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Trabalhismo Brasileiro

José Augusto Ribeiro


TrabalhismoBrasileiro
As origens do Trabalhismo Brasileiro 11
João Goulart
Fundação Leonel Brizola - Alberto Pasqualini

AS ORIGENS DO
TRABALHISMO
BRASILEIRO
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José Augusto Ribeiro


Jornalista e historiador
Membro do Diretório Nacional e Estadual do PDT-RJ.
AS ORIGENS DO TRABALHISMO BRASILEIRO

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Michele França
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A Revolução de 30 em
marcha na sua passagem por
Ponta Grossa - Paraná
Apoio Popular

As origens do Trabalhismo Brasileiro 7


José Augusto Ribeiro
Jornalista e historiador
Membro do Diretório Nacional e Estadual do PDT-RJ

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Sumário

PARTE III

As leis trabalhistas eram fascistas?

1. Da revolução ao governo 12

2. Por que um Ministério do Trabalho? 19

3. As primeiras leis trabalhistas 29

4. Um balanço da atuação do Ministério 38


10 As origens do Trabalhismo Brasileiro
PARTE III
As leis trabalhistas
eram fascistas?
Da revolução ao governo
Por que um Ministério do Trabalho?
As primeiras leis trabalhistas
Um balanço da atuação do Ministério

Getulio Vargas, Presidente da República

As origens do Trabalhismo Brasileiro 11


1. Da revolução ao governo
A eleição presidencial foi realizada no dia 1º de março e, em virtude da fraude e de outros fatores
já mencionados, seguida da revolução, cujas operações militares tiveram início no fim da tarde de 3
de outubro, simultaneamente no Rio Grande do Sul e em Minas e depois no Nordeste. Em apenas três
semanas, a revolução estava militarmente vitoriosa e uma junta militar instaurada no Rio depôs e prendeu o
Presidente Washington Luís. Com o triunfo da revolução, Getúlio tomou posse da Presidência da República
com o título de Chefe do Governo Provisório.

Em seu discurso de posse, a 4 de novembro, ele anunciou, entre outras medidas, a criação do Ministério
do Trabalho.O discurso começa por uma avaliação do movimento revolucionário, na qual ele parece
acentuar não as possibilidades abertas pelo triunfo mas as responsabilidades impostas por ele.

- O movimento revolucionário - diz o novo Presidente da República (embora assuma o cargo com o título
mais modesto de Chefe do Governo Provisório) - foi a afirmação mais positiva que até hoje tivemos da nossa
existência como nacionalidade. Em toda a nossa história política não há, sob esse aspecto, acontecimento
semelhante. Ele é, efetivamente, a expressão viva e palpitante da vontade do povo brasileiro, afinal senhor
de seus destinos e supremo árbitro de suas finalidades coletivas.

Estará ele dizendo que sua revolução foi o acontecimento mais importante da
história política do Brasil? Mais importante que a república, que a abolição, que a
independência? Será que a vitória e o poder já lhe subiram à cabeça?
Não. O que ele quer dizer é que as
responsabilidades do governo provisório
são maiores porque a revolução foi um
movimento mais amplo. Em primeiro
lugar, porque a população do Brasil é hoje
muito maior que a dos anos da campanha

12 As origens do Trabalhismo Brasileiro


abolicionista e da propaganda republicana, meio século antes. Muito maior, também,
é a população urbana, politizada, alcançada pelos jornais, pelos debates parlamentares
e já agora pelo rádio. Já é expressiva, numerosa e, para alguns, temível, a massa
operária que se manifestou em São Paulo, na chegada de Vargas como candidato
à Presidência em 4 de janeiro. Era, como disse um jornal paulista, o “despertar das
massas”.
Além disso, e por isso, a revolução foi um movimento muito mais includente - não foi exclusivo de
determinados grupos:

- No fundo e na forma, a Revolução escapou, por isso mesmo, ao exclusivismo de determinadas classes.
Nem os elementos civis venceram as classes armadas, nem estas impuseram àqueles o fato consumado.
Todas as categorias sociais, de alto a baixo, sem diferença de idade ou de sexo, comungaram um idêntico
pensamento fraterno e dominador: a construção de uma Pátria nova, igualmente acolhedora para grandes
e pequenos, aberta à colaboração de todos os seus filhos.

Vargas conhece os preconceitos contra o Rio Grande, desde a Revolução Farroupilha e sua República
de Piratini, de 1835 a 1845, preconceitos realimentados, nos centros mais conservadores do país e em
suas regiões de agricultura dependente do trabalho escravo, como as do café e da cana de açúcar, pelo
desabrido abolicionismo dos republicanos gauchos, liderados por um grupo de ideólogos apresentados
como positivistas. Mas o velho Correio Paulistano percebera e denunciara logo que esse Getúlio Vargas,
Presidente do Rio Grande e líder dessa revolução, é de fato um comunista disfarçado... (No futuro, o Correio
e quem pense como ele não conseguirão explicar por que esse “comunista” disfarçado será tão acusado
de pendores fascistas e se converterá, em 1935, em alvo de um levante armado do Partido Comunista
destinado a derrubá-lo e, se necessário, matá-lo.)

Se a revolução quer realizar no conjunto do país a mesma obra de pacificação realizada por Vargas
no Rio Grande, como Presidente do Estado, é preciso desarmar tais prevenções. É preciso isolar os
fios desencapados que são as manifestações do Correio Paulistano, o mais fiel e radical intérprete do
pensamento mais profundo do reacionarismo ainda escravagista e ainda inconformado que foi buscar
refúgio e trincheira nos partidos republicanos provinciais antiabolicionistas.

As origens do Trabalhismo Brasileiro 13


Para essas correntes, o objetivo da revolução era humilhar São Paulo. Um jornal que acusava Getúlio
Vargas de ser comunista podia perfeitamente acreditar que o Rio Grande, não tendo conseguido, cem
anos antes, separar-se do Brasil para perpetuar sua República de Piratini, queria agora conquistar o Brasil
- e começaria pela invasão e pela humilhação de São Paulo.

Vargas mostra, então, defensivamente, em que circunstâncias o Rio Grande do Sul avançara além das
fronteiras de seu território:

- O Rio Grande do Sul, ao transpor suas fronteiras rumo a Itararé, já trazia consigo mais de metade do
nosso glorioso Exército.

Não havia, portanto, uma intenção do Rio Grande de invadir e humilhar São
Paulo. Não houve ocupação militar de São Paulo, embora alguns comunicados
se referissem a isso. Tanto que, sem qualquer oposição, os trens, primeiro de João
Alberto e depois de Vargas e Góis Monteiro, atravessaram rapidamente o território de
São Paulo, sem qualquer oposição ou ato hostil, passando por cidades históricas como
Itapetininga e Sorocaba, até chegarem à cidade de São Paulo, onde Getúlio Vargas
teria uma acolhida consagradora, maior talvez que a de 4 de janeiro de 1930.

14 As origens do Trabalhismo Brasileiro


- Por toda parte, como, mais tarde, na Capital da República - lembra ele no discurso - a alma popular
confraternizava com os representantes das classes armadas, em admirável unidade de sentimentos e
aspirações. Realizamos, pois, um movimento eminentemente nacional.

