. Cartuxa não há ‘campanha eleitoral’, pelo contrário,
preocupa tanto, pois os cartuxos reduziram a socia- é frequente que o eleito não aceite a carga, pois além
bilidade ao mínimo, mas uma das características de VÉSPERAS DA SANTÍSSIMA VIRGEM, 16H de ser pai da comunidade, o prior é o public relations,
Scala Coeli é que ali sempre se falou português, ou Chega o momento de agradecer ao Senhor o fim e portanto, meio cartuxo. Mas os espanhóis que os
melhor, “portunhol”, como diz o superior. do dia e dos trabalhos nas orações do fim da tarde. tinham formado queriam-nos e confiaram neles.”

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não demorasse. Retorquiu: agora mesmo.” A con-
dessa salvou Scala Coeli. A quinta ficou a cargo da
Fundação Eugénio de Almeida e o mosteiro dos
monges. E a tradição milenar voltou a impor-se,
com os leigos a resolverem os problemas económi-
cos e os religiosos a cumprirem uma vida modelar,
reconquistando noviços.
Mas a paz não foi feita para durar e em 2011,
como já sabemos, a crise voltou a bater-lhes à por-
ta, mas por outros motivos. “Não era apenas aqui
que os noviços não perseveravam, era igual em toda
a Europa e por isso, a Ordem viu-se obrigada a re-
tirar os monges que estavam em Évora.” Passados
22 anos dos problemas financeiros, o Capítulo Ge-
ral voltaria a determinar o encerramento de Scala
Coeli, desta vez devido à escassez de vocações. E
padre Antão aproveita para acrescentar mais al-
guns detalhes: a sabedoria cartusiana de mais de
900 anos determina que uma decisão seja confir-
mada, dois anos depois, na reunião seguinte, e o
tempo de espera deu espaço aos monges de Évora
para agir. “Como prior, acudi em 2013. Não desobe-
deci, só convenci com dois argumentos: a impor-
tância transcendental de Scala Coeli para Portugal
e a perfeição, exatidão e totalidade com que, mes-
mo poucos, seguíamos a santa vida cartusiana.” Na
reta final da vida, Antão e os companheiros assu-
miram, o mais duro desafio que os poderia esperar,
resistindo por ele oito anos.
A quinta onde o mosteiro está inserido tem 80
hectares, 50 de pasto e 30 de vinha. Os vinhos ali
concebidos são célebres e, apesar do desapareci-
mento dos monges, a marca Cartuxa está regista-
da no Instituto Nacional da Propriedade Industrial
a favor da Fundação Eugénio de Almeida e conti-
nuará a ser usada nos mesmos termos. Como a cave,
que, com acesso apenas do exterior, abriga meio
milhão de garrafas de vinho, que ali dormem du-
rante dois anos. Mas nada disso respeita aos mon-
ges, somente à fundação, presidida pelo arcebispo
de Évora.
Em redor do claustro, estão as celas, os desertos
individuais de cada monge. À porta de cada ermo,
como lhes chamam os cartuxos, mais um sinal da

“Acho que
As lideranças do mosteiro foram entregues aos histórica presença dos espanhóis: uma figura do
portugueses, mas na opinião do atual superior, coração de Jesus, a que do outro lado da fronteira

conhecendo
eram “santos religiosos, mas na trintena da ida- chamam detentes (detém-te) e é dirigida ao demó-
de e sem experiência do mundo”. As consequên- nio, para que não entre na habitação. Na biblioteca,

o mundo será
cias não tardaram. Enganados, os cartuxos portu- oito mil livros em várias línguas, quase todos de ca-
gueses quase levaram Scala Coeli à falência: “Em rácter religioso, poucos de índole cultural, histórica
1989, a Casa não podia pagar os empréstimos aos ou de literatura clássica. Em 1960, os sete cartuxos
bancos e a Ordem viu-se na necessidade de liqui-
dar e fechar.”
mais difícil que vieram reabrir o mosteiro, trouxeram livros
da Ordem, em latim e francês, mas depois de ins-
Desde o renascimento em 1960, foi a primeira
ameaça de encerramento. Em causa estavam in-
amá-lo. Mas talados em Évora, quando quiseram adquirir obras
religiosas em português, perceberam que não se-
vestimentos desastrosos e desadequados, como o
sistema de rega em terra ocupada por gado. A so-
basta pedir ria fácil e pediram-nas ao Brasil. O despojamento
caracteriza a Ordem Cartusiana, com exceção dos
lução foi devolver a direção da comunidade aos es-
panhóis e o escolhido para atravessar o deserto do
a Deus por livros. Talvez por isso, mesmo antes de os monges
partirem, os livros do coro — um dos quais um an-
Grande Deserto cartuxo de Évora foi Antão López.
“Deixaram-me de superior com outros quatro
ele”, garante tifonário (livro litúrgico com as diversas partes do
ofício cantado) de 90 por 60 centímetros — foram
monges a preparar o que em 2019 estamos prepa-
rando.” Ou seja, se o padre espanhol não tivesse
o superior enviados para Montalegre. Além da biblioteca, não
têm muito mais para deixar; tudo o que havia foi
agarrado o mosteiro, os cartuxos teriam partido 30
anos antes.
de Scala Coeli roubado em 1834. Mais de 100 quadros. Ficaram
os retábulos das duas igrejas, que não podiam ser
A urgência fê-lo agir. “Tinha conhecido o sr. arrancados.
conde de Vil’alva e telefonei à viúva. Pedi-lhe uns Nem tudo é extinção e as dificuldades não acon-
milhões e respondeu-me que enviava um cheque. tecem apenas em Portugal. A Ordem Cartusiana
Comentei-lhe que os juros diários eram altos e que está a mirrar por toda a Europa, mas a geografia

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cartuxa revela uma surpreendente vitalidade na Fonseca, 52 anos, que durante quatro anos viveu com a consciência de dever cumprido: “Pensamos
América do Sul e na Ásia, com destaque para a Co- na Cartuxa. Nascido em África, chegou a Portugal que fica não apenas a memória de um passado, mas
reia do Sul. Na Europa, resistem três mosteiros em com 18 anos, estudou Economia em Lisboa e, con- uma presença eterna.”
França e três em Espanha, dois em Itália, ta ao Expresso numa sala do lado de fora do O arcebispo de Évora, Francisco Senra, anuncia ao
um na Suíça, um na Alemanha, na Eslové- mosteiro em Évora, era “um cristão de oca- Expresso que o mosteiro deverá ser ocupado por
nia e outro em Inglaterra. Também os Esta- sião”, que frequentava as igrejas apenas em outra comunidade contemplativa, “provavelmente
dos Unidos têm um mosteiro, assim como casamentos e batizados, até que confron- feminina”. Mas diz que as consultas ainda decor-
o Brasil e a Argentina. No total são cerca tou-se com as mensagens de São Francis- rem, porque quem vier terá de se adaptar às con-
de 300 os monges. Os maiores mosteiros co e Santo Agostinho. Tentou ser francis- dições de um edifício do século XVI, “com caracte-
são a casa-mãe — a Cartuxa original fun- cano, mas aconselharam-lhe uma expe- rísticas muito próprias para a vida cartusiana”. Mas
dada por São Bru- riência cartusiana. garante que aquele continuará a ser “um espaço
no, em França — e o Padre Antão López exclusivamente monástico, ainda que possa vir a
mosteiro na Alema- era o mestre-novi- acolher na hospedaria, pessoas que desejem fazer
nha, cada uma com ço e Paulo Fonse- alguns dias de experiência de vida contemplativa”.
28 monges. Segue- ca diz que, durante O ponto alto das cerimónias de despedida acon-
-se Inglaterra, com a sua permanência tecerá a 8 de outubro, quando às 18h30, os portões
23 monges, e dez cartuxas terão entre 11 e em Scala Coeli, experimentou “liberdade, do mosteiro se abrirão à comunidade e na igreja re-
20 homens. Na Itália e na Eslovénia não pas- alegria e verdade”. Foi obrigado a sair da nascentista de Scala Coeli será celebrada uma mis-
sam de dez religiosos por mosteiro, e, com o zona de conforto e, “sem as distrações do sa de adeus dos monges. Depois, os mil quilómetros
contributo de Évora, a casa nos arredores de mundo”, viu-se frente a frente com os seus que os separam da nova casa deverão ser feitos em
Barcelona chegará a 12 homens. demónios. Mas percebeu que aquele tam- duas partes, com uma noite de sono em Madrid,
No fim de 2018, a Cartuxa argentina tinha bém não era o seu território. Ainda passou “por causa dos mais velhinhos”. De longe, os qua-
seis noviços em formação e outros tantos em um ano no mosteiro de Burgos e acabou por tro homens ficarão à espera de notícias de Scala
Portes (França), mais cinco no Brasil e cin- decidir ser pároco. Depois de ter deixado a Coeli, ansiando que o edifício não seja transforma-
co em Inglaterra. A Alemanha estava a for- Cartuxa, completou a formação no Semi- do em nada distinto de uma casa religiosa. E dese-
mar mais três e a Itália tinha dois noviços. Os nário-Maior de Évora e será ordenado jus- jando que algo deles permaneça. Padre Antão conta
mosteiros cartusianos são mesclas de nacio- tamente no âmbito das cerimónias de des- que na Cartuxa de Jerez, agora habitada por outra
nalidades. Só por Scala Coeli passaram ale- pedida dos últimos quatro monges de Scala Ordem, a inscrição da entrada homenageia quem
mães, franceses e um suíço, que vieram para Coeli. “Ali nunca me senti sozinho. A expe- já não lá está, podendo ler-se a inscrição “Monas-
aprender a língua, e um inglês e um norte- riência cartusiana transcende as palavras e tério de Belén/Cartuja de La Defensión de María”.
-americano e um italiano ali morreria, por- emociona-me falar na partida dos monges, Está já próximo o momento em que Antão López
que o mosteiro tem o melhor clima da Ordem. porque perde-se o vínculo com uma Ordem poderá regressar ao silêncio. “Serei um cartuxo nor-
E, apesar das restrições de padre Antão à que nos mostra que a vida não se resume às mal, sem contacto com o exterior; já era hora... sin-
excessiva emotividade dos portugueses para coisas materiais”, conclui. to necessidade. E ainda por cima, este sprint final vai
abraçarem a severidade cartuxa, o mosteiro matar-me...” Viu vários monges morrerem dormindo
espanhol de Porta Coeli, em Valência, é liderado ANGELUS-COMPLETAS 18H45, e queria ter o mesmo fim. “Há muito anos preparo-me
por um português. Um jovem monge de 47 anos, DEITAR-SE 19H15 cada noite para que me aconteça isso. Adormeço feliz
que, numa atitude rara, respondeu às perguntas do O fim aproxima-se. Entre o aviso de 2011 e a de- e acordo com pena. A terra, nem sequer na Cartuxa,
Expresso sobre o encerramento de Évora. Frei Luís cisão deste ano, os quatro cartuxos aproveitaram pode comparar-se com o Céu...” E partilha as suas pa-
Maria Nolasco conta, por escrito, o que Scala Coeli para embelezar a Cartuxa — “limpou-se, pintou-se, lavras mais íntimas: “Senhor, fazei comigo o que qui-
tem de especial: “Um intenso espírito de família e iluminou-se, completou-se tanto o edifício como serdes.” Mas o Deus de Antão ainda não o ouviu. Há
de fraternidade entre os seus monges, sem dúvida o complexo artístico que alberga”. Padre Antão sai alguns anos, pensou que chegara a hora. “Tive algo as-
favorecido pelo reduzido número da comunidade.” sim como um enfarte. Doeu-me fortemente o coração
E partilha mais um segredo do mosteiro português, e o lado esquerdo, durante o que me pareceu um quar-
o rosário rezado em comum pelos quatro monges to de hora, mas seria muito menos. Estava na cama e
na Capela de Nossa Senhora de Fátima, antes do fiquei imóvel, repetindo a frase. O cardiologista disse-
recreio de domingo. -me depois: ‘Outros saltam assustados e caem mortos,
Outra exclusividade alentejana apontada pelo
superior de Valência é a relação do mosteiro com o A Ordem a sua imobilidade, salvou-o.’ E aqui estou, não sei até
quando, mas esperando que não tardará o dia feliz.”
mundo exterior, “seja pelo número de pessoas que
chamavam para pedir orações, seja pelas que acu- Cartusiana Até lá, o que estes homens levam, já se sabe. E
do que não conseguirão se esquecer? “Há 55 anos
diam cada domingo à Santa Missa celebrada fora da
clausura por um dos padres cartuxos, seja pelo nú- está a mirrar que cheguei, mas entre 1972 e 1977, fui mestre de
noviços numa cartuxa francesa. Ali falei em francês
mero de artigos de imprensa, de reportagens de rá-
dio e televisão que se foram realizando ao longo dos por toda com os homens, mas falava em português comigo e
com Deus, como sempre fiz aqui. A oração litúrgi-
anos nessa cartuxa e que não tem comparação com
nenhuma outra Casa da Ordem.” Mas o que parece a Europa, mas ca tinha de ser em francês, mas o meu terço era em
português. E o será em Espanha. Já me custa falar
uma mais-valia pode ser considerado um obstá-
culo de acordo com a forma cartusiana de pensar. a geografia espanhol. Se isso não é saudade...” Quem diria que
o superior cartuxo seria tocado pela emoção por-
Com a cidade ao virar da esquina, Scala Coeli não
corresponde à definição estrita de um ermo, inqui- cartuxa revela tuguesa? O tempo cartusiano é circular: começa a
contar quando se atravessam os portões e a palavra
etando alguns monges desejosos de ainda maior
solidão. Frei Luís Maria Nolasco diz-se “profunda- surpreendente clausura fica-lhe pelas costas, como a cruz carrega-
da, e fecha-se quando regressam à terra, e a cam-
mente triste” pelo encerramento da única Cartuxa
do país e que para Portugal a perda “significa um vitalidade na pa é coberta pela cruz de ferro. Depois, não haverá
tempo, apenas a eternidade. E quando se cerrarem
grande empobrecimento espiritual, uma diminui-
ção da eficiência apostólica”. América do Sul as portas da Cartuxa de Évora, o silêncio monástico
será substituído pelo ruidoso vazio. b
Quem conhece de perto os último anos vi-
vidos pelos monges em Évora é o diácono Paulo e na Ásia camartins@expresso.impresa.pt

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Entrevista
Piotr Anderszewski

A opulência
é aborrecida”
É um dos pianistas internacionais de topo
e tem com Lisboa uma relação antiga. Foi cá que
o encontrámos, na véspera de um recital. O “viajante
intranquilo”, como lhe chamaram, fez 50 anos
e está a braços com uma pergunta: como continuar

POR LUCIANA LEIDERFARB (TEXTO)


E TIAGO MIRANDA (FOTOGRAFIAS)

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A
é aliás a palavra que hoje o ocupa. aberto e confortável em relação aos VIAJANTE O pianista polaco
Como e porquê continuar a tocar. estrangeiros. viveu em Varsóvia, Paris, Los
De onde retirar as forças. Angeles, Londres e Lisboa.
De passagem por Portugal, falou tam­ Mudar faz, então, parte da sua Aos 50 anos, aceitou que
bém da vontade de comprar “um pe­ identidade. procurar um lugar é mais
daço de terra” nos Açores. Qual a ra­ Estou sempre à procura de alguma importante do que encontrá-lo
zão? Não sabe. Talvez escala humana. coisa. Fico satisfeito por algum tem­
Talvez — mais provavelmente — a re­ po, mas depois volto ao mesmo mo­
cuperação do tal lugar esquecido que vimento. Agora cheguei a uma ida­
Lisboa já não é. Uma garrafa de água de em que aceito isto: talvez eu não
partilhada, uma mesa de café e o ruí­ esteja destinado a encontrar, apenas
do de fundo da cidade alimentaram a procurar.
a conversa, que Piotr achou “dema­
siado pessoal”. Nós agradecemos. A ideia de ‘viajante’ [wanderer] é um
caminhar por um bairro histórico de conceito romântico, muito século
Lisboa, de calças claras e mochila às Onde vive? Já mudou muitas vezes XIX.
costas, Piotr Anderszewski bem pode de cidade. Talvez o conceito seja romântico,
passar por um turista. Mas há algo que Estou sempre à procura de um lugar eu é que não sei se o sou.
o distingue dessa massa anónima: ele para viver. Tem a ver com a minha
conhece bem as ruas, sabe por onde educação, com o facto de ter nascido Uma vez disse: “Sou meio polaco,
vai, identifica um café onde há anos de pais vindos de países diferentes, meio húngaro e vivo em Paris, mas
parou, uma escadaria da qual se di­ e com diferentes histórias. Por outro considero-me suíço.” Porquê?
visa a melhor vista. Há 12 anos com­ lado, a minha infância foi passada na Porque a Suíça é uma espécie de terra
prou casa na cidade, quando ainda França. Estou em casa em toda a parte de ninguém. Não só pela neutralidade
era uma espécie de local esquecido e e em nenhuma. como pelas diferentes línguas que in­
“fora deste mundo”. E se o entristece tegra, pelo facto de não ter uma iden­
que já não o seja, a questão não lhe tira E quando é que Lisboa aparece no seu tidade clara. Isso é algo que me diz
o sono. Apesar de ter passaporte por­ percurso? muito. Mas isto de ser de toda a parte
tuguês, Piotr nunca viveu aqui, como Gostei dela logo no primeiro recital e de nenhuma também tem nuances.
não vive em lado nenhum. Como vive que dei por cá. A cidade tinha algo Há sítios onde me sinto melhor do que
em toda a parte. de especial que não deixou de ter, noutros. E ao mesmo tempo que mu­
Nasceu há 50 anos em Varsóvia, uma mas que se esbateu. Há 12 anos com­ damos, os sítios também mudam. Em
cidade arrasada e renascida das cin­ prei cá um apartamento, mais para Lisboa, por exemplo, tudo leva o seu
zas, de pai polaco e mãe judia húnga­ ter um escape do que para viver. Um tempo. Lisboa requer paciência. Seja
ra. Viu a incomensurável ferida que a local onde não conhecesse ninguém. nos correios, seja porque alguém es­
II Guerra Mundial deixou nos familia­ Era uma cidade charmosa, esquecida, tacionou na rua e deixou os outros à
res, as contradições do regime co­ fora deste mundo. espera... Faz parte do ritmo da cidade.
munista. Na infância, residiu em Pa­
ris, tal como Chopin, o mais alto dos É importante para si passar Há dois anos, falou ao “The New York
símbolos polacos, o fizera no seu tem­ despercebido? Times” de Lisboa como “uma cidade
po. Mais tarde, estudou nos Estados Isso é possível também em Paris afável”, concluindo: “Por alguma ra-
Unidos. E tornou­se pianista, um dos ou em Londres. É mais uma questão zão ninguém quer invadir Lisboa.”
mais aclamados do mundo, vencedor de identificação ou de relação com Obviamente, estava enganado. Para
em 2002 do Gilmore Artist Award e o lugar — e aqui tudo parece mais mim não foi uma revelação simpática,
sobre quem Bruno Monsaingeon fez,
em 2009, um documentário intitu­
lado “Voyageur intranquille”. O pia­
nista cuja carreira, ironicamente, co­
meçou ao desistir de uma das maiores
competições europeias — a de Leeds
—, por assumida falta de confiança.
Piotr Anderszewski sofre de “pregui­
ça patológica” e adorava encontrar
um piano que lhe permitisse tocar
deitado. Isso leva­o a ter de trabalhar,
de cada vez, mais intensamente. En­
contramo­lo vindo de um ensaio em Há 12 anos comprei cá um
apartamento. Lisboa era uma
Oeiras, onde no dia seguinte deu um
recital no âmbito do Festival Interna­
cional de Piano e tocou Bach, Schu­

cidade charmosa, esquecida,


mann e Beethoven, os ‘seus’ compo­
sitores. Sua também é a obsessão pela
comida, pelas viagens, pela História.
Por uma procura cujo único objetivo
é continuar a procurar. “Continuar” fora deste mundo”
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porque sempre vivi Lisboa como uma em locais que já foram autênticos Não diria zangado. Fiquei triste, como à exceção do que diz respeito à mú-
espécie de lugar esquecido. Mas não é e que agora me recebem com um ta- se me tivessem tirado alguma coisa. sica. Quando começo a ficar de-
possível haver lugares esquecidos na blet todo moderno, mas onde a comi- Imagino que esse seja o sentimento masiado próximo sinto a urgência
Europa de hoje. E quanto mais esque- da perdeu qualidade. Dito isto, ainda dos próprios lisboetas. A minha casa de mudar.
cido for o lugar, mais brutal é a des- há lugares que persistem em ser como é no Bairro Alto, numa rua bonita e
coberta. Considero-me um homem eram. Noutro dia, comi perto do aero- velha, e de momento há pessoas a vi- No entanto, regressa. Voltou,
de sorte por ter visto Lisboa ainda na- porto, em Alvalade, num sítio de que ver lá. Conheço uma vizinha que toma por exemplo, a Varsóvia.
quele estado poético. Há lugares que gosto. Não é o restaurante mais bonito conta da casa, mas o resto do prédio é Vou lá muito pouco. Gravo e edito lá
não vou esquecer — o B.Leza, que fe- do mundo, mas é um local real, com um hotel. Os habitantes mudam todas os discos, e pouco mais. Tenho ainda
chou em 2007, um ano antes de eu gente real. Porém, para ser comple- as semanas, alemães, franceses, o que alguns bons amigos, mas cada vez a
adquirir a minha casa. Vou guardá-lo tamente honesto, eu também sou um não é agradável. visito menos.
sempre na memória. O mesmo se pas- turista, não faço parte da população e
sa com alguns restaurantes. mal falo a língua. Por isso, talvez não Falava da neutralidade suíça, que ob- Há uns anos filmou lá o documentá-
seja justo queixar-me. serva à distância o teatro mundial. rio “Warsaw Is My Name” [estrea-
É conhecida a sua obsessão pela É também esta a sua atitude, a de não do em Lisboa no LEFFEST, em 2016].
comida. Num dos mails que trocámos antes da se envolver muito? Porque o fez?
Sou totalmente obcecado por comi- entrevista, falou numa Lisboa “devas- Talvez seja. Por vezes, em Lisboa, Porque eu tenho uma história emo-
da, pela arte de cozinhar e de co- tada” pelo turismo de massas. Ficou sinto-me um voyeur. É difícil para cionalmente muito pesada com a Po-
mer. Por isso me incomoda entrar zangado com a mudança de ambiente? mim identificar-me com um lugar, lónia, e em especial com Varsóvia.

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Quando percebi o que aconteceu à
cidade durante a guerra, a escala da
devastação, e com-preendi que o
meu pai estava lá em 1944, e tinha
apenas 4 anos... Ele ficou comple-
tamente traumatizado e essa ferida
atravessou várias gerações. Por outro
lado, sou muito sensível à arquitetura.
E marcou-me ter nascido numa ci-
dade que foi arrasada e hoje é uma
amálgama de betão. Reconstruiu-
-se a Cidade Velha à imagem do que
uma vez foi, e isso dá-nos uma ideia
do porte da cidade. É uma das poucas
partes de Varsóvia em que podemos
imaginar como era antes do bombar-
deamento. Mas também isso é estra-
nho, artificial.

Porque sentiu a necessidade de fazer


o filme?
Tinha uns meses de férias e sen-
ti que tinha algo a dizer sobre a ci-
dade. Não sabia como fazê-lo: po-
dia escrever, podia fotografar. Afi-
nal, decidi ir lá com um amigo que
tinha uma câmara e simplesmen-
te filmar o que me apetecesse. Fo-
ram cinco ou seis dias, apenas a ca-
minhar e a recolher o que quer que
captasse a minha atenção. Não ha-
via projeto, além de tirar tempo para
editar, para construir uma narrativa
a partir daquelas impressões. Foi tudo
bastante abstrato.

E o que significou?
Serviu para me distanciar desta histó-
ria. Para não estar tão envolvido nela.

Para não estar sempre de luto por ela,


como uma vez referiu? Até que ponto
o lugar onde nascemos nos define?
Não quero generalizar, mas penso
que todos somos definidos pelo lugar
onde nascemos — pelo contexto, pela
cultura. A questão é o que fazemos
com isso ao longo da vida, como rea-
gimos. Há pessoas nascidas em Varsó-
via que não se sentiram tão afetadas.
A mim, afetou-me.

