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CRIME E

SOCIEDADE
AUTORES: THIAGO BOTTINO, ANDRÉ PACHECO TEIXEIRA MENDES e FERNANDA PRATES FRAGA
COLABORADORES EM VERSÕES ANTERIORES DESSE MATERIAL:
PAULO RICARDO FIGUEIRA MENDES, PALOMA CANECA, ARTHUR LARDOSA, DAVID SCHECHTMAN

GRADUAÇÃO
2019.1
Sumário
Crime e Sociedade

Apresentação do Curso.......................................................................................................................................3

BLOCO I — INTRODUÇÃO À CRIMINOLOGIA. CONCEITO. FUNÇÕES. CRÍTICAS.........................................................................13

AULA 1: ESCOLAS CRIMINOLÓGICAS: CRIMINOLOGIA CLÁSSICA. CRIMINOLOGIA POSITIVISTA....................................................13

AULA 2: ESCOLAS CRIMINOLÓGICAS: CRIMINOLOGIA FUNCIONALISTA....................................................................................16

AULA 3: ESCOLAS CRIMINOLÓGICAS: CRIMINOLOGIA CRÍTICA...........................................................................................17

AULA 4: ESCOLAS CRIMINOLÓGICAS: NOVOS MOVIMENTOS CRIMINOLOGICOS.......................................................................19

BLOCO II — INTRODUÇÃO AO DIREITO PENAL E TEORIA DA NORMA PENAL..........................................................................20

AULA 5: INTRODUÇÃO AO DIREITO PENAL. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE................................................................................20

AULA 6: PRINCÍPIOS DO DIREITO PENAL II..................................................................................................................29

AULA 7: PRINCÍPIOS DO DIREITO PENAL III..................................................................................................................34

AULA 8: PRINCÍPIOS DO DIREITO PENAL IV. APLICAÇÃO DA LEI PENAL NO TEMPO..................................................................39

BLOCO III — TEORIA DO CRIME...............................................................................................................................45

AULA 09: TEORIA DO CRIME....................................................................................................................................45

AULA 10: FATO TÍPICO I. TEORIA DA CONDUTA. AÇÃO E OMISSÃO PENALMENTE RELEVANTE......................................................49

AULA 11: FATO TÍPICO II........................................................................................................................................56

AULAS 12, 13 e 14: ANTIJURIDICIDADE.......................................................................................................................63

AULAS 15, 16 e 17: CULPABILIDADE..........................................................................................................................74

AULA 18: TENTATIVA E CONSUMAÇÃO........................................................................................................................79

AULA 19: CONCURSO DE PESSOAS.............................................................................................................................80

BLOCO IV — INTRODUÇÃO AO DIREITO PROCESSUAL PENAL............................................................................................82

AULA 20: PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA......................................................................................................82

AULA 21: PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO DE AUTOINCRIMINAÇÃO..............................................................................................85

AULA 22: PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO DE PROVAS ILÍCITAS..................................................................................................89

AULA 23: ANÁLISE ECONÔMICA DO CRIME...................................................................................................................97


CRIME E SOCIEDADE

I. APRESENTAÇÃO DO CURSO

A disciplina Crime e Sociedade constitui o primeiro contato que o estu-


dante terá com os temas de Criminologia, Direito Penal e Direito Processual
Penal no curso da FGV Direito Rio. O ciclo de estudos de Direito Criminal
compreende também a disciplina obrigatória de Penas e Medidas Alternati-
vas, além de diversas disciplinas eletivas que aprofundam temas de cada uma
daquelas três áreas

Nesta parte obrigatória do ciclo (disciplinas do primeiro ano) serão abor-


dados os conceitos fundamentais do direito penal (teoria do crime e teoria
da pena), noções de processo penal e criminologia. Ainda serão abordadas as
questões referentes à adequação do sistema penal ao Estado Democrático de
Direito. Na parte eletiva do curso, são oferecidas disciplinas como “Processo
Penal 1” e “Processo Penal 2”, “Criminologia e Execução Penal”; “Crime:
Sexo, Drogas e Armas”, “Crimes contra a Administração Pública”, “Direito
Penal Econômico”, “Tópicos Especiais de Direito Penal”.

Também há possibilidade de aprofundamento dos estudos na área penal


por meio de field projects e clínicas nessa área do direito, oferecidos ao longo
da formação acadêmica.

II. INTRODUÇÃO

O objetivo da disciplina Crime e Sociedade é refletir sobre as funções de


criminalizar condutas, processar os indivíduos e impor penas. Essa atividade
é exclusiva do Estado e, para ser legítima, deve observar limites. A fim de
identificar os critérios e requisitos de legitimidade da punição de condutas
são propostas as seguintes questões:

• A justiça é um conceito moral ou jurídico?


• Quem deve ser encarregado da execução da justiça, o Estado ou
o indivíduo?
• Quais as regras que devem ser observadas quando se constrói um
sistema penal?
• O que é direito penal? Qual sua função? Quando ele poderá ser
aplicado?

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• Do ponto de vista jurídico, o que é crime? Quais elementos com-


põem o conceito de crime? Como um crime é praticado?
• Quem comete um crime? De que forma alguém pode ser responsa-
bilizado por um fato criminoso?

Essas perguntas norteiam o curso Crime e Sociedade e é a partir delas, e de


muitas outras que o aluno possa formular, que se seguem questionamentos
centrais para se entender o sistema de justiça penal em um determinado país:

“POR QUÊ” • CRIMINALIZAR COMPORTAMENTOS


“COMO” • PROCESSAR PESSOAS
“QUANDO” • PUNIR INDIVÍDUOS

Ao buscar respostas para tais questões, os alunos refletem sobre os prin-


cípios fundamentais que orientam o Direito Penal e Processual Penal. Essa
reflexão será estimulada a partir da comparação entre o arranjo teórico cons-
titucional e o funcionamento efetivo do sistema. Nesse ponto, destaca-se a
utilização de casos paradigmáticos como forma de análise do sistema ideal e
do sistema efetivo.

No âmbito do Direito Penal, são estudados temas como segurança jurí-


dica, coerência legislativa e amplitude dos poderes do juiz na aplicação da
lei penal, além da teoria que define o crime e impõe uma pena à quem o
pratica. Na seara do Direito Processual Penal, destacam-se os temas como
construção da verdade, conflito entre garantias fundamentais e devido pro-
cesso legal. Por fim, serão estudados também alguns conceitos de política
criminal – especialmente a relação existente entre o sistema penal, a demo-
cracia e o Estado de Direito. A finalidade é questionar se existe um modelo
de sistema punitivo que se coadune com os postulados básicos do Estado
Democrático de Direito, criando um “modelo ideal” de sistema punitivo:
quanto mais próximo desse modelo ideal estiverem as leis e as práticas po-
liciais e judiciais, maior o grau de democracia e segurança jurídica de um
determinado sistema punitivo.

Transversalmente às discussões acima, surgem temas como a  filtragem


constitucional no Direito Penal e Processual Penal; o recurso aos postulados
da ponderação, proporcionalidade e razoabilidade na construção de decisões
em matéria penal; e, a utilização de argumentos de “emergência” e “exceção”
como fundamento de sentenças criminais. Todos esses temas conectam o
Direito Penal com o Direito Constitucional, a Teoria do Direito e a Teoria
da Democracia, reforçando uma abordagem interdisciplinar da matéria.

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Mas em que contexto se insere o direito penal e a prisão como pena?

Embora antropologicamente a pena remonte à história antiga, a origem


histórica do direito penal como conhecemos hoje é contemporânea das revo-
luções liberais (americana e francesa) do século XVIII. Associado à contenção
do poder punitivo do Estado na superação do absolutismo, o liberalismo
marca o princípio da ideia de Estado de Direito, “um governo de leis e não
de homens”. Já a forma de punição por excelência, a prisão, se consolida no
século XIX, com a revolução industrial, que passa a conceber a pena como
tempo cumprido em isolamento num estabelecimento voltado ao trabalho.

No Brasil pós-independência, as ideias liberais já regiam o Código Crimi-


nal de 1830, mas a consolidação desse processo só se deu no fim do século
XIX, com o fim da escravidão e com o Código Penal de 1890, já na Repú-
blica. O Código Penal em vigor é de 1940 (que entrou em vigor juntamente
com o Código de Processo Penal e a Lei de Contravenções Penais, todas
legislações decretadas durante a ditadura do Estado Novo, sem terem sido
jamais votadas pelo Congresso Nacional).

O Código Penal sofreu uma reforma completa na parte geral (estabelece


regras e princípios para aplicação do Direito Penal) em 1984, além de muitas
outras alterações pontuais ao longo dos anos. A parte especial (que os prevê
os crimes e comina as penas) também sofreu alterações ao longo dos anos,
sendo complementada, sobretudo, por leis penais esparsas, fora do Código
Penal, especialmente quando tratam de “subsistemas” específicos, como dro-
gas, trânsito, crimes econômicos, dentre outros.

III. DELIMITAÇÃO DO CONTEÚDO DA DISCIPLINA

O curso de Crime e Sociedade é dividido em quatro blocos: (1) Crimino-


logia; (2) Introdução ao Direito Penal e Teoria da Norma Penal; (3) Teoria
do Crime; e, (4) Introdução ao Direito Processual Penal.

No Código Penal, a matéria objeto deste curso abrange o art.1° ao art.31.

No primeiro bloco, o curso se inicia com uma breve introdução sobre o


pensamento criminológico, abordando seu conceito, objeto e metodologia,
bem como as principais escolas criminológicas e os dois grandes paradigmas
presentes nesta disciplina. Além disso, neste bloco serão analisados os movi-
mentos modernos de política criminal.

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O segundo bloco trata do direito penal e serão abordados seu con-


ceito, função e perspectiva crítica. O objetivo é permitir que o aluno
reflita sobre questões como: para que serve o direito penal? Quem atua na
sua criação e aplicação? O direito penal realmente atua segundo os seus
fundamentos? Para alcançar esse objetivo, as aulas terão ênfase nos prin-
cípios do direito penal. Depois, serão estudadas as regras para aplicação
da lei penal ao fato criminoso no tempo e no espaço.

No terceiro bloco, as aulas seguintes, que compõem a maior parte


do curso, serão voltadas ao estudo da Teoria do Crime. O que é crime?
Partindo do denominado conceito analítico de crime e da análise de cada
uma das partes componentes desse conceito, espera-se que o aluno desen-
volva a habilidade de identificar, na realidade, a ocorrência do fato crimi-
noso. Essa etapa é fundamental para a compreensão da dogmática penal.

Um maior número de aulas abordará os elementos da teoria do delito,


ou seja, as partes que compõem o conceito de crime (ação, tipicidade,
antijuridicidade e culpabilidade).

Posteriormente, analisaremos de que forma o crime é realizado. Trata-


-se de discutir o caminho do crime. Quando ele se inicia? Em que mo-
mento ele é punível? A discussão se dará em torno do estudo das catego-
rias da tentativa e da consumação.

Esse bloco se encerra com a investigação sobre quem pode ser respon-
sabilizado pela prática de um crime. Quem pratica o crime? Assim, to-
maremos como objeto de estudo as categorias da autoria e participação.

Por fim, o quarto bloco do curso se dedica a compreender as regras


básicas da investigação e produção de provas, criando as estruturas do de-
vido processo legal, sem o qual qualquer imposição de penas torna-se não
apenas ilegal, como ilegítima.

O plano de ensino prevê o conteúdo distribuído na forma do crono-


grama abaixo:

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Aula Data Conteúdo / Atividade


0 12/fev SEMANA DE AMBIENTAÇÃO
0 14/fev SEMANA DE AMBIENTAÇÃO
Apresentação do Curso: objetivos, metodologia, avaliação e bibliografia.

1 19/fev BLOCO I
Introdução à Criminologia. Conceito. Função. Críticas. Escolas
Criminológicas. Criminologia Clássica. Criminologia Positivista.
2 21/fev Escolas Criminológicas. Criminologia Funcionalista.
Escolas Criminológicas. Criminologia do Etiquetamento. Criminologia
3 26/fev
Crítica.
4 28/fev Escolas Criminológicas. Novos Movimentos de Política Criminal.
BLOCO II
Princípios do Direito Penal I. Introdução ao direito penal. Princípio da
5 12/mar
legalidade.
• HC 70.389 STF
Princípios do Direito Penal II. Princípio da exclusiva proteção de bens
jurídicos. Princípio da intervenção mínima. Princípio da subsidiariedade do
6 14/mar direito penal. Princípio da fragmentariedade. Princípio da culpabilidade.
Princípio da responsabilidade pessoal. Princípio da insignificância
• HC 84.412, STF
Princípios do Direito Penal III. Princípio da lesividade. Princípio da
7 19/mar adequação social. Princípio da proporcionalidade.
• HC 124.306, STF
Princípios do Direito Penal IV. Aplicação da Lei Penal no Tempo.
8 21/mar Princípio da extra atividade da lei penal. Ultra atividade. Retroatividade.
• RHC 81.453, STF
BLOCO III
Teoria do Crime. Conceito Analítico de Crime I. Classificação dos
Crimes: crime de dano/lesão e de perigo (abstrato/presumido e concreto);
crime material, formal e de mera conduta; crime comum, próprio e de mão
9 26/mar
própria; crime de dano e de perigo (abstrato e concreto); crime material,
formal e de mera conduta; crime comum, próprio e de mão própria.
• RHC 81.057, STF
• RHC 90.197, STF
Fato Típico I. Teoria da conduta. Ação e omissão penalmente relevante.
10 28/mar
Causas de exclusão da ação. Relação de Causalidade.
Fato Típico I. Teoria da conduta. Ação e omissão penalmente relevante.
11 02/abr
Causas de exclusão da ação. Relação de Causalidade.

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12 04/abr Fato Típico II. Tipo Subjetivo. Dolo e Culpa.


13 09/abr 1ª PROVA
14 25/abr Antijuridicidade I. Legítima defesa.
15 30/abr Antijuridicidade II. Estado de necessidade
Antijuridicidade III. Estrito cumprimento do dever legal, Exercício
16 02/mai
regular de direito. Consentimento do ofendido.
Culpabilidade I. Introdução. Conceito. Elementos. Imputabilidade.
17 07/mai Maioridade e Sanidade. Inimputabilidade. Emoção e paixão. Embriaguez
voluntária e involuntária.
Culpabilidade II. Potencial Conhecimento da Ilicitude. Teoria do Erro.
18 09/mai
Erro de Proibição. Erro de Tipo. Descriminantes Putativas.
Culpabilidade III. Exigibilidade de Conduta Diversa. Causas legais de
exclusão: coação moral irresistível e obediência a ordem não manifestamente
19 14/mai
ilegal de superior hierárquico. Exigibilidade de Conduta Diversa. Causas
supralegais de exclusão.
Tentativa e consumação. Iter criminis: etapas de realização do delito.
Desistência voluntária. Arrependimento eficaz. Arrependimento posterior.
20 16/mai
Crime impossível.
• HC 84.653, STF
21 21/mai Concurso de pessoas. Autoria e participação.
22 23/mai Concurso de pessoas. Autoria e participação.
BLOCO IV
Princípios do Direito Processual Penal I. Introdução ao processo penal.
23 28/mai
Princípio da Presunção de inocência.
• ADC 43 e HC 126.292, ambos do STF
Princípios do Direito Processual Penal II. Princípio da vedação de
24 30/mai autoincriminação.
• ADPF 395, STF
Princípios do Direito Processual Penal III. Princípio da vedação de
25 04/jun provas ilícitas.
Reclamação 23.457, STF
Princípios do Direito Processual Penal IV. Análise Econômica do Crime
26 06/jun
e Colaboração Premiada
27 11/jun AULA EXTRA – REPOSIÇÃO – AULA REVISÃO
28 13/jun 2ª PROVA
29 26/jun 2ª CHAMADA
30 03/jul PROVA FINAL

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IV. METODOLOGIA

Cada aula consistirá numa exposição do tema em diálogo com os alu-


nos (que deverão ler previamente a bibliografia indicada no material di-
dático) e de uma discussão acerca de um caso concreto (principalmente
decisões judiciais). Espera-se poder instigar a participação e promover a
capacidade do aluno de criar soluções jurídicas para os problemas apre-
sentados, ao mesmo tempo em que é revelado o contexto social em que é
aplicável o conteúdo estudado.

Essa metodologia aposta na capacidade do aluno de graduação da


FGV Direito Rio de aplicar a compreensão teórica à prática do direito e
estimular sua participação no processo de aprendizagem. Fornecendo as
diretrizes da matéria, visa também fomentar a continuidade da aprendi-
zagem para além da sala de aula por meio de atividades que impliquem
habilidades essenciais ao futuro profissional do direito como: pesquisar,
argumentar, analisar, criticar, formular problemas e apresentar soluções.

O uso de casos concretos que possuem ligação com situações cotidia-


nas traz a realidade da aplicação do direito para dentro da sala de aula e
estimula a participação do aluno no processo de aprendizado, criando-se
um ambiente de interatividade entre aluno e professor e aprimorando sua
capacidade de raciocínio lógico-jurídico. O objetivo dessa metodologia é
habilitar o aluno a identificar problemas e resolvê-los de forma pragmá-
tica, sem deixar de se posicionar criticamente. A fim de orientar o aluno
no estudo do caso concreto, cada caso estudado deverá ser examinado e
organizado segundo os critérios definidos na tabela abaixo:

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Ficha de Análise

Qual o tribunal que prolatou a decisão e qual o órgão


desse tribunal;
1. Identificação Qual o julgador relator; qual o resultado da votação (vo-
do caso tos vencidos, votos concorrentes, votos majoritários);
Qual a data do julgamento e qual a data de publicação
dessa decisão.
Se houve decisões judiciais anteriores e o que decidiram;
2. Relato Por quais tribunais o caso passou antes de sua chegada
da situação
processual ao Supremo Tribunal Federal;
Quais as decisões das cortes que examinaram o caso
3. Classificação Quais as normas jurídicas (dispositivos da Constitui-
das normas ção, dos Códigos, princípios etc) em discussão.
4. Questões Identificar a questão jurídica que está em discussão (ou
jurídicas em se for mais de uma, fazer isso com todas);
discussão e
pretensão Identificar qual a solução que cada parte pleiteia no
das partes caso concreto.
5. Decisão
do tribunal e Expor a decisão e seus fundamentos.
sua motivação

V. BIBLIOGRAFIA

A bibliografia básica é dada aula por aula. Recomendam-se os seguintes


livros básicos, ambos disponíveis na biblioteca da FGV:

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral. Vol.


1. 19ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2013.

PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro. Vol. 1 — Parte Geral.
12ª Ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: RT, 2013.

Outras obras relevantes, que podem substituir os anteriores são:

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 15ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2013.

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NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de direito penal: parte geral e parte


especial. 9ª Ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tri-
bunais, 2013.

Os demais livros indicados constituem bibliografia avançada e são desti-


nados àqueles que pretendem aprofundar o estudo da disciplina:

AMARAL, Thiago Bottino Do: Notas para um sistema punitivo democrático.


Revista Forense, Rio de Janeiro, v. 385, p. 185-201, 2006.

ROXIN, Claus. Derecho penal: parte general. Tomo I. Fundamentos. La es-


tructura de la teoria del delito. 2ª Ed. Trad.: Diego-Manuel Luzon Peña
et. al. Madrid: Editorial Civitas, 1997;

ROXIN, Claus; ARZT, Gunther; TIEDEMANN, Klaus: Introdução ao Di-


reito Penal e Processual Penal. Belo Horizonte: Del Rey, 2007.

ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Derecho Penal: Parte General. Buenos Aires:


Ediar, 2002.

O material didático não substitui a bibliografia, servindo apenas como


mais um recurso pedagógico no processo de ensino e aprendizagem para o
acompanhamento das aulas e formação do aluno.

VI. AVALIAÇÃO

A avaliação será realizada a partir de duas notas (N1 e N2).

A N1 será composta por duas atividades. A primeira atividade, com


valor de 2,5 pontos, consiste na participação em sala de aula e elaboração de
fichamentos, entregues antes do início da respectiva aula.

Essa avaliação pretende estimular que o aluno esteja preparado para parti-
cipar de todas as aulas e que contribua para o desenvolvimento das atividades.
Participações inoportunas ou deficientes não serão pontuadas positivamente.

Alunos podem ser escolhidos aleatoriamente – ou se apresentar de forma


voluntária – para relatarem oralmente o caso da aula. No caso da apresenta-
ção oral do caso, o aluno deverá apontar as principais questões decorrentes
do caso concreto ou do texto relacionado com os temas jurídicos tratados.

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Os casos concretos são julgamentos ocorridos no Supremo Tribunal Federal


ou de outros tribunais. As discussões geradas a partir das situações concretas
retiradas dos cases são enriquecidas com os fundamentos doutrinários forne-
cidos pelos textos de apoio e pela exposição do professor.

A segunda atividade, com valor de 7,5 pontos é a 1ª prova.

A N2 será composta por duas atividades. A primeira atividade, com


valor de 2,5 pontos, consiste na participação em sala de aula e elaboração
de fichamentos, entregues antes do início da respectiva aula. A segunda
atividade, com valor de 7,5 pontos é a 2ª prova.

A prova de 2ª chamada substituirá apenas a 1ª ou 2ª provas, não


abrangendo os pontos de participação e compreenderá todo o programa
da disciplina.

A prova final consistirá em uma prova oral sobre todo o conteúdo da


disciplina.

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BLOCO I — INTRODUÇÃO À CRIMINOLOGIA. CONCEITO. FUNÇÕES.


CRÍTICAS.

AULA 1: ESCOLAS CRIMINOLÓGICAS: CRIMINOLOGIA CLÁSSICA.


CRIMINOLOGIA POSITIVISTA

LEITURA OBRIGATÓRIA

BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal. 3ª


ed. Coleção Pensamento Criminológico do Instituto Carioca de Crimi-
nologia. Rio de Janeiro: Revan, 2002, pgs 29-38.

Conceito, objeto e método da Criminologia.

Etimologicamente falando, criminologia vem do latim crimino (crime) e


do grego logos (estudo, tratado), significando o “estudo do crime”. Pode-se
conceituar criminologia como a ciência empírica e interdisciplinar.

É compreendida como ciência por ter um método próprio, um objeto e


uma função determinada , reunindo informação válida e confiável sobre o
fenômeno criminal, baseada em método empírico

É dita ciência empírica por se basear na observação e na experiência;  trata-


-se de uma ciência do “ser”, na medida em que seu objeto é observável no
mundo real e não no mundo dos valores, como ocorre com o Direito, aqui
entendido como ciência do “dever-ser”, portanto normativo e valorativo.

Trata-se ainda de uma ciência interdisciplinar, característica que decorre


de sua própria consolidação histórica como ciência dotada de autonomia em
relação a outras disciplinas tais como sociologia, psicologia, direito e medici-
na legal. O saber criminológico é o resultado de todas essas disciplinas e não
apenas parte de uma delas.

Tem como objeto o delito, o “delinquente”, a vítima e o controle social.

Delito: para o Direito penal o crime é uma conduta contra norma para a
qual existe uma punição. Crime é conduta típica, antijurídica e culpável. No
âmbito da Criminologia o crime é entendido como um fenômeno social.

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“Delinquente”: a Criminologia analisa a conduta antissocial, suas causas,


bem como o tratamento dado ao delinquente visando sua não reincidência .

Vítima: trata-se de examinar do papel das vitimas no desencadeamento do fato


criminal, permitindo entre outras coisas o aprimoramento da assistência jurídica,
psicológica e terapêutica. Além disso, busca-se entender as experiências de viti-
mização primária, secundária e terciária. Os estudos em vitimologia permitem
também uma anàlise mais apurada da chamada cifra negra da criminalidade.

Controle social: trata-se de analisar o conjunto de mecanismos/ sanções sociais


que buscam submeter os indivíduos às normas de convivência social. Tais con-
troles são divididos em controle social informal e controle social formal.

Criminologia clássica / Escola clássica do Direito Penal

Movimento que busca dar racionalidade ao Direito Penal. Obra funda-


mental : “Dos Delitos e das penas”, de César de Beccaria. Defende-se a cria-
ção de limites ao direito de punir, a abolição da tortura e o combate à pena
arbitrária. Construção da idéia de punição proporcional ao delito. Os postu-
lados da Escola Clássica podem ser sintetizados da seguinte forma:

a) O crime é considerado como um ente jurídico, pouco interesse na


figura do “criminoso”;

b) O crime é fruto do livre arbítrio

c) A pena deve ser proporcional ao delito. A punição deve ser grave o


suficiente para dissuadir, não mais grave que isso.

Escola Positivista

Principais representantes Cesare Lombroso, Enrico Ferri e Garófalo.


Em litigio aberto com a Escola Clássica, apresenta os seguintes postulados:

a) Concepção do crime como fenômeno natural e social;

b) Idéia do criminoso nato (Lombroso) anormalidade psicológica


como inerente ao criminoso

c) Afasta o dogma do livre-arbítrio

d) Responsabilidade penal lastreada na periculosidade do criminoso .


Pena como medida de defesa social

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CRIME E SOCIEDADE

Inicia etapa científica da Criminologia – método empírico. Procuravam


demonstrar, em contraposição aos clássicos, que o crime ocorre como um
fato real e não como uma mera ficção jurídica. Portanto, para se estudar e
compreender o crime é preciso examinar também o “delinquente” e o meio
em que vive.

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CRIME E SOCIEDADE

AULA 2: ESCOLAS CRIMINOLÓGICAS: CRIMINOLOGIA FUNCIONALISTA.

LEITURA OBRIGATÓRIA

BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal. 3ª


ed. Coleção Pensamento Criminológico do Instituto Carioca de Crimi-
nologia. Rio de Janeiro: Revan, 2002, pgs 59-56.

A teoria da anomia (strain theory) foi criada pelo sociólogo Robert King
Merton nos Anos 40, tendo como base teoria Emile Durkheim (1858/1917),

Durkheim realiza uma crítica à representação do crime como fenômeno


patológico: “Se existe um fato cujo, caráter patológico parece incontestável, é
o crime. Todos estão de acordo sobre este ponto ».

Segundo autor, encontramos delito em tipo de sociedade (características


variadas), trata-se de um elemento ligado às condições de toda vida coletiva.
Nesse sentido , o delito faz parte da fisiologia e não da patologia da vida
social. Somente suas formas anormais (ex. crescimento excessivo) podem ser
consideradas patológicas.

Partindo desta base, Merton desenvolve a .teoria funcionalista da anomia.


Como Durkheim, Merton se opõe à concepção patológica do desvio.

O autor interpreta o desvio como um produto da estrutura social, enten-


dendo que esta estrutura não tem apenas um efeito repressivo, mas também
efeito estimulante sobre o comportamento individual. Merton entende o
desvio a partir da contradição entre estrutura e cultura. A cultura propõe
ao individuo determinadas metas / motivações fundamentais (ex. lazer,
bem-estar, sucesso) e proporciona também os modelos de comportamento
institucionalizados/meios legítimos para alcançar aquelas metas (estudo,
formação avançada, trabalho). Por outro lado, a estrutura econômico-so-
cial oferece aos indivíduos, em graus diversos, a possibilidade de acesso a
meios legítimos para alcançar as metas.