As forças que assumiram o controle de comandos militares em São Paulo não


eram forças gaúchas invasoras, eram forças nacionais, que se limitavam a substituir
comandantes fiéis à situação deposta por novos comandantes, comprometidos com a
revolução.
Defendendo, a seguir, sua atitude diante da Junta Militar, Vargas diz:
- Quando, nesta cidade, as forças armadas e o povo depuseram o Governo Federal, o movimento
regenerador já estava, virtualmente, triunfante em todo o país. A Nação, em armas, acorria de todos os
pontos do território pátrio. No prazo de duas ou três semanas, as legiões do Norte, do Centro e do Sul
bateriam às portas da Capital da República.

Esse prazo, talvez calculado pelo coronel Góis Monteiro, com seu costumeiro realismo, com certeza
seria menor na prática. Antes mesmo da deposição de Washington Luís, tropas governistas debandavam
e rendiam-se diante das forças revolucionárias que flanqueavam Itararé, preparando-se para o ataque
maciço afinal abortado pela suspensão das hostilidades. No que derrotassem as forças governistas em
Itararé, as colunas revolucionárias encontrariam caminho aberto até São Paulo, e caminho livre de São
Paulo ao Rio.

- Não seria difícil - prossegue Vargas - prever o desfecho dessa marcha inevitável. À aproximação
das forças libertadoras, o povo do Rio de Janeiro, de cujos sentimentos revolucionários ninguém poderia
duvidar, se levantaria em massa para bater, em seu último reduto, a prepotância inativa e vacilante.

- Compreendestes, Senhores da Junta Governativa, a delicadeza da situação e, com os vossos valorosos


auxiliares, desfechastes, patrioticamente, sobre o simulacro daquela autoridade claudicante o golpe de
graça... Integrastes definitivamente o restante das classes armadas na causa da Revolução... Poupastes à
Pátria sacrifícios maiores de vidas e recursos materiais e resguardastes esta maravilhosa Capital de danos
incalculáveis.

As origens do Trabalhismo Brasileiro 15


UM PROGRAMA DE 17 PONTOS

Para alguns participantes desses episódios e alguns comentaristas posteriores, os revolucionários


ficaram profundamente decepcionados com a perda da oportunidade de entrarem no Rio combatendo e
completando a marcha vitoriosa iniciada em Porto Alegre. Dizer isso, porém, é esquecer que, chamado a
marcar a data definitiva da revolução, Vargas condicionou sua resposta à viagem ao Rio de um emissário
encarregado de propor aos chefes militares menos hostis à revolução que eles fizessem o que acabaram
fazendo, ou seja, depor Washington Luís para antecipar o fim dos combates.

Todas essas explicações do discurso são uma espécie de depoimento prévio que fica para a história -
pois não pode haver a menor dúvida, na cabeça de Vargas, de que suas atitudes e decisões entrarão logo
em julgamento.

Dadas essas explicações, que valerão também para a posteridade, ele diz que é preciso “refletir
maduramente sobre a obra de reconstrução que nos cumpre realizar”:

- O trabalho de reconstrução, que nos espera, não admite medidas contemporizadoras. Implica o
reajustamento social e econômico de todos os rumos até aqui seguidos... Precisamos, por atos e não por
palavras, cimentar a confiança da opinião pública no regime que se inicia.

Ele anuncia, então, um programa de 17 pontos, que não chegam a esgotar as propostas da plafatorma
da Aliança Liberal, apresentada em janeiro, mas são o ponto de partida para sua realização:

1 - Concessão de anistia - [a mesma anistia que era esperada pelo menos desde novembro de 1926, quatro
anos antes, no momento da posse de Washington Luís. Na esperança de que ela fosse concedida, e para dar
condições a Washington Luís de propô-la, a Coluna Prestes encerrou a luta e internou-se na Bolívia no início de
1927].
2 - Saneamento moral e financeiro, extirpando ou inutilizando os agentes de corrupção...
3 - Difusão intensiva do ensino público, principalmente técnico-profissional, estabelecendo, para isso, um
sistema de estimulo e colaboração direta com os Estados. Para ambas as finalidades, justificar-se-ia a criação de
um Ministério da Instrução e da Saúde Pública, sem aumento de despesas.
4 - Instituição de um Conselho Consultivo, composto de inidividualidades eminentes, sinceramente integradas
na corrente das idéias novas,
5 - Nomeação de comissões de sindicância, para apurarem a responsabilidade dos governos depostos e seus
agentes, relativamente ao emprego dos dinheiros públicos.
6 - Remodelação do Exército e da Armada, de acordo com as necessidades da defesa nacional.

16 As origens do Trabalhismo Brasileiro


7 - Reforma do sistema eleitoral, tendo em vista, precipuamente, a garantia do voto.
8 - Reorganização do aparelho judiciário, no sentido de tornar uma realidade a independência moral e material
da magistratura, que terá competência para conhecer do processo eleitoral em todas as suas fases. [Com essa
ampliação das atribuições da Justiça, o Congresso não teria mais a prerrogativa de degolar mandatos, por meio
da qual os governos da República Velha mantinham os dissidentes longe do poder.
9 - Feita a reforma eleitoral, consultar a Nação sobre a escolha de seus representantes, com poderes amplos
de constituintes, a fim de procederem à revisão do Estatuto Federal, melhor amparando as liberdades públicas e
individuais e garantindo a autonomia dos Estados contra as violações do governo central.
10 - Consolidação das normas administrativa, com o intuito de simplificar a confusa e complicada legislação
vigorante, bem como de refundir os quadros do funcionalismo, que deverá ser reduzido ao indispensável,
suprimindo-se os adidos e os excedentes.
11 - Manter uma administração de rigorosa economia, cortando todas as despesas improdutivas e suntuárias -
único meio eficiente de restaurar nossas finanças e conseguir saldos orçamentários reais.
12 - Reorganização do Ministério da Agricultura, aparelho, atualmente, rígido e inoperante, para adaptá-lo às
necessidades do problema agrícola brasileiro.
13 - Intensificar a produção pela policultura e adotar uma política internacional de aproximação econômica,
facilitando o escoamento de nossas sobras exportáveis.
14 - Rever o sistema tributário, de modo a amparar a produção nacional, abandonando o protecionismo
dispensado às indústrias artificiais, que não utilizam matéria prima do país e mais contribuem para encarecer a
vida e fomentar o contrabando.
15 - Instituir o Ministério do Trabalho, destinado a superintender a questão social, o amparo e a defesa do
operariado urbano e rural.
16 - Promover, sem violência, a extinção progressiva do latifúndio, protegendo a organização da pequena
propriedade, mediante a transferência direta de lotes de terras de cultura ao trabalhador agrícola, preferentemente
ao nacional, estimulando-o a construir com as próprias mãos, em terra própria, o edifício de sua prosperidade.
17 - Organizar um plano geral, ferroviário e rodoviário, para todo o país, a fim de ser executado gradualmente,
segundo as necessidades públicas, e não ao sabor de interesses de ocasião.

- Como vedes - diz Vargas depois de expor esses 17 pontos - temos vasto campo de ação, cujo
perímetro pode ainda alargar-se em mais de um sentido, se nos for permitido desenvolver o
máximo de nossas atividades.

