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APONTAMENTOS DE ECONOMIA POLÍTICA II

Bibliografia:
• Os Sistemas Económicos, Avelãs Nunes
• A Produção. Mercados e Preços, Avelãs Nunes
• Aulas Teóricas do Doutor Luís Cunha
• Aulas Práticas do Doutor Pedro Pereira

Doutor LUÍS PEDRO CHAVES CUNHA


Primeira Turma
Ano Letivo de 2015/2016
Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

OS SISTEMAS ECONÓMICOS
Génese e evolução do capitalismo

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

I. INTRODUÇÃO

1. A Teoria dos Sistemas Económicos


2. As Soluções
2.1. A Teoria dos “Estádios Económicos”
Apreciação Crítica
2.2. A Teoria dos Modos de Produção
2.2.1. A Conceção de Marx
2.2.2. A Conceção de Sombart
Apreciação Crítica
2.3. A Teoria dos Tipos de Coordenação
Apreciação Crítica
3. Conclusão

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I. INTRODUÇÃO

- A Teoria dos Sistemas Económicos

Toda a economia é um sistema, no sentido em que toda a economia é um conjunto de


elementos, de processos e relações interligados de acordo com um princípio orientador, um
princípio de unidade, que assegura uma certa coerência e estabilidade à estrutura constituída
por aqueles elementos, processos e relações económicas.
Por outro lado, o conceito de forma económica refere-se aos vários modos de
manifestação de um determinado sistema que se distinguem segundo critérios como: grau de
desenvolvimento das forças produtivas; forma e dimensão das unidades de produção;
organização dos sujeitos económicos; modo de coordenação da economia et cetera.
Além do mais, apresenta também importância o modo de coordenação: em função
dele, costumam distinguir-se as várias formas de históricas de capitalismo (de concorrência,
monopolista e monopolista de estado)
Com efeito, note-se que o conceito de forma económica não existe
independentemente do conceito de sistema económico – a forma económica é uma
qualificação do conceito de sistema económico.
Ora, a questão que se põe à teoria dos sistemas económicos reside em identificar o
tecido estrutural de cada economia em concreto, o princípio de ordem que há de permitir uma
resposta adequada às seguintes questões:
1. Como se processa, em cada situação histórica concreta, a direção e o funcionamento
da economia?
2. Qual o critério que preside à distribuição do produto social?
3. Qual o elemento dinamizador do desenvolvimento, isto é, qual o princípio que explica
a sucessão dos sistemas que a história regista?
N.B.: Para a Escola Clássica Inglesa, esta problemática foi ignorada, visto que a ordem capitalista seria a forma
absoluta e definitiva da atividade económica e da organização social, no entanto, contra esta conceção, reagiu a
Escola Histórica Alemã que preconizou uma visão evolucionista e historicista.

- As Soluções

1. A teoria dos “estádios económicos”


Proposta preconizada pela Escola Histórica Alemã, partiu do princípio de que nas
sociedades humanas não existem uniformidades, reduzindo a Economia Política a uma
ciência histórica. Passaram, por isso, a operar com base em critérios históricos, pressupondo

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uma sucessão regular dos vários sistemas ao longo dos séculos, em conformidade com a sua
conceção evolucionista.
Friedrich List propõe o critério da atividade dominante, esclarecendo que a vida
económica se desenvolve, historicamente, ao longo de quatro fases: pastorícia; agricultura;
agricultura e indústria; agricultura, indústria e comércio. Para esta última, correspondente à
nação normal, tenderiam as economias de todos os povos. Com efeito, note-se também que
autor dá como pressuposto que à medida que as economias se vão desenvolvendo,
simultaneamente, desenvolvem-se atividades.
Bruno Hildebrandt atende aos sucessivos instrumentos de troca como critério distintivo
das três etapas: a da economia natural; a da economia monetária; e, ainda, a da economia
creditícia.
Por último, Karl Bucher o critério distintivo das várias fases de evolução histórica seria
o âmbito territorial dentro do qual se circunscreve a atividade económica, isto é, o alcance
desde o local de produção ao local de consumo. Assim, a humanidade passaria por três fases
na sua evolução: a economia doméstica, a economia urbana e, ainda, a economia nacional.
Note-se, contudo, que Gustav Schmoller, no âmbito da mesma teoria, acrescenta às fases
anteriores a da economia mundial.
Neste sentido, compreende-se que, para estes autores, as instituições económicas e
sociais são categorias históricas, inscritas num certo tempo e num certo espaço, em
permanente devir, que só podem compreender-se se analisadas enquanto produtos históricos
da evolução das sociedades humanas.
Em suma, estes autores partem da ideia de que todas as economias passam por um
processo evolutivo de algum modo idêntico ao processo de crescimento de um corpo
orgânico, podendo distinguir-se várias fases nesse mesmo processo, apresentando-se cada
um desses estádios como um novo marco (idade) do crescimento orgânico, linear, da
economia que evoluiria por acrescentamentos sucessivos.

Apreciação Crítica
Acontece que os critérios históricos propostos, apesar de admitirem uma evolução
histórica, cortam essa evolução em fases, esperando, para cada uma das fases,
uniformidades ou leis que não seriam válidas para as fases anteriores ou posteriores. Deste
modo, não podem servir como método de abordagem da evolução das sociedades humanas,
já que não fornecem qualquer explicação para a própria evolução histórica. Com efeito, são
critérios meramente descritivos, exteriores ao próprio processo evolutivo, incapazes de
compreender os fatores que explicam a passagem de um sistema a outro e o sentido da linha
evolutiva que a história regista.

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Neste sentido, compreende-se que os critérios de List, Hildebrandt e Bucher dão conta
da evolução linear das forças produtivas, mas não podem apreender o processo dialético de
evolução da economia nem explicar a sua dinâmica.
Em suma, o método histórico-genético, praticado pela Escola Histórica, renuncia à
elaboração teórica, limitando-se à reunião, descrição e sistematização dos factos da vida
económica e sua sequência histórica, sem capacidade para apreender as mudanças
qualitativas das formas de organização económico-social ao longo do processo histórico.
Sinteticamente, os adeptos da Escola Histórica limitam-se a uma história dos factos
económicos.

2. A teoria dos modos de produção


Segundo esta conceção, a estrutura fundamental de cada sistema económico assenta
nas relações sociais de produção, ou seja, nas relações que entre si desenvolvem várias
categorias de agentes económicos, podendo definir-se estas relações, no plano jurídico, pela
relação de apropriação ou separação que se estabelece entre os trabalhadores e os meios
de produção.
A título de exemplo, notem-se as seguintes situações:
1. Sistema de produção de mercadorias simples/ Sistema de produção
independente: ocorre quando os produtores diretos são eles próprios,
simultaneamente, proprietários dos meios de produção, pelo que o produto do trabalho
produtivo pertence por inteiro ao produtor autónomo;
2. Sistema capitalista: ocorre se os meios de produção pertencem a pessoa diferente
do produtor direto, sendo que esta circunstância vai permitir ao proprietário dos meios
de produção, em certas condições históricas, assumir a direção do processo produtivo,
contratar trabalhadores assalariados e apropriar-se do sobreproduto social;
3. Sistema socialista: se não existir propriedade privada dos meios de produção e estes
pertencerem a toda a comunidade, a esta caberá a direção do processo produtivo,
revertendo o produto social para a coletividade dos produtores.

2.1. A conceção de Marx


Designamos a conceção de Marx como materialismo dialético. Com efeito, é dialético
na medida se fala de uma sucessão histórica de sistemas económicos, no entanto, trata-se
de uma evolução contraditória, isto é, existem vários elementos no sistema económico que
não evoluem ao mesmo tempo e que geram contradições dentro do mesmo. Por outro lado,
trata-se de materialismo devido ao eixo da mudança nos sistemas económicos ser o elemento
material, ou seja, as forças produtivas.

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Marx explica o processo histórico a partir do desenvolvimento das forças produtivas.


Ora, a evolução histórica dos modos de produção, enquanto conjunto das relações de
produção e das forças produtivas, assenta no facto do desenvolvimento das forças produtivas
conduzir, a certa altura, a uma contradição entre estas e as relações sociais de produção, por
tal forma que estas passam a constituir obstáculos ao pleno desenvolvimento daquelas. Por
força desta contradição, o sistema económico está prestes a desagregar-se, para dar lugar a
um outro sistema económico: lei da necessária correspondência entre a natureza das relações
de produção e o caráter das forças produtivas.

MEIOS DE PRODUÇÃO
§ Objeto de trabalho: é tudo aquilo sobre que vai incidir a força de trabalho do homem.
§ Meios de trabalho: são todos os objetos de que os homens se servem para
transformar a realidade física sobre a qual atuam – os mais importantes são os
instrumentos de produção, já que deles depende o domínio do homem sobre a
natureza.
MODOS DE PRODUÇÃO
- Conjunto das forças produtivas e das relações sociais de produção.
§ Forças produtivas: conjunto dos instrumentos de produção, dos objetos de trabalho
e, ainda, o próprio homem com a sua força de trabalho, isto é, atividade inteligente
deste em sociedade, destinada a transformar e adaptar as forças da natureza, com o
fim de alcançar o objetivo em vista; os seus conhecimentos; e a sua técnica.
§ Relações sociais de produção: são as relações que os homens mantêm entre si no
quadro do processo produtivo, as quais se manifestam na relação entre os sujeitos
económicos e os meios de produção e que têm a sua expressão jurídica nas formas
de propriedade sobre os meios de produção.

Com efeito, note-se que Marx considerou as forças de produção o elemento mais
dinâmico e revolucionário da produção. Por outro lado, considerou que é a natureza das
relações sociais de produção que determina a titularidade do poder de direção do processo
produtivo, o móbil que orienta a atividade social de produção e o critério segundo o qual se
opera a distribuição do produto social.
Em suma, o autor caracteriza os sistemas económicos pelo modo de produção e
distingue os modos de produção pela natureza das relações de produção.
Visão económica da história, como se vê, o marxismo é também uma visão histórica
da economia, visão que faz da luta de classes o motor do processo histórico, do processo de
evolução das várias formações económicas e sociais que a humanidade tem conhecido.

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Compreende-se a diferença entre a perspetiva de Marx e os autores da Escola


Histórica Alemã, na medida em que, ao contrário destes que renunciam a explicar o
desenvolvimento histórico, Marx faz da história uma histoire raisonée e traz a história para o
seio da teoria económica.
Nesta mistura entre história e teoria económica, Marx rejeita o caráter natural e a-
histórico das categoris económicas e das leis da Economia Política clássica, pondo em
evidência o seu caráter de categorias históricas e de leis históricas, que só ganham significado
em relação a um determinado sistema económico e social, historicamente localizado.
A construção teórica de Marx pretende, acima de tudo, explicar o processo global da
evolução social, evolução que resulta de uma interação dialética entre fatores de vária ordem
e que se traduz num movimento dialético (não linear), em que cada estádio do processo
evolutivo é superior ao estádio que o antecede, e em que cada novo modo de produção
encontra o seu fundamento e a sua explicação no desenvolvimento histórico das contradições
imanentes ao anterior.
Além do mais, à luz da teoria marxista, a estrutura política faz parte da superestrutura,
sendo esta determinada pela base económica, a infraestrutura.

2.2. A conceção de Sombart


Werner Sombart propõe outro critério histórico, fazendo apelo a três elementos que, a
seu ver, distinguiriam os vários sistemas económicos:
§ o espírito: o móbil, o objetivo fundamental da produção;
§ a forma: conjunto de elementos sociais, jurídicos e institucionais que constituem o
quadro dentro do qual se desenvolve a atividade económica, as relações entre sujeitos
económicos, a título de exemplo, o regime da propriedade, o estatuto dos
trabalhadores e o papel do estado;
§ a substância: a técnica utilizada.
Com base neste critério, distingue três sistema económicos: o sistema de economia
fechada, o sistema de economia artesana e o sistema de economia capitalista.
Neste sentido, considera que nas várias épocas históricas predomina um espírito
económico diferente, sendo este elemento que dá uma forma apropriada e modela em
conformidade a organização económica. No caso concreto do capitalismo, o autor não
procurou o elemento caracterizador fundamental em qualquer dos aspetos da estrutura
económica ou do funcionamento, nem considerou que a essência do capitalismo reside na
natureza das relações de produção que lhe são próprias. Com efeito, considerou que o
capitalismo se distingue pelo espírito de busca do lucro. O espírito da Europa moderna ter-
se-ia concretizado, na esfera económica, no espírito de lucro do capitalismo, como síntese do

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espírito burguês, deixando para trás a conceção do homem como medida de todas as coisas,
preconizada pelo homem pré-capitalista.
Em suma, o problema da transição dos sistemas é encarado por Sombart numa
perspetiva culturalista e explicado não a partir de fatores económicos, mas de fatores de
ordem cultural ou espiritual: o que, essencialmente, mudaria era o espírito da época, dentro
de um processo de evolução cultural global.

Apreciação Crítica
Ora, a conceção culturalista de Sombart de que o capitalismo, como forma económica,
é uma criação do espírito capitalista, implica que se explique a génese deste último. Deste
modo, surgiu o debate quanto à questão de saber se foi a Reforma que gerou o espírito
capitalista ou se, diversamente, foi em grande parte criação dos judeus.
Neste sentido, note-se que a esterilidade de tal debate é a imagem da esterilidade do
critério de Sombart, ao sobrestimar os elementos espirituais e ao subestimar os elementos
materiais, os elementos económicos, que verdadeiramente imprimem caráter aos vários
sistemas. Com efeito, revela-se incapaz de detetar os aspetos essenciais que
verdadeiramente distinguem os sistemas económicos uns dos outros e as leis históricas que
regulam o processo social de produção e distribuição dos bens necessários à satisfação das
necessidades humanas, e incapaz de compreender a dialética da evolução das várias
formações sociais e as leis que explicam o processo histórico de passagem de uma sociedade
a outra.

3. Teoria dos tipos de coordenação


Na esteira do pensamento de Walter Eucken, pretendeu o autor construir os tipos
abstratos de organização económica aos quais se reconduziriam todos os sistemas ou
organizações concretas, passados ou presentes.
Neste sentido, o autor parte do princípio de que a atividade do homem enquanto
produtor se desenvolve de acordo com um plano orientador daquela atividade e defende que
o importante é saber quem dita o plano.
Com efeito, nas economias de mercado, os indivíduos traçam autonomamente os seus
planos, cuja coordenação se opera no mercado, através da concorrência entre os vários
operadores económicos. No mercado, formam-se os preços e é o sistema de preços relativo
que vai servir de critério orientador das opções e das decisões de cada um dos agentes
económicos (compradores e vendedores). Assim, é no mercado que se define a lógica
segundo a qual funciona a economia.
Por outro lado, nas economias de direção central, a economia é dirigida a partir do
centro, com base num plano único imposto pelo estado às unidades técnicas de produção e

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aos consumidores, cabendo ao estado determinar os objetivos a prosseguir, os meios a


utilizar e os preços a fixar.
Em suma, seriam estes dois tipos de coordenação que permitiriam o explicar o
funcionamento de qualquer economia, pois as economias concretas seriam sempre uma
composição daqueles dois tipos puros.

Apreciação crítica
Não parece correto fazer do diferente modo de funcionamento de cada economia em
concreto o elemento distintivo dos sistemas económicos.
Com efeito, não é possível dizer-se que se a economia for uma economia de direção
central, estaremos perante um sistema socialista, do mesmo modo que, se a economia for
uma economia de mercado, estaremos perante um sistema capitalista.
Neste sentido, parece claro que a teoria dos tipos de organização não é capaz de
fornecer um critério de distinção entre sistemas tão diversos que podem incluir-se num dos
dois tipos considerados, nem parece que ela seja eficaz a explicar por que é que, em épocas
tão diferentes e em circunstâncias tão diversas, foi idêntico o tipo de organização.
O critério de Eucken afasta, em suma, qualquer perspetiva histórica do
desenvolvimento dos povos, negando que da história possa colher-se qualquer sentido de
desenvolvimento ou progresso. Assim, o critério dos tipos de coordenação, como conceção
anti-histórica, é incapaz de esclarecer acerca das causas e do sentido da evolução de um
sistema económico para outro, encarando o problema numa perspetiva funcional, como se se
tratasse de alternativas abertas à livre escolha, em qualquer tempo e lugar.

- Conclusão (posição do curso)

Por nossa parte, utilizando a formulação de Teixeira Ribeiro, consideramos que “o que
imprime carácter a qualquer economia e a individualiza como tipo é o modo de produção e a
repartição de bens. Quer dizer, o que distingue os sistemas económicos é o modo de
produção, isto é, a natureza das relações de produção (propriedade privada ou propriedade
coletiva dos meios de produção) e a forma de repartição do produto (há rendimentos da
propriedade? Ou só rendimentos do trabalho). Só depois virá o móbil da atividade económica
(produz-se com vista à satisfação das necessidades do produtor ou dos titulares dos meios
de produção?). Poderá mesmo dizer-se que é a natureza das relações sociais de produção
(a posição relativa dos homens no que toca aos meios de produção) que, em último termo,
distingue os sistemas.
Nesta lógica é que se fala do socialismo como sistema caracterizado pela propriedade
coletiva dos meios de produção e de capitalismo como sistema que assenta na propriedade

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privada (capitalista) dos meios de produção. Esta é uma propriedade perfeita, absoluta, que
exclui os não-proprietários do respetivo poder de disposição, vendo-se estes obrigados a
vender aos donos dos meios de produção a sua própria força de trabalho transformada em
mercadoria, assim se configurando as relações capitalistas de produção entre os produtores
não-proprietários e os donos do capital.
Conforme a natureza das relações sociais de produção, assim varia a forma que
assume o excedente social e a titularidade do controlo desse excedente. No capitalismo, o
sobreproduto social assume a forma de lucro que cabe aos proprietários dos meios de
produção, assim como lhes cabe também o destino a ser tomado por esse mesmo lucro. No
socialismo, o excedente assume a forma de fundo social que será distribuído por consumo e
investimento por decisão da própria colectividade através das instituições políticas que a
representam.
A partir do que foi supramencionado, já se vê como a distinção dos sistemas
económicos com base nos modos de produção, isto é, a partir da natureza das relações
sociais de produção, permite caracterizar também, para cada um deles, o modo como se
processa a direcção da economia e o critério que preside à distribuição do produto social (a
relação entre o trabalho social e o produto social), a natureza e o destino do excedente social,
e permite ainda explicar o sentido da evolução histórica dos modos de produção. Esta teoria
dos modos de produção, afigura-se-nos, por isso a mais adequada para a análise dos
sistemas económicos e da sua evolução.

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II. DO COMUNISMO PRIMITIVO AO CAPITALISMO

1. O Comunismo Primitivo
2. O Esclavagismo
3. O Feudalismo
3.1. Caracterização Geral
3.2. A Desagregação da Sociedade Feudal
3.2.1. Enunciado do Problema
3.2.2. Produção para Uso/Produção para Troca
3.2.3. Contradições Internas
3.2.4. Fatores Externos
3.2.5. Síntese
4. Transição para o Capitalismo
4.1. Acumulação Primitiva do Capital
4.1.1. Acumulação do Capital
4.1.1.1. As Cruzadas
4.1.1.2. O Capital Usurário e a Especulação
4.1.1.3. Descobrimentos e Mundialização do Comércio
4.1.1.4. Exploração Colonial e Revolução dos Preços
4.1.2. A Proletarização dos Camponeses Pobres
4.1.3. A Proletarização dos Trabalhadores na Indústria
4.1.3.1. A Indústria Artesana
4.1.3.2. A Indústria Assalariada ao Domicílio
4.1.3.3. As Manufaturas
4.1.4. Síntese
4.1.5. Contraponto entre a Visão de Marx e Smith
4.2. Fatores da Ascensão da Burguesia e Consolidação do Capitalismo
4.2.1. A Reforma
4.2.2. A Formação dos Estados Modernos na Europa
4.2.3. A Revolução Inglesa
4.2.4. A Revolução Industrial
4.2.5. A Revolução Francesa

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II. DO COMUNISMO PRIMITIVO AO CAPITALISMO

Passar-se-á agora a uma análise da evolução das sociedades humanas, desde as


comunidades primitivas até aos nossos dias, numa tentativa de esclarecer o sentido dessa
evolução.
Neste sentido, será importante compreender que a transição de um sistema para o
outro é fruto de um processo contínuo de transformação; que cada sistema económico que a
história regista é produto da evolução dialética do sistema que o precedeu; que há uma
racionalidade na ordem cronológica da sucessão; que a evolução se tem verificado de tal
modo que nenhum sistema conseguiu substituir integralmente o anterior, pelo que em cada
época histórica e em cada país ou região o modo de produção dominante é aquele cujas
relações sociais de produção caracterizam e enquadram o desenvolvimento económico e
social.

- O Comunismo Primitivo
(breve referência)

A qualidade de produtor distingue o homem dos outros animais, na medida em que só


o homem é capaz de fabricar instrumentos que utiliza na atividade de produção, atividade
inteligente que visa colocar a natureza ao serviço das suas necessidades e objetivos.
Durante séculos, as forças produtivas foram muito rudimentares e as condições
materiais de vida muito precárias, pois os frutos do trabalho do homem mal bastavam para
garantir a sobrevivência diária.
Quer para se defenderem dos animais selvagens, quer para poderem prover à sua
alimentação, nesses primeiros tempos do processo de domínio e adaptação à natureza,
observa-se uma forma comunitária de vida. Como tal, não fazia sentido falar-se de
propriedade privada dos meios de produção, não existindo, por conseguinte, diferenciação
social, nem divisão da sociedade em classes, nem exploração de uma classe de homens por
outra. Além do mais, não havia necessidade de qualquer aparelho de coerção destinado a
garantir a exploração do homem pelo homem, isto é, não havia lugar para o Estado enquanto
aparelho de poder.
Com o desenvolvimento da técnica e com a descoberta de áreas abundantes em caça
e pesca, permitiu-se o abandono progressivo do nomadismo. Assim, foram-se criando
condições para que as comunidades primitivas produzissem além do necessário à
sobrevivência, um excedente (sobreproduto social). Ora, a existência de um excedente
regular e permanente de alimentos foi a base material necessária para que pudesse acontecer

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a grande revolução económica e social do período neolítico – a revolução neolítica: foi o início
da agricultura, da domesticação e criação de animais.
Assim, compreende-se a importância do excedente social, surgido pela primeira vez
na história da humanidade como resultado do aumento da produtividade do trabalho agrícola.
Ora, sem a possibilidade de dispor regularmente de um excedente agrícola, não seria possível
a nenhuma sociedade garantir a subsistência das pessoas que não produzissem elas próprias
os seus próprios alimentos.
No entanto, se cada homem pode produzir, com o seu trabalho, mais que o necessário
para a sua subsistência, ganha sentido a exploração do homem pelo homem. Ora, a primitiva
comunidade de vida e de trabalho foi assim destruída pelo progresso das técnicas, pela
divisão do trabalho e pelas consequências desta: a divisão da sociedade em classes e o
aparecimento do estado como instrumento de domínio de um grupo social sobre outro.
Por fim, note-se que o modo de produção e a organização social próprios do
comunismo primitivo deram lugar a um novo modo de produção e a uma diferente organização
social: o esclavagismo.

- O Esclavagismo
(breve referência)

O esclavagismo, enquanto modo de produção, assenta na exploração do trabalho


forçado da mão de obra escrava: os senhores alimentam os seus escravos e apropriam-se
do restante produto do trabalho destes. Com esta divisão da sociedade em classes, surge o
estado como aparelho permanente de coerção e domínio.
Ora, a exploração do trabalho escravo tornou possível a produção de grandes
excedentes e uma enorme acumulação de riquezas, estando, assim, na base do
desenvolvimento económico e cultural que a humanidade então conheceu.
Nas civilizações esclavagistas, não era pela via do aperfeiçoamento dos métodos de
produção que os senhores de escravos procuravam aumentar a sua riqueza, mas sim através
da conquista de novos territórios, capazes de fornecer escravos em maior número e mais
impostos ao fisco. Simultaneamente, os escravos, sem qualquer interesse nos resultados do
seu trabalho, não se empenhavam na descoberta de técnicas mais produtivas.
No entanto, as novas conquistas e os novos escravos que elas propiciavam
começaram a ser insuficientes para manter de pé o pesado corpo da administração romana.
Ora, minado por dificuldades internas, o império romano caiu num verdadeiro impasse.
Exangue, sem capacidade de desenvolvimento e de poder criador, a sociedade esclavagista
parecia incapaz de encontrar dentro de si o princípio de uma transformação positiva. Com
efeito, sucumbirá às invasões bárbaras.

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Neste sentido, a historiografia marxista reconhece que a passagem do esclavagismo


ao feudalismo não foi, diretamente, o resultado de uma revolução social levada a cabo pelos
escravos e pelos colonos. Todavia, em virtude das suas próprias contradições, o modo de
produção esclavagista tornou-se incapaz de progredir: as relações de produção esclavagistas
não acompanharam o desenvolvimento das forças produtivas e passaram a constituir um
impedimento ao seu desenvolvimento.
Não conhecendo a propriedade privada das terras, os povos invasores, à medida que
vão penetrando nos territórios do império romano, constituem-se em comunidades de aldeia,
sendo as terras periodicamente repartidas entre os habitantes, restabelecendo aí um
campesinato livre, organizado em comunidades rurais.
Paralelamente, a apropriação pelos chefes bárbaros dos grandes domínios dos
romanos vencidos dá origem a uma nova aristocracia fundiária, sob cuja proteção se viriam
colocar os camponeses livres das aldeias, ameaçados permanentemente pelo clima de
insegurança que marcou o período entre o século V e IX.
Em troca do compromisso de fidelidade pessoal e da entrega dos bens, os
camponeses pobres passavam a integrar a família, a casa dos grandes donos de terras que,
por sua vez, se obrigavam a protegê-los e garantir-lhes sustento.
Por fim, entenda-se que as invasões dos povos germânicos vieram acentuar e acelerar
tendências já em marcha no sentido da perda de importância da atividade industrial e
comercial e da economia monetária, reforçando a base rural da economia e da sociedade e
provocando a rutura das estruturas económicas, sociais e políticas, com a consequente
fragmentação do espaço económico e do espaço político.

- O Feudalismo

1. Caracterização geral
(breve referência)
Na sociedade feudal, toda a vida social era marcada por um elemento em comum: a
subordinação de indivíduo a indivíduo. Com efeito, as formas deste laço humano
apresentavam algumas singularidades conforme os níveis sociais em que se verificavam. No
grau inferior, as relações de dependência encontraram o seu enquadramento no senhorio
rural, que é uma terra habitada e os seus súbditos. Neste sentido, o vínculo de dependência
pessoal tinha no aspeto económico o seu campo de iniciativa primordial: o objetivo do senhor
era o de obter rendimentos, através da apropriação dos frutos do trabalho gratuito dos servos.
Os proprietários monopolistas da terra controlam o processo produtivo, na medida em
que dispõem do poder de decidir qual a porção de terra a atribuir aos produtores diretos e do
poder de revogar esta atribuição, bem como o de exigir uma renda pelo uso da terra. Assim

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sendo, aos servos cabia apenas o domínio útil das terras que cultivavam, de acordo com a
decisão do respetivo senhor, titular do domínio direto. Neste sentido, note-se que os servos
se encontram hereditariamente ligados às terras do seu senhor, não podendo, portanto,
abandoná-las, no entanto, estes deveres de servidão têm como contrapartida o direito dos
servos de permanecer nas terras do senhor e de cultivar uma parcela delas. Por conseguinte,
a propriedade feudal é uma propriedade imperfeita: os proprietários de raiz não podem
expulsar os servos das terras que eles habitam e que lhes garantem sustento.
Assim, servos e colonos estão sujeitos ao estatuto de servidão pessoal: sobre eles
recaem idênticas obrigações pessoais de prestar ao senhor certos serviços ou dias de
trabalho gratuitos, de entregar uma parte das colheitas, ou, mais tarde, de pagar uma renda
em dinheiro. Esta relação de servidão pessoal é, sem dúvida, a característica fundamental do
modo de produção feudal e pode ser entendida como a obrigação imposta ao produtor pela
força e independentemente da sua própria vontade, para que satisfaça certas exigências
económicas de um senhor, quer tais exigências tomem a forma de serviços a prestar, ou de
tributos a satisfazer em dinheiro ou em espécies.
Por conseguinte, a força de trabalho não é uma mercadoria autónoma, porque os
servos, não sendo homens livres, não são livres de vender a sua própria força de trabalho:
têm de a exercer nas terras do senhor, em parte para garantir a sua própria sobrevivência e
reprodução, em parte, obrigatória e gratuitamente, em benefício do senhor.
Ora, os poderes inerentes à propriedade da terra garantem aos senhores feudais a
organização e o controlo do processo produtivo e de todo o processo da vida social. No
entanto, os servos não estão separados dos meios de produção, uma vez que têm garantido
o usufruto de uma certa porção de terra, o que lhes permite viver do seu trabalho, utilizando
os instrumentos de produção que lhes pertencem: eles estão em condições de conseguir, por
si próprios, os meios materiais necessários à sua existência. Por conseguinte, eles não estão
economicamente obrigados a trabalhar nas terras do senhor, sendo, antes, as várias coerções
extraeconómicas decorrentes do estatuto jurídico-político da servidão que os obrigam a
trabalhar gratuitamente as terras do senhor. Em suma, as relações de produção são relações
entre produtores diretos e o seu suserano, verificando-se a exploração dos produtores através
de uma compulsão político-legal direta: a apropriação do trabalho excedente pelos senhores
feudais efetua-se diretamente por coerção extraeconómica, sem a mediação das leis
económicas de troca de mercadorias.
Sinteticamente, note-se que o excedente social era apropriado sob a forma de renda,
sendo que a produção era essencialmente produção para uso e não para venda. Com efeito,
as trocas eram, maioritariamente, trocas internas, trocas diretas de produtos e serviços entre
produtores, já que só os senhores dispunham de bens para vender e só eles podiam comprar
os produtos de luxo da produção artesanal, assim se espelhando uma economia fechada em

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que o domínio senhorial era a unidade de produção de de consumo. Por fim, o modo de
produção feudal criou condições propícias à estagnação da técnica, que se manteve
rudimentar e rotineira: os servos não tinham iniciativa, já que qualquer melhoria nos resultados
da produção era sempre pretexto para novas exigências do senhor e os senhores não têm
interesse em promover o desenvolvimento da produção nas suas terras para além do limite
resultante da sua própria capacidade de consumo.

2. A desagregação da sociedade feudal

A – Enunciado do Problema
O problema da passagem do feudalismo ao capitalismo é um problema controverso,
desde logo, quanto à questão de saber se deve ou não reconhecer-se autonomia ao sistema
de economia artesana e quanto à relevância a atribuir ao período do capitalismo comercial.
Ao contrário de Sombart, Marx não reconhece como modo de produção autónomo a
economia artesana, isto é, a economia industrial que se desenvolveu nas cidades em sentido
económico, como agregados populacionais cujos habitantes vivam apenas do seu ofício, sem
trabalharem a terra. Este é o nosso ponto de vista.
Com efeito, a economia artesana nunca teve um caráter dominante. No entanto, não
deixa de ser verdade que as novas atividades económicas exigiam uma liberdade de
movimentos incompatível com as regras da vida feudal e, por isso, os habitantes das cidades
começaram a lutar pela obtenção de direitos e privilégios. Assim, as cidades foram os
primeiros entes coletivos a adquirir o estatuto de sujeitos políticos dotados de um estatuto
jurídico-político diferenciado.
Por outro lado, repare-se que, apesar da importância adquirida pelas cidades, não foi
suficiente para alterar o modo de produção e as relações de produção nos campos, que
permaneceram intocadas.
Em suma, a evolução do feudalismo veio a traduzir-se na ocorrência de conflitos e
dificuldades de vária ordem que acabariam por minar as relações de servidão que
constituíram a base da sobrevivência de toda a estrutura feudal. E da interação destes
conflitos internos com fatores externos ao sistema, mas que condicionam o seu
desenvolvimento, é que resultou o lento processo de desagregação do feudalismo.