Falta de proporcionalidade entre os fins culturalmente reconhecidos e


os meios legítimos, à disposição do individuo causa tensão / Strain, ori-
ginando o desvio.

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CRIME E SOCIEDADE

AULA 3: ESCOLAS CRIMINOLÓGICAS: CRIMINOLOGIA CRÍTICA.

LEITURA OBRIGATÓRIA

BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal.


3ª ed. Coleção Pensamento Criminológico do Instituto Carioca de
Criminologia. Rio de Janeiro: Revan, 2002, pgs 159-169.

LEITURA COMPLEMENTAR

Do paradigma etiológico ao paradigma da reação social: mudança e


permanência de paradigmas criminológicos na ciência e no senso co-
mum. Vera Regina Pereira de Andrade

Idéia de base: Funções da pena: Funções declaradas ou manifestas : fun-


ções retributivas, preventivas, unificada. Funções reais ou latentes. teorias
ou vertentes da criminologia que questionam funções declaradas, anali-
sam fundamento pena. As principais teorias que buscaram determinar fi-
nalidade da pena não encontraram uma função racional que a legitimasse
– pena não representa um bem, mas sim uma dor.

Paradigma etiológico: busca entender as causas da criminalidade. Foco no in-


dividuo. Paradigma do controle/reação social: delito não é fenômeno natural
: «não é como um pedaço de ferro, um objeto físico” . O delito é o resultado
de um processo social de interação (definição e seleção) – Trata-se de uma
construção social. Construção do delito através de um processo seletivo. Sele-
tividade criminalização primária + seletividade criminalização secundaria. A
diferença entre «delinquente » e « não delinquente » decorre de um processo
de estigmatizaçao oriundo da seletividade do sistema penal . Todos cometem
crimes mas somente alguns chegam ao sistema penal. Risco de ser etiquetado
não depende da conduta, mas do status social do indivíduo: « Estes estereó-
tipos permitem a catalogação dos criminosos que combinam com a imagem que
corresponde à descrição fabricada, deixando de fora outros tipos de delinquentes
(delinquência de colarinho branco, de trânsito, etc.”. (Raúl Zaffaroni)

A criminologia ao longo dos séculos tenta estudar a criminalidade não


como um dado ontológico pré-constituído, mas como realidade social constru-
ída pelo sistema de justiça criminal através de definições e da reação social,

FGV DIREITO RIO 17


CRIME E SOCIEDADE

o criminoso então não seria um indivíduo ontologicamente diferente, mas


um status social atribuído a certos sujeitos selecionados pelo sistema penal e
pela sociedade que classifica a conduta de tal individuo como se devesse ser
assistida por esse sistema. Os conceitos desse paradigma marcam a linguagem
da criminologia contemporânea: o comportamento criminoso como compor-
tamento rotulado como criminoso (Alessandro Baratta)

FGV DIREITO RIO 18


CRIME E SOCIEDADE

AULA 4: ESCOLAS CRIMINOLÓGICAS: NOVOS MOVIMENTOS


CRIMINOLOGICOS

LEITURA OBRIGATÓRIA

As contradições da “sociedade punitiva”: o caso britânico. David Garland.

LEITURA COMPLEMENTAR

O encarceramento em massa (Massimo Pavarini). In ABRAMOVAY, Pedro


Vieira e BATISTA, Vera Malaguti (org.). Depois do grande encarcera-
mento. Rio de Janeiro: Revan, 2010.

The new penology  : Emerging Strategy of Corrections and Its Implications


(Feeley and Simon ). A nova “penologia” - justiça atuarial: O crime é per-
cebido como um risco normal  : O crime é inevitável / delinquência risco
normal / necessidade de se precaver afim de minimizar os impactos negativos
- “seguro” / terceirização. Crime como problema “técnico” : Não se interessa
fatores internos /externos criminalidade/ efeitos crime mais importantes que
as causas. Lógica atuarial - linguagem se concentra em probabilidades e dis-
tribuições estatísticas – Área de risco - População é dividida: grupos de risco
/ grupos que não são de risco Grupos de risco: alvo exercício poder penal.
Objetivo: Proteção sociedade através da gestão (vigilância e controle) dos
grupos de risco X antiga penologia: proteção sociedade através da ressociali-
zação Objetivo: garantir a proteção do Sistema Penal através de uma gestão
empresarial. Busca legitimidade através do “como punir” deixando de lado o
“porquê punir”.

The punitive turn (David Garland): Condições históricas através das quais
instituições de controle social modernos se desenvolveram nos países ociden-
tais. Autor observa que três últimas décadas do século passado foram mar-
cados por muitas mudanças na política, económica e social. Relação entre
Estado Social/ Estado Penal: “a atrofia planejada do Estado Social […] e a
súbita hipertrofia do Estado Penal podem ser considerados dois movimentos
concomitantes e complementares” (L. Wacquant). Sinais de mudança - con-
trole penal contemporâneo - punitive turn : a) O tom emocional da política
criminal, b) Retorno da vitima, c)Punição pós-disciplinar.

FGV DIREITO RIO 19


CRIME E SOCIEDADE

BLOCO II — INTRODUÇÃO AO DIREITO PENAL E TEORIA DA


NORMA PENAL

AULA 5: INTRODUÇÃO AO DIREITO PENAL. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE

BIBLIOGRAFIA PARA PRINCÍPIOS DO DIREITO PENAL I, II, III e IV:

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral.


Vol. 1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, Capítulo II — Princípios Limi-
tadores do Poder Punitivo Estatal — pgs. 10-28;

ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Derecho Penal: Parte General. Buenos


Aires: Ediar, 2002, Capítulo IV — Limites derivados de la función política
— pgs. 110-153

CASO PARA LEITURA OBRIGATÓRIA E FICHAMENTO:

Os alunos devem se dividir em 4 grupos para lerem, separadamente, votos


dos Ministros do STF. A leitura da Ementa, Relatório e Certidão de Julga-
mento é obrigatória para todos os grupos.

• Habeas Corpus nº 70.389, do Supremo Tribunal Federal.


o Grupo A: Votos Celso de Mello e Sepúlveda Pertence
o Grupo B: Votos Carlos Velloso, Francisco Rezek, Néri da Silvei-
ra e Paulo Brossard
o Grupo C: Votos Sydnei Sanches, Ilmar Galvão e Octavio Gallotti
o Grupo D: Votos Marco Aurélio e Moreira Alves

CONCEITO: O QUE É DIREITO PENAL?

O direito penal é um conjunto de normas jurídicas que regulam o poder


punitivo do Estado, definindo crimes e a eles vinculando penas ou medidas
de segurança. A parte geral (art.1° ao art.120 do CP) define os critérios a
partir dos quais o direito penal será aplicado: quando o crime existe? Como
e quando aplicar a pena?

FGV DIREITO RIO 20


CRIME E SOCIEDADE

A parte especial prevê os crimes em espécie e as penas correspondentes.


O crime é uma conduta proibida, que pode ser tanto positiva, uma ação (ex.
homicídio — art.121 do CP), quanto negativa, uma omissão (ex. omissão de
socorro — art.135 do CP). Cada crime prevê uma determinada escala pu-
nitiva (mínima e máxima) de acordo com a gravidade do crime em abstrato.

FUNÇÃO: PARA QUE SERVE O DIREITO PENAL?

A função do direito penal é a proteção subsidiária de bens jurídicos1.


É missão do Direito Penal a proteção dos bens jurídicos mediante o amparo
dos elementares valores ético-sociais da ação2. Essa tem sido a concepção em
torno da qual o direito penal moderno tem se desenvolvido3 desde Karl
Binding (1841-1920).

É de se mencionar, contudo, em razão da voz que vem reverberando pelo


mundo, o posicionamento contrário de Günther Jakobs. O direito penal de
Jakobs recusa a generalizada função atribuída ao direito penal de proteção
de bens jurídicos, para abraçar a função de proteção da norma jurídica.

E assim tem pronunciado em diversos trabalhos: “o direito penal garante a


vigência da norma, não a proteção de bens jurídicos”. Como a constituição da
sociedade tem lugar por meio de normas, isto é, se as normas determinam
a identidade da sociedade, garantir a vigência da norma permite garantir a
própria identidade social: o direito penal confirma a identidade social. Nesse
quadro de proteção da norma e afirmação da identidade social, a sanção pe-
nal preveniria a erosão da configuração normativa real da sociedade. 1
ROXIN, Claus. Derecho penal: parte
general. Tomo I. Fundamentos. La es-
tructura de la teoria del delito. 2ª Ed.
Muito embora o princípio de proteção de bens jurídicos tenha sido Trad.: Diego-Manuel Luzon Peña et. al.
Madrid: Editorial Civitas, 1997, p. 51.
originariamente elaborado por Paul Johann Anselm Ritter von Feuerbach 2
WELZEL, Hans. Derecho Penal: parte
(17751833) — no sentido de proteção de interesses humanos —, con- general. Trad.: Carlos Fontán Balestra.
Buenos Aires: Roque Depalma Editor,
forme afirma Hassemer4, atribui-se propriamente a criação e desenvol- 1956, p. 6 (tradução nossa).
vimento do conceito de bem jurídico à Johann Michael Franz Birnbaum 3
BACIGALUPO, Enrique. Derecho pe-
nal: parte general. 2ª Ed. Buenos Aires:
(1792-1877), de acordo com Roxin5. Hammurabi, 1999, p. 43.
4
HASSEMER, Winfried. Persona,
mundo y responsabilidad: bases para
Proteger subsidiariamente equivale a afirmar que os bens jurídicos não são uma teoria de la imputacion en derecho
protegidos apenas pelo direito penal. Significa dizer que tal proteção se reali- penal. Traducción: Francisco Muñoz Con-
de y María del Mar Díaz Pita. Santa Fe de
za por meio da manifestação dos demais ramos do Direito que, atuando co- Bogotá: Editorial Temis, 1999, p. 7.

operativamente, pretendem operar como meio de solução social do problema.6 5


Derecho penal: parte general. Tomo
I. Fundamentos. La estructura de la te-
O direito penal deve intervir para solucionar problemas sociais tão-somente oria del delito, p. 55.

depois que outras intervenções jurídicas não-penais falharem nessa solução. 6


Ibid., p. 65.

FGV DIREITO RIO 21


CRIME E SOCIEDADE

Precisamente, por ser o direito penal a forma mais dura de ingerência do


Estado na esfera da liberdade do cidadão, deve ele ser chamado a agir ape-
nas quando outros meios do ordenamento jurídico (civis, administrativos,
tributários, sanitários, trabalhistas etc.) mostrarem-se insuficientes à tutela
dos bens jurídicos fundamentais.

Diante desse quadro, temos que, para a salvaguarda de bens jurídicos, o


direito penal deve funcionar subsidiariamente aos demais campos jurídicos
(princípio da subsidiariedade), intervindo minimamente na criminalização
de condutas (princípio da intervenção mínima), operando como ultima ratio
na solução de problemas sociais, considerando a dura intromissão estatal
que o caracteriza: a privação da liberdade. Além disso, a proteção não se
realiza em função de todos os bens jurídicos, bem como aqueles que são
selecionados como objeto de proteção devem ser parcialmente protegidos.
Nem todos os bens jurídicos extraíveis da Constituição devem ser elevados
à categoria de bem jurídico-penal e, ainda, aqueles que o forem, devem ser
protegidos somente diante de determinadas formas concretas de ataque.
A proteção do direito penal é assim, pois, fragmentária7 — princípio da
fragmentariedade. A limitação da norma penal incriminadora às ações mais
graves perpetradas contra os bens jurídicos mais relevantes vai conformar o
caráter fragmentário do direito penal.8

Mas afinal, o que são bens jurídico-penais? Para Welzel (1904-1977),


bem jurídico é um bem vital do grupo ou do indivíduo, que em razão de
sua significação social, é amparado juridicamente.9 Desde uma perspectiva
funcionalista, Roxin define que bens jurídicos são circunstâncias dadas ou
finalidades que são úteis para o indivíduo e seu livre desenvolvimento no marco
de um sistema social global estruturado sobre a base dessa concepção dos fins
ou para o funcionamento do próprio sistema.10 A literatura penal em geral
costuma empregar as expressões valor e interesse para conceituar bem jurí-
dico: valores relevantes para a vida humana individual ou coletiva11; valores e CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito
7

Penal: parte geral. Curitiba: ICPC; Lumen


interesses mais significativos da sociedade12; valor ou interesse juridicamente Juris, 2006, p. 5 e ROXIN, op. cit., p. 65.

reconhecido em determinado bem como tal em sua manifestação geral.13 8


BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado
de Direito Penal: parte geral. Vol. 1. 13ª
Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 14.

Nesse contexto, os bens jurídico-penais devem derivar sempre da Cons- 9


Op. Cit., p. 5-6.
10
ROXIN, Claus. Op. Cit., p. 55-56.
tituição da República, documento fundamental e lei maior do Estado De-
11
ROXIN, Claus. Op. Cit., p. 55-56.
mocrático de Direito. A vida, a liberdade, o patrimônio, o meio ambiente,
GRECO, Rogério. Curso de Direito
12

a incolumidade pública, para citar alguns, vão formar o rol de valores, Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, p. 2.
interesses e direitos que, elevados à categoria de bens jurídico-penais, cons- 13
MAURACH/ZIPF apud ROXIN. Op.
tituirão o objeto de proteção do direito penal. Cit., p. 70.

FGV DIREITO RIO 22


CRIME E SOCIEDADE

Desde seu início, a denominada teoria do bem jurídico admite quer bens
jurídicos individuais, tais como a vida e liberdade, quer bens jurídicos uni-
versais14, tais como administração da justiça15, e, modernamente, ordem tri-
butária, administração pública, sistema financeiro, meio ambiente, relações
de consumo, saúde pública, dentre outros.

VISÃO CRÍTICA: O DIREITO PENAL REALMENTE ATUA SEGUNDO OS SEUS


FUNDAMENTOS?

Não é difícil perceber, entretanto, que a função que o direito penal assu-
me encontra dificuldades no atual contexto brasileiro, fazendo pensar que
uma coisa é a função que lhe é atribuída (função declarada) e outra aquela
que realmente exerce no contexto social (função oculta).

A proliferação de crimes faz duvidar da subsidiariedade que deveria norte-


ar a manifestação do direito penal, o que faz também suspeitar de seus pres-
supostos limitadores, que não resistem a uma empírica avaliação das agências
responsáveis por criar e aplicar o direito penal.

O conjunto dessas agências responsáveis pelo processo de criminalização


(legislativa, judicial, policial, penitenciária) forma o sistema penal. É dessa
avaliação que surge uma visão fruto da crítica criminológica das funções da
pena e da aplicação do direito penal. Como uma ciência não normativa, a so-
ciologia se preocupa em estudar o “ser”, e não o “dever ser”, como o direito.
Permite, portanto, investigar a realidade além da lente jurídica.

Para tanto, trabalha com pressupostos de difícil refutação: a) que se vive


em uma sociedade conflitiva, onde o conflito não é um dado puramente
marginal e criminalizável; b) a constatação empírica da desigualdade na apli-
cação do direito (punição de pobres e não de ricos); c) que para além da pro-
paganda das funções declaradas, o direito penal é uma forma de reprodução
da desigualdade social.

Partindo desses pressupostos a criminologia crítica elaborou um conjunto


de importante observações. O primeiro e fundamental é que o crime não é
um ente natural e sim depende de um ato de poder que o defina como tal.
Práticas que ontem foram consideradas crimes, como o adultério, hoje não o
são por decisão política.

O segundo é uma separação em etapas do processo seletivo de criminalização 14


Também chamados de bens jurídi-
cos supraindividuais, metaindividuais,
entre criminalização primária e secundária. A criminalização primária é aque- transindividuais, ou coletivos.
la realizada pelas agências políticas (legislativo) na definição do que é crime e, 15
HASSEMER, Winfried. Op. Cit., p. 7.

FGV DIREITO RIO 23


CRIME E SOCIEDADE

portanto, é uma enunciação em abstrato das condutas criminalizáveis. Já a


criminalização secundária é a ação punitiva exercida em pessoas concretas,
realizados pelas agências executivas do sistema penal (policial, judiciária e
penitenciária). A disparidade entre o programa criminal primário, todas as
condutas passíveis de criminalização, e o efetivo conhecimento das agências
executivas é o que se chama de cifra oculta.

Todas as pessoas cometem ou podem cometer alguns crimes. Quem co-


nhece alguém que levou algum objeto do seu restaurante preferido? Ou al-
guém que tenha passado por algum acidente sem prestar socorro? Ou ainda,
bebeu e dirigiu? Xingou alguém?

É preciso entender é impossível a realização total do programa de cri-


minalização, seja por falta de estrutura das agências executivas, seja porque
implicaria num sufocamento das liberdades. Não se pode imaginar todo o
orçamento estatal sendo gasto com polícia, nem é desejável um Estado poli-
cial que vigie e controle cada passo das pessoas.

Isso permite afirmar que o sistema penal é estruturalmente seletivo, ou


seja, direciona sua atuação num determinado sentido na persecução crimi-
nal, geralmente voltado para os estereótipos presentes no imaginário social.
Quem nunca atravessou a rua por ter visto uma figura “estranha” passar por
perto, sem qualquer evidência de que se tratava de alguém com intenção de
lhe fazer algum mal, confiando na sua “intuição”?

O direito penal tem sido aplicado seletivamente em várias partes do mun-


do. No Brasil, isso é sensivelmente percebido. Mas também nos Estados Uni-
dos, onde a taxa de encarceramento é significativamente maior para negros
e latinos em relação a brancos. No ano de 2010, a relação de presos era a
seguinte: 3.074 presos negros para cada 100.000 residentes; 1.258 presos
hispânicos/latinos para cada 100.000 residentes; e apenas 459 presos brancos
para cada 100.000 residentes.16 Não se pode ignorar esse dado, tradutor de
uma aplicação seletiva do direito penal norte-americano.

Mas seria possível um sistema penal não seletivo? Em outras palavras, e se


todas as condutas criminosas fossem punidas? 16
Dados disponíveis no site: http://
www.prb.org/Articles/2012/us-
-incarceration.aspx?p=1, Acesso em
Um programa de punição que pretenda atingir TODAS as pessoas, pu- 20 de maio de 2013. “Incarceration
rates are significantly higher for blacks
nindo TODOS os crimes é irrealizável, pois exigiria que as agências penais and Latinos than for whites. In 2010,
black men were incarcerated at a rate
fossem onipresentes. Ademais, é inconcebível punir TODOS os desvios, of 3,074 per 100,000 residents; Latinos
caso contrário, a vida em sociedade se tornaria um caos e, ainda, um estado were incarcerated at 1,258 per 100,000,
and white men were incarcerated at 459
penal absoluto. Nesse sentido: per 100,000”.

FGV DIREITO RIO 24


CRIME E SOCIEDADE

“(...) ninguém pode conceber seriamente que todas as relações so-


ciais se subordinem a um programa criminalizante faraônico (que se
paralise a vida social e a sociedade se converta em um caos, em prol da
realização de um programa irrealizável), a muito limitada capacida-
de operativa das agências de criminalização secundária não lhes deixa
outro recurso que proceder de modo seletivo”.17

O Direito Penal é uma técnica de definição, comprovação e repressão


do desvio.18 Crime, processo e pena vão formar os objetos fundamentais
do direito e processo penal. A definição do desvio se expressa na atividade
legislativa, por meio da qual o legislador vai definir crimes (condutas proi-
bidas) e cominar penas (punição correlata).

Em todas as democracias contemporâneas, o Direito Penal será regido


por princípios constitucionais (explícitos e implícitos) para garantir o in-
divíduo em face do poder punitivo (ius puniendi) do Estado.19 A função
dos princípios será justamente a de limitar o poder punitivo estatal. Nesse
sentido, o legislador não pode tudo. Ele deve observância aos princípios. O
saber jurídico-penal moderno de tradição iluminista e liberal, amadurecido
desde o século XVIII, foi responsável pela gestação do modelo garantista
clássico, fundado em princípios como o da legalidade, lesividade, responsa-
bilidade pessoal, contraditório e presunção de inocência.20 17
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Op. cit., p. 7.
FERRAJOLI, Luigi. Derecho y razón:
18

A literatura relativa à principiologia penal é vasta.21 Nas próximas qua- Teoría del garantismo penal. Tradu-
ção: Perfecto Andrés Ibáñez, Alfonso
tro aulas, serão estudados os princípios – de forma não exaustiva – que Ruiz Miguel, Juan Carlos Bayón Mo-
hino, Juan Terradillos Basoco, Rocío
informam o Direito Penal, seu papel dentro do sistema jurídico-penal e Cantarero Bandrés. Madrid: Editorial
sua aplicação prática. Trotta, 1995, p. 209.
19
CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito
Penal: parte geral. Curitiba: ICPC; Lu-
men Juris, 2006, p. 19.

PRINCÍPIO DA LEGALIDADE 20
FERRAJOLI, Luigi. Derecho y razón:
Teoría del garantismo penal, p. 33.
21
Para citar alguns: ZAFFARONI, Euge-
Um dos mais importantes princípios comuns a quase todas as áreas nio Raúl, ALAGIA, Alejandro & SLOKAR,
Alejandro. Derecho Penal: Parte Gene-
do Direito é o princípio da legalidade. Este, como outros princípios, ral. 2ª ed. Buenos Aires: Ediar, 2002, p.
107-142; TOLEDO, Francisco de Assis.
tem como uma de suas funções primordiais a limitação do poder estatal, Princípios básicos de direito penal. 5ª
ed. São Paulo: Saraiva, 1994; MIR PUIG,
podendo ser expresso de diversas formas. A primeira delas estabelece que Santiago. Direito penal: fundamentos
ao indivíduo cabe fazer tudo aquilo que a lei não proíbe. Uma variante e teoria do delito. Tradução: Cláudia
Vianna Garcia e José Carlos Nobre Por-
direta dessa é a aplicação oposta ao governo: só é permitido ao Estado o ciúncula Neto. São Paulo: Editora Revis-
ta dos Tribunais, 2007; 82-107, CIRINO
que a lei expressamente permite. Contudo, o variente que mais importa DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal, op.
cit., p. 19-32; BARATTA, Alessandro.
no momento é a variante exposta pela seguinte frase em latim: nullum Principios de Derecho Penal Mínimo.
crimen, nulla poena sine lege. Esta formula foi eternalizada por Feuerbach, In: Criminología y Sistema Penal (Com-
pilación in memoriam)», Editorial B de
no começo do séc. XIX. F, Buenos Aires, Argentina, 2004.

FGV DIREITO RIO 25


CRIME E SOCIEDADE

Versão análoga a esta última pode ser encontrada no art. 5º, inciso XX-
XIX da Constituição Federal: “Não há crime sem lei anterior que o defina, nem
pena sem prévia cominação legal”. Esta disposição também está prevista de
modo semelhante no art. 1º do Código Penal, e neste sentido, é o princípio
mais importante desta área do direito, pois a lei é a única fonte que pode ser
utilizada para proibir ou impor condutas sob ameaça de sanção. Em outras
palavras, é preciso uma lei que descreva uma conduta como proibida e asso-
cie uma pena para aqueles que realizarem a conduta proibida.

Da fórmula original em latim derivam vedações a formas de incriminação,


exigindo lex praevia, lex scripta, lex stricta e lex certa.

1. Nullum crimen, nulla poena sine lege praevia — não há crime nem pena
sem lei prévia
Questão: Reforma do Código Penal prevê criminalização dos jogos de
azar e pena dobrada para explorador
— Vedação à retroatividade da lei mais grave (lex gravior)
A lei penal não retroage, salvo para beneficiar o réu (art.5°, XL, CR). A
irretroatividade da lei penal mais gravosa atinge tanto as tipificações legais
como as sanções penais que lhes correspondem. A proibição de retroativi-
dade ganha especial relevância quando do estudo da lei penal no tempo,
como será visto adiante.

2. Nullum crimen, nulla poena sine lege scripta — não há crime nem pena
sem lei escrita
— Vedação aos costumes como fonte de criminalização de condutas ou
punibilidade.
Em matéria penal, é vedada a utilização do costume como fonte da lei
penal, uma vez que a forma constitui garantia do cidadão e por isso deve
ser pública, geral e escrita.

3. Nullum crimen, nulla poena sine lege stricta — não há crime nem pena sem
lei estrita
— Vedação à analogia in malam partem.
Outra derivação que se extrai da legalidade é a vedação da analogia in
malam partem (em desfavor do réu). A analogia é a aplicação da lei a fatos
semelhantes sem expressa previsão legal. Na verdade, o que proíbe essa
derivação é que o juiz inove na interpretação da lei em prejuízo do réu. A
analogia in bonam partem não é vedada, embora seu reconhecimento exija
ampla fundamentação quanto a sua pertinência ao caso concreto.

4. Nullum crimen, nulla poena sine lege certa — não há crime nem pena sem lei certa
— Vedação à normas penais vagas, imprecisas, indeterminadas

FGV DIREITO RIO 26


CRIME E SOCIEDADE

Ainda como consectário lógico do princípio da legalidade, há o princípio


da taxatividade. É vedada a indeterminação normativa que crie tipos abertos,
sob o risco de vulnerar a garantia que a legalidade representa. Por exemplo,
a qualificadora do homicídio “por motivo fútil” (art.121, §2°, II, CP), é um
tipo vago que comporta múltiplas situações. Não por outro motivo as leis
criadas em regimes autoritários possuem exatamente essa marca de arbítrio,
concedendo amplo poder ao juiz na perseguição das dissidências político-
-ideológicas, como nas Leis de Segurança Nacional nas ditaduras latino ame-
ricanas do século passado.

Por fim, a legalidade também informa o princípio da reserva legal, o qual


determina que os tipos penais incriminadores somente podem ser criados
através de lei pelo Poder Legislativo e respeitando o procedimento previsto
na Constituição Federal. No campo do Direito Penal, essa limitação serve
para assegurar que somente normas produzidas de forma democrática, pelos
representantes eleitos pelo povo, podem vincular os cidadãos. Normas ema-
nadas diretamente pelo Executivo não preenchem esse critério, pois embora
o Presidente da República tenha legitimidade popular, somente o Poder Le-
gislativo (com todas as dificuldades que tenha ou possa vir a ter) representa a
pluralidade de concepções de justiça de uma sociedade.

Desta forma, pode-se fazer uma ligação direta do princípio da Reserva


Legal com o princípio da vedação do uso de Direito Costumeiro, que seria
uma faceta daquele.

CASO PARA LEITURA OBRIGATÓRIA E FICHAMENTO: HC 70.389 – STF

Em agosto de 1991, no condomínio de classe média Jardim Colonial, dois


policiais militares, foram chamados para atender uma ocorrência de furto de
bicicleta supostamente cometido por um adolescente dentro do condomínio.
O crime de furto consiste em subtrair coisa alheia para si ou para outrem,
como previsto no art. 155 do Código Penal.

