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ISSN 1980-5772

eISSN 2177-4307
DOI: 10.5654/actageo2012.0613.0004 ACTA Geográfica, Boa Vista, v.6, n.13, set./dez. de 2012. pp.59-76

REESTRUTURAÇÃO SOCIOESPACIAL DO TERRITÓRIO CEARENSE: SERVIÇOS


MODERNOS EM EVIDÊNCIA NOS SUBESPAÇOS DINÂMICOSi
Sociospatial restructuring in cearense territory: modern services in evidence in dynamic subspaces
Reestructuración del territorio cearense: servicios modernos en evidencia en subespacios dinámicos

Elizete de Oliveira Santosii


Universidade Federal do Ceará - Brasil

Luiz Cruz Limaiii


Universidade Estadual do Ceará - Brasil

RESUMO
O espaço geográfico é produzido para adequar-se ao novo modelo de produção/consumo difundido pela
modernização que marca o atual sistema temporal, cujo fundamento encontra-se no nexo entre ordens informacionais,
científicas e técnicas. Para a sincronia da funcionalidade do sistema, os objetos geográficos têm que se articular às
necessidades dos fluxos, o que é atendido pelos chamados serviços modernos, responsáveis pela circulação de idéias,
pessoas e mercadorias. Este artigo trabalha o conceito de reestruturação socioespacial para dar conta dos processos atuais
de mudança amalgamados na sociedade que se reproduz e se materializa no território, tomando a referência do Ceará,
a partir de 1990. A análise esboçada nos permite trabalhar com a hipótese da constituição de um dissimétrico e
hierarquizado espaço de redes, marcado pela superposição de diversas polarizações, cuja conexão se dá pelos serviços
modernos, delineando um espaço reticular cada vez mais desigual, seletivo e concentrador nesse subespaço nacional.
Assim, julgamos contribuir com as investigações que se propõem a deslindar a geografia do Ceará do século XXI.
Palavras-chave: reestruturação socioespacial; território; serviços modernos; Ceará.

ABSTRACT
The geographical space is produced to fit the new production/consumption model spread by the modernization that
characterizes the current system time, whose foundation is the link between informational, science and technology
orders. For the synchronization of system functionality, the geographic objects have to articulate the flows needs,
which is attended by so-called modern services, responsible for the ideas, people and goods circulation. This paper
proposes the sociospatial restructuring concept referring to the current processes of change amalgamated in the society
that reproduces itself and that materializes in the territory, taking the reference of Ceará, since 1990. The presented
analysis allows us to work with the hypothesis of the asymmetrical and hierarchical networking space formation,
marked by the superposition of different polarizations, whose connection is given by modern services, drawing a
reticular space increasingly unequal, selective and concentrator on national subspace. Thus, we believe contribute to
the research they propose to unravel the geography of Ceará twenty-first century.
Keywords: sociospatial restructuring; territory; modern services; Ceará.

RESUMEN
El espacio geográfico se produce para adaptarse al nuevo modelo de producción / consumo de la modernización
generalizada que caracteriza el actual sistema temporal, cuyo fundamento está en el enlace entre las órdenes de la
información, la ciencia y la tecnología. Para la sincronización de la funcionalidad del sistema, los objetos geográficos
han de articular las necesidades de los flujos, que es atendido por los llamados servicios modernos, responsable de la
circulación de ideas, personas y mercancías. Este texto propone el concepto de reestructuración socio-espacial para dar
cuenta de los actuales procesos de cambio en la sociedad que se reproduce y se materializa en el territorio, teniendo la
referencia de Ceará, a partir de 1990. La análisis propuesta permite trabajar con la hipótesis de la formación de un
espacio de redes asimétricas y jerárquicas, marcada por la superposición de diferentes polarizaciones, cuya conexión
se establece por los servicios modernos, delineando un espacio reticular cada vez más desigual, selectivo y
concentrador en este subespacio nacional. Por lo tanto, creemos contribuir con las investigaciones que se proponen a
desentrañar la geografía de Ceará en el siglo XXI.
Palabras clave: la reestructuración socio-espacial; el territorio; los servicios modernos; Ceará.

INTRODUÇÃO sociedade, empresas e Estado – a ganhar novas


Periodicamente, o espaço geográfico – feições e conteúdos para acompanhar as
entendido como conjunto indissociável de inovações absorvidas pelo sistema produtivo.
sistemas de objetos e sistemas de ações Onde essas transformações penetram de forma
(SANTOS, 1996) – é impulsionado por um ou mais rápida, tornam-se os movimentos sociais
vários de seus agentes de transformação – mais densos, quer no acatamento da nova
actageo.ufrr.br Enviado em janeiro/2012 – Aceito em agosto/2012
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realidade, quer na repulsa de tais verticalidades. Ceará. Entende-se que os serviços modernos
A esses momentos de ruptura e reorganização espacializam-se segundo a lógica de polarização
do espaço e da sociedade, que marcam o territorial articulada à totalidade do processo de
movimento de evolução de um território, modernização do espaço cearense, intensificado
estamos chamando de reestruturação socioespacial desde a década de 1990, sob os auspícios do
(LIMA, 2006; LIMA et al, 2008). Parte-se do discurso desenvolvimentista que norteou as
princípio de que cada novo sistema nasce ações estruturantes do Estado nos últimos vinte
nas/das entranhas do sistema anterior, o que anos.
impõe o imperativo metodológico da O desenvolvimento deste trabalho está
periodização. estruturado em três momentos. No primeiro
Na fase atual, ao espaço geográfico momento, buscamos articular a totalidade às
agregaram-se feixes de inovações técnico- partes estruturadas da realidade em análise,
científicos, além de elevado grau de oferecendo uma contribuição ao conceito de
componentes informacionais, o que Santos reestruturação socioespacial, aplicando-o à
(1996) conceitua como meio técnico-científico realidade de nosso objeto de estudo a fim de
informacional, cuja expansão fez com que as construir o nosso fundamento teórico-
instâncias produtivas ficassem dissociadas e/ou metodológico; no segundo, discutimos a
dispersas geograficamente no espaço, ao mesmo seletividade dos territórios em rede e a
tempo em que seu comando é único. Destarte, emergência dos serviços modernos como signo
60