Quem ouvisse esse discurso, tão sóbrio, e prestasse atenção no programa de 17 pontos
exposto pelo novo Presidente, não poderia imaginar que ali começava outra revolução, muito
maior que aquela ali encerrada.

As origens do Trabalhismo Brasileiro 17


Getulio Vargas

18 As origens do Trabalhismo Brasileiro


2. Por que um Ministério
do Trabalho ?
No mesmo discurso de posse, a 4 de novembro de 1930, no
qual anunciara a próxima criação do Ministério do Trabalho, Getúlio
anunciou também a criação do Ministério da Educação. A questão do
trabalho e a da educação estavam intimamente ligadas, no espírito de
Getúlio, à totalidade de sua herança política, e com essa questão ele
assumira compromissos explícitos na campanha presidencial.

Por essas decisões, cuja importância ninguém discute hoje,


ele foi muito acusado na época, sob a alegação de que criava os
dois ministérios para dar abrigo, num caso, a um protegido do ex-
Governador do Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros (o Ministro do
Trabalho Lindolfo Collor), e, no outro, a um protegido do ex-Governador
de Minas, Antonio Carlos, e do novo Governador, Olegário Maciel
(Francisco Campos, Ministro da Educação).

Se conseguissem libertar-se, por um instante, do preconceito (e


da preguiça), os acusadores encontrariam sem dificuldade o que,
sobre a criação desses dois Ministérios, o próprio Getulio diria em sua
mensagem de prestação de contas à Assembléia Nacional Constituinte
eleita em maio de 1933.

Nessa mensagem, lida na sessão de instalação da Assembléia, no


dia 15 de novembro desse ano, Getúlio criticava com veemência o
Império e a República Velha, por sua conduta sistematicamente omissa
diante das questões do trabalho e da educação no Brasil.

As origens do Trabalhismo Brasileiro 19


O Império, dizia Getúlio, recusou-se sempre a enfrentar o problema do trabalho servil. Quando teve de
abolir a escravidão, pela Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, foi porque não conseguiria adiar mais uma vez
um desfecho – tanto que o Brasil conquistou o privilégio humilhante de ser o último país dito civilizado a
proibir o trabalho escravo. O Haiti, para nós tão atrasado e selvagem, fizera sua abolição em 1794, quase
cem anos antes.

Pressionado pela Inglaterra, que controlava a economia brasileira, o Império


proibira o tráfico negreiro. Se não o proibisse, a Inglaterra, senhora e rainha dos mares,
apresaria em alto mar ou mesmo em nossas costas os navios carregados de escravos
e destinados ao Brasil. e sua carga.
A Inglaterra não fazia isso por pretender-se a vanguarda da civilização e dos direitos humanos, mas
por interesse econômico. Ela estava no lado lucrativo da coação da história denunciada por Getúlio já
em 1906: ela comprava, cada vez mais baratos, produtos primários brasileiros, agrícolas e minerais; e
vendia ao Brasil, cada vez mais caros, produtos industrializados, que iam de enxadas a tecidos, de louça
a locomotivas. Para que o Brasil pudesse comprar mais artigos ingleses, era preciso que aumentasse seu
mercado interno, sua população consumidora - da qual os escravos não faziam parte. Impedido o tráfico
negreiro, o Brasil teria de importar trabalhadores livres, emigrantes, que não comprariam locomotivas, mas
comprariam roupa e viajariam de trem.

Antes da Abolição, o parlamento imperial brasileiro votara, pressionado pela campanha abolicionista,
duas leis que pretendiam reduzir, mas apenas prolongariam a escravidão - e dariam mais vantagens aos
senhores que aos escravos.

A primeira foi a Lei do Ventre Livre. Ela emancipava, ao nascerem, os filhos da mulher escrava. Com os
avanços da campanha abolicionista e a escravidão notoriamente no fim, não valia a pena sustentar bebês
escravos que não chegariam a trabalhar para pagar a roupa, o teto e até mesmo o leite do seio materno,
propriedade, em certo sentido, do dono dessa mãe.

20 As origens do Trabalhismo Brasileiro


A segunda seria a Lei dos Sexagenários, que emancipava automaticamente os escravos chegados
à idade de 60 anos. Foi uma boa ajuda ... aos senhores, que não mais teriam de garantir o sustento aos
escravos velhos e menos prestantes no trabalho.

Não que faltassem propostas ou fórmulas para a abolição. Por exemplo, as de José Bonifácio, o grande
cérebro e o grande homem de ação da independência do Brasil. Entre as propostas de José Bonifácio, é
preciso registrar desde logo a de instalação obrigatória de aulas públicas em todas as vilas e cidades e de
ginásios em todas as capitanias (depois províncias e hoje Estados) – proposta mencionada expressamente
por Getúlio na mensagem à Assembléia Constituinte. Essa proposta é, sem dúvida, precursora da política
educacional do primeiro governo Vargas.

As origens do Trabalhismo Brasileiro 21


TRABALHO E EDUCAÇÃO, OS DOIS
MAIORES PROBLEMAS

Na mensagem que leu na sessão de instalação da Assembléia Nacional


Constituinte, a 15 de novembro de 1933, Getúlio retoma o fio da história no
ponto em que fora deixado por José Bonifácio em 1823, e refere-se aos
problemas do trabalho e da educação como duas heranças negativas legadas
pelo Império à República:

- O problema da escravatura, encerrando o da organização do trabalho,


fundamental para o nosso desenvolvimento econômico, não teve a solução
que mais convinha. Retardada, procrastinada, erigida em ponto nevrálgico da
existência do regime, atuou até como fator de perturbação, pela forma brusca
e pelo ambiente de exaltação política em que se operou a substituição do
trabalho escravo pelo trabalho livre.

- A campanha abolicionista foi, indiscutivelmente, um de


nossos grandes movimentos de opinião. Empolgou totalmente
o país, numa solidariedade admirável de todas as suas
forças espirituais. Vitoriosa, os resultados surpreenderam,
entretanto, aos seus próprios paladinos. Os centros produtores,
principalmente os da exploração agrícola, cairam em colapso,
ante a desordem e o êxodo das massas trabalhadoras, entregues
repentinamente à inexperiência da liberdade. Dominados pela
idéia generosa, os pró-homens do abolicionismo não haviam
cogitado sequer do que convinha e cumpria fazer dos escravos
libertados.

22 As origens do Trabalhismo Brasileiro


As origens do Trabalhismo Brasileiro 23
- Se o problema do trabalho escravo teve solução, ainda que defeituosa e tardia, o mesmo não aconteceu
com o da educação popular, quase completamente esquecida até no seu aspecto mais elementar, o ensino
primário.

Getúlio, em seguida, refere-se ao projeto de Constituição de José Bonifácio e seu irmão Antônio Carlos:

- No projeto de Constituição de 1823 fora ele [o problema da educação popular]


encarado de frente e praticamente, estabelecendo-se a criação obrigatória de aulas
públicas nos termos e liceus nas sedes de todas as comarcas. A Constituição outorgada
[em janeiro de 1824, por D. Pedro I, após o golpe do fechamento da Constituinte em
novembro de 1823] eliminou, porém, essa sábia disposição, que, adotada e cumprida,
teria pelo menos evitado os males do analfabetismo.
- Em resumo, o Império encerrou sua atividade deixando insolúveis os dois maiores problemas nacionais:
o da organização do trabalho livre e o da educação.

