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Apelação Cível nº 70001464676 – 6ª Câmara Cível – Porto Alegre

AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS MATERIAIS E MORAIS. ARROMBAMENTO DE COFRE DE


ALUGUEL EM BANCO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA POR INADIMPLEMENTO
CONTRATUAL.

Prova do conteúdo. Aplicação das regras de experiência. Exame do conjunto probatório. Pedido de
ressarcimento de danos morais acolhido. Provimento do apelo dos autores.

Banco Meridional do Brasil S/A, Annita Soibelman e Isaac Soibelman, apelantes-


-apelados.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos. Acordam, os Desembargadores integrantes da 6ª Câmara


Cível do Tribunal de Justiça do Estado, por maioria, prover o apelo dos autores e negá-lo ao
recurso do réu, vencido o Relator, o que decidem de conformidade e pelos fundamentos
constantes das inclusas notas taquigráficas que integram o presente acórdão. Custas na forma da
lei.

Participaram do julgamento os signatários.

Porto Alegre, 21 de novembro de 2001.

Cacildo de Andrade Xavier, Presidente.

Osvaldo Stefanelo, Relator e vencido.

Carlos Alberto Alvaro de Oliveira, Revisor e Redator para o acórdão.

RELATÓRIO

Des. Osvaldo Stefanello (Relator) – 1. Reporto-me ao relatório das fls. 218/223, proferido no
julgamento levado a efeito pela 13ª Câmara Cível desta Corte de Justiça, que declinou da
competência para uma das Câmaras do 3º ou 5º Grupo Cível, tendo vindo a mim distribuído o
processo.

Está assim escrito: "Proferida sentença (fls. 145/150) de procedência da ação de indenização
ajuizada por Annita Soibelman e Isaac Soibelman contra Banco Meridional do Brasil S/A, apelam
as partes.

"Os autores, em suas razões (fls. 159/166), pleiteiam a majoração da condenação a título de danos
morais, porquanto o valor fixado na sentença – R$ 8.000,00 (oito mil reais) – para a autora, e R$
2.000,00 (dois mil reais) para o autor – não reflete o abalo sofrido, que restou amplamente
comprovado.

"Pedem, assim, que a indenização a tal título seja elevada para 250 (duzentos e cinqüenta)
salários mínimos, para cada um dos recorrentes.

"Aduzem, ainda, que é necessário viabilizar-se a reposição integral do patrimônio, entendendo que
a moeda estrangeira deve ser convertida para o valor correspondente à moeda nacional, ao
câmbio do dia do efetivo pagamento, com acréscimo de juros moratórios a partir da data da
ocorrência do sinistro.
"Já o banco demandado, em seu arrazoado (fls. 170/182), sustenta que a magistrada singular, sem
que houvesse requerimento para tanto, inverteu o ônus da prova, presumindo que o recorrente
agiu com negligência na guarda dos bens e valores mantidos no cofre de aluguel da autora.

"Aduz que inexistem provas da existência dos bens e de sua propriedade, ou mesmo de que estes
se encontravam no cofre à data do sinistro, não sendo suficiente a prova testemunhal colhida
dentre familiares e amigos íntimos dos autores, salientando que a locatária era a primeira
demandante, sendo ainda menor a presunção de que os bens de seu marido se encontrassem ali
depositados.

"Observa que a alegação de que a moeda estrangeira era originada da venda de imóvel não restou
comprovada, e que as sucessivas aberturas do cofre permitem concluir que os valores poderiam
ter sido retirados e não somente depositados nessas oportunidades.

"Menciona que o assalto ocorreu durante as festas de final de ano, quando aumentam os gastos
com os eventos típicos dessa época, e que as jóias, se realmente ali se encontravam guardadas,
poderiam ter sido retiradas para serem usadas em acontecimentos sociais, corroborando o que as
próprias testemunhas da autora afirmaram ao declarar que costumeiramente viram--na fazer uso
das mesmas em festas.

"Entende, assim, que não houve a produção de prova inequívoca da existência material dos bens
no local, mais precisamente à data da violação, e nem tampouco de sua propriedade.

"Refere, ainda, que a relação contratual estabelecida entre as partes consubstancia-se em contrato
de locação de cofre, com sigilo qualificado, ou seja, o locador não tem conhecimento, em momento
algum, do conteúdo ali guardado, devendo a prova de eventual negligência do apelante ser
comprovada pelos requeridos, e jamais presumida por suposição do julgador.

"Assevera que a ocorrência do assalto representa um caso fortuito ou força maior, onde foram
utilizadas refinadas técnicas e das quais sequer restaram vestígios, sendo inequívocas as
excludentes da responsabilidade do banco.

"Em decorrência, para que a hipótese do alegado dano moral fosse admitida, seria necessária a
comprovação de que os autores experimentaram a efetiva perda material motivada pela conduta
do banco, e que essa perda causou-lhes as alegadas repercussões negativas em seus foros
íntimos.

"Com relação à verba honorária, entende que o magistrado singular utilizou dois pesos e duas
medidas quando de sua fixação, pois em relação aos ora recorrentes determinou que o percentual
de 15% (quinze por cento) fosse calculado sobre a condenação – que representa exatamente seu
decaimento –, enquanto que, para a devida pelos autores, ordenou que o cálculo se desse apenas
sobre a diferença havida entre o valor dado à causa e a condenação – que é muito aquém do
decaimento desses últimos.

"Assim, somados todos os valores, a condenação do banco totaliza R$ 73.480,00 (setenta e três
mil e quatrocentos e oitenta reais), o que significa R$ 55.000,00 (cinqüenta e cinco mil reais) a
menos do que foi postulado. Se aquela quantia foi utilizada como parâmetro para o cálculo dos
honorários dos demandantes, esta última deve ser usada para a estipulação dos honorários do ora
recorrente. Efetuados os respectivos preparos e oferecidas contra-razões [....]".

Vêm os autos conclusos. É o relatório.

VOTO
Des. Osvaldo Stefanello (Relator) – 2. Fato incontroverso é o de que, em 31-12-95, ladrões
invadiram o cofre forte do Banco Meridional, oportunidade em que arrombaram várias caixas,
subtraindo objetos de valor de seus locatários, dentre os quais a autora da presente ação. Fato que
levou a que diversos locatários aforassem ações de indenização contra o Banco, objetivando o
ressarcimento de prejuízos que afirmam ter sofrido.