instala-se o conflito dialético entre, de um lado, da conectividade espacial e setorial,


o comando vertical (cada vez mais concentrado) apresentando notas teórico-metodológicas; e,
que une os espaços do mandar aos espaços do finalmente, no terceiro, discutimos os avanços e
fazer e, de outro, as relações horizontais dos limitações da pesquisa sobre os serviços
espaços do fazer (cada vez mais dispersos). modernos em evidência no Ceará, colocando o
Para a sincronia da funcionalidade do foco da nossa análise especificamente nos
sistema, os objetos geográficos têm que se subespaços dinâmicos do Ceará, cuja conexão se
articular às necessidades dos fluxos, o que é dá pelos serviços modernos.
atendido pelos serviços modernos, responsáveis
pela circulação de idéias, pessoas e mercadorias CONSTRUÇÃO TEÓRICO-METODOLÓ-
(JIMÉNEZ e UTRILLA, 1992; LIMA e SANTOS, GICA DO CONCEITO DE REESTRU-
E., 2008; SANTOS, E. e LIMA, 2008). TURAÇÃO SOCIOESPACIAL
Como laboratório dessa realidade, nossas Como o espaço é resultado dos movimentos

reflexões buscam dar conta de um subespaço de mudança que são traçados e trançados pelas

nacional – o Ceará. Este artigo propõe-se a diversas instâncias da sociedade em cada

discutir o papel dos serviços modernos como momento, ele se apresenta como história, como

elos produtivos nos subespaços dinâmicos do uma totalidade. Desse modo, posto que a

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realidade é movimento, é necessário que o nosso do passado, vivificando o trabalho morto. Neles,
pensamento também se ponha em movimento a sociedade do presente realiza seu modo de
numa “estrutura teórica dinâmica”, buscando vida, agora obedecendo à unicidade do mundo.
acompanhar, pelo menos mais de perto, a À medida que a ordem global se transforma
realidade. Nosso trabalho se propõe a entender, com novas modalidades de funcionamento,
tomando a referência do território cearense, cada lugar há de adequar suas condições para
como o espaço responde às alterações na poder participar do conjunto maior. Só assim, as
sociedade por meio de sua própria alteração, partes se agregam, de forma coerente e
mediante diversos momentos de reestruturação obediente, à totalidade. No carrilhão dessa
socioespacial, conceito discutido a seguir. dinâmica se dá, como exigência da realidade, a
reestruturação socioespacial.
DA TOTALIDADE E DAS PARTES No bojo dessa discussão, a contribuição de
ESTRUTURADAS: A ELABORAÇÃO DO Soja (1993) indica a dinâmica da produção e
CONCEITO reorganização do espaço:
Entender o espaço como uma totalidade,
[...] a reestruturação, em seu sentido
implica que se faça um esforço metodológico de
mais amplo, transmite a noção de uma
fragmentar esse todo (análise) para ruptura nas tendências seculares, e de
uma mudança em direção a uma ordem
posteriormente reconstituí-lo (síntese), como
e uma configuração significativamente
ensina Santos (1985, p.7): “a noção de espaço diferentes da vida social, econômica e
61
política. Evoca, pois, uma combinação
como uma totalidade se impõe de maneira mais
seqüencial de desmoronamento e
evidente, porque mais presente; e pelo fato de reconstrução, de desconstrução e
tentativa de reconstituição... (p. 193).
resultar mais intrincada, torna-se mais exigente
de análise”. A organização dos elementos do Nessa acepção, a reestruturação seria uma
espaço, que atua hierarquizando-os, nos dá o seqüência de quebra/ruptura no
nexo das ordens que partem dos diversos atores, desenvolvimento do conjunto das relações
em diversas escalas, e delineia os “territórios do sociais de produção, como resposta às crises do
mandar” e os “territórios do fazer”, de modo sistema. Essa abordagem teórica auxilia no
que o papel regulador das funções locais tende entendimento dos processos de transformação
progressivamente a escapar da sociedade local. do espaço e da sua respectiva sociedade em
Como o espaço geográfico é o pergaminho cada período histórico, considerando o sistema
onde o homem escreve sua história, as global, ou seja, a totalidade.
diferentes fases por que passa cada sociedade Para Mandel (1982), a reestruturação
são marcadas pela implantação de sistemas de acontece como mecanismo de superação das
engenharia para a realização de sua produção e crises do modo de produção capitalista, criando
condições de vida. Esses sistemas são novas estratégias de alcançar superlucros, seja
soerguidos ou são renovados utilizando criações pela diferenciação espacial (regional ou