B – Produção para Uso/Produção para a Troca


Ainda sobre o problema da explicação da desagregação da sociedade feudal,
colocam-se em confronto a tese de Sweezy com a tese de Marx.
Com efeito, a tese de Sweezy, teoria dos valores de troca, esclarece que a decadência
do feudalismo se deve ao facto de o comércio, acarretando o desenvolvimento das cidades e

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

da economia urbana, ter originado o aparecimento de um sistema de produção para troca


que, entrando em conflito com o sistema de produção para uso, terá causado a dissolução
deste, uma vez que produção de mercadorias e feudalismo são conceitos que mutuamente
se excluem.
Ora, para Marx, a busca do que há de essencial num sistema não deve fazer-se ao
nível das relações de troca, mas ao nível das relações de produção. Com efeito, o que importa
averiguar perante determinada economia não é a questão de saber se se produzem
mercadorias e se a moeda é utilizada, mas sim saber como são produzidas as mercadorias e
qual a função da moeda.
Além do mais, note-se que, em primeiro lugar, o uso da moeda é historicamente
anterior ao próprio feudalismo e, em segundo lugar, que a troca de mercadorias é compatível
com a escravatura, com a servidão, com o trabalho livre de trabalhadores independentes, com
o trabalho assalariado.
Sinteticamente, o que caracteriza o feudalismo são as relações de tipo servil, segundo
as quais os produtores imediatos se encontram ligados à terra que trabalham e da qual
extraem os seus meios de subsistência e se encontram obrigados a entregar aos senhores o
sobreproduto que lhes garante a existência como classe dominante. E o sobreproduto pode
consistir em dias de trabalho gratuito, em prestações em espécie, numa renda em dinheiro.
Assim, percebe-se que o feudalismo parece, pois, indissociável da servidão, pelo que a sua
decadência se deve à superação da relação de produção predominante: a servidão pessoal.

C – Contradições Internas
(A Fuga dos Servos)
O que fez ruir o feudalismo foi a sua insuficiência como modo de produção, perante as
necessidades crescentes de rendimento por parte das classes senhoriais.
Com efeito, as técnicas e os instrumentos de produção eram rudimentares, a
produtividade do trabalho era baixa e, por conseguinte, a condição de vida dos trabalhadores
camponeses era miserável. Ora, a única forma dos senhores feudais aumentarem os seus
proventos era a do aumento do trabalho excedente exigido aos servos, contudo, o teor de
vida destes era tão baixo que qualquer exigência complementar os colocava numa situação
intolerável.
As necessidades crescentes de rendimento por parte dos senhores refletiram-se e
explicam-se por referência a vários fatores.
Com efeito, as guerras frequentes entre os senhores feudais, com vista ao domínio de
terra espelharam as necessidades supramencionadas.
Por outro lado, a prática corrente do sub-enfeudamento, resultado da necessidade de
fortalecer o poderio militar dos grandes senhores, aumentou muito o número de vassalos e,

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por conseguinte, o número daqueles que não participavam na produção, mas que tinham de
ser sustentados pelo sobreproduto exigido à classe servil.
Além do mais, o desenvolvimento da cavalaria trouxe consigo a emulação entre as
casas da nobreza, que gastavam fortunas em festins e extravagâncias, assim se dissipando
o execedente social, insuscetível então, dada a sua natureza não monetária, de ser aforrado
com vista à posterior utilização no desenvolvimento da capacidade produtiva.
Por último, as Cruzadas constituíram uma empresa que exigiu grande dispêndio de
rendas feudais e desviou muita gente do trabalho dos campos.
Estes foram alguns dos fatores que contribuíram para acentuar as exigências aos
servos, cuja situação se agravou para o final do século XIII. Ora, esse agravamento levou
também à diminuição da população, provocando a retração das rendas feudais e abrindo a
situação de crise aguda que caracterizou o século XIV, acentuada particularmente pelas
pestes particularmente destruidoras, em virtude da subnutrição das populações camponesas
e da carência de reservas alimentares.
Por fim, note-se que a própria crise levou os senhores a agravar as exigências sobre
as massas camponesas, também obrigadas a pagar impostos aos novos estados modernos.
Por conseguinte, incapazes de arcar com a carga destas duas fiscalidades, por
impossibilidade de desenvolvimento das forças produtivas, os camponeses promoveram, em
várias regiões da Europa, revoltas mais ou menos violentas, tendo-se assistido também a um
movimento de emigração ilegal das propriedades senhoriais que, em parte, se acolhiam nas
cidades então em período de crescimento.

D – Fatores Externos
(A Expansão do Comércio e o Desenvolvimento das Cidades)
No contexto da fuga aos campos, as cidades exerceram a função relativamente
importante de atração das populações servis desejosas de abandonar os domínios senhoriais
e as suas penosas condições de vida. Com efeito, este movimento de fuga dos servos decorre
paralelamente ao desenvolvimento das cidades medievais já que, por um lado, estas
ofereciam melhores condições de vida e liberdade e, por outro lado, os próprios burgueses
que nelas habitavam, necessitando de mais trabalhadores e de mais soldados, atuaram no
sentido de incitar os servos a abandonar as terras senhoriais.
Além do mais, o aumento da população que se verificou nos países da Europa até ao
século XIII é índice de que a produtividade do trabalho agrícola ia aumentando também, o que
permitiu a constituição, dentro dos domínios senhoriais, de núcleos de indivíduos que se
dedicavam exclusivamente ao trabalho industrial: o rendimento do trabalho agrícola era agora
suficiente para a alimentação de camponeses e industriais. Ora, com o agravamento das
exigências dos senhores e com a progressiva degradação do teor de vida dos habitantes dos

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domínios senhoriais, os artesãos estavam entre os primeiros a fugir às peias institucionais da


economia feudal. Assim, quando os trabalhadores industriais abandonam o campo em grande
número e se fixam no burgo, começam a generalizar-se as cidades em sentido económico,
aqueles grupos de pessoas que vivem do seu ofício ou mester.
Por outro lado, as economias dos domínios rurais não eram exclusivamente
economias de produção para uso, já que no seu seio conhecia-se a troca, nem eram
economias absolutamente fechadas sobre si mesmas, visto que uma parte do sobreproduto
entregue aos senhores era por estes vendida para comprar artigos de luxo e note-se que as
cidades funcionaram como entrepostos desse comércio a longa distância. Assim, não há
dúvida de que o desenvolvimento das cidades acompanhou em regra a sua importância como
centros comerciais.
No entanto, o fator que que abriu caminho à nova classe capitalista foi o esbulho das
grandes massas dos seus meios de produção e de existência tradicionais, tendo sido esta
expropriação dos camponeses que os lançou no mercado de trabalho.

E – Síntese
O agravamento das contradições internas do modo de produção feudal estimulou a
fuga dos servos.
Com efeito, esta conduziu, por um lado, ao desaparecimento da servidão, forma
específica de relações sociais que assegurava a manutenção do feudalismo como modo de
produção e dos senhores feudais como classe dominante nas condições do feudalismo.
Por outro lado, conduziu também à separação dos produtores diretos dos meios de
produção. Os servos, ao ganharem o direito de deixar as terras do seu senhor, perdiam, ao
mesmo tempo, o direito de nelas permanecer, começando a alterar-se a forma social de
existência e de reprodução da força de trabalho típica do feudalismo. Dialeticamente, a
emancipação dos servos foi também a libertação dos proprietários fundiários que não tinham
de respeitar o direito dos servos a permanecer nas suas terras e a nelas prover à sua
subsistência. Tendo agora perante si homens livres não adstritos à terra, os senhores
começaram a poder dispor desta última, recorrendo a contratos de arrendamento de duração
relativamente curta, o que lhes permitia aumentar periodicamente a respetiva renda. Assim,
a renda em dinheiro continua a ser uma renda feudal, isto é, trabalho excedente
obrigatoriamente entregue ao senhor, agora sob a forma de dinheiro obtido pela venda do
produto excedente e pode dizer-se que representou uma adaptação imposta pela
necessidade de sobrevivência do sistema. Além do mais, o sistema de renda em dinheiro
permitiu aos senhores beneficiar da maior produtividade do trabalho não compulsório, através
do aumento das rendas no momento da renovação dos contratos de arrendamento.

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Deste modo, criou-se o embrião de uma classe de trabalhadores livres, que não têm
outro meio de prover à própria subsistência que não seja a venda da sua força de trabalho.
Por outra via, o desenvolvimento do comércio e a expansão e consolidação das
cidades, além de agravarem os conflitos internos da sociedade feudal, permitiriam a
acumulação de capitais que mais tarde seriam aplicados na produção, mediante a contratação
de trabalhadores assalariados. Quando isto se verifica, estamos perante um novo tipo de
relações de produção, as relações de produção próprias do modo de produção capitalista.

- A Transição para o Capitalismo

1. A Acumulação Primitiva do Capital


Na senda do pensamento de Smith, o autor explica a acumulação de capital, que
serviu de base ao arranque do capitalismo, com base nas qualidades dos homens. Com efeito,
à partida, todos têm o mesmo direito de enriquecer, porém, as qualidades de cada um vão
explicar que uns fiquem ricos e outros pobres.
No entanto, será necessário recorrer à história para tentar explicar como se
concretizaram as duas condições que tornaram possíveis as relações de produção
capitalistas, nomeadamente, a acumulação de capitais nas mãos de uma nova classe social
e a separação dos produtores dos meios de produção e a emergência de uma nova classe
social de trabalhadores livres.
Com efeito, explicaremos a acumulação do capital, recorrendo à análise de vários
acontecimentos históricos (cruzadas, capital usurário e especulação, descobrimentos e
mundialização do comércio) e a separação dos produtores dos meios de produção e
emergência do salariato, tendo em conta os fenómenos de proletarização dos camponeses
pobres e dos trabalhadores da indústria.

1.1. A Acumulação do Capital


I. As Cruzadas (século XII)
Foi com as Cruzadas que se restabeleceram as relações entre o Ocidente e o
Próximo Oriente, reabrindo a rota do Mediterrâneo, desenvolvendo-se intenso tráfego
comercial, feito através das Repúblicas Italianas e dos Países Baixos para o norte da
Europa. Deste comércio de produtos de luxo, provieram grandes lucros, de que
aproveitaram sobretudo os mercadores italianos e flamengos que dominaram a vida
económica europeia até ao século XV.
Com efeito, foram os lucros deste comércio internacional de bens apenas ao
alcance das classes dominantes que propiciaram a primeira grande acumulação de
capitais na Europa, que fizeram a fortuna de uma nova classe de comerciantes que

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assim se apropriava de uma parte do sobreproduto agrícola que os camponeses


entregavam à classe dominante dos senhores feudais.

II. O Capital Usurário e a Especulação


Foi sobretudo a partir dos séculos XIV e XV que esta acumulação primitiva de
capital se acentuou.
A acumulação de dinheiro provinha então do empréstimo a juros elevados aos
camponeses pobres e aos grandes senhores da nobreza.
Provinha da especulação com os preços dos produtos, perante os frequentes
períodos de penúria, em que os açambarcadores vendiam os cereais e os produtos
alimentares acumulados a quem desse mais, a preços elevadíssimos. Além do mais,
provinha também da especulação comercial propiciada pelo tráfego que se
estabeleceu com o Extremo Oriente e com a América, já que os primeiros
conquistadores e colonos pagavam somas fabulosas em ouro e prata, em troca do
azeite, do vinho e dos panos idos da Europa.

III. Descobrimentos e Mundialização do Comércio


Entretanto, ao longo do século XV, surgem invenções importantes, com
acentuada repercussão no desenvolvimento das forças produtivas.
Ora, os novos conhecimentos e as novas técnicas marcam o início das grandes
expedições marítimas de portugueses e espanhóis.
Com efeito, as viagens atlânticas dos povos peninsulares, ao mesmo tempo
que tornaram conhecidas novas terras e novas gentes, abriram novos mercados para
os produtos exportados pela Europa e trouxeram novos produtos para a Europa.
Assim, criou-se um mercado mundial, que proporcionou ao comércio mundial
fabulosas oportunidades de lucro, transformando-o numa atividade próspera,
rapidamente monopolizada por grandes sociedades por ações.

IV. A Exploração Colonial e a Revolução dos Preços


A colonização e a exploração sistemática dos territórios colonizados vieram em
seguida substituir o primeiro período de saque desenfreado. Além de utilizarem mão
de obra escrava, as potências colonizadoras impuseram aos povos indígenas das
colónias pesados tributos, pagáveis em dinheiro, que apenas poderiam obter se
trabalhassem para os colonizadores.
Com efeito, era muito baixo, nestas condições, o custo de produção do ouro e
da prata que afluíram à Europa, ao longo do século XVI, em grande quantidade. O
valor destes metais obtidos nas colónias das Américas ficava diminuído em relação ao

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valor dos restantes bens, que viram subir os seus preços em termos dos metais
usados como moeda. Este fenómeno foi designado de “revolução dos preços”.
Neste sentido, a situação das classes sociais alterou-se consideravelmente em
favor da burguesia comerciante e em desfavor da nobreza rural e das classes
trabalhadoras. Vivendo de rendas fixas a longo prazo, a nobreza vê-se arruinada, na
exata medida em que a propriedade da terra se degrada como fonte de riqueza. Com
efeito, a verdadeira riqueza deixa de consistir na propriedade das terras, para passar
a residir na titularidade de papéis de crédito: ações das sociedades anónimas, letras,
títulos representativo de hipotecas – desmaterializando-se, a riqueza torna-se mais
facilmente mobilizável e o comércio ganha novas possibilidades de desenvolvimento.
Em suma, com a inflação, geram-se efeitos de redistribuição dos rendimentos.
Assim, ao o valor da moeda diminuir significativamente, baixam os rendimentos reais
de todos aqueles que tinham rendimentos fixos e ganham aqueles que têm capacidade
de alterar os seus. Deste modo, viu a burguesia comercial aumentar os seus
rendimentos, em virtude do aumento dos preços dos seus produtos e vê a classe
trabalhadora, bem como a nobreza os seus rendimentos reais diminuírem.

1.2. A Proletarização dos Camponeses Pobres


(As Enclosures e a Revolução Agrícola)
Um pouco por toda a parte, os campos são ocupados com rebanhos de gado lanígero,
para aproveitar a subida do preço da lã, resultante do desenvolvimento da manufatura de
panos, impulsionado pelas novas dimensões que o comércio adquirira.
Ora, a nova nobreza inglesa compreendeu que a riqueza era agora a fonte do prestígio
e do poder e tratou de se lançar na constituição de unidades agrícolas de grande dimensão,
reunindo parcelas até aí dispersas por vários pequenos camponeses, transformando as terras
de cultura em terras de pastagens para criação de ovinos. Ao mesmo tempo, os grandes
proprietários de terras começaram a apropriar-se das terras comunais, cercando-as para
nelas fazerem pastar os seus rebanhos. Assim, se iniciava a prática conhecida por enclosures.
Na verdade, foi na Inglaterra que o movimento das enclosures encontrou a sua mais
clara expressão e só aí, no século XVIII, o processo se radicalizou. O processo iniciou-se em
finais do século XV, acentuando-se após a Glorious Revolution, em 1689. A usurpação pela
força da propriedade comunal e a apropriação privada dos domínios do estado foram
acompanhadas da transformação das terras de cultivo em terras de pastagem.
Com efeito, as terras caem nas mãos de uma nova aristocracia fundiária,
transformando-se em puro objeto de comércio, como convinha à burguesia emergente,
interessada em alargar o domínio da grande empresa agrícola, para tirar das terras produtos

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que pudesse comerciar e para dispor do grande número de trabalhadores expulsos das terras
de onde extraíam o seu sustento.
Neste sentido, note-se que a criação de gado dispensava grande número de
trabalhadores (depopulating pasture) e implicava a diminuição da área disponível para a
produção de alimentos. Por outro lado, a ocupação das terras comunais (depopulating
enclosures) impedia que os camponeses continuassem a usá-las para satisfazer as
necessidades da economia familiar.
Entretanto, tinham-se descoberto novas técnicas de cultivo das terras, que vieram
favorecer a grande propriedade fundiária. Trata-se da substituição da prática do pousio e do
afolhamento trienal pela cultura periódica de luzerna e outras plantas forraginosas, com
aptidões para renovar a produtividade da terra. Consequentemente, o sobreproduto agrícola
aumenta e os proprietários, para poderes aproveitar os ganhos da maior produtividade,
modificam o sistema de arrendamento, transformando o antigo arrendamento enfitêutico, por
arrendamentos a prazo mais ou menos curto. Deste modo, era possível aumentar
periodicamente as rendas.
No início do século XVIII, a prática de enclosures ganhou nova força, em virtude de
uma lei do Parlamento que vem autorizar a ocupação e vedação das terras comunais,
produzindo vários efeitos: acaba com o livre acesso às terras comunais; reduz as terras de
cultivo; priva os camponeses pobres dos meios de subsistência; favorece o desenvolvimento
da grande propriedade; provoca a subida dos preços dos produtos alimentares; e conduz ao
despovoamento dos campos.
Ora, os efeitos das enclosures convergiram com as consequências da chamada
revolução agrícola. Com efeito, a revolução agrícola significou o aumento da produtividade e
da produção na agricultura, o que permitiu alimentar, sem aumento significativo dos salários,
uma população crescente que não trabalhava a terra; libertou a mão de obra necessária ao
desenvolvimento das indústrias urbanas; permitiu a revolução demográfica; forneceu,
sobretudo no início da industrialização, uma fração dominante dos capitais e dos empresários
que animaram os setores mais dinâmicos da nova atividade industrial.

1.3. A Proletarização dos Trabalhadores da Indústria


(Da Indústria Artesana à Indústria Capitalista)
I. A Indústria Artesana
A atividade industrial levada a cabo pelos habitantes das cidades realizava-se
em pequenas oficinas cuja propriedade, bem como a dos instrumentos de trabalho,
pertencia ao próprio artesão que nelas trabalhava com os familiares ou com um
reduzido número de companheiros e aprendizes, considerados como se fossem

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pessoas da família. Assim, fala-se de produção de mercadorias simples ou pequena


produção mercantil.
Com efeito, note-se que estes artesãos eram pequenos produtores autónomos
que viviam dos rendimentos do seu trabalho, não existindo, por isso, diferenças sociais
relevantes. Em segundo lugar, o artesão produzia por encomenda ou para os
mercados locais, de qualquer modo, tinha em vista um quadro de consumidores
sensivelmente estável. Por conseguinte, na ausência de estímulos ao aumento da
produção, a técnica utilizada era em geral rudimentar e pouco progressiva. Por fim, as
necessidades de defesa perante a exiguidade do mercado levaram os artesãos a
agruparem-se em corporações de artes e ofícios.

II. A Indústria Assalariada no Domicílio


Entretanto, o comércio desenvolveu-se por toda a Europa e a constituição dos
estados modernos, por volta do século XVI, viria alterar a situação das cidades e dos
seus artesanatos. Com efeito, promoveu-se a abertura de pontes e estradas que
facilitassem as comunicações, pelo que as relações entre as cidades tornaram-se mais
fáceis e frequentes.
Neste sentido, o alargamento da zona de trocas, a expansão do mercado e o
distanciamento dos consumidores viriam trazer novos problemas aos pequenos
produtores artesãos: para trabalhares na sua oficina não podiam deslocar-se às feiras
e mercados; dilatou-se o período de tempo entre o início da produção e o momento da
venda; era necessário produzir em mais largar escala e era necessário suportar as
elevadas despesas de transporte.
Daí que os artesãos passassem a vender os seus produtos a um intermediário
– o comerciante. Com efeito, o pequeno produtor perde, assim, o controlo do produto
do seu trabalho, embora continue a dispor dos meios de produção. No entanto, com
as necessidades de capital a acentuar-se, o comerciante passa ele próprio a fornecer
ao artesão as matérias-primas e os instrumentos de produção necessários para
produzir as quantidades correspondentes à procura acrescida. Assim, o artesão acaba
de perder a sua independência como produtor, pois passa a não dispor dos meios de
produção, não lhe restando mais do que a remuneração pela sua força de trabalho.
Em suma, o produtor autónomo deu lugar ao assalariado, falando-se de
indústria assalariada no domicílio.

III. As Manufaturas
A iniciativa da produção por parte dos próprios capitalistas haveria de verificar-
se sobretudo a partir do aparecimento das manufaturas. Com efeito, no século XVIII,

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começou a desenvolver-se uma nova forma de organização da atividade produtiva: a


manufatura.
De acordo com Ernest Mandel, a manufatura é a reunião, debaixo do mesmo
teto, de operários que trabalham com meios de produção que lhes são fornecidos e
com matérias-primas que lhes são entregues. Assim, ao operário cabe apenas um
simples salário.
Neste sentido, as manufaturas desenvolveram-se, dadas as suas vantagens
por elas oferecidas aos novos industriais capitalistas: suprimiram os intermediários
para a distribuição das matérias primas e a recolha dos produtos acabados; reduziram
os custos de produção, ao permitirem o controlo direto do patrão relativamente ao uso
das matérias-primas e dos instrumentos de produção, evitando fugas e desperdícios;
por último, trouxeram elevados ganhos de produtividade, em virtude da especialização
interna e da sujeição dos trabalhadores a um ritmo de trabalho e a um horário de
trabalho impostos pelo empresário.
Ora, mais que a especialização externa da indústria artesana, as manufaturas
trouxeram o conceito de empresa como organização produtiva. Com efeito, ao
concentrar os trabalhadores no mesmo local de trabalho, permitiu-se a subdivisão do
processo produtivo de cada produto numa série de operações parcelares.
Paralelamente, a diferenciação e a especialização dos instrumentos de trabalho é
outra característica das manufaturas.
Deste modo, as operações inerentes ao processo produtivo tornam-se muito
simples, podendo ser realizadas por trabalhadores sem qualquer qualificação. Por
conseguinte, isto proporcionou uma redução substancial dos custos de produção.
Na ótica dos trabalhadores da indústria, os velhos artesãos perderam, assim,
o que lhes restava da sua autonomia: passaram a trabalhar fora de casa ou da sua
oficina; ficaram sujeitos a um horário fixado pelo patrão; perderam o controlo do
processo técnico de produção; e passaram a ter de se sujeitar ao poder de direção do
dono da empresa. A propriedade capitalista e as relações de produção capitalistas
penetram assim na indústria.
Entretanto, as classes burguesas tinham ocupado as posições de maior
destaque nos países mais avançados e o seu poderio económico foi-lhes propiciando
um crescente poder político. Por conseguinte, o estado empenhou-se no incentivo e
proteção das novas manufaturas (reais ou privilegiadas), o que se refletiu na
concessão de especial proteção aos novos centros onde se instalavam as
manufaturas capitalistas; na concessão de crédito; no empenho por assegurar
mercados às novas indústrias; e, por fim, na proibição de coligações operárias,

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associações profissionais recurso à greve. Assim, note-se que todas estas medidas
se tomaram sob a égide de uma política protecionista generalizada.
Em suma, foram estas transformações económicas, entre os séculos XVI e
XVIII, que originou o aparecimento do proletariado moderno, classe de indivíduos aos
quais só restava a alternativa de se deixarem contratar como mão de obra assalariada.
No entanto, o capitalismo só se instalaria como sistema dominante, quando a
burguesia logrou tomar o poder político.

1.4. Síntese
A essência das relações de produção capitalistas reside na separação radical dos
produtores relativamente aos meios de produção e foi este o papel histórico do processo de
acumulação primitiva do capital: separar o trabalho das suas condições exteriores.
No entanto, de acordo com Pierre Vilar, a acumulação primitiva do capital provoca a
sua própria destruição, já que, primeiramente, a subida dos preços, o aumento dos impostos
reais e os empréstimos vultuosos asseguravam ganhos fartos a usurários e especuladores,
porém, quando o dinheiro circula em abundância, é mais difícil exigir juros elevados.
Assim, torna-se necessário encontrar novas vias de reprodução do capital, o que só
virá a acontecer quando a nova classe burguesa assegurar o controlo político.

1.5. Contraponto entre a Visão de Marx e Smith


Adam Smith, como Marx, também concebe uma explicação a propósito da passagem
do feudalismo para o capitalismo que assenta na epígrafe da acumulação prévia de capital.
Antes de mais, recorde-se que, para Smith, as causas da riqueza das nações são
duas: a existência de trabalhadores produtivos que se encontra condicionada pela divisão e
especialização interna do trabalho; e da acumulação de capital, já que, para se conseguir
trabalhadores produtivos, são necessários capitais que possam ser adiantados à produção.
Focando-nos, agora, na acumulação prévia de capitais (previous accumulation), note-
se que, segundo o autor, esta depende do nível da atividade económica ou do nível do
rendimento gerado num determinado país e, ainda, da taxa de poupança, isto é, da
capacidade de nem todo o rendimento gerado ser gasto em despesas de bens de consumo
sumptuários e, como tal, ser poupado.
Com efeito, à partida, será mais fácil acumular capitais em economias que geram
bastante rendimento, o que não significa a existência de uma taxa de poupança elevada.
Contrariamente, em economias subdesenvolvidas, mesmo com elevada taxa de poupança, a
acumulação de capital é mais custosa.

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Neste sentido, note-se que a taxa de poupança revela-se como um elemento


fundamental, sobretudo, em economias subdesenvolvidas, já que a taxa de poupança terá de
ser muito elevada, para que possa haver investimento.
Ora, para Smith, em economias subdesenvolvidas, além de ser necessária uma taxa
de poupança elevada, é também necessário chamar à atenção a mentalidade da burguesia.
Assim, considera o autor que a mentalidade da burguesia é distinta, sendo marcada pela
frugalidade e parcimónia, isto é, uma forma de viver discreta, acometida de grandes gastos,
o que seria compatível com a necessidade de elevadas taxas de poupança que permitissem
o investimento.
Em suma, Marx explica a acumulação do capital por referência a circunstâncias
históricas e económicas que permitiram o enriquecimento da burguesia, interpretadas como
simples oportunidades de comércio que esta classe soube aproveitar, relevando, ainda, a
separação dos meios de produção dos trabalhadores que deu origem ao salariato. Por outro
lado, Smith denota a importância da mentalidade da burguesia que passa por uma utilização
do dinheiro com vista ao investimento. Contudo, note-se que Smith não deu a importância
necessária à massificação do regime do salariado. Por fim, consideramos que as duas visões
se complementam.

2. Fatores da Ascensão da Burguesia e Consolidação do Capitalismo

2.1. A Reforma
(breve referência)

2.2. A Formação dos Estados Modernos na Europa


(breve referência)
Por volta dos séculos XV e XVI, assiste-se na Europa à constituição dos modernos
estados nacionais, unificando, sob a autoridade do soberano, o território e o poder político
fragmentados característicos do período feudal. Foi um movimento em que os soberanos se
apoiaram na burguesia e que a burguesia apoiou de bom grado, pois tratava-se de abolir as
últimas regalias da feudalidade e o poderio das cidades corporativos, com a sua atividade
industrial realizada por produtores autónomos.
Por fim, note-se que o enorme apoio que os estados nacionais deram ao grande
comércio e à indústria nascente, apoiando as burguesias nacionais na luta acesa travada na
exploração colonial e protegendo, de vários modos, as manufaturas capitalistas, quer perante
as prerrogativas das cidades, quer perante a concorrência dos produtores estrangeiros.

2.3. A Revolução Inglesa

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

(breve referência)

2.4. A Revolução Industrial


(consequências económicas e sociais)

2.5. A Revolução Francesa

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

III. DO CAPITALISMO DE CONCORRÊNCIA AO CAPITALISMO MONOPOLISTA DE


ESTADO

1. Apresentação
2. O capitalismo de concorrência
2.1. A economia, esfera da ação exclusiva dos particulares
2.2. O estado enquanto pura instância política, separada da economia
2.3. O Estado de Direito liberal
3. O capitalismo monopolista
3.1. A concentração capitalista
Quais os fatores?
3.1.1. Concentração como consequência direta da concorrência
3.1.2. Progresso técnico
3.1.3. Crises cíclicas
3.1.4. Capital bancário
3.1.5. Industrialização tardia
Quais os efeitos?
3.1.6. Caráter social do processo produtivo
3.1.7. Caráter social dos meios de produção
3.1.8. Exportação de capitais privados e recrudescimento do capitalismo
3.1.9. Divisão do trabalho à escala mundial
4. O capitalismo monopolista de estado
4.1. A 1ª Guerra Mundial e o período entre as duas guerras
4.2. A 2ª Guerra Mundial
4.3. O capitalismo contemporâneo
4.3.1. O Estado Económico
4.3.2. Novos aspetos da concentração capitalista
4.3.3. Planificação pública e privada. O significado atual do problema
4.3.3.1. A planificação ao nível das grandes empresas privadas
4.3.3.2. Os primórdios da planificação pública
4.3.3.2.1. O significado da planificação indicativa
4.3.3.2.2. A planificação indicativa e planificação imperativa
4.3.3.3. O papel do mercado em economia planificada
4.3.3.4. Nacionalizações, privatizações e entidades reguladoras independentes
4.3.4. A teoria da convergência dos sistemas
5. Relações económicas internacionais
5.1. Exportação de capitais públicos

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

5.2. A vitória do livre-cambismo


5.3. Globalização
5.4. Processos de integração económica regional
6. Keynesianismo e neo-monetarismo
6.1. A “revolução keynesiana”. O estado providência
6.2. A contrarrevolução monetarista

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

III. DO CAPITALISMO DE CONCORRÊNCIA AO CAPITALISMO MONOPOLISTA DE


ESTADO

- Apresentação

O capitalismo só se afirmou como modo de produção autónomo quando as relações


de produção capitalistas penetraram na indústria, o que aconteceu quando esta atingiu a fase
da maquinofatura, período a partir do qual o capitalismo se instalou como sistema económico
dominante.
Na verdade, desde a afirmação do capitalismo como modo de produção dominante
até aos nossos dias, operaram-se, no seio do capitalismo, certas transformações que importa
caracterizar e explicar, para se poder compreender porque é que, apesar dessas mudanças,
a essência do sistema não foi afetada.
Por fim, note-se que, relativamente à evolução do capitalismo, a divisão clássica
apresenta três fases: capitalismo de concorrência, capitalismo monopolista e capitalismo
monopolista de estado. No entanto, ressalve-se que o Doutor Avelãs Nunes acrescenta uma
quarta fase: capitalismo para formas do estado capitalista se relacionar com a economia –
Estado Regulador.

