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Estação Atocha

Ben Lerner

Estação Atocha
romance

Tradução de Gianluca Giurlando


Copyright© 2011 by Ben Lerner. First published in the United States
by Coffee House Press, Minneapolis, Minnesota.

TÍTULO ORIGINAL
Leaving the Atocha Station

TRADUÇÃO
Gianluca Giurlando

CAPA E PROJETO GRÁFICO


Rádio Londres

PREPARAÇÃO
Shirley Lima

REVISÃO
Marcela Lima
Marcela de Oliveira
Elisa Menezes

FOTO DE CAPA
Cultura RM/Justin Officer

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Lerner, Ben
Estação Atocha / Ben Lerner ; tradução Gianluca
Giurlando. – Rio de Janeiro : Rádio Londres, 2015.

Título original: Leaving the Atocha Station.


ISBN 978-85-67861-04-3

1. Ficção norte-americana I. Título.

15-00109 CDD-813

Índices para catálogo sistemático:


1. Ficção : Literatura norte-americana 813

Todos os direitos desta edição reservados à


Editora Rádio Londres Ltda.
Rua Senador Dantas, 20 — Salas 1601/1602
20031-203 — Rio de Janeiro — RJ
www.radiolondreseditores.com
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A fase inicial do meu projeto de pesquisa envolvia acor-
dar nos dias de semana num apartamento de sótão que mal
tinha móveis – o primeiro que vira ao chegar em Madri – ou
deixar que o barulho proveniente da Plaza de Santa Ana
me acordasse, sem conseguir incorporá-lo completamente
aos meus sonhos, depois colocar a cafeteira enferrujada
no fogo e enrolar um baseado enquanto esperava o café.
Assim que o café ficava pronto, abria a claraboia, que
era grande o suficiente para eu conseguir me enfiar nela
depois de ter subido na cama, e ia beber o café e fumar no
telhado que dava para a praça onde os turistas, armados
com guias de viagem, sentavam às mesinhas metálicas e
o tocador de acordeão praticava seu ofício. Ao longe, o
palácio e os longos rastros das nuvens. Depois, o projeto
exigia que eu voltasse para dentro, descendo pela clara-
boia, cagasse, tomasse banho, engolisse os comprimidos
brancos e me arrumasse. Então encontrava minha bolsa,
que continha uma edição bilíngue da Antologia poética de
Lorca, dois cadernos, um dicionário de bolso, os Selected
Poems de John Ashbery e remédios, e saía rumo ao Prado.

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Do meu apartamento, pegava a Calle de las Huertas,
acenava para os garis de uniforme verde-limão, cru-
zava o Paseo del Prado, entrava no museu, que, graças
à minha carteirinha de estudante, custava apenas dois
euros, e ia direto para a sala 58, onde ficava plantado
diante da Deposição da Cruz, de Rogier van der Weyden.
Normalmente chegava à frente do quadro uns quarenta
e cinco minutos depois de ter acordado, de modo que,
enquanto observava as figuras de tamanho quase natural
e esperava o equilíbrio chegar, o haxixe, a cafeína e o sono
ainda estavam competindo pelo controle do meu orga-
nismo. Maria se detém num desmaio que parece eterno; os
tons de azul de sua túnica são únicos na pintura flamenga.
Sua postura é um reflexo quase exato da de Jesus, cujo
corpo é segurado por Nicodemus e um ajudante, como
se não pesasse nada. C.1435; 220 x 262 cm. Óleo sobre
painel de carvalho.
Um divisor de águas no meu projeto: certa manhã,
eu me aproximei do van der Weyden e logo percebi que
alguém tinha tomado o meu lugar. O sujeito estava no
ponto exato em que eu sempre ficava e, por um instante,
me vi atônito, como se estivesse olhando um clone meu
mais magro e mais escuro olhando o quadro. Esperei que
o homem prosseguisse, mas ele se deteve. Perguntei-me
se ele tinha me observado enquanto eu contemplava
a Deposição e se agora estava na frente do quadro na
expectativa de ver o que quer que fosse que eu devia ter
visto. Fiquei irritado e tentei encontrar outras telas para
cumprir meu ritual matutino, mas estava acostumado
demais com as proporções e os azuis do quadro para
me contentar com um substituto. Estava prestes a sair
da sala 58 quando o homem de repente caiu num choro
convulsivo, acompanhado por violentos soluços. Será

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que ele estava encarando a parede só para esconder o
rosto enquanto enfrentava a dor que tinha trazido para
o museu, qualquer que ela fosse? Ou talvez estivesse
passando por uma profunda experiência artística?
Por muito tempo, eu convivera com a preocupação de
que era incapaz de passar por uma profunda experiência
artística e me custava acreditar que alguém mais fosse,
pelo menos entre os meus conhecidos. Nutria profundo
ceticismo a respeito das pessoas que alegavam que um
poema ou uma música tinham “mudado a vida delas”,
especialmente porque, observando-as antes e depois dessa
experiência, não conseguia detectar a menor mudança.
Embora quisesse dar uma de poeta e apesar de ter ganhado
minha bolsa de estudos na Espanha graças ao meu suposto
talento literário, eu só conseguia apreciar a beleza dos
versos quando os encontrava citados em trechos de prosa,
nos ensaios que os professores da faculdade me manda-
vam ler, com as barras substituindo as quebras de linha,
de modo que o que me impressionava não era um poema
em particular, mas o eco de uma possibilidade poética. O
que realmente me interessava na arte era a desconexão
entre a minha percepção das obras de arte físicas e as
alegações feitas em nome delas. A sensação mais próxima
de uma profunda experiência artística que eu tivera talvez
tenha sido a vivência dessa desconexão, uma profunda
experiência da ausência de profundidade.
Assim que se acalmou, o que levou pelo menos dois
minutos, o homem secou o rosto e assoou o nariz com um
lenço que depois guardou no bolso. Ao entrar na sala 57,
que estava vazia a não ser pela presença de um guarda
longilíneo, meio desengonçado e com ar sonolento, o
sujeito caminhou diretamente até uma pequena imagem
votiva de Cristo atribuída a São Leocádio: túnica verde,

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roupas vermelhas, expressão de profunda dor. Eu fingi
que observava os outros quadros, mas, de vez em quando,
olhava pelo canto de olho para o homem que fitava as
pequenas telas. Por um minuto, que pareceu uma eterni-
dade, ele permaneceu em silêncio e depois deixou escapar
outro soluço. Isso alarmou o guarda e nossos olhares se
cruzaram: o meu comunicando que a mesma coisa tinha
acabado de acontecer na outra sala, o do guarda eviden-
ciando uma luta interior para determinar se o homem era
um louco – talvez o tipo de homem que poderia danificar
um quadro, cuspir nele, arrancá-lo da parede ou arranhá-
-lo com uma chave – ou se estava passando por uma
profunda experiência artística. De novo apareceu o lenço,
e o sujeito dirigiu-se calmamente para a sala 56, parou
na frente do Jardim das Delícias Terrenas, contemplou-o
por um longo momento e então desabou por completo.
Agora havia três guardas na sala: o desengonçado da
57, a mulher baixinha que sempre vigiava a sala 56 e
um guarda mais velho, de cabelão esquisito e prateado,
que devia ter ouvido os soluços do corredor. Os poucos
visitantes presentes na sala 56 estavam tão absortos em
seus audioguias que nem ao menos se deram conta da
cena que se desenrolava diante do Bosch.
Qual é o papel de um guarda de museu? – pensei
comigo mesmo. O que é, de fato, um guarda de museu? Por
um lado, ele faz parte de uma força de segurança encar-
regada de proteger objetos inestimáveis dos loucos, das
crianças ou da lenta força corrosiva dos flashes das câme-
ras. Por outro, ele vive entre supostos triunfos do espírito
humano, e talvez a única fonte de prestígio de sua posição
seja justamente a convicção de que tais triunfos poderiam
facilmente comover um homem às lágrimas. Havia um
certo pathos na indecisão dos guardas, guardas que passam

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Por um momento, pensei no grande artista.

a maior parte da própria vida na frente de quadros eternos,


mas a quem as pessoas apenas perguntam que horas são,
quando o museu vai fechar e dónde está el baño. Não pude
partilhar da crise emocional do homem, se era disso que
se tratava, mas o dilema dos guardas me tocou: deveriam
pedir ao sujeito que os acompanhasse até o corredor para
tentarem avaliar seu estado mental, sem dúvida arrui-
nando sua profunda experiência, ou deveriam correr o
risco de deixar esse desequilibrado em potencial solto
entre os tesouros da cultura deles, sem dúvida pondo em

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risco, entre outras coisas, seus empregos? Achei a repre-
sentação silenciosa dessas tensões mais comovente do
que qualquer Pietá, Deposição ou Anunciação, e me senti
como um deles enquanto seguíamos o homem de gale-
ria em galeria. Talvez ele seja um artista, pensei; talvez
nem esteja emocionado de verdade, mas só atuando, e
sua encenação tenha o objetivo de obrigar a instituição a
enfrentar as próprias contradições internas, das quais os
guardas eram um bom exemplo. Estava pensando algo
assim quando o homem, após o enésimo ataque de choro,
encaminhou-se com calma à saída principal do museu. Os
guardas se dispersaram – pareceu-me – mais com tristeza
que com alívio, e eu me vi caminhando atrás dele, desse
grande artista, para fora do museu, em direção à luz do
dia, que, de tão intensa, não parecia natural.

Nos finais de semana da primeira fase do meu projeto


de pesquisa, Jorge, o professor de espanhol contratado pela
fundação para ajudar os bolsistas a passar rapidamente do
conhecimento avançado ao domínio completo do idioma,
me levava de carro para um camping que ficava a quarenta
minutos de Madri, aonde ele costumava ir com os colegas
da escola de línguas para fumar maconha, beber, nadar e
conversar. Chamavam-me de El Poeta, nunca entendi bem
se com escárnio ou carinho. Era eu quem comprava a maior
parte da cerveja e também me abastecia de maconha do
Jorge, que me cobrava preços exorbitantes. O lugar em si
não era nada especial: uma clareira com uma ou duas covas
para fazer fogueira, bastante lixo, embora nunca tivesse
notado alguém naquela área além de nós, que tínhamos
o cuidado de limpar tudo. Ficava a apenas trinta metros
de uma lagoa. Geralmente a temperatura era amena o

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suficiente para dormirmos do lado de fora. Quase ninguém
me dirigia a palavra enquanto ficávamos sentados ao redor
da fogueira, bebendo ou fumando meu haxixe, ou a erva
mais potente que Jorge reservava para a noite. Raramente
eu abria a boca, embora tentasse sorrir, querendo dar a
impressão, com aquele sorriso, de que conseguia acom-
panhar a conversa, deixando-o flutuar como se estivesse
reagindo aos discursos deles.
Uma noite em que eu estava particularmente chapado,
percebi pouco a pouco que Jorge estava me chamando,
bruscamente, pelo meu nome, e não de El Poeta, enquanto
os outros me olhavam fixamente, incrédulos e com expres-
são de raiva. Depois me dei conta de que eu tinha exibido
meu sorriso, sem prestar atenção enquanto Isabel, uma
amiga de Jorge, contava o que devia ser uma história trá-
gica, ou talvez estivesse fazendo uma confissão dolorosa,
ao menos a julgar pelo tom de sua voz e pelas lágrimas
em sua face, que brilhavam à luz das chamas. Levou
um bom tempo para eu conseguir mudar de expressão e
tirar o sorriso do meu rosto, sorriso que foi interpretado
como reação minha à mágoa de Isabel. Naquela ocasião
particular, resolvi fazer uma rara tentativa de improvi-
sar um discurso: não tinha entendido, tentei dizer, ou
não tinha escutado; mas o que quer que eu tivesse bal-
buciado soou completamente ininteligível, talvez nem
mesmo fosse espanhol. Só precisava dizer que estava
chapado demais, perdido em meus pensamentos, que
sentia muito se Isabel tinha achado que eu estava rindo
dela ou da sua história. O problema era que eu não tinha
a menor ideia de como comunicar tudo isso ou qualquer
outra coisa. E, como se não bastasse, o sorriso reapareceu
na minha cara automaticamente enquanto, imagino, os
outros comentavam o quanto era doentio reagir daquela

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forma ao que quer que Isabel tinha acabado de contar.
Então, Miguel, o amigo de Jorge que talvez fosse parente
de Isabel ou apaixonado por ela, jogou contra mim uma
lata de cerveja do outro lado da fogueira e me intimou a
apagar aquele sorriso do rosto, se é que essa expressão
existe na Espanha. Involuntariamente, comecei a dar
risadinhas, risadinhas nervosas, só que, para meu horror,
meus risos não soaram nada nervosos, insultando, de uma
forma ainda pior, Isabel, que agora cobria o rosto com as
mãos. Ela se levantou, afastou-se da fogueira e caminhou
em direção à lagoa, seguida por mais duas garotas da
nossa turma, enquanto Miguel se aproximou de mim e
me encarou de cima a baixo, ameaçando só Deus sabe o
quê. Jorge o segurou. Dessa vez ao menos consegui falar
sinto muito, sinto muito, mas Miguel se soltou, ou talvez
Jorge o tenha soltado, e deu um soco na minha boca.
Não foi uma porrada particularmente forte, mas eu
achei melhor ficar deitado no chão, como que nocauteado.
Miguel estava berrando comigo, e a confusão chamou a
atenção de Isabel e das amigas, que voltaram da lagoa.
Ele deixou que Jorge o afastasse de mim e se acalmou um
pouco. Senti o gosto de sangue na boca, que estava só
levemente ferida, e mordi com força para tornar o corte
mais profundo e parecer mais grave, de modo a suscitar
compaixão suficiente para compensar o dano que meu sor-
riso havia causado. Enquanto cobria o rosto com as mãos
e me contorcia como se sentisse muita dor, aproveitei para
espalhar bem o sangue e, quando me levantei e a luz da
fogueira me iluminou, Isabel surtou e falou mãe do céu,
meu Deus. No silêncio que se seguiu, levantei e caminhei
até a lagoa para lavar o rosto. Depois de alguns minutos,
ouvi alguém pisar na grama seca: era Isabel.
“Sinto muito”, disse ela.

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“Não, eu é que sinto muito”, falei. “Não entendi nada
da história que você contou antes”, devo ter dito, “meu
espanhol é muito ruim, fico nervoso”.
“Seu espanhol é bom”, elogiou ela. “Como está seu
rosto?”
“Meu rosto é bom”, respondi, fazendo-a rir. Ela soltou
os cabelos, pegou o lenço que estava amarrado neles, e o
usou para limpar o resto do sangue, depois o mergulhou
e o torceu para secar a água. Começou a falar algo sobre
a lua, o efeito da lua na água, ou talvez tenha justificado
o comportamento de Miguel e o clima dramático da noite
com o fato de que a lua estava cheia, embora não estivesse.
Seus cabelos eram compridos, talvez mais compridos
do que os do guarda. Depois talvez tenha contado que
costumava nadar na lagoa quando era criança, ou que a
lagoa a lembrava de quando era criança, ou talvez tenha
me perguntado se eu gostava de nadar quando era criança,
ou pode ser que tenha falado que o que ela acabara de
dizer sobre a lua soava muito pueril. Em seguida, ela me
perguntou se eu conhecia um poema de Lorca, desta vez
mencionando algo que tinha a ver com várias cores e que
fez vibrar suavemente seus erres, uma coisa que eu não
conseguia fazer. Ofereceu-me um cigarro, olhamos a água,
e eu fiquei sóbrio.
Queria saber por que ela havia chorado antes e conse-
gui me expressar principalmente repetindo as palavras
“fogueira” e “antes”. Ela hesitou por um longo momento
e depois começou a contar. Contou algo sobre uma casa,
mas, se ela quis dizer no sentido figurado de lar ou no
sentido literal de edifício, eu não consegui entender. Ouvi
nomes de ruas e de meses, uma lista de coisas que achei
que fossem livros ou músicas; tempos difíceis ou tempo
ruim no sentido meteorológico, época, tio, mudança,

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uma analogia que tinha algo a ver com o verão, algo
sobre comprar e/ou destruir um carro de cor vermelha.
Baseando-me no discurso dela, compus várias histórias
plausíveis, todas de improviso, de modo que o meu não
era tanto um não entender, mas um entender por acordes,
através de uma pluralidade de mundos possíveis. O tio
tinha morrido exatamente um ano antes em um acidente
de carro, numa rodovia perto de Salamanca; durante o
verão ela havia internado o namorado, viciado em drogas,
numa clínica de reabilitação, e agora ele não queria mais
falar com ela e tinha se mudado para Barcelona; a casa
dos pais, que moravam numa cidade pequena do interior,
estava prestes a ser penhorada, e ela havia vasculhado as
caixas cheias de brinquedos da sua infância; tinha rom-
pido com o irmão ou irmã por causa de uma briga sobre
a guerra. Essa capacidade de ficar suspenso entre vários
possíveis referentes, de deixá-los interferir uns nos outros
para depois se separarem como ondas, de abandonar a
lei do terceiro excluído enquanto escutava as palavras
em espanhol – tudo isso representava um passo decisivo
no meu projeto, uma mudança de fase. Fiquei calado,
tentando imitar a expressão de São Leocádio.

Do Prado, costumava caminhar até um pequeno café


que se chamava El Rincón, onde comia um sanduíche,
apenas pão e chorizo, e onde eu era a única pessoa que
comia, a menos que houvesse algum turista, porque para
os espanhóis não estava nem perto do horário do almoço.
Depois, caminhava por algumas quadras até o Retiro,
o parque principal da cidade, achava um banco, tirava
da bolsa os cadernos, o pequeno dicionário, o Lorca, e
ficava chapado.

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Se fazia sol e se eu acertava a proporção correta de
haxixe e tabaco, se havia outras pessoas ao meu redor, mas
a certa distância, de modo que eu as ouvisse conversar,
mas sem entender em qual idioma, uma pequena onda de
euforia se espalhava dentro de mim. Ainda restavam horas
e horas de luz, para os espanhóis nem era tarde; ainda
sobravam meses e meses do meu projeto de pesquisa, que
tinha acabado de começar. No entanto, a bolsa de estudo
não continuaria para sempre, e eu sabia que, numa data
predeterminada, voltaria para a minha vida de antes, um
pouco mais interessante aos olhos dos outros em virtude
da minha estada no exterior, provavelmente mais magro,
mas, de resto, a mesma pessoa. Em Madri, eu não preci-
sava estabelecer uma existência além da simples rotina
cotidiana, não precisava me preocupar com a construção
de um círculo de amigos íntimos, o que quer que isso sig-
nifique. Tinha à disposição o dia infinito, meses e meses
de dias infinitos, mas a data da minha volta impunha um
limite nessa sensação de ilimitabilidade e evitava que se
tornasse ameaçadora. Começava a sentir um entusiasmo
que eu julgava ser amor, primeiramente pelas coisas pró-
ximas: as andorinhas, se é que eram andorinhas mesmo,
saltitando na poeira, as avenidas com as árvores típicas do
Velho Mundo, as estátuas de pedra dos reis e das rainhas
ao lado das quais os turistas posavam, amor pelo brilho
ofuscante do Estanque, a lagoa artificial do parque. Amor
por Topeka: o falcão em cima do poste telefônico, o homem
acriançado com a pistola de sinalização enfiada nas calças
do macacão, o dedo arrancado pela tartaruga mordedora
ou pelos fogos de artifício; amor pelo valentão de pescoço
barbudo, um amor que só uma mãe pode sentir. Amor
por todas as minhas babás, todas menos James; amor pelo
lutador que caiu da torre d’água, de onde havia tentado

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se exibir. E depois por Providence: a deslumbrante desco-
berta da literatura, cheirar as carreirinhas de só Deus sabe
que remédio com os obscuros filhos das estrelas, emergir
de um túnel depois de dormir e encontrar-se frente a frente
com Nova Iorque, a redefinição do conceito de “rico”,
amor pelos livros de poemas não lidos, por Cyrus e pelas
nossas caminhadas. Mas, acima de tudo, amor por aquela
outra coisa, a tela fonoabsorvente, a máquina branca da
vida, as sombras se juntando em segundo plano, embora
essa seja uma descrição muito aproximada, amor pela
própria substância do et cetera.
Eram esses os dias em que eu trabalhava no que cha-
mava de tradução. Abria a edição bilíngue de Lorca ao
acaso, transcrevia o texto da página ímpar, em inglês, no
primeiro caderno e começava a inserir umas variantes,
substituindo uma palavra pela primeira palavra à qual a
associava e/ou misturando a ordem das linhas. Depois
fazia qualquer alteração que essas variantes me inspi-
rassem. Outras vezes pesquisava a palavra espanhola
correspondente à palavra inglesa que queria substituir e
depois a substituía por uma palavra com um som pare-
cido (“Debaixo do arco do céu” ficava “Debaixo do arco
do cielo” e depois se tornava “Debaixo do arco do violon-
celo”). Então entrelaçava os fragmentos da prosa que tinha
no segundo caderno com as traduções assim produzidas
(“Debaixo do arco do violoncelo/ Eu abro o Lorca ao
acaso”, e assim por diante).
Mas, se o céu estava encoberto e as proporções esta-
vam erradas, se havia gente demais ou se o parque estava
deserto, um abismo se abria dentro de mim enquanto
fumava. Agora a tarde se tornava espantosamente ilimi-
tada; não seria mais hoje à noite ou o dia seguinte na sala
58, e o prata e o verde se escoavam da paisagem. Não tinha

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coragem de abrir o livro. Era pior do que uma sensação
angustiante; eu mesmo era a angústia, um adágio intocá-
vel para instrumentos de cordas; as distâncias internas se
expandiam e se contraíam a cada respiração. Era como não
ter conseguido acordar no momento certo de um pesadelo;
agora você tinha de viver dentro dele, aguentá-lo. Ele, se é
que posso falar assim, tivera a mesma sensação quando era
criança e os pais o enviaram à colônia de férias; seu cora-
ção pareceu acelerar fortemente e parar por completo, ao
mesmo tempo. Depois ele prendeu a respiração, petrificou-
-se, aterrorizado, expirou com força; criou-se um vácuo,
como se uma janelinha tivesse quebrado a uma altitude de
10.000 metros. Um pouco daquela atmosfera cinzenta era
sorvida para dentro dele, sentia-se perdido; tornava-se um
sintoma de si mesmo. Reunia todas as forças para alcançar
a bolsa, pegar o frasco, desatarraxar a tampa à prova de
crianças, pousar a pílula amarela na língua, quebrá-la entre
o dedo indicador e o polegar, e colocar os restos úmidos no
fundo da boca. Então esperava e esperava, e finalmente os
ângulos de sabe-se lá o quê se arredondavam. Ele se dava
conta de que estava com calor, ou melhor, de que tinha
estado com frio. Com as mãos, tocava o rosto e achava-os
ambos alheios; este estava ainda gelado, aquelas estavam
ficando quentes. Pensava nos telefones públicos perto
do Estanque; podia usar o cartão telefônico; talvez um
parente estivesse em casa, e ele pudesse conversar um
pouco para desabafar. Mas eram sete ou oito horas mais
cedo lá, todo mundo ainda estava dormindo. E que espécie
de adulto, levando em conta que ele era um adulto, liga
aterrorizado para a própria família, sem uma razão espe-
cífica, como ele tinha ligado da colônia de férias quando
era menino, implorando entre soluços para que alguém
viesse buscá-lo. Começava a sentir um gosto estranho na

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boca; sua saliva pertencia a outra pessoa; tinha nojo de
engolir. Este, dizia a si mesmo num tom autoritário, é um
sinal de esquizofrenia: o começo da fragmentação rápida
da sua assim chamada personalidade; você vai ter que se
internar. Podia sentir na pele a bata hospitalar. Quebrava
um segundo comprimido, levantava-se, as pernas que nem
pareciam as dele, e começava a caminhar na direção do
portão principal. Os outros pedestres no Paseo del Prado
o fitavam de forma estranha; ele tinha a clara sensação
de que, quando passava, todo mundo parava e se virava
para olhar; era difícil resistir à tentação de correr; ao se
aproximar, sentia seu apartamento recuar; gargalhadas
se erguiam de cada carro que passava. Saber que nada
daquilo era real tornava a situação ainda pior.
Ele subia os seis lances da escada freneticamente, encon-
trava as chaves, deixava cair a bolsa no chão e se jogava
na cama. Em seguida, enrolava-se inteiro nas cobertas.
Enfim, ele dormia a minha siesta.

Na maioria das vezes, quando eu acordava da siesta,


colocava a cafeteira no fogo e enrolava um baseado en­
quanto esperava o café. Quando ficava pronto, ligava o
chuveiro e, assim que o jato ficava quente, entrava debaixo
dele e tomava o café lá dentro, deixando a água diluir o
espresso enquanto o bebia, e o vapor e a cafeína clarearem
aos poucos minha mente.
Durante a primeira fase do meu projeto, estava conven-
cido de que Madri inteira dormia durante a siesta, e caía no
sono com a sensação de que estava me juntando ao resto
da capital adormecida. Porém, mais tarde, fiquei sabendo
que, de todas as pessoas que conhecia em Madri, eu era o
único que realmente aproveitava essa hora para dormir.

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Tanto fazia que eu tivesse traduzido bem no Retiro, ou que
tivesse sugado a atmosfera cinzenta para dentro do peito,
depois da siesta me sentia sempre do mesmo jeito, ou seja,
não sentia absolutamente nada. A única diferença era que,
quando tomava os tranquilizantes, dormia uma hora a
mais. E se antes de dormir eu estivesse muito perturbado,
sentia algo como uma leve fisgada química na parte de
trás da boca. Conhecia essa sensação desde criança e tinha
sempre achado que todo mundo sentia o mesmo, que era
um conceito pelo menos tão universal quanto o sabor
de cobre no sangue, e a ele ligado de alguma forma, no
entanto, mais tarde, descobri que ninguém que eu conhecia
tinha familiaridade com esse sabor, pelo menos não da
forma que eu descrevia, ou seja, não especificamente como
o inconfundível ressaibo de pânico. No meu país, não
estava acostumado a cochilar, por isso a siesta subvertia
dramaticamente meu senso de tempo, às vezes dando-me
a impressão de que o dia ficava dobrado, de modo que
me lembrar da manhã era como me lembrar de algo que
tinha acontecido no dia anterior, outras vezes substituindo
completamente a primeira parte do dia.
Depois de me secar e me vestir, acendia o baseado,
tomava o resto do café e, se tivesse terminado a tradu-
ção no parque, digitava-a no meu laptop e a enviava por
e-mail para Cyrus. Embora tivesse acesso à internet no
meu apartamento, nos meus e-mails alegava que estava
escrevendo de um cyber café e que meu tempo era limi-
tado. Fazia o meu melhor para não responder à maioria
das mensagens que recebia, pois achava que assim daria
a impressão de que estava desligado, ocupado em acu-
mular experiências, quando, na verdade, passava um bom
tempo online, especialmente na segunda parte da tarde e
no início da noite, assistindo a vídeos de coisas terríveis.

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Após escrever para Cyrus, tentava ler Dom Quixote numa
edição bilíngue, comia algo, geralmente chorizo, queijo
curado, azeitonas e aspargos brancos direto do vidro,
abria uma garrafa de vinho, abandonava o Dom Quixote
e lia Tolstói em inglês – as obras principais desse autor
estavam em promoção na Casa del Libro.
Meu plano era aprender a língua sozinho, lendo as
obras-primas da literatura espanhola no original, e tinha
fantasiado sobre a natureza e o efeito de um idioma apren-
dido dessa forma, sobre a maneira como seu sabor arcaico
e sua retórica formalmente elevada colidiriam com os
elementos mundanos da vida cotidiana, dando a impres-
são de alguém que vinha não de uma terra estrangeira,
mas de uma época estrangeira. Imaginava-me sentado
ao redor da fogueira exibindo minha fala esplêndida e
sofisticada, depois de ter fumado a erva potente do Jorge,
olhando para a cara dos outros enquanto se davam conta
de que a dificuldade que eles tinham em me entender não
dependia do meu sotaque ou da minha ignorância, mas
da distância deles do próprio idioma na sua forma mais
rebuscada. Eu me via do ponto de vista deles, uma vez
dominada aquela língua sublime: dotado de uma aura,
meu exemplo simbolizando algum poder latente ínsito no
idioma deles, de modo que, a partir de então, até os meus
silêncios pareceriam bem concebidos, eloquentes. Mas eu
não conseguia me dedicar à prosa em espanhol, porque
tinha de pesquisar tantas palavras que nunca captava de
verdade a dinâmica de uma frase; ela continuava sendo
um conjunto de partículas, nunca virava um todo. Não
tinha paciência de reler o mesmo trecho muitas vezes até
as palavras deixarem de ser meros pontos e formarem
uma linha sólida. Cheguei a perceber que, mais do que
qualquer enredo ou sentido convencional, para mim o

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mais importante era o senso de pura progressão que eu
sentia enquanto lia prosa, a estrutura do tempo passando,
a máquina branca da vida. Até nas cenas mais dramáti-
cas, como quando Natasha de repente está à cabeceira
dele ou sei lá, o que me comovia não era o pathos daquele
reencontro ou a morte dele, mas a ação das preposições,
conjunções etc. O fluxo da escrita era mais fascinante do
que os eventos descritos.
Ler poesia, e nem tenho certeza de que ler seja a palavra
certa, era algo completamente diferente. A poesia repelia
ativamente minha atenção, era obscura e concreta e se
recusava a me assimilar. Seus artigos, suas conjunções
e suas preposições não conseguiam se dissolver num
sentimento ou numa velocidade; havia o risco de cair
nos espaços entre as palavras, na tentativa de juntá-las;
contudo, recusando-se a me assimilar, a poesia oferecia a
possibilidade de uma forma mais elevada de assimilação,
da qual eu não era digno; uma experiência tão profunda
que era inalcançável do interior da vida danificada, e assim
o poema se tornava emblema da sua forma exterior. Para
mim, era muito mais fácil ler poesia em espanhol do que
prosa espanhola porque os elementos obscuros, a hesitação
e a incapacidade que participavam da tentativa de viven-
ciar o poema eram sensações familiares, era o que conferia
a qualquer poema um poder negativo, sua impossibili-
dade de me emocionar me emocionava pelo menos um
pouco; minha incapacidade de dominar ou de me deixar
dominar pelo poema em espanhol era tão parecida com
minha incapacidade de dominar ou de me deixar dominar
pelo poema em inglês que eu acabava me sentindo, nesse
aspecto, como um falante nativo. Então, depois de pôr de
lado o Dom Quixote, comer, me masturbar e ler um pouco
de Tolstói, levava o restante do vinho e uma antologia

23
de poesia espanhola contemporânea para o telhado e lia
alguns poemas sob a pouca luz do dia que ainda restava.

Ao cair da noite, os turistas começavam a lotar a Plaza


de Santa Ana. Viam-se alguns madrileños também, cum-
primentando-se com beijos em ambas as faces, embora
a maioria dos moradores locais saísse muito mais tarde.
Ouviam-se vários idiomas, e o inglês americano ou aus-
traliano para mim eram os mais irritantes, além dos sons
de cadeiras sendo arrastadas pela calçada, de talheres
batendo nos pratos, de copos sendo recolhidos ou colo-
cados nas mesas metálicas, e geralmente de um violinista
sem talento, mas que não incomodava ninguém. Ao longe,
passavam os aviões para Barajas, as luzes das asas lam-
pejando lentamente, soltando rastros que, até a escuridão
cair, mantinham uma tonalidade rósea. Imaginava que os
passageiros conseguissem me ver, que eu mesmo era um
passageiro que podia me ver enquanto olhava para cima
a mim mesmo olhando para baixo.
Na primeira fase do meu projeto de pesquisa, não
conhecia ninguém além de Jorge e dos amigos dele e,
nos dias de semana, eles nunca me convidavam para sair;
na verdade, nem sei bem como conseguiriam me convi-
dar, já que eu encontrava Jorge só às sextas na escola de
línguas. Eu não tinha telefone, e eles não sabiam onde
eu morava. Como não havia comparecido a nenhum dos
eventos organizados pela fundação, não conhecia ninguém
que pudesse fazer comigo todas as coisas típicas que as
pessoas fazem durante uma temporada em Madri: pular
de barzinho em barzinho até cair de bêbado, em seguida
chegar numa daquelas discotecas enormes e dançar, se é
que se pode chamar aquilo de dançar, por horas e horas, ao

24
som de uma música techno horrorosa, enfim tomar um cho-
colate con churros e, de madrugada, arrastar-se até em casa.
Essa parecia ser a rotina para muitas faixas etárias; com
certeza, pessoas de várias gerações ficavam fora de casa
até muito tarde; à meia-noite, as crianças ainda brincavam
na praça; pessoas de meia-idade ficavam na rua bebendo
até as primeiras horas da madrugada; eu não estava acos-
tumado com esses horários e com tanto espaço público.
Se por um lado me achava superior a essa multidão, por
outro estava louco para participar de alguma forma, seja
porque à noite morria de tédio, seja porque sentia uma
inegável atração por aquele clima vulgar e libidinoso. É
claro que não podia sentar sozinho na praça, embora visse
homens fazendo isso, com os guias turísticos pousados
ao lado das cervejas, nem podia me aproximar de um dos
incontáveis grupinhos que passeavam para cá e para lá
e pedir para me juntar a eles. No entanto, depois de um
tempo, percebi que, contanto que caminhasse com o ar
resoluto de alguém que sabe para onde está indo, podia
simplesmente sair do meu apartamento e entrar no fluxo
da noite sem vergonha alguma.
Enrolava um ou dois baseados e os enfiava num maço
de cigarros, bebia um copo d’água, escovava os dentes,
descia as escadas do meu apartamento e saía. Enquanto
cruzava a praça, eu me sentia como se estivesse obser-
vando a mim mesmo do telhado do apartamento. De lá
de cima, via que estava andando rápido demais, então
parava um instante, acendia um baseado ou um cigarro,
e voltava a caminhar com passos menos frenéticos na
direção de Puerta del Sol, que ficava no centro exato da
cidade e que eu podia alcançar no intervalo de alguns
minutos. Lá parava para decidir a qual lugar fingiria que
precisava ir.

25
Na maioria das vezes, pegava a Gran Vía, onde
as prostitutas já estavam na rua fumando na frente das
lojas fechadas, no brilho difuso de um batom violeta ou
laranja, e finalmente chegava a Chueca, um bairro preva-
lentemente gay e, de acordo com os guias, famoso pela
agitada vida noturna, mas onde geralmente havia menos
americanos. Durante aqueles meses, as ruas de Chueca
ficavam tão apertadas e a praça tão cheia que era fácil posi-
cionar-se de forma que as pessoas à sua direita acabavam
achando que você estava com as pessoas à sua esquerda e
vice-versa. O mesmo acontecia nos vários barzinhos lota-
dos de gente; podia pedir uma bebida e ficar de pé com
ar de entediado no meio do bar, e quem estava perto de
mim achava que eu fazia parte da turma contígua; aliás,
muitas vezes acontecia de um membro de alguma turma
numerosa começar a conversar comigo, supondo que eu
fizesse parte do grupo e que fosse um cara que ele ainda
não havia tido a oportunidade de conhecer. No meio do
barulho infernal, eu não conseguia ouvir quase nada,
mas sorria e balançava a cabeça e às vezes levantava um
pouco o copo enquanto me aproximava gradualmente
do grupo do meu interlocutor, que aos poucos acabava
por me incluir.
Foi assim que conheci Arturo, um divisor de águas no
meu projeto. Estava numa boate abarrotada em Chueca,
local alternativo, decoração marroquina, almofadas bor-
dadas com lantejoulas por toda parte. Eu estava bebendo
um mojito muito doce quando ele chegou e começou a
cumprimentar as pessoas da turma ao redor da qual eu
estava orbitando. Abraçou-me calorosamente depois de
ter abraçado os outros e, já que eu estava próximo do bar,
me perguntou se eu queria beber algo. Enquanto esperá-
vamos o atendimento, ele perguntou como eu conhecera

26
fulano, que eu supus ser a pessoa que tinha organizado o
encontro. Dei de ombros, como se quisesse dizer que todo
mundo conhecia fulano. Depois me perguntou de onde eu
vinha e menti: Nova Iorque. Ele disse que tinha acabado
de voltar de lá ou que iria para lá dentro de pouco tempo.
Fazer o quê, perguntei. Ele respondeu para assistir a um
show de música ou para tocar num show de música, ou
para participar de alguma performance artística. O que
você está fazendo em Madri, ele indagou. Aí desembuchei
uma versão da resposta que tinha decorado em Providence
para a minha prova de espanhol, uma resposta longa e
articulada, preparada por um amigo que falava castelhano
fluentemente, algo que tinha a ver com a relevância da
Guerra Civil Espanhola – sobre a qual eu não sabia absolu-
tamente nada – para uma geração de escritores, poucos dos
quais tinha lido. Tinha a intenção de escrever, expliquei,
uma longa composição poética inspirada em fatos histó-
ricos que explorasse o legado literário da guerra. Era uma
resposta de considerável complexidade gramatical que
descrevia a importância do meu projeto fazendo amplo
uso do futuro do pretérito, do pretérito imperfeito do
subjuntivo e do futuro do presente. Para minha surpresa e
incômodo, essa resposta despertou o interesse de Arturo,
que começou a me bombardear de perguntas: conhece tal
professor ou tal poeta, já visitou tal museu ou tal arquivo?
Não consigo ouvir quase nada nessa boate, respondi. Ele
pediu duas cervejas e, assim que foram servidas, me fez
sinal para segui-lo até o lado de fora.
Lá fora acendemos um cigarro e, antes que ele tivesse
a chance de recomeçar a fazer perguntas, apressei-me a
dizer: não falo espanhol muito bem. Consigo ler muito bem,
menti, mas não falar. Ele riu e perguntou se eu conhecia
fulano e beltrano, e, quando falei que não, ele disse todo

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empolgado que tinha de me apresentar. Você é muito gentil,
eu continuava a repetir, o que ele achou hilário. Todas as
pessoas estilosas que passavam perto de nós cumprimen-
tavam-no. Ele me explicou que era dono de uma galeria em
Salamanca, o bairro mais chique da cidade, ou talvez tenha
falado que trabalhava nela e que sabe-se lá o irmão ou o
namorado era um fotógrafo famoso ou vendia fotografias
famosas ou era um operador de câmera muito conhecido.
Disse que a sua galeria era um ponto de encontro para
poetas onde se organizavam leituras públicas de poemas,
depois começou a falar minuciosamente, em termos que
eu mal conseguia acompanhar, sobre seu amor pela poesia
e, além da menção obrigatória a Lorca, enumerou vários
poetas espanhóis dos quais eu nunca tinha ouvido falar.
Depois de ter anotado um número de celular no verso, ele
me deu o cartão de visita da galeria, então colocou o braço
em volta de mim e me acompanhou de novo até o pessoal
que estava dentro da boate. Lá, todo mundo achou que eu
fosse um amigo de Arturo, trocamos nomes e cumprimentei
com dois beijinhos no rosto as duas garotas que estavam
mais próximas de mim, Teresa e Ester. Arturo mergulhou
logo noutra conversa, e eu aproveitei para escapulir até o
bar e pedir mais um mojito e, a partir daquele momento,
cada vez que achava que poderia ser chamado para con-
versar, me escondia perto do bar. Às vezes perguntava
aos outros se alguém queria uma bebida, comunicava isso
principalmente apontando para meu copo ou para o deles
e arqueando as sobrancelhas. Ester sumiu logo depois, mas
acabei comprando vários mojitos para Arturo e Teresa, e foi
só quando me vi descrevendo com entusiasmo meu projeto
para Teresa que me dei conta de que tinha bebido demais.
Preciso de ar, eu disse, e saí da boate, que parecia rodar
lentamente. Minha intenção era voltar para casa a pé e

28
perder os sentidos. Enquanto estava escorado na parede da
boate criando coragem para a caminhada, fiquei surpreso
ao encontrar Arturo e Teresa ao meu lado me pergun-
tando se eu estava bem. Sim, respondi, endireitando-me
abruptamente, o que levou de novo às vertigens, intensifi-
cando-as. Percebi que estava prestes a vomitar. Atravessei
a rua onde havia menos gente e uma lixeira e, momentos
antes de alcançá-la, vomitei. Quando terminei, levantei-
-me e notei que eles ainda estavam do outro lado da rua
me esperando. Teresa fumava, e Arturo, sorridente, me
oferecia uma garrafinha de água. Atravessei, lavei a boca,
bebi um pouco da água e agradeci a Arturo. Estamos indo
para outra festa de carro, ele disse, vamos aproveitar para
te deixar em casa.
No carro, não tive coragem de dizer a Arturo que eu
morava a apenas dez minutos a pé de lá, mas, no fim,
nem precisei dizer nada; o baseado que Teresa acen-
deu e passou para mim produziu na minha garganta
uma espécie de cone de calor intenso, que em seguida
migrou para meu peito, de onde se espalhou pela caixa
torácica. Percebi que minha língua estava dormente, ou
pelo menos estava formigando, e que eu não conseguia
lembrar o nome da rua onde morava, uma situação que
achei espantosa e hilária ao mesmo tempo. Virei a cabeça,
observei as luzes desfilando à nossa passagem e fiquei
encantado, então percebi que estava falando tudo isso
em voz alta e em inglês, que vários minutos haviam se
passado e que eu estava listando tudo que me parecia
maravilhoso enquanto avançávamos: postes de luz, fontes,
os plátanos, se é que era isso que eles eram. Se, por um
lado, durante a primeira fase do meu projeto eu falava
espanhol muito raramente, por outro, pouquíssimas vezes
tinha a oportunidade de usar meu inglês, que começou

29
a jorrar livremente de minha boca enquanto saíamos da
cidade e pegávamos a rodovia. Arturo e Teresa haviam
decidido me levar com eles para a festa, ou pode até ser
que eu tivesse pedido. Com uma eloquência e um ritmo
que achei extraordinários, descrevi Cyrus dando comida
aos morcegos ao amanhecer em Providence e contei sobre
a imagem de mim mesmo do telhado; elaborei uma espé-
cie de teoria geral da poesia, o mais defunto de todos os
veículos de comunicação, em cadências que aceleravam
e desaceleravam de uma forma tão comovente que me
convenci de que Arturo e Teresa se sentiriam na obriga-
ção de reconhecer minha profundidade, uma obrigação
ainda maior porque não me compreendiam, à exceção dos
ocasionais cognatos; eles vivenciariam o rítmico desdobra-
mento dos meus pensamentos sem serem distraídos por
pensamentos específicos. Eu estava usando a linguagem
da gramática pura e universal e sugerindo, ao mesmo
tempo, uma forma mais elevada de música; ao me escutar,
fiquei encantado com a bela composição sonora do meu
inglês, as pequenas mudanças fonéticas soando como
notas tocadas pelas semivogais e as consoantes fricativas,
e essas imperceptíveis variações acústicas criavam sutis
representações de cada coisa que as palavras denotavam,
enquanto a linguagem se tornava a experiência que eu
estava descrevendo. A certa altura, desmaiei.
Estacionamos junto com muitos outros carros em um
longo caminho de acesso circular; Arturo e Teresa estavam
conversando sobre algo. Teresa brincava com os cabelos
do Arturo e o chamava de Arturito. Estávamos na frente
de uma casa ostentosamente moderna, baixa, ampla, toda
feita de pedras brancas e hectares de vidraçaria. Cruzei
olhares com Teresa através do espelho retrovisor, e ela per-
guntou como eu estava. Arturo abriu a porta, e descemos

30
do carro; perguntei onde estávamos, e ele respondeu, na
casa do meu namorado. Teresa entrou na casa de braços
dados comigo – se isso era por ironia, porque eu era um
americano idiota e bêbado levado para a festa só de brin-
cadeira, ou porque ela sentia carinho por mim depois do
meu comportamento excêntrico no carro, eu não sabia
dizer, mas, ao menos, podia esperar que fosse a segunda
hipótese. Enquanto entrávamos, tive que me lembrar de
respirar. Só havia gente bonita na enorme sala com carpete
branco, móveis minimalistas e quadros enormes pen-
durados nas paredes perfeitamente iluminadas. Várias
pessoas nos cumprimentaram, e Teresa se afastou de mim
para beijá-las. De repente, eu me dei conta de que não era
atraente o bastante para aquele tipo de ambiente; feliz-
mente tinha uma estratégia para situações semelhantes,
desenvolvida durante várias visitas a Nova Iorque com
os obscuros filhos das estrelas: abria meus olhos mais do
que o normal, como se estivesse olhando para um ponto
específico, arqueava as sobrancelhas e deixava que minha
boca se enroscasse num esboço de sorriso. Uma vez conse-
guida essa expressão, eu a mantinha; ela comunicava um
ceticismo permeado de certa familiaridade, um senso de
tédio que seria completo, se não fosse por um vago inte-
resse antropológico por aquilo que estava ao meu redor,
uma expressão que continha certa dose de desprezo que
eu esperava ser interpretado como político, no sentido de
sugerir que, depois de uma noite frívola, eu voltaria para
a linha de frente de alguma luta que tornaria absoluta-
mente irrelevante qualquer experiência que eu tivesse na
companhia dessas pessoas. O objetivo da expressão era
fazer meus defeitos parecerem uma escolha deliberada e
infundir na falta de estilo dos meus cabelos e na minha
roupa fora de moda a força de um protesto; eu era um