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internacional), seja pelo desenvolvimento lógica relativamente estável que rege cada
setorial desigual. Segundo Mandel, haveria período de um espaço implica na necessidade
uma: de esta lógica se reconstituir a partir da anterior,
embora absorvendo novos componentes,
[...] periodicidade da modernização
caracterizantes do novo período.
intensificada a uma série de
reestruturações geográficas, No conjunto dos autores que tem
similarmente caracterizadas pela
contribuído com as reflexões acerca dos
tentativa de recuperar as condições de
sustentação da acumulação capitalista movimentos de reestruturação socioespacial,
lucrativa e do controle da mão-de-obra
desponta o trabalho de Moreira (2001; 2002).
(MANDEL, 1982, p. 38)
Este autor busca desenvolver uma teoria para
Esse autor aponta como o espaço é usado,
explicação dos processos de reestruturação no
ainda que de modo diferenciado, dentro do
Brasil, relacionando-os aos movimentos da
modelo excludente e geograficamente desigual
totalidade-mundo. Sustenta que a
na espacialidade capitalista. Além disso,
reestruturação é responsável pela constante
assinala que cada novo ciclo sobrepõe-se ao
renovação dos espaços ao longo do processo de
velho como uma camada, preservando os
construção geográfica das sociedades2,
resíduos. Essa idéia reforça o pensamento de
culminando em sua terceira fase, quando as
que as diversas reestruturações socioespaciais
lógicas e determinações precisam ser
dotariam cada espaço ou subespaço da 62
modificadas para dar continuidade à formação
característica de ser um palimpsesto1.
de cada novo espaço social. Nesse sentido,
O conjunto da obra de Milton Santos, ainda
enfatiza:
que não explicite a expressão reestruturação
socioespacial, trabalha a teoria de que as A construção geográfica das sociedades
é um processo dinâmico. A paisagem
mudanças relacionais entre os componentes do
por seletividade se monta, seu arranjo
espaço (sociedade e configuração territorial) por agregação de práticas se estrutura e
esta armadura ganha peso e movimento,
caracteriza os movimentos de reestruturação
até que um ciclo de reestruturação a
(mudanças) seguindo lógicas internas a cada refaz. Então, ao fim e ao cabo, “todo o
equilíbrio espacial da sociedade
período histórico de um espaço, conforme se
encontra-se modificado”. (MOREIRA,
verifica quando afirma que “a configuração 2001, p. 38)
territorial, conjunto de dados naturais
Estudando a reestruturação como passagem
modificados pela ação consciente do homem
de um modelo espaço-tempo a outro, Moreira
mediante sucessivos sistemas de engenharia, e a
sustenta que a atual reestruturação traz a
dinâmica social, relação que define a sociedade
novidade da convergência dos quatro modelos –
em dado momento histórico” (SANTOS, 1988, p.
modelo histórico mundial, modelo histórico
111). A idéia trabalhada por Santos reforça o
brasileiro, modelo de acumulação mundial e
entendimento de que a ruptura/quebra da
modelo de acumulação brasileiro – no modelo

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de acumulação financeira, conforme assinala a Entendemos que a reestruturação


seguir: socioespacial ultrapassa a reestruturação
produtiva, tão estudada no período atual, pois
Uma vez que a hipótese que seguimos é
as transformações amalgamadas nesse processo
a da simultaneidade de esgotamento de
conjunto dos quatro modelos, a são mais do que uma mudança de regulação
reestruturação, para lá do modelo
produtiva, implicando mudanças nas regulações
produtivo, estaria significando uma
reestruturação mais ampla, revolvendo políticas, ideológicas e culturais, enfim,
todas as escalas de espaço-tempo que até
mudanças sociais. A reestruturação produtiva é
aqui estudamos. Altera a relação entre o
público e o privado; mexe com a apenas o início do processo de reestruturação
estrutura e perfil do Estado e sua relação
socioespacial, resultando numa de suas mais
histórica com a sociedade civil; sugere
uma reestruturação do próprio modelo destacadas facetas, porém não a única. Ao que
histórico capitalista, etc. (MOREIRA,
parece, Moreira (2002) corrobora nosso
2002, p. 09)
entendimento desse conceito:
Os textos de Ruy Moreira propõem uma
periodização para o mundo e para o Brasil, A reestruturação produtiva refere-se à
nova regra de regulação do trabalho no
segundo os modelos históricos, os modelos de
âmbito das fábricas, que consiste na
acumulação e os modos de desenvolvimento3. troca das normas fordistas pelas normas
toyotistas de organização. A
Analisando o período atual, Moreira pontua
reestruturação industrial remete às
que: inovações tecnológicas da terceira 63
revolução industrial. Desse ponto de
vista, a reestruturação pode ser
A reestruturação [atual] é o processo de
entendida como o conjunto das trocas de
reorganização global da sociedade
meios técnicos que centram os fabricos
capitalista decorrente do esgotamento do
nos processamentos da microeletrônica e
seu ciclo de desenvolvimento industrial
da informática, isto implicando a
e da emergência das necessidades da
implementação das regras de
acumulação financeira que ultrapassa e
flexibilização da produção e do trabalho
substitui o ciclo industrial na história.
da reestruturação produtiva,
(MOREIRA, 2002, p. 13, grifo nosso)
combinando e confundindo assim
reestruturação industrial e
No nosso entender, o conceito de
reestruturação produtiva. A
reestruturação socioespacial pode dar conta dos reestruturação estatal é o conjunto das
reformas neoliberais do Estado, cujo
imbricados processos de mudança
exemplo é a transferência do patrimônio
amalgamados na sociedade que se (re) produz e público para o poder privado, via
privatização das empresas estatais. Por
se materializa no território. Corresponderia,
fim, a reestruturação espacial é o novo
pois, aos momentos de ruptura e reorganização ordenamento territorial que emana disso
tudo. (MOREIRA, 2002, p. 12, grifo
do espaço e da sociedade, que marcam o
nosso)
movimento de evolução de um território. Este é,
Nossa proposta objetiva contribuir para o
precisamente, o fundamento teórico-
entendimento de que a reestruturação deve
metodológico no desenvolvimento desta
superar as noções que a interpretam
pesquisa.
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simplesmente como um esquema evolucionista