O suposto autor do fato foi capturado e se achava detido pelos vigilantes


do condomínio que entraram em contato com a polícia que se dirigiu ao
local. A vítima, de acordo com os vigilantes, afirmou que o menor era autor
do fato. Com base nisso, acatando as conclusões dos vigilantes, os policiais
militares detiveram o adolescente, que não tinha qualquer bicicleta em sua
posse, e conduziram-no ao posto policial, onde passaram a agredi-lo violen-
tamente com socos, pontapés e golpes de cassetete para que confessasse haver
subtraído a bicicleta.

FGV DIREITO RIO 27


CRIME E SOCIEDADE

A questão jurídica

Diante dos atos praticados pelos policiais, duas ações foram instauradas. A pri-
meira ação penal foi ajuizada na Justiça Estadual Militar, para apurar o crime de
lesão corporal praticado por militar (art. 209, do Código Penal Militar; Decreto-
-Lei Nº 1.001, de 21 de outubro de 1969): “Art. 209. Ofender a integridade
corporal ou a saúde de outrem: Pena - detenção, de três meses a um ano”.

Uma segunda ação penal foi instaurada para apurar o mesmo fato, porém
perante a Justiça Estadual Comum, para apurar o crime de tortura contra
criança ou adolescente (art. 233, do Estatuto da Criança e do Adolescente;
Lei 8069/90): “Art. 233. Submeter criança ou adolescente sob sua autorida-
de, guarda ou vigilância a tortura: Pena - reclusão de um a cinco anos. § 1º
Se resultar lesão corporal grave: Pena - reclusão de dois a oito anos. § 2º Se
resultar lesão corporal gravíssima: Pena - reclusão de quatro a doze anos. § 3º
Se resultar morte: Pena - reclusão de quinze a trinta anos”22.

A defesa dos policiais alegou que ninguém pode ser processado nem punido
duas vezes pelo mesmo fato (princípio do ne bis in idem). Para solucionar qual
deveria ser a justiça competente, foi suscitado um conflito de competência pe-
rante o Superior Tribunal de Justiça, que julga questões infraconstitucionais.
O STJ, no entanto, determinou que ambas as ações teriam prosseguimento.

A defesa recorreu novamente, impetrando um habeas corpus e o caso foi


ao Supremo Tribunal Federal, órgão responsável pela interpretação da Cons-
tituição Federal e da proteção dos direitos e garantias individuais, que disse
que o caso deveria ser julgado pelo Justiça Estadual Comum, pois o crime
de prática de tortura contra criança ou adolescente era mais específico que
a lesão corporal genérica prevista no Código Penal Militar. Porém, o STF
iniciou uma discussão se o art. 233 era inconstitucional, à luz dos princípios
da taxatividade e da reserva legal.

Questões a serem enfrentadas

1) O crime do art. 233, do ECA, respeita a regra da reserva legal?


2) O crime de tortura pode ser preenchido por meio das convenções interna-
cionais que o Brasil ratificou e incorporou ao direito pátrio?
3) O crime de tortura pode ser preenchido por um conteúdo que não esteja normatizado?
4) O fato de tramitarem no Congresso seis diferentes projetos para tipificar a
tortura permite ao judiciário escolher uma definição?
5) O Poder Judiciário pode flexibilizar essa garantia, quando estiver diante
de um crime grave? 22
Esse artigo foi revogado em 1997,
6) É correto punir alguém por crime de tortura sem que seja taxativamente com a edição da Lei 9.455/97. Na época
dos fatos e do julgamento, contudo, a
definido em lei o ato de torturar? Lei 9.455/97 não existia.

FGV DIREITO RIO 28


CRIME E SOCIEDADE

AULA 6: PRINCÍPIOS DO DIREITO PENAL II

Princípio da exclusiva proteção de bens jurídicos. Princípio da interven-


ção mínima. Princípio da subsidiariedade do direito penal. Princípio da
fragmentariedade. Princípio da culpabilidade. Princípio da responsabilidade
pessoal. Princípio da insignificância

CASO PARA LEITURA OBRIGATÓRIA E FICHAMENTO:

Habeas Corpus nº 84.412, do Supremo Tribunal Federal.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR PARA ESSA AULA:

Artigo do professor de Direito Penal da USP Pierpaolo Bottini: Princípio


da insignificância é um tema em construção: http://www.conjur.com.
br/2011-jul-26/direito-defesa-principio-insignificancia-tema-construcao

PRINCÍPIO DA EXCLUSIVA PROTEÇÃO DE BENS JURÍDICOS

O princípio da exclusiva proteção de bens jurídicos repudia incrimina-


ções que ofendam apenas valores morais, éticos ou religiosos. Isso significa
que o direito não pode punir formas de existência e suas expressões, deven-
do reconhecer no indivíduo sua autodeterminação (âmbito de autonomia
moral), daí que não deveria incriminar situações que interditem liberdades
constitucionais como:

a) no discutido caso do uso de drogas, onde haveria apenas autolesão


(ofensa a própria saúde);
b) em casos em que haja consentimento do ofendido, ou seja, em que
embora objetivamente tenha havido uma lesão, o lesionado tenha
anuído expressamente (intervenções cirúrgicas, por exemplo);
c) pensamentos e suas expressões, garantindo a liberdade de expressão
e informação contra a censura;
d) manifestação política, como a criminalização da greve em tempos
passados;
e) expressões socioculturais de minorias. No início do século XX, por
exemplo, as práticas dos negros recém-libertos, como a capoeira e as
manifestações religiosas afro-brasileiras foram criminalizadas;

FGV DIREITO RIO 29


CRIME E SOCIEDADE

f) condição social do indivíduo, como a vadiagem e a mendicância;


g) atos considerados obscenos, mas em contextos artísticos, lugares
privados ou em situações que a pessoa não tenha agido de forma
deliberada e pública na exposição das partes íntimas.

PRINCÍPIO DA INTERVENÇÃO MÍNIMA

A intervenção mínima (ultima ratio, em latim) é um princípio destina-


do ao legislador como critério quando da seleção de crimes e se baseia na
ideia de que o direito penal só pode ser invocado em caso de extrema ne-
cessidade e quando se afigure como necessário em razão da inadequação
de outro ramo do direito. Isso se fundamenta no fato da pena ser o meio
mais gravoso de intervenção legal (tem a prisão como principal pena) e
gerar danos de difícil reparação para aquele a que é impingida, podendo
ser forma de estigma e fonte de novos conflitos.

Esse princípio advém de uma reação à enorme expansão que o direito


penal conheceu nos últimos anos, se tornando muitas vezes a primeira e
única saída a que recorre o Estado para responder aos anseios sociais. Por
isso, dentro da lógica da intervenção mínima se extrai os princípios de
subsidiariedade e fragmentariedade.

A subsidiariedade se refere à necessidade de adotar respostas al-


ternativas fora do campo penal, como o civil e o administrativo. A
fragmentariedade requer que somente as lesões mais aos bens jurídicos
mais importantes sejam passíveis de pena, sendo assim um sistema
descontínuo de proteção.

PRINCÍPIO DA CULPABILIDADE

Complemento essencial ao princípio da legalidade, consagrado na fór-


mula latina nullum poena sine culpa, a culpabilidade se refere à capacidade
de determinação do indivíduo frente ao delito. A evolução do direito
penal substitui a incriminação mecanicista pela mera causação de um re-
sultado, pela consideração da vontade do agente dentro da ideia do delito
como um fenômeno social, numa perspectiva finalista.
23
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado
de Direito Penal: parte geral. Vol. 1. 13ª
Segundo Cezar Roberto Bitencourt , a culpabilidade possui três dimensões:
23
Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p.15 e 16

FGV DIREITO RIO 30


CRIME E SOCIEDADE

a) Fundamento da pena (elemento do crime) — etapa necessária de aferição


no conceito analítico de crime, ou seja, não basta que o crime seja típico
e antijurídico, deve também ser culpável (atribuível ao agente). É com
base na culpabilidade, por exemplo, que o inimputável não é considerado
passível de receber uma pena, mas apenas medida de segurança.
b) Medição da pena — serve como um dos critérios para determinar a
aplicação da pena, conforme art. 59 do CP.
c) Responsabilidade subjetiva — a culpabilidade também se refere ao
tipo subjetivo, requer dolo ou culpa para uma conduta ser conside-
rada típica, e não apenas que o agente tenha causado um resultado.

PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE PESSOAL

O princípio da culpabilidade implica, portanto, na exigência de uma res-


ponsabilidade pessoal. Logo, não se admite uma responsabilidade objetiva
na esfera penal, nem que a pena possa passar da pessoa do condenado (como
prevê expressamente a Constituição no Art.5°, XLV). Por essa razão uma
das causas de extinção da punibilidade é a morte do agente. Isso não exclui,
entretanto, a obrigação civil de reparar o dano por parte dos herdeiros.

Além da intranscedência da pena, o direito penal brasileiro adota a res-


ponsabilidade penal subjetiva, que deve ser sempre aplicado à pessoa huma-
na, capaz de vontade. Exceção a essa regra constitui a responsabilidade penal
da pessoa jurídica prevista nos crimes ambientais — art. 225, §3º, CF/88 c/c
art. 3º da Lei 9.605/98.

PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA

O critério de insignificância, criado por Claus Roxin, é uma técnica de


interpretação da lei que permite afastar a incidência da norma penal por
entender que embora esteja contida na descrição típica, a conduta não afeta
o bem jurídico de modo relevante. Além de ajudar a cumprir a função de
intervenção mínima do direito penal, é uma medida de política criminal,
já que não se justifica mover a máquina estatal (custo, tempo, pessoal) para
perseguir condutas dessa natureza.

Essa lição, hoje aperfeiçoada doutrinariamente, remonta ao período das


primeiras conquistas do Direito Penal Moderno, enunciadas pela filosofia
iluminista. Cesare Beccaria (Dos delitos e das penas. São Paulo: RT, 1996,
p. 28), nos idos do sec. XVIII, já alertava que “Toda pena, que não derive da
absoluta necessidade (...) é tirânica”.

FGV DIREITO RIO 31


CRIME E SOCIEDADE

A despeito da grande evolução do Direito Penal, passados mais de du-


zentos anos desde a primeira edição da obra do mestre italiano, continua
a vanguarda da ciência penal a reafirmar os mesmos princípios. Moderna-
mente, alinham-se ao lado do princípio da insignificância os preceitos de
razoabilidade e proporcionalidade, que, conjugados, caracterizam a doutrina
do Direito Penal Mínimo24.

No Brasil, o princípio da insignificância foi acolhido pela doutrina e


pela jurisprudência. No entanto, o princípio da insignificância não tem
previsão legislativa, sendo apenas uma criação doutrinária. Diante dessa si-
tuação, o respectivo princípio sofre críticas, uma vez que surge a indagação
do que seria insignificante.

Ao longo do tempo o Supremo Tribunal Federal passou a reiterar o en-


tendimento de que deve ser analisado o caso concreto e devem estar presentes
os seguintes requisitos:

(a) mínima ofensividade da conduta do agente;


(b) ausência de periculosidade social da ação;
(c) reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento; e
(d) inexpressividade da lesão jurídica provocada.

Assim, o princípio da insignificância tem o sentido de não considerar o


ato praticado como um crime, por isso, sua aplicação gera a absolvição do réu
e não apenas a diminuição e substituição da pena. Mais do que isso, aplica-
-se esse princípio com o intuito de retirar do direito penal condutas que não
produzam prejuízos significativos a bens jurídicos tutelados.

O princípio da insignificância é a expressão jurisprudencial da aplicação


da lesividade, que é mais abrangente (basta ser pensado como “lesão insigni- “A proposta desinstitucionalizadora
24

tendente à despenalização, descrimi-


ficante ao bem jurídico tutelado”). Geralmente, na prática judicial brasileira, nalização (em suas diferentes formas)
e diversificação na solução dos conflitos
é reconhecido em caso de crimes cometidos sem violência, cujo principal sociais é uma das ferramentas no nosso
modo de ver, a de mais urgente utiliza-
exemplo é o furto de coisa de pequeno valor ou em crimes fiscais de pouca ção nesse esforço de revisão e racionali-
monta, como a evasão de divisas ou a sonegação fiscal. zação do Direito Penal, a fim de colocá-
-lo a serviço de uma maior justiça e soli-
dariedade social. Outorgamos priorida-
de a esta iniciativa, pois se impõe antes
de tudo a tarefa de descongestionar os
CASO PARA LEITURA OBRIGATÓRIA E FICHAMENTO: HC 84.412 – STF pesados códigos e aliviar os tribunais
transbordantes de assuntos de pouca
relevância ou não sentidos pela vítima
ou pela sociedade como delitivos e
Um jovem desempregado de 19 anos furtou uma fita de vídeo-game, com frequentemente, inclusive, chamados a
intervir sem possibilidade de êxito, em
valor estimado de R$ 25,00. A vítima fez um registro na Delegacia de Polícia conflitos que podem encontrar solução
e B. foi localizado. A fita foi devolvida, pois B. a utilizara somente para jogar eficaz em outros foros”. CERVINI, Raúl:
Os processos de descriminalização. 2a
algumas partidas do jogo eletrônico. edição. São Paulo: RT, 1995. p. 195.

FGV DIREITO RIO 32


CRIME E SOCIEDADE

Diante dos fatos, a vítima pretendia “retirar a queixa e a fita foi devolvida,
contudo o acusado foi condenado a 8 meses de reclusão por uma conduta
que para muitos pode ser considerada como insignificante, ou seja, não causa
uma lesão a um bem jurídico protegido, qual seja o patrimônio, de forma a
ensejar a necessidade de que o direito penal seja aplicado.

A defesa recorreu e a decisão foi mantida pelo Tribunal de Justiça e pelo


Superior Tribunal de Justiça. Assim, foi impetrado Habeas Corpus no Su-
premo Tribunal Federal para que, destacando que o parecer do Ministério
Público foi favorável a manutenção da pena.

Questões a serem enfrentadas

1) É correto deixar de punir alguém porque o a pena seria desproporcional


ao crime praticado?
2) O Poder Judiciário pode deixar de aplicar a lei penal quando estiver diante
de um crime sem gravidade?
3) Como identificar quando um crime não tem gravidade?

FGV DIREITO RIO 33


CRIME E SOCIEDADE

AULA 7: PRINCÍPIOS DO DIREITO PENAL III.

Princípio da lesividade. Princípio da adequação social. Princípio da pro-


porcionalidade.

CASO PARA LEITURA OBRIGATÓRIA E FICHAMENTO:

Habeas Corpus nº 124.306, do Supremo Tribunal Federal.

LEITURA COMPLEMENTAR

Sobre os sistemas político-jurídicos de enquadramento da prostituição —


proibicionista, abolicionista e regulador: Prostituição: diferentes posicio-
namentos no movimento feminista, disponível em: http://www.umarfe-
minismos.org/images/stories/pdf/prostituicaomantavares.pdf

PRINCÍPIO DA LESIVIDADE

Também chamado de princípio da ofensividade, a lesividade é fundamen-


tal pra demarcar o campo do indiferente penal, exigindo que haja, no míni-
mo, perigo de lesão ao bem jurídico para se configurar o crime. Essa máxima
se remete tanto ao legislador, que não deve criminalizar condutas que não
ofendam bens jurídicos; quanto ao juiz, que deve verificar no caso concreto
se houve lesão relevante ao bem jurídico.

A classificação dos crimes será estudada adiante, mas uma distinção se


faz importante pra delimitar o alcance do princípio da lesividade e intro-
duzir uma divergência doutrinária acerca da constitucionalidade dos crimes
de perigo abstrato. Os crimes de perigo (potencial lesão ao bem jurídico) se
dividem em crimes de perigo abstrato (ou presumido) e concreto.

Conforme art. 306 do CTB (Código de Trânsito Brasileiro, lei 9.503/97)


é crime conduzir veículo automotor com capacidade psicomotora alterada
em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que
determine dependência. Isso significa que o mero ato de conduzir bêbado
pressupõe, pela descrição típica, um perigo. Aqueles que advogam pela

FGV DIREITO RIO 34


CRIME E SOCIEDADE

inconstitucionalidade dos crimes de perigo abstrato, defendem que para


configurar crime, deve haver um perigo concreto ao bem jurídico, ou seja,
que no caso do exemplo acima o motorista deve não somente estar dirigin-
do em desacordo com as normas de trânsito como ter colocado um bem
jurídico (ex. integridade física de pedestre) em perigo. Assim, não respon-
deria penalmente (numa concepção estrita de responsabilidade penal sub-
jetiva) aquele que, mesmo bêbado, dirige com cautela; ou ainda que sem
cautela, não coloque em perigo um bem jurídico, fazendo-o, por exemplo,
em um local ermo, desabitado, sem risco a vidas e patrimônios alheios.

PRINCÍPIO DA ADEQUAÇÃO SOCIAL

Concebido por Hans Welzel, a adequação social é um princípio geral de


interpretação da norma penal que procura estabelecer uma relação de atuali-
zação da norma incriminadora sob a ótica da relevância social e desvalor do
comportamento. A sua razão é evitar que comportamentos socialmente acei-
tos ou tolerados sejam criminalizados. Basta imaginar que sem essa concep-
ção de adequação do direito penal, um topless em praia não naturista poderia
configurar crime de ato obsceno.

O grande dilema é saber se a norma penal pode deixar de ser aplicada por
desuso, ou seja, se o reconhecimento do costume pode dar ensejo a uma des-
criminalização tácita. Na prática o que ocorre geralmente é que a própria per-
secução criminal, nesses casos, diminui e a punição de um caso isolado acaba
se tornando injusta diante do grau de irrelevância social da condenação.

Fato é que o princípio é pouco usado, uma vez que sua indeterminação
gerou novos critérios de aferição mais depurados e menos subjetivos quando
da sua aplicação pelo juiz. Geralmente se aplicam em casos de evidente ana-
cronismo da norma penal em questões morais, como o não reconhecimento
do adultério como crime mesmo antes da sua revogação em 2005.

PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE

Segundo Juarez Cirino dos Santos, do ponto de vista do direito penal, o


princípio da proporcionalidade se desdobra em três princípios parciais que
podem ser resumidos na formulação de três questões (ver, nesses exatos ter-
mos: CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba:
ICPC; Lumen Juris, 2006, p. 27):

FGV DIREITO RIO 35


CRIME E SOCIEDADE

a) princípio da adequação: a pena criminal é um meio adequado (entre


outros) para realizar o fim de proteger um bem jurídico?
b) princípio da necessidade: a pena criminal (meio adequado entre ou-
tros) é, também, meio necessário (outros meios podem ser adequa-
dos, mas não seriam necessários) para realizar o fim de proteger um
bem jurídico?
c) princípio da proporcionalidade em sentido estrito: a pena criminal
cominada e/ou aplicada (considerada meio adequado e necessário),
é proporcional à natureza e extensão da lesão abstrata e/ou concreta
do bem jurídico?

A proporcionalidade deve ser critério tanto da cominação da pena (cri-


minalização primária), quanto na aplicação da mesma (criminalização se-
cundária). No primeiro caso, deve ser avaliada não só a relação entre o grau
de afetação ao bem jurídico que a conduta incriminada representa e a sua
respectiva pena em abstrato (definição da escala da pena); mas também a re-
lação das penas aplicadas aos diversos crimes entre si, para que não haja, por
exemplo, aplicação de penas maiores para delitos patrimoniais do que para
delitos que ofendam a vida, integridade física e liberdade. No segundo caso,
deve o juiz ponderar o contexto social e o grau de culpabilidade do agente
quando da dosimetria da pena.

MÍDIA

1) POLÍCIA PRENDE TRÊS POR EXPLORAÇÃO DE PROSTITUIÇÃO EM TERMAS


NA ZONA SUL

Entre os detidos, dois permanecem presos e um foi liberado após fiança. Ope-
ração do Ministério Público ocorreu em Copacabana e Ipanema.

Duas mulheres e um homem, que trabalhavam como gerentes, foram presos


em flagrante na madrugada desta sexta-feira (15), por explorar a prostituição em
termas de Copacabana e Ipanema, na Zona Sul do Rio, segundo a Polícia Civil.

Doze termas foram percorridas pela operação, desencadeada às 22h pelo Mi-
nistério Público, com o apoio de cem policiais de policias da 12ª DP (Copacaba-
na) e da Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI).

Permanecem presos dois gerentes: da Centauros, em Ipanema, e da Termas


L’uomo, em Copacabana. Um outro gerente da Centauros foi preso, mas acabou
solto após pagamento de fiança. Segundo o MP, havia 90 garotas de programa

FGV DIREITO RIO 36


CRIME E SOCIEDADE

no local, onde foram apreendidos R$ 290 mil, além de uma pequena quantidade
de euros e dólares. Na termas L’uomo, os policiais encontraram R$ 3 mil e um
gerente foi preso.

Em sete termas houve apreensão de documentos e computadores por apresen-


tarem irregularidades. Os mandados de busca e apreensão foram expedidos pela
5ª Vara Criminal.

Os outros locais vasculhados foram Copacabana Termas Spa, Café Sensoo, La


Cicciolina, Barbarella, Erotika, Don Juan, Termas Casablanca, Boate Miami
Show, Boate Calábria e Boate 204, todas situadas em Copacabana.

De acordo com o Ministério Público, o objetivo da ação foi arrecadar provas


para a fundamentação de uma ação penal contra os donos dos estabelecimentos. O
crime previsto é de exploração da prostituição, cuja pena é de 2 a 5 anos de prisão.

De acordo com o MP, “há certa tolerância e indiferença com os prostíbulos”.


No requerimento encaminhado à Justiça, os promotores alertaram que, na maio-
ria dos casos, “esses estabelecimentos são utilizados não só para fins de exploração
sexual, mas também para exploração sexual de adolescentes, lavagem de dinheiro
de grupos mafiosos, tráfico de drogas, porte de armas de fogo e corrupção policial”.

Fonte: G1-globo.com. 15 de junho de 2012.


http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2012/06/policia-prende-tres-
-por-exploracao-de-prostituicao-em-termas-na-zona-sul.html

2) JUIZ LIBERA ACUSADOS DE TER CASA DE PROSTITUIÇÃO

Absolvição reacende debate sobre legalização dos prostíbulos

Pedro Dantas, O Estado de S. Paulo


03 Junho 2011 | 14h24
RIO - A absolvição de cinco homens acusados pelos crimes de formação de qua-
drilha, rufianismo (tirar proveito de prostituição alheia) e de manter uma casa
de prostituição em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, reacendeu o
debate sobre a legalização dos prostíbulos.

A decisão foi do juiz da 2.ª Vara Criminal de São Gonçalo, André Luiz Nicolitt.
“Se fosse seguir a letra fria do Código Penal, teríamos de fechar todos os motéis,
pois o mesmo dispositivo que incrimina as casas de prostituição também crimi-
naliza os motéis.”

FGV DIREITO RIO 37


CRIME E SOCIEDADE

“O Judiciário quando confrontado com temas polêmicos é mais rápido que o


Legislativo, que teme problemas com bases eleitorais”, disse o juiz Eyder Ferreira,
da Comissão de Direitos Humanos da Associação dos Magistrados Brasileiros
(AMB). “É urgente rediscutir o Código Penal, que confunde crime com pecado”,
disse o juiz Rubens Casara, da 43.ª Vara Criminal do Rio.

Relator e voto contrário ao projeto de lei 98/2003, que legalizava as casas de


prostituição, o deputado federal João Campos (PSDB-GO) reagiu às críticas.
“Lamento o ativismo crescente do Poder Judiciário. Será que teremos de adivi-
nhar o que o juiz pensa e não o que diz a lei?”

Autor do projeto, o ex-deputado federal Fernando Gabeira disse que a lei favorece
a corrupção. “A propina para manter aberto o estabelecimento é fonte de renda
para o mau policial. A legalização pode acabar com isso.»A fundadora da ONG
Davida, que defende os direitos das profissionais do sexo, Camila Leite, afirmou
que vai propor a reapresentação no Congresso do projeto.

TRECHO DA SENTENÇA

«A termas Aeroporto dista poucos metros da Ordem dos Advogados, da Defenso-


ria Pública e do Ministério Público (...). A Centauros, em lugar privilegiado de
Ipanema, é o palco das despedidas de solteiros do high society. O que distingue
estes conhecidos estabelecimentos do Club 488 de Alcântara, bairro de São Gon-
çalo? O preço dos serviços e o status dos frequentadores.»

Fonte: Estadão. 03 de junho de 2011: https://brasil.estadao.com.br/noticias/


geral,juiz-libera-acusados-de-ter-casa-de-prostituicao,727645

FGV DIREITO RIO 38


CRIME E SOCIEDADE

AULA 8: PRINCÍPIOS DO DIREITO PENAL IV. APLICAÇÃO DA LEI PENAL


NO TEMPO

Princípio da extra-atividade da lei penal. Ultra-atividade. Retroatividade.

LEITURA OBRIGATÓRIA E FICHAMENTO:

Recurso Ordinário Habeas Corpus nº 81.453, do Supremo Tribunal


Federal.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral. Vol.


1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 160-174.

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba: ICPC;
Lumen Juris, 2006, pgs. 47-55.

NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de direito penal: parte geral e parte


especial. 4ª Ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tri-
bunais, 2008, pgs. 93-110.

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA:

ROXIN, Claus. Derecho penal: parte general. Tomo I. Fundamentos. La es-


tructura de la teoria del delito. 2ª Ed. Trad.: Diego-Manuel Luzon Peña
et. al. Madrid: Editorial Civitas, 1997, pgs. 161-169.

APLICAÇÃO DA LEI PENAL NO TEMPO: QUAL A LEI APLICÁVEL?

A regra geral de aplicação da lei é a tempus regit actum, ou seja, se aplica a


lei vigente ao tempo do fato (princípio da atividade). O código penal brasileiro
considera o tempo do crime o momento da ação ou omissão, ainda que o re-
sultado tenha se dado em momento diverso (art.4° do CP). Na prática, o apli-
cador da lei deve saber a data do crime e procurar a legislação vigente à época.
Caso a lei tenha sido revogada, deve identificar qual a lei mais favorável no caso
concreto. Se mais benéfica, retroage; se mais gravosa, não retroage.

FGV DIREITO RIO 39


CRIME E SOCIEDADE

As normas de aplicação da lei penal são destinadas a regular as situações


de conflito que se colocam a partir da sucessão de leis penais no tempo que
não seguem essa regra geral.

Corolário do princípio da legalidade a lei penal incriminadora deve ser


anterior ao fato e, portanto, se posterior, é irretroativa (art.5°, XXXIX, da CR
e art.1° do CP). A irretroatividade é um postulado fundamental que confere
segurança jurídica e impede que juízos de exceção provocados por comoção
punitiva atinjam fatos pretéritos. A irretroatividade da lei penal mais grave se
aplica não só a criação de novos crimes, mas também ao aumento da pena ou
qualquer agravamento da situação do infrator como: regime de cumprimen-
to de pena mais rígido, aumento do prazo prescricional ou qualquer outro
que afete os direitos de liberdade do réu.

