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Dr.

J U L I A N O MOREIRA

A Psycchiatria e a Guerra
Conferencia realizada no Club Militar

em 4-2-191S, sob os auspicios da

Sociedade Medico-Cirurgica Militar

CAPITAL FEDERAL
1918
/ \ PSYCHIATRIA E A GUERRA

Exmas. senhoras. - ^^
Eximo. Sr. Marechal Ministro Guerra,
Exmos. Sns. Generales, Srs. officiaes, meus senhores.
Por excessiva gentileza dos. meus collegas da So-
ciedade Medico-Cirúrgica Militar, aqui estou, desagei-
tado e pacifico paizano, para falar-vos de algumas das
relações da neuropathologia com a guerra.
Se se tratasse de desculpar os meus amigos pela
imprudência de trazer-mle até aqui, eu vos referiria que
em 1889 quando foi da proclamação da Republica, ao
primeiro surto de decidida inclinação da juventude bra-
sileira para a generalisação do serviço militar, lá fui
eu em minha terra, ao velho quartel do 16, cujos fos-
sos embellezavamos nós, do alto do ntíâsó , espirito ju-
venil, com as mais heróicas e complicadas lendas, lá
fui eu também iniciar-me nos segredos do..g'eit:o de mar-
char em boa linha.
Não foram grandes nossos progressos em arte mi-
litar, porque essencial para quasi todos nós era mar-
char. Para que o resto, se logo verificamos que a nação
quasi em peso mesmo sem marchas nem oontramar-
chas, adherira ao movimento revolucionário? Por um
triz escapamos de crear o titulo de republicano histo-
rico, como depois o novO Portugal creara o de revolu-
cionário civil. E escapamos porque só a poucos faltára
a coragem de se não brazonar com aquelle qualifica-
tivo. Já então me impressionada a facilidade com que
nos acceitavam a todos nós no interior da caserna.
Passaram-se os annos. Veio a revolta contra o Ma-
rechal Floriano. Depois veio a campanha de Canudos,
para não falar senão nos tremores sociaes maiores de
nossa terra.
Foram essas opportuniuades que me fizeram co-
meçar a pensar nos ensinamentos que delias a psychia-
tría poderia tirar e dos conselhos que poderia tomar a
liberdade de lembrar aos chefes do nosso exercito.
Das tres vezes vi sossobrarem cerebros, cujo equi-
librio instável apenas aguardava o momento de rotura.
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Comecei a pensar em que haveria vantagem de esta-


belecer no exame do recruta entre nós, algo de pres-
tadio no sentido de afastar das fileiras muito elemento
mau de cuja1 manutenção nenhum bem resulta para o
exercito. Conversei messe- oom vários collegas milita-
res e apezar do enthusiasmo com que viam nitidamente
as vantagens dos alvitres que lembrava, mostravam-me
logo as difficulSades a vencer na execução de alguma
coisa de util. O exercicio quotidiano da especialidade,
a frequencia das entradas de soldados e marinheiros as-
sim como de ex-soldados e ex-marinheiros no manico-
mio da Praia da Saudade, fizeram-me mesmo pedir ao
estimado collega o General Dr. Ismael da Rocha que
destacasse para o serviço do Hospital Nacional, um me-
dico militar que se interessasse pela' especialidade e
pelos militares que adoecessem do cerebro. Mais tarde
á requisição do General Amaral foi designado o Dr.
Murillo de Campos, de cuja intelligente dedicação ao
estudo de neuropathologia dou neste momento, publico
testemunho. Em artigos por elle publicados já estão em
s y n t h e s e as ideias pelas quaes nos vinhamos batendo
ha muito. Era )( meio caminho para a realisação de
umas medidas de que dentro em pouco voltarei a fa-
lar-vos.
Por essas razões a mim e não a outro escolheram
os collegas da Sociedade Medico-Cirurgica Militar para
a presente palestra.
Lamento mui sinceramente não poder hoje enca-
rar todos os problemas, sobretudo os sociaes, cabiveis
dentro da rubrica — a psychiatria e a guerra.
Um grande interesse teria, por exemplo, o estudo
das condições psychicas dos vários povos nos momen-
tos que precederam a declaração de guerra; a média
psychica dos diversos povos depois de declarada a guer-
ra e os desvios da normalidade no correr das opera-
ções. O pullular desordenado de boatos e mentiras de
toda ordem nos vários paizes em luta merecia uma ana-
lyse minudente. Em uma revista suissa, um psychologo
de nome, o Prof. Martin Rade, publicava ha dous annos
um artigo pedindo aos psychologos e aos psychiatras
do mundo inteiro que lhe enviassem documentos para
um archivo das phantasias e mentiras da guerra, opi-
nando que aos neutros incumbia o trabalho paciente
de accumular esses documentos para um estudo ulte-
rior. Seria sobretudo ao problema do valor do teste-
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munho no restabelecimento da verdade histórica que