Ações que tiveram desfechos diversos, com decisões que conflitam, como demonstrado se
encontra nos autos. Dentre tantas que ascenderam ao Tribunal, de um julgamento participei como
Vogal. Refiro-me à Apelação nº 597195486, julgada em 25-03-98, tendo como Relator o eminente
Des. Antonio Janyr Dall’Agnol Junior, e como partes Sérgio Leal Martinez e sua mulher no pólo
ativo da demanda, e o ora réu no seu pólo passivo.

Julgado que, no que concerne à responsabilidade do Banco, assim restou sumariado: "É
responsável o banco locador pela violência perpetrada contra o cofre locado, perante os locatários,
incumbindo a esses a prova do conteúdo, relativizada pelas circunstâncias indiciárias e pela
ausência de limitação contratual".

A respeito dessa responsabilidade, acentua o Relator no corpo do acórdão: "Mas, identicamente ao


que ocorre com o seguro, relativiza-se a rigidez do princípio indenizatório, pois ‘exigir uma prova
acabada e terminante de seu acontecimento implica converter em quase impossível para o
segurado (aqui, para o locatário do cofre) a percepção da indenização, com o qual se tornaria
ilusório através desta instituição’ (refere-se o jurista ao seguro, mas o mesmo vale para contrato
em que o dever de vigilância é fundamental).

"Daí, o passo que dá o ilustre especialista argentino no sentido da suficiência da verossimilhança,


‘de tal maneira que se considera provado um fato quando sua existência é suficientemente
provável para autorizar laborar-se como se existisse realmente’ ". (Rubéns S. Stiglitz, Derecho de
Seguros, 1997, II, p. 393)

Direcionamento decisório com o qual concordei, inclusive com o entendimento de que essa
espécie de contrato estaria sujeito ao Código do Consumidor, divergindo, nesse ponto, do Relator.

Vem-me agora a oportunidade de reexaminar a questão, aprofundando o conhecimento da matéria,


o que não pudera fazer no julgado precedente, eis que dele, o disse, participara apenas como
Vogal.

E desse reexame cheguei a duas conclusões básicas: a primeira, a de que, pela teoria do risco
profissional, e pela cláusula de segurança que é inerente a essa espécie de contratos, é, o Banco
que aluga cofres a terceiros, responsável por eventuais danos venha a sofrer o locatário nos bens
que aí guarda. A segunda, que incumbe ao locatário, já que inexiste presunção a seu favor, em
sofrendo danos, fazer prova do prejuízo efetivamente sofrido.

A respeito do assunto, Cavalieri – Programa de Responsabilidade Civil, Responsabilidade das


Instituições Bancárias – desenvolve o seguinte raciocínio, ao tratar da responsabilidade do Banco
pelos bens guardados nos cofres e a cláusula de segurança que é característica a esse contrato:
"Controverte-se a respeito da responsabilidade do banco quanto aos bens e valores subtraídos dos
cofres alugados aos clientes. A dificuldade, todavia, desaparece uma vez definida, como atrás se
fez, a natureza jurídica desse contrato.

"Com efeito, se o que as pessoas buscam é proteção e segurança excepcionais dos valores
depositados nos cofres, proteção e segurança que esperam sejam correspondidas pelo serviço
prestado então é de concluir que há nesse contrato uma cláusula de segurança, que constitui a sua
essência, o seu objeto específico. O banco, ao celebrá-lo, atua como profissional da segurança,
isto é, vende segurança, assumindo, portanto, uma obrigação de resultado, de sorte a não poder
ser excluída senão em face do caso fortuito ou da força maior. De outro modo, estaria
desconfigurado o próprio contrato em sua finalidade precípua. Daí a ineficácia até mesmo de
cláusula de não indenizar eventualmente inserta no contrato, da qual falaremos em capítulo
próprio". (p. 304)

Logo a seguir, citando Camargo Mancuso – RT nº 616/29 – acentua o doutrinador: "Ao conceder o
cofre em locação, o banco assume, quer queira ou não, o risco profissional, como todo profissional,
ele responde pela falha, omissão ou mau funcionamento do serviço que se propôs; caso contrário,
o próprio negócio em si ficaria juridicamente desfigurado em seu sentido [....] é justamente essa
álea que o cliente intenta afastar quando loca o cofre".

De tudo se resume a responsabilidade do banco no fato de que, em ocorrendo a ilícita subtração


dos objetos no cofre guardados pelo locatário, ao seu cliente não cabe fazer prova da culpa do
estabelecimento, eis que se está a tratar de hipótese de responsabilidade objetiva decorrente do
risco profissional. Responsabilidade, portanto, da qual só se poderá livrar o banco, em fazendo
prova ter o dano ocorrido por motivo de força maior ou em decorrência de caso fortuito.

Quanto à prova do dano, volto à lição de Cavalieri, que põe a questão nos seguintes termos:
"Caberá ao cliente provar o efetivo prejuízo sofrido, já que, quanto a este requisito, não há
nenhuma presunção em favor de qualquer das partes. Essa prova nem sempre é de fácil produção,
seja em razão do caráter sigiloso da utilização do cofre, seja por não ter o banco nenhuma relação
ou controle dos bens nele depositados. A declaração unilateral do cliente, por si só, não tem
eficácia de prova, devendo ser recebida com reserva a prova testemunhal". (ob. cit., p. 305)

E assim há que ser porque se está a tratar de contrato que contém característica própria, qual seja
a do sigilo qualificado. Ou seja, não tem o Banco que ao cofre ou caixa aluga acesso aos bens ou
valores que venham a ser aí guardados.

Lembro, a respeito, outro julgado deste Tribunal. Refiro-me à Apelação nº 596239079, da 3ª


Câmara Cível, tendo como Relator o eminente Des. Tael João Selistre, assim ementado: "Ação de
indenização. Cofre de aluguel violado por ocasião de assalto. Subtração de bens e valores que
estavam guardados. Indenização por danos material e moral. Improcedência da ação.

"No contrato de aluguel de cofre, caracterizado pelo sigilo qualificado, o Banco não responde pelos
objetos guardados, dos quais não é depositário e nem deles tem conhecimento, estando sua
responsabilidade limitada à guarda e vigilância do cofre".