A exceção é a lei penal mais benéfica (art.5°, XL, da CR e art. 2°, parágrafo
único, do CP) que alcançará tanto fatos pretéritos a vigência da lei, ainda que
alcançados por sentença condenatória transitada em julgado, quanto fatos
posteriores a sua revogação (princípio da extra-atividade). O fundamental é
reconhecer qual a lei mais favorável ao infrator e estabelecer uma compara-
ção: a) quando a lei revogadora é mais benéfica, será retroativa; b) quando a
lei revogada é mais benéfica, ela terá ultra-atividade, aplicando-se aos fatos
cometidos durante sua vigência (nesses termos, ver: BITENCOURT, Cezar
Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral. Vol. 1. 13ª Ed. São Paulo:
Saraiva, 2008, p.163).

Com o objetivo de restringir o arbítrio legislativo e judicial na elaboração


ou aplicação retroativa de lei prejudicial, o princípio da irretroatividade está
em total sintonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do
Cidadão, que em seu art. 11.2 dispõe: “Ninguém será condenado por ações
ou omissões que no momento de sua prática não forem delitivas segundo o
Direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta pena mais grave
do que a aplicável no momento da comissão do delito”.

Vale notar, contudo, que o princípio da irretroatividade não é isento de


críticas nem exceções. Uma primeira dificuldade é a combinação de dispo-
sitivos penais (utilizar a pena base de uma lei e ciscunstâncias atenuantes ou
causas de diminuição de outra para formar uma terceira lei que seja mais
benéfica). A discussão sobre este aspecto na jurisprudência e na doutrina é
extremamente dividida. Resumidamente, os contrários a esta prática argu-
mentam que feriria a separação de Poderes e os a favor argumentam que a
expressão constitucional “salvo para beneficiar o Réu” não conhece exceções.

FGV DIREITO RIO 40


CRIME E SOCIEDADE

Outra grande controvérsia é a ultra-atividade das leis excepcionais e tempo-


rárias. Um primeiro aspecto da controvérsia é a argumentação pela inconstitu-
cionalidade do art. 3º do CP (“A lei excepcional ou temporária, embora decor-
rido o período de sua duração ou cessadas as circunstâncias que a determinaram,
aplica-se ao fato praticado durante sua vigência”). Por um lado, argumenta-se
que viola de forma direta o art.5º, XL, CF; por outro lado, argumenta-se que a
temporalidade da ação ou da omissão seriam parte do tipo penal. Atualmente,
a jurisprudência não reconhece a inconstitucionalidade daquele.

Contudo, por estar claramente em um embate com um princípio fun-


damental, deve-se evitar usar de leis temporárias ou exepcionais para moti-
vos de menor relevância. Um exemplo polêmico deste uso é a Lei da Copa
(Lei 12.663/2012). Esta possue um capítulo para disposições penais que só
se aplicarão durante o período da copa, porém vários destes são exagerados
e contrariam a racionalidade do art. 3º, CP, prezar pelo interesse público.
Como ilustração, observa-se que o uso de cartazes com marcas somente nos
eventos oficiais poderá render ao “criminoso” até 1 ano de detenção (art.33,
L. 12.663/2012). Será que a lei não foi distorcida para agradar interesses
políticos e privados? Isto é ou deveria ser constitucional?

HIPÓTESES DE CONFLITO

Quatro são as hipóteses de conflito:

1) Abolitio criminis — é a descriminalização de determinada conduta por


lei nova que deixa de considerar crime conduta anteriormente tipifica-
da como ilícito penal. Ela apaga qualquer efeito da lei penal incrimi-
nadora, da pena em cumprimento, passando pelo processo e chegando
até a própria anotação na ficha criminal do indivíduo, não podendo
ser considerada para configurar reincidência ou maus antecedentes;
2) Novatio legis incriminadora — é a hipótese inversa, ou seja, lei nova
que tipifica conduta que antes não era considerada crime. Consa-
grando a anterioridade da lei penal, não se aplica a fatos anteriores
a sua vigência;
3) Lex mitior — lei posterior que melhora a situação do sujeito. Co-
rolário da retroatividade da lei mais benigna, como consagrado na
Constituição de 1988, a lei posterior mais benéfica sempre retroage,
alcançando inclusive os fatos já alcançados por decisão condenatória
já transitada em julgado. Diferencia-se da abolitio criminis, uma vez
que aqui não é a conduta, mas outras circunstâncias que são modifi-
cadas pela nova lei como: pena ou tempo de prescrição;

FGV DIREITO RIO 41


CRIME E SOCIEDADE

4) Lex gravior — lei posterior que agrava a situação do sujeito. A lei


mais gravosa não retroage, aplicando-se apenas aos fatos ocorridos
após sua vigência. Aos fatos anteriores a lei mais gravosa, se aplica a
lei anterior mais benigna (ultra-atividade da lei mais benigna).

CONTROVÉRSIAS

Ultra-atividade das leis penais temporárias ou excepcionais

Conforme previsto no art.3° do CP, as leis penais temporárias (que preve-


em um prazo pré-determinado de vigência) ou excepcionais (que preveem a
vigência de determinada lei penal enquanto durarem situações de emergência
como: enchente, terremoto) se aplicam ao fato praticado sob sua vigência,
ainda que revogadas.

Parte majoritária da doutrina entende que não se aplica a retroatividade


de lei para beneficiar o réu, porque as situações tipificadas são diversas, per-
manecendo a razão temporária de incriminação ou agravamento da punição.
Parte minoritária entende que a exceção prevista no art.5°, XL, da CR é
incondicional e que todos os efeitos da lei penal temporária, quando perder
vigência, devem ser cassados.

Combinação de leis

Divide-se a doutrina e a jurisprudência quanto à possibilidade de conju-


gar leis em benefício do réu, ou seja, considerar parte de cada lei em conflito
para aplicar uma solução em concreto mais vantajosa. No julgamento do
Recurso Extraordinário n° 596.152/SP (13/10/2011), o STF se dividiu (5
ministros foram à favor e 5 foram contra, prevalecendo o benefício ao réu)
na questão da possibilidade de combinação de leis no que tange ao crime de
tráfico de drogas (confira jurisprudência infra).

Leis processuais

Outra discussão que tem gerado grande debate é o alcance das regras de
aplicação da lei penal no tempo, se atingiriam somente as leis penais mate-
riais, ou também determinadas normas processuais. Primeira maneira segura
é identificar se a questão objeto de disputa está prevista ou não no código
penal. Dessa forma, além da incriminação e da pena, também se incluem,
ainda que de caráter processual, situações que envolvam a ação penal, regime
de cumprimento de pena, causas extintivas de punibilidade e prescrição.

FGV DIREITO RIO 42


CRIME E SOCIEDADE

A segunda é saber se, ainda que de cunho processual, a questão envolve


o direito de liberdade do acusado, como regras para a decretação de prisão
provisória. Nesses dois casos a lei retroage para beneficiar o réu. A tercei-
ra maneira é identificar se as leis processuais em questão são fundamentais
ao direito de ampla defesa e ao contraditório do acusado. Nessa hipótese a
doutrina e jurisprudência não tem uma posição unânime, mas sendo uma
tendência considerar que essas normas têm caráter híbrido e, portanto, não
são meros procedimentos, mas verdadeira garantia do acusado.

JURISPRUDÊNCIA

Combinação de leis: Recurso Extraordinário n° 596.152/SP

EMENTA: Recurso Extraordinário. Constitucional. Penal. Tráfico de en-


torpecentes. Causa de diminuição de pena, instituída pelo § 4º do art. 33 da
lei 11.343/2006. Figura do pequeno traficante. Projeção da garantia da indivi-
dualização da pena (inciso XLVI do art. 5º da CF/88). Conflito intertemporal
de leis penais. Aplicação aos condenados sob a vigência da lei 6.368/1976.
Possibilidade. Princípio da retroatividade da lei penal mais benéfica (inciso XL
do art. 5º da carta magna). Máxima eficácia da Constituição. Retroatividade
alusiva à norma Jurídico-positiva. Ineditismo da minorante. Ausência de Con-
traposição à normação anterior. Combinação de Leis. Inocorrência. Empate na
votação. Decisão mais Favorável ao recorrido. Recurso desprovido.

1. A regra constitucional de retroação da lei penal mais benéfica (in-


ciso XL do art. 5º) é exigente de interpretação elástica ou tecnica-
mente “generosa”.
2. Para conferir o máximo de eficácia ao inciso XL do seu art. 5º, a
Constituição não se refere à lei penal como um todo unitário de
normas jurídicas, mas se reporta, isto sim, a cada norma que se vei-
cule por dispositivo embutido em qualquer diploma legal. Com o
que a retroatividade benigna opera de pronto, não por mérito da lei
em que inserida a regra penal mais favorável, porém por mérito da
Constituição mesma. (...).

CASO PARA LEITURA OBRIGATÓRIA E FICHAMENTO: RHC 81.453 – STF

O acusado foi processado por crime de atentado violento ao pudor, que consiste
em constranger alguém mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou permitir
que com ele se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal (crime hoje não
mais previsto no Código Penal, pois agora está englobado no crime de estupro).

FGV DIREITO RIO 43


CRIME E SOCIEDADE

Os fatos do caso são, resumidamente, que os atos foram praticados durante


3 anos contra crianças de 6 anos.

O acusado foi absolvido em primeira instância, mas o Ministério Público


que fez a denúncia, inconformado, apelou. O Tribunal de Justiça de São Paulo
proveu parcialmente a apelação, condenando o acusado por atentado violento
ao pudor em continuidade delitiva, ou seja, o mesmo crime foi praticado várias
vezes por um longo prazo de tempo (art. 214 c/c art. 224 e art. 71, todos do
CP) fixando a pena em 10 (dez) anos e 6 (seis) meses de reclusão.

O advogado de defesa entrou com a revisão criminal, para anular a con-


denação, a qual foi indeferida pelo TJ-SP. Posteriormente, impetrou Habeas
Corpus com o mesmo objetivo, o qual foi indeferido pelo STJ.

Assim, em mais uma tentativa de reverter a condenação, foi impetrado


Recurso Ordinário de Habeas Corpus perante o STF, tendo a defesa do acu-
sado alegado que; (a) houve conflito de leis no tempo (Lei dos Crimes He-
diondos x Estatuto da Criança e do Adolescente), afirmando que a lei penal
não retroagirá salvo para beneficiar o réu e Lei dos Crimes Hediondos que foi
aplicada é pior para o réu; e (b) os fatos ocorreram em 1990, 1991 e 1992,
em dias e meses incertos, não se sabe se antes ou depois da edição das Leis
8.072/90 (Lei dos crimes hediondos) e 8.069/90 (ECA), trazendo a discus-
são de qual lei deveria ser aplicada.

Para entender melhor a situação deve-se ter em mente o seguinte pano-


rama de sucessão das leis relevantes ao caso. No início de 1990 é editado o
ECA que entra em vigor no final de 1990 e acrescenta um agravante ao cri-
me (se praticado contra menor, pena: 03-09 anos). Contudo, antes dessa lei
entrar em vigor, a Lei de Crimes Hediondos entra em vigor e altera a pena
do caput para de 06-10 anos. Desta forma, a pena do caput era maior que
a do agravante. Para mitigar a situação, em 1996 foi publicada uma lei que
revogou o agravante (observar tabela).

Questão jurídicas a serem enfrentadas:

1) Quando uma norma ingressa no “mundo jurídico”? Ela pode ser revoga-
da, antes de entrar em vigor?
2) É possível a revogação implícita da lei penal? É possível a revogação implí-
cita da lei penal gerando piora na situação jurídico-penal do réu?
3) Há retroatividade in malan partem no caso concreto? Houve violação ao
Princípio da Irretroatividade?
4) O Poder Judiciário pode violar o princípio da Irretroatividade em nome
da “coerência legislativa”? e da Justiça?

FGV DIREITO RIO 44


CRIME E SOCIEDADE

BLOCO III — TEORIA DO CRIME

AULA 09: TEORIA DO CRIME

Classificação dos Crimes: crime de dano/lesão e de perigo (abstrato/


presumido e concreto); crime material, formal e de mera conduta; crime
comum, próprio e de mão própria.

LEITURA OBRIGATÓRIA E FICHAMENTO:

Os alunos devem se dividir em 4 grupos para lerem, separadamente,


votos dos Ministros do STF. A leitura da Ementa, Relatório e Certidão
de Julgamento é obrigatória para todos os grupos.

• Recurso Ordinário em Habeas Corpus nº 81.057 e Recurso Or-


dinário em Habeas Corpus nº 90.197, ambos do Supremo Tri-
bunal Federal.

o Grupo A: Recurso Ordinário em Habeas Corpus nº 81.057


o Grupo B: Recurso Ordinário em Habeas Corpus nº 90.197

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral.


Vol. 1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 205-215, Capítulo
XIII — Conceito de crime.

NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de direito penal: parte geral e par-


te especial. 4ª Ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2008, pgs. 158-176, Capítulo XII — Crime.

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, pgs. 135-145, Capítulo 20 (não abrange o tema da
classificação dos crimes).

FGV DIREITO RIO 45


CRIME E SOCIEDADE

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA SOBRE CLASSIFICAÇÃO DOS CRIMES/TIPOS


PENAIS:

ROXIN, Claus. Derecho penal: parte general. Tomo I. Fundamentos. La es-


tructura de la teoria del delito. 2ª Ed. Trad.: Diego-Manuel Luzon Peña
et. al. Madrid: Editorial Civitas, 1997, pgs. 327-341, Clases de tipos.

INTRODUÇÃO

A teoria do crime é o núcleo dogmático do direito penal. Toda a história


científica do direito penal gira em torno da discussão sobre a teoria do delito,
mais precisamente sobre os elementos que a compõe e o seu alcance. Toma-
remos por objeto de estudo o conceito analítico de crime, mostrando sua
utilidade e pontuando seus elementos. Para entender o que é crime, entre-
tanto, é preciso saber que tipos de crimes existem, e por isso será apresentada
a classificação de crimes.

CONCEITO ANALÍTICO DE CRIME

O crime é uma ação ou omissão humana, típica, antijurídica e culpável.


Essa é uma das máximas do direito penal que corresponde ao conceito analí-
tico de crime, que remonta ao modelo clássico Liszt-Beling-Radbruch. Mas
por que conceituar o delito dessa maneira e não de outra?

Muitas foram as respostas já oferecidas sobre o que seria o crime, dentre as


quais se destacam: a ação ou omissão proibida por lei, sob a ameaça de pena
(conceito formal); ou a ação ou omissão que contraria valores ou interesses
do corpo social, exigindo sua proibição com ameaça de pena (conceito ma-
terial). Esses conceitos, entretanto, não ajudam em nada a tarefa de verificar
no mundo dos fatos se determinadas condutas podem ou não serem conside-
radas crime. Basta pensar que crime seria simplesmente, no conceito formal,
o que a lei diz que é ou ainda, com base no conceito material, aquilo que a
sociedade considera crime.

Exatamente com o intuito de permitir essa verificação foi criado um con-


ceito que implicasse numa análise sistemática do delito, dividindo-o em ele-
mentos dispostos em ordem de avaliação. Esses elementos são as característi-
cas essenciais que todo o crime deve ter para ser considerado como tal. Eles
podem ser dispostos segundo algumas perguntas direcionadas ao fato, sem o
qual não se verifica o crime:

FGV DIREITO RIO 46


CRIME E SOCIEDADE

a) Houve alguma conduta humana?


b) Essa conduta é individualizada em algum tipo penal (algum dos
crimes previstos pela legislação penal)?
c) Essa conduta individualizada em algum tipo penal é antijurídica
(não possui alguma causa de justificação, ex. legítima defesa)?
d) Essa conduta individualizada em algum tipo penal e que não possui
nenhuma causa de justificação, é imputável ao agente/reprovável ao
autor?

Assim, se não houver conduta, não há que se perguntar se o fato é típico.


Se o fato não é previsto em lei como crime não há que justificá-lo, e assim
por diante. Esse é um conceito que vai da conduta (ação, típica e antijurídi-
ca — que formam o injusto penal) ao autor (culpabilidade — que se refere
à reprovabilidade da conduta do agente). Conforme ensina a doutrina (ver
nesses termos: ZAFFARONI, Eugênio Raúl; PIERANGELI, José Henrique.
Manual de Direito Penal brasileiro: parte geral. 7. ed. rev. e atual. São Paulo:
RT, 2007, p.340-341):

Delito é uma conduta humana individualizada mediante dispositi-


vo legal (tipo) que revela sua proibição (típica), que por não estar per-
mitida por nenhum preceito jurídico (causa de justificação) é contrária
à ordem jurídica (antijurídica) e que, por ser exigível do autor que agis-
se de maneira diversa diante das circunstâncias, é reprovável (culpável).

CLASSIFICAÇÃO DOS CRIMES

Crime e Contravenção

Crime e contravenção penal são espécies do gênero infração penal. Crime


é conduta considerada mais grave, prevista na parte especial do Código Penal
e em leis esparsas e que prevê como modalidades de pena privativa de liberda-
de, a reclusão e a detenção. As contravenções são consideradas menos graves
(ex. explorar jogo do bicho), estão previstas no Decreto-lei n° 3.914/41, e
que prevê a pena privativa de liberdade na forma de prisão simples.

De dano e de perigo

O crime é de dano quando se verifica a lesão efetiva ao bem jurídico tute-


lado (ex. lesão corporal). Crime de perigo é aquele em que apenas se configu-
ra uma potencialidade lesiva, ou seja, a criação de uma situação que coloque
o bem jurídico em risco.

FGV DIREITO RIO 47


CRIME E SOCIEDADE

Os crimes de perigo se subdividem em perigo abstrato (ou presumido) e


concreto. Os de perigo abstrato presumem a potencialidade lesiva da con-
duta, não sendo preciso provar o efetivo risco ao bem jurídico (ex. dirigir
embriagado). Os de perigo concreto exigem a comprovação de efetiva co-
locação em risco do bem jurídico (ex. crime de incêndio — art.250 do CP,
que prevê expressamente a exposição a perigo da vida, integridade física e
patrimônio de outrem).

Material, formal e de mera conduta

Para diferenciar o crime material do formal e de mera conduta é preciso


observar o resultado. No crime material o resultado integra o tipo penal, ou
seja, para se configurar o crime é necessário que ocorra uma determinada
mudança no mundo natural. Para que se configure o homicídio é preciso que
a vítima tenha efetivamente morrido. A ação e o resultado são distinguíveis
no tempo, subsistindo em caso de não ocorrência do resultado a tentativa.

No crime formal, embora preveja resultado, basta a ação para que o crime
se consume (ou seja, para que a conduta possa ser juridicamente considerada
crime, se torne definitivo), como no caso da ameaça. Já os de mera conduta
são aqueles que o legislador prevê somente a ação, como no caso da violação
do domicílio e da desobediência.

Comum, próprio e de mão própria

O critério de aferição para essa classificação é o sujeito ativo do crime.


No crime comum o sujeito ativo pode ser qualquer pessoa (ex. roubo ou
lesão corporal). O crime próprio exige uma qualidade especial do agente, por
exemplo, ser funcionário público, como no crime de peculato (art. 312 do
CP). Já o crime de mão própria é aquele que só pode ser cometido pelo agen-
te em pessoa, sem a possibilidade de ser cometido por intermediários (ex.
falso testemunho). Diferencia-se do crime próprio, uma vez que qualquer
pessoa, desde que por si mesma, pode cometer o crime.

FGV DIREITO RIO 48


CRIME E SOCIEDADE

AULA 10: FATO TÍPICO I. TEORIA DA CONDUTA. AÇÃO E OMISSÃO


PENALMENTE RELEVANTE.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba:


ICPC; Lumen Juris, 2006, pgs. 81-101, Capítulo 6.

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, pgs. 147-154, Capítulo 21.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral.


Vol. 1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 216-241, Capítulo XIV e XV.

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA

ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Derecho Penal: Parte General. Buenos Ai-


res: Ediar, 2002, Capítulo XI — La acción como carácter genérico del delito
— pgs. 399-429.

TEORIA DA CONDUTA

Parte fundamental do conceito analítico de crime é a teoria da conduta. É


investigando a definição da ação que se chegou aos principais modelos da teo-
ria do delito (causalismo, finalismo e funcionalismo). Não cabe refazer toda a
história dessa teoria, mas apenas pontuar o principal momento de mudança de
perspectiva sobre o conceito de ação da qual ainda somos herdeiros, que é repre-
sentada pela passagem do causalismo ao finalismo (para um panorama geral das
teorias da conduta e sua evolução ver: CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direi-
to Penal: parte geral. Curitiba: ICPC; Lumen Juris, 2006, pgs. 81-96, Capítulo
6 e BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral.
Vol. 1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 216-228, Capítulo XIV e XV).

O causalismo, defendido por Liszt e Beling, definia ação como produ-


ção de um resultado no mundo exterior por um comportamento humano
voluntário. É um conceito mecanicista influenciado pelas ciências naturais
que concebia a ação de modo puramente objetivo. Vontade, nesse sentido,
equivalia à mera consciência.

FGV DIREITO RIO 49


CRIME E SOCIEDADE

Foi Welzel quem, opondo-se a essa teoria, criou o conceito final de ação,
segundo o qual ação é exercício de atividade final. Assim, o plano do agente
(a intenção) tornou-se fundamental para caracterizar a ação, como vontade
que dirige o acontecimento causal. Nas palavras de Welzel, “a finalidade é
vidente, a causalidade é cega”. Assim, a ação ganha uma dimensão de finali-
dade: previsão do resultado, escolha dos meios de execução e ação concreta
no sentido de realizar esse fim.

Mas por que se dedicar a especulação filosófica do que seria a ação? Os pe-
nalistas queriam com isso unificar em uma definição todas as condutas penal-
mente relevantes, englobando ação e omissão (hipótese em que o direito penal
pune um não fazer do sujeito). Pretendiam também fundamentar o delito a
partir de um elemento básico que pudesse conectar o conceito de crime com
um dado real, a ação humana. Planejavam, ainda, delimitar a ação humana,
excluindo determinados fatos que não poderiam ser atribuídos a pessoa.

AÇÃO E OMISSÃO PENALMENTE RELEVANTE

Para efeitos práticos, entretanto, existem na verdade determinadas con-


dutas puníveis eleitas como crime, ações que o direito penal dá um significa-
do através do tipo penal (descrição legal do fato punível, ex. furto, homicí-
dio, roubo), prevendo uma determinada pena como sanção. Essas condutas
configuram a ação e omissão penalmente relevante, constituindo as demais
ações, indiferentes penais próprios da reserva legal como espaço de liberdade
que deve ser garantido ao indivíduo.

Portanto, quatro são as perguntas fundamentais: quem são os sujeitos da


ação? Quando não se verifica a ação? Qual a diferença entre ação e omissão?
Quais as espécies de omissão?

Os sujeitos da ação

O crime pressupõe um agente (chamado comumente de criminoso ou de-


linquente) e uma vítima. Aquele que realiza a conduta descrita no tipo penal é
o sujeito ativo, chamado de indiciado (quando ainda da investigação policial),
réu (quando responde a processo), condenado (depois da sentença condenató-
ria) ou preso (quando está cumprindo a pena). O sujeito passivo é aquele que
sofre a ação do agente, o titular do bem jurídico ofendido, que pode ser tanto
uma pessoa física quanto o próprio Estado (no caso, por exemplo, dos crimes
contra a administração pública) ou ainda uma determinada coletividade (cri-
mes contra a organização do trabalho, o consumidor, a saúde pública).

FGV DIREITO RIO 50


CRIME E SOCIEDADE

Ausência de conduta

Existem hipóteses em que, ainda que exista uma determinada modificação


no mundo, o indivíduo atua como mero instrumento, sem vontade ou qual-
quer consciência sobre o fato. Essas hipóteses configuram ausência de ação e
são as seguintes:

a) Coação física irresistível — nesse caso o indivíduo tem seu corpo


utilizado como instrumento, mera massa mecânica dirigida pela
vontade de outra pessoa que deu causa ao fato;
b) Movimentos reflexos — atos reflexos que não dependem da vonta-
de do indivíduo, como a reação ao encostar numa superfície muito
quente;
c) Estados de inconsciência — como o sonambulismo, hipnose e em-
briaguez absoluta involuntária.

Diferença entre ação e omissão

A principal diferença entre ação e omissão se encontra no comando que se


extrai da norma. Os crimes de ação exigem uma abstenção do agente (“não
matar”), se extraindo da norma uma proibição. Nos crimes omissivos o que
se extrai da norma é a obrigação de evitar o resultado lesivo (“omitir socor-
ro”), ou seja, não fazer o que a norma manda.

Se na ação o direito penal pretende evitar que se pratiquem condutas


que afetem negativamente outras pessoas, na omissão quer resguardar um
determinado sentido de solidariedade social, de responsabilidade compar-
tilhada. Não é, entretanto, qualquer omissão que configura crime, devendo
estar reunido pelo menos três pressupostos essenciais: a abstenção do agente
(não se pune quem tenta evitar o resultado); que o resultado pudesse ter sido
evitado; e que tenha surgido de alguma forma a obrigação de agir (efetivo
conhecimento da situação).

Omissão própria e imprópria

A omissão pode ser própria ou imprópria. Um critério para fácil diferen-


ciação entre ambas é sua localização na lei penal. A omissão própria é prevista
em determinados tipos penais (art.135 — omissão de socorro, art.244 —
abandono material), enquanto a omissão imprópria é prevista na parte geral
(art.13, §2° do CP). Isso ocorre porque a omissão própria (dever genérico
de agir) é um dever de agir que surge de um tipo penal específico (omissão

FGV DIREITO RIO 51


CRIME E SOCIEDADE

de socorro), que cria uma imposição normativa genérica (todos aqueles que
omitirem socorro são puníveis, bastando a mera abstenção) e que somente
pode ser cometido por omissão (o próprio tipo contém a palavra “omissão”
ou forma equivalente como “deixar de”). Já a omissão imprópria (dever es-
pecial de agir), também chamada de crime comissivo por omissão, é uma
maneira de cometer o crime (que poderia ser cometido por meio de uma ação
positiva, por exemplo, “matar alguém”) não evitando o resultado que podia
ou devia evitar segundo uma obrigação (posição de garantidor, ex. bombeiro
salva-vidas) que pode surgir de uma situação concreta (afogamento de ba-
nhista) prevista em qualquer tipo penal que descreva um crime de resultado.

A omissão própria é caracterizada segundo o tipo penal, por exemplo,


para configurar a omissão de socorro é preciso a situação de emergência, a
não prestação de socorro e que o sujeito ativo tenha reconhecido de alguma
forma essa situação. Excluída a responsabilidade penal se havia risco pessoal
ou caso tenha pedido socorro a autoridade pública.