31
personagem à parte daquela vida que já havia conhecido
e rejeitado, e agora estava de volta como um embaixador
proveniente de uma realidade mais imediata e justa.
Teresa me pegou pelo braço e me levou até um bar em
um canto daquela sala enorme. Depois de ter preparado
nossos drinques, acompanhou-me para um vasto pátio
com outro bar e com uma piscina em formato de gota,
difusamente iluminada e com ladrilhos azuis no fundo,
onde mais gente bonita, inclusive algumas garotas de
topless, estava tomando banho. Enquanto me esforçava
para manter meu look estratégico, Teresa me arrastou até
um jardim decorado com pedras que ficava além da pis-
cina, onde outro pequeno grupo de pessoas se juntara em
volta de um cara que tocava violão e cantava, este sentado
num banco de pedra, aquelas acocoradas no chão, Arturo
já entre eles. Sentamo-nos.
A partir daquele instante, começou uma luta entre
a música e meu rosto. Inicialmente fiquei irritado e me
senti quase ameaçado pelas expressões extasiadas do
público, rostos que mostravam um envolvimento tão
completo que me recusei a acreditar que fosse sincero,
rostos propositalmente dispostos a sugerir uma ideia de
mundo interior rico, rostos que convidavam os outros
a admirar o alheamento deles a respeito do próximo.
Os homens tinham a tendência de olhar para baixo; as
mulheres, levemente para cima; aqueles absortos numa
dolorosa concentração, estas encantadas, meio sorrindo,
mas beirando as lágrimas. Todos pareciam tomados por
uma profunda experiência artística. Vários baseados cir-
culavam entre esses mundos privados, e eu estava ficando
chapado de novo, perdendo a coordenação dos múscu-
los faciais. Meus olhos ainda estavam arregalados, só
que agora excessivamente, e não restava quase nada do

32
esboço de sorriso e, com ele, se esvaiu qualquer sugestão
de afastamento.
Enquanto tentava retomar o controle da minha expres-
são, comecei a ouvir a música, ouvi-la como se fosse
dirigida a mim, e não só como pretexto para posar. Ele
era, sem dúvida, um ótimo cantor, seu controle e sua
extensão evidenciavam longos anos de estudo, não que
eu entendesse muito, e tocava o violão com uma técnica
hábil e discreta, fazendo-me pensar num intérprete que
não sentia a necessidade de competir consigo mesmo.
Tomava o cuidado de não levantar a voz ou deixar que
ficasse apenas mais alta por si mesma, e tinha uma cadên-
cia delicada com um fraseado que oscilava entre fala e
canto, mundanismo e sofrimento, a melodia ficando mais
intensa para depois se dissolver. As letras eram compos-
tas quase exclusivamente de vogais, e decorreu um bom
tempo até eu entender que ele não cantava em espanhol,
e sim em português, de modo que vivenciei o lento diluir-
-se de um idioma no outro, um efeito poderoso que só foi
possível graças à minha ignorância de ambos. Enquanto
escutávamos, o dia desfilou diante dos meus olhos, mas
não apenas o dia: o passeio, a boate, o telhado do meu
apartamento, eu olhando do avião para mim mesmo em
cima do telhado, o embarque no avião em Nova Iorque,
a partida de Providence, a chegada a Providence quando
tinha 18 anos, e tudo o mais, voltando no tempo até a
Bright Circle Montessori e ao meu pai gentil mas insistente,
que me convencia a sair do carro. De repente percebi que
Teresa estava brincando com meus cabelos, como tinha
brincado com os de Arturo, e olhando para ela senti uma
espécie de perturbação que não soube definir. Levantei,
depressa mas silenciosamente, e deixei o grupo, afastando-
-me ainda mais da casa e da festa, entranhando-me na

33
escuridão até uma cerca de madeira que marcava o fim
da propriedade e o início de um declive, com algumas
luzinhas visíveis lá embaixo.
Não sentia mais nada enquanto fumava e me virava
para olhar em direção ao grupo e notava que alguém,
talvez Teresa, estava vindo na minha direção, a brasa do
cigarro desenhando pequenos círculos no ar enquanto
caminhava, o som do gelo tilintando no seu copo à medida
que ela se aproximava, e, com apreensão, me dei conta de
que ela esperava me encontrar mexido, muito comovido
e que era assim mesmo que eu tinha que me mostrar a
ela para justificar meu afastamento repentino dos outros.
Virei-me para a cerca, lambi as pontas dos dedos e passei
o cuspe debaixo dos olhos para parecer que eu tinha cho-
rado, repetindo essa operação até ter certeza de que a
minha pele estava suficientemente molhada para refle-
tir a luz ou pelo menos para que meu rosto se revelasse
úmido ao toque. Era mesmo Teresa, cantarolando a música
enquanto se aproximava. Ao chegar, ela me perguntou
docemente se eu estava bem, se havia algo que estava me
incomodando. Nada não, respondi, mas num tom que eu
esperava que exprimisse que dentro de mim se abrira um
abismo incomunicável. Ficamos lado a lado olhando para
o declive e, sentindo que ela esperava que eu dissesse algo,
falei: estou passando por um momento difícil. Foi uma
coisa muito estúpida de dizer, mas foi a única frase sufi-
cientemente carregada de mistério que consegui formular.
Por quê?, perguntou ela, pegando-me de surpresa. Tentei
modular meu silêncio de modo que lhe dissesse não que
eu não me sentia à vontade para me abrir com ela, e sim
que eram mesmo as minhas circunstâncias que não eram
comunicáveis, a não ser, talvez, através de um violão, e
com certeza eram complexas demais para meu espanhol,

34
e talvez até mesmo para a linguagem em geral. Conta pra
mim, ela pediu, e voltou a fazer aquela coisa com os meus
cabelos, e eu achei que, a essa altura, ela devia ter notado
meu rosto molhado, então, chocado com minhas próprias
palavras, eu disse: minha mãe morreu.
Coitado, coitadinho, Teresa disse, abraçando-me, e
eu pousei a cabeça no ombro dela, esforçando-me para
tocar sua pele com meu rosto molhado. A pele dela estava
muito quente. No começo, senti satisfação pela minha
atuação e excitação pelo contato com seu corpo, que logo
deram lugar a uma sensação de constrangimento quando
comecei a pensar na minha mãe, em como ela se sentiria
se soubesse o que eu tinha feito, enquanto o nojo de mim
mesmo se transformava no temor de que essa mentira, de
alguma forma, pudesse surtir efeitos materiais, pudesse
matá-la ou pelo menos que, quando algo acontecesse de
verdade à minha mãe, e mais cedo ou mais tarde tinha de
acontecer, eu me sentiria em parte responsável, como se o
que quer que ela tivesse sofrido pudesse ser atribuível a
esse exato momento, o momento em que eu havia trocado
a vida dela pela compaixão de uma estranha atraente.
Comecei a chorar, com meus braços em volta de Teresa,
dessa vez com lágrimas de verdade pingando ao longo
de suas costas enquanto ela me sussurrava palavras de
conforto, talvez finalmente acreditando na minha história.
Quando minhas lágrimas acabaram, ficamos sentados
juntos, em silêncio, contemplando o declive. Ela acendeu
um cigarro, passou-o para mim e começou a falar.
Descreveu a morte do pai quando ela era criança, ou
talvez como a morte do pai a fazia sentir-se como uma
criança cada vez que pensava nela. Ele tinha morrido
jovem, mas agora lhe parecia velho, ou ele era velho
quando morreu, mas nas lembranças dela se fazia jovem

35
de novo. Começou a citar os clichês que tivera de aturar:
com o tempo, tudo passa, agora ele está num lugar melhor,
ou talvez fosse ela mesma a oferecer para mim, sem
ironia, esses clichês. Começou a contar como Arturo tinha
reagido – disso, deduzi que eles eram irmãos –, como ela
havia descrito o paraíso para Arturo, explicando-lhe que
o paizinho estava no céu, e portanto concluí que Arturo
era o caçula. O pai deles tinha sido um famoso pintor ou
um colecionador de quadros, e ela se tornara pintora para
impressioná-lo ou tinha desistido de pintar porque não
aguentava a pressão do exemplo dele ou porque ele era
um idiota, mas a essa altura eu estava basicamente chu-
tando. Apenas sabia que era algo que tinha a ver com a
pintura e que era um episódio mencionado com amargura
ou remorso. Depois, sem nenhuma continuidade, ou com
uma continuidade que não captei, começou a contar sobre
suas viagens pela Europa, e depois a ouvi mencionar as
palavras Nova Iorque e faculdade. Em seguida, ela fez
uma pausa e, no momento em que parou de falar, prendi
a respiração porque tinha entendido o que estava prestes
a acontecer.
Em inglês fluente, ela me contou sobre a noite em que
foi sozinha a um cinema no Village, um filme entediante,
ela nem sequer se lembrava do título, mas, quando saiu
do cinema e ainda estava decidindo se ia pegar o metrô
ou um táxi para casa, a realidade cruel da morte do pai
– já fazia um ano – precipitou-se sobre ela pela primeira
vez e, de repente, começou a chorar, achou um telefone
público, ligou para a mãe e chorou muito até o cartão
acabar; então foi para uma banca de revistas, comprou
mais um, voltou para o telefone público, ligou para a mãe
de novo e chorou até o segundo cartão também acabar.
Ela disse que frequentemente se perguntava se aquele

36
telefone público ainda existia, agora que todo mundo usa
celular, depois olhou para mim sorrindo e disse que, assim
que eu voltasse para Nova Iorque, poderia procurá-lo e,
se ele ainda estivesse lá, eu poderia comprar um cartão
telefônico, ligar para ela, e nós poderíamos chorar juntos
pela minha mãe.

37
2
Pensava que tinha deixado bem claro para Arturo, ao
longo de várias conversas, que nunca iria ler em público, que
estava disposto a presenciar a leitura, mas só para escutar,
não que esperasse entender grande coisa do que iria ouvir,
e, por mais que sua proposta de traduzir meus poemas me
lisonjeasse, eu era tímido e ambivalente demais a respeito
do atual estado da minha “obra” para declamá-la na galeria
junto com a tradução dele. Mesmo antes da proposta, não
me sentia bem por ter cedido aos seus pedidos insistentes
para ler meus trabalhos, trabalhos que eu havia fotocopiado
para ele diretamente do meu caderno e que imaginava que
ele tivesse lido com a ajuda de Teresa, já que seu inglês era
péssimo e se limitava a poucas frases rudimentares. Mas,
quando ele veio me buscar e me viu de mãos abanando,
exclamou que era para eu pegar meus poemas correndo, que
já estávamos atrasados, e insistiu tanto que acabei subindo
as escadas às pressas, achando que talvez ele estivesse só
precisando tirar mais uma cópia. Então, agarrei meu caderno
e minha bolsa e, enquanto dirigíamos rumo à galeria, repeti
que não iria ler nada de nada. Claro, ele respondeu, claro.

41
Estava começando a ficar frio. Não sei bem a razão,
mas nunca tinha pensado que em Madri houvesse
inverno, mesmo assim, eu estava suando, sem dúvida
visivelmente, enquanto Arturo cumprimentava e me
apresentava aos fumantes, que tiritavam de frio na frente
das portas de vidro da galeria. Estava nervoso demais
para entender os nomes das pessoas com quem troquei
apertos de mão, porém estava ciente de que meus beijos
eram muito desajeitados e que tinha beijado uma das
mulheres no cantinho da boca, mais na boca que no rosto.
Isso acontecia com frequência. Tirando alguns episó-
dios embaraçosos quando havia cumprimentado umas
nova-iorquinas particularmente cosmopolitas com um
beijinho no rosto, ou vários parentes quando criança,
antes de iniciar meu projeto, era raro beijar uma mulher
com quem eu não estivesse envolvido sentimentalmente.
Não sabia bem o que teria acontecido se tivesse tentado
cumprimentar uma mulher com um beijo em Topeka:
caso ela estivesse namorando, certamente teria apanhado
feio do namorado; caso contrário, correria o risco de ter
de namorá-la. Frequentemente me ocorria que minha
educação teria sido completamente diferente se beijar
tivesse sido um gesto normal; a disseminação de todo
aquele erotismo nas relações sociais teria surtido efeitos
imprevisíveis. Em Providence, teria até me saído são e
salvo, mas não sem dar a ideia de ser afetado e afemi-
nado; de qualquer forma, nem me passou pela cabeça
experimentar. Mas, na Espanha, eu era culpado de abusar
dessa coisa do beijo, ou pelo menos de investi-la de uma
carga libidinosa que o beijo não devia conter. E, quando
você estava bêbado ou chapado e, ainda por cima, era
estrangeiro, podia se dar o luxo de errar e pegar o can-
tinho da boca.

42
Entramos na galeria e avistei Teresa e Rafa, o namo-
rado de Arturo, de pé, ao lado de uma mesa cheia de
tapas e vinho. Estava caminhando na direção deles com
a intenção de quebrar minha regra e pedir, em inglês,
que Teresa explicasse a Arturo que eu não iria ler e a
respectiva razão quando, para meu horror e minha sur-
presa, reconheci María José, da fundação, entre as pessoas
que contemplavam as obras penduradas nas paredes da
galeria, brilhantes fotografias em preto e branco de maqui-
nários industriais em desuso. Eu a encontrara apenas
duas vezes: a primeira na minha chegada, para cumprir
as formalidades burocráticas, e a segunda quando tinha
entregado um breve relatório em inglês sobre minhas
atividades até então, um relatório do qual dependia a
continuidade do pagamento da minha bolsa. Ambos os
encontros haviam sido desconfortáveis o bastante para
tornar a imagem dela indelével. Estava convencido de que
ela podia me ler perfeitamente, que minha desonestidade
lhe era completamente evidente, e de fato não era preciso
haver uma particular perspicácia por parte dela, dado
o estado do meu espanhol e já que, a cada vez que ela
recomendava o nome de um poeta ou de um especialista
da Guerra Civil durante uma conversa, eu me limitava a
piscar os olhos e a gaguejar que o nome me soava familiar,
embora não tivesse certeza de que usava o termo correto
para “familiar”.
Ela notou que eu a vira e se aproximou sorrindo, tro-
camos dois beijinhos bem longe da boca, e ela disse algo
sobre a oportunidade de poder enfim ouvir meu trabalho,
uma oportunidade, supus que tivesse dito, perfeita, já
que ela não me avistara em nenhum dos eventos sociais
organizados pela fundação. Depois apontou alguns outros
americanos que eu imaginei que também fossem bolsistas

43
da fundação; eles falavam um bom espanhol, muito melhor
do que o meu, mas em voz alta demais, e eu consegui
perguntar a ela onde tinha ouvido falar do evento. Ela
respondeu que a galeria havia adicionado a fundação no
seu grupo de e-mails a partir da “minha” leitura.
Consegui me livrar de María José, beijei Teresa, abra-
cei Rafa e encarei Arturo com a maior frieza possível
enquanto tentava imaginar uma escapatória. Com um
tapinha nas costas, Arturo me assegurou que daria tudo
certo e começou a folhear seu caderno – que eu supus
conter as traduções – enquanto me perguntava quais eram
os poemas que eu pretendia ler. Pensei em alegar que
não me sentia bem, e com certeza estava suficientemente
pálido, mas temia que deixar de me exibir na frente da
María José pudesse engatilhar uma crise irreversível na
minha relação com a fundação, revelando, de uma vez por
todas, a vacuidade total do meu projeto e me obrigando
a voltar desacreditado para casa. Tinha a boca seca e me
servi uma taça de vinho branco, respondendo que não
importava quais poemas iria ler, mas que seriam apenas
um ou dois. Teresa sugeriu que eu lesse aquele sobre me
ver em terra do avião e no avião da terra, e eu rebati, em
minha primeira expressão de frustração em espanhol,
que o poema não era sobre aquilo, que os poemas não
são sobre nada, e os três olharam para mim chocados.
Pedi desculpas, bebi de um gole só o vinho e enchi a taça
de novo. Então, notei que Teresa parecia sinceramente
magoada e achei que aquele era um sinal muito mais
significativo de seu carinho por mim do que o fato de ela
ter preferência por alguns dos meus poemas. Vamos ler
aquele mesmo, concordei.
O público começou a se sentar. A galeria era comprida
e estreita, tinha o pé-direito alto, as paredes brancas e

44
estava lotada; havia cerca de oitenta pessoas. Também
havia um palco com uma luminária de chão, um micro-
fone e um pequeno jarro de água. Enquanto sentava com
Teresa e Rafa na quarta fileira, chateado, ansioso a ponto
de passar mal, e vasculhava minha bolsa o mais discre-
tamente possível à procura de um tranquilizante, Arturo
se aproximou do palco, agradeceu pela presença de todos
e anunciou a programação da noite. Tínhamos a sorte
de haver na galeria duas das vozes mais interessantes
da poesia americana e espanhola. Começaríamos com
Tomás Gomez ou Gutiérrez, que ganhara esse e aquele
prêmio e cuja obra tinha tais e tais características, e que
também era um pintor talentoso. Depois iríamos conhe-
cer Adam Gordon, que estava em Madri como bolsista
de uma prestigiosa fundação, cuja obra tinha sei lá que
efeito sobre sei lá o quê, cuja poesia era profundamente
política e rememorava um poeta espanhol de quem eu
nunca tinha ouvido falar, com a única diferença de que,
em vez de atacar Franco, atacava os Estados Unidos de
Bush. A apresentação intensificou meu nervosismo, pois
objetivamente não tinha nada a ver com minha poesia, se é
que ela podia ser considerada como tal, e enquanto Arturo
sentava entre os aplausos e Tomás Gomez ou Gutierrez
se aproximava do palco, imaginei-me quebrando a cara
de Arturo com o microfone ou a luminária.
Não parecia que Tomás estava prestes a declamar
poesia, e sim a cantar uma música de flamenco ou a chorar;
não disse obrigado nem boa-noite, nada disso, apenas fez
uma pausa dramática, como se estivesse reunindo forças
para enfrentar um feito indiscutivelmente heroico. Tinha
cabelos compridos até os ombros, que sempre caíam no
rosto enquanto arrumava as folhas de papel, de modo
que tinha de ajeitá-los o tempo todo para trás com um

45
gesto que achei ensaiado. Ele me pareceu uma caricatura
de si mesmo, uma caricatura de El Poeta. Mais algumas
pessoas entraram em pequenos grupos na galeria, e ele
as fitou com uma expressão séria até todas encontrarem
um assento. Depois, baixou o olhar e contemplou as
folhas, e de novo ergueu os olhos para o público e, assim
que o silêncio atingiu um nível de intensidade que ele
julgou adequado, anunciou o título do que devia ser seu
primeiro poema, “Mar”. Para minha surpresa, o poema
acabou sendo totalmente compreensível, um verdadeiro
esperanto, algo repleto de clichês: ondas, coração, dor,
lua, seios, praia, vazio etc., recitado de uma forma tão
pretensiosa que, por um instante, achei que aquele ar
intenso e grave talvez tivesse alguma intenção paródica.
Mas depois ele declamou o segundo poema, “Distância”:
montanhas, céu, coração, dor, estrelas, seios, rio, vazio etc.
Olhei para Arturo e, pela expressão dele, era evidente que
estava passando por uma profunda experiência artística.
Talvez, perguntei a mim mesmo ou tentei me perguntar,
eu não esteja entendendo; talvez essas palavras tenham
um peso e um valor intrínseco específicos que não sou
capaz de alcançar em espanhol ou quem sabe o autor
esteja modulando sutis variações sobre um estilo literário
sexista com o qual não tenho familiaridade. Enquanto
Tomás lia o terceiro poema, “Devaneio sobre a arte” ou
“Arte dos devaneios”, eu me esforcei para escutá-lo como
se o poema fosse imprevisível e profundo, como se essas
caraterísticas fossem fatos e a eventual incapacidade de
ser seduzido pudesse ser atribuída exclusivamente a mim.
A intensidade da minha escuta pelo menos devolveu a
cada palavra sua estranheza, obrigou-me a vivenciá-la
como puro som e, portanto, a me apropriar novamente
do milagre do som se tornando, ou quase se tornando,

46
sentido, e dessa forma consegui ignorar meu desgosto,
mas não por muito tempo; escutar essas metáforas repisa-
das como se fossem muito originais exigia enorme esforço
de concentração, até mesmo em espanhol. Foi só quando
comecei a analisar a cena em todas as suas facetas que
meu interesse se reacendeu: ali havia cerca de oitenta
pessoas reunidas para escutar aquela merda como se
representasse a linguagem cotidiana deles depois de ter
passado pelo cadinho do espírito humano e ter reemergido
purificada, redimida. Ou melhor: havia cerca de oitenta
pessoas convencidas de que a maquinaria ideológica e
comercial de sua gramática estivesse sendo desconstru-
ída, ou pelo menos posta a nu, embora isso não fizesse
o gênero de Tomás, que era mais o tipo de cadinho do
espírito humano. Se as pessoas se sentiam genuinamente
comovidas, confiantes de que haviam descoberto o que
quer que fosse que elas tinham projetado nesses versos tão
estereotipados, ou ainda melhor, se as pessoas se sentiam
na obrigação de simular um envolvimento emotivo em
algo que reconheciam como um embaraçoso substituto de
uma arte que, por alguma razão, não era mais praticável,
um veículo de comunicação já defunto cuja antiga potên-
cia só pode ser sentida como ausência – pois bem, eram
esses cenários que, aos meus olhos, adquiriam um pathos
que os versos não tinham, aliás esse pathos aumentava
de modo proporcional ao fracasso dos versos: quanto
pior a experiência do real, maiores as possibilidades do
virtual. Foi a essa altura que consegui sentir a absoluta
idiotice dos versos de Tomás como uma espécie de sucesso,
especialmente considerando o efeito involuntariamente
autoparódico ínsito naquele gesto com os cabelos e na
maneira de agarrar com força o púlpito, como se as ondas
de emoção que o atingiam pudessem derrubá-lo, e comecei

47
a relaxar um pouco a respeito da minha iminente exibição,
graças também ao tranquilizante, que, sem dúvida, estava
fazendo sua parte. Disse a mim mesmo que, qualquer coisa
que eu fizesse, qualquer coisa que qualquer poeta fizesse,
os poemas sempre representariam para os leitores telas
sobre as quais poderiam projetar sua desesperada fé na
potencialidade de uma experiência poética, o que quer
que ela seja, ou pelo menos lhes dariam a oportunidade
de chorar sua impossibilidade. Minha poesia, disse a mim
mesmo, ofereceria ao público exatamente isso, de uma
forma parecida com a de Tomás, ou talvez com uma eficá-
cia ainda maior, pois, em sua incongruência e desordem,
meus poemas eram informes, não tanto poemas quanto
um acúmulo de materiais a partir dos quais era possível
construir poemas, pura potencialidade à espera de ser
articulada. E a tradução consolidaria o vínculo entre minha
poesia e o virtual, pois o público teria de se perguntar o
que Arturo ou a língua espanhola haviam sido incapazes
de transportar do inglês, de modo que o fracasso e o poder
negativo deles eram garantidos.
O jeito cada vez mais histriônico de Tomás era o sinal
de que a leitura estava terminando e, depois do enésimo
poema horroroso, ele fez uma pausa, olhou de novo para
o público e abandonou o púlpito sem falar uma pala-
vra. A essa altura, o público aplaudiu. Quando as palmas
cessaram, Arturo me fez um aceno. Aproximamo-nos
do púlpito, e ele explicou que eu recitaria os poemas
em inglês, e depois ele leria a tradução. Talvez ele tenha
afirmado também que a força do texto original seria evi-
dente até para quem não falava uma palavra de inglês.
Enquanto ele dizia tudo isso, ou algo do tipo, eu me servi
um copo de água, que quase derramei enquanto bebia,
e abri o caderno. Quando ele se virou e olhou para mim

48
fazendo sinal de que eu podia começar, me aproximei
do microfone, agradeci e comecei a ler o poema, num
tom monótono e deliberadamente indiferente, mas com
uma confiança inesperada, considerando que meus joe-
lhos estavam trêmulos e minhas mãos, geladas; comecei a
lê-lo como se estivesse tão convencido da força do poema
que não precisava me entregar a uma recitação dramá-
tica ou, ao contrário, como se não fosse um poema, mas
apenas algum anúncio: esse trem está atrasado devido
às obras, algo do tipo. Enquanto escutava minha própria
voz, fantasiava que a ambiguidade do meu estilo – fosse
o reconhecimento da energia intrínseca ao poema ou uma
leitura apropriada à sua total banalidade – exerceria algum
tipo de poder, justamente porque vinha depois do Tomás:

Abaixo do arco do violoncelo


Abro o Lorca ao acaso
Viro a cabeça e observo
As luzes deslizando, uma clareira
Entre os possíveis referentes
Entre as pessoas que estudam
As paredes da galeria, brilho difuso
De cor laranja e violeta, menino
Atrás do vidro, adulto que recua
Mordi com força para tornar o corte mais profundo
Imaginava que os passageiros
Conseguissem me ver, imaginava que eu mesmo era
Um passageiro que podia me ver
Enquanto olhava para cima…

Quando concluí minha parte da leitura, voltei a meu


assento enquanto o público aplaudia e logo depois percebi
que, sem dúvida, eu deveria ter ficado de pé ao lado de

49
Arturo enquanto ele lia as traduções, só que agora estava
relaxado demais para voltar ao palco.
Arturo hesitou, e eu deduzi que ele havia esperado
que minha atuação fosse mais parecida com a do Tomás,
que havia se preparado para recitar a tradução de forma
muito mais dramática e que agora estava tentando enten-
der se deveria lê-la no estilo em que eu lera o original
ou recitá-la como ele havia imaginado que faria antes
de minha leitura; fiquei feliz por vê-lo em dificuldade.
Então ele começou a ler de um jeito que lhe devia parecer
um ponto intermediário entre o meu estilo e o de Tomás,
agarrando o púlpito como este, mas imitando meu tom
frio, e isso surtiu o estranho e oportuno efeito de fazer sua
voz parecer dublada.
No começo, ouvi só um amontoado de palavras em
espanhol, mas nada que pudesse reconhecer como meu;
afinal, meus primeiros poemas não continham nada de
particularmente original, sendo constituídos apenas de
traduções incorretas misturadas com fragmentos reci-
clados de e-mails deletados. Mas, enquanto a leitura do
poema continuava, comecei lentamente a reconhecer algo
parecido com a minha voz, uma tomada de consciência
que se tornou ainda mais estranha pelo fato de que nunca
antes havia reconhecido minha voz. Algo na disposição
dos versos, não nas palavras em si ou no significado delas,
revelava o espectro de uma presença por trás do espanhol,
e essa presença era a minha, ou talvez fosse a minha ausên-
cia; era como entrar num quarto onde tinha certeza de que
nunca estivera e encontrar nos móveis ou nas bitucas no
cinzeiro, ou na xícara de café deixada no parapeito perto
do chuveiro, os sinais de que tinha acabado de sair de lá.
Não que já tivesse possuído aquele sofá ou aquela xícara
em especial, mas a forma como eram arranjados, como

50
tinham sido usados, exigia, ou sugeria, a minha presença;
não que eu sofresse de amnésia ou de uma sensação de
déjà-vu, mas estava tanto naquela sala quanto fora dela,
talvez no parque, e não apenas no parque, mas em milhões
de outras possíveis salas e parques, ao mesmo tempo.
Qualquer objeto contingente, sofá ou xícara, “laranja” ou
“naranja”, podia formar a constelação do meu ego, podia
formá-la sem mim, mas não era exatamente assim; era
como ver a mim mesmo olhando para baixo para mim
mesmo olhando para cima.
Quando Arturo terminou de ler, houve uma longa
pausa seguida de um aplauso que vivenciei como insoli-
tamente forte, e ele fez um gesto na minha direção como
se redirecionasse aquelas palmas, e depois disse algo no
microfone sobre Tomás, e o aplauso se tornou ainda mais
forte para incluí-lo antes de cessar gradualmente. Algumas
pessoas se levantaram dos assentos e saíram para fumar
– suponho que fumar faça mal à arte –, enquanto outras
mergulharam nos tapas e no vinho. Teresa se aproximou e
me parabenizou, dizendo que eu tinha sido ótimo. Rafa me
abraçou, ele nunca falava muito, e depois notei que María
José estava esperando para falar comigo, acompanhada
por um séquito de bolsistas americanos.
Apresentei Teresa a María José e vice-versa, e Teresa
cobriu de elogios minha escrita, acrescentando algo
sobre quão maravilhoso era a fundação ter me trazido
para Madri. Embora não conseguisse entender boa parte
do que ela dizia, estava claro que era eloquente, que
Teresa não falava como amiga, mas como porta-voz
autonomeada da Arte Espanhola, e que María José ficou
impressionada, ainda que um pouco confusa. A mim,
María José disse que tinha gostado muito da leitura,
que não via a hora de discutir comigo a relação entre os

51
novos poemas e meu projeto de pesquisa sobre a Guerra
Civil, talvez em um dos próximos eventos dedicados aos
trabalhos dos bolsistas. Assenti algumas vezes e respondi
claro. Depois uma bolsista se apresentou e disse, aliás
gritou, que ela também era poeta, e que adoraria tomar
um café comigo um dia para conversar sobre a poesia
espanhola. Assenti para ela também, mas, antes que eu
pudesse responder claro, Arturo saiu me arrastando para
fora do grupo, a fim de me apresentar a Tomás, que tinha
um ar de profundamente incompreendido.
Trocamos um aperto de mãos, e eu disse que havia
gostado da sua leitura, ao que ele agradeceu, mas sem
retribuir, suponho que por não ter gostado dos meus
poemas e porque jamais poderia mentir por pura educa-
ção em se tratando da mais sacrossanta das artes. Fiquei
surpreso com quão irritado ele conseguiu me deixar, e tão
depressa, mas não disse nada; com um sorrisinho, dei a
entender que meus elogios eram ditados apenas pela boa
educação, mas que na verdade eu acreditava que seus
poemas representavam o fundo do poço da sua língua ou
de qualquer outra língua ou forma artística.
Quando tive certeza de que minha expressão tinha
surtido o efeito desejado, deixei-o ali plantado; sem pedir
licença, saí da galeria, posicionei-me a alguns metros dos
outros fumantes e acendi um cigarro, ostentando minha
indiferença ao frio. Percebi que os outros fumantes cochi-
chavam sobre mim num tom respeitosamente abafado e,
embora soubesse que isso não se devia à minha leitura, e
sim ao fato de que eu lhes tinha sido apresentado como
um importante escritor estrangeiro, a cena me agradou.
Depois de alguns instantes, uma pessoa do grupo se apro-
ximou e se apresentou como Abel. Trocamos um aperto
de mãos, e ele disse que havia gostado da minha leitura

52
e que as fotos expostas nas paredes da galeria eram suas
e, embora eu nem tivesse olhado para elas, respondi que
as achara maravilhosas. Talvez porque tenha feito esse
elogio como se eu fosse muito competente em matéria de
fotografia, ele pareceu ansioso em me demonstrar seus
conhecimentos de poesia e começou a comparar meu
estilo com o de um escritor espanhol que eu não conhecia.
Enquanto ficava cada vez mais animado, outro fumante
se juntou a nós e, após escutar nossa conversa por um
tempo, começou a discordar, inicialmente com cortesia
e depois com crescente veemência. Quanto mais acalo-
rada a conversa, mais acelerada ficava a fala, e menos
eu entendia. Mas, sob o brilho residual do que cada vez
mais me parecia uma leitura triunfante, eu tinha a certeza
de que conseguiria traduzir ou imaginar uma tradução
apenas com a força de vontade e cheguei a acreditar que
estava acompanhando aquela discussão, que tinha o tom
e o andamento de alguns debates que eu já tinha ouvido.
O poeta com quem Abel me comparara era um
reacionário, pareceu dizer o segundo fumante, e seu con-
servadorismo formal era o resultado da sua simpatia pela
direita; minha escrita o recordava só em termos de sonori-
dade, mas minha abertura formal sugeria um talento para
analisar a experiência contemporânea e era muito diferente
da nostalgia fascista de fulano por uma perdida coesão
social. Minha obra, disse o segundo fumante, lembrava
muito mais a de outro poeta cujo nome eu nunca tinha
ouvido falar, que fugira de Franco e morrera no exílio, um
poeta cuja capacidade de conviver com as contradições
sem sentir a menor necessidade de uma resolução violenta
reproduzia formalmente a possibilidade de uma utopia.
Acenando com a mão que segurava o cigarro, Abel rejeitou
tudo como simplista, como uma associação superficial entre

53
experimentação formal e política de esquerda, quando, na
verdade, os principais inovadores do Modernismo eram
eles mesmos, fascistas ou simpatizantes do fascismo, e, no
contexto do imperialismo americano, acredito que ele tenha
argumentado, a tarefa mais urgente da poesia é restabelecer
formas de complexidade e permanência suficientes em
alternativa às atraentes superfícies descartáveis da cultura
mercantilizada.
Não é possível superar a mercantilização da linguagem
refugiando-se num passado imaginário, pode ter rebatido
o segundo fumante, que é a marca distintiva da fantasia
cultural fascista. Pelo contrário, deveriam ser encontradas
novas formas capazes de prefigurar usos alternativos da
linguagem, que era o que a minha obra, de algum modo,
conseguia fazer, quase à minha revelia, justapondo, de
modo provocativo, material de arquivo reciclado à língua
falada em nossos dias. Agora todos os fumantes estavam
num único grupo, muitos acendendo seus segundos e
terceiros cigarros, e ficou claro que todos esperavam que
eu desse minha contribuição ao debate. Eu disse, ou tentei
dizer, que a tensão entre as duas posições, o elemento
que as dividia, talvez fosse ela mesma a verdade, uma
afirmação que eu poderia ter feito sem saber nada sobre
as duas posições, e tive a sensação de que os fumantes
acharam meu comentário profundo.
Acendi outro cigarro para lhes dar tempo de absorver
adequadamente minha brilhante intuição e, durante o silên-
cio que se seguiu, esforcei-me para imaginar a relação entre
meus poemas e as valas comuns de Franco, como meus
poemas podiam ser relevantes em relação à sistemática
e deliberada destruição de um povo ou de um planeta,
à abolição das classes sociais ou como, de alguma forma,
podiam representar uma intervenção política significativa.

54
Esforcei-me para pensar nos meus poemas, ou em qualquer
poema, como máquinas capazes de fazer eventos acontece-
rem, de mudar os governos, a economia, ou apenas a sua
linguagem, e o conjunto das suas funções sensoriais, mas
não consegui imaginar isso nem me imaginar imaginando
isso. Todavia, quando imaginava a completa vitória de
todas essas outras coisas sobre a poesia, quando imagi-
nava – pressentimento terrível – um mundo privado até
mesmo dos pretextos mais idiotas para escrever poemas
que permanecessem fiéis às possibilidades virtuais do
meio, privado dos rituais absurdos como aquele do qual
eu tinha participado naquela noite, então eu intuía uma
perda inestimável, uma perda não de obras de arte, mas
da própria arte, e portanto infinita, o triunfo total do real,
e me dei conta de que em um mundo assim eu engoliria
uma cartela inteira de comprimidos brancos.

Tendíamos a acordar ao mesmo tempo, Isabel e eu, e


isso nos dava a sensação de que algo, um barulho interno
ou externo aos nossos sonhos, nos acordara, e ficávamos
à escuta, cara a cara, confusos, à espera de que o barulho
se repetisse, o que não acontecia, embora nunca tivesse
mencionado a ela essa ideia, então podia tranquilamente
ser que ela nunca tivesse passado pela experiência que
eu lhe atribuía. Isabel se levantava da cama e se enrolava
na toalha que estava sempre estendida na cadeira, depois
tomava banho enquanto eu preparava o café. Assim que o
café ficava pronto, eu a chamava numa voz suficientemente
alta para ela conseguir me ouvir sob o chuveiro, então ela
fechava a torneira, se enrolava de novo na toalha, e tomá-
vamos café sentados no sofá, fumando, com o pequeno
aquecedor a gás do nosso lado. Depois eu tomava banho e

55
fazia tudo que não podia fazer na frente dela: cagar, tomar
os comprimidos, e, quando saía do banheiro, encontrava-a
já arrumada prendendo os cabelos.
Ela sempre estava prendendo ou soltando os cabelos ou
o corpo de algum tecido, se enrolando ou se desenrolando
de um xale ou de um cachecol, e, sempre que pensava
nela, eu a imaginava ocupada numa dessas atividades.
Não conseguia imaginá-la imóvel, completamente ves-
tida ou despida, mas apenas no processo de cobrir-se ou
descobrir-se elegantemente de algum pano. Tentei lhe
explicar tudo isso, pois achava que soaria poético, mas
não conhecia nenhum dos verbos adequados, então aludi
ao fato de que me faltavam as palavras para descrever sua
tendência de estar sempre em movimento, e expliquei
como eu não conseguia imaginá-la parada através de uma
série de gestos que comunicavam que meu discurso era
só uma pálida imitação do que eu pretendia comunicar,
deixando que fosse ela a encontrar o fio da meada dos
meus pensamentos.
À exceção dos diálogos mais elementares, me passa
isso ou me passa aquilo, que horas são e assim por diante,
nossas conversas em grande parte se resumiam a gestos
meus na direção de algo que eu não conseguia expressar,
para depois tentar descobrir o que ela havia adivinhado
e, sempre por meio de gestos, responder. Nessa segunda
fase da minha pesquisa, Isabel atribuía um significado
profundo, aliás uma pluralidade de significados pro-
fundos, ao meu discurso fragmentado, intuindo, desses
fragmentos, abismos de introspecção e eloquência latentes,
e, justamente porque projetava o que achava que tinha
descoberto, ela acabava sentindo intensa afinidade com
os mecanismos da minha mente, ou ao menos assim eu
gostava de pensar.

56
Enquanto visitávamos o Reina Sofia, eu improvisava
frases repletas de verbos não conjugados ou fragmen-
tos de frases a respeito dos quadros que ela desenvolvia e
concatenava em observações penetrantes sobre os conceitos
de linha e cor, de arte e instituições, de Velho e Novo Mundo.
Ou pelo menos eu imaginava que ela fizesse tudo isso.
Fotografar um quadro, eu dizia, assumindo uma expressão
críptica e derrisória enquanto observávamos os turistas na
frente do Guernica, e depois observava a expressão dela
enquanto essa frase era elaborada e transformada numa
meditação sobre a obra de arte na era da reprodutibili-
dade técnica. Dizia: O azul é uma ideia de distância, ou:
A literatura acaba naquele azul específico, ou: Aqui estão
vários azuis subjetivos; e noutra vez dizia: Escrever com
a escultura…, Pensar o vertical…, Recusar um século de
sombras… etc., e depois observava enquanto ela articu-
lava a frase para si mesma, enriquecendo-a com todas as
gradações de significado possíveis, para então reaplicá-
-la às telas. Naturalmente, também conversávamos sobre
bobagens, mas a interação mais intensa e inegavelmente
mais íntima acontecia quando ela permeava meus silêncios,
meu espanhol lacunar, de uma formidável força intelec-
tual e estética. E acredito que ela permeasse o meu corpo
também da mesma força, interpretando cada toque meu
como se fosse acentuado por uma intenção ambígua, como
se ele também precisasse de tradução, e assim cada contato
se expandia numa variedade de contatos. A experiência
dela com meu corpo, eu pensava, era mais a experiência
da sua experiência com o próprio corpo, da receptividade
sinfônica dele, frase ridícula, e minha experiência com meu
corpo era a experiência dela vivenciada indiretamente, que
significava que meu corpo havia se dissolvido, e isso era
tudo o que eu queria do meu corpo, dadas as circunstâncias.