no qual os valores antigos aparecem superados No momento em que essa lógica
particular se modifica, seja por evolução
por todas as referências representativas do novo
interna, seja por impacto externo, dá-se
numa superposição mecânica dos fenômenos. É também uma ruptura que acarreta uma
mudança de regime, isto é, uma
necessário compreendê-la como materialização
mudança de nexo ou de relação
de lutas entre o novo e o velho. Parte-se do estrutural e funcional entre os
componentes e uma alteração da
princípio de que cada novo sistema nasce
importância relativa dos fatores.
nas/das entranhas do sistema anterior, o que
Todavia, um estudo que tome as
impõe o imperativo metodológico da
modernizações como critério para a
periodização.
periodização deve atentar para o fato de que a
difusão das modernizações, do centro para a
UM ESFORÇO DE PERIODIZAÇÃO SE IMPÕE
periferia, não se dá de forma homogênea, mas
Como recurso metodológico, Santos (1985)
seletiva e de acordo com as especificidades de
entende que se deve proceder a definição de
cada território. Destarte, há diferentes absorções
períodos a partir do que chama de
de impactos exógenos das inovações, impondo o
modernizações, que, para ele, marcam o ritmo
exercício de identificar os movimentos do novo
de evolução dos sistemas temporais. Segundo o
e do velho. Nisso se assenta a explicação de que
autor, os períodos poderiam até ser chamados
a (re) elaboração dos subespaços se daria como 64
de sistemas de modernização, os quais resultam
num processo químico, uma verdadeira
de uma periodização que depende do objetivo
combinação, da qual resulta sua especificidade.
do investigador, buscando encontrar “secções
Nessa construção, é basilar que o espaço seja
de tempo em que, comandado por uma variável
entendido em sua formação, enquanto
significativa, um conjunto de variáveis mantém
superposição de sistemas temporais (o que
um certo equilíbrio, uma certa forma de
chamamos de palimpsestos), ou seja, como uma
relações” (1985, p. 23).
verdadeira acumulação desigual de tempos,
Nesse exercício metodológico, as
cuja explicação ultrapassa as formas, funções,
periodizações procuram demarcar períodos ou
processos e estruturas atuais.
regimes – “o pedaço de tempo ou duração, no
qual, em torno de dado tipo e forma de
A CRISE COMO CATEGORIA CENTRAL DA
produção, formas materiais e não materiais de
REESTRUTURAÇÃO SOCIOESPACIAL
vida se mantêm mutuamente integradas com o
Segundo trabalho de Moreira (2002), seria a
processo produtivo” (SANTOS, 1985, p. 73). A
crise (que ele também chama de esgotamento)
definição de períodos permite posteriormente
dos modelos que comandaria a marcha das
identificar os momentos de reestruturação
reestruturações. Cada modelo seria presidido
socioespacial, conforme contribuição de Santos
pelos grandes arcos de hegemonia
(idem, p.73):

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caracterizantes de cada período (modelo espaço- lado externo. Para entender a formação da
tempo) e o momento de desequilíbrio dessa sociedade dual brasileira, o autor trabalha as
hegemonia e a tentativa de sua redefinição cinco “leis da dualidade brasileira” (RANGEL,
constituiria a crise e a conseqüente 1981, p, 12), tendo seu nexo explicativo na idéia
reestruturação, recomeçando as fases de crise4, que, segundo ele, se daria em apenas
constitutivas da construção espacial da um dos dois pólos da dualidade (o mais antigo
sociedade – da montagem, do desenvolvimento de cada dualidade), alternadamente o pólo
e do desdobramento (MOREIRA, 2001; 2002). interno e o pólo externo. Julgamos que a nossa
Já Santos (1994) afirma que, como ainda não idéia de palimpsesto subjaz à sua tese, na medida
se completou inteiramente o processo de em que sustenta que o pólo da dualidade não
transformação da sociedade industrial em modificado pelo impacto externo, advindo das
sociedade informacional, estaríamos vivendo, a inovações que partem do centro dinâmico do
um só tempo, um período e uma crise. Isso sistema, guarda sua estrutura e integra-se à nova
revela o entendimento do autor de que crise dualidade, formando sucessivamente diferentes
seria um momento ou processo de transição de uniões dialéticas dos contrários.
um período a outro. Em nossa proposta teórico-metodológica, a
Segundo Schumpeter (1997, caps. 2 e 6), a crise aparece como categoria central, na medida
crise, que ele também chama de ciclo econômico em que se apresenta como momento de
(cf. nota 69 em SCHUMPETER, 1997, p. 74), transição de um período a outro, ou seja, é a
65

seria o mecanismo ou processo pelo qual a vida crise que exige a reestruturação socioespacial. A
econômica se adapta a novas condições. crise, em nosso entendimento, para além das
Retomando os estudos das ondas longas de reflexões que só dão conta das crises
Kondratieff, o autor assinala que as crises são econômicas, é algo que se interpõe no orgânico,
elementos ou, pelo menos, componentes criando uma ruptura, um desarranjo. É
regulares, se não necessários, de um movimento justamente esse desarranjo que exige novos
em forma de onda que alterna períodos de elementos, os quais são incorporados no
prosperidade e depressão, que têm permeado a processo de reestruturação. A crise como
vida econômica desde o início da era capitalista. categoria do método geográfico está sendo
Por sua vez, Rangel (1981), em sua análise entendida à luz da dialética, que pode ser
marxista da sociedade brasileira, cria um grosseiramente resumida no esquema tese-
conceito singular de dualidade, subdividindo o antítese-síntese: a crise se dá no momento da
conceito marxista de relações de produção em contradição entre tese e antítese, ao passo que
relações internas e relações externas. Essas na síntese, tem-se a superação da crise,
relações na “concepção rangeliana” são estabilizando-se e preparando o movimento
denominadas de pólo interno e pólo externo. para entrar novamente em crise. Nesse sentido,
Cada pólo é composto por um lado interno e um pode-se dizer que a crise é o momento em que