Já a omissão imprópria possui o critério especial da posição de garanti-


dor. Assim, o indivíduo, além de conhecer a situação e poder agir (possi-
bilidade física), o resultado deveria ser evitável se tivesse agido (por exem-
plo, se não socorreu banhista que se encontrava a uma distância que seria
impossível chegar nadando), além de ter o dever de impedir o resultado
(posição de garantidor).

A posição de garantidor surge do dever de agir que a norma impõe, a par-


tir do qual o indivíduo passa a ter uma especial relação de proteção ao bem
jurídico. Conforme previsto no próprio Código Penal (art.13, §2°, a, b e c),
tem o dever de agir quem:

a) Tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância (ex. mé-


dico em relação ao paciente, pais em relação aos filhos);
b) De outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado
(ex. obrigação contratual, como no caso de segurança particular);
c) Com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do
resultado (ex. pessoa que ajuda velinha a atravessar faixa de pedestre
e a abandona no meio da travessia) — se aplica tanto a quem cria a
situação de risco quanto a quem de alguma forma agrava essa situa-
ção, concorrendo para o resultado.

Relação de Causalidade.

FGV DIREITO RIO 52


CRIME E SOCIEDADE

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba:


ICPC; Lumen Juris, 2006, pgs. 117-131, Capítulo 8 — O tipo de
injusto doloso de ação (Tipo objetivo).

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, pgs. 213-226, Capítulos 25 — Relação de causalidade.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral.


Vol. 1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 242-253, Capítulos
XVI — Relação de causalidade.

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA

ROXIN, Claus. Derecho penal: parte general. Tomo I. Fundamentos. La


estructura de la teoria del delito. 2ª Ed. Trad.: Diego-Manuel Luzon
Peña et. al. Madrid: Editorial Civitas, 1997, pgs. 342-402 — La
imputación al tipo objetivo.

RELAÇÃO DE CAUSALIDADE

O principal critério objetivo para aferição da responsabilidade penal


(imputação) é o nexo de causalidade entre a ação do agente e o resulta-
do produzido. Isso porque uma vontade não exteriorizada ou uma ação
que não contribui de alguma forma para um dano ao bem jurídico é
um indiferente penal. O Código adota a teoria da equivalência das con-
dições (art.13, caput, do CP), ou seja, para estabelecer o nexo causal é
preciso analisar se o resultado foi efetivamente consequência da ação do
agente. Como prevê um resultado, essa regra se aplica somente aos cri-
mes materiais (em oposição aos crimes formais, conforme visto acima),
por força da própria interpretação da lei “o resultado, de que depende a
existência do crime...”.

Mas como se estabelece essa relação de causalidade? Por meio de um


juízo hipotético de exclusão da ação para verificar se ela é uma condi-
ção sem a qual (conditio sine qua non) permanece o resultado ou não. A
pergunta fundamental é: eliminada a conduta, permanece o resultado?

FGV DIREITO RIO 53


CRIME E SOCIEDADE

Esse juízo hipotético por si só, porém, não oferece resposta definitiva,
uma vez que se pensarmos nas quantidades de condições que determinam
um crime, o regresso seria infinito. Seria responsável por um homicí-
dio cometido por meio de arma de fogo não só o agente, mas quem lhe
vendeu a arma, produziu o revólver... Portanto, esse juízo deve levar em
conta o elemento subjetivo, a vontade do agente, ou seja, a possibilidade
de previsão do resultado e um agir ao menos com culpa.

Além da limitação subjetiva, o fato pode estar atrelado a um evento


em que concorrem mais de um causa (concausas), razão pela qual deve
ser estabelecida qual a causa eficiente para a produção do resultado (que
por si só produziu o resultado). Quando da análise de uma conduta deve
ser observado se existe algum outro fato que interviu no processo causal
para poder se estabelecer corretamente a imputação pelo resultado. Esse
fato pode ocorrer antes (concausa antecedente), durante (concausa con-
comitante), ou depois (concausa superveniente) da conduta, segundo o
tempo entre as causas.

A intervenção de outra causa no curso desse processo causal pode


interromper, anulando os efeitos da conduta do agente (causa absoluta-
mente independente) ou se somar a ela na produção do resultado (causa
relativamente independente), segundo a natureza da relação entre as cau-
sas. Por exemplo, se A envenena B e este, antes do veneno fazer efeito,
morre num acidente de carro, a causa superveniente (o acidente de carro
ocorrido posteriormente ao envenenamento) é absolutamente indepen-
dente, não respondendo A pelo resultado “morte” (homicídio consuma-
do). Se na mesma situação, B perde o controle do carro por efeito do ve-
neno (perda parcial da habilidade), o envenenamento contribui (embora
não determine) o resultado morte, razão pela qual configura uma causa
relativamente independente.

Mas qual a regra, o efeito, que se extrai dessa construção doutrinária?


Essa regra serve para determinar a responsabilidade penal do agente. Assim,
nas causas absolutamente independentes (sejam elas antecedentes, conco-
mitantes ou supervenientes) o agente não responde pelo resultado, poden-
do responder pela tentativa. A tentativa será vista mais tarde, mas é carac-
terizada quando embora o agente tenha a intenção de matar, circunstâncias
alheias (fora do seu domínio) impedem o resultado (art.14, II, do CP).

Nas causas relativamente independentes, o agente responde pelo crime


consumado (art.14, I, do CP). A exceção é expressa pelo art. 13, §2°, do CP.

FGV DIREITO RIO 54


CRIME E SOCIEDADE

Quando uma causa superveniente relativamente independente causa por


si só o resultado, o agente só responde pelos fatos anteriores, não pelo
resultado. O exemplo doutrinário clássico é da morte de alguém ferido
por outrem, que no caminho para o hospital morre devido a um acidente
com a ambulância. Nesse caso, o fato de o ferido estar na ambulância é
atribuível ao agente (relativamente independente), mas a causa que con-
corre e determina a morte não está na esfera de domínio do agente (Za-
ffaroni), causando a morte por si só, o que, portanto, exclui a responsa-
bilidade pelo resultado. Diferente, portanto, do caso do envenenamento,
em que a perda do controle do carro pela vítima se deu por conta da ação
anterior do agente.

FGV DIREITO RIO 55


CRIME E SOCIEDADE

AULA 11: FATO TÍPICO II

Tipo Subjetivo. Dolo e Culpa.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba: ICPC;
Lumen Juris, 2006, (Dolo) pgs. 131-148, Capítulo 8, III. Tipo subjeti-
vo; (Culpa) 165-196, Capítulo 9.

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, pgs. 183-212, Capítulos 23 e 34.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral.


Vol. 1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 264-292, Capítulos
XVIII e XIX.

NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de direito penal: parte geral e parte


especial. 4ª Ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tri-
bunais, 2008, pgs. 217-232, Capítulo XIV — Elementos subjetivos do
crime: dolo e culpa.

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA:

ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Derecho Penal: Parte General. Buenos Ai-


res: Ediar, 2002, Capítulo XIII, pgs. 455-463, Capítulo XIV, XV e
XVI, 483570.

FATO TÍPICO

Como dito anteriormente, a ação penalmente relevante é aquela que se


encontra descrita no tipo penal. Segundo Cezar Roberto Bitencourt, “o tipo
penal implica uma seleção de comportamentos e, ao mesmo tempo, uma
valoração (o típico já é penalmente relevante)”.

Mas o que é o tipo penal? Tipo penal é a descrição que a lei faz da
conduta proibida, indicando quais fatos devem ser considerados crimes.

FGV DIREITO RIO 56


CRIME E SOCIEDADE

Da conformidade entre o fato praticado pelo agente e o fato descrito na


norma penal (tipicidade), surge o fato típico. Essa operação intelectual
de verificação é feita por meio do juízo de tipicidade, ou seja, da consta-
tação da presença dos elementos necessários para que uma conduta seja
considerada típica.

Qual a função do tipo penal?

É o tipo penal que demarca o campo do que é lícito (permitido) e


ilícito (proibido), individualizando e limitando os fatos puníveis aqueles
descritos na lei penal (tipicidade formal), ou seja, é o elemento da teoria
do delito que expressa o princípio da legalidade. Exerce, portanto, impor-
tante função de garantia, de limitação das possibilidades de intervenção
do poder punitivo. Permite ainda a identificação do bem jurídico pro-
tegido, ou seja, o valor que o direito penal busca tutelar. Com isso pos-
sibilita a aferição da lesão ao bem jurídico no caso concreto (tipicidade
material), excluindo a tipicidade das condutas insignificantes.

Quais elementos integram o tipo?

Integram o tipo o elemento objetivo, a descrição da conduta (“matar


alguém”), e o elemento subjetivo, pressuposto geral da vontade do agente
em praticar a conduta descrita (a intenção de matar).

Integram ainda o tipo os elementos normativos, que não descrevem


objetivamente uma conduta, exigindo um juízo de valor acerca de seu
significado, como por exemplo, a expressão “indevidamente” na violação
de correspondência (art.151 do CP — “devassar indevidamente o con-
teúdo de correspondência fechada, dirigida a outrem”). A interpretação
dos elementos normativos não se esgota na leitura do tipo (é, portanto,
um tipo aberto, em oposição ao tipo fechado), uma vez que requer do in-
térprete o conhecimento da definição jurídica de determinada expressão,
no presente caso o conhecimento da expressão “indevidamente” fora das
situações em que a lei permite devassar a correspondência.

Existem situações, entretanto, que o tipo faz menção a expressões que


não possuem definição jurídica exata, como “obsceno” no crime de ato
obsceno (art. 233, do CP), o que requer um juízo de valor essencialmente
moral por parte do juiz. Nessas situações a taxatividade do tipo penal (co-
rolário do princípio da legalidade) fica comprometida pela forma adotada
pelo legislador, devendo o juiz interpretar restritivamente o tipo.

FGV DIREITO RIO 57


CRIME E SOCIEDADE

TIPO OBJETIVO

O tipo penal pode ser divido em tipo objetivo e tipo subjetivo. O tipo ob-
jetivo é aquele que descreve a conduta, da qual pode se inferir o autor (quem
pode praticar o crime), a ação ou omissão (o que praticou), o resultado (a
consequência dessa prática) e a relação de causalidade (o nexo entre a ação e
o resultado dessa prática). O núcleo do tipo é o verbo que expressa a conduta
proibida (ex. “matar”).

Além da conduta principal prevista no caput dos tipos penais (ex. “matar al-
guém”, art. 121 do CP), existem circunstâncias, motivos e modos de execução
que podem se somar a conduta principal do agente. O essencial é o crime previsto
na sua forma básica (ex. homicídio simples, art.121, caput, do CP), que por si só
já configura o crime. As circunstâncias que se somam ao tipo básico são acessórias,
pois não excluem a responsabilidade penal, podendo somente mudar a escala da
pena (tipo qualificado — ex. homicídio qualificado — art.121, §2°, do CP —
que muda a escala penal de 6 a 20 anos para 12 a 30 anos) ou prever causas de au-
mento ou diminuição de pena (que adicionam ou diminuem determinada fração
a pena prevista no tipo base, ex. diminuição de 1/3 a 1/6 em caso de homicídio
cometido por relevante valor social ou moral — art.121, §1°, do CP).

O tipo objetivo se refere, portanto, àquelas circunstâncias essenciais para


que uma conduta possa ser considerada penalmente típica.

TIPO SUBJETIVO

O tipo subjetivo se refere ao elemento de vontade, o querer realizar a


conduta descrita no tipo objetivo. A vontade não é um elemento descrito no
tipo penal, uma vez que é um pressuposto geral de qualquer delito. O que é
expresso no tipo são os elementos subjetivos especiais (especial fim de agir,
por exemplo, “para si ou para outrem” no furto) presentes em determinados
tipos penais e a responsabilidade penal por culpa, punível somente quando
expressamente previstos em lei (art.18, parágrafo único, do CP). O tipo sub-
jetivo, portanto, contempla o dolo e a culpa.

DOLO

Elementos do dolo: conhecimento e vontade

Dolo é a vontade consciente de realizar o tipo objetivo. O dolo pressupõe


conhecimento e vontade. Conhecimento efetivo das circunstâncias de fato do

FGV DIREITO RIO 58


CRIME E SOCIEDADE

tipo objetivo, que implica um saber atual ao momento da prática do crime que
abrange todos os elementos essenciais do tipo (como a vítima, o meio empre-
gado e a previsão do resultado). É a representação mental desses elementos.

A vontade é o querer realizar o tipo objetivo, é a disposição interna, o


ânimo, que quer diretamente (dolo direto) ou ao menos consente na produ-
ção do resultado lesivo (dolo eventual). Nos termos da lei penal, “quando o
agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo” (art.18, I, do CP).

Elementos subjetivos especiais do tipo

Existem alguns tipos penais que além da vontade geral (dolo) que caracte-
riza todo tipo penal, exigem elementos subjetivos especiais, distintos do dolo,
que exigem um especial fim de agir para que o tipo penal seja caracterizado.
Por exemplo, não basta a subtração de coisa alheira móvel para caracterizar o
furto, mas também uma intenção de apropriação do bem.

Espécies de dolo

O dolo pode ser, conforme classificação de Juarez Cirino dos Santos: a)


direto, de primeiro ou segundo grau; b) indireto (ou eventual).

O dolo direto de primeiro grau é aquele em que há uma pretensão de


realizar o fato típico, uma simetria entre o querer, o meio empregado e o fim
atingido. A dispara arma de fogo para matar B.

O dolo de segundo grau (ou de consequências necessárias) é aquele em


que, embora o agente queira um resultado específico (ex. A queira matar B),
os meios utilizados extrapolam essa finalidade, gerando como consequência
necessária lesão a bem jurídico de terceiros (ex. explodir avião para matar um
inimigo gerando a morte dos demais passageiros).

O dolo indireto, ou eventual, é aquele em que o autor não almeja o re-


sultado, mas assume com seu comportamento o risco de produzi-lo. O dolo
eventual será melhor tratado a seguir, quando da análise do limite entre dolo
(eventual) e culpa (consciente).

CULPA

O direito penal prevê, além do dolo, uma responsabilidade excepcional


por culpa (princípio da excepcionalidade dos crimes culposos). Enquanto a

FGV DIREITO RIO 59


CRIME E SOCIEDADE

responsabilidade do dolo é genérica, presente implicitamente em todo tipo


penal, a culpa é subsidiária, estando expressamente prevista nos tipos penais
que a admitem (ex. art. 121, §3°, do CP — homicídio culposo).

O crime é atribuído ao agente como como resultado de uma imprudência,


negligência ou imperícia (art.18, II, do CP), violando assim um dever de
cuidado objetivo. Ao contrário do tipo doloso, no tipo culposo o agente não
quis o resultado. O resultado ocorre pela falta de diligência do agente, que
deveria ter previsto as possíveis consequências de sua conduta.

Com isso o direito quer incutir um dever de cuidado, a prudência ne-


cessária para agir num contexto social. O princípio da confiança estabe-
lece uma expectativa recíproca de comportamentos conforme o dever de
cuidado. No trânsito de veículos, por exemplo, a direção, embora atenta
e defensiva, conta com o respeito as normas de circulação como: a ultra-
passagem à esquerda e a circulação do lado direito. Daí porque o resultado
lesivo (atropelamento, colisão) decorrente do desrespeito a essas normas
possa gerar responsabilidade penal.

Elementos da culpa

Para configurar a culpa é preciso:

a) Uma ação ou omissão humana voluntária;


b) um resultado lesivo para o bem jurídico;
c) um nexo de causalidade que ligue a ação ao resultado;
d) previsibilidade: a possibilidade de previsão desse resultado — a im-
previsibilidade do resultado exclui a culpa (situações extraordinárias,
ex. pessoa que se joga numa pista de alta velocidade e é atropelada).
A previsibilidade é objetiva, feita a partir de um juízo comparativo
em que se pergunta: “na situação concreta do agente era possível
prever o resultado?”;
e) a inobservância do dever objetivo de cuidado — o agente não
age com a cautela devida por imprudência (conduta arriscada), ne-
gligência (falta de atenção, displicência) ou imperícia (falta de ha-
bilidade no exercício de profissão, arte ou ofício). Deve, portanto,
agir de forma a reconhecer o perigo, levando em consideração as
possíveis consequências de sua conduta, se abstendo de agir ou agin-
do com a precaução necessária quando essa ação implicar perigo de
lesão à bem jurídico;
f) tipicidade: o que o agente fez deve corresponder a uma conduta
proibida pela lei penal (ex.: art. 129 do Código Penal).

FGV DIREITO RIO 60


CRIME E SOCIEDADE

Diferença entre culpa e culpabilidade

Embora sobre o mesmo nome, a culpa é espécie do tipo subjetivo (a ou-


tra é o dolo) em que se avalia a violação de um dever objetivo de cuidado
por parte do agente. A culpabilidade é a fase final de verificação analítica
do crime em que se avalia se é exigível ou não conduta diversa da praticada
e, portanto, no tipo de injusto culposo, onde se analisa as possibilidades de
agir com cautela por parte do agente (por exemplo: capacidade individual,
fatalidade do resultado).

Pela duplicidade gerada nessa nomenclatura, além da confusão leiga de


que a culpa é mais grave que o dolo, Juarez Cirino prefere adotar o termo
“imprudência”, entendendo que o tipo imprudente faz menção a necessidade
de violação do dever de cuidado, caracterizando melhor a conduta proibida
e abarcando as outras modalidades de culpa (negligência e imperícia, que
seriam também formas de imprudência).

Espécies de culpa

A culpa pode ser inconsciente ou consciente. Na culpa inconsciente o


agente não prevê resultado que era previsível, gerando um resultado de dano
fruto de uma conduta imprudente. Nesse caso, a censurabilidade da conduta
(valoração da quantidade de pena a ser aplicada) é menor.

Na culpa consciente o agente prevê o resultado, mas confia que pode


evitá-lo, não reconhecendo a imprudência de sua conduta. Nesse caso a cen-
surabilidade é maior. Por exemplo, motorista em alta velocidade (conduta
imprudente) que atropela vítima (resultado lesivo), avistada de longe (cons-
ciência), em faixa de pedestre em sinal vermelho (violação de dever de cuida-
do), confiando que com sua habilidade poderá desviar caso ela permaneça na
pista quando de sua passagem. Diferente seria se esse mesmo motorista não
visse o pedestre e, na mesma situação, o atropelasse. Nesse caso a culpa seria
inconsciente, porque embora não tenha visto a vítima (não previsão), deveria
ter previsto a possibilidade do resultado, já que atravessava sinal vermelho em
local com faixa de pedestre.

Dolo eventual e culpa consciente

Como visto anteriormente o crime é doloso não só quando o agente quer


o resultado, mas também quando assume o risco de produzi-lo. Nesse caso,
como diferenciar o dolo eventual da culpa consciente, já que em ambos existe
a previsão do resultado? O ponto de distinção é que no dolo eventual há uma

FGV DIREITO RIO 61


CRIME E SOCIEDADE

aceitação da possibilidade de produzir o resultado lesivo (indiferença quanto


à produção do resultado), enquanto na culpa consciente há uma rejeição des-
sa possibilidade (confiança de que o resultado não vai acontecer).

Outras questões relativas à culpa

A culpa pode ser ainda imprópria, quando o agente prevê e quer o re-
sultado, mas age em excesso ou em erro de tipo evitável na justificação da
conduta, ou seja, quando, por exemplo, em legítima defesa de furto espanca
o ladrão (excesso) ou quando pensa erroneamente que uma pessoa que passa
ao seu lado irá lhe roubar por alguma atitude que achou suspeita (erro de tipo
evitável). O excesso nas causas de justificação e o erro de tipo serão vistos em
seguida, na antijuridicidade e culpabilidade, respectivamente.

Existem determinados crimes em que o resultado da ação lesiva supera


o resultado que estava no plano do autor. Por exemplo, querendo praticar
lesão corporal com uma faca o agente acerta parte vital e causa a morte da
vítima (art.129, §3°, do CP — lesão corporal seguida de morte). Esses são
os chamados crimes qualificados pelo resultado, ou preterdolosos, em que
há uma combinação de dolo e culpa, porque o agente quis resultado menos
grave, mas com sua ação gerou resultado mais grave, ou seja, dolo no resul-
tado querido e culpa no resultado obtido. Para sua configuração eles devem
estar expressamente previstos como qualificadores nos tipos penais na parte
especial do código.

Em determinados casos pode haver concorrência de culpas, ou seja, que o


resultado lesivo seja consequência de duas ações imprudentes, por exemplo,
a colisão de dois carros em um cruzamento em que um dos motoristas se en-
contrava bêbado e em alta velocidade e o outro tenha atravessado o sinal ver-
melho. Nesse caso as culpas não se compensam, podendo o agente responder
pelo eventual resultado lesivo (ex. morte de motorista do outro carro).

FGV DIREITO RIO 62


CRIME E SOCIEDADE

AULAS 12, 13 e 14: ANTIJURIDICIDADE

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba: ICPC;
Lumen Juris, 2006, pgs. 217-238, Capítulo 11, I e II (a).

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, Capítulo 32, pgs. 307-313 (itens 1-6) e pgs. 332-
360 (item 8).

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral. Vol.


1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, Capítulo XX, pgs. 293-306 (itens
1-5), Capítulo XXI, 319-324 (item 6).

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA:

ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Derecho Penal: Parte General. Buenos Aires:


Ediar, 2002, Capítulo XIX, 609-631.

ANTIJURIDICIDADE

Vencida a análise da conduta e da tipicidade é avaliada a antijuridicidade.


Nessa etapa se verifica a contradição da ação típica com o ordenamento ju-
rídico como um todo. Isso ocorre porque um comportamento proibido pela
lei penal (ex. matar alguém) pode ser justificado por outra norma de caráter
permissivo (ex. matar em legítima defesa). Conforme dizia o jurista alemão
Max Ernst Mayer, a tipicidade é um indício de antijuridicidade, assim como
“onde há fumaça, deve haver fogo”. Nesse sentido, a antijuridicidade é en-
tendida como ausência de justificação de uma conduta típica.

O Código Penal trata a justificação como excludente de ilicitude (art.23, ca-


put, do CP). Ilicitude é sinônimo, para fins penais, de “antijuridicidade”. Justi-
ficação é uma permissão de atuar, em determinadas circunstâncias, de maneira
que a princípio (fora do contexto da ação) seria crime. Essas circunstâncias em
que não há crime (daí porque também são chamadas de descriminantes) são
as causas de justificação: estado de necessidade, legítima defesa, estrito cumpri-
mento do dever legal ou exercício regular de direito (art.23, I, II e III, do CP).

FGV DIREITO RIO 63


CRIME E SOCIEDADE

A doutrina, com base no direito comparado, na jurisprudência e na tra-


dição do pensamento penal afirma que as causas de justificação previstas no
código não são taxativas, ou seja, não esgotam a possibilidade de reconhe-
cimento de outras causas de justificação (causas supralegais de justificação).
A principal causa supralegal de justificação é o consentimento do ofendido.

Como dito anteriormente, a justificação é uma permissão de atuar excep-


cional. Por isso, quando o agente excede na sua conduta o necessário para
afastar o mal que lhe é causado, é passível de punição. Responde pelo excesso
por dolo ou culpa (art.23, parágrafo único, do CP).

Um didático método adotado por Juarez Cirino dos Santos e que serve de
base para analisar a seguir as justificações é a diferenciação entre: a) situação
justificante e b) ação justificada. A seguir será feita a análise pormenorizada
das causas de justificação, com a descrição dos elementos que a caracterizam
(e diferenciam) e o alcance dessas hipóteses.

LEGÍTIMA DEFESA

Existem determinadas situações que justificam a autotutela (defesa por


si mesmo) como forma de proteção individual em defesa de bem jurídico.
É intuitivo que submetido a uma violência o indivíduo não seja obrigado a
suportá-la, reagindo em defesa própria. Essa ideia básica está no cerne do que
se entende por legítima defesa.

Conforme o art.25, do CP: entende-se em legítima defesa (situação justi-


ficante) quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta
agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem (ação justificada).

Agressão não se confunde com provocação. Agressão injusta é aquela que


ofende um bem juridicamente tutelado e não encontra uma justificação, en-
sejando a reação do ofendido.

Por exemplo, a invasão de domicílio é uma agressão injusta, mas se torna


lícita quando em cumprimento de mandado judicial de busca e apreensão
para fins investigatórios (basta lembrar das espetaculares ações da polícia fe-
deral). Nesse caso, a ação da autoridade pública está justificada por ocorrer
em estrito cumprimento do dever legal.

Não se admiti a legítima defesa recíproca, ou seja, que o indivíduo que


agride injustamente possa alegar legítima defesa da agressão sofrida por pessoa

FGV DIREITO RIO 64


CRIME E SOCIEDADE

em legítima defesa. Diferente, entretanto, é o caso em que a pessoa que se


defende atua com excesso, o que torna a agressão injusta e permite a legítima
defesa por parte daquele que primeiro agrediu (legítima defesa sucessiva).

Essa agressão injusta, no entanto, deve ser atual (em curso) ou iminen-
te (prestes a acontecer). Quando postergada não configura legítima defesa,
mas vingança passível de punição. Não há possibilidade de legítima defesa
da honra (ex. pai que mata pessoa que estuprou a filha), situação que pode
apenas atenuar a culpabilidade do agente.

A lei prevê a possibilidade de legítima defesa de outrem, na proteção de


direito alheio. Deve, no entanto, essa proteção ser consentida pelo titular do
bem jurídico, a não ser nos casos em que o consentimento deve ser presumi-
do (ex. defesa de alguém que está sofrendo violência).

Os meios devem ser aqueles necessários para repelir a agressão e devem ser
usados moderadamente, podendo a escolha do meio (ex. arma de fogo) ou
o uso imoderado (ex. violência física) constituir excesso. Também se exige o
ânimo de defesa, que seria o elemento subjetivo da legítima defesa: conheci-
mento da agressão injusta e o propósito de se defender.

O excesso na legítima defesa decorre da desproporcionalidade da reação


como medida suficiente para impedir ou fazer cessar a agressão. Por exemplo,
atirar em quem invade propriedade para furtar frutas (defesa atual, mas despro-
porcional) ou ainda continuar desferindo socos após flagrante estado de impos-
sibilidade de reação da pessoa (ex. perda da consciência) que primeiro agrediu,
constituindo essa continuação excesso de legítima defesa passível de punição.

FGV DIREITO RIO 65


CRIME E SOCIEDADE

ESTADO DE NECESSIDADE.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba:


ICPC; Lumen Juris, 2006, pgs. 239-255, Capítulo 11, II (b).

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, pgs. 314-330 (item 7), Capítulo 32.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral. Vol. 1.


13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 311-318, Capítulo XXI (item 5).

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA

ROXIN, Claus. Derecho penal: parte general. Tomo I. Fundamentos. La


estructura de la teoria del delito. 2ª Ed. Trad.: Diego-Manuel Luzon
Peña et. al. Madrid: Editorial Civitas, 1997, pgs. 668-733 — Sección
4, §16 — El estado de necesidad justificante casos afines.