Se pudesse haver dúvidas, essa referência expressa confirma o vínculo entre as idéias de Getúlio, em
1930, e as de José Bonifácio mais de cem anos antes.

Na segunda parte da mensagem, ao tratar das atividades de cada um dos ministérios do governo
provisório, Getúlio retoma o tema da educação:

- Ao balancear, na primeira parte desta mensagem, as realizações do regime monárquico, deixei


acentuado que o país, depois de meio século de vida política independente, estava ainda com dois
problemas capitais de sua organização para resolver: o trabalho e a educação...

- Todas as grandes nações, assim merecidamente consideradas, atingem nível superior de progresso
pela educação do povo... Nesse sentido, nada temos feito de orgânico e definitivo... Convençamo-nos de
que todo brasileiro poderá ser um homem admirável... Para isso conseguirmos, há um só meio, uma só
terapêutica, uma só providência: é preciso que todos os brasileiros recebam educação.

24 As origens do Trabalhismo Brasileiro


O EXEMPLO DO JAPÃO

O que José Bonifácio propusera, desde seus dias de Coimbra até a Constituinte de 1823, tinha sido
realizado, depois de José Bonifácio, não no Brasil, mas no Japão. Getúlio diz:

- Relembrai o exemplo do Japão. O Imperador Matuzahito, certo dia, baixou um édito determinando
“fosse o saber procurado no mundo, onde quer que existisse, e a instrução difundida de tal forma que
em nenhuma aldeia restasse uma só família ignorante e que os pais e irmãos mais velhos tivessem por
entendido que lhes cabia o dever de ensinar os seus filhos e irmãos mais moços”.

- O Imperador foi obedecido. O milagre da instrução, em pouco mais de quarenta anos, de 1877 a 1919,
fez com que a exportação e a importação do país centuplicassem; o Japão vencia a Rússia e entrava para
o rol das grandes potências.

Getúlio referia-se à chamada Restauração Meiji. O Japão isolara-se, desde a era


das grandes navegações, do avanço dos países europeus e, em seguida, dos Estados
Unidos, sobre a Ásia. Em meados do século 19, porém, tornara-se impossível manter
esse isolamento.
A POPULAÇÃO AUMENTA UM TERÇO AS MATRÍCULAS, TRÊS VEZES

De fato, o governo provisório obrigou toda a nação a mobilizar-se em torno de um grande programa
educacional. Na trilha do exemplo japonês, o governo provisório de Getúlio Vargas recorreria a todos os
seus poderes para promover essa mobilização.

Um decreto conhecido como o Código dos Interventores e destinado a regular os poderes e atribuições
dos Interventores nomeados para responder pelos governos estaduais, determinou que os Estados
empregassem 10%, no mínimo, das respectivas rendas na instrução primária, e deu a eles o poder de exigir
até 15% das receitas municipais para aplicação nos serviços de segurança, saúde e instrução pública,
quando por eles exclusivamente atendidos.

As origens do Trabalhismo Brasileiro 25


Getúlio não se limitou a exigir recursos dos Estados e municípios. Nos orçamentos de 1931 e 1932, o
governo federal destinaria 5,14% de suas verbas para o Ministério da Educação, quase o dobro das verbas
do Ministério da Agricultura (2,84%).1

A criação do Ministério da Educação e, principalmente, essa vinculação de recursos substanciais para


o ensino produziram mudanças revolucionárias.

Em 1931, de cada mil brasileiros aptos a estudar, 513, mais da metade, não chegavam a entrar na
escola. Dos 487 que entravam na escola, 110 matriculavam-se mas não frequentavam as aulas; 178
frequentavam-nas ao longo do primeiro ano, não chegando bem a ler; 85 frequentavam somente até o
segundo ano, alfabetizando-se muito superficialmente; 84 avançavam um pouco além, mas sem concluir
os estudos; e apenas 30 adquiriam integralmente a instrução elementar comum. Trinta brasileiros em mil
adquiriam, em 1931, a instrução elementar comum. Desses trinta, quantos frequentariam e concluiriam o
ginásio e quantos chegariam à universidade?

_______________________________________________________
1
Rosa Maria Barboza de Araújo, O Batismo do Trabalho, Rio, 1981, Civilização Brasileira, p. 71.

26 As origens do Trabalhismo Brasileiro



De 1930 para 1940, houve um salto quantitativo impressionante, que não pode deixar de ter sido também
um salto qualitativo. Os números desse salto são os que figuram nos recenseamentos nacionais. Como não
houve recenseamento em 1930, só é possível cotejar os dados de 1920 com os do recenseamento de 1940
– o que não altera muito as coisas se considerarmos a verdadeira estagnação social em que o Brasil viveu
nos anos anteriores à Revolução de 30.

Em 1920, o Brasil tinha 30 milhões de habitantes e um milhão de matrículas no ensino primário; ou


seja, a relação entre matrículas e população era de 3,4%. Em 1940, a população subira para 41 milhões
e as matrículas para 3 milhões: a população aumentara um terço, as matrículas, três vezes, e agora
correspondiam a 7,4% da população. É claro que esse aumento ocorreu, quase todo, depois de 1930.

No ensino secundário, os números eram igualmente expressivos. Em 1920, havia 109 mil matrículas
para 30 milhões de habitantes, 0,36%. Em 1940, com 41 milhões de habitantes, ou seja um aumento de
um terço na população, o número de matrículas subira para 260 mil, quase duas vezes e meia, ou 0,63%
da população.2

_______________________________________________________
2
Celso de Rui Besiegel, “Educação e Sociedade no Brasil”, em História Geral da Civilizção Brasileira, direção de Bóris Fausto, vol. 11, O Brasil Republicano/Economia
e Cultura (1930-1964), São Paulo, Difel, pp. 383-384.

As origens do Trabalhismo Brasileiro 27


Estatísticas mais recentes, citadas pelo brasilianista Stanley Hilton, mostram que essa revolução revelou-
se ainda maior, embora os esforços do governo fossem “severamente prejudicados” por dificuldades
orçamentárias:

- O número de estudantes por mil habitantes – escreve Stanley Hilton - cresceu de
50, em 1929, para 80 dez anos depois. A Revolução encontrou 28 mil escolas primárias
em todo o Brasil; até 1940, conseguiria um acréscimo de 14 mil [ou seja, um aumento
de 50% em dez anos]. A população que frequentava as escolas primárias aumentara em
75%, quando do início da guerra, em comparação com a de 1931; e o total de estudantes
inscritos em escolas de nível secundário aumentou de 90 mil para 227 mil...3

São percentuais quase inacreditáveis. Em dez anos, o número de escolas primárias cresceu 50%; o
número de estudantes por mil habitantes, 60%; a matrícula nas escolas primárias, 75%; e o total de alunos
do ensino secundário, 150%.

_______________________________________________________
3
Stanley Hilon, O Brasil e as Grandes Potências, Rio, 1977, Civilização Brasileira, p. 54.

