Sie sind auf Seite 1von 194

CULTURA RELIGIOSA

Conselho Editorial EAD


Dóris Cristina Gedrat (coordenadora)
Mara Lúcia Machado
José Édil de Lima Alves
Astomiro Romais
Andrea Eick

Obra organizada pela Universidade Luterana do


Brasil. Informamos que é de inteira responsabilidade
dos autores a emissão de conceitos.
A violação dos direitos autorais é crime estabelecido
na Lei nº 610/98 e punido pelo Artigo 184 do Código
Penal.

ISBN:
Edição Revisada
APRESENTAÇÃO

Prezado aluno,

A experiência de mais de 16 anos de docência tem mostrado o


fascínio dessa disciplina. O começo sempre é difícil. Existe uma
resistência natural do aluno em estudar os conteúdos. O pré-
conceito fica claro quando se define a disciplina como aula de reli-
gião. Outros ainda pensam em catequese. Mas não será esse o nos-
so objetivo. Vamos caminhar com cada um de vocês no sentido de
construir uma reflexão madura sobre a vivência e o comportamen-
to religioso das pessoas e a influência que a religião exerce sobre a
vida de cada um de nós.

Ao final de cada semestre, ficamos surpresos com a reação dos


alunos. A maioria considera a disciplina muito interessante. É claro
que alguns resistentes ficam indiferentes, pois não tiveram a cora-
gem de abrir o coração e aceitar conceitos essenciais para se viver
uma boa vida. Respeitamos esses posicionamentos.

A ULBRA é uma universidade confessional. Está ligada a uma


instituição religiosa. Mas nem por isso queremos impor o que pen-
samos. Vamos apenas debater. Se pudermos ajudar-lhe com essa
reflexão, com certeza o faremos.

Você irá encontrar neste livro um panorama das maiores religiões


do mundo. Notará a pluralidade religiosa e terá uma ideia da ri-
queza de pensamento e valores das religiões estudadas. Também
iremos estudar mais detalhadamente o cristianismo e a Reforma
luterana, pois são movimentos que influenciaram diretamente na
existência da Universidade Luterana do Brasil. Por fim, sempre é
hora de estudar ética. Particularmente a ética cristã e os valores que
ela pode acrescentar na vida de cada um de nós.
6 Nessa caminhada, muitos dos textos têm a participação de profes-
sores de Cultura Religiosa que nestes 15 anos estão ao nosso lado.
Citamos aqui Ronaldo Steffen, Jonas Dietrich, Valter Kuchenbec-
ker, Egon Seibert, Ricardo Rieth, Valter Steyer, Thomas Heimann,
Nereu Haag e Bruno Muller. Além desses, não podemos deixar de
citar o capelão geral da ULBRA, pastor Gerhard Grasel, e o diretor
do curso de Teologia da universidade, pastor Leopoldo Heimann.
São pessoas que têm ajudado não somente a construir essa trajetó-
ria em Cultura Religiosa como têm colaborado com o aprofunda-
mento da reflexão e ajudado muitas pessoas.

Prof. Douglas Moacir Flor


SOBRE O AUTOR

Paulo Augusto Seifert

É mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio


Grande do Sul (PUCRS) e bacharel em Teologia pela Escola Superi-
or de Teologia do Seminário Concórdia (RS) e em Filosofia pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).É professor
nos cursos de Teologia e Filosofia da Universidade Luterana do
Brasil (ULBRA).

Ronaldo Steffen

É bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia do Semi-


nário Concórdia (RS) e professor do Curso de Teologia da Univer-
sidade Luterana do Brasil (ULBRA).

Douglas Moacir Flor

É pós-graduado em Administração e Planejamento para Docentes


pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) , e bacharel em
Jornalismo pela Unisinos (RS) e em Teologia pela Escola Superior
de Teologia do Seminário concórdia (RS).É professor nos cursos de
Comunicação e Teologia da ULBRA.

Thomas Heimann

É mestre em Teologia pela Escola Superior de Teologia do Instituto


Ecumênico de Pós-Graduação- IEPG (RS), pós-graduado em Psico-
pedagogia pelas Faculdades Integradas de Amparo (SP) , graduado
em Psicologia pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) e
bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia do Seminá-
rio Concórdia (RS). É professor do Curso de Teologia da ULBRA e
do Curso de Teologia da Escola Superior de Teologia (RS).
SUMÁRIO

1 O FENÔMENO RELIGIOSO ............................................................................... 13

1.1 A religião no dia-a-dia ............................................................................. 14

2 HINDUÍSMO .................................................................................................. 33

2.1 História .................................................................................................. 33

2.2 Ensinamentos ......................................................................................... 34

2.3 Principais tendências.............................................................................. 41

3 BUDISMO ...................................................................................................... 44

3.1 História .................................................................................................. 45

3.2 Ensinamentos ......................................................................................... 46

3.3 Principais tendências.............................................................................. 50

4 ISLAMISMO .................................................................................................. 52

4.1 História .................................................................................................. 52

4.2 Ensinamentos ......................................................................................... 56

4.3 Principais tendências.............................................................................. 60

5 JUDAÍSMO..................................................................................................... 61

5.1 História .................................................................................................. 61

5.2 Ensinamentos ......................................................................................... 64

5.3 Principais tendências.............................................................................. 69

6 CONFUCIONISMO, XINTOÍSMO E TAOÍSMO ...................................................... 70

6.1 Confucionismo ........................................................................................ 70


10
6.2 Xintoísmo ............................................................................................... 77

6.3 Taoísmo .................................................................................................. 79

7 CRISTIANISMO .............................................................................................. 85

7.1 História .................................................................................................. 85

7.2 Ensinamentos ......................................................................................... 94

8 A MENSAGEM CRISTÃ ATRAVÉS DAS PARÁBOLAS DE JESUS ........................... 101

8.1 A Bíblia, o livro sagrado do cristianismo ................................................. 101

9 LUTERO E A REFORMA .................................................................................. 108

9.1 Lutero e a Reforma Luterana .................................................................. 108

9.2 Igrejas cristãs de tradição reformada ..................................................... 114

9.3 Outras tradições religiosas .................................................................... 116

10 IGREJA LUTERANA E EDUCAÇÃO ................................................................. 122

10.1 O passado........................................................................................... 122

10.2 O presente .......................................................................................... 129

10.3 O futuro .............................................................................................. 134

11 AS RELIGIÕES NO BRASIL........................................................................... 135

11.1Catolicismo ......................................................................................... 135

11.2 Protestantismo de imigração ............................................................... 137

11.3 Protestantismo de conversão ............................................................... 137

11.4 Pentecostalismo ................................................................................. 138

11.5 Outras tradições religiosas .................................................................. 139

11.6 Espiritismo ......................................................................................... 140

11.7 Cultos afro-brasileiros ......................................................................... 144

12 CULPA E PERDÃO: UMA QUESTÃO EXISTÊNCIAL........................................... 152

12.1 A universalidade da culpa .................................................................... 152

12.2 Origem da culpa .................................................................................. 153

12.3 Culpa: um sentimento negativo ou positivo? ......................................... 154


11
12.4 Culpa e pagamento ............................................................................. 156

12.5 Culpa e religião ................................................................................... 157

12.6 Culpa e perdão.................................................................................... 160

13 A RELAÇÃO ENTRE FÉ E SAÚDE ................................................................... 163

13.1 Análise de um fenômeno religioso: doença mental ou possessão?Uma


interpretação de práticas de libertação espiritual e exorcismo numa ótica
multidisciplinar .......................................................................................... 165

13.2 Conclusão .......................................................................................... 171

14 ÉTICA ........................................................................................................ 173

14.1Ética e moral ....................................................................................... 173

14.2Valores ................................................................................................ 174

14.3 Consciência ........................................................................................ 177

14.4 Direito positivo e senso de justiça ........................................................ 177

14.5 Responsabilidade ............................................................................... 178

14.6 Livre-arbítrio ....................................................................................... 178

14.7 Ética religiosa e social ........................................................................ 179

14.8 Ética religiosa cristã ........................................................................... 180

14.9 Moral religiosa cristã .......................................................................... 183

14.10 Ética social cristã ............................................................................. 184

15 ÉTICA SOCIAL CRISTÃ APLICADA ................................................................ 185

15.1 Amor-próprio ...................................................................................... 185

15.2 Responsabilidade social...................................................................... 186

15.3 Bioética.............................................................................................. 187

15.4 Casamento ......................................................................................... 187

15.5 Controle da natalidade ........................................................................ 188

15.6 Inseminação ....................................................................................... 189

15.7 Aborto ................................................................................................ 189

15.8 Eutanásia ........................................................................................... 189


12
15.9 Pena de morte..................................................................................... 190

15.10 Ecologia ........................................................................................... 190

REFERÊNCIAS ................................................................................................ 192


1
Paulo Augusto Seifert
O FENÔMENO RELIGIOSO E A
EXPERIÊNCIA DO SAGRADO

Ronaldo Steffen

O desafio está posto: estudar religiões na universidade. A experiência


tem demonstrado que não há unanimidade na aceitação da disciplina,
pelo menos a princípio. Há resistências das mais diversas ordens. Des-
de as econômicas até as de informação técnica, que não percebem, na
disciplina, nenhum acréscimo para a complementação do curso em
que o aluno está matriculado. Vez que outra, rompem ainda as ques-
tões pertinentes à fé ou a ausência dela, professada pelo aluno e diver-
gente daquilo que imagina que irá ocorrer na disciplina.

O repto está assentado. Não há como voltar atrás. É prerrogativa da


universidade. Recuar ou enfrentar é o elemento determinante. A essa
altura, permita-nos contribuir para a sua decisão a partir de algumas
considerações.

Damos o braço a torcer e damos razão a você que tem resistência a essa
disciplina sob a alegação que ela não contribui e nem acrescentará
nada a sua formação técnica. Com exceção feita aos alunos matricula-
dos no curso de Teologia, e para quem as informações da disciplina
podem ser enquadradas como elementos técnicos importantes ao exer-
cício da função, não é pretensão da disciplina acrescentar informações
técnicas específicas a nenhum outro curso.

Estamos em sintonia com aqueles que vislumbram algum valor nas


questões religiosas, mas discordamos da análise puramente histórica
dos movimentos religiosos. Acreditamos que a universidade é espaço
privilegiado para o aprofundamento das ideias. Escapar da linha histó-
rica de tempo e aprofundar ideias parece-nos um caminho concreto
com vistas à busca da compreensão do Universo e do ser humano a
partir das percepções espirituais e religiosas.
14
Lamentamos discordar daqueles que esperam que a disciplina seja um
manual de catequese com vistas à conversão dos alunos ao cristianis-
mo luterano. A plural sala de aula não é o espaço da catequese. É, sim,
o momento de expor ideias, confrontar razões, trocar experiências,
colocar os contraditórios e trocar vivências. É o espaço do encantamen-
to com os caminhos que o ser humano tem construído ao longo de sua
existência na tentativa de encontrar respostas religiosas satisfatórias a
sua origem e ao seu destino.

O que pretendemos é analisar os diversos cultos e práticas religiosas


existentes no mundo considerando a confissão religiosa da instituição
ULBRA (cristã luterana) como proposta ética para a sociedade na qual
vivemos.

Assim definido, o núcleo da disciplina está assentado no ser humano,


singular e plural. Seja qual for o curso escolhido, não se pode escapar
do fato inconteste de que não realizaremos nossas funções profissio-
nais de forma isolada. A vida é relacional: ou interagimos, ou rejeita-
mos, ou, ainda, buscamos compreender as razões alheias com o fim do
bem-viver socialmente.

Nessa perspectiva, não se pode ignorar que convivemos com seres


humanos que possuem individualidades, independentes dos cursos
profissionais para os quais se preparam.

Respeitamos a confessionalidade de nossos alunos. Pretendemos, sim-


plesmente, propor os valores ético-cristãos como alternativa de vida,
individual e social: o fenômeno religioso.

1.1 A religião no dia-a-dia


De algum modo, manifestações de natureza religiosa têm estado pre-
sentes no nosso cotidiano. Pode-se, sem entrar em detalhes por ora,
mencionar algumas áreas, alguns eventos e algumas práticas pessoais
e sociais marcadas por ideias, ritos e símbolos consagrados ao campo
religioso.

Observem-se, de forma resumida, práticas familiares ligadas à tradição


religiosa, como o casamento, o batismo, a morte e o velamento; com-
portamentos de ordem pessoal, regrados por normas morais ditadas
por alguma tradição religiosa; o comportamento de busca de ajuda
divina diante de qualquer doença ou de situações difíceis na vida.

As relações sociais mais amplas também estão marcadas por imperati-


vos de ordem religiosa: no esporte, estamos acostumados, marcada-
15
mente no futebol, à cena de uma oração conjunta antes da entrada no
campo; no campo musical, não são raras as menções que se fazem a
personagens religiosos e até mesmo a sentimentos de ordem religiosa;
no campo das artes, somos conduzidos a milhares de imagens nota-
damente carregadas de simbolismo religioso dos mais diversos mati-
zes; a literatura de natureza religiosa não tem deixado por menos e
tem sido o mercado que mais cresce em termos de editoria nos últimos
anos; adornos com diversos fins têm sido pautados por motivos religi-
osos; o cinema tem sido pródigo nas temáticas de ordem religiosa; as
novelas, fenômeno brasileiro que ganha o mundo, jamais tem deixado
de lado alguma alusão, personagem e até mesmo a temática central
ligada a fatos eminentemente religiosos; o papel-moeda, seja o dólar
ou o real, tem feito menção a uma divindade; nossas vestimentas são
conduzidas por modismos, de estilo ou de cores ou de tamanho em
grande parte determinados por concepções religiosas; nossa alimenta-
ção está em grande parte determinada por elementos de ordem religio-
sa; o modo de expressar nossas ideias através da linguagem é, igual-
mente, em grande parte, determinada por formas religiosas; o turismo
religioso é hoje um grande filão na arrecadação de divisas para um
município; a educação é fortemente marcada pelos valores que ela
prega, quase sempre idênticos aos valores de ordem religiosa; a área
da saúde, as ações que envolvem a dor, a vida e a morte foram e ainda
são construídas com suporte religioso; nosso calendário, suas datas
festivas e grandes eventos têm sua origem no meio eclesiástico; as
diversas áreas do conhecimento humano, de uma ou de outra maneira,
têm-se ocupado com a temática religiosa, como a filosofia, a psicologia,
a sociologia, a antropologia, a história, a medicina, a física, a arqueolo-
gia, a geografia e assim por diante.

Apesar das diferentes atitudes de repulsa que caracterizam a negação


dos elementos religiosos, as menções apontam para o fato do ser hu-
mano buscar ligar-se ao Transcendente como se mantivesse uma liga-
ção umbilical da qual retira os elementos vitais para a sua existência.

A questão que se coloca é a de como compreender essas ligações. Qual


o fundamento capaz de sustentar uma avaliação compreensiva da
junção ser humano - Transcendente? Há muitas possibilidades viáveis,
tanto a partir das diferentes perspectivas e entendimentos religiosos
quanto de escolas de reflexão filosófica.

Além disso, importa considerar a relação que há, ou pode haver, entre
a religião e as manifestações importantes do espírito humano. A título
de introdução, consideremos como se relacionam religião e filosofia,
religião e ciência, religião e moral, religião e teologia.
16
Religião e filosofia

O que tem a filosofia a ver com a religião? Essa é uma pergunta impor-
tante e cuja resposta não é óbvia ou simples. Ao longo da história do
pensamento humano, vemos cooperação e competição entre ambas.
Em certo sentido, a cooperação e a competição pressupõem a mesma
concepção: a de que compete à razão filosófica provar a veracidade das
ideias religiosas. Ou, dito de outra maneira, que compete à razão filo-
sófica determinar se religião e superstição são a mesma coisa ou se são
coisas distintas e separáveis.

Posta a questão dessa maneira, temos duas respostas possíveis: ou a


filosofia apresenta provas de que a religião é verdadeira ou a filosofia
apresenta provas de que a religião não é verdadeira. Se for o primeiro
caso, dizemos que há entre ambas cooperação; se for o segundo, que há
competição. Quando se fala em provas, significa que qualquer pessoa
racional deve concordar com o argumento, mesmo que não seja um
argumento demonstrativo ao estilo da matemática, cujos cálculos, se
bem feitos, dão um único resultado, e o sujeito que não percebe ou não
concorda com o resultado é incapaz (um exemplo simples: 3 x 3 =
9, e não faria nenhum sentido alguém dizer: "Para você; para mim é
8").

O argumento deveria ser cognitivamente convincente. Aquele que não


concorda com a conclusão, ou não compreende o argumento, ou está
agindo de má-fé.

Onde, porém, buscar tais provas? Historicamente, têm sido elas busca-
das no raciocínio abstrato, na análise e comparação de ideias, na expe-
riência sensorial, no senso comum, nas explicações científicas, no sen-
timento moral. Diversos os pontos de partida, similaridade no modo
de argumentar. Parte-se de elementos geralmente aceitos e, se for o
caso, de verdades evidentes ou necessárias (que não podem ser nega-
das), aplicam-se as regras básicas do raciocínio lógico, seja dedutivo ou
indutivo, alcançando-se uma conclusão. Tal como se faz nos raciocí-
nios comuns ou nos científicos. Se o propósito é mostrar que a filosofia
justifica a religião e prova a existência de Deus (ou da realidade últi-
ma), temos os argumentos ontológicos, teleológicos, cosmológicos,
morais. Se o propósito é mostrar que a filosofia refuta a religião e pro-
va que Deus não existe, temos os argumentos do mal, os argumentos
evidencialistas, etc.

Exemplo do primeiro tipo: observamos que a natureza exibe ordem e


finalidade, como se fosse, por exemplo, uma grande máquina na qual
as partes se ajustam umas às outras perfeitamente, de forma a fazer o
17
todo funcionar. Na nossa experiência, sempre que há ordem e finali-
dade em algo, tal objeto foi pensado e realizado por uma mente inteli-
gente. Logo, a ordem e finalidade que observamos no Universo indi-
cam a existência de um criador inteligente. Este se chama Deus. Logo,
Deus existe. Exemplo do segundo tipo: observamos que há muitos e
diversos males no Universo. Se Deus fosse bom, ele desejaria eliminar
todo o mal; se fosse onipotente, ele o faria. Como o mal existe, Deus
não é onipotente ou não é bom, ou ambos. Como a religião afirma que
Deus é bom e onipotente, logo Deus não existe.

Mesmo aceitando que essa é a tarefa da filosofia, isso não quer dizer
que o filósofo acredita que é assim que as pessoas aceitam ou recusam
uma religião, com base em argumentos. As religiões seguem seu cami-
nho independentemente disso, e a preocupação com argumentos justi-
ficadores é, quando muito, secundária. Mas os argumentos mostrariam
se as pessoas são racionais na sua crença. Por outro lado, pode ser que
o pressuposto básico esteja errado, e não compete à filosofia funda-
mentar ou provar a verdade das crenças religiosas básicas. A tarefa da
filosofia, em relação à religião, seria mais modesta. Atualmente, muitos
filósofos, tendo em vista o desenvolvimento histórico das explicações
filosóficas, julgam que a filosofia pode ajudar a melhor compreender
as ideias religiosas e auxiliar as religiões a se livrarem de alguns ele-
mentos supersticiosos indevidamente acrescentados à fé básica, espe-
cialmente aqueles relacionados a confusões conceituais derivadas de
um uso inadequado da linguagem ou à compreensão equivocada das
teorias e hipóteses científicas, ou a preconceitos de natureza não religi-
osa. Essa abordagem tem mostrado-se mais produtiva do que as outras
duas opções.

Religião e ciência

E quanto à relação entre religião e ciência? Na maioria das vezes,


quando isso é discutido, por ciência entendem-se as ciências naturais,
como física, química, biologia. Há quem julgue que certas teorias cien-
tíficas estão em direta contradição com a crença religiosa. Um exemplo
contemporâneo pode ser encontrado na discussão entre evolucionismo
e a teoria do desígnio inteligente, ou criacionismo. Se olharmos para o
passado, este era o juízo feito por alguns acerca da relação entre helio-
centrismo e o relato bíblico cristão sobre a criação e o papel do ser
humano nela. Críticos religiosos do heliocentrismo, à época, julgavam
que a teoria geocêntrica era, essa sim, compatível com a crença cristã,
enquanto sua alternativa, incompatível. Hoje, nem mesmo grupos
fundamentalistas percebem uma contradição, e muito menos as igrejas
tradicionais ou os cientistas ateus ou agnósticos.
18
A situação com o evolucionismo é, sem dúvida, um pouco mais com-
plicada. Pode-se, no entanto, dizer que isso se deve em boa parte às
consequências filosóficas, morais, teológicas extraídas por alguns de
seus defensores. Se esse tipo de argumento for legítimo, há um confli-
to. Por outro lado, também parece que esse conflito é alimentado por
uma interpretação literalista em demasia dos textos sagrados. Isso
indica depender o conflito de certas concepções do alcance das teorias
científicas (concepções essas que não são científicas no mesmo sentido
em que o são as teorias) e de concepções hermenêuticas acerca de co-
mo deve ser entendida a revelação.

Contudo, tanto há teólogos quanto cientistas (crentes ou descrentes)


que sustentam serem a ciência e a religião duas esferas explicativas
completamente independentes e sem relação. Assim, não há como
surgir qualquer conflito. É preciso preservar a integridade de cada
esfera. Erram os teólogos que supõem poder extrair hipóteses científi-
cas dos relatos bíblicos (no caso do cristianismo, mas o mesmo raciocí-
nio se aplica a qualquer outra religião que tenha texto sagrado), e er-
ram os cientistas que supõem poder extrair consequências morais,
filosóficas ou religiosas das teorias e hipóteses científicas. Água e óleo
não se misturam, mas, por isso mesmo, não são incompatíveis, e um
não anula o outro.

Essa tese da independência ou da integridade da ciência e da teologia


pode ser mantida sem, no entanto, afirmar que são duas esferas com-
pletamente separadas. Uma terceira abordagem sustenta a necessidade
de integrar religião (ou, talvez melhor, teologia) e ciência em uma
explicação mais abrangente. Essa integração seria sempre historica-
mente condicionada, podendo e devendo ser revisada, na medida em
que se alteram e progridem ambas as esferas.

Essas considerações mostram que o conflito entre ciência e religião, ou


o uso da ciência na religião, ou o uso da religião na ciência, não é algo
que deva ser simplesmente aceito ou recusado. É preciso considerar
atentamente qual teoria científica se tem em mente, qual interpretação
teológica é suposta e qual visão geral da relação entre ambas é pressu-
posta.

Religião e moral

Algo que chama a atenção de quem participa ou observa as religiões é


a íntima conexão destas com a moral. Muitos procedimentos e discur-
sos religiosos (praticados no âmbito das religiões organizadas, especi-
almente) parecem consistir em admoestações para que as pessoas cor-
rijam seu modo de vida e passem a agir de acordo com códigos morais
19
mais estritos, que não se restringem a proibir determinados atos, mas
também exigem do crente ações positivas, de auxílio aos doentes, aos
necessitados, por exemplo. Mesmo que haja diferença (embora não tão
acentuada) entre os códigos morais professados por diferentes religi-
ões, não há como afirmar que essa relação seja meramente circunstan-
cial, como parece ser o caso da relação entre ciência (especialmente as
chamadas ciências naturais) e moral. Como podemos explicar essa
conexão íntima?

Uma proposta de explicação procura reduzir a religião à moral. Isso


significa dizer que o significado essencial da religião encontra-se na
moralidade. A religião consistiria em uma forma disfarçada ou mais
eficiente de induzir as pessoas a um comportamento ético desejável.
Alguns pensadores sugeriram que há uma similaridade entre o papel
das religiões e o ensinamento moral de uma criança. Assim como se
faz necessário por vezes ensinar bons modos a uma criança na base de
punições ou estórias fantasiosas, há pessoas (e são elas muitas) que
precisam receber as ideias morais acompanhadas de alguma estória
cósmica ou divina. Caso contrário, não compreenderão e não se sub-
meterão à norma moral. Mas uma vez que se tornam maduras e autô-
nomas, percebem que a moral se mantém por si mesma. Podem, então,
abandonar a religião.

Esse tipo de explicação pressupõe a falsidade das estórias e/ou ideias


religiosas. Se aceita por alguém, esta pessoa deixa de ser, em um senti-
do mais forte, religiosa. Esse resultado não quer dizer que a explicação
esteja equivocada. Contudo, podem ser mencionadas outras objeções
que mostrariam a inadequação de tal hipótese. Primeiro, não faz jus ao
fenômeno religioso. Mesmo que a moral seja parte integrante das reli-
giões, não é tida como única, nem como a principal. Outros elementos
importantes são a estética, os ritos, os mistérios, a ação de Deus na
história (no caso das religiões teístas). E, prestando atenção ao discurso
religioso como tal, o que parece ser o mais importante está naquilo que
se poderia chamar de 'realidade última', o verdadeiro por trás das
aparências, o efetivamente real, o fundamento de tudo que existe (va-
mos chamar isso de 'o elemento metafísico'). Por exemplo, no cristia-
nismo considera-se como o mais importante saber quem é Deus, quais
seus atributos, qual sua relação conosco. Se o Deus cristão fosse apenas
um princípio moral, ou o princípio do bem, o cristianismo perderia
muito de seu sentido. Mesmo que alguém julgue ser o cristianismo, em
última análise, falso, dizer que sua essência é a moralidade constitui
uma simplificação grosseira; além disso, para dizer que o cristianismo
é falso, é preciso supor a seriedade do elemento metafísico. Acrescente-
se ainda que uma crítica feita constantemente por pessoas que conside-
20
ram os relatos religiosos como fantasia refere-se à crueldade e violên-
cia que as religiões exibem, ao terror mental que exercem sobre os
crentes, à sua intolerância. Se tal crítica faz sentido, é justamente por-
que a conexão entre moral e religião não pode ser adequadamente
explicada como se a essência da religião fosse a moral.

Outra explicação, e favorecida pelos religiosos, está em que o elemento


metafísico provê o fundamento da moral. A moral depende da religião
e lhe dá o suporte real de que ela necessita. Como a moral não é descri-
tiva, mas normativa, diz como devemos agir ou que hábitos virtuosos
devemos cultivar, não seria ela capaz de responder à questão sobre sua
própria validade. Se alguém pergunta por que deve ser moral, é preci-
so apontar para algo fora da moral, para a realidade, para as coisas
como elas realmente são. Devemos ser morais porque assim é o mun-
do. Por exemplo, o cristão deve observar o decálogo porque Deus
assim o quer, ou porque Deus criou o mundo de tal forma que a inob-
servância dos princípios e regras morais afeta e perverte toda a nature-
za.

Mas há outra alternativa de compreender a relação entre moral e reli-


gião, pela qual nenhuma delas serve de razão ou fundamento da outra,
embora permaneçam intimamente ligadas. A religião não é uma forma
mítica de impor regras morais, nem necessita a moral de um funda-
mento religioso; ambas são autônomas, sem que isso implique qual-
quer moral ser compatível com qualquer religião.

Religião e teologia

Muitas vezes, os termos teologia e religião são considerados como


sinônimos. Contudo, convém distingui-los para melhor compreender o
fenômeno religioso. Teologia é um termo grego e significa "conheci-
mento sobre Deus". Hoje em dia, é comum a distinção entre teologia
natural e teologia revelada. Teologia natural refere-se àquele conheci-
mento sobre Deus que se baseia na experiência comum, quando, por
exemplo, observamos o mundo ou quando consideramos nossos sen-
timentos internos e na racionalidade, enquanto teologia revelada refe-
re-se àquele conhecimento sobre Deus que se baseia em alguma mani-
festação direta da divindade. E no que isso difere de religião?

A diferenciação pode ser especialmente útil para aquelas religiões que


têm um texto sagrado e/ou uma tradição considerada normativa. As-
sim, religião consistiria no conjunto de verdades reveladas (por exem-
plo, no cristianismo, que Deus é triúno, que Jesus é Deus encarnado)
de forma clara e não simbólica, enquanto teologia significaria a refle-
xão organizada e sistematizada da revelação. Além disso, haveria os
21
ritos e modos de vida eclesial (de igreja, ou religião organizada). As-
sim, poder-se-ia manter um núcleo fixo e uma concepção progressiva
da experiência e reflexão religiosas, consideradas então como teologia.
A religião não muda, mas a teologia sim, especialmente no que se
refere a suas relações com a ciência e a cultura.

1 O FENÔMENO RELIGIOSO E A
EXPERIÊNCIA DO SAGRADO

Você já deve ter passado por alguma experiência


Religiosa. Se não passou, alguém ao seu lado já deve
ter contado algo que o levou a refletir sobre o assun-
to. Neste capítulo vamos ver que a experiência
religiosa é mais rica do que se imagina e é universal.
Paulo Augusto Seifert

Ronaldo Steffen

DOUGLAS FLOR

A religião tem estado presente no cotidiano através

de diferentes manifestações. Pode-se, sem entrar em deta-


lhes por ora, mencionar algumas áreas, alguns eventos e
algumas práticas pessoais e sociais marcadas por ideias,
ritos e símbolos consagrados ao campo religioso.
Vamos utilizar aqui alguns pontos trabalhados pelo co-
lega Ronaldo Steffen, estudioso do assunto, professor de
Cultura Religiosa, publicado no site da Universidade.
22

De uma forma bem simples, podemos reportar o leitor a


algumas práticas familiares ligadas à tradição religiosa co-
mo o casamento, batismo, morte e velamento. São cerimô-
nias religiosas tão tradicionais, que muitas pessoas, sem que
se dêem conta, se envolvem. O que dizer de pessoas doentes
ou com problemas mais sérios que buscam ajuda divina
como alternativa para a cura?
No esporte estamos acostumados, marcadamente no fute-
bol, com a cena de uma oração conjunta antes da entrada no
campo. Numa decisão por pênalti, por exemplo, é comum a
imagem de jogadores ajoelhados, rezando ou beijando sua
santinha.
No campo musical não são raras as menções que se faz a
personagens religiosos e até mesmo a sentimentos de or-
dem religiosa; no campo das artes somos conduzidos a mi-
lhares de imagens notadamente carregadas de simbolismo
religioso dos mais diversos matizes. A literatura não tem
deixado por menos e tem sido o mercado que mais cresce
em termos de editoria nos últimos anos. O cinema tem sido
pródigo nas temáticas de ordem religiosa. As novelas, fenô-
meno brasileiro que ganha o mundo, jamais têm deixado de
lado alguma alusão, personagem e até mesmo a temática
central ligados a fatos eminentemente religiosos.
A nossa alimentação está em grande parte determinada por elementos
de ordem religiosa; o modo de expressar nossas idéias através da lin-
guagem é, igualmente, em grande parte determinada por formas reli-
giosas. O turismo religioso é hoje um grande filão na arrecadação de
divisas para um município. A educação é fortemente marcada pelos
valores que ela prega, quase sempre idênticos aos valores de ordem
religiosa. A área da saúde, o trato com a dor, a vida e a morte foi e
ainda é construída com suporte religioso. Nosso calendário, suas datas
festivas e grandes eventos, têm sua origem no meio eclesiástico. As
diversas áreas do conhecimento humano, duma ou de outra maneira,
têm-se ocupado com a temática religiosa, como a Filosofia, a Psicolo-
gia, a Sociologia, a Antropologia, a História, a Medicina, a Física, a
Arqueologia, a Geografia e assim por diante.

Apesar das diferentes atitudes de repulsa que caracterizam a negação


dos elementos religiosos, as menções apontam para o fato do ser hu-
mano buscar ligar-se ao Transcendente como se mantivesse uma liga-
ção umbilical da qual retira os elementos vitais para a sua existência.
23
A questão que se coloca é a de como compreender essas ligações. Qual
o fundamento capaz de sustentar uma avaliação compreensiva da
junção ser humano - Transcendente? Há muitas possibilidades viáveis,
tanto a partir das diferentes perspectivas e entendimentos religiosos
quanto de escolas de reflexão filosófica.

Além disso, importa considerar a relação que há, ou pode haver, entre
a religião e as manifestações importantes do espírito humano. A título
de introdução, consideremos como se relacionam religião e filosofia,
religião e ciência, religião e moral, religião e teologia.

Religião e filosofia

O que tem a filosofia a ver com a religião? Essa é uma pergunta impor-
tante e cuja resposta não é óbvia ou simples. Ao longo da história do
pensamento humano, vemos cooperação e competição entre ambas.
Em certo sentido, a cooperação e a competição pressupõem a mesma
concepção: a de que compete à razão filosófica provar a veracidade das
ideias religiosas. Ou, dito de outra maneira, que compete à razão filo-
sófica determinar se religião e superstição são a mesma coisa ou se são
coisas distintas e separáveis.

Posta a questão dessa maneira, temos duas respostas possíveis: ou a


filosofia apresenta provas de que a religião é verdadeira ou a filosofia
apresenta provas de que a religião não é verdadeira. Se for o primeiro
caso, dizemos que há entre ambas cooperação; se for o segundo, que há
competição. Quando se fala em provas, significa que qualquer pessoa
racional deve concordar com o argumento, mesmo que não seja um
argumento demonstrativo ao estilo da matemática, cujos cálculos, se
bem feitos, dão um único resultado, e o sujeito que não percebe ou não
concorda com o resultado é incapaz (um exemplo simples: 3 x 3 =
9, e não faria nenhum sentido alguém dizer: "Para você; para mim é
8").

O argumento deveria ser cognitivamente convincente. Aquele que não


concorda com a conclusão, ou não compreende o argumento, ou está
agindo de má-fé.

Onde, porém, buscar tais provas? Historicamente, têm sido elas busca-
das no raciocínio abstrato, na análise e comparação de ideias, na expe-
riência sensorial, no senso comum, nas explicações científicas, no sen-
timento moral. Diversos os pontos de partida, similaridade no modo
de argumentar. Parte-se de elementos geralmente aceitos e, se for o
24
caso, de verdades evidentes ou necessárias (que não podem ser nega-
das), aplicam-se as regras básicas do raciocínio lógico, seja dedutivo ou
indutivo, alcançando-se uma conclusão. Tal como se faz nos raciocí-
nios comuns ou nos científicos. Se o propósito é mostrar que a filosofia
justifica a religião e prova a existência de Deus (ou da realidade últi-
ma), temos os argumentos ontológicos, teleológicos, cosmológicos,
morais. Se o propósito é mostrar que a filosofia refuta a religião e pro-
va que Deus não existe, temos os argumentos do mal, os argumentos
evidencialistas, etc.

Exemplo do primeiro tipo: observamos que a natureza exibe ordem e


finalidade, como se fosse, por exemplo, uma grande máquina na qual
as partes se ajustam umas às outras perfeitamente, de forma a fazer o
todo funcionar. Na nossa experiência, sempre que há ordem e finali-
dade em algo, tal objeto foi pensado e realizado por uma mente inteli-
gente. Logo, a ordem e finalidade que observamos no Universo indi-
cam a existência de um criador inteligente. Este se chama Deus. Logo,
Deus existe. Exemplo do segundo tipo: observamos que há muitos e
diversos males no Universo. Se Deus fosse bom, ele desejaria eliminar
todo o mal; se fosse onipotente, ele o faria. Como o mal existe, Deus
não é onipotente ou não é bom, ou ambos. Como a religião afirma que
Deus é bom e onipotente, logo Deus não existe.

Mesmo aceitando que essa é a tarefa da filosofia, isso não quer dizer
que o filósofo acredita que é assim que as pessoas aceitam ou recusam
uma religião, com base em argumentos. As religiões seguem seu cami-
nho independentemente disso, e a preocupação com argumentos justi-
ficadores é, quando muito, secundária. Mas os argumentos mostrariam
se as pessoas são racionais na sua crença. Por outro lado, pode ser que
o pressuposto básico esteja errado, e não compete à filosofia funda-
mentar ou provar a verdade das crenças religiosas básicas. A tarefa da
filosofia, em relação à religião, seria mais modesta. Atualmente, muitos
filósofos, tendo em vista o desenvolvimento histórico das explicações
filosóficas, julgam que a filosofia pode ajudar a melhor compreender
as ideias religiosas e auxiliar as religiões a se livrarem de alguns ele-
mentos supersticiosos indevidamente acrescentados à fé básica, espe-
cialmente aqueles relacionados a confusões conceituais derivadas de
um uso inadequado da linguagem ou à compreensão equivocada das
teorias e hipóteses científicas, ou a preconceitos de natureza não religi-
osa. Essa abordagem tem mostrado-se mais produtiva do que as outras
duas opções.

Religião e ciência
25
E quanto à relação entre religião e ciência? Na maioria das vezes,
quando isso é discutido, por ciência entendem-se as ciências naturais,
como física, química, biologia. Há quem julgue que certas teorias cien-
tíficas estão em direta contradição com a crença religiosa. Um exemplo
contemporâneo pode ser encontrado na discussão entre evolucionismo
e a teoria do desígnio inteligente, ou criacionismo. Se olharmos para o
passado, este era o juízo feito por alguns acerca da relação entre helio-
centrismo e o relato bíblico cristão sobre a criação e o papel do ser
humano nela. Críticos religiosos do heliocentrismo, à época, julgavam
que a teoria geocêntrica era, essa sim, compatível com a crença cristã,
enquanto sua alternativa, incompatível. Hoje, nem mesmo grupos
fundamentalistas percebem uma contradição, e muito menos as igrejas
tradicionais ou os cientistas ateus ou agnósticos.

A situação com o evolucionismo é, sem dúvida, um pouco mais com-


plicada. Pode-se, no entanto, dizer que isso se deve em boa parte às
consequências filosóficas, morais, teológicas extraídas por alguns de
seus defensores. Se esse tipo de argumento for legítimo, há um confli-
to. Por outro lado, também parece que esse conflito é alimentado por
uma interpretação literalista em demasia dos textos sagrados. Isso
indica depender o conflito de certas concepções do alcance das teorias
científicas (concepções essas que não são científicas no mesmo sentido
em que o são as teorias) e de concepções hermenêuticas acerca de co-
mo deve ser entendida a revelação.

Veremos um pouco mais dessa relação entre ciência e religião no pró-


ximo capítulo. Passamos agora a analisar a relação entre religião e
moral

Religião e moral

Algo que chama a atenção de quem participa ou observa as religiões é


a íntima conexão destas com a moral. Muitos procedimentos e discur-
sos religiosos (praticados no âmbito das religiões organizadas, especi-
almente) parecem consistir em admoestações para que as pessoas cor-
rijam seu modo de vida e passem a agir de acordo com códigos morais
mais estritos, que não se restringem a proibir determinados atos, mas
também exigem do crente ações positivas, de auxílio aos doentes, aos
necessitados, por exemplo. Mesmo que haja diferença (embora não tão
acentuada) entre os códigos morais professados por diferentes religi-
ões, não há como afirmar que essa relação seja meramente circunstan-
cial, como parece ser o caso da relação entre ciência (especialmente as
chamadas ciências naturais) e moral. Como podemos explicar essa
conexão íntima?
26
Uma proposta de explicação procura reduzir a religião à moral. Isso
significa dizer que o significado essencial da religião encontra-se na
moralidade. A religião consistiria em uma forma disfarçada ou mais
eficiente de induzir as pessoas a um comportamento ético desejável.
Alguns pensadores sugeriram que há uma similaridade entre o papel
das religiões e o ensinamento moral de uma criança. Assim como se
faz necessário por vezes ensinar bons modos a uma criança na base de
punições ou estórias fantasiosas, há pessoas (e são elas muitas) que
precisam receber as ideias morais acompanhadas de alguma estória
cósmica ou divina. Caso contrário, não compreenderão e não se sub-
meterão à norma moral. Mas uma vez que se tornam maduras e autô-
nomas, percebem que a moral se mantém por si mesma. Podem, então,
abandonar a religião.

Esse tipo de explicação pressupõe a falsidade das estórias e/ou ideias


religiosas. Se aceita por alguém, esta pessoa deixa de ser, em um senti-
do mais forte, religiosa. Esse resultado não quer dizer que a explicação
esteja equivocada. Contudo, podem ser mencionadas outras objeções
que mostrariam a inadequação de tal hipótese. Primeiro, não faz jus ao
fenômeno religioso. Mesmo que a moral seja parte integrante das reli-
giões, não é tida como única, nem como a principal. Outros elementos
importantes são a estética, os ritos, os mistérios, a ação de Deus na
história (no caso das religiões teístas). E, prestando atenção ao discurso
religioso como tal, o que parece ser o mais importante está naquilo que
se poderia chamar de 'realidade última', o verdadeiro por trás das
aparências, o efetivamente real, o fundamento de tudo que existe (va-
mos chamar isso de 'o elemento metafísico'). Por exemplo, no cristia-
nismo considera-se como o mais importante saber quem é Deus, quais
seus atributos, qual sua relação conosco. Se o Deus cristão fosse apenas
um princípio moral, ou o princípio do bem, o cristianismo perderia
muito de seu sentido. Mesmo que alguém julgue ser o cristianismo, em
última análise, falso, dizer que sua essência é a moralidade constitui
uma simplificação grosseira; além disso, para dizer que o cristianismo
é falso, é preciso supor a seriedade do elemento metafísico. Acrescente-
se ainda que uma crítica feita constantemente por pessoas que conside-
ram os relatos religiosos como fantasia refere-se à crueldade e violên-
cia que as religiões exibem, ao terror mental que exercem sobre os
crentes, à sua intolerância. Se tal crítica faz sentido, é justamente por-
que a conexão entre moral e religião não pode ser adequadamente
explicada como se a essência da religião fosse a moral.

Outra explicação, e favorecida pelos religiosos, está em que o elemento


metafísico provê o fundamento da moral. A moral depende da religião
e lhe dá o suporte real de que ela necessita. Como a moral não é descri-
27
tiva, mas normativa, diz como devemos agir ou que hábitos virtuosos
devemos cultivar, não seria ela capaz de responder à questão sobre sua
própria validade. Se alguém pergunta por que deve ser moral, é preci-
so apontar para algo fora da moral, para a realidade, para as coisas
como elas realmente são. Devemos ser morais porque assim é o mun-
do. Por exemplo, o cristão deve observar o decálogo porque Deus
assim o quer, ou porque Deus criou o mundo de tal forma que a inob-
servância dos princípios e regras morais afeta e perverte toda a nature-
za.

Mas há outra alternativa de compreender a relação entre moral e reli-


gião, pela qual nenhuma delas serve de razão ou fundamento da outra,
embora permaneçam intimamente ligadas. A religião não é uma forma
mítica de impor regras morais, nem necessita a moral de um funda-
mento religioso; ambas são autônomas, sem que isso implique qual-
quer moral ser compatível com qualquer religião.

Religião e teologia

Muitas vezes, os termos teologia e religião são considerados como


sinônimos. Contudo, convém distingui-los para melhor compreender o
fenômeno religioso. Teologia é um termo grego e significa "conheci-
mento sobre Deus". Hoje em dia, é comum a distinção entre teologia
natural e teologia revelada. Teologia natural refere-se àquele conheci-
mento sobre Deus que se baseia na experiência comum, quando, por
exemplo, observamos o mundo ou quando consideramos nossos sen-
timentos internos e na racionalidade, enquanto teologia revelada refe-
re-se àquele conhecimento sobre Deus que se baseia em alguma mani-
festação direta da divindade. E no que isso difere de religião?

A diferenciação pode ser especialmente útil para aquelas religiões que


têm um texto sagrado e/ou uma tradição considerada normativa. As-
sim, religião consistiria no conjunto de verdades reveladas (por exem-
plo, no cristianismo, que Deus é triúno, que Jesus é Deus encarnado)
de forma clara e não simbólica, enquanto teologia significaria a refle-
xão organizada e sistematizada da revelação. Além disso, haveria os
ritos e modos de vida eclesial (de igreja, ou religião organizada). As-
sim, poder-se-ia manter um núcleo fixo e uma concepção progressiva
da experiência e reflexão religiosas, consideradas então como teologia.
A religião não muda, mas a teologia sim, especialmente no que se
refere a suas relações com a ciência e a cultura.

A palavra Religião
28

Etimologicamente, o termo Religião surge na história da


humanidade através dos autores clássicos, como Cícero,
Lactâncio e Agostinho, respectivamente, nas palavras re-
legere, que significa reler, re-ligare, que significa religar, e
re-eligere, que significa reeleger. Todos os conceitos nos dão
a idéia de voltar a uma situação anterior, ou seja, ligar no-
vamente a criatura com o criador. É exatamente esta tenta-
tiva de religar com o Ser Superior, através de um conjunto
de crenças, normas, ritos ou costumes, que dá origem às
diversas religiões o fenômeno religioso propriamente dito.
(KUCHENBECKER, 2000.)

Apesar de seguidamente ouvir-se que religião é coisa do


passado, as menções acima indicam uma direção contrá-
ria. Estão apontando para o fato de que o ser humano
preocupa-se com o divino, aqui entendido no sentido da-
quilo que ocupa lugar de destaque ou o primeiro lugar na
vida.

Conhecimento Religioso
Ainda tentando responder o que é religião, podemos dizer
que religião é um batismo numa igreja cristã. É um ritual
sagrado nas águas do Rio Ganges. É a adoração num templo
budista. Pode ser um muçulmano ajoelhado e orando para o
Alá. Ou os mesmos devotos do Islã peregrinando a Meca.
Pode ser um Judeu diante do Muro das lamentações em Je-
rusalém. São tantas as menções que seria impossível citar
todas.
O que pretendemos fazer é ligar os fatos. As ciências da reli-
gião procuram responder o que as atividades citadas acima
têm em comum. Nós procuramos, como pesquisadores, in-
vestigar os rituais de uma perspectiva externa. Buscamos
semelhanças e diferenças. Queremos entender como se dá o
processo historicamente e o que isso representa para socie-
dade hoje.

Por que estudar as religiões?


29
Dependendo da experiência de cada um, as respostas
serão diferentes. Talvez você seja um religioso e não precise
de tantas explicações. Mas, com certeza, muitas pessoas não
se ligaram para a importância do assunto.
Jostein Gaardner, escrevendo O Livro das Religiões, nos
ajuda a responder a pergunta acima:
Um rápido olhar para o mundo ao redor mostra
que a religião desempenha um papel bastante significa-
tivo na vida social e política de todas as partes do globo.
Ouvimos falar de católicos e protestantes em conflito na
Irlanda do Norte, cristão contra muçulmanos nos Bal-
cãs, atrito entre muçulmanos e hinduístas na Índia,
guerra entre hinduístas e budistas no Sri Lanka. Nos Es-
tados Unidos e no Japão há seitas religiosas extremistas
que já praticaram atos de terrorismo. Ao mesmo tempo,
representantes de diversas religiões promovem ajuda
humanitária aos pobres e destituídos do terceiro mun-
do. É difícil adquirir uma compreensão adequada da
política internacional sem que se esteja consciente do
fator religião. (GAARDNER)
Além disso, explica Gaardner, um conhecimento religio-
so também pode ser útil num mundo que se torna cada vez
mais multicultural. Ainda mais quando falamos em globali-
zação, apesar de que o termo deva ser usado com cuidado.
Muitos de nós viajamos pelo Brasil ou mesmo ao exterior,
entrando em contato com as diversas culturas religiosas.
Estes povos têm costumes diferentes que devem ser respei-
tados pelos seus visitantes. Se uma mulher estiver num país
muçulmano, por exemplo, terá que observar o tipo de roupa
que usará nas ruas. É claro que não precisará andar com
uma Burca, mas terá que cobrir seu corpo com roupas de-
centes.
Finalmente, acreditamos que o estudo das religiões pode ser
importante para o desenvolvimento pessoal do indivíduo.
As religiões podem responder várias das perguntas existen-
ciais que fazemos como: de onde viemos, o que somos e
para onde iremos.

Tolerância religiosa
30

Este é um dos pontos mais importantes na nossa caminha-


da. Tolerância é o respeito pelas pessoas que possuem dife-
rentes pontos de vista em relação à religião. Não significa
que precisamos concordar com tudo o que as outras religi-
ões praticam e seguir os mesmos rituais. Cada um tem o
direito de seguir aquilo que é melhor para si, pode ter uma
fé sólida. Mas a tolerância não é compatível com atitudes
como zombar das opiniões alheias ou se utilizar da força e
de ameaças. A Tolerância não limita o direito de fazer pro-
paganda, mas exige que esta seja feita com respeito pela
opinião dos outros (GAARDNER).
O respeito pela vida religiosa dos outros, pelas suas opiniões
e pontos de vista, é um pré-requisito para a nossa aula de
Cultura Religiosa. Sem isso, é impossível começar, pois:
Com freqüência, a intolerância é resultado do conheci-
mento insuficiente de um assunto. Quem vê de fora uma
religião, enxerga apenas as suas manifestações, e não o
que elas significam para o indivíduo que a professa
(GAARDNER).