- O Capitalismo de Concorrência

1. A Economia, Esfera da Ação Exclusiva dos Particulares


A expressão capitalismo de concorrência costuma utilizar-se para se referir a realidade
económica característica dos países onde, nos fins do século XVIII ou durante o século XIX,
se verificou a revolução industrial.
Com efeito, apresentava-se, neste período, verosímil a existência de pequenas
empresas, em que os empresários gozam de absoluta liberdade de iniciativa, com vista à
obtenção do máximo lucro, tendo em conta o preço formado no mercado.
Além do mais, existia livre concorrência entre as empresas, pois, sendo pequenas,
nenhuma delas poderia exercer influência sensível sobre a oferta e, sendo muito numerosas
em cada indústria, não tinham possibilidade de estabelecer acordos entre elas com vista ao
controlo dos preços e do mercado. Por outro lado, nenhuma das empresas estava em
condições de conquistar e conservar clientela (procura) própria, em virtude de os bens
produzidos e vendidos no mercado serem homogéneos e da pela transparência no mercado,
isto é, em cada momento, todos os agentes económicos dispõem de todas as informações
possíveis acerca das condições do mercado.

32
Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

As condições em que esta concorrência se desenrolava faziam com que o mercado


se apresentasse como um mecanismo por meio do qual os consumidores orientam a
produção. Assim, o consumidor era o último detentor do poder económico: esta a essência
da chamada soberania do consumidor. O mercado era tido como o instrumento automático
de controlo e direção da economia.
Além do mais, verifica-se, também, o livre acesso à indústria que passa pela
inexistência de obstáculos de facto ou legais. Com efeito, como as empresas eram pequenas,
os capitais necessários para abrir uma nova fábrica não eram muito avultados e como o
mercado era aberto, isto é, nenhuma empresa podia controlar a clientela, sempre apareceriam
novas empresas no mercado enquanto a indústria fosse atrativa para os investidores em
busca de lucro. Neste contexto, torna-se importante discernir o conceito de lucro anormal, ou
seja, o lucro mínimo indispensável para que uma dada empresa se mantenha no mercado, já
que a indústria será atrativa nesta situação. Assim, com o aumento do número de empresas,
provoca-se um aumento da oferta e este conduzia à diminuição dos preços do mercado,
obrigando os que quisessem manter-se a um permanente esforço de inovação técnica.
Com efeito, nas condições de concorrência perfeita, o mercado e o mecanismo dos
preços eram tidos como os garantes da eficiência social do sistema. O mecanismo dos preços
forneceria aos agentes económicos a informação necessária para que eles pudessem decidir
racionalmente e o respeito pelos princípios do cálculo económico garantiria que as empresas
que permanecem no mercado produziriam a maior quantidade de bens possível, ao mais
baixo custo possível, vendendo-as ao mais baixo preço possível.
Por fim, note-se que, nestas condições, cada indivíduo atua com vista à realização do
seu próprio interesse, mas, se assim fizer, cada indivíduo é guiado por uma mão invisível a
atingir um objetivo que ele não tinha de modo algum visado, o interesse social.

2. O Estado enquanto Pura Instância Política, Separada da Economia


De acordo com os cânones do liberalismo, a economia funciona por si, segundo as
suas próprias leis, à margem da política: a economia é a esfera de ação dos particulares,
inteiramente separada da política, do estado.
Por conseguinte, o Estado foi remetido para a posição de simples guarda noturno,
apenas lhe cabendo intervir para garantir a defesa da ordem social, para assegurar a cada
um o pleno exercício da liberdade individual e para criar e manter certas instituições e serviços
públicos necessários à vida em sociedade e que o simples jogo de interesses individuais não
realizaria.
Ora, considera-se que o papel relativamente passivo atribuído ao estado liberal não o
impediu de desempenhar a sua função de estado capitalista.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Internamente, o estado não deixou de legislar no sentido de disciplinar os


trabalhadores, de ampliar a jornada de trabalho, de fixar o salário máximo, de proibir e
criminalizar a constituição de sindicatos operários.
Externamente, atenta-se na ação do estado quanto à política colonial e quanto à
aplicação de medidas protecionistas. Quanto à política colonial, observa-se que cada
metrópole tentava explorar as colónias, já que estas serviam a função de fornecimento de
matérias-primas e de produtos de baixo valor acrescentado, bem como mercados de
escoamento. No que diz respeito às medidas protecionistas, atente-se que se procurou, nesta
altura, aplicar a teoria das vantagens comparativas de David Ricardo, segundo a qual, cada
país produzirá e venderá aos outros aqueles bens que pode produzir em condições
relativamente mais favoráveis, isto é, aqueles bens cujos custos relativos são, no país
considerado, mais baixos que no estrangeiro. No entanto, esta teoria assenta em
pressupostos restritivos, pelo que nem todos os países a receberam, nomeadamente, países
que desenvolveram políticas protecionistas sistemáticas.

3. O Estado de Direito Liberal

- O Capitalismo Monopolista

No último quartel do século XIX, começa a ser notório um fenómeno que Marx
considerara ser inerente à lógica da acumulação do capital: a concentração capitalista e a
consequente monopolização da economia.
Esta nova fase do capitalismo assinala uma alteração nas estruturas económicas do
sistema, agora caracterizadas pelo domínio de um pequeno número de grandes empresas, à
volta das quais, em posição de subordinação, vai crescendo um grande número de pequenas
empresas sem qualquer capacidade de influenciar o mercado.
Com efeito, monopólio é um mercado onde há um único vendedor e produtor a atuar
no mercado. Ora, com esta expressão pretendemos, antes, qualificar as situações em que
uma indústria passa a ser controlada por um número muito reduzido de grandes empresas
que estão em condições de impor os seus preços aos consumidores, em termos tais que o
mercado deixa de ser o instrumento de orientação e de controlo das empresas para passar a
ser dirigido por elas. Assim, pretende-se falar de oligopólios que se traduzem na circunstância
de poucas grandes empresas a vender no mercado.
Sinteticamente, esta fase pode ser caracterizada pela concentração em alguns
setores; pelo recrudescimento do colonialismo; pela afirmação da importância de capital
financeiro; e, ainda, pela concentração monopolista oligopolista.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

1. A Concentração Capitalista
Quais os fatores que explicam o processo de concentração que se verificou a partir
dos anos 70 do século XIX?

A – Concentração como Consequência Direta da Concorrência


A concorrência centra-se na busca incessante de novas condições de produção,
capazes de permitir custos de produção mais baixos, única maneira de as pequenas
empresas poderem aumentar os seus lucros, impossibilitadas que estavam de exercer
qualquer ação relevante sobre as condições globais do mercado ou diretamente sobre os
preços.
Como tal, a concorrência era incompatível com a ineficiência e as empresas que não
acompanhassem os progressos técnicos estavam condenadas a desaparecer, fechando
portas ou sendo absorvidas por outras, que iam engrandecendo progressivamente.
Em suma, as leis do próprio modo de produção capitalista conduzem à concentração
do capital.

B – Progresso Técnico
Na senda da segunda revolução industrial, o progresso técnico se, por um lado,
favoreceu, por outro lado, também obrigou ao processo de concentração.
Com efeito, o progresso técnico favoreceu a concentração, na medida em que se
traduziu no alargamento do mercado: quer porque favoreceu o alargamento demográfico,
quer porque os novos meios de comunicação e de transporte possibilitaram o seu
alargamento geográfico.
Por outro lado, obrigou à concentração, na medida em que as novas tecnologias, não
rentáveis a não ser em unidades de grande dimensão, capazes de produzir em muito larga
escala, exigiam capitais cada vez mais vultuosos.

C – Crises Cíclicas
Estas crises começaram a verificar-se nas economias capitalistas a partir do primeiro
quartel do século XIX.
Com efeito, provocaram o desaparecimento de muitas empresas, estimulando a
cartelização das empresas maiores. Por outro lado, face a estas crises, existiam empresas
que, preventivamente, aumentavam a sua dimensão, de tal modo que pudessem melhor
controlar o mercado, evitando uma nova crise.

D – Capital Bancário

35
Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Os bancos, ao centralizarem as poupanças das pessoas e empresas, assumem a


função de captação de poupança. Assim sendo, estão em condições de se afirmar como
instituições de crédito, já que os capitais centralizados vão conceder créditos fundamentais
para que as empresas façam investimentos avultados, que necessitam para a integração dos
progressos e permitir aumento de dimensão. Com efeito, note-se que HILFERDING chamou
capital financeiro a esta união entre capital bancário e industrial.
Neste contexto, o capital bancário atuou como instrumento de extermínio das
pequenas e médias empresas, asfixiadas nos mecanismos de crédito; ele promoveu a
constituição de poderosos grupos financeiros, associando a atividade bancária à atividade
industrial e comercial; ele permitiu a concentração e centralização dos meios financeiros
indispensáveis à definição e execução da estratégia imperialista do capitalismo.
Em muitos casos, deve-se aos bancos a iniciativa de acordos, fusões e associações
de vária natureza entre empresas industriais, e mesmo a iniciativa da constituição dos
primeiros monopólios internacionais, que então começaram a repartir entre si o mercado
mundial, criando zonas reservadas ou esfera de influência.
Da perspetiva de MARX, esta situação constitui a negação da própria propriedade
privada, que decorre do próprio funcionamento do capitalismo – pequenos proprietários vêm-
se impedidos de se manter em funcionamento.

E – Industrialização Tardia
O facto de vários países se terem industrializado na segunda metade do século XIX,
quando outros já conheciam algumas décadas de industrialização, não deixou de ter
importância no alastrar da concentração a todo o mundo capitalista.
Nos países que primeiro conheceram a revolução industrial, o grande número de
pequenas empresas que entretanto se desenvolveram, constitui a base de uma pequena e
média burguesia que procurou resistir e que entravou enquanto pôde a marcha da
concentração, ao mesmo tempo que um um grande número de pequenos proprietários rurais
não favorecia a centralização do capital.
Diversamente, os países que só mais tarde se industrializaram (Alemanha, EUA,
Rússia, Japão) não conheciam uma classe burguesa antiga, numerosa e mais ou menos
organizada como existia nos outros países da Europa ocidental. Como tal, não existia uma
classe de pequenos proprietários que remassem contra a constituição de grandes unidades
capazes de criar situações de tipo monopolista. Por outro lado, os países recém-chegados à
industrialização, para poderem competir com as indústrias dos países mais avançados, foram
naturalmente levados a lançar mão das técnicas mais modernas e a alicerçar a sua
industrialização em unidades de grande dimensão, para poderem colher as vantagens
inerentes à produção em grande escala.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Quais os efeitos da concentração capitalista?

A – Caráter Social do Processo Produtivo


A industrialização conduziu a que a produção se faça com recurso a centenas de
trabalhadores, pelo que as grandes unidade produtivas saídas da concentração têm ao seu
serviço uma grande abundância de trabalhadores. Com efeito, o processo produtivo é
social/coletivo, visto que intervém nele muitos trabalhadores.

B – Caráter Social dos Meios de Produção


As novas técnicas implicam a utilização de equipamentos muito caros e as novas
empresas exigem investimentos que envolvem somas elevadíssimas, fora do alcance de um
único indivíduo, o que obriga à reunião de capitais de várias pessoas. Esta exigência está na
base da enorme expansão que de então para cá têm conhecido as sociedades por ações,
especialmente aptas para mobilizar capitais tanto de grandes como de pequenos aforradores.
Assim, as empresas individuais dão lugar à sociedade. Com efeito, o capital deixa de
estar individualmente apropriado para passar a ser objeto de propriedade social, corporativa.
Em suma, se as empresas com os meios de produção são propriedade de muitas
pessoas, então os seus meios de produção são também propriedade de muitas pessoas e,
daí, a afirmação dos meios de produção enquanto coletivos.

C – Exportação de Capitais Privados e Recrudescimento do Capitalismo


A concentração torna possível o entendimento entre as grandes empresas no sentido
de não baixarem os preços, o que muitas vezes implica a limitação da produção. Deste modo,
os lucros monopolistas constituem capital em busca de campos de investimento. Com efeito,
os capitais acumulados não podem ser aplicados em investimentos nos setores
monopolizados, pois investir significa exatamente aumentar a capacidade produtiva.
Embora os monopolistas aufiram elevados lucros globais, podem não ter interesse em
investir mais na sua própria indústria: e que a taxa global de lucro pode ser alta, mas ser baixa
a taxa marginal de lucro. Daí, o interesse em investir em setores ainda não monopolizados ou
em ampliar a área de investimento, por meio da exportação de capitais, para territórios onde
não se verifiquem ainda situações monopolistas.
A sobreacumulação do capital origina um excedente de capitais à procura de novos
campos de investimento, situação que não se verificara nos primeiros tempos da revolução
industrial, marcada por um grande apetite de capital novo.

37
Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

É esta nova situação que explica o movimento de exportação de capitais privados, que
se iniciou no final do século XIX, em paralelo com a retração dos investimentos nos países
europeus industrializados.
A exportação de capitais privados, a corrida às colónias e a partilha dos territórios
coloniais entre as grandes potências, num processo em que os estados nacionais
desempenharam um papel central, são as características do imperialismo no final do século
XIX.
A expansão colonial foi mais um fator a favorecer a concentração e centralização do
capital, na medida em que abriu novos mercados e propiciou vastos campos de ação,
permitindo a constituição de grandes empresas para explorar diversos setores. Com efeito,
as potências europeias empenharam-se numa grande campanha ideológica para apresentar
o imperialismo como uma espécie de desígnio nacional, capaz de resolver os problemas
sociais das metrópoles e de reduzir a tensão entre as classes sociais.
Este foi o período da chamada segunda revolução industrial, que proporcionou as
condições técnicas para o desenvolvimento da segunda onda da globalização, consolidando
definitivamente o capitalismo como sistema mundial e facilitando a internacionalização do
capital. O capitalismo passou à fase do imperialismo, de que a corrida às colónias constituiu
elemento importante.
Neste sentido, o extraordinário incremento que então conheceram os meios de
transporte e de comunicação veio unificar definitivamente o mercado mundial.
No entanto, a unificação do mercado mundial veio colocar novos problemas às
potências capitalistas, agora concorrentes umas das outras, quer nos mercados de venda dos
produtos industriais, quer nos mercados de abastecimento de matérias-primas ou de mão de
obra barata, quer na busca de campos de investimento.
Assim, no contexto de um sistema mundial do capitalismo assente em economias
nacionais com interesses conflituantes, a concorrência entre as várias indústrias nacionais
obrigou a que, por um lado, se adotem medidas protecionistas para impedir a entrada de
mercadorias estrangeiras no mercado interno; e, por outro lado, a que se defendessem as
empresas nacionais da invasão de capitais e mercadorias estrangeiras nos territórios
coloniais.

D – Divisão do Trabalho à Escala Mundial


O regime colonial e a exploração económica das colónias trouxeram consigo uma
divisão do trabalho à escala mundial que fez dos países dominados produtores e exportadores
e bens primários, muitas vezes em regime de monocultura. Com efeito, esta degrada os solos,
reduz a produção de géneros alimentares e torna os países produtores inteiramente

38
Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

dependentes do mercado de um único produto, às vezes monopsonizado pelo país


dominante.
Por outro lado, os países primário-exportadores ficam reduzidos à condição de
consumidores de produtos manufaturados produzidos pelas empresas das metrópoles,
objetivo que acarretou a liquidação das indústrias existentes em algumas regiões colonizadas.
No entanto, note-se que esta penetração de capitais significou que a direção da
economia dos países dominados passou a ser feita a partir de centros de decisão
estrangeiros, que atuam em consonância com os interesses económicos das metrópoles e
não com as exigências de um desenvolvimento equilibrado dos territórios coloniais.

- O Capitalismo Monopolista de Estado

A Primeira Guerra Mundial é considerada, em regra, o marco que assinala o início de


uma nova fase no desenvolvimento do capitalismo, a qual vem até aos nossos dias. A
designação de capitalismo monopolista de estado parece-nos ser a que melhor traduz a
mudança que se verificou a partir da Primeira Grande Guerra e que melhor caracteriza a
realidade do capitalismo no período em referência, em que o estado assume cada vez mais
o estatuto de capitalista coletivo: numa economia monopolizada, cabendo ao estado a função
de proteger a estrutura económico-social dominante, o estado é o estado do capitalismo
monopolista, em correspondência com a nova estrutura do capitalismo, o capitalismo
monopolista de estado.
Com o efeito, o estado saiu da sua tradicional esfera política de atuação, despiu o
manto que procurava apresentá-lo como instituição que nada tinha que ver com a economia
e com os negócios e invadiu às claras a esfera económica, emergindo muitas vezes como o
maior produtor, o maior investidor, o maior consumidor, o agente que movimenta a parte mais
importante do rendimento nacional.
Por outro lado, a própria política hoje é, cada vez mais, política económica. Neste
sentido, o próprio direito vem-se ocupando cada vez mais com a regulação da economia,
sendo a ordem económica um elemento relevante da ordem jurídica.

1. A 1ª Guerra Mundial e o Período entre as Duas Guerras

1.1. Consequências da Primeira Guerra Mundial


(breve referência)

1.2. A Revolução de Outubro


(breve referência)

39
Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

1.3. A Constituição de Weimar


Na Alemanha, à derrota do movimento espartaquista sucedeu uma solução de
compromisso, traduzida na Constituição de Weimar de 1919.
Terminadas as hostilidades, os horrores da Primeira Guerra deram razão às estruturas
representativas dos trabalhadores. Com efeito, esta autoridade moral veio reforçar o poder
resultante do aumento numérico da classe operária e do reforço das suas estruturas
organizativas, o que se traduziu em aumento do seu peso político e da sua capacidade para
influenciar o sentido da intervenção do Estado,
Pela primeira vez, põe-se abertamente em causa a tese liberal da autonomia das
forças económicas, assumindo que a intervenção do estado na economia deve visar não
apenas a racionalização da economia, mas também a transformação do sistema económico,
integrando a economia na esfera da política, fazendo da economia um problema político,
lançando as bases da passagem do estado de direito ao estado social.
A constituição económica de Weimar inspira-se no princípio de que não pode confiar-
se ao capital privado a gestão de determinados setores da atividade económica,
nomeadamente os que representam uma intrínseca e irrecusável utilidade social. No entanto,
marca a diferença entre o estado social e o estado socialista, na medida em que se recusava
o confisco puro e simples da propriedade privada, garantindo sempre aos expropriados uma
qualquer contrapartida.
Além do mais, emergem também novos direitos, com a categoria de direitos sociais: o
direito à habitação, à educação, à saúde. Com efeito, é reconhecida, pela primeira vez em
termos constitucionais, a liberdade de organização sindical como direito fundamental dos
trabalhadores.
A par da nacionalização como instrumento mais radical, a Constituição de Weimar
consagrava outros instrumentos que permitiam a intervenção do estado na economia, ou, se
preferirmos, a disciplina da propriedade privada. Com efeito, é o caso do princípio da função
social da propriedade, retirando-se aos proprietários o direito de abusar da sua propriedade,
mas também cominando-lhes o dever de a colocar ao serviço dos interesses da coletividade.
Por último, note-se a consagração do princípio da cogestão, através do qual se
garantia, em determinadas circunstâncias, a participação dos trabalhadores na gestão das
empresas. Trata-se de uma outra limitação à liberdade absoluta do capital, de um instrumento
que, mais uma vez, visava amarrar as empresas privadas às suas responsabilidades sociais,
através da participação dos trabalhadores no processo de tomada de decisões das próprias
empresas.

40
Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Neste quadro, a instituição da cogestão traduz precisamente o propósito de alterar o


estatuto da empresa privada, mas deixando intocada a propriedade capitalista dos meios de
produção. Com efeito, o objetivo último da cogestão era reduzir a conflitualidade social.
Esta técnica apoiava-se na consciência de uma parte das classes dominantes de que
certas formas de participação dos trabalhadores nos lucros da empresa podem constituir um
fator de paz social de aumento da produtividade do trabalho em benefício dos empregadores
capitalistas.
No entanto, note-se que as forças políticas de esquerda e o movimento sindical
sempre denunciaram tal solução como neocorporativa, empenhada em institucionalizar a
colaboração de classes.

1.4. A década de 1920


(breve referência)

1.5. A Grande Depressão. O New Deal


(breve referência)

1.6. O Estado Nazi-Fascista e a Solução Corporativista


Nos países de economia mais debilitada (Alemanha) e nos países pobres e atrasados
(Espanha, Itália e Portugal), afetados também pela profunda e prolongada crise económica,
as condições económicas e sociais não permitiam resposta fácil às reivindicações dos
trabalhadores e das suas organizações de classe.
Nestas condições, para cumprir o seu papel, o estado capitalista, assumiu então a
forma de estado fascista, antiliberal, antidemocrata e antissocialista.
O estado fascista foi antiliberal, já que o indivíduo dilui-se nos corpos sociais; a
conceção orgânica da sociedade substitui a ideia de sociedade como o somatório de
indivíduos isolados; o contratualismo dá lugar ao institucionalismo: o estatuto definido e
imposto pelo esta ou pela entidade hierarquicamente superior substitui a solução contratual.
No que se refere à economia, esta deixa de ser considerada terreno privado, passando a
integrar a esfera da política: as corporações foram pensadas como órgãos simultaneamente
reguladores da economia e detentores do poder político, ultrapassando assim o dogma liberal
da separação entre o estado e a economia; o estado assume o direito e o dever de intervir na
economia, para a promoção do bem comum, substituindo a concorrência pela planificação
corporativa.
Além do mais, o estado fascista foi, essencialmente, anti-trabalhadores, porque foi
antidemocrata e antissocialista. Neste sentido, foi antidemocrata porque proibiu o sufrágio
universal e os partidos políticos, anulou a liberdade de reunião e associação, a liberdade de

41
Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

manifestação e a liberdade de expressão. Por outro lado, foi antissocialista, porque congelou
todos os direitos económicos e sociais, entretanto conquistados pelos trabalhadores e anulou
todas as políticas públicas que pudessem acautelar ou garantir esses direitos.
Neste novo quadro, o corporativismo representou a intervenção organizada do estado
nazi-fascista na economia, com o objetivo de ultrapassar as contradições do capitalismo,
eliminando a luta de classes e de evitar a derrocada do capitalismo, resolvendo dois
problemas fundamentais que então se colocavam: o governo da economia e a questão social.
Com efeito, a necessidade de garantir o governo da economia surgiu com os primeiros
sinais da crise do capitalismo. Por outro lado, a solução para a questão social foi a de
promover uma estreita aliança entre o poder fascista e os grandes grupos empresariais, aos
quais foi entregue a direção das estruturas corporativas que, por sua vez, assumiram a tarefa
de organizar e controlar a economia.

2. A 2ª Guerra Mundial
(breve referência)

3. O Capitalismo Contemporâneo

3.1. O Estado Económico

3.2. Novos Aspetos da Concentração Capitalista


Sobretudo a partir de 1930, as grandes empresas aparecem com frequência
comprometidas num processo de diversificação, isto é, a produção pela mesma empresa de
bens com diferentes utilidades, dificilmente substituíveis uns pelos outros.
Acresce que a diversificação torna as empresas menos vulneráveis às crises cíclicas.
A diversificação apresenta-se também como a melhor saída para a expansão de uma
empresa que dispõe de capacidade de produção não utilizada.

42
Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Integração
Horizontal
Integração
(concentração Ascendente
vertical)
Integração
Vertical
Descendente

Homogénea
Concentração
Concentração
(concentração
Funcional
horizontal)
Heterogénea

Conglomerado

A partir da década de 1950, assistiu-se ao desenvolvimento e à predominância das


grandes empresas e ao domínio dos setores mais importantes por um reduzido número de
empresas interessadas em se defenderem, no seu conjunto, da concorrência eventual de
novos produtores. Com efeito, esta situação permitirá explicar a prática frequente da
celebração de acordos de vária ordem entre grandes empresas, acordos que, para além dos
objetivos tradicionais dos cartéis, visam organizar a colaboração das empresas associadas
no que respeita a problemas de ordem técnica.
Neste sentido, note-se que a concentração ganha hoje relevância especial na
perspetiva dos grupos de sociedades. Ora, ao nível das empresas, a concentração horizontal
aparece fundamentalmente como concentração homogénea, isto é, respeitante a empresas
que produzem bens homogéneos ou sucedâneos próximos, que fabricam o mesmo produto.
Ao nível dos grupos, porém, a concentração horizontal apresenta-se como heterogénea, isto
é, reúne-se, no mesmo grupo, empresas que fabricam produtos diferentes.
Com efeito, a concentração horizontal heterogénea visa reunir, sob o controlo de um
mesmo grupo, o maior número possível de empresas especializadas e dominantes em
diferentes ramos de atividade económica. Ora, este fenómeno percebe-se se tivermos em
conta que a lógica da concorrência impõe a especialização; mas a especialização torna as
empresas mais vulneráveis, colocando-as na dependência do mercado de um único produto.
Assim, a via indicada, cuja meta é a criação de condições de multimonopólio, tem em vista a
eliminação do aspeto negativo da especialização.
No âmbito deste processo de concentração horizontal heterogénea, podem distinguir-
se duas situações diferentes: concentração funcional e o conglomerado.
No caso da concentração funcional, trata-se de associação entre empresas que
fabricam produtos diferentes, mas que são suscetíveis de preencher a mesma função (bens
rivais) ou são complementares do ponto de vista de uma mesma função.

43
Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Por outro lado, o conglomerado é uma forma de concentração totalmente heterogénea.


De facto, caracteriza-se pela existência de uma única direção económica, a par de uma
diversificação multilateral.
A par desta diversificação funcional da produção, representada pelos conglomerados,
tem-se acentuado a diversificação geográfica da produção, como consequência da expansão
das empresas multinacionais. Compreende-se como empresa multinacional aquela empresa
cuja direção e controlo estão sujeitas a várias outras empresas filiais, que entre si cooperam
na planificação das suas atividades e no intercâmbio comercial, de informações e de serviços
técnicos, sem prejuízo da conveniente e necessária descentralização. Com efeito, o que é
novo é a internacionalização do processo produtivo, traduzida na realidade das empresas
multinacionais, com a sua rede de produção e de comercialização e com os canais de
mobilização e de centralização dos meios de financeiramente espalhados pelas diversas
partes do mundo, estabelecendo uma divisão internacional do trabalho à medida dos seus
interesses, fracionando o processo produtivo e localizando em regiões ou países diversos
cada uma das fases do processo produtivo.

3.3. A Planificação Pública e Privada. O significado atual do problema.

3.3.1. A Planificação ao nível das grandes empresas privadas


A coerência e o significado da planificação estadual nas economias capitalistas só se
compreenderá inteiramente depois de se explicarem as razões que levaram as grandes
empresas a planificar a sua actividade antes mesmo de os estados capitalistas planificarem
a sua intervenção na esfera económica.
Enquanto o estado da técnica e a situação geral do capitalismo se revelavam
compatíveis com a existência de numerosas empresas relativamente pequenas em cada
ramo industrial, o mecanismo de preços e a regulação ex post pelo mercado entendiam-se
suficientes para assegurar a conveniente satisfação das necessidades dos consumidores,
para prover as empresas com mão-de-obra, de matérias-primas e dos equipamentos
necessários à produção e para lhes permitir, sem grandes riscos, a venda dos produtos
fabricados. Quando este processo deixou de ser seguro, surgiu a planificação como
necessidade imposta às empresas pelo próprio desenvolvimento do capitalismo.
A evolução tecnológica passou a exigir investimentos cada vez mais avultados e a
obrigar as empresas a antecipar meses ou até anos as previsões acerca do comportamento
da procura. Estas exigências só podem ser realizadas por grandes empresas, o que permite
compreender como a evolução das técnicas de produção fez, a certa altura, acabar com o
capitalismo assente em pequenas empresas, para abrir caminho à concentração do poder

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económico num grupo restrito de grandes empresas, características do capitalismo


monopolista.
A evolução tecnológica foi, pois, a causa primeira da introdução da planificação
económica ao nível das grandes empresas.

3.3.2. Os Primórdios da Planificação Pública


Se a planificação levada a efeito pelas grandes empresas que controlam os sectores
altamente concentrados da economia é uma característica do capitalismo monopolista, a
planificação da economia assumida como tarefa dos Estados capitalistas, é, sem dúvida, o
ponto mais alto e mais acabado da intervenção do Estado na economia, particularmente
assumida após a Primeira Grande Guerra.
De início, porém, tal como a concentração foi combatida e negada durante muitos
anos, em razão da paternidade marxista, também a planificação foi banida nos países
capitalistas, por se entender que planificação significava socialismo, e por se julgar a sua
prática incompatível com a liberdade de empresa.
Com a guerra de 1914-18, as múltiplas intervenções do estado na economia passam
a tomar uma forma global, e a necessidade de planificar a intervenção do estado faz-se sentir
principalmente na Rússia e na Alemanha. No contexto de uma economia militarizada, a
planificação consistia à época na repartição concertada entre os principais “monopólios” as
matérias-primas e os recursos disponíveis, bem como as encomendas do Estado. A guerra
“empurrou” o Estado para a esfera do económico. As dificuldades que o capitalismo vinha
enfrentado, bem como a complexidade e a importância das intervenções estaduais,
impunham que o sector privado e o estado concertassem as suas actuações e que o estado
planificasse as suas políticas. Falam alguns de administração concertada e de economia
concertada.
Todas as experiências corporativas, após a grave crise do capitalismo nos anos 30,
reunindo no seio de organismos profissionais de constituição obrigatória: representantes
profissionais e trabalhadores de cada profissão e atribuindo às profissões organizadas um
poder de regulamentar, representam a ambição de coordenar ma economia essencialmente
concentrada e de harmonizar os interesses de grupos animados por tendências
monopolísticas. Aos organismos profissionais (corporações) era atribuída não só a função de
decidir da orientação da economia, mas ainda a de determinar o nível dos preços e dos
rendimentos, assim chegando a uma espécie de planificação corporativa.
Nem por isso a evolução do capitalismo se deixava de verificar. A eclosão da segunda
guerra mundial haveria de marcar, um passo decisivo. O progresso tecnológico e a
concentração capitalista aceleraram-se.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Por força das circunstâncias, o estado capitalista adquiriu, em certas condições a


propriedade de indústrias ou ramos em dificuldades financeiras, ou cuja exploração apresenta
riscos excessivos ou baixas taxas de lucro. O Estado tornou-se proprietário de empresas
fornecedoras de matérias-primas ou de serviços diversos de que as grandes empresas
privadas são os principais clientes, beneficiando, enquanto tais, de condições e tarifas
particularmente favoráveis.
Com o desenvolvimento do comércio internacional; a importância crescente das
exportações para assegurar o desenvolvimento económico; a internacionalização dos
grandes monopólios; traduziram a obrigação da intervenção planificada do estado, no sentido
de efetuar previsões, de recolher e organizar informações, de modo a complementar a
programação privada. Por outro lado, a competição entre o capitalismo e o socialismo activou-
se e o sucesso dos planos quinquenais soviéticos não deixou de pesar no convencimento dos
países capitalistas a adoptarem também a técnica da planificação.