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há uma luta de sobrevivência entre o velho e o Sustenta-se que a atual reestruturação


novo. É por isso que essa categoria nos permite socioespacial do Ceará evidencia-se marcada
afirmar que cada sistema produtivo forja as por políticas territoriais, de cunho
condições para o seguinte, a partir da modernizante, racional e tecnificador,
reorganização dos elementos que entraram em privilegiando as metamorfoses do espaço para
crise. adequá-lo às exigências da atração de
Propõe-se que cada período ou sistema investimentos nacionais e internacionais,
temporal seja presidido pela articulação sobretudo privados.
dialética entre dois subsistemas: 1) o dos fatos Segundo Quintiliano (2008), a década de
concretos, da matriz tecnológica, da 1990 apresenta-se como período de grande
materialidade, o subsistema produtivo; e 2) o dos intensidade na implantação de novos objetos
aspectos culturais, da imaterialidade, o espaciais e modernas/modernizantes políticas
subsistema normativo. Como o subsistema territoriais no Ceará. Os investimentos públicos
normativo é mais lento que o produtivo, na e privados ampliaram os contrastes espaciais e
medida em que essas temporalidades sociais, através de planejamentos voltados aos
distanciam-se muito, ocorre a crise, como territórios que facilitam a reprodução do capital.
resultado do descompasso entre os elementos Nessa perspectiva, Região Metropolitana de
da interação. Fortaleza (RMF) e Litoral, Baixo e Médio
Jaguaribe, Vale do Acaraú e municípios de
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O CASO DO TERRITÓRIO DO CEARÁ, Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha


BRASIL (CRAJUBAR) são considerados territórios
Como fragmentos do conjunto mundial, os seletos, pontos luminosos (SANTOS, 2001) ou
países se reorganizam para o período histórico subespaços dinâmicos, pólos receptores de
tecido no último meio século. Apesar do esforço investimentos públicos e privados.
da reengenharia governamental nas décadas de Como hipótese de trabalho, sustentamos que
1960 a 1980, somente nas duas últimas décadas na esteira das ações voltadas à modernização do
o Brasil agregou-se ao concerto universal, diante território cearense, há três eixos estruturantes
da permissão da entrada das inovações, com das políticas territoriais, cuja conexão se dá
fortes abalos na organização socioespacial. pelos serviços modernos: (a) promoção do
Sob essa nova lógica de reorganização dos turismo, (b) atração e interiorização de
territórios, o espaço cearense redefine-se de indústrias e (c) instalação de infra-estruturas
modo significativo, impondo aos pesquisadores voltadas à dinâmica da agricultura empresarial
o esforço de contribuir com a construção teórico- – principalmente a científica. Nisso se assenta a
metodológica do conceito de reestruturação dinâmica dos serviços modernos como partícipe
socioespacial. da reestruturação socioespacial do Ceará.

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A SELETIVIDADE NOS NEXOS DOS do território estudado, onde se forjem


TERRITÓRIOS EM REDE E A CONEXÃO dominadores seculares, cultura e lutas sociais.
PELOS SERVIÇOS MODERNOS: NOTAS Na atual modernidade, essas conceituações se
TEÓRICO-METODOLÓGICAS fortalecem e se revelam mais transparentes com
A construção teórico-metodológica desta os feixes de inovações, indutoras de
pesquisa, tendo como fundamento o conceito de metamorfoses do espaço, captando novas
reestruturação socioespacial, levou-nos ao formas de organização de sistemas técnicos.
entendimento de que para trabalharmos o No bojo das aceleradas transformações por
recorte temático dos serviços modernos em que passam os territórios na atualidade,
subespaços dinâmicos teríamos que trazer a emergem as redes. Com a ampliação e maior
discussão dos conceitos de território, rede e densidade das redes que se formaram a partir
serviços modernos. das crises e da revolução tecnológica que
Tomamos como ponto de partida a análise marcaram a década de 1970, a divisão territorial
do território, conjugado em base de sistema de do trabalho muda de conteúdo, pois se
objetos. Assim, o território analisado assume o delineiam novas e mais complexas geometrias
caráter de território reestruturado, com de poder em todas as escalas. Segundo Santos
múltiplas mudanças sociais e espaciais, à (1996), a chave para o entendimento das redes é
medida que ele agrega técnicas e redes do enxergá-las como realidade social e técnica ao
presente. Em uma primeira aproximação mesmo tempo. Para esse autor, “as redes não
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conceitual, lembramos com Milton Santos (2002, prescindem de fixos – que constituem suas bases
p.10) que: técnicas – mesmo quando esses fixos são pontos.
Assim, as redes são estáveis e, ao mesmo tempo,
O território não é apenas o conjunto dos
sistemas naturais e de sistemas de coisas dinâmicas” (1996, p. 221). É desse modo que as
superpostas. O território tem que ser redes atuam no sentido de unificar e integrar os
entendido como o território usado, não o
território em si. O território usado é o territórios verticalmente, modificando tanto a
chão mais a identidade. A identidade é o divisão social do trabalho, que reparte, e a
sentimento de pertencer àquilo que nos
pertence. O território é o fundamento do cooperação, que unifica.
trabalho, o lugar da residência, das Nesse contexto, o período atual – o dos
trocas materiais e espirituais e do
exercício da vida. territórios reticulares – é marcado pela imbricação
e interpenetração dos setores econômicos,
Essa proposição é ratificada com a
tomando o setor terciário destacada função de
proposição sustentada por Souza (1995, p.78-79)
elo no sistema produtivo.
de que o território deva ser apreendido como
O arcabouço teórico e conceitual para a
“um espaço definido e delimitado por e a partir
explicação da reestruturação socioespacial, a
de relações de poder”. Poder, identidade e
partir da dinâmica dos serviços, encontra-se em
exercício de vida são conceitos destacados que
construção, enfrentando as dificuldades
se agregam para a construção do entendimento
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inerentes aos estudos que buscam explicar o como salienta Santos (1985) o espaço,
presente. Desse modo, numa proposta em “considerado como um mosaico de elementos
construção, por isso submetida ao debate, de diferentes eras, sintetiza, de um lado, a
definimos como serviços modernos, a partir da evolução da sociedade e explica, de outro lado,
abordagem espacial, aqueles capazes de situações que se apresentam na atualidade” (p.
fluidificar e conectar o território aos ditames da 22). Assim, entendemos que a reestruturação
reprodução ampliada do capital na atualidade, socioespacial viabilizada, entre outros fatores,
tornando-o poroso às ações dos atores pela dinâmica dos serviços modernos, deve
hegemônicos representados, sobretudo, por encontrar sua explicação tomando-se a
grandes empresas e pelo Estado (SANTOS, E. e referência da década de 1990 e início do século
LIMA, 2008). Os serviços modernos, em nossa XXI.
pesquisa, são entendidos pelos seus nexos de Trabalhamos com dados do Ministério do
comando. A principal propriedade dos serviços Trabalho e Emprego (Relação Anual de
modernos seria a conectividade, tanto a espacial Informações Sociais-RAIS)5. Como recurso
(interligação dos territórios em múltiplas metodológico, após sucessivas discussões,
escalas) quanto a setorial (imbricação dos chegamos a uma definição preliminar. Com
setores econômicos). base em estudos anteriores (ELIAS, 2005; LIMA,
A chave para definição e explicação dos 2006; QUINTILIANO, 2008) sobre a atual
serviços modernos em nossa proposta é a realidade do Ceará, correlacionamos as
68