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Isabel não tinha carro próprio, mas parecia ter à dispo-
sição vários carros. Nos finais de semana durante os meses
invernais do meu projeto, viajávamos em um pequeno
carro vermelho, um pequeno carro amarelo ou um carro
familiar marrom para qualquer cidadezinha nos arredores
de Madri onde houvesse uma igreja, um restaurante ou
um parente interessante. Ela parecia ter inúmeros tios e
primos e, depois de ter visitado algumas ruínas, ou o ené-
simo El Greco, ou comido perdiz ou leitão ou alguma outra
especialidade recém-abatida, íamos visitar a família dela,
fumar e beber. Eu tinha morado na Espanha por tempo
suficiente para me sentir na obrigação, quando encontrá-
vamos alguns membros da família dela, de parecer mais
tímido e reservado do que monolíngue. Felizmente, era
fácil dar essa impressão, pois, desde que me lembrasse de
modular minha expressão, sintonizando-a com o tom de
quem quer que estivesse falando naquele momento, eu
conseguia fingir que estava compreendendo e, se falava
em voz baixa, quando era mesmo obrigado a fazê-lo, e
fumava com um ar meio rabugento, ninguém tentava me
envolver na conversa. Funcionou com todos menos com
a tia Rufina.
Fazia sol, mas estava muito frio no dia em que fomos
de carro para Toledo e, pelo jeito de Isabel, deduzi que
sua relação com Rufina era complicada, pelo menos ela
passava o tempo todo refletindo em voz alta se era uma
boa ideia visitar a tia depois de ter visitado a cidade, se
teríamos tempo de visitá-la ou se ela não estaria ocupada,
enquanto costumávamos aparecer nas casas de outros
parentes sem o menor aviso prévio e a qualquer hora,
sendo recebidos com enxurradas de beijinhos, e participá-
vamos logo de qualquer coisa que eles estivessem fazendo,
geralmente beber ou assistir a televisão. Na estrada para

58
Toledo, passamos por vários ônibus turísticos lotados com
o que pareciam ser turistas americanos, câmeras digitais já
nas mãos, e enquanto os ultrapassávamos manifestei meu
desprezo infinito a cada turista com cujo olhar cruzei, o
que podia facilmente fazer com as sobrancelhas. Meu olhar
os acusava de apoiar a guerra, de tratar as pessoas e as
relações interpessoais como objetos, de ser os camicases de
um império assassino e prepotente, acusava-os como se eu
fosse um escritor em fuga de um regime repressivo, e não
um dos seus bolsistas mais desonestos. De fato, sempre
que encontrava um americano, inundava-o de um des-
prezo silencioso, e isso não abrangia apenas os estudantes
universitários, membros de alguma fraternidade, todos
iguais e barulhentos, que se tratam pelo sobrenome e se
chamam de viado ou as típicas estudantes patricinhas de
cabelo platinado com indefectíveis minissaias que passam
um ano de universidade no exterior dividindo o próprio
tempo entre os cyber cafés e las discotecas e reclamando da
comida e da pressão da água nas casas onde estão hos-
pedadas, que escolheram a Espanha em vez do México,
onde Cyrus se encontrava, porque era mais segura, mais
limpa e mais branca, embora fosse mais longe dos con-
domínios fechados dos pais delas. Não desprezava só os
americanos de meia-idade e pochete, chapéu estilo safári
e sua prole choraminguenta, ou os mochileiros barbudos
que se comportavam como se ficar sem banho equivalesse
a um exílio da sociedade civil; reservava também minha
antipatia mais intensa aos americanos que se esforçavam
para dar a impressão de estarem integrados, que faziam
amizade apenas com espanhóis e evitavam a companhia
dos compatriotas, que se recusavam a falar inglês e que,
quando falavam espanhol, tentavam imitar o sotaque
local. No início, eu não estava ciente da presença desses

59
americanos mais sutis e insuspeitáveis em Madri, mas,
depois de me tornar um deles, passei a me dar conta de
quantos éramos; muitas vezes eu me parabenizava por
ter almoçado em um restaurante sem turistas, por estar
em contato com a Espanha autêntica, que eu definia só
negativamente, ou seja, como espaço livre de americanos,
quando de repente cruzava os olhos com os de um homem
ou de uma mulher de uns vinte a trinta anos, sentados a
uma das outras mesas, cercados de espanhóis, calados
em comparação com o resto do grupo, fumando com ar
de rabugento, e logo sabia, ambos sabíamos, que éramos
farinha do mesmo saco. Cheguei a entender que, se você
olhasse em volta enquanto passeava pelos bairros teorica-
mente menos turísticos, não seria difícil identificar jovens
americanos cuja existência girava em torno do esforço de
disfarçar a própria nacionalidade, provavelmente susten-
tando-se com suas poupanças ou dando aulas particulares
de inglês a filhinhos de papai, expatriados temporários
que exibiam penteados e roupas que, de uma forma difícil
de definir, pareciam oriundos de Madri, em parte porque
eram versões imperfeitas de estilos americanos já ultra-
passados. Cada membro dessa rede clandestina detestava
os outros, lembrete irritante de que nada era mais ameri-
cano, o que quer que isso signifique, que tentar disfarçar
a própria americanidade, seja lá o que for, e de que aquela
versão soft de exílio autoimposto era apenas uma variação
sobre o tema dos pacotes turísticos típicos do império em
sua fase decadente.
Toledo também estava infestada de turistas, embora
fosse inverno. Nós os evitávamos e zombávamos deles
enquanto subíamos as ruas estreitas rumo à enorme
Alcázar, uma fortaleza de pedra construída no ponto mais
alto da cidade e que, segundo Isabel, despertaria meu

60
interesse pelo famoso papel que teve na Guerra Civil, ou
pelo menos o papel que havia no imaginário nacionalista:
nela, um bando de fascistas havia resistido aos ataques da
Frente Popular, que os estava assediando, até o momento
em que Franco chegou com o exército da África, uma das
primeiras e mais simbólicas vitórias da causa nacionalista.
Enquanto passeávamos pela estrutura gigantesca, que
teve de ser quase completamente reconstruída depois da
guerra, ela me contou fatos que eu mal consegui acompa-
nhar sobre figuras históricas das quais nunca tinha ouvido
falar. Depois começou a fazer perguntas sobre meu projeto,
que até então nunca havia despertado seu interesse.
“Como é que você escolheu a Espanha em vez, por
exemplo, do Chile?”
“Porque muita coisa já foi escrita sobre Allende”, res-
pondi, embora tivesse só uma vaga ideia de quem fosse
Allende.
“O que torna a poesia um instrumento eficaz de inves-
tigação histórica?”, deduzi das poucas palavras que tinha
conseguido entender. Fiquei surpreso por me ver defen-
dendo um projeto que eu nem sequer havia delineado de
forma clara, quanto menos pensado que iria concluir, em
vez de reconhecer sua total vacuidade.
“A linguagem da poesia é o exato oposto da linguagem
dos meios de comunicação de massa”, falei, sem refletir.
“Mas por que os americanos estudam Franco”, per-
guntou, apontando para um grupo de turistas americanos
de visita ao Alcázar com um guia turístico, “em vez de
estudar Bush?”. Ela disse isso como se todos os turistas
americanos pretendessem escrever uma monografia sobre
El Caudillo.
“Os nomes próprios dos líderes políticos são distrações
dos sistemas econômicos concretos.” Tentei soar profundo,

61
esperando que as palavras “sistema” e “concreto” fossem
cognatas. Meu estoque limitado de verbos encorajava as
generalizações.
“Por que você não estuda o sistema econômico ameri-
cano?” Ela estava com raiva.
“Não dá para estudar um sistema econômico direta-
mente.” E, com aquele meu jeito típico, acrescentei: “Estou
falando uma coisa tão óbvia que dói.”
“Tenho certeza de que o povo iraquiano não vê a hora
de ler seus poemas sobre Franco e sua economia.” Foi a
primeira coisa indelicada que ela me disse.
Reagi com um longo silêncio para lhe dar tempo de
imaginar uma variedade de respostas que eu era incapaz
de formular, e mantive meu silêncio enquanto saíamos do
Alcázar e descíamos de volta para a cidade na direção da
catedral, onde estavam algumas telas famosas de El Greco,
embora, para falar a verdade, eu não estivesse nem um
pouco a fim de rever aquelas figuras tormentosamente
alongadas, com suas cores mórbidas e surreais. O que me
incomodava enquanto caminhávamos não era tanto o fato
de Isabel estar chateada ou de achar meu projeto absurdo
ou, ainda, de me considerar um dos muitos americanos
pretensiosos, mas que nossa conversa, apesar dos meus
esforços, e talvez pela primeira vez, estivesse muito mais
baseada no real que no virtual. Como de costume, eu não
tinha dito nada de particularmente concreto, mas aquele
nada que eu tinha dito ficou entre nós; não tive a sensação
de que ela o transformara em um leque de possibilidades, e
aquele silêncio que agora mantínhamos era mera ausência
de som, não disfarçava um fervilhar de significados em
potencial. Isso, em parte, era a consequência do fato de
que meu espanhol, mesmo sem eu querer, estava melho-
rando, e, com a força de uma revelação, cheguei a uma

62
conclusão óbvia: nossa relação se fundava, em grande
parte, na minha incapacidade de me comunicar, uma des-
culpa para falar por fragmentos enigmáticos ou por koans,
e, embora a possibilidade de dominar a língua espanhola
não me intimidasse, enquanto passávamos na frente dos
conventos e das lojinhas de souvenir, me perguntei por
quanto tempo mais conseguiria ficar em Madri sem ultra-
passar aquele limiar invisível de competência linguística
além do qual deixaria de despertar o interesse dos outros.
O crepúsculo começava a cair quando alcançamos a
catedral, e numa catedral espanhola é sempre crepúsculo,
alfaias de cor de ouro fosco, pedra cinza e distâncias indis-
tintas, portanto não tive a sensação de entrar num espaço
interno, mas de passar a um espaço estruturado de uma
forma diferente, embora sempre externo. Assustei-me
com o fato de desejar enunciar uma formulação elegante
daquela sensação para Isabel, não só porque não consegui-
ria formular nada de elegante em espanhol, mas também
porque essa era a primeira vez na companhia dela que
eu desejava comunicar algo de maneira clara, em vez de
apresentá-lo como um conceito tão profundo que não
dava para ser compartilhado. Agora temia nunca conse-
guir me expressar de modo adequado, nem positiva nem
negativamente, e, enquanto dávamos voltas nas capillas,
tive um pressentimento muito ruim de que a redução de
nossas interações a conversas prosaicas e a transformação
de nossos silêncios grávidos de significados em pausas
estéreis – num espectro fixo dentro de uma frequência
predefinida – sem dúvida privariam meu corpo daquele
poder sensual de que gozava antes e, quando fôssemos
fazer amor, ela não mais vivenciaria sua própria capa-
cidade de vivenciar, mas só o meu corpo em toda a sua
infeliz realidade.

63
Esforcei-me para pensar nos meus poemas, ou em qualquer poema,
como máquinas capazes de fazer eventos acontecerem.

Senti os sinais premonitórios do pânico e, enquanto


vasculhava minha bolsa à procura de um tranquilizante
amarelo, encontrei meu caderno e o tirei; achei uma caneta
e rapidamente anotei a ideia do crepúsculo e da catedral,
consciente e encorajado pelo fato de que Isabel estava
me observando enquanto escrevia. Simulei uma expres-
são de intensa concentração para dar a entender que eu
acabara de ter uma intuição fulminante e que não estava
na hora de me perder em tagarelices quando precisava
me apressar para dar uma forma mais concreta à ideia
que me assomara. Isabel quebrou o silêncio, que talvez
tivesse durado uma meia hora, para me perguntar o
que eu estava escrevendo, e eu respondi que tivera uma
ideia para uma composição poética ou talvez um ensaio.

64
Ela esperou que eu explicasse melhor, o que eu não fiz,
e me pareceu que olhava para o caderno com genuína
curiosidade enquanto eu o devolvia à bolsa. Isso, pensei
comigo mesmo enquanto completávamos nossa volta
na catedral e saíamos para a rua já escura, me permitiria
manter minha capacidade negativa, embora essa não seja
a expressão correta; eu conseguiria transferir o mistério da
minha fala para minha escrita, e talvez esta fosse infun-
dir nova força àquela. Se as nossas conversas não eram
mais imbuídas de potencialidade, se o que eu dizia não
mais reverberava, simultaneamente, em vários níveis de
potencialidade, o que eu escrevia numa língua que ela não
compreendia preservaria minha aura de profundidade. E,
como a matéria-prima dessas anotações, que, por outro
lado, eram a matéria-prima dos poemas, tinha surgido de
nossos momentos juntos, Isabel, em certo sentido, desem-
penharia um papel importante, embora indefinível, na
gênese deles; haveria traços de sua presença, ela podia
supor, no assunto tratado ou nos aspectos formais. Aliás,
se os poemas se revelassem incapazes de deixar marcas
mais profundas, ela se sentiria corresponsável, já que isso
significaria, caso confiasse no meu talento, que nossos
momentos juntos não haviam conseguido me inspirar, e
por qual motivo ela não confiaria em meu talento, já que
eu me formara numa universidade bem-conceituada e
obtivera uma prestigiosa bolsa de estudo. Ela vivenciaria
o presente como se estivesse impregnado com a possi-
bilidade de ser transfigurado num poema, e esse futuro
poema era como um fundo no qual cada instante receberia
sua vitalidade; não meu espanhol fragmentário, e sim meu
caderno se tornaria o símbolo do virtual, permitindo que
meu projeto avançasse. Fiquei tão tranquilo e encorajado
pela minha renovada capacidade de estabelecer um novo

65
encadeamento dos fatos que me esqueci dos comprimidos
e, enquanto caminhávamos na direção dos bastiões perto
de onde Isabel havia estacionado, eu disse: “Noutro dia,
numa galeria em Salamanca, declamei meus poemas e um
amigo meu leu a tradução.” O objetivo era magoá-la um
pouco e, pelo visto, funcionou. Como nunca tinha plane-
jado ler em público, não havia pensado em convidá-la e,
além disso, queria mantê-la afastada de Arturo e Teresa,
não por achar que eles não fossem gostar uns dos outros,
mas porque queria dar a impressão de que eu tinha uma
vida social agitada. Mas eu estava ciente de que Isabel
se sentiria ferida ao pensar na minha leitura em público
sem a sua presença e, ao mesmo tempo, positivamente
impressionada com o fato de eu estar recebendo tanta
atenção, e tudo isso melhoraria a imagem que ela tinha
da minha poesia, conferindo-lhe um halo de mistério, e
também a deixaria com ciúme dos meus outros amigos.
“Os poemas que você leu… eram sobre o quê?” Ela
perguntou, depois de um longo silêncio que dizia: Por
que não me chamou?
Eu também fiquei calado por um tempo, depois me
detive, virei para ela, coloquei minhas mãos em seus
ombros, uma coisa que nunca fazia, olhei em seus olhos
e disse ternamente: “Os poemas não são sobre nada.”
“Os poemas não são sobre nada”, repetiu ela, prin-
cipalmente para si mesma, talvez um pouco incrédula,
confusa ou chateada, e não estava claro para mim se minha
afirmação estava engatilhando uma multiplicidade de
significados possíveis. Dei um beijo nela, com a intenção
de amplificar o efeito das minhas palavras.
Quando chegamos ao carro, senti que o equilíbrio da
nossa relação fora restabelecido; achei que Isabel sentia o
mesmo, e, num impulso de entusiasmo, ela decidiu que

66
realmente deveríamos visitar Rufina. Já estava escuro
enquanto dirigíamos em torno dos bastiões e, depois
de aproximadamente quinze minutos de curvas muito
desorientadoras, pegávamos uma estrada de cascalhos.
Durante o trajeto, Isabel tinha começado e interrompido
numerosas descrições da tia, tendo o cuidado de não
denegri-la de forma alguma, o que sugeria que sentia
simpatia e respeito por ela, ao mesmo tempo que tentava
me alertar sobre alguma coisa, não estava bem claro o
quê. No fim, entre muitas hesitações, ela mencionou algo
sobre uma briga que tinha a ver com seu ex-namorado,
uma briga causada, achei que ela tivesse dito, pelo fato de
Rufina superprotegê-la e acreditar que Isabel tinha sido
maltratada. De qualquer maneira, a coisa foi feia.
A casa de Rufina era pequena, branca e meio quadrada,
de dois andares, mas construída sobre um terreno muito
grande que, imaginei, de dia devia ter vista panorâmica
para os morros distantes, ou talvez fossem montanhas.
Assim que nos aproximamos da casa, alguns cachorros
apareceram e reconheceram Isabel, que os chamou pelo
nome, na escuridão. Tocamos a campainha, e ouvi o som
de um rádio ligado lá dentro. A porta se abriu, e Rufina
apareceu; fiquei surpreso ao ver o quanto ela era nova, uns
trinta anos, muito em forma e maquiada, como se estivesse
pronta para sair, com sombra e batom, roupa escolhida
com cuidado, embora morasse sozinha no interior. Tive
a impressão de que ela havia hesitado, confusa, entre o
momento em que nos viu e o momento em que cumpri-
mentou Isabel, mas, quando o cumprimento chegou, foi
muito caloroso e, enquanto segurava o rosto da sobrinha
e, com seus polegares, tirava as manchas de batom que
havia deixado em suas faces, achei que uma das duas ou
ambas fossem chorar; Rufina a apertava com força. Então

67
ela soltou Isabel, me beijou levemente em ambas as faces
e nos convidou a entrar em casa, deixando os cachorros
do lado de fora. Fomos atrás dela até a cozinha, onde, sem
perguntar o que gostaríamos de beber, pegou três copos
compridos, gim do congelador e uma garrafa de água
tônica da geladeira. Colocou gelo nos copos e, conforme
o costume espanhol, encheu cada copo quase até a borda,
quebrando o gim com a água tônica, e em seguida nos
acompanhou até uma varanda fechada e aquecida, onde
nos sentamos em cadeiras baixas de bambu, no escuro
quase total.
Apurei a visão na direção de Rufina, aguardando que
meus olhos se adaptassem à falta de luz. Ela e Isabel
estavam colocando a conversa em dia, conversando num
espanhol tão rápido e cheio de gírias que nem tentei
entender; depois de um minuto ou dois, a intensidade
do papo diminuiu até virar silêncio. Rufina pegou um
fósforo longo de uma caixinha que estava perto dela,
acendeu um cigarro, e eu achei que nessa luz ela pare-
cia esplêndida e atraente, um fascínio que talvez fosse
ampliado pelo fato de que durante o dia todo eu tinha
imaginado uma visita a uma tia idosa. Isabel parecia
ansiosa, mexia sem parar nos cabelos; evidentemente,
essa era a primeira vez que elas se encontravam depois
da famosa briga. Rufina levantou o fósforo na minha
direção e o balançou para apagá-lo. Não entendia por
que Isabel me levara junto, com certeza ela não estava
fazendo esforço nenhum para me envolver na conversa;
só podia supor que minha presença ajudasse a manter a
situação sob controle, que Isabel desejasse resolver o pro-
blema que ainda existia entre elas, o que quer que fosse,
e esperava que a presença de um estranho fosse refrear
o comportamento e as palavras de Rufina, especialmente

68
a respeito do tal ex-namorado. O silêncio parecia opri-
mir Isabel, e ela sabia que eu não iria quebrá-lo; no fim
levantou e disse que tinha de ir ao banheiro, deixando-me
sozinho com a tia. De fato, eu estava muito interessado
em Rufina, em sua profissão, em saber de onde ela era,
havia quanto tempo morava nos arredores de Toledo e
por quê, qual era sua idade, se era casada, se era parente
de sangue de Isabel, o que tinha acontecido com aquele
ex-namorado etc., mas não consegui falar nada. Depois
de outro longo silêncio, Rufina se levantou, disse algo
a respeito do meu copo e o levou até a cozinha para
enchê-lo de novo.
Sozinho na varanda, olhei na direção da escuridão;
imaginei que conseguia ver os cachorros se mexendo no
jardim e, pouco além dali, conseguia enxergar as lan-
ternas traseiras vermelhas dos carros sumindo atrás de
uma curva. Comecei a pensar no meu apartamento em
Madri, imaginei como estava naquele mesmo instante,
escuro, mas cheio dos sons que subiam da Plaza de Santa
Ana, imaginei a cafeteira em repouso, os móveis comuns,
mas de boa aparência, que já estavam ali quando o tinha
alugado e que ficariam quando o deixasse, alguns cartões-
-postais antigos que eu havia comprado no El Rastro e
colado na parede com fita adesiva. Depois me lembrei dos
outros quartos onde havia morado: Brighton Street, com o
colchão no chão, Hope Street, com minha pequena mesa
de desenho, os alojamentos estudantis, todos horríveis,
depois Greenwood, Jewell Street, Huntoon e meu berço,
do qual na verdade nem conseguia recordar, imaginei-
-os todos naquele minuto, agora mobiliados e ocupados
por outras pessoas. Então, consegui me sentir em cada
cômodo enquanto o imaginava, e a escuridão para além
da varanda se transformava na escuridão de Topeka ou de

69
Providence. Em seguida, era a escuridão do meu sétimo
ou décimo quinto ou vigésimo ano, cada escuridão com
sua forma e harmonia, e o céu, que, quando eu era mais
novo, parecia mais côncavo. E depois eis que era de novo
a varanda de Rufina, mas imaginada de um quarto futuro
cercado de uma futura escuridão, um quarto onde talvez
eu estivesse escrevendo essas palavras.
A certa altura, percebi que me perdera em deva-
neios – se era realmente isso o que eles eram – por um
tempo maior do que o necessário para preparar um drin-
que ou mijar. Agucei meu ouvido e consegui escutar
vozes que me soaram alteradas; Isabel e Rufina estavam
brigando em algum canto da casa, em algum quarto,
de porta fechada. Fiquei fascinado com o fenômeno de
ouvir vozes altas de longe, tentei entender como conse-
guia dizer que eram vozes altas quando mal dava para
ouvi-las, algo sobre a forma ou a harmonia delas ou a
maneira como atravessavam as paredes. Estava procu-
rando meu caderno para anotar tudo isso, embora quase
não houvesse luz suficiente para escrever, quando de
repente parei e corei, ou pelo menos senti meu rosto ficar
muito quente. Para que tomar notas se Isabel não estava
presente e não podia me ver enquanto as tomava? Nunca
antes havia tomado notas; levava minha bolsa sempre
comigo porque nela estavam os remédios, não com a
intenção de trabalhar nas minhas “traduções”, e, para
falar a verdade, a ideia de ser um daqueles poetas que
eram possuídos por repentinos ataques de inspiração
me repelia. Não me envergonhava fingir-me inspirado
na frente de Isabel, mas me senti mal por acreditar que
estava inspirado de verdade.
Tirei meu caderno da bolsa, mas só para usá-lo como
suporte; esfreguei um cigarro entre meu polegar e meu

70
indicador para soltar o tabaco e depois despejei tudo em
cima da capa. Tirei do bolso um pedaço de haxixe, de
forma oval, porque alguém o tinha transportado, enrolado
num plástico, enfiado no cu, encontrei o isqueiro, esquen-
tei e separei alguns flocos do haxixe e os misturei com o
tabaco, depois soprei no papel do cigarro com muito cui-
dado para inflá-lo um pouco e, com algumas batidinhas,
fiz cair a mistura, enrolando uma extremidade do papel
para evitar que derramasse. Por fim, tirei o filtro com os
dentes. As vozes ficavam cada vez mais altas.
Acendi o baseado e tentei imaginar o que estava acon-
tecendo lá dentro, e minhas primeiras imagens foram
inspiradas quase completamente no cinema espanhol:
Rufina e Isabel eram amantes, talvez Rufina fosse um tra-
vesti, e Isabel me trouxera para se vingar de uma recente
traição de Rufina, mas a tinha subestimado; logo Rufina
voltaria para a varanda armada com uma faca ainda
molhada do sangue de Isabel e me esfaquearia, para então
se matar. Ou Rufina, terrivelmente maltratada por homens
desprezíveis que, de alguma forma, eram todos parecidos
com Franco, tinha jurado que nunca mais um deles ultra-
passaria a porta da sua casa, e Isabel violara essa regra,
esperando, por alguma razão, reconciliá-la com o sexo
oposto; logo Rufina voltaria armada com uma faca ainda
molhada do sangue de Isabel etc. Conforme o haxixe fazia
efeito, eu me divertia imaginando o brilho da faca refletido
nos olhos de Rufina, enquanto era obrigado a escolher entre
me envolver numa luta com ela para desarmá-la ou morrer.
Então me senti, ao mesmo tempo, aliviado e decepcionado
quando a luz se acendeu e Rufina e Isabel voltaram para a
varanda, Rufina, com um casaco de moletom cinza Hard
Rock Café Houston, segurando nossos copos cheios, e
Isabel, relaxada e sorridente.

71
“Você começou a fumar sem a gente, Adán!”, exclamou
Rufina. Ela devia ter perguntado a Isabel como eu me
chamava.
“Posso fazer mais”, falei. “Posso enrolar mais um”, me
corrigi.
“Então, você é um poeta, Adán”, disse ela, ignorando
minha oferta. Eu me limitei a sorrir. Ela repetia meu nome
como se fosse uma piadinha com a minha cara.
“Adam acabou de participar de uma leitura dos seus
poemas numa galeria em Salamanca”, contou Isabel, para
me irritar.
“Salamanca! Muito chique!” Sem dúvida, Rufina estava
prestes a perguntar que tipo de poesia eu escrevia. “Você
escreve que tipo de poesia?”
“Que tipos de poesia existem?” Estava satisfeito com
a resposta e a gravei na cabeça para começar a usá-la a
partir daquele momento.
“Ruim e pior”, Rufina respondeu, zombando de mim.
Isabel deu uma risadinha. Talvez o fato de estarem alia-
das contra mim as deixasse ainda mais relaxadas: fazer
pouco-caso do atual namorado depois de ter feito tábula
rasa do antigo.
“Eu também a desprezo”, disse em inglês.
“Você deve ter pais ricos”, disse Rufina, ignorando de
novo minha resposta. Depois acrescentou uma expressão
idiomática, algo que tinha a ver com “mãos” e “nuvens”,
e eu imaginei que fosse uma forma floreada de dizer a
mesma coisa. “Você não precisa trabalhar?”
Não sabia bem como responder. Na Espanha, já tinha
deparado com essa associação preconceituosa entre poesia
e dinheiro, tornada ainda mais convincente, no meu caso,
pela ideia difusa de que todos os americanos, quer dizer,
os americanos no exterior, eram ricos; e, em comparação

72
com Isabel e Rufina, minha família provavelmente era
mesmo. Não tinha uma noção clara de qual era a classe
social de Isabel e menos ainda de Rufina. Sabia que Isabel
era formada, que trabalhava havia muito tempo na escola
de línguas e agora tinha um apartamento bonito, porém
morava com duas colegas. Quase sempre, era eu quem
pagava quando a gente saía para beber ou jantar, mas
quase não prestava atenção nisso, embora representasse
uma porção significativa dos meus recursos, porque os
euros continuavam a me parecer dinheiro falso. Não tinha
a menor ideia, por exemplo, se a casa onde estávamos
valia muito, se os terrenos nos arredores de Toledo eram
muito procurados ou se não valiam nada, se a roupa de
Rufina ou o endereço onde ela morava eram indicações
de que ela era de classe baixa, média ou de qualquer outra
classe, ou se essas eram definições apropriadas no caso
da Espanha.
“Não vou precisar trabalhar nos próximos meses,
isso é verdade”, respondi, como se quisesse dar a enten-
der que depois desse período trabalharia numa mina
de carvão. “A não ser que se considere a escrita um
trabalho.”
“O que você pretende fazer depois de voltar para os
Estados Unidos?”, perguntou Rufina. Talvez a principal
regra tácita que Isabel e eu tínhamos criado durante a
nossa breve relação, o tipo de silêncio mais importante
entre nós, fosse nunca discutir sobre o que aconteceria
depois do fim da minha bolsa. Olhei para Isabel. Fazia
muito tempo que não parava para pensar no que faria
depois de voltar para casa.
“Nem sei se voltarei”, menti. Isabel ficou calada, mas
houve uma mudança na intensidade do silêncio dela.
Acendi um cigarro para me distanciar do meu comentário.

73
“Seus pais vão cuidar de tudo e te enviar dinheiro”,
Rufina riu e depois disse algo que continha a palavra
boêmio. “Eles trabalham em quê?”, perguntou.
Eu já sabia que, qualquer que fosse minha resposta,
Rufina a acharia engraçada, então decidi falar a ver-
dade, embora estivesse ciente de que provocaria muito
riso. “Ambos são psicólogos.” Ouvi Isabel se mexer,
constrangida.
Como era esperado, Rufina quase morreu de rir. Eu
supus que o turbilhão de palavras que se seguiram tivesse
a ver com a imagem grotesca de um poeta que leva uma
vida boêmia bancado pelos pais psicólogos. Isabel inter-
veio, talvez pedindo a ela para não ser tão dura comigo,
mas eu sorri para mostrar que não tinha problema algum
em ser zombado. “Os amigos da Isabel da escola de línguas
são todos filhinhos de papai”, explicou Rufina. “Amigos”
certamente queria dizer “namorados”.
“Qual é sua profissão?”, perguntei, soando mais estran-
geiro que nunca.
“Perdi meu emprego”, respondeu ela, fria. Olhei para
ela, constrangido. “Talvez eu comece a escrever poesia,
quem sabe”, disse, inclinando-se na minha direção e colo-
cando as mãos nas minhas coxas, “e depois podemos casar
e viver bancados pela sua família”. Tive a impressão de
que Isabel teve um sobressalto quando Rufina me tocou.
“Ok”, falei.
“Você acha que seus pais iriam gostar de mim?”, per-
guntou Rufina, vergando a espinha para evidenciar o
peito, numa exibição de voluptuosidade que não entendi
muito bem, mas que observei com prazer.
“Acho que meus pais iriam gostar de você, sim”, respondi.
“Sei cozinhar e limpar”, falou ela, sarcástica, cruzando
e descruzando as pernas.

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“Minha mãe é uma feminista muito conhecida”, falei,
uma afirmação que soou muito estúpida, com toda razão.
Rufina riu, Isabel perguntou que horas eram, uma indireta
para dizer que estava na hora de irmos embora, mas foi
ignorada. Reparei que ela olhava fixamente para Rufina,
como se quisesse intimá-la com seu olhar a parar com
aquilo; não entendi a ansiedade dela e a achei excessiva;
“Você gostaria da minha mãe”, disse para me distanciar
ainda mais daquele papo de feminista, “mas ela não é
tão rica assim”. Sorri novamente, em parte para acalmar
Isabel. “Nunca recebi dinheiro nem dela nem do meu pai”,
menti. Agora Isabel olhava para mim com uma expressão
esquisita. Eu tinha acabado de dizer para Rufina que ela
poderia encontrar meus pais se e quando eles decidissem
visitar a Espanha quando me lembrei de ter dito a Isabel
que minha mãe estava morta.
Havia várias formas de consertar o erro: podia me
fingir melancólico e mais tarde explicar a ela que não
estava a fim de compartilhar meu luto com Rufina, ou,
se conseguisse manter o sangue frio, podia convencer
Isabel de que fora ela quem tinha entendido mal meu
péssimo espanhol, que nunca tinha dito ou querido dizer
que minha mãe estava morta. Mas me dei conta de que
meu rosto enrubescido já representava uma confissão
completa. Eu havia contado aquela mentira a ela durante
uma das nossas primeiras noites juntos, quando, ainda me
sentindo culpado por ter acabado de contá-la para Teresa,
tinha me sentido na obrigação de repeti-la, talvez para
aprofundar tal sentimento até ele se tornar uma espécie de
penitência; com certeza estava bêbado naquele momento.
Mesmo assim, longe de intensificar meu sentimento de
culpa, a repetição o mitigou. Isabel tinha reagido com
carinho, mas não havia perguntado nada sobre minha

75
família, e eu nunca mais voltei a tocar no assunto; a prin-
cípio, estava ciente da necessidade de evitar falar sobre
minha mãe, quando estava na companhia de Teresa, mas
com Isabel evitava falar sobre quase tudo, à exceção das
minhas crípticas declarações estéticas.
Isabel disse que precisava fazer xixi de novo e saiu da
varanda. Rufina, não entendendo o que havia acontecido,
parou com as perguntas sarcásticas e, durante o silêncio
que se seguiu, tentei imaginar como Isabel iria reagir.
Minha mentira era imperdoável em qualquer contexto,
mas sentia que na Espanha era particularmente imperdo-
ável; se fosse sobre meu pai, talvez eu ainda me safasse;
sempre podia dizer que ele era um fascista, o que quer que
isso significasse, e que minhas palavras eram o resultado
de um desejo inconfessável. Quase todos os filmes que
tinha visto na Espanha, talvez todos os filmes rodados na
Espanha desde 1975, eram sobre o assassínio, real ou sim-
bólico, de um pai patologicamente despótico, reprimido
e violento, ou pelo menos diziam respeito ao sonho de
uma Espanha sem aquele tipo de homem, uma Espanha
dominada por mulheres emancipadas redescobrindo
a joie de vivre com a ajuda de pitorescos amigos gays.
Mas o fato de ter “matado” a minha mãe, a “feminista”,
independentemente da razão, me expunha, no fundo,
como um fascista, um misógino opressivo e violento, e,
ainda por cima, levantava dúvidas sobre a legitimidade
do meu projeto.
“Tinha falado para Isabel”, expliquei lentamente a Rufina,
que estava fumando de novo e parecia ter esquecido com-
pletamente a minha presença, “que minha mãe estava
morta. Isso não é verdade”.
“Como?”, perguntou ela, de repente interessada, mas
com a certeza de que tinha entendido errado.

76
“Tinha contado a ela que minha mãe estava morta,
mas, na verdade, minha mãe está viva.” Fiz uma pausa.
“Só que agora esqueci que havia mentido.”
“Meu Deus!”, exclamou Rufina, estupefata. “Por que
você fez isso, Adán?” Ela estava mais fascinada que indig-
nada. Sorria, e não sem um certo carinho.
“Porque minha mãe está doente”, respondi. “E porque…”
fingi que era difícil demais continuar. O sorriso sumiu rapi-
damente do rosto dela. Depois disso foi difícil continuar
mesmo: “Estou com medo… tentando imaginar…” Rufina
se inclinou na minha direção, agora toda meiga. “Achei
que, se pronunciasse as palavras, meu medo diminuiria”,
devo ter soado mais ou menos assim.
“Coitadinho”, disse Rufina, e tive a sensação de que
ela queria me abraçar. A excitação causada por seu olhar
conseguiu aplacar as ondas do sentimento de culpa que
avançavam. Isabel apareceu na porta.
“Quero ir embora”, disse.
“Sente, minha querida”, disse Rufina, com uma autori-
dade que fez Isabel voltar para sua cadeira. E para mim:
“Continue.”
“Cheguei neste país”, comecei, “e ninguém me conhe-
cia. Então pensei: você pode ser para as pessoas qualquer
coisa que quiser. Você pode contar que é rico ou pobre.
Pode falar que vem de qualquer lugar do mundo, que
trabalha em qualquer coisa. Inicialmente me sentia muito
livre, como se minha vida antiga não fosse mais real”.
Isabel estava tentando se convencer de que realmente eu
tinha confessado minha mentira para Rufina. “E me sentia
feliz por estar longe de meu pai”, acrescentei, para tornar
tudo mais plausível, insinuando que meu pai, o homem
mais gentil do mundo, fosse uma espécie de tirano. “Mas
depois a realidade se reimpôs. Vivo aterrorizado. Ligo

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para ela toda hora. Ela diz que está bem, mas não sei se é
verdade. Não queria abandoná-la, mas ela falou para eu
vir para cá e fazer o que fui chamado para fazer. Que eu
tinha uma responsabilidade com a minha escrita. Ela insis-
tiu. Não consigo conjeturar a possibilidade de continuar a
viver se algo acontecer com ela. E depois, quando encon-
trei alguém importante”, prossegui, olhando diretamente
na direção de Isabel, “eu menti. Para ver se pelo menos eu
conseguia pronunciar aquelas palavras”. Isabel pareceu
entender. “Sou um louco, eu sei”, falei, e pus as mãos na
cabeça. E ainda acrescentei, levantando meu olhar para
Isabel: “Sinto muito. Sinto muito por ela. Sinto muito por
você.” Contemplei a possibilidade de chorar.
Isabel se aproximou e colocou minha cabeça no seu
peito, sussurrando algumas palavras de consolo, entre as
quais distingui a palavra “poeta”. Rufina passava a mão
na minha perna. Observei a cena, como se eu estivesse do
lado de fora, lá no jardim, deslumbrado.

Naquele inverno, minha pesquisa se encaixou, minha


pesquisa se encaixava, em duas categorias igualmente
indescritíveis. Durante o mês inteiro de dezembro, choveu,
uma chuva excepcional, pelo visto; a cidade estava estra-
nhamente vazia, esvaziada; mesmo quando estava só
chuviscando, os espanhóis pareciam suspender todas as
atividades não essenciais. Além dos rapazes entregando
os botijões laranja de gás butano, ou das senhoras idosas
protegidas por capas de chuva de plástico que andavam a
passos rápidos pelas mercearias, não havia praticamente
ninguém nas ruas. Durante aquele mês de dezembro, se
alguém tocava minha campainha, e aquele alguém só podia
ser Isabel, Teresa ou Arturo, com seus carros estacionados

78
em local proibido na Plaza de Santa Ana, eu não atendia
e, por causa da chuva, eles não insistiam.
Esses períodos de chuva ou intervalos entre uma chuva
e outra, durante os quais eu fumava e lia Tolstói, seriam, já
sabia, impossíveis de narrar, e essa impossibilidade passou
a fazer parte da experiência: a textura peculiar da minha
solidão derivava, em parte, da sensação de que podia
compartilhá-la e descrevê-la apenas como pura transi-
ção, como lenta fusão entre as cenas, como tédio, como a
maçante terceira fase do meu projeto, uma fase desprovida
de conteúdo próprio. Mas essas mesmas caraterísticas con-
feriam ao período uma trajetória, ainda que vaga ou lenta,
tornando-o um vetor entre eventos, quando na realidade
ele era dilatado, isolado, estranhamente autossuficiente,
embora essa não seja a melhor descrição.
Durante aquele período, todos os períodos parecidos
da minha vida eram evocados para formar uma linha
contínua, ou pelo menos uma constelação, e assim, em vez
de formar apenas o tênue tecido conectivo entre as épocas
mais significativas, eram estas épocas que se tornavam
meros ligamentos. Não eram os pequenos milagres líri-
cos, tampouco as feridas, que se ramificavam, luminosas,
a constituir a vida, mas aquela outra coisa, o que quer
que fosse; e essa outra coisa era falsificada por qualquer
forma de discurso, escrita ou pensamento que enfatizasse
os acontecimentos precisamente localizados no tempo
em que se realizavam. Mas tudo isso era verdade apenas
nesses períodos aparentemente suspensos no tempo;
sempre podia acontecer que figura e fundo se invertessem,
e assim que você estivesse tomado por alguma sensação
forte, beijo ou abalo que fosse, de repente a vida voltava
a ser composta exclusivamente por momentos desse tipo,
ardendo sempre com essa chama intensa e densa como

79
quartzo. Mas momentos assim eram igualmente difíceis de
representar porque já constituíam literatura prêt-a-porter,
porque a facilidade com que podiam ser representados
acabava dominando e substituindo a experiência: onde a
vida deveria ser mais imediata, quando o presente con-
seguia se afirmar com violência, a vida se encontrava no
cúmulo de sua banalidade, governada por regras aris-
totélicas, de modo que não era possível estabelecer um
contato com a realidade, mas só representar tal realidade
diante de um público imaginário.
Era isso que eu sentia, ou talvez só pensasse, enquanto
fumava, escutava a chuva no telhado, virava as pági-
nas e sentia o cheiro de pedra molhada de Madri através
das janelas encostadas. E, quando lia o New York Times
online, onde cada dia era o mais mortífero desde o início
da invasão, perguntava-me se a incomparabilidade entre
a linguagem e a experiência era um problema novo ou
se minha experiência da minha experiência seria o resul-
tado de uma vida danificada por anos de pornografia e
privilégios, se já haviam existido épocas felizes em que o
céu estrelado representava o mapa de todos os caminhos
possíveis, ou se essa rígida divisão da experiência em
inominável ou não vivenciável constituía, ela mesma, a
experiência, para qualquer pessoa em qualquer tempo.
Seja como for, prometi a mim mesmo que nunca escreveria
um romance.
Às vezes, quando chovia à tarde, eu atravessava a pé o
Retiro, que estava deserto, exceto pelos poucos traficantes
de haxixe, todos africanos, fazendo hora debaixo do toldo
de algum quiosque fechado ou, se apenas chuviscava, sob
uma árvore fumegante de vapor. Sempre havia muitos
traficantes no Retiro, a maioria mais ou menos da minha
idade, vendendo ovos feitos do que eles chamavam de

80
“chocolate”, principalmente aos turistas, já que noutros
lugares era possível conseguir haxixe melhor. A cortesia
desses traficantes poliglotas me surpreendia, os preços
eram altamente negociáveis em qualquer língua, os
homens eram muito dóceis e pareciam ser completamente
inofensivos, e eu ficava admirado com a quantidade deles:
um a cada cinquenta metros do parque, quando o tempo
estava bom. Embora todos se conhecessem, dava para
perceber que cada um trabalhava por conta própria. Pelo
visto, a polícia tolerava os traficantes no parque, embora
eu tivesse certeza de que, de vez em quando, eles podiam
ser presos e deportados. Em geral, a polícia parecia tolerar
o haxixe; nunca entendi muito bem se fumar era legal
ou ilegal. Um policial ou um guarda municipal podia
passar perto de você em um daqueles carrinhos elétricos
e fulminá-lo com o olhar se o surpreendesse conversando
com um dos traficantes; porém, nunca aconteceu de para-
rem o carrinho. Se o olhar fosse muito hostil, o traficante
se afastava de você mais irritado que preocupado.
No período chuvoso da minha pesquisa, comprava um
ovo ou a metade de um ovo do primeiro traficante com
quem deparava, que se surpreendia de achar um cliente
com um tempo tão ruim, e depois caminhava na direção
da colunata semicircular construída em volta da estátua
de Alfonso XII, que dominava o Estanque. Quando encon-
trava um lugar relativamente seco e abrigado, fumava e
observava a chuvinha que caía na lagoa artificial. Nunca
tinha fumado haxixe antes de viajar para a Espanha e,
diferentemente da maconha que fumava em Providence
e que me deixava instantaneamente bobo, o haxixe me
permitia manter, ou pelo menos assim me parecia, certa
lucidez, especialmente depois de meses de uso. Ele tinha
em mim o efeito de uma espécie de afinação do mundo,

81
e não, como acontecia quando fumava maconha, de sua
total transformação ou aniquilamento, e, fumando haxixe,
eu estava em condições de ler ou “trabalhar”, ou pelo
menos tinha a ilusão de poder fazer isso, ao passo que,
quando fumava algo mais forte, nem conseguia acom-
panhar, quanto mais compor, uma frase completa. Mas
as alterações causadas pelo haxixe, por agirem de uma
forma sutil, eram mais profundas, em parte porque você
podia esquecer, ou ao menos ignorar, o papel da droga em
sua experiência sensorial. Se, por exemplo, uma fileira de
árvores que até então tinha constituído um simples pano
de fundo de repente avançasse um pouco e suas formas
finas e perfeitamente simétricas se tornassem uma elegante
e indecifrável reivindicação sobre o conceito de forma em
geral, você podia anotar essa observação sem que ela se
dissolvesse enquanto estivesse prestes a escrevê-la ou sem
que a estranheza de suas próprias mãos o distraísse do
que quer que fosse que você tinha pensado em fazer com
elas. Se um leve aumento da sensibilidade acústica lhe
permitisse, pela primeira vez conscientemente, perceber
que o barulho das folhas no vento estava, por assim dizer,
dialogando com o ruído distante do trânsito da Calle de
Alfonso XII, que era parecido mas distinto, ou que certa
martelagem era, na verdade, composta por dois sons dife-
rentes, um proveniente de uma árvore próxima e o outro
das obras do outro lado do parque, e se essas percepções
inspiravam alguma meditação sobre a contaminação entre
natureza e cultura, pois bem, essa meditação, mesmo não
sendo particularmente profunda, podia pelo menos ser
enunciada com certa coerência, ser formulada enquanto
você a vivenciava, e não só em retrospectiva, mas também
depois de o efeito da droga ter acabado. Muitas pessoas,
eu acreditava, usavam drogas desse tipo para se dissociar

82
da própria experiência, mas como, desde criança, já me
sentia dissociado da minha experiência, eu me drogava
para tirar o máximo proveito dessa condição preexistente
e, portanto, no meu caso, ela resultava numa presença
intensificada, embora vivida a uma distância de mim
mesmo que era a minha distância habitual. Talvez aquela
distância se reduzisse de forma significativa quando eu
sucumbia ao pânico.
Uma coisa fundamental naquela fase do meu projeto
era que eu fumava haxixe misturado com tabaco, embora
estivesse determinado a nunca mais fumar um cigarro
depois de sair da Espanha, e portanto fumava com certo
abandono; isso era fundamental, porque o cigarro ou o
baseado era um instrumento indispensável, um substi-
tuto das palavras durante as festas, uma forma de ocupar
minhas mãos e minha boca quando estava sozinho, uma
técnica de respiração profunda que tornava a exalação
concreta, uma maneira de medir e/ou passar o tempo.
Mais que um vício fácil de satisfazer, o que esses pequenos
cilindros me ofereciam eram uma desculpa e uma tran-
sição pré-fabricadas, uma forma de me aproximar ou me
afastar de um grupo de pessoas ou de um assunto, entrar
ou sair de uma sala, formar ou quebrar uma frase. A maior
dificuldade quando eu decidisse parar seria a perda dessa
função narrativa. Seria como eliminar os telefones ou os
jornais dos filmes produzidos durante a idade de ouro
de Hollywood; faltariam as conexões entre as cenas, as
formas de difundir a informação ou eliminar as distâncias.
E, quando fantasiava sobre parar de fumar, fantasiava
também sobre “sossegar”, não por associar essa decisão
a uma fase mais madura e saudável da minha vida, mas
porque não conseguia me imaginar frequentando toda
uma série de espaços sociais sem o cigarro servindo de

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ponte ou de estratégia de saída. Felizes eram as épocas
em que o céu estrelado representava o mapa de todos
os caminhos possíveis, épocas caracterizadas por uma
integração social tão perfeita que, para conectar o herói à
totalidade, não eram necessárias as drogas.
Não pensava nisso, mas poderia ter pensado, enquanto
atravessava o parque na direção de casa e deitava na cama,
só alguns palmos debaixo do teto inclinado, depois de ter
ligado o aquecedor a gás e tê-lo trazido para perto de mim.
Após me aquecer, comia algo, abria uma garrafa de vinho
e então escrevia para Cyrus, a quem há tempos confessara
que tinha acesso à internet no apartamento, e que estava
no México com a namorada e o cachorro dela. Eu sentia
um pouco de inveja deles; tinham viajado para o México
na picape dela, com pouco dinheiro, sem planos definidos
e com o objetivo de ter experiências interessantes, e não
apenas essa experiência da experiência patrocinada pela
minha bolsa. A namorada dele, Jane, formada na mesma
universidade que eu, era filha de um homem muito rico
e famoso, mas tinha renegado a própria riqueza, pelo
menos temporariamente, para não ser um peso para o
planeta, para produzir arte e escrever. Antes de partir para
o México, ela havia participado da ocupação ilegal de um
dos numerosos armazéns abandonados em Providence
com um grupo de artistas que pensavam como ela. Muitas
vezes, por volta das oito ou nove horas da noite em Madri,
Cyrus ia a um cyber café no México, e a gente batia papo.
Assim foi em uma segunda-feira, à noite:
eu: vc tá aí? como estão as coisas em xalapa
cyrus: Tô. Fizemos uma viagem esse final de semana.
Estava a fim de acampar
eu: Tb fui acampar aqui por um tempo
eu: alô?