A história da sua família é muito in-


teressante. Mãe judia húngara, pai
polaco. Passava os invernos em Var-
sóvia e os verões em Budapeste. Ha-
via contraste?
Havia um contraste imenso. Para
mim, a Hungria era mais luminosa,
embora na adolescência tenha des-
coberto algumas coisas sobre a famí-
lia da minha mãe que eram, pelo con-
trário, muito escuras. Mas, enquanto
criança, lembro-me de que o peso, a
destruição e a tragédia estavam na

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Polónia. Ambos os países tinham es- incrível, fabuloso. É o lado da Polónia E o lado materno, húngaro? na altura nem sequer existia. A parte
tado na esfera da Alemanha nazi, em- que adoro e que desenvolveu o nosso Os meus pais conheceram-se na ocidental pertencia ao Reich, o les-
bora a Polónia tenha resistido desde o sentido do humor. Hungria, apaixonaram-se e foram te foi anexado pela União Soviética,
primeiro dia da guerra — o país inteiro viver para a Polónia. Ainda tenho pa- e o Governo Geral, no centro, tam-
estava contra a Alemanha. Por isso, no Quer dar um exemplo? rentes húngaros, embora muitos te- bém não era a Polónia, mas um ter-
final, a Polónia teoricamente ganhou, Em 1981, quando Jaruzelski decretou a nham morrido durante a guerra. Mas ritório onde os alemães perpetravam
mas é como se tivesse perdido. A Po- lei marcial, os comunistas puseram o os meus avós sobreviveram. Repare, os crimes mais hediondos. Dito isto,
lónia perdeu quase tudo, porque 95% exército nas ruas e não se podia sair. Os até 1944, os judeus podiam sobrevi- não creio que a tentativa de fazer leis
dos seus judeus foram exterminados, concertos e o teatro foram proibidos, e ver na Hungria. Depois disso foi ter- resolva o problema. Para mim, é um
tal como 20% dos polacos não ju- o país estava revoltado. Então, um pia- rível, e Budapeste foi o pior. A minha completo absurdo. Mas não gosto de
deus; porque a capital do país deixou nista pró-regime, de quem não quero avó estava em Budapeste e o marido me envolver em assuntos públicos.
de existir. Toda a parte leste foi toma- dizer o nome, foi autorizado a tocar. As estava na frente, a combater os rus-
da pela União Soviética, e sim, a parte pessoas esgotaram o concerto, o audi- sos. Portanto, ele estava a salvo, o que A Polónia teve várias invasões do seu
oeste foi deixada à Polónia como for- tório estava cheio. O pianista subiu ao é um completo absurdo. Ela escapou território mas manteve uma forte
ma de vingança contra a Alemanha... palco, o público começou a aplaudir e por milagre, esteve duas vezes à beira identidade cultural. Chopin é uma
Mas isto nem sequer foi decidido pela não parou durante uma hora. Não dei- de ser morta, mas tinha uma grande obsessão nacional.
Polónia, mas por Estaline, em Ialta, xou que o concerto acontecesse. E o pulsão de vida. Mesmo assim, a mi- Não minha. Adoro Chopin, mas não
com o consentimento dos aliados. E a pianista foi-se embora. Isto é a Polónia. nha avó húngara nunca falou do pas- gosto de lendas. Acho que não fazem
Polónia tornou-se um Estado satélite sado. Era de origem humilde e acre- bem à própria música. Não é nada de
da União Soviética. Ganhar a guerra Li que tem uma grande admiração ditava no comunismo. genuíno, é como estar perante um
foi uma completa catástrofe. pela sua avó paterna, polaca, que tes- ícone. É automático.
temunhou tudo o que se passou na Essa herança judaica está presente?
Um paradoxo brutal. cidade. Pouco, porque — mais uma vez — Um dia contou que, na Polónia,
Se olhar para o que aconteceu na Admiro as minhas duas avós. Mas ninguém falava disto. Havia uma am- o Concurso Chopin é mais popular
Hungria durante a II Guerra Mundial, sim, a avó polaca esteve sempre lá. nésia absoluta, um buraco no tem- que o futebol. E que na sua casa havia
o país colaborou com os nazis e isso, Era uma memória viva de Varsóvia. po. Descobri tudo isto muito tarde, já acesas discussões sobre quem tinha
ironicamente, acabou por poupar os Ela quase nos criou, a mim e à minha quase aos 20 anos. Teria sido diferen- tocado a melhor mazurca. Conve-
judeus, pelo menos até 1944 — claro irmã. Tinha uma personalidade forte te se o tivesse sabido desde criança. nhamos que isso não é comum.
que a partir daí a matança foi indes- e sempre falou do que viu. Ela estava Sim, mas repare que, após a guerra,
critível. Em geral, para os polacos, a na cidade em 1944, durante o levan- O ano passado, o Governo polaco nada na Polónia foi deixado de pé.
Hungria era um país onde toda a gente tamento de Varsóvia, escondida, sem tentou punir legalmente quem suge- Havia pequenas ilhas de liberdade,
parecia feliz, onde se podia comprar comida. Não faço ideia de como as risse qualquer participação do país de beleza e de abertura ao mundo. E o
de tudo, o que na Polónia era impos- pessoas sobreviveram naqueles dois no Holocausto. O que pensa disso? Concurso Chopin representava mui-
sível. Por outro lado, a Hungria teve a meses, com bombardeamentos ale- Penso que o grande alarido, a grande to mais do que uma competição de
grande revolução contra o estalinis- mães constantes, enquanto os russos história por trás disto é que, no Oci- piano, as pessoas esperavam por ele.
mo em 1956, e o facto de ter morrido se mantinham à espera, estacionados dente, as pessoas e por vezes os pró- Simbolizava ser-se polaco. E é verda-
tanta gente abafou qualquer oposi- do outro lado do rio [Vístula]. Mas prios jornalistas se referem a ‘cam- de que até há pouco tempo a minha
ção posterior. E a Polónia, mais uma antes disso ainda presenciou a bata- pos de concentração polacos’. E isso família tinha este tipo de discussões.
vez, esteve sempre contra. Contra os lha de 1939 e a ocupação alemã. Nes- é uma falsidade. Mesmo que o objeti- Chegavam a sair da sala zangados, a
alemães, contra os soviéticos. E teve ses anos, podia-se ir pela rua e nunca vo seja situá-los geograficamente, há não se falarem durante dias. Ficavam
sempre este sentimento: ganhámos a mais voltar. O meu avô — polaco, ca- uma forte conotação nesta frase. Nun- emocionalmente tomados pelo even-
guerra mas perdemo-la, e estivemos tólico — foi apanhado desta forma e ca poderia ter havido campos de con- to. A minha família polaca é bastante
sempre contra toda a gente. O que é levado para Auschwitz. centração polacos, porque a Polónia culta, em especial a minha avó, que
sempre falou de música, de literatura.

Gostava de lhe perguntar o que lhe


passou pela cabeça quando abando-
nou o Concurso de Leeds aos 21 anos,
sendo certo que iria à final.
Sentia uma grande falta de confian-
ça. Achava que estava a tocar mui-
to mal e que não merecia estar ali.
Foi a única competição em que
participei na vida. Estava doente
e cansado daquilo, e fui-me embora.

A Polónia esteve contra Acabei com isso antes que acabasse


comigo.

os alemães, contra os soviéticos. Arrependeu-se?


Não, de todo. Fiquei feliz e aliviado

Ganhou a guerra, mas


por sair. Ironicamente, é deste modo
que a minha carreira começou. Eu ti-
nha tocado as “Variações Diabelli” de

é como se a tivesse perdido” Beethoven e, na opinião da maioria


(não da minha), tinha-o feito muito

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bem. Isso e o facto de abandonar o
concurso despertou a atenção dos
agentes. Eu era o pianista que deixou
o Concurso de Leeds antes da final,
sendo um dos favoritos.

O que fez depois?


Falava ao telefone com os agentes e
protelava as decisões, porque não sa-
bia o que fazer. Não estava preparado
para ter uma carreira. Se deixas um
concurso, como podes estar pronto
Eu era o pianista que deixou
para dar concertos? Como é que es-
tás psicologicamente preparado para o Concurso de Leeds antes da
final, sendo um dos favoritos”
aguentar o stresse de uma vida as-
sim? Então, passei os primeiros anos a
cancelar concertos. Mudei programas
à última hora, portei-me muito mal.
Estive perto do colapso, parei de tocar,
deixaram de me convidar. Mas algu- A pianista Martha Argerich diz que Admiro muito o [Sviatoslav] Richter, intensamente. Tenho de puxar por
mas pessoas acreditaram em mim e adora o piano, mas não gosta de ser fui criado a ouvir as suas gravações e mim mais do que outras pessoas com
foram compreensivas, e de alguma profissional. Concorda? teve sempre algo que me tocou muito. rotinas de estudo mais organizadas.
forma, lentamente, tudo recomeçou Eu nem sei se adoro o piano... Mais Para mim, era alguém livre, que toca-
e se desenvolveu. do que nunca, neste momento estou va e vivia como queria. Sem moldes, Há pouco falava de se ser colocado
a formular estas perguntas. A ques- sem limitações. num molde. Mas isso não terá a ver
Questiona-se muito? tionar-me sobre como continuar. A com as próprias referências? As suas
É perfeccionista? dificuldade da profissão é a continui- Considera-se talentoso? são Bach, Beethoven, Schumann,
As pessoas dizem isso de mim, mas dade. Fazer isto três, cinco, dez, vin- Talentoso? Não muito. O talento é Shostakovitch, Mozart, algum Cho-
não sei o que significa. Não sei como te anos, e sentir o mesmo impulso, a uma habilidade além da norma. E pin. E Beethoven. As “Variações Dia-
é possível estar envolvido com a arte mesma vontade. Continuar a gerir o quem se importa com a habilidade? belli” estão coladas ao seu nome.
e não ser perfeccionista. medo do palco, o piano das diferentes Eu não. Isto não é algo que eu possa explicar.
salas (que é sempre desconhecido), as Não consigo tocar música com a qual
É por isso que deixou Leeds? O que viagens, o cansaço. Uma vez afirmou que a habilidade não me relacione profundamente. Por
pensa hoje destes concursos? é perigosa. isso não me vejo a fazer uma integral —
Encontrei a brochura de Leeds por Pergunta-se muito porquê? Porquê Pode ser. Se não tiveres grande habi- todas as sonatas de Beethoven, ou to-
acaso e agradou-me porque permi- continuar a tocar? lidade tens de encontrar o teu méto- dos os concertos de Mozart. Para mim,
te aos pianistas escolher as obras. Na Não apenas porquê mas como fazê- do, o teu caminho, lutar por chegar lá. uma integral é apenas um conceito.
competição Chopin, por exemplo, tem -lo de modo a que seja gratificante. Se tiveres talento, para que dar-se ao Preciso de sentir a música para ter a
de se tocar apenas o que nos pedem, e É importante reinventar-se. Se fazes trabalho? Não concebo o piano sem energia de a tocar, e nunca sentiria por
são sempre obras de Chopin. Portanto, isto cinco, dez ou vinte anos, inde- esforço. É como se costuma dizer: a igual todas as 32 sonatas de Beetho-
há concursos e concursos. O que im- pendentemente de quereres ou não, melhor gastronomia vem de países ven. E do mesmo modo que eu tenho
porta é a forma como os encaramos. acabas por ser posto num molde, as que são ou foram muito pobres, onde de amar a música, ela tem também de
Se formos com a ideia de ganhar, isso pessoas associam-te a um certo tipo as pessoas tiveram de ser inventivas. me amar. Tenho de conseguir acres-
é desde logo um erro. Conseguem- de repertório ou de interpretação. E A opulência é de facto aborrecida. centar-lhe qualquer coisa, fazer-lhe
-se melhores resultados se se abordar é fácil ficar prisioneiro disso. Somos justiça com a minha personalidade.
como uma experiência, um modo de pessoas públicas, é uma profissão Há então uma distinção entre
posicionar-se perante os outros. pública. Ouço músicos a dizer que o talento e o génio? Tudo se resume a ser-se
não se importam com o público e O génio é aquele que coloca no mun- convincente?
O que o levou a ser pianista? que só tocam para si mesmos, mas do algo de novo. Que usa o que tem Para convencer o público, primeiro te-
Nunca foi uma decisão. Tínhamos um eu não acredito nisso. Não funcio- para iluminar uma coisa que antes nho de me convencer a mim mesmo.
piano em casa e eu estudava desde na assim. estava escondida. O talento é algo É um processo complicado e difícil de
pequeno, o meu pai insistiu muito. de mais pragmático, uma facilidade explicar. Penso que tem de haver um
Mas nunca gostei de treinar. O piano Porquê? muitas vezes física, e isso para alguns acordo, um encontro, entre o compo-
só me interessou verdadeiramente a Comprometo-me a tocar para outros, é suficiente. sitor, a peça, e eu próprio, que vou dar-
partir dos 20 anos. E, tirando alguns sou pago para isso, é a minha pro- -lhe existência física. E quando falo em
anos dessa fase de conquista técnica, fissão. Se não me importasse com as Trabalha muito ao piano? existência física falo de dar-lhe o meu
não me considero obsessivo. O ins- pessoas seria desonesto. Deveria ficar Sou patologicamente preguiçoso. cérebro, o meu coração, o meu corpo,
trumento não me interessa assim tan- em casa e tocar perante o espelho. Se não tiver de estudar, fico grato. os meus dedos e os meus limites. To-
to, embora na prática seja impossível Porém, o facto de me importar não dos temos limites e eles fazem parte da
dissociá-lo da música. Não há música significa que pretenda agradar a toda Contou que adoraria ter um piano interpretação. A melhor interpretação
sem instrumentos, não comunicamos a gente. Os músicos mais sensíveis e que permitisse tocar deitado. é aquela na qual o meu corpo de hoje
telepaticamente. Porém, como a pala- imaginativos são aqueles que conse- Hoje mesmo pensei nisso enquanto se adequa a uma peça que foi escrita
vra o sugere, trata-se só de um instru- guem não ficar prisioneiros. estudava: que bom seria estar a fazê- centenas de anos atrás. b
mento, não de um objetivo. Serve um -lo deitado. Sou preguiçoso e por isso,
propósito, que é a música. Quem? Quer dar um exemplo? por vezes, tenho de trabalhar muito lleiderfarb@expresso.impresa.pt

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Karl Ove Knausgaard
fecha “A Minha Luta”
com o sexto volume
do ciclo (“O Fim”)

Não há rentrée sem novo romance de António Lobo Antunes,


Rentrée
ROBERTO RICCIUTI/GETTY IMAGES

novas encenações de Shakespeare, novas provocações de Jérôme


Bel, avistamentos de Madonna em Lisboa, efemérides de
Beethoven ou de Da Vinci, filme de Scorsese ou nova temporada
de “Anatomia de Grey”. E não há rentrée sem muitas novidades

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Romance genial e absoluto, “Grande do único Nobel da Literatura português, desde Espanha nos anos 30 (de onde
Sertão: Veredas”, de João Guimarães ficcionando os seus derradeiros pensa- milhares de pessoas se exilaram para o

Livros /
Rosa, é um monumento da literatura mentos em “O Último Minuto na Vida Chile, “longa pétala de mar, de vinho e
brasileira do século XX; ou, melhor dito, de Saramago”, e Possidónio Cachapa de neve”) até ao golpe de Estado que
da literatura universal. Reinventando a regressa ao romance, com “A Vida vitimou Salvador Allende, na década
Ficção língua portuguesa e os modos de narrar,
o livro desdobra-se em mil direções,
Sonhada das Boas Esposas”, com saída
prevista para o final de 2019.
de 70.
Em outubro, a Antígona lança “O
contando a vida do jagunço Riobaldo, Lançado no Reino Unido há menos de Quépi e Outros Contos”, de Colette,
das circunstâncias físicas, históricas e um ano, o mais recente romance de e reedita duas obras-primas de um
humanas em que este se move, de uma Jonathan Coe, “Middle England” (Porto dos pais do surrealismo, André Breton:
galeria de espantosas personagens Editora) é uma aproximação literária à “Nadja” e “O Amor Louco”, traduzidos
(Diadorim, Zé Bebelo, Joca Ramiro), complexa questão, ainda por resolver, respetivamente por Ernesto Sampaio
24 de supostos pactos com o Diabo e do ‘Brexit’. Recuperando personagens e Luiza Neto Jorge. A Cavalo de Ferro
SET. de uma paisagem que se materializa de livros anteriores (nomeadamente também recupera um dos romances
Não há rentrée literária sem nas páginas com raríssimo fulgor. Até dois romances que perfazem com este fundamentais do século XX — “A
novo romance de António Lobo agora, esta obra que continua a dar uma trilogia: “The Rotter’s Club”, de Marcha de Radetzky”, de Joseph Roth
Antunes. O deste ano intitula-se trabalho a gerações de estudiosos (à 2001, e “The Closed Circle”, de 2004), — enquanto continua a apostar na es-
“A Outra Margem do Mar”, tem imagem de outro grande romance mo- Coe faz uma panorâmica muitas vezes critora polaca Olga Tokarczuk. Depois
chancela D. Quixote e 365 páginas dernista: o “Ulisses”, de James Joyce), sarcástica, recorrendo a um humor fino, de “Viagens” (Man Booker Internatio-
não tinha uma edição portuguesa que do que foram os anos anteriores ao nal Prize em 2018), editado já este
respeitasse na íntegra o texto origi- referendo, a partir de 2010, e imagina ano, poderemos ler “Conduz o Teu
22 nal, sem cortes ou adaptações. Essa o que acontecerá ao seu país depois Arado Sobre os Ossos dos Mortos”,
OUT. versão, que podemos considerar desde do afastamento definitivo da União apresentado como um misto de thriller
Vinte anos depois de “As logo um dos maiores acontecimentos Europeia. Na mesma editora, mas num psicológico e fábula macabra. Dan-
Vantagens de Ser Invisível”, da rentrée literária de 2019, chegará registo completamente diferente, do seguimento à publicação da obra
Stephen Chbosky regressa com em outubro às livrarias, com chancela a chilena Isabel Allende regressa à completa de Julio Cortázar, a Cavalo
um romance muito aguardado: da Companhia das Letras. Na mesma ficção com “Longa Pétala de Mar”, de Ferro apresentará em novembro
“Amigo Imaginário” (ASA) editora, Miguel Real “invade a cabeça” uma viagem através do século XX, “Deshoras”, o último livro de contos

Aos 90 anos, Edward O. Wilson é um científica, destaque para “O Homem de totalitarismo e a violência na sociedade
dos maiores biólogos e naturalistas Neandertal: Em Busca dos Genomas americana. A Dom Quixote revelará a

Livros /
vivos. Duas vezes vencedor do Prémio Perdidos”, de Svante Pääbo (coleção faceta ensaística da romancista britâni-
Pulitzer, continua ativíssimo e verá nes- Ciência Aberta, da Gradiva) e para “A ca Zadie Smith, na tradução de “Feel
te outono livros seus editados, quase Arte Perdida de Encontrar o Caminho” Free”, um conjunto de textos que tanto
Não ficção simultaneamente, em Portugal. Em
“Génesis” (Clube do Autor), analisa as
(Imprensa da Universidade de Lisboa),
de John Edward Huth, professor de
abordam a obra de Karl Ove Knaus-
gaard como a figura do rapper Jay-Z.
seis grandes fases da evolução biológi- Física em Harvard, uma “obra total” que Numa estreia absoluta enquanto autor
ca que levaram à criação da sociedade abrange vários ramos do saber. de não-ficção, o sempre polémico Bret
NOV. humana. Já em “Da Terra Metade” (Arte Ainda neste mês de setembro, a Orfeu Easton Ellis ataca ferozmente a gera-
e Ciência) defende com argumentos Negro lança um livro de culto da teoria ção millenial num livro a que chamou
A Antígona completa quatro sólidos uma “solução de emergência” queer: “Manifesto Contra-Sexual”, de “Branco” (Elsinore). A Porto Editora
décadas de vida “refractária” e edita para assegurar o futuro da biodiversida- Paul B. Preciado, originalmente pu- aposta na autobiografia de Elton John,
“A Ameaça de Antígona - 40 Anos”, de na Terra: atribuir o estatuto de reser- blicado em 2000. Na Relógio D'Água, “Me”; a Tinta da China em “I'm Your
antologia de testemunhos com va ecológica a “meio planeta, ou mais”. “Pensar sem Corrimão” reúne ensaios Man, A Vida de Leonard Cohen”, de
organização de Luís Oliveira Também no campo da divulgação de Hannah Arendt sobre Karl Marx, Sylvie Simmons; a Objectiva num dos

Como fazem as superpotências, abri- por Luís Araújo, no São Luiz, em Lisboa o que eles disseram (4 e 5/10). De volta
mos com a artilharia pesada: Shakes- (26 a 29/3/2020); e de novo “Ricar- a Almada, o mito e a história de Pedro

Teatro /
peare, “Ricardo III”, Schaubühne e Tho- do III”, na versão de Marco Medeiros e Inês são mostrados na peça de um
mas Ostermeier: no D. Maria, em Lisboa, (Teatro da Trindade, Lisboa, 16/4 a autor clássico espanhol, fundamental
a 31/12 (um fim de ano em cheio), 2 21/6/2020). Mas não é tudo. Em Alma- para esta problemática histórico-dra-
e 3/1/2020; não chega? Mais para da, António Pires encena “As Cadeiras”, mático-literária — é “Reinar Depois
frente, Frank Castorf, outra superstar de Ionesco, um dos grandes clássicos do de Morrer”, de Luis de Guevara, na
da encenação europeia, traz “Bajazet, século XX e daquilo que foi chamado, encenação de Ignacio García (TMJB,
2/3 Considerando o Teatro e a Peste”, de com alguma razão, “teatro do absurdo” 25/10 a 17/11). E por fim, depois de uma
a Antonin Artaud e Jean Racine (TNDM (TMJB, 18 a 20/10); mais a norte, no volta gigante por teatros de Portugal,
10/5 II, 19 e 20/6/2020). E se ainda não Mosteiro de São Bento da Vitória, no com início em Vila Real, a 31/10, a
No Teatro São Luiz, em Lisboa, for suficiente, haverá um “Romeu e Porto, Jorge Andrade encena “Locker sofisticada peça “Vidas Íntimas”, de
Mónica Calle mostra “Este É o Meu Julieta”, que John Romão cria a partir Room Talk”, de Gary McNair, uma peça Noël Coward, aterra, com a sua graça
Corpo”, um conjunto de solos da peça de Shakespeare (TNDM II, 14/2 que parte daquilo que os homens dizem única, em Lisboa, numa encenação de
fundamentais, ou emblemáticos, a 1/3/2020); “A Tragédia de Júlio das mulheres quando estas não estão a Jorge Silva Melo (CCB, 4 a 9/3/2020).
do seu percurso artístico César”, do mesmo autor, encenada ouvir — mas na peça são elas que dizem / JOÃO CARNEIRO

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do escritor argentino. Na Elsinore, Caminho contra o Vento”, um romance
teremos “Frankisstein: Uma História biográfico) e contos de Gonçalo M.
de Amor”, de Jeanette Winterson, Tavares (“Cidades”).
uma evocação iconoclasta do clássico Outros autores portugueses no prelo:
gótico de Mary Shelley (que chegou à Vítor Nogueira (“Falésia”), na Assírio &
long-list do Booker Prize deste ano), Alvim; Carlos Alberto Machado (“Ho-
e “História da Violência”, mais uma tel dos Inocentes”, romance) e Pedro
catarse autobiográfica do escritor Eiras (“Museus”, contos), na Compa-
francês Édouard Louis. nhia das Ilhas; Judite Canha Fernan-
Nos últimos anos, a Relógio D’Água des (“Um Passo para Sul”, Prémio de
fez de Karl Ove Knausgaard, a par de Revelação Agustina Bessa-Luís), na
Elena Ferrante, uma das suas figuras de Gradiva; João Reis (“Quando Servi Gil
proa. Agora, conclui o ciclo de roman- Vicente”) e Cláudia Andrade (“Quar-
ces autobiográficos a que o escritor tos de final e Outras Histórias”, estreia
norueguês chamou “A Minha Luta”, absoluta em nome próprio de uma
com o sexto volume (intitulado “O autora que tem escrito sob pseudó-
Fim”), uma reflexão sobre o próprio ato nimo), na Elsinore. Reedições: Camilo
da escrita, enquanto escada pela qual Castelo Branco (“Novelas do Minho”,
um “eu” acede à realidade, realidade com prefácio de José Luís Peixoto),
essa que se alterou profundamente na Glaciar; “O Mistério da Boca do
com o sucesso dos livros anteriores e Inferno — Correspondência e novela
a tremenda pressão das expectativas policial”, de Fernando Pessoa e Aleis-
alheias. Além de prosseguir a reedi- ter Crowley (com edição de Steffen
ção de Agustina Bessa-Luís, a Relógio Dix), na Tinta da China; “Contos da
D’Água publicará novos livros de Ana Sétima Esfera”, de Mário de Carvalho,
Margarida de Carvalho (“O Gesto que e “Paisagem com Mulher e Mar ao
Fazemos para Proteger a Cabeça”), Fundo”, de Teolinda Gersão, na Porto
João Guimarães Rosa vê a sua obra-prima finalmente editada na íntegra em Portugal Cristina Carvalho (“Ingmar Bergman: O Editora. / JOSÉ MÁRIO SILVA

livros-sensação da Feira de Londres verdadeiro “apocalipse da Ciência e vistos como épicos resistentes diante Outros Poemas”, de Marília Garcia,
deste ano (“O Evangelho das Enguias”, da Razão”. Na Antígona, as ideias de dos conquistadores romanos. Safra livro que ganhou o Prémio Oceanos em
de Patrik Svensson) e na investigação ateus e agnósticos, da Idade Média pródiga, a da poesia. São vários os auto- 2018; “As Orelhas de Karenin”, de Rita
jornalística de Paulo Pena sobre as ao século XVI, são recuperadas no res cuja obra completa surge reunida Taborda Duarte, e “Ku Ki Vos”, sonetos
fake news portuguesas (“A Fábrica das volume “A Arte de Não Acreditar em num só volume: David Mourão-Ferreira de Luís Vaz de Camões traduzidos para
Mentiras”). Recolha dos textos em que Nada e Livro dos Três Impostores”, (“Obra Poética [1948-1995]”) e José crioulo pelo poeta cabo-verdiano José
Mia Couto assume uma intervenção com organização e prefácio de Raoul Agostinho Baptista (“Epílogo”), na Luiz Tavares (ambos na Abysmo); “Fiat”,
cívica, “O Universo num Grão de Areia” Vaneigem. “A Guerra de Libertação Assírio & Alvim; Mário Cláudio (“Doze de Ana Luísa Amaral, e “O Livro dos
(Caminho) junta crónicas, conferências de Angola” (Clube do Autor), de Al J. Mapas”) e Yvette K. Centeno (“Entre Gatos Práticos do Velho Gambá”, de T.
e discursos proferidos pelo escritor Venter, jornalista sul-africano, analisa Silêncios”), na Glaciar; Francisco José S. Eliot, com tradução de Daniel Jonas
moçambicano em todo o mundo. as operações militares portuguesas Viegas (“Deixar um Verso a Meio”), na (Assírio & Alvim); “Antologia”, de João
Com “O Abismo de Fogo” (Relógio num dos principais teatros da Guerra Imprensa Nacional-Casa da Moeda; Miguel Fernandes Jorge, com escolha
D'Água), o historiador Mark Moles- Colonial. A mesma editora reeditará Urbano Bettencourt (“Com Navalhas de Joaquim Manuel Magalhães (Reló-
ky assina um dos mais importantes “Viriato”, de Teófilo Braga (com pre- e Navios”), na Companhia das Ilhas. gio D'Água); e “No Rasto dos Duendes
estudos sobre o terramoto de Lisboa, fácio de Adriano Moreira), mergulho Mas há muito mais. Nomeadamente: Elétricos”, de Adolfo Luxúria Canibal
em 1755, que descreve como um na cultura da Hispânia e dos lusitanos, na Tinta da China, “Câmera Lenta e (Porto Editora). / J.M.S.