Sincretismo Religioso
No Brasil é muito interessante falar sobre religião.
Isto porque temos aqui uma pluralidade religiosa
bem interessante. Além disso, encontramos o que
chamamos de Sincretismo Religioso. Isso acontece
quando misturamos elementos de várias religiões
numa só. Sincretismo é o termo que os historiadores
denominam de fusão ou interpenetrações de religi-
ões, ritos, crenças e personagens cultuais. Os cultos
afro-brasileiros são um exemplo comprovado de
sincretismo religioso. Queremos mostrar como isso
acontece através da fala de um personagem sertane-
jo do passado: Riobaldo Tatarana do Grande Sertão:
Veredas:
31

“Hem? Hem? O que mais penso, texto e ex-


plico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, as
pessoas todas. Por isso é que se carece princi-
palmente de religião: para se desendoidecer,
desdoidar. Reza é que sara da loucura. No ge-
ral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita
religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião
de religião. Aproveito de todas. Bebo água de
todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez
não me chegue. Rezo cristão, católico, embre-
nho a certo; aceito as preces de compadre
meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque.
Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde
um Matias é crente, metodista: a gente se acu-
sa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando
hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspen-
de. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só
muito provisório. Eu queria rezar – o tempo
todo. Muita gente não me aprova, acham que
lei de Deus é privilégios, invariável. E eu! Bofe!
Detesto! O que sou? – o que faço, que quero,
muito curial. E em cara de todos faço, execu-
tado. Eu? – não tresmalho!
Olhe: tem uma preta, Maria Leôncia, longe
daqui não mora, as rezas dela afamam muita
virtude de poder. Pois a ela pago, todo mês –
encomenda de rezar por mim um terço, todo
santo dia, e, nos domingos, um rosário. Vale,
se vale. Minha mulher não vê mal nisso. E es-
tou, já mandei recado para uma outra, do
Vau- Vau, uma Izina Calanga, para vir aqui,
ouvi de que reza também com grandes mere-
merências, vou efetuar com ela trato igual.
Quero punhado dessas, me defendo em Deus,
reunidas de mim em volta... Chagas de Cristo!
32

JOÃO GUIMARÃES ROSA

Quem sabe você conhece alguém que se identifica com


este personagem. É comum a gente encontrar situações
como esta. Nas aulas de Cultura Religiosa, quando pergun-

tamos se nossos alunos têm alguma religião, muitos respon-

dem: Sou Católico Apostólico Romano, não praticante. Isto

significa que eles são Católicos por tradição, mas não vão à

igreja aos domingos. Muitos são católicos, mas não deixam

de ir ao terreiro ou ao Centro Espírita.

Conclusão
É importante ressaltar aqui a questão da tolerância. Religião
sem o devido respeito perde o sentido. Não é possível pre-
gar algo e praticar outra coisa. Por outro lado, a experiência
religiosa é importante na vida de todo o ser humano. Se vo-
cê ainda não passou por isso, busque entender um pouco
mais do assunto. Leia, reflita sempre.
33

2
Ronaldo Steffen
HINDUÍSMO

Perfil

Fundador: não há
Ano de fundação: as raízes do hinduísmo remontam a um período
entre 1500 a.C. e 200 a.C.
Textos sagrados: o Livro dos Vedas, que consiste numa coletânea de
quatro obras, das quais certas partes datam de 1.500 a.C.
Estatística: hoje, cerca de 80% da população da Índia é hinduísta. O
restante da população divide-se entre muçulmanos (10%), cristãos (4%)
e outros grupos (6%). Em todo o mundo, perfazem cerca de 13% da
população mundial.

2.1 História
O passado

As origens do hinduísmo podem ser encontradas em algum ponto


entre o ano de 1500 a.C. e o ano 200 a.C., quando os chamados arianos
("nobres") começaram a subjugar o vale do rio Indo. As crenças dessas
pessoas tinham ligação com outras religiões indo-europeias, como a
grega, romana e germânica. Sabemos disso pelos chamados hinos
védicos (da palavra veda, que significa "conhecimento"), que eram
recitados por sacerdotes durante os sacrifícios aos seus muitos deuses.
É o chamado período védico do hinduísmo.

O sacrifício era importante para o culto ariano. Faziam-se oferendas


aos deuses a fim de conquistar seus favores e manter sob controle as
forças do caos.

Achados arqueológicos no vale do rio Indo indicam que houve uma


civilização avançada na Índia, anterior à chegada dos indo-europeus, e
34
é certo que essa civilização também contribuiu para o hinduísmo mo-
derno.

A época conhecida como período védico tardio, de 1000 a.C. até 500
a.C., marcou uma virada no desenvolvimento religioso da Índia. Im-
portância especial tiveram os Upanishads, que até hoje são os textos
hinduístas mais lidos. Foram escritos sob a forma de conversas entre
mestre e discípulo, e introduzem a noção de Brahman, a força espiritu-
al essencial em que se baseia todo o Universo. Todos os seres vivos
nascem do Brahman, vivem no Brahman e, ao morrerem, retornam ao
Brahman.

Os Upanishads introduzem a ideia de Brahman. Todos nascem dele, vivem nele e


na morte retornam a ele.

Hoje

O hinduísmo é uma religião da Índia, mas tem muitos adeptos tam-


bém no Nepal, em Bangladesh e no Sri Lanka. Depois de muitos anos
de domínio colonial britânico, em 1947, a Índia tornou-se uma repúbli-
ca independente: um Estado secular (não religioso), com uma consti-
tuição que garantia direitos para todas as denominações religiosas e
proibia qualquer forma de discriminação baseada em religião, raça,
casta ou sexo.

Em 1947, a tensão entre hinduístas e muçulmanos, em razão da inde-


pendência da Índia, resultou na criação do Paquistão como um Estado
muçulmano separado, dividido em duas partes distintas: o Paquistão
do Leste e o Paquistão do Oeste. Depois da guerra de 1971 entre a
Índia e o Paquistão, o Paquistão do Leste tornou-se um Estado inde-
pendente com o nome de Bangladesh.

2.2 Ensinamentos
Deuses

A multiplicidade do hinduísmo também se manifesta em seu conceito


de Transcendente. Em sua forma mais filosófica, o conceito hindu de
divindade é panteísta. A divindade não é um ser pessoal, mas uma
força, uma Os Upanishads introduzem a ideia de Brahman. Todos
nascem dele, vivem nele e na morte retornam a ele, energia que per-
meia tudo: os objetos inanimados, as plantas, os animais e os seres
humanos. Já em sua forma menos filosófica, está presente um conceito
politeísta, que acredita num grande número de deuses. Quase todas as
aldeias têm a sua própria divindade local. A adoração divina concen-
35
tra-se em dois deuses em particular, ambos com raízes védicas. Um
deles é Vishnu. É um deus suave e amigável, normalmente represen-
tado como um lindo jovem. Sua maior importância no hinduísmo
moderno deriva de seus avatares ("reencarnação de um deus" ou "reve-
lação") como Rama ou Krishna. Especialmente popular é Krishna,
adorado como o onipresente e senhor do mundo. Costuma ser retrata-
do como um pastor de ovelhas, e suas aventuras eróticas com as pasto-
ras são interpretadas simbolicamente como o amor do Transcendente
pelo ser humano. O relacionamento de Krishna com sua amada, Rha-
da, é explicado da mesma maneira. O amor entre os dois, sua separa-
ção e reconciliação são uma metáfora para o anseio que a alma sente
pelo Transcendente e por sua união final com ele.

O outro deus com grande significado para o culto é Shiva. Ele é o deus
da meditação e dos iogues, e em geral é retratado como um asceta. É
igualmente um deus do desvario e do êxtase, tanto criador como des-
truidor, o que o torna ao mesmo tempo aterrorizante e atraente. É ele
quem traz a doença e a morte, mas também o que cura. Na devoção
bhakti (cf. 3.1), ele é visto como um deus cheio de compaixão, que
salva o ser humano da transmigração.

O importante é o Transcendente. O nome dado a ele pouco importa.

A filosofia religiosa indiana baseia-se na crença de um Transcendente


eterno, mas não especifica se esse deus é Vishnu, Shiva ou algum ou-
tro. Deixa-se a cargo do indivíduo decidir de que maneira o Transcen-
dente deve ser adorado. Nos círculos acadêmicos, é comum ver Vishnu
e Shiva formando uma trindade com Brahma. Este é tido como criador,
quem faz o mundo. Vishnu é o sustentador, quem protege as leis natu-
rais e a ordem universal. Shiva é o destruidor, que, no final de cada
época, dança sobre o mundo até reduzi-lo a pedaços. Assim ocorrendo,
Brahma tem de criar o mundo novamente. Essas três manifestações do
Transcendente representam três de seus aspectos: o criador, o susten-
tador e o destruidor. No entanto, esse entendimento tem pouca rele-
vância na devoção popular.

As deusas

O hinduísmo tem uma série de deusas. Alguns adotam a teoria de que


essa abundância de deusas não passa da expressão de uma grande e
poderosa divindade feminina, a "Rainha do Universo" ou "Deusa-
Mãe". Sua manifestação mais conhecida é Kali, a deusa negra, adorada
sobretudo no Leste da Índia, e a quem se sacrificam animais. O alto
status de Kali no mundo dos deuses é evidente pelas imagens que a
mostram pisoteando o corpo de Shiva.
36
A importância das deusas na religião indiana é visível pela escolha da
"Mãe Índia" (Bhárata Mata ou Bharthamata) como a divindade nacio-
nal do moderno Estado da Índia. Na cidade de Varanasi há um templo
especial que lhe é dedicado. Ali, em vez de uma representação da
deusa, está exposto um mapa da Índia.

As divindades menores

A maioria das aldeias tem seu templo dedicado a Vishnu ou a Shiva.


Esses deuses concentram-se nas questões maiores, universais, e em
geral são homenageados nos grandes festivais. Num nível mais do-
méstico, as pessoas costumam visitar pequenos templos dedicados a
divindades menos importantes. Embora estas não sejam tão poderosas
como Vishnu ou Shiva, é mais fácil aproximar-se delas para assuntos
de menor importância, tais como os problemas pessoais.

Há deuses para as questões universais e deuses para as


questões pessoais.

Os deuses menores, por vezes, exercem influência em áreas específicas,


por exemplo, em certos tipos de doença. Muitos deles têm origem
humana: podem ser heróis que morreram em batalha ou esposas que
se oferecem para serem queimadas na pira funerária do marido. Al-
guns deuses são espíritos malignos que foram deixados para trás por
homens maus. Ao cultivar esses espíritos como deuses, é possível
controlar e neutralizar sua maldade.

Ser humano

O entendimento que o hinduísmo desenvolve a respeito do ser huma-


no está intimamente vinculado a uma compreensão ampla que privile-
gia os entendimentos sobre carma, reencarnação e o sistema de castas.

Carma e reencarnação

O ser humano tem uma alma imortal que não lhe pertence. Depois da
morte, a alma volta a aparecer (renasce) numa nova criatura vivente.
Pode renascer numa casta mais alta ou mais baixa, ou pode passar a
habitar um animal.

Há uma ordem inexorável nesse ciclo que vai de uma existência a


outra. O impulso por trás dela, e que a mantém sempre em movimen-
to, é o carma ("ato" ou "ação") do ser humano. O ato ou ação não se
refere apenas a ações físicas, mas inclui pensamentos, palavras e sen-
timentos.
37
A ideia de que todas as ações têm consequências, que podem surgir
depois da morte, não é, de modo algum, peculiar do hinduísmo. A
originalidade da ideia está no entendimento de que todas as ações de
uma vida, e somente elas, podem formar a base para a próxima vida.
Assim, o carma não é uma punição pelas más ações ou uma recompen-
sa pelas boas. O carma é uma constante impessoal, como se fosse uma
lei natural do ato de existir.

O hinduísmo não reconhece nenhum "destino cego" e nem divina


providência. A responsabilidade pela vida do hinduísta no dia de hoje,
e por sua próxima encarnação, será sempre dele. O ser humano colhe
aquilo que semeou. O resultado das ações deriva automaticamente
delas mesmas. Pode-se dizer que a transmigração está sujeita à lei da
causa e efeito.

Pesquise: reencarnação e transmigração são conceitos que se referem a mesma


coisa?

Em outras palavras, o que a pessoa experimenta nesta vida em termos


de riqueza ou pobreza, alegria ou tristeza, saúde ou doença, é resulta-
do de suas ações numa vida anterior. É desse modo que os hinduístas
explicam as diferenças entre as pessoas. A doutrina do carma dá sus-
tentação a um esquema de relações sociais como o sistema de castas.

Embora a pessoa deva submeter-se ao carma que herdou de uma vida


anterior, ela também exerce o livre-arbítrio no âmbito de sua existência
atual. O ser humano, portanto, sempre pode melhorar seu carma e
lançar os fundamentos necessários para uma vida melhor no próximo
renascimento.

O sistema de castas

Desde os tempos antigos, a sociedade hinduísta está alicerçada sobre


quatro classes sociais (a palavra empregada é varna, que significa
"cor"):

 sacerdotes (brâmanes);

 guerreiros;

 agricultores, comerciantes e artesãos;

 servos.

Porém, à medida que a sociedade indiana se desenvolveu, as pessoas


foram sendo divididas em novas castas. No início do século XX, havia
em torno de três mil castas.
38
Não se sabe ao certo como surgiu o sistema de castas. O certo é que as
castas em geral se associam a profissões especiais. Uma aldeia indiana
pode conter de 20 a 30 castas, e com frequência cada uma ocupa um
agrupamento especial de casas. Cada casta tem suas próprias regras de
conduta e de práticas religiosas, que determinam com quem as pessoas
podem se casar, o que podem comer, com quem podem se associar e
que tipo de trabalho podem realizar. A base religiosa desse sistema é a
noção de pureza e impureza. Para um brâmane, por exemplo, tudo o
que tenha a ver com as coisas corporais ou materiais é impuro. Se ele
se tornou impuro como resultado do nascimento, morte ou do sexo,
ou, ainda, por meio de contato com uma pessoa sem casta ou de casta
inferior, há diversas maneiras pelas quais ele pode ser purificado. O
método tradicional mais conhecido de purificação utiliza a água de um
dos muitos rios sagrados da Índia, como o Ganges.

Religiosamente, as castas indicam o grau de pureza ou impureza de uma pessoa.

As regras que governam a pureza formam a base da divisão de traba-


lho na comunidade. Certas atividades e certos trabalhos são tão impu-
ros que somente determinadas castas podem realizá-los. Essas castas
têm o dever de ajudar os outros a manterem sua pureza. Por outro
lado, apenas as castas que preencham os requisitos da pureza podem
aproximar-se dos deuses mais elevados. Para que isso ocorra com mais
facilidade, outras pessoas devem ser impuras. Entretanto, todos se
beneficiam da limpeza dos puros, pois todos os hinduístas tiram pro-
veito dos ritos que são praticados.

O sistema de castas deu um novo contexto à vida do indiano moderno.


Assim, ser expulso de sua casta é o pior castigo imaginável, e portanto
isso só é utilizado para crimes muito sérios. O nível mais baixo no
sistema de castas é o dos intocáveis ou sem casta (também chamados
de párias): os criminosos, lixeiros e curtidores de couro de animais, por
exemplo.

As complexas regras que controlam o contrato social entre as castas


eram muito rígidas. A Constituição da Índia, de 1947, introduziu, no
entanto, medidas com a finalidade de banir a discriminação por casta.
Como não basta mudar a legislação para acabar com antigas divisões
sociais e religiosas, o sistema de castas continua tendo um papel im-
portante, em especial nas aldeias.

Vida e morte

Durante o período védico, a doutrina do carma e dos renascimentos


era vista como algo positivo. Por meio dos sacrifícios e das boas ações,
39
o ser humano podia garantir que viveria várias vidas. Mais tarde, o
hinduísmo passou a considerar esse ciclo como algo negativo, como
um círculo vicioso a ser quebrado. É possível, assim, distinguir três
caminhos para a libertação: as vias do sacrifício, do conhecimento e da
devoção.

A via do sacrifício

Como já se viu, a palavra indiana para "ato" é carma. Hoje ela é usada
para denotar todos os atos humanos e até mesmo a coletividade desses
atos. No período védico, o termo referia-se basicamente a atos religio-
sos ou rituais, em especial aos atos sacrificiais. Estes eram necessários
para incrementar a fertilidade e manter a ordem universal. Esse antigo
costume sacrificial, descrito nos Vedas, continua a desempenhar um
papel capital no hinduísmo. Fazendo sacrifícios e boas ações, muitos
hinduístas tentam obter a felicidade terrena. Em última análise, o obje-
tivo permanece o mesmo de outras correntes do hinduísmo: libertar-se
do círculo vicioso da transmigração do espírito.

A via da compreensão ou do conhecimento

Seguindo uma ideia central dos Upanishads, é a ignorância do ser


humano que o amarra ao ciclo dos renascimentos. Compreender a
verdadeira natureza da existência, o oposto da ignorância, será, por-
tanto, um caminho para a libertação. É apenas quando o ser humano
adquire o reto conhecimento que ele é redimido da implacável roda da
transmigração.

O conhecimento que traz a salvação é o de que a alma humana (atmã)


e o mundo espiritual (Brahman) são uma coisa só. O atmã é uma
parte integrante não só dos seres humanos, mas também se encontra
nas plantas e nos animais. Isso é conhecido como panteísmo.

Brahman é o princípio constitutivo do Universo, uma força que per-


meia tudo, uma divindade impessoal. Todas as almas individuais
(atmã) são reflexos dessa única alma universal.
O ser humano é libertado da transmigração ao adquirir plena compre-
ensão da unidade entre atmã e Brahman. O objetivo é dissolver-se no
Brahman, assim como uma gota de chuva se dissolve no mar. O ser
humano tem uma centelha do Transcendente em seu interior. E mesmo
que ele desapareça enquanto ser humano, sua origem divina permane-
ce e vai unir-se novamente com o espírito universal.
40
A via da devoção

Uma terceira rota para a salvação é a via da devoção. Essa proposta


começou a se difundir no Sul da Índia por volta de 600 a. C. e logo se
espalhou por toda a região da Índia. Já no século III a.C. esse caminho
para a libertação encontrara sua expressão no Bhagavad Gita, um po-
ema catequético. Essa terceira tendência do hinduísmo é a que predo-
mina na Índia moderna, e o livro Bhagavad Gita é o livro sagrado que
ocupa o lugar supremo na consciência do indiano médio.

Cumprir os rituais. Buscar o conhecimento. Contemplar. A religião na


Índia oferece a possibilidade de vários caminhos para a libertação, e
essa multiplicidade é mais uma característica do hinduísmo.

Mundo
É plural

O mundo não é uno, mas plural. Há diversos mundos interconectados


pela mesma razão. É como se fossem infinitas galáxias, e cada uma
com o seu ponto de referência, como a Terra. Para dar uma dimensão
superlativa ao conceito de infinitas galáxias, o hinduísmo entende que
entre esse ponto de referência e o restante da galáxia há diversos ou-
tros mundos mais sutis, acima, e mais grosseiros, abaixo. Os mundos
sutis e grosseiros são os espaços ocupados pelas almas e que por eles
transitam conforme os méritos adquiridos ou não.

Cada mundo e cada galáxia têm ciclos diferentes de tempo. Há tempo


que se expande e tempo que se recolhe eterna e incontavelmente no
mesmo movimento, estabelecendo os ciclos cósmicos.

É meio

O mundo e suas galáxias têm uma razão. É o espaço onde as almas


individuais cumprem a inexorável lei do carma até sua libertação.
Inerente ao conceito de carma, toda decisão do ser humano terá deter-
minadas consequências. Não há fatalismos no Universo.

Nos mundos mais grosseiros, há uma percepção maior dos elementos


sensoriais. Em razão dos prazeres proporcionados, geralmente assen-
tados no eu individual, o ser humano deve buscar a libertação para
mundos cada vez mais sensíveis, em direção ao EU absoluto, o Trans-
cendente, até sua integração completa.
41
É moderado

O mundo e suas galáxias é o espaço onde bem e mal, prazer e dor,


conhecimento e ignorância se entrelaçam em proporções quase iguais.
Não faz parte dos propósitos do Universo ser um paraíso, mas o espa-
ço onde o espírito do ser humano pode viabilizar seu aprendizado de
integração ao Transcendente. É como se o Universo perceptível servis-
se apenas para mostrar que há outra realidade além dele.

É maya

O mundo e suas galáxias é maya. A palavra maya possui a mesma


raiz que mágica. Na mágica, o que vemos nem sempre é o que pensa-
mos ver. Assim o Universo. Enquanto em processo de constantes re-
nascimentos, o ser humano pode cair no ardil de que a materialidade e
a multiplicidade são realidades independentes, quando, em realidade,
são Brahman, o todo inclusivo de tudo o que é e de tudo o que não é.

O mundo e suas galáxias podem ser a prisão do ciclo de constantes e


infindáveis renascimentos do ser humano. O Universo aí está para ser
percebido em sua unidade, que é Brahman. Mesmo que o ser humano
não o perceba, ou o perceba apenas parcialmente, ele continua sendo
Brahman.

É lila

O mundo e suas galáxias é o espaço lila ("dança") do Transcendente. É


onde ele dança, numa espécie de jogo, de forma incansável, infinda,
irresistível, mas absolutamente benéfica. É jogo que o Transcendente
criou a fim de que o finito seja superado e destruído pelo infinito.

2.3 Principais tendências


Escolas do pensamento hindu

Entre os séculos II a.C. e IV d.C., surgiram seis escolas ortodoxas da


filosofia clássica hindu. Não eram grupos organizados, mas sistemas
de pensamento que apresentavam perspectivas diversas, porém com-
plementares, de métodos devocionais, interpretação das escrituras e
cosmologia.

 Vaiseshika: defende que a libertação do ser humano ocorre pela


compreensão das leis da natureza;

 Nyaya: defende que a libertação do ser humano se dá pelo conhe-


cimento através do raciocínio lógico;
42
 Samkhya: defende que a libertação do ser humano ocorre quando
se alcança a união da alma individual com o Transcendente
(moksha), através da consciência que se desvencilha das preocu-
pações mundanas e materiais;

 Mimamsa: defende que a libertação do ser humano dar-se-á na


medida em que os escritos sagrados forem adequadamente inter-
pretados e, em decorrência, produzirem o justo agir (darma).

 Vedanta: defende que a libertação do ser humano decorre da


correta compreensão do Transcendente e dos conhecimentos espi-
rituais, possibilitada pela igualdade entre a alma individual e o
Transcendente.

 Bhakti: defende que a libertação do ser humano é possível em


razão das atitudes devocionais que permitem que a alma indivi-
dual e o Transcendente se unam, embora sejam diferentes.

Correntes hindus modernas no Ocidente

Em meados do século XX, surgiu na Europa e nos Estados Unidos um


grande interesse pela espiritualidade oriental. Entre as muitas razões,
pode afirmar-se que o Ocidente materialista, espiritualmente estéril,
percebeu que a vida e o viver iam muito além dos reducionistas aspec-
tos biológicos. Esse interesse, que atingiu seu ponto culminante nas
décadas de 1960 e 1970, concentrou-se no budismo e no hinduísmo,
com destaque para a ioga. Surgiram inúmeros movimentos que apre-
sentaram o modo hinduísta de responder às questões da vida. Eram,
em regra, movimentos centrados na personalidade de algum mestre
("guru") carismático, venerado como se fosse um avatar. Dos movi-
mentos que permaneceram na ativa, após a morte de seus fundadores,
destacam-se:

 Meher Baba (1894-1969): foi o primeiro guru moderno de impor-


tância a conquistar adeptos no Ocidente. Nascido na Índia, elabo-
rou uma doutrina que sintetizava várias tradições religiosas, in-
clusive os conceitos de carma e samsara ("renascimento cíclico").
Ensinava que o estado de iluminação que liberta só se alcança
através do amor puro, desinteressado.

 Sociedade Internacional da Consciência de Krishna: foi fundada


em meados da década de 1960, no Ocidente, por A. C. Bhaktive-
danta Swami Prabhupada (1896-1977). Seus discípulos de túnica
amarela procuram a iluminação por meio do estudo das escrituras
védicas, em especial o Bhagavad Gita, e do canto de um mantra
43
em louvor a Krishna e Rama (graças ao qual o movimento é popu-
larmente conhecido como Hare Krishna). Praticam um ascetismo
rigoroso, que inclui o celibato, e sexo só com finalidade de procri-
ação e dentro do casamento.

 Meditação Transcendental: ensina um método simples de medi-


tação que se baseia em um mantra pessoal (palavra ou frase) que,
constantemente repetido, produz o efeito de reduzir o stress,
promove a integração pessoal e, por consequência, a iluminação
que liberta. Foi trazido para o Ocidente por Maharishi Mahesh
Yogi, nascido em 1911, em fins da década de 1950 e alcançou po-
pularidade quando os Beatles se tornaram seus adeptos.

 Missão da Luz Divina: fundado na Índia, em 1960, e no Ocidente,


em 1971, proclamou um menino guru, Maharah Ji, nascido em
1958, o mais recente avatar do Transcendente. Ensinava quatro
técnicas de meditação que capacitavam os devotos a voltarem-se
para dentro de si mesmos a fim de experimentarem o estado de
iluminação: a Luz Divina, a Harmonia Divina, o Néctar Divino e a
Palavra Divina.

 Bhagwan Shri Rajneesh (1931-1990): também conhecido como


Osho. Ministrava a doutrina do amor livre, da sexualidade desini-
bida e dos atos impulsivos, juntamente com uma forma de medi-
tação dinâmica que visava a liberar a energia da terra. Uma das
técnicas de liberação das energias reprimidas é o riso. Possui cen-
tros de meditação em todo o mundo. Só no Brasil, são oito centros,
além de um jornal de circulação nacional.
3
Ronaldo Steffen
BUDISMO

Perfil

Fundador: Siddartha Gautama. Identificado por seus seguidores como


Sakyamuni (pertencente ao clã dos Sakya), o Buddha ("o iluminado") ou
Bhagavat ("senhor"). É tido como o quarto dos cinco budas encarnados.

Data de nascimento: não há certezas. As biografias mencionam datam


desde 624 a.C. até 410 a.C.

Local de nascimento: reino dos Sakyas, cidade de Kapilavastu, próxima


à fronteira atual da Índia e do Nepal.

Ano de fundação: estima-se que Siddartha tenha atingido o estado de


iluminação por volta de seus 35 anos de idade.

Textos sagrados e reverenciados: os ensinamentos de Buddha não


foram originalmente escritos por ele, mas transmitidos oralmente por
seus seguidores. Ao surgirem os primeiros escritos, duas formas podem
ser identificadas: o cânone sulista de Pali, da tradição Theravada (escrito
no Sri Lanka por volta do século I a.C.) e o cânone nortista sânscrito, da
tradição Mahayana. O cânone de Pali é composto por três obras
(pitaka): a) Sutra: os discursos de Buddha; b) Vinaya: as origens das
regras da disciplina monástica e c) Abdhidharma: tratados escolásticos
sobre a psicologia e filosofias budistas. Já o cânone de tradição
Mahayana crê que as doutrinas primeiras são incompletas e necessitam
ser aperfeiçoadas com os tratados interpretativos.

Estatística: atualmente é um dos quatro maiores grupos de tradição


religiosa. Os números correspondentes a essa afirmação são difíceis de
serem comprovados em vista das diversas escolas budistas. Hoje é
muito difundido no Sri Lanka e no Sudoeste da Ásia, embora esteja
também presente na China, Coreia e Japão. Excluindo a China, estima-se
que cerca de 200 milhões de pessoas professam a fé budista.
45

3.1 História
A Índia antes do budismo

O mundo à época do nascimento de Siddartha era de mudanças. Por


volta de 1500 a.C., a Índia passou a ser influenciada pela religião védi-
ca, trazida pelos guerreiros arianos. Possivelmente o processo sincréti-
co ocorrido entre os arianos e não arianos tenha originado o hinduísmo
após séculos de evolução. Essas mudanças teriam ocorrido entre os
anos 1000 e 200 a.C. Além das revoltas filosóficas contra o vedismo e
bramanismo, duas religiões surgiram na Índia: o jainismo e o budismo.
Acresce que a essa época surgiram duas grandes escolas filosóficas: a
ajivakas ou nihilistas e a lokayatas ou materialistas. Posteriormente, essas
duas escolas opuseram-se ao hinduísmo. Popular também à época do
nascimento de Siddartha era um movimento denominado Sâmara,
uma espécie de contracultura dos mendicantes religiosos, que optaram
pela renúncia ao mundo. Todos esses movimentos surgiram no exato
momento em que o ambiente da Índia era um campo fértil para novas
ideias.

Nascimento e vida de Siddartha

O príncipe Siddartha cresceu em meio à fortuna e ao luxo. Seu pai


ouvira uma profecia de que seu filho ou seria um poderoso governante
ou abandonaria por completo o mundo. Essa última opção ocorreria
caso o príncipe testemunhasse as mazelas e o sofrimento das pessoas.
Para evitar essa situação, tentou proteger seu filho mantendo-o recluso
aos limites do palácio e cercado de delícias e diversões. Casou-se jo-
vem com uma prima e mantinha um harém de dançarinas.

Aos 29 anos Siddartha experimenta uma situação que mudaria por


completo sua vida palaciana. Embora proibido pelo pai, arriscou-se a
sair do palácio e viu, pela primeira vez, um velho, um homem doente e
um cadáver em decomposição. A contradição se interpôs quando, a
seguir, viu um asceta com uma expressão de radiante alegria. Percebeu
que a vida de riqueza e prazer não traduz uma existência plena e com
sentido. Questionou-se sobre a existência de algo que ultrapassasse a
velhice, a doença e a morte. Percebeu-se tocado por um profundo
sentimento de compaixão pelas pessoas e por um chamado a fim de
libertá-las do sofrimento. Ato contínuo, renunciou à vida prazerosa do
palácio, a sua esposa e ao filho, e partiu para uma vida de andarilho.

Da vida de abundância, passou aos extremos dos exercícios ascéticos.


Comia cada vez menos. Chegou a alimentar-se apenas com um grão de
arroz por dia. O que esperava conseguir era o domínio do sofrimento.
46
Sem resultado, adotou o "caminho do meio", a meditação. Após seis
anos de meditação ascética, aos 35 anos, chegou à iluminação (bodhi)
à margem de um afluente do rio Ganges. Agora era um buda, um
iluminado. Alcançara a percepção de que todo o sofrimento do mundo
é causado pelo desejo. É apenas suprimindo o desejo que se pode es-
capar de outras encarnações.

Continuando sua meditação, alcança a compreensão de uma realidade


que não é transitória, mas absoluta e acima do tempo e do espaço. O
nome atribuído a essa realidade é nirvana. A lógica principia pelo
domínio do desejo de viver que prende o ser humano à existência. Esse
domínio para de produzir carma e, sem ele, não se está mais sujeito à
lei dos renascimentos. Encontrara para si uma saída para a superação
do sofrimento. Passo seguinte, Siddartha decide compartilhar sua
percepção.

À época, Benares era um grande centro religioso. É para lá que se diri-


ge. Faz sua primeira pregação e desencadeia o que se denomina de
"rodas de instrução". Monges mendigos tornam-se seus discípulos e
por volta de 40 anos o seguem pelo nordeste da Índia.

Seus seguidores, desde o princípio, dividem-se em dois grupos: os


leigos e os monges. Por volta dos 80 anos, adoece e despede-se de seus
discípulos. Daí para frente, eles poderiam contar somente com o darma
("instrução") que Siddartha lhes dera nos anos anteriores.

3.2 Ensinamentos
Uma vez que o budismo surge dentro do contexto hinduísta, como um
caminho individual para a libertação dos renascimentos, é natural que
muito de seus ensinamentos estejam marcados por esse pensamento.
Destacam-se, de modo especial, os pensamentos referentes às doutri-
nas do renascimento, do carma e da libertação (ou salvação).

Deuses

Buda não negou a existência dos deuses. Todavia, acreditava que a


existência dos deuses era transitória, assim como a existência humana.
Embora eles vivessem mais tempo que os seres humanos, também
estavam atrelados ao ciclo de renascimentos e em nada podiam ajudar
os seres humanos a se redimirem de tal ciclo.

Outra característica nesse tema diz respeito à adoração de demônios,


espíritos e outras divindades. Todos são seres vivos e, se cultuados de
modo correto, podem trazer vantagens para a vida neste mundo.
47
Ser humano

Para o hinduísmo, originalmente, todo ser humano, bem como todo o


Universo, possui uma única alma (atmã) que sobrevive de uma exis-
tência a outra e idêntica, total ou parcialmente, ao Transcendente uni-
versal (Brahman).

Buda rompe essa lógica. Nega que o ser humano tenha alma e rejeita a
existência de um espírito universal. A alma é fugaz e fruto da ignorân-
cia humana que promove o desejo, fundamental para a criação do
carma individual.

Nessa dimensão, o budismo entende a vida humana como uma série


de processos mentais e físicos que alteram o ser humano de momento a
momento. Tudo é transitório.

"Aquilo que você planta é o que colhe." O ser humano é dono de seu destino: o que
pensa e faz é determinante de seu futuro cósmico.

Vida e morte
A lei do carma

Para Siddartha, o Buda, o ser humano é escravizado por uma série de


renascimentos. Como todas as ações têm consequências, o princípio
propulsor que está por trás do ciclo nascimento-morte-renascimento
são os pensamentos dos seres humanos, suas palavras e seus atos
(carma).

A ideia básica enfatiza que tudo o que se fez em determinada vida,


ainda que passada, repercute e nos alcança no presente. As ações de
uma vida estendem-se a outra. O ser humano irá colher no presente
aquilo que plantou no passado. Não há "destino cego" e nem "divina
providência". Daí a impossibilidade de escapar do carma. Enquanto
houver um carma, o ser humano está fadado a renascer e manter-se
preso à existência humana, não transcendendo.

Inerente ao conceito de carma está a busca de uma saída, uma "passa-


gem", capaz de conduzir o ser humano à transcendência, livre de dese-
jos.

As quatro nobres verdades sobre o sofrimento

O denominado "Sermão de Benares", que apresentou as quatro verda-


des sobre o sofrimento humano, ocorreu depois que Siddartha obteve
o estado de iluminação. As quatro verdades demonstram que:
48
 tudo é sofrimento. Para o budismo, o sofrimento implica algo
mais do que mero desconforto físico e psicológico. Toda a existên-
cia é manchada pelo sofrimento, pois tudo é passageiro. Quem
não percebe isso é cego. Isso, no entanto, não significa que o bu-
dismo negue toda a felicidade material e mental. Ele reconhece
que existe alegria tanto na família como no mosteiro. Todavia, tu-
do aquilo que amamos e a que nos apegamos simplesmente não
vai durar;

Para pesquisar e confrontar:

 Como o cristianismo explica o sofrimento?

 Nirvana e céu são a mesma coisa?

 a causa do sofrimento é o desejo. O desejo implica, sobretudo,


desejar com os sentidos, a sede de prazeres físicos. Como essa ân-
sia nunca pode ser plenamente saciada, ela sempre irá acarretar
um sentimento de desprazer. Até mesmo o desejo de sobrevivên-
cia contribui para manter o sofrimento. Por outro lado, o budismo
também rejeita o extremo oposto. O desejo de anulação - ou desejo
de morrer - igualmente amarra o ser humano à existência, pois
não leva em consideração o carma, que impõe renascimento;

 o sofrimento cessa quando o desejo cessa. Quando o desejo cessa,


começa o nirvana. Um pré-requisito para suprimir o desejo é que a
ignorância deve ser enfrentada. Só o ser humano que não enxerga,
sente desejo. A ignorância leva ao desejo; o desejo, à atividade; a
atividade traz consigo o renascimento, e o renascimento origina
mais ignorância.

 o desejo cessa seguindo-se o caminho das oito vias. São elas:

 entendimento (ou percepção/visão) justo: conhecer a natureza e a


origem do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho que
conduz para a cessação do sofrimento;

 resolução justa: renunciar ao mundo e não prejudicar ou eliminar


qualquer ser vivo;

 palavra justa: abster-se da mentira ou calúnia, da injúria e dos


mexericos;

 conduta justa: abster-se de tirar a vida, roubar e praticar a luxúria;


49
 sustento de vida justo: abster-se de pegar ou comercializar armas,
consumir álcool e tóxicos, e de qualquer outra atividade que possa
trazer prejuízo a outros;

 esforço justo: é a vontade necessária para estancar as más quali-


dades que afloram à mente, eliminar todas as que ali ainda estão e
desenvolver bons estados mentais;

 pensamento justo: ter consciência do seu próprio corpo, dos sen-


timentos e das atividades da mente;

 meditação justa: é quando, privado de luxúria e disposições erra-


das, a serenidade interna é desenvolvida através da prática de
meditação. Esta é a atividade que, em última análise, conduz ao
nirvana.

Os dois primeiros caminhos falam da necessidade de compreender o


mundo: perfeita compreensão e perfeita aspiração. Os três seguintes
discorrem sobre o código de ética do budismo: perfeita fala, perfeita
conduta e perfeito meio de subsistência. Os últimos três mencionam a
maneira como o ser humano pode melhorar a si mesmo e purificar sua
mente: perfeito esforço, perfeita atenção e perfeita contemplação.

Analise os oito caminhos como uma proposta de conduta ética e tire suas próprias
conclusões.

Ética

Com a decisão de Buda, depois de alcançar a iluminação, de tornar-se


guia do ser humano, passa a ser fundamental para o budismo o amor e
a compaixão. Não só as ações, mas também os sentimentos e afetos são
importantes. A caridade realizada não apenas afeta os outros, mas
contribui para enobrecer o próprio caráter de quem a realiza.

Nessa dimensão, o budismo tem cinco regras de conduta:

 não fazer mal a nenhuma criatura viva;

 não tomar aquilo que não lhe foi dado (não roubar);

 não se comportar de modo irresponsável nos prazeres sensuais;

 não falar falsidades;

 não se entorpecer com álcool e drogas.


50
Mundo

As ideias fundamentais do budismo são profundamente pessimistas.


Tudo no mundo é sem autonomia, transitório e pleno de sofrimento.
Não há esperança para o ser humano enquanto mantiver-se preso ao
ciclo dos renascimentos. Há, porém, algo além do sofrimento. É o nir-
vana. Significa simplesmente "apagar", uma referência ao fato de que o
desejo se extingue quando se atinge o nirvana.

Uma vez que o nirvana é o oposto direto do ciclo de renascimentos, e


uma vez que ele não pode ser comparado a nada neste mundo, só é
possível dizer que o nirvana não é. Alcançá-lo só é possível através do
estado de iluminação, e de nada adiantam, por si só, as boas obras.

Embora sem autonomia, transitório e pleno de sofrimento, esse é o


espaço dado e no qual o ser humano pode chegar à libertação plena
dos renascimentos.

3.3 Principais tendências


Os pensamentos de Buda foram transmitidos oralmente. O resultado
foi o surgimento de, pelo menos, 18 escolas diferentes. As escolas rela-
cionadas a seguir representam apenas as mais importantes ramifica-
ções do budismo no mundo moderno.

 Budismo Theravada: é a mais antiga escola da tradição budista.


Defende que cada ser humano é responsável sozinho pela sua
própria iluminação. Apenas poucos alcançam esse estado. A sabe-
doria e a disciplina são virtudes valiosas. Os rituais não são fun-
damentais, e sim a devoção. Estão presente no Sri Lanka, Tailân-
dia, Mianmar, Laos e Camboja.

 Budismo Mahayana: é o budismo das pessoas comuns. Enfatiza


que qualquer pessoa pode alcançar o estado de iluminação que li-
berta. A compaixão e o amor pelos menos afortunados são mais
importantes que a sabedoria.

 Budismo Zen: é um amálgama da escola Mahayana com o taoís-


mo. Zen é o caminho da iluminação por meio da meditação e da
vida simples, evitando as teorias abstratas e favorecendo a experi-
ência direta de um espírito "vazio" e aberto. Há duas grandes esco-
las: a rinzai zen, que dá ênfase à iluminação espontânea, e a soto,
que enfatiza a concentração espiritual e corporal disciplinada na
meditação. As escolas Zen também enfatizam a pintura, a caligra-
fia e até a cerimônia do chá como expressões de um vínculo não
51
interpretado com a natureza. Tornou-se popular no Ocidente a
partir da década de 1950 com o surgimento dos movimentos holís-
ticos.

 Budismo da Terra Pura: é o culto de um buda ou bodhisattva


que vive numa terra pura, celestial. Seus devotos procuram renas-
cer na Terra Pura, onde alcançarão a iluminação libertadora.

 Budismo Nichiren: também conhecido como Seita do Lótus, ensi-


na que o budista verdadeiro é o que segue os ensinamentos conti-
dos no Sutra do Lótus, escritura do século I d.C. A ênfase é que
Buda é eterno e cósmico, manifestando-se incessantemente em
budas terrenos. O maior grupo dessa tendência é o Nichiren
Shoshu.

 Budismo Tibetano: também conhecido como lamaísmo, adota a


doutrina do bodhisattva e o caminho gradual rumo ao estado de
iluminação, através de rígidas disciplinas monásticas. O grupo
mais importante nessa tendência é de Gelugpa, fundado em fins
do século XIV d.C. Seu líder espiritual é o dalai-lama ("guru ocea-
no"), cuja sabedoria é profunda e ampla como o mar. O dalai-lama
é considerado a encarnação de um bodhisattva, e cada dalai-
lama sucessivo é a reencarnação do anterior. A partir do século
XVII, o dalai-lama passou a ser também o líder secular do Tibet,
até o país ser ocupado pela China em 1959, quando o dalai-lama
passou a viver em exílio.

No Brasil, podem ser identificadas três grandes escolas budistas. Deve-


se levar em conta que cada escola pode estar subdividida em vários
grupos.
4
Ronaldo Steffen
ISLAMISMO

Perfil

Fundador: profeta Muhammad (Maomé).

Data de nascimento: 570 d.C.

Local de nascimento: Meca, atual Arábia Saudita.

Ano de fundação: 622 d.C., em Meca.

Textos sagrados e reverenciados: Qu´ran (Corão), coleção das


escrituras divinas como reveladas ao profeta Maomé pelo arcanjo
Gabriel, e Hadith, coleção de ditos de Maomé e seus seguidores e que
se perpetuaram com o decorrer do tempo.

Estatísticas: estima-se hoje em cerca de 1 bilhão e trezentos milhões de


adeptos distribuídos pela Turquia, Oeste da África, Sul da Ásia,
Filipinas, Indonésia, Índia, Oriente Médio, Europa e as três Américas.
No Brasil, fala-se em um milhão de adeptos.

4.1 História
Com origem na Arábia, o islã está profundamente relacionado com a
cultura árabe. Ressalte-se, no entanto, que hoje apenas uma minoria de
seus seguidores é árabe. O islã está difundido por regiões da África e
Ásia, em especial, e é seguido por cerca de 15% da população mundial.

A palavra árabe islam significa submissão. É pertinente ao seu conteú-


do que o ser humano deve entregar-se a Deus e o submeter-se a Sua
vontade em todas as áreas da vida. Esse entendimento sugere que,
enquanto religião, o islã abrange todas as áreas da vida humana, pes-
soal e social.
53
É a terceira e última das religiões originadas com Abraão, após o juda-
ísmo e cristianismo. Fruto de um "segundo casamento" de Abraão com
Hagar, Ismael dá origem aos muçulmanos.

De importância capital para a compreensão do islã é a figura de Mu-


hammad, ou Mohammed, ou, ainda, Maomé.

Maomé

Nasceu em Meca, na Arábia, por volta de 570 d.C. Nascido numa das
principais famílias da cidade, ficou órfão ainda criança. Criado por um
tio, Abu Talib, foi trabalhar como condutor de camelos para Khadidja,
viúva de um rico mercador. Quinze anos mais velha que Maomé, veio
a ser sua esposa e exerceu grande influência no desenvolvimento reli-
gioso do marido, que não teve outra esposa.

A formação religiosa de Maomé

Meca era um importante centro comercial e religioso da Arábia. Tribos


nômades já adoravam, bem antes de Maomé, a pedra preta, objeto de
muitas peregrinações de beduínos. Era prática comum na região, tam-
bém, cultuarem-se muitos deuses e seres sobrenaturais, quase sempre
ligados a práticas animistas. Em geral, os cultos eram tribais. Aliás, a
tribo e a família eram estruturas centrais para o modo de vida dos
nômades. Todo o sistema legal estava vinculado à tribo, originada e
mantida pelos laços de sangue. Era recorrente a prática da lei do "olho
por olho" quando um dos membros de uma tribo era assassinado por
membro de outra. Um cenário de constantes e sangrentas rixas fixou-se
como prática comum.

Já à época de Maomé, apresentava-se um quadro de transição. A soci-


edade beduína nômade começava a dar lugar a uma sociedade urbana
mais fixa. Com isso, a religião e as práticas tradicionais passaram a ser
revistas. Nesse hiato, aumentou em muito a influência do judaísmo e
do cristianismo. Com toda certeza, Maomé foi fortemente influenciado
pelo monoteísmo e pela noção de fim de mundo acompanhado de
juízo final.

Maomé foi fortemente influenciado pelos ideais judaicos e cristãos, especialmente o


monoteísmo.

O judaísmo havia se estabelecido em toda a Arábia depois da queda de


Jerusalém em 70 d.C. Aos poucos, os judeus incorporaram a língua e o
estilo de vida dos árabes, mantendo, porém, sua própria crença e seu
culto mosaico.
54
O papel de monges e eremitas cristãos na vida de Maomé.

O cristianismo, por sua vez, também havia avançado por muitas regi-
ões do Oriente Médio. Estados tornaram-se cristãos, como a Abissínia
(atual Etiópia), bem como muitas tribos beduínas. Com certeza o gru-
po que mais influenciou Maomé em sua formação religiosa foram
monges e eremitas cristãos, que viviam isolados nos desertos da Ará-
bia. Devotos e generosos, eram pródigos na ajuda aos viajantes.

Deus revela-se a Maomé

Era costume de Maomé retirar-se todos os anos para uma caverna aos
arredores de Meca com o fim de meditar. Este hábito também era prá-
tica corrente dos eremitas cristãos, que, diferentemente de Maomé,
fundamentavam sua meditação em algum texto sagrado, em geral os
evangelhos da tradição cristã.

A recitação de Maomé resulta no Alcorão.

Aos 40 anos, Maomé teve uma revelação. Apareceu-lhe o arcanjo Ga-


briel com um pergaminho ordenando-lhe que o lesse. Maomé não
sabia ler, e, em vista disso, o arcanjo incitou-lhe a recitar o que ouvia.

As recitações transmitidas por Maomé foram reunidas num livro, o


Qu´ran, o Corão, apenas após a sua morte. Assim como no judaísmo e
no cristianismo, o islamismo também passa a ter seu livro sagrado.

De Meca a Medina

Após a revelação, Maomé começa sua pregação em Meca. Proclama-se


profeta e mensageiro de Deus. As famílias abastadas entenderam essa
pregação como manobra para usurpar o poder político da cidade. As
famílias assentadas no tradicionalismo religioso também se lhe opuse-
ram por entender que se abandonassem suas antigas crenças, estariam
reconhecendo que seus antepassados foram pagãos.

A crise estava instalada. A situação de Maomé piora após a morte de


seu tio e sua esposa. Alguns de seus seguidores, residentes em Medina,
mostraram-se dispostos a aceitá-lo na cidade. Assim, em 622 Maomé
sai de Meca e vai para Medina.

Esse episódio é conhecido como hégira, que significa rompimento ou


partida, mas jamais fuga.

A hégira é uma partida estratégica. Lembre que não é uma fuga.


55
Líder religioso e político

Em Medina torna-se um líder religioso e político. Sem perder de vista


seu futuro retorno a Meca, procura estabelecer-se financeiramente
através de assaltos a caravanas pertencentes às famílias ricas de Meca.
O conjunto das atividades desenvolvidas por Maomé com vistas ao
retorno à Meca é conhecido como jihad, hoje empregado para designar
a guerra santa.

Jihad atribui-se ao conjunto das ações que Maomé desenvolveu para voltar a Meca.

Na década seguinte, ele toma a cidade de Meca por meios militares e


diplomáticos. Tomou, a seguir, grande parte da Arábia. Antes de mor-
rer, em 632, tinha conseguido unir o país e transformá-lo num só do-
mínio, onde a religião tornara-se mais importante que os antigos laços
familiares e tribais.

O cisma no islã após Maomé

Após a sua morte, a liderança do movimento foi assumida pelos cali-


fas, ou sucessores. Os três primeiros califas eram parentes de Maomé.
O quarto califa, Ali, genro de Maomé casado com sua filha Fátima, era
filho de seu tio, Abu Talib, que o havia criado.

O cisma no mundo islâmico começa na época de Ali, cuja liderança foi


repleta de controvérsias. Ali acabou sendo assassinado por seus adver-
sários. Seus seguidores defendiam e acreditavam que, por ser o paren-
te mais próximo de Maomé, ele era o seu sucessor natural. Esses se-
guidores eram identificados como sendo os Shiat Ali (o partido de Ali),
ou xiitas, que formam a base da religião oficial do Irã de hoje.