isto conviria.
Bem se vê que não havia de ser em plena belli-
gerancia que havia eu de vir occupar-me de taes pro-
blemas. Não os poderíamos encarar com a devida cal-
ma, nem o ambiente ouviria commentarios nesse ou na-
quelle sentido com a devida serenidade.
Passada a tempestade, transcorridos uns annos, se
vivo eu fôr, prometto voltar ao assumpto.
Por agora vejamos as cousas rnyís terra a terra,
do ponto de vista de utilidade mais immediata, que é
o prophylatico.
*
* *

Meus Senhores:
Cada vez mais, a melhor definição do soldado deve
ser a antiga do homem completo e harmonioo: mens
sana m corpor,e sano.
De ordinário, infelizmente, os regulamentos milita-
res se preoccupam com o corpo são, olvidando a mente
sari, como se o soldado moderno continuasse «a ser mais
um conjuncto dócil de alavancas do que uma intelligen-
cia vigilante servida por orgãos, mais um instrumento
do que um artifice de victoria, um guerreiro como o de-
finira Lycurgo, do que um homem como o exigira So-
lon». jL .
Nos tempos do soldado automato somente se lhe
exigia no dizer de Nimier que «physiologicamente fosse
sobretudo um medullar cuja cerebralidade somnolenta
apenas se despertasse sob a excitação aecidental dos aza-
res da guerra ou de alguns incidentes do tempo de paz.»
A exemplo, porém, da vida social nos povos civili-
sados, vós bem o sabeis, a vida militar tornou-se bem
mais complexa e se tem evidentemente espiritualisado.
Ao instructor militar não basta desenvolver pelo me-
thodo monotono da repetição, mais alguns centros re-
flexos na medulla. O dominio do «catatonismo e da es-
tereotypia» vae sendo relegado a um segundo plano e
de todo não desappareceu, porque é preciso transigir
com o passado e não tirar ao panorama militar os en-
cantos das exterioridades que por certo ainda atraem
50 por cento dos jovens alistados.
O exercito moderno só está a altura de seus .fins
quando é o producto filtrado a custa de intelligente te-
nacidade, de toda a massa da nacionalidade fluidificada
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ao" calor do mais sadio patriotismo, depois de ter sof-


frido na escola a conveniente decantação preliminar.
Ao trenamento physico de outr'ora accresceu-se a edu-
cação mental e o soldado de hoje deve ter uma intel-
ligencia estrictamente senhora do corpo que anima.
Não somente ao exercito mas também á toda a
nação, interessa a saúde mental do soldado. A prophy-
laxia da insociabilidade, que tem de ser iniciada na
escola onde se deve fazer a primeira selecção dos va-
lores que impulsionam a nacionalidade, é completada
no serviço estrictamente civico da defesa nacional.
Da escola deve sair. o rapazelho um bom escoteiro
e não caricaturado em. miniatura de soldado. Não é
justo quê se Infantilisem os galões do official de ver-
dade, fantasiando creanças, aos quaes não se traftsmitte
assim a justa noção do serviço militar.
Se, porém, naquella phase; a escolar, se cuidou como
convinha da saúde physica e psychica do futuro re-
cruta, certamente muito pouco joio terá passado des-
percebido no meio do bom trigo.
Bem sei que estou falando como se estiveramos em
terra em que já se não olhasse com maus olhos qual-
quer tendencia a boa organisação. E" em nós innata
a admiração incondicional pelo improviso. Tanto assim
que na contemplação satisfeita da herva que brota na
beirada de nossos telhados, preferimos louvar a fertili-
dade das telhas do que a força do vento que transportou
para o alto um pouco de terra e o trabalho do passaro
que transplantou a semente.
.Caminhamos, porém, eu o espero, para a entrada
definitiva no governo de nossas energias latentes, na
posse integral de nossos valores, •
Façamos, pois, no acto de inspecção do recruta no
nosso exercito, um exame* não só. de sua aptidão phy-
sica, mas ainda de sua saúde mental. O invalido mental
é um agente de perturbação e de desorganisação. Pôde
corromper o meio, provocar reacções perigosas porque
é um germen de contaminação psychica. Espiritos fra-
cos ê em equilibrio instável vibram por vezes facilmen-
te á chamada do primeiro desequilibrado perverso.
Augmentar effectivos mesmo de defesa, a custa de
individuos inferiores em suas reservas de discernimen-
to, é a um tempo inútil e perigoso. Os maus soldados
são para os. oommandantes uma fonte de embaraços de
toda ordem. Lerdos; atravancam elles as vias de com-
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municação. Doentes, encarecem os serviços de saúde.


