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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL


SELEÇÃO DE MESTRADO 2019
LINHA DE PESQUISA: CULTURA E PODER

Saneamento em Fortaleza: Uma história sobre meio ambiente e controle social na


urbe de fins do século XIX
Número de inscrição:

FORTALEZA, 2019
1. INTRODUÇÃO/JUSTIFICATIVA

Ao entrar na graduação de Tecnologia em Saneamento Ambiental desenvolvi o hábito


de observar as situações relativas ao meio ambiente, em especial as questões ligadas ao
saneamento em si, e ao mesmo tempo questionar a respeito da origem, das condições,
perspectivas e outras facetas que mostrassem as mudanças e permanências relativas a
esse setor na cidade de Fortaleza.
A priori notei que não havia uma “história do saneamento” efetivamente escrita por um
pesquisador, ou ao menos ainda não encontrei nenhuma. Havia também a expectativa
dos professores do curso de saneamento que ao saberem do meu interesse nesse tema
me incentivaram a pesquisá - lo. Nesses termos resolvi empreender este projeto para
colaborar na construção historiográfica da cidade de Fortaleza sob a perspectiva
ambiental.
Embora haja estudos no âmbito de outras ciências como a geografia, a política pública,
e a medicina sobre higiene, práticas higienistas, vacinação, relação das doenças com a
falta de limpeza, consideramos que este trabalho se propõe a estudar a implementação
do saneamento com base nos ideais da engenharia, medicina e crenças sociais do
período em questão, além de buscar por mudanças e permanências que se possam
verificar no imaginário popular e nas ações governamentais nesse momento de
idealização e implementação das obras de saneamento e salubridade urbanas.
Nos anos finais do século XIX Fortaleza figurava como capital da província cearense, e
seus habitantes frequentemente enfrentavam problemas de saúde que tomavam grande
proporção na forma de epidemias que geravam para além do temor e preocupações,
numerosas mortes na população. Tais problemas eram ocasionados pela precariedade/
inexistência de um conhecimento e exercício efetivo do manejo ambiental que
resultasse numa rede confiável de abastecimento de água e esgotamento sanitário, além
da falta de uma normatização adequada relacionada à disposição final do lixo das
residências, bem como da ausência de educação ambiental que induzisse os populares a
fazer um correto descarte do lixo residencial.
Segundo Campos (1985) os morticínios causados por doenças como “bexigas,
desinteria, sarampão, papeiras, febre amarela e „cholera‟”levavam a população a temer a
“morte horrível”. Tal situação
haveria de contribuir para o fortalezense forrar – se de mais cuidados,
passando a acatar sem relutâncias as normas de polícia administrativa que já
tardavam em disciplinar, por outro lado o crescimento do seu casario.

O trecho acima nos leva a perceber que apesar do grande medo da morte ocasionada
pelas doenças, a população da capital registrava aumento no final do século XIX
exigindo do poder público medidas para sanar tais problemas, além da cobrança
exercida pelos médicos e inspetores da higiene amparados pelo discurso higienista em
voga naquele período. Também intelectuais como Thomaz Pompeu, filho do senador
Pompeu, que escreveu sobre variados temas, inclusive sobre saneamento e salubridade,
preocupa-se em destacar esse ponto como peça chave para a modernização da cidade no
intuito de assemelhá-la às urbes europeias e norte americanas, as quais toma como
exemplo e modelo no trato das questões relacionadas à salubridade urbana.

2. PROBLEMATIZAÇÕES

O foco deste trabalho é o estudo das ações para a execução do saneamento básico na
capital em fins do século XIX e início do XX. Por ações de saneamento trataremos do
conceito conforme definido no Manual de Saneamento – FUNASA1(2015), que explica
o saneamento como
conjunto de ações socioeconômicas que tem por objetivo alcançar a
salubridade ambiental, por meio de abastecimento de água potável, coleta e
disposição sanitária de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, promoção da
disciplina sanitária de usos do solo, drenagem urbana, controle de doenças
transmissíveis e demais serviços de obras especializadas, com a finalidade de
proteger e melhorar as condições de vida urbana e rural.

O saneamento de modo geral é um assunto sempre em pauta porque diz respeito à


qualidade de vida, aqui entendida como preservação desta segundo características
ambientais como água, ar, e solo, entre outros elementos imprescindíveis à vida
humana. No entanto o Manual de Saneamento organizado pela FUNASA traz em seu
capítulo introdutório as várias definições que já utilizou para o termo. A versão mais
recente deste documento, observa que
“O conceito de saneamento vem sendo socialmente construído ao longo da
história da humanidade, em função das condições materiais e sociais de cada
época, do avanço do conhecimento e da sua apropriação pela população. A
noção de saneamento assume conteúdos diferenciados em cada cultura, em
virtude da relação existente entre homem-natureza e também em cada classe
social, relacionando-se, nesse caso, às condições materiais de existência e ao
nível de informação e conhecimento.” (2015, p. 18)