Surgem os xiitas e os sunitas

Os xiitas defendiam que a liderança do movimento deveria ser conce-


dida a um descendente direto de Maomé, enquanto que o grupo di-
vergente, facção bem maior que os xiitas, identificados como sunitas,
julgava que a liderança cabia ao indivíduo que de fato controlava o
poder.

Após a morte de Ali, o califado teve sede em Damasco por algum


tempo, e a seguir instalou-se em Bagdá, onde permaneceu por 500
anos. Depois disso, a liderança passou para o sultão turco de Istambul.
O último sultão foi derrubado em 1924, e desde então o mundo islâmi-
co deixou de ter um califa como líder.
56

4.2 Ensinamentos
Deus

Não há Deus senão Alá, e Maomé é seu profeta. Esse é o resumo da fé


islâmica: o monoteísmo e a revelação dada a Maomé.

Monoteísmo

Alá não se trata de um nome pessoal, mas é a palavra árabe que signi-
fica Deus. Etimologicamente, a palavra alah relaciona-se com a palavra
hebraica el, que é utilizada na Bíblia para nomear o Deus dos hebreus.

O termo alah, árabe, e o termo el, hebraico, referem-se a Deus.

O politeísmo é atacado com veemência, ressaltando a crença num só


Deus, que é criador e juiz. Ele criou o mundo e tudo o que há nele. No
último dia, irá trazer todos os mortos de volta à vida para julgá-los.

Há uma forte ênfase no amor e na compaixão divinos. Embora Deus


seja aquele a quem todos devem submeter-se, também é o que perdoa
e auxilia o ser humano. O ser humano não merece nada de Deus e nem
pode invocar direitos sobre nada. A salvação e a fé brotam somente da
graça de Deus e são coisas que os seres humanos podem apenas ter
esperança de conseguir.

Revelação

Deus falou ao ser humano por intermédio de seu profeta Maomé. Ele é
o último dos profetas enviado por Deus à humanidade. Embora de
início Maomé estivesse próximo às tradições judaico-cristãs, delas se
distancia em razão de controvérsias tidas com os judeus sobre narrati-
vas do Antigo Testamento.

O fundo histórico do movimento desencadeado por Maomé é encon-


trado em Abraão e seu filho, Ismael, antepassado dos árabes. Maomé
ensinou que Abraão e Ismael tinham reconstruído a sagrada Kaaba,
que fora erigida por Adão e destruída pelo dilúvio. Para Maomé, tanto
os judeus como os cristãos distanciaram-se do monoteísmo de Abraão.

Quando, em Medina, Maomé ensinara que, ao se orar, o rosto deveria


estar voltado para Jerusalém. Depois de rompidas as relações com os
judeus, a orientação mudou: o fiel, agora, deve estar de frente para
Meca ao orar. Por essa época também se designou a sexta-feira como
dia sagrado da semana.
57
Em relação ao cristianismo, a diferença acentuou-se na questão da
trindade. Além disso, houve divergência no papel de Jesus que, para o
cristianismo, é o Verbo (Palavra) revelado, enquanto que, para o isla-
mismo, a revelação é o próprio Qu´ran (Corão).

Ser humano

O ser humano possui um estatuto especial e uma posição privilegiada


no Universo. A vida é dádiva divina. O ser humano é criatura divina
perfeita e possuidora de uma alma que perdura após a morte.

A bondade lhe é inata por graça divina e não se perde por qualquer
meio ou motivo. Não há a noção de um pecado herdado. O ser huma-
no é sempre bom. Quando muito, ele se esquece de sua origem divina
e da bondade que lhe é inerente. Para que isso não ocorra, o ser huma-
no necessita constantemente reavivar suas origens e qualidades divi-
nas.

O fato de ter sido escolhido por Deus para revelar-Se dá a dimensão


exata dos grandes valores e das qualidades humanas.

Vida e morte
Os Cinco Pilares

A vida de um seguidor do islamismo está marcada por cinco passos


bem definidos, denominados de Os Cinco Pilares.

 Credo: "Não há outro Deus senão Ala, e Maomé é seu Profeta". É a


primeira coisa que se deve sussurrar ao ouvido da criança recém-
nascida e a última a ser sussurrada no ouvido do moribundo.

 Oração: deve ser feita cinco vezes ao dia; o pressuposto é estar


ritualmente limpo das impurezas causadas pelas funções corpo-
rais, o que é obtido pelo banho em água corrente.

 Caridade: é uma espécie de taxa sobre a riqueza e propriedade,


fixada em cerca de 2,5% sobre o montante; ela é destinada a usos
sociais, objetivando diminuir as desigualdades entre ricos e po-
bres, sem interferir no princípio da propriedade privada. O islã
não proíbe que se desfrute a vida na terra, mas lembra de que se
deve ter sempre em mente o fato de que esta não passa de uma
preparação para a vida que começará depois do julgamento divi-
no.
58
 Jejum: o Corão proíbe comer porco e beber álcool. De resto, nada
se proíbe. A exceção é o jejum durante o Ramadan, mês em que
Maomé teve sua primeira revelação. Nesse período, entre o nascer
do sol e o pôr-do-sol é proibido comer, beber, fumar ou ter rela-
ções sexuais. Os viajantes, os doentes, as crianças e as mulheres
grávidas ou que estão amamentando são exortados a cumprir o je-
jum numa data posterior.

 Peregrinação a Meca: todo muçulmano adulto que dispõe de


meios financeiros deve realizar, pelo menos uma vez na vida, uma
peregrinação a Meca. Os peregrinos que para lá se dirigem pas-
sam a usar vestes brancas e caminham em torno da Kaaba por sete
vezes. Outro momento importante é quando os peregrinos vão ao
monte Arafat e lá ficam, sem cobrir a cabeça, do meio-dia até o
pôr-do-sol. Foi no monte Arafat que Adão e Eva se encontraram
de novo, depois que foram expulsos do jardim do Éden. O ponto
alto das festividades é o sacrifício de algum animal (carneiro, bo-
de, camelo, boi, etc.). A finalidade é relembrar que Abraão foi tão
obediente a Deus que se dispôs a sacrificar seu próprio filho, Is-
mael. Deus foi misericordioso com Abraão e enviou-lhe um ani-
mal para que ele o sacrificasse em lugar do filho.

Relações humanas - ética e política

Não há, no islã, distinção entre religião e política, tampouco entre fé e


moral. O Corão é suficiente para resolver todas as questões que envol-
vem os relacionamentos humanos. Quando as instruções do Livro não
forem suficientes, recorre-se a dois princípios:

 princípio da similaridade ou analogia: busca-se no Corão um


exemplo semelhante e capaz de sugerir uma decisão;

 princípio do consenso: uma decisão de consenso pode ser vista


como lei a ser observada.

Os xiitas adotam um terceiro princípio: o da revelação. Acreditam que


a revelação não está concluída e que seus líderes são os instrumentos
divinos para as novas interpretações. Essa posição contraria a dos
sunitas, que afirmam que a revelação veio apenas uma vez, em sua
forma final.

As mulheres no islã

Há profundos contrastes no tratamento de homens e mulheres na vida


social e nas leis relativas ao casamento. Deve-se, no entanto, afirmar
que o Corão, em relação às mulheres, tanto determina obrigações ("os
59
homens têm autoridade sobre as mulheres") quanto direitos (o dote
pago pelo marido, por ocasião do casamento, é propriedade da mulher
e não pode ser usado sem o consentimento dela).

A mulher só pode ter um marido. Já o homem pode ter até quatro


esposas, desde que as possa sustentar. A poligamia é proibida na Tur-
quia e na Tunísia. Outra particularidade com relação ao casamento, e
pouco conhecida, embora bastante difundida, é o casamento por con-
trato com tempo determinado. É utilizado, em especial, quando o
marido fica por muito tempo fora de casa e tem por fim preservar a
sustentabilidade da mulher.

O divórcio é possível, mas apenas quando iniciado pelo marido, que é


o responsável pelo lado financeiro do casamento.

O marido tem o direito de punir fisicamente a mulher se ela for deso-


bediente.

A excisão do clitóris (mutilação genital feminina) não é obrigatória,


mas mesmo assim é praticada com frequência no Norte da África. Não
há, no Corão, menção a essa prática, bem como não se menciona a
tradição de usar o chador, o véu.

A morte

Após a morte, a alma do fiel muçulmano vai a um paraíso desfrutar


dos seus deleites e contemplar o rosto de Alá. A alma do infiel, por seu
turno, vai ao inferno. Aguardar-se-á o dia do juízo, quando as ações
dos seres humanos serão definitivamente julgadas e receberão a devi-
da paga. As almas dos mártires e dos profetas não passarão pelo juízo
final, pois já estão no paraíso.

O ato final será a proclamação do islã como religião mundial, liderada


por Jesus.

A crença num julgamento final após a morte é necessária, segundo


muitos muçulmanos, para que o ser humano assuma a responsabilida-
de sobre seus atos. A ideia de um julgamento cria um senso moral de
dever que é relevante para a comunidade.

Mundo

O mundo foi criado por um ato deliberativo de Alá. Dois aspectos


emergem, em decorrência: o mundo da matéria é real e importante, e
por ser obra de Alá, que é perfeito em bondade e poder, o mundo
material também o é.
60

4.3 Principais tendências


 Sunitas: defendem que a unidade da comunidade islâmica é mui-
to mais importante que a genealogia de seu líder. Defendem que o
Profeta morreu sem indicar um sucessor, e que os líderes que o
sucederam, os califas, representam a sucessão legítima. Distin-
guem-se, ainda, pela ênfase dada à inescrutabilidade racional de
Alá e à extensão limitada do livre arbítrio humano.

 Xiitas: defendem que a unidade da comunidade islâmica só é


possível reconhecendo-se que os descendentes do profeta são os
líderes (imã), modelos naturais escolhidos por Alá. É particular-
mente importante para esse grupo não perder de vista que o ter-
ceiro líder, assassinado em 680 ao recusar-se jurar fidelidade ao
califa regente, optou pelo martírio como forma de obediência às
revelações dadas ao Profeta. Essa lembrança manifesta-se no sen-
timento de luto que toma conta dos xiitas por ocasião da morte,
quando em luta, de um de seus adeptos. Possuem um clero hie-
rárquico organizado, cuja ascensão se dá segundo o grau de cultu-
ra, e o mais alto nível é o de aiatolá.
 Sufismo: é o grupo islâmico com tendência mística e cuja caracte-
rística mais marcante é a renúncia ao eu, através de hábitos devo-
cionais e pela convicção de que Alá é a verdade suprema da exis-
tência humana e o caminho para os estados mais elevados de
consciência e iluminação. O termo sufi designa "o que se veste
com lã", numa referência possível às vestes dos primeiros sufis.

 Fundamentalismo islâmico: defende que o shari'ah (conjunto


de regras islâmicas extraídas do Corão e dos ensinamentos de
Maomé) tem validade eterna e deve ser seguido à risca. O movi-
mento surgiu por volta do século XVIII como uma reação ao avan-
ço ocidental e consequente relaxamento dos princípios da shari'ah.
Seus adeptos imaginam que será através de uma inserção cada vez
maior na política que poderão ser restabelecidos os princípios is-
lâmicos. Defendem uma estrutura familiar patriarcal. Os postos
militares e políticos só devem ser entregues a muçulmanos com-
prometidos com a comunidade islâmica; aos empregados deve ser
dado tempo para as orações diárias; deve-se solidariedade aos
muçulmanos no mundo todo, e opõem-se ao homossexualismo e
ao aborto.
5
Ronaldo Steffen
JUDAÍSMO

Perfil

Fundador: Abraão e seus descendentes Isaque e Jacó.

Data de nascimento: por volta de 1700 AEC (antes da era comum; é assim
que os judeus preferem identificar a cronologia antes de Cristo).

Local de nascimento: provavelmente Ur, na Caldéia.

Textos sagrados e reverenciados: a Torah, que descreve a criação do


mundo e a fundação do reino de Israel, além de contar as leis divinas; o
Talmude, um conjunto de escritos jurídicos, éticos e litúrgicos, bem como
de histórias e lendas judaicas.

Estatísticas: fala-se em 15 milhões de adeptos, dos quais seis estão fora de


Israel. No Brasil, estima-se em 130 mil adeptos.

5.1 História
O judaísmo é uma religião inteiramente ligada à história. As narrativas
bíblicas começam com Adão e Eva, assim como nos relatos que apon-
tam as consequências do pecado, manifestadas no desejo humano de
rebelar-se contra Elohim (Deus). Segue-se a expulsão do paraíso. Mais
tarde, o mundo inteiro é destruído pelo dilúvio, salvando-se apenas
Noé e sua família, juntamente com todos os animais da Terra. Sodoma
e Gomorra, cidades sem Elohim, são aniquiladas, e a torre de Babel é
derrubada por representar a tentativa humana de chegar até o céu.

De Abraão a Moisés

A fase histórica seguinte tem seu ponto de partida com Abraão, quan-
do este sai da cidade de Ur, localizada no atual Sul do Iraque, por volta
de 1700 AEC. Seguindo orientação divina, Abraão saiu de sua terra e
62
foi em direção à terra indicada por Elohim, a fim de formar um grande
povo. Esse povo ganhou um nome após uma dramática luta entre um
anjo de Elohim e Jacó, neto de Abraão. Ao ser derrotado, o anjo dá a
Jacó o nome de Israel (o que venceu a Elohim). Os filhos de Jacó, mais
tarde, vieram a ser identificados como as doze tribos de Israel.

Com José, um dos filhos de Jacó, as narrativas bíblicas mostram como


os israelitas foram parar no Egito. Após serem escravizados, foram
retirados do Egito com a ajuda de Moisés, numa jornada de 40 anos
pelo deserto antes de chegarem à Canaã, a terra prometida.

Confira esses relatos no Livro de Êxodo, disponível em www.sbb.org.br.

Fato marcante da travessia dá-se no monte Sinai quando Elohim dá a


Moisés as duas tábuas da Lei com os Dez Mandamentos.

Por volta de 1200 AEC, os israelitas conquistaram parte de Canaã,


convivendo com povos não israelitas. Foi à época dos juízes que cui-
davam para que o povo respeitasse as leis dadas por Elohim. A luta
com os filisteus, nesse período, foi o episódio determinante da necessi-
dade da criação de um poder político centralizado.

O reino de Israel

O ano 1000 AEC marca a introdução da monarquia através de Saul.


Davi e Salomão são os expoentes desse período. Com Davi, nascido em
Belém, dá-se a unificação das tribos de Israel. Com Salomão, dá-se a
construção do Templo de Jerusalém no século X AEC.

A prática de sacrifícios no templo, espécie de oferendas, passou a ser


forma mecânica de adoração. Surgem, daí, os profetas. Destaca-se
Amós, que viveu por volta de 750 AEC. Amós atacava os males sociais,
como a opressão dos pobres pelos ricos.

O exílio na Babilônia

Advertidos pelos profetas do juízo e sofrendo punição em razão do


descumprimento das leis divinas, os israelitas, sem retroceder, viram o
seu reino dividido em dois: o reino do Norte (Israel) e o do Sul (Judá).
Em 722 AEC, os assírios invadiram e devastaram o reino do Norte, que
deixa de ter importância política e religiosa.

O reino do Sul foi conquistado pelos babilônios em 587 AEC, que dei-
xaram como marca da ocupação a destruição do Templo de Jerusalém.
Os habitantes do reino do Sul tiveram a permissão de voltar a sua terra
em 539 AEC, e daí em diante se tornaram conhecidos como judeus.
63
O Templo de Jerusalém foi reerguido em 516 AEC.

Ocupação estrangeira

Seguidas vezes, após o retorno da Babilônia, os judeus caíram sob o


domínio político estrangeiro. Foi assim que, em 70 EC (Era Comum),
uma revolta contra os romanos levou ao saque de Jerusalém. O Tem-
plo, que recentemente fora ampliado pelo rei Herodes, foi outra vez
arrasado. Dessa época em diante, tem-se um novo formato do judaís-
mo, desvinculado do templo e centrado na sinagoga. Muitos judeus
estavam agora dispersos pelas terras do Mar Mediterrâneo.

História mais recente

A dispersão dos judeus provocada pelas diversas ocupações permitiu-


lhes, em muitas ocasiões e em diferentes lugares, assumir papel de
grande importância e destaque, tanto nas letras como na economia (a
religião permitia-lhes ganhar juros emprestando dinheiro).

No entanto, o que mais tem marcado a dispersão dos judeus é a cons-


tante campanha que diferentes países e culturas têm desencadeado
com o fim de afastar os judeus de seus limites geográficos, em especial
a partir da Baixa Idade Média. Por muito tempo, o cristianismo enca-
beçou a perseguição aos judeus sob a alegação de terem sido os judeus
os culpados pela morte de Jesus. Nos séculos XIII e XIV, os judeus
foram deportados da França e da Inglaterra; na Espanha, a perseguição
deu-se no século XV, com a expulsão em 1492. Na Noruega, em 1687,
os judeus foram proibidos de entrar em seu território. Culmina o cená-
rio de perseguição, na história recente próxima, com o avanço nazista
na Europa, entre 1933 e 1945.

Mesmo em épocas em que as perseguições explícitas não ocorriam, os


judeus continuavam sofrendo restrições: tratados como párias sociais;
obrigados a adotar nomes de fácil identificação; residirem lugares
específicos; proibidos de possuir terras, e assim por diante.

Apenas em 1948 veio o reconhecimento mundial, através do ato pelo


qual a ONU criou o Estado de Israel. Os primeiros passos foram dados
no fim do século XIX. Muitos judeus consideraram a possibilidade de
voltar para sua antiga pátria e, assim, fugir das constantes persegui-
ções de que eram alvos. Essa ideia foi chamada de sionismo. A princí-
pio, muitos sionistas desejavam criar um Estado laico, secular, mas os
judeus ortodoxos conseguiram realizar o seu desejo de que o país fosse
fundado com base na religião judaica.
64
Esse novo Estado tem vivido em contínuo conflito com o mundo árabe,
também por causa dos milhares de palestinos que foram deslocados de
suas propriedades na época da fundação de Israel.

Hoje as terras israelenses abrigam apenas cinco dos onze milhões de


judeus.

5.2 Ensinamentos
Deus

O judaísmo é uma religião monoteísta. Elohim, o deus único, é o cria-


dor do mundo e o senhor da história. Toda vida depende dele, e tudo o
que é bom, flui dele. É pessoal e tem preocupação com as coisas que
criou.

Elohim é algo que não pode ser expresso em palavras. O nome de deus
é representado pelas letras IHVH, um acrônimo que significa "eu sou o
que sou" em hebraico. Esse acrônimo costuma ser lido como Jeová ou
Javé, porém o nome real é tão sagrado que sempre se usa algum sinô-
nimo, como "o Senhor" ou "o nome". Jeová é o criador e o sustentador
do mundo. A ideia de que Elohim possa não existir é alheia a um ju-
deu.

Particularmente específica na concepção de Elohim, é a expectativa


nutrida pela vinda de um messias ("o ungido"), que virá criar um reino
de paz na Terra. Historicamente, a expectativa remonta-se à época do
rei Davi, quando os reis eram ungidos ao subir ao trono. Desde o exílio
babilônico, os judeus alimentam a expectativa da chegada de um mes-
sias, saído da linhagem de Davi. Esse rei ideal restabeleceria Israel
como uma grande potência, e seu povo desfrutaria de eterna felicida-
de.

MESSIAS

- Alguns esperam a vinda de uma pessoa;

- Outros esperam uma era messiânica;

- Outros identificam que essa era chegou com a criação do Estado de Israel.

Até hoje, essa expectativa continua viva. Nem todos os judeus, porém
identificam o Messias como uma pessoa; alguns falam numa "era mes-
siânica": um estado de paz na Terra, com destaque especial para Israel.
Há alguns judeus que identificam a criação do Estado de Israel, em
1948, como o cumprimento dessa expectativa.
65
Ser humano

O fato de que Elohim é um, e apenas um, reflete-se na existência hu-


mana. Toda a vida do ser humano deve ser consagrada. Não há linha
divisória que separe o sagrado do profano.

Enquanto ser biológico, o ser humano faz parte do cosmo. No entanto,


de tudo o que há no cosmo, o ser humano foi escolhido como parte da
essência divina, ultrapassando os limites biológicos. Por isso, faz parte
da missão divina no cosmo, realizando a mediação entre o criador e a
criatura. A tarefa mais importante do ser humano é cumprir todos os
seus deveres para com Elohim e para com seus semelhantes.

O ser humano, embora biológico, faz parte da essência divina e deve cumprir a
missão de Elohim aqui na Terra.

Vida e morte

A vida e a morte de um judeu têm seus caminhos e atalhos traçados


nas escrituras sagradas.

Os escritos sagrados

O chamado cânone judaico foi fixado por um concílio em Jabne, por


volta de 100 EC. São 24 livros divididos em três grupos:

 Tora (a Lei): os cinco livros de Moisés;

 Nevim (os Profetas): os livros históricos e proféticos;

 Ketuvim (os Escritos): os demais livros.

Além da Tora, os judeus obedeciam a regras transmitidas oralmente.


Conforme a tradição no monte Sinai, Moisés teria recebido a "Lei Escri-
ta", bem como a "Lei Falada". A Lei Falada era proibida de ser escrita,
pois deveria adaptar-se às condições reais da vida em diferentes luga-
res e épocas. Após a dispersão dos judeus, com o risco de perder-se a
tradição oral, decidiu-se registrar as orientações. Esse material chama-
se Talmude. Não é em si um livro de ensinamentos, e sim um texto
usado pelos rabinos em seus ensinamentos, para orientação dos fiéis
em situações concretas.

A sinagoga e o sábado

Desde o exílio, a sinagoga tem desempenhado papel primordial na


preservação das práticas religiosas dos judeus. É nesse espaço que se
encontra a Arca, uma espécie de armário colocado sistematicamente na
66
direção de Jerusalém, onde são guardados os rolos da Tora. Nas ma-
nhãs dos sábados (shabat), das segundas e quintas-feiras, os rolos são
lidos de tal forma que todo livro é lido no decurso de um ano. A sina-
goga pode abrir suas portas para os serviços religiosos três vezes por
dia, desde que dez homens estejam presentes. As mulheres não de-
sempenham parte ativa no serviço religioso, pelo menos nos grupos
ortodoxos. No entanto, encontram seu espaço nos rituais do shabat.

O shabat dura do pôr-do-sol de sexta-feira até o pôr-do-sol de sábado. É


uma relembrança do ato criador de Jeová, que descansa no sétimo dia.
O sábado tornou-se uma festa semanal de renovação que ocorre em
família. A esposa abençoa as velas do shabat na mesa já posta. O mari-
do abençoa o vinho e o pão. É mais um grande momento para a união
familiar judaica.

As regras alimentares

É responsabilidade da mulher zelar pela alimentação da família. Há,


para tanto, que respeitar as regras definidas nos livros sagrados.

A carne só pode provir de animais que ruminam e que têm o casco


partido, o que exclui o porco, o camelo, a lebre, o coelho e outros. Das
aves, podem-se comer as não predatórias. Dos peixes, podem-se comer
os que possuem escamas e barbatanas, excluindo-se polvos, lagostas,
mariscos, caranguejos, camarões, etc.

Toda comida feita de sangue também é proibida, já que a vida está no


sangue. Os animais com sangue e permitidos para alimentação devem
ser abatidos de forma que o máximo possível de sangue seja extraído.

Além disso, ainda é proibido comer derivados de carne juntamente


com derivados de leite.

As frutas, verduras, bebidas alcoólicas e não alcoólicas são permitidas.

Refletir:

Quem cuida hoje dos cuidados da alimentação na família?

A ética

O religioso e o ético fundem-se na vida de um judeu. Tudo pertence à


Lei de Elohim. Além das 248 ordens afirmativas e das 365 proibições, a
vida do judeu ainda deve respeitar os costumes e práticas que se con-
solidaram ao longo de sua história.
67
Entre as qualidades éticas recomendadas, estão a generosidade, a hos-
pitalidade, a boa vontade para ajudar, a honestidade e o respeito pelos
pais.

Refletir:

Dar esmola não é caridade, mas ato de justiça.

O dízimo (10%) faz parte do comportamento de muitos judeus. Com


relação aos pobres e necessitados, é curioso notar que o ato de dar
esmolas não é considerado caridade, mas justiça. O dever de combater
a pobreza é preceito bíblico a fim de cumprir-se a palavra de que ja-
mais haverá pobre no povo escolhido. A mesma concepção é mantida
em relação às viúvas, órfãos e estrangeiros.

Quando em determinada situação não houver clareza sobre o que


fazer, ou se a atitude gerar conflito, prevalece a vida humana.

As fases da vida

Nascimento, juventude, casamento e morte são fases da vida, marca-


das por costumes antigos e ainda mantidas.

 Circuncisão: oito dias após o nascimento, os meninos são circun-


cidados e recebem formalmente seu nome. A menina também re-
cebe seu nome na sinagoga uma semana após o nascimento.

 Bar mitsvá e bat mitsvá: no primeiro sábado após completar 13


anos, o menino é recebido como "filho do mandamento" (bar
mitsvá). No ano precedente, ele é instruído nas leis e nos costu-
mes judaicos, bem como aprende a ler o trecho da leitura da Tora
que fará no sábado de sua recepção. Já a menina torna-se "filha do
mandamento" (bat mitsvá) automaticamente ao completar 12
anos. Por volta dos 15 anos, ela aprende o principal da história e
os costumes judaicos e, particularmente, empenha-se em aprender
as regras alimentares, que é sua responsabilidade doméstica.

 Casamento: a família tem papel primordial na manutenção da


cultura e da educação judaica. O casamento é o modo de vida ide-
al e o único tipo de coabitação permitido. Por principio, judeu de-
ve casar com judeu. O divórcio é permitido, mas, para que seja le-
gítimo, deve ser sancionado por um tribunal rabínico e selado pe-
lo marido, que dá à esposa a carta de divórcio.

 Enterro: o enterro deve ocorrer o mais rápido possível depois da


morte. A cremação não é permitida. No cerimonial de sepultamen-
68
to não se usam flores e nem música. O cemitério é sempre muito
bem cuidado em razão de ser o lugar onde os mortos descansam
até a ressurreição.

Os festivais

As festas judaicas marcam não apenas momentos de alegria. Elas tra-


zem consigo uma forte conotação histórica e religiosa, e servem para
marcar eventos que ressaltam a intervenção divina na vida do povo
judaico, assim no passado como no presente.

 Rosh há-shaná (Ano-Novo): celebrado em setembro ou outu-


bro, rememora Jeová como criador e rei, conduzindo as pesso-
as a se concentrarem na autoanálise e no arrependimento.

 Iom Kippur (Dia do Perdão): é o fim do período de dez dias de


arrependimento, iniciado no Ano novo.

 Sukot (Festa dos Tabernáculos): ocorre alguns dias após o Dia


do Perdão e procura relembrar o período em que os judeus,
durante sua peregrinação pelo deserto, residiam em tendas.

 Chanuká (Festa da Inauguração): realizada em novembro ou


dezembro por oito dias, comemora a reinauguração do Templo
de Jerusalém, ocorrida em 165 AEC.

 Pessach (Páscoa): Celebrada em março ou abril, relembra a


passagem do anjo do Senhor "por cima" (pessach) das casas
dos israelitas, quando no Egito por ocasião da décima praga,
matou os primogênitos egípcios. Tem a duração de oito dias e
só se come pão sem fermento,

 Shavuot (Festa das Semanas): ocorre em maio ou junho e co-


memora a ocasião em que a Tora foi dada ao povo no monte
Sinai.

Mundo

Reza o texto sagrado, registrado em Gênesis, capítulo 1, que Elohim


criou o "céu e a Terra" (o Universo). O ser humano, inclusive. Tendo
concluído sua obra criadora, emanada exclusivamente de sua inexpli-
cável vontade, constata que o Universo é bom. A força da qual flui o
ato criador é sua ordem, a partir do nada e concretizada por suas pala-
vras. A soberania divina está realçada. Ele é o criador.
69
Uma vez criado, o Universo continua a existir por vontade divina e
não por motivo próprio. A força vem de fora, não de forma impessoal,
mas pessoal. Ainda que o Universo possua características materiais
evolutivas, percebe-se nesse processo a vontade divina presente no ato
criador que lhe deu essa característica.

5.3 Principais tendências


O judaísmo é tanto uma identidade hereditária e um modo de vida
quanto um sistema religioso. Essa colocação faz perceber a existência
de uma diversidade de entendimentos.

A partir do século XIX, três comunidades religiosas distintas desen-


volveram-se, com opiniões divergentes acerca da importância da tradi-
ção e da teologia judaica.

 Judaísmo Ortodoxo: mantém as crenças tradicionais, inclusive a


doutrina de que tanto a lei bíblica quanto a lei oral são de inspira-
ção divina, e obedece aos costumes e rituais tradicionais, com a rí-
gida observância do shabat e das leis de alimentação.

 Judaísmo Reformista: surgiu no período do Iluminismo. Menos-


prezando a autoridade talmúdica, realiza cultos simplificados no
vernáculo, dando maior importância aos padrões éticos do que às
leis rituais, grande parte das quais considera irrelevantes no mun-
do moderno.

 Judaísmo Conservador: situa-se entre a aceitação da autoridade


das Escrituras e a permissão de adaptação às mudanças dos tem-
pos e das situações.

No século XX, acentuaram-se outras tendências, como a corrente Libe-


ral da Reforma Judaica e o Movimento Reconstrucionista, fundado por
Mordecai Kaplan, que entende o judaísmo como uma "civilização
religiosa".
6
Douglas Moacir Flor
CONFUCIONISMO, XINTOÍSMO E
TAOÍSMO

Apresentamos neste capítulo três grandes religiões. Apesar de não


serem populares no Brasil, consideramos interessante uma leitura e
uma análise para nos darmos conta de como pensam outros povos e
também percebermos a diversidade religiosa encontrada no mundo.
Essas religiões, sapienciais, buscam o caminho através da sabedoria e
do conhecimento. É bom observar que o pensamento oriental é dife-
rente do ocidental.

6.1 Confucionismo
Você deve estar observando que hoje a China está despontando em
todo o mundo pelo seu crescimento econômico e, aos poucos, vem
sendo reconhecida como uma grande potência mundial. Talvez o que
você não saiba é que até 1911 a China foi uma potência imperial, onde
o imperador reinava acima de tudo. O imperador era considerado o
representante do país diante do supremo deus Céu.

O que havia por traz de tudo isso era uma ideologia confucionista. O
conjunto de pensamentos, regras e rituais sociais foi desenvolvido pelo
filósofo K'ung-Fu-Tzu. No Brasil, nós o conhecemos como Confúcio.
Além disso, Confúcio formulou normas para a vida religiosa, para os
sacrifícios e os rituais.

O confucionismo era, na verdade, uma religião estatal praticada pela elite e pelas
classes dominantes, a qual, no entanto, nunca se disseminou muito entre as
massas, as camadas mais amplas da população. Da mesma forma que o imperador,
em seu palácio em Pequim, ficava remotamente afastado das pessoas comuns, o
Céu era remoto e impessoal para a grande massa dos chineses pobres,
trabalhadores e camponeses. A Religião dos pobres era a adoração dos espíritos,
particularmente dos antepassados, religiosidade carregada de magia e traços de
outras religiões. (GAARDER, 2000, p.77)
71
Quem foi Confúcio

Confúcio nasceu em 551. a.C., filho de pessoas pobres. Desde cedo


demonstrou um grande interesse que se referia à vida. Diz a história
que, após iniciar sua carreira pública como um oficial de segunda
classe no estado de Lu, aos 18 anos, tornou-se professor e começou a
ensinar história, filosofia, ética, música, poesia e boas maneiras. A ideia
era mostrar a seus alunos os princípios que ele julgou necessários na-
quele momento de decadência da ordem feudal chinesa.

Embora suas lembranças da infância contenham referências nostálgicas à caça, à


pesca e ao arco, sugerindo com isso que ele foi tudo, menos uma traça de livro,
Confúcio dedicou-se cedo aos estudos e se saiu bem. "Chegando aos quinze anos de
idade, forcei a minha mente ao aprendizado". Com vinte e poucos anos, depois de
ter ocupado vários cargos públicos insignificantes, depois de ter feito um
casamento não muito bem sucedido, ele se estabeleceu como professor particular.
Essa era obviamente a sua vocação. A reputação de suas qualidades pessoais e
sabedoria prática espalhou-se com rapidez, atraindo um circulo de discípulos
entusiasmados. (SMITH, 1991, p.156)

A carreira de Confúcio não foi um sucesso. Sua ambição era bem mai-
or. Alguns biógrafos chegaram a criar a lenda de que, por volta dos 50
anos, Confúcio realizou uma brilhante administração durante cinco
anos, avançando rapidamente de ministro de Obras Públicas para
ministro da Justiça e primeiro-ministro, fazendo de Lu uma província
modelo. "A verdade é que os governantes da época tinham medo da
franqueza e integridade de Confúcio, tanto medo que nunca o designa-
riam para qualquer posição de poder" (SMITH, 1991, p.156).

Suas obras

O que marca a obra de um líder é seu legado escrito. Confúcio deixou


várias obras escritas sobre sua filosofia de vida: o Shih Ching (livro de
poesias), Li Chi (livro dos ritos), I Ching (livro das transformações), Shu
Ching (livro de história) e Ch'um Ch'íu (os anais da primavera e do
outono).

A filosofia de Confúcio

A questão central na filosofia de Confúcio está na palavra "li". Significa


"cortesia", "reverência", "ritos e cerimônias" e o "posicionamento ideal
na vida pública e privada". "O chinês mais moderno entende por 'li'
uma ordem social ideal, com tudo em seu devido lugar e com todas as
pessoas prestando respeito e reverência aos outros na hierarquia soci-
al" (STEFFEN, 2000, p.48).
72
De certa forma, a ideia era estabelecer a ordem e acabar com a queda
do respeito desencadeada pela ordem feudal. Confúcio acreditava que,
se cada um soubesse o seu lugar, poderia haver um comportamento de
reciprocidade como um guia de vida. É aqui que vai surgir o dito "não
faças aos outros o que não queres que te façam".

Político fracassado, Confúcio foi, sem dúvida, um dos maiores profes-


sores do mundo. Preparado para ensinar história, poesia, governança,
propriedade, matemática, música, adivinhação e esportes, ele foi, à
moda de Sócrates, um homem-universidade. Seu método de ensino
também era socrático. Sempre informal, ele não fazia preleções; prefe-
ria conversa sobre os problemas apresentados por seus alunos, citando
leitura e fazendo perguntas. Ele se apresentava aos alunos como um
companheiro de viagem, comprometido com a tarefa de se tornar
plenamente humano, mas modesto. Quanto ao ponto a que chegou no
cumprimento dessa tarefa, ele mesmo cita:

Há quatro coisas no Caminho da pessoa profunda, nenhuma das quais fui capaz de
fazer. Servir ao meu pai, como esperaria que um filho me servisse. Servir ao meu
governante, como esperaria que meus ministros me servissem. Servir ao meu
irmão mais velho, como esperaria que meus irmãos mais novos o servissem. Ser o
primeiro a tratar os amigos como esperaria que eles me tratassem. Essas coisas não
fui capaz de fazer.

Homem simples e humilde

Não havia nada de sobrenatural nele. Confúcio gostava de estar com


as pessoas, de jantar fora, de cantar em coro uma bela canção e de
beber, mas não em excesso. Seus discípulos relataram que, nas horas
de folga, o mestre tinha um comportamento informal e alegre. Ele era
afável, mas firme, digno, mas agradável. Estava sempre pronto para
defender a causa das pessoas comuns contra a nobreza opressiva de
sua época; nas suas relações pessoais, ele rompia escandalosamente as
linhas de classe impostas pela sociedade e nunca menosprezava os
alunos mais pobres, mesmo quando não podiam pagar as aulas. Era
gentil, mas capaz de sarcasmos quando achava merecido. Falando
daquele que começava a criticar suas companhias, Confúcio observou:
"É evidente que Tzu Kung tornou-se perfeito. Ele tem tempo para esse
tipo de coisa. Eu não tenho tempo livre".

Confúcio nunca lamentou a escolha que fez. "Com alimento ordinário


para comer, água para beber e o braço dobrado como travesseiro, ain-
da tenho alegria em meio a isso e a tudo. As riquezas e honrarias ad-
quiridas por meios iníquos não significam para mim mais do que as
nuvens flutuantes", diz ele.
73
A glorificação veio após sua morte. Entre seus discípulos, o gesto foi
imediato. Disse Tzu Kung: "Ele é o sol, a luz aos quais não há meios de
se subir. A impossibilidade de igualarmos nosso Mestre é como a im-
possibilidade de alcançarmos o céu subindo por uma escada". Em
poucas gerações, Confúcio era visto em toda a China como o "mentor e
modelo de dez mil gerações". O que mais lhe teria agradado foi a aten-
ção dada às suas ideias. Durante dois mil anos - até o século XX - toda
criança chinesa chegou à sala de aula, toda manhã, e levantou as mão-
zinhas postas na direção de uma mesa que tinha uma placa com o
nome de Confúcio. Praticamente, todo estudante chinês estudou cui-
dadosamente os provérbios de Confúcio, durante horas a fio. O resul-
tado é que eles se tornaram parte da mente chinesa, chegando até os
analfabetos na forma de provérbios. Os governantes chineses também
foram influenciados por essas ideias, mais profundamente do que
quaisquer outras pessoas.

Alguns provérbios

 Verdadeiro filósofo não será aquele que, mesmo sendo reconhecido,


jamais guarda ressentimento?

 Não faças aos outros o que não queres que te façam.

 Não me entristece que os outros não me conheçam. Entristece-me não


conhecer os outros.

 Não esperes resultados rápidos nem procures pequenas vantagens. Se


buscares resultados rápidos, não alcançarás a meta final. Se te deixa-
res desviar por pequenas vantagens, nunca realizarás grandes feitos.

 As pessoas mais nobres primeiro praticam o que pregam e depois


pregam de acordo com a sua prática. Se quando olhas dentro do teu
coração não vês nada de errado, por que te preocupas? O que há para
temeres?

 Quando conheces uma coisa, reconhecer que tu a conheces; e quando


não a conheces, saber que tu não sabes - isso é conhecimento.

 Ir longe demais é tão mau quanto ficar aquém.

 Quando vês um homem digno, pensa quando poderás emulá-lo.

 Quando vês um homem desprezível, examina o teu próprio caráter.

 Riqueza e posição, eis o que as pessoas desejam; mas se não as conse-


guirem da maneira correta, nunca as possuirão.

 Sê bondoso com todos, mas íntimo apenas dos virtuosos.


74
Pano de fundo

É claro que os provérbios, por si só, não explicam o sucesso de Confú-


cio.

É necessário compreender o que havia de errado na sociedade em que ele vivia.

A Antiga China não era nem mais nem menos turbulenta do que as
outras terras. Do oitavo ao terceiro século a.C., porém, a China teste-
munhou o colapso da dinastia Chou, que foi um governo de paz e
ordem. Baronatos rivais ficaram em liberdade para fazer o que bem
entendiam, criando uma situação idêntica à da Palestina no período
dos juízes: "Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada homem fazia o
que parecia certo aos seus próprios olhos".

A guerra quase contínua desse período começou dentro dos padrões


do cavalheirismo. O carro de guerra era sua arma, a cortesia era o seu
código, e os atos de generosidade conferiam honra. Diante da invasão,
o barão arrogante enviaria um comboio de provisões ao exército inva-
sor. Ou, para provar que seus homens estavam além do medo e da
intimidação, ele enviaria, como mensageiros, soldados que cortariam a
própria garganta diante do invasor. Tal como na era de Homero, guer-
reiros de exércitos inimigos se reconheciam, trocavam desdenhosos
cumprimentos do alto de seus carros de guerra, bebiam juntos e à
vezes trocavam armas antes de entrar em combate.

Na época de Confúcio, porém, a guerra interminável degenerava; de


cavalheiresca, tornara-se o terror desenfreado do Período dos Estados
Combatentes. O horror chegou ao auge no século seguinte à morte de
Confúcio. Os combatentes entre carros de guerra deram lugar à cavala-
ria, com seus ataques de surpresa e revides súbitos. Em vez do ato
nobre de manter os prisioneiros até receber o resgate, os conquistado-
res promoviam execuções em massa. Populações inteiras, capturadas
nos azares da guerra, eram decapitadas, incluindo velhos, mulheres e
crianças. Lemos descrições de chacinas de 60 mil, 80 mil e até de 400
mil pessoas. Há relatos de vencidos atirados em caldeirões de água
fervente e seus familiares forçados a beber aquela sopa humana.

A pergunta, nessa época, era: por que continuamos nos destruindo?


Talvez aí esteja a resposta para compreendermos o poder do confucio-
nismo. Confúcio viveu numa época em que a coesão social havia dete-
riorado até o ponto crítico. Confúcio insistia que o amor ocupa um
lugar importante na vida; mas também que o amor deve ser apoiado
por estruturas sociais e por um etos coletivo. Bater exclusivamente na
tecla do amor é o mesmo que pregar os fins sem os meios. Quando
75
perguntaram a Confúcio, certa vez, "Devemos amar nossos inimigos,
aqueles que nos causam mal?", ele respondeu: "De modo algum. Res-
pondei ao ódio com a justiça e ao amor com a benevolência. Caso con-
trário, estaríeis desperdiçando vossa benevolência".

Respeito às tradições

O que chama a atenção nas religiões orientais é o respeito que todos


cultivam pelos mais velhos. A idade não é um peso, mas uma bênção.
A experiência é importante para os mais novos, que a buscam nas
pessoas de maior vivência. Assim também são conservadas as tradi-
ções, transmitidas pelos mais velhos. Sobre a socialização, o próprio
Confúcio ensinou:

Deve ser transmitida dos velhos para os jovens, enquanto os hábitos e as ideias
devem ser conservados como uma teia ininterrupta de memória entre os portadores
da tradição, geração após geração. (...) Quando a continuidade das tradições de
civilidade se rompe, a comunidade é ameaçada. A menos que essa ruptura seja
consertada, a comunidade se esfacelará em (...) guerras de facções. Isso porque,
quando a continuidade é interrompida, a herança cultural não está sendo
transmitida. A nova geração se defronta com a tarefa de redescobrir, reinventar e
reaprender, por tentativa e erro, a maior parte daquilo que precisa saber. (...) Essa
não é tarefa para uma única geração.

A tradição deliberada

A tradição deliberada segue, no esquema de Confúcio, cinco termos


chaves:

JEN: etimologicamente uma combinação dos caracteres corresponden-


tes a "ser humano" e "dois", designa o relacionamento ideal que deve
existir entre as pessoas. Traduzido das mais variadas formas (bondade,
fraternidade, benevolência e amor), talvez a melhor maneira de trans-
mitir a ideia seja pela expressão "sensibilidade do coração humano".
Jen envolve simultaneamente um sentimento de compaixão pelos
outros e de respeito por si mesmo, um sentimento indivisível da dig-
nidade da vida humana, onde quer que ela apareça.

CHUN TZU: se Jen é o relacionamento ideal entre seres humanos, chun


tzu refere-se ao termo ideal nesses relacionamentos. Esse conceito tem
sido traduzido como "homem superior" e "o melhor da humanidade".
Talvez "pessoa amadurecida" seja uma tradução tão fiel quanto qual-
quer outra. É o oposto de pessoa estreita, da pessoa mesquinha, da
pessoa de espírito pequeno. Somente quando aqueles que formam a
sociedade se transformarem em chun tzus, o mundo poderá caminhar
na direção da paz.
76
Se houver honra no coração, haverá beleza no caráter.

Se houver beleza no caráter, haverá harmonia no lar.

Se houver harmonia no lar, haverá ordem no país.

Se houver ordem no país, haverá paz no mundo.

LI: o terceiro conceito, li, tem dois significados. Seu primeiro significa-
do é propriedade, a maneira pela qual as coisas devem ser feitas. As
pessoas precisavam de modelos, e Confúcio queria direcionar a aten-
ção delas para os melhores modelos oferecidos pela sua história social.
Propriedade é um conceito com amplo alcance, mas podemos perceber
o âmago do interesse quando ele diz:

"Se as palavras não forem corretas a linguagem não estará de acordo com a
verdade das coisas. Se a linguagem não estiver de acordo com a verdade das coisas,
os negócios não poderão ser concluídos com sucesso. (...) Portanto, um homem
superior considera necessário que os nomes por ele utilizados sejam falados
apropriadamente, e também que aquilo que ele fala possa ser transmitido
apropriadamente. O que o homem superior requer é que em suas palavras nada
haja de incorreto.”

Todo o pensamento humano avança por meio de palavras; logo, se as


palavras forem oblíquas, o pensamento não conseguirá avançar em
linha reta. Aí é importante aquilo que Confúcio chamava de "retifica-
ção dos nomes".

A retificação dos nomes, na Doutrina do Meio, nas Relações Constan-


tes, no Respeito pela Idade e pela Família, esboçam importantes aspec-
tos específicos de Li no seu primeiro significado: propriedade ou o que
é certo. O outro significado da palavra é ritual, que transforma o certo -
no sentido daquilo que é corretor fazer - em rito. Quando o comporta-
mento correto é detalhado em minúcias confucionistas, a vida inteira
do indivíduo estiliza-se numa dança sagrada. A vida social foi coreo-
grafada.

TE: o quarto conceito axial que Confúcio procurou elaborar para seus
conterrâneos foi Te. Significa "poder". Especificamente, o poder por
meio do qual os homens são governados. Ele estava convencido de que
nenhum governante consegue reprimir todos os seus cidadãos o tempo
todo, nem mesmo grande parte deles na maior parte do tempo. O
governo precisa contar com uma aceitação da sua vontade, uma confi-
ança apreciável naquilo que está fazendo. Confúcio acrescentou que a
confiança popular era de longe a mais importante, pois "se o povo não
tiver confiança em seu governo, este não se sustentará". Para ele, so-
77
mente são dignos de governar aqueles que prefeririam não ter de go-
vernar.

Quando o Barão de Lu perguntou-lhe como governar, Confúcio res-


pondeu: "Governar é manter-se reto". Se tu, senhor, dirigires teu povo
em linha reta, qual de teus súditos se arriscará a sair dessa linha?

WEN: o conceito final na estrutura confucionista é wen. Refere-se às


"artes da paz", enquanto diferenciadas das "artes da guerra", à música,
à arte, à poesia, à soma da cultura no seu modo estético e espiritual.
Confúcio considerava apenas semi-humanas as pessoas que eram
indiferentes à arte. Mas o que atraía seu interesse não era a arte pela
arte. Era o poder da arte de transformar a natureza humana na direção
da virtude que o impressionava - seu poder de facilitar o interesse
pelos outros.

Pela poesia, a mente é despertada; pela música, recebe o acabamento.


As odes estimulam a mente. Elas induzem à autocontemplação. Ensi-
nam a arte da sensibilidade. Ajudam a evitar o ressentimento. Fazem o
homem acreditar no dever de servir ao país e ao príncipe.

6.2 Xintoísmo
Apenas para cultura geral, vamos tecer algumas considerações sobre o
xintoísmo, que tem grande influência sobre a cultura japonesa. A partir
dessa religião, poderemos entender a força de um povo, sua seriedade,
seus compromissos e sua devoção.

O caminho dos deuses

Quando falamos do xintoísmo, normalmente nos reportamos aos japo-


neses ricos pela sua forma de pensar, por sua cultura e também pelos
seus valores religiosos.

Primitivamente, a religião Xintoísta era chamada de Kamino-michi, que é


traduzido por "o caminho dos deuses". Em chinês, a mesma expressão é shen-tao,
de onde procede a palavra shinto (em português, xinto). O Xintoísmo é uma
religião peculiar por sua expressão de amor japonês pelo seu país e suas
instituições. Este aspecto da história sagrada está descrito no Kojiki, datado do
século VIII. (STEFFEN, 2000, p.50)

O Kojiki diz que as ilhas japonesas foram criadas por Izanami e Izana-
gi, que também habitaram a Terra como numerosas divindades, das
quais os japoneses são descendentes. A família real é descendente de
Jimmu Tenno (cerca de 660 a.C.), o primeiro imperador humano, neto
de Ni-ni-go, neto de Amaterasu, a divindade feminina Sol. No Shinto,
78
Amaterasu é reconhecida como a primeira no panteão das divindades,
mas não é a única. É apenas uma entre muitos. O xintoísmo primitivo
via o Japão como a terra dos deuses, o que explica o caráter nacionalis-
ta da religião. Acreditam que todos os japoneses têm origem divina,
mas, em especial, o imperador, que é descendente da própria deusa do
sol.

O Shinto, "o caminho dos deuses", pode ser descrito como um modo
ideal de comportamento. O seu sistema ético inclui os seguintes precei-
tos:

 lealdade ao imperador;

 gratidão;

 coragem diante da morte;

 serviço aos outros acima dos interesses próprios;

 verdade;

 polidez até mesmo com os inimigos;

 controle das manifestações de sentimentos e honra, que significa o


ato de preferir a morte à desgraça.

Os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, quando os pilotos


japoneses corajosamente jogaram seus próprios aviões para atingir os
inimigos, mostram um pouco desses conceitos.