Há dois novos espaços dedicados Caído” (Fórum Municipal Romeu Cor- encontro entre o Archa Theatre (centro
à dança e artes performativas mais reia — Auditório Municipal Fernando de artes performativas checo atual-

Dança /
contemporâneas a marcar a rentrée Lopes-Graça, no dia 26 de outubro), mente dirigido por Jana Svobodová)
deste ano: a novíssima Casa da Dança estreado originalmente em 1998 e re- e o Living Dance Studio (a primeira
(Almada), dirigida por Paulo Ribeiro montado este ano para o Teatro Viriato. companhia chinesa independente,
(que assim retoma o percurso de dire- O TBA abre o novo espaço com um dirigido por Wen Hui), ambos fundados
tor artístico, depois da marca deixada programa de três dias, 11 a 13 outubro, em 1994, com o espetáculo “Ordinary
no Teatro Viriato, Viseu, e a tumultuosa em que apresenta, “CHROMA_don’t People” (30/11). Na criação contem-
19 e rápida passagem pela Companhia hide behind the page”, de Alessandro porânea portuguesa, destaque para as
OUT. Nacional de Bailado); e a abertura do Sciarroni, entre outros. Este ano há dois reposições de “O Limpo e o Sujo”, de
espaço TBA — Teatro do Bairro Alto, grandes regressos de nomes maiores Vera Mantero (29 e 30/11, Culturgest,
Está de volta o mestre provocador: com o novo projeto artístico dirigido da dança: Akram Khan, com “Xenos” Lisboa) e “Drama”, de Victor Hugo
em “Retrospective”, na Culturgest por Francisco Frazão. No âmbito da (30/11, CCB) e Boris Charmatz, com Pontes (13/12, Rivoli, Porto); e a estreia
Lisboa, Jérôme Bel debruça Casa da Dança, destaque-se a repo- “10000 gestes” (15/2/2020, Teatro da nova criação de Tânia Carvalho,
o seu olhar irónico e clínico sobre sição de uma obra histórica de Paulo Rivoli, Porto). Também no Rivoli, opor- “Onironauta” (30/1 a 2/2/2020, Cul-
a sua própria criação artística Ribeiro, “Memórias de Pedra, Tempo tunidade para conhecer o prodigioso turgest, Lisboa). / CLAUDIA GALHÓS

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Madonna, que há alguns anos vive em
Portugal, traz a digressão de “Mada-

Música /
me X” ao Coliseu de Lisboa para oito
concertos: a 12, 14, 16, 18, 19, 21, 22 e
23 de janeiro. Antes disso, a ‘procissão’
Concertos começa em outubro com Nick Murphy,
ex-Chet Faker, nos Coliseus (Lisboa a
1, Porto a 2); Orchestral Manoeuvres in
the Dark (Aula Magna, em Lisboa, a 15 e
Casa da Música, no Porto, a 16); Psy-
12 chedelic Furs (Hard Club a 15 e Lisboa
DEZ. ao Vivo a 16); Pixies (Campo Pequeno,
Lisboa, a 25); Jessica Pratt (Musicbox,
Este pode ser o 17º concerto Lisboa, a 29) e Mark Lanegan (Lisboa
dos The National em Portugal, ao Vivo a 30 e Hard Club a 31). Novem-
mas a verdade é que o espetáculo bro recebe, contudo, a coroa de mês
do Campo Pequeno, em Lisboa, dos concertos. Os Lumineers abrem
já está esgotado as hostilidades (Campo Pequeno, a 1),
seguindo-se Mick Harvey, cantando
Serge Gainsbourg (Casa da Música a 2
e Lisboa ao Vivo a 3). O brasileiro Ney
25-27 Matogrosso volta aos Coliseus (Porto
OUT. a 3 e Lisboa a 6), os Belle & Sebastian
Em Braga, o Semibreve vai ter nomes espalham charme na Aula Magna a 6. No STEVEN KLEIN

importantes como Morton mesmo dia, os Primal Scream agitam o


Subotnick, Suzanne Ciani, Oren Hard Club e Djavan toca no Casino Es-
Ambarchi & Robert AA Lowe, Kode9, toril (a 8 estará no Campo Pequeno e a 9
Ipek Gorgun ou Felicia Atkinson no Coliseu do Porto). Gente estimada do Madonna inicia em Lisboa a digressão de “Madame X” com oito concertos no Coliseu

Na música portuguesa, Ana Moura é do Carmo, que no início deste ano meses serão também ricos em concer-
um dos grandes nomes que se prepa- anunciou que vai abandonar os palcos. tos: Sam the Kid vai aos Coliseus (Lisboa

Música /
ram para voltar aos discos ainda este Sobre o álbum que poderá ser o seu a 18/10, Porto a 8/11); Pedro Abrunhosa
ano. O sucessor de “Moura”, de 2015, último trabalho de estúdio, sabe-se que atua nas mesmas salas (Lisboa a 8/11,
deverá sair em novembro, resultando do prosseguirá no trilho de mesclar tradição Porto a 15/11); os Expensive Soul tocam
Portugueses trabalho da cantora ribatejana com os
músicos que habitualmente a acom-
e modernidade. Quanto aos derradeiros
concertos do veterano, estão marcados
no Multiusos de Guimarães (9/11) e na
Altice Arena, em Lisboa (23 /11); Jorge
panham e também com o produtor para 2/11 no Coliseu do Porto e 9/11 no Palma sobe ao palco do Coliseu de
norte-americano Emilie Haynie, de cujo de Lisboa. Já em outubro, Isaura, ven- Lisboa a 14/11 e Valete apresenta-se
OUT. currículo constam colaborações com cedora do Festival da Canção em 2018, ao vivo em Lisboa pela primeira em seis
Lana Del Rey ou Bruno Mars. Este será o lança uma mixtape. Em novembro, um anos: é a 14 e 15/12 (a primeira data já
Depois do aclamado álbum sétimo álbum de Ana Moura e, segun- dos cantores mais bem-sucedidos do está esgotada). Os concertos acon-
“Mundu Nôbu”, lançado do informação avançada pela editora país lança o terceiro álbum: “South Side tecem no Capitólio e neles o rapper
em 2018 e veículo de êxitos como Universal, irá marcar “uma nova fase e Boy” é o título do regresso de Diogo Pi- mostrará os temas do vindouro álbum
‘Nova Lisboa’, Dino d’Santiago sonoridade” na sua carreira. Também em çarra, antecipado pelo single ‘Coração’, “Em Movimento”, do qual se conhece o
edita o EP “Sotavento” novembro chega o novo disco de Carlos já disponível em streaming. Os próximos single ‘Colete Amarelo’. / L.P.

Quinze anos volvidos sobre a sua última natureza. Outros artistas lusos conhe- momento histórico das vanguardas
apresentação no Porto, Paula Rego cerão reavaliações de carreira. É o caso (Kurt Schwitters e Luigi Russolo) e a ar-

Exposições /
volta, já a 24 de outubro, a Serralves de Rui Sanches com uma retrospetiva tistas mais contemporâneos como On
para apresentar uma representativa bipartida no Museu Berardo (desenho) Kawara ou Bruce Nauman. Na Gulben-
mostra do seu trabalho baseada na e na Cordoaria Nacional (escultura) a kian, uma das exposições que geram
Cá e lá fora coleção que exibe trabalhos desde os
anos 60 até a atualidade. Mas Rego
8 de outubro; ou de Álvaro Lapa cuja
série “Os Cadernos de escritores” é
expectativa é “Art on Display. Formas
de expor 1949-69” (8/11) que parte
não é a única portuguesa mulher a o ponto de partida para uma exposi- da história da própria instituição para
29/11 merecer destaque. Já a 28 deste mês, ção comissariada por Óscar Faria que refletir sobre a evolução da museologia
a inaugura na Fundação Carmona e enfatiza as relações entre a pintura e a e da ideia de exposição, a que se junta
15/3 Costa uma mostra da obra de Lour- palavra. É também na Culturgest que uma individual da argelina Zineb Sedira
O Museu Nacional de Arte Antiga des Castro sobre papel, enquanto vamos poder 'ouvir', uma das propos- (7/5/2020) que equaciona questões
apresenta “I Primi Lumi”, uma na Culturgest Lisboa abre em maio a tas mais aguardadas da temporada. associadas à história a partir da indús-
mostra dedicada ao pintor Álvaro primeira mostra antológica de Gabri- Comissariada por Delfim Sardo, “Uma tria cinematográfica argelina. O fator
Pires que trabalhou na região ela Albergaria, cuja obra é atraves- Exposição Invisível” (7/3/2020), humano vai ser um critério de reflexão
toscana no século XV sada pelos conceitos de paisagem e junta obras sonoras que remontam ao central em algumas das exposições

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circuito indie, Cass McCombs atua no A reta final do ano é tradicionalmente 15º capítulo da sua discografia, “Leaving
Círculo Católico de Operários do Porto época fértil em edições de álbuns. 2019 Meaning”; os Cigarettes After Sex lan-

Música /
a 7 e no gnration de Braga a 8, ao passo não é exceção. Apesar de muitos dos çam o segundo álbum, “Cry”; o londrino
que William Tyler toca a sua guitarra grandes discos da rentrée ainda não Michael Kiwanuka edita “Kiwanuka”;
encantada ao Auditório de Espinho (8), terem sido confirmados — os muito King Princess, protegida de Mark Ronson,
ao C.A.E. de Portalegre (9) e ao Teatro
Bocage, Lisboa (10). O mês termina Discos aguardados regressos de Rihanna, Drake,
Adele e Lady GaGa, que podem sair até
estreia-se com “Cheap Queen”. No mes-
mo dia, os Editors revelam o primeiro best
com o Super Bock em Stock, que a 22 ao final do ano ou no início de 2020 —, of, “Black Gold” e Josh Homme (Queens
e 23 leva Michael Kiwanuka ou Nilüfer o calendário está já bem preenchido. of the Stone Age) recupera, após 16 anos,
Yanya a várias salas em Lisboa, e com os Desde que os Sonic Youth acabaram, as suas “Desert Sessions”: os volumes 11 e
Vampire Weekend, no Coliseu dos Re- 4 Kim Gordon tem vivido um período 12 incluem colaborações com elementos
creios a 26. A 27 os Waterboys aterram OUT. altamente criativo: depois de discos com dos ZZ Top ou Warpaint e o ex-Scissor
no Campo Pequeno e no início de de- os projetos Body/Head e Glitterbust, a Sisters Jake Shears. Em novembro, será a
zembro os Nouvelle Vague fazem uma Três anos depois da aclamação americana estreia-se em nome próprio vez de os Tindersticks regressarem com
digressão de seis datas: Faro a 3, Lisboa mais generalizada com com “No Home Record” a 11 de outu- “No Treasure But Hope” e de DJ Shadow
a 4, Coimbra a 5, Leiria a 6, Guimarães “My Woman”, Angel Olsen regressa bro. Os ingleses Foals chamaram a si a editar “Our Pathetic Age” (ambos no dia
a 7 e Porto a 8. Ainda em dezembro, há aos discos com “All Mirrors”, exigente tarefa de lançar um álbum duplo 15). A 17 de janeiro, a estrela pop Halsey
Bryan Adams na Altice Arena a 6 e no uma ode ao seu “lado negro” no espaço de poucos meses, estando revela “Manic”. Destaque ainda para as
Fórum Braga a 7. Em 2020 destacam-se marcada para 18 de outubro a segunda reedições comemorativas dos 25 anos
as datas de Angel Olsen no Capitólio, parte de “Everything Not Saved Will Be de “Monster” dos R.E.M. (1 de novembro)
em Lisboa, a 22 e 23 de janeiro, e no 4 Lost”. No mesmo dia, Patrick Watson e dos 20 de “Surrender” dos Chemical
Hard Club a 24, bem como os regressos OUT. edita “Wave”, um disco influenciado pela Brothers (novembro) e para uma caixa
de Devendra Banhart, Tindersticks, Big morte da mãe. 25 de outubro será um dia dos Muse, “Origin of Muse” (6 de dezem-
Thief ou Patrick Watson, todos em fe- Jeff Tweedy andou bem ocupado concorrido em termos de lançamentos: bro), que reúne tudo o que a banda fez
vereiro, e de Bon Iver em abril. Em julho, desde que os seus Wilco editaram Neil Young volta aos seus Crazy Horse em torno do debute “Showbiz” (contém
Taylor Swift é a nova confirmação do “Schmilco”, em 2016, mas isso com “Colorado”; FKA Twigs edita o 40 faixas inéditas). Ainda sem data
NOS Alive, estreando-se em Portugal não impede a banda de regressar aguardado segundo álbum, “Magdale- confirmada, está “Miss Anthropocene”, o
no dia 9. / LIA PEREIRA agora com “Ode to Joy” ne”; os míticos Swans regressam com o novo de Grimes. / MÁRIO RUI VIEIRA

Muito bem: “Jazz & Clássica”. Então, musical ao composto que se forma Jazz), Frank Kimbrough (idem), Brad
porque não começar por combiná-las? a partir da parte insolúvel da matéria Mehldau (Caldas Nice Jazz, Figueira

Música /
Chega dia 18 de outubro às lojas “Re- orgânica, entretanto, pode esperar por da Foz e CCB) ou Dave Douglas & Uri
member Me, My Dear”, uma gravação novembro, altura em que a Universal Caine (Caldas Nice Jazz e CCB) estão
ao vivo procedente da ‘digressão de lançará “Beethoven 2020 — The New quase aí a chegar e, depois, há festivais
Jazz & Clássica despedida’ de Jan Garbarek com o
Hilliard Ensemble. Parece que se está a
Complete Edition” e a Warner “Bee-
thoven — The Complete Works” em
como o Seixal Jazz (de 17 a 26/10,
destacando-se Kenny Barron ou Ralph
falar de velhas glórias do rock em fim de antecipação do 250º aniversário do Towner), o Outono em Jazz (na Casa
30 carreira — mas, na verdade, que agente mestre. No jazz, já se sabe, não há bustos da Música, de 13/10 a 4/11, com relevo
NOV. numa ou noutra música se pode gabar tão robustos: ainda assim, assinalem-se para Art Ensemble of Chicago) e o
de ter vendido mais de um milhão de iminentes edições de Bill Frisell (“Har- Guimarães Jazz (de 7 a 16/11, com as
Na Casa da Música, a Orquestra exemplares de um disco seu? Nos dias mony”) e Dave Holland (“Good Hope”). presenças de Charles Lloyd, Vijay Iyer
Jazz de Matosinhos, com João que correm, de facto, só mesmo uma Agora, quem considere que a música & Craig Taborn ou Joe Lovano). Ao
Paulo Esteves da Silva e Andy mistura tão fermentada como “Offi- não deve depender de qualidades tão piano, na Gulbenkian: Seong-Jin Cho
Sheppard como solistas, revisita cium” (1994) para espevitar o mercado. controláveis pode sempre ir vê-la ao (13/10), Arcadi Volodos (10/11) e Niko-
o legado de George Russell Claro que quem prefira o equivalente vivo. Miguel Zenón (Hot Clube e Angra lai Luganksy (2/12). / JOÃO SANTOS

mais curatoriais: seja na sua relação Branco, que busca uma outra relação François Bucher a partir de um guião de como a que junta Rubens e Rembrandt,
com o mundo vegetal, como em “Plant com o tempo (19/1/2020). No MAAT, Pier Paolo Pasolini. Também em aproxi- no Art Institute of Chicago (28/9).
Revolution!” que Margarida Mendes Angela Bulloch vai ocupar a Sala Oval mação ao universo do cinema, mostra- Mais perto, em Madrid, vai poder
apresentará no CIAJG de Guimarães do museu com uma instalação inédita -se em Serralves a croata Nora Turato experimentar-se a relação estreita
(19/10); na exposição “Estar vivo (4/10) na mesma data em que inaugu- (3/10) que recupera, como referência, entre “Os Impressionistas e a fotogra-
é o contrário de estar morto” (Gal. ram Vasco Barata e a dupla João Pedro a filmografia de John Cassavetes. Lá fia” (Thyssen-Bornemisza, 15/10) ou
Municipal do Porto, 5/10) que relacio- Vale e Nuno Alexandre Ferreira. Em fora, aguardam-se exposições imperdí- visitar a nova montagem da coleção do
na o corpo com questões ambientais; Coimbra, regressa a Bienal Anozero veis, nomeadamente as que se abeiram Prado que comemora o seu Bicente-
em “Blind Sun”, da italiana Elisa Strinna (2/11), desta vez com curadoria do bra- das grandes efemérides como a dos nário (1/1/2020). Já do outro lado do
(Culturgest, Porto, 18/1/2020), que sileiro Agnaldo Farias que dá particular 500 anos da morte de Leonardo da Atlântico, a grande notícia é a reaber-
trabalha as conexões entre os fluxos de destaque à relação da cidade com o rio Vinci na National Gallery, em Londres tura (a 21/10) do MOMA, em Nova
comunicação, a tecnologia e o huma- Mondego e reúne cerca de 40 artistas, (9/11) ou no Louvre, em Paris (24/10), Iorque, após obras de ampliação, com
no; na mostra de Claire Fountaine que enquanto na mesma cidade termina mas também as que propõem enfoques nova abordagem à coleção do museu e
tematiza a violência na economia (Gal. no CAV (12/10) o ciclo organizado por particulares como a mostra de retratos a apresentação da doação de arte abs-
Av. da Índia, 23/10) ou na exposi- Paulo Pires do Vale em torno do cinema de Gauguin (National Gallery, Lon- trata sul-americana de Patricia Phelps
ção de Catarina Botelho no Pavilhão com “Paulus” de Pedro A.H. Paixão e dres, 7/10) ou fascinantes associações de Cisneros. / CELSO MARTINS

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Há vários aspetos que tornam “The no universo do cineasta de Nova Ior- para uma estreia em sala (assim acon-
Irishman” um dos filmes mais esperados que), acompanhados por novos talentos teceu, em casos pontuais, com “Roma”,

Cinema /
— senão o mais esperado — de 2019. como Anna Paquin e Bobby Cannavale. de Alfonso Cuarón). Para a Netflix,
O novo trabalho de Martin Scorsese, Scorsese reuniu a ‘velha guarda’ que colosso apoiado em mais de 150 mi-
que fintou Cannes e Veneza (não se resta do seu cinema, num género que lhões de assinantes em todo o mundo,
EUA concluiu a tempo por dificuldades téc-
nicas) para se estrear, no fim deste mês,
faz parte do seu ADN: o thriller mafio-
so. Mas há muito mais a dizer de “The
“The Irishman” é a aposta maior para os
Óscares, como é evidente. Estaremos
na abertura do Festival de Nova Iorque, Irishman”. Scorsese terminou a versão condenados a ver o novo Scorsese nos
traz uma reputação de épico sem igual final de montagem com o cronómetro a ecrãs lá de casa? Vamos sabê-lo nas
em anos recentes de cinema america- marcar 210 minutos, é o seu filme mais próximas semanas. Uma coisa é certa:
no. Baseado no livro “I Heard You Paint longo de sempre. Além disso, a ação na Netflix, estará disponível a partir do
3 Houses”, de Charles Brandt, Scorsese — abarca várias décadas e o cineasta feriado do Dia de Todos os Santos, a
OUT. com a ajuda da pluma do argumentista
Steven Zaillian (o mesmo que escreveu,
recorreu ao nec plus ultra dos efeitos
especiais (os atrasos na pós-produção
1 de novembro. Recém-estreado em
Toronto (ver texto sobre o festival na
Em “Joker”, de Todd Phillips, entre tantos outros, “Gangs of New vieram deste aspeto) para rejuvenes- pág. 76), “Ousadas e Golpistas”, novo
o arqui-inimigo de Batman pisca York”, de 2002) — foca-se agora nas cer De Niro nos flashbacks. Por fim, há filme de Lorene Scafaria, traz-nos
o olho ao cinema americano memórias do irlandês do título, Frank que salientar que todo este empreen- Jennifer Lopez, Julia Stiles e Constance
da década de 70, com um papel Sheeran, um ex-veterano da II Guerra dimento a pedir grande ecrã está a Wu num bando de strippers disposto
memorável de Joaquin Phoenix Mundial, à medida que este desvenda gerar enormes conflitos de exibição. A a trocar as voltas ao sistema machista
os seus trabalhos de assassino a soldo Netflix (que já lançara o documentário que as subjuga — chega às salas já na
19 de uma poderosa família mafiosa na dé- de Scorsese sobre Bob Dylan), abriu os próxima semana. “Gemini Man”, aposta
DEZ. cada de 70. O irlandês é Robert de Niro,
na sua nona colaboração com Scorsese
cordões à bolsa, comprou o filme e, com
a faca e o queijo na mão (o orçamento
da Paramount para o outono (estreia-se
a 10 de outubro), é interpretado por Will
J.J. Abrams de novo no comando (e a primeira desde “Casino”, de 1995) estancou nos 159 milhões de dólares Smith, Mary Elizabeth Winstead e Clive
da franchise “Star Wars”, com um e do elenco fazem também parte Joe segundo dados de agosto, mas há quem Owen no regresso de Ang Lee. Perto
nono episódio que também põe Pesci (aceitou regressar da reforma diga que se está a contar por baixo), não do fim de outubro, dia 24, é Woody
termo a uma trilogia de trilogias: quando Scorsese o chamou), Harvey está a aceitar o período de exploração Allen quem dá à costa com mais uma
“Star Wars: A Ascensão de Skywalker” Keitel e Al Pacino (que entra finalmente que as exibidoras tradicionais exigem agridoce comédia romântica passada

Com o fulgurante “Parasitas”, que se quase certa a sua presença nos Ósca- Binoche e Vincent Macaigne. Mais
estreia em Portugal no dia 26, Bong res. Fábula sobre a luta de classes com perto do fim do ano, a 21 de novem-

Cinema /
Joon-ho, um dos grandes cineastas uma família paupérrima a arranjar um bro, voltamos ao Reino Unido de uma
contemporâneos, não se limitou, em estratagema para ‘parasitar’ uma família classe operária aflita para se adaptar às
Cannes, a deixar para trás Quentin abastada, “Parasitas” foca-se numa novas leis do mercado tal como ela é
Europa/Ásia Tarantino, Pedro Almodóvar, Ken Loach,
Terrence Malick e tantos outros. Distin-
epidemia social sem vítimas e carras-
cos definidos, mas também sem cura à
descrita, uma vez mais, pelo veterano
Ken Loach: “Sorry We Missed You” (um
guido pelo júri presidido por Iñarritú com vista. É um dos filmes do ano. Escalo- filme tematicamente muito próximo de
a Palma de Ouro na Croisette, “Parasi- nado para as estreias de 10 de outubro, “Eu, Daniel Blake”) é mais uma aposta
24 tas” não só levou em seguida mais de “Varda par Agnès” é o filme-resumo de de Cannes a chegar às salas, desta vez
OUT. 10 milhões de coreanos às salas como uma vida e o testamento da cineasta com distribuição da NOS. Tal como o é
A família de uma estrela da TV se revelou um êxito extraordinário fora francesa Agnès Varda, que morreu a 29 “Frankie”, o filme que o americano Ira
reúne-se para acertar contas em de portas, com mais de 100 milhões de de março, aos 90 anos. Duas semanas Sachs veio rodar a Sintra numa co-pro-
“Praça Pública”, comédia de Agnès dólares de receitas — e ainda agora foi depois, a 24/10, chega Olivier Assayas, dução franco-lusa com Isabelle Hu-
Jaoui interpretada pela própria, o 3º filme mais votado pelo público do com “Double Vies”, o filme em que ppert, Pascal Greggory e Marisa Tomei.
Jean-Pierre Bacri e Léa Drucker Festival de Toronto, algo que indicia ser ele dirigiu Guillaume Canet, Juliette Estreia-se a 12 de dezembro. / F.F.

A novidade maior da televisão chega e o planeta recuperou o seu equilíbrio. novembro). Não são as únicas propos-
a um feriado, 1 de novembro, dia em É uma história de Steven Knight com tas. Nas séries, e depois do sucesso

Televisão /
que passa a estar disponível um novo realização de Francis Lawrence, de de “After Life”, há também uma nova
serviço de streaming. A tecnológica “Hunger Games”. O catálogo promete, comédia existencial na Netflix —
norte-americana Apple entra defini- mas no trono da televisão não linear “Living With Yourself”, desta vez
tivamente no mundo dos conteúdos e estão duas marcas bem consolidadas. com Paul Rudd e com estreia marcada
estreia o seu Apple TV+. Garantidas E que trazem as suas próprias duas para 18 de outubro — e o regresso de
desde o primeiro dia estão “Dickin- rainhas nesta rentrée. “O Método Kominsky” (dia 26). Nos
22 son”, com Hailee Steinfeld no papel Do lado da HBO Portugal, a aposta filmes, a conversa passa por “El Cami-
SET. da poetisa Emily Dickinson, “For All vai para “Catarina, a Grande” (a 3 de no: Um Filme Breaking Bad” (dia 11),
Mankind” — na qual a União Soviética outubro) — inspirada na biografia da escrito e realizado por Vince Gilligan,
“The Politician” é a primeira série chega primeiro à Lua —, “The Morning mulher que liderou o império russo e por “The King” (1 de novembro) e
fruto do acordo de 300 milhões Show”, com Jennifer Aniston, Reese protagonizada por Helen Mirren —, por “Dois Papas” (20 de dezembro),
de euros assinado entre a Netflix Witherspoon e Steve Carell, e “See”, ao passo que a Netflix volta a trazer de Fernando Meirelles e centrado
e Ryan Murphy. Conta com com Jason Mamoa, num futuro lon- episódios da vida da rainha Isabel II em em Francisco e Bento XVI. Na HBO
Gwyneth Paltrow no elenco gínquo em que os humanos não veem “The Crown” (temporada 3 a 17 de Portugal, o destaque vai para duas

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na sua terra natal, “Um Dia de Chuva
em Nova Iorque” — e, tal como o título
indica, tudo decorre num período de 24
horas, com a visita de um jovem casal
de namorados universitários que pensa
ir passar um bom bocado à cidade que
nunca dorme... Timothée Chalamet
e Elle Fanning, assim como Selena
Gomez, todos eles jovens atores em
ascensão, são dirigidos por Woody pela
primeira vez. Mas a grande surpresa da
temporada vem da relação pungente
e intimista entre pai e filha na distopia
que é “Light of My Life”, produção indie
realizada e interpretada por Casey Af-
fleck: vale a pena tomar nota, chega a 7
de novembro, no mesmo dia em que se
estreia o novo ‘filme-catástrofe’ de Ro-
land Emmerich, “Midway”, sobre aquela
batalha naval da II Grande Guerra. “Ford
v Ferrari” (14 de novembro), de James
Mangold, e “Knives Out” (28 de no-
vembro), de Rian Johnson, assim como
“Jojo Rabbit” (fevereiro de 2020), de
Taika Waititi, estão na rota dos Ósca-
res. Falamos deles mais à frente nestas
páginas: acabaram de estrear-se em
Al Pacino e Robert De Niro (ao centro) em “The Irishman”, de Martin Scorsese Toronto. / FRANCISCO FERREIRA

Já a 3 de outubro, estreia-se o novo e 3 de outubro, “Avenida Almirante Reis carteira uma série de filmes de produção
muito adiado cometimento de Edgar em 3 Andamentos”, de Renata Sancho independente que veremos no que dão:

Cinema /
Pêra, “Caminhos Magnétykos”. A 10, a que se seguem “Alia Ubbo”, de Paulo “Mary”, de Pedro Varela, que conseguiu
chega uma tentativa de cinema históri- Abreu (a 14 de novembro), “Il Sogno convencer financiadores americanos
co com “Viriato”, de Luís Albuquerque. Mio d’Amore”, de Nathalie Mansoux e e brasileiros para uma história de crime
Portugueses A 7 de novembro, um peculiar musical
de João Nicolau, “Technoboss”. Ainda
Miguel Moraes Cabral, “Hálito Azul”,
de Rodrigo Areias (a 28) e “Tempo
rodada no Rio de Janeiro; “Submissão”,
de Leonardo António, sobre um caso de
sem data definida, mas decerto antes do Comum”, de Susana Nobre (a 5 de violência doméstica; “O Lugre — Terra
fim de 2019, estrearão o muito aguarda- dezembro). Para o 1° trimestre de 2020, Nova”, de Artur Ribeiro, feito a partir
21 do Leopardo de Ouro de Locarno 2019 já há promessas. Desde logo “O Filme do de uma peça de teatro que Bernardo
NOV. (“Vitalina”, de Pedro Costa) e “Golpe de Bruno Aleixo”, de João Moreira e Pedro Santareno escreveu a partir da sua
Sol”, de Vicente Alves do Ó. E uma ex- Santo, a transportar para o grande ecrã experiência como médico de bordo na
Estreia “Tristeza e Alegria na Vida periência quase inédita no longo historial um humor que fez longo caminho na net frota bacalhoeira; e, ainda, de Sérgio
das Girafas”, o filme que Tiago do cinema português, um filme de terror e na televisão. Mas também ”Patrick”, Graciano, três-filmes-três para a colhei-
Guedes foi buscar a uma peça de que sobrou do MotelX do ano passado a estreia na realização de longa-metra- ta de 2020, “A Impossibilidade de Estar
teatro de Tiago Rodrigues fazendo — “Inner Ghosts”, de Paulo Leite. No gem de Gonçalo Waddington que San Só”, “O Som que Desce da Terra” e “O
acontecer um filme impossível capítulo dos documentários teremos, a Sebastian selecionou. A NOS tem em Protagonista”. / JORGE LEITÃO RAMOS

séries muito diferentes: “Watchmen” chega sozinho. Os incontornáveis “The vez de uma proposta da BBC regres- extraordinários locais da antiguidade.
(dia 21) e “His Dark Materials”, a 4 de Walking Dead” (temporada 10, 7 de sar ao canal: a segunda temporada de No Odisseia, desvenda-se a 12 de
novembro. A primeira é uma realida- outubro) e “American Horror Story” “Keeping Faith”. outubro “O Mundo Segundo a Ama-
de alternativa onde vigilantes com (T9, dia 14) regressam à antena do Nos canais dedicados ao documentário zon”, com os segredos do gigante do
máscaras são tratados como foras da canal, acompanhados ainda por “SEAL também há novidades. O Discovery retalho a serem revelados. Já no que diz
lei e a segunda é um épico criado a Team” (T2, dia 8). No FOX Life, o Channel vai estrear a série documental respeito aos canais documentais mais
partir de uma saga de Philip Pullman clássico “Anatomia de Grey” (T16, dia “Why We Hate”, produzida pelo Ste- leves — e com uma componente reality
que pode ser a próxima “A Guerra dos 2) também não faltará, com a assina- ven Spielberg, a 13 de outubro, naquele associada —, o Crime+Investigation
Tronos”. tura de Shonda Rhimes a surgir ainda que parece ser o maior destaque para a aposta na estreia de “O Homicídio de
Na televisão por cabo, e como é em “Station 19” (T2, dia 7) e “For nova temporada. No caso do National Oslo” (a 13 de outubro), sobre um crime
hábito, a FOX volta a reservar um the People” (T2, dia 15). No AMC, o Geographic, a série “Cidades Perdidas brutal testemunhado por uma criança
conjunto alargado de produções para destaque vai para a produção euro- com Albert Lin” protagonizada pelo de quatro anos. No Blaze, o concur-
estrear nos próximos tempos. O drama peia. A primeira temporada da série National Geographic Explorer promete so “The Titan Games”, com Dwayne
policial “FBI”, a 2 de outubro, prome- francesa de crime e mistério “Capitai- cruzar aventura, ciência e arqueolo- Johnson (The Rock), é a grande aposta,
te emoções fortes da mesma equipa ne Marleau” começa a ser transmitida gia com tecnologias de última gera- com estreia marcada para 17 de outu-
que criou “Lei & Ordem”, mas não a 7 de outubro e três dias depois é a ção — para explorar alguns dos mais bro. / JOÃO MIGUEL SALVADOR

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Mia Couto e José Eduardo
Agualusa transformaram em
novelas as peças teatrais que
escreveram a quatro mãos

Li o lugar de estranheza que é o da

vros
sua liberdade. Cândido, generoso,
dá uma e outra vez a volta ao
texto. Assistir ao triunfo da sua
inteireza, da sua dignidade, contra
a cegueira dos interrogadores
só pode deliciar-nos, mesmo
sabendo que essa vitória implica o
sacrifício escusado de um inocente.
Charles acredita ser capaz de
transformar “a dor em esperança”
(e consegue-o das formas mais
inusitadas), mas o que fica a pairar,
no riso das situações cómicas que
engendra, é o brilho de uma “luz
subversiva”.
Antes de ser novela, ‘O Terrorista
Elegante’ foi peça de teatro, levada
à cena pelo grupo A Barraca. Igual
caminho, do palco para as páginas
de um livro, seguiram os outros dois
NGOI SALUCOMBO

textos, escritos originalmente para


o Trigo Limpo, Teatro ACERT, de
Tondela. Em ‘Chovem Amores na
Rua do Matador’, Baltazar Fortuna

Aves raras
regressa a Xigovia para ajustar
contas com as três mulheres que
amou, matando-as. O que podia
ser tragédia logo redunda em farsa,
apimentada por doses generosas
de sarcasmo e uns pozinhos de
fantástico. A mais teatral das três
ficções é a última, ‘A Caixa Preta’,
Mia Couto e José Eduardo Agualusa conseguem fundir as suas vozes toda passada numa casa envolta
em negrume e medo (lá fora, na
narrativas na perfeição. É como se as duas fossem apenas uma cidade ameaçadora, ouvem-se tiros
TEXTO JOSÉ MÁRIO SILVA e sirenes da polícia), enquanto três
gerações se enfrentam, mais as suas
histórias ocultas, em sucessivos

N
a primeira história deste Cada um destes textos, escritos a picos de tensão dramática. O que
livro, um suspeito de quatro mãos por Mia Couto e José esconderá, afinal, uma misteriosa
terrorismo fala, na sua cela, Eduardo Agualusa, é uma gaiola máscara de lobo?
para o desenho de um pássaro na precária de que as personagens, Segundo uma nota prévia, ‘Chovem
parede e explica-lhe que também aves raras, arranjam sempre forma Amores...’ e ‘A Caixa Preta’ são fruto
ele sabe voar, usando vinagre como de fugir, ao revelarem-se maiores, de uma colaboração à distância,
combustível. Na segunda história, ou menos evidentes, do que as através de trocas de mensagens
um homem em luta contra o peso do suas circunstâncias fariam supor. entre os dois escritores, amigos de
passado admite o desejo de ter asas Veja-se o caso do protagonista de longa data, “um acrescentando
para fugir à vida que tem: “Alguém ‘O Terrorista Elegante’: Charles o texto do outro”. Já ‘O Terrorista
já viu um passarinho envelhecer? Poitier Bentinho, “poeta romântico Elegante’ foi quase inteiramente
Se voássemos, haveríamos sempre e mestre em espíritos”, angolano escrito em Boane, Moçambique,
de ser crianças. No céu, o tempo de indumentária impecável, cheio “num jardim imenso, à sombra
não passa, é uma nuvem.” Na última de “suégue” e “bué de banga”. de um alpendre de colmo”.
das três novelas que compõem este Suspeito de envolvimento em Sentados na mesma mesa, “rindo,
volume, uma velhota prepara uma ataques terroristas, é interrogado brincando”, apostaram na “negação
sopa, recordando-se dos tempos nas instalações da Polícia da ideia de que a criação literária
em que era maria-rapaz, caçava Judiciária, em Lisboa, por um é sempre um ato profundamente
QQQQ pássaros e os prendia na varanda do comissário português irascível, solitário”. O resultado final, em que
O TERRORISTA ELEGANTE quarto: “Espalhava no chão a seiva dado às tiradas racistas, e por ora reconhecemos o estilo de um,
E OUTRAS HISTÓRIAS da mulemba, aquela seiva branca uma agente da CIA. Tanto um ora o tom do outro, sem cesuras, de
Mia Couto e José Eduardo Agualusa e espessa, e os pobres ficavam com como outra tentam encaixá-lo forma harmoniosa, quase orgânica,
Quetzal, 2019, 160 págs., €16,60 os pés colados. E cantavam, quando num perfil preestabelecido e é a prova de que talvez tenham
Novelas tudo em volta ficava calado.” falso, mas ele nunca abandona razão. b

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ISTO ANDA
TUDO LIGADO

ESTES ACORDISTAS
SÃO LOUCOS!
Numa das comédias mais
divertidas dos Monty Python,
“A Vida de Brian”, filme

CONCERTO
que casava com inexcedível
brilhantismo a paródia ao
cristianismo e a paródia
à extrema-esquerda —
matrimónio mais do que
improvável, mesmo pondo a
/ ANA hipótese de Yeshua pertencer

ORQUESTRA
CRISTINA a uma seita judaica radical e
LEONARDO suicidária — há várias cenas
de antologia, incluindo,
claro, o famoso “Afinal,
o que é que os romanos fizeram por nós?” Por
ser tão demoniacamente divertida, não poucos

CHINESA DE
gritaram “Blasfémia!”, mimando, aliás, a cena
do apedrejamento reservado aos homens em que
os participantes são apenas mulheres de barbas
postiças. Não é essa, contudo, que quero recordar.
Do que me lembrei foi da cena em que Brian aceita
pinchar, pela calada da noite, as ruas da Judeia
ocupada com a frase: “Romanos, vão-se embora!”

MACAU
Como se sabe, o latim tem aquele problema
tramado dos casos e das declinações. E é assim que,
apanhado em flagrante por um centurião, Brian é
confrontado com uma terrível pergunta: “O que é
isto? Romanes eunt domus? Povo chamado romano,
eles ir para casa?” Brian responde a gaguejar: “Diz..,
diz, romanos vão-se embora”. “Não, não diz. Qual
é o latim para romano? Vamos!” “Romanus?”,
hesita o pobre oprimido. “Como em…?” “Annus?”,
responde Brian. O opressor prossegue: “O vocativo
plural de annus é?” “Anni?” “Romani. E eunt?
O que é eunt? Conjuga o verbo ir!”, e por aí fora,
do nominativo ao dativo, passando pelo acusativo
MUSEU DO ORIENTE | www.museudooriente.pt
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e etc., até que, tendo Brian por fim conseguido
respeitar devidamente a gramática, o centurião lhe
ordena que escreva cem vezes “Romanos, vão-se
embora!” E sob ameaça: “Se não tiveres terminado
até ao nascer do sol, corto-te os tomates!” Ali estava
No âmbito do Festival de Cultura Chinesa em Portugal, inte-
alguém mais preocupado com o rigor linguístico
do que com a revolução! E porque é que me
grado nas comemorações do 70º aniversário da Fundação da
lembrei disto? Porque ao ser confrontado com as República Popular da China, do 40º aniversário das relações
incongruências linguísticas do primeiro-ministro
no Twitter, Acordo Ortográfico, sim, Acordo diplomáticas entre a China e Portugal e do 20º aniversário da
Ortográfico, não (acordo a que são obrigados os
funcionários públicos, recorde-se), o gabinete de transferência de administração de Macau para a China.
António Costa respondeu ao “Polígrafo” que sim
senhor, às vezes acontece, mas trata-se de “uma co-organização
excepção (sic) à regra”. Ora, sendo a grafia da
palavra, segundo o AO, “exceção” (não confundir EMBAIXADA
DA REPÚBLICA
com excisão, apesar da amputação feita à língua POPULAR DA
não andar longe disso…), ficamos na dúvida se CHINA
a “excepção (sic) à regra” referida pelo gabinete
do primeiro-ministro conta ou não conta como produção mecenas principal mecenas dos espectáculos
do Museu do Oriente do Museu do Oriente
exceção. Confusos? Agora, imaginem o Brian! b

INFORMAÇÕES | Av. Brasília Doca de Alcântara (Norte) | 1350-352 Lisboa | Tel. 213 585 200 | info@foriente.pt

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frente,/ ao contrário do anjo,/ ao
Neste livro de Manuel Afonso contrário da história,/ ao contrário
Costa sucedem-se as evocações também/ do esquecimento,/
e os inventários de sítios,
recupero tudo,/ a memória, uma
geográficos ou abstractos,
pátria,/ uma insigne morada,/
um como que eterno retorno
só nesta viagem derradeira/ me
purgo do destino/ e revejo o rosto
imaculado/ do assombro,/ mas não
recuo/ até ao completo silêncio,/ QQQ
tenho medo/ do vislumbre de um LEVA-ME CONTIGO
princípio/ que em vez de iluminar/ Afonso Reis Cabral
me cegue.” A referência à pátria tem D. Quixote, 2019, 175 págs., €16,60
certamente a ver com os anos em Viagem
que o autor de “Caligrafia Imperial
e Dias Duvidosos” (2007) viveu em A 22 de abril deste ano, Afon-
Macau, mas todas as boas intenções so Reis Cabral fez-se à Estrada
(olhar em frente, recuperar tudo, Nacional 2 como quem decide
voltar a casa, libertar-se do destino) subir ao Evereste: simplesmente
parecem bloqueadas por um exílio porque está ali. Contados do marco
que ainda continua, uma sensação zero, numa rotunda de Chaves,
de impossibilidade, um “triste até ao centro de Faro, foram 738,5
engano”. quilómetros a pé pelo interior do
De que consolações se sustenta país, na mais extensa das estradas
então o espírito eminentemente portuguesas e uma das mais longas
filosófico deste poeta? De poucas do mundo. Antes de partir, Afonso
ou nenhumas. Deus é objecto de anunciou o projeto na sua conta de
alusões, mas é um Deus absconditus, Facebook e o número de pessoas
um demiurgo distante, mais do que que acompanharam em tempo
um deus pessoal; o amor é doce (quase) real a sua caminhada não
mas fugaz; o carpe diem já foi mais parou de crescer. Todos os dias, à
convincente ou mais útil; o tempo noitinha, escrevia no telemóvel a
presente depara-se com “sinais crónica breve da jornada. Moído
breves daquilo que não perdura”; pelo cansaço, limitava-se ao essen-
o futuro tornou-se um encargo; cial: um encontro, uma paisagem,
e o hábito de estar vivo vai-se um obstáculo, um esboço de epifa-
deteriorando com o uso. Todas nia (mas sem se levar muito a sério).
essas “imagens tácitas da tristeza” Com espanto, descobriu a ‘bon-

Dias duvidosos
(Carlo Emilio Gadda) exprimem dade dos desconhecidos’ de que
sem dúvida um sentimento tardio falava Tennessee Williams. Houve
de cariz biográfico, mas supõem sempre quem lhe oferecesse co-
igualmente o carácter tardio da mida, um lugar para dormir, indica-
época em que vivemos. Uma ções úteis, dois dedos de conversa.

O
título deste livro inscreve-o são os utensílios e as coisas vivas: época que o poeta considera tão Mais do que um hino à resistência
numa tradição atenta à arados, palheiros, gado, figueiras, dividida quanto duvidosa: “basta- física, este diário é um exemplo de
categoria do “tardio”, ao limoeiros, pereiras bravas. Ou nos a verdade à luz dos nossos perseverança, disciplina mental e
tempo que já vai longo, ao gesto então as pulsões físicas, intensas e dias porém/ o bem separou-se capacidade de observação. Aqui e
extemporâneo, à fatuidade do concretas, animais. E ao longo de da verdade/ e da beleza/ e nesse ali, revela-se o instinto do escritor,
novo, ao estar a fazer-se tarde. Um quase duzentas páginas sucedem- abandono/ a uma outra luz se capaz de farejar uma boa história ou
dos mais emblemáticos exemplos se as evocações e as remissões procura/ o encontro/ para supremo nomear a beleza quando a vê (“des-
portugueses dessa poética é “Ainda (“tornamo-nos com o tempo/ destino do homem.” / PEDRO MEXIA cobri que as pedras deitam sangue:
não é o fim nem o princípio do paladinos em inferências”), os quando encontrava xisto resvalado
mundo calma é apenas um pouco inventários de sítios, geográficos ou Pedro Mexia escreve de de uma encosta, por baixo cresciam
tarde” (1974), de Manuel António abstractos, as cidades portuguesas e acordo com a antiga ortografia papoilas”). Finda a aventura, Reis
Pina, colectânea que interroga a estrangeiras, o abandono da cidade, Cabral acedeu aos pedidos dos fãs
condição intempestiva através de um como que eterno retorno: e publicou em livro o diário dos 24
citações, fragmentos, pastiches, “descrevo uma topografia incisiva/ dias. O efeito, porém, não é o mes-
ironias. Em Manuel Afonso Costa, o a realidade subordinada/ ao espírito mo. A frescura dos posts esvai-se,
“tardio” parece-se mais com uma da gravura”. sufocada pelos mapas e excesso de
inevitabilidade existencial: mesmo O “espírito de gravura” vê fotografias (em que o autor aparece
que fosse cedo, seria sempre tarde. tudo como ex post facto, coisas sempre com o mesmo sorriso).
Preocupado com o tempo, o sujeito relembradas num velho álbum, Percebe-se a ideia de recuperar
dos poemas começa por resgatar factos que se tornam entidades comentários do Facebook, com
“os árduos adereços da memória”, históricas mesmo que não sejam erros ortográficos e tudo, no fim de
uns quantos episódios difusos assim tão antigos. Glosando o “anjo QQQQ cada capítulo, mas nem sempre re-
de uma infância e adolescência da História” de Walter Benjamin, SERIA SEMPRE TARDE sulta. Uma edição só com os textos
campestre, ou antes, rústica, por sua vez glosa de um desenho de Manuel Afonso Costa curtos, só com palavras, teria muito
despojada, “inefável”. Os adereços Klee, escreve Manuel Afonso Costa: Assírio & Alvim, 2019, 184 págs., €14,40 mais força. E apelaria muito mais à
que desencadeiam a memória “ando para trás/ olhando para a Poesia viagem. / JOSÉ MÁRIO SILVA

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Adam Sandler,

Ci
sublime, em “Uncut
Gems”, de Josh
e Benny Safdie

ne
ma

Em Toronto, uma bomba-relógio


dos irmãos Safdie: “Uncut Gems”
D
O monumental as 333(!) longas-metragens, Abel Ferrara, e na febre doida dos difícil papel desde “Punch-Drunk
em representação de mais de seus melhores trabalhos (também Love”, e são também brilhantes os
festival de cinema 80 países, que o TIFF exibiu Keitel perdia dinheiro ao jogo em secundários: Eric Bogosian, Idina
este ano, metade delas em estreia “The Bad Lieutenant”...), que os Menzel, Judd Hirsch, e uma nova
canadiano deixou mundial, uma pedra preciosa em Safdies se colocam. Em 2h15 de cara, Julia Fox. Sandler é um dos
definidos todos bruto cintilou, solitária, sobre as
demais. Chama-se “Uncut Gems”,
filme, magnificamente fotografado
por Darius Khondji, a bombar na
atores mais populares do planeta,
mas nunca antes o vimos assim,
os intervenientes entra diretamente para a lista dos efusão da banda sonora de Oneohtrix desarranjado, frenético, no fio da
melhores filmes do ano. É uma opala Point Never (aka Daniel Lopatin, navalha, a gerar o caos à sua volta e
nos Óscares negra e, no novo filme de Josh e de regresso aos Safdies após “Good a controlá-lo em simultâneo. É mais
do próximo ano Benny Safdie, vem dos confins de
uma mina da Etiópia. Quanto mais
Time”). Howard fará de tudo para
vender a opala negra. Entretanto,
do que merecida a nomeação para
os Óscares da Academia, por mais
TEXTO FRANCISCO escura é, mais valiosa se torna. À surge um cameo extraordinário de indies que os Safdies sejam (e são-
FERREIRA EM TORONTO espera dela, em Nova Iorque, no fim Kevin Garnett, no alto dos seus 2,11 no). E, contudo, suspeita-se que não
da linha de um capitalismo selvagem, metros. Quem segue a NBA sabe bem é no grande ecrã que esta explosão
está Howard Ratner (Adam Sandler), quem foi este extraordinário pivô dos hipnótica será vista. Também neste
joalheiro judeu, vida impaciente, Timberwolves, e mais tarde um dos caso a Netflix se chegou à frente.
vertiginosa, um delírio impróprio “big three” dos Celtics de Boston, no Passemos a corridas de carros e a
para cardíacos. Howard corre contra ano em que o filme se passa: 2012. um cineasta que, desde o soberbo
o tempo e o tempo falta-lhe sempre. Ora, na ficção, “K.G.” está obcecado “Logan”, está no lote dos americanos
O nosso herói deve dinheiro a torto pela opala que Howard mandou vir que contam: James Mangold. “Ford
e a direito, incluindo a mafiosos que à candonga da Etiópia e toma-a por v Ferrari” é um filme de birras. Em
não estão para brincadeiras, julga amuleto. E está disposto a pagar bem 1966, picado no orgulho por Enzo
que se pode safar com as apostas por ela — mas Howard, que joga Ferrari, Henry Ford II, descendente
desportivas: viciado no jogo, torra rios de dinheiro nos Celtics como do fundador da marca de Detroit,
fortunas a sério e ‘à americana’, em quem joga a vida, quer mais. E não decide que vai arrancar a escuderia
bookies que se escondem atrás de tarda a ter uma pistola apontada à italiana do trono das 24 Horas de Le
44º FESTIVAL DE TORONTO cozinhas de restaurantes. Pensamos cabeça. “Uncut Gems” é a apoteose Mans e inventa o Ford GT40, com
Decorreu entre 5 e 15 de setembro logo no Cosmo Vittelli do filme de da carreira de três décadas de Adam a ajuda do construtor e ex-piloto
www.tiff.net Cassavetes, contudo é na linha de Sandler, no seu mais exigente e Carroll Shelby (Matt Damon) e do

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ás do volante Ken Miles (Christian instruía petizes como um ‘podengo
Bale) — e não é que a Ferrari tomba do bem’, Fred Rogers (1928-2003) de
mesmo? O resto é história, mas o que seu nome. O jornalista que dele quer
conta para Mangold é o improvável fazer um retrato (Matthew Rhys) abre
buddy movie que sai do cruzamento de a boca de espanto. É que a lamechice
Damon e Bale, dois grandes atores em sentimental atinge tão inacreditáveis
papéis impecáveis — mas não o que níveis que fica a bater à porta da
baste para bater Sandler em “Uncut sátira e do cinismo. É o papel mais
Gems”, tão-pouco Joaquin Phoenix ‘alienígena’ de Tom Hanks, coisa que
em “Joker”, que venceu Veneza. só vista, contada não se acredita.
“Ford v Ferrari” é um trabalho tout “Dolemite Is My Name”, biopic de
en finesse, com o pensamento nos um ‘faz tudo’ da Blaxploitation
clássicos. realizado por Craig Brewer, tem o
Em ano de boas interpretações condão de colocar o sempre em pé
masculinas, conte-se com um que é Eddie Murphy de novo na mó
diabólico Hugh Jackman em “Bad de cima (também graças à Netflix). Já
Education”, a dar corpo, garra e “Knives Out”, novo de Rian Johnson
contorcida máscara a um escândalo (sucede a “Looper”), é um whodunnit
de desvio de fundos que não lembra calibrado como um relógio suíço,
ao Diabo numa escola americana. embora, na aparência, surja como um
Foi inspirado num caso verídico, conto de Agatha Christie excêntrico
assina Cory Finley. Conte-se com e destravado pelo seu elenco: Daniel
Tom Hanks, em via aberta para Craig, Toni Collette, Jamie Lee Curtis,
os Óscares, no mais bizarro filme Ana de Armas, Chris Evans... Por fim,
mainstream do TIFF deste ano, “A dois underdogs que talvez entrem de
Beautiful Day in the Neighborhood”, rompante pelas portas da Academia
de Marielle Heller, inspirado num nos próximos Óscares, deixando a
pedagogo da TV americana que concorrência para trás. “Jojo Rabbit”,
do neozelandês Taika Waititi, é
sátira disfarçada de feel good movie,
história de um miúdo da Alemanha
nazi, amigo de um Hitler imaginário
e bufão, e que descobre que a mãe
esconde uma rapariga judia em
casa. A ‘salada pop’ com matéria
inflamável traz mensagem que a
América quer ouvir: “não se odeiem”.
Saiu de Toronto com o Prémio do
Público, ou seja: esperem por ele
em Hollywood. Já “Waves”, de Trey
Edward Shults, é o “Moonlight” de
2019, e isto tem menos que ver com
o seu elenco afro-americano do que
com o tom gerado por Shults, em
sintonia absoluta com a obra de Barry
Jenkins. Estamos na Florida, em seio
familiar confortável, pai, mãe, dois
irmãos, rapaz e rapariga mais nova.
O pai, ex-atleta, puxa demasiado
pelo filho adolescente na sua carreira
escolar no wrestling e vai conduzi-lo
indiretamente a uma desgraça de faca
e alguidar, sublinhada pela banda
sonora de Trent Reznor/Atticus
Ross — e a família desintegra-se,
são sonhos desfeitos. Os atores são
francamente muito bons, e aqui vem
outro, oscarizável, Sterling K. Brown;
também a jovem Taylor Russell, que
às tantas pega no filme sozinha,
como se fosse preciso fazer qualquer
coisa renascer dos escombros.
De cima para baixo: Matt Damon “Waves” é um melodrama afogado
e Christian Bale em “Ford v Ferrari”, de nostalgia, por vezes até ao limite
de James Mangold; Tom Hanks em do que é suportável. Divide plateias,
“A Beautiful Day in the Neighborhood”, corre esse risco. E se é um filme de
de Marielle Heller, e a família esperança, esta só é encontrada após
de “Waves”, de Trey Edward Shults um longo e duríssimo caminho. b

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Q QQQ
O CULTO DE MANSON DOR E GLÓRIA
De Mary Harron De Pedro Almodóvar
Com Hannah Murray, Matt Smith, Sosie Com Antonio Banderas, Asier Etxeandia,
Bacon (EUA) Leonardo Sbaraglia
Drama M/16 (Espanha)
Drama M/16