84
cyrus: Ah sim, agora lembrei. Fica difícil imaginar
você acampando, tenho que dizer. De qualquer forma, a
gente foi de carro para visitar alguns povoados do interior,
caminhar um pouco
eu: legal
eu: e foi bom
cyrus: rolou algo muito ruim lá
eu: uma briga com a jane?
cyrus: não, mas estamos brigando agora, eu acho
eu: fica difícil viajar junto se vocês nunca fizeram isso
antes
cyrus: pois é, então, a gente estava caminhando
eu: tá aí ainda?
cyrus: perto de um rio e
cyrus: tô sim. Jane queria nadar, mas eu tinha medo
da correnteza e tb achei a água muito suja
eu: meu irmão uma vez pegou um parasita quando
tava nadando numa lagoa e ficou doente por um mês
cyrus: pois é. E a Jane começou a me zoar, falando
de como eu tenho medo de novas experiências ou algo
assim, de como prefiro ser espectador, não era uma briga
de verdade, era tipo uma brincadeira
eu: odeio novas experiências
cyrus: mas era aquele tipo de brincadeira muito “cas-
tradora”, algo sobre o fato de que aquilo era o problema
dos poetas
eu: ah, falando nisso, os poemas novos são muito bons
cyrus: ah… acho que não te falei que a gente estava
fumando muito aquela Acapulco Gold
eu: e aí, aconteceu o quê?
cyrus: ou sei lá qual é o nome. Muito pesada. Ou talvez
eu tenha fumado demais. Na verdade, me lembrou muito
de algumas variedades de Topeka, só que mais forte. De

85
qualquer forma, a gente estava andando perto do rio e
chegamos a um ponto onde ele ficava mais largo e tinha
um grupo de pessoas nadando
eu: americanos?
cyrus: não, pessoas de lá mesmo. Aqui no inverno não
tem turistas, pelo visto
eu: entendi
cyrus: tinha dois homens nadando, aliás um nadando e
o outro, tipo, molhando os pés. A correnteza parecia estar
muito forte. E aí, um dos homens, a namorada dele estava
na beira, de biquíni, e ele estava tentando convencê-la a
entrar, a nadar
eu: aff, acho que eu já sei o que você vai contar, ela tava
com medo da correnteza?
cyrus: Talvez, ou talvez estivesse com frio só
eu: como está o tempo aí?
eu: Em Madri: frio e chuva toda hora
cyrus: quente ou muito quente, tipo vinte e oito graus
por aí, que eu acho quente pra época do ano. O ar tá
abafado, mas a água ainda tá fria. De qualquer forma,
Jane – a gente estava na beira oposta àquela onde estava
a namorada do cara que estava nadando, e Jane queria
nadar
eu: ela tava de biquíni?
cyrus: e entrou na água mesmo eu falando pra ela que
não achava
cyrus: tava, a gente tava de roupa de banho debaixo
da roupa normal. Com certeza entrar não era uma boa
ideia, eu já tinha falado isso para ela, por causa da
correnteza
eu: conhecendo ela, tenho certeza que ela encarou isso
como desafio
eu: acho que vc acabou encorajando ela

86
cyrus: Pode ser. Ela entrou e, apesar da correnteza,
tudo parecia estar normal. Aí os outros nadadores começa-
ram a falar pra namorada do cara, está vendo, essa menina
entrou, não tem problema, e depois Jane começou a dizer
que era pra eu entrar na água. Então, agora eu estava na
frente da namorada do cara, ela na outra beira, ambos
pressionados pelos nadadores a entrar. A gente trocou
olhares sorrindo um pro outro nervosamente
eu: se um entrasse, o outro se sentiria obrigado a entrar
também
cyrus: É
eu: tipo o Jogo do Covarde. Vocês dois deveriam ter
ignorado os outros e ido embora e
cyrus: ou pelo menos se ela entrasse na água, eu tinha
que entrar também. Provavelmente, se fosse ao contrário,
ela podia até ficar na beira
eu: uma maravilhosa vida juntos!
eu: pois é. no caso dela não havia risco de castração
cyrus: porém admito que estava sentindo a pressão.
Jane estava lá com os outros homens na água, dava para
aguentar a correnteza. Me senti muito covarde e muito
americano
eu: você deve se manter firme, manter a covardia das
tuas convicções
cyrus: Sim, então acabei entrando na água. A corren-
teza estava ainda mais forte do que eu pensava. Tinha
pontos de correnteza muito forte. Na parte mais embaixo
onde o rio ficava estreito, conseguia ver corredeiras bas-
tante perigosas
eu: e depois a namorada do cara pulou na água
cyrus: espera
cyrus: não imediatamente. Mas, tipo, agora, todo
mundo estava olhando pra ela. Não sei bem como, mas

87
tínhamos virado um grupo só. E o namorado dela tinha
parado de zoá-la e agora a estava encorajando ativamente
a entrar, de braços abertos, com carinho – está tudo ok,
garanto, vou te proteger etc. Estávamos
eu: Essa história vai acabar muito mal mesmo?
cyrus: também encorajando-a, eu acho. E ela acabou
pulando na água, rindo muito e gritando por causa do
frio. Tudo estava bem no começo
eu: !
cyrus: ela estava tipo se debatendo… parecia mesmo
que não sabia nadar muito bem, não tenho certeza, e
depois ela foi mais para baixo onde a correnteza ficava
muito forte, e dava pra ver que estava ficando nervosa
eu: E aí alguém foi ajudá-la?
cyrus: A situação
cyrus: a situação ficou muito ruim bem rápido. Ela
afundou por um segundo e depois reemergiu, estava em
um ponto ainda mais para baixo e totalmente em pânico
eu: meu deus
cyrus: Estava gritando e a água
eu: meu deus
cyrus: entrando na boca e ela estava lutando contra a
correnteza da forma errada
eu: e ninguém podia ajudá-la?
cyrus: O namorado dela estava tentando mas tinha
muitas pedras e outras coisas atrapalhando e estava
levando muito tempo. Ele também não sabia nadar muito
bem, pelo visto, não sabia o que esperar das corredeiras
ou como enfrentá-las. A Jane tentou ir
eu: tentou ir pegar a garota?
cyrus: Sim, eu a segurei. Enquanto a segurava, vi
a namorada do cara afundar de novo, reemergindo
logo depois, mais ou menos três metros mais abaixo

88
eu: caralho, cara
cyrus: onde começavam as corredeiras, e depois ela
foi arrastada rio abaixo. Então
cyrus: então Jane e eu voltamos logo para a beira do rio
e pra picape, gritando pros outros nadadores o que estáva-
mos tentando fazer – um amigo segurava o namorado da
menina, que agora gritava – um grito demoníaco, sabe…
sem dizer nada. Então a gente desceu ao longo do rio de
carro na esperança de ultrapassá-la para depois tirá-la da
água, uma coisa assim
cyrus: tá aí?
eu: Estou
cyrus: Então tivemos que voltar para a estrada princi-
pal, aceleramos ao máximo, depois saímos logo da picape
e começamos a correr na direção da água. Ainda dava para
ouvir os gritos do namorado
eu: mas vocês conseguiram chegar na frente dela?
cyrus: O rio se alargava de novo e, além disso, tinha
também uma espécie de barragem, e ela foi arrastada para
além da barragem antes de a gente decidir o que fazer
eu: Ela estava consciente?
cyrus: Não parecia estar lutando. Era um pouco difí-
cil entender, ou pelo menos é difícil lembrar agora. Aí
tivemos que voltar pro carro e descer o rio ainda mais…
foi o jeito
eu: continua
cyrus: Foi o jeito
cyrus: então no outro lado da barragem tinha uma
espécie de lagoa, sem corrente. E o corpo dela estava lá.
E a gente se jogou dentro da água e a arrastamos para a
beira do rio
eu: ela estava respirando?
cyrus: Não

89
eu: e aí o que vocês
cyrus: nós a colocamos deitada na orla e fizemos ou
tentamos fazer uma respiração boca a boca. Ela não pare-
cia, não sei bem como explicar, porque ela já não estava
respirando mais, mas não parecia estar morta. A blusa
eu: pelo amor de deus, cara
eu: nem sei como se faz respiração boca a boca
cyrus: branca e a camiseta dela estavam levantadas e
enroladas na cabeça dela. Tive que abaixá-las para cobrir
os seios. O que, não sei por que, foi bastante embaraçoso,
ela estava gravemente ferida.
cyrus: Nem eu, pra falar a verdade. Tentei, ela, tipo,
não sei, vomitou na minha boca
eu: então quer dizer que tava reanimada, se cuspiu
água… então tava viva
cyrus: Não. Acho que ela já tinha vômito na boca. E
depois eu vomitei na orla. Estava morta.
eu: Meu Deus, sinto muito que você
cyrus: Tentei de novo. Não tinha a menor ideia do que
estava fazendo. Nossos dentes, não estou conseguindo
tirar isso da cabeça, houve um momento quando sem
querer bati meus dentes nos dela, tipo
cyrus: tipo beijo desajeitado numa festa de formatura
da escola. E obviamente eu não parava de pensar que ela
só tinha entrado na água porque eu tinha entrado
eu: olha, você não precisa se sentir culpado por isso
tudo
cyrus: E também tinha medo de que minha respiração
boca a boca a tivesse matado. Acho que fiquei pressio-
nando forte demais o peito dela – ou que
eu: e nesse meio-tempo Jane estava fazendo o quê?
cyrus: talvez uma pessoa mais experiente tivesse con-
seguido reanimá-la

90
cyrus: Na verdade, nem sei, acho que pelo menos
poderia me ajudar
eu: então ela estava morta
cyrus: Estava morta sim
eu: caralho, cara
eu: e depois o que você fez
cyrus: Dava pra ouvir de novo os gritos do namorado
dela, só que agora ele estava ferido também. Estava mais
perto da gente. Provavelmente tinha voltado pra água e
quebrado um braço ou uma perna, sei lá. Mas ele estava
na beira e gritava algo tipo “me matem”, e não gritava
por causa da dor, mas porque ele sabia que ela tava morta
eu: O que você fez
cyrus: Pegamos o corpo dela, Jane e eu carregamos
o corpo até a picape e corremos na direção do povoado.
Talvez estivéssemos fingindo um pouco dentro de nós que
ainda dava pra fazer algo pra salvá-la, quer dizer, essa
ilusão ainda estava viva dentro de nós, mas obviamente
todo mundo sabia que ela já estava morta. Mas não tínha-
mos, quer dizer, ninguém tinha um telefone
eu: Achei que você tivesse um celular
cyrus: Está quebrado faz tempo. Então, o primeiro
lugar onde tinha pessoas e celulares era um restaurante
perto da estrada, alguns minutos antes do povoado.
Saímos do carro e conseguimos explicar gritando o que
tinha acontecido e indiquei o corpo, e dois homens do
restaurante saíram correndo e nos ajudaram a colocar
o corpo lá, no chão. A propósito, os olhos dela estavam
arregalados e a boca
eu: meu deus, cara
cyrus: Várias pessoas se juntaram, e alguém falou pra
chamar a polícia e acho que conseguimos avisar que tinha
outras pessoas perto do rio – o namorado dela ferido, o

91
amigo dele. Dois homens do restaurante pegaram um carro
e foram buscá-los. E uma velhinha trouxe alguns limões
eu: limões?
cyrus: Ela trouxe pra gente dois gomos de limão e falou
algo a respeito do choque e que era pra gente chupá-los e
a gente chupou. Alguém cobriu o corpo com uma coberta.
Eu vi que tinha uns telefones públicos e tinha um cartão
telefônico na picape e corri pra um dos telefones, meio
doido. Acho que vomitei de novo. Mas consegui ligar pro
meu pai, tava louco pra perguntar pra ele sobre a respira-
ção boca a boca, para saber se havia possibilidade de eu
ter matado a garota ou desperdiçado uma oportunidade
de salvá-la. Algo assim. Não estava
eu: você fez todo o possível, sinto muito mesmo
cyrus: lúcido. E meus dentes estavam batendo, e cada
vez que batiam me lembrava dos dela
cyrus: Consegui falar com meu pai no telefone. Só
Deus sabe como estava minha voz. Com certeza estava
muito agitado. Chorando muito. Consegui fazer a per-
gunta sobre a respiração boca a boca, se tinha errado. Ele
tentou me acalmar e falou, não lembro bem, que não era
culpa minha, que provavelmente ela já tinha sufocado por
causa do vômito, ou algo do tipo. Não que um psiquiatra
saiba muito sobre respiração boca a boca. Também acho
que ele falou algo sobre eu voltar pra casa
eu: nada disso é de nenhuma forma
cyrus: Desliguei o telefone e voltei para a picape. Uma
das pessoas que trabalhavam no restaurante falou que
podíamos ir embora e nós fomos
eu: tua culpa
eu: você não esperou a polícia chegar?
cyrus: claro que não, tá louco… simplesmente fomos
embora. Voltamos para o apartamento em silêncio total.

92
Tivemos que vestir nossa roupa por cima dos trajes de
banho, mas, quando chegamos em casa, estávamos já secos
por causa do calor. Como falei, estava fazendo uns trinta
graus. Mesmo assim, meus dentes ainda estavam batendo
eu: vocês não conversaram mais sobre o que aconteceu?
cyrus: Conversamos depois, mais ou menos. Depois de
tomar banho, a gente percebeu que não tinha comido nada
o dia todo e, apesar de me sentir enjoado, ao mesmo tempo
estava com fome, muita fome. Fomos pra um pequeno
restaurante perto de onde moramos, aonde sempre vamos.
Bebemos cerveja e tequila, que, como você já sabe, eu
odeio, mas que me ajudou a tirar o sabor ruim da boca, e
aí a gente conversou
eu: o que ela falou
cyrus: Aliás, o sabor ruim voltou
cyrus: Ela estava chocada, à sua maneira, claro. Falou
que queria nunca ter entrado na água. Mas também pare-
ceu um pouco eufórica. Tipo, como se a gente tivesse
passado por uma experiência “real”
eu: Acho que foi isso mesmo
cyrus: Pode ser, mas tinha essa sensação, essa sensação,
como se o objetivo principal dessa nossa viagem ao México
fosse que algo desse tipo, algo que fosse muito “real”,
acontecesse. Não é que eu realmente acredite nisso, mas
senti isso, e falei algo do tipo que ela agora tinha material
muito bom para o romance dela
eu: ela está escrevendo um romance?
cyrus: Quem sabe
eu: e ela reagiu como
cyrus: Talvez o esteja escrevendo agora
cyrus: Ficou calada. Com certeza ficou chateada/
ma­goada. Aí falou algo do tipo que esse simplesmente
é o mundo, que coisas assim acontecem, que você pode

93
tomar todo o cuidado que quiser, pode gastar a própria
vida tomando cuidado, mas não tem como evitar a reali-
dade da morte. Me lembro de ter dado uma gargalhada
depois da frase “realidade da morte” para dizer que eu
achava isso um clichê total
eu: vocês fizeram as pazes?
cyrus: Não. Ontem a gente ficou no apartamento lendo
e fumando, mas mal conversamos. Hoje também quase
não dirigimos a palavra um ao outro
eu: Talvez vocês só precisem dar um tempo, você não
acha? Uma coisa assim deixaria qualquer pessoa abalada
eu: Sinto muito
cyrus: Tudo bem
eu: por tudo isso
cyrus: Obrigado
cyrus: Como estão as coisas na Espanha?

94
3
Em vez de confessar a Isabel que minha mãe, minha
brilhante e incondicionalmente solidária mãe, gozava de
ótima saúde, e que eu era um mentiroso da pior espécie,
resolvi continuar alimentando cada vez mais a ideia de
que meu pai, o homem mais amável e generoso que eu
conhecia, era um prepotente, um fascistoide de segunda
categoria, o Caudillo da sua casa. Do meu ponto de vista,
essa mentira não só conseguiu desviar a atenção de Isabel
da sensação de constrangimento causada pela minha deso-
nestidade inicial sobre minha mãe, substituindo aquele
constrangimento por compaixão, como também serviu
para diminuir meu senso de culpa. Eu me sentia muito
melhor difamando ambos meus pais, distribuindo igual-
mente entres eles a responsabilidade por meu fracasso
como filho. E, já que a mentira sobre meu pai era tão comi-
camente absurda, porque, de todos os homens que eu
conhecia, ele era absolutamente o mais livre de qualquer
vontade-de-poder, me parecia mais uma piadinha inócua
que uma forma mórbida de provocar o destino ou uma
aposta cármica na saúde dos próprios pais. Também senti

97
que, para evitar qualquer confusão futura, precisava mentir
com total coerência, então decidi repetir a confissão feita
a Isabel e Rufina também para Teresa, que, por sua vez, a
contaria a Arturo e Rafa, todos que, desde o nosso primeiro
encontro, acreditavam que eu tinha recentemente sofrido
uma das perdas mais graves na existência de uma pessoa.
Com certeza, uma grande parte da aura de mistério que
Teresa me atribuía derivava do fato de que, depois da
minha cena dramática durante a festa, nunca mais havia
aludido ao meu sofrimento, embora esse estado de espí-
rito pudesse ser deduzido dos meus silêncios. O fato de
eu estar a milhares de quilômetros de distância da minha
família pouco tempo depois de tamanha tragédia, embora
nunca tivesse especificado a data em que ocorrera, prepa-
rou o terreno para a mentira sobre meu insuportável pai,
e minha recente afirmação de que existia a possibilidade
de eu não voltar para os Estados Unidos depois do fim
da minha bolsa fortalecia minha imagem de exilado. De
qualquer forma, quando a temporada das chuvas e dos
dias com poucas horas de luz começou a ceder à época
dos dias mais longos e amenos e das noites mais suaves,
e o tocador de acordeão voltou para a Plaza de Santa
Ana e as ruas ficaram novamente animadas, comecei a
ver Teresa com mais frequência. Ela não parecia ter um
emprego, embora teoricamente trabalhasse na galeria. Eu
caminhava até Salamanca depois de ter “trabalhado” no
Retiro, Teresa deixava a galeria aos cuidados de alguma
outra pessoa e, juntos, íamos ao cinema ou dávamos voltas
em livrarias ou cafés.
Sempre que estava com Teresa, sempre que estávamos
conversando, sentia que nossos rostos se engajavam num
diálogo mais íntimo e sofisticado do que as nossas vozes.
Seu rosto era formidável: às vezes parecia muito jovem;

98
outras, muito velho. Quando arregalava os olhos, ela pare-
cia uma menina e, quando os semicerrava em um gesto
de concentração, as minúsculas rugas nos cantos externos
faziam com que ela parecesse vivida, sábia. Graças a essa
capacidade de parecer instantaneamente mais nova ou
mais velha, mais inocente ou mais experiente do que era,
ela conseguia eludir qualquer crítica que lhe fosse diri-
gida. Se você a acusava, digamos, de inferir demasiados
significados de certa cena de um filme, ela arregalava os
olhos e olhava com um ar tão inocente que você chegava
a se sentir culpado só de ter pensado naquilo; se você a
acusava de algum tipo de ingenuidade, seu olhar oblíquo
revelava uma tamanha profundidade de experiência de
vida que a acusação se voltava na hora contra você. Seus
olhos podiam defletir ou refletir ou ironizar, e o sorriso,
que era largo, conseguia imediatamente fazer pouco-caso
de tudo, tornando vã qualquer tentativa de crítica feita
contra ela.
No entanto, eu achava que nossa situação peculiar
dificultava o movimento dialético do rosto dela. Eu nunca
falava em inglês com Teresa, pelo menos não desde a
noite do nosso primeiro encontro, quando minha eloqu-
ência havia transbordado. Expliquei-lhe que era porque
queria melhorar meu espanhol, mas o real objetivo era
preservar a faculdade de dizer uma coisa por outra ou
de ser mal interpretado, além de resguardar e ampliar
o mistério daquele desabafo inicial. Estava convencido
de que meus disparates no caminho para a festa de Rafa
a tinham impressionado e estava determinado a não
estragar tudo com banalidades. Até que minha exibição
no carro continuasse sendo o único exemplo disponível
do meu inglês, teria esperanças de que ela fosse sempre
traduzindo mentalmente meu espanhol fragmentário,

99
transformando minhas frases desconexas e quase incoe-
rentes no inglês mais fluente que ela conseguia imaginar.
Ela não se limitaria, como Isabel, a intuir a profundidade
dos meus pensamentos, mas os converteria nos fonemas
do segundo idioma dela, aprendido com tanta diligência
e esforço. Claro que nunca conseguiria uma formulação
satisfatória em inglês do que quer que meu espanhol dei-
xasse intuir, mas isso preservaria, de uma forma ainda
mais eficaz, a mística de meus poderes sobrenaturais na
minha língua nativa. Tais conversas representariam o
contraponto ao trabalho de tradução dos meus poemas,
em que ela continuava a trabalhar com Arturo, mas cuja
responsabilidade tinha assumido quase completamente.
Ali, ela tentava fazer seu melhor para imaginar cada
concebível correspondente espanhol ao meu inglês, nos
limites do possível; aqui, tentava extrair do meu espanhol
elementar a eloquência inata do poeta.
Em consequência de todas essas interpretações e pro-
jeções, durante nossas conversas Teresa muitas vezes não
sabia o que fazer com o próprio rosto, ou pelo menos suas
expressões faciais ficavam dessincronizadas: arregalava
ou apertava os olhos mais em resposta às próprias rumi-
nações internas, ao que quer que ela imaginasse que eu
tivesse dito, do que àquilo que eu tinha dito de verdade.
Portanto, eu podia arquear a sobrancelha para comunicar
que estava observando Teresa enquanto tentava tradu-
zir o que quer que eu dissera ou, melhor, que não tinha
conseguido dizer, e dessa forma meu rosto retomava do
dela os poderes de um metacomentário. No entanto, à
medida que passávamos cada vez mais tempo juntos,
eu me surpreendia evitando seus olhos porque, quando
olhava neles, tinha a sensação de que ela conseguia ver
dentro de mim. Ou melhor, eu a via enquanto ela se via

100
refletida nos meus olhos, via que ela sabia, ou estava come-
çando a entender, que, qualquer que fosse seu interesse
por mim, era inteiramente virtual, que o fascínio que eu
exercia sobre ela pouco tinha a ver com minha escrita ou
com meus discursos em si, e, embora estivesse disposta
a me levar a crer que acreditava na minha profundidade,
ela estava consciente de que estava apenas encontrando
a si mesma. Essa ansiedade caracterizou a quarta fase do
meu projeto.
Uma tarde, Teresa e eu assistimos a Cidadão Kane, que
estava passando no Círculo de Bellas Artes, e depois
tomamos um vinho branco com gosto adstringente
num barzinho ali perto. Após fazer várias observações
ambíguas sobre o cinema, percebendo que Teresa estava
insolitamente distraída, decidi fazer minha confissão.
“Falei para você”, disse, lentamente, “que minha mãe
morreu. Isso não é verdade”.
“Como assim?”, perguntou ela, subitamente interes-
sada, mas sem certeza de ter entendido.
“Falei para você que minha mãe está morta, mas ela
está viva”, disse.
“Ah, tá”, disse ela, sorrindo, “tinha achado que você
estava bêbado, chapado e com saudade de casa e que
queria um pouco de atenção”. Depois se encostou em
mim, começou a brincar com meus cabelos e disse em
inglês: “Você tem licença poética.”
Olhei para ela, perplexo. Fiquei surpreso, a princípio,
por não me sentir aliviado e, em seguida, pela intensa
sensação de raiva que crescia dentro de mim, como se
minha mãe tivesse morrido de verdade e Teresa estivesse
me acusando de mentir. “Eu não precisava atenção. Não
teve as saudades”, falei, qualquer tom de gravidade sendo
neutralizado pela minha péssima gramática. Ela arregalou

101
os olhos enquanto eu me afastava bruscamente, mas não
disse nada, esperando minha explicação. Enquanto uma
parte de mim insistia em dizer à outra parte que isso era
maravilhoso – a suspensão de uma execução – e que podia
deixar de lado meu sentimento de culpa e rir dele com
Teresa, me ouvi proclamar: “Minha mãe está doente. E
porque…”, fingi que era difícil demais continuar. O sor-
riso logo se apagou do rosto dela. “Tenho medo… estava
tentando imaginar…” Seus olhos se arregalaram ainda
mais. “Achei que, se pronunciasse a palavra, ficaria com
menos medo.”
“O que ela tem?”, perguntou Teresa, e eu achei a per-
gunta indelicada, talvez porque, embora tivesse parado
de sorrir, ela não me parecia nada enternecida, ou talvez
porque estivesse interrompendo minha exibição. Fiz um
gesto para pedir a conta, embora ainda não tivéssemos
terminado de beber, e logo depois me arrependi de tê-la
pedido.
Não querendo nomear uma doença específica com
medo de condenar, de alguma forma, minha mãe a ado-
ecer dela, ignorei a pergunta. Estendi a mão até encostar
de leve no braço de Teresa, um gesto inusitado para mim.
“Tenho me sentido muito mal por haver mentido daquele
jeito. Sinto muito.” Encolhendo a mão, mas deixando-a
sobre a mesa para que quase tocasse a dela, expliquei:
“Quando cheguei a este país, ninguém me conhecia. Então
pensei: você pode ser para os outros qualquer coisa que
quiser. Você pode contar que é rico ou pobre. Pode dizer
que vem de qualquer lugar do mundo, que trabalha em
qualquer coisa. Inicialmente me senti muito livre, como
se minha vida antiga nem fosse mais real.” Bebi de um
só gole todo o vinho, que já estava amornando. “E estava
feliz por estar longe de meu pai.”

102
Embora convencido de que meu discurso tinha surtido
o efeito desejado no sentido de persuadir Teresa de que
minha mãe estava doente, ou pelo menos de tê-la indu-
zido a suspender sua incredulidade, sentia também que
algo não tinha dado certo na tradução e que Teresa estava
achando que eu não havia sido capaz de me expressar.
Quase não resisti à tentação de exibir toda a minha elo-
quência em inglês, mas percebi que, de fato, meu inglês
era de longe inferior à opinião que ela havia feito dele.
“Meu pai”, falei, “é basicamente um fascista”.
“O que você quer dizer com ‘fascista’?”, perguntou ela.
Ninguém em nenhum momento do meu projeto tinha
me perguntado o que eu queria dizer com “fascista” ou
“fascismo”. Senti a raiva se reacender.
“Ele é um homem de direita”, falei, uma frase que não
queria dizer nada. “Só respeita a violência.” Enquanto
dizia isso, me lembrei do meu pai, que, com paciência
infinita, tentava agir de maneira que uma aranha rastejasse
do carpete até um pedaço de papel, para que ele pudesse
escoltá-la até o jardim sem machucá-la.
“Mas sua mãe não é feminista?”, indagou ela, num
tom suspeitosamente desprovido de qualquer suspeita.
Não me lembrava de ter conversado com Teresa sobre as
ideias políticas da minha mãe.
“Sim, e em público ele também é”, respondi, como se
fosse um fato conhecido por todos que os fascistas casam
com feministas para se disfarçarem. “E você, o que quer
dizer com ‘feminista’?”, consegui acrescentar. Ela se limi-
tou a sorrir de forma enigmática.
A conta chegou. Paguei a mais por causa daquelas
moedas grandes que ainda me pareciam falsas, e levan-
tamos para ir embora; era raro eu pagar quando estava
com Teresa. Começamos a caminhar rumo ao Retiro. A

103
nicotina e o vinho branco se misturaram agradavelmente
à luz e ao calorzinho primaveril ainda incerto e, enquanto
andávamos, me senti bastante seguro de que Teresa me
daria, ao menos, o benefício da dúvida e, para fortalecer
ainda mais essa sensação, me lembrei daquela vez em
que fora duro com ela na leitura pública e ela parecera
sinceramente magoada. Mulheres jovens ostentavam seus
vestidos novos, adolescentes corriam pelas praças com
seus skates, falhando, uma depois da outra, as tentativas
de fazer o flip, e nós víamos nossas imagens vagamente
refletidas nos ônibus cor de prata que passavam. Fiquei
surpreso quando me vi pegando na mão de Teresa, mas fiz
isso com uma imperceptível ironia que era implícita, pelo
menos potencialmente, no gesto infantil de balançar de
leve nossos braços: se ela não gostasse dessa intimidade,
podia considerá-la apenas uma frivolidade. Ao mesmo
tempo, fiz questão de comunicar, principalmente pelo meu
modo de andar, que meu jeito aparentemente relaxado e
otimista era uma tentativa de disfarçar a imensa tristeza
causada pela minha situação familiar. Nessa represen-
tação de sofrimento disfarçado, talvez fosse de grande
ajuda o sentimento de culpa que começava a se espalhar
dentro de mim, suplantando a nicotina e o vinho. Esse
sentimento ainda não causava dor, porém começava a se
insinuar em cada recanto do meu corpo, posicionando-se
à espera da noite.
Entramos no Retiro pelo portão principal de ferro
batido. Era o início de um longo crepúsculo, uma das
primeiras noites realmente primaveris, e por isso havia
muitas pessoas ali: jovens casais exibindo sua paixão em
cada banco, meninos andando de triciclo, brincando de
pega-pega ou jogando bola, e os homens, que dentro de
pouco tempo venderiam picolés, ainda vendendo batatas

104
fritas. As vozes, as risadas, os passarinhos, o vento e o
trânsito se combinavam e se distinguiam com suavi-
dade. Enquanto andávamos na direção do Estanque,
que sem dúvida estaria lotado de pedalinhos, senti que
efetivamente poderia ficar na Espanha por um tempo inde-
terminado: moraria com Teresa e seria sustentado por ela,
minha amante e tradutora, juntaria um considerável reper-
tório poético, passearia no parque todas as noites, falaria
um espanhol perfeito. Uma pequena onda de euforia se
espalhou dentro de mim. Mas por que estava imaginando
tudo isso com Teresa, em vez de Isabel, considerando que
eu era o amante desta e não tinha nenhum envolvimento
romântico com aquela? Tinha cumprimentado tantas
vezes Teresa com um beijo, alcançando deliberadamente
o cantinho de sua boca, ou me demorando perto de seu
rosto um segundo a mais do que o necessário, que me
parecia existir entre nós uma relação física e que estáva-
mos, no mínimo, numa situação de cortejo prolongado.
Mas, enquanto caminhávamos em volta do Estanque na
direção da colunata, fui tomado pelo repentino temor
de que tudo isso fosse só fruto da minha imaginação.
Teresa já devia ter notado que eu sempre tentava beijar o
cantinho de sua boca e que flertava com ela, mas tinha jul-
gado que aquilo não merecia atenção; afinal, ela não tinha
me levado a sério nem quando eu havia lhe contado que
minha mãe estava morta e minhas lágrimas escorreram
ao longo das suas costas elegantes. Nunca tinha tentado
ficar com ela, em parte porque sempre tomara como certo
que poderia fazê-lo quando eu quisesse, e que ela estava,
se não exatamente esperando que eu a seduzisse, pelo
menos disponível, e que alimentar essa possibilidade, por
enquanto, seria para nós mais excitante que uma eventual
consumação. Nunca tinha acreditado estar apaixonado por

105
Teresa, o que quer que isso significasse, mas várias vezes
tinha ficado com a impressão de que talvez ela estivesse
um pouco apaixonada por mim. E, se não fôssemos para a
cama, ou não “concretizássemos” de alguma outra forma
nossa relação, eu deixaria a Espanha com essa maravi-
lhosa chance ainda intacta e, na minha memória, sempre
poderia fantasiar à luz propícia do subjuntivo sobre a
relação que a gente poderia ter vivenciado. Essa ideia já me
ocorrera antes, mas nunca tinha conseguido formulá-la, e
só agora, depois de meia hora de conversa no barzinho,
estava começando a perceber meu erro: ela havia achado
que eu estava mentindo a respeito da minha mãe, que eu
era apenas um estrangeiro bêbado, desajeitado, carente
de um abraço. Pouco me importava que sua suposição
fosse justa; importava-me muito mais que a ela importasse
tão pouco. Quando alcançamos a colunata, sentamos nos
degraus frios, não muito longe de um círculo de tambo-
res, e Teresa começou a enrolar um baseado. Olhei para
ela, esplêndida à luz do sol poente, cantarolando algo no
ritmo daqueles instrumentos musicais, e a possibilidade
de ela não ser ao menos um pouco apaixonada por mim
me deixava arrasado.
Queria beijá-la ou dizer-lhe algo dramático em inglês,
mas sabia que dessa forma eu cairia no ridículo. Em vez
disso, enquanto terminávamos de fumar, fingi lembrar
de repente:
“Tenho que encontrar alguém”, falei, levantando-me
com uma urgência que comunicava o quanto essa pessoa
era importante para mim.
“Ok”, disse ela, com uma expressão que não traía a
mínima curiosidade, menos ainda ciúme. Contra qualquer
evidência, decidi que ela estava fingindo. “Deveríamos
começar a conversar sobre as novas traduções”, sugeriu

106
ela. A galeria estava prestes a imprimir um livreto bilíngue
dos meus poemas.
“Claro”, respondi, dei-lhe dois beijos rápidos, bem longe
da boca, e comecei a caminhar com passos apressados
na direção de onde viéramos. Sem prestar atenção para
onde estava indo, reconstruí nossos passos e me encontrei
novamente, sóbrio e com frio, na frente do Círculo de
Bellas Artes. Comprei um bilhete para o próximo filme,
que eu pensava que fosse Campanadas a medianoche. Sentei
na mesma cadeira, com a ausência de Teresa ao meu lado.
Tomei um comprimido amarelo e esperei, estava meia hora
adiantado. Cochilei, mas fui acordado pelos créditos de
abertura: era a segunda sessão de Cidadão Kane.

Isabel e eu estávamos deitados na cama, fumando, no


começo da noite, ela lia Ana María Matute e eu, A sonata a
Kreutzer, de Tolstói, quando, de repente, eu lhe disse que
gostaria de visitar Granada, mais cedo ou mais tarde, e ela
falou que tinha um trem noturno que levava cinco horas
até lá. Então jogamos o estritamente necessário dentro das
nossas bolsas e fomos a pé até Atocha; fui eu que comprei
as passagens. Matamos a hora que ainda faltava até a par-
tida bebendo café no átrio da estação, depois embarcamos
num Talgo de aspecto muito acabado, encontramos nossas
poltronas e abrimos novamente nossos respectivos livros,
olhando um para o outro quando o trem começou a se
movimentar com uma sacudidela.
À exceção do metrô, de alguns trens metropolitanos e
do trenzinho de um parque em Topeka, eu nunca tinha
viajado de trem, um meio de transporte tão arcaico
quanto a poesia, pensei. Alguns minutos mais tarde,
compartilhei esse pensamento com Isabel. Ela riu, se

107
inclinou na minha direção para me beijar, e eu desejei
que Teresa pudesse nos ver, enquanto os campos escuros
desfilavam ao lado. Isabel tirou dos cabelos os palitos
prateados que os prendiam, encostou a cabeça no meu
ombro e cochilou enquanto eu folheava Tolstói à procura
de um trecho que falava de um trem e do qual me lem-
brava vagamente, mas que não consegui encontrar. Não
importava. Cada frase, independentemente do assunto,
imitava o movimento do trem, e o trem imitava a cadên-
cia da frase, e de repente me senti contemporâneo de
sua sintaxe. O fraseado de Tolstói, ou melhor, de Tolstói
na tradução de Constance Garnett, estava em perfeita
harmonia com o movimento do Talgo, o tempo real e o
tempo da prosa começaram a fundir-se, e a leitura, em
vez de me afastar do mundo, tornou mais vívida a minha
experiência do presente.
Pousei o livro e comecei a pensar nessa estranha expe-
riência que é a leitura, no senso de harmonia entre os
ritmos de uma reprodução do real e o real, na sua identi-
dade estrutural, de modo que o sujeito de uma frase era
exatamente o tempo da sua progressão – era justamente
isso que eu respeitava em um dos pouquíssimos que
chamava, sem nenhuma ironia, de “grande poeta”: John
Ashbery. Tirei da bolsa os Selected Poems, tomando cuidado
para não acordar Isabel, abri-o ao acaso e li alguns versos.
Aqui também dava para sentir a trama do tempo em sua
transcorrência, um trem invisível, a máquina branca
da vida. As frases fluidas de Ashbery sempre davam a
impressão de que tinham um sentido, mas, assim que
você levantava o olhar da página, era impossível dizer
qual sentido haviam projetado; embora elas usassem a
linguagem dos conectivos lógicos – “mas”, “portanto”,
“assim” – e a linguagem do desenvolvimento narrativo

108
– “então”, “depois”, “em seguida” –, esses termos eram
meramente propulsivos; na realidade, não havia nenhuma
organização lógica ou progressão. Ao ler uma frase de
Ashbery, uma frase complexa, desenvolvida ao longo de
muitas linhas, era possível sentir a trajetória e o ritmo
do pensar na ausência de pensamentos. Os pronomes
de Ashbery – “ele”, “você”, “nós”, “eu” – criavam um
senso de intimidade, como se o poeta falasse diretamente
com você ou como se fosse você mesmo a falar ou, ainda,
como se você tivesse familiaridade com o contexto que
o poema projetava, mas você nunca tinha certeza dos
antecedentes deles, fossem pessoas ou coisas. “Isto” num
poema de Ashbery parecia referir-se fundamentalmente
aos mistérios do próprio poema na ausência de qualquer
referente externo estável. O proceder do poema investia
seus próprios pronomes, e a responsabilidade do “você”
recaía sobre o leitor. Comecei a ler:

Pelo tempo que estiver lá


Vai desejá-lo enquanto o fragmento de muro se afunda
Mais profundamente como que esvaziado pelo sol que
O reveste completamente; é tanto miragem quanto aquele pouco
Que estava presente, a totalidade medíocre
Reunida em qualquer momento, como seus olhos
E tudo aquilo de que falam, como por exemplo as suas
mãos, em sotaques
Perdidos além de qualquer sonho de desejá-los novamente.
Ter isso como algo de onde voltar constantemente –
Nada mais, na verdade, do que se surpreender com
sua ausência
E se preparar para continuar o diálogo até
Aquelas regiões próximas e misteriosas que coincidem
Exatamente com o instante de sua aparição.

109
Os melhores poemas de Ashbery, pensei, embora
não exatamente nesses termos, descrevem as sensações
engatilhadas pela leitura de um poema de Ashbery; seus
poemas se referem à forma como a referência deles desa-
parece. E, quando você lê sobre o que você lê no momento
em que o está lendo, imediatamente vivencia a sensação de
mediação. É como se os verdadeiros poemas de Ashbery
estivessem escondidos de você, escritos no outro lado
duma superfície espelhada, e você só conseguisse ver
o reflexo de sua leitura. Mas, refletindo a sua leitura, os
poemas de Ashbery lhe permitem prestar atenção à sua
atenção, sentir o que você está sentindo, e dessa forma eles
tornam possível um estranho gênero de presença. Mas
é uma presença que mantém intactas as possibilidades
virtuais da poesia porque o verdadeiro poema permanece
fora do seu alcance, gravado no lado oposto do espelho:
“Você o tem mas não o tem. / Você não consegue alcançá-
-lo, ele não consegue te alcançar / Vocês não conseguem
alcançar um ao outro.”
Isabel se mexeu, eu guardei o livro, encostei minha
cabeça sobre os cabelos dela e adormeci. Ambos acor-
damos quando o trem fez uma parada, ainda a algumas
horas de Granada. Descemos e fumamos na escuridão,
embora fosse permitido fumar no trem. O ar da noite
era fresco, impregnado de jasmim, se é que há jasmim
na Espanha. Isabel me descreveu um sonho que não con-
segui entender. O trem fez um barulho que anunciava a
partida iminente, e voltamos para as nossas poltronas,
adormecemos novamente e depois fomos acordados com
delicadeza pelo fiscal, que nos avisou que estávamos
chegando a Granada, a estação final. A escuridão estava
menos densa agora que faltava uma hora para ama-
nhecer e, quando o trem entrou na estação e finalmente

110
parou, desembarcamos, cansados, mas não de uma forma
desagradável.
Achamos um táxi e fomos para um hotel que Isabel
conhecia e que ficava em Albaicín, um bairro de ruazi-
nhas incrivelmente estreitas e sinuosas que subiam para
um morro na frente de Alhambra. O hotel era muito
bonito, considerando o valor da diária: arquitetura
medieval mourisca, complexa decoração de madeira
e um pátio com mosaico verde. Fomos conduzidos a
um quarto simples com vigas expostas, e que por isso
me fazia lembrar do meu apartamento, e dormimos
pelo resto da manhã. Quando acordei, por um instante
hesitei, sem saber onde estava, depois me lembrei da
viagem improvisada, do trem, e de novo desejei que
Teresa pudesse me ver agarrado a Isabel, seus cabelos
negros espalhados pelos lençóis engomados. Tomamos
banho, nos arrumamos e saímos a pé num dia extraordi-
nariamente luminoso, para passear pelas ruas filiformes.
Depois de um tempo, encontramos um bar com umas
mesinhas que ocupavam a calçada, já muito estreita, e
pedimos suco de laranja, croissants e café. O bar tinha
vista para a Alhambra, que ficava em cima de um grande
morro, do outro lado do rio. Os cabelos de Isabel estavam
soltos, e eu os achei lindos e disse isso a ela. Paguei a
conta, e descemos na direção da cidade para visitarmos
a catedral e um pequeno museu de arte moderna, onde
fingi tomar um monte de notas.
Quando a fome bateu novamente, já era fim de tarde,
e voltamos para Albaicín à procura de um restaurante
que Isabel conhecia. Em poucos minutos, trouxeram-nos
umas bandejas gigantes de peixe frito e lula que Isabel
tinha pedido sem me consultar ou talvez fosse o único
prato do restaurante. Trouxeram também uma garrafa

111
de vinho branco quase congelado, do qual bebi vários
copos, um depois do outro, e me senti imediata e agra-
davelmente bêbado. Disse algo a Isabel sobre o enredo de
épocas diferentes nas cidades antigas e, da forma como
ela anuiu, deduzi que não estava escutando.
“Está pensando em quê?”, perguntei, enchendo ambos
os copos, a garrafa quase vazia.
Ela hesitou. “Nunca falamos sobre nossa relação, sobre
as regras”, respondeu. Eu sempre tinha achado que a única
regra fosse que nunca falaríamos dela. Era, sem dúvida,
a primeira vez que eu a ouvia se referir à nossa “relação”.
Já sabia aonde queria chegar: ela queria ter certeza de que
eu não estava ficando com outra mulher, que, enquanto
morasse na Espanha, seria exclusivamente dela. Talvez esti-
vesse tentando descobrir quanto tempo eu planejava ficar,
se estava considerando seriamente a possibilidade de ficar
na Espanha depois do período da minha bolsa de estudo.
“Estou em um relacionamento sério” é a expressão em
inglês equivalente ao que ela disse. Fiquei sem fôlego.
Sorri, como para dizer que achava normal que ambos
pudéssemos sair com outras pessoas.
“Ele deve ter a cabeça aberta”, falei, continuando a
sorrir, “para te deixar viajar com outros homens”. Estava
surpreso por me sentir tão arrasado.
“Este ano ele está morando em Barcelona, a trabalho.
Esteve aqui no período de Natal e mais uma ou duas vezes.
Ele vai voltar para Madri a partir de junho.” O tom em que
falou “junho” dava a entender que ela queria saber onde
eu planejava estar naquele mês. Lembrei que não tinha
encontrado Isabel muitas vezes durante o recesso de Natal.
Afastei meu prato um pouco e acendi um cigarro.
“Então o que vai acontecer com a gente em junho?” Agora
o peixe frito parecia alheio, aracnoide, repugnante.

112
Ela sorriu como se dissesse: Gosto muito de você, a gente
se divertiu muito, mas em junho tudo isso vai acabar. Depois
disse: “Não sei.”
“Qual é o nome dele?”, perguntei, sugerindo com meu
tom que, qualquer que fosse o nome, eu o achava um
menino inofensivo.
“Oscar”, respondeu ela, num tom que sugeria que
era um homem de verdade. “A gente decidiu terminar
quando ele teve de se mudar para Barcelona por causa
do trabalho. Ou pelo menos decidimos que ficaríamos
numa relação aberta. Mas agora estamos achando que
seria bom reatarmos nosso namoro assim que ele estiver
de volta.” Em inglês, achei que “Oscar” soava ridículo.
Em espanhol, muito sério.
Tinha deixado meu sorriso sumir. “Ele sabe de mim?”
Tinha vontade de chorar. Tentei desejar Teresa intensa-
mente, mas não consegui.
“Ambos saímos com outras pessoas. Não fazemos per-
guntas um ao outro sobre esse assunto”, respondeu. Eu me
perguntei com quantas pessoas ela havia saído recente-
mente. “Assim como eu e você”, acrescentou. Sem dúvida,
ela esperava que eu tivesse ficado com outras pessoas.
“Claro”, disse, recuperando meu sorriso a fim de suge-
rir que tinha ido para a cama com metade das mulheres
de Madri. “Você o ama?” Pergunta boba e muito clichê.
“Sim”, respondeu ela, num tom que confirmava que
minha pergunta era boba e muito clichê.
“Bem”, falei, “ainda falta um pouco até junho”. Ima­
ginei-me quebrando a garrafa na cabeça dela e logo depois
cortando minha garganta com um caco de vidro.
“Sim”, disse ela, e se inclinou na minha direção para me
beijar. “Ainda falta muito tempo antes de você ir embora.”
“Nunca disse que ia embora”, retruquei friamente.

113
“Mas sua mãe…”, disse ela.
Agradeci a Deus por me ter fornecido um bom pre-
texto para fazer cara de magoado. “Não quero falar sobre
minha mãe com você.” E, depois de uma pausa, acres-
centei: “Preciso mijar.” Fui para o banheiro, joguei água
no rosto, me olhei no espelho e soltei um único e ridículo
soluço. Depois ri de mim mesmo, joguei mais um pouco
d’água, sequei o rosto e voltei para a mesa, triste porém
controlado. “Desculpa”, disse. “Às vezes é difícil pensar
na minha mãe.”
“Entendo”, disse ela. “Eu é que peço desculpa.” Beijei-a
para reiterar que meu estado emotivo nada tinha a ver com
a nossa conversa de antes e retomei meu discurso cada
vez mais fragmentário e incoerente sobre o conceito de
tempo nas cidades antigas. Agora ela parecia interessada,
embora eu suspeitasse de que era por pura caridade.
Saímos do restaurante e voltamos para o centro histó-
rico atravessando Albaicín. Isabel colocou seu braço em
volta de mim, num gesto que não exprimia carinho, e sim
alívio por ter esclarecido as coisas entre nós. Enquanto
caminhávamos e começava a escurecer e Isabel se enrolava
num xale, veio à minha mente a cena na lagoa, quando
Miguel tinha me esmurrado; devia ser mais ou menos
o período em que ela havia terminado com Oscar. E só
Deus sabia se a desconfiança de Rufina a meu respeito era
o resultado da sua aversão por Oscar ou do seu carinho
por ele. Sentamos num banco de uma pracinha e ficamos
observando as brigas entre os bacuraus. Comecei a evocar
meses e meses de suposições; senti algo parecido com
uma mudança física enquanto meu passado recente se
liquefazia e se reformava. O que sobrava da luz do dia
polia tudo que tocava; Isabel era metade sombra e metade
bronze, ilimitada e limitada. Ficamos chapados.