Fugidiços, desmoralisam as zonas de operações.
Fazei, o possivel, Senhores officiaes, para afastar
do campo de batalha homens predispostos á fadiga, e h
doença ou ao medo. E' real que entre esta génte surge
as vezes um ou outro intrépido. O numero,: .porém, dos
grandes pânicos que elles têm occasionado, é muito
maior que o das grandes victorias.
Já em fins do século XVIII um grande psychiatra
a quem muito deve o desbravamento dos segredos da
estruetura cerebral, attribuia ao mau soldado, psychica-
mente falando, as sinistras scenas que mancham lugu-
bremente a chronica das victorias dos. maiores gene-
raes*
Saques e violações de que felizmente as mais das
vezes não se occupa a historia em sua ponderada se-
renidade, quer os fizessem os exercitos de Luiz XIV
ou Napoleão ou as mais modernas forças de aspera pe-
netração colonial de todos ,os povos que por outros e
melhores titulos justamente se jactam de civilisados;
não são mais do que descargas incontidas dos maus ele-
mentos que sempre se infiltraram nos regimentos em
tempo de guerra, orientando-a no sentido do máximo
.vig cniGldEtcl.1©.
i Um antliropologo francez num rasgo de admiravel
hombridade affirmou: «Les usages de la guerre, même
entre Européens civilisés, sont dome la négatiom meme
des plus élémentaires principies de la monale. En pas-
sant seulement, je rappellerai quie ces pratiques sont
plus éponvantables encore quand les civilisés guerroient
contre les races dites inférieures.» E mais adiante: «En
général, oe qui caractérise la morale guerriére des Eu-
ropéens avec leurs adversaires de couleur, est une par-
faite absence de scrupule.»
Não ha muitos annos dizia estas e muitas outras
coisas na Escola de Antropologia de Pariz o Prof. Le-
tourneau. , , ,
Para que não nos envergonhemos de sermos ho-
méns, deixemos nas paginas pouco lidas das chronicas
e não na historia, a narrativa dos mal feitos das guer-
ras adoptemos a explicação consoladora do sábio Reil
a que me referi ha pouco e tratemos, pensando no fu-
turo de seleccionar melhor os exercitos expurgando-os
de desequilibrados e impulsivos que lhes polarisam as
tendencias para os peiores lados. Nesse entrementes fa-
s

çamos votos sinceros para que se transforme em reali-


dade a utopia da paz universal.
• Não me proporei falar-vos com minúcias sobre a
frequencia das perturbações méntaes e neuro-psychicas
nos exercitos em tempo de paz e em tempo de guerra,
porque a extensão do assumpto levar-me-ia a roubar
vossa preciosa attenção por muitas horas, ou a amea-
çar-vos com uma série de conferencias. Lembrar-vos-ei
em poucas palavras alguns pontos de maior interesse
e isso mesmo para fazer melhor resaltar o ponto de
vista em que procurei collocar-me na insulsa palestra
com que vos estou fatigando.
Não é real, como o affirmam alguns autores, que
somente da guerra Russo-Japoneza datam os primeiros
estudos sobre as perturbações mentaes nos exercitos bel-
ligerantes. Sem falar em Esquirol, Belhomme e Bail-
larger, que se preoccuparam sobretudo com o estudo
das influencias das guerras civis sobre o desenvolvi-
mento dos distúrbios mentaes dos contemporâneos de
taes crises sociaes, depois das guerras de 66 e 70-71,
começou o assumpto a interessar psychiatras de modo
mais amplo. A guerra Sul-Africana, a Hispano-Ameri-
cana e a Russo-Japoneza, porém, pelo emprego de no-
vos e mais violentos meios de destruição, demonstraram
de modo mais evidente que a selecção do soldado sob
o ponto de vista de sua validez neuro-psychica precisa
ser mais rigorosa possivel.
Apezar das suggestões de alguns especialistas de
valor, no inicio da guerra Russo-Japoneza ainda occor-
reu que unT alienista, provindo de Kieff, ao apresen-
tar-se em Karbine a um general russo teve deste a se-
guinte resposta: «Sois alienista? Incommodastes-vos bem
inutilmente. Ficai sabendo que não ha loucos no ex-
ercito russo. Portanto nada tereis a fazer aqui».
Ao cabo de poucos mezes 2.000 alienados atravan-
cavam o theatro da guerra e passavam a ser um pe-
rigoso embaraço para as operações militares. Tornou-se
preciso expedir pêbl*ct Si Mandchuria um contingente de
alienistas para organisar ali uma assistência para taes
doentes.' Se melhor escolhidos tivessem sido os soldados
para lá enviados, ter-se-ia evitado os custos de tão la-
mentável aventura que attingiram a somma:s respeitáveis.
Por . essa occasião vários e interessantes trabalhos
foram publicados pelos alienistas que se encarregaram
das enfermarias e ambulatórios do exercito russo.
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Do lado dos japoneaes foi logo aproveitada a lição,