Considerando a capilaridade do tema e os possíveis desdobramentos, o trabalho


pretende responder às seguintes questões: Quais foram ações do governo municipal para
o enfrentamento dos problemas de higiene publica na cidade? Em que momento
percebeu – se a necessidade de tratar desses problemas? Havia a percepção de que esses
problemas eram ambientais? Qual a percepção da comunidade (os habitantes) acerca do
saneamento urbano? Como a municipalidade regulamentou a limpeza urbana? De que
forma os habitantes da cidade receberam estas novidades e como implementaram as
essas práticas no seu cotidiano? Os códigos de postura eram claros quanto às
orientações, fiscalizações e punições ao munícipe infrator? Quais ações específicas
foram realizadas pela prefeitura ou o governo provincial /estadual no intuito de fornecer
água potável e esgoto sanitário àpopulação da capital? Que papeis exercia a figura o
inspetor de higiene, os médicos e engenheiros nesse processo? Quais eram os discursos
e práticas de higiene da população?

Ainda sobre a pertinência do assunto observamos que o tema é bastante interdisciplinar,


visto que também está sobremaneira ligado às preocupações relativas à saúde, aos

1
FUNASA – Fundação Nacional de Saúde. Órgão ligado ao ministério da saúde.
costumes, e ao nível de educação do povo, bem como aos investimentos
governamentais voltados ao desenvolvimento de tecnologias para saneamento e
preservação do meio ambiente no tocante a implantação, oferta e gestão desse serviço a
população.
Sendo assim, julgamos adequado dialogar com os estudos sobre políticas publicas,
urbanismo e construção civil, geografia urbana, além dos estudos médicos e
antropológicos que já expressaram sua colaboração no entendimento sobre o tema do
saneamento e da salubridade ambiental.
É importante ressaltar que o ambiente de semi - árido no qual o estado do Ceará está
inserido, causou grandes períodos de seca em ciclos alternados, a exemplo dos anos de
1777, 1915. Tais fenômenos provocaram grande devastação e mortandade, pois para
além das perdas de animais, da baixa produção de alimentos e a crise econômica daí
decorrente, a mortalidade causada pelas doenças que atingiam a população de maneira
epidêmica grassavam pela precariedade da limpeza urbana, tratamento de água e
adequado descarte dos esgotos.
O historiador Sebastião Rogério Ponte, em seu livro Fortaleza Belle Époque já aborda o
ideário social vigente em fins do XIX e início do XX na referida cidade. A partir do
trabalho do professor observamos a oportunidade de contribuir com a historiografia do
período investigando mais a fundo a implementação das ideias e obras referentes ao
saneamento na capital cearense nos primeiros anos da república.
Também o historiador Sidney Chauloub já tratou dos aspectos sociais relativos às
reformas urbanas, às doenças e à limpeza do Rio de Janeiro no século XX. Sua obra
Cidade Febril, é uma diretriz para onde olhamos na idealização desta proposta de
pesquisa.
Na senda das grandes cidades como Rio de Janeiro, Londres, Paris que eram para a
provinciana Fortaleza do início do século XX modelo,a busca por modernização e
progresso era perceptível nas falas dos governantes e dos intelectuais como Thomaz
Pompeo, filho do Senador Pompeu.
Esse estudioso que tinha como objeto o Ceará e suas múltiplas facetas já registrava em
seus trabalhos sobre as ponderações a respeito das mais atuais ideias da época sobre
saneamento e salubridade. Em seu livro, Ceará no início do século XX, dedica um
capítulo inteiro sobre o tema da salubridade, sendo este inclusive o título do capítulo
dentro da referida obra.
Em nossa pesquisa inicial, onde visávamos delimitar o tema deste estudo, observamos
que no jornal Gazeta Oficial (disponibilizado no Instituto do Ceará2) onde o governo
estadual publicava os assuntos de seu interesse, as prefeituras também prestavam
esclarecimentos das atividades do mandato na forma de relatórios anuais, além de
responder às demandas da população que eram publicadas em jornais populares e
publicar editais e avisos que procuravam normatizar as questões relativas ao trato do
lixo e outros assuntos de limpeza da urbe cearense.
A partir desta percepção, aventamos a possibilidade de conhecer melhor o diálogo entre
governantes e governados no tocante aos costumes praticados à época e a tentativas (por
parte dos governantes) de normatização que objetivavam uma mudança comportamental

2
Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará
do munícipes quanto ao asseio coletivo e doméstico, bem como do uso da água, o
despejo de esgoto, e o trato do resíduo sólido.

3. OBJETIVOS

Geral:

Entender como ocorreu o processo e a normatização dos hábitos de asseio coletivos e


domésticos por meio das políticas saneamento implantadas na Fortaleza do início do
século XX.
Específicos:

 Entender como foram implantadas as medidas higiênicas por parte dos governos
da época;
 Compreender como a população incorporou (ou não) essa mudança no seu
cotidiano.
 Conhecer quais as crenças existentes à época sobre higiene, saúde e natureza que
eram do conhecimento do povo e faziam parte de sua prática como habitantes da
capital?
 Registrar como se deu o primeiro trabalho de sanear a cidade segundo os ideais
médicos, políticos, e segundo as possibilidades da engenharia e tecnologia
disponíveis no momento.