28 As origens do Trabalhismo Brasileiro


3. As primeiras leis trabalhistas
Na opinião de Getúlio Vargas, exposta em sua mensagem à Assembléia Nacional Constituinte em
novembro de 1933, a Revolução de 30 tinha de iniciar o resgate de duas dívidas sociais, que a República
herdara do Império e este do Brasil-Colônia: a educação e o trabalho.

O Império, ao desmoronar, dizia Getúlio, deixara intacta a questão do trabalho, porque a escravidão
chegara até as portas da República e o trabalho livre permanecera sem qualquer organização. A Primeira
República também não se preocupara com isso e sua Constituição, votada em 1891, limitou-se a garantir
o livre exercício de qualquer profissão. Só em 1926, 35 anos depois, uma emenda constitucional permitiu
que o Congresso votasse leis trabalhistas.

- Cristalizara-se – diz Getúlio - a mentalidade política ... que julgava o problema operário, no Brasil,
simples caso de polícia... No terreno da organização do trabalho, estava tudo por fazer. A Revolução teve

As origens do Trabalhismo Brasileiro 29


de começar pela providência inicial: a criação do órgão governamental incumbido da importante tarefa, o
Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio.

O Ministério do Trabalho foi criado por decreto de 26 de novembro de 1930, menos de um mês depois da
instalação do governo provisório. Com sua criação e, em seguida, com a aprovação das leis de proteção
ao trabalho e a instituição da Justiça trabalhista, Getúlio realizaria a segunda das grandes propostas de
José Bonifácio - a outra era a relativa à educação - e completaria o resgate da dívida social que o Império
transferiria à República.

A 12 de dezembro, menos de um mês depois da criação do Ministério, o governo


aprovaria a primeira de suas leis trabalhistas – a chamada Lei dos Dois Terços, ou
lei de nacionalização do trabalho.
EMPREGO PRIMEIRO PARA OS BRASILEIROS

O Brasil era um mercado de trabalho ainda muito pequeno, de poucos empregos para os próprios
brasileiros. Apesar disso praticava, não em seu interesse mas no de países estrangeiros, aos quais seus
governos anteriores não queriam desagradar, uma política de imigração indiscriminada e sem controle.

O resultado é que faltavam empregos para brasileiros perfeitamente aptos, em setores nos quais era
absoluto o predomínio do trabalhador estrangeiro. Isso não acontecia só em ocupações de alta qualificação
profissional, técnica ou mesmo científica: nos restaurantes, por exemplo, 80% de todos os empregos eram
ocupados por estrangeiros.

A Lei dos Dois Terços, diria o Ministro do Trabalho Lindolfo Collor em sua exposição de motivos, não
tinha por objetivo forçar o desemprego de estrangeiros e sim garantir a preferência legal para os brasileiros.
Nem se tratava de uma lei original.

- Todos os países cuidadosos de sua ordem social e de seu desenvolvimento econômico – acrescentava
o ministro – praticam a defesa de seu território contra invasões desordenadas de estrangeiros.

30 As origens do Trabalhismo Brasileiro


A lei estabelecia, como regra geral, que dois terços dos empregos, em qualquer empresa, deveriam
ser reservados a trabalhadores brasileiros. Salvo, é claro, o caso de empregos que exigissem qualificação
profissional, técnica ou científica de que pretendentes brasileiros não dispusessem.

Para que a lei não fosse acusada de xenofobia,a exposição de motivos citava a legislação semelhante
de mais de vinte países, entre os quais os Estados Unidos, a Alemanha, a França e a Inglaterra. E ainda
o documento “Regulamentação das Migrações”, do Bureau Internacional do Trabalho, precursor da atual
Organização Internacional do Trabalho, segundo o qual as restrições à imigração constituíam remédio
legítimo contra o desemprego. Cada país, além disso, tinha o direito de escolher os elementos que, por sua
qualificação, preenchessem as lacunas da mão-de-obra nacional.

Essa primeira lei criou alguns problemas de curto prazo e exigiu pequenas adaptações: depois
incorporou-se naturalmente aos hábitos da vida econômica e profissional do Brasil.

O regime de prioridade para o trabalhador nacional, vigente em todos os países - e com mais ferocidade
no mais rico de todos os tempos, os Estados Unidos - seria abalado no Brasil pelo arrastão neoliberal do fim
do século 20. Com a abertura comercial indiscriminada e descontrolada, passamos a exportar empregos
para os países produtores das mercadorias e componentes que comprávamos, naquilo a que se deu o
nome de a “farra dos importados” e ia de automóveis a brinquedos, de caviar a sucos de fruta, de canetas
a computadores.

Com as privatizações e o escancaramento da economia brasileira ao capital internacional, passamos


a receber grande número de funcionários estrangeiros das multinacionais agora controladoras de antigas
estatais e de empresas privadas desnacionalizadas. Esses estrangeiros passaram a desalojar brasileiros
de funções técnicas e até de empregos não-qualificados.

A LEI DOS SINDICATOS ERA FASCISTA?

A segunda lei trabalhista importante, a lei dos sindicatos, de 19 de março de 1931, é que estigmatizou
toda a legislação social da Revolução de 30, acusada de fascista e de ter sido inspirada na Carta del
Lavoro, o código trabalhista de Mussolini.

As origens do Trabalhismo Brasileiro 31


Teoricamente, a Lei dos Sindicatos reafirmava apenas o que estava numa lei
do início do século 20, que reconhecia o direito dos trabalhadores, de se organizarem
em associações representativas e incumbidas da defesa de seus interesses coletivos e
profissionais.
Na prática, ela ia muito mais longe. Ela estabelecia, por exemplo, o reconhecimento dos sindicatos
pelo Ministério do Trabalho, e previa a organização dos sindicatos, tanto de trabalhadores quanto de
empregadores, em federações profissionais, regionais ou nacionais, e em confederações nacionais.
Estabelecia também o princípio da unicidade sindical: em cada circunscrição territorial haveria apenas um
sindicato, de trabalhadores ou empregadores, de cada categoria profissional ou econômica.

Algumas semelhanças acidentais com a legislação italiana serviram, desde logo, para a tentativa de
estabelecer uma identificação ideológica entre essa lei e a Carta del Lavoro de Mussolini, embora a lei
brasileira tivesse mais semelhanças ou mais pontos de contacto com a legislação francesa, que de nenhum
modo poderia ser considerada fascista.

No início, só a Lei dos Sindicatos foi identificada com a Carta del Lavoro. Com o tempo, todas as leis
trabalhistas passariam a ser tratadas da mesma forma. Seria isso verdade?

Menos de um mês depois da investidura do governo provisório, o Ministério do Trabalho tinha sido criado
e começava a funcionar. O Ministro era o ex-deputado Lindolfo Collor, do Rio Grande, que se especializara,
como jornalista e parlamentar, em questões econômicas e financeiras.