Realça, o Relator, no corpo do acórdão: "Mesmo se considerando que essa locação envolve
particular prestação e segurança, não se pode presumir a responsabilidade pelo conteúdo do cofre,
do qual o banco não tem ciência, sob pena de se aceitar presunção de culpa, o que é
inadmissível".

Realmente, a locação de um cofre, ou de uma caixa em estabelecimento bancário não se confunde


com a figura jurídica do depósito, já que o locatário é resguardado pelo sigilo do que no cofre
guarda, não tendo, o locador, qualquer ingerência ou controle no seu conteúdo. Já o depósito
caracteriza-se exatamente pela guarda de coisa certa, efetivamente recebida pelo depositário, que,
pelo contrato, passa a ser responsável por sua guarda e conservação – arts. 1.265 e 1.266 do CC.

Trata-se, na realidade, o contrato de que se está a tratar, de uma espécie de contrato de risco,
tanto para o locador, quanto para o locatário. Para o primeiro porque, como visto, ocorrido o ilícito,
é responsável pela reparação pela responsabilidade objetiva que ao pacto caracteriza. E, para o
locatário, eis que, ocorrido o ilícito, lhe incumbe fazer a prova dos danos que sofreu e sua
extensão, já que nenhuma presunção tem a seu favor no que concerne ao conteúdo do que no
cofre guarda.
Estabelecidas e fixadas essas premissas, passo ao exame do caso concreto, no qual os autores
reclamam de jóias não recuperadas, determinado valor em dólares, bens e valores que no cofre
alugado estariam quando do arrombamento. Como prova, apresentam o documento das fls. 16/27,
relação por eles entregue ao Banco-réu após o evento criminoso, além de contrato e escritura de
compra e venda de imóvel, da qual teriam tirado recursos para a aquisição e parte dos bens
subtraídos, especificamente dos dólares americanos.

Vênia e respeito, embora de todo respeitável a palavra dos autores, é pouco para o convencimento
de que os bens por eles arrolados estavam no cofre quando de seu arrombamento, assim como do
montante do prejuízo que afirmam ter sofrido. Conteúdo probatório para apenas sobre ele assentar
com a firmeza que se exige uma opção de responsabilidade do réu pela pretendida, pelos autores,
indenização, insuficiente.

Conteúdo probatório não melhorado pela prova testemunhal – testemunhas, todas, de estreita
relação com os autores – que de concreto e objetivo nada esclarece, a não ser que a autora
costumava exibir-se com jóias nas reuniões sociais das quais participava. O que é pouco para
provar fatos de tal magnitude como os nestes autos colocados.

Não discordo, o deixo bem consignado, com a colocação feita pelo Des. Dall’Agnol no julgado
mencionado, segundo o qual na hipótese como a nestes autos posta não se há de exigir uma
rigidez probatória mais acabada e terminante. No entanto, de elementos probatórios, indiciários ou
circunstanciais que sejam, e que convençam da veracidade, devem ser exigidos.

A não ser assim, estar-se-ia pura e simplesmente invertendo a ordem natural das coisas, impondo
ao banco que aos cofres aluga o dever de fazer prova negativa do que afirmadamente no cofre se
continha quando do ilícito, o que seria de todo fora da razoabilidade, já que, ante a natureza do
contrato e do sigilo qualificado que o caracteriza, conhecimento não tem do que no cofre é pelo
locatário guardado. E não se lhe pode impor e exigir a realização de uma prova impossível, pena
de manifesto cerceamento do direito ao contraditório e ampla defesa.

Por certo, tão difícil não seria aos autores provar a propriedade dos bens e valores que afirmam ter
perdido. Bens – jóias – de estimável valor liberatório, assim como os dólares. Uma simples
declaração de renda poderia resolver a questão a seu favor. Bastava tê-los declarado à Receita
Federal, através da declaração de renda. Documento que seria de alta relevância para essa prova.
Declaração de renda que seria uma prova indiciária de inafastável credibilidade e que poderia, só
por si, levar à convicção não só a existência dos bens e valores, mas o respectivo quantum
monetário.

Desejo deixar bem claro que não estou pretendendo discutir qualquer questão de ordem fiscal.
Mas apenas para efeito de prova da propriedade dos bens que estariam no cofre guardados
quando do arrombamento e pelos autores, segundo eles, não recuperados.

Consigno ser da experiência comum que a declaração de renda é documento idôneo e de


reconhecida credibilidade. E que, por certo, em hipótese como a nestes autos posta, seria
considerado.

Estou, pois, o percebem Vossas Excelências, eminentes Colegas de Câmara, direcionando meu
voto no sentido de prover, quanto aos danos materiais, o apelo do réu. E assim o faço,
sintetizando, por não ter encontrado nos autos prova suficientemente idônea de que os bens e
valores, que afirmam lhe terem sido subtraídos, compunham o conteúdo do cofre locado, e, como
conseqüência, para demonstrar que os autores sofreram os prejuízos que afirmam ter suportado
com o referido ilícito.
Reparação que se sustentaria no tripé ilícito, relação causal e dano. Ausente, ou não provado, um
dos elementos, de reparação não se pode cogitar. Quanto aos danos morais.

Por certo, o episódio do arrombamento do cofre aos autores trouxe dissabores ou mesmo abalos
psicológicos. No entanto, cabe ponderar que à instituição financeira nenhum ilícito pode ser
imputado. A afirmada quebra do dever de vigilância não leva, só por si, a impor ao Banco o dever
de reparar danos morais. Danos morais que, por certo, não decorrem de todo e qualquer dissabor,
incômodo ou desengano.

E, ao tomar conhecimento do ilícito, o Banco tomou as providências adequadas, inclusive na


identificação das jóias encontradas e posterior devolução a seus proprietários, mesmo aos autores.
E o fez com a segurança e diligência que se exigia, ante um grande número de pessoas
prejudicadas.

Como bem o disse o Des. Dall’Agnol no referido julgado, não há que se falar em
responsabilização, por dano moral, quando o desassossego decorre da ação ilícita de outrem, para
a qual não concorreu conduta do contratante. Enunciado pertinente e aplicável ao caso sob exame
e julgamento.