tecnologia, que condiciona a capacidade dos atividades econômicas que mais se aproximam
fluxos dos condutos nos diferentes territórios, do objeto em estudo, tomando em referência as
segundo diversas escalas. Consideramos divisões da CNAE, pois essas viabilizam o recorte
serviços modernos a ampla gama de serviços de das atividades mais expressivas e
informação, as funções de gestão, representativas para explicar as condições do
administração, segurança, saúde, educação espaço cearense dos últimos anos. Das divisões
especializada e capacitação tecnológica, da CNAE, foram consideradas treze (TABELA
pesquisa e desenvolvimento (P&D), 1), de maior expressão na vida social e
telecomunicações, telemática, marketing, econômica em diferentes regiões do estado. A
comércio internacional, assessoria e consultoria, partir dessa definição, iniciamos o processo de
turismo, dentre outros. Essa definição guiou o tratamento dos dados, destacando os
processo de escolha das variáveis de análise do subespaços dinâmicos do Ceará: (a) Região
objeto de estudo. Metropolitana de Fortaleza, (b) Baixo e Médio
O recorte temporal adotado abarca as Jaguaribe, (c) Vale do Acaraú e (d) municípios
transformações a partir da década de 1990, sem, de Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha (que se
no entanto, desconsiderar o movimento convencionou chamar CRAJUBAR)6.
histórico próprio da evolução espacial, pois

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EMERGÊNCIA DOS SERVIÇOS Com a ascendência das últimas gestões


MODERNOS NOS SUBESPAÇOS governamentais (1987-2001), o espaço ganha
DINÂMICOS DO CEARÁ: UMA destaque como elemento de poder fundamental
CONTRIBUIÇÃO e as políticas públicas mais significativas
De acordo com Santos (1985), as mostram um caráter territorial. Emerge o
modernizações características de cada sistema imperativo de repensar o desenvolvimento
temporal difundem-se do centro para a regional do Ceará, passando a investir de
periferia, em movimento dialético, por isso acordo com a teoria dos pólos de
contraditório, encontrando respostas diferentes desenvolvimento. Para verificar esta polarização
em cada subespaço, dado o caráter modificador no Ceará, tomemos os mapas a seguir. No
dos impactos segundo as especificidades do primeiro mapa, Botão (2005) espacializa as
território. Assim, delineiam-se diferentes graus grandes obras estatais no território cearense na
de absorção das modernizações, implicando em década de 1990, deixando clara a seletividade
defasagens. Além disso, aparece outro desses investimentos em subespaços dinâmicos.
complicador na análise da difusão das No segundo mapa, Quintiliano (2008) assinala
modernizações: a diferenciação entre países e a os principais pólos de desenvolvimento do
diferenciação dentro dos países. Nisso se estado, permitindo detectar que as próprias vias
assenta a dificuldade de se definir o moderno de circulação mais importantes/estruturantes
em cada subespaço, constituindo-se num na dinamização do território, delineiam uma
69