Principais ideias

O mito da origem japonesa parece ser uma resposta animista primitiva


à natureza. A multiplicidade de deuses japoneses pode ser atribuída a
condições civis primitivas, quando a nação era habitada por um gran-
de número de clãs independentes, cada um com seus próprios deuses e
práticas religiosas.

As cerimônias religiosas ajudam a evitar acidentes, promovem a coo-


peração e o contato com os Kamis, geram o contentamento e a paz para
o indivíduo e a sociedade. As cerimônias são feitas tanto no próprio lar
como nas grandes festas anuais do templo - Morada dos Kamis. Qua-
tro elementos estão sempre presentes nestas cerimônias:

 purificação;

 sacrifício;

 oração;
79
 refeição sagrada.

6.3 Taoísmo
Os problemas éticos, sociais e políticos estão no centro das discussões
da maioria das religiões orientais. É a opção pelo ser e não pelo ter. Se
as ideias de Confúcio são estimulantes para governantes sérios, o tao-
ísmo apresenta uma visão transcendente das preocupações com a vida.
É uma cultura oposta ao que estamos acostumados a viver no Ociden-
te. Serão recomendadas leituras complementares para quem tiver mais
interesse em conhecer melhor as ideias de Lao-Tsé (o grande e velho
mestre).

Lao-Tsé

A origem do taoísmo é apresentada com o nome de um homem cha-


mado Lao-Tsé, supostamente nascido por volta de 604 a.C. As histórias
sobre a vida desse homem são muito variadas. Alguns historiadores
não têm nem certeza se ele realmente existiu. Algumas lendas são
fantásticas, como aquela que diz ter sido ele concebido por uma estrela
cadente, ter permanecido no ventre materno por 82 anos e já nascido
velho, sábio e com os cabelos brancos (SMITH, 1991, p.193).

Lao-Tsé se traduz como "o velho", "o velho amigo" ou "o grande e
velho mestre". Era contemporâneo de Confúcio. Um historiador chinês
relata que Confúcio ficou intrigado com o que ouvira a respeito de
Lao-Tsé e, certa vez, o visitou. Sua descrição sugere que aquele estra-
nho homem o desconcertou, enchendo-o, porém, de respeito:

Eu sei que um pássaro pode voar; sei que um peixe pode nadar, sei que os animais
podem correr. Criaturas que correm podem ser apanhadas em redes; as que nadam,
em armadilhas de vime; as que voam, atingidas por flechas. Mas o dragão está
além do meu conhecimento; ele sobe ao céu nas nuvens e no vento. Hoje vi Lao-
Tsé, e ele é como o dragão.

O livro sagrado

Uma boa ideia do início do taoísmo, como conta a tradição, é o que


lemos no texto de Huston Smith, que assim coloca:

A história tradicional conta que Lao-tsé, entristecido com o seu povo pela
relutância em cultivar a bondade natural que ele pregava e buscando maior solidão
para os seus últimos anos de vida, montou nas costas de um búfalo e galopou para
o oeste, na direção do atual Tibete. No passo de Hankao, uma sentinela, percebendo
o caráter incomum daquele viajante, tentou convencê-lo a retornar. Não obtendo
êxito, pediu ao velho que, ao menos, deixasse um registro de suas crenças para a
80
civilização que estava abandonada. Lao-tsé, concordando com o pedido, recolheu-se
durante três dias e retornou com um magro volume de 5.000 caracteres intitulado
Tao Te King, ou O Caminho e o seu Poder. O livro pode ser lido em meia hora ou
durante toda a vida, e continua a ser, até os dias de hoje, o texto básico do
pensamento Taoísta. Um livrinho de apenas 25 páginas e 81 capítulos. (SMITH,
1991, p.194)

Os significados do Tao

No taoísmo, tudo gira em torno do Tao, que literalmente significa


caminho. Este caminho pode ser entendido de três maneiras:

 o Tao é o caminho da realidade última. É demasiado vasto para


que a realidade humana possa sondá-lo. De todas as coisas, o Tão
certamente é o maior;

 o Tao é o caminho do Universo, a norma, o ritmo, o poder propul-


sor de toda a natureza, o princípio ordenador por trás de toda a
vida;

 o Tao refere-se ao caminho da vida humana, quando ela se har-


moniza com o Tao do Universo.

O Tao Te King tem sido traduzido como O Caminho e o seu Poder.

O taoísmo filosófico tem como objetivo alinhar a vida cotidiana da


pessoa ao Tao. O caminho básico para fazê-lo é aperfeiçoar uma vida
de wu wei. Wu wei significa pura eficácia e quietude criativa. O con-
ceito mais tradicional significa não ação ou inação. Mas devemos cui-
dar para não entender como atitude vazia, ócio. O taoísmo, na concep-
ção de muitos, implica passividade e não atividade. Para um sábio
taoista, a ação mais importante é a "não ação". Enquanto Confúcio
desejava educar o homem por meio do conhecimento, Lao-Tsé preferia
que as pessoas permanecessem ingênuas e simples, como crianças.
Enquanto Confúcio ansiava por regras e sistemas fixos na política, Lao-
Tsé acreditava que o homem deveria interferir o mínimo possível no
desdobramento natural dos fatos. Confúcio queria uma administração
bem-ordenada, mas Lao-Tsé acreditava que qualquer administração é
má. "Quanto mais leis e mandamentos existirem, mais bandidos e
ladrões haverá", diz o Tao Te King.

Para Lao-Tsé, o estado ideal era a pequena comunidade (a aldeia ou a


cidade pequena), que, segundo ele, já existia nos tempos antigos. Ali as
pessoas viviam em paz e contentes, sem interesse em guerrear contra
seus vizinhos, como fizeram mais tarde as províncias chinesas. O líder
devia ser um filósofo, e sua única tarefa era que sua passividade e seu
distanciamento servissem de exemplo para os outros.
81
Lendo o Tao Te King

A pessoa precisa deixar o Tao fluir para dentro e para fora de si mes-
ma, até toda a sua vida tornar-se uma dança na qual não há febres nem
desequilíbrios. Wu wei é a vida vivida acima da tensão:

Encha a tigela até a borda

E ela vai derramar

Fique sempre afiando a faca

E ela vai cegar (Cap. 9)

Wu wei é a materialização da maleabilidade, da simplicidade, da li-


berdade - uma espécie de pura eficácia na qual não se desperdiçam
movimentos em discussões ou exibições externas.

A pessoa pode caminhar tão bem que nunca deixa pegadas

Falar tão bem que a língua nunca comete deslizes,

Calcular tão bem que não precisa de ábaco. (Cap. 27)

Uma eficácia dessa ordem obviamente exige uma capacidade extraor-


dinária, o que é transmitido pela lenda taoista do pescador: com um
simples fio, ele conseguia puxar para a terra peixes enormes, porque o
fio havia sido fabricado com tanta perfeição que não tinha um "ponto
fraco". A capacidade taoista raramente é notada, porque vista de fora,
wu wei - nunca forçando, nunca sob tensão - parece não exigir prati-
camente nenhum esforço. O segredo está na maneira pela qual ele
busca os espaços vazios na vida e na natureza, e se move através deles.

A água era o paralelo mais próximo ao Tao do mundo natural. Era


também o protótipo do wu wei. Os chineses observavam a maneira
pela qual a água se adapta ao ambiente e procura os lugares mais bai-
xos. Por isso:

O bem supremo é como a água,

Que alimenta todas as coisas sem esforço.

Ela se contenta com os lugares baixos, que as pessoas desdenham.

Por isso, ela é como o Tao. (Cap. 8)

Mas a água, apesar de se acomodar, tem um poder que não é conheci-


do pelas coisas duras e quebradiças. A água abre caminho além das
82
fronteiras e por baixo dos muros divisórios. Seu fluxo suave acaba
dissolvendo as rochas e levando embora as orgulhosas montanhas que
pensamos eternas.

Nada no mundo

É tão suave e maleável como a água

No entanto, para dissolver o duro e inflexível

Nada a suplanta.

O suave supera o duro;

O gentil supera o rígido.

Todos sabem que isso é verdade,

Mas poucos o põem em prática.

A pessoa que incorpora essas virtudes, diz o Tao Te King, "Trabalha


sem trabalhar". Ela age sem tensão, persuade sem argumentação, é
eloquente sem floreios e alcança resultados sem violência, coerção ou
pressão. Enquanto o agente mal seja percebido, sua influência é de fato
decisiva.

Quando o bom líder governa,

O povo mal percebe que ele existe.

O bom líder não fala, age.

Quando ele termina o trabalho,

O povo diz: "fomos nós que fizemos sozinhos. (Cap. 17)

Uma última característica da água, que torna apropriada sua analogia


com o wu wei, é a clareza que ela alcança ficando parada. "Água lodo-
sa deixada parada", diz o Tao Te King, "ficará límpida".

Valores taoístas

O taoista rejeita todas as formas de autoafirmação e competição. O


mundo está cheio de pessoas determinadas a ser alguém ou causar
problemas; pessoas que querem avançar, destacar-se. O taoísmo não vê
utilidade nessa ambição. "O machado abate primeiro a árvore mais
alta".

Aquele que se põe na ponta dos pés


83
Não tem firmeza.

Aquele que se apressa

Não vai longe.

Aquele que tenta brilhar

Tolda sua própria luz. (Cap. 24)

As pessoas deveriam evitar a estridência e a agressividade não só em


relação aos outros, mas também em relação à natureza. No taoísmo,
existe um naturalismo profundo e um respeito muito grande pela
natureza. Tanto que, quando falamos na escalada do Everest, por
exemplo, nós, ocidentais, dizemos que o Everest foi conquistado. Os
orientais diriam que esse ato foi o de fazer amizade com o Everest.

Aqueles que querem dominar o mundo

E moldá-lo à sua vontade

Nunca, percebo, terão sucesso.

O mundo é como um vaso, tão sagrado

Que, à mera aproximação do profano,

Se danifica,

E quando estendem a mão para pegá-lo, ele se perdeu (Cap. 29)

Yin/yang

Outra característica do taoísmo é a sua noção da relatividade de todos


os valores e, como ideia correlata, a identidade dos opostos. Nesse
aspecto, o taoísmo está ligado ao tradicional símbolo chinês do
yin/yang:

Essa polaridade resume todas as oposições básicas da vida: bem/mal, ativo/passivo,


positivo/negativo, claro/escuro, verão/inverno, masculino/feminino. Mas as
metades, embora estejam em tensão, não são francamente opostas; elas se
contemplam e se equilibram uma à outra. Cada uma invade o hemisfério da outra e
faz sua morada no recesso mais profundo do domínio de sua parceira. E, no fim,
ambas se resolvem no círculo que os cerca, o Tao em sua totalidade. A vida não se
dobra sobre si mesma, e chega, completando o círculo, à percepção de que tudo é
um e tudo está bem. (SMITH, 1991, p. 210)
84
O taoísmo segue seu princípio da relatividade até seu limite lógico,
colocando a vida e a morte como ciclos complementares no ritmo do
Tao.

Há o globo,

O alicerce de minha existência física

Ele me gasta com trabalho e deveres,

Dá-me repouso na velhice,

E me dá paz na morte.

Pois quem me deu o que necessitei na vida

Também me dará o que necessito na morte. (Chuang Tzu)


7
Ronaldo Steffen
CRISTIANISMO

Perfil

 Fundador: Jesus Cristo.

 Data de nascimento: Ano 1 da era cristã. Há estudos que apon-


tam o ano 6 a.C. como a data de nascimento (esse ano corres-
ponderia ao ano romano de 754 - Local de nascimento: Palesti-
na).

 Textos sagrados e reverenciados: a Bíblia, formada, conforme o


entendimento da Sociedade Bíblica do Brasil, pelo Antigo Tes-
tamento (39 livros escritos por diversos autores) e pelo Novo
Testamento (27 livros, também escritos por diversos autores).

 Estatística: o conjunto dos cristãos, hoje espalhados por todo o


mundo, é estimado em torno de 2 bilhões e 100 milhões de
adeptos (dados de 2001).

7.1 História
O contexto na Palestina

Depois da época dos reis Davi e Salomão, Israel entrou em decadência.


Das doze tribos originais, só restavam duas (Judá e Benjamim). As
outras haviam sido extintas desde 722 a.C. As duas tribos restantes,
por sua vez, foram submetidas, sucessivamente, aos impérios babilôni-
co, persa, grego e, em 63 a.C., reduzidas a províncias romanas. No
decorrer desses fatos, os judeus continuaram a ter esperança que um
novo rei, ou messias, da linhagem de Davi, haveria de vir.
86
O desejo de um rei judeu ungido era alimentado:

- pela dissolução das tribos de Israel;

- pela diáspora;

- pelo rei Herodes.

Acrescenta-se ao quadro da época uma condição econômica desfavo-


rável. A saída era buscar fora da Palestina os mecanismos necessários
para a sobrevivência. Era a diáspora que perdurava desde o cativeiro
babilônico (587-539 a.C.). O desejo, com certeza, de estarem novamente
juntos na mesma terra não tinha desaparecido entre os judeus.

Desfavorável, ainda, era a presença de Herodes como rei. Embora


semita, era visto como uma extensão do poder imperial romano que
governava com mão de ferro. Imperdoável para o judeu foi a destrui-
ção do templo que Herodes promoveu na conquista de Jerusalém. Um
rei judeu, ungido a exemplo de Davi e Salomão, era uma esperança
latente.

Jesus
Jesus de Nazaré

Os evangelhos dizem pouca coisa sobre a vida que Jesus levou durante
30 anos em Nazaré com seus pais, José e Maria. Somente dois Evange-
lhos narram fatos relativos ao seu nascimento. Em contrapartida, os
quatro Evangelhos têm a preocupação de apresentar os três anos de
sua vida pública, centrando-se na proclamação da mensagem salvado-
ra.

Jesus nasceu em Belém antes da morte de Herodes, o Grande (ano


romano de 749), provavelmente no ano romano de 754, corresponden-
te ao ano 6 a.C. Em sua juventude, o reino judaico estava sob o controle
direto de um oficial do Império Romano. Aos 30 anos, início de sua
pregação pública, suas ideias baseadas nas escrituras judaicas desper-
taram interesse nuns e provocaram rejeição noutros.

Aos 33 anos, foi acusado de blasfêmia por um tribunal religioso judai-


co. Sentenciado à morte por um funcionário romano, Pôncio Pilatos, foi
crucificado publicamente nos arredores de Jerusalém.

Jesus, o messias

A palavra messias significa "o ungido", numa referência à maneira


como o rei de Israel era ungido com óleos ao subir ao trono. A palavra
87
messias traduzida para o grego é christos. Dessa forma, Jesus Cristo é o
nome que reconhece em Jesus o esperado messias.

Jesus, como Cristo, assenta seus discursos bem distantes das ideias nacionalista-
revolucionárias de seu contexto.

Desde o princípio, sua mensagem esteve centrada no reino de Deus, no


conceito de um pai amoroso, no seu próprio sacrifício expiatório, no
arrependimento e na fé. Embora se anunciasse como o Cristo, evitou
que as pessoas o soubessem, porque temia que o termo fosse colocado
em associação com as aspirações nacionalista-revolucionárias latentes.
Só quando a hora da morte se aproximou é que assumiu sua messiani-
dade, pois via nessa morte sacrificial a sua glória suprema, enquanto o
Cristo de Deus.

Jesus, o ressuscitado

Nascer e morrer integram o ciclo normal da existência humana. Res-


suscitar, porém, constitui algo totalmente fora da experiência das pes-
soas. A ressurreição de Jesus quebra, assim, a sequencia natural dos
fatos existenciais. Inaugura um novo ciclo no existir do ser humano,
pois a sua ressurreição é a garantia da nova vida pronta e consagrada
ao mundo amado por Deus.

A ressurreição do Cristo garante nova vida ao mundo amado por Deus.

Jesus, a ascensão

Uma vez ressuscitado, Jesus subiu ao céu e está à direita do Pai. A


expressão "subiu ao céu" não significa estar num lugar geograficamen-
te definido. Igualmente, estar "à direita do Pai", é apenas expressão da
posição de honra que é dada a Jesus, que, antes, fora humilhado até a
morte. Jesus, como Cristo, assenta seus discursos bem distantes das
ideias nacionalista-revolucionárias de seu contexto.

Jesus está em toda parte e em qualquer lugar com sua divindade e


humanidade completas, enchendo os céus e a Terra.

Origens e primórdios
Em Jerusalém

O advento do Espírito Santo sobre os apóstolos no dia de Pentecostes


judaico, isto é, 50 dias depois da Páscoa, marcou o início histórico do
cristianismo.
88
O Pentecoste tornou-se, para o cristianismo, a renovação da aliança,
semelhante à ocorrida no Monte Sinai quando Javé apareceu a Moisés.
Os apóstolos foram tomados pelo Espírito Santo passando a pregar o
que Jesus fizera e o que lhes ensinara. Dirigiram-se primeiramente aos
judeus, vindos de toda a parte, reunidos em Jerusalém para a festa, e
primeiros destinatários dessa nova aliança, considerada a consolidação
da antiga. Esses primeiros cristãos eram todos judeus, praticavam a Lei
e acrescentaram observâncias inéditas, como o batismo e a repartição
do pão.

Em Antioquia e por toda a parte

Logo surgiram obstáculos. Podem ser enumerados três, pelo menos,


sendo um de ordem interna e dois externos. Internamente, os primei-
ros cristãos, de tradição judaica, julgavam que, antes de serem batiza-
dos, os novos convertidos deveriam ser circuncidados. A questão foi
resolvida no Concilio de Jerusalém, com a presença dos apóstolos,
aceitando o batismo cristão sem a imposição da circuncisão.

Impedimentos à expansão cristã:

- a exigência da circuncisão aos convertidos;

- a compreensão de que seria apenas mais uma seita;

- o entendimento cristão da igualdade de todos os seres humanos.

Duas situações externas criaram embaraços ao avanço do cristianismo:

 a liderança judaica da época identificava o cristianismo como mais


uma seita que deveria ser desestimulada e banida;

 os impedimentos levantados pelo Império Romano, entre os quais


se destaca a ênfase dada pelo cristianismo à igualdade entre todos,
inclusive a dos escravos.

A consequência imediata foi a saída dos cristãos de Jerusalém. Espa-


lham-se por toda a Palestina e Síria e fazem de Antioquia o novo cen-
tro expansionista do cristianismo. Jerusalém conservaria uma comuni-
dade judaico-cristã até o ano de 66 d.C.

As primeiras comunidades cristãs desenvolver-se-iam em torno da


bacia do Mediterrâneo durante o período apostólico. Éfeso, Filipos,
Tessalônica, Corinto, Roma e Alexandria foram os primeiros grandes
centros do cristianismo, reconhecidos como núcleos apostólicos.

Paulo faz do cristianismo uma religião mundial.


89
De importância decisiva para a difusão do cristianismo foi a conversão
do fariseu Saulo (Paulo), por volta de 32 d.C. Não é por demais afirmar
que o espírito missionário de Paulo fez do cristianismo uma religião
mundial. A contribuição de Paulo ocorre em dois níveis: em primeiro
lugar, viajou pelo mundo greco-romano proclamando Cristo entre os
não judeus. Em segundo o lugar, estabeleceu os fundamentos da teo-
logia cristã, tratando o cristianismo como religião independente e
apontando Jesus como o salvador de todos os seres humanos.

Pedro teria sido martirizado em Roma em 65, depois do incêndio da


cidade sob Nero; Paulo em 66, também em Roma; João, em Éfeso por
volta do ano 100, e Marcos teria se instalado em Alexandria depois da
morte de Pedro.

Os escritos do Novo Testamento

À tradição oral dos ensinos de Cristo, acrescentaram-se os escritos


identificados como Novo Testamento, consolidados até o ano 100 d.C.
O conjunto da obra é formado por:

 quatro evangelhos - Mateus, Marcos, Lucas e João;

 Atos dos Apóstolos;

 21 cartas - Romanos, Coríntios (1 e 2), Gálatas, Efésios, Filipenses,


Colossenses, Tessalonicenses (1 e 2), Timóteo (1 e 2), Tito, Filemon,
Hebreus, Tiago, Pedro (1 e 2), João (1, 2 e 3) e Judas;

 Um texto apocalíptico - Apocalipse.

A evolução até Constantino A organização

Do século II ao século IV, o cristianismo estendeu-se a todas as cidades


da costa do Mediterrâneo e inseriu-se no interior dos continentes.
Implantou-se, assim, tanto no Oriente como no Ocidente. Os grandes
centros cristãos do século I tornaram-se modelos para a organização
das comunidades que iam surgindo. Como liderança de cada comuni-
dade (igreja) estava o bispo, uma espécie de vigilante, que também era
o pastor e o mestre. Seus auxiliares eram os diáconos e os presbíteros.
De início, todos os bispos eram denominados de papa, e só a partir do
século IV o termo é atribuído exclusivamente ao bispo de Roma.

No início, todos os bispos eram chamados de "papa".


90
As perseguições

Ainda que mal compreendido, o cristianismo era tolerado, como o


eram todas as religiões no império romano. As perseguições eram
esporádicas, em especial na Ásia.

O culto ao imperador impunha os limites e determinantes das perse-


guições. Prestar culto ao imperador, o que um cristão não fazia, era
considerado gesto de civismo. A recusa representava uma ameaça ao
equilíbrio religioso, rompendo as relações entre os deuses e o império.

Causa das perseguições: os cristãos não cultuavam o imperador. Isso punha em


risco as relações entre os deuses e o império.

De forma sistemática, as perseguições ocorreram por volta de 249, com


Décio, e depois com Galiano e Valeriano. As ações faziam-se princi-
palmente contra os bispos e os cristãos de alta posição, a fim de privar
o cristianismo de seus dirigentes. A última perseguição geral foi orde-
nada em 303 por Diocleciano em nome da união imperial, e que temia,
possivelmente, que a organização cristã viesse a tornar-se outro estado
dentro do império. Em 311, um edito de tolerância, liderado por Cons-
tantino, concedia uma trégua ao cristianismo, sob a condição de que
nada se fizesse aos cristãos que fossem contrários à disciplina.

Em 313, sob Constantino, chegam ao fim as perseguições.

Por fim em 313, ainda sob o comando de Constantino, o Edito de Milão


concedia a liberdade religiosa aos cristãos e punha fim às perseguições.

O império cristão

Desde 305, Constantino já era senhor da Gália, Espanha e Bretanha, e


em 312 tornara-se imperador. Sua aproximação aos cristãos remonta a
seu pai, que em período de perseguição sob Diocleciano protegeu e
salvou muitas pessoas. Os dois editos, o de 311 e o de 313, tinham um
ingrediente político bastante forte, além de proteger os cristãos. O fato
é que, livre das perseguições, o cristianismo cairia sob o controle do
imperador.

Com Constantino, uma só lei, um só imperador. Por que não só uma religião, a fim
de unificar o império?

Na aproximação com o cristianismo, Constantino vislumbrava a cul-


minância do processo de unificação do império. Havia uma só lei, um
só imperador e uma só cidadania. Por que não também uma só reli-
gião? Protegida por Constantino, a Igreja Cristã cresceu rapidamente:
91
isentou o clero dos encargos públicos, concedeu à igreja o direito de
receber legados, proibiu o trabalho aos domingos nas cidades, proibiu
o sacrifício pagão em casas particulares, erigiram-se grandes templos
em Roma, Jerusalém e Belém. Além disso, transferiu a sede do império
para Bizâncio (depois Nova Roma e, por fim, Constantinopla), no Ori-
ente, a parte mais cristianizada do império. O laço imperial com o
ocidente era a figura do bispo de Roma, ao redor do qual gravitava a
vida.

Após a morte de Constantino, em 337, o processo de aproximação


entre Igreja e Estado foi-se consolidando, e tomou sua forma final com
Teodósio, em 381, com a declaração do cristianismo como a religião
oficial do império.

Em 381, o cristianismo é declarado religião oficial do império.

De Constantino ao grande cisma

Embora unificado, o cristianismo tinha suas diferenças regionais. Uma


das mais marcantes foi entre o Oriente (sede em Constantinopla) e
Ocidente (sede em Roma). Várias razões podem ser alinhadas para o
afastamento progressivo entre as duas sedes cristãs.

A língua

Até o século III, o espaço geográfico formado pela bacia do Mediterrâ-


neo conhecia o grego. O avanço do latim no Ocidente teve como con-
sequência inevitável o recuo do grego. Ao fundar sua nova capital,
Bizâncio (depois Nova Roma e depois, ainda, Constantinopla), o impe-
rador Constantino queria fazer dela uma nova Roma, com uma admi-
nistração que utilizasse o latim. Não deu certo: o oriente não se latini-
zou. Sem língua comum, os problemas emergiram, e os acertos esbar-
ravam nas questões linguísticas, em especial os acertos teológicos.

A tentativa de implantar uma única língua no império, o latim, fracassa.

Os concílios

A partir do concilio de Nicéia (325), as discussões tornaram-se constan-


tes. Os concílios de Éfeso (431), Calcedônia (451) e Constantinopla
(553) foram ocasiões de confronto em detrimento da conciliação. As
discussões religiosas eram agravadas em razão da primazia da sede de
Roma, que Constantinopla queria compartilhar. Podem ser acrescenta-
das as questões das imagens, normais no Ocidente, mas rejeitadas por
parte dos cristãos orientais, e do celibato, obrigatório no ocidente,
porém exigido no oriente apenas para os bispos.
92
As discussões religiosas distanciam o Oriente do Ocidente.

A política fiscal

O imperador Justiniano (482-565) contribuiu muito para o agravamen-


to das divisões religiosas. Nas províncias ocidentais reconquistadas
aos bárbaros, ele impôs o fisco e a administração detalhista do Oriente.
O Ocidente não apenas rejeitou essa prática, mas, também, o poder
imperial. As populações passaram a adotar como prática comum tratar
diretamente com os bárbaros, rejeitando todas as orientações e obriga-
ções impostas por Constantinopla.

O cisma

Finalmente, em 1054, ocorre o episódio final da separação em decor-


rência de uma recusa de reconhecimento mútuo entre os legados do
papa e o patriarca Miguel Cerulário. Essa recusa provocou uma exco-
munhão mútua, e cada uma das partes do cristianismo passou a cons-
truir sua própria tradição.

Tentativas de reunificação

Após o cisma, os contatos prosseguiram.

Os imperadores do Oriente (ou bizantinos) solicitaram ajuda ao Oci-


dente para lutar contra o avanço do islamismo. O apelo às cruzadas,
lançado pelo papa Urbano II, em 1095, foi motivado, em parte, para
atender às solicitações orientais.

As primeiras cruzadas foram organizadas com a ajuda oriental. No


entanto, logo se percebeu que os orientais ora apoiavam o ocidente, ora
os muçulmanos. Uma tentativa de corrigir essa distorção ocorreu em
1204, durante a quarta cruzada, quando o ocidente saqueou Constanti-
nopla e estabeleceu um passageiro império latino. Na medida em que
se concretizava o avanço islâmico, fortalecia-se a esperança de um
retorno à unidade religiosa do cristianismo. As esperanças, no entanto,
dissiparam-se em 1453, quando a capital do Oriente caiu nas mãos dos
otomanos. Era o fim da igreja cristã bizantina, que se divide, a partir
daí, em igrejas nacionais independentes.

Do cisma ao século XVI

A cisma deu origem, com sede em Roma, à Igreja Católica Apostólica


Romana e, com sede em Constantinopla, às Santas Igrejas Católicas
Ortodoxas Orientais.
93
A unidade ocidental, por sua vez, não era concisa, e não tardou o sur-
gimento de vozes discordantes aqui e acolá, especialmente no que
tocava à detenção do que poderia Igreja ou o Estado? Vislumbrava-se a
necessidade de reformar a igreja cristã ocidental. A Inquisição, nesse
cenário, foi uma tentativa religiosa que, por fim, serviu como instru-
mento de pressão e eliminação das vozes discordantes.

No Ocidente, continuam as vozes discordantes, e a Inquisição serviu apenas como


forma de reprimir os dissidentes.

O desejo de reforma cedeu lugar à indispensabilidade desta, especial-


mente após a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) e da abertura da soci-
edade às novas técnicas: redescoberta da Antiguidade, exploração do
mundo, renascimento do grande comércio, aparecimento da imprensa.
A esse clima de efervescência, contrapunha-se a pouca instrução dos
ministros religiosos, a ausência constante dos bispos de suas dioceses e
o cisma, já mencionado, provocando um enfraquecimento cada vez
mais acentuado do cristianismo ocidental.

Não bastasse isso, durante todo o século XIV os monarcas europeus


enfrentaram-se e tomaram como refém a hierarquia da igreja. De 1309
a 1327, os papas instalaram-se em Avignon, sob influência francesa. A
volta do papa a Roma, em 1378, provocou uma eleição pontificial dis-
sidente em Avignon. Os Estados da Europa, e com eles a cristandade,
dividiram-se em torno desses dois papas sem poderes.

A crise chegaria ao fim em 1417. Os Estados conseguiram entender-se,


convocando o concilio de Constança, sob a presidência do imperador
da Alemanha. Houve concordância em restabelecer a unidade da igre-
ja, depondo os papas em exercício e propondo um único papa para a
cristandade ocidental. Ainda assim, a reforma necessária era constan-
temente adiada.

No início do século XVI, os papas deixaram-se levar, a exemplo de


outros príncipes, pelas lutas políticas e pela renovação arquitetônica
em Roma.

O projeto de reforma da antiga basílica impunha despesas considerá-


veis. Para suprir as necessidades, o papa Leão X (1513-1521) recorreu
ao sistema de indulgências, criado no ano 1000. De forma reducionista,
os fiéis, com o pagamento de uma quantia em dinheiro, podiam substi-
tuir as penas impostas pelo confessor aos pecados cometidos após o
batismo, como o jejum, as rezas, peregrinações e assim por diante. Não
tardou e os excessos na venda das indulgências apareceram. Em 1476,
94
outro decreto papal determinava que a indulgência também tivesse o
poder de remir as almas do purgatório.

Unir ideias religiosas para garantir projetos financeiros mostra-se uma


alternativa inadequada.

Explodiam por toda a Europa movimentos que exigiam um retorno às


Escrituras. Assim foi na Grã-Bretanha com John Wyclif e na Boêmia
com João Hus. Nos Países Baixos, Erasmo dedicou-se à revisão da
Bíblia, partindo do texto grego. O momento era de reforma, e nesse
cenário surge a reforma do século XVI, destacando-se a figura de Lute-
ro.

7.2 Ensinamentos
Atualmente, há três grandes matrizes do cristianismo: catolicismo
romano, catolicismo ortodoxo e protestantismo. Internamente, cada
uma dessas três matrizes desdobra-se em inúmeras outras correntes.
Essa é uma dificuldade em afirmar um único pensamento cristão.

Apesar das divergências, há, em linhas gerais, algumas concepções que


permeiam os grupos cristãos: a figura de Jesus, a Trindade (Pai, Filho e
Espírito Santo iguais em natureza e dignidade), a criação divina do
mundo a partir do nada, a vinda do reino de Deus no fim dos tempos e
o amor a Deus sobre todas as coisas, entre outras.

Por questão de tempo e espaço, opta-se por mencionar apenas alguns


dos temas mencionados.

Deus

O cristianismo herdou do judaísmo a crença na existência de um único


Deus (monoteísmo), criador do Universo e que pode intervir sobre ele,
conforme a Sua vontade. Por essa razão, os principais atributos de
Deus são: onipotência, onipresença e onisciência. Mas, sem dúvida,
alguma, há outro atributo, muitas vezes mencionado nos escritos, e
que se refere ao amor de Deus que se estende sobre todas as pessoas,
estabelecendo uma relação pessoal entre o Criador e a Criatura.

A relação de Deus com suas criaturas é pessoal, por meio do amor.

A Trindade

Algumas das tradições cristãs professam a crença na Trindade: Deus é


um só ser eterno que existe em três pessoas distintas e indivisíveis: o
Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esse pensamento cristão, que difere de
95
várias tradições religiosas, como o judaísmo e o islamismo, foi consa-
grado no Concilio de Nicéia (325 a.D.). Internamente, também há di-
vergências, pois há grupos que defendem a existência de duas pessoas:
o Pai, que deve ser adorado, e o Filho, que não tem nenhum direito à
adoração.

Jesus

Esse é um tema candente. O monoteísmo cristão difere dos demais por


ser o único que defende e proclama a realidade de um homem-Deus,
Jesus Cristo, possuidor de duas naturezas iguais entre si: a divina e a
humana.

Fazem parte das crenças no Cristo Jesus a importância de Sua mensa-


gem de amor ao Pai e ao próximo, e Sua encarnação que vem libertar
os seres humanos de seus pecados por meio de Sua morte expiatória
na cruz e oferecer a vida eterna por meio de Sua ressurreição.

Veja abaixo o que algumas tradições religiosas pensam sobre a figura


de Jesus (fonte: Zero Hora 11/04/2004).

HINDUÍSMO

Quem é Jesus?
É um avatar, alguém enviado por Deus para descer ao mundo material e
agir em um determinado tempo e lugar.
Por que ele veio?
Para estabelecer um darma (a paz e a justiça) e introduzir o batismo com
água.
Como morreu?
Terminada sua missão na Palestina, Jesus foi para a Índia, onde morreu
vários anos depois.
Que papel terá?
Os hindus acreditam que Jesus voltará, como prometeu, como um avatar,
para mais uma vez estabelecer a ordem.

ISLAMISMO

Quem é Jesus?
É um entre muitos profetas, como Moisés ou Maomé, e não o filho de
Deus.
Por que ele veio?
Sua missão foi trazer a mensagem de Deus para o povo da Palestina.
Como morreu?
Foi condenado à cruz, mas outro acabou crucificado em seu lugar por
intervenção divina. Ele então subiu aos Céus para encontrar Deus.
Que papel terá?
Voltará no final dos tempos para dirigir a humanidade no caminho da
96
salvação.

JUDAÍSMO

Quem é Jesus?
É um judeu comum que, como outros na História, se proclamava o
Messias.
Por que ele veio?
Não crê que Jesus seja um profeta.
Como morreu?
Morreu crucificado pelos romanos, por afrontar o poder do Império ao
declarar-se rei dos judeus.
Que papel terá?
Não atribui papel futuro a Jesus.

ESPIRITISMO

Quem é Jesus?
Um espírito, como os demais homens, mas com tal grau de evolução
moral que é visto como modelo e guia para a humanidade.
Por que ele veio?
Para oferecer os padrões éticos e morais necessários à evolução espiritual.
Como morreu?
Depois do suplício, não retornou em seu corpo. A ressurreição é uma
materialização de seu espírito - o chamado corpo espiritual.
Que papel terá?
Sua volta não se dará num corpo, mas em forma espiritual,
restabelecendo a ordem.

Ser humano
É único

De acordo com o cristianismo, o ser humano foi criado por Deus jun-
tamente com a natureza e os demais seres vivos. Nesse sentido, é parte
integrante dela. Todavia, ele foi feito de forma única, à imagem e se-
melhança de Deus, o que o distingue do restante da criação. A imagem
de Deus implica, entre outras coisas, que o ser humano foi dotado de
inteligência e, portanto, pode interpretar as leis do mundo e prover os
meios de preservá-lo. Em algumas tradições cristãs, o ser humano, a
natureza e Deus estão em níveis idênticos.

Criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano recebeu a alma vivente.

É mordomo da criação

Gênesis 2.15 assim descreve: "Tomou o Senhor Deus ao homem e o


colocou no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo". Deus colocou
97
o ser humano no mundo como seu gerente e lhe deu alguns mandatos:
cuidar, proteger, preservar e conhecer a criação, de onde tiraria seu
sustento. O ser humano é o mordomo de Deus. Não é o soberano se-
nhor, dono e déspota, mas o responsável diante de Deus pelo emprego
correto dos recursos naturais, pelo seu próprio desenvolvimento de
forma sustentável e pela preservação dos demais seres vivos.

Cuidar, proteger e cultivar toda a criação divina é tarefa do ser humano. O que
você tem feito em relação a isso?

É livre

Deus correu o risco, por assim dizer, de criar um ser passível de rebe-
lar-se e recusar a existência que lhe foi dada. Ainda assim, dotou o ser
humano de livre-arbítrio, tornando-o completamente livre e responsá-
vel pela sua liberdade.

Incentivo: pesquise e discuta com os colegas o tema do livre-arbítrio.

Pode transcender

As promessas de Deus conduzem o ser humano à certeza de que pode


ir além de suas naturais limitações físicas. Com base nessas promessas
é que o cristianismo pode propor novos objetivos, sentidos e conquis-
tas ao ser humano, como a da ressurreição e a posse de um assento no
reino de Deus que está por vir.

A dimensão de pertencer a uma realidade que ultrapassa a materiali-


dade conhecida faz dessa vida uma passagem obrigatória na direção
da vida eterna.

Nesse contexto, a morte deixa de ser o fim e transforma-se numa fron-


teira; deixa de ser um muro e torna-se uma passagem; deixa de ser
um abismo e torna-se uma ponte. O cristianismo afirma que o ser hu-
mano não morrerá para sempre.

Vida e morte

A vida do seguidor de Jesus, o Cristo, é pautada pela sua resposta ao


amor de Deus, que lhe aceita em razão da expiação e morte de Jesus.

Em retribuição à bondade e gratuidade de sua aceitação, salvação, por


Deus, o cristão pontua sua existência pelos parâmetros encontrados
nos preceitos de conduta do Novo Testamento, uma extensão dos dez
mandamentos encontrados no Antigo Testamento. A diferença é que
agora não mais por obrigação, e sim por agradecimento à salvação
98
concedida, sem nenhum merecimento. A moralidade cristã encontra
sua fundamentação na ética do amor e que merecerá todo um capítulo
à parte, mais adiante.

As festas

Há no cristianismo, como em outras tradições, festivais que promovem


a relembrança dos feitos divinos em favor dos seres humanos. Muito
embora haja divergência sobre esse tema em algumas tradições cristãs,
o que se percebe é que o cristianismo é festivo. De uma forma geral e
ressalvadas as interpretações divergentes, as principais festas cristãs
podem ser apontadas como as que abaixo se seguem:

 Advento: período constituído pelas quatro semanas antes do Na-


tal, entendidas como época de preparação para a celebração do
nascimento de Jesus Cristo;

 Natal: celebração do nascimento de Jesus;

 Epifania: celebra a adoração de Jesus Cristo pelos Reis Magos,


enquanto que para os cristãos ortodoxos, o seu batismo. Acontece
12 dias após o Natal;

 Sexta-Feira Santa: relembra o sofrimento e a morte de Jesus;

 Domingo de Páscoa: celebra a ressurreição de Jesus e a vitória


sobre a morte;

 Ascensão de Jesus ao céu: acontece 40 dias após o Domingo de


Páscoa e celebra a presença de Cristo junto ao Pai como interces-
sor;

 Pentecostes: celebração do aparecimento do Espírito Santo aos


cristãos. Ocorre 50 dias após o Domingo de Páscoa.

Os símbolos

A simbologia cristã é muito rica. Procura remeter o fiel à lembrança


das promessas divinas e que o conduzem à fé nessas promessas de
salvação e cuidado. Nesse espaço restrito, no entanto, apenas algumas
menções.

 O Bom Pastor

 A cruz - O símbolo mais reconhecido do cristianismo é, sem dúvi-


da, a cruz, que pode apresentar uma grande variedade de formas
99
de acordo com a denominação: crucifixo para os católicos, a cruz
de oito braços para os ortodoxos e uma simples cruz para os pro-
testantes.

 O peixe - Outro símbolo cristão, que remonta aos começos da


religião, é o Ichthys ou peixe estilizado (a palavra Ichthys significa
peixe em grego, sendo também um acrônimo de Iesus Christus
Theou Yicus Soter, "Jesus Cristo filho de Deus Salvador").

 Alfa e Ômega - O Alfa e o Ômega enfatizam, conforme alfabeto


grego, que Cristo é o princípio e fim de todas as coisas.

Pesquise: por que a tradição católica romana utiliza o crucifixo, e a protestante, a


cruz vazia?

A vida depois da morte

A visão cristã sobre a vida depois da morte envolve, de uma maneira


geral, a crença no céu e no inferno, vistos como eternos. A igreja católi-
ca considera que, para além dessas duas realidades, existe o purgató-
rio, um local de purificação onde ficam as almas que morreram em
estado de graça, mas que cometeram pecados.

A plenitude da vida dar-se-á no Juízo Final, quando o Cristo voltará


para julgar os vivos e os mortos, e dará a vida eterna a todos os que
creram nas Suas promessas.

Mundo

É criação divina é entregue ao ser humano para que este o administre,


zele e promova a vontade do Criador. É bem verdade que se criou, no
decorrer dos tempos, uma concepção segundo a qual o mundo é ruim,
bem como tudo o que esteja ligado à materialidade. O mundo torna-se
o espaço do diabólico, como expressão do ódio. Isso, de certa forma,
provocou uma tendência ao afastamento do mundo e o consequente
isolamento marcado pela negação em benefício das coisas do espírito.
Muito embora ainda haja correntes da tradição cristã que adotam esse
comportamento, há uma maioria que vislumbra o mundo não mais
como diabólico, mas como o espaço da expressão do amor divino.
Revitaliza-se a materialidade como criação divina e a consequente
responsabilidade do cuidado e da proteção.

O cristianismo, de modo geral, reconhece o mundo como o espaço


onde ocorre a história humana. Segundo essa crença, é o local onde o
ser humano exerce a sua liberdade de filho de Deus, necessitando,
100
muitas vezes, reparar erros cometidos por si mesmo, por cristãos e não
cristãos, motivados por amor.

O mundo é o espaço da expressão do amor a Deus, aos semelhantes e às criaturas.


8
Ronaldo Steffen
A MENSAGEM CRISTÃ ATRAVÉS
DAS PARÁBOLAS DE JESUS

Nossa ideia, neste texto, é fazer uma reflexão sobre o cristianismo.


Como os cristãos colocam em prática a sua fé e onde está o fundamen-
to dessa fé? A ideia não é catequizar, mas mostrar ideias contextuali-
zadas a partir das parábolas de Jesus. Contar histórias era o seu forte.
Ele sabia usar uma linguagem simples para que as pessoas o entendes-
sem. Para os não cristãos, pode ser um bom momento para refletir
sobre as práticas do dia-a-dia.

8.1 A Bíblia, o livro sagrado do cristianismo


A palavra Bíblia significa conjunto de livros - o que ela, na verdade, é.
A Bíblia divide-se em dois grandes blocos, o Antigo Testamento (AT) e
o Novo (NT) Testamento. A palavra testamento lembra aliança ou
acordo estabelecido entre Deus e os seres humanos. No caso do AT, o
mesmo refere-se a Abraão, que recebeu a promessa de seu povo vir a
ser uma grande nação, de onde viria o Messias, o Redentor de todos os
homens. Também lembra a libertação da escravidão do Egito através
do sangue do cordeiro. Quanto ao NT, é lembrado o cumprimento da
promessa, a saber, que o Messias veio na pessoa de Jesus, que ele salva
os homens da morte eterna com o derramar do seu sangue, o sangue
da nova aliança, e envia seus mensageiros ao mundo para pregar seu
evangelho. Para facilitar a sua leitura, a Bíblia foi dividida em capítulos
e versículos (SEIBERT, 2002):

Antigo Testamento - Conteúdo

Dados do AT:

 formado por 39 livros, escrito em hebraico e aramaico pelos profe-


tas;

 aprox. 1260 até 400 a.C.;


102
 Livros da Lei (Pentatêuco);

 Históricos - Josué até Éster;

 Poéticos - Jó até Cantares de Salomão;

 Profetas maiores - Isaías até Daniel;

 Profetas menores - Oséias até Malaquias;

Conteúdo do AT. Destacamos:

 criação do mundo em seis dias;

 queda em pecado pelos primeiro homens;

 promessa do Messias, Redentor;

 formação e história do Povo de Israel;

 profecias sobre Jesus - Gn 3.15; Gn 12.2; Is 7.14; Mq 5.2; Is 53.4-11;


SI 16.10;
Novo Testamento - Conteúdo

 formado por 27 livros, escrito em grego pelos evangelistas e após-


tolos entre 50 até 100 d.C.

 Conteúdo do NT. Destacamos:

 quatro evangelhos que narram vida, ensinos, milagres, sofrimen-


to, morte, ressurreição e ascensão de Jesus;

 Atos dos Apóstolos: iniciando pela ascensão, narra o Pentecostes,


formação da igreja cristã, seu desenvolvimento, suas atividades,
perseguições que sofreu;

 Cartas: Paulo (13), Pedro, Judas, Tiago; Hebreus (não se sabe o


autor), João;

 Profecia: Livro de Apocalipse - Revelação.


Quadro - Lei e Evangelho- duas grandes doutrinas da bíblia

Lei Evangelho
1) Ensina o que nós devemos fazer 1) O que Deus fez e ainda faz pela nossa
ou deixar de fazer. salvação.
2) Manifesta o nosso pecado e a ira 2) Manifesta o nosso Salvador e a graça
de Deus. de Deus.
3) Exige, ameaça e condena
3) Promete, dá e sela o perdão, vida e
eternamente quem não cumpre os
Salvação ao que crê em Jesus.
mandamentos.
4) Provoca a ira no homem e o afasta 4) Chama e atrai para Cristo, opera a fé.
10
3
de Deus.
5) Deve ser pregada aos
5) Anuncia-se aos atemorizados.
impenitentes.
6) A lei serve como freio (impedindo
6) O Evangelho é a boa-nova da graça,
que o mal tome conta do mundo),
do amor de Deus em Cristo Jesus (João
espelho (revelando os erros
3.16) e motiva o cristão à prática das
humanos) e norma (mostrando ao
ações que agradam.
ser humano como agir).

As parábolas

A divindade de Jesus é percebida pelos cristãos por meio de suas men-


sagens, transmitidas oralmente, e, posteriormente, consagradas nos
quatro evangelhos. Entre as mensagens de Jesus, o Cristo, sempre se
dá um especial destaque às parábolas. Foram usadas por Jesus, o Cris-
to, para dar um sentido às perguntas dos discípulos e demais seguido-
res, utilizando-se de uma contextualização capaz de ser compreendida
pelos seus interlocutores.

A título de exemplificação, apresentam-se três parábolas que resumem


alguns ensinos de Jesus, em ideias desenvolvidas pelo professor Egon
Seibert.

Sobre o amor devido àquele que retorna arrependido -


Lucas 15. 11-32

Essa parábola é conhecida como A parábola do filho pródigo. Ela nos


apresenta três personagens:

 O filho mais moço, que pede ao pai sua parte na herança que lhe
seria devida (conforme os costumes da época, ele tem direito a 1/3
dos bens paternos, porém abdica do direito dos bens que o pai ad-
quirir após o recebimento). Ressalta-se: o pai não tinha a obrigação
de atender a vontade do filho. O pai atende ao pedido do filho.

 O jovem sai de casa e gasta tudo o que recebeu de forma dissoluta,


extravagante e imoral. Quando o dinheiro acaba, o jovem percebe
que está em meio a uma grande crise: a região está assolada pela
fome. Procura empregos, e o que lhe sobra é tornar-se cuidador de
porcos. Aceita o emprego por imaginar que ali pudesse alimentar-
se das vagens gigantes que eram dadas aos porcos. Ninguém, no
entanto, lhe dá coisa alguma. Caindo em si, lembra-se da casa de
seu pai, onde a vida dos escravos era bem melhor que a sua. Toma
uma decisão: voltar, pedir desculpas e suplicar que o pai lhe aceite
de volta como um de seus escravos.
104
 O pai. Chama a atenção um registro na parábola: o pai estava
aguardando a volta de seu filho. Tanto é que, ao vê-lo vindo pela
estrada, não apenas o reconhece, mas vai ao seu encontro. Expres-
sa sua compaixão abraçando-o e beijando-o. Diante da expressão
de tanta bondade paterna, o filho reconhece sua situação, sem ne-
nhum direito a exigir, mas apenas uma súplica: "Aceita-me como
um de seus escravos".

 A surpresa: o pai reintegra o filho à família e expressa essa aceita-


ção providenciando as melhores roupas, colocando o anel em seu
dedo, dando-lhe sandálias para seus pés, promovendo uma recep-
ção com festa, comida e dança. A razão? O próprio pai explica:
"Este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi acha-
do".

 O irmão mais velho, que estava no campo trabalhando. Ao retor-


nar para casa, ouve o som da música e gritos de alegria. Intrigado,
pergunta o que estava acontecendo. Ao tomar ciência de que se
tratava de uma festa para o irmão que retornara, recusa-se, indig-
nado, a participar da festa. Não bastasse, ainda repreende seu pai
e aponta uma razão lógica: "Estou há tanto tempo contigo e nem
um cabrito preparas para festejar comigo. Mas esse teu filho, que
foi embora e gastou tudo, volta e é recebido com festas? Até um
novilho cevado é abatido para festejar?" O pai justifica sua atitude:
"Tudo isso aqui é teu. Nada perdeste; a herança continua sendo
tua. Mas era preciso que nos alegrássemos, pois este teu irmão es-
tava morto e reviveu, estava perdido e foi achado".