ESTADO DE NECESSIDADE

Qual a resposta do direito penal para uma situação de perigo em que


existe um conflito de interesses insuperável senão por meio de lesão a bem
jurídico? Essa situação é o estado de necessidade (art.23, I, do CP). O clás-
sico exemplo é o do naufrágio em que duas pessoas disputam uma tábua,
que suporta apenas uma, para não se afogarem.

O estado de necessidade pressupõe uma colisão de interesses (legítimos


à luz do direito) em que não se pode exigir o sacrifício do bem jurídico de
uma pessoa em detrimento da outra, pois isso seria ignorar o próprio ins-
tinto de sobrevivência comum do ser humano. O direito não pode exigir
ato de heroísmo que implique num sacrifício não razoável. Basta lembrar
da cena final do naufrágio do Titanic, em que Jack se sacrifica morrendo
congelado para salvar Rose, sua amada. Embora moralmente nobre, moti-
vado por ato extremo de amor, a atitude não pode ser juridicamente exigi-
da sob ameaça de pena.

FGV DIREITO RIO 66


CRIME E SOCIEDADE

A diferença entre a legítima defesa e o estado de necessidade é que:


“no estado de necessidade se faz necessário um meio lesivo para evitar um
mal maior, enquanto, na legítima defesa, o meio lesivo se faz necessário
para repelir uma agressão antijurídica” (ZAFFARONI, Eugênio Raúl;
PIERANGELI, José Henrique. Manual de Direito Penal brasileiro: parte
geral. 7. ed. rev. e atual. São Paulo: RT, 2007, p.499).

O principal critério para aferição do estado de necessidade é a avalia-


ção dos bens jurídicos em conflito. Quando em conflito bens jurídicos de
valores diferentes, o ordenamento jurídico permite o sacrifício daquele de
menor valor, por exemplo, quebrar parte de uma casa (patrimônio) para
salvar criança (vida) de um incêndio.

No caso de bens jurídicos de mesmo valor, por exemplo, a vida (como


no caso da tábua), o direito reconhece, sem manifestar preferência (já
que trata-se de bens jurídicos equivalentes), a solução dada pelo próprio
esforço das partes. A doutrina diverge quanto à natureza jurídica do afas-
tamento de responsabilidade penal nesse caso. A maioria, devido à teoria
unitária de estado de necessidade adotada pelo Código, entende que se
trata de uma excludente de antijuridicidade, ou seja, que mesmo no caso
de bens de mesmo valor há uma justificação da conduta. Uma parte mi-
noritária entende que nesse caso se trataria de uma excludente de culpa-
bilidade (teoria diferenciadora), diferenciando um estado de necessidade
justificante (para bens jurídicos de valores diferentes) de um estado de
necessidade exculpante (para bens jurídicos de mesmo valor).

Ainda que a situação de perigo não configure estado de necessidade


por faltar algum de seus requisitos, o Código Penal prevê a possibilidade
de diminuição de pena (art.24, §2°, do CP), quando seja razoável exigir-
-se o sacrifício de bem jurídico. Nesse caso, se o bem jurídico sacrificado
for de maior valor ou ainda, quando uma das pessoas tenha o dever legal
de atuar enfrentando o perigo (ex. bombeiro em incêndio), o sujeito, se
culpável (última etapa de verificação do conceito analítico de crime),
poderá ter a pena reduzida.

Conforme o art. 24, do CP: “Considera-se em estado de necessidade


quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua
vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo
sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se”.

Os requisitos para configuração do estado de necessidade são:

FGV DIREITO RIO 67


CRIME E SOCIEDADE

a) Existência de perigo atual (exclui perigo passado ou futuro), invo-


luntário (não causado dolosamente) e inevitável (sem outras for-
mas de evitar menos lesivas ao bem jurídico, excluindo o excesso);
b) Inexigibilidade razoável de sacrifício do bem ameaçado (ex. a
certeza da morte de quem se omite em salvar terceiro)
c) Para salvar (finalidade de salvar um bem — elemento subjetivo)
direito próprio ou alheio (como no caso da criança no incêndio)

Além dos requisitos positivos gerais, a lei penal trás como condição
pessoal negativa a ausência de dever legal de enfrentar o perigo (art.24
§1°, do CP). Esse dispositivo afasta a possibilidade daqueles que tem o
dever de enfrentar o perigo (ex. bombeiro em caso de incêndio, salva-
-vidas em caso de afogamento) de alegarem estado de necessidade. Essa
exclusão, no entanto, só alcança o enfrentamento de perigo inerente ao
exercício dessas atividades, em condições normais. Um bombeiro salva-
-vidas não pode alegar risco de afogamento para não salvar um banhista.
Diferente seria se, tentando salvá-la, não conseguisse, por força de cor-
renteza muito forte que lhe impõe optar entre morrer tentando resgatar
ou desistir para salvar-se. (para uma visão abrangente sobre as posições
especiais de dever, ver: CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal:
parte geral. Curitiba: ICPC; Lumen Juris, 2010, pgs. 245-250).

FGV DIREITO RIO 68


CRIME E SOCIEDADE

EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO E ESTRITO CUMPRIMENTO DO


DEVER LEGAL

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba: ICPC;
Lumen Juris, 2006, pgs. 255-269, Capítulo 11, itens C, D e E.

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, pgs. 360-369 (itens 9, 10 e 11), Capítulo 32.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral. Vol.


1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 308-309 e 324-327, Capítulo
XXI (itens 3 e 7).

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA

ROXIN, Claus. Derecho penal: parte general. Tomo I. Fundamentos. La es-


tructura de la teoria del delito. 2ª Ed. Trad.: Diego-Manuel Luzon Peña
et. al. Madrid: Editorial Civitas, 1997, pgs. 509-553 — Sección 3, §13
— El consentimiento.

EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO

Existem situações que se inserem em determinados contextos sociais (ex.


profissionais) em que todas as atividades dentro de um padrão são considera-
das apenas exercício regular de direito. São os casos, por exemplo, da violên-
cia esportiva e das intervenções médico-cirúrgicas.

O critério definidor do limite, a contrario sensu, é o abuso de direito, ou


seja, quando as condutas fogem da regularidade, extrapolando o exercício do
direito. As situações de abuso são verificadas geralmente em contexto de forte
conflito social em que o exercício de um direito é utilizado como permissão
para a autotutela violenta, por exemplo, a defesa da posse pelo grande pro-
prietário contra sem-terra.

A doutrina identifica nas ofendículas (pequenos obstáculos destinados à defesa do


patrimônio, como cacos de vidro em muro) um exercício regular de direito de pro-
priedade, embora alguns autores a classifiquem como legítima defesa preordenada.

FGV DIREITO RIO 69


CRIME E SOCIEDADE

O importante é que esses dispositivos de segurança não sejam letais, nem


potencialmente muito lesivos e estejam bem sinalizados no sentido de evitar
um excesso punível.

ESTRITO CUMPRIMENTO DO DEVER LEGAL

Existem situações em que o dever de um funcionário público (sobretudo


no exercício do poder de polícia) conflita com o direito do indivíduo. Para
garantir a eficácia da lei sem fulminar a esfera de liberdade do indivíduo,
esse poder deve ser exercido com fundamento na lei e encontrar limitações
quando do seu exercício. Nesse âmbito se encontra o estrito cumprimento
do dever legal, justificante que torna lícitas ações que impliquem restrição
de direitos por parte dos agentes do estado. Ações como, por exemplo:
cumprimento de mandado de busca e apreensão em residência (que de
outra forma configuraria violação de domicílio); prisão em flagrante ou
em cumprimento de mandado judicial (que de outra forma caracterizaria
constrangimento ilegal).

Entretanto, para configurar essa justificante, o funcionário deve praticar


somente os atos necessários a garantir o cumprimento da ordem que emana
da lei, devendo abster-se de extrapolá-lo para não configurar abuso passível
de punição. Conforme Juarez Cirino: “o estrito cumprimento de dever de-
terminado por lei exclui lesão de direitos fundamentais definidos em tratados
e convenções internacionais — por exemplo, homicídios dolosos para im-
pedir fuga de presos de estabelecimento penal”. (CIRINO DOS SANTOS,
Juarez. Direito Penal: parte geral. 4ª edição ver. e atual. Curitiba: ICPC;
Lumen Juris, 2010, pgs. 251).

CONSENTIMENTO DO OFENDIDO

O consentimento do ofendido é uma causa supralegal de justificação


(porque não expressamente prevista em lei) e, portanto, decorre de in-
terpretação jurisprudencial e construção doutrinária com base no direito
comparado (sobretudo o alemão).

O consentimento é previsto como elementar (elemento constitutivo do


tipo cuja ausência implica em atipicidade) de diversos crimes. Por exemplo,
não há violação de domicílio se o morador consente na entrada de terceiro.
Nesses casos, não há que se falar em justificação porque não houve sequer
ofensa e, portanto, o comportamento sequer é típico.

FGV DIREITO RIO 70


CRIME E SOCIEDADE

O consentimento pode operar como justificação quando não é elemen-


tar do crime. Aqui surge uma discussão doutrinária sobre o que poderia
ser objeto de consentimento e, portanto, quais bens jurídicos poderiam
ser alcançados pela exclusão da ilicitude. Cezar Roberto Bitencourt de-
fende que apenas os bens jurídicos disponíveis (patrimônio e liberdade)
poderiam ser objeto de consentimento. Juarez Cirino dos Santos repudia
essa divisão, uma vez que entende que também a vida e o corpo, bens
jurídicos individuais, são disponíveis, utilizando o exemplo de esportes
marciais. Essa é uma discussão sobre a extensão do consentimento, que
encontra na eutanásia (morte voluntária por interrupção de tratamento)
sua expressão máxima.

O consentimento pode ser real ou presumido. Real quando expressa


inequívoca manifestação de anuência, o que via de regra exclui a própria
tipicidade porque falta a ofensa. O respeito da esfera de liberdade consti-
tucional é o reconhecimento da autonomia moral do indivíduo e conse-
quentemente, seu âmbito de escolha.

O consentimento presumido é um intermediário entre o estado de ne-


cessidade e o consentimento real, operando como subsidiário deste e ex-
cluindo a antijuridicidade. Ou seja, podendo haver a manifestação do ofen-
dido, não se pergunta sobre a presunção. Entretanto, se por algum motivo
esse consentimento não pode ser obtido, mas é razoável presumir-se (uma
situação em que o normal seria consentir), a responsabilidade penal é afas-
tada (ex. não há violação de domicílio em quem entra em casa de vizinho
para apagar incêndio).

Outros requisitos para reconhecimento da exclusão da antijuridicidade


pelo consentimento são a:

a) Capacidade — quem consente deve ter compreensão do sentido,


extensão e consequências do consentimento. Por exemplo, o estu-
pro de vulnerável exclui a aquiescência do menor de 14 anos como
válida (art.217-A, do CP);
b) Manifestação de vontade livre — significa que a vontade não pode
ser viciada por erro ou coação;
c) Atuação nos limites do consentimento — a ação consentida deve
se restringir ao que foi permitido, afastando o excesso;
d) Titularidade do bem jurídico — como manifestação da liberdade
de disposição individual, a ofensa permitida deve ser suportada
por aquele que consente.

FGV DIREITO RIO 71


CRIME E SOCIEDADE

MÍDIA

Menina de 14 anos com doença degenerativa se prepara para a eutanásia (20 de


julho de 2016)

Disponível em: http://extra.globo.com/noticias/mundo/menina-de-14-anos-


-com-doenca-degenerativa-se-prepara-para-eutanasia-19755229.html

CASO

Superior Tribunal de Justiça. Recurso Repetitivo – REsp 1480881. Relator


Ministro Rogério Schietti Cruz. Publicado no dia 10.09.2015.

“(...)

De acordo com as alegações das partes e as provas dos autos, entendo que
merece ser acolhida a pretensão punitiva Estatal, vez que foi formada a con-
vicção deste juízo sobre a veracidade dos fatos alegados pela acusação.

Restou demonstrado que acusado A. R. DE O. começou a manter relações


sexuais com a vítima E. M. S. P. desde que esta tinha 11 anos de idade.

Foi essencial para a conclusão, a confissão do acusado quanto ao crime


narrado na peça acusatória, tendo o réu confessado à prática delitiva tanto
em juízo, quanto em sede policial, tudo corroborado pelos depoimentos
das testemunhas, da vitima e pelo exame de corpo de delito constante às fls.
11 dos autos, onde o perito concluiu que a vítima havia iniciado sua vida
sexual acerca de um ano em razão da cicatriz himenal. A vítima relatou por-
menorizadamente em juízo, todo o seu envolvimento com o acusado, que
usou sua experiência para adquirir a confiança da menor, tendo esta desde
os 08 (oito) anos de idade começado a nutrir um sentimento incompatível
com sua idade, o que levou, anos depois, à vítima a iniciar sua vida sexual
com apenas 11 anos de idade, cedendo aos apelos sexuais de um homem de
25 anos de idade.

No depoimento em juízo a vítima confirma que teve sua primeira relação


sexual com o acusado aos 11 anos de idade, conforme se vê às fls. 79, tendo
a menor, na fase investigativa afirmado que o réu fazia muitas promessas,
dizendo até que iria se casar com a vítima quando a mesma ficasse maior de
idade, conforme se vê às fls. 18/19.

FGV DIREITO RIO 72


CRIME E SOCIEDADE

O denunciado para conseguir obter êxito em sua empreitada delituosa, con-


quistou a confiança de toda a família da vítima, assim, poderia manter con-
junção carnal com a menor dentro de sua própria casa sem despertar suspei-
tas dos pais e do irmão da vítima.

A instrução não revela discrepância e os depoimentos das testemunhas arrola-


das pela acusação, são uníssonas quanto aos aspectos que caracterizam o delito
objeto da pretensão punitiva, formando consistente liame. Tais fatos foram
obtidos pela conjugação dos depoimentos da VÍTIMA e das testemunhas A.
M. A. P. (mãe da vítima), A. C. DE S. B. (padrasto da vítima), L. V. DA S. (pai
da vítima) tanto no inquérito policial como na instrução processual.

A vítima afirmou em seu depoimento constante às fls. 79, que começou a


namorar de 08 para 09 anos com o acusado e só depois que tinha 11 anos foi
que teve a 1ª relação sexual com o acusado, confirmando ainda que manteve
mais de uma relação sexual com o acusado.

No depoimento da testemunha F. J. P. DA S. F., colacionado às fís. 84, esta


afirmou que chegou a advertir ao acusado que namorar com menor poderia
dar problemas.

Além da prova oral, a pericial por si só já evidencia a materialidade do crime de


estupro de vulnerável, pela constatação de que a paciente E. M. P. S. não era
mais virgem, não havendo indícios de desvirginamento recente, com carúncu-
las himenais de aspecto cicatricial remoto, tal como consta do auto de exame
de corpo de delito para constatação de conjunção carnal, acostado às fls. 11.

[...].

Incide, pois, na sanção do art. 217-A do CP o agente que induz menor de


14 anos à conjunção carnal, sendo irrelevante à caracterização do delito o
seu consentimento, pois falta à mulher, nessa idade, a plena capacidade de
manifestação.

Assim, concluo que a instrução não revela discrepância e os depoimentos das


testemunhas tanto em sede policial, quanto em juízo, bem como por toda aná-
lise minuciosa dos fatores abordados, são uníssonas quanto aos aspectos que ca-
racterizam o delito objeto da pretensão punitiva, formando consistente liame.

O próprio acusado não desmente que manteve conjunção carnal por várias
vezes com a vítima, defendendo-se apenas dizendo que não conseguiu se con-
trolar, pois começou a gostar muito da menor, demonstrando plena consci-
ência quanto a idade da vitima e do caráter delituoso de sua conduta. (...)”

FGV DIREITO RIO 73


CRIME E SOCIEDADE

AULAS 15, 16 e 17: CULPABILIDADE

Introdução. Conceito. Elementos.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba: ICPC;
Lumen Juris, 2006, pgs. 273-283, Capítulo 12.

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, pgs. 371-384, Capítulo 33.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral. Vol.


1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 330-353, Capítulo XXII e XXIII.

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA

ROXIN, Claus. Derecho penal: parte general. Tomo I. Fundamentos. La es-


tructura de la teoria del delito. 2ª Ed. Trad.: Diego-Manuel Luzon Peña
et. al. Madrid: Editorial Civitas, 1997, pgs. 788-818 — Sección 5, §19
— Cuestiones básicas de la teoría de la responsabilidad.

CULPABILIDADE

Existindo um agir ou um não-agir típico e ilícito vislumbra-se o que se


chama de injusto jurídico-penal. No entanto, a simples existência de um in-
justo não basta para afirmar a existência do delito quando não for possível
vinculá-lo ao autor de forma individualizada. Para que ocorra crime, pois, é
imprescindível a concorrência do elemento denominado culpabilidade.

Se a ação ou omissão típica e ilícita realizada pelo indivíduo puder lhe ser
reprovada, aí ela será também culpável, podendo, bem assim, ser constatada
a existência da prática de um crime. E quando o injusto será reprovável?
Quando um autor será culpável?

Imputabilidade. Maioridade e Sanidade. Inimputabilidade. Emoção e


paixão. Embriaguez voluntária e involuntária.

FGV DIREITO RIO 74


CRIME E SOCIEDADE

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba:


ICPC; Lumen Juris, 2006, pgs. 286-295, Capítulo 12, capacidade de
culpabilidade.

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, pgs. 384-395, Capítulo 33, item 5, elementos da cul-
pabilidade na concepção finalista.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral.


Vol. 1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 354-361, Capítulo
XXIV, inimputabilidade e culpabilidade diminuída.

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA

ROXIN, Claus. Derecho penal: parte general. Tomo I. Fundamentos. La


estructura de la teoria del delito. 2ª Ed. Trad.: Diego-Manuel Luzon
Peña et. al. Madrid: Editorial Civitas, 1997, pgs. 819-858 — Secci-
ón 5, §20 — La capacidad de culpabilidad o imputabilidad.

IMPUTABILIDADE

“A imputabilidade é a condição pessoal de maturidade e sanidade


mental que confere ao agente a capacidade de entender o caráter ilícito
do fato ou de se determinar segundo esse entendimento”.25 Nesse sen-
tido, inimputável é o indivíduo incapaz de vontade. Essa incapacidade
de vontade é entendida como ausência dos requisitos mínimos de de-
senvolvimento biológico ou de sanidade psíquica. Assim sendo, se um
indivíduo inimputável pratica um injusto jurídico-penal (fato típico e
antijurídico), não será culpável, considerando que a possibilidade de agir
de modo diverso fica prejudicada pela falta das funções de compreensão
e volição do aparelho psíquico.26
25
FRAGOSO, Heleno Cláudio. Lições de
Medo e emoção como causas excludentes de responsabilidade penal Direito Penal: Parte Geral. 16ª ed. rev.
Por Fernando Fragoso. Rio de Janeiro:
Forense, 2004, p. 242.

Potencial Conhecimento da Ilicitude. Teoria do Erro. Erro de Proibi- 26


A imputabilidade penal é regulada
pelos arts. 26 e seguintes do Código
ção. Erro de Tipo. Descriminantes Putativas. Penal brasileiro.

FGV DIREITO RIO 75


CRIME E SOCIEDADE

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba: ICPC;
Lumen Juris, 2006, pgs. 296-321, Capítulo 12, item 2, Conhecimento do
injusto e erro de proibição; e pgs. 150-161, Capítulo 8, item 2, Erro de Tipo.

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, pgs. 396-402, Capítulo 33, item 5.2, Potencial consci-
ência sobre a ilicitude do fato; e pgs. 293-305, Capítulo 31, Erro de Tipo.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral. Vol.


1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 374-398, Capítulo XXV, Erro
de tipo e erro de proibição.

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA

ROXIN, Claus. Derecho penal: parte general. Tomo I. Fundamentos. La es-


tructura de la teoria del delito. 2ª Ed. Trad.: Diego-Manuel Luzon Peña
et. al. Madrid: Editorial Civitas, 1997, pgs. 456-509, §12, II — El error
de tipo; e pgs. 859-894, §21 — El error de prohibición.

ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Derecho Penal: Parte General. Buenos Aires:


Ediar, 2002, Capítulo XV: Tipo doloso activo: aspecto subjetivo, § 35,
Ausencia de dolo: error de tipo, pgs. 531-545; e Capítulo XXII: La inexi-
gibilidad de comprensión de la criminalidad proveniente de error (errores
exculpantes), § 48 e § 49, 724-742.

POTENCIAL CONHECIMENTO DA ILICITUDE

Trata-se da “consciência que o autor deve ter de que atua contrariamente


ao direito27”. Dessa forma, se o indivíduo estiver em erro sobre se seu com-
portamento está permitido (erro de proibição), excluir-se-á a culpabilidade se
inevitável o erro, e atenuar-se-á se evitável.

Assim, não será culpável o indivíduo que, ao tempo do fato, não podia
conhecer a proibição e, nesse sentido, agir de outro modo, atuar conforme o
direito, por ausente o potencial conhecimento da ilicitude.

Exigibilidade de Conduta Diversa. Causas Legais de Exclusão: coação


moral irresistível e obediência a ordem não manifestamente ilegal de superior 27
FRAGOSO, Heleno Cláudio. Op. Cit.,
hierárquico. Causas Supralegais de Exclusão. p. 252.

FGV DIREITO RIO 76


CRIME E SOCIEDADE

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba:


ICPC; Lumen Juris, 2006, pgs. 322-341, Capítulo 12, item 3, Exi-
gibilidade de comportamento diverso.

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, pgs. 403-412, Capítulo 33, item 5.3, Exigibilidade
de Conduta Diversa.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral.


Vol. 1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 362-365, Capítulo
XXIV, item 2, Coação irresistível e obediência hierárquica.

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA

ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Derecho Penal: Parte General. Buenos Ai-


res: Ediar, 2002, Capítulo XXIII: La inexigibilidad de otra conducta
por la situación reductora de la autodeterminación, § 50, pgs. 744-761.

EXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA

Para que se consubstancie a reprovabilidade do agente capaz de conhe-


cer a ilicitude do fato que cometeu um injusto jurídico-penal, é preciso
ainda, que dele seja possível, no momento do fato, exigir obediência ao
direito. O último elemento caracterizador da culpabilidade é a possibili-
dade concreta que tem o autor de determinar-se conforme a lei.

Nesse ponto, o ordenamento jurídico admite que, em determinadas


situações e sob circunstâncias específicas, o agente pode não ajustar sua
conduta ao direito. É dizer, pois, em outros termos, que não há repro-
vabilidade se na situação em que se achava o agente não lhe era exigível
comportamento diverso.

FGV DIREITO RIO 77


CRIME E SOCIEDADE

MÍDIA

FGV DIREITO RIO 78


CRIME E SOCIEDADE

AULA 18: TENTATIVA E CONSUMAÇÃO

Iter criminis: etapas de realização do delito.

Desistência voluntária. Arrependimento eficaz. Arrependimento poste-


rior. Crime impossível.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba: ICPC;
Lumen Juris, 2006, pgs. 377-401, Capítulo 15, Tentativa e Consumação.

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, pgs. 245-263, Capítulo 26, Consumação e Tentativa; e
pgs. 265-288, Capítulo 27, 28 e 29.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral. Vol.


1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 399-413, Capítulo XXVI,
Crime consumado e crime tentado.

BIBLIOGRAFIA AVANÇADA

ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Derecho Penal: Parte General. Buenos Aires:


Ediar, 2002, Capítulo XXV: Las etapas del delito, § 55 e § 56, pgs.
809-850.

FGV DIREITO RIO 79


CRIME E SOCIEDADE

AULA 19: CONCURSO DE PESSOAS

Sujeito ativo e passivo do delito. Teoria do domínio do fato. Autoria dire-


ta; autoria indireta; coautoria e autoria colateral. Instigação e cumplicidade.
Cooperação dolosamente distinta e participação de menor importância.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA (ESCOLHA, NO MÍNIMO, UMA LEITURA):

CIRINO DOS SANTOS, Juarez. Direito Penal: parte geral. Curitiba: ICPC;
Lumen Juris, 2006, pgs. 347-376, Capítulo 14, Autoria e Participação.

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Vol. I. 13ª Ed. Rio de Janeiro:
Impetus, 2011, pgs. 415-450, Capítulo 34, Concurso de pessoas.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral. Vol.


1. 13ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008, pgs. 414-437, Capítulo XXVII,
Concurso de pessoas.

AUTORIA E PARTICIPAÇÃO

Autor do fato: aquele que tem o controle da continuidade ou paralisação da


realização da ação típica = Teoria do domínio do fato
(H. Welzel e C. Roxin)

FGV DIREITO RIO 80


CRIME E SOCIEDADE

Partícipe no fato: contribuição dolosa a fato principal doloso

FGV DIREITO RIO 81


CRIME E SOCIEDADE

BLOCO IV — INTRODUÇÃO AO DIREITO PROCESSUAL PENAL

AULA 20: PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA

CASO PARA LEITURA OBRIGATÓRIA E FICHAMENTO:

Os alunos devem se dividir em 4 grupos para lerem, separadamente, o


material abaixo indicado.

Caso: ADC 43 e HC 126.292.

• Grupo A: HC 126.292 - Votos dos Ministros Gilmar Mendes,


Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Luiz Fux, Teori Zavascki, Roberto
Barroso e Edson Fachin.
• Grupo B: HC 126.292 - Votos dos Ministros Rosa Weber, Marco
Aurélio, Celso de Mello e Ricardo Lewandowski.
• Grupo C: ADC 43
• Grupo D: Memorial de amicus curiae IBCCRIM nas ADCs 43/44

CONCEITO: O QUE É PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA?

O princípio da presunção de inocência está consagrado no inciso LVII


do art. 5º da CF de 1988: “Ninguém será considerado culpado até o trân-
sito em julgado de sentença penal condenatória”. A forma como está enun-
ciado na Constituição ensejou alguns debates a respeito do seu alcance. Isto
porque não se repetiu a fórmula consagrada na Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão, aprovada pela Assembléia Nacional Francesa, em
26 de agosto de 1789, bem como pela Declaração Universal dos Direitos
do Homem de 1948, pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos
de 1966 e pela Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969.

Não está dito no texto constitucional que todo homem se presumirá inocen-
te, até que seja condenado, mas sim que ninguém será considerado culpado até
o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Em vista disso, não se
estaria consagrando propriamente o princípio da presunção da inocência, mas
sim o da desconsideração prévia da culpabilidade de aplicação mais restrita.