Dos parlamentares que mais se tinham dedicado à luta pelos direitos trabalhistas, nenhum se destacara
mais que Maurício de Lacerda, deputado socialista pelo então Distrito Federal, que desde os anos dez
liderava esse debate na imprensa e na Câmara. Maurício de Lacerda mais tarde seria mais conhecido
como pai de Carlos Lacerda, mas em 1930 era mais famoso do que seria o filho. Num de seus livros, A
Evolução Legislativa do Direito Social Brasileiro, Maurício de Lacerda escreverá que foi convidado por

32 As origens do Trabalhismo Brasileiro


Getúlio para ser o primeiro Ministro do Trabalho, mas não aceitou.4

Esse convite talvez explique uma suposta demora de Vargas para aceitar o nome de Lindolfo Collor.
Maurício de Lacerda tinha mais experiência que ninguém para as tarefas que seriam conferidas ao Ministério
do Trabalho, mas com certeza era radical demais para as forças mais conservadoras que tinham apoiado
a Revolução.

Aceitando nomear Lindolfo Collor, Getúlio tomou a iniciativa – que Collor não rejeitou nem contestou – de
cercá-lo de especialistas nas questões do direito do trabalho. Os dois primeiros foram o socialista Joaquim
Pimenta e o também professor Evaristo de Morais, igualmente socialista.

Aos dois juntaram-se dois outros socialistas, ainda mais radicais, Carlos Cavaco e Agripino Nazaré, e
o industrial paulista Jorge Street, que não era socialista mas tinha assumido tais posições em defesa dos
direitos sociais que fora obrigado a deixar os postos de direção que exercia em entidades empresariais de
São Paulo.Lindolfo Collor ficou pouco tempo no Ministério
do Trabalho. Joaquim Pimenta permaneceu, trabalhando
como assessor jurídico com os sucessores de Collor, a
começar por Salgado Filho, o primeiro deles. Eis o balanço
que Joaquim Pimenta fez da ação do Ministério do Trabalho
no período entre a criação do Ministério, em novembro de
1930, e a instalação da Assembléia Nacional Constituinte,
em novembro de 1933:

- Basta ... considerar que, em três anos de governo


provisório, atingimos, nos domínios do Direito do Trabalho,
o mesmo nível de legislação de qualquer dos países
europeus ou americanos, culturalmente mais avançados
ou mais antigos do que o Brasil. O fato é tanto mais digno
de apreço, porque, até 1930 ... estávamos nós em um

_______________________________________________________
Lindolfo Collor
4
Maurício de Lacerda, A Evolução Legislativa do Direito Social Brasileiro, Rio, Nova Fronteira, 1980, página xxxii.

As origens do Trabalhismo Brasileiro 33


humilhante posto de retaguarda, ao lado, se não abaixo de nações que não ofereciam o mesmo nível
de progresso industrial, nem tão pouco as condições materiais de existência de que já dispunha o povo

brasileiro.5

Essas primeiras leis trabalhistas, especialmente a dos sindicatos, foram todas elaboradas por Joaquim
Pimenta, que, na lei dos sindicatos, contou com a colaboração de Evaristo de Morais. Como seriam fascistas
leis elaboradas por socialistas das convicções de Joaquim Pimenta e Evaristo de Morais?

No caso da lei dos sindicatos, temos ainda uma espécie de laudo técnico definitivo nos estudos do
professor Evaristo de Morais Filho, filho de Evaristo de Morais, que em seus livros faz críticas veementes ao
Presidente Vargas, mas ressalva ter essa lei muito mais identidade com a lei francesa correspondente que
com qualquer outra. A França não estava – longe disso – submetida a qualquer regime fascista.

No Brasil, os grupos de nosso espectro político mais aparentados com o fascismo, manifestaram-se
contra a Lei dos Sindicatos. Em ato público em Fortaleza, Ceará, com a presença do Ministro Lindolfo
Collor, o presidente da Legião Cearense do Trabalho, Severino Sombra (ele e ela precursores da futura
Ação Integralista), condenou a Lei de Sindicalização, porque ela proibia a pregação política nos sindicatos.6
Não só os grupos de extrema direita tomavam posição contrária à política trabalhista e especialmente às
leis de proteção ao trabalho do governo Vargas. No Rio Grande do Sul, foi assim, fato registrado por Rosa
Maria Barboza de Araújo:

– Se a oligarquia gaúcha fez algumas restrições ao Ministro Collor, estas se devem


menos às posições do Ministro do que as de seus assessores, cujo socialismo reformista,
como o de Joaquim Pimenta e Evaristo de Morais, ou o socialismo revolucionário,
proclamado por Carlos Cavaco, assusta os conservadores riograndenses.7

_______________________________________________________
5
Joaquim Pimenta, obra citada, p. 385.
_______________________________________________________
6
Rosa Maria Barboza de Araújo, O Batismo do Trabalho, a experiência de Lindolfo Collor, Rio, Civilização Brasileira, 1981, p. 82.

34 As origens do Trabalhismo Brasileiro


Afinal, há um último depoimento que deve ser registrado – o de Mario Pedrosa, um dos mais importantes
intelectuais da esquerda brasileira, integrante e líder de sua facção mais radical, o trotsquismo. Insuspeito
de condescendência com o Presidente Vargas, filiado em 1945 à UDN, a União Democrática Nacional, à
qual se associou iniciamente boa parte da esquerda antigetulista, Mario Pedrosa diria muitos anos depois,
em 1978, em entrevista ao Jornal do Brasil: - Nós, da esquerda, queríamos sindicatos livres da tutela
do Estado e combatíamos a nova lei. Mas não há dúvida de que existia um ponto positivo – ela garantia
os sindicatos contra invasões policiais, frequentes e comuns na época... Todos diziam que a nova lei
era fascista, mas no interior, se os sindicatos não recebessem as garantias que ela oferecia, não teriam
condições de sobrevivência.8

Como disse Joaquim Pimenta, os elaboradores dessa e outras leis trabalhistas do início do primeiro
governo Vargas não estavam preocupados com filigranas intelectuais, mas com os meios de garantir
efetivamente a organização e o funcionamento dos sindicatos.

O governo provisório da Revolução sabia-se efêmero e precisava ter certeza de que, depois, os sindicatos
não seriam fechados e proibidos, como tantas vezes antes – violência da qual Joaquim Pimenta fora vítima
pessoalmente em Pernambuco. Essa certeza dependia de mecanismos como aqueles estabelecidos na
Lei dos Sindicatos de 1931.

_______________________________________________________
7
Ibidem, p. 83.

_______________________________________________________
8
Ibidem, p. 152.

As origens do Trabalhismo Brasileiro 35


Em muitos lugares – dirá Leonel Brizola muito tempo depois – a abertura e o
funcionamento de sindicatos só se tornaram possíveis com o apoio do Exército, contra a
violência de governos e polícias estaduais, de prefeitos e empregadores e até de autoridades
religiosas.
Como escreveu um autor insuspeito de qualquer parcialidade a favor do Presidente Vargas, Leôncio
Martins Rodrigues, a ação do Ministério do Trabalho favoreceu a rápida multiplicação dos sindicatos.

- Tomando por base o ano de 1930, o numero de sindicatos


aumentou mais de três vezes até 1939. A tendência foi a formação
de sindicatos fora da área do Rio e São Paulo, que contava, em 1934,
com 44% do total de sindicatos, passando para 21% em 1939. A
ação governamental favoreceu a criação de sindicatos nas regiões
mais atrasadas do país. Em 1945, no final do Estado Novo, existiam
no Brasil 873 sindicatos de empregados registrados no Ministério do
Trabalho.9

Mais que a lei dos sindicatos em si, a ação do governo provocou reações que retardaram a decretação
das demais leis trabalhistas em estudo no Ministério. Seria, aliás, inútil decretar uma lei atrás de outra,
numa verdadeira enxurrada, sem condições de fazer cumprir cada uma delas. A lei dos dois terços fora
quase uma decisão de emergência, para atenuar a crise de emprego e para sinalizar a determinação do
governo provisório quanto a seus compromissos diante da questão social finalmente reconhecida. A lei dos
sindicatos abriu caminho para as leis trabalhistas que viriam depois.