4. DISCUSSÃO HISTORIOGRÁFICA

Segundo Donald Worster, a História Ambiental tem como objetivo “ aprofundar o nosso
entendimento de como os seres humanos foram, através dos tempos afetados pelo seu
ambiente natural e, inversamente como eles afetaram esse ambiente e com que
resultados.”3 De modo geral, esta é a base que inspira o presente projeto de pesquisa.
O conceito de “Ideologia da higiene” defendido pelo historiador Sidney Chalhoub na
sua Cidade Febril, influenciada pela teoria dos miasmas, trata de alguns aspectos entre
eles a relação da higiene com o “aperfeiçoamento moral e material” além de ser “um
caminho de civilização” válido e aplicável para qualquer “povo”. Utilizando palavras
como “grandeza” e “prosperidade”, destaca que a missão do governante era favorecer a
higiene pública como forma de progresso da nação de modo que pudesse ser equiparada
às grandes metrópoles européias.
Conquanto haja várias produções acadêmicas que abordam a História Ambiental, as
pesquisas em sua maioria tratam sobre rios, mares, florestas, arborização, ajardinamento
das cidades, pouco abordando as situações relativas ao saneamento urbano e rural que
tanto influencia no cotidiano das pessoas, e na mudança do espaço de convívio.

3
WORSTER, Donald. Para fazer História Ambiental. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 4, n. 8,
1991, p. 201.
5. METODOLOGIA

A ideia para esta pesquisa ocorreu a partir do contato com dos professores do IFCE 4 que
deram a ideia de juntar os conhecimentos da História de do Saneamento Ambiental. A
partir disso comecei a pensar em como poderia propor um estudo unindo essas duas
áreas. A priori busquei livros sobre história do saneamento e percebi que não existia um
estudo focado apenas nesse tema. Lendo na internet, notei que havia o livro da
professora Simone Fadel que tem como título Meio Ambiente, Saneamento e
Engenharia no Império e na Primeira República, publicado em 2009 e um artigo do
professor Fabiano Quadros Ruckert que tem como título A Politização da Higiene na
Imprensa do Rio Grande do Sul, publicado na Revista de História Regional em 2016.
A partir daí passei a visitar o Instituto Histórico do Ceará em busca de jornais ou outros
documentos que pudessem auxiliar minha pesquisa. No jornal Gazeta Oficial pude
perceber que haviam alguns indícios de preocupações relativas à normatização da
limpeza pública no que dizia respeito ao recolhimento do lixo.
Li outros documentos e livros que me foram apontados no Instituto que falavam sobre
febres paludosas, construção de cacimbas, sobre a contaminação dessas cacimbas pela
falta de locais adequados para deposição da matéria fecal e do lixo doméstico, sobre o
estado de sujeira que se encontravam determinados rios e riachos utilizados como local
de despejo das matérias fecais e águas servidas.
Enfim, as informações estão um tanto espalhadas, mas percebe – se que com a leitura de
jornais, e outros documentos é possível organizar um bom entendimento de como o
serviço de saneamento foi feito e sob que condições.
Também no Arquivo Público do Estado pude procurar alguns documentos sobre a
Inspetoria de Higiene e também o setor de Obras Públicas que contém, exames,
pareceres, correspondências, termos de contrato e atas que tratam sobre os
procedimentos do poder público e de seus técnicos para efetivar os trabalhos saneantes
na capital.
Penso que há muito a ser garimpado para efetivar esse estudo, no entanto é algo que
deve ser feito, visto que poucas obras foram realizadas no intuito de registrar e analisar
esta faceta da historiografia.

6. DISCRIMINAÇÃO DAS FONTES

Arquivo Público do Estado do Ceará (APEC).


BR, APEC, OP, TC - CAIXA 17 - DOSSIÊ 6 E 7
BR, APEC, OP, EXP – CAIXA 18

Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará

4
Instituto Federal do Ceará – Campus Fortaleza
JORNAL GAZETA OFICIAL – ANO 1917

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Manual de Saneamento da Funasa. 2015


BRASIL, Thomaz Pompeo de Souza. Salubridade. (Verificar a citação correta do autor
e ano da publicação)
CAMPOS, Eduardo. Capítulos de história da Fortaleza do séc. XIX. (O social e o
urbano). Fortaleza, Edições UFC (PROED), 1985.
CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial 2ª Ed. -
São Paulo: Companhia das letras, 2017.
COSTA, Maria Clélia Lustosa. O discursos higienista e a ordem urbana. (VER ANO E
EDITORA)
FADEL, Simone. Meio ambiente, saneamento e Engenharia no Império e na Primeira
República. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.
PÁDUA, José Augusto. As bases teóricas da História Ambiental. In: Estudos
Avançados, vol. 24, n. 68, 2010, p. 81-101.
PONTE, Sebastião Rogério. Fortaleza Belle Époque: reformas urbanas e controle social
(1860 – 1930) 2.ed. – Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 1999
WORSTER, Donald. Para fazer História Ambiental. In: Estudos Históricos, Rio de
Janeiro, vol. 4, n. 8, 1991, p. 198-215.