mesmo porque elles tiveram de soccorrer muitos aliena-
dos entre os prisioneiros que fizeram nos reencontros
com os russos.
Antes de proseguir seja-me permittido confrontar,
ainda que de leve, alguns algarismos. A cifra dos doen-
tes mentaes no exercito prussiano que no primeiro se-
mestre de 70 era de 0,37 por mil, subiu logo depois do
inicio da guerra franco-prussiana a 0,54 e em 1872
attingiu a 0,93, só baixando de novo em 1873. Notável
é que as classes de soldados nascidos nos annos da
guerra e nos seguintes, quando foram chamados ao ser-
viço, começaram a elevar de novo, de modo insólito,
as çifras de alienados no exercito e não baixando mais,
porque ao mesmo tempo foi augmentando a somma de
conhecimentos dos médicos militares capazes de fazer
um bom diagnostico psychiaírico. Augmentaram as ex-
clusões e se a subitaneidade da guerra actual, não ti-
vesse feito acceitar como voluntários indivíduos que nor-
malmente não lograriam permissão para vestir farda,
por certo ter-se4a poupado aos commandos muitos abor-
recimentos, alguns aliás bastante lamentaveis.
Na guerra Grego-Turca, o exercito ottomano viu su-
bir' a dois por miil o numero de alienados em suas fi-
leiras.
Nas forças norte-americanas durante a campanha
de Cuba subiu die 0,8 a 2,7 por mil a cifra de doentes
mentaes.
No exercito inglez, durante a campanha do Trans-
vaal, saltou de 1,4 por mil a 2,5 o numero de desequi-
librados evidentes.
Na expedição da China subiram a 8,44 por mil ca-
sos neuro-psychicos.
Vê-se aqui como são muito mais altas as cifras
nos exercitos improvisados, em que se tem aproveitado
muitos desequilibrados, que porventura se apresentam
ás vezes disfarçados na melhor apparencia physica.
Nas guerras balkanicas, na campanha Italo-Tripoli-
tana/ novas occasiões tiveram os Estados-maiores res-
pectivos de ver que os alienistas civis e os médicos
militares especialisados, tinham razão em suas reitera-
das insistências no sentido de serem expurgados dos
exercitos, muitos elementos perniciosos de que facilmen-
te se deixavam elles contaminar.
10