ESTREIA É cruel que a quinta longa de É pelo campo da autobiografia (que Brad Pitt em “Ad Astra”, de James Gray
Harron chegue às nossas salas pou- Almodóvar percorrera já no belo “A
cas semanas após a estreia do novo
Tarantino. Com o último, “O Culto de
Manson” partilha o seu espaço-tempo
Má Educação”) que se aventura “Dor
e Glória”. Nele, Almodóvar projeta-se
— por via de Banderas, o seu alter-
Perdido no espaço
H
(a Los Angeles do fim dos anos 60), -ego — como um cineasta envelhecido, á muito que defendemos será enviado sozinho numa missão
centrando-se em figuras que nele em crise e tolhido por maleitas físicas e a obra de Gray, elogiando secreta a Neptuno.
compareciam como figurantes: três psíquicas que, entre as visitas ao médico, o seu raro talento para Eis a base de uma história que
das jovens hippies que, sob o jugo de aproveita para revisitar nostalgicamen- desenhar personagens e relações sobressai pela estrutura episódica,
Charles Manson, cometeram em 1969 te o passado: a sua infância precária, o que — embora singulares — dividindo-se em paragens
uma série de brutais homicídios. Para início da sua carreira… Com estas linhas veiculam sempre um conjunto de interplanetárias que servem apenas
estudar as personagens, o filme retra- se cose um filme que sobressai pela dramas intemporais (familiares, para a construção de set pieces
çará o seu trajeto, apoiando-se para honestidade com que encena o seu sobretudo). Foi pois com (uma perseguição na Lua) e cuja
isso numa montagem que vai e vem património biográfico (as cenas entre expectativa que se entrou nesta espetacularidade não esconde o seu
entre o presente (a prisão) e o passado. o protagonista e a mãe soam sempre a sétima longa (“Ad Astra”), primeira carácter derivativo. Entre elas, o que
Além do carácter ilustrativo da narrati- coisa genuína) e, ainda, pelo modo como incursão de Gray pela sci-fi, e fica? O retrato de uma personagem
va, o que aqui nos desconsola é o modo permite a Almodóvar reencontrar o seu que tem sido promovida como perdida no espaço e que vai
como Harron enxerta nela um corpo apurado sentido de humor: são muito um cruzamento entre “O Coração passando em revista traumas
que replica o seu ponto de vista sobre divertidos os encontros entre aquele das Trevas”, de Conrad, e o genéricos (medo do compromisso
as raparigas: o da assistente social que, cineasta en panne e aquele ator hero- “2001”, de Kubrick. São termos de emocional), apoiando-se numa
na prisão, vai tentando perceber o que inómano. Mas aqui como em “Julieta”, comparação que desfavorecem um voz off pródiga em banalidades.
levou aquelas crianças ingénuas de Almodóvar está sobretudo preocupado filme que se destaca apenas pelo Ela é a única bengala que Gray
Manson. Trata-se de um olhar piedoso com a construção por camadas da nar- seu gigantismo, e pela vacuidade parece ter encontrado para
e humanista que converte o filme num rativa, sentindo amiúde a necessidade do exercício mimético que propõe, amparar a solidão de uma figura
exercício de interpretação psicológica de chamar a atenção para as costuras isto é: pelo modo desinspirado que, por inépcia do guião, só se
isento de mistério, que se mostra sem- da história. Isto é: para a forma inte- como tenta emular arquétipos relaciona com fantasmas, leia-se:
pre demasiado analítico, limpinho e ób- ligente como mistura a vida e a arte, dramáticos que, aqui, só existem com personagens secundárias
vio (os vermelhos que, à noite, tingem a com a biografia a alimentar a ficção, e justamente como modelos. Mas desencarnadas que entram em cena
cabana de Manson...) para se aproximar com esta a travesti-la por sistema — ao comecemos pelo começo: pelos para articular um par de diálogos
sequer da loucura da ‘família’ — que ponto de ambas se confundirem num intertítulos que nos instalam num expositivos, saindo dela sem deixar
procura aliás normalizar na desastrosa todo orgânico, ao qual todavia falta futuro próximo, onde seguiremos rasto. Nesse deserto, os corpos
sequência final. / V.B.M. pathos. É esse o seu limite. / V.B.M. a odisseia de Roy McBride, um limitam-se a mimar os gestos que
impassível astronauta americano lhes são impostos por uma tragédia-
(Pitt) que, na sequência inicial, modelo que existe sempre como
ESTRELAS DA SEMANA cai em queda livre de uma antena coisa escrita e nunca como coisa
Jorge Vasco situada na mesosfera, após uma vivida. Daí que nada se sinta perante
Francisco
Ferreira
Leitão Baptista misteriosa descarga elétrica. aquele desfile de daddy issues de
Ramos Marques
Nesta sequência eficazmente manual, cujo tom escolar fica bem
Ad Astra QQQQ QQ coreografada, a primeira coisa patente na cena em que Roy se
Amazing Grace QQQ QQQ notável é o aumento da escala do confronta com um pai que não tem
Assalto ao Poder
olhar de Gray, o seu óbvio desejo singularidade suficiente para ser
Q
de trabalhar ‘em ponto grande’, uma verdadeira personagem. Que o
O Culto de Manson Q demonstrando a sua capacidade cinema de Gray regresse depressa a
Dor e Glória QQQQ QQQQ QQQ de ‘dar espetáculo’. Pena é que, terra firme, eis o que desejamos.
Downton Abbey QQQ
ao fazê-lo, o seu cinema ganhe / VASCO BAPTISTA MARQUES
em magnitude o que perde em
Era Uma Vez... em Hollywood QQQQ QQQQ QQQQ
intimidade. A narrativa que
A Herdade QQQ Gray desenrola para exibir a sua
It: Capítulo 2 Q Q ‘competência’ espanta-nos pela
sua indistinção. Sinopse: Roy
Santiago, Itália QQQQ QQ
é informado de que a referida QQ
Segredos Oficiais QQ QQQ descarga teve origem em Neptuno, AD ASTRA
Terramoto Q onde — 30 anos antes — se De James Gray e Dan Bradley
O Último Amor de Casanova
perdeu o rasto de uma expedição Com Brad Pitt, Tommy Lee Jones,
QQ QQ QQ
comandada pelo seu pai, que mal Donald Sutherland
Variações QQQ QQ chegou a conhecer. Para apurar (Brasil/EUA/China)
DE b MÍNIMO A QQQQQ MÁXIMO EXPRESSO o que provocou a descarga, Roy Drama/Ficção Científica M/12

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Vinhetas vai ter problemas. O principal é que não vai ser
possível definir cada um dos muitos personagens

e bom gosto
(e também não seria sensato presumir que o
espectador os conhece de outro lugar porque seria
reduzir o público-alvo aos fiéis da série, alienando
todos os outros). É por isso que este filme não tem

U
m dia, o rei Jorge V faz saber aos Crawley, gente lá dentro, tem vinhetas, e é também por isso
de Downton Abbey, que tenciona ali que os personagens que melhor tiram as castanhas
ficar por apenas uma noite, em tempo de do fogo são os mais caricaturais (a Violet, de
vilegiatura estival. A agitação que a presença real Maggie Smith — deliciosa — e a sua contraparte, a
causa no lugar e nas suas gentes, da excitação dos Isobel, de Penelope Wilton). Conceda-se, todavia,
serviçais às preocupações da senhora do solar ser quase milagre que, apesar desse problema de
quanto ao rigor dos preparativos muda a vida indefinição — e do rarefeito conflito central —
durante uns dias de azáfama. Entre a criadagem, “Downton Abbey” se deixe admirar com mediano
todavia, a inquietação agudiza-se quando Elizabeth McGovern, Michelle Dockery agrado, já que os britânicos intérpretes são tão de
descobrem que o rei vai trazer consigo mordomo, e Laura Carmichael em “Downton Abbey” primeira água que ficamos a vê-los fazer de conta
cozinheiro, governanta — e até criados de libré. e só isso já é alimento que baste. Não é caviar com
Uma desconsideração que não vão aceitar do pé apressar a resolução, o gesto de pôr o mundo outra champanhe, é só ovas de salmão com espumante
para a mão. A isto se resume a trama central de vez em equilíbrio. Atenção, não estou a dizer que da Bairrada, mas não vale desdenhar nem no
“Downton Abbey”, filme herdeiro de uma série as ficções de larga duração têm vantagens sobre as produto nem no bom gosto. / JORGE LEITÃO RAMOS
de sucesso. Sempre que algo pensado, maturado e que duram entre hora e meia e três horas (o tempo
conseguido como série de televisão se deixa atrair regular de uma longa-metragem). Basta pensar
pelo cinema, o risco de desilusão é premente. nas telenovelas — esses produtos audiovisuais onde
Porquê? Porque o tempo de uma série e o tempo toda a arte se articula para inventar o ritmo de ‘faz
de um filme nada têm que ver um com o outro. A que anda, mas não anda’ vulgarmente conhecido
série tem vagares e dimensão para, por exemplo, por ‘encher chouriços’ — para se perceber que QQQ
desenvolver várias linhas de ficção abrangendo dispor de muitas horas não é mérito. O que estou DOWNTON ABBEY
uma multiplicidade de personagens a que se a dizer é que, quando uma narrativa foi pensada De Michael Engler
consegue dar carne, ossatura e psicologia. A série para oito horas (era o que, sensivelmente, durava Com Maggie Smith, Penelope Wilton,
pode ir criando o(s) conflito(s), gerar cambiantes, cada temporada da série “Downton Abbey”), um Hugh Bonneville (Reino Unido)
fazer uma gestão demorada da trama sem ter de filme de duas horas no mesmo universo ficcional Comédia dramática M/12

40 anos de
vida literária

colóquio
28 set
10:00–19:00

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É
uma das mais recentes apostas da África Central e da sua chegada do Ébola em macacos trazidos
da National Geographic e a solo norte-americano, em 1989. das Filipinas e evitou um possível
segue o caminho traçado em Só que não bastaria explorar a contágio, a cerca de 30 quilómetros
séries de sucesso como “Marte”, realidade para construir uma da Casa Branca. E a Nancy Jaax
que inaugurou uma nova fase do história como esta. Era necessário ir real ajudou a atriz a recriá-la na
canal, em que a ficção entrou num mais além, criando uma vida para ficção. Mas foi preciso criar algumas
lugar que durante décadas apenas as personagens que dariam corpo à personagens extra de raiz, para
contou com trabalhos documentais. narrativa. mostrar como tudo começou. Ainda
Em “The Hot Zone”, o ponto de No caso de Nancy Jaax (Julianna no continente africano e longe
partida é o best-seller homónimo Margulies, conhecida pelos papéis de se pensar que uma epidemia
de Richard Preston — editado em de Alicia Florrick em “The Good do vírus seria possível. Foi o caso
Portugal pela Lua de Papel, com o Wife” ou de Carol Hathaway em de Wade Carter (interpretado
título “Zona Crítica” — e no qual é “ER — Serviço de Urgência”) foi por Liam Cunningham, o Ser
contada a história real da origem fácil, porque foi exatamente esta Davos de “A Guerra dos Tronos”),
do vírus Ébola nas selvas tropicais a mulher que detetou a presença um especialista em Ébola cujas

Cuidado com o vírus


A National Geographic
Liam Cunningham (o Ser Davos de “A
voltou a apostar na ficção Guerra dos Tronos”) interpreta Wade
e o resultado é “The Hot Carter, um especialista em Ébola cujas
decisões controversas o afastaram da
Zone”, uma série sobre investigação e que será agora chamado
para ajudar a tenente-coronel Nancy Jaax
o Ébola que tem como
ponto de partida o
best-seller homónimo de
Richard Preston. Estreia-se
amanhã em episódio duplo
TEXTO JOÃO MIGUEL SALVADOR

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decisões controversas o afastaram
da investigação e que será agora
“The Hot Zone” apesar da paz na África do Sul, houve
outros desafios a ultrapassar. De
Reston Monkey Facility, onde o vírus
se originou), assim como Robert
chamado para ajudar a tenente- ganhou forma em acordo com Liam Cunningham, havia Wisdom e Robert Sean Leonard.
coronel Jaax. A par com essa
urgência de conter o vírus, “The
Durban. Foi a norte “um especialista que andava à frente
a afastar as cobras”, evitando que os
Criada por James V. Hart, Brian
Peterson e Kelly Souders, “The
Hot Zone” conta também com da cidade sul- atores as pisassem enquanto estavam Hot Zone” foi uma coprodução da
flashbacks para 1976 — altura em que a rodar. “E isso adicionou tensão ao Lynda Hobst Productions, Scott Free
Carter viajou pelo Zaire à procura de africana que trabalho e foi um pouco assustador”, Productions, Jeff Vintar e da FOX
informações sobre a infeção mortal
que afetou aldeias na íntegra.
decorreu a rodagem expressou, fazendo ainda assim um
balanço positivo. “Valeu a pena.”
21 Television Studios — que contou
com Ridley Scott como produtor
O interesse da National Geographic da série, numa executivo — e terá estreia marcada
por esta história originalmente
contada em 1994, ano em que o livro
tentativa de recriar UM FORTE ELENCO
A Julianna Margulies e Liam
para amanhã na grelha da National
Geographic. O pontapé de saída,
chegou às livrarias, vem do lado no local a floresta Cunningham juntam-se outros em episódio duplo é dado com os
científico, da possibilidade de dar a nomes fortes no elenco, no qual capítulos ‘Chegada’ e ‘Célula H’,
conhecer a realidade sobre a doença, tropical do Congo se incluem Noah Emmerich (no pelas 22h30. Não há planos para a
mas o canal sabe que o alcance não papel de Jerry Jaax, o marido de criação de uma segunda temporada
seria tão grande se estivesse em À boa maneira da National Nancy que não hesitará em arriscar da série. b
causa um documentário. Assim Geographic, conhecida por mostrar a vida durante a operação para jmsalvador@expresso.impresa.pt
sendo, é o lado do drama a puxar em formato documental algumas conter o vírus), Topher Grace como
pela história, tornando-a apelativa das paisagens mais deslumbrantes Dr. Peter Jahrling (virologista que
para as massas. “Fizemos esta do planeta, “The Hot Zone” ganhou entrará em conflito com Jaax sobre
história interessante para manter a forma em território africano, levando a melhor forma de combater o
atenção das pessoas, mas ao mesmo o elenco internacional a deslocar-se vírus) e James D’Arcy como Trevor THE HOT ZONE
tempo mostrar-lhe que esta doença para Durban. Foi a norte da cidade Rhodes, responsável pelo Centro
De James V. Hart, Brian Peterson
está a uma viagem da porta de casa sul-africana que decorreu a rodagem de Controlo de Doenças. Do grupo e Kelly Souders
de qualquer pessoas”, explicou o da série, numa tentativa de recriar fazem ainda parte Paul James como Com Julianna Margulies, Liam Cunningham,
ator em declarações aos jornalistas. no local a floresta tropical do Congo Ben Gellis (um técnico que trabalha Noah Emmerich, Topher Grace
E fizeram-na com um pormenor — onde seria mais difícil reunir as no laboratório de patologia em National Geographic, estreia amanhã,
que faz a diferença: esta não é uma condições de segurança necessárias Reston) e Nick Searcy (que dará 22h30
produção de estúdio. para as filmagens. Ainda assim, e corpo ao responsável pela colónia (Temporada 1)

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Nascido em 1970, o pianista
faria 50 anos em 2020. Morreu
há sete anos e deixou um
espólio inédito do qual poderão
surgir mais nove discos

JOÃO CARLOS SANTOS


Descobrir Bernardo Sassetti
E
Entre o amplo m 2005, Bernardo Sassetti Bernardo Sassetti, criada em 2012, Bruno Pernadas vai tocar música de
decidiu tirar uns dias para meses após a morte do compositor, e Sassetti no CCB, adaptada para um
acervo de gravações voar até Ponta Delgada. Não ia responsável pela edição do álbum. ensemble sem piano.
inéditas, este é o à procura de férias, mas de descobrir
o piano do Teatro Micaelense, de
Os temas pertencem-lhe, à exceção
de ‘After the Rain’, de John Coltrane.
“Gosto de iniciar o processo de
composição usando progressões
primeiro passo. Sete que muitos pianistas portugueses ‘Tristeza a Dois‘, escrito com harmónicas no seu estado mais
falavam com admiração. Passou Wenceslau Pinto, e ‘Simplesmente simples”, disse Sassetti, citado
temas gravados nos três dias a tocá-lo, a testá-lo, Maria’ pertencem à suíte “Maria no booklet do disco. “A partir
Açores, com a marca a improvisar, a explorar nele a
música em que, na altura, estava
do Mar”, que Sassetti compôs em
1998 para o filme homónimo de
do momento em que o mote
principal está definido, começo
do deslumbramento a trabalhar. Estas sessões, que Leitão de Barros, por encomenda então por introduzir notas fora
condensam a íntima relação de da Cinemateca Portuguesa. Alvo de da escala ou acordes compostos,
por um piano um pianista com um piano, foram várias revisões ao longo de quase assim como linhas de constante
gravadas e ficaram em silêncio até uma década, o pianista registou a tensão e resolução de maneira a
TEXTO LUCIANA LEIDERFARB
hoje, em que uma seleção destes versão final da suíte em 2010, com poder dar a ideia de dinâmica e
inéditos veio à luz num disco a Orquestra Sinfonietta de Lisboa movimento”, sublinhou ainda. Esse
intitulado “Solo”. — trabalho que será lançado em movimento pendular e oceânico está
Pela complexidade da sua construção 2020, quando Bernardo Sassetti presente em cada uma das peças,
cada piano é um instrumento único completaria 50 anos. Aniversário independentemente do seu carácter.
no mundo. Tal como a sua ligação para o qual está confirmada a edição Está lá em peças tão distintas como
com quem o toca. As sete peças do quarto volume de partituras do ‘Realejo’ ou ‘O Princípio’, primeira
aqui contidas são o resultado da compositor — o que tem vindo a e quarta faixas do álbum, como
mistura desse encontro com a forte ser feito desde 2017 pela editora impressão digital de um autor que
individualidade de um intérprete mpmp (movimento patrimonial pela escolheu o jazz após realizar estudos
e compositor que foi, ele próprio, música portuguesa) — no Centro clássicos, e cujo olhar pessoalíssimo
um vórtice de múltiplas referências. para o Estudo das Artes de Belgais. sobre a música se sobrepõe a
“O disco era uma experiência, um Nessa ocasião, agendada para junho qualquer rótulo. Ouvir “Solo” não é
impulso. Não havia um projeto de 2020, vários pianistas convidados ouvir um disco de jazz. É perceber
concreto em mente. O Bernardo foi prestarão tributo, entre os quais que sobre um motivo simples pode
QQQQQ lá perceber o que era aquele piano de Filipe Melo, Daniel Bernardes e João ser construído um edifício musical
SOLO que todos falavam, o que podia fazer Pedro Coelho, responsáveis pela complexo; que uma linha melódica
Bernardo Sassetti com ele”, explica ao Expresso Inês transcrição das partituras. Às 21h primordial pode densificar-se e
Casa Bernardo Sassetti/Universal Laginha, diretora artística da Casa do dia 28 deste mês, o guitarrista amadurecer até se tornar outra. Que

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um tema é também as suas variações,
as mudanças ínfimas ou radicais
A DESARMONIA
dele nascidas ou a ele somadas, DAS ESFERAS
como um visitante que vem de fora
e rapidamente dá a impressão de ter
sempre lá estado. Não é um disco de UM LONGO CAMINHO
jazz: é um disco de Bernardo Sassetti.
No espólio auditivo do pianista,
que se encontra atualmente a ser Dungeness é um promontório
inventariado e tratado pela Casa na costa de Kent, no sudeste
Bernardo Sassetti, por forma a ficar de Inglaterra, uma reserva
acessível, existem nove possíveis natural de Especial Interesse
discos inéditos. Editá-los é mesmo o Científico devido à sua particular
plano, torná-los património comum. geomorfologia bem como às
Entre o que ainda há para conhecer, ricas fauna e flora locais. É
está a gravação integral do concerto também o local onde, desde
de seis horas que o pianista / JOÃO 1983, se ergue uma central
realizou sob a pala do Pavilhão LISBOA nuclear que, apesar de,
do Conhecimento, em 2007, com diversas vezes, ter apresentado
música original que, naquele dia, problemas graves, só tem o
foi sendo ouvida aos fragmentos encerramento previsto para 2028. Foi, justamente, aí que
pelo público de passagem. E está Derek Jarman — cineasta, encenador, pintor, escritor,
igualmente um álbum contendo poeta e ativista pelos direitos gay —, imediatamente
temas do espetáculo “Menina do após ter sido diagnosticado HIV-positivo em 1986,
Mar”, feito a partir do conto de comprou uma velha casa de pescadores em torno da
Sophia de Mello Breyner Andresen, qual foi plantando um jardim, “cujas fronteiras eram o
e com narração da atriz Beatriz horizonte”. No diário que, entre 1989 e 1990, escreveria
Batarda, viúva do compositor. “Na sob a assombração da central (“Vê-se um pôr-do-sol
verdade, este disco era um plano ameaçador por trás da central nuclear: amarelos lívidos
para 2019, ano do centenário do e negros de tinta com um profundo golpe escarlate. À
nascimento de Sophia, mas somos medida que as sombras se adensam, a paisagem torna-
uma entidade apoiada pela DGArtes se cinzenta; o céu sorveu todas as cores”), registaria
e houve atrasos no pagamento. Por todas as espécies botânicas cultivadas e as experiências
isso, ficará para o ano seguinte”, de jardinagem no solo infértil de cascalho enquanto
refere Inês. capítulos vitoriosos de uma guerra irremediavelmente
O disco é de formato austero, verde perdida (“Não desejo morrer... ainda. Gostaria de ver o
azulado, minimal na linguagem. meu jardim ainda mais alguns verões”). O último verão
Uma breve explicação do modo foi o de 1993 e o título do diário, “Modern Nature”.
como foi gravado, uma frase do Foi depois de uma visita ao jardim de Jarman que
autor, agradecimentos, ficha técnica. Jack Cooper sentiu não apenas o desejo de explorar
Talvez por esta escassez propositada um lugar de ambiguidade entre bucolismo pastoral
salte à vista uma inscrição, a um e tensão urbana como achou o nome da banda que
canto, segundo a qual “este álbum sucederia aos extintos Ultimate Painting: ele, Will Young
não é para ser ouvido no carro”. (Beak>), o saxofonista Jeff Tobias (Sunwatchers), e o
“Trata-se de uma piada, referente violoncelista Rupert Gillett chamar-se-iam Modern
ao facto de o Bernardo achar que Nature. Escutando “How To Live”, apetece dizer que foi
não se devia ouvir música no carro. necessário percorrer um longo caminho até chegarmos a
É uma referência ao humor dele, tão magnífico destino: Cooper revela, voluntariamente,
que era muito especial”, nota Inês alguns dos locais de paragem — Richard Thompson,
Laginha. Em 2011, na entrevista Kraftwerk, Robert Wyatt, Brian Eno, Morton Feldman,
que deu ao Expresso junto aos Talk Talk, Shirley Collins, Pentangle, Simon Fisher
também pianistas Mário Laginha Turner, Jonny Greenwood, Krzysztof Komeda — mas, à
e Pedro Burmester, tivemos um extensa lista, poderia ainda acrescentar-se (não tanto
relance dessa faísca irónica que lhe pela música em si, mas pelas atmosferas que evoca),
inundava a conversa. Falávamos It’s Immaterial, Blue Nile ou Young Marble Giants.
sobre o piano, e Sassetti contou Num vídeo dividido entre paisagem rural e marítima
como, aos 15 anos, foi viver com os e fragmentos de morris dancing, leia-se um discreto
pais para França, onde alugaram manifesto de serena perplexidade: “Modern nature great
uma casa com um piano melhor failure, tired and broken old creator, grand space race,
do que aquele que ele tinha em find a new place, high above the barren fixed state (…)
Lisboa. E como aquele instrumento hide my eyes, my ears, away to nature.” b
— tal como o do Teatro Micaelense
décadas depois, e tantos outros —
o impeliu a seguir essa via. “Foi
determinante. Fomos massacrados
pelos vizinhos, mas eu também os HOW TO LIVE
massacrei muito.” b Modern Nature
lleiderfarb@expresso.impresa.pt Bella Union/PIAS

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No bicentenário de Clara
N
ão finda o ano sem uma oito filhos que deu à luz durante
curta série de espetáculos os 13 anos de casamento: uma
de homenagem à obra de carreira concertística que a levou
Clara Wieck, nascida em Leipzig a incessantes digressões. Robert
há 200 anos, em 13 de setembro de conheceu-a quando ela tinha oito
1819. Ao fim da tarde de hoje (18h), anos, durante uma soirée musical em
Carmen Romeu, decorre em Cascais, no Museu da casa de Ernst Carus e, deslumbrado,
Pablo Heras-Casado Música Portuguesa, o primeiro dos escreveu sobre aquela criança loira e
e Marina Heredia recitais que celebra a música de de olhos azuis, a visão de um “anjo”
(sentada) junto ao câmara de Clara e também a de que o levou a dedicar-se à música.
piano de Manuel de Brahms, anunciando-se a atuação Dois recitais diferentes construídos

PEPE MARÍN
Falla, na sua Casa- de Gergana Bencheva, Viktoria em torno do casal ‘fusional’ (Robert
-Museu, em Granada Chichkova e Marta Menezes num considerou Clara como o seu duplo,
programa que será novamente segundo a tradição tipicamente
interpretado em Oeiras, no próximo romântica do Doppelgänger do

Ida e volta dia 28, no Palácio Marquês de


Pombal. No Porto, na Casa da
Música, o Trio À La Joie estará em
poema de Heine musicado por
Schubert) foram apresentados
no auditório esgotado da igreja

C
omo pancadas à boca de cena, identificar numa pontiaguda palco em 26 de novembro para católica-cristã de St. Germain,
“El sombrero de tres picos” partitura de “mil e uma arestas” interpretar peças da compositora em Genebra, com o pianista Eric
abre com o eco de um tacão (passe o trocadilho) que “surpreende que viveu entre a balança oscilante Schneider (discípulo de Brendel
e um rufar de castanholas. Não é pela sua forma poliédrica, afeta da felicidade e da infelicidade, e de Badura-Skoda), o barítono
preciso muito mais para situar a ao cubismo e muito distante de sacrificando parte da sua carreira Benoît Capt e a mezzo-soprano
ação. E o que se lhe segue — está, em qualquer ideia preconcebida de às urgências artísticas e aos graves Kimberley Boettger-Soller, duas
palco, o moleiro a ensinar as horas a carácter costumbrista”. Escusado problemas de saúde de Robert vozes poderosas e uma declamação
um melro — havia sido descrito por será dizer, é raro encontrar uma Schumann. enérgica e inteligente para
Federico García Lorca meses antes, interpretação, assim tão europeísta Aos 12 anos, Clara compôs a sua interpretar Lieder de Clara e os
no seu primeiro livro (“Impresiones e agnóstica de “El sombrero…”, primeira obra, quatro Polonaises. ciclos “Dichterliebe” e “Myrthen”
y paisajes”, 1918): “As sombras tão disposta a resistir à abismal Em 1840, casou-se com Robert de Robert. Noturnos, “Novelletten”
vão-se erguendo e esfumando (…) sensualidade que invade os seus e, ao longo de uma brilhante e variadas peças para piano dos
e escuta-se pelo ar o chirriar de acordes ou à vertigem que despertam carreira pianística aclamada dois compositores surgiram como
ocarinas e flautas de cana.” Lorca as suas sincopes. Talvez por isso, pela crítica e pelos seus pares, uma emocionante celebração das
pretendia descrever Granada — tal em contrapartida, surja, aqui, um cruzou-se com Liszt, Chopin, obsessões de Robert e da obra de
como Falla, aliás, que emendou o “El amor brujo” praticamente em Brahms, Mendelssohn e Berlioz. Madame Schumann, uma das
final da sua obra após uma visita à transe, empestado de maldições, Assinou mais de 40 obras e raras europeias do século XIX que
cidade —, e a vaguear pelo bairro com a cantora de flamenco Marina teve mais sorte do que a sua conseguiu viver da sua arte.
de Albaicín, no ponto onde todas Heredia a trazer à memória o que contemporânea Fanny Hensel, / ANA ROCHA EM GENEBRA
as ruas e caminhos se cruzam, o disse um dia Lorca sobre La Niña de que não pôde assinar centenas
poeta deu numa noite escura com los Peines — que já não era bem uma de peças, vivendo à sombra do
um fantástico cunhal assombrado voz mas, sim, “um jorro de sangue irmão, Félix Mendelssohn. Entre
por medos, pelo latido dos cães e que ganhava dignidade através da a carreira de pianista consagrada
por guitarras dolentes, “o Albaicín dor e sinceridade”. Na época, Falla e as obrigações domésticas, Clara
trágico da superstição, das bruxas e Lorca iam em excursões pela viveu com o espírito exaltado por QQQQ
necromantes que deitam as cartas, serrania andaluza, estranhando-se uma incessante luta aquecida por CONCERTS D’ÉTÉ
dos esquisitos rituais ciganos, dos de si até, por fim, se encontrarem. promessas e ameaças, acabando À ST. GERMAIN
amuletos”. Calma, que não adianta ir Nestas viagens de ida e volta, Heras- por se abandonar àquela entre as Schneider, Capt, Boettger-Soller
à procura no Airbnb — essa Granada Casado lembra que, por vezes, é forças cuja ação era mais tenaz e Igreja de St. Germain, Genebra,
do mau-olhado e das almas penadas preciso ir até um bocadinho mais garantia o sustento da família de 25 e 26 de agosto
já não existe. Sabe-o bem Pablo longe de casa. / JOÃO SANTOS
Heras-Casado, que aí nasceu, e que,
este verão, assinalando o centenário
da estreia de “El sombrero…”,
aproveitou as propriedades únicas
do complexo palaciano da Alambra
para apresentar este programa. Na
altura, num depoimento divulgado à
comunicação social, explicava que se
tinha deixado motivar pela vontade
de se aproximar “da essência, da QQQQ
ideia original, do verdadeiro texto de
DAVID FRATERNALI