FGV DIREITO RIO 82


CRIME E SOCIEDADE

De fato, a Constituição Federal brasileira adotou a redação do art. 27.2


da Constituição italiana de 1948, a qual por sua vez resultou de um
movimento protagonizado por parte da doutrina italiana que defendia
a restrição do alcance do princípio da inocência, com vistas a garantir a
eficácia do processo penal.28

Importante registrar que não se trata apenas de uma discussão semân-


tica a respeito da propriedade de se utilizar o termo presunção em seu
sentido técnico. O embate que se trava traduz, em verdade, duas diferen-
tes concepções político-ideológicas da finalidade do processo penal e das
garantias que devem cercar a persecução penal. Com efeito, a consagração
do princípio da presunção da inocência na Declaração de 1789 reflete
uma nova concepção do processo penal defendida por pensadores ilumi-
nistas em reação ao sistema persecutório que marcara o antigo regime,
no qual a prova dos fatos era produzida através da sujeição do acusado à
prisão e tormento, com o fim de extrair dele a confissão. É nessa mudança
de foco, em que o processo penal deixa de ser um mero instrumento de
realização da pretensão punitiva do Estado, para se transformar em ins-
trumento de tutela da liberdade, que está a chave para se compreender o
conteúdo e alcance do princípio da presunção de inocência.

A partir dessa premissa, acaba por ser irrelevante a diferença que se


pretende acentuar entre o texto contido na Declaração de 1789 e o dis-
positivo constitucional brasileiro. De fato, ainda que a terminologia ado-
tada pela Constituição de 1988 seja semelhante àquela engendrada na
Itália pós-fascista a partir das críticas capitaneadas pelas escolas positiva e
técnico-jurídica à presunção de inocência, o certo é que na prática judi-
ciária brasileira as expressões presunção de inocência e presunção de não
culpabilidade são utilizadas indistintamente, não se suscitando suposta
diferença entre ambas como fundamento para restringir as conseqüências
normativas do princípio da presunção de inocência.

Com efeito, os seguintes julgados do Superior Tribunal de Justiça


referem-se ao princípio da inocência: RHC 11.387/SP; HC 13.725/
RJ; RHC 9.745/PR; RHC 8.167/SP. Já estes outros – REsp 304.521/
SP; HC 32.491/MS; HC 16.541/SP; HC 28.177/MS – remetem ao
princípio da não-culpabilidade. E estes últimos – HC 19.711/SP; RHC
15.139/SP; HC 30.186/SP; HC 31.662/RS; HC 33.457/SP – citam
ambos como sinônimos. Todos os julgados citados tratam, contudo, do 27
FRAGOSO, Heleno Cláudio. Op. Cit.,
mesmo princípio. p. 252.

FGV DIREITO RIO 83


CRIME E SOCIEDADE

A aplicação mais comumente defendida pela doutrina da norma sob exa-


me dá-se no campo probatório. Nessa primeira formulação, o réu ser pre-
sumido inocente significa, por um lado, que o ônus de provar a veracidade
dos fatos que lhe são imputados é da parte autora na ação penal (em regra, o
Ministério Público) e, por outro lado, que se permanecer no espírito do juiz
alguma dúvida, após a apreciação das provas produzidas, deve a querela ser
decidida a favor do réu.

Portanto, no direito processual penal, se ao final o juiz tiver dúvidas a res-


peito da procedência das alegações do réu, ele deve absolvê-lo, ainda que não
esteja plenamente convencido daquelas alegações. Em uma palavra, a dúvida
não resolvível quanto à matéria de fato é sempre dirimida a favor do réu,
independentemente das regras ordinárias de distribuição do ônus da prova.

A mera alegação do réu de que agiu, por exemplo, sob uma excludente de
antijuridicidade, não o exime de produzir prova de sua alegação. A solução
pro reo só existe se o juiz não chegar a um juízo de certeza contra o réu, ou
seja, se ele ficar realmente em dúvida quanto à ocorrência ou não da situação
que justificaria sua conduta, em vista da prova produzida. Diz-se assim que
o in dubio pro reo é uma regra de julgamento que se extrai do princípio da
presunção de inocência.

Mas o princípio da presunção de inocência não se aplica exclusivamente


no campo probatório, o in dubio pro reo é apenas uma de suas repercus-
sões. Deve ser dispensado tanto ao investigado quanto ao réu tratamento
compatível com seu estado de inocente. A condição de investigado e de réu
em processo criminal já traz, por si, indiscutível constrangimento. Em vista
disso, todas as medidas restritivas ou coercitivas que se façam necessárias no
curso do processo só podem ser aplicadas ao acusado na exata medida de
tal necessidade. Se houver várias formas de conduzir a investigação, deve-se
adotar a que traga menor constrangimento ao imputado e que enseje a me-
nor restrição possível a seus direitos. Eventual prisão anterior à condenação
definitiva, por exemplo, deverá estar pautada em decisão judicial que indique
quais circunstâncias presentes no caso concreto autorizam e recomendam a
excepcional privação da liberdade do réu. O mesmo ocorre com outras me-
didas que impliquem restrição de direitos fundamentais, como se observa da
necessidade de que a quebra de sigilo bancário e de comunicação telefônica,
ou ainda a busca e apreensão no domicílio do acusado, sejam precedidas de
decisão judicial devidamente fundamentada.

FGV DIREITO RIO 84


CRIME E SOCIEDADE

AULA 21: PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO DE AUTOINCRIMINAÇÃO

CASO PARA LEITURA OBRIGATÓRIA E FICHAMENTO:

• ADPF 395, STF

CONCEITO: O QUE É DIREITO AO SILÊNCIO?

Um dos mais importantes direitos atualmente é o famoso direito ao si-


lêncio. Este direito é provavelmente um dos mais famosos do Direito Penal.
Diz-se isto pois é o direito concretizado pelos famosos “Miranda Warnings”
dos filmes americanos: “você tem o direito de permanecer calado. Tudo que
disse poderá ser usado contra você no tribunal”. A concepção geral sobre este
direito é que uma pessoa poderá escolher permanecer calada, como diz o avi-
so. Contudo, este direito ganhou vários contornos diversos na jurisprudência
brasileira, tornando-se o princípio da vedação de autoincriminação

Na Constituição, este princípio é positivado no art.5º, LXII com o se-


guinte texto: “o preso será informado de seus direitos, entre os quais o de per-
manecer calado, sendo-lhe assegurada a assistência da família e de advogado”.

A interpretação de que este pequeno trecho se expande à vedação de au-


toincriminação não é clara, contudo de acordo com a princípio de interpre-
tação extensiva de Direitos Fundamentais.

A primeira mudança importante que este dispositivo trouxe foi a clara não
recepção da antiga redação do art. 186 do CPP, que instituia que o silêncio
do acusado poderia ser interpretado em prejuizo do mesmo. Deste modo,
uma primeira expansão é a proibição da interpretação do silêncio a desfavor
do réu, isto já foi completamente incorporado pelo CPP em diversos dispo-
sitivos (exemplo: art.198, CPP).

Além desta expansão, várias outras foram feitas: o acusado poderá mentir,
se negar a colaborar e até tentar fraudar os testes que possam produzir alguma
evidência contra o acusado. Um exemplo prático disto é que, com a adoção
da lei seca, a percentagem de álcool no sangue passou a ser requisito para ca-
racterizar a embriaguez, deste modo, com o princípio em questão, não mais é
possível caracterizar a embriaguez sem violar um direito do acusado.

FGV DIREITO RIO 85


CRIME E SOCIEDADE

Vale notar que a garantia de vedação de auto-incriminação desempenha


um papel estruturante na construção de um sistema punitivo compatível
com um Estado Democrático de Direito. Embora haja outras garantias igual-
mente fundamentais – tais como o juiz natural, o devido processo legal, o
contraditório e a ampla defesa, a vedação de provas ilícitas, a presunção de
inocência etc.–, o regime jurídico da auto-incriminação é crucial para a dife-
renciação entre dois modelos opostos de sistema punitivo: o modelo demo-
crático e o modelo autoritário. Mas qual o alcance dessa garantia?

Quando se define um determinado sistema processual penal, a caracte-


rística que mais chama atenção diz respeito aos limites postos à busca da
verdade. Pode-se dizer que quanto menor o número de limites na ativida-
de investigatória do Estado, mais autoritário é o modelo penal e, de forma
oposta, quanto maior o número de limites, mais democrático. Obviamente,
essa afirmação deve ser compreendida a partir da premissa de que tais limites
somente se justificam quando protegem direitos fundamentais do indivíduo.

Em nome da busca da verdade, muitos ordenamentos previam a tortura


do suspeito. Esse modelo autoritário encontra defensores até hoje, cujos
argumentos a favor da brutalização da autonomia individual em nome do
“combate ao crime” vêm travestidos sob a roupagem da supremacia do
bem comum sobre os direitos individuais. Nessa percepção, os direitos e
garantias fundamentais funcionariam como “obstáculos ao funcionamento
eficiente do sistema”.

De outro lado, há quem prefira um modelo democrático de processo


penal, no qual os indivíduos (sejam culpados ou inocentes) não perdem a
proteção jurídica da dignidade e têm assegurado o direito de defesa. É o
reconhecimento de que não se pode exigir do indivíduo um comprometi-
mento maior com a busca da verdade e a realização da justiça penal pelo
Estado maior do que o comprometimento que tem – e deve ter – com sua
própria liberdade.

Uma questão cada dia mais tormentosa que toca nesse debate diz respei-
to à busca de provas no corpo do indivíduo que está sendo investigado. A
obtenção compulsória de tecido humano violaria o direito de não se auto-
-incriminar? Criada pela Constituição de 1988 e consolidada pelo Supremo
Tribunal Federal ao longo de sucessivos julgamentos, a vedação de auto-
-incriminação já está incorporada à cultura jurídica nacional. São exemplos
do exercício dessa garantia: (1) o direito de não responder perguntas e outras
formas de inatividade (recusar-se a participar de reconstituição simulada da
cena do crime, deixar de fornecer material gráfico ou padrões vocais para

FGV DIREITO RIO 86


CRIME E SOCIEDADE

exame pericial); e (2) o direito de negar falsamente a acusação, mentir ou


mesmo utilizar malícia ao fornecer material gráfico visando a prejudicar as
conclusões do exame pericial. Esses comportamentos não acarretam piora
na situação processual do acusado (aumento de pena, regime mais gravoso
de execução), não configuram crime de desobediência e tampouco podem
justificar a decretação de uma prisão cautelar.

Estabelecido esse conceito, a questão que se coloca é se haveria alguma


restrição para obtenção de material corpóreo (DNA, sangue, tecido) do sus-
peito. Em outras palavras: já que não se pode compelir o suspeito a fornecer
material, seria possível obter esse material contra sua vontade? Algo como
uma autorização judicial para coleta de sangue de um suspeito com a finali-
dade de realizar um exame toxicológico ou genético?

O direito alemão prevê essa possibilidade (Art. 81-A do Código de Proce-


dimento Criminal), mas a Corte Européia de Direitos Humanos já anulou
um julgamento baseado em prova obtida dessa forma, alegando que a vio-
lência e brutalidade com que a prova foi colhida, apesar de não caracterizar
um método de tortura, reviveu a lógica do sistema inquisitório, segundo o
qual a prova da acusação deve provir do próprio acusado (Jalloh v. Germany,
julgado em 11/07/2006). No caso, foi administrado um medicamento para
que o suspeito regurgitasse as cápsulas de entorpecente que havia ingerido
para ocultar da polícia.

Nos EUA, uma prova obtida de forma semelhante à de Jalloh também


foi considerada ilícita (Rochin v. Califórnia, de 1952). Por outro lado, num
caso envolvendo um acidente de trânsito, admitiu-se a coleta de sangue por
médico no hospital, enquanto o suspeito estava inconsciente (Breithaupt v.
Abram, de 1957, posteriormente confirmado em Schmerber v. Califórnia,
de 1966). O critério diferenciador foi a forma de obtenção que, no segun-
do caso, não “choca a consciência» nem ofende o «senso de justiça». Mais
recentemente, no caso Winston v. Lee (1985), a Suprema Corte dos EUA
proibiu a realização de uma cirurgia que seria realizada com anestesia geral
para a retirada de um projétil para exame balístico, por considerar que a
magnitude da intervenção constituiria uma medida desproporcional e vio-
laria o devido processo legal.

No Brasil, houve poucos casos em que o Supremo Tribunal Federal


foi chamado a se pronunciar sobre o tema. No Habeas Corpus nº 71.373
(1994), em que se discutia investigação de paternidade e a possibilidade de
condução coercitiva do réu para a coleta de material genético e realização
de exame de DNA, a Suprema Corte entendeu que tal medida era abusiva.

FGV DIREITO RIO 87


CRIME E SOCIEDADE

Estabeleceu-se ali a doutrina da intangibilidade do corpo humano, como


forma de preservação da dignidade humana.

Em matéria penal, há o caso da cantora Gloria Trevi, que engravidou


quando estava presa e alegou ter sido estuprada na carceragem da Polícia Fe-
deral. Um juiz atendeu ao pedido dos policiais suspeitos do crime e determi-
nou o exame de DNA a partir de fios de cabelo da criança, de células da mu-
cosa oral, de sangue ou ainda da placenta. Por maioria, o Supremo Tribunal
Federal entendeu que a única intervenção possível seria na placenta, tecido
morto que não pertencia mais ao corpo da mãe, nem da criança (Questão de
Ordem na Reclamação nº 2040, julgada em 2002).

Pode parecer que uma amostra de sangue, saliva ou cabelo constitui uma
intervenção mínima no indivíduo e que, portanto, deveria ceder ante o inte-
resse na busca da verdade. Ocorre que esse é o primeiro passo para a criação
de bancos de DNA de suspeitos e, posteriormente, de todo e qualquer cida-
dão. E, ao contrário de fotos e impressões digitais, o DNA humano reúne
uma quantidade enorme de informações extremamente íntimas que não de-
vem estar à disposição de governos e, quiçá, de particulares. A ideia que ani-
ma o direito de não produzir prova contra si e de preservar a intangibilidade
do corpo humano é impedir que o Estado sucumba à tentação autoritária de
buscar a prova do crime por meio do (ou no) sujeito acusado no processo,
o que acabaria por reduzir o indivíduo à condição de objeto dos processos e
ações estatais, ferindo-lhe a autonomia moral e a dignidade humana.

FGV DIREITO RIO 88


CRIME E SOCIEDADE

AULA 22: PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO DE PROVAS ILÍCITAS

CASO PARA LEITURA OBRIGATÓRIA E FICHAMENTO:

• RECLAMAÇÃO Nº 23.457, STF

CONCEITO: O QUE SÃO PROVAS ILÍCITAS?

A inadmissibilidade da prova ilícita está prevista no art. 5º, LVI da CF:


“LVI - são inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos”.
Trata-se de mais uma (dentre tantas outras) norma que busca limitar a ação
do Estado na persecução penal.

A atividade probatória do Estado (reunião de elementos de prova que


indiquem a autoria e materialidade de um crime) no processo penal pode ser
pré processual (o que normalmente ocorre no âmbito da Polícia Judiciária,
com o inquérito policial) e também processual (produzida pelas partes peran-
te um juiz). As duas etapas concretizam a atividade persecutória do Estado.

Contudo, as provas produzidas na fase processual possuem maior valor, já


que permitem a participação da defesa e da acusação. Provas produzidas na
fase de inquérito tem por finalidade reunir elementos de informação para o
início do processo. Excepcionalmente, provas que sejam produzidas na fase
policial podem ser utilizadas pelo juiz para formar sua convicção.

Tanto na fase pré-processual, como na fase processual, as provas devem


ser produzidas conforme determina a lei. Se houver desrespeito à lei, teremos
uma prova que não pode ser utilizada, isto é, uma prova ilícita. O Código de
Processo Penal tenta conceituar prova ilícita:

“Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas do pro-


cesso, as provas ilícitas, assim entendidas as obtidas em violação a
normas constitucionais ou legais.
§ 1º São também inadmissíveis as provas derivadas das ilícitas, salvo
quando não evidenciado o nexo de causalidade entre umas e ou-
tras, ou quando as derivadas puderem ser obtidas por uma fonte
independente das primeiras. § 2º Considera-se fonte independente
aquela que por si só, seguindo os trâmites típicos e de praxe, pró-
prios da investigação ou instrução criminal, seria capaz de conduzir

FGV DIREITO RIO 89


CRIME E SOCIEDADE

ao fato objeto da prova. § 3º Preclusa a decisão de desentranhamen-


to da prova declarada inadmissível, esta será inutilizada por decisão
judicial, facultado às partes acompanhar o incidente.”

O Caso

(Narrativa baseada no Habeas Corpus 5.100/94, julgado pela Suprema Cor-


te de Israel).

Desde a data de sua criação, em 1948, o Estado de Israel está marcado


pela instabilidade política devido aos seguintes fatores principais: (1) de-
manda pela instalação de um Estado Palestino na mesma área, (2) posse
da cidade de Jerusalém (considerada sagrada por muçulmanos, judeus e
cristãos), e (3) ocupação de regiões circunvizinhas às fronteiras originais
de Israel. Apesar das tentativas de firmar um tratado de paz definitivo,
tais problemas não foram resolvidos.

Os grupos palestinos mais radicais sustentam que o Estado de Israel é


uma ocupação indevida do território palestino imposta pelas potências
ocidentais. Tais grupos promovem ataques suicidas a alvos não-militares
mediante explosão de bombas em ônibus, teatros, embaixadas, etc. Esses
comportamentos podem ser considerados terroristas.

Os grupos israelenses mais radicais sustentam que o Estado de Israel tem


direito sobre o território atualmente ocupado. Setores mais conservado-
res do governo de Israel não hesitaram, ao longo dos anos, em autorizar a
prática de assassinatos, seqüestros e prisões indiscriminadas para impedir
ou retaliar os ataques palestinos. Essa atuação pode ser considerada prá-
tica de terrorismo estatal.

Em 1987, o governo de Israel criou uma comissão governamental, diri-


gida pelo ex-presidente da Corte Suprema de Israel, Moshe Landau, para
examinar métodos de interrogatório empregados pelo Serviço Secreto Is-
raelense (GSS). Essa comissão aprovou e recomendou uso de “pressão
psicológica” e “um grau moderado de força física” pelo GSS durante suas
investigações.

Alguns dos presos submetidos aos métodos questionados foram poste-


riormente processados e condenados por ataques terroristas que causaram
a morte de dezenas de pessoas. Outros presos submetidos aos mesmos
métodos foram liberados sem que fosse formulada acusação contra eles.

FGV DIREITO RIO 90


CRIME E SOCIEDADE

A Corte Suprema de Israel recebeu centenas de petições dos detidos, questio-


nando a validade do emprego de força física como método de investigação.
Até a decisão de setembro de 1999, ora examinada, a Corte rejeitara a maior
parte dessas petições, permitindo que o GSS continuasse a empregar os mé-
todos questionados durante interrogatórios.

O caso concreto compreende o julgamento de diversas petições de Habe-


as Corpus, assinadas por indivíduos e organizações, questionando o uso de
“pressão física moderada” em interrogatórios envolvendo suspeitos de terem
participado de atentados, bem como em pessoas suspeitas de planejarem fu-
turos ataques. Neste último caso, a investigação tem natureza preventiva.

Petições reunidas para julgamento:

• HC 4054/95 Associação para os Direitos Civis de Israel;


• HC 5100/94 – Comitê Público contra a Tortura em Israel;
• HC 6536/95 – Hat’m Abu Zayda;
• HC 5188/96 – Centro de Defesa do Indivíduo, Wa’al Al Kaaqua e
Ibrahim Abd’allah Ganimat;
• HC 7563/97 – Abd Al Rahman Ismail Ganimat e Comitê Público
contra a Tortura em Israel;
• HC 7628/97 – Fouad Awad Quran e Comitê Público contra a Tor-
tura em Israel;
• HC 1043/99 – Issa Ali Batat

Resumo dos argumentos das partes perante o tribunal.

Os métodos de investigação questionados compreendem: obrigar o in-


vestigado a permanecer em posições desconfortáveis e dolorosas por longos
períodos; privação de sono; ameaças psicológicas; agressões físicas; encapu-
zar suspeitos com sacos embebidos em urina; em último caso, poder-se-ia
“sacudir” o suspeito.

Vários indivíduos “sacudidos” tiveram dores de cabeça violentas, vômi-


to, perda de consciência, lesão cervical e danos cerebrais irreversíveis. Pelo
menos dois investigados morreram durante sessões de interrogatório, um
deles após ser sacudido.

Os advogados dos presos alegam que esses métodos são ilegais e consti-
tuem tortura e, portanto, em nenhuma circunstância poderiam ser admiti-
dos, ainda que vidas humanas estivessem em perigo. Quaisquer provas, indí-
cios ou depoimentos são provas ilícitas e o Estado não poderia se valer delas.

FGV DIREITO RIO 91


CRIME E SOCIEDADE

Para o governo de Israel, tais métodos não constituem tortura, pois não
causam dor ou sofrimento. Mesmo se isso ocorresse, a prática estaria permiti-
da porque os agentes do GSS as utilizavam para proteger a vida e a segurança
de inocentes.

Por fim, os métodos questionados estão sujeitos à avaliação prévia da che-


fia do GSS, o que somente autoriza que sejam empregados como último
recurso em situações extremas.

Questões a serem enfrentadas.

1) Se você fosse membro do tribunal, como decidiria o pedido de proibi-


ção das práticas do GSS aos suspeitos de terrorismo? Para justificar sua
decisão, procure guiar-se pelas questões abaixo e veja as opiniões fictícias
oferecidas por “estudiosos fictícios”.
2) O uso de pressão física e psicológica sobre pessoas suspeitas de crimes é
uma forma de tortura?
3) A tortura é um meio eficaz de obter informações sobre crimes?
4) A tortura é um meio razoável de obter informações sobre crimes?
5) A tortura é um meio justo de obter informações sobre crimes?
6) A tortura é um meio juridicamente válido de obter informações sobre crimes?
7) A tortura poderia ou deveria ser “legalizada” pelo Congresso e submetida
a um processo judicial de decretação, tal como ocorre, por exemplo, com
a busca e apreensão feita pela polícia na residência das pessoas, mediante
autorização judicial (como ocorre com a medida de busca e apreensão, por
exemplo)?

OPINIÕES DE JURISTAS FICTÍCIOS

• Professor Emergix

O caso concreto que se apresenta para decisão é uma hipótese de colisão de


princípios jurídicos. De um lado, temos o princípio da verdade real – segun-
do o qual as investigações de natureza criminal devem buscar a verdade do
que efetivamente aconteceu – e de outro lado temos o princípio da dignidade
humana – segundo o qual os indivíduos devem ter sua dignidade preservada.

Ambos os princípios fazem parte do nosso direito. Ambos são válidos


e nenhum desses princípios é absoluto. Numa situação concreta, devemos
pesar as circunstâncias. E devemos ser claros e assumir as consequências de
nossas escolhas.

FGV DIREITO RIO 92


CRIME E SOCIEDADE

O tratamento aplicado aos terroristas pelo GSS é uma forma de tortura.


Seja porque a Convenção Internacional da ONU (que o Estado de Israel
ratificou) diz isso, seja porque o espancamento de pessoas suspeitas de crimes
constitui o caso clássico de tortura. Penso que a tortura deve ser proibida. A
lei de nosso país já diz isso e tal lei deve ser respeitada. Porém, não podemos
negar que há situações em que o governo deve violar a lei para poder fazer
um bem maior à sociedade.

Quando os investigadores do GSS estiverem diante de uma situação em


que acreditem que o suspeito possui informações relevantes e não quer for-
necê-las espontaneamente, deverão obrigar o suspeito a falar a verdade, para
o bem da segurança e da vida de outros cidadãos inocentes.

Em situações normais, o conflito entre a busca da verdade e a dignidade


do ser humano deverá ser resolvido a favor da dignidade na maioria dos casos.
Porém, nos crimes graves – como é o terrorismo – deverá prevalecer o princípio
da busca da verdade real, mesmo porque um criminoso não tem dignidade.

Na minha opinião, todos os suspeitos da prática de crimes que não qui-


serem colaborar com as autoridades espontaneamente deverão ser obriga-
dos a tanto. Se quebraram a ordem jurídica, não podem agora querer que
ela os defenda. O caso dos terroristas e dos investigadores do GSS é exem-
plar para comprovar minha tese de que a tortura de alguns poucos garante
o bem de muitos outros.

• Professor Demorradicalix

Concordo com o professor Emergenix quando fala que existe um conflito


de princípios. Porém, discordo quando ele sugere que o Estado ou seus agen-
tes – policiais, juízes, investigadores do GSS etc. – possam violar a lei.

Justamente o que diferencia os homens de bem dos terroristas e demais crimi-


nosos é o fato de que eles violaram as nossas leis. Ora, se também nós violarmos
as leis, não teremos autoridade moral para exigir deles outro comportamento.
Além disso, se governo tem por obrigação exigir que todos obedeçam a lei (e
pune quem não o faz), como pode, justamente o governo, agir de outra forma?

Esse caso concreto deve ser definido com base na lei. Se a lei proíbe a
tortura, não podemos praticá-la, nem mesmo em crimes graves, já que a lei
não faz essa exceção. Nem a Comissão Landau, nem o Ministro da Justiça,
nem o chefe do GSS têm legitimidade para decidir em que casos pode existir
tortura. Somente o povo, por meio de seus representantes democraticamente
eleitos pode tomar essa decisão.

FGV DIREITO RIO 93


CRIME E SOCIEDADE

Defendo que nosso país se retire da Convenção da ONU e que nosso


Congresso aprove uma nova lei autorizando a tortura. Até lá a tortura seria
proibida e, somente a partir da edição da lei ela seria válida (mas somente nas
situações que os deputados definissem na lei).

Digo isso porque a tortura já é efetivamente aplicada como prática corri-


queira pelos do Estado, sobretudo nas situações de crise. Diante de um crime
grave, pode-se afirmar que há grande apoio popular ao seu uso. Portanto,
seria melhor se tal prática estivesse prevista em lei (poderia haver uma lista de
crimes graves nos quais o suspeito pudesse ser torturado) e os agentes do GSS
teriam de obter autorização judicial para torturar.

Dessa forma, haveria regras e limitações que dessem visibilidade e controle


sobre essa prática. Do contrário, tais fatos continuarão ocorrendo (com ou
sem autorização do governo) enquanto todos fingem que não os vêem.

• Professor Natuliberalix

Ouso discordar dos nobres professores que me antecederam. A tortura é


uma prática abominável e nada justifica seu uso. A dignidade do homem não
é um princípio absoluto, pois a convivência em sociedade impõe limitações a
todos os direitos. Porém, a tortura representa a própria negação da dignida-
de; equivale a retirar completamente a dignidade de alguém.

Afinal, não há limites para a imaginação do homem quando se trata de


fazer sofrer outra pessoa. Será que é possível admitir determinada forma de
tortura (pau-de-arara) e vedar outra (aplicação de choques elétricos)? Como
avaliar a quantidade de dor sofrida por cada investigado?

Reconheço que muitas situações vividas pelos agentes do GSS são graves e
que eles buscam salvar vidas. Porém, sabemos que muitos “suspeitos” foram
torturados e depois nenhuma acusação foi formulada contra eles. Não posso
admitir, em hipótese nenhuma, nem mesmo diante de crimes graves, que
um inocente seja brutalizado dessa forma. Nenhum ganho social justifica tal
risco individual. Ainda que 99% dos suspeitos sejam de fato criminosos, não
há como justificar que o direito deixe desprotegidos os 1% restantes.