O ensino desta parábola: Jesus narra de forma clara que Deus é o Pai
que recebe o pecador que o busca em arrependimento. Os que retor-
nam, por piores que tenham sido as suas ações do ponto de vista hu-
mano, serão por Ele recebidos. Ele, porém, aponta para as atitudes, por
vezes hipócritas, de quem se julga de sua família e que se dá o direito
de discriminar quem errou e que, arrependido, deseja voltar a esse
convívio. Ao invés de lamentar e até estranhar que o arrependido é
aceito por Deus, em sua família, os cristãos devem alegrar-se, pois o
que Deus mais deseja é que todos se arrependam dos seus pecados e
vivam.

Deus aguarda sempre e de braços abertos o retorno de seus filhos dispersos.

Sobre o perdão ao próximo - Mateus 18. 21-35

Esta parábola é conhecida como O credor incompassivo.


10
5
Jesus é colocado diante de uma questão intrigante: quantas vezes al-
guém deve perdoar seu próximo? Alguns argumentavam que até sete
vezes e ficam espantados com a dimensão dada por Jesus: 70 vezes
sete, ou seja, sempre. É nesse contexto que Jesus conta a parábola para
ensinar a sua vontade a respeito do perdão.

Um rei ajusta suas contas com seus servos. Um lhe deve dez mil talen-
tos (cerca de 480 mil quilos de ouro). Como o devedor não tem como
pagá-lo, o rei ordena que todos os seus bens sejam vendidos, bem
como sua família e ele mesmo. Desesperado, lança-se aos pés do rei e
suplica-lhe clemência. Não é que o rei o atende?! Tocado por tamanha
generosidade, sai aliviado da presença do rei. No caminho de sua casa,
encontra alguém um servo que lhe devia cem denários (cerca de
4.800kg de ouro) e, intransigentemente, insiste no recebimento da
dívida. Como não a recebe, vai às últimas consequências e conduz seu
servo à prisão.

Amigos desse pobre infeliz dirigem-se ao rei e delatam a situação.


Irado, o rei chama o servo devedor a sua presença, manda prendê-lo e
entrega sua vida às mãos dos carrascos.

O ensino desta parábola: nossa vida, sobrecarregada de dívidas (erros,


pecados) não pode ser paga diante de Deus. Muitos ainda tentam efe-
tuar o pagamento. Impossível! O valor é alto demais. A bondade, ge-
nerosidade e o amor de Deus, no entanto, vem ao encontro de nossas
necessidades e perdoa nossa dívida. Estamos livres!

Assim como alguém é perdoado em suas muitas faltas, também pode perdoar as
faltas daqueles que lhe são próximos.

Assim, no entanto, como somos perdoados, Deus espera que também


perdoemos todos que têm dívidas a nos pagar, sejam elas de quaisquer
naturezas. É fácil? Com certeza, não! Mas, assim como somos perdoa-
dos, espera-se que perdoemos aos que nos ofendem.

Sobre o amor ao próximo - Lucas 10.25-37

Essa parábola é mais conhecida como O bom samaritano.

Um intérprete da lei perguntou certo dia a Jesus o que deveria fazer


para herdar a vida eterna. Jesus lhe disse: "O que está escrito na lei?"
Ele respondeu: "Ama a Deus de todo o coração, alma e entendimento,
e ama ao próximo como a ti mesmo". Jesus, por sua vez, falou: "Faze
isto e viverás." Como que se desculpando, o intérprete da lei pergun-
tou: "Quem é o meu próximo?" Foi aí que Jesus contou-lhe a parábola
do bom samaritano.
106
Um homem foi assaltado e deixado semimorto na estrada que ligava
Jerusalém a Jericó. Por ele, passam um sacerdote e um levita. Nenhum
dos dois o assiste. Passa também pelo assaltado um samaritano, grupo
inimigo dos israelitas, etnia do assaltado. Este, contrário ao senso do
contexto, cuida do ferido e ainda o conduz a uma pousada, paga as
despesas iniciais e se compromete com despesas posteriores do trata-
mento, se houvesse.

A pergunta de Jesus é retórica: "Quem foi o próximo do homem assal-


tado?" O intérprete da lei, contrariado, precisa reconhecer que fora o
que usara de misericórdia em favor do assaltado. Diante disso, Jesus
finaliza: "Vai e procede tu de igual modo."

O ensino dessa parábola: o amor ao próximo foi sempre uma das


características dos primeiros cristãos. Havia entre eles, especialmente
em Jerusalém, muitos pobres. A comunidade cristã, através de ofertas
voluntárias, sustentava seus pobres, especialmente os órfãos e as viú-
vas.

A certa altura, surge um problema. As viúvas de origem grega sentem-


se prejudicadas na medida em que começam a receber auxílio menor
que as de origem judaica. Reclamam. Pedro, líder da comunidade
cristã, convoca as lideranças e ordena que sejam eleitos sete diáconos,
homens fiéis, para que cuidem da distribuição do alimento entre os
necessitados, enquanto ele e os demais apóstolos iriam dedicar-se ao
ofício da oração e da pregação do evangelho.

A ideia de próximo é ampla: amar não só os amigos, mas também os inimigos.

Hoje denominamos esse serviço de diaconia. É o serviço amoroso que


o cristão presta ao seu próximo em resposta ao amor de Deus. A dia-
conia lida com as consequências e causas do pecado: doenças, sofri-
mentos, pobreza, miséria, ganância, preguiça, exploração, luto, solidão,
violência (assaltos, estupros, homicídios), guerra, catástrofes naturais,
fome, vícios, insensibilidade, solidão e morte.

Sugestões de como se pode demonstrar amor ao próximo:

 visitar doentes em seus lares e hospitais (câncer, Aids, lepra);

 visitar idosos (nossos avós ou pais) para conversar, passear (asilos,


casas-lares, creches, orfanatos);

 visitar os que sofrem (enlutados, órfãos);

 visitar os presos;
10
7
 auxiliar os pobres (alimentos, roupas, remédio, estudo, emprego);

 encaminhar dependentes de drogas ou de álcool às instituições


especializadas;

 olhar pelos portadores de deficiências físicas (hospitais), mentais


(Apae), visuais (doação de córneas), auditivas, etc.;

 lutar contra a poluição, preservando a natureza (lixo, inseticida,


biodegradáveis) rios, ar, florestas, solo;

 lutar pela justiça social e contra qualquer tipo de discriminação


(igualdade no trato com a lei);

 lutar pelo direito à vida (contra o aborto);

 apoiar o pacifismo (não à violência, à guerra);

 lutar contra a corrupção - não sendo corruptor nem corrupto;

 ajudar e orientar migrantes e desempregados;

 organizar palestras sobre higiene, saúde, drogas em associações de


bairros;

 participar da vida política do País.

Um desafio incentivador: em razão do amor motivante, mobilize seu grupo de


estudo, olhe ao seu redor e descubra formas e meios de poder exercitar o amor ao
próximo.
9
Ronaldo Steffen
LUTERO E A REFORMA

9.1 Lutero e a Reforma Luterana


O meio familiar e a educação

Lutero nasceu em 10 de novembro de 1483, em Eisleben, Alemanha.


Sua família não era abastada, e a educação familiar era pautada por
padrões de severidade, próprios da época.

Os primeiros anos escolares (1488-1497) foram marcados o pelo apren-


dizado do latim, do canto e dos princípios básicos da fé cristã. O méto-
do empregado para o ensino era marcado pela memorização e, não
raro, por castigos físicos.

À fase escolar seguinte, até 1501, conhecida como escola do trívio (es-
tudo da gramática, retórica e dialética), seguiu-se o quadrívio (geome-
tria, aritmética, música e astronomia). Assim, estava pronto para in-
gressar na faculdade de Direito.

Curiosidade: compare as ênfases dadas à educação da época com as de hoje.


Compartilhe suas conclusões.

Da universidade para o mosteiro

A continuação dos estudos em Direito nem se deu. Foi interrompida


em julho de 1505. Em razão de um raio que quase o atingira, e apavo-
rado com a proximidade que teve da morte, promete abandonar tudo e
tornar-se monge. Há outras duas versões para sua decisão. Uma co-
menta que pouco antes de quase ser fulminado pelo raio, um amigo
teria sido acometido de um mal súbito e morrera, deixando Lutero
profundamente assustado com a possibilidade da morte. Outra versão,
ainda, relata que Lutero teria sido ferido nos meses precedentes por
um golpe de espada.
10
9
O que transparece, em qualquer dos três relatos, é a forte presença de
um sentimento de medo pelo castigo associado à culpa. Essa percep-
ção, aliás, não era exclusividade de Lutero. O forte sentimento de pe-
caminosidade era a tônica de todo um movimento de reavivamento
religioso na Alemanha da época. É assim que, ainda em julho de 1505,
ingressa no convento dos agostinianos.

Reflita: qual seu parecer sobre movimentos religiosos que oprimem as consciências
com o pavor da condenação eterna?

Sacerdote e monge

Seguindo a tradição dos monges agostinianos, Lutero tornou-se um


sacerdote e, em 1507, reza sua primeira missa. Durante uma das ora-
ções é tomado por enorme angústia, provocada, ao que parece, pelo
temor de aproximar-se diante de Deus. A forte certeza de ser pecador,
aliada à angustiante sensação de culpa, faz Lutero perceber-se diante
de um Deus severo, esboçado essencialmente como juiz.

A entrada na vida monástica não foi o suficiente para acalmar Lutero e


nem lhe trazer a desejada paz interior; as penitências constantes e
precedidas de confissões diárias não foram suficientes para lhe afastar
a imagem de um Deus que pune.

Os estudos em Teologia e a paz interior

Em sua busca de paz, resolve estudar Teologia (1507-1512). Muda-se


para Wittenberg e obtém o título de doutor. Passa a lecionar na facul-
dade de Teologia sem, contudo, abandonar sua busca por um Deus
que lhe desse a paz desejada.

Na universidade, foi auxiliado por um de seus professores, que lhe


pondera que a verdadeira penitência começa com o amor a Deus, e não
com o temor pela punição. O estudo de Agostinho o fascina, e em
especial o significado da vida e morte de Cristo para a salvação. Ao
proferir suas conferências sobre os Salmos (1513-1515), Lutero se con-
vence de que a salvação é uma nova relação com Deus, fundamentada
na absoluta confiança nas promessas divinas. No final de 1516, ao
preparar sua preleção sobre os Romanos, detém-se na palavra que "o
justo viverá por fé". Era a chave que lhe faltava. A salvação é dádiva
divina, é amor. A justiça que poderia significar o direito e merecimento
de quem age de modo correto, e por isso apto a ser chamado de justo, é
percebida por Lutero isenta de direito e merecimento, ainda que tenha
agido de modo correto. O ser humano não merece a identificação como
justo. Ela lhe é atribuída em razão das promessas divinas, e só pode ser
110
recebida por fé pelo simples fato de já ter sido dada. Era o achado da
salvação pela fé, independentemente das obras.

Na universidade, após estudos em Salmos e Romanos, "descobre" que a vida


eterna é dada pela fé. Salvação é amor divino e não merecimento humano.

As 95 Teses e o conflito com a igreja

Lutero não era contra a ideia das indulgências, muito embora suas 95
Teses (1517) tenham tido como alvo exatamente as indulgências. Na
teoria, as indulgências constituíam um perdão relativo às penas impos-
tas pela própria igreja. Com os abusos, muitos passaram a entender
que o perdão podia ser estendido à diminuição das penas do purgató-
rio.

A indulgência contra a qual Lutero se rebelava havia sido promulgada


em 1506 e renovada em 1517. As somas recolhidas estavam destinadas
a financiar a construção da basílica de São Pedro, em Roma. Soma-se a
esse episódio especial a figura de Alberto de Brandemburgo, decisivo
no desenlace dos fatos que se sucederam.

O abuso das indulgências: verbas para construção de basílica e compra de diocese.

Alberto era nobre e já bispo alemão. Vagou o arcebispado de Mainz


(Mogúncia), desejado por Alberto. A importância dessa diocese estava
no fato de ser uma das que tinham direito a voto na eleição para impe-
rador (três bispos e quatro príncipes do Sacro Império Romano-
Germânico, após a morte do imperador, reuniam-se para eleger o no-
vo). Ao solicitá-la ao papa, este estipulou uma alta soma. O problema
agrava-se porque Alberto já era supervisor de duas outras dioceses, o
que era proibido pelo Direito Canônico. Sem recursos suficientes para
"comprar" a diocese vaga, Alberto recorre aos Fugger, uma família de
banqueiros. Resolvido o pagamento ao papa, Alberto tinha uma enor-
me dívida com os Fugger. A solução? Utilizar as somas recolhidas com
as indulgências, incrementando sua venda quase à banalização, além
de inflacionar os valores (1 florim para artesão e 25 para o clero e no-
breza; nota-se que 1 florim era o necessário para uma semana de sub-
sistência de uma pessoa). Repassava a Roma apenas a metade dos
recursos. A outra metade ia diretamente para a instituição bancária dos
Fugger.

O documento de Lutero dado a público em 31 de outubro de 1517 não


tinha como alvo as negociatas de Alberto, das quais, segundo alguns
historiadores, Lutero nem tinha conhecimento, mas as questões dou-
trinais e religiosas. Propunha uma reforma nos costumes na igreja e
11
1
um retorno às Sagradas Escrituras, em especial no que respeitava à
salvação. A reação foi tão imediata, que em pouco tempo já circulava
por boa parte da Europa e, ainda que não imaginasse tanto, já que se
pretendia uma discussão acadêmica, historicamente estava marcada a
deflagração do conflito que marcaria toda a história do mundo ociden-
tal.

A reação da igreja

As afirmações de Lutero encontraram terreno fértil para se ampliarem.


Uns não apenas o defendiam, mas também se admiravam que alguém
desconhecido tivesse ousadia para enfrentar a igreja. Outros o conde-
navam e, ainda, irritavam-se com sua pretensão de sugerir mudanças
na igreja.

Um dos primeiros a responder a Lutero foi Tetzel, o responsável no-


meado por Alberto de Brandemburgo para a venda das indulgências.
Logo a seguir outro oponente, João Eck, também se manifesta através
de um texto. Lutero replica através de um sermão. Corria o início de
1518. A situação estava assim colocada, e sem solução.

É quando entra em cena mais uma vez Alberto de Brandemburgo, que


se associa aos dominicanos, ordem à qual Tetzel pertencia. Encami-
nham a Roma denúncias contra Lutero, e daí para frente os aconteci-
mentos se precipitam. Intimado pelo papa Leão X a comparecer em
Roma, Lutero é protegido pelo príncipe-eleitor Frederico, o Sábio, que
consegue trazer a audiência para a Alemanha, em Augsburgo.

Instado a retratar-se, Lutero apela a instâncias superiores. Sucedem-se


outros encontros, e as discussões tornam claro que as posições são cada
vez mais contraditórias. Por fim, é solicitada a Roma uma bula conde-
natória contra Lutero, publicada em junho de 1520. A bula concede-lhe
60 dias para a retratação.

Nesse mesmo ano, e em meio às discussões que continuavam, Lutero


produziu o escrito À nobreza cristã da nação alemã, sugerindo que o
poder temporal deve assumir suas responsabilidades sociais e políti-
cas. Ainda nesse mesmo ano, publicaria mais duas obras que provoca-
riam um aprofundamento nas diferenças: Cativeiro babilônico da
igreja, onde ataca ensinamentos da igreja, e Sobre a liberdade cristã,
enfatizando que o cristão é o mais livre de todos, não estando sujeito a
ninguém, e é o mais devoto servo de todos, e a todos está sujeito.

Sem a retratação, Lutero é excomungado e perde seus direitos


religiosos.
112
Sem a retratação, em janeiro de 1521 é publicada a decretação da ex-
comunhão de Lutero. Estava posto fora da Igreja Católica Apostólica
Romana, perdendo todos os seus direitos religiosos, inclusive os sacer-
dotais. O império precisava confirmar a excomunhão, cassando os
direitos civis e políticos. Para tratar o assunto, foi convocada a Dieta de
Worms, na Alemanha, no mesmo ano. Sem acerto, Carlos V, recém-
eleito imperador, confirma a excomunhão em maio de 1521. Lutero era
agora um criminoso.

Confirmada a excomunhão pelo império, Lutero perde os


direitos civis.

É agora um criminoso.

O exílio

Temerosos pela vida de Lutero, alguns de seus amigos o "sequestram"


e conduzem-no ao castelo de Wartburgo, onde fica sob a proteção de
Frederico. Nos dez meses de reclusão, produziu como nunca: traduziu
o Novo Testamento grego para o alemão e produziu diversas obras
teológicas.

Considerado como desaparecido, a ausência de Lutero desencadeou


muita confusão. Radicais e fanáticos mostravam muita imprudência na
condução das reformas. A volta se impunha como necessária, e foi a
própria Câmara Municipal de Wittenberg que fez a solicitação. O epi-
sódio marcou a volta de Lutero, ocorrida em março de 1522.

Sem Lutero, o movimento torna-se caótico e incontrolável.

Embora a interdição contra Lutero nunca tenha sido suspensa, ela


também não se cumpriu. A razão maior encontra- se na ausência de
um poder central forte, o que permitiu a Lutero conduzir as reformas
religiosas por ele pretendidas.

O andamento das reformas

Até 1524, as reformas prosseguiram sem maiores desassossegos. É a


partir dessa data que principiam as divisões. Os humanistas, liderados
por Erasmo, separam-se de Lutero. Radicais espiritualistas pregavam a
necessidade da experiência religiosa. Outros radicais, os sociais, dese-
javam reformas mais rápidas e desencadearam a guerra dos Campone-
ses, considerada por Lutero como rebelião contra Deus fortalecendo o
poder temporal dos príncipes e, por consequência, perdendo prestígio
popular.
11
3
A reação aos avanços das reformas e posteriores divisões fizeram com
que os opositores de Lutero mais uma vez, em 1524, se organizassem
na tentativa de cumprir o interdito imperial.

Humanismo, espiritualismo e radicalismo social impunham reformas em outros


rumos.

Em meio a tudo, Lutero, aos 42 anos, surpreende ao casar-se, em junho


de 1525, com Catarina, uma ex-freira com 26 anos.

Até 1526, todas as tentativas de aplicação da interdição de Lutero fra-


cassaram. Nesse ano, uma abertura maior nas discussões introduziu
um adendo ao texto original da Dieta de Worms, que dava aos prínci-
pes a responsabilidade pela escolha da religião a ser seguida em sua
área administrativa. Em 1529, novo encontro restringe essa resolução e
quer fazer a situação voltar ao que era antes. Os príncipes luteranos
reagiram através de um documento no qual começavam suas afirma-
ções sempre com a palavra "protestamos". Isso passou a identificar
como protestantes todos os que se opunham à Igreja Católica Apostóli-
ca Romana.

Sem cumprir o interdito contra Lutero, o império amplia a liberdade religiosa: cada
príncipe é responsável pela escolha da religião.

A Dieta de Augsburgo (1530)

Convocada originalmente por Carlos V para estabelecer os parâmetros


de defesa do império contra a invasão dos turcos otomanos, liderados
por Solimão, os príncipes "protestantes" aproveitaram-se para entregar
uma declaração de fé em defesa de Lutero e seus seguidores, conheci-
da como Confissão de Augsburgo.

Em vista da necessidade de ter a seu lado todas as forças militares


disponíveis, inclusive as dos príncipes protestantes, Carlos V firmou a
Paz de Nuremberg assegurando a liberdade religiosa aos príncipes e
suas cidades que haviam assinado o documento, mas impedindo que
outros príncipes adotassem a Reforma em seus territórios. Era 25 de
junho de 1530.

Somente em 1555 a controvérsia sobre a liberdade religiosa chega ao


fim, através da conhecida Paz de Augsburgo, ainda sob Carlos V. A
Paz de Augsburgo concede direitos iguais tanto a católicos quanto a
protestantes, mas enfatiza que a responsabilidade da escolha religiosa
era prerrogativa dos príncipes. Ao súdito que não concordasse com
seu príncipe, restava-lhe apenas a emigração para outro principado.
114
A Paz de Augsburgo (1555) concede direitos iguais a católicos e
protestantes.

A morte de Lutero

Aos 62 anos, em fevereiro de 1546, Lutero falece em Eisleben, onde


nascera.

Reflita: no Oriente, o pluralismo religioso, embora regionalizado, já era prática


corrente; no Ocidente, a Reforma propiciou a mesma prática.

Posicione-se: a liberdade de culto contribui ou não para o exercício pleno da


humanidade do ser humano?

9.2 Igrejas cristãs de tradição reformada


As principais denominações protestantes que surgiram da Reforma
foram a igreja de tradição luterana e a igreja de tradição reformada. Já
mencionamos os alicerces que deram origem à tradição cristã luterana,
e queremos aqui mencionar os principais grupos de tradição cristã
reformada.

Paralelamente ao movimento da Reforma na Alemanha, ocorria fato


semelhante na Suíça (1522) com Ulrico Zwinglio. Em 1529, Lutero e
Zwinglio tentaram aproximar os seus movimentos, uma iniciativa que
foi impedida pela discordância com relação à Eucaristia (Santa Ceia).

Após a morte de Zwinglio, seu sucessor, João Calvino (1509-1564),


liderou o movimento, ao qual emprestou seu nome ate 1561, momento
a partir do qual seus seguidores passaram a ser identificados por "re-
formados".

Anglicana

A Igreja Anglicana teve seu início em 1530, com Henrique VIII, deno-
minado pelo papa Leão X como "Defensor da Fé" por ter se posiciona-
do contra Lutero em 1521. Casado com Catarina de Aragão, viúva de
seu irmão, teve seis filhos, sobrevivendo apenas uma filha, Maria. Uma
vez que o casamento tivera sido apenas nominal, e como estivesse
impossibilitado de ter outros filhos com Catarina, Henrique VIII, em
seu desejo de um filho homem para ser seu herdeiro, alegou à igreja de
tradição católica romana escrúpulos religiosos sobre a validade de seu
casamento para solicitar sua anulação.

Enamorara-se de Ana Bolena, uma dama de sua corte. Com a demora


da decisão de seu divórcio, insurge-se contra Roma contando com o
11
5
apoio popular contra as autoridades estrangeiras. O Parlamento inglês
aprova um Ato de Supremacia declarando o rei como chefe da igreja
na Inglaterra.

Seu sucessor, Eduardo VI, conduz a igreja mais para o lado calvinista,
e sua sucessora, Isabel I, procurou integrar na igreja todos os seus
súditos (católicos, luteranos e calvinistas), dando origem à Igreja An-
glicana, uma igreja para os anglos.

Nos Estados Unidos, após a independência, em 1776, os seguidores da


Igreja Anglicana passam a ser identificados como seguidores da Igreja
Episcopal Protestante.

No Brasil, os primeiros cultos anglicanos datam de 1810, no Rio de


Janeiro.

Presbiteriana

O ano de 1560 marca a introdução do calvinismo na Escócia, através de


John Knox, discípulo de Calvino. Nessa data, o parlamento escocês
aboliu a jurisdição papal e proibiu a celebração da missa na Escócia. É
preciso enfatizar, no entanto, que os fatos não se sucederam de forma
pacífica. Houve oposição.

As situações se complicam com a implantação na Grã-Bretanha, por


Isabel I, de uma igreja única para os anglos. Outros dissidentes surgi-
ram, que se opunham à intervenção do Estado nas questões religiosas.
Estes defendiam, conforme Calvino, que o governo da igreja deveria
ser exercido pelo presbitério (o conjunto dos mais velhos/experientes).
Os ingleses mais próximos do calvinismo recebem a identificação de
presbiterianos. Mas foi apenas em 1876 que se organizou como insti-
tuição a Igreja Presbiteriana da Inglaterra, livre e não estatal, muito
embora seja atribuída a data de 1572 como fundação do movimento.

No Brasil, o primeiro missionário com acento presbiteriano chega em


1859.

Batista

Há duas teorias que explicam o surgimento dos batistas. Uma se repor-


ta ao batismo de Jesus no rio Jordão. Outra identifica nos anabatistas,
século XVI, sua origem. Os anabatistas rejeitavam a validade do batis-
mo de crianças e exigiam um novo batismo. Daí o termo anabatistas, os
que batizam de novo.
116
Com forte entonação calvinista, o movimento batista é uma dissidência
da Igreja Anglicana. As primeiras comunidades religiosas estruturadas
tiveram lugar na Inglaterra, em 1611, e logo depois na Holanda. De-
fendem a separação entre igreja e Estado, e um governo eclesiástico
descentralizado, razão pela qual as congregações têm autonomia. Faz
parte, ainda, da tradição batista, batizar apenas adultos, e por imersão;
batismo e santa ceia serem apenas ordenanças; o uso de imagens não
ser admitido; forte atividade missionária, e obra educacional.

No Brasil, o trabalho permanente dos batistas teve seu início em Sal-


vador. Bahia, em 1882.

9.3 Outras tradições religiosas


A Paz de Augsburgo (1555) foi um avanço na época, porém ainda
manteve nas mãos dos príncipes o direito de escolha da religião a ser
seguida por seus súditos.

Somente em 1648, com a Paz de Westphalia, documento que poria fim


à guerra dos Trinta Anos, é que se chegou à liberdade religiosa indivi-
dual. Caberia a cada indivíduo escolher livremente sua fé religiosa. A
data marca, ainda, o fim do período histórico da Reforma na Europa.

A partir dessa liberdade, surgem, em diversos lugares, líderes religio-


sos, pastores, profetas, e com eles diferentes interpretações bíblicas,
bem como costumes e práticas, o que dá origem a novas tradições
religiosas cristãs.

Metodista

O movimento surgiu na Universidade de Oxford, Inglaterra, por volta


de 1739. Não tinha a pretensão de criar uma nova tradição religiosa,
mas tão-somente reavivar a espiritualidade, marcada pela frieza e
lassidão dos costumes da época, vigentes na Igreja Anglicana.

Um grupo de estudantes, liderado pelos irmãos John e Charles Wesley,


passou a reunir-se para, em conjunto, orar e estudar a Bíblia. O grupo
foi denominado de Clube Santo, e visto pelos de fora do movimento
como metodistas, em razão de sua aplicação metódica na prática devo-
cional.

A primeira sociedade metodista organizada estabeleceu-se em Bristol,


em 1739. Em 1818, ocorre a ruptura com a Igreja Anglicana.
11
7
Adventista do Sétimo Dia

O pastor batista americano Guilherme Miller (1782-1849) é quem dá


início a essa tradição. Tudo teria começado em 1818, quando Guilher-
me, ao estudar a Bíblia, acreditou ter descoberto o dia da volta de Jesus
Cristo (advento). A data estava próxima: 22 de outubro de 1844.

A notícia espalhou-se rapidamente. O movimento aumentou o número


de adeptos, que aguardavam ansiosos o dia em que entrariam na gló-
ria celestial. A data chegou e nada aconteceu.

Em decorrência, ocorreu uma fragmentação do movimento em três


grupos: um continuou a marcar novas datas; outro se tornou incrédulo
e, ainda outro, continuou a estudar a Bíblia e concluiu que Miller esta-
va certo quanto à data, mas errou na interpretação da profecia, pois o
santuário a ser purificado naquela data seria o céu, e não a Terra. Cris-
to passaria do lugar santo para o local santíssimo no céu, onde estaria
intercedendo e julgando nos casos de todos os seres humanos. É desse
último grupo que surgem personagens como Ellen G. White, a quem
muitos atribuem a origem do movimento, organizado em 1861 nos
Estados Unidos com a identificação de Igreja Adventista do Sétimo
Dia.

O assento da identificação em "sétimo dia" deu-se em razão de o mo-


vimento enfatizar o dia de sábado, o sétimo dia, como o dia de descan-
so para os cultos e adoração.

No Brasil, suas atividades iniciaram-se em 1916, e a central da igreja


está em Santo André/SP.

Além da guarda do sábado, é enfatizado o batismo por imersão a par-


tir dos 12 anos de idade; o ritual da Ceia, realizado com suco de uva e
pão, e precedido pelo lava-pés; o dízimo, que é a regra das ofertas; a
negação da crença num inferno, e a defesa do milênio (reinado de
Cristo no céu entre sua primeira e segunda vinda, ficando a Terra
sujeita apenas a Satanás e a seus anjos; por ocasião da segunda vinda
de Cristo, junto com seus santos, os ímpios mortos serão ressuscitados
e destruídos junto com Satanás, estabelecendo-se a purificação da
Terra).

Mórmons

Em 1830, nos Estados Unidos, Joseph Smith inicia o movimento conhe-


cido como Igreja dos Mórmons, embora o nome oficial seja Igreja de
Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
118
Segundo os relatos de Joseph Smith, ele foi atendido em sua busca da
verdadeira igreja de Cristo em 1820 através de uma revelação que lhe
recomenda não entrar em nenhuma das igrejas existentes. Em 1823, o
anjo Moroni apareceu-lhe e falou de certas placas douradas enterradas
no chão. Quatro anos após, Smith desenterrou essas placas, encontran-
do ainda duas pedras especiais em recipientes de prata. Com a ajuda
das pedras, após algum tempo Smith conseguiu decifrar a placas, que
foram então levadas de volta pelo anjo Moroni. A tradução das placas
foi publicada em livro em 1830, com o título O livro de mórmon.

O livro fala dos povos indígenas da América e afirma que, depois de


ressuscitar, Cristo revelou-se a uma raça, mais tarde exterminada, que
vivia na América.

Após sofrer muitos contratempos e até perseguições, o movimento


estabeleceu-se no atual estado de Utah. Ali construíram uma cidade e
fundaram uma comunidade estatal teocrática que se expandiu rapi-
damente. Manter um estado mórmon puro ficou impossível, e quando
Utah uniu-se à federação na condição de Estado-membro dos Estados
Unidos, a comunidade precisou abrir mão de alguns de seus costumes,
entre eles a poligamia.

Entre os seus pensamentos, podem-se destacar: os escritos sagrados


englobam o Livro Mórmon, bem como outros textos com o mesmo
valor; Deus tem um corpo exatamente como o humano; Jesus é o Sal-
vador que voltará para estabelecer na Terra um reino de paz; o casa-
mento realizado no templo é eterno, e o batismo pode ser indireto, isto
é, um mórmon vivo pode ser rebatizado em nome de um parente já
falecido.

Exército da Salvação

Após a Revolução Industrial, Londres ficou muito abalada. Surgiram


muitos mendigos, viciados e prostitutas. Tomados de compaixão por
essas pessoas, o casal William e Catherine Booth, em 1865, fundou a
missão cristã com o intuito de ajudar as pessoas em suas necessidades
básicas e, com isso, evitar que o mal tomasse conta das pessoas.

O Exército da Salvação estrutura-se rigidamente dentro da orientação


militar, com oficiais e soldados. A obediência aos superiores é uma
regra essencial. Os oficiais têm emprego permanente e podem casar,
com a condição de que a esposa também seja oficial. Os soldados são
pessoas que possuem outros empregos e trabalham para o Exército da
Salvação nas horas vagas. Ocasionalmente, os mais experientes são
11
9
empregados em tempo integral, recebendo a patente de sargento ou
oficial local.

As mulheres têm plena emancipação em todos os níveis, e um soldado


do grupo não precisa renunciar a sua própria comunidade religiosa.

O trabalho social é parte de sua atividade evangélica. O movimento


conta com um grande número de instituições diversas para os órfãos,
alcoólatras e mães solteiras. As reuniões religiosas são marcadas por
muita música e canto.

Testemunhas de Jeová

O grupo teve sua origem em 1872 com Charles Taze Russel, um ameri-
cano de família presbiteriana convertido ao movimento adventista.
Desgostoso com as religiões existentes, Russel formou um pequeno
grupo de amigos a fim de estudar a Bíblia.

Em 1878, abandonou o movimento adventista, e em 1879 lançou o


primeiro número da revista Torre de Vigia (hoje, Sentinela), na qual
afirmava que o fim do mundo seria no outono de 1914.

A maioria dos adeptos do movimento costuma participar na difusão


de sua fé de porta em porta, fazendo circular a Bíblia e suas revistas A
Sentinela e Despertai.

Não possuem nenhum credo, baseando-se exclusivamente na Bíblia.


Não acreditam na trindade e afirmam que apenas Jeová é Deus. O filho
unigênito de Deus, sua primeira criação celestial, tornou-se Jesus Cris-
to, e o Espírito Santo é a força invisível de Deus. Rejeitam a divindade
de Jesus.

O ponto central das convicções do movimento consiste na ideia de que


o reino de Deus é a única esperança do ser humano. O reino de Deus é
um governo celestial que compreende Cristo e 144 mil indivíduos
escolhidos, os quais serão elevados a uma nova vida no céu. Todos os
outros crentes terão uma existência eterna na Terra, como súditos do
reino celestial.

Adotam um comportamento que promove a honestidade, a higiene, a


temperança e a solidariedade. Não se envolvem em questões políticas
e sociais e reservam a si o direito de não participarem do serviço mili-
tar.
120
Assembleia de Deus

Os movimentos religiosos de reavivamento espiritual que o marcaram


o final do século XIX deram origem à Assembleia de Deus. Corria o
ano de 1892 nos Estados Unidos. Dois pregadores pertencentes à Igreja
Batista deram início ao movimento. Por volta de 1914, já havia um
considerável grupo, que, reunido, deu início à Igreja da Fé Apostólica,
alterada em 1918 para Assembleia de Deus.

As ideias e o comportamento do movimento são pautados pelo relato


do dia de Pentecostes no Novo Testamento. Nesse dia, Deus Espírito
Santo desceu sobre os apóstolos permitindo-lhes falar em outras lín-
guas, curar enfermos e realizar milagres. Foi o primeiro impulso de
conversão que ocorreu na Igreja Cristã primitiva, expandindo-se daí
para frente.

Fundamentados em especial nessa passagem, pregam o dom de lín-


guas, curas e milagres. Para que isso ocorra, é preciso estar cheio do
Espírito Santo, por vezes identificado como "batismo do Espírito San-
to". Além disso, defendem a Santíssima Trindade, o batismo por imer-
são, o dízimo como única regra de oferta, e os pastores, além de estu-
dar Teologia, devem ser chamados por Deus e pelo batismo nas águas.

No Brasil, a Assembleia de Deus começou a atuar em 1910, em Belém


do Pará, quando ainda estava ligada à Igreja Batista.

Evangelho Quadrangular

A viúva de Aimée Semple McPherson, em 1922 nos Estados Unidos,


funda o movimento do Evangelho Quadrangular. O nome do movi-
mento deve-se ao modo como Jesus Cristo é apresentado pelos quatro
evangelistas: em Mateus, como Rei; em Lucas, como Médico; em Mar-
cos, como Salvador, e em João, como Batizador.

Além disso, simbolizam cada função de Jesus descrita nos evangelhos


através de cores - respectivamente, vermelho, amarelo, roxo e azul.

O movimento está ligado ao tronco pentecostal, e por isso enfatizam o


dom de línguas, curas e milagres. Dão especial valor à conversão pes-
soal e individual.

No Brasil, surgiu por volta de 1940, através de um missionário meto-


dista, e só foi oficializado em 1951, na cidade de São Paulo. Cabe des-
tacar que a partir desse movimento ocorreram separações que foram
dar origem a dois grandes movimentos pentecostais brasileiros: em
12
1
1955, fundada pelo pastor Manoel de Melo, a Igreja Pentecostal do
Brasil para Cristo, e, em 1962, fundada pelo pastor Davi Miranda, a
Igreja Evangélica Pentecostal Deus é Amor.

Igreja Universal do Reino de Deus

Com fundamentos na Assembleia de Deus, e por isso pentecostal, em


1977 o bispo Edir Macedo, no Rio de Janeiro, funda sua primeira sede
com o fim de simplificar e acabar com dogmas e regras impostas que
só afastam as pessoas de Deus.

Defendem que todo o mal que ocorre na vida do ser humano é fruto da
obra de espíritos malignos e demônios que precisam ser afastados
através das sessões de exorcismo ("descarrego"). O bem-estar na vida
terrena, inclusive o econômico-financeiro, é sinal visível da presença
divina na vida da pessoa e sua família. Seus líderes devem ter como
pré-requisito a visibilidade do Espírito Santo e vivem, exclusivamente,
das ofertas de seus fiéis, desafiados a contribuírem com o dízimo e
ofertas especiais como forma de demonstrarem sua dependência de
Deus.
10
Ronaldo Steffen
IGREJA LUTERANA E EDUCAÇÃO

É preciso contextualizar. Discorrer sobre o vínculo existente entre a


Igreja Luterana e a educação requer, inicialmente, uma volta ao passa-
do. Buscar as raízes, compreender o presente e vislumbrar a caminha-
da futura.

10.1 O passado
Em 1517, acontecimento já visto em tópico anterior, os fatos não se
sucederam ao acaso, por duas razões: uma, e fundamental, é a com-
preensão de que no Universo, como na vida, as coisas não acontecem
ao acaso. Deus, o criador e mantenedor é quem conduz a bom fim
todas as coisas. Outra, o decorrente desta, é que os acontecimentos que
cercaram o aquela data prepararam o evento hoje denominado Refor-
ma.

Lutero, hoje o reformador, desejava à época, com a publicação de suas


95 Teses, sustentar que a libertação das almas do purgatório dava-se
por obra e graça divina, em Cristo Jesus, e que nenhum valor em di-
nheiro era capaz de fazer isso.

Os fatos foram sendo desencadeados à medida que as discussões ocor-


riam. Foi inevitável que viesse à tona o debate sobre o poder do papa e
dos bispos sobre o sacramento da penitência. Acirravam-se as diver-
gências.

Para Lutero, a situação teológica definiu-se com a compreensão de que


o justo é salvo pela fé nas promessas e realizações divinas já garanti-
das. A justiça é ato divino e sem nenhum merecimento por parte do ser
humano. Se assim é, como ficam as boas obras?

Num escrito de 1520, Sobre as boas obras, Lutero define o novo rumo do
agir humano. A fé é certeza de que a promessa divina de salvação será
12
3
cumprida, e Deus faz isso como favor aos seres humanos. Receber um
presente dessa natureza, ser considerado justo e salvo sem merecer,
provoca uma reação de agradecimento, a única possível: amar quem
nos presenteou e aos outros presenteados, também tornados justos por
puro favor. Não é preciso mandar agradecer. É espontâneo, a partir do
amor que Deus teve com a humanidade. Para agradar o benfeitor, não
se eximirá de esforços agradecidos.

Boas obras não obtêm a salvação. Elas são agradecimento pela salvação já dada na
promessa divina.

Numa sociedade fortemente regulada pelas orientações emanadas das


autoridades religiosas, e por vezes cumpridas ou à força ou contra a
vontade, as implicações sociais e políticas decorrentes de que as boas
obras não eram definidoras nem da justiça e nem da salvação logo se
evidenciam.

Em outro escrito, também de 1520, Nobreza cristã da nação alemã sobre a


Reforma da cristandade, Lutero propõe reformas no corpo cristão com-
posto por todos os cristãos, Independentemente dos papéis que de-
sempenham. Sejam príncipes ou senhores ou artesãos ou camponeses
ou clérigos, todos, pelo batismo, fazem parte do corpo de Cristo, e nele
são integrados pelo mesmo favor divino.

Todos, religiosos ou clérigos, receberam a graça da salvação e podem agir, também


na vida da cidade, por agradecimento.

Todos estão no mesmo barco e na mesma direção: agem por agradeci-


mento. As autoridades religiosas, cuja competência é veicular a Pala-
vra de Deus e aplicar os sacramentos, agem com amor por terem sido
amados primeiro. As autoridades seculares, cuja competência é manter
em boa ordem o corpo cristão, agem igualmente com amor por terem
sido amados primeiro. Quando uma parte falha, é preciso que a outra
intervenha. Naquele momento, Lutero entendia que as autoridades
religiosas estavam falhando, e as autoridades seculares deveriam in-
tervir, empreendendo as necessárias reformas, movidas por amor ao
corpo de Cristo.

Reflita: diante de Deus, autoridades religiosas e civis têm a mesma direção: agir
por agradecimento. Quando uma falha, a outra deve intervir. Qual sua opinião?

Entre as reformas necessárias, insere-se a das universidades e escolas.


Sugere que a Sagrada Escritura constitua a matriz do currículo. Nas
séries iniciais, meninos e meninas estudariam o Evangelho, em latim
ou alemão. Continuariam os estudos superiores aqueles alunos que se
destacassem nesse período, escolhidos pelos príncipes e conselhos das
124
cidades. Nas escolas intermediárias, propõem-se estudos que remetam
à reflexão e à observação da natureza, além do estudo das línguas
(latim, grego, hebraico), da matemática e da história. Aos cursos supe-
riores de direito, sugere-se ênfase no direito civil, e aos de teologia,
enfatizarem as Escrituras como objeto principal dos estudos.

Ensino religioso nas escolas, inclusive públicas? Discuta com seus colegas e tome
posições.

A dimensão política do amor será ampliada em outro escrito, em 1523,


Sobre a autoridade secular. Lutero torna mais transparente que existem
dois reinos ou regimes, o de Deus e o do mundo. O reino de Deus é
integrado por todos aqueles que, agradecidos pelo favor recebido, já
atuam movidos por amor. Em tese, não precisam do regime secular,
mas a ele se submetem e preservam a fim de que seu próximo seja
beneficiado. O reino do mundo é integrado por todos aqueles que
também receberam o favor, muito embora alguns ainda ajam movidos
pelo egoísmo e precisem ser controlados para que exista dignidade no
corpo cristão.

Em tese, o cristão não precisa das regras do mundo secular, mas a elas se submete
devido aos não-cristãos, a fim de manter a boa ordem do mundo. Analise essa
afirmação tendo em vista a questão do aborto.

Cabe à educação, nos diferentes níveis, um papel de relevância. Orien-


tar as consciências para que as pessoas saibam como se conduzirem é
tarefa que cabe não somente aos religiosos, mas também às autorida-
des e aos pais.

Na medida em que se aprofundam as diferenças entre Lutero e seus


seguidores e a Igreja Católica Apostólica Romana, também seus escri-
tos com referência à educação vão se tornando mais específicos. É
assim na carta aberta Aos prefeitos das cidades alemãs, escrito em 1524.

A Reforma provocara um desestímulo à entrada nos mosteiros, justa-


mente onde se encontravam as escolas. Sozinhos, os pais não consegui-
riam educar seus filhos. Lutero apela às autoridades civis cristãs para
que tomem para si a responsabilidade da educação, movidas por amor.

Zelar pelo bem-estar da cidade inclui a formação de cidadãos instruí-


dos, hábeis e sábios que tenham condições de adquirir e aumentar
terras e propriedades. Daí que investir em educação e na formação de
cidadãos é concretizar a ética do amor.
12
5
Educação por amor, na vida secular; habilita homens e mulheres ao governo das
cidades e famílias. Educação por amor, na vida religiosa, habilita a uma melhor
compreensão das Escrituras.

Ao nível de reino do mundo, Lutero entende que o estudo das artes e


línguas é que proporciona homens capazes de reger domínios, e mu-
lheres habilitadas para governar filhos e empregados. Ao nível de
reino de Deus, entende que, igualmente, é preciso estudar as artes e
línguas a fim de melhor entender as Escrituras e saber conduzir os
negócios seculares.

Recomenda, ainda, que ao criarem escolas os conselhos municipais


devem ter o cuidado de formar boas bibliotecas em torno das Escritu-
ras, das línguas e das artes.

A preocupação de Lutero com a educação não se limita às autoridades


civis. Se essas realizarem a sua parte, resta, ainda, aos pais fazerem a
sua enviando seus filhos à escola. Em 1530, numa pregação conhecida
como Sermão sobre o dever de mandar os filhos à escola, Lutero alerta os
pais que preferiam colocar seus filhos no trabalho ao invés de enviá-los
às escolas criadas pelas autoridades civis. Entende que há proveito ou
prejuízo em educar ou deixar de educar os filhos. Em ambos os casos,
os pais estão beneficiando ou prejudicando o próprio Deus, que rege o
mundo. O mundo precisa de pessoas que se apliquem ao estudo e
ensino das Escrituras, bem como de pessoas que se apliquem ao estudo
a fim de assegurarem a sobrevivência e harmonia da sociedade tanto
com relação às leis como com relação à medicina e às artes liberais.

A educação dever de pais e do Estado, e o progresso dela decorrente devem


assegurar a sobrevivência e a harmonia da sociedade. A compreensão está na
direção do bem-estar coletivo.

Este é o entendimento teocêntrico da educação: é meio e instrumento


de Deus. Mais uma vez, é a ética do amor decorrente da fé que funda-
menta a responsabilidade dos pais pela educação cristã das novas
gerações. Nem os pais, nem os filhos podem viver para si mesmos.
Sendo cristãos, precisam engajar-se na obra de Deus neste mundo e
promover tanto a salvação dos homens como a paz da cidade.

O que impele Lutero a escrever sobre educação? Essa foi a indagação


que motivou as reflexões que seguem, desenvolvidas pelo doutor
Martin N. Dreher no 1º Fórum de Lutero, na ULBRA Canoas, sob o
título Lutero, teólogo para a universidade.

O desencadeamento do movimento reformatório tornara evidente a


necessidade de uma reforma educacional. O sistema educacional me-
126
dieval estava em crise em virtude das transformações pelas quais pas-
sava a sociedade, em especial o surgimento do mercantilismo. Estava
surgindo um novo tipo de sociedade, na qual o comércio começava a
ter uma importância muito grande. As escolas, nas quais se estudava
Filosofia e Teologia em altíssimo nível, eram escolas monásticas. A
educação superior era toda ela eclesiástica. Mas o novo tipo de socie-
dade que surgia estava a exigir novo tipo de educação.

Necessário se fazia que houvesse formação para as áreas do comércio,


para a direção dos negócios do Estado, pois também um novo tipo de
Estado, mais centralizado, estava surgindo. Era necessário que se for-
massem conselheiros, administradores e juristas. O crescimento do
comércio, principalmente, requeria economistas.

Havia, porém, outro motivo que requeria a reforma do ensino. Até


agora, o ensino fora religioso; seu alvo era o céu. Pais que optassem
pelo "estudo" para seus filhos faziam-no no sentido de garantir e al-
cançar méritos para si e para seus filhos. O filho ia "estudar" para se
tornar sacerdote e, assim, garantir sua própria salvação e a salvação
dos pais. A salvação do mundo pouco ou nada importava. Quando
Lutero descobriu a salvação gratuita, a justificação por graça e fé, esse
tipo de educação não tinha mais fundamento e ruiu. O alvo da ética
não era mais o céu, mas a Terra, a preservação das coisas criadas por
Deus. A descoberta da justificação por graça colocaria, além disso, a
ênfase do estudo teológico na pregação e no estudo da Bíblia, e não
mais no aspecto sacerdotal. Outros, pois, deveriam ser os conteúdos
preparatórios para o ensino superior.

A educação não garante a vida eterna. A educação garante a


preservação das coisas criadas por Deus. A finalidade da educação cumpre-se no
cuidado com o mundo e com tudo o que nele há.

Os príncipes haviam aproveitado o movimento reformatório para se


apossar dos bens eclesiásticos. Ora, das rendas dos bens eclesiásticos
havia sido mantida até então a educação dos sacerdotes. Agora, não
havia mais recursos para manter a educação. A educação fora privilé-
gio de minorias religiosas. Lutero, em contraposição, vai anunciar a
necessidade de um sistema educacional que esteja ao alcance de toda a
população. Daí vem seu apelo para que as cidades criem e mantenham
escolas. Se antes se gastava dinheiro com a salvação, é necessário que
agora se use o dinheiro para a educação, considerada por ele a ativida-
de mais importante. Fundamentalmente, para ele, a educação é de
responsabilidade da autoridade civil, e não da autoridade eclesiástica.
12
7
A argumentação de Lutero vai mais longe. Centro da Reforma é a
redescoberta do Evangelho. Essa redescoberta não deveria ser deixada
de lado na reforma educacional. Aliás, assim pensa Lutero, se não
acontecer uma reforma educacional que dê acesso ao ensino para toda
a população, a redescoberta do Evangelho estará sendo posta em peri-
go! Caso a população não puder educar-se, ter acesso à leitura do
Evangelho, em pouco tempo o Evangelho estará encoberto novamente.

Interessante é a fundamentação de Lutero. A educação é, para ele, uma


ordem de Deus. Deus quer que existam e sejam criadas escolas, pois é
nelas que poderão ser aprendidas as profissões. Lutero entende que é
através da profissão que Deus chama as pessoas para o Sacerdócio
Universal de Todos os Crentes. Essa é a base para a educação univer-
sal.

Profissão é sacerdócio! A afirmação enquadra-se na ideia do


Sacerdócio Universal de Todos os Crentes. Proveitosa é a leitura de A ética
protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber.
Confira!