114
Quando anoiteceu por completo, descemos na direção
do Darro e depois ao longo dele; havia uma espécie de
pequena feira, e uma parte do rio era iluminada por tochas.
Meninos vestidos de branco, brilhando suavemente, cor-
riam pelas ruas. Fazia um tempinho desde que um de
nós tinha falado qualquer coisa e, se por meses eu tinha
imaginado que os silêncios de Isabel eram exclusivamente
dedicados a mim, agora nem sequer tinha certeza de estar
em seus pensamentos.
“Quando estou perto de um rio”, ouvi-me falando, “me
lembro de quando estava no México”.
“Quando você esteve no México?”, perguntou ela.
“Passei um tempo com minha namorada numa cidade
chamada Xalapa antes de viajar para a Espanha.” Fiz uma
pausa como para sugerir que talvez ainda estivesse namo-
rando aquela garota. “Um final de semana fomos passear.
Encontramos um lugar para nadar. A correnteza estava
muito forte, mas decidimos nadar mesmo assim. Tinha
um homem. Ele queria que a namorada dele nadasse. Mas
a menina tinha medo da correnteza. No final ela entrou
no rio.” Fiz outra pausa, acendendo meu cigarro. Por que
meu espanhol era tão desconexo? “Ela não sabia nadar.
Ela não teve sorte e foi arrastada pela correnteza. Fomos
atrás dela. Achamos o corpo dela no rio. Fiz uma…”, aí
toquei minha boca e depois apontei a de Isabel, “para que
ela pudesse respirar. Mas era tarde demais. Levamos o
corpo a um lugar onde tinha um telefone. Chamamos a
polícia. Uma velhinha nos deu gomos de limão”.
“Gomos de limão”, confirmou Isabel.
“Dois gomos de limão para a gente chupar, porque
estávamos em estado de choque.”
“Meu Deus!”, exclamou Isabel, e pegou minha mão.
Queria que ela perguntasse sobre minha namorada, estava

115
mentalmente arrumando um discurso sobre Jane, mas ela
não perguntou nada. Sentamos na mureta de pedra que
beirava o rio para observar os reflexos das tochas na água
e, depois de um tempo, Isabel começou a falar. A princípio,
descreveu uma casa ou a sua casa ou um apartamento, uma
descrição que soava vagamente familiar depois da nossa
primeira conversa na lagoa, mas ainda não tinha certeza se
as palavras dela se referiam a uma casa no sentido de lar ou,
mais concretamente, à estrutura física em que ela morava.
Agora eu conseguia entender mais que naquela época;
queira ou não, meu espanhol havia melhorado de forma
significativa, mas era justamente isso que atrapalhava
a minha compreensão: eu media o tempo transcorrido
desde aquela noite na lagoa em virtude do meu melhor
entendimento, mas mesmo a atenção para a qualidade da
minha atenção acabava por afastar o significado real das
palavras de Isabel. Enfim, deixei de lado minhas fantasias
egocêntricas e consegui entender o que ela estava dizendo,
ajudado pela lentidão com que falava. No verão em que o
irmão dela morreu – falou dessa morte como se já tivésse-
mos conversado a respeito –, e ela estava vasculhando as
coisas dele, tipo discos e livros, tentando decidir o que levar
quando sua família fosse se mudar de lá, tinha encontrado
um caderno, um caderno da época da escola, não sabia bem
de que ano, e as páginas estavam cheias de números: 1066,
312, 1936, 1492, 800, 1176 etc. A princípio, ela não entendeu
o que significavam, não reparou que representavam anos,
anos importantes que provavelmente ele teve de decorar
para uma prova de história, e que por isso ele havia escrito
e reescrito, acabando por preencher um caderno inteiro, e
ela se convenceu de que era uma complexa mensagem em
código, uma mensagem para ela. Ela devia saber – já tinha
dezesseis anos – que isso era impossível, mas se deixara

116
convencer, e o caderno virou seu tesouro mais precioso.
Ela nunca tentou decifrar aquele código, o objetivo não
era ler a mensagem; era manter vivo um diálogo entre ela
e o irmão, uma correspondência em aberto. Alguns meses
antes de partir para Barcelona, Oscar achou o caderno,
cuja existência Isabel nunca revelara a ninguém, embora
nem ao menos o tivesse escondido e simplesmente o
guardasse numa caixa colocada na prateleira mais alta de
seu armário, junto com outros pequenos tesouros de sua
infância. De repente, ocorreu-me que nunca ficávamos no
apartamento de Isabel, não só porque no meu o clima era
mais íntimo, como também porque talvez ela quisesse me
manter afastado das colegas de quarto e/ou reservar sua
cama exclusivamente para Oscar. Oscar perguntou para
que servia aquele caderno com as páginas cheias de anos
e, pela primeira vez, ela aceitou o fato de que os números
eram apenas anos. Isabel ficou chateada com Oscar por ter
destruído sua fantasia e gritou com ele e depois caiu no
choro e em seguida lhe contou tudo e chorou muito, como
se só então, muito tempo após o acidente, ela conseguisse
aceitar a realidade da morte do irmão. Depois, eles senta-
ram juntos na cama, virando com delicadeza as páginas,
e Isabel chorou enquanto seus dedos percorriam os anos
escritos em azul e vermelho.
Mais tarde, quando Isabel e Oscar terminaram, ou pelo
menos combinaram que podiam sair com outras pessoas
porque ele estava partindo para Barcelona, Isabel desabara
e sentira que, de alguma forma, a morte do irmão tinha
recaído sobre ela novamente porque Oscar era a única
pessoa com quem ela falava sobre o irmão, devido ao
episódio do caderno que eles vivenciaram juntos. Uma
coisa que ela amava em mim, disse, e ficou claro que quis
dizer “amar” no sentido mais fraco do termo, era que eu

117
nunca tinha perguntado nada sobre o irmão dela depois
daquela vez na lagoa.
Eu fiquei calado. Depois de um tempo, retomamos
nossa caminhada e subimos de novo para Albaicín até
encontrar o hotel. A subida era íngreme e, quando chega-
mos, estávamos cansados. Havia algumas mesas no pátio,
e eu perguntei ao rapaz que estava varrendo o chão se eles
tinham vinho. Ele trouxe uma garrafa de vinho branco
meio quente e sem etiqueta, além de dois copos altos cheios
de gelo. Bebemos e fumamos até terminar a garrafa, depois
fomos para nosso quarto, transamos rapidamente, e eu
me senti apaixonado pra caramba. Isabel adormeceu, eu
abri a grande janela de madeira com vista para a rua e
me debrucei para fumar. Não havia carros estacionados,
e a rua estava perfeitamente silenciosa, então pensei que
talvez ela fosse exatamente assim em 1066, 312, 1936 ou
sei lá. Depois pensei que talvez não, deitei e adormeci.
No dia seguinte, tomamos o café da manhã no mesmo
bar, e eu disse para Isabel que estava muito ansioso para
voltar porque tinha de trabalhar com uma pessoa chamada
Teresa no meu livreto de poemas, que seria publicado em
breve. Disse tudo isso como se não me sentisse à vontade
para falar de coisas que diziam respeito a Teresa na frente
de Isabel, como se tivesse medo de magoá-la.
“Podemos pegar o trem hoje à noite”, sugeriu Isabel,
e o fato de sua expressão não revelar nenhum vestígio de
ciúme me deixou louco de raiva.
“Vamos voltar agora, logo”, propus, o que era ridículo.
“Agora? Você nem visitou a Alhambra”, disse ela.
“Já fui lá”, menti. Agora ela parecia realmente enciu-
mada. Fiquei eufórico.
“Com quem?” perguntou, e era evidente que ela só
fazia de conta que não se importava com isso.

118
“Com Teresa”, disse, e depois fingi ter me arrependido
das minhas palavras e acrescentei: “E o irmão dela.”
“Quando?”, perguntou.
“Durante o Natal”, falei. Tive a impressão de que Isabel
queria ser minha única guia turística, que, embora não se
importasse com quem eu transava, não queria que alguma
outra mulher me mostrasse as maravilhas da arquitetura
espanhola.
“Mas foi você quem falou que queria visitar Granada,
foi por isso que a gente veio”, lembrou-me ela.
“Queria visitar de novo, sim”, falei. “E com certeza
voltarei.”
“Pois bem”, disse ela, com raiva. Eu me perguntei se
era o único americano na história que tinha vindo até
Granada e não tinha visitado Alhambra.
Depois do desjejum, pegamos um táxi para a estação e
compramos as passagens; ainda faltava uma hora e meia
para a partida do Talgo. Foi só depois que compramos
as passagens que me dei conta de que a última coisa que
queria fazer era voltar. Encontramos um barzinho, pedi-
mos mais café e, inspirado pela combinação da cafeína
com o ciúme de Isabel, falei: “Escuta, quando chegarmos a
Madri, vamos ficar ali apenas uma noite, eu vou terminar
o que tenho de fazer e depois podemos arrumar as malas
e partir para uma viagem mais longa, pegar outro trem
para a Galícia ou para Lisboa ou sei lá.”
Isabel sorriu, passando, em uma velocidade alarmante,
da raiva para algo parecido com um sentimento de pena.
“Não posso”, disse. “Tenho que trabalhar.”
“Tire férias”, sugeri.
“Não posso”, repetiu ela, com delicadeza, como se a
tivesse pedido em casamento. “Você não tinha de tra-
balhar?”, havia na pergunta uma intenção ligeiramente

119
irônica. Pela primeira vez, me senti ofendido por uma
piada sobre a poesia.
“Por quê? Você acha que o seu trabalho é mais impor-
tante?”, perguntei, como se a profissão dela consistisse
em vigiar obras de arte.
“Não”, respondeu ela secamente. A facilidade com que
conseguia ignorar minhas indiretas me humilhava.
Passamos o resto do nosso tempo de espera no barzinho,
depois embarcamos no trem e passamos as cinco horas
seguintes lendo, cochilando e fumando, mas quase sem
conversar. Senti uma saudade imensa dos meus pais. De
dia, o interior da Espanha se parece muito com o Kansas.

No final da quarta fase do meu projeto, decidi aumentar


a dose, tomar dois comprimidos brancos todas as manhãs
em vez de um. Tinha o suficiente, antes de sair dos Estados
Unidos, havia feito estoque para um ano, que só consegui
graças a um documento por escrito do meu médico, que
tinha me rendido olhadelas cheias de suspeita por parte do
farmacêutico, e, antes mesmo de adquirir o estoque, tinha
provisão suficiente para um mês, que em seguida havia
distribuído em frascos menores. De qualquer forma, podia
ir a um psiquiatra na Espanha se, por exemplo, decidisse
ficar depois do período da minha bolsa de estudo, talvez
dando aulas de inglês. Ou podia simplesmente parar de
tomar os comprimidos brancos depois de acabarem; na
verdade, nem estava completamente convencido de que
eles funcionavam. Quando comecei a tomá-los, sofria de
uma forma muito agradável de insônia, que me permitia
ler até de madrugada sem sentir cansaço; era o único efeito
colateral significativo, mas passou com uma velocidade
lamentável. Depois disso, nunca mais tive certeza de quais

120
eram seus efeitos, se é que existiam. Várias vezes tinha
considerado a possibilidade de parar de tomá-los, mas
sempre hesitava, perguntando-me se eram justamente eles
que me permitiam viver normalmente e se, sem eles, meus
períodos de depressão se tornariam ainda mais depressi-
vos, de uma forma insuportável.
Com certeza, os comprimidos brancos não pareciam
funcionar em mim do mesmo jeito que funcionavam nas
outras pessoas; meus devaneios me levavam até a beira do
precipício do pânico generalizado, estava quase sempre
intensamente consciente dos ossos debaixo da pele do meu
rosto. No entanto, bebia e fumava de modo que tornava
a identificação dos efeitos específicos dos comprimidos
brancos quase impossível. Mas, de qualquer maneira,
era o ritual de tomá-los que se tornara importante para
mim, não tanto por causa de um eventual efeito placebo,
no sentido de que o mero fato de engoli-los me estabili-
zava, mas porque representavam um lembrete cotidiano
de que eu era oficialmente um indivíduo perturbado,
que estava seguindo um tratamento médico, que sofria
de uma doença com um nome específico. Era um rito
eucarístico de abnegação, em que reconhecia para mim
mesmo que eu era incapaz de enfrentar o mundo sem
determinados remédios sofisticados e por isso me auto-
absolvia de minhas ações pelo menos em parte: era um
pouco humilhante, um pouco libertador.
Quando voltei de Granada, comecei a me precipitar,
sem perder o controle por completo, mas decididamente
para baixo, numa espiral estreita. Não havia percebido
quanto me acostumara com a ideia de que Isabel e Teresa
gostavam de mim, e agora que, pelo visto, nenhuma das
duas estava disposta a nem sequer simular um sério envol-
vimento afetivo comigo, eu me sentia não só rejeitado,

121
mas também como se meses e meses de pesquisa tives-
sem de repente evaporado. Pensei que, ao menos, podia
me sentir menos culpado por todas aquelas mentiras
sobre a minha família, já que nada de significativo havia
sido fundado nelas, mas, na verdade, sofria de ondas
de remorso cada vez mais intensas. Estava ficando cada
vez mais claro que uma hora teria de confessar aos meus
pais minhas calúnias para evitar ser consumido por elas,
o que piorou a situação, acrescentando medo à culpa. A
angústia sobre Isabel e Teresa, aliada ao sentimento de
culpa sobre meus pais, abriu o caminho para dúvidas mais
profundas sobre minha desonestidade; que eu fosse um
impostor ninguém podia duvidar – quem não era? Quem
não desempenhava de maneira ilegítima um dos poucos
papéis pré-fabricados postos à disposição pelo Capital,
ou como quisermos chamá-lo, mentindo descaradamente
cada vez que dizia “Eu”, quem não atuava, pelo menos
como figurante, no comercial informativo, reprisado obses-
sivamente, sobre as injustiças da vida? Se eu era um poeta,
tornara-me um porque a poesia, mais que qualquer outra
atividade, não podia se esquivar de seu anacronismo e de
sua marginalidade, e por isso representava uma espécie
de reconhecimento da minha insensatez, uma forma de
admitir a minha má-fé na boa-fé, por assim dizer. Podia
mentir sobre meu interesse pela literatura produzida em
resposta à guerra porque, ridicularizando o conceito de
que a literatura pudesse ser comensurada a uma matança,
eu não estava difamando as vítimas desta, mas os dile-
tantes daquela, rejeitando as repetidas reivindicações
políticas feitas pela assim chamada esquerda por uma
poesia radical só quanto à sua impopularidade. Eu havia
sido um artista de rua de quinta categoria que se fingia
poeta, mas que agora, com um entusiasmo preocupante,

122
pretendia escrever grandes poemas. Queria que minha
“obra” desafiasse os Estados Unidos de Bush, que se des-
pojasse daquelas aspas irônicas, e queria, depois de me
imolar nos degraus do Capitólio ou sei lá onde, virar o
Miguel Hernández do tardo império, para que Isabel,
Teresa e todos, em qualquer lugar, lessem meus poemas,
quebrassem vitrines etc. Tratava-se de um modo de ser,
não de uma ideia, o que o tornava mais difícil de ignorar,
e, quanto mais absurda a sensação, mais intensamente
me acometia. E, quando dobrei a dose, e a insônia voltou,
comecei a ler e escrever num ritmo febril. Não tanto por
causa de uma renovada fé na poesia, mas por uma repen-
tina perda de fé na pura potencialidade.
Além da insônia, que dessa vez durou por umas duas
semanas, à exceção de algumas noites de sono contínuo,
profundo e sem sonhos, vivenciei outros dois efeitos cola-
terais interessantes. O primeiro: meus maxilares estavam
constante e involuntariamente trincados. O segundo:
sofria do que a internet chamava de anedonia sexual,
definição adorável. Ambos os efeitos colaterais pareciam
estranhamente apropriados à minha condição de prostra-
ção generalizada, que não melhorava de jeito nenhum, e
considerei essa correspondência consoladora, assim como
apreciamos um clima deprimente quando nos sentimos
deprimidos. Além disso, comecei a me convencer de que
os comprimidos brancos eram responsáveis pela intensi-
dade do meu sofrimento, que se tratava de uma reação
adversa ao remédio, e isso mitigava o medo de que me
sentiria daquele jeito para sempre; podia deixar de tomar
os comprimidos brancos quando bem entendesse e logo
ficaria melhor. Mas tinha pavor de testar essa hipótese e
por isso, depois de alguns dias, aumentei a dosagem ainda
mais, tomando um terceiro comprimido todas as manhãs,

123
e quando, depois de ler e revisar poemas por muitas horas,
de repente começava a chorar, afundando o rosto numa
toalha para evitar que os vizinhos ouvissem, ou quando
sentia uma leve dissociação, enquanto estava comprando
vinho, cigarros ou haxixe, o mundo se enroscando pelas
bordas, me tranquilizava pensando que eram mesmo os
comprimidos brancos a causa principal.

Sempre poderia fantasiar à luz propícia do subjuntivo sobre a


relação que a gente poderia ter vivenciado.

No entanto, depois da primeira semana com a nova


dosagem, período durante o qual nem Isabel nem Teresa
apareceram, alcancei um novo estado emocional, ou
melhor, um estado em que as emoções simplesmente não
mais existiam. Cada vez que tentava descrever aquele
estado a Cyrus em nossos bate-papos, parecia totalmente
contraditório; por um lado, agora não sentia nada – minha
afetividade era como uma linha reta traçada sobre um
intervalo definido – e podia assistir a vídeos de decapita-
ções ou de soldados mercenários atirando na população

124
civil iraquiana ou aos apresentadores da Fox News sem a
mínima reação, e assim era. Relia as cenas mais pungentes
de Liévin sem a menor flutuação emotiva. Embora con-
tinuasse sem sair de casa na esperança de que Isabel e/
ou Teresa tocassem a campainha e subissem as escadas
correndo para confessar seu amor, implorando-me para
que eu ficasse na Espanha ou para que as levasse comigo
para os Estados Unidos, agora esperava sem sofrer muito.
E, mesmo que uma delas tivesse aparecido e manifestado
sua paixão na forma mais teatral possível, eu começava
a duvidar de que teria ficado particularmente comovido.
Mas, ao mesmo tempo, sentia uma espécie de euforia
por essa repentina incapacidade de me emocionar, uma
emotividade excessiva de segundo grau que não alterava
de jeito nenhum a insensibilidade de primeiro grau. Essa
euforia, se é que era disso que se tratava, ficava bem longe
de meu corpo e, portanto, era compatível com minha
anedonia; era como se eu estivesse imerso num banho
quente fora de mim mesmo. Sentia algo parecido com
um surto de potência, a potência de sentir o mundo como
se estivesse em uma estufa, e essa distância, junto com
minha reduzida necessidade ou capacidade de dormir,
encheu-me de uma espécie de energia vampiresca, com a
única diferença de que eu mesmo era a presa. Conseguia
ler e escrever por horas a fio com uma concentração quase
total, mal percebendo quando anoitecia, e de madrugada
vagueava por Madri, passando em frente ao apartamento
de Isabel ou à galeria de Teresa só para demonstrar a mim
mesmo que conseguia fazê-lo sem um pingo de aflição.
Muitas vezes observava a alvorada da colunata do Retiro
ou de um dos bancos do Paseo del Prado ou pegava o
metrô até uma parada que não conhecia e de lá observava
o sol nascendo e depois voltava para casa, dormia por

125
algumas horas, acordava e tomava comprimidos brancos,
haxixe, café e, com uma energia sobrenatural, retomava
minhas aventuras no mundo da insensibilidade. Tinha
um pouco de medo, a razão não sabia dizer; talvez de
perder a cabeça e me jogar debaixo de um ônibus ou de
invadir o apartamento de Isabel e rasgar o caderno do
irmão dela ou, ainda, de jogar uma lixeira contra a vitrine
da galeria ou então de fazer um escândalo, incapaz de
me controlar àquela distância. Mas também, pela pri-
meira vez, me senti escritor de verdade, como se a vida
real estivesse nas páginas, e tive de comprar na Casa del
Libro um monte de cadernos pautados para reunir todos
os meus poemas e minhas notas. Dizia a mim mesmo
que meus novos poemas seriam tão lindos e importantes
que, quando Teresa os traduzisse e imprimisse e quando
eu desse uma cópia a Isabel, ambas entenderiam que se
encontravam diante de um poeta que era capaz, sozinho,
de organizar os descartes do real, transformando-os numa
música que o transcendia.
Finalmente, Isabel apareceu. Era um final de tarde e eu
estava lendo A terra desolada online, plagiando expressões.
Ela disse algo sobre o fato de meu apartamento estar sujo,
arrumou alguns objetos, e era evidente que sentia apenas
piedade por mim, convencida, sem dúvida alguma, de que
havia partido meu coração. Depois de ter contado algo
sobre seu trabalho que nem tentei entender, ela disse que
dali a poucos dias viajaria para Barcelona, onde moraria
com Oscar até ambos retornarem a Madri. Senti o formato
da dor, mas não a dor em si, e disse que, embora fosse
uma pena não poder vê-la mais e fosse sentir imensa-
mente sua falta, desejava tudo de bom a ela e a Oscar;
aliás, caso eu ficasse em Madri depois do fim da minha
bolsa, talvez pudéssemos sair todos juntos para tomar um

126
drinque algum dia, embora me desse conta de que podia
ser difícil para ele. Nunca meu espanhol havia fluído tão
bem. Eu me ouvi dizer que antes que ela partisse gostaria
pelo menos de levá-la para jantar num restaurante ou
para tomar um drinque. Muito provavelmente ela havia
planejado não me ver mais depois daquela visita ao meu
apartamento, imaginando uma cena muito feia, mas agora,
que eu ostentava indiferença à sua partida, que me mos-
trava capaz de uma calma quase inquietante, ela disse
sim, com certeza, adoraria. Por alguma razão, falei que
não estava livre naquela noite, mas, se ela quisesse vir até
meu apartamento no dia seguinte depois das nove horas
ou por aí, poderíamos celebrar nossa despedida. Ela me
beijou no rosto, disse que eu era muito fofo e foi embora.
Depois de um fugaz ataque de raiva, não senti mais nada.
Algumas horas após a visita de Isabel, fui a pé até a
galeria, uma caminhada de trinta minutos, fumando e
recitando comigo mesmo alguns de meus poemas, mal
consciente do chão debaixo dos meus pés. Era uma noite
amena, ou talvez eu simplesmente estivesse indiferente
ao frio, e a iluminação pública, as vitrines e os faróis dos
carros eram muito brilhantes; as conversas dos pedes-
tres, o barulho do trânsito e o som ligado dos carros que
passavam, tudo era muito alto; perguntei-me se isso se
tratava de efeitos colaterais. Teresa não estava, mas Arturo
sim, e pareceu muito feliz de me ver. Disse-lhe que tinha
viajado para Granada com uma mulher chamada Isabel,
e ele sorriu, mas não fez perguntas. Talvez sua expressão
significasse que Teresa ficaria com ciúmes. Perguntou-me
sobre os poemas, e eu tirei da bolsa quatro cadernos e os
entreguei a ele, explicando-lhe que eram todos daquela
semana, e disse que gostaria de saber quais eram seus
poemas favoritos e se eles queriam incluir algum no

127
livreto. Ele pareceu sinceramente entusiasmado, o que
achei comovente e um pouco triste ao mesmo tempo, mas
não me senti nem comovido nem entristecido. Disse para
eu aparecer na sexta-feira, na inauguração de uma mostra
de vários pintores espanhóis famosos, e acrescentou, talvez
de propósito, que Teresa ficaria feliz em me rever; respondi
que tudo bem. Depois, não sei ao certo por quê, o abracei
e o beijei com um ímpeto ambíguo que não era sincero e
fui para casa. Pela primeira vez em muitos dias, me senti
cansado e logo adormeci.
Acordei um pouco depois das três da madrugada, mais
faminto do que nunca. Fazia duas semanas que comia
muito pouco, e achei que o retorno do apetite representasse
uma mudança na reação do meu corpo aos comprimidos
brancos. Comi uma baguete inteira, velha de dois dias,
e, enquanto comia, chequei meus e-mails e vi que havia
uma mensagem em inglês de Teresa, que até então tinha
escrito para mim só uma ou duas vezes, dizendo que tinha
ouvido que eu estava de volta da “viagem com Isabel”
e que havia sentido minha falta. Senti um frêmito vago
e distante, mais uma confirmação de que meu corpo se
acostumara um pouco aos remédios, ou que os remédios
já estavam perdendo a eficácia, e caí facilmente no sono
de novo, dormindo até o começo da tarde.
Depois do banho, fui a uma joalheria perto do meu
apartamento e, com o cartão de crédito dos meus pais,
que era para ser usado exclusivamente em casos de emer-
gência, comprei um colar de prata de cento e cinquenta
euros para Isabel. Era a primeira vez que usava o cartão
e, de longe, o presente mais caro que tinha comprado
na minha vida. Perguntei à bela mulher que me vendeu
o colar aonde podia levar minha namorada para jantar
no dia do nosso aniversário, qual era, na opinião dela, o

128
restaurante mais bonito em Madri, quanto mais chique,
melhor, dada a ocasião. Ela respondeu que gostava do
Zalacaín, mas que provavelmente seria difícil conseguir
uma mesa. Pedi sorrindo para usar o telefone e tentar.
Ela disse claro, eu liguei e consegui uma mesa para dois
às nove e trinta daquela noite, por conta de uma desis-
tência. Agradeci, a mulher empacotou o colar com papel
de presente e, enquanto eu saía, ela disse algo sobre quão
sortuda era a minha namorada.
Fui para o Corte Inglés, comprei uma camisa social, um
terno preto barato, mas que parecia estiloso e podia ser
ajustado em uma hora, e um par de sapatos espanhóis.
No total, gastei algumas centenas de euros e usei de novo
o cartão. Fui para casa e tomei banho pela segunda vez,
enrolei um baseado e fumei, fiquei lendo Dom Quixote por
um tempo e depois vesti o terno. Quando Isabel chegou,
pareceu impressionada com a minha aparência; eu me
sentia ótimo, e não, como havia temido, ridículo. Depois
de me observar por alguns instantes, Isabel disse que a
roupa dela não era suficientemente elegante; ela não ima-
ginara que iríamos a um lugar tão sofisticado. Disse-lhe
que íamos jantar no Zalacaín, no tom de quem jantava lá
todas as noites, e ela falou que conhecia o local de nome,
mas que precisava trocar de roupa. Avisei-lhe que não
dava tempo, embora, na verdade, desse sim, e que ela
estava lindísima, e de fato estava, embora tenha dito isso
com um pouco de condescendência, como se duvidasse
que ela possuísse roupas elegantes o bastante. Pegamos
um táxi, chegamos ao restaurante adiantados, e logo ficou
evidente que Isabel não estava vestida à altura da ocasião;
os outros clientes olhavam fixamente para o lenço amar-
rado em seus cabelos, e a recepcionista hesitou antes de
perguntar meu nome. Isabel era atraente demais para que

129
sua roupa informal causasse um verdadeiro alvoroço, mas
eu sorri como se pedisse desculpa para a recepcionista,
que retribuiu o sorriso enquanto eu lhe falava meu nome;
senti Isabel corar de vergonha.
Quando nossa mesa ficou pronta, sentamos, e eu disse
ao garçom que meu espanhol não era fluente o bastante
para fazer os pedidos, de modo que seria mais simples se
ele trouxesse o que quer que o chef recomendasse, junto
com uma garrafa de vinho branco espanhol de sua pre-
ferência. Minha atitude sugeria que eu já tinha feito o
mesmo tipo de pedido em várias capitais europeias e
em vários idiomas. Quando me ouvi pedindo um vinho
espanhol que, embora fosse caro, era de longe menos caro
do que os outros, percebi que não havia perdido com-
pletamente o juízo, o que significava que talvez devesse
parar de me comportar daquele jeito: estava prestes a
gastar em um só dia mais do que tinha gastado nos dois
meses anteriores, inclusive no aluguel, e tudo de uma
forma totalmente visível aos meus pais. Imaginar a reação
da minha mãe doente e do meu pai fascista às minhas
loucuras era uma espécie de piada que estava contando
a mim mesmo; ouvi minha própria risada na cabeça, e
ela soou esquisita.
Eu e Isabel não tínhamos nada para dizer um ao outro.
Ela estava nervosa, chateada e confusa; não bebeu os
aperitivos trazidos numa bandeja de prata. Bebi ambos
como que indicando que estava pronto para fazer um
escândalo, qualquer tipo de escândalo que Isabel qui-
sesse. No entanto, temendo que ela simplesmente se
levantasse e fosse embora, fingindo ignorar o clima tenso,
perguntei-lhe se ela já havia deixado o emprego na escola
de idiomas. Ela respondeu que não, e eu me dei conta
de que ela já tinha me falado isso. Desculpei-me por

130
tê-la obrigado a voltar de Granada às pressas. Ela anuiu
e perguntou sobre meus poemas e como estava indo a
preparação do meu livro. Respondi que ia muito bem,
que nunca tinha escrito tanto, e julguei ver uma centelha
de interesse em Isabel enquanto, talvez, ela repensasse
nas notas que eu havia tomado e fantasiasse sobre a
possibilidade de que, de uma maneira ou de outra, ela
fizesse parte delas. Falei que lhe enviaria uma cópia,
num tom concebido para demolir aquela fantasia, se era
o que realmente ela havia pensado, minha voz aludindo
à possibilidade de que, ao lançar o livro, nem fosse me
lembrar dela, mas seu sorriso deixou claro que não era
uma alusão crível e que eu estava me esforçando demais
para parecer indiferente. Relaxei um pouco, me deixei
cair na cadeira, e, por um segundo, tive medo de soltar
aquele soluço, aquele mesmo soluço muito parecido com
uma risada que deixei escapar em Granada. O vinho
foi servido para que eu o experimentasse e, com uma
expressão que sugeria uma discreta decepção, expressão
que eu assumia frequentemente enquanto lia, disse que
estava bom.
Serviram um prato de bife tártaro, e Isabel olhou
para ele com uma expressão de ligeira surpresa que não
conseguiu disfarçar. Dava para ver que ela nunca teria
imaginado que comeria bife cru moído. Enquanto lhe
servia uma porção gigantesca, perguntei como estava
Rufina, e de repente ficou óbvio, muito mais óbvio do
que eu desejava, o que minha roupa e o jantar caríssimo
diziam para Isabel: claro que nunca levei a sério nossa
relação; sou um americano podre de rico dos Estados
Unidos de Bush, vim aqui meramente para ganhar expe-
riência, me misturar com pessoas de nível inferior ao
meu etc. Fui tomado por um forte sentimento de culpa,

131
queria pedir desculpas e, justamente porque havia sentido
alguma emoção, senti-me como se estivesse à beira de
um precipício. Mal conseguia comer, apesar de estar me
esforçando. Isabel ignorou minha pergunta, mas eu tive a
impressão de que, se ela realmente estava envergonhada,
era apenas por mim.
Tiraram os pratos e trouxeram outros; Isabel pareceu
aliviada pelo aspecto familiar das alcachofras e dos aspar-
gos enrolados no bacon; eu não sentia nenhum sabor.
Bebia o vinho com uma rapidez preocupante. Perguntei
o que Oscar fazia em Barcelona, e ela respondeu que era
borracheiro ou que estava sendo treinado em algo mecâ-
nico e que vendia carros ou trabalhava para uma empresa
que os fabricava; eu não estava nem aí. Perguntei como ele
era fisicamente, mas ela pousou a mão na minha e disse
para não falarmos de Oscar, que aquela era a nossa noite.
Sorri e tentei passar a ideia de que estava relaxado, mas,
quando o prato seguinte chegou, algo a ver com caviar e
talvez ovos de codorna, achei que fosse vomitar. Não me
arrisquei a tocar nem um bocado, senti meu rosto queimar,
me custava até beber o vinho, mas, mesmo assim, bebi.
Devia estar com uma cara horrível; Isabel perguntou se
eu estava bem. Na minha cabeça, respondi não, minha
mãe acabou de morrer, e soltei uma gargalhada alta, aber-
rante. Disse que sim, mas, enquanto falava, percebi pela
primeira vez que os comprimidos amarelos não estavam
comigo; não podia trazer minha bolsa para um restau-
rante como aquele e não tinha pensado em transferir os
comprimidos amarelos para o bolso do paletó porque,
na última semana da minha persistente neuropatia, não
havia tomado nenhum deles. Ainda assim, vasculhei o
bolso, senti o colar dentro do estojo e comecei a entrar em
pânico; mesmo inalando, não conseguia aspirar oxigênio:

132
era como tentar beber através de um canudo cheio de
buracos. Pedi licença, levantei, as pernas bambas, o chão
agora parecendo irregular, e caminhei até o banheiro,
que era suntuoso como todo o resto e cheirava a rosas.
Joguei água no rosto e disse a mim mesmo, em voz alta,
que me acalmasse, e por um segundo me senti melhor,
senti que tudo iria passar logo, e então me dei conta da
presença de um funcionário no banheiro e novamente me
senti atordoado. O ressaibo químico que sempre sentia
durante um ataque de pânico já estava na minha boca,
um sinal de mau agouro; despreocupado com a presença
do funcionário, cuspi no lavatório, mas o gosto se tornou
ainda mais intenso. Senti uma nova onda de náusea, então
entrei numa cabine e vomitei. Por um momento, temi que
se tratasse de uma emergência médica; se tivesse morrido,
as análises do sangue teriam revelado para minha família,
como se costuma dizer, vestígios de drogas. As análises do
sangue, a conta do cartão de crédito, os cadernos cheios de
poemas incompreensíveis – será que inconscientemente
tinha tentado me matar e aquelas eram minhas notas de
suicídio? Sentei na privada segurando a cabeça com as
mãos e chorei o mais silenciosamente possível. Felizmente,
chorar ajudou. Enfim, parei de vomitar, saí do cubículo e
joguei água no meu rosto de novo. O funcionário pergun-
tou se estava tudo bem. Pisquei para ele, respirei fundo,
gaguejei algo sobre minha família e coloquei um punhado
de moedas na tigela ao seu lado, que talvez fosse para as
pastilhas de hortelã.
Agora me sentia muito melhor. Aliás, quase não sentia
mais nada enquanto voltava para a mesa onde Isabel me
esperava sinceramente preocupada. Pedi desculpas, disse
que por um momento ficara meio tonto, mas que já me
sentia melhor, e bebi o vinho, que me reanimou. Não sabia

133
por quanto tempo havia ficado no banheiro, mas nesse
ínterim tinham tirado os pratos da mesa e logo depois ser-
viram cordeiro e algo com lagosta junto com uma garrafa
de vinho tinto que, como explicou o garçom, combinava,
de alguma forma, com o vinho branco de antes. Não sentia
fome, mas a comida não me enjoava mais, e, enquanto
beliscava, perguntei a Isabel o que ela queria fazer depois
do jantar. Respondeu que não sabia, e eu disse que podía-
mos fazer qualquer coisa que ela quisesse. Então, pensou
um pouco e, com um sorriso, disse que nunca tinha pas-
sado a noite num hotel de luxo. Eu me ouvi falando que
passaríamos a noite no Ritz-Carlton, em frente ao Prado.
Quanto mais bebia, mais conseguia comer, e, à medida que
ficava bêbado, o dinheiro se tornava cada vez mais irreal.
A tudo isso, uniu-se um sentimento de benevolência dire-
cionado a Isabel, e comecei a falar com ela em um espanhol
que soava, pelo menos aos meus ouvidos, impecável.
“Estou perturbado desde o momento em que a gente
conversou sobre Oscar. Quando você me contou sobre ele,
percebi o quanto gosto de você e é difícil aceitar que não
vou mais poder te ver”, falei.
“Sim”, disse ela, sem malícia, “mas como assim você
percebeu o quanto gostava de mim só quando te falei do
Oscar?”.
“Não é exatamente o que queria dizer, mas para mim não
é fácil expressar certas sutilezas em espanhol”, expliquei.
“Você fala espanhol bem, Adán”, elogiou ela, talvez
com certa tristeza.
“Estava chateado, ciumento, magoado e tenho me com-
portado como um adolescente”, continuei, ignorando
as palavras dela. “Mas agora só queria te dizer que os
momentos que passei com você foram ótimos, que você
é maravilhosa e, embora me machuque muito pensar que

134
você vai ficar com outro homem, te desejo tudo de bom.”
Fiz o gesto de pegar o copo para brindar, mas depois con-
cluí que seria ridículo.
Ela abriu a boca, mas hesitou antes de falar, e, por
alguma razão, de repente, achei que eu tinha entendido
o motivo dessa hesitação: Oscar não existia. Oscar era um
pretexto para me pôr à prova, uma vingança por ter insis-
tido para que tivéssemos uma vida social separada, uma
vingança pela leitura em Salamanca. Era uma armadilha
para me obrigar a assumir algum compromisso. Estava à
espera de reagir emotivamente àquela revelação quando
fui desmentido: “Você é muito fofo. Vou te amar sempre.”
O tom dela deixou bem claro que ela amava várias pessoas
de formas muito diferentes.
Dois homens chegaram, recolheram os pratos, rasparam
a toalha e me entregaram o cardápio das sobremesas, que
passei para Isabel. Perguntei se eles tinham champanhe de
meia garrafa; eles tinham, pedi uma, e Isabel me pergun-
tou qual sobremesa eu queria. Perguntei a ela se já tinha
experimentado o crème brulée. Ela respondeu que não,
então pedimos e, como acompanhamento do champanhe,
trouxeram também morangos cobertos com chocolate,
oferecidos pelo chef. Comecei a zombar do ar sério dos
garçons, e Isabel achou isso hilário; ríamos em voz alta,
atraindo olhares furiosos dos outros clientes. Comemos
um pouco da sobremesa e terminamos o champanhe; a
essa altura, estávamos bastante bêbados. Não olhei a conta
quando chegou. O garçom me devolveu o cartão, assinei
a notinha e deixei uma gorjeta generosa em dinheiro,
provavelmente uma gafe.
Chamaram um táxi e nos jogamos dentro dele. Pedi
para sermos levados até o Ritz – o simples som daquela
palavra quase nos matou de rir – e continuamos a nos

135
agarrar por todo o caminho. Paguei, entramos no hotel e
eu me dirigi à recepcionista, em inglês.
“Acabei de chegar de Nova Iorque e preciso de um
quarto para dormir”, disse, orgulhoso do meu inglês.
A recepcionista digitou algo no teclado do computador
e disse: “Temos disponibilidade para um quarto clássico
com cama de casal e varanda.”
“Pode me lembrar quanto é a diária desse tipo
de quarto?”, indaguei, com um movimento das sobran-
celhas que sugeria que estava simplesmente curioso para
saber como era a diária em comparação com Nova Iorque,
Milão ou Paris.
“A diária é trezentos e noventa euros, senhor”, res-
pondeu ela.
Considerei a possibilidade de dizer a Isabel que não
havia quarto disponível, mas, embora ela não falasse
inglês, entenderia que era uma mentira. “Ok”, concordei,
pensando no meu apartamento, que ficava a duzentos
metros de distância, meu aluguel era trezentos e setenta
e cinco euros por mês.
Perguntei se podia pagar adiantado e assim o fiz. A
recepcionista começou a dizer algo sobre a bagagem,
depois tossiu para mudar de assunto. O mensageiro do
hotel, se é assim que se chama, nos acompanhou até o
quarto, que era suntuoso como o restaurante, e pergun-
tei-lhe em inglês se podia trazer uma garrafa do vinho
branco mais barato que tinha. Ele anuiu, mas se recusou
a retribuir meu sorriso cúmplice. Isabel tirou os sapatos
e abriu as janelas, dizendo que ia tomar banho. Quando
saiu do banheiro com o roupão branco luxuoso do hotel,
o vinho já tinha chegado; bebemos, fizemos amor e depois
fumamos perto da janela. Pedi mais uma garrafa, e meu
tom deliberadamente formal ao telefone fez Isabel rir às

136
gargalhadas. Fizemos amor mais uma vez e fumamos
de novo. Isabel estava mais bêbada do que nunca; segu-
rou minha cabeça nas mãos, gaguejando algo que não
entendi e que nem soava espanhol. Enfim, perdeu os sen-
tidos, e eu fiquei sozinho, perto da janela, na escuridão do
quarto, olhando para o Prado, do outro lado da rua. Por
um momento, pensei no grande artista.