De tudo sintetizando, pois: Não conseguiram os autores demonstrar sua razão jurídica ao
pretenderem reparação de prejuízos que afirmam ter sofrido por conduta da ré. Impõe-se, assim, o
provimento do apelo, com a conseqüente improcedência da ação.

3. Isto posto, dando por prejudicado o apelo dos autores, provejo o do réu. Julgo improcedente a
ação, condenando os autores ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios,
estes, observado o disposto no art. 20, § 3º, do CPC, arbitrados em 10% sobre o valor atualizado
da causa. É como estou a, devida vênia, votar, eminentes Colegas de Câmara.

Des. Carlos Alberto Alvaro de Oliveira (Revisor) – Senhor Presidente. Peço licença para divergir
do eminente Relator.

Esta Câmara já teve ocasião de apreciar caso semelhante ao dos autos, quando do julgamento da
AC nº 597195486, em 25-03-98, relatada pelo eminente Des. Antonio Janyr Dall’Agnol Junior,
oportunidade em que foi reconhecida a responsabilidade do banco por violação do cofre de
aluguel.

Como bem ressalta Sergio Cavalieri Filho (Programa de Responsabilidade Civil, 2ª ed., 4ª tiragem,
São Paulo, Malheiros, 2001, p. 304), "Ocorrida a ilícita subtração dos objetos que estavam
depositados no cofre, quer em razão de furto com arrombamento, quer em razão de assalto, não
tem o cliente que fazer qualquer prova da culpa do banco, porquanto o caso é de responsabilidade
objetiva. Há uma presunção de responsabilidade (e não simplesmente de culpa) pelo
inadimplemento da principal obrigação do contrato – a cláusula de segurança –, presunção, essa,
que só poderá ser elidida, conforme já ressaltado, mediante prova do caso fortuito ou da força
maior. Tenha--se em conta que a própria ocorrência do furto ou do assalto, por si só, evidencia ter
falhado o esquema de segurança e vigilância prestado profissionalmente".

Na espécie, nenhuma prova realizou o banco de força maior ou caso fortuito. Aliás, ao que deduzi
do voto do Des. Stefanello, Sua Excelência também se põe de acordo com a responsabilidade do
demandado. O problema se situaria no campo da prova do dano, não vislumbrando o eminente
Relator elementos seguros de convicção a respeito.

Penso, contudo, que os autos demonstram de forma convincente as perdas sofridas pelos autores,
ainda mais que em casos como o dos autos não há como exigir prova plena e acabada do prejuízo.
Como bem ressaltou o Des. Dall’Agnol Junior no aresto mencionado, com menção a ensinamento
de Rubens S. Stiglitz, Derecho de Seguros, 1997, II, p. 393, "identicamente ao que ocorre com o
seguro, relativiza-se a rigidez do princípio indenizatório, pois ‘exigir uma prova acabada e
terminativa de seu acontecimento implica converter em quase impossível para o segurado (aqui,
para o locatário do cofre) a percepção da indenização, com o qual se tornaria ilusório através desta
instituição’ (refere-se o jurista ao seguro, mas o mesmo vale para contrato em que o dever de
vigilância é fundamental). Daí, o passo que dá o ilustre especialista argentino no sentido da
suficiência da verossimilhança, de tal maneira que se considera provado um fato quando sua
existência é suficientemente provável para autorizar laborar-se como se existisse realmente".

Para se compreender o verdadeiro alcance dessa lição, prossigo, não se pode perder de vista o
exato conceito de verossimilhança. Não se cuida, bem entendido, de probabilidade, em que,
embora não se constate a existência de prova plena, verifica-se pelo menos elementos probatórios
que possam tornar crível o fato.

Em obra notável, merecedora de profunda meditação, Michele Taruffo (La Prova dei Fatti Giuridici,
Milano, Giuffrè, 1992, pp. 475-476) tece a respeito considerações altamente significativas. Começa
ressaltando que: "A confusão assaz difundida entre probabilidade e verossimilhança se pode
articular numa dupla distorção no uso dos dois conceitos, decorrente da falta de clareza na
definição de ambos. A primeira distorção diz respeito ao conceito de verossimilhança, e se verifica
quando essa é entendida como sinônimo de probabilidade, ou seja, como situação na qual um fato
não é provado de modo pleno, mas existem elementos para considerá-lo crível. Deveria ser claro,
por outro lado, que quando se fala da eventualidade de que um fato seja provável, ou mais
provável do que outro, não se faz referência à verossimilhança, mas à prova daquele fato, ou seja,
à presença de elementos cognoscitivos que confirmam a hipótese que lhe é relativa. Vice-versa,
como melhor se verá logo a seguir, um fato é verossímil não quando existam elementos de prova
para comprovar sua afirmação, mas quando essa aparece conforme o id quod plerumque accidit. A
segunda distinção concerne ao conceito de probabilidade, e se verifica quando se distingue entre
prova e probabilidade do fato, definindo-se provável o fato que não ficou provado, mas que
aparece de qualquer modo crível".

Mais adiante (ob. cit., p. 477), assevera que no seu uso correto, sem interferências indébitas de
outros conceitos, a expressão "verossimilhança" tem um significado bastante claro, equivalendo
substancialmente ao de "normalidade", na medida em que se considera verossímil o que
corresponde ao ordinário andamento das coisas, ou seja ao id quod plerumque accidit, ou às
chamadas máximas de experiência.

A observação mostra-se importante, porquanto o direito brasileiro admite, de modo expresso, que
na falta de normas jurídicas particulares, aplique o Juiz as regras de experiência comum
subministradas pela observação do que ordinariamente acontece (art. 335, 1ª parte, do CPC).

Também entre nós a doutrina tem admitido a verossimilhança e a aplicação das regras de
experiência comum na apreciação da prova relativa ao conteúdo do cofre violado. Assim, Rodolfo
de Camargo Mancuso (Responsabilidade Civil do Banco em Caso de Subtração Fraudulenta do
Conteúdo do Cofre Locado a Particular, RT nº 616/24) aplaude magnífica decisão monocrática, que
consagrou o princípio da ampla liberdade probatória e da presunção de boa-fé nessa matéria, com
aplicação do art. 335 do CPC, ponderando que "da leitura do decisório exsurge a convicção de que
o julgador pautou-se pelo quod plerumque fit, elegendo o primado da justiça no caso concreto,
mais do que a preocupação com o só tecnicismo jurídico, o que de resto se afina com o alerta do
summum jus, summa injuria". E adiante preconiza que até que venha a ser instituído seguro para o
conteúdo do cofre, a prova do dano há de ser admitida com certa liberalidade, necessária para se
evitarem injustiças.