3.3.2.1. O Significado de Planificação Indicativa


A planificação levada a cabo pelo estado dos países capitalistas explica-se, no fundo,
pela mesma lógica que levou as grandes empresas a planificar as suas actividades, tentando
reduzir as incertezas no mercado, destruindo-o como mecanismo de direcção e comando da
economia.
Com o progresso técnico foram aumentando a dimensão das empresas dominantes,
aumentando ao mesmo passo as exigências da produção em massa: maiores somas de
capitais, recursos técnicos mais sofisticados, matérias-primas mais diversificadas, mão-de-
obra mais qualificada, mercados mais vastos. O que significa mais incertezas, obrigando a
uma planificação mais cuidada e a prazos mais longos.
O carácter social da produção e das forças produtivas foi-se acentuando. As empresas
e os sectores de actividade económica tornam-se cada vez mais interdependentes, a tal ponto
que começa a ficar clara a necessidade de “organizar”, de “concertar” a economia. Ao fim e
ao cabo, tratava-se de concertar entre os planos dos grandes grupos monopolistas, até
porque a planificação ao nível das empresas exige uma coerência entre os vários sectores da
actividade, isto é, exige uma certa planificação da economia nacional no seu conjunto.
Toda a intervenção do estado nas economias capitalistas adquire em regra um sentido
em larga medida coincidente com os objectivos da planificação e do controlo do mercado
pelas grandes empresas. Com efeito, certas medidas que os estados adoptam vêm
frequentemente contribuir para que as empresas monopolistas possam praticar preços
fixados à margem das condições que seriam ditadas pelo jogo da oferta e da procura.
O estado actua, por outro lado, no sentido de reduzir as dificuldades e incertezas da
própria planificação das empresas, reunindo e divulgando informações; actuando sobre taxas

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de crescimento da população e sobre a percentagem da população activa em relação á


população total; promovendo a adequada preparação da mão-de-obra e intervindo para
assegurar a sua conveniente distribuição pelos vários ramos de actividade. Neste contexto a
intervenção do estado na ordem económica é de acentuada importância para que se possa
prosseguir a lógica do modo de produção capitalista.
As pequenas empresas foram as que mais protestaram contra a intervenção do estado
na economia. Isto acontece porque esta intervenção não se desenvolve de acordo com a
vontade destas pequenas empresas. O estado intervém a planificar uma economia já de certo
modo planificada pelas grandes empresas, e não admira, por isso, que a planificação pública
se traduza numa tentativa de tornar coerentes entre si os planos dos grandes grupos
monopolistas, limitando as dificuldades que possam resultar da concorrência entre eles e
conjugando-os, numa base “realista”, com as possibilidades de intervenção e apoio do Estado
– fala-se neste ponto de uma economia contratual para significar a existência de um sistema
de compromissos colectivos entre os vários grupos monopolistas e entre estes e o Estado.

3.3.2.2. A Planificação Indicativa e Planificação Imperativa


A planificação tornou-se prática corrente nos países capitalistas, tendo deixado de
questionar a sua necessidade.
A problemática da planificação ganhou relevo no conjunto de temas da ideologia
económica. Assou a ser útil afirmar que o sistema é planificado e que o estado, actuando
como representante dos interesses da colectividade, organiza não apenas a vida económica,
mas toda a estrutura social.
Planificação Indicativa passou a significar que ela não pode aspirar a ser um
instrumento imperativo de direcção do processo económico. Em sistema capitalista, o estado
não pode impor os seus planos, não pode por em causa os direitos que derivam da
propriedade privada, nomeadamente a liberdade de empresa.
Mas o estado dispõe, no entanto, de meios indirectos que lhe permitem influenciar o
comportamento das empresas capitalistas, de modo a conseguir alcançar os seus objectivos
planificados: através da disciplina jurídica da economia, o estado consegue que o sector
privado actue em conformidade com o previsto no plano.
Planificação Imperativa, é em regra, considerada como o elemento essencial do
socialismo. Poderá dizer-se as contradições do modo de produção capitalista só serão
ultrapassadas pela abolição da propriedade capitalista e pela transferência dos meios de
produção para a propriedade social, uma vez conquistado o estado pelo proletariado
revolucionário. Uma vez estabelecida a propriedade pública dos meios de produção sociais,
a economia funcionará de acordo com um plano pré-estabelecido.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

O estado proletariado, não pode deixar de planificar a actuação das empresas de que
é proprietário, e pode fazê-lo de modo cogente, através de um plano imperativo, como
“instrumento para regular toda a economia”. Todas as unidades de produção são obrigadas
legalmente a respeitar o plano, e o plano, por sua vez, deve estabelecer qual a parte do
rendimento deve ser destinado ao consumo e ao aforro.

3.3.3. O Papel do Mercado em Economia Planificada


À luz daquilo que foi supramencionado fazia sentido colocar a questão de saber qua o
significado do mercado e do mecanismo dos preços em economia capitalistas assim
estruturadas.
A verdade é que os preços fugiam, em muitos casos, às “regras” normais do mercado.
As unidades de produção da indústria moderna tendiam (e tendem) a ser de dimensão cada
vez maior, em consequência de vários factores, entre os quais o desenvolvimento das
tecnologias de produção e de distribuição. E a concentração capitalista arrasto consigo a
necessidade da planificação. Esta planificação levada a cabo pelas grandes empresas e NÃO
pelo mercado passou a determinar o volume da produção e a estrutura dos preços. Por isso
se falou de decadência do mercado.
O mercado perdeu, assim, a sua feição tradicional o pape dos consumidores passou
a ser puramente passivo e o lucro perdeu a capacidade de servir como símbolo da eficiência,
nos termos em que lhe atribuía a teoria económica, à luz dos cânones do capitalismo de
concorrência.
As empresas monopolistas, em vez de estarem dependentes dos preços do mercado,
passaram elas mesmas a controlar o mercado, incluindo nos seus planos de investimento
uma determinada taxa de lucro pré-estabelecida.

3.3.4 Nacionalizações; Privatizações; Entidades Reguladoras Independentes


Depois da segunda guerra mundial, deu-se uma vaga de nacionalizações e, em
Portugal, meados do 25 Abril. Às nacionalizações, sucedeu-se um movimento de
privatizações de empresas, nos anos 80, algumas das quais fornecedoras de serviços
públicos e, neste contexto, surgiu o Estado regulador, contrário ao capitalismo monopolista
de estado dos anos 70 marcado pela abundância de empresas, que percebe que se se
privatizar empresas, das duas uma: ou fornecem serviços públicos ou se não os fornecem,
fornecem serviços que interessem o público em geral.
Nesta fase das privatizações em que tudo passa para os privados, surge a necessidade de
cautelas, de forma a salvaguardar o interesse publico em geral, ao privatizar-se empresas
podemos colocar no mercado empresas que prestam serviços públicos ou pelo menos
empresas que tem impacto no interesse público geral e, portanto, é necessário ter cautela.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Assim, o Estado aparece como regulador, com menor capacidade de intervenção


nessas empresas que já não são suas, o Estado passa a ter função de regulação económica
que consiste na imposição de regras emitidas pelos poderes públicos, inclusive sanções, com
a finalidade de modificar o comportamento dos agentes económicos no setor privado. Ou seja,
o Estado vai, no que diz respeito ao âmbito de atuação de algumas empresas, emitir normas,
com ameaça de sanções, para que os empresários não se comportem totalmente de acordo
com lógica de máximo lucro, as regras do mercado.
Contudo, esta imposição de regras faz-se imediatamente através da atuação de
entidades que estão entre estado e empresas, as entidades reguladoras independentes face
ao poder político e poder económico, que fiscalizam o comportamento das empresas,
entidades autónomas de caráter técnico, e não imediatamente através do Estado para as
empresas.
Por exemplo, a autoridade da concorrência (competência transversal) tenta fiscalizar
convenientemente o direito de concorrência, ou seja, leva todas as empresas a agir como se
tivessem em concorrência, mas obrigando-as, por exemplo, a fixar os preços que não eram
aqueles que elas conseguem impor ao mercado sem esta fiscalização. Outro exemplo,
autoridade monetária, Banco de Portugal; o Instituto de seguros de Portugal; a Comissão do
Mercado de valores mobiliários, exerce a sua ação na área financeira, na área da bolsa; a
entidade reguladora dos serviços energéticos, determina os aumentos que se podem dar na
eletricidade ou no gás. Contudo, estas entidades embora criadas pelo estado, estas entidades
não têm caráter político pelo que o estado não detém a sua tutela, questiona-se também se
estas entidades foram capturadas/dominadas pelos interesses das empresas que regulam.
Para além disso, temos também, a título de exemplo, a entidade reguladora da saúde;
entidade reguladora para a comunicação social; autoridade nacional da comunicação.
Objetivos das entidades reguladoras independentes
• Limitar o poder de mercado das empresas, ou seja, há mercados concentrados, isto
é, oligopolizados e monopolizados, que o têm mesmo de ser assim uma vez que há
infraestruturas tão caras que só podem ser uma unidade, por exemplo a rede fixa.
Portanto, nestes casos dos mercados de monopólio natural (caminhos de ferro,
distribuição da eletricidade, etc.) e outros casos em que os mercados são oligopólios
naturais (resultam da natureza do mercado e não de opção/decisão política), há então
concentração, pelo que há pouca concorrência e, consequentemente, os preços
tendem a manter-se artificialmente altos (permite lucros anormais, excessivos). Nestas
circunstâncias, o Estado, tendo em conta que a concorrência não aumenta
significativamente nestes mercados, pois são mercados naturais, não tenta aumentar
a concentração, mas sim obrigar as empresas a comportar-se como se estivessem
numa situação de muita concorrência de forma a praticarem preços mais baixos;

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

• Aumentar a eficiência do funcionamento dos mercados, nomeadamente, aumentar a


formação que existe nesses mercados para que quem compre nestes saiba
exatamente o que está a comprar (ao contrário de antes em que a “regra” era a
obscuridade);
• Evitar a duplicação de infraestruturas no caso de monopólio natural – por exemplo, há
apenas em Portugal uma rede fixa de comunicações fixas, contudo há oportunidade
de outras empresas que são suas concorrentes a utilizarem apesar de esta ser só
uma, pelo que o Estado obriga a que essas empresas a utilizem, de forma a que não
haja mais infraestruturas de rede fixa pois seria muito dispendioso, daí a importância
da entidade reguladora independente;
• Defesa dos consumidores – e entidade reguladora produz normas em aspetos de
qualidade do serviço público, universalidade (estende-se a toda a população e
território), segurança, continuidade (sem quebras) e acessibilidade (preço razoável),
de forma a salvaguardar as necessidades dos consumidores;
• Controlo dos danos ambientais – os danos ambientais são danos para a sociedade,
mas não prejudicam diretamente a maior parte dos produtores (há custos sociais, mas
não custos privados) pelo que há entidades que intervêm, obrigando ao uso de
maquinaria que não polua de forma aos empresários não serem penalizados por
coima, ou a serem multados se poluírem.

Instrumentos das entidades reguladoras para cumprir os objetivos:


• Fixar preços;
• Fixar a produção e obrigar as empresas a produzir mais do que aquilo que gostaria de
produzir, pelo que o preço é mais baixo;
• Obrigar a que haja mais empresas do que aquelas que o mercado espontaneamente
permitiria naquele mercado, evitando concentração;
• Determinar qual a taxa máxima do capital investido, ou seja, as empresas reguladas
têm direito a determinada rentabilidade, estabelecida pela entidade reguladora;
• Publicação de informações ou impedimento de tomada de participações no capital
social por parte de uma empresa, impedindo novamente a concentração;

Por trás disto, não há mão invisível, a existência de Entidades Reguladoras Independentes
assenta na negação da mão invisível de Adam Smith.

3.4. A Teoria da Convergência dos Sistemas

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Explanação e crítica de uma teoria dos anos 60/70, defendida por vários autores, de
que o capitalismo e socialismo estavam em processo de convergência, de que estes dois
sistemas se estavam a aproximar.
Esta foi, a nosso ver, mais uma tentativa de “matar” a alternativa socialista ao
capitalismo, com o argumento de que o capitalismo tinha sido ultrapassado graças à
incorporação de “elementos de socialismo” e de que o socialismo vinha dando mostras de se
aproximar de alguns pontos essenciais do capitalismo.
Os elementos socialistas, (sector empresarial do Estado, planificação pública, políticas
de redistribuição dos rendimentos, todos os instrumentos do Estado-Providência), que os
autores desta teoria referiam, só aparentemente poderiam negar o capitalismo. Na sua
essência, eles interligam-se, como não poderia deixar de ser, na lógica do capitalismo,
actuando como elemento de racionalização, como factores de estabilização das tensões
sociais.
Estes autores consideravam, então, que o capitalismo já não era assim tão diferente
do socialismo, o capitalismo adaptava-se e integrava-se no socialismo.
Esta tese era defendida por dias razões:
1. Porque o capitalismo se tinha alterado, nomeadamente: as regalias sociais conferidas
pelo Estado (saúde, educação, segurança social), beneficiando os trabalhadores e, na
verdade, isto acaba também por beneficiar as empresas que precisam de
trabalhadores qualificados e saudáveis.
2. Porque a propriedade privada perde significado – o papel dos gestores altera-se – por
duas razões: em primeiro lugar, por causa da figura dos gestores (os gerentes), pois
agora diz-se que apesar de haver propriedade privada, quem as gere não é o
proprietário/capitalista, mas um gestor que incorpora mais alguns critérios para além
da obtenção do lucro máximo e, portanto, considera-se que isto se aproxima do
socialismo;
3. Surge o Capitalismo popular ou democratização do capital, que significa que o capital
social das empresas está agora fragmentado, disperso, já trabalhadores podem ser
detentores do capital social destas empresas, ou seja, podem ter acções dessas
empresas/sociedades. Continua a existir propriedade privada, mas esta já não é
origem de diferenciações pois já podemos ter pessoas com baixos rendimentos a
apropriar-se dela.
Neste contexto, os marxistas consideram que a terceira alteração não significa que o
capitalismo se aproxima do socialismo, consideram que esta terceira alteração não é
significativa – o capitalismo popular permitiu a dispersão do capital, mas isso não significa que
tenhamos efetivo poder sobre os destinos do dinheiro das ditas sociedades/empresas. Pelo
contrário, é o capitalismo popular que serve muito mais um objectivo de centralização de

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capitas. A democratização do capital não aconteceu de facto, o móbil desta difusão do capital
social foi a centralização de capitais, a reunião das poupanças de pequenos proprietários para
usar esse capital para fazer face a investimentos importantes.

4. Relações Económicas Internacionais

4.1. Exportação de Capitais Públicos


No contexto de uma Europa destruída do pós-guerra e do avanço do socialismo pela
Europa de Leste, surgiu o Plano Marshall, o primeiro programa de auxílio a países
estrangeiros organizado por um país capitalista.
Sem dúvida que a ajuda americana permitiu à Europa uma recuperação mais rápida e
com menos sacrifícios, no entanto, o Programa de Recuperação da Europa foi claramente
enquadrado nos objetivos estratégicos dos EUA. Com efeito, a Administração Americana
acreditava que o Plano Marshall era uma oportunidade de reconstruir a Europa à imagem da
América.
Além do mais, o Plano Marshall foi também, por um lado, um programa de auxílio à
indústria americana, que o esforço de guerra dotara de uma capacidade de produção
sobredimensionada e, por isso mesmo, carecida de mercados alternativos ao da guerra; e,
por outro lado, foi um expediente que facilitou aos EUA a imposição do livrecambismo nas
relações comerciais em todo o mundo capitalista.
Neste sentido, a exportação de capitais públicos, sobretudo com destino aos países
subdesenvolvidos, no quadro do que se designou por neocolonialismo, é uma das novidades
do período imediatamente a seguir à 2ª Guerra Mundial. Trata-se de empréstimos e
financiamentos concedidos em regra no âmbito de programas de auxílio aos países
subdesenvolvidos. Com efeito, as características do Plano Marshall acabaram por marcar
todos os programas de auxílio dos países subdesenvolvidos que mais tarde se seguiriam:
assegurar a manutenção das condições de domínio económico-político dos países
exportadores de capitais sobre os países beneficiários desse auxílio.
Este é um aspeto que se torna patente se atentarmos na prática corrente da ajuda
ligada (ou ajuda vinculada), que obriga o país beneficiário a aceitar certas condições impostas
pelo país que concede o auxílio ou, muitas vezes, pelo FMI e pelo Banco Mundial, a título de
exemplo, a obrigação de gastar as verbas na aquisição de bens produzidos no país
dominante, para além de obrigações de ordem política: privatizações, facilidades ao
investimento estrangeiro, não tributação dos rendimentos do capital, liberalização do comércio
e dos movimentos sindicais, flexibilização da legislação laboral, domesticação dos sindicatos,
entre outros.

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4.2. A Vitória do Livre-Cambismo


Terminada a Guerra, os EUA impuseram os princípios do livrecambismo nas relações
de comércio internacionais. Esta orientação prevaleceu nos Acordos de Bretton Woods (de
onde resultou o sistema monetário internacional, o FMI e o BM) e no GATT e serviu de modo
particular os interesses dos EUA, com uma indústria sobredimensionada que não poderia
confinar-se nos limites do seu espaço nacional. Entretanto, o dólar emergeu como o único
meio de pagamentos internacionais.
Como sempre aconteceu desde a Inglaterra do tempo de Ricardo, o livrecambismo
tem sido utilizado como um instrumento ao serviço dos países dominantes e dos interesses
dominantes, aspeto que se acentuou com a passagem do sistema de negociação permanente
que caracterizava o GATT, para o modelo de agência reguladora do livre comércio
internacional que é a OMC.
Por fim, note-se que, ao contrário da filosofia inspiradora da OMC, que vê na liberdade
absoluta das trocas, na plena abertura dos mercados e no simples desenvolvimento do
comércio a solução para todos os problemas dos países de desenvolvimento impedido, muitos
autores aparecem hoje a defender que as relações comerciais internacionais devem inspirar-
se nos princípios da solidariedade e do desenvolvimento sustentável e no reconhecimento do
direito dos povos à autossuficiência alimentar.

4.3. Globalização
A globalização é um fenómeno complexo que tem no terreno da economia a chave da
sua compreensão e a área estratégia da sua projeção. No entanto, note-se que é um
fenómeno cultural e ideológico, marcado pela afirmação decisiva dos aparelhos ideológicos
como instrumento de domínio por partes dos produtores da ideologia dominante, a ideologia
da massificação dos padrões de consumo.
Com efeito, consideramos a globalização neoliberal em curso muito mais uma política
de globalização, do que um processo espontâneo e inevitável. Ora, trata-se de uma política
que visa a implantação de um mercado mundial unificado, controlado pelo capital financeiro
e orientado para governar a economia mundial e impor um determinado modelo de sociedade.
De facto, esta política de globalização só se tornou possível graças aos desenvolvimentos
operados nos sistemas de transporte e nas tecnologias da informação.
Neste mundo de comércio livre de barreiras físicas ou legais, pretende-se que circulem
livremente todo o tipo de bens, serviços, capitais e tecnologia. Todavia, esta liberdade já não
se aplica aos trabalhadores.
Analisemos, agora, as consequências que andam associadas a este fenómeno de
globalização.

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Em primeiro lugar, repare-se na alteração do padrão das vantagens comparativas nas


economias. Depois, que a globalização, para algumas empresas, significou o regresso à
concorrência livre e intensa, apesar de os conglomerados transnacionais se assumirem como
os protagonistas quase exclusivos, orientados por uma estratégia planetária, apoiados num
poder económico e político que anula em absoluto os mercados. Além do mais, as economias
tornaram-se cada vez mais interdependentes. Por último, esbateu-se o papel do estado na
economia e anulou-se o estado nacional que está em risco de perder os atributos tradicionais
de soberania e já perdeu a capacidade de controlar a vida económica e o poder económico.
Por outro lado, note-se que a globalização refletiu-se no domínio do capital financeiro
e o processo de globalização financeira traduz-se na criação de um mercado único de capitais
à escala mundial, em que rege o princípio da liberdade de circulação de capitais, que permite
aos grandes conglomerados transnacionais colocar o seu dinheiro e pedir dinheiro
emprestado em qualquer parte do mundo. Com efeito, a desintermediação, enquanto perda
de importância da tradicional intermediação da banca nos mecanismos de crédito a
descompartimentação, isto é, a perda de autonomia de mercados até há pouco separados, e
a desregulamentação, ou seja, a plena liberalização dos movimentos de capitais, constituem
as três características essenciais do processo de globalização financeira.
Neste sentido, compreende-se que esta liberdade de circulação de capitais tem
permitido uma enorme aceleração da mobilidade geográfica dos capitais. No entanto, a
liberdade concedida aos especuladores deu origem à economia de casino, divorciada da
economia real e da vida das pessoas comuns. Assim, a especulação acentuou a instabilidade
e a incerteza, pelo que só os grandes conglomerados transnacionais têm beneficiado com a
baixa dos custos do financiamento direto, porque só eles têm acesso à utilização plena dos
novos instrumentos financeiros.

4.4. Processos de Integração Económica Regional


Estes processos têm aspetos comuns com o processo de globalização já analisado,
no entanto, um traço fortemente os distingue: a integração da economia regional faz-se entre
vários estados, mas não entre todos os estados. Com efeito, nestes espaços garante-se
verdadeira liberdade de troca intrarregional, já que, dentro do espaço de integração regional,
a troca é livre para os produtos oriundos dessa região, discriminando-se estes de produtos
que tenham origem noutros países e que, para entrarem neste espaço, deverão pagar
imposto.
Importante é aqui referir os conceitos de criação de comércio, isto é, deslocação de
uma fonte produtiva a custos mais altos para uma fonte produtiva a custos mais baixos, e,
ainda, de desvio de comércio, ou seja, deslocação de uma fonte produtiva a custos mais
baixos para uma fonte produtiva a custos mais elevados.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

FORMAS DE INTEGRAÇÃO REGIONAL

Os países aqui participantes têm garantida a livre troca intrarregional,


Zona de Comércio mas só para os produtos originários de cada um deles. Não existe
Livre uniformização nem da legislação alfandegária, nem da política
comercial.

Garantia de unificação interna, de livre troca intrarregional, mas


União Aduaneira também unificação externa, pelo que já se pode alargar a livre troca
aos outros países.

Uniformiza-se a legislação que tem impacto na circulação nacional


Mercado Interno
de produtos e que se reflete na livre troca regional.
Para além da livre circulação de mercadorias, capitais, existe
Mercado Comum também, livre circulação de trabalhadores, isto é, dos fatores de
produção.

União Económica Existe harmonização ou convergência de políticas económicas e,


Monetária eventualmente, moeda comum ou sistema de câmbios fixos.

5. Keynesianismo e Neo-monetarismo

5.1. A “revolução keynesiana”. O Estado Providência


Keynes mostrou que a Grande Depressão não poderia explicar-se em termos monetários.
Contra a teoria dominante, veio defender que os factores determinantes das crises do
capitalismo são as forças reais da economia, e não a oferta da moeda. Nestes termos, a crise
só podia entender-se como o reflexo de um colapso no investimento privado e/ou de uma
situação de escassez de oportunidade de investimento e/ou de excessivo espírito de
economia por parte dos consumidores, o que legitimava a sua conclusão de que a política
monetária, baseada no controlo da oferta da moeda, poderia talvez suster a inflação, mas era
inadequada para estancar a depressão e relançar o crescimento da economia.
A rejeição da Lei de Say e do mito do equilíbrio espontâneo da economia constituem
pontos fulcrais do pensamento keynesiano e encerram o núcleo central da “revolução
keynesiana.”
A Ley de Say pressupõe que o móbil das economias capitalistas é a satisfação das
necessidades das pessoas: cada um produz para satisfazer as suas necessidades,
consumindo directamente os bens que produz por moeda, que vai de imediato utilizar para
adquirir bens de que necessita e que não dispõe. A moeda é para Say um simples

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intermediário geral nas trocas, permitindo ultrapassar as dificuldades da troca directa em


economias razoavelmente diversificadas. Se as economias funcionassem de acordo com esta
lógica, não seria possível a existência de crises de sobreprodução.
Por outro lado, temos a teoria da mão invisível, a ideia de que se cada um tratar dos
seus interesses, está, involuntariamente, a tratar dos interesses do outro, da sociedade. Esta
ideia até certo ponto é exacta, mas infelizmente não abarca toda a realidade, há muitos casos
de agentes económicos que actuam em ordem aos seus próprios interesses e não acautelam
voluntária ou involuntariamente o interesse geral. Keynes rejeita, portanto esta teoria.
Keynes, defendeu que nas economias capitalistas a circulação acontece da seguinte
maneira: quem tem dinheiro acumulado vai comprar mercadorias, incluindo a força de trabalho
assalariada, para produzir mercadorias que se destinam a ser vendidas para obter mais
dinheiro. E mostrou que nas economias que funcionam segundo a lógica do lucro e não
segundo a lógicas da satisfação das necessidades “uma situação próxima de plena emprega
é tao rara como efémera”, considerando inerentes a este tipo de economias as situações de
equilíbrio com desemprego involuntário.
Para explicar as situações de desemprego involuntário, que considera o problema
mais grave das economias capitalistas, Keynes lança mão do conceito de procura efectiva,
que foi buscar a Malthus: o montante de despesas que se espera que a comunidade faça em
consumo e em investimento novo. Se esta procura efectiva não for suficiente para absorver
toda a produção a um preço compensador, haverá desemprego de recursos produtivos.
Este desemprego será desemprego involuntário, no sentido de que há pessoas sem
emprego desejosas de trabalhar por um salário real inferior ao praticado.
Isto significa que, ao contrário do que defendiam os “clássicos”, o nível de emprego
não depende do jogo da oferta e da procura no mercado de trabalho, antes é determinado por
um factor exterior ao mercado de trabalho, a procura efectiva.
Significa também que é o volume do emprego que determina, de modo exclusivo, o
nível dos salários reais, e não o contrário. Ou seja: não é o facto de os salários serem altos
que provoca elevado nível de desemprego, do mesmo modo que o facto de os salários serem
baixos não arrasta consigo, necessariamente, um baixo nível de desemprego. Ao invés: os
salários tendem a baixar quando a taxa de desemprego é elevada, e tendem a subir quando
a taxa de desemprego é baixa.
A necessidade de ultrapassar as situações de insuficiência de procura efectiva para
combater o desemprego exigia, na óptica de Keynes, uma intervenção mais ampla e mais
coordenada do Estado, apoiada na política financeira de controlo das receitas e das despesas
do Estado. Esta fiscal policy seria a única capaz de influenciar as forças da economia, sendo
por isso considerada o instrumento fundamental para estabilizar as flutuações da economia,

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sendo por isso considerada o instrumento para prosseguir os objectivos do pleno emprego,
da estabilidade dos preços e do equilíbrio da balança de pagamentos.
Em conformidade com esta leitura, Keynes advogou a necessidade de uma certa
coordenação pelo Estado do Aforro e do investimento de toda a comunidade. Por duas razões
fundamentais:
1. Porque as questões relacionadas com a distribuição do aforro pelos canais nacionais
mais produtivos “não devem ser deixadas inteiramente à mercê de juízos privados e
dos lucros privados”;
2. Porque “não se pode sem inconvenientes abandonar à iniciativa privada o cuidado de
regular o fluxo corrente do investimento”.
Não se tratam no entanto de propostas anti-capitalistas: Keynes encara as medidas que
propõe como uma forma de salvaguardar e garantir as condições para a obtenção de
lucros privados e não diz qual a parte do investimento global que deve estar a cargo de
entidades públicas e que parte do investimento global poderá ser levada a cabo por
empresas privadas, sob a influência de entidades públicas. Mas estas observações não
devem ser confinadas às interpretações redutoras que alguns autores procuram fazer
passar da opinião de Keynes.
Estes apontamentos são, pois, propostas de natureza conjuntural no sentido de
reforçar o estado capitalista, embora Keynes pressuponha que o estado é uma instância
política neutra, acima das classes, representado a vontade geral e prosseguindo o
interesse comum.
Keynes advoga que nestas circunstâncias em que há economias desequilibradas e
desemprego involuntário, Keynes diz que as economias capitalistas têm de ser
equilibradas, estabilizadas, ou seja, têm de fazer crescer a produção e diminuir o
desemprego. Não podemos esperar que o mercado funcione sozinho e reduza,
consequentemente, o desemprego. O Estado tem de actuar e fazer isso através de
medidas de política económica, ao contrário do que diziam os pensadores liberais do
século XVIII e XIX.
Assim para Keynes as medidas económicas para mitigar os efeitos dos ciclos
económicos de recessão ou depressão seriam:
1. Política Monetária: baixar as taxas de juro para que se facilite o crédito à produção
e também, de certa forma, o crédito ao consumo. Isto ajuda, mas o problema desta
política é que ela funciona como uma espécie de bengala de outra política
orçamental, essa sim, fundamental.
2. Política Orçamental: é o Estado a fazer determinadas despesas em acréscimo às
que fazia antes, para introduzir na economia mais rendimento que se vai multiplicar
em acréscimo de consumo e despesa. Esta ideia para os liberais do século XVIII

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

e XIX era inaceitável, pois os estados não deviam introduzir na economia. No


entanto, para Keynes, o Estado tem de assumir novas funções, fazer mais despesa
do que antes fazia, de forma a introduzir mais rendimento na economia. Por
exemplo: fazendo obras públicas; são infraestruturas que proporcionam novas
utilidades e, fundamentalmente, introduzem rendimento na economia.
Portanto, estas políticas expansionistas, embora com vantagens (diminuem o
desemprego), têm um problema – quando se aumenta a procura bruscas e
significativamente, teremos inflação.

ESTADO-PROVIDÊNCIA: A Grande Depressão arrastara consigo a miséria de


milhões de pessoas em todo o mundo e ameaça de morte o capitalismo. Foi isto que estimulou
Keynes a procurar uma solução para o salvar. Estas motivações estiveram na base da
revolução keynesiana, que esteve na base das transformações que conduziriam ao Estado-
Providência. Admirador de Malthus, Keynes tomou dele, como dissemos atrás, o conceito de
procura efectiva e a ideia de que é possível combater a depressão e o desemprego. No seu
tempo, Malthus sugeriu o aumento da procura efectiva, com base no estímulo ao consumo
dos ricos.
Só que na era da “sociedade de consumo”, perante uma produção em massa, o
consumo dos ricos não consegue assegurar o escoamento de toda a produção. O aumento
do consumo dos pobres, ou seja do consumo das massas é uma necessidade, resultante do
próprio desenvolvimento tecnológico proporcionado pela “civilização burguesa”.
As políticas que se traduzem no financiamento público dos chamados consumos
sociais são um bom exemplo da “integração” das políticas de Keynes. Com efeito, além de
assegurar as despesas com o aparelho de poder destinado à defesa da ordem estabelecida
(política, exército, etc.), o estado financia as despesas necessárias ao conveniente
desenvolvimento das forças produtivas sociais: despesas com a educação, saúde e
segurança social. Trata-se de despesas que se enquadram na chamada política de
redistribuição do rendimento. O objectivo destas políticas eram reduzir as desigualdades, nem
que tal fosse só a nível parcial.
Keynes compreendeu e enquadrou teoreticamente esta problemática. Para assegurar
mais estabilidade às economias capitalistas, é necessário que os desempregados não percam
todo o seu poder de compra (daí o subsidio de desemprego), que os doentes e inválidos
recebam algum dinheiro para gastar (subsídios de invalidez e de doença), que os idosos não
percam o seu rendimento quando deixam de trabalhar (regime de aposentação).
Mas afinal quais são as vantagens do Estado-Providência?
• Os cidadãos são beneficiados pelo sistema;

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• Há prestações sociais, há maior procura agregada nas economias, ou seja, as


pessoas quando recebem subsídios, mais dinheiro fica para outras coisas,
nomeadamente para fazer compras às empresas privadas, ou seja, cada um de nós
particularmente sente-se beneficiado. As pessoas ajudadas pelo Estado-Providência
têm um poder de compra que não teriam noutras circunstâncias, o que beneficia as
empresas privadas. Isto significa maior estabilidade da economia e maior procura
agregada de bens e serviços.