FALLA: EL SOMBRERO DE TRES


Falla”, que quis desviar de uma leitura PICOS; EL AMOR BRUJO
folclórica. Falava do Falla cosmopolita Carmen Romeu (mez), Marina Heredia (v),
que viveu em Paris, “próximo de Mahler Chamber Orchestra,
Ravel, de Debussy ou, como é óbvio, Pablo Heras-Casado (d)
de Stravinsky”, que conseguiu Harmonia Mundi Erich Schneider, Kimberley Boettger-Soller e Benoît Capt na igreja de St. Germain

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piano”, de J. S. Bach, a “Fantasiestücke Maria Passarinho e Tiago Correia. Já
op. 73”, de Schumann e variadas peças o palco principal (Palco Santa Casa,
com reputados artistas de música de montado no Terminal de Cruzeiros de
CLAUDIA BOECKELMANN

câmara, como o violoncelista Pavel Lisboa) terá como protagonistas Ana

ADRIANO FAGUNDES
Gomziakov, a violetista Diemut Poppen Moura, Marco Rodrigues (com Marisa
e os pianistas Matan Porat e Raúl da Liz e Tiago Pais Dias dos Amor Electro)
Costa. O festival continua a intensificar e Sara Correia, sexta-feira a partir das
as atividades com impacto social, num 21h e até quase à uma da manhã. Dia 28
trabalho combinado com a Casa Pia sobe ao palco Ricardo Ribeiro e Katia
de Lisboa que implica um programa Guerreiro, e será apresentado ao públi-
FESTIVAL CANTABILE pedagógico com a participação dos FESTIVAL SANTA co um tributo a Amália Rodrigues com
CCB, TNSC, Convento dos Cardaes estudantes. Assim, segunda, o espetá-
CASA ALFAMA Tânia Oleiro, Diamantina e Gonçalo
e Casa Pia, Lisboa, de hoje até sexta-feira Alfama, Lisboa, dias 27 e 28
culo é dirigido aos alunos da Casa Pia Salgueiro. Em local surpresa e a anunci-
www.cantabilefest.pt santacasaalfama.com
(às 11h), sensibilizando o público jovem ar só no próprio dia 28, tal como a hora
à exploração do repertório da música do espetáculo, vai atuar Gisela João.
Numa iniciativa do Goethe-Institut de câmara. Na terça e quarta, a entrada O fado volta a dar que falar em Alfama Ainda em destaque, está o concerto
e sob a direção artística de Diemut gratuita para os espetáculos no foyer já no próximo fim de semana. As noites de Lenita Gentil e o de Pedro Mouti-
Poppen (na foto), arranca hoje o Can- do Teatro Nacional São Carlos, oferece de sexta-feira e sábado, 28, vão revelar nho, na sexta-feira, às 23h e 22h, res-
tabile, no Centro Cultural de Belém. um programa onde se encontram obras a 7ª edição do Festival Santa Casa Al- petivamente, nas Escadinhas de São
Trata-se de um festival de música de de Mozart, Schumann, Beethoven, fama e juntar nos vários palcos alguns Miguel, e os de Miguel Ramos (20h)
câmara que entra agora na sua 10ª Schubert, Brahms e António Pinho Var- do mais jovens fadistas nacionais. Este e Ana Sofia Varela (23h), na Igreja de
edição, oferendo cinco espetáculos em gas interpretadas pelas violinistas Ma- ano a equipa que organiza o festival São Miguel, no sábado. Uma nota mais
vários locais da capital até ao próximo ria-Elisabeth Lott e Tamila Kharambura convidou Ana Moura e Ricardo Ribeiro para Jorge Fernando, que vai estar no
dia 27, quatro deles com entrada gra- (só dia 24) e também pelos instrumen- (na foto) a escolherem os músicos e rooftop do Terminal de Cruzeiros — a
tuita. Na sala Luís de Freitas Branco (às tistas do recital inaugural (Costa só dia cantores da sua preferência para ani- ser utilizado pela primeira vez —, no
19h), o programa anunciado para hoje 25). Sexta, o espetáculo de encerra- mar a festa no palco Santa Casa Futuro dia 28 com “Um Fado ao Pôr do Sol”, às
no CCB inclui Lieder de Schumann, mento será apresentado no Convento na Sociedade Boa União. No primeiro 18h. No mesmo local e à mesma hora
Brahms e Wolf interpretados pelo dos Cardaes (pelas 21h), local onde se dia atuam três mulheres escolhidas mas no dia anterior o Clube de Fado
barítono André Baleiro e também a escutarão duas suites de J. S. Bach e o pela fadista, Beatriz Felizardo, Beatriz e Ângelo Freire (19h) também apre-
“Fantasia para piano a quatro mãos”, de “Divertimento em Mi bemol Maior” para Silva, Inês Pereira. No segundo dia é a sentarão espetáculos para mais tarde
Schubert, a “Sonata em Ré para viola e trio de cordas de Mozart. / A.R. vez de Ricardo escolher José Geadas, recordar. / ALEXANDRA CARITA
PUB_METROPOLITAN_26.5cm x 16.7cm copy.pdf 1 17/09/2019 10:50

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A peça, diz o encenador Nuno Cardoso,
é “um olhar sobre o colapso”

JOÃO TUNA
O avesso do avesso
A
“A Morte de ntes de qualquer palavra. de um tempo, ou marcada por um reproduzidos ao longo de uma
Antes de qualquer emoção. tempo, o da Revolução e dos seus peça “que não é para cardíacos”,
Danton”, do poeta, Antes do tudo e do nada efeitos nos próprios revolucionários, assegura o encenador. Até podemos
contido no título da peça, há o acompanha os últimos dias de vida “ficar um pouco assustados, mas
dramaturgo martelar incessante de um piano. de Danton entre as vésperas da sua nem por isso a crítica que faz deixa
e revolucionário Perturbador. Incessante. Obsessivo.
Desencadeia um crescendo denso.
detenção e a execução na guilhotina.
Na sala de ensaios onde os 13 atores
de ser justa”, diz.
Até pelo populismo a rodos
alemão Georg Até o limite do suportável. Depois preparam esta peça em quatro atos jorrado de palavras torrenciais,
o silêncio. Breve. Cortado por concebida para 40 atores, uma frase há muitas pontes estabelecidas
Büchner, abre uma nota só. Depois o silêncio, emprestada de “A Morte de Danton” com a atualidade. Há no ar uma
a temporada longo. Cortado pelas palavras. Em
palco, apenas Danton (Albano
acompanhou todo o trabalho: “A
vida é uma puta, fornica com o
raiva materializada numa divisão,
e na sensação de distância entre
do TNSJ, com Jerónimo). Aquele cuja morte se universo inteiro.” Será? Não é a o sistema político e os cidadãos.
anuncia. Depois, os outros. 13 atores dúvida um dos mais revolucionários É chão fértil para todos os
encenação tomam conta da cena. Ao fundo, instrumentos de quem reflete sobre populismos.
de Nuno Cardoso no crepúsculo, três ventoinhas
gigantes. De vez em quando, ainda
a realidade?
Se a dúvida é revolucionária,
Robespierre é um personagem
controverso, visto como terrífico.
TEXTO VALDEMAR CRUZ o piano. György Ligeti, com a sua nenhum revolucionário o será em Mas são dele os primeiros textos
“Musica Ricercata nº 1”. Ali, o toda a plenitude, se não for ele inspiradores da Declaração dos
húngaro antecipa opções musicais próprio um poço de convicções. Direitos do Homem, da primeira
mais radicais. Na sua antecâmara Nessa dicotomia, nesse retrato proposta de reforma agrária, ou o
revolucionária serve de pretexto carregado a branco e preto, está primeiro discurso contra o racismo.
para abrir portas a “A Morte de espelhado Danton. Ou Robespierre. A peça, frisa Cardoso, não propõe
Danton”, de Georg Büchner. Escrita Está espelhada a pulsão de morte uma apologia, nem de Robespierre,
A MORTE DE DANTON aos 22 anos, em 1835, a peça vai que vai percorrer todo aquele drama nem de um Danton corrupto,
De Georg Büchner equacionar o conflito ideológico ao longo de duas horas. mas também visto como sensato
TNSJ, Porto, até 29 de setembro; entre os dois principais ideólogos Entre os dois há uma fratura. O e refreador de excessos. É antes
Theatro Circo, Braga, 4 de outubro; da Revolução francesa: Danton e destino de Danton está traçado. “um olhar sobre o colapso”. Ou
Teatro Aveirense, Aveiro, 18 de Robespierre. Será executado pelo grupo de sobre o avesso do avesso de que se
outubro; Teatro Nacional D. Maria II, Encenada por Nuno Cardoso, novo Robespierre, cujos discursos, e constroem as revoluções. b
Lisboa, 9 a 19 janeiro de 2020 diretor artístico do TNSJ, esta peça a violência neles contida, são vcruz@expresso.impresa.pt

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tentar partilhar a culpa da acusada. “Antí- cantora Alia Sellami (Tunísia) particular
gona” é uma das tragédias mais famosas emblematismo — Alia viaja do jazz à
de entre todas as tragédias gregas. É ópera e à música árabe com a mesma
uma das mais perfeitas, do ponto de naturalidade com que Israel Galván des-
vista da composição formal; é, também, ce do tablao para evocar uma expressão

LAURENT PHILIPPE
FILIPE FERREIRA

um dos grandes modelos da tragédia mais feminina, quebrar outros tabus,


concebida como conflito de vontades e num misto de “experimentação, absurdo
de decisões; é, ainda, uma peça sobre o e subversão”, como escreveu o “The
poder, e não apenas o poder político; é Guardian”. Sobre a sua dança, Israel Gal-
também, inevitavelmente, uma tragédia ván escreveu: “Para poder dançar, tenho
ANTÍGONA sobre o erro, sobre a imperfeição, sobre FIESTA de me matar um pouco”. O caminho que
De Sófocles a culpa; e é, ainda, uma tragédia cheia De Israel Galván fez até chegar aqui foi de confronto com
TNDM II, Lisboa, até 6 de outubro Teatro Rivoli, Porto, sexta
de detalhes, de fugas a tentativas de a o virtuosismo que desenvolveu durante
tornar linear. Para Mónica Garnel, que anos, “até concluir que era uma ditadura
Assumindo o poder como rei de Tebas, há muito desejava trabalhar um texto Israel Galván cresceu no flamenco. sufocante e, agora, quando me movo,
Creonte ordena que o corpo de Polini- clássico, é justamente a imperfeição, o Fez parte do seu quotidiano de criança preciso de quebrar o ritmo, de sair do
ces, morto em combate com o seu irmão erro, a falha humana, que estão no centro assistir às performances que os pais ritmo, de abrir novos mundos”. O virtuo-
Etéocles, seja deixado ao abandono, sem do interesse, no lugar a partir do qual ela davam, ambos bailarinos de flamenco, sismo já está em si, é do virtuosismo que
cerimónias fúnebres. Etéocles, em con- sente que pode, enquanto encenado- e ficar para as festas pós-espetáculo, Israel Galván parte para descobrir esses
trapartida, será objeto de todos os rituais ra, trazer esta peça para a atualidade, em que os corpos se libertavam e os novos mundos que o levaram também
fúnebres devidos. A ordem de Creonte mostrar que “Antígona” é uma obra que constrangimentos dos códigos daque- a encontrar, por exemplo, Akram Khan,
é uma ordem política, ditada pela sua tem a ver connosco; com a nossa vida, la dança de dissipavam. Israel Galván quando criaram e dançaram o dueto
situação, relativamente às posições com as nossas imperfeições, com as ganhou nome mundial como uma das “Torobaka” (2014), de cruzamento de
antagónicas dos dois irmãos. Qualquer nossas contradições. Antígona e Ismena maiores referências atuais da renovação oposições e complementaridades, entre
pessoa que infrinja a ordem de Creon- são interpretadas, rotativamente, por do flamenco, da combinação do virtuo- a Andaluzia e a Índia. Agora, Galván faz
te será condenada à morte. Antígona, Carolina Passos-Sousa, Diana Lara e sismo e rebeldia. Numa passagem pelo a festa, nesse delírio esfusiante do espe-
desafiando a lei e a pessoa do rei, decide Joana Pialgata. Lúcia Maria, Paula Mora, Porto (Teatro Rivoli) mergulha por esses táculo que é como se começasse depois
enterrar o irmão; Ismena, a outra irmã, Pedro Moldão, Manuel Coelho, João tempos de festa desvairada das memó- dos agradecimentos, quando os corpos
prefere não a acompanhar nesse ato, Grosso, Maurice, André Simões e Isaías rias de criança. “Fiesta” reúne bailarinos e dos bailarinos descontraem da tensão
apesar de, posteriormente, quando An- Viveiros integram também o elenco do músicos muito distintos, numa hetero- de procura da perfeição e virtuosismo
tígona e Creonte se confrontam, Ismena espetáculo. / JOÃO CARNEIRO geneidade que encontra na presença da do flamenco. / CLAUDIA GALHÓS

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Além
a sua pintura aparece como uma
busca do essencial no retrato,
limpo da surdez do seu mestre
Columbano e permeável a contidas

da pintura
influências expressionistas e, na
paisagem e na natureza morta, à
presença da construção bebida
em Cézanne. O desenho funciona
como um contraponto da pintura e
inscreve-se como uma linha clara
atravessando toda a obra de Sarah
quando emigra para a ilustração,
sobretudo no livro dedicado
Sarah Affonso mostrada em duas exposições à infância, e se materializa no
bordado; podemos olhar para o
complementares num retrato artístico desenho como um fio condutor e
abrangente que inclui descobertas singulares organizador de todo o seu trabalho.
Estas exposições são a
TEXTO JOSÉ LUÍS PORFÍRIO oportunidade para descobertas
singulares em peças únicas como:
a magnificação do brinquedo num

A
o visitar, na Fundação mostra do Chiado, praticamente “Carrocel” de 1933 (FCG), ou na
Gulbenkian, a exposição só com obras de Sarah, começa “Toalha das Quatro Estações”,
dedicada à relação entre a pela pintura, pela sua formação um bordado de 1940 que pulveriza
arte popular do Minho e a obra de complementar em Paris nos anos a tradicional e injusta distinção
Sarah Affonso (1899-1983), antes vinte e deriva a seguir para outros entre artes maiores e menores. Um
de ver a exposição do Museu do suportes — o desenho, a ilustração, onirismo consciente é entendível
Chiado dedicada à mesma artista, a cerâmica, o bordado — mantendo nalgumas das ilustrações para
fiquei preocupado com a presença aliás poéticas que já tinham surgido “A Menina do Mar”, de Sophia
na Fundação de vários ícones na pintura: a relação com a dupla de Mello Breyner Andresen,
dos mais conhecidos de Sarah, infância dos meninos e do povo, anunciando uma série de desenhos
aqueles que tanto podem ilustrar este entendido como uma criança dos anos 70, porventura bebidos
uma entrada de dicionário, como grande na ideologia paternalista no jardim que plantou em Bicesse
um livro de história, ou um artigo e autoritária do Estado Novo, onde o desenho depois de passar
de divulgação. Não que certas tudo isso ligado a um genuíno pelas ervas, pelas flores, pelas
obras como “Coreto”, “Estampa encantamento do mundo. árvores retorcidas, regressa ao
Popular” ou o “Ex-Voto” não sejam Nem académica nem naturalista, papel como quem torna a casa. b
pertinentes na relação com a arte
popular do Minho, especialmente
bem escolhida para a exposição,
mas porque, pensava eu, poderiam
fazer falta no Chiado. Estava
enganado!
No Chiado, além de Sarah
aparecendo como um ícone
importante não só no autorretrato
como nos retratos que dela fizeram
José Tagarro, Diogo de Macedo e
o seu marido Almada Negreiros,
a sua pintura não sai diminuída
pela ausência dessas obras mais
conhecidas, isto muito embora
se torne evidente que mostrar a
sua pintura não era o propósito
fundamental da exposição mas sim
QQQQ aquelas pequenas/grandes coisas que
continuaram a sua obra a partir de
SARAH AFFONSO E A ARTE 1940 data em que desiste de pintar.
POPULAR DO MINHO Se a exposição da Gulbenkian
Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa,
aposta nas raízes populares da
até 7 de outubro
artista a partir da ancestralidade
paterna e de uma infância passada
ANTÓNIO COELHO

QQQQ em Viana do Castelo (1903-14), com


SARAH AFFONSO. OS DIAS uma escolha exemplar de figurado
DAS PEQUENAS COISAS de Barcelos, de rocas, fusos, marcas,
Museu Nacional de Arte espadelas e cangas de gado lavradas
Contemporânea do Chiado, Lisboa, e gravadas, não esquecendo Um desenho sem título de 1973 presente na exposição de
até 22 de março de 2020 também a filigrana e o bordado; a Sarah Affonso no Museu do Chiado, em Lisboa

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A TABELA PERIÓDICA

‘#YOUTOO’, DOMINGO?
21 Set
Primeiro a espécie ergueu-se e pôs-se de
21h30 | CENTRO CULTURAL OLGA CADAVAL
SUYOUNG YOON | violino
pé (homo erectus) e depois, há cerca de OSVALDO FERREIRA | maestro
350 000 anos, começou a adquirir saberes ORQUESTRA FILARMÓNICA PORTUGUESA
(homo sapiens). O progresso nunca é F. MENDELSSOHN
linear. Não esqueçamos as aberrações Concerto para violino nº 1 em Mi menor, op. 64
J. BRAHMS
políticas europeias nos anos 1920 e 30 e

24 Set
Sinfonia nº 3 em Fá maior, op. 90
os horrores do Holocausto, mas acredito
que o progresso civilizacional é positivo
e real. Apesar dos Bolsonaros, Dutertes, 21h30 | PALÁCIO NACIONAL DE QUELUZ
Kim Jong-uns, Maduros, Trumps e XINYUAN WANG | piano
/ JORGE companhia, o mundo vive hoje melhor do BEETHOVEN | Sonata op. 26, em Mi B Maior  
CALADO que há mil ou cem anos! Mas progresso F. SCHUBERT | Sonata D.784, em Lá menor
J. BRAHMS | Seis Peças para Piano op. 118
não significa revisitar o passado e julgá-

25 Set
F. SCHUBERT | Fantasia Wanderer D.760
lo com base nos valores do presente.
Por muito justas que pareçam, as novas leis e costumes não são
aplicáveis retroativamente. O tempo não volta para trás. Além de 21h30 | PALÁCIO NACIONAL DE SINTRA
servir para a perpetuação da espécie, sexo é prazer e violência. « DE LA MUSIQUE AVANT TOUTE CHOSE… »
Ainda sou do tempo em que se falava de ‘conquistas amorosas’! Paul Verlaine e os Músicos
O homem conquistava e colonizava a mulher (e noutros casos a Marco Alves dos Santos | tenor | António Figueiredo | violino
Filipa Poejo | violino | Hugo Diogo | viola
mulher ‘caçava’ o homem). Nalgumas espécies, a cópula pode
Irene Lima | violoncelo | Margarida Ferreira | contrabaixo
resultar na morte de um dos parceiros — em geral, o macho — João Paulo Santos | piano e direção
seguida de canibalismo sexual, como acontece com a louva-a- Canções de Gustave Charpentier | Charles Koechlin | Debussy
deus ou a viúva-preta. A cultura ocidental regista uma série de | António Fragoso | Ernest Chausson | Reynaldo Hahn | Saint-saëns

27 Set
criaturas míticas, do Dom João, de Tirso de Molina e Mozart, à | Massenet | Delius | Tosti | Alfredo Keil | Edgar Varése | Ravel | Léo Ferré
Lulu, de Wedekind e Berg, com comportamentos inaceitáveis nos
dias que correm. Note-se que Dom João acaba no Inferno e Lulu
21h30 | PALÁCIO NACIONAL DE QUELUZ
sucumbe às mãos de Jack, O Estripador...
OS MÚSICOS DO TEJO
Plácido Domingo é o mais recente e notório caso do #MeToo. Joana Seara | soprano | João Fernandes | baixo
Aos 78 anos (oficiais), tem de confrontar o seu passado Marcos Magalhães e Marta Araújo | direção
donjuanesco (que não nega). Curiosamente, o mundo ocidental Marcos Magalhães | direção Musical
dividiu-se: na Europa, Domingo é recebido com ovações de pé “DA CORTE ÀS RUAS”
Música Portuguesa do século XVIII | Obras de Francisco António de Almeida
(como aconteceu no Festival de Salzburgo no mês passado); | Carlos Seixas | Pergolesi | Avondano | António Cláudio Pereira
na América, cancelaram a sua participação em récitas de gala

28 Set
| António Teixeira | José Palomino | Joaquim Manuel da Camâra
(Dallas, São Francisco, Filadélfia). Entretanto o Met — onde no
fim do mês é suposto cantar Macbeth ao lado de Anna Netrebko
— espera para ver. (A Los Angeles Opera, da qual Domingo 18h00 | CENTRO CULTURAL OLGA CADAVAL
é diretor-geral, encomendou um inquérito independente.) MÁRIO LAGINHA TRIO
Mário Laginha | piano | Bernardo Moreira | contrabaixo
Domingo tem razão quando afirma que as regras e padrões de | Alexandre Frazão | bateria
comportamento social eram, então, muito diferentes das de hoje. SUMMER SUNDAY
Acredita ainda que todas as relações e interações sexuais que “Uma Pastoral Cómica-trágica-ecológica”, de Joseph Horovitz
teve eram consensuais. Onde falha é esquecer-se que tanto hoje Mário Laginha | piano | Bernardo Moreira | contrabaixo
| Alexandre Frazão | bateria
como dantes é eminentemente reprovável que uma pessoa em Joana Seara | soprano | Marco Alves dos Santos | tenor
posição de poder — diretor artístico e depois diretor-geral da | Hugo Oliveira | barítono
Washington National Opera entre 1996-2011, e da Los Angeles Coral Allegro | Coro infantil Voci
Miguel Matos | conceção vídeo | Carlos Antunes | encenação
Opera a partir de 2000 — confunda os direitos de diretor com

29 Set
Manuel Líbano Monteiro | direção
os direitos de ‘senhor’, à moda do século XVIII. Tal como um
professor não deve perseguir sexualmente alunos, também um
patrão não o deve fazer às empregadas. Por outro lado, era um 18h00 | PALÁCIO NACIONAL DE QUELUZ
segredo bem aberto a partir dos anos 80 que Domingo não só CÉDRIC TIBERGHIEN | piano
assediava como alegadamente não desistia à primeira recusa; BEETHOVEN | 6 Variações op. 34 | 15 Variações op. 35 (Eroica)
insistia duas, três e quatro vezes, na esperança de que um não SCHOENBERG | 3 Klavierstücke op. 11

01 Out
se transformasse num sim (o que, às vezes, acontecia). Corria F. CHOPIN | Sonata Nº 2 op. 35
também que era muito melhor no palco (como cantor) do que
na cama (como amante). Sabia-se isto e sorria-se, até porque
no trato comum Domingo sempre foi um homem simpático e 21h30 | CENTRO CULTURAL OLGA CADAVAL
ORQUESTRA CHINESA DE MACAU
generoso, pronto para ajudar os outros e apoiar as grandes causas
LIU SHA | maestro
da ópera. Lamento, porém, a triste figura que continua a fazer no Obras de Luo Ziyi | Zhu Lin | Kuan Nai-chung
repertório de barítono (que nunca foi nem será). Sim, ainda tem | Wang Danhong | Zhao Cong | Yin Tianhu
os restos de uma grande voz, mas, como disse o Samuel Johnson
a propósito de um cão a andar nas patas traseiras, “não o faz
bem, mas é surpreendente que o faça”. b ORGANIZAÇÃO: PARCERIA: APOIO:

festivaldesintra.pt
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Cinema
Obrigatório Música Teatro & Dança

MAX RESDE FAULT


TERNA É A NOITE MARIA JOÃO PIRES CIRCULAR FESTIVAL DE ARTES
De Henry King Gulbenkian, Lisboa, segunda, 20h PERFORMATIVAS
Cinemateca, hoje, 22h30, sessão na esplanada Vários locais, Vila do Conde, até dia 28
Início da residência de Maria João Pires na Gulbenkian e
O último filme de Henry King é uma adaptação do que irá resultar em três recitais ao longo da temporada. São 15 anos de Circular, que por estes dias, e até 28
clássico romance de F. Scott Fitzgerald, sobre a Esta semana toca os “Impromptus, D. 935”, de Schubert, de setembro, com direção de Paulo Vasques e Dina
relação de um brilhante psiquiatra que casa com a e, na companhia da soprano arménia Talar Dekrmanjian, Magalhães, instala em Vila do Conde um programa
rica paciente que tratara, interpretada por Jennifer “Sete canções para piano” e uma seleção das “Canções de experimentação artística, multidisciplinar. Além
Jones. Uma evocação poética da “geração perdida” para soprano e piano”, de Komitas. Regressa a 13 de da forte proposta de música — com nomes como
de F. Scott Fitzgerald. Também com Jason Robards e novembro e a 21 de março de 2020. Sensible Soccers, Vítor Rua e Joana Gama — há es-
Joan Fontaine. treias absolutas de criações de dança e performance
BLACK MIDI de Nuno Lucas, “Ma Vie Va Changer” (hoje), e Ca-
OS SAPATOS VERMELHOS ZDB, Lisboa, quarta, 22h tarina Gonçalves e Filipe Caldeira, “Abrupta” (sexta,
De Michael Powell e Emeric Pressburger
na foto). O programa inclui filmes, o lançamento do
Cinemateca, Lisboa, segunda, 19h Com o primeiro álbum, o recente “Schlagenheim”, segundo número do “Jornal Coreia” (com direção do
editado pela Rough Trade, este quarteto rock londri- coreógrafo João dos Santos Martins) e um seminário
Uma das obras-primas do cinema britânico da no fez a imprensa dividir-se em elogios exagerados sobre crítica de arte, orientado por António Guerrei-
década de 40, que tem por tema a relação entre a e apelos à calma nos elogios. Poder apresentá-los ao ro (hoje e amanhã).
vida e a arte. Guiada por um empresário visivelmente vivo no momento certo, é mais um triunfo da ZDB.
inspirado na figura de Diaghilev, uma jovem bailarina OS FILHOS DO COLONIALISMO
torna-se uma estrela, mas tem de enfrentar o dilema ORQUESTRA SINFÓNICA PORTUGUESA De Hotel Europa
entre entregar-se inteiramente à carreira ou sacrifi- CCB, Lisboa, amanhã, 17h Culturgest, Lisboa, de 26 a 28
car o amor.
Para o concerto inaugural da temporada, a OSP, diri- “Os Filhos do Colonialismo” é a nova criação do Hotel
O APICULTOR gida por Joana Carneiro, toca Beethoven (“Sinfonia Europa, de André Amálio e Tereza Havlíčková, em
De Theo Angelopoulos
nº 1 em Dó maior”, op. 210), Strauss (“As Alegres Tra- que desenvolvem a pesquisa sobre o colonialismo
Cinemateca, Lisboa, terça, 21h30 vessuras de Till Eulenspiegel”) e Barber (“Concerto português iniciada há sete anos. A peça é apresen-
para Violino”, op. 14). Com a violinista Esther Yoo. tada na Culturgest no âmbito do ciclo ‘Memórias
Depois do casamento da filha, Spyros (Marcello Coloniais’, que inclui debates, conferências e cinema.
Mastroianni), professor de uma cidade de província, LUKAS LIGETI É também neste contexto que Hotel Europa apre-
reforma-se, deixa a mulher, e parte numa viagem O’culto da Ajuda, Lisboa, hoje, 21h senta a instalação-performance “O Fim do Colonia-
pela Grécia em direção às suas raízes, levando as lismo Português” (de 25 a 29), uma proposta com a
suas colmeias. Pelo caminho encontra uma jovem Lukas Ligeti dirige a sua “Humanautomata”. Com a Or- duração de 13 horas, que pode ser apropriada pelo
rapariga, que viaja à boleia, e que parece representar questra de Robôs Phobos tocam Tiago Ângelo, Angeli- público.
uma nova geração sem memória. ca Salvi, Joana Gama, Ricardo Jacinto e o compositor.