AS LEIS DA PREVIDÊNCIA

Enquanto os sindicatos se organizavam e registravam, o Ministério do Trabalho cuidava de sua própria


organização e o grupo de consultores e assessores liderado por Evaristo de Morais e Joaquim Pimenta
discutia e elaborava os projetos que deveriam converter-se nas leis seguintes.

_______________________________________________________
9
Leôncio Martins Rodrigues, “Sindicalismo e Classe Operária”, em História Geral da Civilização Brasileira, direção de Bóris Fausto, São Paulo, Difel, 1986, vol. 10, O
Brasil Republicano / Sociedade e Política (1930-1964), p. 528.

36 As origens do Trabalhismo Brasileiro


De todas elas, só foi aprovada ainda
na gestão de Lindolfo Collor a chamada
Lei das Caixas, a principal de um conjunto
de leis de reorganização e ampliação do
pouco de previdência social que existia
no Brasil. Decretada em outubro de 1931,
ela foi precedida de nove leis menores
e preparatórias, assinadas a partir de
dezembro de 1930, para viabilizar as
mudanças maiores que viriam em seguida.

A primeira permitia que os recursos


das caixas de aposentadorias e pensões
já existentes – e limitadas a poucas
categorias profissionais, praticamente só os ferroviários e os portuários – fossem aplicados também na
construção de casas para os associados, desde que com suficientes garantias hipotecárias.

A segunda, também de dezembro de 1930, apenas um mês e meio depois da instalação


do governo provisório, estendia ao pessoal dos serviços de força, luz, bondes e telefones,
tanto estatais como privados, os benefícios das caixas de aposentadorias e pensões, até
então restrito ao pessoal das ferrovias e dos portos. Esse decreto não só ampliava o
sistema das caixas como impedia que empregados com mais de dez anos de serviço
fossem despedidos sem inquerito administrativo que provasse a ocorrência de falta
grave. Era o primeiro passo substancial para para a estabilidade no emprego, que
depois as leis trabalhistas estenderiam a todos os trabalhadores.
A discussão das questões da previdência não se limitou à assessoria do Ministério do Trabalho, mas foi
levada a uma grande comissão, cujos debates eram diários e publicados pelos jornais. Mais de setecentas
emendas, procedentes de todas as regiões do país, chegaram à comissão e muitas foram aproveitadas.

Assinada a 1º. de outubro de 1931, a nova Lei das Caixas de Previdência tratava especialmente dos

As origens do Trabalhismo Brasileiro 37


recursos financeiros das Caixas, resultantes da contribuição dos associados ativos, ou seja os trabalhadores
e empregados, proporcionalmente ao salário de cada um, dos associados aposentados e das empresas,
à base de 1,5% de sua receita bruta (mas a contribuição da empresa não poderia ser inferior ao total
arrecadado de seus empregados). O governo também contribuiria, com fundos provenientes do aumento
das tarifas dos serviços públicos a que estivessem vinculadas as caixas. Essas receitas seriam aplicadas
exclusivamente em titulos federais, no financiamento da casa própria e na compra de sede própria das
caixas.

Aos 50 anos de idade e 30 de serviço efetivo, os associados teriam direito à


aposentadoria, correspondente a 70 a 100% da média dos salários dos três ultimos anos.
A pensão para a família do trabalhador ou do aposentado morto corresponderia
à metade da aposentadoria. A lei garantia também aos empregados das empresas
ligadas a cada Caixa a estabilidade no emprego após dez anos de serviço, salvo caso de
falta grave, apurada em inquérito.

4. Um balanço da atuação do Ministério


Ao fim do primeiro ano da Revolução de 1930, no dia 3 de outubro de 1931, Getúlio leu, no Teatro

38 As origens do Trabalhismo Brasileiro


Municipal do Rio, um longo manifesto em que historiava os acontecimentos desse período.
Ele começou dizendo:

- Após um ano de governo, marcado dia a dia, por tenaz esforço, visando normalizar a vida do país ...
o povo já pode compreender a impossibilidade de transformar, de momento, em paradigma de ordem e
prosperidade, uma situação confusa e ruinosa, agravada, ainda, pelo desequilíbrio econômico universal,
que não poupou, sequer, sólidas e velhas organizações...

- No primeiro aniversário da revolução redentora ... devemos recordar a magnitude do movimento


nacional que empolgou o país... Jamais, no Brasil, se verificou acontecimento cívico de maior extensão e
profundidade.

É um longo manifesto, que se detém em cada um dos setores do governo provisório. Sobre o Ministério
do Trabalho, Getúlio diz:

- Não exageraremos recordando que, para a mentalidade predominante no regime passado, o problema
operário, no Brasil, era simples questão de polícia. Em círculo de concepção tão estreita, não cabiam as
justas reivindicações proletárias, conquistas correntes que se haviam incorporado à legislação social
da maioria dos países civilizados. Garantias mínimas, quase universalmente outorgadas às classes
trabalhadoras, aqui ainda consistiam em vagas aspirações, algumas displicentemente consubstanciadas
em leis sem aplicação, outras, em maior número, de que o poder público absolutamente não cogitava.

Ele sempre pensara de forma diferente e em sua plataforma de candidato tinha declarado:

- Não se pode negar a existência da questão social no Brasil, como um dos problemas que terão de ser
encarados com seriedade pelos poderes públicos.

Na sequência, Getúlio recapitula o que dissera em janeiro de 1930 na plataforma da Aliança Liberal,
para, afinal, acrescentar:

- A criação deste Ministério [do Trabalho], com o programa que vem executando, além de cumprir
promessas solenemente feitas e obedecer aos imperativos da época, impunha-se ao governo provisório,
como o primeiro passo para a organização, no país, do trabalho, da indústria e do comércio, não somente

As origens do Trabalhismo Brasileiro 39


nas suas mútuas relações, como, também, no campo de ação que lhes compete. Iniciou-se, com ele, um
movimento que, no presente período de evolução social, não podia ser adiado, sob pena de ficarmos fora
de nosso tempo, como força inútil e sem medida na permuta universal de valores.

- A legislação que tem sido elaborada por intermédio dessa secretaria de Estado, com alto espírito de
conciliação, sem extremismos de escolas ... começa a produzir os primeiros frutos.

- Além das suas funções administrativas, que compreendem as questões do trabalho,


indústria, comércio, previdência social, estatística, imigração e colonização e do patrimônio
nacional, o novo Ministério iniciou trabalhos de legislação social e industrial cuja
importância seria inútil sublinhar.
O Ministério fora criado com o nome de Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, mas o conceito de
trabalho englobava também o de previdência. A indústria e o comércio ficaram ligadas a ele porque ainda
era cedo para a existência de um ministério próprio para elas, ministério que só seria instalado em 1961,
trinta anos depois, no início do governo Jânio Quadros. Além disso, era perfeitamente natural, naquele
momento, num país que se preparava para saltar de uma economia predominantemente agrícola para uma
economia industrial, associar o trabalho à indústria e ao comércio.