Resta a pergunta: Quem será o sujeito da reforma educacional? Se-


gundo Lutero, é dever dos pais enviar os filhos à escola. As pessoas
com recursos nas cidades são por ele convocadas a financiar e a manter
escolas. Mas não só elas. A educação deve ser tarefa política. Quem
deve, então, criar e manter escolas? Poder-se-ia pensar nos príncipes.
No governador, para usar uma palavra de nossos dias. Lutero não
pensa neles. Ele propõe que os conselheiros das cidades, os vereadores,
assumam essa tarefa. Educação é tarefa do Estado.

Segundo Lutero, sempre que for investido um florim em gastos milita-


res, devem ser investidos cem florins em educação. Os conselhos mu-
nicipais devem obrigar os pais a enviarem os filhos à escola. Aqui a
exigência da obrigatoriedade escolar, mas também a orientação precisa
quanto às prioridades da política. Para Lutero, está claro que governar
é criar escolas e mantê-las.

Compare o percentual do produto interno bruto (PIB) que os países desenvolvidos


investem em educação em relação ao que se aplica no Brasil.

Fica a pergunta: quem é que se beneficia com a educação, segundo


Lutero? A resposta é simples: a igreja e o Estado. A igreja se beneficia
em sua tarefa de pregação. É necessário que se formem pregadores que
anunciem o Evangelho. Os pais devem enviar os filhos à escola para
que sejam pastores ou professores. Ambos se dedicarão à tarefa mais
nobre: a de pregar o Evangelho. Lutero pensa, em seu tempo, que se
devem ensinar as línguas bíblicas, para que todos tenham acesso à
128
Bíblia no original. A Bíblia é, aliás, o livro escolar mais importante.
Além das línguas, deve-se estudar a história, pois se aprende com as
experiências, os êxitos e os erros do passado. Estudando história, evita-
se a repetição dos erros do passado.

O outro beneficiário da educação é o Estado. Vai haver cidadãos pre-


parados para assumir as tarefas na sociedade. O Estado necessita de
funcionários (homens e mulheres). É verdade que Lutero ainda limita a
função pública da mulher ao magistério. As professoras ensinarão nas
escolas de meninas. Mas ele cria espaços para os estudos da mulher. O
Estado, pensa Lutero, precisa, ainda, de juristas e médicos.

Como deve ser a educação? Lutero nega a educação repressiva (surras,


pressão...). A educação deve ser lúdica, isso é, deve-se aprender jogan-
do, cantando e dançando. Mas a escola também deve estar vinculada
ao trabalho. Ao lado das matérias comuns a todos os alunos, deveria
haver aprendizado artesanal. Nas escolas, devem existir boas bibliote-
cas que deveriam ter a Bíblia e outras obras básicas.

Finalmente, Lutero propõe uma escola cristã, gratuita e obrigatória. Os


professores não são apenas funcionários públicos, mas também pesso-
as que exercem um ofício espiritual.

Discuta: escola cristã, gratuita e obrigatória.

Quais os valores da proposta de Lutero? Fundamental na proposta de


Lutero é que, com a educação, se mantenha a liberdade evangélica.
Através da educação, tem-se acesso à verdade do Evangelho e à liber-
dade dele decorrente. É a liberdade evangélica que possibilita a parti-
cipação crítica na sociedade. Depois, Lutero advogada a popularização
da educação. Ela não é questão de elite leiga ou religiosa. É direito
fundamental de todo cristão. Finalmente, é importante ver que Lutero
propõe um novo tipo de pedagogia: aprender brincando.

Lutero considera que a atividade do(a) professor(a) é, ao lado do mi-


nistério da pregação, a atividade "mais útil, maior e melhor" que existe.
O mundo é dádiva de Deus, mas para que haja paz e ordem na Terra, é
necessário que existam muitos professores e cientistas crentes e sérios.
Essa necessidade é para ela uma das razões de se enviarem filhos à
escola. Ao mencionar essa razão, está falando dos professores dessas
escolas que são pessoas crentes e sérias a exercer a maior função que
existe. São eles que levam seres humanos a Cristo. Educar é levar a
Cristo. Por isso, educação é dádiva de Deus, oferecida através dos
professores, nas escolas.
12
9
Reflita e discuta: qual o valor que se atribui ao magistério hoje?

É verdade que Lutero falava em tempos de regime de cristandade. É


também verdade que seus ideais eram humanísticos. Não vivemos
mais em regime de cristandade; os ideais humanísticos também foram
abandonados. A tarefa do educador cristão, porém, continua: preparar
pessoas para a salvação do mundo; preparar cidadãos capazes de re-
mar contra a correnteza, bons políticos, bons administradores, pessoas
capazes de tornar o mundo mais humano.

10.2 O presente
Quase 500 anos nos separam de Lutero. Embora o mundo tenha mu-
dado, a Igreja Luterana ainda mantém sua perspectiva histórica sobre a
educação e dela não se tem descuidado. O presente da educação lute-
rana pode reportar-se ao início do luteranismo no Brasil.

Quando chegaram ao Brasil em 1824, os imigrantes alemães trouxeram


tanto a marca do clima cultural que se respirava na Europa como uma
história de ensino dentro da própria igreja em que cresceram.

Tradição escolar entre imigrantes alemães

Por ocasião dos 170 anos da imigração alemã no Rio Grande do Sul
(1994), o doutor Lúcio Kreutz publicou o artigo Escolas da imigração
alemã no Rio Grande do Sul: perspectiva histórica, em livro editado pela
ULBRA (Os alemães no Sul do Brasil), e do qual extraímos boa parte
do texto deste tópico.

Até meados do século XVIII, predominou na Alemanha o motivo reli-


gioso na educação. A escola era concebida como uma instância de
apoio à formação religiosa. É nela que ocorriam os primeiros passos
para a formação do cristão. A escola e o professor eram paroquiais. Ao
professor atribuía-se importante ação pastoral, pois além do magistério
deveria exercer ampla liderança social e religiosa. O ensino religioso
ocupava lugar central em todo processo educacional.

O professor era responsável pela transmissão do conhecimento e pela formação


religiosa e moral

Na segunda metade do século XVIII, houve um avanço na compreen-


são da educação, realçando-se a responsabilidade do Estado na educa-
ção. Entendia-se que a prosperidade e estabilidade nacionais dependi-
am da educação geral do povo. Assim, a partir de 1763, a frequência à
escola tornou-se obrigatória, estipulou-se remuneração adequada aos
130
professores, organizaram-se livros didáticos e implantou-se inspeção
escolar.

No início do século XIX, novos avanços. Implantaram-se escolas nor-


mais para melhor formação dos professores e um novo pressuposto
tomava conta da educação: reforma social e política só é possível pela
educação.

Ao lado da igreja uma escola: formação cristã e de cidadania.

Essa cultura os alemães trouxeram para o Brasil. É assim que podemos


entender o empenho dos imigrantes em implantar uma escola ao lado
da igreja. A escola seria um mecanismo tanto para a melhor formação
religiosa de seus filhos quanto para despertá-los para a vivência da
cidadania.

Para se ter uma ideia do valor atribuído à educação, basta recordar que
nas décadas de 1920/30 já havia, só no Rio Grande do Sul, uma rede de
1.041 escolas comunitárias (evangélicas e católicas), com 1.200 profes-
sores. É essa cultura de educação que vai pautar o fazer religioso da
Igreja Evangélica Luterana do Brasil, criada em 1900 com a vinda de
um missionário americano ao Sul do Brasil.

A Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB)

A IELB tem sua origem, no Brasil, em 1900, a partir do trabalho desen-


volvido pela The Lutheran Church - Missouri Synod. Esse grupo foi
fundado em 1847, em terras norte-americanas, a partir da iniciativa de
um pastor que sai da Alemanha por razões de consciência religiosa.
Ocorrera que em 1817 o rei da Prússia, Frederico Guilherme III, decre-
tara em seus domínios a união da Igreja Luterana com a Igreja Refor-
mada em razão de disputas religiosas. A decretada união resultara na
Igreja Evangélica Unida. Evangélicos luteranos, inconformados com a
ingerência do Estado nas questões da igreja, além de protestarem con-
tra o racionalismo que invadira a teologia, emigraram para os Estados
Unidos na esperança de desfrutarem liberdade de culto sem a interfe-
rência do Estado. É desse grupo que resulta o Missouri Synod e a Igre-
ja Evangélica Luterana do Brasil. Oficialmente, a fundação ocorreu
apenas em 1904, muito embora já desde 1900 houvesse congregações
organizadas no interior do Rio Grande do Sul.

A herança religiosa e escolar que se transferira da Alemanha para os


Estados Unidos se mantivera. Escolas eram criadas e mantidas junto
com as congregações religiosas. No Brasil não foi diferente. Acabou
consagrando-se o ditado "ao lado de cada congregação uma escola".
13
1
Essa era uma estratégia empregada entre os imigrantes alemães a fim
de fixá-los nos locais que ocuparam e expandir não apenas a mensa-
gem religiosa, mas também lhes dar o conhecimento e a educação
necessários a fim de progredirem.

Na medida em que avançava o trabalho religioso ampliava-se, na


mesma medida, a fundação de escolas. Assim, em 1907 já havia 13
escolas, e 68 em 1924 com mais de dois mil alunos. Na década de 1970,
chegou a 130 escolas.

Problemas é que não faltaram. Em 1922, uma corrente política preten-


dia eliminar as escolas particulares. Em 1938, o Brasil foi tomado por
uma onda de nacionalismo, motivando a proibição do uso de línguas
estrangeiras nas escolas primárias. Isso sem se levarem em conta os
problemas decorrentes de duas guerras mundiais em que a Alemanha
esteve envolvida ocasionando reflexos nos imigrantes aqui residentes e
em suas instituições, quer religiosas, quer educacionais.

Dentro desse quadro geral é que se encontram as origens da Universi-


dade Luterana do Brasil (ULBRA).

A Universidade Luterana do Brasil (ULBRA)

A chegada da Igreja Luterana - Sínodo de Missouri - em Canoas dá-se


em 1905 através do atendimento religioso feito pelo pastor de São
Leopoldo/RS recebendo a denominação de Comunidade Evangélica
Luterana São Paulo. Com a expansão do trabalho religioso, duas me-
didas se faziam necessárias: uma capela para as atividades religiosas e
uma escola para ensinar os filhos dos seus congregados.

A primeira capela, e ao mesmo tempo escola, foi inaugurada em 1911.


Após a primeira guerra, passadas as hostilidades contra os alemães, a
comunidade religiosa sentiu a necessidade de ampliar a capela e a
escola. A inauguração dá-se em 1925. No mesmo ano, é oficialmente
criada a Escola Evangélica Luterana São Paulo.

A segunda guerra sobrevém e com ela uma série de efeitos desastrosos


para as colônias alemãs, como perseguições e entraves burocráticos. A
Comunidade Evangélica Luterana São Paulo também foi afetada nesse
período. Seu pastor foi aprisionado em 1942, e o professor responsável
pela escola teve de fugir a fim de não ter o mesmo fim. A escola que
até então ministrava suas aulas em alemão, passou a fazê-la em portu-
guês.
132
No pós-guerra, as atividades gradativamente foram sendo retomadas.
A Comunidade São Paulo ampliou-se, e a terceira capela foi inaugura-
da em 1965. Em 1966, a Comunidade tornou-se independente e recebe
seu primeiro pastor residente: reverendo Ruben Eugen Becker. Este,
além das obrigações religiosas, deveria dedicar um turno de suas ati-
vidades na escola da comunidade. A situação financeira da escola era
um grande problema, ao ponto de pensar-se em fechá-la.

Elaborou-se, para continuarem abertas as portas da escola, um projeto


de reformulação com vistas a expandir a escola aproveitando-se o
momento histórico de forte empenho governamental na educação. O
projeto visava à criação de um ginásio orientado ao trabalho, um giná-
sio profissionalizante. Daí para diante, não parou mais o avanço da
escola.

Em 1968, lança-se a pedra angular que daria origem ao Colégio Cristo


Redentor e, com isso, torna-se realidade o ensino profissionalizante de
2º grau. A cerimônia oficial de inauguração de funcionamento oficial
do Colégio Cristo Redentor ocorre em 7 de maio de 1969.

Implantado o projeto de ensino profissionalizante no 2º grau, tornou-se


inevitável pensar em nova expansão, desta vez em direção ao terceiro
grau. Já desde 1970, pensava-se nessa direção. Encaminhadas as ques-
tões burocráticas, em janeiro de 1972 foi aprovado o funcionamento da
Faculdade Canoense de Ciências Administrativas com aulas iniciadas
em março do mesmo ano. Logo a seguir vieram os cursos de Arquite-
tura, Ciências Contábeis e Educação Física, todos funcionando nas
dependências do Colégio Cristo Redentor. Em 1976 novos cursos eram
pensados. O projeto para uma universidade estava em andamento e,
para tanto, adquiriu-se em 1978 a área onde hoje se encontra o campus
central da universidade.

A caminhada foi premiada em janeiro de 1988, com a autorização da


criação da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA). Os cursos foram
ampliados, a pós-graduação foi implantada, os espaços físicos amplia-
ram-se, e novas unidades foram abertas em todo o país, fazendo da
ULBRA uma referência nacional.

ULBRA - Comprometimento com sua confessionalidade

O jeito de ser da ULBRA é reflexo do jeito de ser de sua mantenedora,


a Comunidade Evangélica Luterana São Paulo. A ULBRA confessa, a
partir de sua mantenedora, que o mundo é obra de Deus e por Ele
regido, e não fruto do acaso ou do arbítrio. Confessa, igualmente, que
Jesus Cristo entregou-se à morte como sacrifício pela culpa humana e
13
3
ressuscitou para reger as criaturas, bem como os corações dos crentes,
pelo seu Espírito.

Entende a ULBRA como parte da igreja; que esta se apresenta como


assembleia de todos os fiéis que o Senhor congregou pelo evangelho,
para o fim específico de proclamar salvação a todos os homens. A
vocação própria da igreja é, pois, anunciar o evangelho e exercer a
caridade à imagem de Jesus Cristo, construindo o reino de Deus. No
entanto, ainda vive no reino do mundo em expectativa pelo reino divi-
no e, por isso, não pode a igreja e nem seus seguidores manterem-se
indiferentes às necessidades dos homens e de todas as criaturas. O
mesmo amor que salva é que constrange a igreja a assistir todo ser
humano, minorando sofrimentos, suprindo carências, abrindo novas
perspectivas de vida.

Essa é uma tarefa a ser construída historicamente, e a educação é um


desses meios históricos disponíveis para chamar o ser humano à co-
munhão com Deus e habilitá-lo à busca de uma sociedade melhor;
tanto quanto pessoa como quem é capaz de sustentar e produzir em
benefício da coletividade. Assim a ULBRA confessa.

É em razão de sua visão de Deus, do mundo e do ser humano que a


ULBRA, embora transparentemente luterana, respeita a liberdade
religiosa e rejeita preconceitos de qualquer natureza. Ciente de que não
é igreja, a universidade vê na educação um instrumento para promo-
ver a formação integral do ser humano com vistas a uma sociedade
mais justa e menos carente, sem perder de vista, no entanto, que a
perfeição e idealidade serão obtidas por obra e graça de Deus quando
um novo céu e uma nova terra serão presenteados.

Embora confessional, a ULBRA respeita a liberdade religiosa e


rejeita todo e qualquer tipo de preconceito.

A ULBRA não apenas confessa, mas também estimula a vivência diária


e constante nas relações decorrentes das atividades educacionais fun-
damentadas nos preceitos teológicos que a regem e motivam. Para isso,
zela e cultiva a prática de virtudes espirituais e rejeita todos os valores
negativos da natureza humana. Com isso, o que se pretende é formar
profissionais capazes, honrados, honestos, sábios e humanos que res-
peitam os valores morais e éticos, ainda que numa sociedade marcada
pela competitividade. Dos egressos da universidade, espera-se o com-
portamento de guias e líderes humanos e altruístas.

Para se chegar a esse resultado, a universidade está ciente que seus


alunos precisam de modelos. As pessoas que ocupam qualquer cargo e
134
função na universidade precisam conhecer, compreender e defender a
qualidade acadêmica e a personalidade confessional da instituição. Em
especial, a ULBRA rejeita o comportamento dos bajuladores, confiden-
tes, fofoqueiros e interessados - que se apresentam como pessoas ami-
gas e de confiança, mas que, no íntimo, apenas usam a instituição para
benefício e proveito próprios e egoístas.

10.3 O futuro
Teologicamente, educação não é uma opção, mas um imperativo. Co-
mo imperativo, é impensável deixar de fazê-la, não apenas no âmbito
religioso apontando diretamente para o reino de Deus, mas, também,
no âmbito secular apontando para o reino de mundo.

O cristianismo e a Igreja Evangélica Luterana do Brasil têm ainda mui-


to a oferecer na construção de uma sociedade mais justa, especialmente
numa sociedade, como a brasileira, marcada por tantas e profundas
diferenças e desigualdades de toda ordem.

Enfatizou-se no tópico anterior a ULBRA como o lugar onde estamos


cumprindo a vontade divina. No entanto, a educação na IELB não é
feita apenas pela ULBRA. Seguindo sua historicidade, a IELB continua
a enfatizar a necessidade de escolas cristãs, hoje espalhadas por todo o
Brasil, com o mesmo propósito de formar religiosos que se apliquem
ao serviço da construção do reino de Deus, educar e preparar bons
cristãos para a igreja e o exercício da cidadania, bem como educar e
preparar cidadãos livres e altruístas.
11
Ronaldo Steffen
AS RELIGIÕES NO BRASIL

11.1Catolicismo
Desde sua descoberta, em 1500, passando pela conquista, colonização e
estendendo-se até a Proclamação da República, são quase quatro sécu-
los em que o Brasil é reconhecido oficialmente como católico.

A presença católica no Brasil deve-se a um fato ocorrido décadas antes


do descobrimento e denominado de o direito de padroado sobre as
igrejas instaladas nas terras conquistadas por Portugal, concedido pelo
papa. A descoberta de novas terras e sua colonização era acompanha-
da de conversão compulsória de suas populações, nem sempre pacífi-
ca. Junto com a ocupação, vinha à religião.

Direito de padroado. Você sabe o que é isso? Pesquise outras fontes e aprenda um
pouco mais sobre a formação religiosa e moral do povo brasileiro.

Como surgiu essa prática? Era uma recompensa dada ao Estado por-
tuguês pelo seu empenho na conversão de "infiéis". Cabia ao rei de
Portugal conquistar novas almas junto com a conquista de novas ter-
ras. Era da responsabilidade do Estado construir os templos e mostei-
ros, dotá-los de padres e religiosos e, ainda, nomear os bispos. Dessa
forma, o clero católico aqui presente fazia parte do funcionalismo pú-
blico, remunerado pelo Estado.

A igreja submetida ao Estado tornou-se mais visível no período colo-


nial brasileiro. Toda e qualquer orientação oriunda do Vaticano para os
seus religiosos aqui presentes era repassada através da administração
portuguesa que podia revisar os documentos e considerar se era ou
não viável publicá-los, conforme o interesse.

Com o estabelecimento do Império, o padroado passou a ser direito do


imperador D. Pedro I, em 1827. O catolicismo torna-se a religião oficial
do Estado brasileiro, e a ingerência deste sobre a igreja torna-se maior.
136
Eram os funcionários públicos das províncias que regulamentavam o
funcionamento da igreja em âmbito local.

A Proclamação da República, em 1889, é que vai abolir o caráter de


religião oficial do catolicismo no Brasil, tornando o Estado brasileiro
religiosamente neutro e abrindo os caminhos para outras tradições
religiosas organizarem-se e expressarem com liberdade seus ritos e
suas crenças.

A partir de então, o Vaticano passa a ter a responsabilidade de manu-


tenção e sustento da igreja católica em território brasileiro. É verdade
que perder o caráter de religião oficial não foi um processo fácil, muito
menos rápido. As autoridades eclesiásticas, duma ou doutra forma,
umas mais e outras menos, ainda insistiam em manter laços de apro-
ximação e influência religiosa sobre as autoridades civis, determinan-
do, por vezes, apoio religioso a atos políticos com o fim de não perder
a influência que até então tivera sobre a população. O efeito imediato
foi um distanciamento das realidades e necessidades do cotidiano
religioso e espiritual do povo católico.

A reaproximação ampla com os seguidores do catolicismo ocorre na


década de 1960, com a realização do Concilio Vaticano II. Sob a escolha
pelos pobres, dá-se uma série de conformações e acomodações que
visavam a estar mais perto da população e a atendê-la mais adequa-
damente, com o fim de evitar a evasão de seus fiéis para outras tradi-
ções religiosas emergentes.

Ao "abrir-se" e adequar-se às necessidades do seu povo, a igreja católi-


ca permitiu a emergência interna de diversas tendências, entre as quais
se destaca a Teologia da Libertação, que foi buscar no materialismo
histórico marxista possibilidades de nova práxis religiosa, e os Movi-
mentos Carismáticos, que buscam, através dos dons carismáticos, uma
confirmação do status de maior proximidade com Deus e do Seu poder
de ação sobre Seus filhos.

Aprofunde sua compreensão sobre a Teologia da Libertação e os Movimentos


Carismáticos na Igreja Católica Romana conversando com o sacerdote de sua
localidade.

É mais que evidente que esses avanços não obtiveram a concordância


de todos. Muitos religiosos se opuseram e deflagraram movimentos
que visavam a um retorno aos princípios anteriores ao Concilio. Uma
dessas vozes fortes foi Dom Lefebvre, que, em 21 de novembro de
1974, assim declara:
13
7
“Aderimos com todo coração, com toda nossa alma, à Roma católica,
guardiã da fé católica e das tradições necessárias à manutenção dessa
mesma fé, à Roma eterna, mestra de sabedoria e de verdade. Por ou-
tro lado, recusamos, e temos sempre recusado, a Roma de tendência
neomodernista e neoprotestante que se manifestou claramente no
Concilio Vaticano II e, depois do Concilio, em todas as reformas que
saíram dele.”

11.2 Protestantismo de imigração


O protestantismo chegou ao Brasil de forma massificada e efetiva a
partir da chegada dos imigrantes que, junto de suas tradições e seus
costumes, traziam as práticas religiosas oriundas de seus países.

Isso ocorreu a partir de 1824, com a chegada dos imigrantes alemães ao


Rio Grande do Sul e Santa Catarina dando origem à presença luterana
no Brasil. Os primeiros que aqui chegaram, entre 1824 e 1864, tinham
atendimento religioso desempenhado por leigos. Só a partir de 1886 é
que as igrejas alemãs passaram a enviar pastores para atenderem às
colonizações germânicas. Era a Igreja Evangélica Alemã no Brasil. Em
1904, uma missão luterana vinda dos Estados Unidos daria origem à
Igreja Evangélica Luterana do Brasil. Após a Segunda Guerra Mundial,
os grupos que formavam a Igreja Evangélica Alemã no Brasil formam
a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.

Já os anglicanos e uma parte dos metodistas também começam seu


enraizamento no Brasil a partir dos imigrantes americanos confedera-
dos que se estabelecem no interior de São Paulo. Os primeiros anglica-
nos chegam por volta de 1810, tendo como característica não apenas a
continuação de sua tradição religiosa, mas também a preservação da
língua materna, as tradições e vínculos de dependência política e fi-
nanceira com as igrejas de origem.

11.3 Protestantismo de conversão


Outros grupos protestantes também se foram achegando ao Brasil, mas
com a característica de que para cá vinham não para atenderem imi-
grantes, mas a fim de converter os brasileiros.

Diferentemente do protestantismo de imigração, esses grupos procu-


ravam rapidamente adequar-se ao jeito brasileiro, pois disso dependia
o crescimento do número de convertidos. Enquadram-se nessa pers-
pectiva os presbiterianos, metodistas, batistas e episcopais vindos dos
Estados Unidos.
138
O movimento missionário protestante tem seu início na metade do
século XIX, e boa parte de sua rápida expansão deveu-se ao trabalho
de propaganda desenvolvido pela sociedade bíblica de origem inglesa
e norte-americana. Aliados à Sociedade Bíblica, os metodistas, que
aqui chegaram em 1835, distribuíram milhares de Bíblias entre os bra-
sileiros nos anos 1850-1860.

Por volta de 1850, havia nos EUA a ideia corrente de unicidade do continente
americano. Embutiu-se nessa concepção a de também haver uma só religião. Será
que isso favoreceu o avanço no Brasil das religiões ligadas ao protestantismo de
conversão?

Leia mais sobre o assunto.

A partir daí, proliferaram os movimentos missionários, todos de pro-


cedência norte-americana. Em 1858, dá-se a criação da Igreja Congre-
gacional; em 1859, chega a primeira missão presbiteriana; em 1868,
outra missão presbiteriana, dessa vez do Sul dos Estados Unidos; a
missão metodista aporta em terras brasileiras em 1870; os batistas, em
1881, e os episcopais, em 1889.

No final do século XIX, já apareciam implantados no Brasil os movi-


mentos protestantes de tradição luterana, anglicana ou episcopal, me-
todista, presbiteriana, congregacional e batista.

11.4 Pentecostalismo
O movimento pentecostal chega ao Brasil nas primeiras décadas do
século XX. A primeira igreja formalmente criada foi a Congregação
Cristã do Brasil, em 1910, no Paraná e em São Paulo. No ano seguinte,
no Pará, é criada a Assembleia de Deus.

O crescimento das igrejas pentecostais efetivamente ocorre a partir dos


anos de 1950. Em 1953, surge em cena a Igreja do Evangelho Quadran-
gular; em 1955, a Igreja Pentecostal, o Brasil para Cristo; em 1962, a
Deus é Amor, e, em 1964, a Casa da Bênção.

A partir desses, o movimento pentecostal dá origem a outros grupos,


denominados neopentecostais, entre os quais se destacam: Igreja da
Nova Vida (1960), Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (1976),
Igreja Universal do Reino de Deus (1977), Igreja Internacional da Graça
de Deus (1980) e Renascer em Cristo (1986).
13
9
Características
Pentecostais

 Crê-se nos milagres exatamente como ocorridos em Pentecos-


te;

 Não há grande apreço pela organização hierárquica e sacer-


dotal (pastor é quem possui dons e não o estudo);

 Nega-se o batismo infantil (o benefício do batismo é recebido


de forma consciente);

 Culto baseado na Bíblia e com interpretação livre conduzida


pelo Espírito Santo;

 Ausência de imagens e proibição de seu uso e adoração;

 Grande importância à inspiração interior e liberdade para ex-


pressá-la.
Algumas características Neopentecostais

 ênfase no exorcismo;

 os dons espirituais ainda ocorrem como em Pentecostes;

 a cura é divina;

 liderança carismática;

 discurso e ações voltados ao bem-estar material/físico e emo-


cional;

 pobreza, problemas sentimentais e pessoais são ações do dia-


bo, que deve ser expulso.

11.5 Outras tradições religiosas


Entre os grupos fora do cristianismo, os mais representativos e que
merecem ser mencionados são o judaísmo, o Islã, o budismo, o Hare
Krishna, o xintoísmo, a Seicho-no-iê, a Soka Gakkai e a igreja messiâni-
ca.

Há ainda outro grupo, denominado por uns de "neocristão" e por ou-


tros de "paracristão", que também tem representação no Brasil, como
os mórmons, os adventistas, as testemunhas de Jeová, a Ciência Cristã
e o Racionalismo Cristão.
140

11.6 Espiritismo
Os meados do século XIX foram particularmente revolucionários para
o campo da biologia. Em 1859, era publicada a 1ª edição do livro Ori-
gem das espécies, de Charles Darwin, no qual o pesquisador defende a
evolução das espécies pelo processo de seleção natural. Não é propósi-
to discutir os méritos das colocações de Darwin, porém constatar que
ocorreram grandes mudanças provocadas pelos seus estudos ao asse-
verar que o universo dos seres vivos está absolutamente colocado
dentro dos domínios exclusivos da lei natural. Essa forma de enxergar
a vida, que já vinha sendo construída em séculos anteriores, passa,
agora, a influenciar muitos conhecimentos e pensamentos nos séculos
seguintes, inclusive no campo religioso.

O espiritismo parece enquadrar-se nesse quadro. Até então, de uma


forma generalizada, aceitava-se, teológica e religiosamente, que o cor-
po humano, embora criado por Deus, era matéria física passível de
análise pelas ciências naturais. Já a alma ou espírito, embora também
criada por Deus, não era matéria física e, portanto, ficava distante do
alcance das ciências naturais. Essa perspectiva é alterada pelo espiri-
tismo, com origem na França.

Definido por Leon Hippolyte Denizard Rivail (1804-1869), mais conhe-


cido como Allan Kardec, como um movimento científico, filosófico e
religioso, o espiritismo contesta a existência de apenas um mundo
material, afirmando não só a existência, mas a própria materialidade
de um mundo sobrenatural. A dicotomia corpo-alma deixa de existir
para afirmar-se uma unidade inseparável, podendo a alma, como o
corpo, ser percebida e estudada em sua materialidade.

A essa análise, Allan Kardec acrescenta em sua sistematização os mile-


nares conhecimentos evolucionistas (reencarnação e carma) e os de
pluralidade de mundo (a existência de vários planos habitados, já que
a Terra não é o único mundo habitado, mas apenas um dos planetas
habitados e distante da perfeição), ambos já encontrados no hinduísmo
antigo (vedismo e bramanismo). Essa é uma entre as muitas causas que
estabelecem o distanciamento entre o espiritismo e o cristianismo.

A partir das reinterpretações de conceitos já existentes, como Deus,


mundo, ser humano e evolução espiritual, o espiritismo busca
oferecer explicações racionais para os questionamentos humanos.
14
1
Ainda no decorrer da segunda metade do século XIX, logo após sua
criação, o espiritismo chega ao Brasil, país no qual hoje possui o maior
número de adeptos. As primeiras organizações espíritas surgiram por
volta de 1870, na Bahia e no Rio de Janeiro. No início, o traço distintivo
do espiritismo no Brasil, assim como na França, era sua proposta de
terapia mediúnica, por meio de "passes" para combater todos os tipos
de enfermidade e desconforto. De lá para cá, ocorreu uma mudança de
direção, de forma que o espiritismo hoje, no Brasil, realça mais o seu
lado religioso de moralização da conduta.

De modo genérico, e a título de exemplificação, seguem-se alguns dos


principais conceitos espíritas.

Ser humano

A visão que o espiritismo possui de ser humano é denominada de


tridimensional. São três dimensões do mesmo elemento: o corpo, o
perispírito e o espírito.

O corpo é sem valor em si mesmo e a parte menos nobre do ser huma-


no, valorizada apenas na medida em que possibilita ao espírito uma
relação com o planeta Terra. O perispírito é a condensação de um flui-
do universal normalmente invisível, que possibilita e explica as apari-
ções nas sessões espíritas; é como se fosse um envoltório do espírito,
necessário para a união das dimensões do corpo e do espírito, e, por
isso, não é só material e nem só espiritual. O espírito é de criação divi-
na e é o princípio inteligível responsável pelo pensamento, pela vonta-
de e pelo senso moral. Portador do livre arbítrio, o espírito une-se ao
corpo a partir da concepção, iniciando a possibilidade de decidir por
atos que permitirão ou não a evolução da dimensão espiritual.

SER HUMANO

- Espírito: princípio inteligente;

- Perispírito: envoltório semimaterial;

- Corpo: ser material; alma encarnada.

Mundo

O mundo é concebido em dois grandes planos: o material (não se res-


tringe a Terra, pois nesse plano há diversos níveis de materialidade,
determinados pela pureza ou grau de desenvolvimento moral a que se
142
consegue chegar) e o espiritual (também marcado por graus de mora-
lidade e perfeição, onde habitam os espíritos desencarnados - aqueles
cujo perispírito, já gasto e não realizando mais suas funções de unir o
corpo ao espírito, deixa o espírito separar-se do corpo, provocando o
que se chama de morte).

Espíritos desencarnados, por meio dos médiuns, são responsáveis pela


intercomunicação entre os diversos planos de mundo, tanto espirituais
quanto materiais.

A comunicação entre os dois planos é possível graças ao médium, cuja


função é intermediar e interpretar os espíritos por meio de diferentes
aptidões que o tornam capaz de captar e transmitir as mensagens rece-
bidas. Entre as aptidões, podem ser destacadas as percepções de efeitos
físicos (como batidas ou levitação ou transporte de objetos), auditivos
(como sons), artísticos (como pintura ou desenho ou poesia ou roman-
ce, musicais e psicográficos - a captação da escrita desenvolvida por
um espírito desencarnado).

Passe

É uma espécie de exorcismo leve, dado individualmente por um diri-


gente ou pelo médium em transe durante a sessão espírita, com o obje-
tivo de afastar as influências negativas, as más vibrações, os "encostos",
as "demandas" e transmitir energia espiritual positiva. A energia posi-
tiva é sempre pensada como sendo "luz".

Deus

É exaltado como Ser e Fim Supremo e meta de perfeição de todo o


processo evolutivo dos espíritos. É inacessível ao ser humano. O mais
perto que o ser humano chega é dos espíritos desencarnados, para os
quais o espiritismo disponibiliza o principal meio de expiar suas obri-
gações cármicas - a caridade. Ajudar a humanidade é um meio eficaz
de expiar as faltas passadas e, assim, progredir rumo à perfeição.

A seguir, uma transcrição do jornal Zero Hora (RS) publicada em


11/4/2004, página 4, por Itamar Melo, que é esclarecedora:
14
3
No espiritismo, doutrina religiosa fundada no século 19 pelo fran-
cês Allan Kardec, acredita-se que a alma é independente do corpo e
retorna à Terra em várias reencarnações, até atingir a perfeição.
Jesus não é Deus, mas um espírito do mais alto nível enviado por
Deus a Terra para servir de modelo e guia a toda a humanidade.
Ele veio para oferecer à humanidade os padrões éticos e morais
necessários à evolução espiritual. Conforme a Federação Espírita
Brasileira (FEB), Cristo não é uma figura mágica. É um educador. O
que importa, portanto, são seus ensinamentos - e não sua morte
física ou seus milagres. Jesus é o médium de Deus. - O Espiritismo,
partindo das próprias palavras de Cristo, como este partiu de Moi-
sés, é consequência direta de sua doutrina - escreveu Kardec. A
importância de Jesus assume tal dimensão que um dos textos bási-
cos da doutrina é O Evangelho Segundo o Espiritismo - obra que
consiste de explicações e comentários sobre as narrativas dos evan-
gelhos. Os espíritas não valorizam os milagres de Jesus. A FEB
sustenta que todos eles são explicáveis pela ciência, e não fruto de
qualquer poder mágico. Se ainda não foram explicados, é porque
nossa atual condição intelectual e moral não dá acesso ao conheci-
mento que Jesus possuía. O espiritismo defende também que, como
espírito puro, Jesus era desprendido da matéria. Vivia mais da vida
espiritual do que da corporal, a cujas fraquezas não estava sujeito.
Diz a FEB que sua alma provavelmente se encontrava presa ao
corpo apenas "pelos laços estritamente indispensáveis". Por isso, se
desprendia constantemente. Além disso, como os espíritas enten-
dem que é impossível um espírito retornar a um corpo depois que
este morre, não aceitam que Jesus ressuscitou no corpo que teve.
Para eles, a ressurreição se explica pela materialização do espírito -
uma espécie de corpo espiritual que nada tem a ver com o corpo
físico.

Evolução dos espíritos

Os seres humanos encontram-se num extenso processo de evolução,


que não se limita ao tempo curto de uma encarnação, mas prossegue
por reencarnações sucessivas, indefinidamente. As vidas passadas
explicam a atual situação e condição aqui na Terra dos seres humanos
a partir da lei do carma, que determina a casualidade moral - toda
ação, boa ou má, recebe a devida retribuição.

No longo percurso da evolução, os espíritos passam por diversos


mundos habitados, os quais se localizam em diferentes planos, escalo-
nados de acordo com os princípios evolutivos, distribuídos numa
144
escala que vai dos planos mais próximos à matéria, os andares inferio-
res, até o plano mais elevado, o da suprema perfeição espiritual, atin-
gível, acima de tudo, através da prática constante da caridade e pelas
orações dos espíritos de luz já desencarnados.

11.7 Cultos afro-brasileiros


São assim chamados em razão das ações religiosas praticadas pelos
negros que vieram trazidos para o Brasil como escravos. Essas práticas,
aqui reprimidas, buscaram adaptação às religiosidades já existentes.

De início, as práticas religiosas dos negros serviam mais como elemen-


to de coesão da raça e de preservação de suas tradições culturais. Não
houve um movimento organizado. As coisas foram acontecendo. Inici-
almente, eram tradições religiosas praticadas exclusivamente pelos
negros.

Consulte o site www.fgv.br/cps e descubra em Retrato das religiões


do Brasil qual o lugar do país onde os cultos de origem afro são
mais praticados, proporcionalmente à população.

A organização das religiões negras no Brasil é recente. Deu-se, em


especial, ao final do século XIX, quando as grandes levas de negros
traficados eram assentadas nas cidades. A aproximação uns dos outros
e a relativa liberdade de movimentos no espaço urbano sem dúvida
favoreceu não apenas a sobrevivência dos costumes culturais mais
amplos, mas também a das práticas religiosas. Começavam a surgir os
primeiros grupos organizados de culto. Ainda assim, essa organização
ocorria de forma localizada, o que veio a favorecer a formação de gru-
pos com diferentes formas rituais e até diferentes formas de interpreta-
ção das forças transcendentes que conduzem o Universo e a vida.

Uma observação faz-se necessária. Em regra, os fenômenos religiosos


são estudados a partir de suas estruturas de pensamento. Com relação
aos cultos afro-brasileiros, observa-se a impossibilidade de perceberem
uma estrutura única e universal. Falta-lhes a concepção de essências
imutáveis, bem como a ideia de um ser que se possa captar intelectu-
almente. A força vital ou primeira dos fenômenos religiosos não é para
ser pensada, mas vivida e manipulada, o que geralmente se dá através
do transe. Com essa dimensão, é potencialmente impossível estabele-
cerem-se regras, normas, pensamentos e comportamentos absoluta-
mente iguais. A experiência vivida vai ser diferente de pessoa para
pessoa e de grupo para grupo.
14
5
As crenças e rituais de origem africana possuem características co-
muns:

 a religião não é para ser entendida, mas vivida;

 sincretismo;

 ausência de uma estrutura religiosa única;

 ausência da concepção de essências imutáveis;

 concepção de certo e errada variável de pessoa para pessoa e


de divindade para divindade.

 Você sabe o que é sincretismo? Pesquise.


Candomblé

O candomblé, enquanto religião, é um processo sincrético intertribal


africano, formado basicamente por quatro grandes nações africanas,
nomeadamente Kêtu, Fan, Jejê e Angola. Geograficamente, essas na-
ções podem ser situadas no atual Sudão, Nigéria e na cidade de Dao-
mé. As três primeiras nações são de origem sudanesa, os nagôs. A
quarta nação é angolana, os bantos, e caracteriza-se por um espírito
menos tolerante diante do sincretismo desenvolvido por outras nações
africanas no Brasil.

O termo candomblé designava a dança, o instrumento e a música utili-


zados pelas quatro nações em seus rituais. Só mais tarde é que o senti-
do ampliou-se para indicar a própria vivência religiosa. Ainda assim,
não existe unanimidade quanto ao uso do termo. Na Bahia, o termo se
mantém, bem como em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em Pernambuco
e Alagoas, é denominado de Xangô. No Maranhão e no Pará, é conhe-
cido como Tambor de Mina, e, no Rio Grande do Sul, como batuque.
Por muito tempo, no Rio de Janeiro, foi conhecido como macumba.

As crenças do candomblé repousam na existência de uma pluralidade


de deuses, denominados de orixás, com diferentes poderes e diferentes
funções na vida humana, além de diferentes exigências aos seus adep-
tos. Os orixás são elementos da natureza divinizados, percebidos sen-
sorialmente, e manifestados através de imagens, em geral figuras hu-
manas, adaptadas sincreticamente aos santos aceitos pela Igreja Católi-
ca Romana.

Conforme as tradições religiosas do candomblé, o mundo foi criado


por Olorum. Após a criação, recolhe-se e deixa que seus auxiliares, os
orixás, tratem das questões relacionadas aos seres humanos. Oxalá, o
chefe de todos os orixás, é que recebe todos os pedidos e homenagens
146
dos seres humanos. A função dos orixás é governar o mundo, intervir
em favor dos seres humanos e puni-los quando necessário. Cada pes-
soa, já antes de nascer, recebe um orixá, que lhe é dado, e não escolhi-
do. A partir da geração, comandará toda a existência da pessoa (triste-
za, dor, sofrimento, alegria, prazer, etc.). Considera-se que, de uma
forma geral, o ser humano costuma apresentar traços de caráter de seu
orixá, e, por isso, chamado de "orixá de cabeça". Essa identificação
determina que tudo o que a pessoa tem a fazer é acomodar sua vida
aos gostos e desejos de seu orixá para que possa se dar bem na vida.
Não compete à pessoa discutir ou duvidar das preferências de seu
orixá. Tudo o que se tem a fazer é vivenciar as preferências, indepen-
dentemente dos conceitos de bem e mal.

Camdoblé

- Criador: Olorum;

- Auxiliares: orixás (determinam o destino da pessoa);

- Chefe dos orixás: Oxalá (recebe os pedidos e homenagens dos


seres humanos).

A identificação do orixá é feita através do jogo de búzios, em atendi-


mento individualizado e conduzido pelo sacerdote, denominado de
babalorixá ou pai-de-santo, se homem, e ialorixá ou mãe-de-santo, se
mulher. A função da liderança religiosa é incorporar o seu próprio
orixá e dar licença aos seus seguidores para que possam levar adiante
os pedidos e desejos aos seus orixás pessoais.

Os orixás são, ainda, desprovidos de moralidade e, por isso, não há


uma ênfase nas questões éticas e morais. Não há exigência ou recom-
pensa para quem faz o bem e nem condenação ou castigo para quem
faz o mal. A religiosidade centra-se nas questões rituais e mágicas,
como o uso de roupas adequadas e próprias a cada orixá, alimentação
e bebidas específicas, sons, perfumes, flores, cores e assim por diante.

Não há preocupação com questões éticas e morais.

Além das propriedades e funções descritas com relação ao orixá, acre-


dita-se que cada pessoa possui, ainda, um segundo orixá, chamado de
juntó, que complementa o primeiro, e determinando que a pessoa seja
considerada, por exemplo, filho de Iemanjá e Oxalá.

Essa segunda divindade, além de permitir ao seguidor inúmeras com-


binações de comportamento, permite que ele possa identificar a pre-
14
7
sença em sua vida de um pai e uma mãe. Em regra, se o "santo de
cabeça" for masculino, o segundo será feminino e vice-versa.

Há nos rituais do candomblé constantes referências ao exu. Não é


propriamente um orixá, embora assim seja designado, mas um inter-
mediário entre o orixá e o ser humano. Assim, para se conseguir algo
de algum orixá, é o exu que lhe deve ser enviado (despachado) com o
pedido, quer seja bom ou mau.

Para o pedido chegar logo, as pessoas devem oferecer ao exu coisas de


que ele gosta. É uma forma de agrado que, quando esquecido, faz com
que desencadeie todas as forças negativas contra a pessoa esquecida. O
reinado de exu está presente nas ruas, encruzilhadas e lugares conside-
rados perigosos.

Não há a percepção de pecado. Os limites são estabelecidos pelo orixá,


variando de pessoa para pessoa.

Para o candomblé, o pecado não existe. A distinção entre bem e mal


depende basicamente da relação entre cada seguidor e seu orixá. É
nessa relação que irá ser estabelecido o que se pode e o que não se
pode fazer, mas sempre de forma individualizada. Isso determina que
o orixá pode estabelecer alguns tipos de limites a um seguidor e não
impô-los a outro seguidor. O que é proibido para um não é necessari-
amente proibido para outro.

A seguir se oferece uma lista com os principais orixás e algumas de


suas caracterizações, muito embora possa haver divergências, uma vez
que as diferentes percepções e interpretações são profundamente in-
fluenciadas pela região em que se encontra e sua cultura.

 Exu: orixá mensageiro; guardião das encruzilhadas e da entrada


das casas. É considerado masculino, e suas cores são o vermelho e
o preto. No sincretismo, está associado ao diabo.

 Ogum: orixá da metalurgia e da tecnologia, e ligado à guerra. É


masculino, e suas cores são o azul-escuro, o verde e o branco. No
sincretismo, está associado a São Jorge e Santo Antônio.

 Oxóssi: orixá da caça e ligado à fauna. É masculino, e suas cores


são o azul-turquesa e o verde. No sincretismo, associa-se a São Se-
bastião e São Jorge.
148
 Ossaim: orixá da vegetação e ligado às folhas. É masculino, e suas
cores são o verde e o branco. No sincretismo, associa-se a Santo
Onofre.

 Oxumarê: orixá do arco-íris. É andrógino, e suas cores são o ama-


relo, o verde e o preto. Está associado no sincretismo a São Barto-
lomeu.

 Obulaiê: orixá da varíola, da peste, das pregas e doenças e da


cura. É masculino, e suas cores são o vermelho, o branco e o preto,
além do capuz de palha. Associa-se, no sincretismo, a São Lázaro e
São Roque.

 Xangô: orixá do trovão e ligado à justiça. É masculino, e suas cores


são o vermelho, o marrom e o branco. Está associado, no sincre-
tismo, a São Jerônimo e São João Batista.

 Iansã: orixá dos relâmpagos e ligada aos espíritos dos mortos. É


feminino e suas cores são o marrom, o vermelho-escuro e branco.
Associa-se, no sincretismo, a Santa Bárbara.

 Oba: orixá da água e ligada ao trabalho doméstico, e ao poder da


mulher. É feminino, e suas cores são o vermelho e o dourado. As-
socia-se, no sincretismo, a Santa Joana d'Arc.

 Oxum: orixá das águas doces e do ouro, e ligada ao amor e à ferti-


lidade. É feminino, e suas cores são o amarelo e o dourado. No
sincretismo, associa-se a Nossa Senhora da Conceição e Nossa Se-
nhora Aparecida.

 Logum Edé: orixá dos rios dentro das florestas. É alternadamente


masculino e feminino, e suas cores são o dourado e o azul-
turquesa. Está associado, no sincretismo, a São Miguel Arcanjo.

 Iemanjá: orixá das grandes águas, mares e oceanos, e ligada à


maternidade. É feminino, e suas cores são o azul-claro, o branco e
o verde-claro. Associa-se, no sincretismo, a Nossa Senhora das
Candeias (ou Navegantes) e Nossa Senhora da Conceição.

 Nana: orixá da lama do fundo das águas. É feminino, e suas cores


são o lilás, o azul e o branco. Associa-se, no sincretismo, a Santa
Ana.

 Oxaguiã: orixá da criação da cultura material e ligado à sobrevi-


vência. É masculino, e suas cores são o branco com um mínimo de
azul real. No sincretismo, associa-se ao Menino Jesus.
14
9
 Oxalufã: orixá da criação da humanidade. É andrógino, e sua cor é
o branco. Está associado, no sincretismo, ao Jesus Crucificado e
Senhor do Bonfim.

Umbanda

A umbanda é um comportamento religioso próprio do Brasil. Entre as


muitas histórias sobre a sua origem, conta-se a de Zélio Fernandinho
de Moraes, um espírita que recebeu orientação mediúnica para criar a
nova religião no Rio de Janeiro, em 1908.

Algumas considerações merecem serem feitas com relação à natureza


das práticas e ideias da umbanda. Uma delas é que, apesar de suas
origens remontarem aos ritos africanos, não há a preocupação de pre-
servar essas raízes. Outra é a sua rápida expansão nos centros urbani-
zados, onde se apresenta como religião aberta a qualquer pessoa, in-
dependentemente das questões étnicas, enfatizando sua brasilidade.
Para tanto, aboliu o uso de idiomas africanos, evitou os sacrifícios de
sangue e os processos iniciáticos, próprios do candomblé. Ainda outra
questão relevante é a que diz respeito à origem da composição dos
conceitos que determinam as crenças umbandistas, pois resulta do
encontro de diversas crenças e tradições africanas com as formas popu-
lares do catolicismo romano, mais o sincretismo hindu-cristão próprio
do espiritismo kardecista. A partir dessa constatação, percebe-se que a
umbanda possui uma diversidade de elementos que a compõe e que se
refletirá nas experiências religiosas por ela desenvolvidas, de tal forma
que tudo o que se disser sobre as observações em determinada experi-
ência poderá ser contrariado em outra observação da vivência umban-
dista.

Composição dos conceitos:

- tradições africanas;

- formas populares do catolicismo romano;

- espiritismo.

Compreender as divindades que compõem as práticas umbandistas,


bem como sua forma de atuação, é, sem dúvida, tarefa nada fácil. Até
porque compreender não é o elemento primordial dos rituais, mas sim
a vivência. Viver é mais importante do compreender. De alguma for-
ma, no entanto, é possível aproximar-se de algum entendimento, em-
bora não definitivo.
150
A divindade maior é Zambi (Nzambi), tido como perfeito, não conce-
bido e nem criado, e de quem emanam os orixás que formam as sete
linhas. Uma linha de orixá equivale a um grande número de espíritos
que devem obediência ao orixá que dá seu nome à linha, e distribuídos
em sete legiões, cada uma com um chefe específico.