Segundo o festejado autor (ob. cit., p. 32), "fará o autor prova, através do inquérito policial, de
testemunhas, de depoimento pessoal, de documentos (especialmente a declaração de bens, no
imposto de renda), dos fatos seguintes: que por sua posição social, econômica e profissional era
possuidor de certos valores mobiliários em qualidade e quantidade compatíveis com seu status;
que não locava o cofre para mantê-lo vazio ou para guardar objetos de pouca valia; que, v. g., em
virtude de constantes viagens ao exterior, via-se na contingência de manter uma reserva de
dólares em local que pressupunha seguro; que, v. g., no tocante às jóias, pessoas probas e
idôneas que delas tinham conhecimento podem descrevê-Ias e estimar seu valor, etc.". E conclui:
"É claro que, além da persuasão que exsurja do conjunto probatório, será de enorme valia a
pessoa mesma do autor da ação, isto é, sua honorabilidade pessoal, seu prestígio social que
induzam no julgador a convicção de se tratar de cidadão que presumivelmente não viria a juízo
para falsear a verdade, ou para se aventurar em busca de lucro fácil".

Analisando o conjunto probatório, constato o prestígio social dos autores, pessoas acreditadas na
comunidade, sendo o autor empresário conhecido, um dos donos da sociedade Estaqueamento
Gaúcho Ltda., empresa tradicional da praça, que teve longa existência, contando ambos os
demandantes já mais de 60 anos de idade, ela atualmente com 64 e ele com 67 anos de idade.

As regras de experiência comum induzem à conclusão de que os demandantes não se


aventurariam numa demanda judicial estimulados apenas pela possibilidade de lucro fácil,
falseando a verdade para atingir esse lamentável objetivo.

O cofre, como se verifica da cópia do registro de abertura da fl. 13, fornecida pelo Banco, era
constantemente utilizado pelo casal. As jóias nele guardadas foram minuciosamente descritas, com
desenho explicativo (fls. 16-21), e algumas encontradas e devolvidas aos autores (fl. 34), o que só
demonstra a lisura destes e reforça a credibilidade em suas declarações. Pela lógica do razoável,
se nessa parte a relação é verdadeira, não há por que duvidar de que não o seja no restante,
evidenciada como ficou a boa-fé dos autores.

Acresce notar que, em 27-05-94, os autores, juntamente com familiares, prometeram vender
imóvel de elevado valor a Jaime Sirotsky e sua mulher (fls. 35-40). Posteriormente, foi firmada a
escritura pública de compra e venda (fl. 41). Observo que Jaime Sirotsky, como é público e notório,
é grande empresário e um dos controladores do capital social do grupo RBS.

Nada mais razoável, portanto, que o valor recebido fosse convertido em dólares e depositado no
cofre arrombado, ainda mais na época em que ainda não se havia estabilizado o valor da moeda
brasileira. Aliás, como bem ponderou a decisão reproduzida por Rodolfo Mancuso (ob. cit., p. 32),
"se o usuário se serve desse tipo de segurança é justamente para manter o sigilo sobre os valores
ali guardados. Se o autor possuía dólares no local, é evidente que não teria registro dos mesmos
em outro local, nem mesmo documentos de imposto de renda [....]"

Entendo, outrossim, que o fato de a maioria das testemunhas ser amiga íntima do casal, uma até
sendo irmão do autor, não lhe retira a credibilidade, porquanto pelas regras de experiência só os
integrantes do círculo íntimo é que têm acesso a esse tipo de informação, e o Juiz, quando
estritamente necessário, atribuirá ao depoimento dessas pessoas o valor que possam merecer (art.
405, § 4º, do CPC). Outrossim, a credibilidade das testemunhas dos autores decorre ainda da
idade, condição econômica, posição social e profissional de que desfrutam.

Assim, Noemia Kosnitzer Burd, odontóloga, com 70 anos de idade, amiga do casal, que conhece
os autores há mais de 30 anos, informa que: "Chegou a ver as jóias que os autores possuíam, as
quais a autora recebeu de herança de sua mãe. Ela pretendia deixar as jóias para os filhos. Era
uma quantidade bem grande de jóias, pulseiras, brincos, anéis, broches, pérolas. As jóias eram de
ouro e brilhantes. Sabe que a autora usava a jóia em um dia e já colocava no cofre do Banco. Acha
que nem um terço das jóias da autora foram devolvidas pelo Banco. As jóias possuíam um valor
muito grande, além do que eram presentes da mãe da autora. Sabe também que os autores
possuíam moedas de ouro antigas, e já tinham a destinação, pois seriam dadas aos filhos".
Declara, ainda, que "os autores possuíam dólares no Banco porque às vésperas do ocorrido
tinham vendido um imóvel". Diz mais: "Após o conhecimento do ocorrido, a autora ficou em
depressão profunda em razão do valor sentimental das jóias". (fl. 123)

Suzana Starosta, professora, com 56 anos de idade, também confirma a existência das jóias, que
eram de família, e sua guarda no Banco. Também constatou ter a autora ficado bastante deprimida
com o acontecimento. Nada sabe a respeito dos dólares (fl. 124).

Jayme Soibelman, irmão do autor, com 69 anos de idade, confirma que a mãe da autora lhe deixou
jóias. Algumas vezes, acompanhou o autor para guardar dólares no cofre do Banco. A autora ficou
muito sentida com o ocorrido, e o autor, apavorado (fl. 125).

A costureira da autora, Maria Paes Spomberg, que conhece o casal há 12 anos, também confirma
a tristeza, abatimento e depressão de Annita com o acontecido, tendo esta mencionado serem de
família algumas das jóias perdidas, possuindo valor sentimental (fl. 126). A mesma informação é
prestada por Beatriz Anzanello Stifelman, estudante com 45 anos de idade (fl. 127).

Entendo, assim, como o julgador de 1º grau e de conformidade com as coordenadas acima


estabelecidas, que esta prova se mostra suficiente para formar um juízo de verossimilhança a
respeito das alegações formuladas na inicial, propiciando o acolhimento dos pedidos ali alinhados.