O PESO THIS IS US VIS A VIS


Televisão

DA VERDADE FOX Life Netflix


AXN White Estreia quinta, 23h10 Estreia sexta
Estreia quinta, 21h25 (Temporada 4) (Temporada 4)
(Temporada 1)
Drama familiar de sucesso Série prisional espanhola,
Drama de investigação sobre a família Pearson, com assinatura do criador
sobre uma advogada bem centra agora atenções na de “La Casa de Papel”,
sucedida que regressa à década de 70. Os saltos regressa para novos
sua terra natal, no Canadá. temporais vão continuar. capítulos.

E 90

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INFORMAÇÕES E RESERVAS:
AV. PROF. EGAS MONIZ, ALMADA
Tel.: 21 273 93 60 | www.ctalmada.pt

SETEMBRO
Sáb. 28 às 21h30
SALA PRINCIPAL | M/6

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vícios
“PESSOAS SEM VÍCIOS
TÊM POUCAS VIRTUDES”

EspecialModa
Nova Iorque já mostrou
o que vale, Londres
também. Agora é a vez
de Milão e Paris darem
contas ao mundo
sobre o que vamos
vestir na próxima
primavera/verão.
A estação quente
quer-se branca
e combina calções
muito curtos com
calças largas
e bem compridas
TEXTO ALEXANDRA CARITA

Roupa
para usar
e abusar
PETER FOLEY/EPA

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NEIL HALL/EPA
S
etembro dita as regras ao verão. É o mês mais respeito às formas, as calças largas rivalizam com
forte da moda, que anuncia o que vamos ves- os calções muito curtos. E as mais atrevidas cami-
tir na próxima primavera/verão. Em Nova Ior- solas e corpetes chegam ao estilo da Renascença,
que, Milão, Londres e Paris os olhos estão postos com bordados à vista por todos os lados. De resto,
nas “Big Four” semanas da moda da estação. Os o patchwork é outra das tendências mais marcantes
nossos também. É assim há mais de 70 anos, desde da próxima primavera/verão, como mostra Oscar
que Christian Dior teve a ideia de, na Cidade Luz, de la Renta. Laços e folhos não faltarão e as cintu-
combater a tristeza e a apatia que a II Guerra Mun- ras justas também não.
dial tinha deixado, com a realização de um desfile Em Nova Iorque, assim falam costureiros de
de moda. Um espetáculo quase privado que fez as marcas como a Lonchamps, na praça do Lincoln
mulheres sorrirem outra vez. O sucesso foi tal que Center, ou Tom Ford, numa estação de metro. É
os desfiles a antecipar o que se vai usar nunca mais verdade que cada designer escolhe um local par-
deixaram de se realizar. No entanto, só aparece- ticular para apresentar a sua coleção, depende do
ram em Nova Iorque e Milão no fim dos anos 50 e, orçamento que tem para gastar. Quem não se lem-
a Londres, oficialmente, a fashion week só chegou bra do espantoso desfile da Chanel de Karl Lager-
mesmo em 1984. feld no Grand Palais em Paris?
Terminada dia 13, a semana da moda de Nova Voltemos à moda. Kate Spade aposta nos vesti-
Iorque foi a primeira a entrar em cena e a marcar dos coloridos pelo meio da perna e com plissados nas
terreno. De 13 a 17, foi a vez de Londres subir ao mangas. Padrões muito variados e repetidos fazem
palco. Milão veio logo a seguir, começou terça-fei- a imagem de marca da estação quente. Continuam
ra e vai terminar a 23, dia em que dá início a últi- a estar na moda as imitações de pele de cobra e dos
ma fashion week das que realmente contam, Paris. pés à cabeça. Chapéus, camisas, tops, calças e saias,
Todas as grandes griffes passaram por lá, dos sapatos, malas, como mostra Chris Beba e o ateliê
clássicos Gucci ou Armani, aos mais liberais Tory R13. Gabriela Hearst junta as franjas a estas tendên-
Burch ou Pyer Moss. E todos mostraram novidades cias. Michael Kors mantém-se nos padrões florais
que se podem agrupar em tendências. e apresenta a cerejeira como padrão preferido. Em
Se há uma cor a marcar os dias quentes de 2020 destaque, porém, está a coleção apresentada por
PETER FOLEY/EPA

será o branco. Ele usa-se em camisas, casacos e Vera Wang, de regresso à fashion week de Nova Ior-
calças. O amarelo, que este ano já mostrou o que que depois de dois anos de ausência. Nela se combi-
vale, também não se deixará ficar atrás e cola-se nam materiais vários, sobretudo um leque alargado
ainda aos acessórios, sapatos e malas. No que diz de tecidos com cabedal. Um recurso muito utilizado.

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PETER FOLEY/EPA
NEIL HALL/EPA

Nova Iorque e Londres ditam


um regresso ao passado
e ao universo hippie, com
muito patchwork e folhos
Mas nem só de tendências vivem as semanas
da moda, duas por ano, em fevereiro e em setem-
bro. Vivem de muita excitação também, por exem-
plo. Toda a gente quer ser convidada para os desfi-
les, ir a todos se possível, ou, pelo menos, àqueles
de que se gosta mais. Se não consegue ir, acompa-

PETER FOLEY/EPA
nha pelo telemóvel um ou outro. O movimento é
imenso. Tudo ‘beautiful people’. Dos manequins
que desfilam e não desfilam, a músicos, celebri-
dades, amantes da moda, gente rica, designers,
atores e atrizes...
A animação não está só nos desfiles e no local
onde eles ocorrem, propaga-se pelo centro das
quatro cidades com um glamour especial. Bares,
restaurantes, discotecas engalanados para rece-
ber os VIP mais bonitos do mundo. E aí é mais fá-
cil conseguir um lugar? Nem por isso. É o planeta
inteiro que está ali reunido para ver o melhor da
moda atual. Os espaços não são grandes, pois o
conforto e o charme juntos são sempre palavra de
ordem nestas coisas. De resto, só mesmo a roupa
pode ser desconfortável ou difícil de usar (moda
a quanto obrigas). Nesses almoços e jantares, nos
Os anos 60 voltam a estar na
mais prestigiados locais da cidade, e mesmo noite
moda, com padrões muito
fora, conta é ser visto e bem vestido. A corrida às
estampados, a grande aposta
CAITLIN OCHS/REUTERS

fotografias é enorme. Os fotógrafos precipitam-se de RIXO. Já Amelia A. Walls


para apanhar a mais conhecida das cantoras pop
JUSTIN LANE/EPA

prefere os brancos. Rag and


tão avidamente como o fazem à boca dos desfiles. Bone apresenta os calções
Aí é tão importante a roupa que passou na passe- mais curtos da estação e
relle como aquela que compõe um estilo próprio. Tommy Hilfiger sugere as
É que o que vale mesmo é sermos nós próprios. b calças compridas e bem largas

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R ECE I TA
POR JOSÉ AVILLEZ
GRUPO JOSÉ AVILLEZ

Bife tártaro com maionese de mostarda


Almoço para os últimos dias de calor
4 pessoas | Tempo de preparação: 50 minutos

C
omece por picar as alcaparras, os cornichons e a chalo-
ta. Reserve. De seguida, corte a carne em fatias finas de
aproximadamente 0,5 cm e, depois, em cubos pequenos.
Ingredientes
Numa taça larga, misture as alcaparras, os cornichons, as 500 g de lombo de novilho;
chalotas e a carne e retifique os temperos com flor de sal e pi- 50 g de chalotas; 40 g de alcaparras;
menta-preta moída no momento. Reserve no frio. 40 g de cornichons;
Para preparar a maionese de mostarda, coloque as gemas e Maionese de mostarda q. b.;
a mostarda num robô de cozinha ou liquidificador, retifique os Flor de sal q. b.;
temperos com sal e pimenta-preta moída no momento e emul- Pimenta-preta moída no momento q. b.
sione, na velocidade média, enquanto junta o óleo em fio. PARA A MAIONESE DE MOSTARDA
Envolva a carne na maionese de mostarda e molde os bifes 125 ml de óleo; 40 g de mostarda de Dijon;
com a ajuda de um aro. 2 gemas; Sal fino q. b.;
Finalize com flor de sal e pimenta-preta moída no momento Pimenta-preta moída no momento q. b.
e sirva com batatas fritas e salada verde. b

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VI N H OS
POR JOÃO PAULO MARTINS

D.R.
Trabalhos em várias frentes
Mesmo em altura de vindima...

C
om a vindima a correr à força toda para ter quórum e para divulgar os seus vi- o topo da pirâmide da casa. A empresa tem
e com boas perspetivas quanto aos nhos em várias frentes. A moda pegou e, em todas as propriedades em modo de agricul-
resultados da mesma, poder-se-ia vez de um, começámos a ter vários eventos tura biológica e um portefólio muito alargado
pensar que os produtores e enólogos teriam em dezembro. Depois, como o ano tem mais onde já cabem também os vinhos de talha.
de fazer da vindima a atividade quotidiana meses, passaram a ser quase semanais as O Vesúvio é uma quinta, no Douro Superior,
principal, de tal forma é preciso ir toman- apresentações, todo o ano e agora até na vin- que pertenceu aos herdeiros de Dona Antó-
do decisões quase ao minuto, assegurando dima. Foi o caso recente da apresentação das nia Ferreira e que em 1989 foi adquirida pela
que tudo corre sem sobressaltos. No entan- novas edições da Madeira Wine Company, da família Symington, num processo alucinante
to, por estranho que possa parecer, mesmo Quinta do Vesúvio e do Esporão. Na Madei- que exigiu a assinatura, no ato da venda, de
em altura tão complicada somos convocados ra provámos também um vinho desenhado todos os 50 herdeiros. De então para cá foram
para apresentações de novos vinhos. Estes para comemorar os 600 anos da descoberta feitos melhoramentos na casa e nas vinhas,
eventos têm vindo a ganhar cada vez mai- da ilha, raro e moderadamente caro; além agora muito alargadas a algumas castas, na
or dimensão e frequência. Lembro-me que dele estiveram em prova as novas edições altura residuais. Como nos informaram, em
tudo começou nos anos 90 e creio não estar de alguns Madeira Colheita (com indica- 1989 havia pouco mais de mil pés de Touriga
enganado se disser que foi Luís Pato o pri- ção da casta no rótulo) e também de alguns Nacional e agora já lá estão mais de 100 mil.
meiro produtor a convocar a imprensa para frasqueira, vinhos que têm de cumprir pelo Há castas a sair e outras a entrar, num tra-
apresentar os seus vinhos, uma prática então menos 20 anos de estágio em casco e mais 2 balho notável de recuperação da vinha. É a
vulgar em Londres mas desconhecida entre anos em garrafa antes de serem comercia- única quinta da empresa onde todo o vinho
nós. Dezembro era a altura escolhida e lá ía- lizados. São a essência dos Madeira, vinhos é feito a lagar com pisa a pé. Mudanças na
mos ao Porto de Santa Maria ou ao Chester forçosamente (e justificadamente) caros. Da adega desde o tempo de Dona Antónia? Só a
para conhecer as novidades. Era um acon- herdade do Esporão vieram as novas edições eletricidade! Mesmo com o “peso” da vindi-
tecimento. Como wine writers eram poucos, do Private Selection em branco e tinto, vi- ma houve tempo para mostrar as novidades.
Luís convidava jornalistas da rádio e da TV nhos muito aprimorados e que representam E a saga vai continuar... b
(OS PREÇOS, MERAMENTE INDICATIVOS,
FORAM FORNECIDOS PELOS PRODUTORES)

Esporão Private Quinta do Vesúvio Blandy’s Malmsey


Selection branco 2017 tinto 2017 Frasqueira 1981
Região: Alentejo Região: Douro Região: Madeira
Produtor: Esporão Produtor: Symington Family Estates Produtor: Madeira Wine Company
Casta: Sémillon Castas: Touriga Nacional, Castas: Malvasia (Malmsey)
Enologia: Sandra Alves/David Touriga Franca, Tinta Amarela Enologia: Francisco Albuquerque
Baverstock Enologia: Pedro Correia, Charles Preço: €315
Preço: €20 Symington Teve 37 anos de casco; os frasqueira
Tem origem em vinha com 20 anos Preço: €50 representam a perfeição do Madeira, um
de agricultura biológica. A casta é Em cada colheita este tinto tem vinho eterno, para beber lentamente e
francesa. A fermentação decorre vindo a adquirir mais finura e grande durante muito tempo. Por isso não é caro.
em barricas novas de 550 litros. equilíbrio entre fruta e madeira. A Dica: Tem tudo o que é suposto, iodo,
Dica: Um branco cheio e com muita nova edição é notável. salinidade, ranço, frutos secos, melaço,
personalidade, a beber e provar Dica: Perigosamente apetecível tudo com uma acidez fantástica a
com atenção. Clássico branco de desde já, um tinto que não virará a sustentar o conjunto. Daqueles que não
meia estação. cara à cave. se esquecem.

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SO B R E M ESA
POR FORTUNATO DA CÂMARA

Um grande roteiro semicurado e firme, e com o molho


ponzu a ligar tudo. Nova inquietação no ACEPIPE

sem guião
belo “Atum glaceado com redução de
camarão, espuma de caldeirada, toma- As
te cereja em óleo de lúcia-lima, amé-
lanche” (€13), onde fatias do pescado guloseimas
No Attla saboreiam-se vários mundos sem envoltas num molho fino de camarão,
pousadas sobre a espuma piscícola, ti-
do dr.
nos guiarmos por um mapa mental de sabores nha nos sumarentos minitomates e na Maillard!
doçura selvagem das bagas amélan-
Não confundir com os
che, uma coreografia gustativa afina- rebuçados para a tosse…
da. Grande momento a “Massa de azeite Apesar de dr. Maillard ser
glaceada com ponzu, santola, sour cre- bem menos conhecido que
am, ervas frescas” (€13) com a massa o dr. Bayard, está bem mais
tenra oval a iludir a imagem de um ze- presente nas nossas vidas
pelim, de exterior reluzente pelo banho do que aquilo que imagi-
cítrico do molho asiático, e um âmago namos. Quando em 1912 o
médico e químico francês
repleto das carnes da santola levemen-
Louis Camille Maillard co-
te ligadas com nata azeda — um prato meçou a estudar as reações
que promete tornar-se um hit da casa. existentes entre aminoá-
Num registo de pratos quentes, bri- cidos e açúcares durante
lhou o “Camarão de ova azul, leite de a confeção dos alimentos,
amêndoa, bisque, noodle de batata” estava a abrir-se a porta do
(€14), onde os delicados crustáceos co- conhecimento acerca da
zinharam por indução do caldo de ma- formação do sabor. A colo-
ração ou as marcas da grelha
risco à francesa que foi vertido quente
que surgem na superfície
sobre eles, misturando-se com o leite
RITA CHANTRE

de um alimento (peça de
amendoado, e guarnecido por tiras de carne, pescado, legumes,
batata al dente. Bom o “Ravioli de quei- etc.), têm o contributo dos
jo de cabra, abóbora de conservação” sucos libertados pela ação
(€16), com uma fita acídula do legume do calor e dos os ‘açucares’

H
á vidas que dão um livro, ou en- destinos na Europa, Ásia e Américas. O sobre um quarteto de raviolis gordos, redutores existentes.
tão que se revelam num atlas. menu do Attla reflete este longo roteiro. com bom queijo no recheio. Belíssima Em química alimentar
ficaram conhecidas como
Os caminhos de André e Rita Não segue receitas, no entanto cruza as a “Lula, caril de tinta, cabelo de anjo,
“reações de Maillard”, mas
andaram por várias latitudes, ele a co- técnicas francesa, espanhola, nórdica, mizuna” (€15), um exemplar médio/ para o mundo gastronómico
zinhar e a aprender, cozinhando, ela e outras, com ingredientes de cozinhas grande, cozinhado inteiro, tenro e de- é o processo que permite
como fotógrafa de diversas publica- étnicas diversas. A simplicidade do es- licioso, com o caril de tinta em molho potenciar o sabor, acres-
ções. Um dia, estes dois colecionadores paço, desnudado nas mesas, e frugal na espumoso. centar cor, libertar aromas
de roteiros cruzaram-se em Lisboa — decoração e mobiliário, ganha ambiên- Serviço gentil de Rita Chantre e ou- dos diversos alimentos.
a cidade de onde em tempos se partiu cia pela iluminação difusa e pontual tro elemento, com explicação dos pra- Quem nunca salivou com o
aroma de frango de churras-
para dar novos mundos ao mundo —, e que desenha a sala, embora a intensi- tos e eficiência. Serviço de vinhos cor-
co? É um bailado de Maillard
começaram a fazer um novo mapa das dade da luz esteja abaixo do confortável reto, mas oferta limitada a vinte e três que está ali acontecer entre
suas vidas, em conjunto. Anos volvidos, para fruir da beleza dos pratos. referências, com a vantagem de alguns a pele da ave, e as brasas do
este atlas comum retornou ao Atlântico Quanto a sabores, a viagem passou rótulos ‘naturais’ a bom preço, e me- carvão. Estas reações ocor-
para partilhar as cartas de navegação à pela “Beringela fumada, condimento de lhor qualidade. Sobremesas impactan- rem idealmente entre os 90
mesa. Nasceu assim o Attla, que une a miso e tahini, pão frito e trigo sarrace- tes no “Gelado fumado com madeira graus e os 180 graus. Abaixo
em si a coleção de locais por onde pas- no” (€8), com dois legumes de tama- de amendoeira, leite de amêndoa, figo desta temperatura, pouco
saram com o oceano como ponto de nho pequeno, assados e cobertos com do Algarve, crumble de alfarroba, óleo se transforma, acima dela,
tudo se perde. É que depois
referência. um delicado molho de sésamo e nicos de folha de figueira” (€8), com o fruto
do alimento queimado, em
André Fernandes é um jovem co- crocantes de pão, numa imersão ave- fresco em união perfeita aos outros ele- vez do efeito ‘Maillard’,
zinheiro que passou literalmente me- ludada por sabores asiáticos. Surpresa mentos, e a frescura do “Pudim de pi- surge o defeito de estragar.
tade da sua existência a cozinhar. Há na “Couve-flor glaceada com vinagre menta-de-sichuan, granita de chá, cal- Isto se não houver uma rea-
meia-vida saiu de Portugal, com 16 sabugueiro, satay de espinafres, aze- do de maracujá do Alentejo” (€7), com ção de desmaiar de quem
anos, para aprender com os melho- da” (€12), em bouquet médio inteiro, os flocos aromáticos de gelo a oporem- paga a peso de ouro um
res em França. Seguiram-se múltiplos bem ‘caramelizado’ ao redor, pela ação -se ao pudim enqueijado da pimenta robalo de mar… esturricado!
do aromático vinagre, e com o legu- chinesa, e a acidez perfumada do fruto Com as reações de Maillard,
um alimento insípido torna-
me crocante a ganhar outra dimensão Notas fumadas variadas em vári-
-se uma guloseima.
de sabor, em bela união com o creme os pratos e uma ode à frescura dos di-
ATTLA de espinafres e especiarias, e folhas de versos aromas citrinos, fazem do Attla
Rua Gilberto Rola, 65 — Lisboa azeda para contrabalançar. Magnífico uma das melhores surpresas de Lisboa.
Telefone: 211 510 555 ou 932 509 887 o “Lírio curado em algas, ponzu, pe- O nosso mapa gustativo é constante-
Encerra ao domingo e à segunda-feira pino chinês, óleo de tomate fumado” mente desafiado e surpreendido, neste
(serve apenas jantares) (€14), com lamelas finas de pepino ótimo périplo pela contradição harmo-
enleadas sobre mininacos do pescado, niosa de sabores. b

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as nossas recomendações Saiba mais sobre estas e outras sugestões em
boacamaboamesa.expresso.pt
boacamaboamesa.expresso.sapo.pt

Douro Sus Douro


Rua José Vasques Osório, loja C1,
Cêpa Torta Peso da Régua. Tel. 254 336 052
Rua Dr. José Bulas Cruz, Alijó.
Tel. 259 950 177
O bacalhau com broa, o misto de
carne maronesa, a bochecha de
porco bísaro e o famoso pudim de
azeite são algumas das especiali-
dades. Preço médio: €25.

Restaurante Curiosamente, o leitão bísaro é


Quinta do Portal uma das especialidades da casa
EN 323, Celeirós do Douro. (convém reservar). Pode também
Tel. 259 937 000 provar a sardinha marinada em ci-
Pode encontrar salada de polvo, trinos, o bacalhau lascado e a tarte
rabo de boi estufado com puré de de amêndoa com gelado de rum e
aipo e pera e caldeirada de peixe. passas. Preço médio: €30.
Preço médio: €40.
Cozinha da Clara
Casa de Pasto Chaxoila Quinta de La Rosa, M 590, 215,
EN 2, Borbela. Vila Real. Covas do Douro. Tel. 254 732 254
Tel. 259 322 654 Arroz de marisco com aromas
de coentros, cabrito assado com
batata no forno e grelos e a posta
Onde dormir de vitela maturada são propostas a
considerar. Preço médio: €30.
Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo
Covas do Douro. Tel. 254 730 430 Calça Curta
O Patamar Kitchen, é a novidade deste ano, no meio das vinhas da propriedade, pensado para aficionados Avenida da Estação, Foz-Tua.
do vinho e para a época das vindimas. Tem cinco provas especiais à disposição. O hotel tem 11 elegantes Tel. 278 685 255
Joelho de porca e grão com mão- quartos (a partir de €170) e um excelente restaurante vínico. Aproveite o transporte de barco. Aqui destacam-se a lampreia e
zinha de vaca são especialidades o sável de escabeche e o javali,
neste espaço, aberto desde 1947. o veado, a lebre e o coelho bravo
Preço médio: €15. DOC Vale de Abraão Tábua D’aço estufados. Preço médio: €20.
Cais da Folgosa, EN 222, Folgosa Six Senses Douro Valley, Lamego. Piscinas Municipais, Tabuaço.
Ferradosa — Cais do Douro. Tel. 254 858 123 Tel. 254 660 600 Tel. 912 507 829 Petiscaria Preguiça
Da Estação Numa sala de sonho, sugere-se um O restaurante, na verdade, divide- Delicie-se com o bacalhau à chefe Quinta Chão do Ribeiro,
EN222-3, Ferradosa. dos menus de degustação, ou o -se em três: o dining room, o open Thomas, com as costeletinhas Mós do Douro. Tel. 279 789 432
Tel. 965 082 387 serviço à carta, onde encontra pol- kitchen e o terrace, sempre com de cordeiro à caçador ou um bife A beleza da vista panorâmica é
No verão há posta de vitela de vo grelhado com infusão de azeite propostas irreverentes, criadas do lombo à moda do Tirol. Por ideal para saborear o peixe do rio
Trás-os-Montes, peixe do rio frito e alho ou cachaço de porco bísaro ao ritmo das estações e da criativi- encomenda, há ainda a espanhola frito, a açorda de peixe, a posta de
e sopa seca de barbo. a baixa temperatura com maçã e dade da equipa de cozinha. paella e o javali estufado com ba- vitela e diversos pratos de caça.
Preço médio: €20 secretos. Preço médio: €60. Preço médio: €60. tatas cozidas. Preço médio: €20. Preço médio: €15.

“BOA CAMA BOA MESA” NA SIC Vindouro


NOTÍCIAS LAMEGO E O DOURO Travessa da Rua dos
Fornos, 19, Lamego.
Com estreia este sábado na Tel. 254 401 698
SIC Notícias, e repetições ao É um dos mais elegan-
tes restaurantes da região,
longo da semana também na
que elogia o Douro na decoração
SIC Mulher e SIC Interna-
com grandes painéis dos socalcos
cional, o programa inspira-se vinhateiros espalhados nas paredes,
na época das vindimas para estendendo-se este tributo às pro-
conhecer os encantos e a postas da carta. Opte pelo cabrito
paisagem do Douro, a partir conhecer os melhores sabores assado no forno, com arroz, batatas
de Lamego, cidade com im- regionais, devidamente har- e legumes, pelo arroz de costeli-
portante património edificado. monizados, faça uma paragem nhas em vinha-d’alhos e grelos ou
Neste roteiro, surpreenda-se no restaurante Vindouro. pelos milhos à transmontana.
com a oferta de enoturismo da Ainda inspirados pela história Preço médio: €30.
Quinta da Pacheca, mundial- única da produção do vinho do
mente famosa por convidar Porto, faça um passeio de des- SELO DE QUALIDADE Em parceria com o Recheio, este
os visitantes a dormir num coberta pelo Parque Biológico símbolo é a garantia de que o restaurante em destaque utiliza
produtos das melhores origens e criteriosamente selecionados.
pipo gigante de vinho... Para da Serra das Meadas.