Desde a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, o


Direito Criminal prevê que um homem deve ser considerado inocente até que
um tribunal declare sua culpa. E essa sentença só será válida se esse homem pu-
der se defender. Nossas leis e as leis internacionais confirmam isso. Não posso
admitir que se torture um suspeito antes que ele seja processado e julgado.

FGV DIREITO RIO 94


CRIME E SOCIEDADE

Além do mais, a tortura é um meio imoral de atuação. Como bem marcou


o Professor Demorradicalix, não podemos nos igualar aos criminosos. Mas,
na minha opinião, ao contrário da dele, não é somente a lei que proíbe a
tortura: é a moral. O governo e seus agentes não podem buscar fins morais
(segurança, vida, felicidade do povo) com meios imorais (tortura). O que
nos torna homens é nossa moral; se abrirmos mão dela, seremos menos que
criminosos, seremos animais.

Nessa mesma linha de argumentação, considero que nenhuma lei pode


aprovar o uso de tortura em nosso país. A democracia tem que obedecer a
limites morais que estão em nossa consciência. Nem mesmo a unanimidade
das pessoas pode aprovar uma atuação do Estado que viole de modo tão bru-
tal a dignidade de um ser humano inocente. Essa é minha opinião.

• Professor Garantilix

Vejo que os colegas que falaram antes de mim estão conduzidos pela emo-
ção, mais do que pela razão. Em primeiro lugar, interessa saber se a tortura é
um meio eficiente de obtenção de informação.

Eu considero que não é. O medo de ser torturado fará com que pessoas
fracas façam declarações falsas que apenas atrapalharão as investigações. Por
outro lado, pessoas fortes nada falarão, mesmo se torturadas até a morte.
Nesse caso, o que fará o investigador do GSS? Passará a torturar a esposa do
terrorista para que ele fale? Trará para a sala de torturas a filha de quatro anos
do terrorista e começará a espancá-la?

Por trás do desejo de torturar não está a busca pela informação, mas sim a
vontade de determinados homens, que no momento são mais fortes que ou-
tros, de usar essa força para subjugar, ofender, humilhar, machucar e matar
seus semelhantes mais fracos.

A questão moral, levantada pelo Professor Natuliberalix, não se aplica.


Não interessa saber se a tortura é moral ou não, pois o conceito de moral
é variável. Aqueles que consideram haver uma guerra entre nós dirão que
a guerra é, em si, imoral e atinge tanto culpados como inocentes e que agir
assim nessa situação não é imoral.

Penso que se a tortura for legalizada pelo congresso, como propõe o pro-
fessor Demorradicalix, isso incentivará sua prática. Com o tempo, será tão
fácil conseguir um mandado para tortura como ocorre hoje com a busca e
apreensão ou a prisão. Será instituída a “tortura para averiguações”.

FGV DIREITO RIO 95


CRIME E SOCIEDADE

Além disso, será que o suspeito tem obrigação de confessar o crime? Será
razoável exigir que alguém forneça as provas para sua própria condenação?
Ao admitirmos a tortura, estamos supervalorizando a confissão como meio
de prova. Logo, ele voltará a ser a “rainha das provas” exatamente como ocor-
ria durante a Inquisição, quando muitas pessoas foram mortas por causa de
perseguições religiosas.

A história já deu provas que os governos não hesitam em transformar


seus opositores políticos em “inimigos”, “subversivos”, “terroristas”, etc. Na
minha opinião, devemos ter cuidado para que o direito não dê margem aos
abusos dos governos. Admitir a tortura é um convite ao abuso do poder.

Por mais pungente que seja o argumento da “bomba-relógio prestes a


explodir”, nós temos a responsabilidade de seguir os princípios e valores que
julgamos serem corretos sem nos desviarmos desse caminho. Não devemos
submeter aos argumentos de “emergência” e nos conduzirmos de acordo
com nossa consciência, sob risco de destruirmos, nós mesmos, os valores
pelos quais lutamos: liberdade, igualdade e fraternidade.

Dinâmica da aula

O aluno deverá apresentar um quadro apontando cada argumento favo-


rável à tortura e o correspondente contra-argumento. Os alunos serão dividi-
dos em grupos para defender o uso da tortura ou sua proibição.

FGV DIREITO RIO 96


CRIME E SOCIEDADE

AULA 23: ANÁLISE ECONÔMICA DO CRIME

Trechos do artigo “Análise Econômica do Crime”, de AMARAL, Thiago


Bottino Do  e SHIKIDA, Pery F. A.. In: Luciano Benetti Timm. (Org.).
Análise Econômica no Brasil. 1ed.São Paulo: Atlas, 2012, v. 1, p. 296-317

O objetivo deste texto é fazer um estudo introdutório de Análise Econô-


mica do Direito (AED) aplicada ao Direito Penal. (...)

Em face do aumento generalizado da criminalidade em todo o Brasil,


estudiosos e pesquisadores vêm procurando perscrutar este fenômeno social,
no intuito de identificar as suas principais causas e propor medidas eficientes
que possam melhorar o nível de segurança pública. Para Ib Teixeira, pesqui-
sador da Fundação Getúlio Vargas (RJ), o Brasil gasta cerca de R$ 37 bilhões
por ano para se proteger de crimes e perde muito dinheiro com a fama de
inseguro. Como exemplo, o País perde com a atrofia do setor turístico, seria-
mente afetado pela questão da segurança. Outrossim, em dias de parco cres-
cimento do PIB, o faturamento de empresas de segurança privada e vigilância
eletrônica pode chegar a R$ 8 bilhões e a perspectiva é cada vez melhor, com
taxas de crescimento de 10% ao ano (Goldberg, 2004).

Embora Becker (1968, p.170) tenha colocado que “[...] ‘crime’ is an eco-
nomically important activity or ‘industry’, notwithstanding the almost total
neglect by economists”, atualmente alguns economistas e demais profissio-
nais ligados ao tema da economia do crime têm demonstrado interesse por
este problema, posto que o aumento da criminalidade pode arrefecer o nível
de atividade econômica de uma região à medida que desestimula novos in-
vestimentos, os preços dos produtos são majorados com a incorporação dos
custos com a segurança, entre outros. Isto sem considerar que parcela dos
recursos e agentes produtivos atuantes no crime poderia estar sendo alocado
no setor produtivo lícito da economia, gerando benefícios para a sociedade
como um todo.

Mas, o que vem a ser crime econômico ou lucrativo? Os crimes são agru-
pados de acordo com o bem jurídico que pretendem proteger, sejam eles
individuais ou coletivos. Há crimes que atentam contra a vida, o patrimônio,
a honra, a administração pública, a administração da justiça, a fé pública, o
meio ambiente, o sistema financeiro, a ordem tributária, a ordem econômica
e a segurança pública, dentre vários outros. No sentido econômico, o crime

FGV DIREITO RIO 97


CRIME E SOCIEDADE

pode ser classificado em dois grupos: o lucrativo (furto, roubo ou extorsão,


usurpação, estelionato, receptação, etc.) e o não-lucrativo (estupro, abuso de
poder, tortura, etc.) (BECKER, 1968). A raiz principal dessa divisão está no
fato do primeiro grupo visar, em última análise, a obtenção do dinheiro ou
de coisa alheia (que tenha valor pecuniário) por meios ilícitos (usando ou
não o atributo da violência); enquanto o segundo grupo não apresenta esta
relação aparente.

Neste sentido, o criminoso econômico pode ser encarado como um “em-


presário”, o qual é descrito por Schaefer (2000) como um agente que irá
organizar a sua produção, reunindo os fatores de produção disponíveis, as-
sumindo os riscos inerentes à atividade criminal. As expectativas do “em-
presário” criminoso também são de auferir lucro ou prejuízo. No caso de
malogro de uma operação ilegal, o prejuízo pode significar punições previstas
no Código Penal.

Se o crime lucrativo faz parte da questão econômica, as questões nucleares


que emergem desta contextualização resumem-se em: quais as circunstâncias
socioeconômicas da escolha ocupacional entre o setor legal e ilegal da econo-
mia, e por que os indivíduos decidem praticar crimes econômicos? Analisar
esses aspectos para uma amostra de réus − julgados e condenados −, oriundos
de estabelecimentos carcerários paranaenses, a partir de dados primários ob-
tidos via aplicação de questionário seguido de entrevista, poderá contribuir
para elucidar questões que outros delineamentos metodológicos não permi-
tem inferir. Reconhece-se, portanto, a importância e a necessidade do estudo
científico como ferramenta para a elaboração e implementação de políticas
de prevenção e combate à criminalidade, com um aspecto diferente, as causas
e imbricações da criminalidade lucrativa são explicitadas e discutidas pelo
próprio criminoso.

(...)

O crescimento do número de crimes e a insatisfação com as tradicionais


explicações da participação dos indivíduos em atividades ilícitas têm moti-
vado os economistas a estudarem com mais afinco a criminalidade (BAL-
BINOTTO NETO, 2003). Isso, no entanto, não é recente. Para Araujo
Jr. (2002), talvez tenha sido Fleisher (1963) o primeiro autor a relacionar
a importância de fatores econômicos na determinação da variação das ta-
xas de criminalidade. Mas, foi Becker (1968), com forte suporte em teoria
econômica, que fez o clássico trabalho que veio preencher a lacuna existente
entre a economia e o crime, e que apresentou “um modelo microeconômico
no qual os indivíduos decidem cometer ou não crimes, ou seja, fazem uma

FGV DIREITO RIO 98


CRIME E SOCIEDADE

escolha ocupacional entre o setor legal e o setor ilegal da economia” (AraUjo


Jr., 2002, p.3). A hipótese mor de Becker (1968) é que os agentes crimino-
sos são racionais, calculando o seu benefício de atuar ou não no setor ilícito
da economia.29 No tocante à concepção de Becker (1968), Balbinotto Neto
(2003, p.1) expõe que:

O argumento básico da abordagem econômica do crime é que os infra-


tores reagem aos incentivos, tanto positivos como negativos e que o número
de infrações cometidas é influenciada pela alocação de recursos públicos e
privados para fazer frente ao cumprimento da lei e de outros meios de pre-
veni-los ou para dissuadir os indivíduos a cometê-los. Para os economistas,
o comportamento criminoso não é vista como uma atitude simplesmente
emotiva, irracional ou anti-social, mas sim como uma atividade eminente-
mente racional.

A hipótese de que os criminosos econômicos são, per se, doentes mentais,


coitados excluídos pela família e/ou sociedade, sem condições de competir
pelas alternativas legais do mercado de trabalho, não encontram sustentação
na teoria econômica do crime. Estes indivíduos são comumente racionais e
impetuosos, oportunistas diante de um ambiente propício e factível, e sem
nenhuma preocupação com o lado moral do negócio ou com o bem estar
social (BRENNER, 2009).
29
Competentes revisões de literatura
sobre economia do crime, nacional e
Especificamente nos crimes econômicos, Coleman (1995) relata que as internacional, foram feitas por Araujo
principais causas são a motivação e a oportunidade. A primeira está relacio- Jr. (2002), Cerqueira e Lobão (2003),
Brenner (2009), Mariano (2010) dentre
nada tanto à personalidade do indivíduo30 como à cultura da competição que outros. Maiores considerações sobre
tais revisões, além de trabalhos empíri-
caracteriza a sociedade capitalista. Jogam um papel importante nesse “efeito cos sobre esta temática, ver os autores
criminógeno” o fato de que o conceito de sucesso esteja diretamente atrelado à supracitados.

riqueza e à manutenção de um alto padrão de vida (aqueles que não alcançam Embora até hoje seja comum asso-
30

ciar o crime à pobreza e o criminoso


tais padrões são vistos como incompetentes ou preguiçosos), fazendo com que com alguém marginal à sociedade,
foi o estudo pioneiro de Sutherland,
haja um sopesamento entre moral e compensação financeira. A motivação para apresentado em 1939 durante uma
o crime é a crença de que, violando a lei, o indivíduo terá mais prazer e menos conferência conjunta da Sociedade
Americana de Sociologia e da Asso-
dificuldade do que se utilizasse os meios lícitos existentes para ficar rico. ciação Americana de Economia, que
afirmou que há pessoas absolutamente
saudáveis e bem criadas que praticam
crimes. Ainda segundo Sutherland,
Por sua vez, a segunda causa é a oportunidade, entendida como um sope- as práticas negligentes adotadas por
samento entre quão grande poderá ser o lucro e quão ruim poderá ser a puni- grandes empresas ocorriam com a
mesma freqüência e de forma tão pro-
ção. Nesse ponto, são fatores importantes a regulação de determinado setor de fissional como crimes praticados por
quadrilhas de assaltantes. A pesquisa
indústria ou comércio (quando não há normas de fiscalização e transparência, de Sutherland constatou que das 70
aumentam as oportunidades de crimes econômicos), as práticas de concorrên- maiores corporações dos EUA, 100%
delas já havia sido condenada pela prá-
cia predatória de determinado segmento econômico (setores com margem de tica de infrações relacionadas a fraudes
fiscais, violações à livre concorrência
lucro pequena vêem na sonegação um diferencial competitivo) e a função que ou venda de produtos defeituosos. A
o criminoso ocupa na empresa (contadores, diretores e administradores têm pesquisa constatou ainda a média de
14 condenações por corporação e um
mais e melhores oportunidades de praticarem os crimes econômicos). índice de 91,7% de reincidência.

FGV DIREITO RIO 99


CRIME E SOCIEDADE

Este insight da racionalidade do criminoso também está evidente na


relação de risco verificada na estrutura de mercado do crime, porquanto
numa atividade criminal está implícito o princípio hedonístico do máximo
ganho com o mínimo de esforço, isto para variados graus de risco (FER-
NANDEZ, 1998). “Criminalistas poderiam também descrever alguns cri-
minosos como apreciadores do risco, especialmente quando cometem as-
saltos com grandes possibilidades de apreensão e punição” (PINDYCK e
RUBINFELD, 1994, p.189).

Neste contexto, a análise econômica do crime baseia-se fortemente na re-


lação delito-punição como determinante da taxa criminal, em que a eficácia
policial e judicial relaciona-se com a possibilidade dos benefícios da atividade
criminosa suplantarem seus custos e compensarem o risco estipulado (Fer-
nandez, 1998; BALBINOTTO Neto, 2003). Por isso, o objetivo da socie-
dade é tornar nulo o retorno lucrativo médio do empresário criminoso e/ou
aumentar o risco desta atividade – neste caso, “a ausência de crime pode ser
definida como segurança” (JONES, 1977, p.163). Ou seja, a sociedade não
criminosa procura maximizar os custos da atividade infratora e/ou minimi-
zar seus lucros. A conclusão de que o crime não deve compensar é a solução
ótima a ser perseguida (BRENNER, 2009). Para tanto, a sociedade deve
estar atenta aos elementos coibidores do crime, como melhoria dos aparatos
policiais, formação educacional, oferta de trabalho, urbanização planejada,
distribuição de renda, etc. (FERNANDEZ, 1998).

Por outro lado, é preciso analisar o custo da penalização em relação ao


custo da tolerância do delito, pois a criminalização/punição podem se tornar
fatos ineficientes. Determinados crimes podem apresentar penas superiores
ao custo da tolerância, como parecia ser o caso do crime de adultério (que
vigorou até 2005, mas há muito tempo já havia “caído em desuso”), e de-
terminadas penas podem apresentar vantagens inferiores para a sociedade no
que tange à “readaptação” do criminoso, como é o caso do usuário de drogas
(que não é mais punido com pena de prisão desde 2006).

Outro dado importante que merece ser considerado é o custo das penas,
sendo preferível a aplicação de penas que gerem a mesma eficiência com
menor custo, o qual é mais reduzido nas penas pecuniárias e extremamente
elevado nas penas de prisão31, muito embora o grau de intimidação destas 31
“Não é à toa assinalava Bentham que
últimas seja maior que o das primeiras. ‘a pena mais econômica será aquela
que não cause nem uma partícula de
mal que não seja convertido em pro-
veito; as penas pecuniárias têm esta
Assim como outra atividade econômica qualquer, os ganhos na atividade qualidade em grau acentuado, pois
empresarial do crime são incertos e dependem da probabilidade de sucesso de todo mal que sente o sujeito que a paga
converte-se em proveito para o sujeito
suas operações. Não existem dados que estimem a probabilidade de detenção que a recebe’” (apud SANCHEZ, 2004).

FGV DIREITO RIO 100


CRIME E SOCIEDADE

de um indivíduo no Brasil, mas supõe-se ser menor que verificada nos Es-
tados Unidos, que é de apenas 5%. Isto implicaria dizer que no Brasil a
probabilidade de sucesso no setor do crime pode ser maior do que 95%
(FERNANDEZ, 1998). Para Adorno (2002, p.50), “não são poucos os estu-
dos que reconhecem a incapacidade do sistema de justiça criminal, no Brasil
– agências policiais, ministério público, tribunais de justiça e sistema peni-
tenciário –, em conter o crime e a violência respeitados os marcos do Estado
democrático de Direito.”

Diante do crescimento quantitativo e qualitativo do negócio ilícito no


mundo, a monta que esta economia específica movimenta é significativa,
conforme descreve Fernandez e Maldonado (1999): “para a surpresa de mui-
tos especialistas, o tráfico de drogas, que movimenta anualmente algo em
torno de US$ 750 bilhões, passou a ser considerado um dos grandes negó-
cios no ranking mundial, perdendo apenas para o setor de petróleo e para a
indústria automobilística”.

O crime econômico está tomando veemência e atingindo toda a socieda-


de. O fito de investigar suas causas enquanto ato exclusivo da espécie huma-
na perpassa por psicólogos, sociólogos, filósofos, advogados, economistas,
dentre outros profissionais dos diversos ramos da ciência. Dentre as correntes
de pensamento econômico que discutem a economia do crime podem ser
destacadas três, segundo compilação de Engel (2003, p.9-10):

 Uma corrente de origem marxista, que acredita que o aumento da


criminalidade, principalmente aquela ligada à prática de crimes lucra-
tivos, está relacionada às características do processo capitalista e é resul-
tado direto das alterações do comportamento empresarial no período
pós-industrial [...]. Os cientistas enquadrados nessa corrente de pen-
samento acreditam que devido o processo empresarial centralizador
de capital e os avanços tecnológicos resultantes, os ambientes sociais
tornaram-se mais propensos às atividades criminosas. Segundo essa li-
nha de pensamento, o convívio social do capitalismo pós-industrial
incentivou a chamada degeneração moral e assim permitiu o cresci-
mento da atividade criminosa (FERNANDEZ e PEREIRA, 2001).

 Outra corrente, mais ampla, associa o aumento da criminalidade a


problemas estruturais e conjunturais, tais como índices de desem-
prego, analfabetismo, e baixos níveis de renda bem como a desi-
gualdade social. Pode-se ainda relacionar a esta corrente as inefi-
ciências policiais e judiciais, que contribuem para a manutenção e
crescimento das organizações criminosas. Fernandez e Maldonado
(1999), em seus trabalhos, apontaram para razões dessa natureza.

FGV DIREITO RIO 101


CRIME E SOCIEDADE

 E uma terceira e importante corrente de pensamento da economia


do crime analisa a prática de crimes lucrativos como atividade ou
setor da economia como qualquer outra atividade econômica tradi-
cional (BECKER, 1968).

A economia do crime assume que uma pessoa age racionalmente com base
nos custos e benefícios inerentes às oportunidades legais e ilegais. Grande parte
dessa idéia advém do modelo de escolha ocupacional de trabalho. Na realida-
de, essa teoria do comportamento criminal baseia-se na suposição de escolha
racional proposta por Beccaria e Bentham (EIDE, 1999; MARIANO, 2010).

Outrossim, fundamentada na sua maioria em modelagens matemáticas, a


teoria econômica do crime experimentou mais recentemente alguns avanços
no estudo da criminalidade. A partir de citação de Borilli e Shikida (2002,
p.198) esses modelos podem ser classificados em:

 modelo de alocação ótima do tempo – postula que o indivíduo esco-


lhe quanto do seu tempo ele deverá alocar em uma atividade econô-
mica, seja legal ou ilegal, procurando maximizar sua função de uti-
lidade esperada, que depende, fundamentalmente, dos rendimentos
das atividades legal e ilegal – a atuação no setor ilegal ocorrerá se os
custos de operação nessa atividade forem menores que os seus bene-
fícios (BECKER, 1968);

 modelo comportamental – procura explicar a atividade criminal


através das interações sociais (GLAESER et al., 1996) - segundo
Glaeser (1999) citado por Araujo Jr. e Fajnzylber (2000, p.632) “if
one person’s criminal activities increases the benefits (or decreases the
costs) of his neighbour engaging in crimen then we should expect to find
a high variance of crime rates over space”;

 modelo de migração – os indivíduos irão avaliar as oportunidades


disponíveis nos setores legal e ilegal e poderão migrar para a ativi-
dade criminal se os ganhos esperados superarem os custos de migra-
ção, no qual estão inclusos os custos financeiros e não financeiros
(FERNANDEZ e MALDONADO, 1999) – este modelo é, na rea-
lidade, derivado do clássico trabalho de Becker (1968);

 modelo de portfólio – a decisão individual em participar do crime


ocorrerá mediante escolha de quanto da riqueza deve ser alocada
no mercado legal e ilegal, sendo o envolvimento numa atividade de
cunho ilegal uma operação considerada mais arriscada (ver: FER-
NANDEZ e PEREIRA, 2000).

FGV DIREITO RIO 102


CRIME E SOCIEDADE

Jones (1977) e Schaefer (2000), por intermédio de uma exposição gráfica,


corroboram importantes pontos da teoria econômica do crime. De acordo
com o gráfico 1, no eixo da abscissa observa-se o volume de crime e no eixo
da ordenada observa-se o retorno líquido médio do crime. O crime, nesta
exposição, é um bem negativo, haja vista a suposição da não existência de
demanda para este tipo de produto. Ao revés, a sociedade pagará e/ou terá
um determinado custo para que o crime não vigore. Desse modo, a curva de
demanda negativa D evidencia o preço que a sociedade terá de pagar para
coibir/eliminar o crime. A curva D não inicia em zero porque numa socie-
dade normal existe sempre algum nível de crime “tolerável” (uma sociedade
com segurança total seria utópica; sempre existirão pessoas amantes ao risco
no que diz respeito às atividades ilegais) (RODRIGUES, 2007).

FGV DIREITO RIO 103


CRIME E SOCIEDADE

GRÁFICO 1 – Oferta do crime e a curva de demanda negativa para o


combate ao crime

Retorno
líquido
médio do
crime

FONTE: Adaptado de JONES (1977) e SCHAEFER (2000)

Neste panorama, o nível de equilíbrio do crime indica um deter-


minado volume de crime OA, para um determinado retorno líquido
médio do crime OB. Supondo uma reformulação dos aparatos policiais,
isto é, tornando-o mais eficaz, têm-se o deslocamento da curva de de-
manda para a esquerda (D1). Isto provoca uma diminuição no volume
de crime para OC, e uma redução do retorno líquido médio do crime
para OE. Uma situação oposta seria o caso de uma hipotética desestru-
turação dos aparatos policiais, ou seja, a curva de demanda numa situ-
ação inicial D1 seria deslocada para a direita (D). Haveria, portanto,
um crescimento do retorno líquido médio do crime de OE para OB,
enquanto o volume de crime cresceria de OC para OA. A cursa S repre-
senta a oferta do crime (quando o retorno líquido médio do crime se
eleva, o volume de crime aumenta).

FGV DIREITO RIO 104


CRIME E SOCIEDADE

A escolha pela corrente da economia do crime para nortear 10 anos de


estudo (BECKER, 1968) reside no fato de se analisar a criminalidade, de
cunho lucrativo, sem perder de vista a associação deste fenômeno com pro-
blemas estruturais e conjunturais do contexto socioeconômico em que o in-
divíduo criminoso se insere, e admitindo que o comportamento criminoso
não é visto como uma atitude irracional, emotiva ou anti-social, mas sim
como uma atividade racional em que o criminoso, notadamente o econômi-
co, é considerado um agente que assume riscos.

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CRIME E SOCIEDADE

Thiago Bottino
Graduado em Direito pela Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro (1999), Mestre (2004) e Doutor (2008) em Direito pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro. Pós-Doutor (Visiting Scholar)
na Columbia Law School (2014). Professor visitante (International
Visiting Professor) na Columbia Law School (2018). Professor Adjunto
da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas e
Coordenador do Curso de Graduação em Direito. Leciona as disciplinas
Crime e Sociedade, Direito Penal Econômico e Direito Processual Penal
na Graduação e na Pós-Graduação lato sensu. É membro do corpo
docente permanente do mestrado em Direito e Regulação, lecionando
a disciplina Reflexos Penais da Regulação Econômica. Coordenou
projeto de pesquisa sobre as medidas cautelares no Processo Penal
em parceria com o Ministério da Justiça e com financiamento do
PNUD (base para o PL nº 2902/2011, em tramitação na Câmara dos
Deputados). Coordenou projeto de pesquisa sobre Habeas Corpus na
condição de Pesquisador-Visitante do IPEA (2013-2015). Membro
efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) onde integra
a Comissão Permanente de Direito Penal e a Comissão de Direitos
Humanos. Integrou a Comissão de Exame de Ordem da OAB/RJ, a
Comissão de Estudos Penais da OAB/RJ e a Comissão de Direitos
Humanos da OAB/RJ, tendo recebido a Medalha Chico Mendes
oferecida pelo Grupo Tortura Nunca Mais/RJ por sua atuação nesse
período, e a Comissão de Direito Constitucional do Conselho Federal da
OAB (2015-2016). Atualmente integra o Observatório Jurídico da OAB/
RJ para a Intervenção Federal. Associado ao IBCCRIM, tendo exercido
as funções de Vice-Presidente (2017-2018), Diretor do Departamento
de Amicus Curiae (2013-2014) e Diretor de Projetos Legislativos
(2019-2020), além de ter integrado a Comissão Organizadora do
Seminário Internacional (2015-2016, 2017-2018, 2019-2020) e o
Departamento de Amicus Curiae (2012-2020). Autor de livros e artigos
sobre Direito Penal e Processual Penal, tendo proferido palestras no
Brasil e no exterior (Alemanha, França, Estados Unidos, Costa Rica,
Espanha e Índia). Link para o currículo Lattes: http://lattes.cnpq.
br/3134056986747443

FGV DIREITO RIO 106


CRIME E SOCIEDADE
FINANÇAS PÚBLICAS

FICHA TÉCNICA

Fundação Getulio Vargas

Carlos Ivan Simonsen Leal


PRESIDENTE

FGV DIREITO RIO


Sérgio Guerra
DIRETOR
Antônio Maristrello Porto
VICE-DIRETOR
Thiago Bottino do Amaral
COORDENADOR DA GRADUAÇÃO
André Pacheco Teixeira Mendes
COORDENADOR DO NÚCLEO DE PRÁTICA JURÍDICA
Cristina Nacif Alves
COORDENADORA DE ENSINO

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