Cada legião, por sua vez, divide-se em sete grandes falanges, cada
uma com seu chefe específico, que se dividem em outras sete falanges
menores, também com seus respectivos chefes, e assim por diante.

A título de exemplificação, a seguir se oferece uma descrição de cada


uma das sete linhas com suas sete legiões e seus chefes.

 Linha de Oxalá: Sincretizado por Jesus Cristo. Essa linha é consti-


tuída de espíritos de pessoas que na Terra tiveram grande senti-
mento religioso. A missão das suas falanges é catequizar os maus
espíritos que atuam a partir das forças negativas do Universo e ar-
rastá-los para o bem.

 Linha de Iemanjá: Sincretizada pela Virgem Maria. As falanges de


suas legiões têm por missão proteger as criaturas do sexo femini-
no e desmanchar os trabalhos de magia preta feitos no mar e nos
rios.

 Linha do Oriente: Sincretizado por São João Batista. As falanges


de suas legiões estão incumbidas de ensinar aos habitantes da Ter-
ra tudo o que lhes for desconhecido. São os grandes mestres do
ocultismo.

 Linha de Oxóssi: Sincretizado por São Sebastião. As falanges de


suas legiões praticam a caridade, doutrinam os sofredores, fazem
curas e aplicam a medicina à base de ervas.

 Linha de Xangô: Sincretizado por São Jerônimo. As falanges de


suas legiões formam o povo da justiça, amparam os humildes e os
humilhados.

 Linha de Ogum: Sincretizado por São Jorge. As falanges de suas


legiões são responsáveis pelas grandes demandas e são os defen-
sores de todos os adeptos da umbanda, se estiverem no caminho
da caridade.

 Linha de Iofá: Sincretizado por São Cipriano (pretos velhos). As


falanges de suas legiões conhecem todos os segredos da magia da
15
1
umbanda e empregam todos os rituais na prática da caridade em
benefício daqueles que buscam auxílio.

Essa complexa hierarquia tem como alvo o ser humano, que, assim
como os orixás, legiões, falanges maiores, falanges menores e guias,
possui um espírito que não morre e tem possibilidade de infinito aper-
feiçoamento. Esse espírito possui individualidade própria e livre-
arbítrio, o que lhe possibilita buscar o aperfeiçoamento, alcançado pela
sintonia e harmonização com Zambi. O livre-arbítrio é que determina-
rá se as ações e intenções vão na direção da harmonização ou não.
Duma ou doutra forma, o espírito reencarnará e sofrerá a lei do carma,
segundo a qual o estado atual do ser humano é decorrente de atos
passados e determinante da vida posterior, à semelhança do hinduís-
mo e do kardecismo. No decorrer de uma encarnação, o ser humano
terá, de um lado, entidades que o querem ajudar, e de outro, entidades
que o querem prejudicar. As entidades que o querem ajudar são de-
nominadas de orixás, e as que o querem prejudicar são conhecidas
como kimbas, extremamente violentas, vingativas e cruéis.

É oportuno, a essa altura, comentar rapidamente sobre o exu, uma das


figuras mais polêmicas da umbanda. É uma espécie de guerreiro que
quer impedir o acesso das entidades guerreiras, os kimbas, às zonas
espirituais mais elevadas. Faz parte de sua função ser justo (nem bom e
nem mau) castigando e protegendo segundo a lei cármica.

Por fim, um breve comentário sobre a função sacerdotal na umbanda


que é exercida pelo pai-de-santo e pela mãe-de-santo. Estes fazem
parte da chamada hierarquia espiritual (há também a hierarquia admi-
nistrativa, que cuida da sustentação do templo), que tem por função
incorporar o espírito protetor, identificar os espíritos que baixam, ris-
car o ponto, explicar a doutrina, dar os passes, curar as doenças e adi-
vinhar pelos búzios.
12
CULPA E PERDÃO: UMA QUESTÃO
EXISTÊNCIAL

Thomas Heimann

Uma das primeiras questões que introduzem a nossa discussão diz


respeito a por que abordar a temática da culpa a de Cultura Religiosa.
O texto-base que nos conduz nessa discussão encontra-se na obra do
psiquiatra suíço Paul Tournier, cujo sugestivo título é Culpa e graça:
uma análise do sentimento de culpa e o ensino do evangelho a.

Vamos tentar mostrar que a culpa é um dos aspectos fundadores e


estruturantes de muitas religiões, o que não invalida analisar tal sen-
timento de maneira mais criteriosa, que aponte para as interfaces da
culpa com aspectos psicológicos, sociológicos, antropológicos e exis-
tenciais do ser humano. É nessa visão interdisciplinar que nos propo-
mos a seguir.

12.1 A universalidade da culpa


Alguns poderiam perguntar: será que é relevante abordar a questão do
sentimento de culpa? Será que a culpa diz respeito a minha vida ou faz
parte do meu cotidiano? Poderia tentar-se responder de muitas manei-
ras, mas duas delas já são suficientes para fundamentar nossa posição
de concordância. A primeira delas faz menção a uma reportagem da
revista Vejab, cujo título 206 de capa foi: "Culpa: por que esse sentimen-
to se tornou um dos tormentos da vida moderna". Nessa reportagem, a
revista procura apontar para "as culpas cotidianas de cada um", que
parecem não ser mais uma questão de escolha pessoal, mas sim de
imposição aos indivíduos que vivem na sociedade moderna: competi-
ção no emprego, filhos ou carreira, desempenho sexual, comer demais,
insucesso financeiro são apenas algumas das culpas listadas.

a TOURNIER, Paul. Culpa e graça: uma análise do sentimento de culpa e o ensino do evangelho. São
Paulo: ABU, 1985.

b Revista Veja, 31 de julho de 2002, edição 1.762.


15
3
Uma segunda forma de fundamentar a universalidade da culpa é fazer
um exercício de autoanálise. Cada um pode olhar para seu passado,
recente ou remoto, e tentar listar todos os momentos, as vivências e
situações em que se sentiu culpado, seja na última semana, no último
mês ou ano. Poderíamos perguntar se é possível um sujeito saudável
psiquicamente olhar para o seu passado e dizer que nunca sentiu al-
gum tipo de culpa. Uma resposta adequada precisaria ser negativa,
pois a culpa parece fazer parte da dimensão humana, sendo uma ques-
tão inclusive civilizatória.

Não se quer aqui dimensionar a culpa ou medir a sua intensidade, pois


sabemos que as culpas são diferentes para cada uma das pessoas: o
que para um pode ser motivo de culpa, para outro pode ser motivo de
riso. A culpa é um sentimento muito pessoal, particular e subjetivo.
Isso não quer dizer, porém, que as culpas também não possam ser
questões de caráter cultural, religioso e familiar, ou seja, o que para
determinados grupos, sociedades, ou culturas pode ser tachado de
culpa (ou ato culposo), para outros pode ser um costume normal ou
natural. O que se pode afirmar, categoricamente, é que a culpa é um
sentimento humano universal, existencial, que precisaria estar presente
em todos os seres humanos ditos saudáveis, isto é, a falta de qualquer
sentimento de Culpa e perdão é uma das marcas da psicopatia, de uma
mente não saudável.

12.2 Origem da culpa


De onde, afinal, surge a culpa humana? É um fator externo ou interno
ao ser humano? Ela brota de dentro para fora, sendo um aspecto hu-
mano inato, ou é incutida de fora para dentro, como um produto do
meio social? Observa-se que as duas visões não se excluem mutuamen-
te, pelo contrário, são complementares. Há, portanto, um duplo cami-
nho na formação da culpa humana: interno e externo.

Que a culpa é incutida exteriormente, prova-se a partir de uma rápida


análise do meio em que se vive. Quanto mais regras, leis e mandamen-
tos uma sociedade tiver, tanto mais culpa gerará nos indivíduos que
dela fazem parte. Mesmo que os indivíduos não se sintam culpados
em transgredir determinadas regras sociais, a culpa existe e é reputada
a eles. Há inúmeras espécies de regras ou leis que regem a convivência
em sociedade: civis, religiosas, sociais, profissionais e pessoais. Todas
elas são praticamente "impostas" aos indivíduos que desejam viver e
conviver em coletividade.
154
Nesse sentido, precisamos fazer aqui uma diferenciação entre dois
tipos de culpa: culpa objetiva e culpa subjetiva, conforme descreve
Gary Collins.

A culpa objetiva existe em separado de nossos sentimentos. Ela ocorre


quando uma lei ou norma foi violada. O transgressor é culpado peran-
te essa lei (pela transgressão desta), mesmo que talvez não se sinta
culpado. Já a culpa subjetiva é o sentimento pouco confortável de pe-
sar, remorso, vergonha e autocondenação que surge Cultura Religiosa
208 com frequência quando fazemos e pensamos algo que sentimos
estar errado, ou quando deixamos de fazer algo que julgamos que
deveria ter sido feitoc. A culpa subjetiva, portanto, está intimamente
associada aos sentimentos humanos e remete-nos à segunda fonte da
culpa: a nossa própria consciência. É possível afirmar que o ser huma-
no é dotado de uma capacidade inata, uma voz interior que lhe dá
uma intuição íntima e pessoal do que é certo ou errado. Vamos exem-
plificar: você pode ter feito algo que todas as pessoas ao seu redor
julgam como correto, mas mesmo assim brota no seu coração o senti-
mento de culpa. Dois exemplos concretos: uma mãe que precisa aplicar
um castigo ao filho por um erro que ele cometeu, ou ainda um gerente
que precisa despedir um mau funcionário, que, entrementes, está com
dificuldades de saúde na família. Tanto a mãe quanto o gerente fazem
o que é socialmente esperado, agindo corretamente, porém, mesmo
assim, podem sentir-se culpados pela decisão que tomaram. Isso con-
firma que a culpa subjetiva pode brotar no indivíduo mesmo quando
não há uma culpa objetiva ou exterior imposta a ele.

12.3 Culpa: um sentimento negativo ou positivo?


Um dos grandes questionamentos na análise do sentimento de culpa é
se ele é um aspecto negativo ou positivo na vida de um indivíduo e da
própria sociedade. A resposta dependerá de alguns critérios, como
frequência, quantidade, intensidade e duração da culpa ou ainda do
uso e do abuso que alguns indivíduos fazem dela.

Numa primeira análise, pode-se dizer que os aspectos negativos da


culpa prevalecem, e ela é vista como produtora de neuroses, geradora
de angústias e até promotora de doenças de cunho psicossomático.
Aprofundaremos tais questões mais adiante.

Vamos olhar, porém, para os aspectos positivos da culpa. Ela pode,


sim, cumprir uma função positiva e construtiva, tanto para o indivíduo
quanto para a sociedade. Vamos a elas:

c COLLINS, Gary R. Aconselhamento cristão. São Paulo: Vida Nova, 1995, p.100-101.
15
5
 prevenção: antes de cometer um ato ilícito, a culpa já pode surgir,
evitando que o indivíduo cometa o ato que está pensando. Ou se-
ja, a culpa antecipatória age prevenindo um possível erro moral
ou legal, podendo evitar um eventual prejuízo de terceiros;

 reflexo: após cometer uma ação que a sua consciência apontou


como errada ou má, a culpa surge e leva o indivíduo a refletir so-
bre a sua ação. A culpa leva, portanto, a uma autoanálise crítica
das próprias ações;

 reparação quando a culpa brota no indivíduo, pode levá-lo a repa-


rar seu erro, seja no pedido de perdão e desculpas ou na restitui-
ção concreta do que lesou o outro;

 retificação de vida: como última função positiva, a culpa pode


levar o indivíduo a não mais cometer um ato que sua consciência
julgou ilícito, isto é, a culpa faz com que o sujeito não reincida no
erro, gerando uma mudança positiva de comportamento.

Olhando para as funções positivas acima, pode-se afirmar que um


indivíduo que não sinta nenhuma culpa diante de algumas atitudes e
decisões pessoais, pode tornar-se uma ameaça para si e para a própria
sociedade. A ausência da culpa, que parece indicar a inoperância da
consciência moral, faz com que o indivíduo perca a noção dos limites e
da liberdade do outro, tornando-o um indivíduo "perigoso".

Outro aspecto negativo da culpa é o uso nocivo que alguns indivíduos


fazem dela, no sentido de manipular as pessoas, no que é comumente
chamado de chantagem emocional. Normalmente, quando fazemos as
pessoas sentirem-se culpadas, passamos a ter certo controle sobre elas.
Essas pequenas chantagens fazem parte de nosso repertório compor-
tamental: é um filho que diz que a mãe não gosta dele, caso não lhe
pague uma viagem; é um pai que simula ao filho choro, caso ele não
lhe der um abraço; é o rapaz que se faz de vítima diante do término do
namoro, dizendo que vai se matar, etc. Cabe aqui um alerta: precisa-
mos tomar cuidado para não pautarmos os nossos relacionamentos
sobre o sentimento de culpa, pois este leva a sentimentos não constru-
tivos, como pena, comiseração, rancor, indiferença, gerando um ambi-
ente não saudável e de sofrimento aos envolvidos. Ainda com relação
aos aspectos negativos, já supracitados, a culpa pode cobrar o um alto
preço do indivíduo, como provocar crises de ansiedade, angústia,
preocupação, insônia, mau-humor, baixa autoestima, melancolia, de-
pressão e, inclusive, levar um indivíduo a cometer o suicídio. Doenças
como úlceras, gastrites, impotência, frigidez, enxaquecas, entre outras,
também podem ter um forte componente emocional ligado às culpas
156
individuais. Culpas reprimidas e não resolvidas certamente se torna-
rão sintomas neuróticos. Vamos aprofundar agora a questão desses
pagamentos, conscientes e inconscientes, que a culpa nos impõe.

12.4 Culpa e pagamento


Na obra do psiquiatra Paul Tournier, já citada na introdução deste
trabalho, lê-se que a culpa traz como consequência quase inevitável
uma ideia de pagamento: "tudo deve ser pago", diz o autor. "Parece-me
que isto surge, pelo menos em grande medida, de uma atitude psico-
lógica que eu agora quero enfatizar, a saber, a ideia profundamente
enraizada no coração de todos os homens, de que tudo deve ser pa-
go"d.

Esse sentimento de dívida constante, mesmo que tenha sido valorizado


na perspectiva judaico-cristã, não fica circunscrito ao mundo cristão
tradicional. Como diz Tournier, basta lembrar as multidões inumerá-
veis de fiéis hindus que mergulham nas águas do rio Ganges a fim de
serem lavados de suas culpas e até nas ofertas votivas e no ouro que
cobrem as estátuas de Buda. Igualmente, são inúmeros os penitentes e
peregrinos de todas as religiões que impõem a si mesmos sacrifícios,
práticas ascéticas (privar-se de qualquer forma de prazer) ou duras
jornadas como formas de pagamento, seja por culpas cometidas ou até
por graças alcançadas. Tais pessoas parecem ter uma necessidade
interna de pagar, de expiar as suas culpase.

Aqui podemos perguntar: será que a culpa e o seu respectivo paga-


mento são produtos exclusivos da religião? Será que Freud está certo
em afirmar que, em libertando-se do sentimento de culpa, a religião
perde a sua finalidade ou necessidade? Penso que essa é uma afirma-
ção muito radical. Afinal, a relação entre culpa-pagamento-perdão
existe também fora do contexto religioso ou espiritual.

Basta observarmos as relações humanas cotidianas para comprovar a


assertiva acima. Muitos exemplos podem ser dados. Uma falha leve
com a namorada (deixar de acompanhá-la à liquidação no shopping
para ir ao jogo com os amigos) pode ser paga com um buquê de flores
e um convite para jantar. Já uma falha mais grave (uma "traição") cer-
tamente exigirá um pagamento mais "caro" para a conquista de um
eventual perdão.

d TOURNIER, Paul. Culpa e graça: uma análise do sentimento de culpa ..., p.200.

e Ibidem, p.201.
15
7
A típica frase "Essa ele me paga!" muitas vezes repetida por nós em
inúmeros e variados contextos e situações, expressa o que estamos
aqui afirmando. Todas as faltas, os erros, delitos e pecados exigem um
pagamento, que normalmente implicará uma proporcionalidade, isto
é, o tamanho (preço) do pagamento é proporcional ao tamanho do
erro. Exemplo: no Direito, um crime leve normalmente demanda uma
pena leve, já um crime grave demandará uma pena mais longa e seve-
ra. Também na prática da confissão católica, normalmente a penitência
é dada ao fiel de acordo com a gravidade do seu pecado.

Indo além nessa abordagem psicológica, muitos dos problemas e das


neuroses trazidos pelos pacientes nos consultórios estão ligados dire-
tamente ao sentimento de culpa, como já foi dito anteriormente. Al-
gumas vezes essa culpa é claramente identificável e manifesta, estando
no plano consciente. Outras vezes, porém, as culpas surgem como um
sentimento vago e indefinido, ligadas a uma esfera semiconsciente,
cujo prejuízo na saúde psíquica pode ser até mais grave do que a culpa
consciente.

A própria psicanálise afirma que muitas doenças nervosas e físicas, e


até mesmo acidentes, bem como frustrações na vida profissional, po-
dem ser tentativas de expiação da culpa que é totalmente inconsciente.
Seriam formas de punição que o sofredor administra a si mesmo e
continua repetindo indefinidamente como uma espécie de fatalidade
inexorávelf Um exemplo hipotético de como isso pode acontecer: uma
mãe, muito irritada com seu filho de oito anos, acaba dizendo a ele que
o seu nascimento a impediu de concluir o curso de Medicina, levando-
a a abdicar de sua realização pessoal e profissional, e que hoje se vê
frustrada por ter feito tal escolha. Esse filho pode internalizar essa
crítica, e, por um sentimento de culpa reprimido, não conseguir con-
cluir nenhum curso superior, como forma de pagar a culpa pela frus-
tração profissional da mãe. A culpa, portanto, sempre cobra algum
preço, muitas vezes um preço altíssimo, que pode incapacitar o indiví-
duo de ser uma pessoa realizada e feliz. Essa é uma crítica também
reputada às religiões, como veremos a seguir.

12.5 Culpa e religião


A culpa é um dos aspectos fundantes ou estruturantes de muitas reli-
giões. Por mais ácida que seja essa afirmação, ela não é de todo injusta,
pois, analisando grande parte das religiões existentes, é possível ob-
servar-se que a culpa foi, e ainda é, utilizada como um dos mais efica-
zes instrumentos de domínio das igrejas sobre os fiéis. Porém, ao final

f Ibidem, p. 201.
158
desta análise queremos apontar para uma proposta religiosa que vai
num caminho contrário, ensinando a total erradicação da culpa por
intermédio de Jesus Cristo.

O próprio Sigmund Freud, fundador da psicanálise e um dos maiores


críticos da religião, afirma que o sentimento de culpa é que deu origem
às religiões, quando faz referência ao totemismo, que se configura
como uma das mais antigas e primitivas formas de religiosidade. Na
sua obra Totem e tabu, Freud faz referência ao mito do parricídio, em
que os filhos se unem e matam o pai, chefe do clã, que era invejado e
temido por eles. Após o assassinato, os filhos devoram seu cadáver
(antropofagia) e, identificando-se com o pai, apropriam-se de sua for-
ça. Após o parricídio, a culpa dos filhos se estabelece em virtude dos
sentimentos ambivalentes: ódio ao pai, que representava um impedi-
mento de alcançar o poder e satisfazer os desejos sexuais, em contra-
posição ao amor e à admiração pelo que ele representava. Essa afeição,
antes recalcada, surge em forma de remorso. A partir daí, os filhos
criam uma representação totêmica desse pai morto, que se torna ainda
mais forte do que quando estava vivo. Essa, portanto, seria para Freud
a base estruturante das religiões: a culpa que deu origem aos rituais
religiosos totêmicos.g

Saindo dessa abordagem antropológica, podemos apontar para diver-


sas religiões que fazem uso cotidiano da culpa na sua relação com os
fiéis. Como diz Tournier, para apagar o passado de culpas e pecados,
uma expiação (pagamento) deve ser feita, sendo esse o sentido de
quase todos os ritos e sacrifícios praticados nas diferentes religiões.
Atos de culto não deixam de ser uma forma de pagamento, ao menos
do ponto de vista psicológico. Espera-se que eles garantam a libertação
da culpa descartando o débito que deu origem a elah. Vamos traduzir
isso em exemplos práticos.

Em tribos primitivas, quando aconteciam tragédias, derrotas ou cata-


clismos (furacões, terremotos, temporais,...) normalmente se acreditava
que alguém da tribo havia cometido um grave pecado. Quando se
achava o culpado, este era punido e sacrificado aos deuses. Portanto,
aplacar a ira dos deuses através de oferendas, rituais e sacrifícios era
prática comum em inúmeros povos, tribos e culturas da Antiguidade.

No hinduísmo, em que a doutrina da transmigração das almas e da lei


do carma fundamenta a religião, o indivíduo só evolui espiritualmente

gNota: o mito é contado aqui de forma muito resumida. Para uma melhor compreensão, devido à
complexidade do tema, sugere-se a leitura do texto de Freud na sua íntegra.

h TOURNIER, Paul. Op. cit., p.202.


15
9
se "pagar" as suas faltas através de inúmeros rituais. A sua evolução ou
involução dependerá da observância correta de ritos e outras práticas,
que determinarão a sua condição na próxima reencarnação. Também
no budismo prevalece a lei do carma, ou lei de causa e efeito, em que o
aprendizado espiritual ou a busca pela iluminação implica abdicar de
determinadas práticas e desejos. As reencarnações tornam-se necessá-
rias até o ponto em que o indivíduo fique liberto de toda forma de
desejo.

Para o islamismo, as culpas podem e devem ser pagas através de ritos,


como as cinco orações diárias, realização de boas obras, a prática da
esmola e até mesmo a peregrinação do fiel à cidade sagrada de Meca.

Na realidade brasileira, temos a doutrina espírita que se aproxima


muito da expressão utilizada por Tournier de que "tudo deve ser pa-
go". Mesmo que o conceito "pagamento" não seja nomeado, sendo
substituído por palavras como resgate, missão ou aprendizado, está
implícito na doutrina espírita que cada indivíduo é responsável pelo
seu aprimoramento e pelo "resgate" de suas culpas passadas. Muitos
problemas, dificuldades, doenças e tragédias que surgem na vida das
pessoas são interpretados pelos espíritas como uma forma de "paga-
mento" de um carma anterior. Sem esse resgate, não há evolução.

Por um longo tempo, o cristianismo também se estruturou sobre a


prática do pagamento por culpas e pecados cometidos. Na Idade Mé-
dia, era comum a venda de indulgências, representando a compra do
perdão e da salvação, além da veneração de relíquias sagradas, enco-
mendas de missas pagas, realização de votos e promessas, e práticas de
autoflagelo, tudo como forma de expiar as suas culpas, pagar as dívi-
das com Deus e ganhar algum mérito pessoal diante Dele.

A colunista Martha Medeiros, numa de suas crônicas publicadas em


Zero Horai, intitulada Prometa não sofrer, ressalta que algumas religiões
cristãs têm na culpa o seu maior alicerce, e o rito das promessas seria a
maior prova de que, aos olhos de Deus, o ser humano não é merecedor
da felicidade, ao menos não de uma felicidade gratuita. A autora faz
referência a ritos penosos, como subir 300 degraus de uma igreja, ca-
minhar vários quilômetros para pagar uma graça alcançada, dar uma
soma polpuda para a caixa de coleta, etc. "Como sofrem esses fiéis", diz
Martha Medeiros, afirmando que eles se sentem devedores da própria
fé, impingindo a si próprios inúmeros sofrimentos e privações para
pagar o que julgam dever a Deus. Ao almejar a felicidade, finaliza a
autora, torna-se implícito que se pagará muito caro por ela se não

i Jornal Zero Hora, Caderno Donna, 12 de setembro de 1999.


160
financeiramente, ao menos através de bolhas nas mãos e calos nos pés.
Não é essa proposta, porém, que o cristianismo, comprometido com os
evangelhos bíblicos e com a obra de Jesus Cristo, oferece aos seres
humanos. A igreja cristã tem o compromisso de proclamar a salvação,
a graça e o perdão de Deus à humanidade oprimida pela culpa: a sal-
vação conquistada em Cristo, por Cristo e através de Cristo. Essa sal-
vação não tem preço, não pode ser comprada por ninguém, até porque,
para o cristianismo, sacrifícios expiatórios ou esforço moral não são
suficientes para pagar a dívida com Deus. Na realidade, o cristão não
precisa pagar nada, pois Cristo já pagou em seu lugar. Como lembra
Tournier:

... é Deus mesmo quem paga, Deus mesmo pagou o preço de uma vez por todas, o
preço mais caro que ele poderia pagar: a sua própria morte, em Jesus Cristo, na
cruz. A obliteração (destruição/eliminação) de nossa culpa é livre para nós porque
Deus pagou o preço. Jesus Cristo veio "para salvar o que estava perdido" (Mt
18:11).j

Como consta na Escritura Sagrada: "O sangue de Jesus, seu Filho, nos
purifica de todo pecado" (1 João 1:7), "no qual temos a redenção pelo
seu sangue, à remissão dos pecados" (Efésios 1:7), "Pois também Cristo
morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos" (1 Pedro
3:18). Em síntese, a libertação total da culpa, a salvação, não é mais
uma ideia remota de perfeição, para sempre inacessível; mas é uma
pessoa - Jesus Cristo - que veio a nós, veio para ficar conosco, em nos-
sas casas, em nossos corações. O remorso é silenciado pela sua absolvi-
ção. Jesus substitui o remorso com uma simples pergunta, aquela que
fez ao apóstolo Pedro, que o tinha negado por três vezes: "Tu me
amas?" (Jo 21:15). Precisamos responder a essa questão e achar em
nossa ligação pessoal com Jesus Cristo paz para as nossas almas.k

Todos os homens podem beneficiar-se dessa expiação única; todos os


homens, de fato, "todo o mundo", como João afirmou (1 João 2:2). Jesus
Cristo morreu por todos sem qualquer distinção, para homens de to-
das as idades e regiões, para hindus, para budistas, para muçulmanos,
para pagãos e para ateus; basta que nele creiam.l

12.6 Culpa e perdão


O grande ápice de nosso texto é a palavra "perdão". De nada adianta
falar de culpas, se não abrimos a possibilidade de refletir sobre o per-

j TOURNIER, Paul. Op. cit. p.212-3.

k Ibidem, p.214

l Ibidem, p. 215.
16
1
dão. Numa dimensão humana, das relações interpessoais, poderíamos
afirmar que o perdão é uma das mais importantes ferramentas tera-
pêuticas existentes nesta vida. O perdão pode ser visto sob três aspec-
tos: o perdão divino, o perdoar a si próprio e o perdoar aos outros.
Poderíamos perguntar: O que é mais difícil, perdoar aos outros, pedir
perdão aos outros ou ainda se apoderar do perdão divino? Obviamen-
te que essa resposta está ligada a uma série de variáveis.

Para um indivíduo orgulhoso, assumir o erro e pedir perdão é quase


uma impossibilidade. Para um indivíduo com pouca confiança em
Deus, aceitar o perdão de Cristo também é difícil. Agora, perdoar re-
almente aos que nos fizeram algum mal parece ser a mais árdua das
tarefas. Não é à toa que se diz que "errar é humano e perdoar é divino".

Hoje já há estudos que comprovam que a prática do perdão tem um


efeito benéfico sobre a saúde humana. O psicólogo americano Frederic
Luskin faz uma relação entre o bem-estar trazido pelo perdão e a saú-
de do ser humano. Luskin afirma que guardar ressentimentos, culpar
os outros ou apegar-se às mágoas estimulam o organismo a liberar na
corrente sanguínea as mesmas substâncias químicas associadas ao
stress, que prejudicam o corpo. Outro estudo de Luskin indicou que as
pessoas mais inclinadas ao perdão sofriam menos enfermidades e
tinham menos doenças crônicas diagnosticadas.m

Portanto, perdoar e pedir perdão são ações promotoras da saúde, na


dimensão emocional, física e espiritual. São ações que precisamos
aprimorar em nossa vida. O primeiro passo para isso é aceitar que as
nossas culpas e os nossos erros já estão perdoados por Deus. Acaba-
mos de ver que esse perdão divino é concedido a nós gratuitamente,
sem qualquer barganha com Deus. Ele nos oferece o perdão a todas as
nossas culpas. Diante dessa verdade bíblica, vem-nos à mente um
ditado popular: "Quando a esmola é muita, o santo desconfia". O ser
humano parece ter uma grande dificuldade de se apoderar do perdão
oferecido pelo evangelho bíblico. Mesmo participando de rituais como
a Comunhão (Santa Ceia), a Confissão e Absolvição nas missas e cul-
tos, o ser humano não consegue libertar-se de suas culpas, presas a ele
como sanguessugas a retirar a sua alegria, bem-estar, autoestima e paz
de espírito.

Como diz Tournier:

Parecia-lhe impossível (ao ser humano) que Deus pudesse remover a sua culpa sem
que ele tivesse de pagar alguma coisa. Pois a noção de que tudo tem que ser pago

m TARANTINO, Mônica. Perdoar é humano. Revista Isto É, 8 de janeiro de 2003, edição n.1736.
162
está profundamente arraigada e atuante em nós, tão universal quanto inabalável
por qualquer argumento lógico. Portanto, as pessoas que anseiam ardentemente
pela graça são as que têm maior dificuldade em aceitá-la. Seria uma solução muito
simples, e uma espécie de intuição se lhe opõe.n

Precisamos crer e confiar que Deus nos perdoa. O grande privilégio


que temos como cristãos é saber que somos perdoados e que o perdão
nos alcança através de Jesus Cristo. Foi para pregar a transformação
radical, o despertar da consciência de culpa e a erradicação desta cul-
pa: a humilhação do orgulhoso e a restauração dos angustiados. Não
que a salvação tenha de ser conseguida. Ela já foi de uma vez assegu-
rada a nós e a todos os que creem. Tudo já foi consumado em Jesus
Cristo.

Vale uma reflexão final para o tema em questão: o processo que leva a
uma verdadeira libertação da culpa, que parte da confiança no perdão
divino oferecido a nós, implica três momentos. Primeiro, o reconheci-
mento dos nossos erros, que leve a um verdadeiro e sincero arrepen-
dimento. Segundo, o firme desejo de corrigir a nossa vida, transfor-
mando-nos positivamente como pessoas e como cristãos. Como diz a
Bíblia, os frutos e as obras do cristão acompanham a verdadeira fé,
mas obras feitas como símbolo de gratidão, como consequência natural
da morada de Cristo em nossos corações e mentes, e não como forma
de pagar alguma culpa ou ganhar mérito diante de Deus. Finalmente,
libertar-se da culpa implica também uma disposição interna constante
em perdoar aos outros, num compartilhamento mútuo e recíproco do
perdão que nos é oferecido por Deus em Cristo Jesus. Culpa e perdão!
Questões existenciais que permanecerão atuando, afligindo e ressoan-
do nos corações humanos enquanto o indivíduo viver, mas cuja reso-
lução está mais próxima do nosso alcance do que podemos imaginar.
A resposta está na pessoa que se tornou a encarnação viva do amor, da
paz, do consolo e do perdão, chamada Jesus Cristo. Crer e apoderar-se
desse perdão, é a ferramenta terapêutica por excelência, fonte de vida e
alegria, da qual todos, sem exceção, podem fazer uso.

n TOURNIER, Paul. Op. cit., p. 200.


13
Thomas Heimann
A RELAÇÃO ENTRE FÉ E SAÚDE

Um dos temas mais instigantes e polêmicos da atualidade é a relação


(ou talvez tensão) entre fé e saúde, religião e ciência, medicina e espiri-
tualidade. Mesmo que essa relação seja muito antiga - em inúmeras
culturas a doença e a cura eram experiências que ficavam ao encargo
dos sacerdotes, dos pajés e dos xamãs -, nos dias de hoje se tem discu-
tido muito quais são os limites de cada uma das duas áreas. Apesar de
haver inúmeras correntes que veem aí oposição total, tensão constante
ou diálogo crítico, outra corrente procura caminhar no sentido de pro-
por uma perspectiva convergente ou integralista de ambas as áreas,
sem desrespeitar as especificidades de cada uma delas.

No artigo de Horta et al. cujo título é Psiquiatria na prática médica, a


religiosidade e suas interfaces com a medicina, a psicologia e a educa-
ção, os autores afirmam:

A partir de Einstein, reduziram-se, um a um, os impedimentos de cercania para


ciência e religião, a ponto de João Paulo II afirmar que religião sem ciência não é
boa religião, bem como ciência sem religião não é boa ciência. Uma posição
convergente com a do sumo pontífice foi, recentemente, tomada pela Organização
Mundial da Saúde (1998), ao ter acrescentado a dimensão de bem-estar espiritual
ao seu conhecido conceito multidisciplinar de saúde, que, como se sabe, só entendia
uma condição de saúde se existisse a presença de bem-estar nas dimensões físicas,
psíquicas e sociais. (HORTA et al., 2007)

É possível afirmar que o acréscimo da dimensão espiritual/religiosa à


concepção de saúde integral constitui um aspecto que aponta para
uma valorização dessa área, tratando-se de um marco decisivo na
aproximação e no entrelaçamento da ciência com a religião ou, mais
amplamente dizendo, com a espiritualidade humana.

Dois trabalhos de cunho científico, entre tantos outros que poderiam


ser citados, indicam essa aproximação. O primeiro deles é a tese da
psicóloga gaúcha Luciana F. Marques, realizada pela PUCRS, em que
164
ela procura comprovar que a religiosidade e o bem-estar existencial
são fatores importantes para os indivíduos terem uma melhor saúde
física e mental. Em sua pesquisa, as pessoas que afirmaram não ter
religião, em geral, foram as que demonstraram menor bem-estar exis-
tencial (JORNAL ZERO HORA, 2000).

O segundo trabalho é oriundo da Universidade do Texas e aponta para


o fato de que a espiritualidade tem a ver com disposição física e men-
tal. As pessoas que praticam uma religião apresentam melhores condi-
ções de saúde. Os maiores ganhos são de fundo psicológico, visto que
os religiosos têm autoestima maior e um círculo de amizades com o
qual têm afinidades, prevenindo doenças de fundo emocional (REVIS-
TA VEJA, 1999).

Num mesmo caminho, as faculdades de Medicina dos Estados Unidos


já têm dado espaço à relação entre a espiritualidade e a saúde na for-
mação acadêmica de seus alunos. Vários simpósios, congressos, pales-
tras e cursos na área da saúde também vêm enfocando essa questão
nos últimos anos, o que demonstra o aumento de interesse e preocupa-
ção dos profissionais no sentido de, ao menos, refletir sobre a temática.

Há algum tempo, trabalhos e afirmações que aproximassem a espiritu-


alidade da ciência pareceriam ideias sentidas como completamente
ilegítimas e estranhas aos preceitos religiosos e científicos, tal como
explicam Horta et al.:

Ciência e religião eram campos historicamente opostos, pelo menos, na cultura do


ocidente. O apego da cultura ocidental por um pensamento linear (causalista e
simplificador) e seu encantamento pelos avanços tecnológicos e sua crença numa
filosofia empirista - em síntese, a adição ocidental ao positivismo estrito -
configuram um conjunto de condições que, provavelmente, proporcionaram o
isolamento e estimularam os conflitos entre religiosidade e pensamento científico
(HORTA et al., 2007).

Para os autores supracitados, defender o pensamento de que a religio-


sidade de uma pessoa influencia não apenas seu espírito, mas também
seu corpo, sua mente e sua interação com os outros, já causa bem me-
nos estranheza nos dias de hoje, mesmo que tal concepção ainda per-
maneça gerando desconfiança e inquietação em muitos meios acadê-
micos.

Vamos passar agora a analisar um dos tantos fenômenos religiosos que


podem ser interpretados de uma forma interdisciplinar, apontando
justamente para os diversos tipos de relações existentes entre religião e
ciência, medicina e espiritualidade.
16
5
13.1 Análise de um fenômeno religioso: doença mental
ou possessão?Uma interpretação de práticas de
libertação espiritual e exorcismo numa ótica
multidisciplinar
Quem de nós já não ouviu falar de filmes como O exorcista (1973) ou,
mais recentemente, O exorcismo de Emily Rose (2005)? Ou, ainda, quem
de nós já não ouviu falar de cultos de libertação, sessões de descarrego
ou então de pessoas que afirmaram estar "com um encosto" ou nas
quais "baixou o santo"? Transe religioso, mundo dos espíritos ou ape-
nas transtornos mentais?

Todos esses exemplos apontam para um fenômeno que vamos chamar


aqui, genericamente, de possessão. Importa afirmar, desde o princípio
dessa discussão, que esse é um tema controverso, e que estamos cien-
tes de que há diversas formas de nominar e significar o fenômeno,
dependendo do viés religioso ou científico de cada grupo, que constrói
a sua própria nomenclatura e interpretação do fato.

Desde o início da história humana, há indícios de que sofrimento e


doença eram considerados fruto de uma força externa maligna, que
atuava negativamente sobre os corpos e as mentes das pessoas. As
curas eram ministradas por meio da expulsão dessa força maligna do
corpo do indivíduo, em práticas que denominaríamos hoje de exorcis-
mos, realizadas por inúmeras tribos ao longo da história.

Portanto, a ideia do mal, de espíritos ruins ou de "pouca luz", de de-


mônios que atuam no plano físico e atormentam os seres humanos não
é privilégio do mundo cristão, embora a sociedade ocidental seja muito
influenciada pelo cristianismo e sua ideia do mal.

De um modo geral, o que se entende por possessão? Para o cristianis-


mo, demônios são espíritos ou poderes espirituais contrários a Deus e
cujas fileiras são compostas pelos chamados anjos caídos, que acom-
panharam Lúcifer na rebelião contra Deus.

Caracterizando de modo geral uma possessão, um ser humano que


está "possuído" por uma dessas entidades espirituais maléficas acaba
ficando sob o controle total dela. O indivíduo perde sua identidade
pessoal, bem como sua liberdade de pensamento e até de ação, ficando
alienado de si mesmo. Normalmente, uma possessão demoníaca é
acompanhada de um comportamento violento e destrutivo contra os
outros, e contra o ambiente, assim como contra o próprio indivíduo
"possuído".
166
Para que se levante a possibilidade de um diagnóstico positivo de
possessão, é necessário que um indivíduo apresente, de forma clara e
significativa, uma série de sintomas, indicados na tabela a seguir, le-
vando-se também em conta nesse diagnóstico a frequência, a duração e
a intensidade dos sintomas. O filme Stigmata (1999) mesmo que não
trate da questão da possessão, traz cenas que praticamente sintetizam
todos os sintomas descritos neste texto, dando uma visão concreta (um
pouco exagerada) do que aqui estamos tratando.

Tabela 1 - Sintomas relacionados à possessão

Caráter imoral
Força sobre-humana Clarividência (profanidade, nudez,
linguajar obsceno...)
Ameaça verbal ou física a
Expressão facial
Telepatia tudo que representa
alterada
Cristo/cristianismo
Mudança na voz
Habilidade para Entrar em estado de transe
(aspereza, zombaria,
predizer o futuro quando alguém ora
rouquidão...)
Habilidade para
falar em línguas
Incapacidade de confessar
Convulsões, prostração estrangeiras
Jesus de forma reverente
desconhecidas da
pessoa possuída
Fenômenos poltergeist
(p.ex.: ruídos inexplicáveis,
Insensibilidade à dor Estado de transe
telecinesia, odores
desagradáveis...)
At 16.16-18; Mc
At 13.4-11; Mc 5.1-5; Lc
Mt 8.28; At 19.16; Lc 1.21-24, 34; Lc 4.33;
9.41s; 1 Jo 4.1-6; 1 Co 12.3; 1
4.33; Mc 9.18-22; 5.1-5 1 Sm 18.10; Mc 9.18-
Sm 18.10
22
Fonte: Oropez, 2000. p.131.

É prudente afirmar, porém, que a ciência já consegue provar que mui-


tos desses sintomas podem ser explicados à luz da fisiologia humana,
como, por exemplo, em momentos de muita tensão, extrema força e
insensibilidade à dor em função de descargas de adrenalina.

Wegner, ao abordar essa temática, faz referência aos critérios que a


Igreja Católica Apostólica Romana levanta para indicar uma possível
possessão, descritos no Rituale Romanum (escrito séculos atrás). São
eles (WEGNER 2004, p.126):

 o possesso deve falar diversas palavras de uma língua estranha ou


entender o que alguém diz numa língua desconhecida;
16
7
 deve ser capaz de relatar fatos secretos ou acontecidos em lugares
distantes;

 deve demonstrar forças que excedam a sua idade e transcendam a


possibilidade de que a natureza humana dispõe.

Diante desse tema, que desperta inúmeras dúvidas sobre a sua etiolo-
gia, isto é, de onde surgem e por que se manifestam as possessões nos
indivíduos, segue uma série de possíveis interpretações para o fenô-
meno, que transversalizam a medicina e a religião.

1 Doença, espíritos ou apenas fraude? Diferentes interpretações da


possessão.

 Interpretação bíblico-cristã - As Igrejas cristãs têm como fonte de


suas doutrinas as Sagradas Escrituras (Bíblia), de modo mais espe-
cial o Novo Testamento. A partir desse pressuposto, as religiões
cristãs admitem a existência e a ação de seres espirituais maléficos,
chamados de demônios. Há muitos textos bíblicos que mostram
Jesus Cristo e também os seus discípulos expulsando demônios.
Há, porém, diferenças entre as Igrejas cristãs tradicionais (católica,
luterana, batista, metodista, presbiteriana, etc.) e as pentecos-
tais/neopentecostais (Deus é Amor, Universal do Reino de Deus,
etc.) no que tange à prática de rituais exorcistas e à própria inter-
pretação do que pode ser considerado possessão demoníaca. Logo
a seguir, trataremos desse aspecto.

 Interpretação desmitologizante - Baseia-se na parapsicologia, que


procura diferenciar fenômenos verdadeiros daqueles que não o
são, desmascarando e desmistificando fraudes e truques. Os fe-
nômenos verídicos podem ser produtos de uma mente perturba-
da, fruto de uma psicorragia, isto é, uma energia mental que foge
ao controle voluntário humano, gerando fenômenos paranormais
que se fazem presentes no indivíduo e no ambiente em que ele se
encontra, tais como tiptologia, telecinesia, xenoglosia, glossolalia,
clarividência, etc. Essa linha de interpretação tem como represen-
tante conhecido no Brasil o padre Oscar Quevedo.

 Interpretações psicológico-psiquiátricas - As possessões são


interpretadas como casos de transtornos mentais. A psiquiatria, ao
descrever as psicoses e as esquizofrenias, elenca uma série de sin-
tomas que se aproximam dos relatados nas possessões espirituais,
como delírios, alucinações visuais, auditivas, táteis, entre outras.
Podemos ainda citar crises histéricas, dissociações de personalida-
de e até mesmo crises de epilepsia e convulsões, que, muitas ve-
168
zes, foram e ainda são confundidas e interpretadas por alguns re-
ligiosos como possessões. O psiquiatra Rogério Zimpel afirma que
os transtornos dissociativos talvez sejam o grupo de perturbações
mentais que mais se confundam com os fenômenos espirituais,
englobando o transtorno de personalidade múltipla (ou dissocia-
tivo de identidade) e ainda o transtorno de despersonalização. É
importante afirmar que ainda existe pouca literatura psiquiátrica e
psicológica que trabalhe simultaneamente com os dois paradig-
mas, a saber, o psíquico/científico e o espiritual/religioso (ZIM-
PEL, 2004, p.79).

 Interpretações sociológicas - As possessões são vistas como com-


portamentos de protesto por parte de pessoas oprimidas, que não
têm condições de buscar ajuda de cunho profissional, como médi-
cos psiquiatras, psicólogos e outros terapeutas. Tais indivíduos
encontram em igrejas um lugar de livre expressão de sua condição
de opressão e que serve também de espaço terapêutico para elas.

 Fenômenos catárticos - Outra interpretação, ligada à anterior,


afirma que os fenômenos observáveis numa possessão nada mais
são do que uma descarga externa de muita opressão, violência e
repressão, cuja expressão livre é favorecida pelo ambiente sugesti-
vo do culto. São os "demônios internos" de um indivíduo, o con-
junto de muitas frustrações reprimidas, que são colocadas para fo-
ra, numa catarse individual e/ ou coletiva.

 Fraude - Uma das interpretações aponta o fato de que algumas


Igrejas podem fazer uso de estratégias teatrais para gerar espanto
e admiração do público, treinando indivíduos para se fazerem
passar por endemoninhados. Pressupõe má-fé e falta de ética de
religiosos.

Não é possível, a priori, dizer qual das interpretações é a mais acerta-


da, até porque cada situação deverá ser analisada individualmente,
podendo ser qualquer uma das propostas aqui apresentadas.

2 Visões religiosas diferentes da possessão

Vamos examinar como as diversas religiões tratam do fenômeno, que,


mesmo não sendo o mesmo em cada uma delas, estruturalmente se
mostra muito semelhante.

 Religiões afro-brasileiras – Afirmam que os eguns, espíritos


zombeteiros de pessoas falecidas, podem importunar ou atormen-
tar os vivos. Nos cultos afro, diversas entidades também incorpo-
16
9
ram ("ocupam", "baixam") nos indivíduos (médiuns), porém essas
entidades não são vistas como espíritos malignos.

 Doutrina espírita (Allan Kardec) - Não crê em demônios, mas em


espíritos obsessores de "pouca luz". Andradea define obsessão co-
mo a ação persistente que um espírito mau exerce sobre um indi-
víduo, cujas características podem ir desde uma simples influência
moral, sem sinais exteriores perceptíveis, até a perturbação com-
pleta do organismo e das faculdades mentais (ANDRADE, 2004,
p.55). Essa obsessão pode ser de três tipos ou graus: a) obsessão
simples: o sujeito é perseguido tenazmente pela ação mental de
um espírito; b) fascinação: mais grave, pois o espírito passa a con-
trolar os pensamentos e o raciocínio do obsecado, como um pro-
cesso parasitário; c) subjugação: há um domínio quase total do es-
pírito sobre a pessoa, moral e corporalmente. As formas de com-
bater a obsessão são a prece, a fluidoterapia (passes e água magne-
tizada), a participação em reuniões mediúnicas de desobsessão e
exercício constante do bem (ibid., p.56-57)

 Religiões cristãs históricas/tradicionais - Admitem a possessão,


mas só depois de acurada investigação do caso, o que implica le-
vantar todas as possíveis causas racionais para os fenômenos, in-
cluindo diagnósticos médicos e psicológicos. Essas Igrejas também
diferenciam os conceitos de tentação, influência e possessão de-
moníaca.

 Religiões pentecostais e neopentecostais - Afirmam que os de-


mônios atuam intensamente, podendo ser todos os males físicos e
mentais sinais de possessão demoníaca. Em movimentos carismá-
ticos, a possessão e o exorcismo são práticas "comuns", fazendo
parte do cotidiano religioso.

 Islamismo – Também acredita em demônios. Considera que Sata-


nás e seus filhos, os anjos caídos, chamados de gênios, demônios e
duendes, podem desobedecer a Deus e possuir o corpo das pessoas.
Tais espíritos maus precisam ser expulsos por meio do ritual em
que se lê o Alcorão e se fazem súplicas pela libertação do possesso.

 Judaísmo - Acredita que espíritos de pessoas que já faleceram (os


dibbuks) podem atormentar os vivos.

 Hinduísmo - Desde os Vedas, textos antigos e sagrados dos hin-


dus, já há menção dos chamados exorcismos medicinais, nos quais

a Presidente da Federação Espírita do Rio Grande do Sul entre 1998 e 2001.


170
se usavam mantras e frases objetivando conjurar e expulsar os
demônios.

3 A prática do exorcismo nos dias de hoje

Há dois tipos básicos de exorcismo praticados nos dias atuais: o públi-


co e o privado.

 Privado - A pessoa atormentada é levada para um local reservado.


Não há público ou plateia. Os exorcistas (padres ou pastores) rea-
lizam o rito de exorcismo, que implica uma "guerra" entre o exor-
cista e o possuído, o que pode ser traduzido como uma batalha en-
tre o próprio Deus (na pessoa de Jesus) e o demônio. São os exor-
cismos praticados pelas Igrejas tradicionais (como a católica),
sempre depois de acurada investigação psiquiátrica. A Igreja Ca-
tólica, a partir do Concilio Vaticano II (década de 1960), decretou
que apenas alguns sacerdotes poderiam expulsar demônios. Já no
ano 2000, foi lançado pela Igreja Católica um manual oficial de
exorcismo, buscando-se regulamentar a prática desses rituais.

 Público – Está presente em alguns cultos evangélicos de cunho


pentecostal (ou neopentecostal). São os chamados cultos de liber-
tação ou sessões de descarrego. Nesses cultos, normalmente os
demônios manifestam-se em várias pessoas, que são publicamente
exorcizadas. Pode ser observada nessas sessões a utilização de vá-
rios recursos, como se vê a seguir.