exercício de método que seja capaz de abarcar as rede que conecta esses quatro pólos.
nuances desses dois tipos de diferenciação. O projeto de modernização do território
Pode-se observar que a difusão de cearense, levado a efeito pela liderança política
modernizações, no movimento de diferenciação neoliberal dos últimos vinte anos, associada aos
interna que engendra, acaba por criar pólos interesses privados, optou claramente por uma
internos, que passam a desempenhar funções integração excludente do território cearense ao
especializadas, culminando numa hierarquia sistema-mundo: integrou-se apenas o “Ceará
funcional. De certa forma, haveria uma estreita moderno” ao mundo globalizado. Desse modo,
relação entre modernização, especialização e os subespaços dinâmicos agregaram serviços
polarização, a primeira condicionando a modernos – além dos terciários banais e
segunda e a segunda a terceira, embora às vezes primitivos7 – que acabaram ampliando as
o movimento possa ser outro. Essa discussão, desigualdades já existentes no território
em nosso entender, também pode ser aplicada a cearense. Esses serviços ligam-se aos ditames da
subespaços dotados de especificidades que lhe economia-mundo, atuando nos territórios
garantem certa unidade e autonomia (relativas). seletos do Ceará de forma a internalizar o novo,
Este seria exatamente o caso do Ceará, nosso caracterizando-se como vetor de entropia que
objeto de análise. traz as verticalidades tanto na indústria

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moderna, informatizada, quanto na agricultura revelam que os serviços modernos tomam vulto
científica, tecnicizada. Nesse sentido, a partir da última década do século XX,
retomamos o pensamento de Santos: atendendo ao quadro de transformações
mundiais, que são exigentes de fluidez e
Afinal, os mecanismos de mercado conexão.
aparecem triunfantes, trazendo o novo e
Na comparação com a Região Nordeste, o
conservando o velho, em função dos
ditames da produção, impondo o Ceará aparece em terceiro lugar quanto ao
externo ao interno nos setores onde isso
número de estabelecimentos de serviços
lhes convém e arrastando o Estado para
a órbita dos interesses privados. A modernos em quase todas as atividades
internalização do externo, a renovação
analisadas, à exceção do número de
do antigo a serviço das forças de
mercado não seria possível sem o apoio, estabelecimentos de serviços de Pesquisa e
ainda que não deliberado, do Estado.
Desenvolvimento, no qual assume a segunda
(SANTOS, 1985, p. 80)
posição e do número de estabelecimentos de
De posse das planilhas com dados para o Serviços de Administração pública, defesa e
Ceará e o Nordeste, a análise quantitativa, seguridade social, no qual assume a quarta
articulada às reflexões qualitativas da realidade posição.
do espaço cearense, conduziu à identificação de Outra variável importante diz respeito ao
grande polarização e concentração das porte dos estabelecimentos de serviços
atividades de serviços modernos nos modernos no Ceará, que pode nos fornecer 72

subespaços dinâmicos assinalados. pistas no tocante às exigências de fluidez em


Segundo informações obtidas pelos dados cada subespaço, caracterizando sua densidade
da RAIS, de 2005, o Ceará contava com 19.665 reticular, e às relações que mantêm com a
estabelecimentos que executavam as mais dinâmica social que se reproduz em cada
diversas atividades ligadas aos serviços8 (o que território. Verificamos no território cearense a
corresponde a 34,8% de todos os tendência de apresentar estabelecimentos de
estabelecimentos), respondendo por um estoque serviços de pequeno porte, mantendo-se até
de 552.992 empregos formais. Deste universo, mesmo nos pólos, embora o número de
10.863 eram estabelecimentos com atividades de estabelecimentos de grande porte cresça
serviços modernos com base na relação de consideravelmente neles. Os serviços modernos
atividades apontadas pela literatura que detêm o maior número de estabelecimentos
especializada, o que corresponde a de grande porte são os de Administração, defesa e
aproximadamente 55,2% do total de seguridade social e os de Serviços prestados
estabelecimentos de serviços. Os principalmente às empresas. Observa-se que esses
estabelecimentos de serviços modernos dois tipos de serviços respondem às
respondiam por 464.530 empregos formais (84% necessidades da reestruturação de um território,
dos empregos em serviços). Esses dados já cuja trama se processa sob a égide de nova

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TABELA 1 - Nº de Estabelecimentos de atividades de serviços modernos nos subespaços dinâmicos e opacos do


Ceará
Fonte: Elaboração dos autores a partir de dados do Ministério do Trabalho e do Emprego (RAIS, 2005)
73
lógica empresarial de gestão/controle. subespaços dinâmicos e não em todo o território
De acordo com os dados espacializados cearense, ainda entre os subespaços dinâmicos,
segundo a polarização verificada no verificam-se diferenciados graus de polarização
desenvolvimento da pesquisa, observa-se que a segundo cada tipo de serviço. Uma análise da
RMF concentra, fortemente, todos os tipos de totalidade, porém, pode apontar que a RMF
estabelecimentos considerados nessa análise, concentra todos os tipos de serviços, atuando
fato que aponta para a expressiva macrocefalia como nó dos principais fluxos conectados pelas
desenvolvida pela capital, Fortaleza, cuja redes do território cearense com os espaços
concentração relativa é ainda maior que a RMF nacional e internacional. Em segundo lugar,
como um todo. destaca-se o CRAJUBAR, principalmente nos
A tabela 1 traz os números para todo o estabelecimentos de Serviços prestados
Ceará, revelando a concentração nos subespaços principalmente às empresas, Educação e Saúde e
dinâmicos, permitindo detectar que os serviços serviços sociais, os quais são “serviços-chave” na
modernos cumprem o papel de conectar dinamização de um território.
espacial e setorialmente o território reticular que
se forjou no Ceará. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Além da seletividade que preside a A contemporaneidade caracteriza-se pelo
instalação dos serviços modernos nos aumento das redes e das conexões, como