137
4
Acordei na quinta fase do meu projeto como que em
resposta a um estrondo. Isabel ainda dormia, talvez por
causa de todo aquele vinho. Levantei da cama, me vesti,
lavei o rosto, escovei os dentes com a escova do hotel,
gargarejei com um enxaguante bucal chique e fumei um
cigarro perto da janela. Ainda era cedo, hora do rush.
Alguns carros de bombeiros passaram pelo Paseo del Prado,
com as sirenes apitando. Estava de ressaca, desorientado.
Depois passaram vários carros de polícia. Debrucei-me na
janela, olhei para a rua lá embaixo, mas não consegui ver
nada. Disse a Isabel que voltaria logo; quando saí do quarto,
ela se mexeu, ainda dormindo. Peguei o elevador para o
lobby, onde havia muitas pessoas reunidas em torno das
televisões. Perguntei em inglês ao mensageiro do hotel o
que tinha acontecido, mas ele estava ocupado com outros
hóspedes; saí do hotel e comecei a caminhar debaixo do
sol. Ou estava nublado?
Agora passavam caminhões cheios do que pareciam
ser soldados ou membros de alguma unidade especial da
polícia. Andei atrás deles na direção da Estação Atocha,

141
uma caminhada de apenas dez minutos, enquanto os
carros de bombeiros passavam a toda velocidade, cada vez
mais numerosos, até que cheguei àquilo que se costuma
descrever como cena de caos e destruição. Estava nublado.
Havia policiais, médicos, paramédicos e gente por toda
parte, muitos choravam e/ou gritavam, e, quanto mais
me aproximava da estação, maior era a confusão. As pes-
soas estavam sendo evacuadas através das várias saídas,
algumas estavam feridas, de uma forma leve, eu suponho,
e os médicos e paramédicos dos serviços de emergência
corriam para dentro. Vi, acho que vi, um adolescente ator-
doado, o rosto completamente coberto de sangue, e um
paramédico que o pegou pelo braço e o ajudou a sentar,
dando-lhe algo que parecia uma bolsa de gelo e dizendo
que ficasse sentado e a pressionasse contra a cabeça. Tinha
cheiro de plástico queimado. Alguém me perguntou o que
havia acontecido. As pás dos helicópteros se agitavam no
ar acima de nós. Vagueei por alguns minutos, encontrei
um muro contra o qual sentar e apoiar as costas, fechei
os olhos e me pus à escuta.
Depois de não sei quanto tempo, levantei e voltei a
percorrer o Paseo del Prado, com as ambulâncias e as
pessoas que passavam ao meu lado. Enquanto me afastava
da estação, vi gente agrupada nas entradas dos bares e
dos restaurantes, assistindo à televisão, e ouvi pessoas
que falavam de “ETA” e faziam referência ao número
estimado de vítimas olhando na direção da estação e, em
seguida, levantando de novo o olhar para as telas. Cheguei
ao lobby do hotel, que agora estava lotado e barulhento,
e peguei o elevador até o quarto; Isabel não estava mais.
Vasculhei os bolsos à procura das chaves e encontrei o
colar. Saí do quarto, deixei o hotel e peguei a Calle de las
Huertas na direção de casa. Subi as escadas, tirei o casaco

142
e liguei o computador. Eram quase dez horas. Surpreso
por quanto tempo havia passado, abri o navegador, entrei
na página do New York Times e cliquei na manchete em
letras garrafais. O artigo descrevia os helicópteros que eu
estava ouvindo acima de mim.
Eu me perguntei para onde Isabel tinha ido. Depois não
me perguntei mais. Fiz um café, tomei um comprimido
branco, subi no telhado, onde fiquei sentado com o café
na mão, escutando. Após um tempo, desci pela claraboia,
escovei os dentes de novo e saí de casa. Cheguei até a fila
dos telefones públicos da Plaza de Santa Ana e liguei para
o Kansas com meu cartão telefônico. As linhas estavam
ocupadas e, por um tempo, não foi possível completar a
chamada. Continuei tentando até que consegui ligar. Lá
eram cerca de quatro horas da manhã. O telefone repetiu
algumas vezes seu toque estrangeiro, e finalmente minha
mãe atendeu, ainda meio sonolenta. Sou eu, disse, e ela
perguntou que horas eram e se eu estava bem. Respondi
que sim, mas que tinha acontecido um ataque terrorista.
Agora meu pai estava ao telefone e me perguntava quão
longe ficava meu apartamento da Estação Atocha, mas
eu respondi que tinha dormido no Ritz. Obviamente, isso
deixou ambos confusos, e de novo eles perguntaram se eu
estava bem. Hesitei e, com voz tremida, disse que fizera
uma coisa terrível. Eles perguntaram o que era, e eu contei
que, na presença de muitas pessoas, havia declarado que
minha mãe estava morta ou gravemente doente e que
meu pai era um fascista. Por quê?, um deles perguntou,
confuso, mas não incomodado. Para suscitar simpatia,
tentei explicar. Depois de um breve silêncio, minha mãe
disse que queria saber mais sobre aquilo no momento
oportuno, mas que agora interessava quantas pessoas
haviam morrido, quem era o responsável, o que eu iria

143
fazer e que, graças a Deus, eu estava bem. Falei que me
sentia exausto e que tentaria dormir um pouco. Eles disse-
ram que era uma boa ideia e pediram que eu ligasse mais
tarde, quando fosse noite em Madri. Trocamos declarações
de afeto e, antes de desligar, minha mãe sugeriu que eu
fosse doar sangue.
Voltei para casa e atualizei a página do New York Times;
agora o número estimado de vítimas era cerca de duzentas,
os feridos, pelo menos mil. Considerei a possibilidade de
caminhar até Atocha novamente. Em vez disso, abri o El
País numa outra aba e o Guardian, numa terceira. Fiquei
sentado, fumando, atualizando as páginas e observando
o número de mortos que aumentava. Sentia que o relato
dos jornais modificava e suplantava a memória do que eu
tinha visto; será que existia uma palavra para descrever
essa sensação? A única outra sensação que eu tinha era
cansaço. Adormeci e, quando acordei, havia anoitecido;
dava para ouvir o barulho dos bares na praça, embora
fosse menor do que o normal. Comi alguns restos e li as
notícias com a mente confusa; não conseguia processar
as teorias contraditórias sobre as responsabilidades. O
governo insistia em afirmar que a responsabilidade era
dos separatistas. Voltei para a Plaza de Santa Ana, liguei
para os meus pais de novo e tive com a minha mãe uma
versão mais calma da conversa da madrugada. Mais tarde,
explicaria a história do Ritz-Carlton, prometi. De volta ao
meu apartamento, tirei a roupa e voltei a dormir, dessa
vez na minha cama, até o final da manhã.
Quando acordei, li sobre os indícios que vieram à tona
contra a Al-Qaeda, embora o governo continuasse a insistir
que a responsabilidade era do ETA, e assisti a um terrível
vídeo online das câmeras de segurança da estação, ou
talvez tenha assistido muitos meses depois: uma bola de

144
fogo cor de laranja que explodia num trem e envolvia na
fumaça os viajantes recém-chegados à cidade da periferia
para trabalhar, deixando a plataforma cheia de corpos
das vítimas e suja de sangue. À noite, em toda a Espanha,
haveria um grande protesto contra todo e qualquer ato
terrorista. Até o rei desfilaria. Tinha recebido um monte de
e-mails de amigos, de familiares e da fundação, mas não li
nenhum deles. Tomei banho, saí do apartamento e comecei
a caminhar na direção da Puerta del Sol. Algumas unida-
des móveis haviam sido montadas para que se pudesse
doar sangue. Entrei na fila de uma delas. Quando chegou
minha vez, a mulher me fez várias perguntas sobre uso
de drogas, quando fora a última vez que tinha comido e
outras coisas que não consegui entender. Disse-lhe que não
estava bem, e ela me dispensou com um gesto impaciente,
chamando a próxima pessoa da fila. Disse a mim mesmo
que, de qualquer forma, àquela altura, eles não precisavam
mais de sangue para os feridos, provavelmente ficavam lá
só para infundir nas pessoas a sensação de que estavam
ajudando, de alguma maneira. Por acaso não tinha sido
assim em Nova Iorque também?
Enquanto caminhava na direção do Retiro, pensei em
como o sangue do meu corpo poderia ter sido transfun-
dido no corpo de outra pessoa ferida pela História. Estava
nublado e fazia frio. Não vi ninguém, nem mesmo os
traficantes de haxixe. Sentei por um tempo e depois cami-
nhei até a galeria, onde encontrei Arturo e Rafa. Mais
tarde, fiquei sabendo que, enquanto estava no parque,
a cidade inteira tinha se dirigido às ruas para se reunir,
sem mim, num momento de silêncio. Estava feliz de ver
Arturo e Rafa e disse isso a eles. Abraçamo-nos, e Arturo
soltou uma torrente de palavras, disse que conhecia pes-
soas que conheciam pessoas que tinham morrido e se

145
perguntou qual efeito tudo aquilo podia ter sobre as elei-
ções de domingo. Se o pessoal do ETA fosse responsável,
os Socialistas, considerados excessivamente transigentes
com os separatistas, seriam destruídos. Caso a Al-Qaeda
ou algum outro grupo terrorista islâmico fosse o culpado,
o conservador Aznar e seu sucessor designado, Rajoy, esta-
riam perdidos; tinham apoiado a guerra de Bush, aqueles
canalhas fascistas. Perguntei se eles achavam que a culpa
era do ETA, mas eles responderam que não acreditavam
nessa hipótese, acenando para algumas gravações que a
polícia tinha adquirido e dizendo algo sobre o fato de que
era dia onze. Enquanto conversávamos, Teresa chegou.
Ela me beijou em ambas as faces e me repreendeu por ter
sumido e nunca mais ter escrito para ela, mas não parecia
zangada. A conversa sobre as bombas e suas repercussões
políticas recomeçou, e eu fiquei calado. Depois Arturo
atendeu uma ligação, e Rafa foi para o fundo da galeria
não sei bem fazer o quê, deixando-me sozinho com Teresa.
Ela disse que eu tinha um ar cansado, ao que respondi
que havia passado várias noites sem dormir, e ela pergun-
tou, sorrindo, se as tinha passado com essa tal de Isabel.
Sem trair nenhuma emoção, afirmei que nunca mais veria
Isabel. Teresa entrecerrou os olhos e disse que não era para
eu tomar decisões por causa dela, mas, sorrindo de novo,
admitiu que tinha sentido um pouco de ciúme: muito
pouco. Esperei alguma emoção se manifestar dentro de
mim, por menor que fosse.
Fomos até o lado de fora para fumar, e me lembrei da
discussão que havia ocorrido depois da minha leitura
pública. Considerei a possibilidade de confessar para
Teresa que tinha mentido sobre minha família, mas, a essa
altura, não parecia mais relevante. Decidimos caminhar
até um restaurante lá perto para almoçar. Tentei comprar

146
o El País, mas nas bancas de jornais todas as cópias tinham
esgotado. “Peças de coleção”, disse Teresa em inglês.
Nenhum de nós dois comeu muito. Voltamos para a
galeria, e perguntei a Arturo se o vernissage ainda aconte-
ceria. Ele olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido
e disse que não. Eu devia estar parecendo envergonhado,
porque ele acrescentou, num tom de desculpa, que os
quadros ainda estariam em exposição e talvez o público
fosse se reunir na galeria depois da manifestação. Eu me
ouvi dizendo que ele deveria cobrir um dos quadros maio-
res com um pano preto em sinal de luto, um momento
de silêncio visual. Ele achou a ideia genial e começou a
discuti-la com Teresa numa rapidez incompreensível.
Depois de alguns instantes, ficou decidido que todos os
quadros seriam cobertos por alguns dias, desde que os
pintores concordassem. Arturo recomeçou a fazer ligações
e, após um tempo, Teresa me perguntou se eu queria dar
uma olhada nos meus poemas; eu não queria. Disse a ela
que tinha escrito muitas coisas novas e apontei para os
cadernos que ainda estavam na mesa de Arturo. Ela abriu
o caderno que estava em cima da pilha e começou a ler
com ar atento e intenso. Será que eles cobririam também
as plaquinhas que mostravam os nomes dos pintores e os
preços dos quadros?
Teresa lia e lia enquanto eu estava sentado imóvel e,
a cada vinte minutos, levantava e ia lá fora para fumar.
Arturo tinha conseguido entrar em contato com prati-
camente todos os pintores, e todos haviam aceitado a
proposta; tinha mandado Rafa comprar o pano. Quando
voltou, Rafa disse que as ruas estavam se enchendo por
causa da manifestação e, olhando seu cabelo, me dei conta
de que tinha começado a chover. Teresa rasgou a ponta de
uma das páginas de um livro que trazia na bolsa, acho que

147
era um romance, enfiou-a no meu caderno para marcar
a página, e eu sabia que, em retrospecto, acharia aquele
gesto tocante. Sua atitude me fez pensar em doar sangue,
mesmo não havendo uma analogia óbvia. Pelo visto, fora
da galeria, tinha se reunido muita gente, e eu me perguntei
se eram conhecidos de Arturo, esperando que a gente se
unisse a eles, mas, quando saímos da galeria, percebi que
aquela era a manifestação, que as ruas estavam lotadas
a perder de vista. Uma corrente humana, alguns com
cartazes ou velas, estava avançando lentamente na dire-
ção de Colón, que era o ponto de encontro: o plano era
partir de lá em direção à Estação Atocha. Muitas pessoas
não avançavam de jeito nenhum, já que onde quer que
alguém estivesse já estava se manifestando. Teresa pegou
minha mão e eu a segui para dentro da corrente e con-
seguimos chegar até Colón, onde a multidão era ainda
mais densa. Alguém gritava no megafone palavras de
paz e talvez de resistência. A chuva apertou, e os guarda-
-chuvas começaram a se abrir por toda parte. Imaginei
como essa cena seria vista dos helicópteros. As pessoas
gritavam palavras de ordem que diziam que aquilo não
era chuva, e sim Madri chorando, e eu achei o slogan com-
plexo demais para ter surgido espontaneamente. Teresa,
Arturo e Rafa estavam gritando também, e eu me juntei a
eles, mas minha voz me soou desafinada, falsa, e temi que
ela sobressaísse demais, que não se confundisse com as
outras. Não podia ser a única pessoa a não se unir ao coro,
então me limitei a dublar. Enfim, uma parte da multidão
começou a avançar na direção de Atocha. Caminhávamos
devagar, mas eu tinha a impressão de que estava quase
parado, porque um monte de gente se movia conosco. A
certa altura me abaixei, talvez para amarrar os sapatos,
e, da minha posição de joelhos, vi milhares de pernas,

148
levantei um pouco o olhar e vi por cima de mim uma abó-
bada quase contínua formada pelos guarda-chuvas. Perto
de mim, alguns meninos corriam nesse espaço delimitado
pelos corpos e os guarda-chuvas – talvez estivessem brin-
cando de pega-pega – escondendo-se primeiro atrás de
um par de pernas e depois de outro. Em retrospectiva, eu
acharia essa cena linda. Quando levantei, Teresa já estava
a vários metros de mim, e havia outras pessoas entre nós.
Ela estava me procurando, mas por alguma razão não me
via. Poderia facilmente tê-la apanhado ou chamado, mas
apenas fiquei plantado de pé onde estava, deixando que
a correnteza de corpos fluísse ao meu redor.
Quando ela não era mais visível, recomecei a caminhar
na direção de Atocha. Devia estar escuro a essa altura.
Tentei pronunciar as palavras de ordem, mas logo desisti.
Quando chegamos à Calle de las Huertas, virei para me
afastar da corrente e caminhei na direção do meu apar-
tamento. Todas as ruas, até mesmo as ruazinhas laterais
que se ramificavam da Calle de las Huertas, estavam
apinhadas de manifestantes. Por fim, cheguei ao meu
apartamento, icei-me pela claraboia e olhei para o mar
de guarda-chuvas lá embaixo, alguns iluminados por
uma luz suave, talvez por causa das velas que estavam
protegendo. Olhei na direção oposta à da Estação Atocha,
mas a multidão parecia infinita.
De repente, dei-me conta de que estava congelando, me
deixei deslizar pela claraboia e fui checar meus e-mails.
Respondi aos amigos e familiares, depois dei uma olha-
dinha nas várias mensagens de María José. Os primeiros
e-mails enviados ao grupo pediam que todos os bolsis-
tas respondessem para confirmar que estavam bem. Em
seguida, outro e-mail dizia que haviam recebido notícias
de todos os bolsistas, menos de um. Enfim, havia um

149
e-mail apenas para mim, perguntando onde eu estava.
Duzentas pessoas tinham sido mortas numa cidade de três
milhões de habitantes, pensei; qual era a probabilidade de
eu estar entre elas? Fui para a página de El País e observei
as fotografias aéreas que tinha imaginado na minha cabeça.
Do apartamento, dava para ouvir o barulho da multidão,
mas o murmúrio era tão constante que se tornara ruído
de fundo. Abri Tolstói ao acaso e comecei a ler.
Algumas horas depois, saí. Ainda havia pessoas por
toda parte, mas a manifestação tinha acabado. Caminhei,
talvez debaixo da chuva, até a galeria, que estava cheia de
gente. Num canto, havia uma pilha enorme de guarda-
-chuvas, uma escultura interessante. Tive a sensação,
embora não estivesse certo, de que algumas pessoas me
reconheceram. Os quadros estavam cobertos por algo que
parecia feltro preto. Eu me perguntei se isso não os danifi-
caria. As plaquinhas estavam visíveis. Mais ou menos no
fundo da sala, havia uma luz brilhante, e vi que Arturo
estava sendo entrevistado por um repórter, provavelmente
a propósito dos quadros cobertos. Tive medo de que, se
ele me avistasse, revelasse que a ideia fora minha, arras-
tando-me para a frente da câmera, e por isso me mantive
a distância. As pessoas observavam os quadros como se
não estivessem cobertos, fitando o feltro preto com uma
demorada expressão pensativa e depois lendo a plaquinha.
Eu me perguntei se eles venderiam bem.
“Me pergunto se vamos conseguir vender alguns”,
disse Teresa, aparecendo de repente ao meu lado. Depois
falou: “Sinto muito que a gente tenha se separado.” Será
que ela me vira parar, observando-a enquanto se afastava?
Ela havia trocado de roupa.
“Onde você mora?”, perguntei, só para falar alguma
coisa. Sabia que ela tinha um apartamento em Madri,

150
mas nunca me convidara, e eu nunca tinha pedido para
visitá-la. Pelo visto, ela ficava na casa de Rafa a maior
parte do tempo.
Ela riu da minha pergunta e disse: “Fica a quinze minu-
tos a pé daqui. Você já me levou para casa, não lembra?”
Não lembrava.
“Podemos ir pra lá?”, perguntei. “Não para trepar”,
não me veio à mente nenhuma forma mais elegante de
dizer isso em espanhol, “nada disso. Estou cansado e essa
multidão…”. Troquei para o inglês: “Não aguento mais.”
“Vou ter de voltar para ajudar Arturo”, disse ela, em
espanhol, “mas podemos ir sim, ficar ali um pouco. Você
pode ficar mais se quiser. Provavelmente Arturo e Rafa
irão pra lá mais tarde”.
Teresa foi avisar a Arturo que estava indo embora;
saímos da galeria e começamos a caminhar na chuva, em
silêncio, até a Calle Serrano; lembrei-me do prédio chique
e estreito quando chegamos em frente à sua fachada. Ela
morava no último andar, e pegamos o elevador, cujas
paredes eram completamente espelhadas. No elevador,
ela teve de introduzir uma das suas chaves para que nos
levasse até o andar dela e, quando as portas se abriram,
já estávamos dentro do apartamento. Tirando o banheiro,
o imóvel consistia numa única sala enorme com um pé-
-direito muito alto e uma varanda que dava para a Calle
Serrano. Os poucos móveis que o decoravam eram baixos,
quase rentes ao chão: uma mesa num canto, um sofá ver-
melho com um gato quase no centro da sala e, encostada a
uma das paredes, uma cama baixa em estilo japonês, mas
que provavelmente era sueca. Perto do sofá, havia uma
mesinha. Havia pilhas de livros por toda parte, mas, de
alguma forma, as pilhas pareciam intencionalmente agru-
padas, organizadas com elegância. As paredes estavam

151
despidas, a não ser por uma série de fotografias em preto e
branco com molduras sofisticadas e cuidadosamente reu-
nidas. Aproximei-me do grupo de fotos que estavam mais
perto de mim: mostravam homens e mulheres muito ele-
gantes que fumavam e sorriam. Pareciam ter sido tiradas
nos anos 1950. “São seus parentes?”, perguntei a Teresa,
que estava preparando os drinques. “Parentes distantes”,
respondeu ela. Eu me perguntei o que significava politi-
camente, na Madri dos anos 1950, vir de uma família rica
e importante, mas não disse nada.
Aproximei-me de outro grupo de fotografias e vi que
eram as maquinarias em desuso de Abel, mas estas eram
muito menores do que as fotografias expostas na galeria.
“Você não gosta delas”, disse ela, passando-me um
drinque que continha uísque.
“Não acho muito interessante”, respondi, em inglês. Ela
me olhou de lado, talvez por causa do meu comentário,
talvez por ter usado de novo o inglês.
“Fique à vontade”, respondeu ela, em inglês, como
se citasse a cena de um filme. Sentei no sofá, e o gato
e eu observamos um ao outro com certa desconfiança.
Perguntei se podia fumar, uma pergunta boba, e ela me
indicou o cinzeiro, sentou ao meu lado e acendemos um
cigarro. Segurando o cigarro e o drinque, ela foi até um
guarda-roupa e, não sei como, conseguiu fumar, beber e
trocar de roupa na minha frente sem queimar ou derramar
nada e sem parecer uma stripper.
“Que incrível!”, exclamei, baixinho.
Ela sorriu como se entendesse a que eu me referia e
voltou a se sentar ao meu lado. Perguntei se ela conhecia
alguém que tinha morrido no ataque, mas respondeu
que não. Disse que muitas das vítimas eram imigrantes.
Que era um crime contra os trabalhadores e que ela não

152
conhecia muitas pessoas que trabalhavam. “E você?”,
perguntou, e eu pensei por um momento e disse que não
sabia. Ela se lançou numa teorização incrivelmente deta-
lhada e, pelo que pude entender, sofisticada, sobre as
consequências políticas daquele atentado. Estava certa
de que o ETA nada tinha a ver com aquilo. Eu não disse
nada. Depois se aproximou de um aparelho de som que
eu não havia notado e colocou uma música.
A música se espalhou pela sala e, por um momento,
talvez dois compassos, me senti intensamente presente.
Ela disse que precisava ir, mas que no apartamento havia
comida, bebidas e toalhas limpas, tudo à minha disposi-
ção. Notou que eu tinha acabado de fumar meu último
cigarro e me indicou um maço em cima da mesa. Então
se despediu, dando-me um beijinho na boca, mas não dei
importância.
Quando fiquei sozinho no apartamento, fui para o guarda-
-roupa e examinei suas roupas, peça por peça. Cheirei
alguns dos vestidos pendurados. Dentro do armário, havia
um gaveteiro, e eu abri e fechei as gavetas. Depois fui ao
banheiro e dei uma olhadinha. Tudo estava impecavel-
mente limpo, e eu me perguntei se era ela mesma quem
limpava. Talvez uma imigrante cuidasse do apartamento,
uma imigrante que tinha ido pelos ares. Atrás do espelho,
havia alguns frascos de pílulas, mas não consegui entender
o que eram. Depois enrolei um baseado bem forte com
todo o haxixe que tinha sobrado na minha bolsa e o fumei
na varanda. Quando acabou, tirei meus sapatos e deitei na
cama dela. Na pilha de livros mais próxima da cama, avistei
uma pequena revista de poesia americana, um número no
qual eu era publicado. Fiquei surpreso com o fato de uma
insignificante revista publicada em Nova Iorque, e que
continha alguns poemas que eu tinha escrito em Providence

153
sobre Topeka, estar aqui, neste apartamento lindo em Madri.
Não que os poemas fossem sobre alguma coisa. Então lem-
brei que eu mesmo tinha dado a revista a ela. Separei-a da
pilha, derrubando-a, e achei meu poema:

Possuir uma arma me tornou tímido.


As lágrimas são valorizadas nessa economia de prazer.
O éter dos dados engole o palácio do congresso.
Possuir uma arma me tornou esquecido.
Meu oboé contaminou seu cenotáfio.
A superfície está em construção.
Lagartos coruscantes aparecem em massa.
A lua cospe numa mata de abetos.
Contrários plausíveis se mexem no farfalhar.
Júpiter gira noS próprios sulcos.
O vento concede toda a sua cortesia.
Nunca estive aqui.
Entendeu?
Vocês nunca me viram.

Não tinha certeza se Teresa tinha dormido na cama


comigo; havia sacos de dormir e travesseiros jogados no
chão, mas podiam ser de Arturo ou Rafa, que agora não
estavam mais no apartamento. Os sacos de dormir me
fizeram pensar em sacos para cadáveres alinhados perto
dos trilhos, embora ainda não tivesse visto tal cena. Tinha
lembranças confusas de pessoas entrando no apartamento
enquanto eu estava meio adormecido. Fragmentos de
conversas bêbadas, cheiro de maconha, talvez um corpo
respirando ao meu lado. Teresa estava ao telefone, falando
baixo para não me acordar. Não podia perguntar se ela
havia dormido na cama comigo; se tivesse, representaria um
novo nível de intimidade, e eu não podia aceitar que não

154
havia guardado nenhuma lembrança dele. Pelo que sabia,
podíamos até ter nos agarrado ou algo ainda mais íntimo;
e, embora duvidasse disso, conseguia imaginar a cena de
uma forma que chegava muito perto de uma lembrança real.
O gato ainda estava no sofá, olhando para mim e pis-
cando os olhos. Embora eu não tivesse feito nenhum
barulho ou me mexido, Teresa reparou que eu estava acor-
dado e me trouxe um espresso, segurando o telefone entre
a orelha e o ombro; eu não tinha ouvido a máquina. Não
sabia como interpretar o sorriso dela. Quase não acreditei
em quanto o café era delicioso. Teresa voltou para a sua
mesa, e eu me levantei e sentei enquanto terminava o
café e tentava escutar a conversa; era algo sobre enviar ou
receber uma encomenda; talvez ela realmente trabalhasse
para a galeria. Depois do café, fui para o banheiro, liguei
o chuveiro, caguei, tomei um comprimido branco e então
entrei no banho. O chuveiro era complexo e podia ser
ajustado para soltar vários jatos de água. Foi o chuveiro,
mais do que qualquer outro objeto no apartamento ou
do que o próprio apartamento, que me fez perceber a
ilimitada riqueza de Teresa. Eu me dei conta de que não
tinha bebido água, apenas café e álcool, por um período
de tempo incrivelmente longo. Abri a boca, deixei-a se
encher de água e engoli.
Vesti a mesma roupa, saí do banheiro e encontrei Teresa
arrumada, fumando e bebendo seu café no sofá vermelho.
Ela sorriu, o gato piscou os olhos, e eu falei, em inglês:
“Tudo aqui é lindo. Você é linda. O chuveiro é lindo. O
café. Como você sabia que eu estava acordado? Como
é possível que esse café maravilhoso de repente esteja
pronto?” Soei como se estivesse traduzindo do espanhol.
“Por que tudo nesse apartamento, desde a pilha de livros
até aqueles papéis na mesa, parece organizado de uma

155
forma tão linda? Como é possível que seu gato consiga
comunicar tanta inteligência, que consiga piscar os olhos
tão expressivamente?”
“Por que você está falando em inglês?”, perguntou ela
também em inglês, arregalando os olhos.
“Não sei”, respondi, em espanhol. Depois repeti em
espanhol, o melhor que pude, tudo que tinha acabado de
dizer sobre ela, sobre sua destreza, o chuveiro, o café. Ela
riu, mas também pareceu um pouco triste. Então disse
que eu devia mesmo estar precisando de uma boa noite
de sono, pois tinha dormido profundamente e por muito
tempo. Eu me perguntei como ela havia avaliado o nível
de profundidade do meu sono, se tinha tentado me acor-
dar. De fato me sentia descansado. A luz no apartamento
parecia a típica luz da tarde.
“A gente deveria sair para participar dos protestos”,
sugeriu. Olhei perplexo para ela, que explicou: “Tem um
protesto na frente do quartel-general do Partido Popular.
O Partido Popular culpou o ETA, mesmo sabendo que eles
não foram os responsáveis. O povo está furioso.”
“Você está furiosa?”, perguntei.
“Arturo me enviou um torpedo”, disse ela, ignorando
a pergunta. “Disse que tem uma manifestação enorme na
frente do quartel-geral. É perto daqui.” E depois, em inglês:
“Esses são acontecimentos que vão entrar para a história.”
“Se eu não tivesse acordado”, perguntei, num tom
estranho, talvez com um pouco de raiva, “você teria me
acordado ou teria saído sem mim, ou simplesmente não
teria saído?”.
“Não sei”, respondeu ela. “Você acordou.” Seus olhos
estavam de novo arregalados.
Saímos do apartamento, caminhamos por algumas
quadras e, antes de ver a multidão, nós a ouvimos

156
gritando palavras de ordem sobre verdade, mentiras e
fascismo. As tropas de choque da polícia estavam posi-
cionadas entre os manifestantes e o quartel-geral do
Partido Popular. Os manifestantes eram jovens e cheios
de raiva, e nos unimos a eles. Para minha surpresa,
Teresa se inseriu elegantemente, começando a gritar as
palavras de ordem com os outros, embora eu não con-
seguisse identificar especificamente a voz dela, e erguia
o punho junto com as outras pessoas sem parecer falsa
nem ridícula. O povo batia em tambores e panelas, e eu
caminhei atrás de Teresa, que adentrou na multidão.
Cheguei a um ponto depois do qual não conseguia mais
prosseguir, e ela sumiu à minha frente. Senti que ela
sabia que tinha me perdido e me perguntei se aquela
era uma resposta ao episódio do dia anterior, quando
eu tinha ficado parado no meio da manifestação. Um
policial disse algo no megafone, e os gritos de protesto
se intensificaram. Achei que os manifestantes estivessem
prestes a tomar o prédio de assalto, mas isso não acon-
teceu. Esgueirei-me do grupo, atravessei a rua e fiquei
observando a manifestação dali. Por um segundo, tive
a impressão de ter avistado Isabel.
Depois de não sei quanto tempo, Teresa emergiu do
turbilhão e me encontrou. Estava com um homem que
eu não conhecia. Mesmo de longe dava para ver que ele
era bonito. Quando me alcançaram, ela disse em inglês:
“Para onde você foi?” E, quando não respondi, ela disse,
em espanhol: “Esse é Carlos.”
Apertei a mão de Carlos enquanto uma onda de ciúme
se propagava pelo meu corpo. Ele era pelo menos quinze
centímetros mais alto do que eu.
Ficamos juntos observando a manifestação. A multi-
dão tinha aumentado a tal ponto que, embora ainda fora

157
dela, estávamos suficientemente próximos para que nossa
presença exprimisse solidariedade. Sem aviso prévio e
num volume questionável, Carlos começou a gritar algu-
mas palavras de ordem sobre Rajoy. Ele berrava, embora
parecesse perfeitamente calmo. No começo, era o único
a pronunciar aquelas palavras, e eu desejei que ninguém
gritasse junto, que ele acabasse desistindo, envergo-
nhado. Mas, em seguida, as pessoas que estavam perto
da manifestação, sem fazer parte dela, uniram-se a Carlos
e começaram a gritar também. E, assim que essas pessoas
ficaram conectadas através das palavras de ordem, elas se
movimentaram e nós nos movimentamos com elas e fomos
absorvidos. Depois o grito puxado por Carlos se espalhou
do nosso canto para os outros manifestantes e se tornou
ensurdecedor. A voz de Carlos não era mais distinguível;
eu olhei para seu rosto bonito e o odiei.
Recuei de novo, e Teresa viu que eu estava me afas-
tando, mas ela se limitou a me dar tchau com a mão, o
que me deixou arrasado. Tentei sorrir de uma forma que
questionasse suas ideias políticas, seu direito de estar no
meio da manifestação, mas não consegui. Abri caminho
por entre os becos e acabei perto de Puerta del Sol. De
lá, voltei para casa e comecei a ler sobre os eventos que
estavam se desenvolvendo e dos quais não havia con-
seguido participar. As eleições seriam no dia seguinte.
Tentei avaliar se a indignação pública podia custar as
eleições ao Partido Popular, esforcei-me para pensar na
plataforma ensanguentada e no necrotério improvisado
no centro de convenções perto da Estação Atocha, mas, em
vez disso, imaginei fazer amor com Teresa, como se fosse
uma lembrança real. Então, imaginei-a transando com
Carlos e tive certeza de que, depois que eu vim embora,
eles tinham voltado imediatamente para o apartamento

158
dela. Tentei pensar em Isabel, mas não consegui, e isso me
fez lembrar do colar, que tirei do estojo com a sensação de
tê-lo carregado comigo por anos. Guardei-o de volta e saí
do apartamento rumo à joalheria para ver se conseguia
devolvê-lo. Quando alcancei a loja, duvidei de que teria
coragem de encarar a mulher que o vendera para mim;
senti-me aliviado quando percebi que estava fechada.
Caminhei até o Reina Sofia, comprei um bilhete e fiquei
vagando pela enorme mostra de Calder. O museu estava
quase vazio, as grandes salas brancas me fizeram lem-
brar do apartamento de Teresa, e me imaginei indo para
a cama com ela e Carlos ao mesmo tempo e me sentindo
humilhado pela beleza e pelo tamanho dele. Imaginei-me
dando o colar a Teresa, que o aceitava com elegância, mas
sem surpresa ou emoção, o que me enlouquecia de raiva.
Depois vi uma guarda do museu muito jovem, pratica-
mente uma adolescente, enviando um torpedo debaixo de
um “móbile” gigante. Aproximei-me dela e expliquei que
havia comprado um colar para a minha namorada, mas
que tínhamos terminado e que eu sairia do país no dia
seguinte; não queria o colar e perguntei se ela o aceitaria.
Sem lhe dar tempo de responder, entreguei o estojo a ela
e fui embora.
Do museu, fui para o café onde almoçava quase
todos os dias e pedi um sanduíche simples e um chope
aguado. Quando terminei de almoçar, percebi, para
minha surpresa, que já tinha anoitecido, eu devia ter
dormido até tarde, e fui ao Retiro para comprar mais
haxixe. Esquadrinhei o parque inteiro, mas não consegui
encontrar os traficantes em canto nenhum. Pensei que
talvez a polícia tivesse feito uma batida para interrogá-
-los e os tivesse deportado pois, pelo que tinha lido,
estava circulando a hipótese de que os terroristas seriam

159
norte-africanos. Sentei num banco, observei o vento bater
nas árvores do Velho Mundo e disse a mim mesmo que
não voltaria para o apartamento de Teresa ou para a gale-
ria. Jurei que iria esperar que ela me procurasse e, se ela
nunca mais aparecesse, tudo bem. Mas depois pensei
que se estava fazendo História e que eu deveria estar ao
lado dos espanhóis para vivenciar aqueles eventos; devia
pelo menos tentar encontrar Arturo. Sabia que era uma
desculpa para ver Teresa. Tentei justificar minha mes-
quinharia meditando sobre a relação entre a dimensão
pessoal e os eventos históricos, mas minhas meditações
não foram muito longe; levantei, mexi nos bolsos à pro-
cura dos tranquilizantes e comecei a caminhar depressa
na escuridão, que ficava cada vez mais densa.
Por um momento, me senti perdido, mas no fim conse-
gui divisar o prédio onde ela morava, toquei a campainha
e o portão abriu logo. Enquanto o elevador subia deva-
gar – funcionou sem a chave –, comecei a ouvir música,
vozes e risos; ainda estava tentando me recompor quando
as portas se abriram. Havia um monte de pessoas, entre
as quais reconheci apenas Teresa e Rafa, que fumavam,
bebiam e discutiam animadamente sobre os protestos
e as eleições. Muitos falavam ao celular. Olhei ao redor
procurando Carlos, mas não o vi, e uma onda de alívio se
espalhou dentro de mim. Teresa estava no sofá vermelho
admirando os brincos de outra mulher; não se levantou
para me cumprimentar. Aproximei-me de Rafa, que estava
examinando a coleção de CDs de Teresa, e perguntei onde
estava Arturo, como se fosse importante encontrá-lo. Sem
escutar a resposta, caminhei até a varanda, onde acendi
um cigarro, e lá estava Carlos, fumando com outros dois
homens. Ele me cumprimentou, exibindo um sorriso que
interpretei como triunfante e pós-coito. Não me apresentou

160
aos seus amigos, que me pareceram estilosos e hostis,
cobertos de tatuagens caras. Sorri para os amigos de uma
forma que sugeria que, se pudesse, gostaria de degolá-los
e retribuí a saudação de Carlos. Não sabia o que fazer;
não podia voltar para dentro sem que isso parecesse uma
retirada e estava enciumado demais para bater papo. No
final, Carlos disse algo sobre como devia ser um momento
interessante para um americano na Espanha. Respondi que
era sim, ignorando o tom irônico com que ele tinha pro-
nunciado a palavra “americano”. O que você está achando
disso tudo?, perguntou. Sobre o quê?, devolvi. Sobre tudo,
disse ele. Olhei ao longe, como se estivesse fazendo um
esforço para formular minha complexa resposta em termos
suficientemente simples que até um idiota como ele pode-
ria entender. Depois, como se tivesse chegado à conclusão
de que era uma tarefa impossível, disse que não sabia.
“Gostei da sua leitura pública de alguns meses atrás”,
disse um dos amigos dele. Soou gentil e sincero, e eu fiquei
chocado. Perguntei-me se Carlos não seria uma pessoa
completamente agradável, e se não era eu que estava
projetando meu ciúme. Senti-me um pouco atordoado e
lembrei-me de quando tinha vomitado no banheiro do
Zalacaín.
“Obrigado”, agradeci.
“Você vai escrever um poema sobre o atentado?”, per-
guntou Carlos, num inconfundível tom de escárnio. Queria
jogá-lo da varanda. Terminei o cigarro antes de responder
que não.
Voltei para o apartamento, notei um espaço no sofá
ao lado de Teresa e sentei. Ela começou a brincar com
meus cabelos, e eu disse, em inglês, que Carlos ficaria
enciumado. Ela ignorou minha provocação. Queria beijá-
-la, mas não o fiz. Peguei um livro de uma pilha próxima

161
e me fingi interessado, excitado pelo fato de ela estar
flertando comigo na frente de todo mundo. Depois de
um tempo, Carlos e os amigos voltaram, e ele confabu-
lou com algumas das pessoas que vagavam pela sala e
depois avisou Teresa que eles estavam retornando para
o protesto e que lhe enviaria um torpedo mais tarde. Ok,
ela disse, sorrindo para ele da mesma forma que havia
sorrido para mim. Eles se beijaram no rosto e, quando
estava perto da orelha dela, ele lhe sussurrou algo e ela
soltou uma risadinha. “Até mais”, ele me disse, e eu
respondi tchau, como se tivesse dificuldade de lembrar
quem era.
Após alguns instantes, os outros convidados, inclusive
Rafa, deixaram o apartamento, presumivelmente para ir
ao protesto. Continuei olhando o livro, um romance de
Cela. Teresa foi para sua mesa e voltou com um baseado
fino que acendeu e passou para mim. Era maconha, não
haxixe. Quando terminamos, ela foi até o guarda-roupa
e começou a se trocar. Eu me levantei, me aproximei, a
abracei por atrás e a beijei no pescoço. Ela se virou, e nos
beijamos por um tempo, mas, por alguma razão miste-
riosa, tudo acabou naquilo mesmo. Voltei a me sentar, ela
terminou de se trocar, depois sentou ao meu lado, voltou
a fazer aquele gesto de brincar com meus cabelos e me
perguntou se eu queria sair para procurar a manifestação.
Respondi que estava chapado demais; ela me olhou de
lado e disse que sentia obrigação de ir. Fiquei calado. Ela
disse que eu podia ficar e ler ou fazer o que quisesse até
a sua volta. Pensei no Carlos.
“O que aquele cara disse para você antes de sair?”,
questionei.
“Que cara?”, perguntou ela.
“Carlos”, respondi.

162
“Nada”, desconversou ela.
“Ele sussurrou algo para você enquanto falava tchau
e você deu uma risadinha”, insisti.
“Não lembro”, mentiu. Eu estava furioso.
“Quando você acha que vai voltar?”, perguntei,
tomando cuidado para não revelar minha raiva. “Não
sei bem”, respondeu ela.
“Se não for problema, vou ficar aqui por um tempo.
Depois tenho que encontrar alguém”, falei.
“Tá bom”, concordou. Quase não acreditei que ela não
me perguntaria quem. “Pega aquelas chaves”, ofereceu,
apontando para um gancho perto da porta. “Você pode
deixar o elevador aberto; a chave maior é do portão”,
explicou.
“Tá bom”, respondi, minha raiva mitigada pela oferta
das chaves.
“Podemos olhar os poemas amanhã”, sugeriu ela.
“Gostaria de escolher um ou dois dos novos para
traduzi-los.”
“Tá certo”, respondi. Não estava nem aí para os poemas.
“Se é que você ainda está interessado neles”, acrescen-
tou ela. Seus olhos não estavam nem arregalados nem
semicerrados, e ela não estava sorrindo. Fiquei feliz de
vê-la chateada.
“Não estou muito interessado na poesia num momento
como este”, falei, insinuando que ela estava se preo-
cupando com bobagens pessoais num momento de
eventos históricos revolucionários. “Amanhã vão acon-
tecer as eleições”, lembrei, como se fosse possível ela ter
esquecido.
Ela ficou ainda mais chateada. “E quais são seus planos
para amanhã?”, perguntou. “Como você pretende parti-
cipar desses eventos históricos?”

163
“Este não é o meu país”, afirmei, com uma expressão
que sinalizava que essa declaração abrigava múltiplos e
simultâneos registros de significado. Tive a impressão de
que todos estavam tocando na cabeça dela.
“Bueno”, encerrou ela, o que podia significar qualquer
coisa, e foi embora.
Saí para a varanda, me dei conta de que estava comple-
tamente escuro e fiquei observando-a enquanto se afastava.
Quando não consegui mais vê-la, voltei para o aparta-
mento e comecei a examinar sua mesa. Encontrei algo que
parecia um diário e o abri; estava cheio de poemas escritos
numa caligrafia que supus que fosse a dela. Estavam reple-
tos de palavras que eu não conhecia e que presumi que
fossem substantivos muito específicos: quíscalo, jasmim-
-da-noite, projétil de ponta côncava – não tinha a menor
ideia. Atribuí um significado a cada termo desconhecido
mais ou menos ao acaso, e os poemas se revelaram abso-
lutamente adoráveis. Comecei a ler um deles em voz alta,
mas minha voz soou esquisita no apartamento vazio e
desisti, lembrando-me de novo do Zalacaín. Inspecionei
o diário para verificar se em algum dos poemas havia
nomes de pessoas, Adán, Carlos etc.; não havia. Numa das
páginas, havia uma mancha, provavelmente de café, mas
que me fez pensar em sangue. Imaginei Teresa escrevendo
o diário num trem e o trem explodindo.
Pousei o diário. Então me senti estúpido por não ter
ido à manifestação e decidi que iria ao encontro deles, ao
encontro de Teresa. Peguei as chaves e saí, caminhando,
a princípio, na direção do quartel-general do Partido
Popular. Não havia ninguém ali, exceto alguns jornalis-
tas e policiais. Perguntei a um garoto sentado num banco
onde era o protesto, e ele riu na minha cara. Caminhei
até Colón, mas a praça estava vazia. De Colón, peguei o

164
Paseo de Recoletos, que depois virava Paseo del Prado.
Era estranho procurar uma multidão, vaguear à procura
da História, ou de Teresa. Percorri o caminho inteiro até
Atocha. Vi umas velas e pequenos grupos de pessoas, mas
nem sinal de protesto. Pela primeira vez desde a minha
chegada à Espanha, desejei possuir um celular. Voltei
caminhando na direção do Paseo del Prado e depois até
Calle de las Huertas. Passei na frente de um barzinho
onde havia uma televisão ligada e vi imagens de uma
multidão em movimento. Entrei, pedi um uísque e vi os
manifestantes na frente do quartel-general do Partido
Popular. A princípio, achei que fossem cenas da primeira
parte do dia, mas depois notei que era noite. Está passando
ao vivente?, perguntei ao funcionário do bar, apontando
para a tela. Ele olhou para mim sem entender. É ao vivo?,
corrigi. Ele assentiu. Bebi e assisti e, por fim, voltei para
casa e adormeci.

Enquanto a Espanha votava, eu checava meus e-mails.


De acordo com a internet, o protesto continuava em frente
ao quartel-general do Partido Popular. Depois, enquanto a
Espanha votava, alguém tocou minha campainha. Pensei
que fosse Teresa e estava prestes a abrir quando me veio
à mente que podia ser Isabel, quem eu não queria ver.
Decidi correr o risco, abri o portão e ouvi alguém subir
as escadas às pressas. Quando bateram à porta, já havia
deduzido que devia se tratar de Arturo, a única pessoa
que eu conhecia capaz de correr. Abri a porta, ele estava
exaltado, como se não tivesse dormido direito. Sentou e
pediu um cigarro. Eu lhe dei um, ele o acendeu e começou
a falar. Disse que aqueles bastardos fascistas iriam perder
e que Zapatero iria vencer e que, embora Zapatero não

165
tivesse ideias radicais, era um político legal. Falou que
tinha ficado acordado a noite inteira protestando e fes-
tejando. Perguntei se protestar e festejar eram a mesma
coisa. Ele sorriu de uma forma imperscrutável, e eu me
perguntei onde eles tinham aprendido a sorrir daquela
forma, depois percebi que me fazia lembrar o sorriso no
rosto do pessoal elegante daquelas fotos antigas no apar-
tamento de Teresa.
“Você votou?”, perguntei.
“Eu não voto”, respondeu.
“Por quê?”, indaguei.
“Não acredito em votar”, afirmou.
“Por quê?”, insisti.
“Eu me recuso a fazer parte de um sistema corrupto”,
disse ele. Pronunciou essa frase como se a tivesse repetido
não sei quantas vezes naquele mesmo dia.
“E a Teresa vota?”, perguntei.
“Sim”, disse, mas como se não tivesse tanta certeza.
“E Carlos?”, perguntei, como se eu soubesse tudo sobre
Carlos.
“Carlos é marxista”, Arturo disse, pegando um dos
livros de Tolstói e folheando-o rapidamente.
“Marxista”, repeti. “Desde quando você conhece Carlos?”
Eu me dei conta de que não sabia se existia um partido
comunista ativo na Espanha.
“Desde sempre”, respondeu, ainda olhando o livro.
“Mas o Carlos vota, sim.”
Não sei por que fiquei surpreso: “Sério?”
“Sim, mas vota pela facção oposta, deliberadamente”,
explicou ele.
“Ele vota no Partido Popular!”, exclamei, incrédulo.
“Ele vota assim para exacerbar as contradições do sis-
tema.” Foi o que achei que Arturo tinha falado.