5.2. A Contrarrevolução Monetarista


No início da década de 1970, as economias capitalistas geraram um fenómeno novo:
situações caracterizadas por um ritmo acentuado de subida de preços, a par de uma taxa de
desemprego relativamente elevada e crescente e de taxas decrescentes do crescimento do
PNB. Começava a era da estagflação.
Este fenómeno da estagflação veio pôr em causa alguns dos quadros teóricos do
keynesianismo e veio perturbar a solução ate então utilizada, baseada no trad-off
inflação/desemprego: as políticas financeiras expansionistas aqueciam a economia,
resolvendo o problema do desemprego à custa de um pouco mais de inflação; as políticas
restricionistas arrefeciam a economia, resolvendo o problema da inflação à custa de algum
desemprego. Devemos referir que existem três combinações, além da estagflação, entre
inflação e o desemprego: 1) inflação criadora – quando mais inflação é acompanhada de mais
emprego; 2) Estagflação – quando mais inflação não diminui o desemprego; 3) Slump Faction
– a mais grave das três, acontece quando políticas expansionistas não geram emprego, pelo
contrário, geram desemprego e mais inflação. Na situação de Slump Faction, é impossível
conseguir-se levar a cabo um cálculo económico da inflação. Isto acontece porque a inflação
neste processo é extremamente instável e por isso não é possível saber quando se deve ou
não investir.
Assim, nos casos de slump flation, as políticas keynesianas passar a ser contestada.
Pelas falências destas políticas, criou-se a emergência do pensamento político neoliberal ou
neomonetarista.
Neste sentido, os neomonetaristas defendiam que para se resolver o problema do
desemprego era necessário ir por outro caminho. Eles consideravam que a economia não se
desenvolvia e o desemprego não diminuía porque há factores estruturais na economia que
tornam inoportuna a adoção de políticas de cariz keynesiano:
• Entraves ao funcionamento do mercado de trabalho sobre os quais é necessário
actuar: salário mínimo legal – considerado pelos monetaristas uma rigidez do mercado
de trabalho, pois, para eles, é um impedimento para que mais pessoas estejam
empregadas. Isto acontece porque a fixação dos salários mínimos leva a desemprego

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

pois os patrões não podem pagar os salários fixados pela lei. A remoção deste salário
resolve o problema do desemprego à primeira vista. No entanto, isto acarreta
problemas:
o Problema Económico: salários mais baixos significa poder de compra mais
baixo. Ou seja, tínhamos uma economia com a procura ainda mais débil. Os
monetaristas tratam desta problemática com as exportações.
• Outras medidas que estes autores propõem tem a ver com aquilo que consideramos
ser o desemprego voluntário – propõem a extinção ou diminuição das várias
prestações sociais, nomeadamente, o subsídio de desemprego. Contudo, se este
subsídio fosse extinto iria gerar-se ainda mais miséria. O desemprego voluntário
provavelmente iria dissipar-se, mas com vários custos.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

A PRODUÇÃO. MERCADOS E PREÇOS

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I. OS ELEMENTOS DE PRODUÇÃO

1. Noção e classificação dos bens


1.1. Bens materiais versus bens imateriais
1.2. Bens de consumo versus bens de produção
1.2.1. Bens consumíveis versus bens duradouros
1.3. Grau de processamento
1.4. Bens duráveis versus bens perecíveis
1.5. Bens complementares
1.6. Bens substituíveis
1.7. Bens livres versus bens escassos
2. Os elementos da produção
2.1. O trabalho
2.2. O capital
2.2.1. O aforro e o investimento

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I. OS ELEMENTOS DE PRODUÇÃO

- Noção e Classificação dos Bens

Como se conseguem, na verdade, os bens que se trocam, que se dão e se recebem?


Esses bens podem ser conseguidos por duas formas: ou através da apropriação das
coisas que, embora escassas, a natureza espontaneamente ofereça, ou através da produção.
No entanto, note-se que os próprios bens que a natureza ofereceu já não são permutados
hoje no seu estado primitivo. São bens parcialmente produzidos.
Ora, a produção de que falamos é a produção de bens; é a produção de coisas úteis.
Todavia, admitindo que o que interessa nos bens não é a sua qualidade de coisas, e sim a
sua utilidade, podemos definir produção como a criação de utilidades.

1. Bens Materiais versus Bens Imateriais


Os bens materiais tratam-se de bens que têm realidade física, que são coisas
corpóreas, objetos do mundo sensível e que não necessitam de ser consumidos no ato da
sua produção.
Por outro lado, os bens imateriais consistem em ações de homens que satisfazem
imediatamente necessidades de outros homens, sendo consumidos no ato de produção.
2. Bens de Consumo versus Bens de Produção
Os bens de consumo destinam-se a satisfazer, eles mesmos, as nossas necessidades
de consumo e, por isso, se designam, também, por bens diretos.
Noutro plano, os bens de produção tratam-se de bens que são utilizados com vista à
obtenção de outros bens. Estes são bens indiretos, na medida em que não os aplicamos
diretamente às nossas necessidades de consumo; e instrumentais, visto que eles nos servem
de instrumento para a obtenção ou produção de outros bens.
Em suma, compreende-se esta distinção como uma classificação funcional, pois
agrupa os bens segundo o uso que deles se faz.

2.1. Bens Consumíveis versus Bens Duradouros


Tanto os bens de consumo como os bens de produção podem ser bens duradouros e
bens consumíveis.
Com efeito, são duradouros os bens que não desaparecem como bens da sua espécie
pelo facto da sua utilização, podendo ser utilizados, como bens de consumo ou bens de
produção, durante um período de tempo mais ou menos longo. De facto, só aqui podemos
separar a propriedade do seu uso, isto é, conseguimos ter um proprietário e um utilizador.

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Por outro lado, são consumíveis os bens que desparecem, como bens da mesma
espécie, em resultado de uma única utilização.
Por fim, note-se: como funcionam estes bens nos ciclos económicos? Entende-se que,
em fases de recessão económica, as pessoas tendem a usar mais vezes os seus bens de
consumo duradouros, não os substituindo, pelo que se verifica uma quebra significativa na
compra de bens de consumo duradouros. Por outro lado, os bens de consumo consumíveis
são menos suscetíveis às recessões económicas, verificando-se apenas a substituição de
bens de qualidade superior por outros de qualidade inferior.

3. Grau de Processamento
Um bem que, não tendo sofrido qualquer transformação por parte do homem ou
somente as transformações indispensáveis para a sua extração da natureza, se destina a
ulteriores transformações é uma matéria-prima.
Em contrapartida, as matérias subsidiárias são bens que, podendo ser utilizadas tais
como a natureza no-las apresenta, não se destinam a ser transformadas, mas apenas a ajudar
a transformação de outros bens.
Consideram-se ainda os semi-produtos, que provém de uma transformação, mas
ainda vai ser transformado. Com efeito, não se encontra apto para satisfazer as nossas
necessidades, pelo que não se podem considerar bens de consumo, sendo antes bens de
produção e, como só pode ser usado na produção uma vez, já que após essa transformação
passa a ser bem de outra espécie, trata-se de um bem de produção consumível.
Finalmente, obtemos os bens que esgotaram a escala das transformações: são
produtos acabados.
Além do mais, note-se que as transformações que as matérias-primas e os semi-
produtos sofrem não são em regra completas: deixam geralmente um resíduo. Esses restos
ou resíduos de transformações designamos por subprodutos.

4. Bens Duráveis versus Bens Perecíveis


Bens duráveis constituem aqueles que não se degradam rapidamente, enquanto que
os bens perecíveis se degradam rapidamente.
Ora, note-se que não pode haver um bem duradouro perecível, pelo que todos os bens
duradouros se tratam de bens duráveis. Por outro lado, os bens consumíveis, dependendo
das circunstâncias, podem ser tanto bens duráveis como bens perecíveis.

5. Bens Complementares
Os bens complementares consistem naqueles bens que se utilizam conjuntamente no
consumo ou na produção: no consumo, por gosto ou necessidade dos consumidores; na

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produção, por razões técnicas ou por estrita necessidade. Com efeito, a complementaridade
pode ser relativa, quando facultativa, ou absoluta em que a não utilização do bem prejudica a
utilização do bem principal.
A complementaridade dos bens é muito frequente e tem grande importância, pois
quando aumenta o consumo de um dos bens complementares, aumenta o consumo do outro.

6. Bens Substituíveis
Tratam-se de bens que podem ser sub-rogados por outros na satisfação das
necessidades.
Por vezes, a substituição dos bens é perfeita, isto é, não existe qualquer alteração da
satisfação dada ao consumidor ou da eficiência que esse bem dá ao produtor. Assim, quando
os bens se substituem plenamente, dizem-se bens fungíveis.
Por outro lado, na maior parte das vezes, a substituição não é perfeita, pelo que os
bens substitutos não satisfazem tão completamente as necessidades como os bens
substituídos. Existem, portanto, bem substituíveis, mas, como os que os substituem não os
sub-rogam totalmente, dizemos que lhes sucedem: são bens sucedâneos. Com efeito, note-
se que é muito importante a existência de sucedâneos, pois eles são como que a defesa do
consumidor, permitindo atenuar, em certa medida, os efeitos de uma alta de preços ou da
carência de certos produtos. Além do mais, repare-se que, dentro destes bens, podem existir
sucedâneos mais próximos ou mais afastados e, para qualificar esta relação, temos de
relacionar o preço de um bem com a procura de outro, pelo que se o preço de um bem
aumentar e a procura do bem sucedâneo aumentar na mesma proporção, temos um bem
sucedâneo próximo (elasticidade cruzada da procura).

7. Bens Livres versus Bens Escassos


Consideram-se bens livres aqueles que ultrapassam, em quantidade, as nossas
necessidades. Por outro lado, bens escassos consistem naqueles que existem em
quantidades limitadas, face ao que seria necessário para satisfazer as nossas necessidades.

- Os Elementos da Produção

Consideramos como produção o processo no âmbito do qual se articulam os vários


fatores de produção, em vista à criação de bens capazes de satisfazer necessidades.
Assim, note-se que a perspetiva clássica-marxista, com exceção de Smith, defendia
que havia apenas um único fator de produção: o trabalho. Por outro lado, a perspetiva
marginalista apontava para três fatores: capital, trabalho e recursos naturais, sendo que o
empresário os articula.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Além do mais, segundo a teoria do capital humano, o capital humano é o conjunto de


aptidões, competências e qualificações de que cada pessoa dispõe. Este capital é em parte
inato e em outra parte resultante do investimento feito em seres humanos. Com efeito, este
investimento seria feito de acordo com as regras do cálculo económico: as pessoas procuram
maximizar o seu bem-estar económico investido em capital humano, até que a taxa marginal
de rendimento esperada desse investimento se parifique com o custo marginal dos
rendimentos investidos. Em resultado desse investimento das pessoas em si próprias, os
trabalhadores tornar-se-iam capitalistas, isto é, titulares do capital humano neles acumulado.
Ora, levando esta lógica até às últimas consequências, poderia pretender-se que só o capital
é elemento de produção. No entanto, esta tese, enquanto tese radical que é, tem apenas
interesse académico, já que uma pessoa não é só capital já que, apesar de a pessoa poder
ter produtividade fruto do capital que lhe associa, não deixamos de distinguir o capital do
trabalho.
Por último, tomaremos como elementos de produção o trabalho e o capital, excluindo-
se a natureza, apesar de se poder dizer que constitui uma condição geral da atividade
produtiva, um fator que favorece ou que complica a ação do homem enquanto produtor, mas
não um elemento da produção do mesmo género do trabalho e do capital.

1. O Trabalho
(breve referência)
Trabalho é todo o esforço do homem destinado à produção.
No que diz respeito às formas de remuneração do trabalho, consideram-se as
seguintes: truck system; sistema de salário à peça ou à tarefa; e salário ao tempo.
Com efeito, o salário ao tempo é hoje o sistema mais corrente, sendo que se toma
como base o tempo de trabalho, fixa-se um salário-hora e os trabalhadores recebem anual,
quinzenal ou mensalmente, em função do número de horas de trabalho.
Hoje, aceita-se como razoável que os trabalhadores beneficiem dos aumentos da
produtividade, através de aumentos salariais que se verifiquem paralelamente aos aumentos
de produtividade. E é patente que o aumento da produtividade é em geral um elemento que
favorece a aceitação da revisão das taxas salariais por parte do patronato.
A posição relativa dos rendimentos do trabalho e do capital mantém-se no caso de os
salários variarem na mesma proporção da produtividade: salários e lucros mantém as
respetivas proporções no valor acrescentado para a produção.

2. O Capital
Não desconsiderando que a palavra capital é utilizada em vários sentidos, no âmbito
do nosso estudo, tomaremos o seu significado enquanto elemento de produção. Com efeito,

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

o capital é o conjunto de bens de produção produzidos que existem num dado momento e
numa dada economia e de cuja utilização resultará um fluxo de bens, sejam eles de consumo
e/ou bens de produção, ou, ainda, um determinado fluxo de rendimento.
Os bens que se destinam à produção de outros bens são bens indiretos, no entanto,
nem todos os bens indiretos são capitais, visto que aqueles bens são capitais não apenas por
se destinarem à produção de outros bens, mas por provirem de produção anterior. Com efeito,
os elementos naturais também são bens indiretos, todavia não são bens capitais, visto não
resultarem de produção nenhuma. Capital é, portanto, o bem indireto produzido, ou o bem de
produção produzido. Com efeito, estes bens são o resultado de uma aplicação do esforço do
homem sobre os elementos da natureza, sendo, portanto, bens produzidos que se destinam
a uma produção ulterior, são bens de produção produzidos, isto é, bens capitais.
Neste sentido, consideramos que os bens capitais resultam de desvios introduzidos
na produção de bens diretos. No entanto, para quê tudo isto? Para aumentar o rendimento do
esforço humano, do trabalho.
Por fim, repare-se ainda na distinção entre capital constante e capital variável.
Enquanto aquele consiste na parte do capital que se converte em meios de produção, isto é,
em matérias-primas, materiais auxiliares e meios de trabalho, não altera a grandeza do seu
valor no processo de produção; este remete para a parte do capital convertida em força de
trabalho que muda o seu próprio valor no processo de produção, pelo que reproduz o o seu
equivalente e produz um excedente, a mais-valia – esta parte do capital transforma-se
continuamente de grandeza constante em grandeza variável.

2.1. O Aforro e o Investimento


O facto de que é necessário tempo para as coisas avançarem e se sincronizar é, em
si, importante. É isso que explica a razão por que a sociedade não substitui automaticamente
todos os processos direitos por processos indiretos mais produtivos, e todos os processos
indiretos por outros ainda mais indiretos. O interesse que haveria em fazer isso é anulado
pela desvantagem inicial de se ter de renunciar aos bens de consumo imediato ao desviarem-
se recursos da produção atua para utilizações que só dão rendimento algum tempo mais
tarde.
A sociedade pode consagrar recursos à formação de mais capital apenas na medida
em que a população estiver disposta a poupar ou aforrar, renunciando ao consumo imediato.
Nas sociedades progressivas, sacrifica-se uma parte do consumo atual a favor da
formação líquida do capital, com vista a aumentar a produção futura.
Assim pode dizer-se que uma condição necessária para a produção de bens capitais
é o aforro de bens diretos. E pode dizer-se que o aforro é a parte do rendimento líquido que
não se destina ao consumo corrente. No entanto, tal não basta: é necessário que se destine

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esse aforro à produção. Ora, a aplicação do aforro à produção de bens capitais constitui o
investimento. Eis as duas condições necessárias para a produção de capitais: o aforro e o
investimento.
Com efeito, aforra-se voluntariamente ou por imposição externa, tratando-se,
respetivamente, de aforro voluntário e aforro forçado.
Nos casos de aforro forçado, o aforrador não beneficia do aforro que efetuou e esta
situação encontra expressão em três casos.
Em primeiro lugar, na constituição das reservas das sociedades comerciais em que,
se a assembleia geral de uma sociedade anónima resolve por maioria não distribuir em
dividendos a totalidade dos lucros, levando parte deles a reservas, os sócios que fiquem em
minoria têm de renunciar a uma parte dos lucros e são obrigados a aforrá-los através da
sociedade.
Depois, o pagamento de impostos, compreendendo-se que o estado organiza serviços
públicos, faz despesas e cobre a maior parte dessas despesas com tributos que exige aos
cidadãos, isto é, os contribuintes têm de renunciar à utilização do rendimento que entregam
ao estado a título de impostos: eis o aforro.
Por último, sempre que se verifica um processo inflacionista, isto é, um processo de
subida continuada e notória do nível geral dos preços, isto significa a subida da média dos
preços e não a subida dos preços de todos os bens e serviços. Daqui, resulta que os
vendedores das mercadorias cujos preços não sobem ou sobem em menor proporção que o
nível geral dos preços sofrem necessariamente aforro forçado. Com efeito, são obrigados a
aforrar porque o rendimento que recebem representa agora, em virtude da inflação, um poder
de compra menor, o que os obriga a renunciar à compra de certos bens e serviços,
sacrificando uma parte do consumo que antes faziam.
Por fim, note.se que o aforro pode ter dois destinos: entesouramento, que é a
conservação do dinheiro em saldos líquidos; e investimento, que é a utilização do dinheiro
poupado na produção de bens capitais.

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II. A ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO NAS ECONOMIAS CAPITALISTAS

1. O Produtor autónomo e a empresa


2. Finalidades da produção
3. As empresas capitalistas
3.1. Noção
3.2. O capital da empresa. Capital fixo e circulante; a amortização do capital fixo

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II. A ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO NAS ECONOMIAS CAPITALISTAS

- O Produtor Autónomo e a Empresa

Se a produção pressupõe o concurso dos elementos produtivos que acabámos de


estudar, é preciso reuni-los para que possa desenvolver-se a atividade produtiva.
Assim, o organizador da produção pode ser dono de todos os elementos: dono da
natureza, dono do capital e dono do trabalho. Estamos, assim, em face de um produto que,
sendo dono de todos os elementos, não depende de ninguém: é um produtor autónomo.
No entanto, a produção também pode ser organizada. Assim, estamos perante um
produtor que já não é dono de todos os elementos produtivos, não sendo já um produtor
autónomo, pelo que a sua produção depende do concurso de elementos alheios. Temos a
empresa, e a quem tom a iniciativa de reunir elementos produtivos que não são todos seus
chama-se empresário.

- Finalidades da Produção

O produtor autónomo é dono de todos os elementos de produção. Mas, justamente


por isso, tem de ser um produtor pequeno. Daí, que ele tenha de contentar-se com pouco,
que geralmente a nada mais ambicione do que à satisfação das suas necessidades de
consumo.
Por outro lado, o mesmo não sucede com o empresário que já não se contenta com
ganhar apenas o suficiente para satisfazer as necessidades de consumo, pelo que pretende
alcançar lucros que lhe permitam desenvolver a fábrica, ultrapassar os outros empresários,
assegurar uma existência confortável a si e aos seus, adquirir prestígio e predomínio no meio
social. A finalidade do empresário é, portanto, a de obter o máximo lucro.
No entanto, reconhece-se uma terceira finalidade em que o estado é o produtor, a de
satisfazer as necessidades dos cidadãos.

- As Empresas Capitalistas

1. Noção
A economia capitalista, como vimos, é heterogénea, porque nela persistem elementos
de sistemas anteriores e se vão gerando elementos novos, com lógica e sentido diferentes
dos predominantes. Deste modo, não admira que as unidades de produção não sejam todas
do mesmo tipo, que se encontrem ainda produtores autónomos ao lado de empresas.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

No entanto, a unidade de produção característica do capitalismo é o que podemos


chamar a empresa capitalista. Uma empresa, ou seja, uma unidade de produção organizada
por quem não é dono de todos os elementos produtivos, apresenta as seguintes
características específicas: combinação de elementos produtivos em ordem aos preços da
sua utilização, isto é, o que lhe interessa não é a combinação dos elementos produtivos em
si mesmos, mas sim a combinação económica, a sua combinação em termos de preços; a
produção para o mercado, pelo que a empresa capitalista trabalha quase exclusivamente para
satisfazer a procura que se manifesta no mercado; e, por último, o recurso substancial ao
trabalho assalariado de outrem.
Em suma, a empresa capitalista é a empresa que procede à combinação económica
dos elementos da produção, labora para o mercado e utiliza sobretudo trabalho de
assalariados.

2. O capital da empresa. Capital fixo e circulante; a amortização do capital fixo


A empresa capitalista reúne os elementos produtivos, no entanto, reúne elementos
que são apreciados pelos seus preços. Daí, que o empresário não distinga os elementos
produtivos pelas suas características intrínsecas, mas pelos seus preços.
Por conseguinte, a empresa capitalista considera capital o valor monetário dos bens
destinados à produção, e que correspondem ao dinheiro como que os adquiriu, ou se propõe
adquiri-los, mais o dinheiro como que teria de comprar os bens fornecidos pelo próprio
empresário. Capital da empresa não é capital produtivo, mas sim capital lucrativo, isto é,
dinheiro que permite a obtenção de lucros.
Esse capital pode ser cindido em duas categorias: capital fixo, enquanto valor
monetário dos bens que entram em vários atos da produção; e capital circulante, isto é, valor
monetário dos bens que se consomem num único ato de produção. O primeiro refere-se a
bens duradouros e o segundo a bens consumíveis.
No que ao capital circulante diz respeito, o seu valor transfere-se integralmente para o
valor do produto obtido pela empresa. O mesmo já não sucede com o capital fixo, que transita
por parcelas, por frações e a isso se chama amortização.
Com efeito, a amortização é necessária porque é preciso reconstituir os capitais fixos,
desde logo, porque os bens em que se encontram representados, apesar de serem
duradouros, não são bens eternos, uma vez que, a certa altura, morre economicamente ou
porque se desgasta ou porque está obsoleto técnica ou tecnologicamente. Ora, é a realização
do valor perdido pelos bens duradouros da empresa que constitui a amortização dos capitais
fixos. De facto, importa a duração física e económica da máquina, pelo que à empresa
interessa a duração económica e os cálculos de amortização vão basear-se nesta duração.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Como tal, conclui-se que a amortização é sempre arbitrária, pois assenta numa
previsão e toda a previsão é incerta.

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III. A PRODUÇÃO NACIONAL. A CONTABILIDADE NACIONAL

1. O circuito económico
2. As três óticas do valor da produção nacional
3. O valor da produção nacional analisado sob a ótica do produto
3.1. O produto bruto das empresas
3.2. O produto nacional bruto
3.3. O produto nacional líquido
4. Produto e rendimento: o valor da produção analisado sob a ótica do rendimento
4.1. Grandezas a preços de mercado e grandezas a custo de fatores
4.2. O valor da produção nacional analisado sob a ótica do rendimento
4.3. Rendimento a custo dos fatores, rendimento pessoal e rendimento disponível
4.4. Rendimento nacional e rendimento dos habitantes
5. O valor da produção nacional na ótica das despesas
5.1. As componentes da despesa nacional
5.2. As implicações da atividade estadual
5.3. As implicações do comércio internacional
6. Rendimento nacional e bem-estar material das populações
6.1. O PNL como indicador do bem-estar
6.2. Dificuldades na leitura do bem-estar a partir do PNL
6.2.1. O PNL é calculado e expresso em termos monetários
6.2.2. O PNL compreende a “manteiga e os canhões”
6.2.3. O PNL, o PNL per capita, a distribuição do rendimento
6.2.4. O PNL e a contabilidade do lazer como elemento de bem-estar
6.2.5. Síntese

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III. A PRODUÇÃO NACIONAL. A CONTABILIDADE NACIONAL

- O Circuito Económico

O circuito económico é o conjunto de duas circulações, fluxos ou correntes: reais (dos


bens) e monetários (da moeda).
Com efeito, a contabilidade procura representar a vida económica em que existem
vários grupos de agentes económicos, considerando-se que, entre estes grupos, se
desenvolvem relações económicas com duas facetas.

- As Três Óticas do Valor da Produção Nacional

O valor da produção nacional pode ser analisado de três perspetivas diferentes:


computando o valor dos bens e serviços produzidos – ótica do produto; computando os
rendimentos distribuídos pelas empresas aos participantes da produção – ótica dos
rendimentos; e computando as despesas feitas pelos consumidores na aquisição dos bens
produzidos.
Antes de mais, note-se que, no que diz respeito à contabilidade nacional, a produção
é aquela que se produziu numa dada economia e dado período, geralmente um ano,
compreendendo-se a produção não como realidade física, mas sim como o valor monetário
dessa produção. Depois, o rendimento nacional consiste nos rendimentos de todas as famílias
numa dada economia, num dado período, geralmente um ano, compreendendo-se este valor
em termos monetários. Por fim, a despesa nacional consiste na soma de todas as despesas
feitas por todas as famílias, numa dada economia, num dado tempo, geralmente um ano, em
bens de consumo.
De facto, o valor dos bens produzidos há-de ser igual à despesa que os particulares
fazem da sua compra; e o valor dos rendimentos pagos pelas empresas aos participantes na
produção há-de ser igual ao valor dos bens produzidos, dado que o preço de um bem é o
somatório de salários, rendas, juros e lucros, distribuídos na sequência da produção. O
rendimento é igual à despesa, porque se admite que os particulares gastam apenas o dinheiro
que recebem, mas gastam-no todo, isto é, não há aforro.
Em suma, produto, rendimento e despesa são grandezas equivalentes.

- O Valor da Produção Nacional analisado sob a Ótica do Produto

1. O produto bruto das empresas


Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

O valor da produção nacional, sob o ângulo do produto, obtém-se somando o valor


dos bens produzidos no período considerado e esse valor é apreciado através do respetivo
preço. O produto nacional resulta da atividade de todas as empresas nacionais e é o valor
monetário global que se obtém multiplicando a quantidade de bens produzidos em um dado
período pelos respetivos preços.
De facto, o valor da produção de cada empresa é o valor criado por essa empresa e é
igual ao valor por ela realizado menos o valor dos bens intermediários que adquiriu a outras
empresas. Sendo assim, o valor da produção de uma indústria será a soma de valores criados
pelas empresas que constituem essa indústria, visto se somássemos os valores realizados,
tornaríamos o cálculo completamente arbitrário.
Com efeito, dissemos que o valor da produção ou produto bruto de uma indústria é a
soma dos valores criados pelas empresas que constituem essa indústria. No entanto,
compreende-se que a soma dos valores criados pelas empresas que integram determinada
indústria será igual ao valor dos bens finais ou acabados produzidos por essa indústria.

2. O produto nacional bruto


Numa perspetiva macroeconómica, poderemos dizer que o produto nacional bruto é a
soma dos produtos brutos das várias indústrias ou a soma dos valores criados ou
acrescentados pelo conjunto das empresas, ou ainda o valor dos bens finais produzidos.
Simplesmente, todos estes valores equivalentes só têm sentido se os referirmos a um dado
período, normalmente, um ano civil.
No entanto, a esta definição de PNB há que introduzir duas qualificações. Em primeiro
lugar, temos de deduzir: o valor dos bens de produção consumíveis ou intermediários usados
na produção, produzidos em anos anteriores; bem como matérias-primas ou semi-produtos
comprados a empresas de outros países. Depois, há que acrescentar ao valor dos produtos
finais obtidos durante o período o valor dos bens intermédios existentes no seu termo.
Em síntese, produto nacional bruto é o valor dos bens finais obtidos durante
determinado período, menos o valor dos bens intermédios utilizados nesse período e
provindos de períodos anteriores ou importados, e mais o valor dos bens intermédios
produzidos durante o período e existentes no fim dele.
Com efeito, estes bens finais são bens de consumo ou bens de produção. Ora, para
que os bens de produção possam considerar-se bens finais ou acabados é necessário que
não tenham de sofrer mais nenhuma transformação material ou económica. Terá de tratar-se,
portanto, de bens de produção duradouros. Segue-se, pois, que o valor dos bens finais se
divide em valor dos bens finais de consumo e do valor dos bens finais de produção, pelo que
a soma destes dois resultará no PNB.

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De facto, poderia dizer-se que, do mesmo modo que no cálculo do produto nacional
não se contabiliza o valor dos bens intermédios utilizados na produção de bens finais, também
não deveria contabilizar-se o valor dos bens de produção duradouros produzidos no período
considerado. Esta posição ganharia mais peso se ocorressem duas condições: se a morte
económica dos bens de capital duradouros existentes ocorresse uniformemente ao longo dos
anos; se a produção de novos bens de capital acompanhasse o ritmo da morte económica
dos bens de capital em uso e fosse apenas o bastante para substituir os bens de capital for
de uso. No entanto, estas duas circunstâncias não se confirmam pela prática.
Por último, note-se que o conceito de produto de nacional bruto referido por AVELÃS
NUNES estabelece correspondência com o conceito de produto interno bruto a preços de
mercado, isto é, obtém-se através da soma dos valores dos bens produzidos pelos preços
estabelecidos no mercado.
Por último, note-se que passa do produto interno para o produto nacional, somando
ao produto interno o saldo de rendimentos com o exterior.

3. O produto nacional líquido


Uma parte dos bens de produção produzidos em um certo período nada acrescenta
ao estoque desses bens de que a comunidade fica a dispor. De facto, produção do período
faz-se à custa da morte de um certo número de bens de produção. Assim, se se produzirem
apenas bens de produção num valor igual ao valor dos bens desse tipi que morreram
economicamente, a comunidade ficou exatamente na mesma posição. Por outro lado, se se
produziram bens de produção cujo valor excede o valor dos que ficaram economicamente
inutilizados, então pode dizer-se que a situação da comunidade melhorou, no que aos bens
de produção duradouros respeita. Houve assim um ganho económico líquido, um aumento da
capacidade produtiva.
Ora, no PNB computa-se o valor dos bens de consumo e o valor de todos os bens de
produção, sendo, portanto, uma grandeza que nada nos diz sobre se houve um ganho
económico líquido, isto é, se o valor dos bens de produção obtidos no período é superior ao
valor que se perdeu durante o período.
Com efeito, pode haver interesse em conhecer a situação em que a comunidade fica
ao fim de cada período, no que respeita a bens de produção duradouros, pelo que se constrói
outra grandeza: o PNL.
Enquanto no PNB se inclui o valor de todos os bens finais de produção, no PNL ao
valor de todos os bens finais de produção obtidos num período deduz-se o valor desses bens
de produção que, nesse mesmo período, se perderam para a produção.
No entanto, coloca-se a questão: como hão-de os serviços encarregados de computar
o produto nacional aperceber-se do valor de bens capitais que, num determinado período se

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perdeu? O único processo que os serviços de estatística têm de para se aperceber disto é o
de computar as amortizações do capital fixo constantes da contabilidade das empresas. Trata-
se, no entanto, de uma simples aproximação, por vezes, muito remota. Isto porque as
amortizações feitas pelas empresas obedecem a finalidades muito diversas e não visam medir
o desgaste físico e o envelhecimento económico efetivo dos capitais fixos verificado durante
o período. Com efeito, não se trata da amortização contabilística das empresas, mas antes
do desgaste efetivo dos recursos daquela parte do PNB que é necessário pôr de lado para
manter a capacidade de produção da economia.