Quanto ao dano moral, não há dúvida da sua existência. Como bem ressaltou o eminente Des.
Vasco Della Giustina, no julgamento de caso semelhante (AC nº 597197706): "O abalo sofrido por
quem tinha guardadas economias em caixa forte de um banco, onde se respira a sensação de
segurança, proporcionada pela propaganda enganosa e pela natureza da atividade bancária,
decantada, tradicionalmente, como sólida e confiável, e, não obstante, ver, de uma hora para outra,
ruírem as suas economias, amargurando muitas noites de insônia pela frustração, sem ter a quem
recorrer [....] considerando ademais a idade dos autores – mais de 60 anos – indubitavelmente é de
se concluir que tiveram um abalo moral, traduzido em sofrimento, de proporções gigantescas".

No caso, o desassossego, embora tivesse origem na ação ilícita de outrem, deu-se em razão de
conduta culposa do Banco, que não adotou as providências necessárias para a segurança
prometida no contrato.

Acresce notar, na espécie em julgamento, tratar-se de jóias de família, de elevado valor


sentimental.

Assim sendo, tendo ainda em vista a relativa gravidade do dano, a condição pessoal dos autores e
as condições do demandado, entidade financeira de grande porte, estou em prover a apelação
para fixar a condenação a esse título em R$ 15.000,00, para cada um dos autores, corrigíveis a
partir desta data pelo IGP-M, com juros moratórios de 6% ao ano, a contar da citação.

Outrossim, para que seja completa a indenização, também dou provimento à apelação dos
autores, para determinar que a conversão em moeda corrente nacional da moeda estrangeira seja
realizada pela taxa oficial do dólar americano do dia do pagamento.

Entendo, outrossim, não merecer acolhimento a pretensão recursal do Banco no sentido de ver
reformulada a forma de distribuição dos honorários advocatícios sucumbenciais.

É que esta Câmara tem entendido que o pedido de ressarcimento de danos morais, mesmo
quando formulado em quantia certa, exibe caráter meramente estimativo, pois o arbitramento é
sempre do Juiz, nos termos do art. 1.533 do CC. Assim, não há por que falar em decaimento por
parte dos autores, ainda mais que seus pedidos foram todos acolhidos. Todavia, como não houve
recurso da outra parte a respeito, e em obediência à proibição de reformatio in pejus, mantenho o
decidido a respeito no julgado de 1º grau.
Em suma, rogando vênia ao eminente Relator, estou dando provimento ao recurso dos autores e
negando-o ao do demandado.

Des. Cacildo de Andrade Xavier (Presidente) – Pedindo vênia ao eminente Des. Stefanello,
acompanho a manifestação do Des. Alvaro de Oliveira, não só quanto aos prolegômenos relativos
à técnica de exame da prova, como também do exame da prova propriamente dita. Convenci-me
de que há elementos suficientes e claros para a procedência da ação. Não só pelos depoimentos
testemunhais, como foi dito que normalmente ocorre, chega-se à conclusão de que, de fato, os
autores sofreram os prejuízos, tinham os dólares e as jóias no cofre quando desse infeliz
acontecimento.

Também no que tange à existência do dano moral, pelos depoimentos que foram lidos e até pelo
que normalmente acontece em casos deste tipo, é evidente que se configura o dever de indenizar
esse título.

Quanto aos valores, entendo que o eminente Des. Alvaro os fixou de forma correta.

Eu só ressaltaria que todas as testemunhas nominadas são pessoas conhecidas na nossa


sociedade, e que esse casal-autor também é conhecido. Foi destacado pelo eminente Des. Alvaro
que o Sr. Isaac Soibelman foi titular de uma empresa de porte, e que, portanto, esses valores, tudo
está a demonstrar que ele os possuía, e não iria propor, evidentemente, uma demanda desse tipo
movido por desejo de lesar o Banco.

De tal sorte que acompanho o Des. Alvaro, pedindo vênia ao Des. Stefanello

Embargos Infringentes nº 70004911756 – 3º Grupo de Câmaras Cíveis – Porto Alegre

EMBARGOS INFRINGENTES. AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS MATERIAIS E MORAIS.


ARROMBAMENTO DE COFRE DE ALUGUEL EM BANCO.

O usuário de cofre de aluguel utiliza este meio ao efeito de manter em sigilo a guarda de objetos e
valores que, por força do contrato, não está obrigado a revelar. Conjunto probatório e regras da
experiência comum que levam a concluir acerca da veracidade das alegações dos autores quanto
aos danos experimentados em decorrência do arrombamento do cofre. Caso concreto em que o
Banco não logrou demonstrar caso fortuito ou força maior e tem responsabilidade objetiva pelo
inadimplemento contratual. Embargos desacolhidos.

Banco Meridional do Brasil S/A, embargante – Annita Soibelman e Isaac Soibelman, embargados.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos. Acordam, em 3º Grupo de Câmaras Cíveis do Tribunal de


Justiça do Estado, à unanimidade, desacolher os embargos infringentes, de conformidade e pelos
fundamentos constantes das notas taquigráficas anexas, integrantes do presente acórdão. Custas
na forma da lei.

Participaram do julgamento, além da signatária, os Exmos. Srs. Des. Cacildo de Andrade Xavier
(Presidente), Clarindo Favretto, João Pedro Freire, Antonio Guilherme Tanger Jardim, Leo Lima,
Marco Aurélio dos Santos Caminha e Carlos Alberto Alvaro de Oliveira.

Porto Alegre, 1º de novembro de 2002.

Ana Maria Nedel Scalzilli, Relatora.