166
“Filho da puta!”, exclamei, em inglês. Arturo levantou
os olhos na minha direção. “Ele vota para que as coisas
piorem”, confirmei, em espanhol.
“Sim”, concordou, e repetiu aquela coisa sobre as con-
tradições como se a tivesse dito não sei quantas vezes
naquele dia. “Carlos quer uma revolução.”
“Que tipo de revolução?”, perguntei, sem fazer esforço
algum para conter meu desprezo.
“Não se preocupe com o Carlos”, disse, sorrindo de
novo. “Teresa não o ama.”
“Eu não me preocupo com ele”, menti. “Ele deveria
votar nos Socialistas”, falei.
“Carlos não acredita no socialismo”, disse Arturo. “Se
os Socialistas vencerem, vamos organizar uma grande festa
na casa do Rafa. Se o PP vencer, vai haver mais protestos.
Talvez tumultos. Teresa queria que eu dissesse isso a você,
e também que é para você vir com a gente.”
Pensei em responder que estava ocupado, mas disse:
“Ok”.
“De qualquer maneira, vamos te buscar às nove horas”,
disse. E, quando levantou para ir embora, “Se você quiser
ficar na Espanha, vai ter que comprar um celular”. Eu me
perguntei o que ele queria dizer com “ficar”.
Os Socialistas venceram. A mídia americana estava
furiosa, dizia que os espanhóis tinham se deixado intimi-
dar pelos terroristas. Lá fora, ouvi gente comemorando.
Um pouco antes das dez horas, a campainha tocou, e eu
desci, era Teresa. Ela me beijou na boca, e eu me senti
apaixonado. Juntos, caminhamos na direção do carro,
onde Arturo nos esperava. Levamos muito tempo para
sair da cidade. Durante a viagem, Arturo continuou a
discutir com Teresa sobre a declaração à televisão de Pedro
Almodóvar de que o Partido Popular estava preparando

167
um golpe de Estado, mas talvez eu tenha entendido mal.
Quando finalmente chegamos à mansão de Rafa, pergun-
tei como ele tinha ganhado tanto dinheiro. Eles riram. Eu
me corrigi, explicando que, na verdade, queria perguntar
como a família dele tinha ganhado tanto dinheiro. Teresa
mencionou algo a respeito de bancos. E a família de vocês?,
perguntei, incerto. Arturo disse que, com certeza, não o
tinham ganhado escrevendo poemas, e demos gargalha-
das. Depois Teresa falou que já tinha me contado, como
era possível que eu não lembrasse? Hesitei e depois con-
cordei, fingindo me lembrar. Talvez ela tivesse me contado
na noite do nosso primeiro encontro. Ou talvez tivesse
contado em outras ocasiões, e eu não havia conseguido
entender o espanhol dela. Ou podia ser que ela tivesse
mentido sobre ter me contado. Entramos.
De novo, havia muita gente bonita, e eu reconheci
alguns rostos da galeria ou do apartamento de Teresa.
Tudo estava levemente mudado, carregado. Não sei por
que pensei nas fotografias dos parentes distantes de Teresa.
Não sabia bem qual expressão adotar, se indiferença tin-
gida por um vago desprezo ainda seria a expressão mais
apropriada. Se tivesse conseguido exibir o sorriso inson-
dável de Teresa, eu o teria feito. Um dos quadros estava
coberto por feltro preto. Não parecia um quadro do século
XIX coberto, e sim arte contemporânea. As pessoas discu-
tiam sobre política, ou talvez tudo de repente parecesse
virar uma questão política. Ouvi por acaso várias con-
versas sobre o papel da fotografia agora, em que “agora”
significava pós-11 de março. Um “pós” estava sendo
construído, e o ar estava saturado de excitação não pelo
período, mas pela periodização. Escutei algo sobre o fato
de o telefone celular, instrumento determinante na orga-
nização dos protestos, ser a tecnologia política dominante

168
da nossa época. E o titadine, a dinamite de alta densidade
usada no atentado, eu queria dizer, não era aquela a tec-
nologia dominante? Disse isso a Teresa, que me corrigiu
gentilmente enquanto a gente se servia de uma bebida:
aqueles atentados eram “feitos para a televisão”, ela falou
a frase em inglês.
A intenção era servir-me de gim, mas, quando experi-
mentei, descobri que era tequila prata. Aos dezessete anos,
tinha passado muito mal depois de ter me embriagado com
tequila e, desde então, nunca mais voltara a tomá-la, a não
ser um gole a cada dois ou três anos para verificar se ainda
me deixava enjoado, o que regularmente acontecia. Voltei
a pensar naquela noite em Topeka, quando vomitei por
uma hora perto da fogueira e depois adormeci, em pleno
inverno, na traseira de uma picape. Ainda conseguia sentir
o cheiro da fogueira, o frio e um pouco de tontura. Depois
pensei em Cyrus tentando lavar a boca para se livrar do
gosto ruim. Teresa tirou o drinque da minha mão e me
passou outro, uma vodka tonic com um aroma agradável.
Você não gosta de tequila, explicou, como se soubesse o
que eu estava lembrando, como se nos conhecêssemos
havia muitos anos. Seu encanto e sua capacidade de ler
meus pensamentos me deixavam quase assustado; temia
não ser capaz de mentir para ela e fiquei preocupado com
a possibilidade de que, sempre que eu achava que minhas
mentiras haviam funcionado, Teresa tivesse percebido tudo.
Se eu tivesse que contar apenas com a pura verdade, ela
se cansaria de mim logo. Pensei que o melhor seria tentar
prevenir ou retardar essa situação conversando aberta-
mente sobre ela e, enquanto voltávamos para o lado de fora
segurando nossos drinques, eu disse, em inglês: “Você é a
pessoa mais encantadora e eclética que conheço. A forma
com que me trouxe o café quando acordei, ou a forma como,

169
agora mesmo, me tomou a tequila ou”, fiz uma pausa para
pensar em um exemplo que não envolvesse bebidas, “a
forma como consegue passar do seu apartamento elegante
para uma manifestação com absoluta naturalidade”.

“Os nomes próprios dos líderes políticos são distrações dos sistemas
econômicos concretos.”

“Por que você insiste em falar em inglês comigo?”, per-


guntou ela, num tom quase preocupado.

170
Ignorei a pergunta e continuei: “Mas tenho medo de
que você seja demais para mim, e que um dia se dê conta
de que sou um impostor. Um impostor sem elegância. Não
conseguirei continuar a enganá-la, e você se cansará de
mim.” Enquanto falava, pensei que seria impossível escon-
der meus comprimidos dela. De repente e sem querer,
lembrei-me do Ritz.
“O que você está descrevendo”, disse ela, em espanhol,
“é a personalidade de um tradutor. Do apartamento ao
protesto, do inglês ao espanhol”. Se ela tivesse dito isso
em inglês, eu o teria achado pretensioso; em espanhol, me
soou profundo. Perguntei-me se ela havia mentalmente
comparado a frase nas duas línguas antes de selecionar a
versão mais capaz de surtir o efeito desejado.
Teresa começou a tirar a roupa e, por um segundo,
achei que tivesse enlouquecido. Mas ela estava com um
biquíni por baixo e deixou sua roupa amontoada numa
pequena pilha, deslizando silenciosamente na piscina
aquecida e iluminada, como que para realçar a facilidade
com que conseguia passar de um elemento para outro.
Havia algumas outras pessoas na piscina, todas mulheres
e todas pareciam conhecer Teresa. Encontrei uma cadeira
de jardim e acendi um cigarro, repetindo pela enésima
vez a mim mesmo a promessa de que nunca mais fumaria
um cigarro quando deixasse Madri, mas que, até então,
me permitiria fumar sem culpa. Esse simples truque psi-
cológico, tão fundamental para o meu vício quanto o
isqueiro e os fósforos, me fez lembrar o comentário de
Arturo sobre a possibilidade de eu ficar na Espanha. Vi
Teresa mergulhar na água e pensei: por que não ficar?
Dando aulas de inglês, eu ganharia o suficiente para con-
tinuar morando no mesmo apartamento. Talvez Arturo
pudesse me pagar para fazer algum tipo de trabalho na

171
galeria. Talvez meus pais me enviassem algum dinheiro.
Ou talvez Teresa me sustentasse. Eu podia escrever, e ela
traduzir, e passearíamos juntos no Retiro ao pôr do sol.
Imaginei meus amigos vindo dos Estados Unidos para
me visitar, imaginei a admiração e a inveja deles diante
do meu estilo de vida. Perguntei-me por quanto tempo
ficaria depois do fim da minha bolsa. Talvez mais um
ano; faria um esforço para aprender espanhol de verdade,
um objetivo que agora parecia vagamente alcançável, e
também começaria a traduzir os poemas de Teresa para o
inglês. Publicaria um livro de poemas, depois um livro de
traduções e voltaria para o meu país, talvez com Teresa,
acolhido como um escritor famoso, envolvido por uma
aura de mistério ibérico. Ou talvez nunca mais voltasse
para casa, a não ser para visitar a família e os amigos.
Terminei minha bebida e fui para o bar pedir mais uma,
quando notei que lá estava o cara que havia discutido com
Abel depois da minha leitura, o sujeito que acreditava
que a disjunção da minha poesia representava um gesto
político radical.
Ele me reconheceu, mas não se lembrava bem da nossa
conversa. “Ainda acredita que a poesia pode mudar o
mundo?”, perguntou.
Hesitei antes de responder: “Pode exacerbar suas con-
tradições”, falei, balbuciando um pouco o verbo que não
conhecia muito bem.
“Bom, não é a poesia que faz as coisas acontecerem”,
ponderou ele.
“A poesia não faz acontecer nada de nada”, confir-
mei em inglês. Ele olhou para mim, perplexo. “O que fez
acontecer tudo isso?”, perguntei, em espanhol, fazendo
um gesto com a mão como se quisesse incluir a festa nos
eventos dos últimos dias.

172
“Corpos nas ruas”, respondeu ele. A princípio, achei
que estivesse falando dos cadáveres; depois entendi que
se referia aos corpos dos manifestantes. Tentei descrever
essa ambiguidade, as duas formas possíveis de interpretar
a resposta dele, mas me enrolei com o espanhol e resolvi
desistir da ideia.
Voltei para o lado de fora, sentei na mesma cadeira e
bebi meu drinque. Teresa não estava mais na piscina, e
olhei ao redor para procurá-la, mas não a vi. Quando meu
drinque acabou, preparei mais um, dessa vez no pequeno
bar que ficava na parte externa, e depois me afastei da
piscina na direção do jardim levemente iluminado, onde
uma vez tinha escutado Rafa cantando. Quando flagrei
Teresa sentada no banco de pedra beijando Carlos, o ciúme
e a raiva pareceram objetos concretos, que se haviam for-
mado ao longo de muitos anos, de modo que era como se
tivessem precedido a sua própria causa e fossem indepen-
dentes da cena. Demorou um pouco antes que eu notasse
ali perto, a uns dois metros do banco, outras duas garotas
que haviam acabado de sair da piscina e que estavam com-
partilhando um baseado no brilho pálido de suas toalhas
brancas. Sentei ao lado delas, e uma me passou o baseado,
dizendo algo do tipo: “Eis o poeta.” Teresa tinha parado de
beijar ou de se deixar beijar por um homem que, só agora
pude perceber, não era Carlos, mas outro cara bonito que
eu não conhecia; ela me notou e não moveu um músculo.
Considerei a possibilidade de me levantar e ir direto para
os fundos do jardim, de onde se avistava o morro e onde
tinha falado para Teresa que minha mãe estava morta.
Imaginei-me dando murros nesse sujeito, que agora estava
voltando para a festa, batendo repetidamente na cara
dele. O baseado tinha retornado para mim, e a mulher
que o havia passado me dirigiu a palavra; talvez porque

173
eu estivesse chapado ou abalado, não consegui entender
o que ela dizia, mas isso não é exatamente a verdade. O
espanhol dela, tal como o poema de Teresa, tornou-se um
repositório de qualquer significado que eu lhe atribuísse,
e eu tive a ilusão de que o entendia, embora soubesse que
estava apenas falando comigo mesmo. Era como se ela
estivesse dizendo: pense no colar. Pense na fabricação do
colar. No caderno do irmão de Isabel. Eu conseguia ouvir,
no fundo, o que ela estava realmente falando e até me
ouvi responder, mas era algo muito distante. Era como se
ela dissesse: imagine o irmão dela escrevendo. Pense no
pedaço de papel que Teresa rasgou do livro dela e enfiou
no caderno. Pense no haxixe transportado no estado sólido
dentro do corpo de alguém e depois expelido e vendido e
então inalado no seu corpo em forma de vapor e gás. Pense
nos terroristas comprando as mochilas. Sempre pense nos
objetos. Pense nos colares, nos romances e nos corpos des-
pedaçados pela explosão. Pense na fabricação dos colares,
dos romances, dos corpos e no irmão de Isabel no carro
vermelho destruído. Mas depois pense num pôster do
Michael Jordan pendurado na parede do quarto do irmão
de Isabel enquanto ele anotava os anos no caderno. Onde
está aquele pôster agora? E pense no campo em frente ao
poste telefônico contra o qual o irmão dela bateu o carro.
Pense em como você pode desviar sua atenção do carro
vermelho destruído e do corpo e caminhar no campo,
onde nada está acontecendo, apenas vento indiferente
na grama indiferente, mas um vento particular numa
grama particular. Você pode ficar lá por quanto tempo
quiser, ignorando facilmente os uivos das sirenes. Ou pode
entrar no pôster com a rajada dos flashes das câmeras que
captam o momento do pulo de Michael Jordan, deixar o
estádio enquanto a multidão está rugindo e caminhar pela

174
Chicago do passado recente, onde se escrevem romances,
se fabricam colares, os gases são inalados, as datas são
memorizadas por cérebros e estes são despedaçados em
acidentes de carro. Você pode observar tudo isso de uma
grande altura e dar um zoom-out, afastando até a cena
não ser mais visível, ou um zoom-in se aproximando da
mão que está escrevendo ou do rosto do morto; pode dar
um zoom-in até esse rosto não ser mais um rosto. Ou pode
clicar em algo e arrastar. Pode ajustar a cor ou transformá-
-lo em branco e preto. Pode examinar qualquer objeto de
qualquer ângulo ou de ângulos múltiplos simultanea-
mente ou fechar os olhos e escutar a multidão do estádio
ou as sirenes se aproximando devagar do carro vermelho
ou o som da caneta anotando os anos enquanto a prata é
cinzelada e modelada.
Teresa se sentou perto de nós e acendeu outro baseado,
que me passou perguntando algo que me ouvi respon-
dendo, mas tudo era muito distante, e eu a ouvi sussurrar
algo do tipo: encostar os lábios para manifestar carinho ou
para fazer respiração artificial. Bater os dentes enquanto se
faz amor ou respiração boca a boca numa vítima, colocar a
língua entre os dentes para pronunciar o “z” de Zalacaín
ou guardar um dente debaixo de um travesseiro ou a
pulseira feita com os dentes de leite que a sua avó tinha.
Tentar passar de um idioma para outro sem rotação ou
movimento angular e falhar nessa tentativa e ligar para
o próprio pai de um telefone público chorando ou chorar
diante de um quadro, de maneira que se possa pensar
sobre telefones públicos e sobre quadros ao mesmo tempo.
Naquele momento, percebi que Teresa não estava falando,
mas cantarolando e brincando com meus cabelos. No
entanto, ainda assim, eu continuava a ouvir: abraçar a
trágica permutabilidade dos substantivos e sorrir de modo

175
imperscrutável ou encontrar uma forma para pousar, nem
que fosse só por um instante, e tornar-se visível graças
ao turbilhão da condensação e dos detritos e saber que
um polo da experiência sempre depende do outro, mas
descobrir isso no fim, com o próprio corpo, um cone de
calor que se dissolve. Levar tudo para o lado pessoal até a
personalidade se dissolver e conseguir passar sem solução
de continuidade de um apartamento para uma manifes-
tação ou distribuir a si mesmo entre uma configuração de
corpos em movimento, dizendo sim a tudo, sem afirmar
nada, o próprio corpo “abandonando / sua forma num
gesto que exprime aquela forma”.
Depois me vi deitado ao lado de Teresa, e todo o meu
ciúme se dissolvera ou estava tão longe de mim que não
pensava mais nele como meu. Consegui avistar uma
estrela particularmente brilhante que na hora julguei que
fosse um satélite, mas depois descobri que era um avião.

176
5
Não estava em condições de avaliar as traduções dela,
mas sentia que eram muito bem-feitas. Quando Teresa as
leu para mim, tive a impressão de que ela havia transpor-
tado alguma coisa delicada e refletida ao longo de uma
trilha insidiosa, mas o que seria exatamente aquela coisa
eu não fazia a menor ideia, e, na verdade, “trilha” não
era a palavra certa. Arturo tinha delegado por completo a
responsabilidade do projeto a ela. Depois de um processo
de triagem, havíamos juntado uma quinzena de páginas
do que pareciam ser os melhores poemas. O entusiasmo
intenso e aparentemente sincero de Teresa pela minha
escrita me deixava lisonjeado, confuso e um pouco cons-
trangido. Muitas vezes, quando dormia no apartamento
dela, em vez de vir para a cama comigo, ela ia para a mesa
e trabalhava, presumivelmente nos meus poemas. Nunca
trepamos ou fizemos amor ou sexo; não sabia bem a razão,
mas eu associava isso às traduções. E, quando ela exibia
aquele seu sorriso enigmático ou cuidava de mim com seu
encanto misterioso, me oferecendo o fósforo, o café ou a
frase que eu queria antes mesmo que eu soubesse que os

179
queria, ou quando passeávamos por Madri em silêncio,
sentia que ela estava me observando, me observando com
um interesse distanciado, frase ridícula, como se meu com-
portamento pudesse fornecer-lhe uma chave para resolver
um problema de ressonância, ou flexão ou separação dos
versos. Ela nunca falava dos próprios poemas.
Na Madri pós-11 de março, estava convencido de que
tudo estava prestes a explodir; observava os aviões se
preparando para o pouso em Barajas e, quando os raios
do sol os atingiam por um segundo, eu achava, mais com
excitação que com medo, que eles estavam em chamas.
Ou pegava o metrô, e um solavanco repentino do vagão
me parecia a primeira detonação. Imaginava meus amigos
americanos, a grande surpresa, e talvez inveja, deles pela
morte que o destino havia reservado para mim, pela forma
como a História tinha me escolhido. Por qual motivo,
pensava, por qual motivo todo mundo achava que morrer
num ataque terrorista tinha mais a ver com a lógica inexo-
rável da História que morrer de acidente de carro ou de
câncer no pulmão? Eu realmente não conseguia entender.
Disse a Teresa que isso era o produto da degeneração da
nossa sensibilidade política, que não podíamos pensar no
carro ou no cigarro à maneira do titadine, porque isso nos
obrigaria a questionar nosso sistema econômico. Quando
ela me fez notar que eu falava como Carlos, senti meu rosto
corar de raiva. Falando nisso, onde está Carlos?, perguntei
uma tarde enquanto voltávamos devagar da Filmoteca
para o apartamento dela. Tínhamos assistido a dois filmes
de Cocteau, cineasta que era tema de uma retrospectiva.
Era um dos primeiros dias quentes, e a cidade inteira,
menos Teresa, parecia estar sem energia. Ela respondeu
que Carlos estava em Barcelona, a trabalho. Na minha
cabeça, Oscar e Carlos, quase anagramas, se fundiram,

180
e senti uma repentina pontada de desejo por Isabel.
Perguntei em que ele trabalhava e, por alguma razão, ela
respondeu, em inglês: “Organização”.
“Nunca fui a Barcelona”, comentei. A ideia de que
Carlos se ocupava de “organização”, esperava que isso
estivesse bem claro na cabeça dela, era absurda demais
para que eu a levasse em consideração.
“Dá para chegar lá em algumas horas com o AVE”, disse
ela. O AVE era o trem-bala. Eu pensava que demorasse
muito mais.
“Por quê? Está com vontade de ver o Carlos?”, perguntei.
“Se você quiser, podemos voltar para meu apartamento,
pegar umas roupas e ir hoje à noite”, sugeriu ela, igno-
rando minha pergunta.
“Ok”, concordei, e começamos a caminhar mais depressa
rumo ao apartamento, jogamos algumas coisas na mala,
inclusive, pelo visto, os cadernos com os meus poemas e
as traduções, e depois pegamos um táxi até Atocha, com a
intenção de tomar o primeiro trem. Foi ela quem comprou
as passagens, era sempre ela quem pagava, passamos na
frente de algumas velas vermelhas e embarcamos. Após
um solavanco inicial, que achei que fosse uma explosão,
começamos a correr em grande velocidade rumo ao norte,
as imagens do Orfeu de Cocteau ainda desfilando na minha
cabeça. Três horas depois, estávamos em Barcelona. Da
estação, caminhamos até o Bairro Gótico: ruazinhas medie-
vais labirínticas, em sua maioria interditadas aos carros, e
chegamos até o que parecia ser um elegante prédio residen-
cial, mas que na realidade era um pequeno hotel. Teresa
cumprimentou a mulher atrás do balcão alto e, para minha
surpresa, dirigiu-se a ela em catalão fluente. Entregou-lhe o
cartão de crédito e, em troca, recebemos uma chave antiga.
Subimos dois lances de escadas de ferro e encontramos

181
nosso quarto. Havia uma enorme porta de madeira, com
pé-direito muito alto, e paredes brancas que lembravam o
apartamento de Teresa. Teresa tirou de sua pequena bolsa
uma quantidade de roupas muito maior do que eu pen-
sava nela caber e pendurou tudo no guarda-roupa. Como
era possível que não estivessem amassadas? Saímos na
varanda que dava para a rua. Havia acabado de escurecer.
Ela me perguntou o que eu queria fazer, e eu respondi
que estava com fome; tinha um restaurante de que ela
gostava perto da Sagrada Família. Deixamos o hotel e
caminhamos por um tempo até cruzarmos as Ramblas.
Pegamos um táxi para a Sagrada Família, que estava ilumi-
nada; era o prédio mais feio que eu já tinha visto na minha
vida. A poucas quadras de distância, estava o restaurante
Alkimia, cheio de gente bonita, e, embora estivesse lotado
e não tivéssemos reserva, achamos logo uma mesa. Pedi
em espanhol uma bebida, e o garçom esclareceu meu
pedido em inglês, algo que nunca acontecia em Madri.
Teresa pediu vários pratinhos que chegaram rapidamente:
ventrecha de atum fatiada como se fosse jamon ibérico e
servida sobre um feijão de grãos grandes; pão branco com
azeite e molho de tomate; um prato que continha trufa e
pedacinhos de linguiça, talvez de pato; tudo era delicioso.
Trouxeram-nos uma garrafa de vinho branco, que Teresa
havia pedido por conta própria, e, quando chegou a sobre-
mesa, eu estava me sentindo agradavelmente bêbado. A
sobremesa era um sorvete maravilhoso com um sabor
inusitado, e eu perguntei ao garçom de que era feito, ao
que ele respondeu: “Eucalipto.” Demorou um pouco até
eu reconhecer essa palavra linda.
Depois do jantar, sentamos num banco de um pequeno
parque cheio de gente, debaixo dos braços de um poste de
ferro fundido, e uma pequena onda de euforia se espalhou

182
dentro de mim. Teresa se deixou beijar por um tempo, e
então pegamos um táxi e voltamos para os arredores do
Bairro Gótico. Em seguida, fomos a pé até nosso hotel,
e eu achei que fôssemos fazer amor, mas, em vez disso,
fumamos outro baseado na varanda, e eu perguntei como
ela havia aprendido catalão. Ela contou que já morara
em Barcelona em vários períodos da sua vida, disse isso
como se fosse muito velha. Arturo tinha me falado que ela
estava com vinte e sete anos; parecia mais jovem ou mais
velha, dependendo do momento. Eu disse que estava com
vontade de tomar uma bebida, e saímos de novo. Após
mais ou menos uns dez minutos, descemos umas esca-
das até chegar a um barzinho que parecia uma caverna
fresca e escura. Sentamos em poltronas de couro verde,
a uma mesa que parecia feita de madeira petrificada.
Uma mulher com muitos piercings no rosto apareceu à
nossa mesa, e fizemos nosso pedido. Teresa perguntou
se eu tinha assistido ao filme de Antonioni parcialmente
filmado em Barcelona, Profissão: repórter, e, mentindo,
respondi claro que sim. Ela disse que eu tinha as sobrance-
lhas dele, de Jack Nicholson, e que eu delegava às minhas
sobrancelhas o grosso do trabalho; que, se ela fosse surda,
leria as minhas sobrancelhas, e não os meus lábios. Eu
disse que ela estava descrevendo a personalidade do
tradutor, mas disse isso só mentalmente. Ela falou que
Arturo a achava parecida com Maria Schneider, atriz que
eu detestava e que conhecia de O último tango em Paris,
e entendi o que ele queria dizer. Eu me perguntei que
tipo de relação haveria, em Profissão: repórter, entre Maria
Schneider e Jack Nicholson, me perguntei o que Teresa
queria afirmar sobre nós dois e, baseando-me nos filmes
de Antonioni que já conhecia, concluí que não devia ser
nada lisonjeiro.

183
“Como você interpreta a relação deles?”, perguntei,
tentando soar como se eu tivesse ponderado a esse res-
peito por anos.
“Não consigo entendê-la”, respondeu ela, num tom
que dizia que o ponto era justamente aquele. Depois falou
coisas que eu mal consegui compreender sobre a penúl-
tima cena do filme, um plano-sequência filmado durante
a magic hour, uma expressão que ela falou em inglês. Não
conseguia imaginar a cena, mas entendi que Antonioni,
para conseguir filmá-la, tinha construído uma câmera
especial contida numa esfera de plástico e munida de
vários giroscópios, que eu não tinha a menor ideia do
que fossem.
Pedimos outra bebida, e Teresa falou sobre vários filmes
que, à exceção de um ou dois, eu não conhecia; talvez
porque naquele dia mesmo tivéssemos assistido a Orfeu,
que falava de fronteiras fluidas, ou talvez porque tivésse-
mos repentina e impulsivamente viajado para uma nova
cidade, ou quem sabe porque o barzinho parecesse uma
caverna, comecei a projetar imagens para acompanhar o
discurso dela. Teresa apareceu nessas imagens, entrou nos
filmes que estava descrevendo, e, em seguida, os filmes
confluíram para um único filme, e era a vida dela que eu
estava imaginando. Não que ela narrasse enredos por meio
de takes ou sequências como se fossem enredos. Imaginei-a
com idades diferentes e, no centro de cada cena, como se
ela a tivesse organizado em torno de si mesma, o que me
pareceu uma forma mais elevada de biografia que a mera
descrição dos eventos. Quanto mais ela falava, menos
consciente da minha presença ela ficava; depois de várias
bebidas, pediu a conta sem me consultar e pagou.
Deixamos o barzinho e, percorrendo as ruas estreitas
e tortuosas, chegamos em pouco tempo ao nosso hotel.

184
Enrolei um baseado, perguntei se ela queria um também,
e ela respondeu que não, então fiquei deitado na cama
fumando enquanto ela estava sentada a uma pequena
mesa que ficava num canto do quarto e trabalhava nas
traduções, abrindo tanto meu caderno quanto o dela.
Perguntei se ela gostaria de ler algumas para mim, e ela
respondeu novamente que não. Não entendia seu método:
ela não usava dicionário e não me fazia perguntas, por isso
me perguntei se estava traduzindo de verdade. Depois,
ela veio para a cama, fechou os olhos e, na minha forma
desajeitada, tentei estabelecer algum contato físico, mas ela
se demonstrou completamente, embora com certa doçura,
insensível. Por muito tempo, fiquei observando-a respirar.
Quando acordei, ela estava lendo Ashbery ao meu lado.
Eu me perguntei se ela havia notado os comprimidos
na minha bolsa. Com um sorriso, comunicou-me que,
qualquer que tivesse sido a distância surgida entre nós na
noite anterior, não existia mais. Seu hálito tinha um cheiro
horrível, e eu disse a mim mesmo que era para gravar
esse fato na memória e recordá-lo na próxima vez que me
sentisse intimidado por seu jeito imensamente encantador.
Avisei que estava saindo para tomar um café. Então me
vesti, peguei a bolsa, desci as escadas meio zonzo, saí e
andei até encontrar um bar. Pouco antes de pedir, dei-me
conta de que estava sem dinheiro; saí do bar à procura de
um caixa eletrônico. A certa altura, onde a rua de pedras
se alargava e virava uma avenida moderna, encontrei
um Deutsche Bank e saquei aquela moeda que não pare-
cia real. Ainda meio sonolento, coloquei o dinheiro na
carteira e caminhei na direção que eu pensava que fosse
a mesma de onde viera, mas, algumas quadras adiante,
percebi que estava enganado. Recuei e passei de novo na
frente do banco, mas minha confusão aumentou; talvez

185
a direção certa fosse a de antes. Perguntei a um homem,
provavelmente um cigano, que estava sentado perto da
entrada de um prédio, onde ficava o Bairro Gótico. Ele
apontou, mas, depois de ter caminhado naquela direção
por vários minutos, ainda não conseguia avistar as ruas
antigas. Resolvi tomar o café, então entrei em outro bar
e pedi um espresso, solicitando orientações ao cara que
me serviu. Ele desenhou um mapa muito confuso num
guardanapo, e eu agradeci, mas decidi pegar um táxi.
Depois vi Isabel passar. Nos últimos dois meses, muitas
vezes achara que tinha visto Isabel. Dessa vez eu tinha cer-
teza, embora parecesse improvável; deixei várias moedas
grandes no balcão e, sem terminar o café, parti no encalço
dela. Foi só quando me vi perseguindo-a que me perguntei
por que queria alcançá-la; não tinha nada para lhe dizer,
embora tivesse a vaga sensação de que devia pedir-lhe
desculpas. Ela atravessou uma rua muito movimentada
e, antes que eu chegasse ali, o trânsito tinha voltado a
fluir, e eu tive que esperar. Levou um tempo até o sinal
abrir, e eu não estava mais certo de que era ela que eu
estava seguindo, mas me concentrei numa garota que tinha
algo nos cabelos; enfim, ela sumiu depois de uma curva.
Parei de novo e perguntei a uma mulher que vendia flores
como chegar ao Bairro Gótico, e ela me deu indicações
para chegar lá de metrô. Eu agradeci e fiz sinal para um
táxi. Quando desci perto do limite do bairro, senti von-
tade de tomar outro café. Encontrei um bar, comprei dois
espressos para viagem e me entranhei no bairro, pegando
uma rua que achei ter reconhecido. Não sabia o nome do
hotel. Notei que o café estava frio, traguei um e joguei
fora os dois copos. Estava irritado, me sentia estúpido e
sentei num banco para clarear as ideias. Perto de mim, um
homem cego vendia bilhetes da loteria gritando algo sobre

186
a sorte. Eu me senti como um personagem de Profissão:
repórter, um filme que nunca tinha visto.
Quando retomei minha busca, gradualmente me dei
conta de que nem ao menos lembrava o aspecto da fachada
do hotel sem nome; talvez já tivesse passado na frente dele
muitas vezes. Não tinha o número do telefone de Teresa.
Estimei que tinha transcorrido mais ou menos uma hora
e meia desde que havia saído. Faminto, entrei no enésimo
bar e pedi o enésimo café, além de uma fatia de tortilla,
que detestei antes mesmo de provar. Disse ao garçom que
estava procurando um hotel cujo nome não lembrava, que
ficava numa rua cujo nome não conhecia e se, por favor, ele
podia me ajudar; ambos rimos à beça, e ele brincou: não
estamos todos procurando por isso? Quando terminei de
comer, fiz mais uma tentativa, sentindo-me como um ator
cujas perambulações serviam como desculpa para inse-
rir no filme paisagens bonitas. Depois de não sei quanto
tempo, certamente mais do que uma hora, cheguei a uma
pracinha e me sentei, derrotado. Minha irritação se tornou
ansiedade. Se estivesse no lugar de Teresa, nem eu acredi-
taria que tinha saído do hotel para comprar um café e que
tinha me perdido por todas as horas que transcorreriam
antes de conseguir reencontrá-la. E, mesmo que ela tivesse
acreditado, nem queria pensar no impacto que uma história
desse tipo teria na imagem que ela fazia de mim, imagem
com a qual eu estava ficando ativamente, talvez cada vez
mais, preocupado. Teria me saído melhor aos olhos dela se
tivesse sumido por vários dias em circunstâncias misterio-
sas, em vez de reaparecer ao anoitecer como uma criança
perdida, suja e exausta. Tomado por algo parecido com
desespero, prossegui em minhas perambulações. Comecei
a me sentir um pouco atordoado, o espaço se enroscando
nas bordas, o que me fez lembrar que tinha de tomar meus

187
comprimidos brancos. Encontrei outro banco e sentei,
batendo com os pés para dispersar os pombos. Desprovido
de sua consistência, o tempo passava.
Levantei e voltei a caminhar até chegar às Ramblas,
onde havia muitas pessoas agrupadas em volta de vários
caras com os corpos pintados que se fingiam de estátuas.
Quando alguém deixava algumas moedas, eles se mexiam
de repente e assustavam as crianças. Prossegui ao longo
das Ramblas, na direção do píer. Havia uma barraca
pequena ao ar livre, numa estreita nesga de praia; sentei
debaixo do toldo de plástico vermelho, pedi patatas bravas e
uma cerveja. Bebi a cerveja rapidamente e pedi mais uma.
Um teleférico descia de um morro até um ponto perto da
praia. Havia muitos adolescentes com roupa de banho,
embora a água devesse estar fria. Uma pequena onda de
desejo sexual se espalhou dentro de mim. Quando termi-
nei a segunda cerveja, voltei a pé pelas Ramblas, fiquei
vagando por um tempo, depois chamei um táxi e fui para
o Museu Picasso, para onde Teresa tinha mencionado que
queria me levar. Talvez ela estivesse ali.
Parei, me obriguei a parar, diante de um quadro feito
em sua juventude, um retrato de sua mãe. Não me dizia
nada de interessante. A mulher, de perfil, está meio ador-
mecida; a cabeça está levemente inclinada para a frente, e
os olhos estão fechados. Pastel sobre papel, 1896. Picasso
tinha quantos anos, quinze? Uma aberração da natureza.
Podia me convencer de que conseguia ver o espaço se
enroscando em volta da figura ou áreas onde o espaço
de repente se tornava plano, mas não via nada disso. Via,
talvez, a confiança de um pintor que já tomava por certo
que um dia suas obras de juventude seriam examinadas
para encontrar nelas as sementes da genialidade, frase
embaraçosa. Se a obra parecia excepcional, era porque era

188
hipotecada: mais que pressagiar os resultados futuros, ela
recebia crédito deles. Tinha começado a chuviscar; dava
para ouvir a chuva batendo na claraboia.
Eu me perguntei quanto meu projeto teria sido dife-
rente se tivesse vindo para Barcelona em vez de Madri.
Pensei nisso para não pensar em Teresa, onde quer que ela
estivesse. Que eu fosse acessório, intercambiável, aceitava
isso como um fato. Pinceladas levemente mais impetu-
osas no autorretrato, também de 1896. Uma celebração
desavergonhada dos próprios lábios. Contudo, o olho
esquerdo, escurecido por uma sombra, parecia assim em
consequência de um murro. Tentei pensar em mim mesmo
aos quinze anos. Lembrei-me de meu irmão me ensinando
a dirigir no estacionamento do hospital.
Interessavam-me exclusivamente as obras da juventude.
Passei pelas salas rosa e azuis sem demonstrar interesse
algum e acenei para os guardas. Trazia as saudações dos
guardas do museu de Madri. Se Teresa estivesse presente,
teria lhe perguntado: diante de qual quadro você mais
gostaria de ficar hora após hora, dia após dia? Não era a
mesma coisa que perguntar qual era seu quadro favorito.
Ou em qual período você gostaria mais de viver? Qual
período você gostaria mais de vigiar? O que você prefe-
riria ter que observar por meses e meses, a arte figurativa
ou a abstrata? Lembrei-me de quando aprendi a dirigir
e das grandes fogueiras no Lake Clinton e daquilo que
se costuma chamar de “experimentos” com as bebidas
alcoólicas e as drogas. Um procedimento empírico; um
ato ou uma operação com o objetivo de descobrir algo
desconhecido ou de testar um princípio. Agora eu era um
escritor experimental.
Toda vez que íamos ao museu, minha mãe dizia
que a pintura parecia ter evoluído ao contrário: se um

189
extraterrestre entrasse num museu, pensaria que as telas
abstratas haviam chegado antes, centenas, se não milha-
res, de anos anteriores ao Renascimento. A menos que o
extraterrestre em questão não tivesse o aspecto de um
triângulo amarelo projetado sobre um plano azul. Na
presença da minha mãe, eu sempre rejeitava essa teoria,
mas, se Teresa estivesse comigo, eu a teria feito passar
por minha. Assentaria perfeitamente com a particular
evolução de Picasso e soaria inteligente, fosse certa ou
errada. Na galeria dedicada à relação entre Picasso e a arte
africana, havia dois meninos de seis ou sete anos. Não vi
o restante da família. Um dos dois logo se aproximou de
uma das telas grandes e a tocou com as mãos, com certeza
por desafio. Depois ambos saíram correndo da galeria e
provavelmente voltaram para os pais. Aproximei-me da
tela que o garoto havia tocado, uma primeira versão em
miniatura, ou um estudo para Les Demoiselles d’Avignon.
Olhei ao redor para me certificar de que não havia nin-
guém por perto e, já que o mundo estava para acabar,
toquei a tela também.
Enquanto tentava encontrar um táxi para voltar ao
Bairro Gótico, a chuva apertou. Tentei retornar ao museu,
mas não consegui encontrar meu bilhete, e o guarda se
recusou a me deixar passar. Atravessei a rua e me abriguei
em um salão de jogos que tinha algumas daquelas máqui-
nas de jogar pôquer eletrônico muito usadas por idosos.
Na Espanha, havia esses salões de jogos em todo canto,
mas eu nunca tinha entrado num deles. Caminhei até o
fundo do salão, atravessando um monte de luzes lampe-
jantes, musiquinhas retumbantes e um ou dois rapazes, até
que deparei com uma máquina com o formato de um carro
e me sentei nela. Estava ensopado. Apoiei a cabeça contra o
volante e senti todo o peso da minha vergonha. Nesse país,

190
eu não era nem capaz de comprar um café, quanto mais de
compreender sua guerra civil. Nem ao menos tinha visto
Alhambra. Eu era um mentiroso compulsivo, violento e
bipolar. Era um autêntico americano. Nunca conseguiria
achatar o espaço ou estilhaçá-lo. Não tinha visto Profissão:
repórter, um filme do qual eu era protagonista. Eu era
um drogado, talvez um alcoólatra. Enquanto a História
despertava, eu dormia no Ritz. Uma mulher loira, se é
que essa é a descrição correta, com peitões exagerados e
olhos esbugalhados, agitava uma bandeira quadriculada
na tela à minha frente. Desafio você a jogar de novo, disse
ela, em inglês.
Saí do salão de jogos. Tinha parado de chover. Consegui
um táxi e fui para o Bairro Gótico. Quando o motorista
do táxi tentou bater papo, respondi em espanhol que não
falava espanhol. Ele falou uma ou duas frases em inglês e,
quando não respondi, em francês. Quando chegamos ao
limite do bairro, deixei uma gorjeta exagerada e recomecei
minha procura. Após alguns minutos, tive a impressão de
ter reconhecido o primeiro café, aquele onde havia entrado
logo depois de ter deixado Teresa. Explorei cada uma
das ruas que se ramificavam do café, mas não consegui
encontrar o hotel. Quantas horas haviam transcorrido?
Começava a ter dificuldades para respirar, o sinal precur-
sor do pânico. Perguntei a um idoso que horas eram; eram
seis ou sete e pouco, incrivelmente tarde. Entrei num café
que podia ser o mesmo onde eu tinha comido a tortilla; a
essa altura, todos os cafés me pareciam iguais, pedi água
mineral com gás e tentei me acalmar. Eu me sentia como
se a coisa certa a fazer fosse óbvia. Senti outra pontada de
saudade de Isabel. Senti falta de Alhambra e amaldiçoei
a retorcida Sagrada Família. Pedi uma bebida alcoólica,
considerei a possibilidade de ligar para meus pais, a fim

191
de pedir um conselho, e me senti envergonhado. Pensei
em arranjar um quarto num hotel, descansar e resolver
tudo no dia seguinte. Ao chegar à minha terceira bebida,
estava considerando a possibilidade de deixar não só
Barcelona, mas até mesmo a Espanha, e nunca mais ver
Teresa. Seriam os laços tão frágeis assim?
Ao anoitecer, estava tomado pelo pânico, uma sutil
ca­mada de frio debaixo da pele. Tomei um tranquili-
zante. Saí do café e recomecei a vaguear pelo bairro. Três
minutos depois de ter deixado o café, eu me encontrei
na frente do que, sem dúvida alguma, era nosso hotel.
Reconheci a fachada só quando a vi iluminada pelos
postes de luz. Minha primeira reação foi raiva, e não
alívio; raiva por ele ter estado tão próximo durante todo
aquele tempo. Minha raiva se dissolveu e se tornou pre-
ocupação sobre o que Teresa diria. Pelo menos o pânico
havia desaparecido, substituído por uma lucidez quase
dolorosa. Perguntei-me se Teresa ainda se encontrava
ali e entrei no hotel para descobrir isso. A mulher atrás
do balcão me deu uma olhada significativa e pegou o
telefone. Subi correndo as escadas, bati à porta e Teresa
abriu. Ela virou imediatamente as costas, voltou a entrar
no quarto e eu fui atrás dela. Sua pequena bolsa estava
pronta em cima da cama.
“Estive perdido o dia todo”, falei. Soou como uma mentira.
“Por que você me ligou?”, perguntou, com uma calma
assustadora.
“Não tenho seu número de celular”, respondi.
“Te dei meu número um monte de vezes”, respondeu
ela, e era verdade.
“Não tenho. Sinto muito. Passei doze horas vagando
pelo bairro”, me desculpei, sentindo todo o peso do meu
cansaço.

192
“Você caminhou o dia todo pelo bairro?”, perguntou,
como se soubesse exatamente aonde eu fora.
“E andei pelas Ramblas até o mar e fui para o Museu
Picasso. Pensei que talvez fosse te encontrar ali”, disse.
“Você foi para a praia e para o museu”, simplificou ela,
dito assim parecia uma loucura.
“Fui até a praia para pensar antes de retomar minha
procura pelo hotel.” Não lembrava como se falava “cla-
rear a mente” ou “assentar as ideias” em espanhol. “E
fui para o museu porque achei que você estaria lá.” Não
soava muito convincente. Claro que ela nunca teria ido
para o museu. “Sinto muito”, declarei. Queria tentar me
defender, mas meu espanhol estava se esfarelando. Por
alguma razão, passar ao inglês teria significado uma ren-
dição sem condições.
“Preciso voltar para Madri”, respondeu, num tom frio.
“Por quê?”, foi tudo que consegui dizer.
“Precisam de mim na galeria”, respondeu. “O trem
noturno vai sair daqui a uma hora mais ou menos. Daqui
a pouco temos que ir para a estação.”
Olhei para ela, hesitante. “Por enquanto, eu não vou
voltar”, falei, para surpresa de ambos.
Ela olhou nos meus olhos pela primeira vez desde que
eu tinha voltado. “Por quê?”
“Talvez não haja outra oportunidade de eu vir para
Barcelona, e aqui mora um poeta que eu queria encontrar”,
menti. Não queria ficar sem ela, mas pensei que voltar com
ela agora como uma criança envergonhada seria humi-
lhante. Ela me olhou fixamente. “Ok”, disse, por fim, com
um sorriso forçado. “O hotel está pago até amanhã às
cinco horas. A gente se vê em Madri.” Então me deu dois
beijinhos no rosto e foi embora. Teresa sempre saía dos
quartos como se fosse voltar para eles dali a pouco.

193
Tomei um dos banhos mais demorados do meu projeto.
Não conseguia compreender o dia que tinha vivido. Era
sem conteúdo e repetitivo e, por isso, sem forma; agora, no
vapor, estava se dissipando. O diálogo com Teresa acon-
tecera com uma rapidez desconcertante. Mal me sequei,
deitei e fumei, contente por estar exausto demais para
ruminar por muito tempo. Pensei em Liévin, que afogava
sua alienação suando nos campos. Pensei em Picasso, que
produzia obras-primas durante o sono.