- Produto e Rendimento: o valor da produção analisado sob a ótica do rendimento

1. Grandezas a preços de mercado e grandezas a custo de fatores


Chegámos assim a duas grandezas macroeconómicas: uma grandeza bruta (PNB) e
uma grandeza líquida (PNL). Repare-se que ambas as grandezas se designam por produto e
tem o significado de alguma coisa que se consegue pelo exercício de certa atividade.
No entanto, o produto será sinónimo de rendimento? Nem todo o produto (bruto ou
líquido) é rendimento das empresas. Com efeito, uma parte do produto é constituído por
impostos de consumo, pois são valores que as empresas realizam pela venda das suas
mercadorias, mas não são rendimento das empresas, pois não são valores com que as
empresas fiquem para remunerar os participantes na produção.
Assim, o PNB e o PNL não nos podem informar do rendimento das empresas –
informam-nos apenas do seu produto, pelo que o produto nacional (bruto ou líquido) é uma
grandeza a preços do mercado. Por conseguinte, não são grandezas que sejam baseadas no
custo dos fatores de produção.
Neste sentido, iremos construir grandezas a custo dos fatores, grandezas que
merecem, portanto, o qualificativo de rendimento e não o de produto.
Ora, conhecendo o produto, como poderemos obter o rendimento? Para tal, haverá
que retirar ao produto aqueles valores que não constituam rendimento das empresas. Em
primeiro lugar, haverá que deduzir os impostos de consumo. No entanto, compreende-se
também que nem só o produto é rendimento. Assim, as empresas podem auferir de
rendimentos que não lhes advêm da venda no mercado dos bens que produzem, a título de
exemplo, os subsídios do estado à produção. Em síntese, se queremos saber qual o montante
global dos rendimentos das empresas, isto é, qual o rendimento nacional a custo dos fatores,
será preciso acrescentar ao produto aqueles valores que, não estando incluídos neste,
constituem rendimento das empresas, pois vão servir para remunerar os respetivos
participantes na produção.

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N.B.: A distinção feita entre grandezas a preço do mercado e grandezas a custo dos fatores é independente da
distinção entre grandezas brutas e grandezas líquidas. Quer dizer, podemos ter um produto ou rendimento líquido
a preços do mercado ou a custo dos fatores. Além do mais, as qualificações bruto ou líquido referem-se à inclusão
ou não das amortizações.

2. O valor da produção nacional analisado sob a ótica do rendimento


Nesta perspetiva, o valor da produção nacional apresenta-se-nos como um somatório
dos rendimentos distribuídos aos participantes na produção, isto é, um somatório de salários,
rendas, juros e lucros.
Por outro lado, através desta ótica, chegaremos a uma grandeza tomada a custo dos
fatores, somando, portanto, salários, rendas, juros e lucros, obteremos o rendimento nacional
a custo dos fatores, uma vez que aqueles rendimentos não são mais do que a remuneração
dos elementos ou fatores da produção.
Por fim, note-se que se quisermos obter o rendimento a preços do mercado, a partir
do rendimento a custo dos fatores, bastará somar os impostos de consumo e subtrair os
subsídios do estado à produção.

3. Rendimento a custo dos fatores, rendimento pessoal e rendimento disponível


O rendimento a custo dos fatores é aquele com que as empresas ficam para
remunerar os participantes na produção.
Todavia, aquele rendimento não coincide com o rendimento pessoal, que é aquele que
é distribuído aos participantes na produção ou aquele rendimento que é entregue às pessoas
físicas, às unidades de consumo. No entanto, na passagem do rendimento a custo de fatores
para o rendimento pessoal, há que fazer tanto deduções como adições.
Por um lado, compreende-se que existem lucros que não são distribuídos, ficando a
constituir reservas que as empresas posteriormente aplicarão, porventura, na compra de
novos equipamentos (autofinanciamento). Depois, também não são distribuídos os
rendimentos de propriedades ou empresas do estado ou de outras pessoas coletivas de
direito público. Por último, deduz-se os impostos diretos que recaem sobre as empresas.
Por outro lado, note-se que o rendimento de que ficam a dispor as unidades de
consumo não provém só da sua participação na produção – é que há pessoas que não
participam de nenhuma forma na produção, mas auferem rendimentos que lhes são atribuídos
pelo Estado. Trata-se de rendimentos que não estão integrados no PNB, uma vez que não se
traduzem em despesas do estado na compra de bens ou serviços referentes ao ano em
questão – são as transferências, que são prestações gratuitas, sem contrapartida, como é o
caso das prestações da Segurança Social, dos subsídios de desemprego, do pagamento de
juros aos detentores de títulos da vida pública. Por fim, repare-se que, embora não sejam
rendimentos resultantes da sua participação na atividade produtiva, integram também o

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rendimento pessoal dos respetivos beneficiários as remessas dos emigrantes e outras


transferências correntes vindas do resto do mundo.
Porém, este rendimento pessoal não é ainda o rendimento disponível das famílias,
com base no qual elas vão programar as suas despesas de consumo e as suas poupanças.
Recebido aquele rendimento, ele vai ser atingido por impostos diretos sobre o rendimento
cobrado em favor do estado e ainda pelos descontos obrigatórios para a Segurança Social.
Em suma, o rendimento disponível é o rendimento pessoal menos o montante global dos
impostos diretos sobre os rendimentos.

4. Rendimento nacional e rendimento dos habitantes


Todas as grandezas construídas até agora são grandezas que exprimem o rendimento
obtido dentro do país. Ora, o rendimento produzido dentro do país não coincide com o
rendimento dos habitantes do país. Quer dizer que todas as grandezas já referidas nos
forneciam o rendimento interno de um determinado país, pelo que, numa terminologia mais
rigorosa, deveria reservar-se o qualificativo nacional para grandezas que se refiram ao
rendimento dos habitantes do país.
Qual é a diferença entre grandezas internas e grandezas nacionais ou entre grandezas
nacionais e grandezas referidas aos habitantes do país?
Só haveria coincidência entre ambas as grandezas se todo o rendimento produzido
dentro do país fosse rendimento dos habitantes do país e se, por outro lado, só o rendimento
produzido no país fosse rendimento dos habitantes do país.
Ora, nem todo o rendimento produzido dentro do país advém a pessoas que habitam
o país; o mesmo é dizer que nem todo o rendimento produzido internamente é rendimento
dos que residem no país.
Conclui-se, portanto, que se dispusermos de grandezas representativas do rendimento
produzido dentro do país e quisermos determinar o rendimento dos habitantes do país, haverá
que subtrair o rendimento produzido no país e pago a residentes no estrangeiro e haverá que
somar o rendimento produzido no estrangeiro e pago a residentes no país. Inscrevem-se,
portanto, a débito da economia nacional todos os rendimentos produzidos internamente, mas
que revertem em favor de residentes no estrangeiro; e inscrevem-se a crédito da economia
nacional todos os rendimentos produzidos no estrangeiro, mas que revertam em favor de
residentes no país.
Por fim, note-se que a distinção entre estas duas ordens de grandezas faz-se não em
termos de nacionalidade dos agentes produtivos, mas em termos de residência.

- O Valor da Produção Nacional na Ótica das Despesas

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1. As componentes da despesa nacional


Passar-se-á agora para uma outra ótica do valor da produção nacional,
nomeadamente, a ótica das despesas. Tendo por base a ótica do produto, repare-se que se
chega a um resultado semelhante pela perspetiva das despesas.
Os bens finais produzidos ou são bens de consumo ou são bens de produção
duradouros. Se são bens de consumo, o seu valor será igual à despesa que os particulares-
consumidores fazem na sua aquisição e essa despesa é o consumo. Por outro lado, se são
bens de produção duradouros, o seu valor há-de ser igual à despesa que os particulares-
empresários fazem na sua aquisição e essa despesa é o investimento em capital fixo. Por
conseguinte, o valor dos bens finais produzidos num determinado período é igual ao consumo
mais o investimento em capital fixo.
Com efeito, investimento em capital fixo pode ser tomado em termos brutos, como toda
a despesa que os empresários fazem na compra de bens capitais produzidos no período, ou
em termos líquidos, como a despesa que os empresários fazem na aquisição desses bens,
depois de deduzidas as amortizações.
Assim, se ao consumo acrescentarmos o investimento em capital fixo em termos
brutos, obtemos uma grandeza bruta (produto bruto). Por outro lado, se ao consumo
acrescentarmos o investimento líquido em capital fixo, obteremos uma grandeza líquida
(produto líquido).
No entanto, o valor do produto nacional não se reduz ao valor dos bens finais ou
acabados. Para atribuir a cada período os valores que nele foram criados, temos que subtrair
o valor dos bens intermédios utilizados nesse período e provindos de períodos anteriores e
que somar o valor dos bens intermédios produzidos no próprio período e existentes no fim
dele. Ora, tais bens intermédios são necessariamente bens de produção: bens de produção
consumíveis. O valor líquido desses bens (líquido porque se soma o valor dos bens
intermédios produzidos no período e deixados para períodos seguintes e subtrai-se o valor
dos bens intermédios provenientes de períodos anteriores), uma vez que se trata de bens de
produção, há-de refletir-se, na ótica das despesas, numa despesa de investimento: é o
chamado investimento em estoques ou variação de existências. Quer dizer: o investimento
em estoques ou variação de existências é sempre uma grandeza líquida.
Por fim, repare-se que somando o consumo com o investimento em capital fixo e com
o investimento em estoques ou variação das existências, chegaremos a um valor
correspondente ao PNB, se o investimento em capital fixo for um investimento bruto; ao PNL,
se ao investimento bruto em capital fixo deduzirmos as amortizações, isto é, se incluirmos na
soma apenas o investimento líquido em capital fixo.
Em suma, as despesas determinantes do produto nacional são o consumo e o
investimento.

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2. As implicações da atividade estadual


O estado, com vista à satisfação das necessidades coletivas, também faz despesas
quer em bens de consumo, quer em bens de produção. Ora, estas despesas públicas terão
de ser computadas na Despesa Nacional, pelo que chegaremos à conclusão de que, do ponto
de vista das despesas, o rendimento nacional é igual ao consumo mais o investimento, mas
as Despesas Públicas.
Neste sentido, note-se que as despesas públicas se desdobram em despesas de
consumo e despesas de investimento.
No entanto, poderá perguntar-se qual o interesse em distinguir entre o consumo e o
investimento públicos e o consumo e o investimento privados. Por que não falar simplesmente
em consumo e investimento, abrangendo já cada um dos termos as duas categorias? O
interesse daquela distinção é pôr em relevo os diferentes fatores que determinam as despesas
dos particulares e as despesas do estado.
Sinteticamente, o consumo privado depende do rendimento e das necessidades e o
investimento privado é função da taxa de juro e da eficiência marginal do capital. Ora, o
consumo e o investimento públicos não se relacionam com qualquer destes fatores
económicos, dependendo antes das necessidades públicas e da forma como elas sejam
interpretadas pelas entidades responsáveis pela sua satisfação.
No quadro dos problemas de que agora tratamos, importante é a decomposição da
despesa do estado em categorias diversas, pois o comportamento dessas categorias, no que
respeita à estabilidade, é muito variado.
Assim, fala-se em consumo público para significar despesas civis de funcionamento
dos serviços. Nestas se enquadram as despesas correntes do estado, feitas pelos diversos
ministérios e departamentos, compreendendo-se como uma componente altamente estável.
As despesas militares são, por seu turno, caracterizadas pela instabilidade, melhor, na
irregularidade e consequentes dificuldades de previsão.
Também o estado faz despesas de investimento, que constitui um tipo de despesas
caracterizadas por elevada instabilidade, mas com a característica de se prestarem facilmente
às variações que a política económica imponha.
Com efeito, repare-se que ao computarmos o valor da produção nacional pela ótica
das despesas, chegaremos a uma grandeza tomada a preços do mercado. É que as
despesas, em bens de consumo ou em bens de produção, são feitas, necessariamente, aos
preços do mercado.
Por fim, note-se que na nossa Contabilidade Nacional toma-se em conta o
investimento bruto em capital fixo, não se deduzindo as quotas de amortização. Por outro
lado, os valores da despesa nacional correspondem aos do produto nacional bruto.

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3. As implicações do comércio internacional


Temos estado a raciocinar com base numa economia fechada. Só nesta hipótese todo
o produto nacional provém de despesa nacional e toda a despesa nacional origina produto
nacional.
Todavia, em regra, as economias modernas são economias abertas. Em todos os
países haverá empresas nacionais que produzem bens que não são vendidos no país, que
são exportados. O produto destas empresas não tem correspondência na despesa nacional.
Haverá, portanto, que somar o montante das exportações. Por outro lado, há despesas, em
bens de consumo e em bens de produção, que não têm correspondência no produto de
empresas nacionais, mas sim no produto de unidades de produção estrangeiras. Quando o
consumidor nacional adquire alimentos importados, ou o empresário nacional compra
máquinas e equipamento também importados, estamos perante despesa nacional a que não
corresponde produto nacional. Haverá, portanto, que subtrair o montante das importações.
Por fim, note-se que devido à equivalência entre os agregados, se ficciona que
fazemos despesa com aquilo que exportamos e não fazemos despesa com aquilo que
importamos. Com efeito, isto acontece porque se quer, contabilisticamente, manter as
entidades produto e despesa.

- Rendimento Nacional e Bem-Estar Material das Populações

1. O PNL como indicador do bem-estar


Os dados relativos ao rendimento nacional podem dar-nos indicações sobre o nível de
bem-estar material das populações.
Com efeito, os dados relativos ao PNL permitem avaliar o que pode ser gasto
anualmente pela comunidade nacional sem pôr em causa a reprodução do processo
económico enquanto processo recorrente.
Dando-nos indicações sobre o fluxo de bens e serviços registado numa economia num
certo período de tempo, o PNL fornece a medida do que pode ser consumido pela comunidade
sem diminuir o fundo (o estoque) de bens de capital existentes, que representam a capacidade
produtiva instalada. De facto, o PNL é uma grandeza que se obtém depois de de deduzir ao
PNB o montante das quotas de amortização indispensáveis para repor integralmente o capital
fixo consumido durante o período. Uma comunidade que gastasse o valor correspondente ao
PNB estaria a consumir o próprio fundo de capital, pondo em perigo a continuidade do
processo económico.
Eis porque é o PNL a grandeza que pode fornecer indicações acerca do bem-estar
material da população de um país.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

2. Dificuldades na leitura do bem-estar a partir do PNL

2.1. O PNL é calculado e expresso em termos monetários


Apesar do rendimento nacional ser um rendimento em bens materiais e serviços, isto
é, um rendimento real, ele só pode ser calculado em termos de preços, isto é, como
rendimento monetário.
Daqui resultam, desde logo, os inconvenientes do facto de a estrutura dos preços não
refletir as verdadeiras preferências dos consumidores. Os “votos monetários” destes já não
representam a soberania do consumidor.
Outro inconveniente reside no facto de se excluírem do rendimento nacional todos os
bens que não têm mercado e, portanto, não têm preço: é o que sucede, por exemplo, com os
serviços domésticos que as pessoas realizam em sua casa, com o trabalho voluntário não
pago.
As deficiências deste tipo tornam-se particularmente relevantes nos países
subdesenvolvidos e em geral nos países com uma agricultura atrasada. Com efeito, as
economias desses países são economias de subsistência, isto é, muitas das explorações
agrícolas produzem essencialmente para autoconsumo, levando ao mercado apenas uma
pequena parte dos frutos do seu trabalho. As dificuldades resultantes do facto de ter de se
medir o rendimento económico em termos monetários registam-se ainda em outros domínios,
como o dos serviços prestados pela existência de forças armadas, da polícia e de outros
serviços públicos estaduais. A contribuição destes serviços para o produto nacional é avaliada
pelos seus custos, o que é um metido deficiente de computar tal contribuição. Por fim, será
ainda importante referir a economia paralela que constitui a atividade produtiva desenvolvida
em determinado país que se faz à margem dos dados da contabilidade nacional, porque não
tem registo contabilístico, para não estar sujeita a tributação – note-se, porém, que esta
economia não se confunde com a economia ilegal.
Por último, o facto de o rendimento ser expresso em termos monetários tem o contra
de poder falsear as comparações no tempo. De facto, havendo crescimento económico, o PIB
nominal aumenta, já que aumenta a quantidade de bens produzidos e aumentam os preços
dos produtos. No entanto, o produto real difere do produto nominal. O produto real é aquele
em cuja evolução se isola a variável real, isto é, quando conseguimos despistas a evolução
monetária e aferir a forma como o produto evoluiu em formas reais, em termos de quantidade.
Quando queremos isolar a variação real da variação nominal, aplicamos números índice que
nos permitem isolar a evolução real do produto, excluindo a evolução dos preços. Assim, um
aumento do rendimento nacional não significa necessariamente um aumento da quantidade
de bens produzidos. Pode, portanto, acontecer que aquele aumento do rendimento seja
provocado pela subida dos preços. Para evitar o erro, recorre-se à correção dos dados do

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

rendimento nacional pelo coeficiente da alta ou baixa do nível dos preços. Com efeito,
procura-se evitar que a ilusão monetária conduza a uma leitura errada e enganadora da
realidade.

2.2. O PNL compreende a “manteiga” e os canhões”


O teor de vida depende da quantidade de bens de consumo ao dispor dos habitantes
do país. Na verdade, são os bens de consumo que satisfazem imediatamente as
necessidades e que, portanto, determinam o bem-estar material dos indivíduos.
É preciso não esquecer, desde logo, que para os cálculos do produto conta tanto a
produção de bens de consumo que satisfazem necessidades fundamentais da generalidade
da população, como a produção de bens de luxo que satisfazem necessidades supérfluas ou
mesmo sumptuárias de uma pequena minoria de ricos.
Do mesmo modo, tanto conta a produção de “canhões” como a produção de
“manteiga”: são ambos bens de consumo (bens civis e bens militares), mas não se
equivalerão do ponto de vista do bem-estar da população. Quer dizer: mesmo tomando em
conta apenas a parte do PNL constituída por bens de consumo, não podem colher-se daí
indicações inequívocas acerca do nível de bem-estar material do conjunto de habitantes de
um país, nem em termos absolutos, nem em termos de comparação da situação registada
nesse país em período diferentes, nem em termos de comparação com outros países.
No entanto, o rendimento nacional resulta tanto dos bens de consumo como dos bens
capitais produzidos. E pode acontecer que o rendimento tenha aumentado apenas por ter
aumentado a quantidade de bens capitais. Se assim for, não haverá aumento do bem-estar
no respetivo período, embora o facto de a economia ficar a dispor de mais bens de produção
lhe venha permitir a produção de maiores quantidades de bens de consumo em períodos
ulteriores.
Problemas podem resultar também da deficiente contagem dos bens de consumo
duradouros, os quais, em regra, são inscritos na contabilidade nacional apenas no ano em
que são produzidos, deixando de figurar nos anos seguintes, embora a sua utilização e o bem-
estar que dela resulta permaneçam durante o período da sua vida útil.
Por fim, note-se que também a externalidade, isto é, atividade que influencia terceiros,
positiva ou negativamente, sem que esses terceiros tenham que pagar ou ser indemnizados
por essa atividade, é um fator que nos permite avaliar a questão da capacidade do PNL para
refletir o nível de bem-estar da população. Com efeito, as externalidades existem quando os
benefícios ou os custos privados não igualam os benefícios ou custos sociais. Deste modo,
por um lado, verifica-se a existência de externalidades positivas ou economias externas, isto
é, externalidades que influenciam positivamente sem que terceiros tenham de pagar, pelo que
os benefícios sociais resultam em benefícios privados. Por outro lado, as externalidades

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

negativas ou deseconomias externas consistem nas atividades que influenciam terceiros


negativamente, sem que estes sejam indemnizados, pelo que existem benefícios sociais que
não resultam em benefícios privados. Neste sentido, compreende-se que em economias
desenvolvidas, a maior parte da despesa pública serve para compensar deseconomias
externas, portanto, mais que para proporcionar aumentos líquidos, serve para repor níveis de
bem-estar já auferidos.

2.3. O PNL, o PNL per capita, a distribuição do rendimento


Importa salientar que, quando se fala de bem-estar material de um povo, se tem em
vista a quantidade de bens de consumo ao dispor da grande maioria dos seus componentes.
Ora, pode dar-se o caso de aumentar a quantidade de bens de consumo produzidos
e, no entanto, esses bens produzidos a mais ficarem ao dispor, não da grande massa dos
habitantes do país em causa, mas de um número diminuto deles. Se tal suceder, não há
dúvida que o bem-estar material da maioria da população não acompanha o acréscimo do
rendimento nacional.
Com efeito, esta é uma questão que tem que ver com a estrutura da distribuição do
rendimento. Como todas as capitações, o PNL per capita é um valor médio, compatível com
vários graus de desigualdade na distribuição do rendimento e do consumo.
Por conseguinte, colhendo o nível de bem-estar pelo valor do PNL per capita, não
pode dizer-se que o nível de bem-estar da generalidade da população é igual em dois países
só porque as estatísticas assinalam, para ambos, o mesmo PNL per capita.
Considerações semelhantes valem para o caso de se pretender averiguar se,
relativamente a um dado país, o aumento do PNL per capita significa necessariamente
aumento do nível de bem-estar da maioria da população. Na verdade, pode dar-se o caso de
o crescimento económico se ter feito acompanhar de um agravamento da desigualdade na
distribuição do rendimento, de tal forma que a maioria da população do país pode ter sofrido
uma baixa da parte que lhe cabe do rendimento que, em termos absolutos, cabe a essa
parcela da população e uma baixa do PNL per capita dos indivíduos que a integram, em
benefício da melhoria absoluta e relativa da situação dos mais ricos.

2.4. O PNL e a contabilidade do lazer como elemento do bem-estar


O produto nacional não dá qualquer relevância ao lazer, ao ócio, que é seguramente
um elemento importante do bem-estar.
O mesmo produto nacional pode ser obtido com mais ou menos horas de trabalho e
logo se compreende que, sendo o trabalho esforço penoso, o bem-estar será tanto maior
quanto maior for o tempo de ócio.

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No entanto, as condições em que decorre o trabalho, o ambiente de trabalho,


constituem igualmente uma condição importante do bem-estar. Compreende-se, também, que
os trabalhadores que vivem em países onde os riscos de despedimento são mínimos e onde
sabem que não cairão na situação de desemprego se sintam mais felizes.
Em suma, o bem-estar individual e coletivo não se reduz ao bem-estar material, pelo
que só bem-estar material pode colher-se a partir dos dados do PNL.

2.5. Síntese
Por todas estas razões, o rendimento nacional, ainda que rigorosamente avaliado, não
permite proceder a seguras comparações no espaço, nem a seguras comparações no tempo.
Ainda que rigorosamente avaliado, está sujeito a muitos erros, e a tanto mais quanto mais
imperfeitos forem os serviços de notação estatística.
No entanto, este é um dos casos em que se apura ser possível obter muita verdade
com base num somatório de erros.
Sem dúvida que a problemática do bem-estar material das populações não pode ver-
se desligada do crescimento económico, embora o mero crescimento do PNL não esgote
todas as dimensões do desenvolvimento económico, enquanto caminho para a plena
realização do homem.
Porém, hoje os economistas começam a ter bem presente que nem tudo o que faz
aumentar o PNL pode contabilizar-se como fator de melhoria do bem-estar material dos
povos. Com efeito, ao crescimento económico andam associados custos sociais que, em
regra, as contabilidades nacionais não descontam ao valor do PNL. Assim, vêm-se fazendo
tentativas para se conseguir um processo de medir o bem-estar material mais corretamente
do que é possível fazê-lo com base nas estatísticas do PNL, a título de exemplo, o conceito
de bem-estar económico líquido.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

IV. MERCADOS E PREÇOS

1. A procura
1.1. A escala da procura e a curva da procura
1.2. Lei da procura decrescente. Efeito-substituição e efeito-rendimento
1.3. Exceções à lei da procura
1.4. A elasticidade-preço da procura
1.4.1. Elasticidade da procura e receita total dos vendedores
1.4.2. A elasticidade da procura e a inclinação da curva da procura
1.4.3. Os fatores determinantes da curva da procura
1.5. A elasticidade cruzada da procura
1.6. A elasticidade-rendimento da procura
1.7. A procura à empresa
2. Oferta
2.1. A noção de oferta e a curva da oferta
2.2. A elasticidade da oferta
2.3. A oferta e os custos de produção
2.3.1. Os custos de produção em período curto
2.3.2. Os custos da produção em período longo
3. Os preços: sua função. A formação do preço: a lei da oferta e da procura
3.1. Função do preço
3.2. A formação do preço: a lei da oferta e da procura
4. Os vários tipos de mercados
4.1. O mercado de concorrência pura e perfeita
4.1.1. As condições da concorrência perfeita
4.1.2. A formação do preço no mercado de concorrência perfeita
4.1.2.1. A análise em período infra-curto
4.1.2.2. A análise em período curto
4.1.2.3. A análise em período longo
4.2. O monopólio e os preços do monopólio
4.2.1. Noção de monopólio
4.2.2. Monopólio legal, natural e de facto
4.2.3. O princípio de Cournot e o preço ótimo de monopólio
4.2.3.1. O princípio de Cournot
4.2.3.2. O equilíbrio custo marginal-receita marginal: preço ótimo de monopólio
4.2.3.3. A receita marginal
4.2.3.4. Moderadores do preço

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

4.2.4. O preço múltiplo e a discriminação dos preços


4.2.4.1. A absorção da renda dos consumidores
4.2.4.2. O fracionamento do mercado
4.2.5. Preços de concorrência e preços de monopólio: diferenças
4.3. A concorrência monopolista
4.3.1. Noção
4.3.2. A diferenciação do produto
4.3.3. A formação do preço em concorrência monopolista
4.4. O oligopólio
4.4.1. Noção
4.4.2. Explicação do oligopólio: a dificuldade da entrada de novas empresas na
indústria
4.4.3. O comportamento das empresas oligopolista
4.4.4. A indeterminação da procura e a fixação do preço

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IV. MERCADOS E PREÇOS

- A Procura

Quando se fala de lei da procura, pretende-se significar a série das quantidades que
os compradores estão dispostos a adquirir aos vários preços possíveis, ao longo de um
período de tempo determinado.
Há, portanto, uma relação funcional entre a procura e o preço, sendo que a procura é
a variável dependente, enquanto que o preço é a variável independente.
No entanto, não quer dizer que as quantidades procuradas apenas variem em função
do preço. Com efeito, vários fatores influenciam as quantidades procuradas de determinada
mercadoria, que se designam por parâmetros da função. Explicitamente, consideram-se como
condicionantes: as necessidades; os rendimentos das pessoas; o nível dos preços de outros
bens, nomeadamente, bens que substituem esse produto; as expetativas das famílias; e,
ainda, o crescimento ou decrescimento da população.

1. A escala da procura e a curva da procura


A quantidade de um bem que as pessoas comprarão em qualquer momento depende
do seu preço. Permanecendo as demais coisas iguais (condição coeteris paribus), quanto
maior for o preço de um certo bem, menos a quantidade dele que as pessoas estarão
dispostas a comprar; ou quanto mais baixo for o preço do mercado, mais unidades do bem
em causa serão procuradas.
Com efeito, existe uma relação definida entre o preço de um bem e a quantidade
procurada desse bem, que se designa por escala da procura ou curva da procura.

2. Lei da procura decrescente. Efeito-substituição e efeito-rendimento


A lei da procura decrescente consigna que as quantidades procuradas de um bem
variam em sentido inverso ao do preço. É que, por um lado, a descida dos preços provoca
novos compradores e, por outro lado, cada redução do preço pode levar os consumidores dos
bens a comprar quantidades adicionais e uma alta do preço pode levar cada um de nós a
comprar menos.
Porque razão a quantidade da procura tende a descer à medida que o preço sobe?
Quando o preço de um bem sobe, tende-se a substituir esse bem por outro – efeito
substituição. Além do mais, quando um preço sobe, o rendimento real diminui, enquanto que
o rendimento nominal se mantem e, naturalmente, reduz-se o consumo de bens correntes –
efeito-rendimento.
Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Assim, note-se que a lei da procura cobre procuras mais ou menos sensíveis a
variações de preço e a procura é mais ou menos sensível a variações do preço em função da
significância com que se produzem os efeitos de substituição e rendimento.

3. Exceções à lei da procura


Em certos casos, o efeito-rendimento age em sentido contrário ao do efeito-
substituição, assistindo-se a uma diminuição da procura quando o preço baixa. Com efeito,
dá-se isso com os bens de qualidade inferior, isto é, com os bens sucedâneos, que são bens
comprados não por preferência, mas por necessidade, pelo que uma alteração positiva no
rendimento faz com que as pessoas passem a comprar um bem de qualidade superior a esse.
Por outro lado, também se assiste ao aumento da procura com a subida do preço. De
facto, é o que se passa com os bens de luxo em que se verifica a existência de uma procura-
ostentação em que a procura aumenta quando o preço aumenta: tratando-se de bens de luxo,
muito caros, não só continuarão a ser procurados, em caso de subida dos preços, por aqueles
que já compravam, mas passarão a ser comprados também por outros que, tendo dinheiro
para isso, compram esses bens, agora muito mais caros, para ostentarem a sua riqueza e
afirmarem o seu status. Além do mais, também se verifica este cenário no caso de alguns
bens de primeira necessidade de acordo com o exemplo paradigmático do paradoxo de
Griffen: tanto quanto a pessoas aufiram de um rendimento muito baixo e os bens em causa
sejam verdadeiramente essenciais, verifica-se que as pessoas compram o bem cujo preço
aumentou (pão, por exemplo) e deixam de comprar outro (carne), visto que, se antes ao
comprar o pão, sobrava ainda dinheiro para comprar carne, agora, como o preço do pão
aumenta significativamente, deixa de sobrar dinheiro para comprar carne ou o que sobra é
tão pouco que a pessoa prefere comprar mais pão.