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resposta à divisão do trabalho que se amplia e ampliando e aprofundando as desigualdades já


aprofunda, acompanhando as mudanças no existentes. A seletividade, destacado
conteúdo material e social dos territórios. Na componente de diferenciação dos territórios,
esteira dessas transformações, os serviços direcionou a difusão das infra-estruturas
modernos despontam como signo da necessárias à fluidez, fazendo-se acompanhar
conectividade espacial e setorial. Vivenciamos, pelo movimento de implantação de
pois, o período do espaço da conectividade, estabelecimentos de atividades de serviços
espaço reticular, o que está no cerne dos modernos. Desse modo, verificamos que há a
processos de reestruturação socioespacial, cuja superposição de diversas polarizações
explicação exige que se deslindem os nexos (agropólos, pólos industriais, pólos turísticos),
espaciais dos serviços nos subespaços delineando um espaço reticular cada vez mais
dinâmicos. desigual, seletivo e concentrador no Ceará.
No amplo espectro dos espaços que
evidenciam essa realidade, nossas reflexões NOTAS
buscaram dar conta de um subespaço nacional – i Este trabalho apresenta alguns resultados do
o Ceará. Nesse caminho, verificamos que a Projeto de Pesquisa “Reestruturação
última década do século XX marca a inserção do socioespacial do Ceará”, desenvolvido entre
Ceará, antes tido como “espaço neutro”, no 2008 e 2009, tendo apoio do CNPq por meio do
conjunto dos “espaços operacionais” da ordem Edital No. 03/2008 – MCT/CNPq. 74

global, com a reestruturação de seu espaço. Este


conjunto articulado tece as condições históricas ii Geógrafa; Doutoranda em Geografia pela
para a intensificação da polarização e Universidade Federal do Ceará (UFC).
especialização dos territórios no Ceará, com a E-mail: elizeoliver7@yahoo.com.br
constituição de subespaços dinâmicos, os quais
passam a ser conectados – entre si, mas, iii Geógrafo; Doutor em Geografia Humana pela
sobretudo, ao mundo – pelos serviços Universidade de São Paulo (USP); Professor
modernos. Emérito da Universidade Estadual do Ceará
Como conclusão preliminar, contatamos (UECE).
desigual volume de serviços alocados nos pólos E-mail: l.cruzlima@uol.com.br
especializados e nas pequenas cidades do
interior do Ceará face à constituição de um 1 O palimpsesto é um antigo material de escrita,
dissimétrico e hierarquizado espaço. Posto que a principalmente o pergaminho, usado, em razão
modernização do território cearense se de sua escassez ou alto preço, duas ou três
processou com base na seletividade, os espaços vezes, mediante raspagem do texto anterior.
com maior densidade técnica e informacional Desse modo, é um manuscrito sob cujo texto se
transformaram-se significativamente, descobre a escrita ou escritas anteriores. Neste

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texto, toma o sentido de superposição, 5 Os dados da base RAIS trazem informações


preservando as características anteriores ao sobre os estabelecimentos com estoque de
mesmo tempo em que se reveste das novas. emprego formal no Brasil, adotando a
Classificação Nacional de Atividades
2 Sobre a construção geográfica das sociedades, Econômicas – CNAE, em sua versão estruturada
o autor sustenta que “Três fases seqüenciam-se de forma hierarquizada em quatro níveis: 17
nesse processo [de construção geográfica da seções, 59 divisões, 223 grupos, 614 classes.
sociedade]: da montagem, relacionada à prática
da seletividade; do desenvolvimento, 6 Em nossa pesquisa, foram considerados os
relacionada às práticas da tecnificação, seguintes municípios compondo cada pólo: (a)
diversidade, unidade, tensão (localização x RMF: Fortaleza, Caucaia, Maranguape,
distribuição), negatividade (unidade x Pacatuba, Aquiraz, Maracanaú, Eusébio,
diversidade, homogenia x heterogenia, Guaiúba, Itaitinga, Chorozinho, Pacajus,
identidade x diferença), hegemonia, Horizonte, São Gonçalo do Amarante; (b) Baixo
recortamento, escala e reprodutibilidade; e do Jaguaribe: Fortim, Aracati, Icapuí, Itaiçaba,
desdobramento, relacionada às práticas da Palhano, Russas, Jaguaruana, Quixeré, Morada
mobilidade, compressão, urbanização, Nova, Limoeiro do Norte, São João do
fluidificação, hibridismo e sócio-densificação. Jaguaribe, Tabuleiro do Norte, Alto Santo,
Um processo que se reinicia pelo movimento Jaguaribe, Jaguaribara; (c) CRAJUBAR: Crato,
75

permanente de reestruturação.” (MOREIRA, Juazeiro do Norte e Barbalha; e (d) Baixo


2001, p. 15, grifo nosso) Acaraú: Sobral, Meruoca, Alcântaras, Massapê,
Santana do Acaraú, Morrinhos, Marco, Bela
3 Para o Brasil, o autor identifica quatro modelos Cruz e Acaraú. Assim, totalizam 40 municípios.
de acumulação, engendrados como resposta ao
modelo histórico brasileiro, que, por sua vez, 7 Esses conceitos são discutidos em Santos
respondia ao modelo histórico mundial: 1) (1979).
modelo de acumulação agro-mercantil
escravista; 2) modelo de acumulação primitiva 8 Não estamos considerando o comércio como
interna proto-industrial; 3) modelo de serviço, por opção de orientação teórico-
acumulação industrial e 4) modelo de metodológica.
acumulação financeira.
REFERÊNCIAS
4 Entendida como transição entre estágios de BOTÃO, Helissandra Helena Silva. Açude
desenvolvimento dos modos de produção. Público Castanhão (CE) como força reestruturadora:
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Geografia/UECE, 2005.

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