RELATÓRIO

Desª Ana Maria Nedel Scalzilli (Relatora) – O Banco Meridional S/A interpõe embargos
infringentes ao acórdão das fls. 230/251, que, por maioria, proveu o apelo dos autores e negou
provimento ao recurso do Banco, nos autos da ação de indenização que lhes move Annita
Soibelman e Isaac Soibelman. Postula o embargante a unificação do julgado de conformidade com
o voto vencido, de lavra do eminente Des. Osvaldo Stefanello, que acolheu a tese da instituição
bancária, julgando improcedente a demanda indenizatória, sob o fundamento de que os autores
não provaram de maneira cabal e suficiente que os bens por eles arrolados se encontravam no
cofre quando do seu arrombamento, nem o montante do prejuízo que alegam ter suportado.
Pretende, também, prevaleça o entendimento do voto minoritário, que negou provimento ao pedido
de indenização por danos morais, sob o argumento de que a "quebra do dever de vigilância não
leva, só por si, a impor ao Banco o dever de reparar danos morais". Menciona jurisprudência que
conforta sua tese e, a final, requer o acolhimento dos embargos ao efeito de ser julgada
improcedente a demanda. Intimados, os embargados ofereceram impugnação ao recurso (fls.
278/288), que restou admitido (fls. 290/291). Vieram-me os autos conclusos para julgamento. É o
relatório, que foi submetido à douta revisão.

VOTO

Desª Ana Maria Nedel Scalzilli (Relatora) – Senhor Presidente. Eminentes Colegas. Como
tomaram conhecimento através do relatório, o Banco Santander Meridional opôs estes embargos
buscando prevaleça o entendimento esposado pelo festejado Des. Osvaldo Stefanello, que, em
provendo a apelação, decretara a improcedência da ação indenizatória proposta pelos autores.

Rogando respeitosa vênia ao Des. Stefanello, adianto desde já que encaminho meu voto no
sentido de desacolher os infringentes, subscrevendo, na íntegra, os fundamentos adotados pelo
Des. Alvaro de Oliveira, e, transcrevendo excertos da decisão, acrescê-Ios às minhas razões de
decidir. Disse o Desembargador, Redator do acórdão: "[....] Esta Câmara já teve ocasião de
apreciar caso semelhante ao dos autos, quando do julgamento da AC nº 597195486, em 25-03-98,
relatada pelo eminente Des. Antonio Janyr Dall’Agnol Junior, oportunidade em que foi reconhecida
a responsabilidade do banco por violação do cofre de aluguel.

"Como bem ressalta Sérgio Cavalieri Filho (Programa de Responsabilidade Civil, 2ª ed., 4ª tiragem,
São Paulo, Malheiros, 2001, p. 304), ‘Ocorrida a ilícita subtração dos objetos que estavam
depositados no cofre, quer em razão de furto com arrombamento, quer em razão de assalto, não
tem o cliente que fazer qualquer prova da culpa do banco, porquanto o caso é de responsabilidade
objetiva. Há uma presunção de responsabilidade (e não simplesmente de culpa) pelo
inadimplemento da principal obrigação do contrato – a cláusula de segurança –, presunção, essa,
que só poderá ser elidida, conforme já ressaltado, mediante prova do caso fortuito ou da força
maior. Tenha-se em conta que a própria ocorrência do furto ou do assalto, por si só, evidencia ter
falhado o esquema de segurança e vigilância prestado profissionalmente’.

"Na espécie, nenhuma prova realizou o banco de força maior ou caso fortuito. Aliás, ao que deduzi
do voto do Des. Stefanello, Sua Excelência também se põe de acordo com a responsabilidade do
demandado. O problema se situaria no campo da prova do dano, não vislumbrando o eminente
Relator elementos seguros de convicção a respeito.

"Penso, contudo, que os autos demonstram de forma convincente as perdas sofridas pelos
autores, ainda mais que em casos como o dos autos não há como exigir prova plena e acabada do
prejuízo. Como bem ressaltou o Des. Dall’Agnol Junior no aresto mencionado, com menção a
ensinamento de Rubens S. Stiglitz, Derecho de Seguros, 1997, II, p. 393, ‘identicamente ao que
ocorre com o seguro, relativiza-se a rigidez do princípio indenizatório, pois exigir uma prova
acabada e terminativa de seu acontecimento implica converter em quase impossível para o
segurado (aqui, para o locatário do cofre) a preocupação da indenização, com o qual se tornaria
ilusório através desta instituição (refere-se o jurista ao seguro, mas o mesmo vale para contrato em
que o dever de vigilância é fundamental). Daí, o passo que dá o ilustre especialista argentino no
sentido da suficiência da verossimilhança, de tal maneira que se considera provado um fato
quando sua existência é suficientemente provável para autorizar laborar-se como se existisse
realmente’.

"Para compreender o verdadeiro alcance dessa lição, prossigo, não se pode perder de vista o
exato conceito de verossimilhança. Não se cuida, bem entendido, de probabilidade, em que,
embora não se constate a existência de prova plena, verifica-se pelo menos elementos probatórios
que possam tornar crível o fato. (fls. 242/244) [....]

"Também entre nós a doutrina tem admitido a verossimilhança e a aplicação das regras de
experiência comum na apreciação da prova relativa ao conteúdo do cofre violado. Assim, Rodolfo
de Camargo Mancuso (Responsabilidade Civil do Banco em Caso de Subtração Fraudulenta do
Conteúdo do Cofre Locado a Particular, RT nº 616/24) aplaude magnífica decisão monocrática que
consagrou o princípio da ampla liberdade probatória e da presunção de boa-fé nessa matéria, com
aplicação do art. 335 do CPC, ponderando que ‘da leitura do decisório exsurge a convicção de que
o julgador se pautou pelo quod plerumque fit, elegendo o primado da justiça no caso concreto,
mais no que a preocupação com o só tecnicismo jurídico, o que, de resto, se afina com o alerta do
summum jus, summa injuria. E adiante preconiza que até que venha a ser instituído seguro para o
conteúdo do cofre, a prova do dano há de ser admitida com certa liberalidade, necessária para se
evitarem injustiças.

"Segundo o festejado autor (ob. cit., p. 32), ‘fará o autor prova, através do inquérito policial, de
testemunhas, de depoimento pessoal, de documentos (especialmente a declaração de bens, no
imposto de renda), dos fatos seguintes: que por sua posição social, econômica e profissional era
possuidor de certos valores mobiliários em qualidade e quantidade compatíveis com seu status;
que não locava o cofre para mantê-lo vazio ou para guardar objetos de pouca valia; que, v. g., em
virtude de constantes viagens ao exterior, via-
-se na contingência de manter uma reserva de dólares em local que pressupunha seguro; que, v.
g., no tocante às jóias, pessoas probas e idôneas que delas tenham conhecimento podem
descrevê-las e estimar seu valor, etc.’ E conclui: ‘É claro que, além da persuasão que exsurja do
conjunto probatório, será de enorme valia à pessoa mesma do autor da ação, isto é, sua
honorabilidade pessoal, seu prestígio social, que induzam no julgador a convicção de se tratar de
cidadão que presumivelmente não viria a juízo para falsear a verdade, ou para se aventurar em
busca de lucro fácil’.