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D ESI GN
POR GUTA MOURA GUEDES

SNOOPY
Achille e Pier Giacomo
Castiglioni PINHA CORK LAMP
Raw Edges

Do escuro para o claro


A missão de qualquer invenção, como a
da electricidade, é a de melhorar a nossa vida
AMARA

S
MUSHROOMS LAMP
John Lewis & Partners em luz não víamos. Se a luz não in- o mundo de um modo profundo e em Jonas Edvard
cidisse e revelasse tudo o que nos muitas frentes. Mais do que simplesmen-
rodeia, a nossa percepção sobre o te permitir ver quando não há luz natu-
mundo seria diferente e os nossos olhos ral ela é o motor da nossa evolução. Mas
ficariam obsoletos, sem função. Contra- falando só da iluminação, é sem dúvida
riar a escuridão é algo que nos tem per- interessante observar a variação formal
seguido e levado a inventar vários arte- que um objecto tecnicamente simples,
factos, uns enormemente pragmáticos, como um candeeiro, teve ao longo dos
como o fio eléctrico ou as pilhas, outros tempos e tem ainda.
igualmente funcionais mas de uma bele- Como em muitos dos equipamentos
za mais encantatória. que nos acompanham desde há mui-
A partir do fogo e da luz que daí vem, to tempo, como por exemplo as cadei-
o passo seguinte do homem foi dominar ras, somos por vezes levados a pensar
a chama, a luz que esta produzia e trans- que não seria necessário desenhar mais
portá-la. As velas e os candeeiros a óleo nenhum candeeiro. Todos os que foram
ou com outro combustível foram a eta- desenhados servem e funcionam, para
pa que se seguiu e depois tratou-se de quê desenhar mais? Existe um motivo BAMBOO LAMP
LUSTRE VENEZIANO criar uma das mais fabulosas invenções estrutural e um outro, bastante recente.
humanas, a electricidade. A invenção da O primeiro é a inevitável sede pela novi-
electricidade começa cerca de 600 anos dade e pela mudança que move o espí-
antes de Cristo, com o filósofo Thales rito humano; o segundo está alicerçado
de Mileto e avança ao longo dos sécu- nas nossas infelizmente tardias preocu-
los, com uma rede de mentes brilhantes, pações ambientais. Este último motivo é
onde se destacam Benjamin Franklin, Ja- mais do que suficiente para que muitos
mes Watt, Thomas Edison e Nikola Tesla. designers e empresas estejam a redese-
Como em todas as invenções, qua- nhar sistemas de iluminação, quer para
se sempre abstractas, complexas, quase reduzir consumo energético quer para
intangíveis, há que trazê-las para o quo- passar a utilizar apenas materiais susten-
tidiano e fazer com que cumpram a sua táveis. Interessante será que nesse movi-
função, que é a de melhorar a nossa vida. mento, os clássicos do design não se per-
E é aí que o design entra, demonstrando cam, mas se actualizem. b
como é fundamental na descodificação
de uma invenção para a sua aplicação no Guta Moura Guedes escreve TREE IN THE MOONLIGHT
LAVA LAMP dia-a-dia. A electricidade modernizou de acordo com a antiga ortografia Michael Anastassiades

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M O DA
POR GABRIELA PINHEIRO

Dicas & Regras

Verde mineral
O quartzo exerce um fascínio magnético
e contagia o mundo da moda,
representado em diversas cores e texturas

FOTOGRAFIAS GETTY IMAGES


O
fascínio pelo poder e beleza Este mineral chega também ao
dos minerais vem de longe mundo dos acessórios, onde autên-
e por isso não espanta que a ticas representações surgem em co-
estas pedras se associem poderes que lares, carteiras, cintos e sapatos, mas
vão além do explicável. Talvez devido é na combinação de vários tecidos
ao misticismo associado, os cristais que a alusão é mais forte. Os cetins,
sejam uma fonte de inspiração cons- as sedas, as malhas entrançadas, os
tante para artistas em diversas áreas. jacquards, os prints geométricos, to-
A moda é uma delas, e esta estação o dos eles, quando são combinados da
quartzo verde ganhou um destaque forma mais orgânica, conseguem re-
avassalador. Não só o seu espectro de criar a beleza e assimetria de vários
cor foi representado nas mais varia- minerais no seu estado mais puro,
das peças de roupa como também as transmitindo toda a energia e poder
suas formas e relevos irregulares ga- curativo que as vibrações destas pe-
nharam destaque. dras nos passam. b

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HÁ H O M E M
POR LUÍS PEDRO NUNES
MATTHEW HORWOOD/GETTY IMAGES

Dá cá essa palha
Como a palhinha de plástico de tornou um símbolo de calamidade. E liberdade. Leu bem

P
arece que há um consenso piedoso em relação solução (feitas de palha ou papel e distribuídas num mas hoje é necessário pedir uma. E foi diabolizada.
às palhinhas de plástico e de como fazem um dispensador em que não eram tocadas). E depois vi- Pessoalmente, acho que a Starbucks podia pensar
mal horrível ao planeta. Usa-se durante três mi- eram os “salões de soda” — uma espécie de salas de em conceber bebidas em que se conseguissem beber
nutos e lixo com elas. Aliás, aqui para nós, as palhi- chá mas com colas e as palhas eram um must para com os beiços. Mas isto sou eu. E seria num mundo
nhas de plástico são um bom exemplo da nossa inca- as senhoras. Bom, seja como for os americanos usam normal. Mas estamos a viver num mundo normal?
pacidade de alterar comportamentos. É que está tudo hoje 329 milhões de palhinhas por dia. Umas 120 mil A presidência de Donald Trump tem conseguido
muito certo, as palhinhas matam de forma horrorosa milhões anuais. O que é um absurdo, convenhamos. regredir muitas das políticas ambientalistas do seu
animais nos oceanos, mas calma lá que é preciso ter E se formos sinceros é daquelas coisas que po- antecessor. Mas há algo que vai mais longe e que —
em conta que as palhinhas de cartão/papel ainda não diam desaparecer já da face da Terra. São essenciais do ponto de vista estratégico — não deixa de ser ad-
estão à altura do meu palato para substituir a gran- para pessoas com necessidades especiais. De resto, mirável que é fazer marketing com a sua renúncia à
deza funcional das de plástico para beber uma cola. podemos passar sem elas. As últimas palhinhas de Ciência ou com as suas próprias trapalhadas. Há dias
Não se podem perder certos prazeres sofisticados da papel que usei — de que me lembro — funcionaram o Presidente decidiu com um marcador preto alterar
vida. Ao fim de uns minutos as de papel começam a bem. Tenho a certeza que não tiveram nenhum im- um mapa dos serviços meteorológicos e dizer que o
desfazer-se e os pedaços de gelo começam a bloque- pacto no gosto. Agora temos uma questão: é que até furacão “Dorian” poderia passar pelo Alabama. A
ar e amassar a ponta. Nojo. Uma pessoa está a ver o as palhinhas — esse símbolo recente da desgraça que CNN e o “New York Times” ficaram loucos com esta
filme com o tubo entupido. Perturba. A indústria da está a acontecer ao Planeta — foram politizadas no politização da agência de previsão do tempo dado
palha vai ter que se esforçar mais para conquistar o pior sentido. que obrigaram os funcionários de topo a corroborar
difícil consumidor que sorve líquidos. E ninguém se Há que referir que o interesse todo por este único a mentira do Presidente. O que fizeram os homens
pergunta verdadeiramente se precisamos delas para item se deu por causa de um vídeo efetuado em 2015. que estão a gerir a campanha? Começaram a vender
alguma coisa? O sabor de uma cola choca perde-se Isto é do caraças. Umas imagens de uma tartaruga, “marcadores Trump”. Mas o maior êxito são mesmo
mesmo se não for bebido por uma palha? Ou é para retirada das águas da Costa Rica por investigadores, as “Palhinhas da Liberdade”. Um molho de palhas
que possamos emborcar quantidades maiores? Meio provocaram esta ira global à palha. A tartaruga per- vermelhas com a marca Trump que a campanha co-
litro? Um litro a ver um filme? tencia a um grupo em observação. A investigadora mercializa e que já renderam quase 900 milhões de
A discussão acaba por não ter grande impacto reparou em qualquer coisa no focinho da tartaruga dólares. De plástico, porque “as palhinhas de papel
por cá, dado que nem somos grandes ‘palhaólicos’. que parecia verme de qualquer espécie. Afinal, era socialistas não funcionam”. Numa cultura de guer-
Uma numa ida ao Mac. Outra no leitinho com cho- uma palhinha de plástico. No vídeo ouve-se a bióloga ra, Trump conseguiu transformar o uso da palhi-
colate. No cinema. Claro que quando se fala dos nor- marinha vociferar. Quando chegou a terra ponderou nha numa luta entre uma “sociedade que funciona,
te-americanos, o cenário raia o absurdo. Com este no que fazer. E decidiu colocar o vídeo no YouTube. mas está sob ataque”. E outra que é feita de papel e
tema de fundo, ficou a saber-se que desde os seus Em poucos dias tinha centenas de milhares de vi- se desfaz. Só que parece que as “suas” palhinhas de
primórdios a sede insaciável do capitalismo foi sendo sualizações. Hoje, tem dezenas de milhões. Foi este plástico vão encarecer 30% por causa das tarifas que
apaziguada por palhinhas. As fábricas do século XIX vídeo que deu início à grande guerra das palhinhas. o próprio colocou à China — de onde são importa-
distribuíam-nas nos bebedouros aos operários para Que no geral representam a mesma poluição marí- das. Trata-se desse conceito económico: “It’s Karma,
evitar contaminação de doenças. O púcaro comunal tima que os balões — esses ignorados. Mas o efeito bitch.” De resto, só tenho um conselho pra vocês, lei-
era altamente desaconselhável. Um só operário podia do vídeo foi de tal forma brutal que obrigou grandes tores. Desabafem-me essas palhinhas. Usem a bo-
passar uma doença a todos na hora de beber e pro- empresas a mudar comportamentos, da Starbucks à quinha. Não precisam disso pra nada. b
vocar quebras na produção. As palhinhas eram uma Disney. Não cortaram definitivamente as de plástico, lpnunesxxx@gmail.com

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DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA POR JOSÉ GAMEIRO
IMAGEM
DE MARCA
Os mitos da comunicação A Salsa celebra o seu 25.º aniversário
com a coleção outono-inverno Blue
Road 94, inspirada no percurso
É nos casais que a questão da comunicação que a marca tem vindo a percorrer

se põe de uma forma mais aguda desde que, em 1994, iniciou


atividade numa pequena garagem

A
em Vila Nova de Gaia. Um caminho
divulgação cientifica dos vários ramos do saber tem hoje uma forte
delineado a azul, a cor do denim, o
presença nos media. Qualquer investigação, mais séria ou menos
tecido que melhor caracteriza esta
séria, é replicada nos órgãos de comunicação, sobretudo nos escritos.
especialista em jeanswear.
Infelizmente nem sempre de uma forma critica, porque lhes falta, na maior parte,
E porque a ganga não vive sozinha,
jornalistas especializados nas diferentes áreas.
nas propostas para a nova estação,
A área da psiquiatria e da psicologia não foge a esta divulgação. Com o tempo e
encontramo-la misturada com
também com a responsabilidade dos técnicos, instalaram-se alguns mitos, que
outras cores e materiais, como a
foram sendo interiorizados sob a forma de conselhos sábios...
A necessidade da comunicação é um deles. bombazina, o tweed e as lãs, na
Nas famílias, nos casais, com os filhos, no trabalho. Qualquer problema seria procura do fit perfeito.
resolvido falando... Todo e qualquer “incidente” teria de ser conversado. Este mito é salsajeans.com
particularmente intenso nos casais.
As famílias modernas, por oposição às antigas, deveriam ser, fazendo uma
caricatura, uma espécie de reuniões permanentes em que tudo teria de ser
discutido e nada ficasse por falar. Os segredos deveriam ser desvendados,
esquecendo-se o seu papel fortemente homeostático nalgumas famílias. Muitos
A FRAGRÂNCIA
destes segredos são amplamente conhecidos, mas nunca falados. DA MULHER REBELDE
Poderão pensar, se todos o conhecem, porque não falam? Simplesmente porque a Há sempre um perfume Signorina, de Salvatore Ferragamo, para todos os
interpretação que cada um tem deles é diferente, e fazê-los vir à tona, poderia pôr tipos de mulher, seja ela romântica, misteriosa ou rebelde. Ribelle, com a
em causa a unidade da família. sua fragrância floriental-amadeirada de contrastes surpreendentes, é o mais
Mas é nos casais que a questão da comunicação se põe de uma forma mais aguda. recente lançamento desta icónica marca italiana, destinado a personalidades
Ouvimos frequentemente duas “leis”. O casal deve ser totalmente verdadeiro
femininas irreverentes e ousadas, que sabem viver com elegância, carisma e
e contar tudo um ao outro e qualquer desacordo tem de ser imediatamente
energia positiva. ferragamo.com
discutido sob pena de o conflito se agravar.
Há duas verdades na vida dos casais. A anterior à relação e a durante a relação.
Frequentemente na fase de namoro contam um ao outro as vidas passadas,
especialmente a vida amorosa. Com mais ou menos pormenores, mas por vezes
relatando relações que só o próprio, às vezes nem o próprio..., consegue entender.
Nessa altura tudo é diluído na fase de paixão e é aparentemente muito bem
aceite. Mais tarde podem arrepender-se, quando esses relatos são usados como
recriminações.
Naturalmente que durante a vida do casal cada um dos membros decide o que deve
contar ao outro, assim como cada casal define as regras, ou as intenções, do que dizer.
Um dos erros mais frequentes é, a seguir a um desacordo mais complicado, quererem
falar imediatamente. O risco de cada um se manter na sua é grande, levando ao
agravamento da situação. Algumas destas situações deixam de ter importância ao fim
de pouco tempo, outras, faladas mais tarde, perdem energia emocional e atenuam-se.
Os casais mais “sábios” são capazes, com o tempo, de aprender que terão sempre
desacordos não resolúveis e que quanto mais vezes falarem do que os distingue,
que é diferente do que os separa, maior é a sensação de desconforto. Ninguém
tem uma relação com um clone de si próprio. PARA O MENINO
O ultimo filme de Stanley Kubrick, “Olhos bem Fechados”, é uma representação
magistral de umas horas na vida de um casal que vive uma grave crise. Na cena final, E PARA A MENINA
depois de uma noite sem dormirem, cumprem a promessa que tinham feito à filha A pensar no regresso às aulas, a Boutique
de irem a uma loja de brinquedos. Os dois extenuados, com olheiras fundas, tentam dos Relógios propõe dois modelos para
dar atenção à criança, deslumbrada com tantos peluches. criança da marca Flik Flak. Com caixa
A mulher olha para o marido e pergunta-lhe, depois disto sabes o que é que e mostrador em plástico, o Balltime e o
devíamos fazer? Wow Love são superleves e têm um look
F... muito fun. Os dois relógios fazem parte
E o filme acaba. b da Story Time, uma coleção com
josemanuelgameiro@sapo.pt movimento suíço em quartzo analógico
que convida a ver as horas de forma
fácil e intuitiva. boutiquedosrelogios.pt

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PASSAT E M POS
POR MARCOS CRUZ

Sudoku Fácil Palavras cruzadas nº 2287

2 8
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
1 6
1 2 1
5 6 9 7 8 3 4
2
7 3 4 8 5 9
8 2 4 9 1 6 7 3
7 4
4
1 6
9 8 5

Sudoku Difícil 6
1 7 2 9 6
7
9 8
5 8 3 8
7
9
2 5 6 4
3 10
3 9 2
6 1 11
9 5 7 1 8
Horizontais Verticais Soluções nº2286
1. Passa o tempo a mastigar 2. O rei 1. Funciona nos dois sentidos HORIZONTAIS
Soluções Juan Carlos. Protege do sol 3. Usa mais 2. Articula-se pelo ombro e cotovelo. 1. Malvinas; ap
Fácil Difícil a cabeça que o coração. A hiena fá-lo Cantor da banda 3. Pico dos Himalaias. 2. exaurida; lê 3. ti;
lamentos 4. ronco;te
1 5 4 7 2 8 6 3 9 8 3 4 1 7 6 2 5 9
4. Na fronteira do País Basco com Captura imagens 4. Uma das horas
5. om; coesão
3 7 6 9 5 1 2 8 4 9 1 7 2 5 4 3 6 8
a França. Na parte mais funda (pl.) na mitologia grega. O quente sobe
6. patologista 7. atirar
2 8 9 3 4 6 7 5 1 5 6 2 8 9 3 1 7 4
7 6 1 5 9 3 4 2 8 3 2 9 7 4 8 6 1 5 5. Atravessa Itália. Leva-nos 5. Identifica a conta bancária. Procura-
8. lãs; Tavola 9. imolada;
9 2 5 8 6 4 3 1 7 7 4 8 6 1 5 9 2 3 a pôr no lugar dos outros -se-lhe o fio 6. Gaudí foi-o por um
caos 11. AN; casta
4 3 8 1 7 2 9 6 5 1 5 6 9 3 2 4 8 7 6. É mole no meio 7. Uma é negativa. elétrico 7. Hora canónica. Ladra sem
6 9 2 4 1 5 8 7 3 2 7 1 3 8 9 5 4 6
Exprime grande alegria 8. Sem ela não princípio nem fim 8. Estuda rochas VERTICAIS
se sobrevive. Dois nas pontas 9. As pontas da estaca. Companheiro 1. metropolita 2.
5 4 3 6 8 7 1 9 2 4 8 3 5 6 1 7 9 2

axioma; ámen 3. lá; som


8 1 7 2 3 9 5 4 6 6 9 5 4 2 7 8 3 1
9. Sem interior. Expressões que incluem de Tintim. Uma das Cíclades 10. Pão
uma moralidade 10. Pedra de altar. de milho. Já está na terceira idade 4. vulcão; LIC 5. Irão;
Detestável 11. Sem dúvida. As campas 11. Progenitores. Dão-se a andar latada 6. nim; cotados
mais simples 7. ade; ogiva 8. santeiro;
Palavras Cruzadas Premiados do nº 2285 cã 9. Tessália 10. alô;
“Testa os Teus Limites”, de João Macedo, para atrasos 11. Pessoa; es
Benvinda Silva Lopes, de Estarreja; “Os Paraísos
Artificiais”, de Charles Baudelaire, para Fernando
Oliveira, de Coruche; “As Batalhas do Caia”, de
Mário Cláudio, para Matilde Sofia, de Nelas. Participe no passatempo das Palavras Cruzadas enviando as soluções por correio para
Rua Calvet de Magalhães, 242, 2770-022 Paço de Arcos ou por e-mail para passatempos@expresso.impresa.pt

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10 PERGUNTAS A...

ADRIANA
CALCANHOTTO
“O POPULISMO
PREFERE
JULGAR A
DISCUTIR”
1. JÁ ESTAMOS A ACORDAR PARA ESTE
IMINENTE APOCALIPSE ECOLÓGICO?
Creio que sim, as crianças e adolescentes estão muito
mais acordados e atentos do que a grande maioria
dos adultos. Gretha Thunberg, por exemplo, me dá
esperanças da reversão do estado de calamidade em que
o planeta se encontra, e mais do que isso, me faz acreditar
na criação de uma mentalidade nova.

2. A SINTONIA COM O ESTADO DO PLANETA


DEVIA SER UMA DISCIPLINA OBRIGATÓRIA NA
ESCOLA?
Sim, mas não só, também em casa, na família, nas igrejas,
no ginásio, nas ruas. Para mim o cerne do problema está na

JOSÉ CARIA
crença antropocentrista, que é falha e está ultrapassada.

3. COMO ACOMPANHA O QUE SE PASSA NA


AMAZÓNIA?
Com horror, vergonha e indignação. É muito difícil Cantora, compositora,
acreditar que chegámos a este ponto de destruição. escritora. Dá aulas na
Considerando os dados conhecidos desde os anos Sem dúvida, ajuda-me a afastar a lente e olhar para as Universidade de
70, é inaceitável essa proporção de desmatamento questões do Brasil por um ângulo mais difícil de se obter
desenfreado ocorrendo hoje. Além do retrocesso quando se está a vivenciar as situações e as experiências,
Coimbra sobre a escrita
gigantesco é chocante constatar que os que desmatam e com o foco principal na sobrevivência física, mental, de canções. Editou este
as autoridades coniventes não estão sequer a pensar no social, moral e filosófica. É doído viver num país tão ano o álbum “Margem”
futuro de seus netos e bisnetos. desigual cujo governo parece fazer de tudo para torná-lo
ainda mais desigual e injusto.
4. O BRASIL VIVE EM EBULIÇÃO POLÍTICA INÊS MARIA
CONSTANTE. CONSEGUE PERCEBER O QUE É 7. O QUE A FASCINA NO ENSINO? MENESES
QUE O POVO QUER? O facto de ser inesgotável é o mais fascinante para mim.
Depois da última eleição presidencial preciso admitir que não
faço a menor ideia do que o povo brasileiro de facto queira. 8. NUMA CANÇÃO, UMA MELODIA VALE MAIS
DO QUE MIL PALAVRAS?
5. O POPULISMO TENDE A AUMENTAR. A NET É Nem sempre, a meu ver uma excelente melodia com uma
O MAIOR LANÇA-CHAMAS? letra fraca, ou vice-versa, considerando que a canção é
Não sei dizer se é o maior, mas é sim um grande lança- uma construção resultante do equilíbrio entre música e
chamas, devido aos robôs, às fake news e ao facto de que letra, pode constituir um edifício bem torto. Falo muito
as pessoas utilizam-se (e gostam muito) do anonimato sobre isso com meus alunos.
para destilar seus ódios, inteiramente desinteressadas
das verdadeiras discussões a respeito dos temas mais 9. COMO NÃO SE PERDE A CAPACIDADE DA
importantes do mundo contemporâneo. O populismo REINVENÇÃO?
prefere julgar a discutir, parece-me. Acho que tendo sempre em mente o quão necessária ela
é para se continuar em movimento.
6. ESTAR EM PORTUGAL TRAZ-LHE PAZ E UM
OUTRO OLHAR SOBRE O QUE SE PASSA DO 10. DO QUE TEM SAUDADES?
LADO DE LÁ? Do meu pai. b

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FRACO CONSOLO
Marcel Proust
em 1895

/ PEDRO
MEXIA

OTTO WEGENER
H
PROUST, GONCOURT
PROUST SABIA de um autor jovem? Proust é acusado de todas as infracções estéticas e
éticas do catálogo. Literatice, pretensiosismo, onanismo sentimental,
MUITÍSSIMO BEM tédio terminal, solipsismo tenebroso, grafomania, diletantismo,
QUE A LITERATURA masturbação intelectual, stendhalianismo castrado, encefalia letárgica,
MUITAS VEZES NÃO ilegibilidade, classismo, reaccionarismo, snobismo, futilidade,
perversidade. Os jornais descrevem-no como um anacoreta bizarro e
TEM NADA A VER inquietante, fazem-no mais velho do que é (as fotografias que ilustram os
COM A LITERATURA artigos, velhas de vinte e cinco anos, dão dele uma imagem oitocentista),
publicam pastiches, versos satíricos, insinuações soezes.
á cem anos, Proust ganhou o Incomodado, Proust comentou que muita daquela hostilidade nada tinha
Goncourt. Isso pouco importa, a ver com literatura. Tanto mais que alguns detractores mencionavam o
talvez, mas para Proust facto de ele ser amigo de um membro do júri, Léon Daudet. Ficcionista,
importava. Tanto que fez jornalista, político, Daudet era um monárquico católico e nacionalista
campanha activa, escrevendo que colaborava na “Action Française” e se intitulava “o homem mais
cartas, enviando livros reaccionário do mundo”. Mas se este defendeu incansavelmente o
com dedicatórias amáveis, seu amigo judeu, “dreyfusard” e homossexual, defendeu-o, como se
promovendo encontros e jantares, em busca de uma visibilidade que compreende, por motivos literários: “Por detrás de todo o labor de um
nunca tivera. grande escritor, como este, existe um génio, um “daimon”, vigilante
Concebido por Jules e Edmond Goncourt, autores do célebre “Journal”, e sonhador, que construiu um mundo à sua medida e procura ligar
e atribuído desde 1903, o prémio, que se tornou o mais prestigiado esse mundo ao mundo exterior, essa conjectura às suas imagens,
galardão literário francês, quis ao mesmo tempo promover o romance incorporando os prestígios longínquos e os pressentimentos”.
(género, à época, menos prestigiado do que a poesia) e fundar uma Politicamente, Proust era mais progressista do que conservador. Mas é
Academia alternativa. Mas a primeira apoteose do Goncourt aconteceu indesmentível que gostava de escrever sobre as classes abastadas e as
com o “motim” de 1919, como lhe chama Thierry Laget em “Proust, profundidades do “eu”, imperdoáveis tiques “de direita”, sobretudo
Prix Goncourt” (Gallimard, 2019). Porquê um motim? É fácil explicar. quando comparados com os testemunhos austeros e sofridos de
A Grande Guerra terminara um ano antes, e a guerra tornou-se veteranos de guerra como Barbusse e Dorgelès. E em 1919 Proust já sabia
naturalmente o tema nobre da literatura. O mais significativo romance muitíssimo bem que a literatura muitas vezes não tem nada a ver com
das trincheiras, “Le Feu”, de Henri Barbusse, tinha vencido o Goncourt a literatura. Um dos autores que agora o elogiava, André Gide, tinha
de 1916. E em 1919 o favorito era “Les Croix de bois”, de outro ex- rejeitado em 1912 o manuscrito de “Do Lado de Swann” por considerar
combatente, Roland Dorgelès. Laget lembra que o termo “romance” o autor um mundano desinteressante, parecer que depois confessou
compreendia então muitos subgéneros, o romance psicológico, o ter sido um dos grandes erros da sua vida. Daudet, por seu lado, nunca
decadentista, o simbolista, o histórico, o colonial, o romance de esteve tão certo como no Goncourt de 1919. b
antecipação, mas que a guerra tinha dado um segundo fôlego ao pedromexia@gmail.com
romance naturalista, do qual os irmãos Goncourt foram aliás adeptos e Pedro Mexia escreve de acordo com a antiga ortografia
praticantes. Em 1919, “Les Croix de bois” representava a ideia maioritária
do que devia ser um romance, ou do que devia ser um romance naquele
momento histórico, depois de uma experiência colectiva traumática.
Proust estava nos antípodas desse naturalismo cívico. Há anos fechado
num quarto, por motivos de saúde e concentração, tinha publicado
dois volumes da “Recherche”, obras que tanto os admiradores como os
detractores descreviam como exemplos de hipermnésia e hiperestesia,
longuíssima e intrincada elocubração sobre as minúcias do “eu” e
os mecanismos da memória. Era improvável que um júri literário se
lembrasse dele. E impensável que o preferisse a Dorgelès. Mas foi isso que
aconteceu quando os jurados do Goncourt escolheram “À Sombra das
Raparigas em Flor”, seis votos contra quatro para Dorgelès.
A imprensa parisiense reagiu, primeiro com espanto, depois com
estrépito indignado. Como se admitia que o narcisismo vencesse o
heroísmo? Como se justificava atribuir cinco mil francos a um escritor
sem dificuldades financeiras e não a um confrade mais modesto? Como
se explicava esta recompensa a um quase cinquentão em detrimento

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