As questões de imigração e colonização foram subordinadas ao Ministério porque diziam respeito


diretamente aos problemas do trabalho. A primeira das leis trabalhistas da Revolução de 30 foi a Lei
dos Dois Terços, destinada a garantir emprego para brasileiros em setores nos quais a presença do
trabalhador estrangeiro imigrante era majoritária, caso do setor de restaurantes, bares e similares, com
80% de empregados estrangeiros. A questão da colonização estava intimamente ligada à da imigração
e às questões do trabalho – tanto porque o objetivo dos projetos de imigração era trazer trabalhadores
altamente qualificados para a agricultura brasileira, de modo a expandir suas fronteiras e elevar sua
produtividade, quanto porque projetos de colonização, precursores da reforma agrária, poderiam atrair para
o campo muitos trabalhadores urbanos desempregados como porque tais projetos poderiam transformar
trabalhadores rurais sem terra em trabalhadores rurais com terra.

40 As origens do Trabalhismo Brasileiro


Talvez parecesse estranho serem também agregadas ao Ministério do Trabalho as questões do patrimônio
nacional, mas na época isso aparentemente não foi discutido.

Quanto à legislação social, prioridade do Ministério, Getúlio destaca:

1º., a lei e o regulamento de proteção ao trabalho nacional – a chamada


Lei dos Dois Terços;
2º., a reforma da lei de aposentadorias e pensões;
3º., a ampliação do âmbito dessa lei, fazendo beneficiários dela os
trabalhadores e empregados marítimos, tranviários [dos serviços de bondes],
telegráficos, telefonistas e radiotelegrafistas, todos os operários de serviços
públicos, em suma;
4º., a lei referente à organização das classes (lei de sindicalização);
5º., os projetos de lei já publicados sobre
a) oito horas de trabalho diário ou 48 horas semanais, nas indústrias e no
comércio;
b) organização de um critério para estabelecimento dos salários mínimos;
c) convenções ou contratos coletivos de trabalho;
d) a instituição de comissões permanentes e mistas de empregadores e
empregados, para solução dos conflitos de trabalho (comissões de conciliação
e arbitramento).

Essas comissões permanentes e mistas para a solução de conflitos de trabalho seriam precursoras
da Justiça do Trabalho, criada formalmente pela Constituição de 1934 e instalada depois pelo governo
Vargas. A organização de um critério para o estabelecimento dos salários mínimos enfrentaria grandes
resistências e dificuldades e a primeira tabela de salários mínimos, variáveis conforme as regiões do país
e o custo de vida em cada uma delas, só seria decretada em 1940.

As origens do Trabalhismo Brasileiro 41


AS OUTRAS LEIS

Em março de 1932, Lindolfo Collor deixou o Ministério do Trabalho, rompendo com Getúlio Vargas, da
mesma forma que outros gaúchos do governo, como o Ministro da Justiça Maurício Cardoso e o Chefe de
Polícia Batista Luzardo, no curso de uma crise em que boa parte das lideranças políticas do Rio Grande
do Sul passou para a oposição.

O novo Ministro do Trabalho, Joaquim Pedro Salgado Filho, manteve os assessores de Collor -
especialmente Joaquim Pimenta - e encaminhou a Getúlio Vargas todos os projetos deixados pelo ex-
ministro.

Com exceção da lei do salário mínimo, que só entraria em vigor, efetivamente, em 1940, os projetos
elaborados na gestão de Lindolfo Collor foram convertidos em lei ainda em 1932.

Entre as leis de 1932, figurava a limitação da jornada de trabalho, que em todo o


mundo fora a maior e mais sangrenta batalha das lutas sociais. O Ministério, ao
propor a redução da jornada de trabalho a oito horas diárias ou 48 semanais lembrara
que o regime anterior era “caótico”: na indústria, por exemplo, a jornada variava de
oito a doze horas.
No Brasil, curiosamente, a lei da jornada de trabalho enfrentou menos reações que, por exemplo, a lei de
férias e a regulamentação do trabalho do menor, se bem que as entidades patronais tivessem conseguido
introduzir nela algumas exceções (por exemplo, a de que em caso de necessidade
a empresa industrial poderia estender a jornada de trabalho a até 12 horas, pagando
por fora as horas extras.)

A mesma coisa aconteceu com a lei de regulamentação do trabalho da mulher, que proibia o trabalho
noturno e qualquer trabalho nas quatro semanas anteriores e nas quatro semanas posteriores ao parto
(nessas oito semanas de trabalho proibido, a empresa teria de pagar metade do salário à empregada
licenciada.

42 As origens do Trabalhismo Brasileiro


Ainda em maio de 32 foi decretada – e bem recebida pelos industriais – a lei que
instituía comissões mistas de arbitramento e conciliação, forma embrionária dos futuros
organismos da Justiça do Trabalho. Em agosto, o Presidente Vargas assinou a lei das
convenções coletivas de trabalho. Esta foi mal recebida pelas entidades empresariais,
porque suas lideranças mais conservadoras, ou melhor, mais reacionárias, temiam os
dispositivos que permitiam aos sindicatos fiscalizar a execução das convenções. Também
foi mal recebida a lei de acidentes do trabalho, porque, como a das convenções coletivas,
dava poderes de fiscalização aos sindicatos.
As origens do Trabalhismo Brasileiro 43
Todas essas leis foram elaboradas pelos mesmos assessores que
tinham redigido a lei dos sindicatos, especialmente os socialistas
Evaristo de Morais e Joaquim Pimenta, que permaneceram no
Ministério do Trabalho depois da saída de Lindolfo Collor e ao longo
da gestão de Salgado Filho, cuja ação assegurou que os projetos do
período Collor viessem a transformar-se em leis.

Nesse momento, o Brasil situou-se na dianteira dos Estados Unidos,


mergulhados na grande depressão decorrente da crise das bolsas de
valores em 1929. Em novembro de 1932, Franklin Roosevelt venceu
as eleições presidenciais nos Estados Unidos, em oposição ao então
Presidente Herbert Hoover, que achava que o mercado seria capaz de
resolver todos os problemas sociais.

Roosevelt tomou posse em março de 1933 e tentou, quase


imediatamente, regulamentar salários e jornada de trabalho.
Essa tentativa, impugnada pelos grandes grupos econômicos, foi
considerada inconstitucional pela Corte Suprema dos Estados Unidos.

O Presidente Getúlio Vargas, portanto, conseguiu


nesse momento avançar mais que Roosevelt nos
Estados Unidos. E como isso contrariava interesses
poderosos, passou a ser acusado de fascista, enquanto
Roosevelt era acusado de chefiar um governo de
tendências... comunistas!

44
As origens do Trabalhismo Brasileiro 45
“A riqueza de cada um, a cultura, a alegria,
não são apenas bens pessoais: representam
reservas de vitalidade social, que devem
ser aproveitadas para fortalecer a ação de
Estado!”

Getúlio Vargas
As origens do Trabalhismo Brasileiro 47
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