Na Madri pós-11 de março, a fundação fervilhava de


atividades: havia várias mesas-redondas com políticos
de segunda categoria, professores de primeira categoria,
jornalistas locais, além de um ou dois bolsistas, sobre o
ataque terrorista e suas consequências políticas. Eu não
havia participado de nenhuma delas, mas passava os
olhos pelos e-mails. Ao voltar de Barcelona, encontrei
uma mensagem de uma das assistentes de María José me
convidando para participar de uma mesa-redonda sobre
a “literatura agora”, na qual interviriam outro bolsista e
alguns escritores e críticos literários locais; não respondi.
Estava ainda tentando inventar uma desculpa para me
esquivar da mesa-redonda quando, alguns dias depois da
primeira mensagem, recebi um e-mail de María José, que
me agradecia por ter aceitado participar. A mesa-redonda
aconteceria no auditório no dia tal e tal, e ela não via a
hora de me encontrar.
O terror causado pela perspectiva da mesa-redonda se
somava à minha crescente ansiedade a respeito do que
faria depois de completar meu projeto de pesquisa; falta-
vam apenas dois meses de bolsa de estudo. Como escritor,
não tinha publicado um número suficiente de obras para

194
aspirar a um cargo de professor do que se chamava de
“escrita criativa”; Cyrus ameaçava se mudar para o porão
da casa de seus pais em Topeka se não conseguisse res-
gatar a relação com Jane. A possibilidade de morar no
Brooklyn me atraía muito, mas minha empolgação dimi-
nuía diante da perspectiva de ter que trabalhar muito para
conseguir me sustentar. Estava decidido a nunca mais
pôr os pés em Providence. Tinha considerado a ideia de
me inscrever num doutorado em literatura, mas conhecia
pessoas que haviam convivido com esse sonho por anos
sem concretizá-lo; nunca tinha ido além de adicionar as
páginas de algumas universidades nos favoritos do meu
navegador. Várias vezes tinha me passado pela cabeça a
ideia de fazer uma pós em Direito, mas involuntariamente
e não sem sentir um arrepio. Para não ter que me preo-
cupar demais com os detalhes do que faria ao regressar
à minha casa, reduzi minha decisão à escolha entre ficar
ou ir embora, como se essa decisão tivesse que preceder e
fosse independente de, aquela para onde ir e o que fazer.
Na fase final do meu projeto, com os dias que se torna-
vam cada vez mais longos e quentes, eu avaliava cada
refeição, conversa e caminhada conforme justificassem ou
invalidassem minha decisão de ficar. Eu estava, ao mesmo
tempo, mais distante e mais próximo da minha experiência
do que jamais estivera. Por um lado, minha atenção havia
redobrado: cada bocado de comida ou frase de conversa
escutada casualmente ou raio de luz ou canto de museu
eram informações sobre as quais ponderava enquanto
tomava minha decisão; por outro lado, qualquer que fosse
o objeto da minha atenção intensificada, era imediata-
mente incluído nas minhas ruminações sobre o futuro.
Arturo tinha dito, na frente de Rafa, que, se eu fosse
ficar na Espanha, podia contar com um quarto na casa de

195
Rafa pelo tempo que quisesse, e este havia confirmado,
assentindo com a cabeça. Não vou negar que a perspectiva
de me tornar um escritor residente num moderno palá-
cio frequentado por gente bonita me fascinava, por mais
cansativo que isso fosse para meus músculos faciais. Ou
então, com meu título de graduação de uma universidade
da Ivy League, podia facilmente encontrar um emprego
como professor de inglês em alguma multinacional ou
dar aulas para os filhinhos de papai. A maioria dos ame-
ricanos em Madri se sustentava dessa forma; eram pagos
sem nota fiscal e em dinheiro e, por isso, não precisavam
de um visto. Assim, para um americano branco, ficar na
Espanha clandestinamente não era um problema. Pensei
também que, especialmente com os Socialistas no governo,
não precisaria me preocupar com plano de saúde. Parentes
e amigos poderiam vir me visitar. Mas às vezes me con-
vencia de que seria melhor voltar para casa, esquecer a
mansão de Rafa, que essa vida não era real, não era a
minha cara, que um ano vivendo como turista – porque
era exatamente isso que eu estava fazendo – era demais,
que deveria voltar para os Estados Unidos, ficar perto da
minha família, começar a procurar seriamente uma com-
panheira, construir uma carreira etc. Prolongar a minha
estada era uma forma de adiar o inevitável; nunca conse-
guiria ficar para sempre longe dos meus familiares e da
minha língua, mesmo que conseguisse resolver os aspectos
práticos, e, já que estava ciente disso, seria melhor partir
quando acabasse minha bolsa, parar de fumar e retomar
contato com minha vida real; seria o melhor para mim e
para minha poesia.
Em outros momentos, porém, o raciocínio sobre o real
parecia inclinar-se para o lado da Espanha; isto, eu me
dizia, ao saborear o gosto meio sanguinolento do chorizo

196
ou ao cheirar o aroma do baseado ou ao sentir uma mistura
de ambos no hálito de Teresa, isto é vida de verdade, não
porque na Espanha as coisas fossem intrinsecamente mais
imediatas, mas porque o ambiente e minha relação com
ele ainda não eram padronizados. Óbvio que tudo isso
acabaria quando eu adquirisse familiaridade suficiente
com o idioma e com o território, de modo que ambos
perdessem seu fascínio exótico, quando uma pedra na
Espanha não mais me parecesse, em sua essência, mais
pedrosa que as rochas sedimentares do Kansas, e o mesmo
aconteceria com os corpos, a luz, o clima, com tudo. Mas
aquele momento de familiaridade ainda não havia che-
gado; por que não ficar até então? Se eu ficasse, talvez
realizasse o projeto descrito muitos meses antes no meu
pedido de solicitação da bolsa de estudo, ou seja, compor
um longo poema baseado numa pesquisa academicamente
sólida, o que quer que isso significasse, sobre a literatura
produzida em resposta à Guerra Civil, analisando o que
esse marco histórico poderia nos ensinar sobre a “litera-
tura agora”. Meu espanhol melhoraria depressa; não leria
Ashbery ou Garnett ou qualquer outra coisa em inglês,
mas mergulharia no cânone espanhol; tornaria-me o poeta
que eu fingia ser e realizaria meu projeto. Compraria um
celular e consumaria minha relação com Teresa.
Era estranho surpreender-me defendendo minha
poesia, comparando as possibilidades que as duas opções
me ofereceriam em relação à minha escrita, como se fosse
moralmente obrigado a fazê-lo pela minha genialidade,
genialidade que eu sabia não ter, não há nada de duende
aqui, pensava comigo mesmo tocando meu corpo à
procura de sensações, nada de cante jondo. Mas minha
pesquisa me ensinara que esse tecido de contradições
que constituía a minha personalidade era, na melhor das

197
hipóteses, um poema, em que por “poema” se entende a
incapacidade da linguagem de cumprir a potencialidade
que ela mesma afigura; só então minha desonestidade
constituiria um projeto, e não apenas uma patologia; só
então minha autoalienação seria redefinida como crítica,
estética, em vez de ser um efeito colateral do que os experts
definiriam como um problema de dependência de subs-
tâncias psicotrópicas, definição bastante apropriada, que
tem origem não tanto no meu anseio de evadir do real,
mas no meu desejo de ter um pretexto químico para suprir
a indisponibilidade do real. Mas será que minha relação
com as drogas era, por si só, falsa? Nunca tinha injetado
nada em mim; se começasse a mijar sangue, iria logo
ao médico, não a um bar; pensava em parar com tudo,
exceto com a parte de beber socialmente, tomar a dose
prescrita dos meus comprimidos e fumar um baseado
de vez em quando, e somente se tivesse vontade. Estava
destinado a reproduzir a família burguesa, independen-
temente de quanto essa perspectiva me aterrorizasse e
da minha tentativa de adiá-la. Ou talvez fosse justamente
esta a mentira: a convicção de que minha tendência a
me automedicar era simulada; a mentira pela qual era
destinado a viver uma vida saudável e respeitável e, por
isso, tinha que aproveitar o momento para ficar chapado
e me divertir enquanto podia; talvez tivesse assumido
a identidade que havia projetado, a de um drogado;
talvez a tentativa de prolongar por tempo indetermi-
nado o período de experimentos da minha adolescência
tivesse, de forma imperceptível, se transformado numa
preocupante, embora mundana, dependência; talvez a
mitomania tivesse se tornado metanfetaminamania. Todas
essas coisas, mais que pensá-las, eu as sentia na pele
enquanto vagueava pela cidade.

198
Uma tarde, voltando do Retiro, fiquei surpreso ao notar
que havia correspondência na minha caixa de correio, a
qual raramente eu verificava. Era um panfleto sobre a
mesa-redonda. Seu aspecto oficial agravou meu nervo-
sismo, havia até as fotos dos convidados da fundação:
Javier Torres, romancista e crítico literário do El País,
que no retrato parecia um candidato presidencial; Elena
Lopez Portillo, professora de literatura na Universidad
Complutense de Madrid, de aspecto distinto e cabeça gri-
salha, retraída na frente de suas estantes cheias de livros;
Teresa Solano, tradutora, poeta, artista visual e diretora
artística de mostras, que na fotografia tinha uma expressão
intensa e concentrada enquanto fumava e conversava;
e Francesc Balda, um romancista e jornalista político
catalão de trinta e poucos anos, bonito, também retraído
enquanto fumava, encarando a câmera, cabeça raspada.
Da mesa-redonda, participariam também dois bolsistas
que trabalhavam em campos relevantes para o debate.
Fiquei parado de pé por um longo momento fitando a foto
de Teresa, esperando a ficha cair. Nunca tinha mencio-
nado a ela a mesa-redonda porque temia que insistisse em
minha participação, mas isso não explicava por que ela não
tinha me avisado, já que nos víamos quase todos os dias.
Interpretei sua presença como um ato de agressão, um
ataque contra mim por parte de María José, que queria me
ridicularizar na frente de Teresa, e desta, que desejava me
humilhar perante a fundação. Estava furioso e me sentia
traído, mas também muito confuso ao descobrir tão tarde
que a reputação de Teresa era tal que justificava a sua pre-
sença em tamanha companhia; segundo a internet, Balda
e Torres eram famosos, Lopez Portillo era uma autoridade
de nível mundial sobre numerosos poetas espanhóis, e
depois havia Teresa; por que nunca tinha pesquisado o

199
nome dela no Google? Não era famosa, mas seu livro de
poesia estava prestes a ser publicado, suas traduções do
catalão e do francês tinham aparecido nos periódicos mais
importantes e conquistado vários prêmios dedicados a
jovens escritores promissores. Artista visual? Sabia que
tinha publicado umas traduções, mas não estava ciente
do livro que seria lançado em breve; nunca tínhamos con-
versado sobre a sua poesia, e não sei por que nunca tinha
pensado que ela pudesse ter algum papel no âmbito dos
círculos literários, o que quer que eles fossem.
Quando terminei de ler sobre Teresa, fui direto ao
apartamento dela, uma caminhada de trinta ou quarenta
minutos desde a Calle de Las Huertas. Quando voltara de
Barcelona, havia temido o pior: que Teresa tivesse deci-
dido nunca mais falar comigo e, durante os primeiros
dois dias, não consegui encontrá-la nem em casa nem na
galeria. Por fim, ela veio até o meu apartamento com os
rascunhos das novas traduções, sem dar sinais de raiva
ou irritação nem sugerir de forma alguma que uma nova
distância se estabelecera entre nós. Agora, que começava
a ficar mais quente, ela estava vestindo uma regata que
mostrava seus ombros morenos e as costas nas quais havia
derramado minhas lágrimas. Eu me desculpei de novo
por haver me perdido e lhe contei quão embaraçoso fora
para mim. Ela respondeu que tinha ficado preocupada e
chateada, mas insistiu, com seu sorriso, que não era nada
de grave. Quando me perguntou o nome do poeta que
eu havia encontrado, dei-lhe um nome qualquer achado
na internet e me senti aliviado quando ela comentou que
nunca tinha ouvido falar dele. Disse-lhe que a conversa
fora desajeitada e entediante e que me arrependera de não
ter voltado com ela. Na verdade, naquele dia eu havia
acordado cedo e pegado o primeiro trem para Madri. A

200
partir daquele momento, comecei a ver Teresa quase todas
as tardes e muitas vezes passava a noite no apartamento
dela. Continuávamos nos beijando, mas não fazíamos
amor. Eu achava estranho, mas não preo­cupante. Talvez
eu desejasse proteger a ideia de nós dois fazendo amor
das tentativas desajeitadas de concretizá-la. Dizia a mim
mesmo que estávamos levando o relacionamento com
calma, que nosso vínculo era tão intenso que tinha de ser
manejado com muito cuidado. Talvez Teresa quisesse pri-
meiro saber se eu ficaria na Espanha, antes de se entregar
completamente à nossa relação. O fato de ela se divertir, ou
até transar, com Carlos e vários outros playboyzinhos de
boa aparência, embora me enchesse de um ciúme violento,
acabava por confirmar a teoria de nossa excepcionali-
dade. Se ela não me achasse atraente, já teria parado de
me encontrar havia muito tempo; mas, se me achasse, por
que uma pessoa tão desinibida como ela continuava a não
querer dormir comigo? Só porque, eu pensava comigo
mesmo, queria se proteger da intensidade das próprias
emoções. Mas agora a mesa-redonda colocava tudo isso
em dúvida. Enquanto cruzava Chueca e passava perto do
lugar do nosso primeiro encontro, comecei a suspeitar de
que talvez ela estivesse apenas brincando comigo, sei lá
por qual razão, e que, talvez por achar que eu tinha encon-
trado Isabel em Barcelona, teria revelado para a fundação
e para seus distintos amigos que eu era, na melhor das
hipóteses, um charlatão.
Quando alcancei o prédio dela, estava acalorado,
sedento e cheio de indignação. Um mensageiro estava dei-
xando o prédio com um tubo de papelão enfiado debaixo
do braço e, por isso, não precisei tocar a campainha.
O elevador funcionou sem a chave e, quando as portas
se abriram, não vi ninguém. Depois ouvi o chuveiro. Bebi

201
um copo de água, me servi de uma bebida alcoólica e me
sentei no sofá. Gostei da ideia de que ela ficaria assustada
ao me ver, talvez até soltasse um grito. Eu tinha me assus-
tado ao ver o nome dela no panfleto. Foda-se, eu disse
ao gato, que piscava os olhos daquela forma deliberada.
Teresa não se assustou. Surgiu enrolada numa toalha,
me viu, se aproximou, me beijou, depois foi ao guarda-
-roupa para escolher o que vestir.
“Estamos na mesma mesa-redonda”, falei, friamente,
observando os movimentos de seus ombros enquanto ela
mexia no armário.
“Sim”, assentiu ela.
“Por que você não me disse nada?”, perguntei com o
cuidado de não revelar minha raiva.
“Achei que você já soubesse. María José tinha me falado
que você participaria, e eu pensei que tivesse sido você
quem pedira a ela para me convidar.” Com relutância,
tive que admitir que soava razoável.
“Não vou participar”, declarei.
“Por quê?”, perguntou ela, mas não parecia se impor-
tar muito.
“Porque não tenho nada para dizer. Porque não falo
espanhol bem. Porque literatura não é política.” Minha
intensidade era exagerada.
Ela vestiu uma calça jeans e uma regata branca que
realçava ainda mais sua pele morena. Sentou-se ao meu
lado. “Faz seis ou sete meses que te conheço”, começou,
num tom que parecia quase triste. “Conversamos exclusi-
vamente em espanhol. Quando você vai aceitar que pode
viver nessa língua?”, perguntou.
Suas palavras me tocaram, principalmente porque achei
que ela estivesse me convidando a viver em espanhol com
ela, a ficar depois da minha bolsa. Minha raiva se dissipou.

202
“Posso viver nesse idioma com você, mas não com María
José e a fundação. Além disso, não tenho nada para dizer
sobre a ‘literatura agora’”, esclareci.
De novo, algo parecido com tristeza: “Adam, você é
um poeta maravilhoso, um verdadeiro poeta. Se eu não
tivesse certeza disso, por que te traduziria? Quando vai
parar de fingir que está só fingindo ser poeta?” Pronunciou
apenas o meu nome em inglês.
“Você projeta o que finge ter descoberto na minha
poesia”, falei, em inglês.
Ela pegou o cigarro da minha boca e eu acendi outro.
“No”, limitou-se a dizer, não sei se em espanhol ou inglês.
Ficamos sentados em silêncio, e eu me perguntei se
Teresa tinha razão. Será que eu era realmente um indiví-
duo capaz de conversar fluentemente em espanhol, um
poeta de verdade, o que quer que isso significasse? De
fato, quando eu falava em espanhol com ela, não traduzia,
não pensava primeiro em inglês, mas, de qualquer forma,
eu estava fora do idioma que falava, construía frases sim-
ples com blocos de palavras que havia decorado, não
me comunicava através de um meio fluido. Mas por que
não conseguia me resignar e aceitar que participaria da
mesa-redonda e compartilharia minhas ideias na minha
segunda língua, sem ironia? Eles queriam a contribuição
de um jovem poeta americano que escrevia e fazia leitu-
ras públicas de poesia no exterior. E não era justamente
isso que eu era, e não apenas o que fingia ser? Talvez só a
minha desonestidade é que fosse desonesta. De qualquer
forma, a presença de Teresa não me humilharia, mas me
protegeria, e o fato de ela ter escolhido traduzir meu traba-
lho lhe conferiria prestígio, subscrevia-o, por assim dizer,
e se, em certo ponto, eu tivesse alguma dificuldade, ela
com certeza interviria. Ficaria muito nervoso, talvez até

203
mesmo constrangido, mas não seria um fracasso. María
José se acalmaria, e a minha relação com Teresa se tornaria
pública, o que nos ajudaria a nos enxergar como casal.
Enviaria uma cópia do panfleto elegante para a minha
mãe. Inclinei-me na direção dela e a beijei, ela cheirava a
fumaça e lavanda, por causa do sabonete.
“Não voltarei para os Estados Unidos”, eu me ouvi
dizendo.
Seus olhos se arregalaram, e achei que seu sorriso se
esmaeceu. “Sério?”
“Quero dizer que não vou voltar em junho”, falei.
“Provavelmente voltarei, mais cedo ou mais tarde”, escla-
reci. Estava esperando que ela se mostrasse feliz.
“Ótimo”, disse ela, mas eu senti um aperto no estômago
pela sua falta de emoção. Ou talvez fosse o meu coração.
“Vou escrever, viajar e dar aula de inglês”, acrescentei,
só para dizer algo.
“Ótimo”, repetiu ela, com um pouco de entusiasmo,
mas ainda insuficiente, enquanto um sorriso aparecia em
seu rosto. “Assim, em junho você poderá viajar a Córdoba
comigo e conhecer minha família”, sugeriu. Fiquei mais
tranquilo; ela estava pensando a longo prazo. Porém, não
parecia pensar nisso com empolgação.
“Adoraria”, falei, também com o cuidado de não soar
empolgado demais. “E gostaria de passar mais tempo
em Barcelona”, completei, convidando-a com minhas
sobrancelhas a considerar a possibilidade de que Isabel
ou alguma outra mulher estivessem me esperando lá.
“E voltar para Granada”, acrescentei, para me assegu-
rar de que Isabel seria evocada também. “Nunca visitei
Alhambra.”
“Você já foi para Granada, mas não visitou Alhambra”,
quis certificar-se, semicerrando os olhos.

204
“É”, respondi. Esperei que ela pensasse que eu estava
ocupado demais fazendo amor apaixonadamente com
Isabel para visitar os pontos turísticos. “Arturo e Rafa
disseram que posso ficar na casa de Rafa”, disse, e olhei-a
intensamente, a fim de sondar sua reação.
“Sim, eu sei”, assentiu ela, dando-me a entender que
eles haviam discutido sobre o assunto, mas evitando reve-
lar em qual lado da discussão estava.
“Mas provavelmente vou ficar no meu apartamento”,
falei.
“Sim, fica na cidade”, sugeriu ela. E depois, “fica aqui,
onde eu estou”. Agora parecia animada. Beijou-me com
uma intensidade insólita, e perspectivas ilimitadas, embora
ambíguas, pareceram se abrir.
Só uma ou duas horas mais tarde, enquanto saíamos
para jantar, comecei a me preocupar com o fato de que,
na realidade, eu não sabia se ficaria em Madri e também
por ter demorado tanto para me preocupar com isso. O
que Teresa diria se eu lhe tivesse dito que mudara de
ideia, que afinal eu tinha decidido voltar para os Estados
Unidos? Enquanto voltávamos na direção de Chueca, a
praça agora lotada graças ao clima ameno, típico do fim de
primavera, e esperávamos na fila que uma mesa vagasse
no restaurante Bazaar, decidi que não me importava com
o que ela fosse pensar. Tudo isso, minha experiência espa-
nhola inteira, deixaria de ser real se eu voltasse. Iria se
tornar o meu ano no exterior, uma exceção na sucessão
dos anos da minha vida, um último, ou quase, hino à
juventude, mas nunca faria parte, não de uma forma séria,
da minha vida. Não continuaria em contato com Teresa
ou Arturo, nem com Isabel. Juntaria uma ou duas frases
sobre minha estada na Espanha para quem quer que me
perguntasse sobre a minha experiência no exterior. Fora

205
isso, minha lembrança seria constituída por poucas ima-
gens desfocadas, o haxixe, o sol e talvez aquele rapaz com
sangue escorrendo pelo rosto; o resto seria deletado. E
se todos esses pensamentos não me pareciam cruéis ou
estúpidos, era só porque não acreditava que Teresa no final
se importaria muito. Restaria para nós o livrinho como
lembrança, e ela começaria seu projeto seguinte, pensando
em mim não mais, e talvez menos, do que pensava em
Carlos ou em Abel, ou em quem quer que fosse aquele
cara na festa do Rafa, e em todos os outros. Enfim, senta-
mos, comemos coisas cobertas por vários tipos de molhos,
bebemos duas ou três garrafas de Cava seco e conversamos
sobre Gaudí, Topeka, Lorca, Nova Iorque, Córdoba, Orson
Welles. Estava convencido de que tinha contribuído com
argumentações inteligentes em nossa conversa, falando e
entendendo sem esforço. Quando terminamos de jantar,
estávamos bêbados e, enquanto voltávamos cambaleando
para casa, pensei: é incrível a vida que levo aqui, e não
importa se não é a minha.
Os dois dias que passei antes da mesa-redonda, porém,
não foram nada maravilhosos e eram, sem dúvida, meus.
Estava tomado por um pânico moderado, mas constante;
não conseguia parar de ranger os dentes. Talvez pudesse
ficar calado, sem abrir a boca, apenas usando as expressões
faciais para modular o meu silêncio e deixar que aquilo
fosse a minha contribuição. Certamente, os convidados
mais ilustres dominariam o debate e entreteriam o público.
Não atendi à campainha e não saí do apartamento. Com
a ajuda do dicionário, anotei algumas frases genéricas e
tentei decorá-las. “Nenhum escritor tem a liberdade de
desistir de seu papel político, mas a literatura não reflete
a política mais do que a afeta, uma distinção bastante
importante.” Procurei na internet algumas breves citações

206
de Ortega y Gasset, que por algum tempo tinha pensado
que eram duas pessoas distintas, como Deleuze e Guattari
ou Calvin e Hobbes. Aprendi a dizer “Sinto certa hesita-
ção em falar da situação espanhola como se eu fosse um
expert porque isso alimentaria o estereótipo do americano
arrogante”. Cada vez que errava uma citação, ficava mais
ansioso. Estava menos preocupado com a possibilidade
de expor minha ignorância da poesia espanhola que com
o risco de revelar minha ignorância da língua espanhola
em si. Talvez conseguisse formular algumas frases gra-
maticalmente impecáveis de improviso, mas talvez não:
preferia simular afirmações espontâneas, embora obscuras,
que confiar na minha capacidade de formar frases normais
fluentemente e em tempo real.
No dia da mesa-redonda, saí de casa com quase duas
horas de antecedência. Andei até o prédio da fundação,
não muito longe do apartamento de Teresa, e caminhei
em torno da quadra, ensaiando as frases que havia deco-
rado, recomendando a mim mesmo que respirasse. Tinha
colocado três tranquilizantes no bolso das minhas calças
jeans. Enfiei a mão no bolso para confirmar a presença
deles, e o contato com o tecido me fez exclamar comigo
mesmo: por que, pelo amor de Deus, tinha vestido uma
calça jeans? E pior ainda: uma camiseta! Durante os dois
dias de trepidante espera, não tinha me preocupado com
a minha aparência. Sentia repulsa quando imaginava os
homens de terno, María José e a professora de tailleur;
Teresa estaria elegante como sempre. Perguntei a hora
ao homem da banca de jornal. Faltava pouco mais de
uma hora. Se eu fosse bem rápido, aliás se literalmente
corresse, provavelmente conseguiria. Estava dizendo a
mim mesmo que era uma péssima ideia chegar atrasado
e ensopado de suor, mas dizia isso enquanto corria para

207
casa, subia as escadas voando e procurava meu terno.
Inesperadamente, por sorte, deixara-o pendurado logo
depois de seu único uso e, embora não engomado com
perfeição, estava num estado aceitável. Troquei de roupa
o mais depressa possível, me olhei no espelho e desci as
escadas correndo. A uma quadra do prédio da fundação,
diminuí o passo, enxuguei o suor do rosto e tentei reco-
brar o fôlego.
Entrei no prédio e caminhei na direção do auditório;
para meu desespero, era consideravelmente maior do
que esperava, com uma capacidade para mais ou menos
duzentas pessoas, e estava cheio. Eu tinha imaginado uma
sala normal adaptada para virar uma sala de conferência.
Notei alguém montando uma câmera num tripé. Havia
um pequeno palco e, nele, uma mesa com duas cadeiras
e os marcadores de lugar, uma jarra de água em formato
de cisne, alguns copos e microfones individuais; o palco
estava bastante iluminado. Quatro dos seis participantes
já estavam sentados, inclusive Teresa, e conversavam entre
si. Hesitei perto da entrada, um pouco atordoado; María
José me viu, se aproximou e disse, talvez com uma inten-
ção sarcástica, que eu estava muito elegante, depois me
pediu para tomar assento. Ela me avisou, enquanto cami-
nhava comigo na direção do palco, que o outro bolsista
não poderia vir. Foi ela quem arquitetou tudo, eu disse a
mim mesmo, enfurecido; como eu era o único americano,
seria obrigado a falar, e os outros participantes e o público,
mesmo que fosse só por educação, me perguntariam qual
era o meu “ponto de vista”. Ocupei um lugar à mesa e
ganhei um sorriso de Teresa; ela parecia tão à vontade no
palco quanto na sala de casa, embora vestisse um tailleur
muito formal, que foi a confirmação de que trocar de roupa
fora a decisão certa. Tentei retribuir seu sorriso e vi que os

208
outros participantes tinham papel e caneta, presumivel-
mente para tomar notas, enquanto eu não tinha trazido
nada, um claro sinal de presunção.

Um filme que nunca tinha visto.

Após alguns instantes, María José subiu ao palco. O


público ficou calado enquanto ela se aproximava de um
microfone que ficava num pedestal e que eu não havia
notado. Agradeceu a todos por participarem da mesa-
-redonda daquela noite. Em seguida, começou a apresentar
os participantes, destacando, quando chegou minha vez,
o fato de que uma seleção bilíngue de meus poemas seria
lançada em breve. Então anunciou que iniciaria o debate
pedindo a cada participante para falar, por alguns minutos
e num tom informal, sobre o assunto “literatura agora”.
Javier Torres, que estava sentado na extremidade da mesa
próxima a María José, começaria, e então daríamos sequên-
cia conforme a ordem em que estávamos sentados; eu
seria o penúltimo.
De novo, fiquei furioso. Com certeza, María José tinha
pedido aos outros participantes que preparassem um
ou dois minutos de considerações, mas não tinha dito
nada desse tipo para mim. Mas, quando Javier Torres
começou a falar com sua voz de político, que combinava

209
perfeitamente com sua foto, uma voz que parecia vir não
de um corpo, mas de uma tela, minha raiva não era nada
em comparação à minha ansiedade; eu não tinha a menor
ideia do que iria dizer. Enfiei a mão no bolso à procura
dos tranquilizantes e percebi, sem dúvida empalidecendo,
que não os havia transferido da calça jeans para a calça do
terno. Fui tomado por uma sensação de terror tão intensa
que fiquei tonto; era como olhar para baixo no vazio das
escadas em caracol da Sagrada Família, de onde nunca
tinha olhado. Teresa, que era a próxima depois de Javier,
já estava falando, e logo seria a minha vez. A plateia era
invisível do palco por causa das luzes, mas eu conseguia
sentir sua presença, sua atenção; Teresa fez uma piada, e
eles riram, e aquela risada com muitas cabeças me soou
terrível. Agora Elena Lopez Portillo estava falando; sequei
o suor da minha sobrancelha. Se tivesse trazido papel e
caneta, consegui pensar, poderia ter juntado duas linhas
que tivessem um mínimo de coerência. Use as frases deco-
radas, disse a mim mesmo, mas não estava conseguindo
lembrá-las. Estava prestes a escapar, vomitar ou, ainda,
desmaiar.
Mas uma frase se materializou. Elena Lopez Portillo
tinha terminado de falar, e senti uma mudança de pressão
no meu rosto, o efeito dos olhares do público sobre mim.
Eu me ouvi falando, e a voz soava como se viesse do
fundo do auditório, de um ponto situado precisamente
no meio do público, “Ortega y Gasset escreveu ‘Falando e
pensando, tentamos esclarecer as coisas, e isso nos obriga
a exacerbá-las, deslocá-las, esquematizá-las. Todo conceito
é em si um exagero’”. Fiz uma pausa e sentia que o silên-
cio se tornava mais intenso enquanto a plateia tentava
processar aquela citação. Eu me senti suficientemente
encorajado pela minha fluência pré-fabricada e pelo fato

210
de não haver soado nervoso ou louco para acrescentar:
“Meu temor a respeito desse debate é que temos pressa
demais em definir um período, de falar sobre a literatura
agora. Todo período, como todo conceito, é em si um exa-
gero. Espero ouvir dos outros o que mudou depois de 11
de março que permite para nós de falar”, minha gramática
vacilou, mas conseguia ver o fim da frase, “de um novo
agora, um novo período, sem deslocamento”. Parei, para
que a minha brevidade parecesse o resultado da minha
concisão e coragem, a coragem de questionar o próprio
tema da mesa-redonda, quando, na verdade, só queria
poupar as outras citações. Um murmúrio de interesse se
espalhou pelo público; uma descarga de adrenalina atra-
vessou meu corpo. Olhei de relance para Teresa enquanto
Francesc Balda começava a falar e imaginei que seu sor-
riso talvez expressasse o orgulho que ela estava sentindo
de mim. Agora podia tentar escutar os outros oradores;
Francesc Balda começou destacando a importância de
minha afirmação; ele compartilhava de minha suspeita
salutar sobre as divisões excessivamente categóricas entre
pré-isso e pós-aquilo. Talvez o papel da literatura fosse
o de nos ajudar a manter um senso de perspectiva, uma
visão de conjunto, de ligar o nosso “agora” aos vários
“agoras” do passado, a fim de formar uma constelação
iluminante. Depois passou a descrever algo sobre a lite-
ratura catalã e sua relação com a violência política que eu
não consegui acompanhar.
Após nossas breves observações, María José nos agra-
deceu e disse que agora estávamos prontos para responder
às perguntas do público e que havia microfones à disposi-
ção nos corredores, caso fossem necessários. As luzes da
plateia aumentaram um pouco. As primeiras perguntas
foram dirigidas a oradores específicos, mas não a mim, e

211
eu me senti cada vez mais confiante de que não teria que
falar muito durante o resto da mesa-redonda. Alguém
perguntou a Teresa em que sua visão sobre a relação entre
política e arte diferia da de, digamos, Elena, já que ela,
nascida pouco antes da morte do ditador, nunca tinha
vivenciado diretamente a época franquista. Então, a certa
altura durante a resposta, Teresa disse algo sobre o fato
de que cada um de nós refletia seu particular momento
histórico. Num impulso de ousadia, eu me inclinei para
o microfone e acrescentei: “Concordo. Nenhum escritor
tem a liberdade de desistir do próprio papel político, mas
a literatura reflete a política mais do que a afeta, uma
distinção bastante importante”. De novo, ouviu-se um
murmúrio, não entendi se de aprovação ou reprovação,
mas certamente ninguém suspeitou de que eu fosse um
impostor monolíngue: o meu ponto de vista era respei-
tável e articulado.
Porém, interromper havia sido um erro. Agora Elena,
eminente professora, dirigindo-se a mim, perguntou:
“Então por que escrever?” Falou sem malícia, mas sem
dúvida eu era o destinatário da pergunta, a que agora
tinha que responder, e, sem a proteção das minhas frases
pré-fabricadas, minha fala pareceria fragmentária e con-
fusa. Qualquer resposta valia, fosse críptica ou engraçada,
mas eu me encontrava incapaz de localizar mentalmente
meu espanhol; o tempo passava, e eu havia aberto a boca,
mas não conseguia formular uma frase. Finalmente disse:
“Não sei.” Por sorte, Javier levou minha resposta a sério,
contribuindo com uma frase clichê sobre a arte que escolhe
o artista tanto quanto o artista escolhe a arte. Prometi a
mim mesmo que nunca mais repetiria o erro de falar sem
ser interpelado. O debate continuou, e houve uma longa
intervenção de Francesc sobre um escritor catalão de quem

212
nunca tinha ouvido falar, além de uma escaramuça com
Javier a respeito da cobertura do El País sobre sei lá que
fato político. Várias perguntas foram dirigidas a Teresa
sobre sua participação nas manifestações e sobre a lite-
ratura como forma de protesto, e assim por diante, mas
eu tive problemas em entender suas respostas. À medida
que meu medo foi diminuindo, eu me senti invadido por
uma sensação de esgotamento profundo, um esgotamento
que, assim como o medo, tornava-me impossível a con-
centração. Estava ainda me recuperando de um ataque de
cansaço agudo quando dei-me conta de que uma pergunta
tinha acabado de ser dirigida a mim.
“Pode repetir a pergunta, por gentileza?”, pedi.
“Quais são os poetas espanhóis que tiveram maior
influência sobre sua escrita e qual seu pensamento a res-
peito da relação entre poesia e eventos políticos?”, isso
era mais ou menos o que eu achava que o homem tinha
perguntado.
Para evitar outra pausa silenciosa que culminasse em
mais um “não sei”, soltei uma frasezinha que tinha muito
pouco, ou talvez nada, a ver com a pergunta dele: “Reluto
em falar da situação espanhola como se fosse um expert”,
disse. “Seria como alimentar todos os estereótipos sobre
a presunção dos americanos.” Por que seria presunçoso
nomear os poetas espanhóis que eu admirava, isso só
Deus sabia.
“Mas quais são os poetas que mais o influenciaram
pessoalmente?”, repetiu o homem. A pergunta, que talvez
tenha sido dirigida a mim por pena, pois ninguém mais
me fizera outras, não poderia ter sido mais fácil. Apenas
uma lista de alguns nomes. “Lorca”, menti. “Miguel
Hernández.” E depois, para meu horror e choque, não
me veio à mente nenhum outro poeta; era como se todos

213
os nomes próprios espanhóis tivessem sido retirados de
minha cabeça. Não me vinham à mente nem sequer nomes
comuns para que eu pudesse fazê-los passar por auto-
res pouco conhecidos. Nem precisava comentá-los ou
explicar como a versificação de um poeta ou seu senso
social haviam influenciado meu estilo poético ou rela-
cionar esses poetas com meus comentários anteriores,
nada disso, apenas uma simples e escrota lista de nomes.
Finalmente me vieram à mente dois poetas famosos sobre
os quais não sabia quase nada – Juan Ramón Jiménez
e Antonio Machado –, mas esses nomes colidiram e se
recompuseram na minha cabeça, e eu me ouvi dizendo:
“Ramón Machado Jiménez”, que soava tanto absurdo
quanto dizer “Whitman Dickinson Walt”, e algumas pes-
soas deram umas risadinhas sufocadas. Eu me corrigi, mas
saiu novamente errado – “Antonio Ramón Jiménez” – e
agora também aqueles que haviam ficado perplexos perce-
beram meu erro imperdoável, tão extremo que, a princípio,
poderia passar por um gesto irônico deliberado; muitos
caíram na gargalhada. O prestigioso bolsista americano
não é nem capaz de nomear quatro nomes da lista dos
poetas espanhóis mais famosos do século XX. “Jiménez
e Machado”, disse, enfim, conseguindo pelo menos sepa-
rar os dois poetas, mas agora já era tarde demais; tinha
desonrado a mim mesmo e à fundação e havia estragado
minha relação com Teresa. María José anunciou que só
havia espaço para mais uma pergunta por causa da hora,
mas certamente ela queria dizer por causa da vergonha,
a grande vergonha da fundação por ter patrocinado um
americano impostor, embora pessoalmente ela estivesse,
sem dúvida, muito satisfeita com a situação.
Depois que foi confirmado que a última pergunta não
era para mim, parei de escutar e apenas contei os segundos

214
até que María José nos agradeceu, pediu para o público
aplaudir, anunciou a mesa-redonda seguinte e pediu para
o público aplaudir mais uma vez. Em seguida, as luzes
se acenderam e, aos poucos, o público começou a sair.
Antes que eu conseguisse fugir, Teresa se aproximou de
mim, sorrindo, como se nada tivesse acontecido, e me
assegurou que eu tinha me saído bem; então começou
a conversar com os outros participantes. Fiquei sentado
e disse a mim mesmo: você estará fora disso tudo daqui
a seis semanas. Você nunca mais encontrará essas pes-
soas. María José não poderá anular sua bolsa só porque
você errou aqueles nomes. Nada disso é importante. Nem
Teresa, nem a mesa-redonda, nem a Espanha, tampouco
a literatura espanhola ou a literatura em geral. Agora,
María José estava agradecendo aos participantes um a
um. Chegou a mim e disse que minha contribuição tinha
sido brilhante. Exibi um sorriso forçado e sem alegria que
transmitia infinito desprezo, e agradeci. Mentalmente,
estava dizendo: você não ama Teresa, e ela não te ama.
Nada disso é real. Você não gosta de Madri, com todos
esses turistas, a poeira, o calor, as incontáveis Pietás e a
péssima comida. Fascistas de merda. Está na hora de você
parar de fumar, de começar a levar uma vida respeitável,
voltar para sua família e seus amigos. Você superou essa
fase da poesia. Você vai se tornar um acadêmico sério ou
um advogado. Acabou com Teresa, o haxixe, o álcool, as
mentiras, os versos e as interseções de todos esses ele-
mentos. Eu nunca estive aqui, disse a mim mesmo. Vocês
nunca me viram.

Na última fase do meu projeto, os vaga-lumes estavam


desaparecendo. Os morcegos esvoaçavam pra lá e pra cá

215
em pleno dia, desorientados, debatendo-se no ar, caindo a
pique em pequenos grupos. As abelhas estavam sumindo,
talvez pelas radiações dos celulares, talvez pelo perfume,
talvez pelos bombons. Foi o dia mais mortífero desde o
começo da invasão. Drones não tripulados zumbiam dolo-
rosamente no céu. Era o ano de 1933. As cidades estavam
poluídas de luz, o mundo estava aquecendo, os mares
subiam. Os mares se fechavam sobre os leitores futuros.
Árvores confusas floresciam cedo demais; dava para ver
online fotos do espaço. Era o ano de 1066, de 312. Por que
não deixar que as crianças tocassem os quadros? Atrás dos
arames farpados, viam-se prisioneiros em macacões laranja
encapuzados. Estava diante da Deposição, óleo sobre painel
de carvalho, haxixe e cafeína; não tinha voltado para lá
havia um tempão, e o azul era sensacional. 1936, 1492, 800,
1776. Enquanto isso, a máquina branca da vida. O grande
artista e o guarda do museu. Não ter nada para dizer e
dizê-lo ao celular. ¿Por qué nascí entre espejos? Perguntei-me
se a guarda do Reina Sofía já havia usado o colar. Antes
do lançamento, tinha que matar o tempo por duas horas.
Bajo el agua / siguen las palavras. Deixei o museu e comecei
a caminhar na direção do parque.
O dia estava lindo, fresco para a estação, e o parque
estava lotado; havia shows de marionetes e retratistas
perto do Estanque. Os traficantes de haxixe estavam de
volta, ou os reforços haviam chegado e vagavam pelo
parque. Achei um banco e abri o livrinho. Esteticamente
lindo, com uma qualidade anacrônica, apropriada a um
veículo de comunicação defunto. Impresso com tipografia
móvel sobre papel italiano, costurado à mão. Arturo tinha
mandado imprimir mil exemplares. O nome de Teresa apa-
recia apenas na folha de rosto, a pedido dela. Arturo tinha
convidado todo mundo para o lançamento e a recepção.

216
Eu tinha até aceitado encaminhar o convite para todos
os meus contatos de e-mail, embora na Espanha conhe-
cesse só quatro ou cinco pessoas. Vestia meu terno. Tinha
recebido um e-mail que María José enviara a todos os
bolsistas para informá-los do evento. Venham comemorar
um resultado maravilhoso etc. Por alguma razão, eu não
estava nervoso. Talvez Elena Lopez Portillo comparecesse
e acabasse escrevendo um ensaio sobre meu trabalho.
Talvez Isabel levasse Oscar, que eu confundia com Carlos.
Teresa disse que o editor dela estava considerando a possi-
bilidade de me propor a publicação de um livro. Debaixo
da água / as palavras continuam. Seria bom ter beijado
Rufina. Durante meu projeto, tinha emagrecido considera-
velmente. Fora isso, não achava que tinha mudado muito.
Alterar a data de uma passagem internacional custava
cem euros, menos que um jantar no Zalacaín. O guarda
do museu, o funcionário no banheiro, o sistema econô-
mico. Caminhei até a colunata e escutei os tambores. O
sol começava a se pôr, e a luz estava mais suave, mas
ficaria claro até quase as dez horas. Sentei para fumar e,
por alguma razão, pensei: Teresa deveria ler os originais;
eu, as traduções. Quando lia, meu sotaque era bom, muito
melhor, não sabia o motivo, do que quando falava. Sentei
debaixo da colunata e li em voz alta um ou dois poemas
em espanhol: não detectei nenhum sotaque americano.
No final, comecei a caminhar em direção à galeria e
fiquei contente ao ver que estava lotada. Estava nervoso só
pelo fato de não estar nervoso, o que poderia querer dizer
que algo estava errado comigo. Várias pessoas me cum-
primentaram. María José foi surpreendentemente calorosa
e nos beijamos sem ironia. Uma das garotas da piscina
com quem tinha fumado o baseado acertou o cantinho da
minha boca. Encontrei Teresa, que estava lindíssima, e nos

217
beijamos na boca. Usava um vestido que provavelmente
era de cetim, cor de prata, muito simples, mas dava para
ver que era caro. Não conhecíamos muitas pessoas que
precisavam trabalhar para ganhar a vida. Expliquei-lhe
minha ideia, que podíamos trocar os textos, e, embora
houvesse um ar de tristeza em seu sorriso, ela aceitou.
Havia um bar e, para minha surpresa, um barman.
Pedi vinho branco. Enquanto ele servia o vinho, Jorge se
aproximou, ele devia estar entre meus contatos de e-mail.
Abraçamo-nos calorosamente. Ele disse algo sobre quanto
tinha melhorado meu espanhol, sobre as pessoas elegantes
com quem eu convivia e que no futuro ele se gabaria de
ter dado aulas de espanhol e vendido droga ao famoso
poeta. Perguntei se ele conseguia nomear um famoso poeta
vivo. Não conseguiu.
“Isabel já voltou para Madri?”, perguntei.
“Como assim?”, indagou ele.
“Ela já voltou de Barcelona?”, acrescentei.
“E quando foi que ela viajou para Barcelona?”, per-
guntou, confuso.
“Ela voltou a trabalhar na escola de línguas?”, indaguei.
“Ela nunca deixou de trabalhar na escola de línguas”,
disse ele.
“Ah tá”, falei. Fiquei à espera de alguma reação emo-
cional a essa notícia, de me sentir contente ou chateado ou,
pelo menos, suspeitoso. Será que ela inventara a história
de Oscar? Talvez ela tivesse mudado de ideia? Será que
ele tinha voltado antes do tempo previsto? Esperei, mas
só senti um pouco de curiosidade; fora isso, estava indi-
ferente. Perguntei-me se ela estaria na plateia. De novo,
perguntei-me se estava tudo bem comigo.
Havia uma mesa com pilhas do livrinho à venda. Era
estranho ver tantos exemplares com meu nome. Custava

218
dez euros, achei caro. Arturo se aproximou de mim, me
abraçou e eu lhe agradeci por tudo. Pode retribuir, disse
ele, varrendo o chão da galeria nos próximos meses.
Avisou que estávamos prestes a começar, que era para
eu me sentar na primeira fileira com Teresa, e assim eu
fiz. As pessoas pararam de conversar, e aqueles que não
conseguiram um assento se acomodaram no chão ou fica-
ram em pé no fundo. Agora eu estava um pouco nervoso,
mas não de uma forma desagradável. Pensei nos tranqui-
lizantes que trazia no bolso do casaco só porque estava
surpreso por não precisar deles. Arturo apareceu no palco
e começou a falar. As flores noturnas se recusaram a desa-
brochar perto das luzes do estádio. A liberdade estava
em marcha. O barulho dos aviões tinha efeitos estranhos
nos fringilídeos. Algumas espécies sincronizavam seus
voos, às vezes entre milhares de insetos, exacerbando as
contradições. Por que nasci entre espelhos?
Teresa leria os originais, e eu, as traduções. Dessa forma,
as traduções virariam os originais enquanto líamos. Depois
pensei que adoraria viver para sempre num quarto ilu-
minado por uma claraboia, cercado dos meus amigos.

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CRÉDITOS

Página 11: Detalhe de A Deposição da Cruz, de Rogier van der


Weyden (aprox. 1435). ©Madrid, Museo Nacional del Prado.

Página 64: Foto do bombardeio de Guernica, 1937 (Deutsches


Bundesarchiv).

Página 109: Tradução de “Clepsydra”, de Rivers and Mountains,


de John Ashbery.

Página 124: The Alhambra, de Esther Singleton. Foto original


extraída de Turrets, Towers, and Temples: The Great Buildings of
the World, as Seen and Described by Famous Writers, de Esther
Singleton (New York: Dodd, Mead and Company, 1898).
Reprodução de Liam Quin (http://www.fromoldbooks.org).

Página 170: Francisco Franco, 1958, sob licença de Ramón Masats,


copyright ©Ramón Masats, 1958.

Página 209: Detalhe da foto de uma cena de Profissão: repórter


(1975).
Este livro foi composto pela Rádio Londres em Palatino e
impresso pela Cromosete Gráfica e Editora Ltda em ofsete
sobre papel Pólen Soft 80g/m2.