"Analisando o conjunto probatório constato o prestígio social dos autores, pessoas acreditadas na
comunidade, sendo o autor empresário conhecido, um dos donos da sociedade Estaqueamento
Gaúcho Ltda., empresa tradicional da praça que teve longa existência, contando ambos os
demandantes já mais de 60 anos de idade, ela atualmente com 64 e ele com 67 anos de idade. As
regras de experiência comum induzem à conclusão de que os demandantes não se aventurariam
numa demanda judicial estimulados apenas pela possibilidade de lucro fácil, falseando a verdade
para atingir esse lamentável objetivo.

"O cofre, como se verifica da cópia do registro de abertura da fl. 13, fornecida pelo Banco, era
constantemente utilizado pelo casal. As jóias nele guardadas foram minuciosamente descritas, com
desenho explicativo (fls. 16-21), e algumas encontradas e devolvidas aos autores (fl. 34), o que só
demonstra a lisura destes e reforça a credibilidade em suas declarações. Pela lógica do razoável,
se nessa parte a relação é verdadeira, não há por que duvidar de que não o seja no restante,
evidenciada como ficou a boa-fé dos autores. Acresce notar que, em 27-05-94, os autores,
juntamente com familiares, prometeram vender imóvel de elevado valor, a Jaime Sirotsky e sua
mulher (fls. 35-40). Posteriormente foi firmada a escritura pública de compra e venda (fl. 41).
Observo que Jaime Sirotsky, como é público e notório, é grande empresário e um dos
controladores do capital social do grupo RBS.
"Nada mais razoável, portanto, que o valor recebido fosse convertido em dólares e depositado no
cofre arrombado, ainda mais na época em que ainda não se havia estabilizado o valor da moeda
brasileira. Aliás, como bem ponderou a decisão reproduzida por Rodolfo Mancuso (ob. cit., p. 32),
‘se o usuário se serve desse tipo de segurança é justamente para manter o sigilo sobre os valores
ali guardados. Se o autor possuía dólares no local, é evidente que não teria registro dos mesmos
em outro local, nem mesmo documentos de imposto de renda [....]’. Entendo, outrossim, que o fato
de a maioria das testemunhas ser amiga íntima do casal, uma até sendo irmão do autor, não lhe
retira a credibilidade, porquanto pelas regras de experiência só os integrantes do círculo íntimo é
que têm acesso a esse tipo de informação, e o Juiz, quando estritamente necessário, atribuirá ao
depoimento dessas pessoas o valor que possam merecer (art. 405, § 4º, do CPC). Outrossim, a
credibilidade das testemunhas dos autores decorre ainda da idade, condição econômica, posição
social e profissional de que desfrutem". (fls. 245/248)

Passou, então, o julgador ao exame detalhado da prova testemunhal. Dissecou os depoimentos de


Noemia Kosmitzer Burd, Suzana Starosta, Jayme Soibelman, Maria Paes Spomberg e Beatriz
Anzanello Stifelman, que confortam as alegações dos autores, concluindo, por fim, quanto à
existência do dano moral, e majorou a indenização, bem como lhes assegurou o direito a receber
os dólares, convertidos em moeda corrente nacional pela taxa oficial do dólar americano do dia do
pagamento. Destarte, com os acréscimos da decisão que acolheu os embargos de declaração (fls.
263/265), renovada vênia ao Relator originário, estou desacolhendo os embargos infringentes. É o
voto.

Des. Clarindo Favretto – Realizei a revisão do processo e cheguei à mesma conclusão a que
chegou a eminente Relatora. Saliento mais, que a Egrégia 5ª Câmara Cível já teve oportunidade
de enfrentar o mesmo tema com outras partes, mas em face do mesmo Banco Meridional do
Brasil, na Apelação nº 598131175. Lá tivemos a oportunidade de examinar todos os incidentes
levantados e todas as hipóteses, e, tal como naquele julgamento, também neste deve ser levada
em devida conta, como o eminente Relator perante a Câmara salientou, a qualidade das partes
envolvidas – o casal Soibelman –, a sua conduta anterior ao fato, durante o fato e posterior ao fato,
não sendo a ninguém autorizado presumir tivessem faltado com a verdade em face de sua conduta
ao longo de uma vida.

Daí por que devem ser presumidas verdadeiras as suas declarações e as declarações postas na
própria petição inicial, já que sem prova em contrário. Ao inverso, a prova da conduta exemplar de
vida que o casal teve até o incidente faz com que se assemelhem as suas alegações ao fato
ocorrido. De tal modo que, sem maiores acréscimos, porque até indevidos, acolho integralmente as
razões da eminente Relatora para também rejeitar os presentes embargos. É como voto.

Des. Carlos Alberto Alvaro de Oliveira – Reitero o voto proferido na Câmara. Também nego
provimento ao recurso.

Des. João Pedro Freire – Senhor Presidente, a sentença de 1º grau e o acórdão da Egrégia
Câmara fundamentaram muito bem a decisão. Também acompanho a eminente Relatora.

Des. Antonio Guilherme Tanger Jardim – Acompanho.

Des. Leo Lima – Acompanho.

Des. Marco Aurélio dos Santos Caminha – Também acompanho e registro que o Grupo já teve
oportunidade de julgar fato semelhante em que também restou comprovada a responsabilidade do
Banco. Trabalhamos em tantos outros processos envolvendo esse evento danoso, nos quais não
se conseguiu fazer prova satisfatória do conteúdo do cofre, ao passo que, neste caso, a prova é
robusta, é tranqüila. Também no caso julgado no dia 02-10-88, nos EI nº 598225829. Lá também
se comprovou o conteúdo. De sorte, Senhor Presidente, com essas considerações, estou
acompanhando a eminente Relatora, Desª Ana Maria, rejeitando os embargos infringentes.

Des. Cacildo de Andrade Xavier (Presidente) – Também acompanho.