4. A elasticidade da procura
Analisámos o comportamento da procura de um bem perante variações do preço
desse bem e traçámos a curva que ilustra graficamente esse comportamento. Porém, em
muitas situações, não basta conhecer a direção da reação das quantidades procuradas à
variação do preço do bem: é importante conhecer a dimensão (a grandeza) dessa reação.
Esta situações podem compreender-se através do conceito de elasticidade
(elasticidade-preço) da procura que nos dá a medida da variação da quantidade procurada
de um bem perante a variação do respetivo preço. Rigorosamente, o que importa aqui não
são as variações do preço e a quantidade procurada em termos absolutos, mas as variações
percentuais do preço e das quantidades procuradas. Assim, podemos definir elasticidade da
procura como a relação entre as variações percentuais do preço de um bem e as

90
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consequentes variações percentuais, em sentido contrário ao das variações do preço, da


quantidade procurada desse bem.
Diz-se que a procura é elástica quando o quociente obtido seja maior que um. Neste
caso, se o preço aumentar, existe uma descida mais que proporcional na quantidade
procurada, pelo que o empresário deve descer os preços, na medida em que o preço mais
elevado não é compensável pelas quantidades que se vão vender a menos. Com efeito, são,
geralmente, de procura elástica: os bens sucedâneos, já que se um bem pode ser substituído
por outro, a subida do seu preço fará com que os compradores, logo que o preço atinja certo
nível, prefiram comprar o bem sucedâneo que, embora não sendo tão bom, é mais barato; e
os bens de luxo, precisamente porque são bens de luxo, podemos muito bem passar sem
eles.
Considera-se que a procura é inelástica quando o quociente obtido é menos do que
um. Aqui, uma subida do preço leva a uma diminuição menos que proporcional na quantidade
procurada e, consequentemente, a receita total do empresário aumentará se este subir o
preço, pelo que, se o descer, tal não lhe trará benefício, na medida em que a quantidade
procurada é menos que proporcional à descida do preço. Neste sentido, note-se que se
consideram, normalmente, como bens de procura inelástica: os bens de primeira
necessidade; os bens cujo preço unitário é muito baixo e que representam uma despesa que
corresponde a uma parcela mínima do rendimento de cada comprador; os bens que são
utilizados em conjunto com outros bens (bens complementares) e que representam uma
pequena parte da despesa global; e alguns bens que provocam habituação.
Por último, denomina-se por procura com elasticidade unitária se o quociente obtido
for igual a um. Neste caso, uma variação no preço leva a uma variação idêntica, mas em
sentido oposto da quantidade procurada, pelo que a existência deste tipo de elasticidade diz
ao empresário que aumentar ou diminuir o preço é-lhe indiferente na sua receita total.
No entanto, note-se que existem dois casos excecionais. Em primeiro lugar, quando a
elasticidade é igual a zero e que se denomina por elasticidade absolutamente inelástica,
verifica-se que o aumento do preço não influencia a procura, pelo que esta é indiferente a
variações de preço – a procura é rígida. Com efeito, neste caso, convém ao empresário
praticar preços altos. Em segundo lugar, quando a elasticidade da procura é igual a infinito,
diz-se que a procura é infinitamente elástica ou de elasticidade perfeita, verificando-se que ao
preço de mercado os consumidores compram todas as quantidades que são postas à venda.

5. A elasticidade cruzada da procura


O conceito de elasticidade-preço pode aplicar-se ainda quando queremos apurar a
relação entre as variações do preço de um bem e as variações consequentes das quantidades
procuradas de outro bem. A esta relação chama-se elasticidade cruzada da procura e permite

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

avaliar em que medida os bens sucedâneos são próximos um dos outros ou são bens
complementares estreitamente relacionados entre si.
Se os bens forem sucedâneos, o aumento do preço do bem A provocará o aumento
da quantidade procurada do bem B, dizendo-se que a elasticidade cruzada da procura é
positiva, sendo que o valor da elasticidade cruzada será tanto mais elevado, quanto maior for
o grau de sucedaneidade entre os bens considerados.
Por outro lado, se os bens forem complementares, o aumento do preço do bem A
provocará a diminuição da quantidade procurada do bem B, dizendo-se que a elasticidade
cruzada da procura é negativa, sendo que o valor negativo da elasticidade cruzada será tanto
mais elevado quanto mais estreita for a relação entre os bens complementares considerados.

- Oferta

1. A noção de oferta e a curva da oferta


A oferta global no mercado exprime a vontade de vender de todos os participantes
nesse mercado. A escala da oferta pode representar-se graficamente por uma curva da oferta
orientada de baixo para cima e da esquerda para a direita: é a curva típica da oferta. Esta
curva mostra a relação entre o preço de uma mercadoria e a quantidade desta mercadoria
que a indústria está disposta a vender no mercado: se os outros fatores se mantiverem
constantes, as quantidades oferecidas de um certo bem em determinado período variam no
mesmo sentido em que varia o preço desse bem.
Neste sentido, note-se que o efeito-substituição confirma a lei da oferta, na medida em
que o produtor substitui a sua vontade de vender pela sua vontade de estocar, caso os preços
diminuam.
Contudo, em certas situações, a oferta varia em sentido inverso ao dos preços,
nomeadamente, aumentando a quantidade oferecida quando o preço baixa. Com efeito,
acontece, por exemplo, quando se dá uma quebra no preço dos produtos e alguns países,
querendo manter as suas receitas em divisas, se o produto se vender a preço mais baixo,
exporta mais desse produto para tentar compensar a quebra do preço do produto com o
aumento da quantidade exportada desse produto. De facto, isto ocorre sempre que a oferta
apresenta, para o vendedor, um caráter de primeira necessidade: este pode ter um único
produto como fonte de rendimento (caso dos países de monocultura). Neste contexto,
compreende-se que é por alusão ao efeito-rendimento que se compreende esta exceção.
A noção e o traçado da curva da oferta pressupõe certas condições: os custos de
produção são dados, pelo que, se estes diminuíssem, os produtores aceitariam oferecer as
mesmas quantidades que anteriormente a preços mais baixos ou oferecer mais aos preços
praticados; os preços dos substitutos do produto são dados; e, por fim, admite-se que uma

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

determinada variação do preço é considerada como a única possível pelos produtores, pelo
que se estes esperam uma variação ulterior do preço, irão restringir a sua oferta, se previrem
uma alta de preços, e irão aumentar a sua oferta, se previrem que os preços vão baixar.

2. A elasticidade da oferta
Tal como vimos para a procura, também quanto à oferta é importante sabermos como
reage a oferta às variações do preço da mercadoria em causa. Para tanto, utiliza-se o conceito
de elasticidade da oferta, que podemos definir como a relação entre as variações percentuais
do preço de um bem e as variações percentuais das quantidades oferecidas desse bem,
admitindo que se mantém constantes todos os outros fatores suscetíveis de influenciar as
quantidades oferecidas.
Diz-se que a oferta é elástica quando o quociente obtido através da fórmula referida é
maior que um, isto é, a oferta varia em maior proporção do que aquela em que o preço variou.
Com efeito, é o que acontece, por exemplo, em casos de mercadorias suscetíveis de comércio
internacional, visto que existe grande quantidade e diversidade de fontes produtivas e
mercados com destino para a produção, pelo que é fácil aumentar a oferta se o preço
aumentar e reduzir se o preço diminuir.
Considera-se que a oferta é inelástica quando o quociente obtido é menor que um, isto
é, varia em menor proporção do que aquela em que o preço variou. Neste tipo de oferta,
enquadram-se os bens perecíveis.
Por último, existe elasticidade unitária da oferta quando esta varia na mesma
proporção do preço.
Existem, ainda, os casos de elasticidade perfeita ou perfeitamente elástica, isto é, a
oferta é igual a infinito, em que ao preço dado os vendedores dispõem-se a oferecer quaisquer
quantidades, compreendendo-se que será impossível verificar-se em todos os níveis
quantitativos da oferta que podemos considerar, uma vez que os recursos disponíveis são
limitais; e os casos de oferta absolutamente inelástica, isto é, igual a zero, em que os
vendedores se dispõem a oferecer a mesma quantidade, qualquer que seja o preço, o que
acontece nos casos dos bens únicos, existentes em quantidade fixa e insuscetíveis de
aumentar através da produção.
Neste sentido, atentemos agora nos fatores que determinam a elasticidade da oferta.
Em primeiro lugar, a existência de stocks: de facto, quando os vendedores possuem
grandes estoques de mercadorias, a oferta é elástica, pois, enquanto houver estoques, pode
responder-se de imediato a um aumento da procura e do preço das mercadorias existentes
em estoque.
Por outro lado, não existindo estoques, a elasticidade da oferta depende da
possibilidade de expansão da produção do bem considerado e esta depende, por sua vez,

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

das condições gerais da atividade económica, nomeadamente, da disponibilidade e da


mobilidade dos recursos disponíveis.
Por fim, em termos gerais, diremos que a possibilidade de expandir a oferta depende
do período de tempo considerado. No entanto, a extensão da oferta depende também das
diferentes possibilidades de tempo de que se dispõe para aumentar a produção. Distinguem-
se, habitualmente, diversos períodos relacionados com o aumento da oferta. Quando o
período de tempo é demasiado curto para que a produção possa variar, diz-se que se está
num período de mercado ou período infra-curto. Se o vendedor dispõe de uma quantidade
fixa e determinada de um bem, tomará a sua decisão de oferta em função do preço corrente
no mercado e dos preços esperados. Chamar-se-á período curto aquele cuja duração já
permite fazer variar a produção, mantendo-se embora constantes os equipamentos: é apenas
a taxa de utilização dos equipamentos que se modifica. Chamar-se-á período longo aquele
durante o qual a capacidade produtiva e os custos de produção da empresa se podem
modificar, porque pode variar a natureza, a quantidade e a dimensão dos equipamentos, a
dimensão e a organização da empresa. Em suma, a elasticidade da oferta de um bem variará
consoante o período considerado, tendendo a ser mais elevada em período curto do que em
período de mercado e mais elevada em período longo do que em período curto.

3. A oferta e os custos de produção


Vimos como reage a oferta perante a variação dos preços. No entanto, a oferta não
depende apenas do preço: depende também do custo de produção correspondente às várias
quantidades que podem oferecer-se (da diferença entre o preço e o custo é que se extrai o
lucro e as empresas capitalistas trabalham com vista a obter o máximo lucro).
Com efeito, o custo de produção corresponde às despesas (custo monetário) que se
fazem com os bens e serviços necessários para a produção de uma mercadoria. Vemos aqui
o custo de produção como custo monetário que é suportado pelo produtor, pelo que o
distinguimos do custo social. De facto, um custo social é um custo suportado pela sociedade
a que não corresponde um custo monetário.

3.1. Os custos de produção em período curto


Em período curto, o estudo dos custos da empresa conduz à distinção entre os custos
globais, os custos médios e o custo marginal.
Qualquer empresa tem custos fixos. São aqueles custos que, em período curto, são
independentes do volume de produção e que, de qualquer maneira, deverão ser suportados
pela empresa, se ela pretender permanecer em atividade.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Os custos variáveis são aqueles cujo montante acompanha de algum modo o volume
de produção; são os ustos de todos os fatores cuja quantidade pode ser modificada em
período curto.
Faz-se a distinção entre os custos variáveis cuja variação é rigorosamente
proporcional à da produção total e os custos variáveis cuja variação não é rigorosamente
proporcional.
Com efeito, o custo total global é a soma dos custos variáveis e dos custos fixos.
Por outro lado, os custos médios obtêm-se em relação a uma unidade do produto.
Neste sentido, o custo fixo médio calcula-se dividindo o custo fixo global pela produção
correspondente. A curva do custo fixo médio decresce regularmente à medida que a produção
aumenta, visto que um mesmo custo é dividido por um número cada vez maior de unidades
produzidas.
O custo variável médio calcula-se dividindo o custo variável global pela produção
correspondente. Por aplicação da lei dos rendimentos decrescentes, o custo variável
decresce primeiro, passa por um ponto mínimo, depois cresce.
O custo total médio obtém-se, ou adicionando o custo fixo médio ao custo variável
médio para uma dada produção, ou dividindo o custo total pela produção correspondente. A
configuração da curva dos custos totais médios dependerá da importância relativa dos custos
fixos e dos custos variáveis. Se o custo fixo constituir uma parte importante do custo total,
será a diminuição dos custos fixos médios que dominará o comportamento dos custos à
medida que a produção aumentar; sejam os custos variáveis constantes ou não, o custo total
médio diminuirá de maneira importante num largo volume de produção. Em compensação,
uma empresa em que os custos fixos+º representem uma pequena percentagem do custo
total são as variações dos custos variáveis que dominam o comportamento do custo total
médio.
Por último, o custo marginal é o custo de produção de uma unidade suplementar do
produto. Dever-se-á notar que ele é composto apenas por custos variáveis. A curva do custo
marginal indica a taxa de crescimento do custo total global por cada unidade suplementar do
produto.

3.2. Os custos de produção em período longo


O período longo que aqui consideramos é aquele durante o qual a dimensão e a
organização da empresa podem ser modificadas. Todos os custos são, pois, variáveis: a
empresa tem a possibilidade de escolher uma dimensão de operações mais favorável, ao
mesmo tempo que modifica a taxa de utilização dos vários elementos de produção.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Com efeito, as curvas de custo de período longo fornecerão à empresa indicações


sobre a relação que convém estabelecer entre a sua dimensão e uma situação média da
procura durante um período de tempo relativamente longo.
A diminuição dos custos, numa primeira fase, explica-se pelas economias internas de
escala: maior especialização da mão de obra; melhor utilização do capital técnico; produção
em massa; melhoramento da distribuição. A posterior elevação dos custos deve-se às
deseconomias de direção e de administração, que se agravam em consequência da perda de
eficiência que se verifica logo que a empresa ultrapassa uma certa dimensão.
Assim, a baixa do custo total médio, numa primeira fase, explica-se pelo facto de a
empresa só poder utilizar eficazmente os elementos da produção indivisíveis ou em grandes
unidades no caso de a produção ser suficientemente importante para permitir a plena
utilização desses fatores; se eles não puderem ser completamente empregados, a empresa
suportará custos elevados, que diminuirão à medida que a produção crescer.
Numa fase posterior, o custo total médio eleva-se na razão do rápido aumento dos
custos de direção e de administração da empresa, uma vez que a dimensão das operações
cresce. As economias de escala são sucessivamente compensadas e ultrapassadas pelas
perdas de direção.

- Os Preços: sua função. A Formação do Preço: a lei da oferta e da procura.

1. Função do preço
Antes de estudarmos os mecanismos da formação dos preços nas economias
capitalistas, interessa conhecer a função do preço nestas economias. Para que serve o preço?
Distinguimos duas classes de bens: exuberantes, isto é, bens que existem em
quantidade superior à precisa para a satisfação das necessidades; e escassos, que existem
em quantidade limitada, inferior à que seria precisa para satisfazer integralmente as
necessidades. Com efeito, a maior parte dos bens que utilizamos são escassos, pelo que se
esses bens não chegam para todos, é necessário decidir que é que deles há-de dispor.
Neste sentido, existem vários sistemas de repartição dos bens económicos: por via de
autoridade; pela ordem das procuras, isto é, os bens são entregues aos que os procuram por
ordem cronológica da sua chegada; e pelo mecanismo do preço, em que os bens são
entregues aos que por eles pagarem preço mais alto.
Compreende-se que se possam repartir os bens pelo mecanismo do preço, pois o
preço é uma quantidade de moeda e a quantidade de moeda de que cada um dispõe é
limitada. Sendo assim, fica limitada pelo preço a procura de bens que cada um pode fazer.
Por fim, note-se que o mecanismo do preço não assegura uma repartição conforme
as necessidades, mas de acordo com a fortuna, riqueza, poder de compra de cada um.

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2. Formação do preço: lei da oferta e da procura


O preço forma-se no mercado e são duas as forças que o integram: a procura e a
oferta. Já vimos que a procura varia em sentido inverso ao do preço e que a oferta varia no
mesmo sentido do preço.
A lei da oferta e da procura é que nos diz como se forma o preço no mercado em
função das variações da oferta e da procura, isto é, qual o preço, de entre todos os possíveis
que estabelecer-se no mercado.
A situação de equilíbrio de mercado significa que, dados os conjuntos de situações de
procura e de oferta, ele é o único par de situações que entre si se pode conjugar, dando lugar,
portanto, a uma posição realizada, efetiva, de entre todas as possíveis unilateralmente.
Mas se o preço tem de ser equilíbrio, então se a oferta aumenta, o preço baixa; se a
oferta diminui, o preço sobe. Se a procura aumenta, o preço sobe; se a procura diminui, o
preço baixa. E é este comportamento do preço em função da variação da oferta e da procura
que se exprime através da lei da oferta e da procura: os preços variam em sentido inverso ao
da oferta e no mesmo sentido da procura.

- Os Vários Tipos de Mercados

1. O mercado de concorrência pura e perfeita

1.1. As condições da concorrência perfeita


O mercado da concorrência pura e perfeita é uma construção puramente teorética, do
qual encontramos apenas aproximações da realidade, que o mesmo é dizer que não é
empiricamente verosímil.
Neste sentido, identifica-se, como característica, a atomicidade do mercado, isto é,
existe um grande número de unidades económicas e nenhuma delas dispõe no mercado de
uma dimensão ou de um poderio suficientes para exercer qualquer ação sobre a produção e
o preço da indústria considerada. Depois, note-se a homogeneidade do produto o que se
traduz por, na indústria, todas as empresas apresentarem produtos que os compradores
consideram idênticos ou homogéneos, não havendo razão para preferir o produto de uma
empresa ao produto de de outra empresa, que não seja pelo preço do bem. Além do mais,
verifica-se a existência de livre acesso à indústria, pelo que todo aquele que quiser dedicar-
se a uma determinada exploração pode fazê-lo sem restrições nem demoras, isto é, sem
obstáculos legais ou de facto, e sem oposição, por parte das empresas à entrada de novos
concorrentes.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Ora, estas três primeiras condições definem a concorrência pura, ou seja, pura de
qualquer elemento de monopólio. Consideremos agora as restantes condições que, em
conjunto com as primeiras, permitem definir a concorrência perfeita.
Com efeito, note-se que deve existir perfeita transparência do mercado (publicidade
completa), isto é, os compradores conhecem a curva da procura, ou seja, as disposições dos
ofertantes a cada preço hipoteticamente estabelecido no mercado e os vendedores conhecem
a curva da oferta, igualmente, a cada preço hipoteticamente estabelecido no mercado. Depois,
deve existir perfeita mobilidade dos agentes económicos, ou seja, cada um dos vendedores
pode dirigir a sua oferta a qualquer dos compradores e cada um dos compradores pode dirigir
a sua procura a qualquer dos vendedores. Por último, deve existir, de indústria para indústria,
perfeita mobilidade dos fatores de produção, o que se reflete na existência de mobilidade
perfeita de capital e trabalho, deslocando-se sem custos e sem perdas de tempo de indústria
para indústria.

1.2. A formação do preço no mercado de concorrência perfeita


Distinguiremos, na análise, o período infra-curto, curto e longo.

A – A análise em período infra-curto


(O preço corrente, a renda dos consumidores e a renda dos vendedores)
Num período infra-curto, isto é, num dado momento, a produção não pode aumentar
nem diminuir e, portanto, a oferta dos vendedores há-de ser feita com os bens que já
produziram. Ora, a alternativa é vendê-los ou ficar com eles em estoque à espera de melhor
oportunidade. Como estamos em período infra-curto, em que as disposições dos vendedores
não podem variar, é constante a oferta de cada um deles e, portanto, é dada a oferta total de
mercadoria.
Por outro lado, neste tipo de período, também não podem modificar-se as
necessidades e os rendimentos dos compradores, pelo que a sua procura há-de ser feita com
os rendimentos que já possuem, sendo que a alternativa é gastá-los ou ficar com eles
entesourados. Assim, a procura de cada comprador é dada e, portanto, é dada a procura total
de cada mercadoria.
Com efeito, neste mercado, o preço tem de ser único, o que se exprime pela lei da
indiferença, formulada por Stanley Jevons: no mesmo mercado e no mesmo momento, não
pode haver mais que um preço para a mesma mercadoria. De facto, se a mercadoria é a
mesma, se são iguais todas as unidades oferecidas, torna-se indiferente aos compradores
adquiri-las de qualquer dos vendedores.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

No entanto, por que preço? Pelo preço de equilíbrio entre as quantidades que os
vendedores estão dispostos a oferecer e as quantidades que os compradores estão dispostos
a comprar.
Em suma, em períodos infra-curtos, nos mercados perfeitos de concorrência,
estabelece-se um único preço e esse único preço é o preço de equilíbrio entre a oferta e a
procura. Com efeito, é o preço que traduz o equilíbrio entre a oferta e a procura feitas em cada
momento e, como tal, chama-se preço de equilíbrio momentâneo ou, como é o preço que
corre em cada momento que passa, designa-se também por preço corrente.
Ora, da circunstância do preço ser único, vai derivar o fenómeno das rendas: por
virtude da unicidade do preço, os compradores economizam a diferença entre o preço que
estavam dispostos a pagar e aquele por que efetivamente compram. Chama-se a essa
diferença, que é um benefício e constitui como que um rendimento, a renda dos
consumidores. Neste sentido, note-se que se trata de uma renda fugaz, efémera, uma renda
que, na generalidade dos casos, surge e logo desaparece. Os consumidores fazem os seus
cálculos com base em elementos subjetivos, dentre os quais avultam a previsão dos preços.
Por seu turno, os vendedores ganham a diferença entre o preço por que estavam
dispostos a transacionar as mercadorias e aqueles por que efetivamente as vendem, o que
se designa por renda dos vendedores. Com efeito, os vendedores determinam o preço mínimo
a que lhes convém vender, em face de um elemento objetivo, que é o custo de produção.
Normalmente, o mínimo preço por que se dispõem a ceder as mercadorias é o preço
equivalente ao custo. Por oposição ao que acontece com a renda dos consumidores, a renda
dos vendedores não tem que desaparecer com a fixação do preço, já que enquanto os
vendedores transacionarem as mercadorias por mais do que o seu custo, ganharão a
diferença e esse ganho será por eles considerado renda. Assim, a renda dos vendedores é,
em princípio, duradoura, mas só em princípio, porque, tendo lucrado na venda das
mercadorias a preço superior ao custo, o natural é que os vendedores tentem aumentar o seu
lucro, desenvolvendo a produção para mais venderem e ganharem. Depois, o aumento da
produção e, portanto, da oferta, vai provocar a descida do preço e esta fará com que
diminuam, ou até desapareçam, as rendas dos vendedores.
Por fim, note-se que o preço de equilíbrio entre a oferta e a procura realiza o equilíbrio
do mercado, mas que este equilíbrio é momentâneo, passageiro.

B – A análise em período curto


(A estratégia de adequação da empresa ao preço do mercado e o comportamento da oferta da empresa)
Como se viu já, período curto é um período suficientemente longo para que as
empresas possam variar a sua produção em face do equipamento existente, mas
suficientemente breve ara que elas não possam variar o seu equipamento.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

Além do mais, sabemos também que, nos mercados de concorrência perfeita, o


número dos compradores e dos vendedores é tão grande, que nenhum comprador com a sua
procura e nenhum vendedor com a sua oferta pode exercer influência sensível sobre o preço.
Sendo assim, os compradores e os vendedores consideram o preço como um dado,
como qualquer coisa de absolutamente independente da sua ação. Todos fazem as respetivas
procuras e ofertas supondo que, com elas, não provocam nenhuma variação do preço, isto é,
os vendedores e os compradores contam com uma procura e uma oferta infinitamente
elásticas, ao preço dado, para a oferta e a procura de cada um.
Neste sentido, cada empresa considera que a procura que se lhe dirige é infinitamente
elástica ao preço do mercado, o que significa que qualquer das empresas presentes no
mercado sabe que pode contar com uma procura que, ao preço do mercado, absorverá todas
as quantidades que a empresa consegue produzir. Assim sendo, não faz sentido a hipótese
de a empresa baixar o preço dos seus produtos, para tentar vender mais e ganhar mais, tal
como não faz sentido que a empresa tente subir o preço dos seus produtos.
Nestas condições, cada uma das empresas, para maximizar o seu lucro, vai
desenvolver a produção até ao ponto em que o custo despendido na produção adicional (custo
marginal) seja igual ao preço de mercado, que é a receita média. Mas a receita média é igual
à receita marginal. Com efeito, as vendas adicionais fazem-se ao mesmo preço que as
primeiras e a receita que provém da venda de uma unidade suplementar do produto é igual
ao preço unitário no mercado: sendo constante a receita média, a receita marginal será
também constante e igual à receita média.
Em concorrência perfeita, a regra de maximização do lucro pode enunciar-se deste
modo: custo marginal = receita marginal = preço de mercado. Assim, compreende-se que esta
posição de parificação do custo marginal igual ao preço do mercado seja aquela que garante,
a uma empresa, o lucro máximo.
Assim, a partir de um volume de produção arbitrário vale ou não vale a pena produzir
mais uma unidade? Repare-se que à produção e venda correspondem determinados custos
e determinadas receitas. Ora, a produção de mais uma unidade implica um terminado custo
adicional: o custo marginal. E traz consigo uma receita suplementar: a receita marginal que
advém à empresa da venda de uma unidade adicional. Como a receita marginal é superior ao
custo marginal, a empresa tem interesse em produzir mais essa unidade: da sua venda,
aufere um lucro adicional ou marginal que vai aumentar os lucros globais da empresa. No
entanto, o lucro global da empresa começa a diminuir, porque, para quantidades superiores,
o custo marginal de cada uma das sucessivas unidades produzidas é sempre superior à
receita marginal, pelo que o prejuízo marginal vai aumentando à medida que a empresa
produz unidades suplementares. Por fim, entende-se que a posição ótima para a empresa é

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

a que se alcança quando a empresa produz as quantidades que obtêm a um custo marginal
igual ao preço de mercado.
Observemos, porém, que a igualação do custo marginal ao preço só interessa às
empresas quando trabalham a custos médios crescentes, pois, enquanto o custo médio é
decrescente, o custo marginal é sempre inferior a ele.
Ora, nenhuma empresa pretenderá igualar o custo marginal ao preço enquanto o custo
marginal for inferior ao custo médio, pois, nesta situação, venderia os artigos fabricados a
preço igual ao custo marginal, mas inferior ao custo médio e sofreria perdas. Deste modo, só
se põe o problema de parificar o custo marginal com o preço, quando aquele seja superior ao
custo médio e o custo marginal torna-se superior ao custo médio na fase dos custos médios
crescentes. Assim, se toda a empresa tem interesse em produzir as quantidades de
mercadorias que pode obter a custo marginal igual ao preço, então, à medida que o preço
sobe, tem interesse em atingir custos marginais cada vez mais elevados e, portanto, aumentar
cada vez mais a sua produção.
Por conseguinte, em períodos curtos as empresas oferecerão, a cada preço, aquela
quantidade de mercadorias cujo custo marginal com cada preço se parifique. Neste sentido,
como a subida do preço permite a produção a custos marginais cada vez mais altos, daí que,
em períodos curtos, a oferta das empresas aumente à medida que o preço suba, no entanto,
com um limite: o que é posto pela capacidade do equipamento.
Por fim, se as empresas têm interesse em oferecer a cada preço as quantidades que
podem produzir a idêntico custo marginal, então, a curva da oferta em períodos curtos é uma
curva das quantidades produzidas aos vários custos marginais.

C – A análise em período longo


(O desaparecimento dos lucros anormais)
Quando o preço é superior ao custo total médio, a empresa realiza, a período curto,
lucros anormais. Por outro lado, a empresa realiza apenas lucros normais quando aufere os
lucros suficientes para a incitar a continuar na indústria. Deste modo, entende-se que o lucro
normal seja o lucro mínimo indispensável para decidir qualquer empresa a continuar a laborar,
na expetativa de que a situação seja passageira: não fechando as portas, mantém a clientela,
esperando que possa aumentar a sua eficácia, reduzir os custos médios de produção e passar
a integrar o número das empresas intramarginais, isto é, das empresas que, por trabalharem
a custo médio inferior ao preço do mercado, auferem lucros anormais.
Ora, o facto de as empresas beneficiarem de lucros anormais significa que a indústria
é atrativa. Assim, novas empresas constituem-se e expandem-se algumas das já existentes,
em busca de melhores condições de custos. No entanto, isto vai-se traduzir na determinação
de novos preços de mercado, pela conjugação da procura com novas condições de oferta,

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uma vez que esta aumentará em consequência da entrada de novas empresas e da


ampliação de outras - deixa de haver procura infinitamente elástica e, conforme a lei dos
preços, ao aumentar da oferta, segue-se uma diminuição dos preços. Com efeito, o processo
só cessará quando forem eliminados os lucros anormais, vendendo as empresas a um preço
idêntico ao custo médio e que é o mínimo.
Neste sentido, pode-se dizer que, nos períodos longos, os preços que acabam por se
estabelecer nos mercados de concorrência, são preços de equilíbrio entre a procura e aquela
oferta, cujo custo marginal se parifica não só com tais preços, mas também com o custo médio
(mínimo) da empresa marginal (a empresa que labora a preços mais elevados de entre todas
as que subsistem no mercado).
Por fim, note-se que leva tempo a atração, decisão, montagem e entrada em laboração
de novas empresas e daí que todos estes mecanismos de reajustamento, até se atingir a
posição de equilíbrio, só ganhe sentido a longo prazo e, por isso, também, que esta posição
de equilíbrio na indústria seja uma posição de equilíbrio estável.
Em suma, em período longo, como não há qualquer limitação à entrada na indústria e
como os fatores de produção são móveis, as empresas entrarão na indústria ou sairão da
indústria, até que esta atinja a posição de equilíbrio total definida por duas condições: todas
as empresas parificam o seu custo marginal e a sua receita marginal; e desaparece a
tendência para a entrada ou saída da indústria, visto que todas as empresas realizam lucros
normais e funcionam no ponto mínimo da sua curva do custo total médio. Esta situação
pressupõe, no entanto, que os fatores de produção sejam homogéneos e que os empresários
tenham o mesmo grau de eficiência.

2. O monopólio e os preços do monopólio

2.1. Noção de monopólio


A noção de monopólio define-se a partir da distinção entre monopólio puro e monopólio
isolado. Com efeito, o monopólio puro seria aquele que teria a possibilidade de obter todo o
rendimento dos consumidores, qualquer que fosse o nível da sua produção.
Partimos, antes, da definição de monopólio isolado em que o monopolista é aquele
que controla a oferta de um produto que não tem sucedâneos próximos. Nestas condições, o
monopolista toma uma decisão que diz respeito ao preço e à quantidade, porém, não pode
controlar, ao mesmo tempo, o preço do seu produto e a quantidade que será procurada: ele
fixa o preço ou a quantidade, porque deve ter em conta as reações da procura.
Por fim, repare-se que a distinção entre indústria e empresa desaparece nesta
situação: a empresa que usufrui de um monopólio abrange toda uma indústria.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

N.B.: Da mesma maneira que um vendedor pode controlar a oferta de um produto, um único comprador pode
controlar a procura de um produto: diz-se então que existe monopsónio.

2.2. Monopólio legal, natural e de facto


Como surgem os monopólios?
Por vezes, é a própria lei: é a lei que atribui a certa empresa o exclusivo da venda de
determinada mercadoria – monopólio legal. Outras vezes, é a natureza: por virtude da
escassez natural de certos elementos, geralmente matérias-primas, só uma empresa é
vendedora deste ou daquele produto – monopólio natural. Outras, ainda, são as
circunstâncias conexas ao funcionamento do mercado: há uma empresa que consegue
eliminar todas as demais, ficando sozinha em campo; ou há uma empresa que se dedica à
produção de um novo artigo e que, enquanto for só ela a fabricá-lo, será monopolista –
monopólio de facto.
Eis as três fontes donde o monopólio deriva.