 Trilha sonora: ouvem-se melodias leves na hora das bênçãos e


acordes pesados quando se mencionam demônios e espíritos ma-
lignos.

 Iluminação: na penumbra, os fiéis ficam mais sugestionáveis.


Pode-se pedir para fecharem os olhos.

 Figuração: o burburinho de pessoas rezando e gritando rebaixa os


níveis de consciência de fiéis suscetíveis (influência do meio).

 Roteiro: para evocar demônios, os pastores fazem orações repeti-


tivas. Ditas em tom de autoridade e num ambiente emocional, so-
am reais.

 Coreografia: aperta-se e balança-se a cabeça/corpo do fiel em


movimentos circulares. Tontura e falta de apoio podem induzir ao
transe.
17
1
 Sonoplastia: podem ser introduzidos gravações e sons que lem-
bram assombração. Tais ruídos estimulam o inconsciente das pes-
soas (REVISTA ÉPOCA, 2003).

Um aspecto que chama a atenção dos estudiosos das religiões é o fato


de que a manifestação dos demônios é quase inexistente nos cultos e
nas missas tradicionais (não pentecostais ou carismáticos). Ao compa-
rarmos tais eventos com as sessões de descarrego ou libertação, em que
prolifera a manifestação dos casos de possessão, fica em aberto uma
grande pergunta: por que há essa grande diferença?

Entre as possíveis respostas, poderíamos citar: o clima sugestivo dos


cultos de libertação, a quase conjuração à manifestação das possessões
nesses cultos e o estado psicoemocional do fiel que vai a uma sessão de
descarrego.

Uma fala de um pastor batista no programa Documento Especial, da


extinta Rede Manchete, no ano de 1989, talvez seja um bom pensamen-
to final. Mesmo admitindo a possibilidade e a ação dos demônios, ele
afirma: "Eu acho que muitas igrejas estão se preocupando demais com
os demônios e se esquecendo do principal, que é Jesus Cristo".

É o anúncio do amor, do consolo, da proteção em Deus que precisa


ocupar o centro da mensagem cristã, e não insistentemente o medo ao
demônio. Como diz a Escritura Sagrada,

Se Deus está do nosso lado, quem nos vencerá?... Em tudo isso temos a vitória por
meio daquele que nos amou. Pois eu tenho a certeza de que nada nos pode separar
do amor de Deus: nem a morte, nem a vida; nem os anjos, nem outras autoridades
ou poderes celestiais; nem o presente, nem o futuro; nem o mundo lá de cima, nem
o mundo lá de baixo. Em todo o universo não há nada que nos possa separar do
amor de Deus, que é nosso por meio de Cristo Jesus, nosso Senhor. (Romanos 8.31,
37-39)

13.2 Conclusão
Voltamos a afirmar que tratar desse tema exige prudência, sem abrir
mão de um olhar crítico e interdisciplinar, respeitando-se sempre os
diversos pontos de vista e interpretações trazidos pelos diferentes
grupos, científicos e/ou religiosos.

Não queremos aqui emitir juízos de valor ou desconsiderar algumas


das interpretações, até porque a verdade religiosa é uma questão subje-
tiva, que implica fé e que transcende uma análise lógica e racional dos
fatos.
172
Muitas ainda poderiam ser as questões a serem discutidas dentro des-
sa temática, como, por exemplo, as possíveis consequências para os
indivíduos que se submetem aos rituais do exorcismo, bem como o
efeito terapêutico ou neurotizante de tais rituais. Mas isso implicaria
outro estudo, que não é o objetivo desta breve análise do fenômeno
possessão.
14
Ronaldo Steffen
ÉTICA

Até aqui, passamos por várias visões religiosas e suas respectivas res-
postas para as questões religiosas e existenciais. Cada uma, a sua ma-
neira, segue o que denominamos de filosofia de vida, os princípios ideais
que normatizam o seu modo específico de pensar.

Por vezes, no entanto, é difícil conciliar ideal e realidade. No campo


religioso, o problema assume proporções ainda maiores, pois somos
inclinados a pensar que tanto o movimento religioso como seus segui-
dores são perfeitos e não se desviam nunca de sua pregação. Não raro,
para indicar nossa indignação, usamos expressões como "isso é uma
imoralidade" ou, ainda, "isso é antiético".

14.1Ética e moral
As palavras ética e moral, embora usadas indiferentemente, possuem
significados distintos. A moral relaciona-se às ações, isto é, à conduta
real. A ética diz respeito aos princípios ou juízos que originam essas
ações. Nessa dimensão, a ética e a moral são como a teoria e a prática.
A partir dessa constatação, é possível afirmar que a ética é a teoria ou
filosofia moral. Todo ser humano tem uma moral em razão de que
pratica ações que podem ser eticamente examinadas. Contudo, nem
todos levam em conta quais são os princípios éticos que determinam
suas ações. Por isso, é fundamental avançar na compreensão da ética.

Para refletir

Tenho claro qual é o princípio ético que determina minhas ações?

Ética descritiva e ética normativa

De forma sintética, podem ser identificados, com relação à ética, dois


modos de percepção denominados de ética descritiva e ética normati-
va.
174
A ética descritiva retrata as noções éticas predominantes nas diversas
culturas. Ao considerar essas noções, não julga o que é certo e errado;
apenas descreve o que as pessoas pensam e como se comportam, sem
emitir juízos de valor. Normalmente a ética descritiva pode ser obser-
vada nas pesquisas de opinião que são feitas com as pessoas no intuito
de identificar seus pontos de vista sobre assuntos como sexualidade,
aborto, impostos, roubos, violência e outros. Um alerta se faz necessá-
rio: a ética descritiva pode gerar uma "moralidade estatística", ou seja,
a noção de que aquilo que a maioria faz, deve estar certo.

A ética normativa, por outro lado, procura mostrar quais ações são
certas e quais são eticamente inaceitáveis. Ela tem como pressupostos
determinados valores e, a partir deles, fornece normas para as ações.
Sua busca não é pelo que é certo ou errado, mas pela idealidade do que
deve ser. Nesse sentido, os Dez Mandamentos, por exemplo, são ações
de idealidade motivadas por uma ética normativa.

A ética normativa tem como pressupostos alguns valores e, a partir deles, fornece
normas para as nossas ações.

14.2Valores
Na Antiguidade, valor é o que deve ser objeto de preferência ou de
escolha. Contemporaneamente, identificam-se três aspectos no concei-
to de valor. Em primeiro lugar, valor não é somente a preferência ou o
objeto da preferência, mas é o preferível, o desejável, a partir de uma
expectativa normativa. Um segundo aspecto aponta que valor não é
simples ideal que pode ser posto de lado pelas preferências ou esco-
lhas efetivas, mas é guia ou norma das escolhas, sendo, por isso, o
critério para um juízo. O terceiro aspecto remete à ideia de que valor é
a possibilidade das escolhas, privilegiando umas em detrimento de
outras, repetindo sempre a mesma escolha quando as condições de-
terminadas para a escolha ocorrerem e concedendo a essas escolhas o
caráter de autênticas e certas, com pretensão à universalidade.

É possível também pensar que alguns valores são apenas meios para se
alcançarem outros valores mais desejados. Consideremos como exem-
plo o dinheiro: ele não tem valor intrínseco, em si mesmo e por si
mesmo, mas pode ser usado para se obter algum outro valor só atingí-
vel com o dinheiro.

Para refletir

Quais valores mais e melhor preenchem nossas preferências: dinheiro, carro, lazer,
saúde, liberdade, amizade, amor?
17
5
Dois fatos podem, ainda, ser ressaltados. Um é o que aponta para o
fato de que, ao tomarem decisões cotidianamente, os indivíduos prio-
rizam valores, mesmo sem terem consciência deles. Outro é que, ao
priorizarem valores, é comum que os interesses de uns contrariem os
de outros. Aquilo que é bom para um, pode ser o infortúnio de outro.
Quando isso acontece, ocorre o que denominamos de egoísmo ético.

Pesquise

Busque mais informações sobre o egoísmo ético e procure identificar se isso ocorre
a sua volta.

Algumas tentativas de determinar o que tem valor e a justificativa


adotada para validá-lo têm sido feitas. A seguir, examinaremos algu-
mas alternativas teóricas (natureza dos valores).

Teoria emotiva

Os defensores da teoria emotiva, identificados como subjetivistas,


entendem que todos os valores são relativos e individuais. O que de-
termina o que tem ou não algum valor repousa simplesmente no fato
de o indivíduo gostar ou aprovar alguma coisa. A única justificação
para um julgamento valorativo assenta-se em como um indivíduo
sente ou o quanto ele se envolve com uma determinada situação. Des-
sa forma, diferentes pessoas valorizam diferentes coisas, e todas com
direito à sua opinião. Nessa categoria, se enquadram tanto os existen-
cialistas quanto os linguistas, pois defendem a relatividade dos valores
individuais.

Os valores são determinados pelos sentimentos de cada um.

Teoria do relativismo cultural

Conforme essa perspectiva, o que é certo ou errado está determinado


pela cultura particular na qual o fato ou a circunstância ocorre. O rela-
tivismo cultural justifica os julgamentos valorativos apelando à autori-
dade social de uma cultura em particular. O certo e o errado são sanci-
onados pela sociedade. Enquadra-se nessa teoria a perspectiva adotada
por Freud, na qual o certo e o errado são ideias introjetadas a partir da
sociedade e de nossos pais. A psicologia comportamentalista ou beha-
viorista também pode ser incluída nessa teoria, pois condiciona o
comportamento dos indivíduos aos valores sociais.

Os valores são determinados pela cultura em que vive o indivíduo.


176
Teoria absolutista

Conforme essa visão, identificada como objetivista, o que tem valor


independe do que o indivíduo gosta ou pensa, bem como do que uma
sociedade sanciona. É uma teoria que se opõe ao relativismo asseve-
rando que as leis morais são universais e eternamente verdadeiras,
independentemente de qualquer coisa. A lei moral dos Dez Manda-
mentos, cujos valores repousam sobre a autoridade de Deus, sendo por
isso universais, pode estar vinculada a essa perspectiva.

Os valores são determinados por leis morais universais e


eternamente verdadeiras.

Teoria do relativismo objetivo

Essa teoria entende que o amor é o mais alto valor e, por isso, quebrar
uma promessa por razões egoístas é considerado errado. O amor é tido
como o mais alto valor não por ser uma regra moral absoluta, mas pelo
fato de estar em jogo a produção das melhores consequências e da
satisfação humana a serem obtidas com uma determinada atitude.

A denominação de relativa refere-se à noção de que essa teoria defen-


de que todos os valores dependem da satisfação humana. Ao mesmo
tempo, é considerada objetiva por insistir no teste da consequência a
ser obtida, qual seja, a produção do máximo de satisfação.

Os valores são determinados pelo amor, entendido como a melhor consequência e


satisfação humana.

Estão enquadrados nessa teoria o utilitarismo, o pragmatismo e as


correntes psicológicas defendidas por Erich Fromm, Abraham Maslow
e Carl Rogers.

Teoria da escolha racional

A teoria da escolha racional nega a tese do relativismo cultural susten-


tando que um determinado modo de vida é claramente melhor que
outro, se a escolha for determinada por um processo racional de esco-
lha. É verdade que, em última análise, é o indivíduo quem faz a esco-
lha do que é certo ou errado a partir do que sente ou prefere. No en-
tanto, o mesmo indivíduo, por ser racional, deve reconhecer que os
sentimentos são fidedignos somente se forem livres, imparciais e frutos
da informação.

Os valores são determinados após uma escolha racional.


17
7
14.3 Consciência
A consciência desempenha um papel importante no sentido de coibir
ou incentivar a tomada de determinada decisão a partir de algum
valor. Relativizando o conceito, consciência é a capacidade que temos
de reagir ao certo ou ao errado a partir daquilo que é o nosso mais alto
valor.

Algo que constantemente tem emergido e tornou-se ditado popular é


que podemos fugir de tudo, menos de nossa consciência. Aliada a essa
percepção, uma problemática se apresenta: de onde vem a consciência?

Há, pelo menos, três respostas a essa questão: uma que afirma ser a
consciência inata ao ser humano; outra que diz ser ela imposta pelo
ambiente externo, sendo o ser humano moldado pelas condições cultu-
rais externas, como pensam a psicologia e as ciências sociais; uma
última, ainda, considera ser a consciência inata ao ser humano, apesar
de receber informações externas, agindo a partir destas, ou seja, ela
pune as pessoas quando rompem as normas, mas não determina abso-
lutamente essas normas.

Para refletir

A consciência:

 é inata? ou

 é determinada pela cultura? ou

 é inata, mas moldada pela cultura?

Uma questão em aberto ainda deve ser aqui lançada: todos têm a
mesma consciência?

14.4 Direito positivo e senso de justiça


Essa é uma questão problemática, especialmente em países marcados
por desigualdades de toda ordem. É verdade que toda sociedade ba-
seia-se num determinado código originado por uma ética que enfatiza
a igualdade de todos. Violar as leis do código implica a quebra da
harmonia social.

Podemos observar, no entanto, que nem sempre o que cada um pensa


sobre o certo e o errado corresponde às leis sociais. A título de exem-
plificação, basta relembrar a questão do aborto, da pena de morte, da
eutanásia, do pagamento de impostos (como o de renda), do trabalho
178
de menores, da compra de produtos contrabandeados e assim por
diante. Há, ainda, o caso de profissionais que se recusam a cumprir
determinada função em razão de sua consciência.

É possível relembrar muitos exemplos, mas há um especial ocorrido


em 2002. É o caso de um tratorista baiano e empregado de uma empre-
sa contratada para cumprir mandato judicial que determinava a der-
rubada de casas erguidas numa área invadida. Diante de uma casa a
ser demolida, com a máquina ligada, o tratorista viu-se tomado de dor
pela senhora com seus filhos que se postavam na frente da casa numa
tentativa de impedir a demolição. Acabou por não executar a ação que
lhe fora determinada e foi preso em flagrante por desobediência à
ordem judicial.

Tecnicamente, denomina-se desobediência civil o ato de uma pessoa ou


grupo desafiar e infringir o direito positivo (o sistema jurídico acorda-
do) de maneira plenamente intencional (senso de justiça).

14.5 Responsabilidade
A questão da ética centra-se, também, no senso de responsabilidade. A
pergunta que cabe para discussão é a referente a por quem e pelo que
as pessoas se sentem responsáveis. A título de reflexão, podemos falar
em duas possibilidades, que se completam, com relação à responsabi-
lidade: uma individual, em que o sujeito é responsável por si e pelo
que o rodeia, e outra coletiva, em que a sociedade é responsável pelas
ações que o sujeito não consegue fazer por si só.

O perigo que corremos é o de chegarmos a algumas circunstâncias em


que nem o indivíduo, nem a sociedade assumem a responsabilidade
pelo que está acontecendo. Chama-se esse comportamento de diluição
de responsabilidade.

A alternativa mais viável quanto a esse tema é denominada de trabalho


pela solidariedade, quando indivíduo e sociedade assumem suas respon-
sabilidades.

Descubra o porquê do surgimento das chamadas "ações solidárias".

14.6 Livre-arbítrio
O livre-arbítrio é o pressuposto segundo o qual as pessoas possuem
alternativas entre as quais podem escolher livremente o que é certo ou
errado, bom ou ruim e assim por diante.
17
9
Há duas correntes que conduzem a discussão do tema: uma é o deter-
minismo, que defende que nossas escolhas são determinadas pelos
elementos externos, herdados dos pais ou do ambiente no qual vive-
mos. Nesse caso, o livre-arbítrio é apenas uma sensação. Outra corren-
te, a do indeterminismo, argumenta que nossas escolhas são fruto de
vontade individual e tornamo-nos o que escolhemos ser.

Refletir

Para acabar com a violência, é preciso mudar as condições


econômico-sociais da nossa sociedade, pois elas é que determinam a escolha pela
violência.

14.7 Ética religiosa e social


Até aqui o texto privilegiou o tema da ética, contextualizando-o a par-
tir de seus principais conceitos. Na sequencia, o tema será estreitado,
concentrando-se mais na perspectiva religiosa e cristã, oferecida como
alternativa concreta para a vida em sociedade.

Logo a seguir, um quadro procura comparar sinteticamente os princí-


pios, os meios e os fins da ética social e religiosa, apontando para as
suas diferenças.

Quadro - Comparação entre ética social e ética religiosa.

Ética social Ética religiosa


Princípios: extraídos da Princípios: extraídos das
convivência humana a partir das doutrinas que fundamentam a
ideias filosóficas que traduzem os religião. São perenalistas por
anseios e as expectativas da serem
sociedade. mais rígidos e dificilmente
São situacionistas por serem admitirem
flexíveis e se adaptarem às mudanças históricas. Resultam
mudanças históricas. Resultam do do amor.
anseio pela liberdade.
Meios: partem do próprio sistema Meios: a lei moral que busca
cultural sobre o qual atuam as determinar o que é melhor
diversas instituições sociais para o ser humano.
(família, escola, igreja, empresas,
meios de comunicação, partidos
políticos, etc.).
Fins: atingir o bem comum. Por Fins: atingir o bem superior.
isso, é imanente, ou seja, restrita Por isso, é transcendente, ou
aos limites humanos, temporais e seja, projeta o ser humano para
sociais. além deste mundo material,
buscando um sentido eterno
para sua vida.
180

14.8 Ética religiosa cristã


Como todos os pensamentos religiosos, o cristianismo também possui
sua perspectiva ética. É bem verdade que a diversidade do pensamen-
to cristão faz-nos entender que não há um único modo cristão de en-
tender o tema.

Respeitadas as diferenças, de uma forma geral, a abordagem religiosa


cristã da ética não pode fugir de sua centralidade: o Cristo, retratado
no Novo Testamento. Assim, a ética religiosa cristã pode ser sintetizada
em dois fundamentos: um que ressalta a centralidade cristocêntrica,
enfatizando Jesus Cristo e sua ação de salvação como fonte de orienta-
ção ética e de poder de transformação, e outro que enfatiza a Bíblia, o
Antigo e o Novo Testamento, como fonte e norma tanto do ensino como
das práticas cristãs.

Crítica externa

Em razão dessa postura, o cristianismo tem elaborado algumas críticas


a sistemas éticos que se baseiam em outros pressupostos. Confira o
quadro que segue.

Quadro - Crítica do cristianismo a sistemas éticos externos.

Princípio Crítica cristã

Hedonismo: o prazer é o É princípio que não leva em


critério maior. O bem é o que consideração os outros na sua
dá prazer e o mal é o que causa versão individualista. Já na
dor. A linha individualista universalista, quem julgar sua ação
busca o prazer individual, e a digna de um bem maior para um
linha universalista, o bem maior número de pessoas encontra
maior para o maior número de justificativa para sua ação.
pessoas.
Naturalismo: a Natureza é o Como ficam os doentes, os fracos e
princípio válido para todos e os inválidos? O que vale é "o maior
em todos os tempos. A come o menor"?
sobrevivência é o bem maior a
ser buscado, e o que a dificulta
deve ser eliminado.
Relativismo: cada situação é A defesa da inexistência de
única. Não há princípio verdades absolutas é uma verdade
experimental que defina o que absoluta.
é bom e mau.
Esteticismo: o que entra em O princípio é imediatista,
consideração não é o ato em si, defendendo o aqui e agora,
mas o resultado dele obtido. Os gerando a necessidade de auto-
18
1
sentidos e as emoções são realização pessoal ou grupal sem
utilizados para dar significado medir o ato em si e enfatizando
à vida e transformar a uma existência limitada à
insignificância em beleza. historicidade humana.
Idealismo: é a busca de um A questão que pode ser
ideal fora do ser humano e da contraposta à linha intuitiva é: se o
natureza. A linha intuitiva senso moral está na consciência,
reconhece que todos têm um onde está ela? Para a linha
conhecimento intuitivo do que racionalista, pode ser questionado:
é certo e errado. A linha se o senso de dever se sobrepõe
racionalista enfatiza que o certo por meio do raciocínio, apenas os
e o errado dependem do uso mais capazes é que estabelecem os
adequado do raciocínio. melhores deveres.

Crítica interna

Assim como faz com os princípios que lhe são alheios, o cristianismo
também produz uma autoanálise e identifica, com relação à ética, duas
posturas comumente praticadas no seu interior. Uma mais negativa, a
legalista, e outra mais positiva, a pedagógica.

Na linha legalista, a lei de Deus é vista de forma inflexível, devendo


ser cumprida em sua plenitude. Caso a pessoa não a cumpra, o infrator
só é redimido do erro mediante punição e penitência. É prática coerci-
tiva e baseada no medo.

Na linha pedagógica, a lei de Deus é um método educativo que visa a


orientar a conduta humana dentro de princípios movidos pelo amor e
pelo desejo de proteger o ser humano dos perigos morais. Pressupõe a
livre aceitação dos princípios cristãos, sem coerção.

O amor como princípio

Destaca-se na linha pedagógica da ética religiosa o amor como elemen-


to motivacional da conduta humana.

Os significados que o amor apresenta na linguagem comum são múlti-


plos e quase sempre mal compreendidos em razão de pouco ou quase
nada se pensar sobre ele. Em geral, acredita-se que amor é um senti-
mento e, como tal, não se explica. A História da Filosofia, no entanto,
tem demonstrado diferente: o amor pode e deve ser pensado. O fato
hoje é que se desacostumou de pensá-lo. A ideia desenvolvida a seguir
é a construção de um modo de pensar o amor a partir dos pressupos-
tos cristãos a fim de podermos compreender por que ele é o fundamen-
to maior da ética cristã.
182
Para definir o amor como fundamento ético, o cristianismo costuma
pensar o tema a partir das palavras gregas Eros, filia e ágape, cujos sig-
nificados gravitam em torno da palavra portuguesa amor. Confira o
quadro que segue para entender qual o significado que o cristianismo
atribui ao amor.

Quadro - Significado do amor no cristianismo.

Eros - É toda e qualquer relação humana resultante da funcionali-


dade das sensações (sentidos físicos). Desse modo, entende-se
amor como força unificadora e harmonizadora, tanto sexual como
política, resultante das percepções dos sentidos físicos. Quando os
sentidos funcionam em sua normalidade biológica, é possível
falar em sensualidade. Quando a normalidade biológica é que-
brada, ficando fora de controle, fala-se em paixão. Normalmente,
identifica-se esse modo de amor com a sexualidade, tendo em
vista que, ao sermos despertados para alguém, nossa sensualida-
de descontrola-se e, se correspondida, somos conduzidos à pai-
xão, que culmina no completo descontrole dos sentidos, a sexua-
lidade. Amor nessa dimensão não se identifica com a base cristã
para a ética.

Filia - É toda e qualquer relação humana resultante de atitudes


concordantes e afetos positivos (solicitude, cuidado, piedade,
etc.). O termo assemelha-se às noções de afeição e amizade. Nesse
sentido, é possível afirmar que a dimensão do amor se dá (1) por
escolha (é seletivo) e (2) por concordância ou, se preferir, por
concórdia, o que implica abrir mão de juízos valorativos condena-
tórios. Amor, nessa dimensão, não se identifica com a base cristã
para a ética.

Ágape - É toda e qualquer relação humana resultante da ação de


Deus e que se estende a todo "próximo". Ágape caracteriza-se pela
aceitação mútua. Nesse sentido, é possível falar que ágape é a
disposição à igualdade verificada quando Deus, na criação, tor-
nou o ser humano igual a Ele e quando, na redenção, Ele mesmo
torna-se, em Cristo, ser humano a fim de resgatar nossa dignida-
de pela compreensão e pelo perdão. Essa é a ação de Deus em nós
e que se estende, por nós, a todo "próximo". Nós amamos porque
Ele nos amou primeiro. Amor nessa dimensão é a base cristã para
a ética.
18
3
14.9 Moral religiosa cristã
Para os cristãos, os Dez Mandamentos, mais do que um manual de
comportamento humano e social, apontam uma sugestão de cumpri-
mento de papéis ou funções para o bom exercício do amor (ágape)
enquanto aceitação que compreende e perdoa.

Costuma-se dividir os Dez Mandamentos em dois grupos: os manda-


mentos que se dirigem a Deus (amar a Deus) e os que se dirigem ao
próximo (amar o próximo). Respeitados os grupos que possuem uma
divisão diferente, a tradição cristã luterana identifica os mandamentos
como indicado a seguir.

Amar a Deus

 Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outros deuses diante de


mim. Confia em Deus acima de todas as coisas. Não tomarás em
vão o nome do Senhor teu Deus, porque o Senhor não terá por
inocente o que tomar o Seu nome em vão. Em nome de Deus não
amaldiçoar, jurar, praticar a feitiçaria, mentir ou enganar, mas in-
vocá-lo em todas as necessidades, orar, louvar e agradecer.

 Santificarás o dia do descanso. Não desprezar a pregação e a pala-


vra de Deus, mas considerá-la santa, gostar de ouvi-la e de estudá-
la.

Amar o próximo

 Honrarás a teu pai e a tua mãe para que te vás bem e vivas muito
tempo sobre a terra. Não desprezes nem irrites pais e superiores,
mas honra-os, serve-os, obedece-os, ama-os e quere-os bem.

 Não matarás. Não causes dano ou mal algum ao corpo do próxi-


mo, mas ajuda-o e favorece-o em todas as necessidades corporais.

 Não cometerás adultério. Vive vida casta e decente em palavras e


ações, amando e honrando seu/sua parceiro/ parceira.

 Não furtarás. Não tires do próximo o seu dinheiro ou bens nem te


apoderes deles por meio de mercadorias falsificadas ou negócios
fraudulentos, mas ajuda-o a melhorar e conservar seus bens e seu
meio de vida.

 Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. Não mintas


nem traias, calunies ou difames o próximo, mas desculpa-o, fala
bem dele e interpreta tudo da melhor maneira.
184
 Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não pretendas adquirir, com
astúcia, a herança ou a casa do próximo nem te apoderes dela sob
a aparência de direito, mas ajuda-o e serve-o para conservá-la.

 Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem os seus empregados,


nem o seu gado, nem coisa alguma que lhe pertença. Não apartes,
desvies ou alicies a mulher do próximo ou os seus empregados,
mas aconselha-os para que fiquem e cumpram o seu dever.

14.10 Ética social cristã


Os cristãos estão cientes de que hoje a maioria dos cidadãos, dentro de
suas liberdades individuais, não faz parte do cristianismo. Ainda as-
sim, os cristãos entendem que seu modo de perceber o Universo e o ser
humano pode contribuir para a instauração de relações sociais mais
harmônicas e igualitárias.

A base cristã para essa percepção encontra-se no fato de todos os seres


humanos serem filhos criados e amados por Deus, em Cristo Jesus, e
que podem viver vida digna e harmoniosa, com justiça, paz, solidarie-
dade e perdão, dentro de ordens adequadas ao grupo de convivência.

Emergem dessa intenção dois modos, convergentes, de aplicar-se a


ética social cristã. Um incentiva o indivíduo a amar o próximo como a
si mesmo. Embora nem sempre se viva de acordo com essa regra, há
uma concordância generalizada de que fazê-lo é um dever. Outro
modo regra as relações sociais e aponta para o princípio da reciproci-
dade, incentivando o indivíduo a tratar os outros como gostaria de ser
tratado.

Regras de ouro - Amar o próximo. Tratar os outros como gostaria de ser tratado.
15
Ronaldo Steffen
ÉTICA SOCIAL CRISTÃ APLICADA

O cristão, aquele que age eticamente, não apenas manifesta sua preo-
cupação com as pessoas e o Universo, mas também não faz um ar de
arrogante superioridade como se o resto, além dele, não existisse. Essa
preocupação que alimenta faz com que busque na ética social cristã
formas de poder equilibrar as relações sociais de modo que o seu pró-
ximo não perca a alegria de viver nem cause dano à existência dos
outros.

O compromisso da ética cristã é com a vida, em sua plenitude. A se-


guir, apresentamos alguns apontamentos que, de forma resumida e
fugindo das informações exaustivamente tratadas pela mídia escrita,
falada e televisiva, por teses e livros, procuram apontar a ação desejada
pela ética social cristã.

15.1 Amor-próprio
Em tempos de grande valorização da autoestima, autoimagem, marke-
ting pessoal, cuidado com o corpo e assim por diante, é prudente tocar
nesse tema, ainda que resumidamente. Pode um cristão ter amor-
próprio? Como ser criado e salvo por Deus, ele foi feito nova criatura e
recebeu, de graça, o favor de Deus. O ser humano é visto por Deus
como santo, bom. O cristão sabe disso. Sabe que recebeu o amor de
Deus para amar o próximo. Nesse sentido, o cristão tem amor-próprio.
É dele que emana o amor ao outro e a todas as criaturas divinamente
criadas.

As razões que não podem mover o amor-próprio do cristão são: um


amor-próprio por causa de si mesmo, pois é egoísmo; um amor-
próprio por causa dos outros, pois é negação de si mesmo.

Amor-próprio Não por causa de si. Não por causa dos outros.
Por causa de Deus, sim.
186
Com isso, coloca-se o problema do amor-próprio não no amor, mas na
razão que o produz.

15.2 Responsabilidade social


A ética cristã estabelece que todo ser humano deve ser respeitado
como pessoa (não se trata de coisa) e que toda pessoa, amiga ou inimi-
ga, é nosso próximo. Amar o próximo inclui necessariamente o cuida-
do com ele. Isso significa não apenas proteger os inocentes, mas agir de
modo proativo, com vistas ao bem-estar de todos. Cuidar do próximo
aqui também não significa apenas zelar pela sua espiritualidade, mas,
sim e inclusive, pelas suas necessidades materiais.

A ética cristã prescreve que, por amor, o cristão deve cuidar:

 de si mesmo - prover as necessidades básicas para sua própria


existência e de forma moderada;

 de sua família - prover o necessário para a existência de crianças,


idosos, dependentes e órfãos que vivem na sua própria família ou
nas famílias próximas;

 de seus irmãos crentes - é histórico que o cuidado material que um


cristão tem com o outro é revelador do quanto eles se amam;

 dos pobres - cuidar de seres humanos, criados à imagem e seme-


lhança de Deus, desprovidos de recursos para uma vida minima-
mente digna é abusar da própria divindade e de Sua natureza de
amor;

 dos escravos e dos oprimidos - promover e participar de movi-


mentos que buscam erradicar toda e qualquer forma de escravi-
dão e opressão é tarefa cristã nobre e divina, assim como o sacer-
dócio;

 dos governantes - por entender que os governantes são, por assim


dizer, o braço direito de Deus que estabelece a ordem e a paz no
mundo, compete ao cristão prestar o devido respeito a toda auto-
ridade e não fugir de sua responsabilidade de pagar os impostos
adequadamente, pois é com eles que os governantes podem ofere-
cer vida digna a todos os cidadãos por meio de saúde, educação e
segurança, entre outros fatores.

Cuidar do próximo não pode perder a dimensão nem do físico, nem do espiritual.
18
7
15.3 Bioética
Como qualquer outra classe profissional, a classe médica também tem
como compromisso primordial a vida. Para isso, mais do que nunca há
um aprimoramento nas pesquisas médicas, concentrando-se em espe-
cial na área da genética. O cristianismo não se opõe de forma alguma
às pesquisas que respeitam a vida humana e que desenvolvem práticas
de defesa da vida ou estudos que visam a evitar a evolução de doen-
ças, bem como propiciar melhorias físicas e mentais aos seres huma-
nos.

Duas situações complexas:

 a manipulação genética de plantas e animais - parece-nos que isso


já é feito numa escala muito maior do que possamos imaginar. A
alegação da melhora das espécies tem tido como fundamento, de
forma geral, razões de ordem econômica. É verdade que os resul-
tados dessas manipulações ainda não são exatamente conhecidos
pela população como um todo, embora se fale em melhora das es-
pécies geneticamente modificadas.

 A manipulação de seres humanos - o uso do princípio de manipu-


lação genética poderá também ser utilizado em seres humanos
com vistas ao aperfeiçoamento genético. Os riscos são imprevisí-
veis, e as informações nesse campo são contraditórias e quase
nunca esclarecedoras.

Sim às pesquisas, desde que promovida e o bem-estar humano em todas suas


dimensões.

15.4 Casamento
A ética cristã entende que o objetivo básico do casamento é criar as
condições para vivermos a plenitude da vida e ajudarmos uns aos
outros. Em vista disso, a família é considerada o centro da vida, escola
de aprendizado das virtudes cristãs e espaço de construção de um ser
humano que dignifica Seu criador.

Alguns atributos importantes do casamento são: é indissolúvel e vitalí-


cio (exceção se faz no caso de adultério), além de monogâmico. A fide-
lidade mútua é preceito que os casais cristãos buscam cumprir por
amor.

O amor no casamento revela-se de muitas formas: proteção, cuidado,


compreensão, perdão, respeito ao outro e a sua história, atividade
188
sexual, afetividade, amizade, companheirismo, confiança, entre outras.
Acrescentemos uma observação: no casamento não há espaço para o
ciúme. Ele não apenas inibe, mas destrói o amor.

Aqui, como em outros casos, é preciso compreensão por parte do cris-


tão com todos os que, por diversas razões, não conseguem desenvolver
as virtudes cristãs do casamento nem conseguem até mesmo manter
seu casamento e se separam, buscando em uma segunda união a pos-
sibilidade de uma vida melhor.

Na temática do casamento, há uma controvérsia candente: a da união


de homossexuais. O cristianismo entende que a família formada pelo
casamento é entre um homem e uma mulher. Aqui também é preciso
buscar a compreensão de que nem todos são cristãos, e as pessoas
agem movidas por razões diferentes. Ao Estado compete regular essas
relações na medida em que percebe que é preciso tirar da ilegalidade
tais relações e dar-lhes o caráter de legalidade.

Para refletir:

O ciúme inibe e destrói o amor.

15.5 Controle da natalidade


A fim de não causar nenhum mal-estar, é preciso fazer um registro: o
tema do controle da natalidade dirige-se aos casados, uma vez que, aos
solteiros, ainda que em tempos de liberalidade sexual, a ética cristã
prescreve a castidade.

Os casados possuem plena liberdade de escolha do método - que irão


utilizar para o controle da natalidade: controle dos dias férteis da mu-
lher, uso de preservativo, diafragma, espermicida vaginal, pílula anti-
concepcional a conselho médico, vasectomia, laqueadura. Para o cris-
tão, não se admite como forma de controle da natalidade a abstinência
sexual. Uma advertência se faz com relação ao dispositivo intrauterino
(DIU): ele age contraceptivamente, ou seja, quando já ocorreu a con-
cepção.

Como nossa sociedade é plural, e parte dela não segue os princípios


cristãos, é necessário haver regulamentações para se evitarem os exces-
sos. Assim, entendemos que as pessoas precisam não apenas de infor-
mações capazes de orientá-las, mas também de mecanismos capazes de
lhes permitir uma vida minimamente sadia física e mentalmente. Para
as pessoas, solteiras ou casadas, que mantêm relações sexuais casuais
18
9
ou com constante troca de parceiros, é recomendável o uso de meca-
nismos de controle da natalidade.

Para cristãos casados: controle da natalidade. Para cristãos solteiros: castidade

15.6 Inseminação
Não há muito que discutirmos em relação a esse tema se considerar-
mos a inseminação in vitro e a fecundação obtida com óvulo e esperma
do casal (inseminação homóloga). As dificuldades no tema se acentu-
am, no entanto, quando levamos em conta a inseminação heteróloga,
ou seja, que é realizada com óvulos ou espermas de pessoas que não
são parceiros.

No mesmo patamar de discussão está a manipulação de óvulo fecun-


dado para ser recebido por uma mãe de aluguel, aquela que se pronti-
fica a abrigar em seu útero o feto de outros pais.

O cristão evitará inseminação heteróloga e o uso de mãe de aluguel.

15.7 Aborto
O tema tem, recorrentemente, voltado à discussão. Para o cristão, está
claro que o aborto é homicídio, e por uma única razão: a vida começa
na concepção. Há, porém, outros que assumem outras perspectivas em
que se aceita o aborto alegando a vergonha social de ser mãe solteira e
vítima de estupro, ameaça ao equilíbrio econômico da família, possibi-
lidade de o feto ter anomalias ou razões semelhantes. Para essas pesso-
as, pensamos que devam existir leis que regulem o restabelecimento de
ações sociais equilibradas, especialmente em razão da prática de abor-
to clandestino.

Na relação com aqueles que são favoráveis ao aborto, é importante


registrar que o cristão deve respeitar a decisão pessoal do outro e aju-
dá-lo a viver da melhor forma possível.

Mesmo não concordando com o aborto, o cristão irá esmerar-se no cuidado


daqueles que o praticam.

15.8 Eutanásia
O termo significa "boa morte", "morte serena", isto é, abreviar serena-
mente a vida de quem sofre doença incurável.

Alguns países já tratam legalmente do tema. Na Holanda, a legislação


aderiu à eutanásia por solicitação de um paciente. Na Inglaterra, a
190
justiça já permitiu o pedido de eutanásia de uma pessoa tetraplégica.
Nos Estados Unidos, o chamado "Dr. Morte" (auxiliava os doentes, por
meio de uma máquina, a auto-administrarem uma dose letal) cumpriu
pena de prisão pelo uso da máquina da morte. No Brasil, a discussão
existe, mas não há lei que regule o assunto.

A ética cristã é contra a eutanásia pela simples razão de que a vida


pertence ao seu criador, Deus.

O tema, no entanto, é complexo. Estaria enquadrada como eutanásia a


suspensão de medicamentos, de alimentação ou de aparelhos para
sustentar de forma artificial uma vida aparentemente sem meios de
voltar à normalidade? Prolongar artificialmente uma vida não seria
impedir que o curso dado por Deus àquela pessoa siga seu termo?

Para refletir:

Tão importante quanto viver bem é morrer bem!

Aqui, mais uma vez, cabe ao cristão evitar o juízo condenatório, mes-
mo não concordando com a prática da eutanásia.

15.9 Pena de morte


Embora já adotada em outros países, a pena de morte é tema que volta
sempre à tona entre nós, especialmente em tempos de extrema violên-
cia. Há dois grupos que discutem o tema: os chamados legalistas, que
exigem a pena de morte, e os pacifistas, que defendem outros mecanis-
mos como forma de penalizar criminosos.

Tanto um grupo quanto o outro se esmeram em buscar razões capazes


de justificar suas opções. Quanto ao cristão, entretanto, que se aplica
ao exercício da ética cristã, sua posição é contrária por entender que
Deus é o Senhor da vida e da morte, que mesmo criminosos são alvos
do amor de Deus e merecem ser vistos como "o nosso próximo" e,
ainda, que por eles devemos zelar.

O espírito de vingança ("olho por olho e dente por dente") não cabe nos princípios
da ética cristã.

15.10 Ecologia
O reino de Deus inclui todas as suas criaturas, inclusive o cosmos. O
Universo é criatura divina e compete ao filho de Deus conservá-lo.
Buscar a preservação do Universo é manifestação do amor, como prin-
19
1
cípio ético. A conservação só será possível com mudanças de rumo do
ser humano. Deixar de lado a cobiça e o egoísmo é imprescindível.

O cristão concentra sua luta ecológica no controle da maldade humana:


o grande destruidor da harmonia cósmica. A ética cristã não leva o
cristão a ser contra o uso da natureza, e sim contra o abuso que a mal-
dade humana promove contra a natureza e, por consequência, contra
toda a humanidade e o Universo, criaturas divinas.

Usar a natureza, sim! Abusar da natureza, não!


REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

ANDERSON, N. The world´s religion. Michigan: American Publication, 1975.

ANDRADE, N. S. de. Espíritos e obsessão conforme a doutrina espírita codificada por Allan Kardec. In:
WULFHORST, I. (org.). Espiritualismo/espiritismo: desafios para a Igreja na América Latina. São
Leopoldo: Sinodal; Genebra: Federação Luterana Mundial, 2004. p.55-58.

BACH, J. M. Consciência e identidade moral. Petrópolis: Vozes, 1985.

BECK, N. (coord.). As origens da Universidade Luterana do Brasil. Canoas: Ed. da ULBRA, 1994.

BECK, N. Igreja, sociedade & educação - estudos em torno de Lutero. Porto Alegre: Concórdia Editora
Ltda., 1988.

BUDISMO. Disponível em: <http://www.rigdjed.hpg.ig.com.br>. Acesso em: 15 maio 2002.

BUONARROTI, M. O Juízo Final. 1536-1541. 1 afresco: color.; 1370 x 1220 cm. Capela Sistina, Vaticano,
1536-1541. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ju%C3%ADzo_Final_(Michelangelo)>. Acesso
em: 25 jun. 2007.

CINTRA, R. Candomblé e umbanda: o desafio brasileiro. São Paulo: Paulinas, 1985.

CLARET, M. (coord.). O pensamento vivo de Buda. São Paulo: Martin Claret Editores, 1985.

COLLINS, G. R. Aconselhamento cristão. São Paulo: Vida Nova, 1995.

CONFUCIONISMO. Disponível em: <http://www.encarta.msn.com>. Acesso em: 20 maio 2005.

CORRÊA, N. O batuque no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 1992.

DREHER, M. N. Lutero, teólogo para a universidade. In: Fórum ULBRA de Teologia. Canoas: Ed. da
ULBRA, 2004. v.l.

EL GRECO. Pentecostes. 1596-1600. 1 óleo sobre tela: color.; 275 x 127 cm. Museo del Prado, Madrid,
disponível em: <http://www.fotos.org/galeria/showphoto.php/photo/13095>. Acesso em: 25 jun. 2007.

ENCICLOPÉDIA ABRIL. São Paulo: As grandes religiões, 1973. 5v. Cultura Religiosa 270 FORELL, G. W.
Ética da decisão. 3.ed. São Leopoldo: Sinodal, 1983.

FREITAS, B. et al. Cultura umbandística. São Paulo: ícone, 1994.

GAARDER, J.; HELLERN, V.; NOTAKER, H. O livro das religiões. São Paulo. Companhia das Letras, 2000.

GALVÃO, A. M. Ética cristã e compromisso político. São Paulo: AM Edições, 1996.

GUIMARÃES, E. R.; LIMA, A. S. M. de. Universidade de umbanda. 2.ed. Rio de Janeiro: Erca, 1992.

HAMIDULLAH, M. Introdução ao islam. Rio de Janeiro: Sociedade Beneficente Muçulmana, [s.d.].

HEIMANN, L. Diferencial teológico na ULBRA Confessional. In: ULBRA - Universidade Confessional.


Canoas: Ed. da ULBRA, 2000.

HEIMANN, T. Cultura religiosa. Polígrafo não publicado, [s.d.].


19
HERTZBERG, A. Judaism. New York: George Braziller, 1962.
3
HOFFMANN, M. L. Cultura religiosa. Polígrafo não publicado, [s.d.].

HOLL, K. The Reconstruction of Morality. Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1979.

HONER, S. M.; HUNT, T. C. Invitation to Philosophy. Califórnia: Wadsworth Publishing Company, 1973.

HORTA, C. L. et al. A religiosidade e suas interfaces com a medicina, a psicologia e a educação. Psiquiatria
na prática médica, Pelotas.

Disponível em: <http://www.unifesp.br/dpsiq/polbr/ppm/especial07.htm>. Acesso em: 02 jun. 2007.

JAHSMANN, A. H. Filosofia luterana da educação. Porto Alegre: Concórdia, 1987.

JAMES, E. O. Historia de Las Religiones. Madrid: Alianza Editorial, 1990.

JORNAL ZERO HORA. Porto Alegre, Caderno Donna, 12 set. 1999.

____. Porto Alegre, Caderno Vida, 16 dez. 2000.

____. Porto Alegre, 11 abr. 2004.

KARDEC, A. Fundamentos do espiritismo. São Paulo: Atheneu Cultura, 1994.

KONRAD, O. M. Apostila de Cultura Religiosa. Polígrafo não publicado, [s.d.].

KUCHENBECKER, V. (coord.). O homem e o Sagrado. 5.ed. Canoas: Ed. da ULBRA, 1998.

KUHN, A. Caderno Universitário - Cultura Religiosa. Polígrafo não publicado, 2003.

LIPPMANN, W. The Public Philosophy. New Haven: Yale University Press, 1947.

LUCCHESI, M. (coord.). Caminhos do islã. Rio de Janeiro: Record, 271, 2002.

LUIZETTO, F. Reformas religiosas. São Paulo: Contexto, 1989.

MAUCH, C.; VASCONCELOS, N. Os alemães no Sul do Brasil: cultura, etnicidade e história. Canoas: Ed.
da ULBRA, 1994.

MELO, I. As muitas formas de entender Jesus. Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 11 abr. 2004.

O BOM pastor. [4—]. 1 mosaico: color. Mausoléu de Gala Placídia, Ravena, disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_paleocrist%C3%A3>. Acesso em: 25jun. 2007.

OROPEZ, B. J. 99 perguntas sobre anjos, demônios e batalha espiritual. São Paulo: Mundo Cristão, 2000.

OSHIMA, H. O pensamento japonês. São Paulo: Escuta, 1991.

PIAZZA, W. O. Religiões da humanidade. 3.ed São Paulo: Edições Loyola, 1996.

PURTILL, R. L. Thinking about ethics. New Jersey: Prentice-Hall, 1976.

RENOV, L. Hinduism. New York: George Braziller, 1962.

REVISTA ÉPOCA. São Paulo: Globo, 28 abr. 2003.

REVISTA ISTO É. São Paulo: Três Editorial, 1° out. 2003.

REVISTA VEJA. São Paulo: Abril, 08 dez. 1999.

____. São Paulo: Abril, n.30, 31 jul. 2002.

ROHMANN, C. O livro das ideias. 4.ed Rio de Janeiro: Campus, 2000.

RUDNICK, M. L. Ética cristã para hoje. 2.ed Rio de Janeiro: Juerp, 1991.

SANZIO, R. Papa Leão X com os cardeais Júlio de Mediei e Luigi de Rossi. 1518-1519. 1 óleo sobre
madeira: color.; 154 x 119 cm. Galleria degli Uffizi, Florença, detalhe. Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Le%C3%A3o_X>. Acesso em: 25 jun. 2007.

SHOJI, R. Uma perspectiva analítica para os convertidos ao budismo japonês no Brasil. Disponível em:
<http://www.pucsp.br/rever/>. Acesso em: 15 jul. 2002.

SIAT, J. Religiões monoteístas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.


194
SILVA, P. W. da. Ética cristã. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1987.

SILVA, W. W. da M. E. Umbanda: sua eterna doutrina. São Paulo: ícone, 1998.

SJLENDER, V. Caderno Universitário - Cultura Religiosa. Polígrafo não publicado, [s.d.].

SMITH, H. As religiões do mundo. São Paulo: Cultrix, 1991.

SNELLING, J. The Buddhist Handbook. Rochester: Inner Traditions, Cultura Religiosa 272 1991.

STEYER, W. O. Os imigrantes alemães no Rio Grande do Sul e o luteranismo. Porto Alegre: Singulart,
1999.

STRECK, D. R. (org.). Educação e Igrejas no Brasil. São Leopoldo: IEPG, 1995.

TARANTINO, M. Perdoar é humano. Revista Isto É, São Paulo, 08 jan. 2003.

THE ENCYCLOPEDIA OF EASTERN PHILOSOPHY AND RELIGION. Boston: Shambhala, 1994.

TOURNIER, P. Culpa e graça: uma análise do sentimento de culpa e o ensino do evangelho. São Paulo:
ABU, 1985. UMBANDA. Disponível em: <http://www.formigaonline.com.br/>. Acesso em: 31 ago. 2004.

____. Disponível em: < http://www.umbandaracional.com.br/>. Acesso em: 31 ago. 2004.

VALEA, E. A Comparative Analysis of the Major World Religions from a Christian Perspective.
Disponível em: <http://www.comparativereligion.com/>. Acesso em: 24 mar. 2004.

VELASCO, J. M. Introducción a la Fenomenologia de la Religión. 5.ed Madrid: Ediciones Cristiandad,


1993.

ZAEHNER, R. C. El Cristianismo y las Grandes Religiones de Ásia. Barcelona: Editorial Herder, 1967.

WALKER, W. História da Igreja Cristã. São Paulo: Aste, 1967. 2v.

WARTH, C. H. Crônicas da Igreja. Porto Alegre: Concórdia, 1979.

WARTH, M. C. A ética de cada dia. Canoas: Ed. da ULBRA, 2002.

WEGNER, U. Demônios, maus espíritos e a prática exorcista de Jesus segundo os Evangelhos. In:
WULFHORST, I. (org.). Espiritualismo/espiritismo: desafios para a Igreja na América Latina. São
Leopoldo: Sinodal; Genebra: Federação Luterana Mundial, 2004.

WIDENGREN, G. Fenomenologia de la Religión. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1976.

WINTER, G. Social Ethics. New York: Harper & Row Publishers, 1968.

ZIMPEL, R. Fenômenos espirituais: a visão da psiquiatria. In: WULFHORST, I. (org.).


Espiritualismo/espiritismo: desafios para a Igreja na América Latina. São Leopoldo: Sinodal; Genebra:
Federação Luterana Mundial, 2004.