2.3. O princípio de Cournot e o preço ótimo de monopólio

A – O princípio de Cournot
Enquanto para uma empresa em mercado de concorrência o preço é um elemento
determinado, para a empresa monopolista ele é um elemento a determinar. Decerto que o
preço não depende apenas da oferta, mas também da procura, simplesmente, perante a curva
da procura, a empresa monopolista pode estabelecer no mercado o preço a que corresponda
uma procura igual à oferta. Assim, como pode fazer a oferta que quiser, pois é senhora das
quantidades produzidas, ei-la que, conhecendo a procura, fica árbitro do preço.
No entanto, de entre todos os preços a que há procura, qual é o que mais convém à
empresa monopolista, isto é, qual é para ela o preço ótimo? A empresa monopolista tem
espírito de qualquer outra empresa e, por isso, vai tentar conseguir o máximo lucro, vai
escolher o preço que lhe deixe maior excesso de receitas sobre as despesas totais.
Ora, o lucro é igual ao produto das quantidades vendidas pela diferença entre o preço
e o custo total médio de cada unidade. Logo, o preço ótimo será quando for máximo o produto
da equação referida. Com efeito, como as quantidades vendidas dependem da procura, o
preço há-de ser fixado em função destes dois elementos: a procura e o custo.
Neste sentido, note-se que o monopolista não pode agir ao mesmo tempo sobre as
quantidades e sobre os preços: princípio de Cournot. De facto, se fixa as quantidades que
quer vender, é o mercado que lhe diz o preço por que as compra; por outro lado, se fixa o
preço a que deseja transacionar, é o mercado que lhe diz as quantidades que absorve.

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Por fim, repare-se que é por via deste princípio que o preço ótimo não coincide com o
preço máximo, isto é, com o mais alto dos preços a que ainda há procura.

B – O equilíbrio custo marginal-receita marginal: preço ótimo de monopólio


Sabe-se, já, que o custo total médio não é constante: é sempre crescente ou
decrescente. Neste sentido, o monopolista, para a determinação do preço ótimo, tem de tomar
em conta, além da reação da procura, o custo maior ou menor por que produz as várias
quantidades.
Na concorrência, qualquer empresa desenvolve a produção até que o seu custo
marginal se parifique com o preço do mercado e este é o que a empresa recebe a mais por
colocar no mercado uma unidade adicional. Ora, chama-se receita marginal à diferença entre
a receita obtida pela venda de n unidades e a obtida pela venda de n+1. Em concorrência
perfeita, essa diferença é sempre igual ao preço, uma vez que a venda de mais unidades por
qualquer empresa se faz ao preço por que se vendiam as quantidades anteriores. Assim, a
parificação custo marginal-preço explica-se pela parificação custo marginal-receita marginal.
Com efeito, o que se passa com qualquer das empresas em mercado de concorrência
passa-se de igual modo com a empresa monopolista, já que também esta tem interesse em
desenvolver a produção enquanto o que despende a mais (custo marginal) for inferior ao que
recebe a mais (receita marginal). Ora, como a oferta da empresa monopolista coincide com a
oferta total, o seu aumento é sempre significativo e, sendo-o, vai provocar a descida do preço
e esta vai afetar não só as unidades vendidas a mais como as restantes. Daí que a receita
marginal seja sempre inferior ao preço.
Por fim, note-se que o preço ótimo é, assim, o preço de equilíbrio entre a procura e
aquela oferta cujo custo marginal iguala a receita marginal.

C – A receita marginal
Mas de que depende a receita marginal? Depende da redução do preço necessária
para se venderem mais unidades da mercadoria. E de que depende a redução do preço?
Depende da elasticidade da procura.
Neste sentido, se a procura é muito elástica, basta uma pequena baixa do preço para
que a procura aumente muito e, portanto, para que o monopolista consiga vender as unidades
adicionais; se é pouco elástica, então, exige-se uma redução do preço relativamente grande
para o monopolista conseguir colocar n+1 unidades em vez de n.
Deste modo, conclui-se que, conforme a procura for mais ou menos elástica, assim
será maior ou menor a receita marginal – a concluir que a receita marginal vaira no mesmo
sentido da elasticidade da procura. Com efeito, quanto mais elástica for a procura, mais a

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

empresa recebe pela venda de unidades adicionais e menos deixa de receber pela venda de
unidades primitivas.
Se a procura se torna absolutamente inelástica, a receita marginal é sempre negativa,
visto que a empresa não vende mais unidades e passa a vender a preço mais baixo as
unidades que anteriormente transacionava. Além do mais, a receita marginal é ainda negativa
quando a elasticidade da procura se torna menor do que 1, porque o que a empresa recebe
a mais pela venda de mais unidades não chega para cobrir o que ela recebe a menos pela
venda a preço mais baixo das unidades primitivas. Com efeito, não convém ao monopolista
nenhum dos preços que lhe dão receita marginal negativa, pelo que, deste modo, ele vai fixar
sempre o seu preço dentro da zona em que a elasticidade da procura é maior que 1.

D – Moderadores do preço
O preço ótimo corresponde à quantidade ótima, ou seja, à dimensão ótima. Esta
atinge-se pela parificação do custo marginal com a receita marginal. Consequentemente, o
preço ótimo corresponde, também, a essa mesma parificação: é aquele preço ao qual o
mercado absorve uma oferta cujo custo marginal iguala a receita marginal.
Simplesmente, isto será assim quando a empresa monopolista não tiver que suportar
qualquer espécie de concorrência e o monopolista tem, quase sempre, que suportar
concorrências, antes de mais, a concorrência dos sucedâneos. Com efeito, as mercadorias
podem ser, muitas vezes, substituídas por outras na satisfação das necessidades, pelo que
se o preço do monopolista é muito elevado em relação ao preço dos sucedâneos, é natural
que se tente a produção destas últimas mercadorias, ou que os vendedores já existentes
baixem o seu preço, para atraírem a clientela da mercadoria monopolizada.
No caso do monopolista de facto, este conhece também outra concorrência: a
concorrência potencial. Com efeito, se se trata de monopólio de facto, então é possível
constituírem-se outras empresas que produzam a mesma mercadoria e entrem, assim, em
concorrência com o monopolista. Quer dizer: a empresa monopolista é sempre,
potencialmente, objeto de concorrência e esta chama-se, por isso mesmo, concorrência
potencial. Evidentemente, não lhe convém que se formem tais empresas e, como tal, não fixa
o preço que corresponde à parificação custo marginal-receita marginal, mas sim um preço
mais baixo que, embora lhe deixe menores lucros no presente, o ponha ao abrigo de uma
concorrência que lhe pode ser fatal. BAIN chamou a este preço, inferior ao que maximizaria os
lucros da indústria numa perspetiva imediatista, um preço-limite.
A ameaça da concorrência obriga, assim, o monopolista de facto a comedir-se nas
suas ambições. Mas não a comedir-se muito, pois a eficácia da concorrência potencial é
relativamente pequena porque: leva sempre muito tempo a formar-se uma nova empresa; se
exigem capitais avultados para se constituir uma empresa concorrente da detentora do

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

monopólio; a nova empresa terá de afrontar os riscos consideráveis para concorrer com o
monopolista, dado que este tem a clientela nas suas mãos.
Por último, uma razão que pode levar o monopolista a limitar voluntariamente o seu
lucro consiste em evitar que, perante o mau ambiente público criado pela prática de preços
considerados de exploração ao consumidor, o estado intervenha no sentido de sanear uma
situação de abuso. Ora, o modo da empresa se antecipar a tais medidas e ataques consiste
em limitar-se na fixação do preço.

2.4. O preço múltiplo e a discriminação dos preços

A – Absorção da renda dos consumidores


O monopolista é vendedor único e, portanto, a procura não pode deslocar-se dele para
outros vendedores – não tem mobilidade nenhuma. Ora, sendo a procura imóvel, o
monopolista pode exigir preços diversos aos diversos compradores – pode criar uma
multiplicidade de preços. Mas terá interesse em fazê-lo?
Sempre que o preço é único, há renda dos consumidores, pois há pessoas que
adquirem a mercadoria a preço mais baixo do que aquele que estavam dispostas a pagar, em
caso de necessidade. Daí que o monopolista, em vez de fixar um preço único, possa exigir
outros preços aos que, em caso de necessidade estavam resolvidos a pagá-los.
Assim, o monopolista consegue, através do preço múltiplo, transformar em lucro seu
o que seria renda dos consumidores, caso tivesse fixado um preço único. Não há dúvida, pois,
que lhe convém discriminar os preços.

B – O fracionamento do mercado
A circunstância de um monopolista vender a mesma mercadoria a preços diferentes
aos diferentes compradores traduz-se no fracionamento do mercado, isto é, na divisão do
mercado em várias secções que equivalem, na prática, a outros tantos mercados.
Com efeito, para que tal seja possível, é preciso que não haja comunicação entre os
mercados fracionários, ou seja, é preciso que nem os compradores possam deslocar-se de
um para outro mercado, nem os produtos e serviços vendidos num deles possam ser
transferidos para qualquer dos restantes. De outro modo, ficaria gorada a política de preço
múltiplo, ou porque todos os compradores passavam a afluir ao mercado onde o preço fosse
mais baixo, ou porque as mercadorias adquiridas nesse mercado podiam revender-se nos
demais.
De facto, o fracionamento é fácil de conseguir e de manter sendo feito no tempo, isto
é, sendo vendida a mercadoria a preços diferentes em diferentes épocas.

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Dani Moreira e Davide Rodrigues 2015/2016 Primeira Turma

No entanto, o fracionamento do mercado também pode fazer-se no espaço; na mesma


época, o monopolista vende a mesma mercadoria a preços diferentes.
Este fracionamento simultâneo é igualmente fácil quando se trata de serviços diretos
e o monopolista conhece as disposições de cada um dos seus clientes. Com efeito, serviços
diretos são aqueles que só podem ser prestados às pessoas que deles imediatamente se
aproveitam, não podendo, pois, ser prestados através de intermediários.
Ora, estes monopolistas, que são o grande número, têm de tomar certas medidas para
conseguir a incomunicabilidade dos mercados fracionários. Que fazem eles geralmente?
Começam por dividir os compradores em classes de modo a incluir em cada classe todos
aqueles que dão a mesma ou quase a mesma valorização à mercadoria monopolizada. Em
seguida, introduzem diferenças no aspeto exterior do produto ou na prestação do serviço, de
modo a impedir que as pessoas por elas colocadas em determinadas classes se desloquem
para as classes em que os preços são mais baixos.
Por fim, note-se que o preço múltiplo permite ao monopolista aumentar enormemente
os seus lucros, todavia, se se trata de um monopólio legal, explorado não com fins lucrativos,
mas de interesse público, a discriminação dos preços também permite favorecer as classes
pobres à custa das ricas. Deste modo, o preço múltiplo de monopólio, assim como pode ser
apenas uma fonte de lucros, também pode ser fonte de benefício social.

2.5. Preços de concorrência e preços de monopólio: diferenças


Em primeiro lugar, note-se que o preço de concorrência é um preço único, pois, sendo
a procura móvel, nenhum comprador estará disposto a pagar um preço mais elevado do que
aquele que paga qualquer outro comprador; e nenhum vendedor estará disposto a receber
um preço mais baixo do que aquele que recebe qualquer outro vendedor. Por outro lado, o
preço de monopólio pode ser único ou múltiplo.
Em segundo lugar, repare-se que o preço de concorrência é um preço que coincide
com o custo marginal da oferta necessária para fazer equilíbrio com a procura, enquanto que
o preço de monopólio é aquele a que o monopolista faz uma oferta cujo custo marginal iguala
a receita marginal. Ora, como a receita marginal é inferior ao preço, o preço de monopólio é
necessariamente superior ao custo marginal.
Por último, tenha-se em conta que, sabendo que a procura varia em sentido inverso
ao do preço e se o preço de concorrência é o preço a que se faz a maior procura possível,
então, o preço de concorrência dá satisfação ao maior número possível de compradores. Por
outro lado, o preço de monopólio é superior ao custo marginal, não sendo o menor preço por
que uma empresa se dispõe a oferecer estavelmente as quantidades produzidas e, como tal,
não é o menor preço possível, não dando satisfação ao maior número possível de
compradores.

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3. A concorrência monopolista
As condições do mercado de concorrência perfeita não se verificam nos mercados
reais. No entanto, é possível encontrar alguma verosimilhança entre este tipo de mercado e
as bolsa de valores, onde são transacionados títulos de crédito: aí, para além da manifesta
homogeneidade dos bens transacionados, é também manifesta a total mobilidade da oferta e
da procura, assim como a publicidade, as quais são realizadas através dos corretores da
bolsa, indivíduos que estabelecem permanente contacto entre compradores e vendedores de
títulos, dando a conhecer, a uns e a outros, e para um certo preço, as suas recíprocas
disposições de compra e venda.
Porém, note-se que mesmo neste caso da bolsa de valores não existe verdadeira
concorrência perfeita, já que falha a publicidade total, pois os compradores e os vendedores
só conhecem as disposições dos vendedores e dos compradores para um certo e
determinado preço e não para os vários preços possíveis.
Na prática, encontramos geralmente um tipo de mercados onde se estabelece uma
concorrência imperfeita.

3.1. Noção
Nos mercados de concorrência monopolista e, à semelhança do que encontrámos na
concorrência perfeita, é ainda bastante grande, embora menor, o número de empresas
existentes no mercado. Contudo, a oferta de cada uma delas tem já influência sensível sobre
o preço, quer porque as empresas são em menor número, quer porque, embora ainda
reduzida, a sua dimensão é já maior do que a concorrência perfeita.
Neste sentido, note-se também que, quanto ao fator facilidade ou dificuldade de
acesso de novas empresas à respetiva indústria, ele apresenta-se em grau bastante variável,
mas não pode falar-se em dificuldade de entrada de novas empresas como elemento
característico deste tipo de mercados.

3.2. Diferenciação do produto


Elemento característico da concorrência monopolista é a diferenciação dos produtos,
com base na inovação. Neste mercado, os bens não são homogéneos, nem são meros
sucedâneos remotos uns dos outros como no monopólio. Com efeito, as empresas não
reproduzem mercadorias idênticas, nem artigos completamente distintos, sendo o princípio
fundamental de diferenciação o princípio da diferenciação mínima que BOULDING resume nos
seguintes termos: tornai o vosso produto tanto quanto possível similar aos produtos
existentes, mas sem destruir as diferenças.

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Neste sentido, existe diferenciação do produto quando, no espírito do comprador, o


produto de uma empresa não é um substituto perfeito do produto de outra empresa que se
dedica à mesma atividade que a primeira.
Assim, a diferenciação poderá dizer respeito ao próprio produto ou poderá relacionar-
se com as condições de venda.
No primeiro caso, respeitando as condições de venda, poderá tratar-se de: uma
diferenciação material objetiva, radicada na própria natureza do produto; ou de uma
diferenciação jurídica, derivada da atribuição de uma certa marca, com a especial proteção
jurídica que decorre da situação de marca registada e que se traduz na proibição legal de
qualquer outra empresa colocar no mercado produtos com a mesma marca.
No segundo caso, respeitante à diferenciação pelas condições de venda, poderá, de
acordo com o critério da verdade, da ação e da política do empresário, tratar-se de:
diferenciação de facto, quando as condições de venda são de certa maneira independentes
da vontade ou da ação do empresário; ou diferenciação provocada, quando esta é resultado
da ação sistemática do empresário relativamente ao seu produto e às condições da sua
venda.
Este fenómeno de diferenciação é o que caracteriza o comportamento de cada uma
das empresas neste tipo de mercado, já que as empresas procedem assim para tentar fugir
à concorrência das restantes. Com efeito, a diferenciação existente vai originar, do ponto de
vista do comprador e por parte deste, uma preferência relativa a certo produto. Desse facto,
há-de resultar para cada empresa uma certa posição de monopólio para o seu produto. Essa
relativa posição de monopólio acentua-se mais no caso de existir marca registada, pois então
nenhuma empresa poderá apresentar no mercado um produto com a mesma marca.
No domínio da concorrência monopolista, cada vendedor dispõe de uma clientela que
manifesta preferência pela variante do produto por aquele apresentada e onde, além disso, o
vendedor já exerce um certo controlo sobre o preço dessa variedade do produto. No entanto,
neste caso, o vendedor tem de prestar especial atenção às reações daquela clientela, pois
sabe que venderá mais ou menos consoante o preço que fixar for mais baixo ou mais elevado.
Assim, cada empresa procura criar a sua clientela, que tenta monopolizar, e sobre a
qual, por diversos modos, procura exercer influência, de modo a assegurar sempre uma certa
procura para o seu produto.
Ora, é precisamente à publicidade que cabe uma importante função no que respeita à
determinação da procura e, portanto, à constituição da clientela própria de cada empresa. É
que a procura não pode aqui encarar-se como elemento dado, mas antes como elemento a
determinar, em função do preço praticado pela empresa considerada e dos preços dos bens
que concorrem com o seu, mas também em função da política seguida por cada empresa

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com o objetivo de criar uma razão de escolha dos bens por ela vendidos, em vez dos bens
das outras empresas.
Com efeito, esta política das empresas implica despesas que acrescerão ao custo da
produção do produto, despesas que serão tanto mais pesadas, quanto maior for o grau de
sucedaneidade entre os bens vendidos pelas empresas concorrentes da mesma indústria.
Por fim, note-se que se distinguem, segundo EDWARD CHAMBERLIN, dois tipos de
custos: os custos de produção e os custos de venda. Com efeito, os custos de de produção
compreendem todas as despesas que é necessário para criar a mercadoria, para a
encaminhar até ao comprador e pô-la à sua disposição, apta a satisfazer as necessidades –
custos que visam aumentar a oferta, com o objetivo de satisfazer a procura. Por outro lado,
os custos de venda andam ligados à existência de uma política de vendas que pode ser: uma
política de informação do consumidor, destinada a ajudá-lo a fazer a sua escolha; ou uma
política de persuasão ou sugestão, destinada a fornecer ao consumidor uma razão para
escolher determinado bem, em detrimento dos bens similares vendidos por outras empresas,
procurando aumentar as vendas da empresa.

3.3. A formação do preço em concorrência monopolista


Suponhamos que uma empresa lança no mercado um produto novo, contando com
uma determinada curva de procura e fixando, portanto, perante ela, o preço de monopólio, o
preço que lhe deixa maior lucro, o preço de equilíbrio entre a procura e aquela oferta cujo
custo marginal se parifica com a receita marginal. Neste sentido, a empresa obtém lucros
anormais avultados, pois vende as quantidades que produz a um custo marginal igual à
receita marginal, mas a um preço muito superior ao custo total médio de cada uma das
unidades produzidas e vendidas.
Estando num mercado de concorrência monopolista, o mais natural é que as outras
empresas do mesmo ramo (indústria) sejam tentadas, em face dos avultados lucros da
empresa em questão, a produzir mercadorias próximas daquela que esta empresa lançou
com tanto êxito e que com esta integram o mesmo produto.
Ora, como todas as empresas dessa indústria produzem bens similares, todas estarão,
em princípio, em condições de anular pela concorrência aqueles grandes lucros anormais e
essa concorrência traduzir-se-á na constituição de novas empresas a fabricar aquele produto
e na ampliação ou adaptação das empresas existentes à produção do mesmo produto. A
longo prazo, esta reação das outras empresas acabará por anular os lucros anormais da
empresa que havia lançado o produto novo no mercado, deixando a indústria de ser lucrativa
para as empresas que nela se instalaram. Isso acontecerá quando todas as empresas tiverem
aumentado a oferta total do produto para um ponto tal que o preço se venha a fixar a um nível
igual ao custo total médio.

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Assim se passarão as coisas, desde que as outras empresas disponham dos capitais
necessários e estejam dispostas a aplicá-los naquela indústria enquanto ela for lucrativa.
Se uma empresa, uma vez anulados os lucros anormais pela concorrência, os quiser
recuperar, terá de recorrer a campanhas de publicidade ou então lançar um novo produto,
contudo, se os lucros anormais renascerem, todo o processo de refará.
Note-se, no entanto, que, na análise que fizemos, admitimos que todas as empresas
em concorrência monopolista trabalhavam a custos de produção iguais. Se as empresas,
porém, trabalharem com diferentes curvas de custos, mas não houver obstáculos à criação
de novas empresas com curvas de custo idênticas às de qualquer das empresas existentes,
cada uma das empresas sofrerá concorrência de produtos similares fabricados a custos
iguais, até que todas as empresas vendam esses produtos a preços iguais ao custo médio. O
que, em última análise, poderá acontecer é que sejam eliminadas as empresas que trabalham
a custos mais elevados.
Sinteticamente, o preço que a longo prazo se estabelece no mercado de concorrência
monopolista é um preço de equilíbrio entre a procura que se dirige a cada uma das empresas
e a oferta de cada uma delas, cujo custo marginal iguala a receita marginal e cujo custo total
médio iguala o preço.
Isto se não houver obstáculos à construção de empresas com curvas de custo
idênticas às de cada uma das empresas existentes. No entanto, como geralmente os há,
acabará por acontecer que as empresas subsistentes, que trabalham a custos mais altos
(empresas marginais) acabam por vender os produtos ao preço igual ao seu custo médio,
continuando as empresas mais eficientes a vender a preço superior ao custo médio (empresas
intramarginais), percebendo, portanto, lucros anormais.
Como se vê, em concorrência monopolista o preço é superior ao da concorrência
perfeita e as quantidades oferecidas em concorrência perfeita são superiores às oferecidas
em concorrência monopolista. Com efeito, é menor a utilização da capacidade de produção,
significando que todas as empresas produzem menos do que poderiam produzir e que
produzem a um custo médio superior ao custo mínimo. Diz-se, por isso, que o equilíbrio
realizado em concorrência monopolista é um equilíbrio de desperdício.
Por fim, note-se que a ineficiência social da concorrência monopolista traduz-se no
facto de aos custos de produção acrescerem os custos de venda e, ainda, o próprio custo de
produção é maior em virtude da diferenciação do produto.

4. O oligopólio

4.1. Noção

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Em outros mercados, os bens continuam diferenciados, as empresas continuam a


distinguir material e juridicamente os produtos, mas a quase totalidade da produção e,
portanto, da oferta, cabe a poucas empresas, geralmente grandes.
Característica do monopólio é, portanto, a concorrência entre um pequeno número de
grandes empresas, embora ao lado destas grandes, possa coexistir algumas empresas
menores (oligopólio parcial). Além do mais, note-se a dificuldade de entrada de novas
empresas no mercado e o comportamento de cada uma das empresas – a interdependência
conjetural – com a consequente indeterminação da procura com que pode contar cada
empresa.

4.2. Explicação do oligopólio


(a dificuldade de entrada de novas empresas na indústria)
A situação de oligopólio pode assumir uma de duas explicações: o número de
produtores é diminuto porque a dimensão correspondente ao custo médio mínimo possível é
grande em relação à procura total da mercadoria; existem obstáculos à formação de novas
empresas (legais ou de facto).
No que diz respeito aos obstáculos legais, estes existem quando as empresas de uma
certa indústria têm o seu processo de fabrico patenteado ou devido à exigência de uma
autorização dos poderes públicos para a constituição de novas empresas.
Por outro lado, no que diz respeito aos obstáculos de facto, consideram-se os
seguintes: trata-se de uma indústria cujo exercício requer capitais consideráveis e esses
capitais são extremamente difíceis de obter, em certa época; trata-se de uma indústria cujas
empresas reagem fortemente ao aparecimento de qualquer competidor, procurando arruiná-
lo por meio da luta de preços; as empresas existentes beneficiam do facto de haver
diferenciação do produto; a nova empresa teria de lançar-se com apenas alguns tipos de
produtos; a estabilidade ou a diminuição das taxas de crescimento da procura dos produtos
dessa indústria; a imperfeita imobilidade dos fatores de produção; a indivisibilidade dos
recursos produtivos; e, por fim, a importância dos serviços de venda e distribuição.
Ora, entre os obstáculos de facto, ganha particular relevância a ação preventiva das
empresas existentes que se reflete: na política do preço-limite (ou preço de exclusão) que
consiste na fixação, por acordo entre as empresas existentes ou por decisão da empresa
dominante, de preços abaixo do nível de máximo lucro a curto prazo, como forma de afastar,
a longo prazo eventuais concorrentes; na estratégia do investimento em massa: a empresa
tira partido da indivisibilidade do investimento, aumentando o seu capital fixo mais do que é
exigido pelo aumento da procura, de modo que o equipamento nunca esteja completamente
utilizado; e, ainda, no controlo do acesso aos fatores de produção que consiste nas empresas
existentes procurarem tornar impossível ou muito custosa para as novas empresas a

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obtenção de matérias-primas, de equipamento, de recursos financeiros. Com efeito, em


economias dominadas por poderosos grupos económicos e financeiros, os grandes bancos
estão quase sempre integrados em um desses grupos.
Se estes diversos fatores permitem explicar as dificuldades de entrada de empresas
novas, eles permitem também compreender o desenvolvimento de formas especiais de
entrada: nas indústrias novas, as grandes empresas que já operam noutras indústrias
estendem a sua esfera de atuação; nas indústrias já estabelecidas, as grandes empresas
diversificam ao mesmo tempo os seus produtos e os seus preços.

4.3. O comportamento das empresas oligopolistas


Comecemos por distinguir duas formas características de monopólio: oligopólio
perfeito ou sem diferenciação do produto – hipótese em que o produto é tão homogéneo que
uma redução do preço por uma empresa conduzirá imediatamente a idêntica redução por
todas as restantes; oligopólio imperfeito ou com diferenciação dos produtos – hipótese em
que a redução do preço por parte de uma empresa não atrairá imediatamente todos ou a
maior parte dos clientes das outras empresas, já que nestas situações, cada empresa conta
com uma clientela mais ou menos segura para o seu produto e, deste modo, o facto de
algumas delas ficarem a vender a preços mais altos do que o estipulado por outra não acarreta
a perda de toda a clientela, porque a diferenciação dos produtos constituirá uma razão de
escolha para a maior parte dos compradores habituais desses produtos.
De qualquer modo, nestes mercados, concorrem entre si um pequeno número de
grandes empresas que pertencem à mesma indústria, que vendem o mesmo produto. Ora, tal
obriga cada uma das empresas a ter sempre em conta o efeito da sua ação sobre o
comportamento das outras empresas, uma vez que a sua própria situação e atuação serão
influenciadas pelo comportamento das suas concorrentes. Com efeito, o estado de espírito, a
atitude, o comportamento de cada um dos poucos grandes vendedores neste mercado é
talvez mais determinante das respetivas características do que o pequeno número de
empresas em concorrência. Assim, BARRE fala em interdependência conjetural: no seio de
cada indústria, existe interdependência dos preços e dos volumes de venda (oferta) e esta
interdependência é reconhecida pelos oligopolistas.
Em suma, em oligopólio, a curva de vendas de uma empresa não pode ser dada, isto
é, cada empresa, em face de uma pretendida variação do preço dos bens que ela vende, não
pode contar apenas com a reação dos compradores perante aquela variação do preço, pois
ela depende do que as outras empresas fizerem, especialmente, das suas políticas de
vendas, sendo certo que a reação das outras empresas tem, neste tipo de mercado,
considerável influência sobre o preço.

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4.4. A indeterminação da procura e a fixação do preço


Em virtude da importância das reações das outras, nenhuma empresa pode contar
com uma determinada curva de vendas. Na verdade, se uma empresa, por exemplo, baixar
os seus preços, a provável reação das outras, baixando os preços também, faz com que a
empresa que primeiro baixou o preço acabe por não beneficiar de nenhum aumento ou só
obter um pequeno aumento da procura que a ela se dirige (oligopólio imperfeito). Se
considerarmos a hipótese de uma empresa subir o seu preço, ficará sem clientela (oligopólio
perfeito) ou verá muito reduzida a sua procura. Quer dizer: a preços superiores aos
estabelecidos no mercado, a procura que se dirige a cada empresa é muito elástica; a preços
inferiores é pouco elástica. Neste sentido, note-se que respetiva curva da procura costuma
representar-se sob a forma de uma curva quebrada.
Com efeito, as empresas oligopolistas só podem determinar a curva da procura dos
seus artigos depois de lhes fixarem um preço e é esta indeterminação da procura que
caracteriza o oligopólio, isto é, temos oligopólio sempre que o número de empresas é tão
pequeno que a procura dos produtos de qualquer delas se torna indeterminada.
Deste modo, a concorrência ao nível dos preços não convém às grandes empresas
deste mercado, pelo que o equilíbrio do mercado não se estabelecerá mediante a luta de
preços.
Como se forma então o preço neste mercado?
Já vimos que cada uma das empresas não poderá praticar preços muito afastados
daquele que se fixar no mercado: não praticará preços tão baixos que provoquem a reação
de outras; nem preços tão elevados que afugentem a sua clientela. Assim, irão nortear-se
pela ideia de cativar a sua clientela, por forma a aproveita da sua fidelidade se porventura
alguma empresa baixar o preço.
Com efeito, no monopólio com diferenciação do produto, o perigo de uma guerra de
preços é menor do que no oligopólio perfeito, já que os demais vendedores não responderão
tão prontamente a reduções de preço como quando não existe diferenciação.
No fundo, a ideia-chave é a de que os oligopolistas pretendem evitar complicações:
daí que, em oligopólio com diferenciação do produto, os preços se mantenham inalterados
durante largo período. Os preços rígidos correspondem a uma preocupação de segurança de
cada uma das empresas em face dos concorrentes no seio da indústria.
Embora surjam ocasionais guerras de preços, estes cedo retornam aos antigos níveis,
quando os rivais concluírem que estão apenas a arruinar-se mutuamente.
Deste modo, compreende-se a tendência que se verifica nas situações de oligopólio
no sentido de se estabelecer o equilíbrio no mercado por acordo entre as empresas que,
conforme o grau de coordenação existente, podem distinguir-se várias situações. Em primeiro
lugar, situações de oligopólio completamente coordenado que se refletem na existência de

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um sindicato de de empresas que centraliza as vendas e na existência de acordos de cartel


entre oligopolistas. Depois, situações de oligopólio parcialmente ordenado, nomeadamente:
quando existe na indústria uma empresa leader; e, ainda, quando se manifesta entre os
oligopolistas uma cooperação voluntária, sem organização, mas inspirada por uma certa ética
dos negócios, pelo desejo de realizar o interesse comum ou por uma tolerância recíproca.
Efetivamente, a importância de cada uma das empresas diz-lhes que todas acabarão
por perder com a luta, a menos que alguma tenha suficiente preponderância para ter
esperança de dominar os concorrentes. Depois, pesa também o reduzido número de
entidades em presença. Por último, também os fatores de ordem pessoal têm aqui um
importante papel: às administrações das grandes empresas em oligopólio chegam
informações através dos seus técnicos, que as habilitam a avaliar os perigos da luta com as
empresas rivais; e os membros dessas mesmas administrações, pertencendo ao mesmo meio
social, mantém estreitas relações entre si.
Além do mais, note-se que acordo não quer dizer, necessariamente, acordo expresso,
assim como também não tem de abranger todos os campos de atividade e de eventual
concorrência. Com efeito, há acordos tácitos, atingidos depois de um medir de forças inicial
em que se ensaiaram posições e reações mútuas; e acordos parciais, consistindo, por
exemplo, em se firmar o preço ou os preços de venda e se repartir o mercado entre os
concorrentes, mas deixando abertas outras formas de concorrência.
Assim sendo, note-se que é bem corrente deparar-se com uma concorrência muito
viva entre oligopolistas, embora sem ser dirigida aos preços e zonas de mercado: pode ser a
concorrência pela publicidade, a concorrência através das condições de vendas, formas de
competição como o acesso às matérias-primas, inovação técnica e o ocupar de posições em
todo o espaço disponível.

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FIM

“ALEA JACTA EST”

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