Sobreveio a calamitosa guerra actual e a própria


França, onde Régis, Granjux, Pactet, Simonin, Roubi-
novitch, Haury, Antheaune, Mignot, Chauvigny, ete.
vinham ha tantos annos lutando em favor de uma me-
lhor selecção do soldado sob o ponto de vista mental,
ainda se não tinha compenetrado convenientemente da
justeza das affirmações desses verdadeiros patriotas.
Lá mesmo houve quem temesse o effeito das ideias dos
especialistas sobre a diminuição do numero dos alista-
dos annualmente. Esqueciam-se os que assim pensa-
vam, • de que mais valle um . soldado sadio, psychica-
mente valido, do que dez instáveis, promptos para a
fuga no momento em que mais necessária se faça sua
resistência. Iniciada, porém,. a luta, já que se não ha-
via posto em plena execução as medidas prophylaticas
que aquelles especialistas vinham ha tanto tempo pres-
screvendo, foi preciso realisar rapidamente os princv
pios de assistência psychiatrica militar que tinham sido
previamente, estabelecidos em vários congressos e as-
sociações medicas. Foram organisados junto aos exer-
citos, serviços de neuro-psychiatria e no interior do
paiz diversos centros de neurologia e centros de psy-
chiatria. Os primeiros são mixtos, isto é, neuro-psychia-
tricos porquê são os encarregados da primeira escolha
dos doentes, sua classificação e conveniente discrimi-
nação pelos outros serviços do interior do paiz, segundo
a conveniência clinica de cada caso.
Os serviços prestados por esses centros, á melhora
dos pacientes e aos exercitos, são inextimaveis porque
têm sem duyida concorrido para a diminuição de des-
equilibrados nas fileiras.
A Italia tem multiplicado os seus centros neurolo-
gicos e psychiatricos por todo o seu territorio.
A Allemanha, logo do inicio da campanha, trans-
formou suas clinicas psychiatricas e neurológicas em
outros tantos centros de assistência aos militares que
delles necessitassem, assim como foi providenciado para
que os manicomios existentes no territorio do Império
preparassem enfermarias para os doentes que lhes fos-
sem enviados das fileiras. Os múltiplos sanatorios para
nervosos espalhados pelos pontos mais saudaveis do paiz,
passaram a servir para o restabelecimento dequelles que
porventura necessitassem de tratamento de. seus nervos
abalados.
Idênticas providencias tomou a Grã-Bretanha.
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Do que se observou nos diversos paizes belligeran-


tes ficou mais uma vez provado que tinham razão os
alienistas e neuropathologistas militares ou não, que in-
sistiam na vantagem de impedir a entrada e a perma-
nência, nos exercites, de desequilibrados que' certamen-
te em mais de 80 OÒ / dos casos são pelo menos preju-
diciaes á disciplina, quando maiores damnos não cau-
sam á própria patria.
Das múltiplas observações editadas pelos médicos
especialisados dos principaes paizes belligerantes em con-
fronto com os estudos publicados por occasião das ou-
tras campanhas anteriores, sobretudo a Russo-Japoneza,
é evidente que a guerra não crea psychoses novas, isto
é, não ha formas mórbidas mentaes ou neuro-psychicas
que sejam exclusivas da guerra, como o acreditaram al-
guns médicos. Todas as modalidades clinicas do tempo
de paz têm sido observadas nos campos de batalha:
Apenas em algumas dfellas tem o estado de belligeran-
cia dado ao quadro clinico uns tons especi,aes oriundos
dos maus momentos que atravessa a humanidade. Não
ha razão, porém, para adornar os estados neuro-psycho-
pathicos que surgem em tempo de guerra de nomes
eruditos mais ou menos pretenciosos, como os propos-
tos, por exemplo, por Benon, um medico francez, aliás
de talento: Dysthenias meta-polemicas, dysthymias, dys-
phrenias e dyscinesias metapolemicas. Reboam essas
designações no velho edificio da neuropathologia, como
extranhas vozes de um archaismo duvidoso. Prefiramos
dizer mais simplesmente que na guerra apparecem per-
turbações mentaes agudas ou resaltanr perturbações men-
taes chronicas, além de uns casos fronteiriços que pe-
dem estudo, a parte.
Dos casos agudos tem sido descriptas as confusões
mentaes verdadeiras, os estados depressivos, os neuras-
thenicos, os oommocionaes e suas sequelas, além de ou-
tros grupamentos symptomatioos de menor importancia.
Em todos esses casos uma circumstancia parece-me
dever ser sempre salientada: é a predisposição.
A constituição emotiva a que Dupré procurou fi-
xai' de modo muito preciso os traços symptomaticos,
manifesta-se muito nitidamente, em certos individuos.
O medico militar, no momento, da inspecção, preli-
minar para a admissão nas fileiras, devia procurar an-
notar ao menos esses casos, para observação mais mi-
nuciosa dentro do prazo de mezes, antes da definitiva

inclusão nos quadros militares. Os indivíduos portado-


res de tal constituição emotiva são, sem duvida, consti-
tucionalmente frágeis. E esta fragilidade não se mani-
festa as mais das vezes apenas no ponto de vista da
coragem: «ha desequilibrados leves, debeis do senso cri-
tico, aos quaes não falta valentia mas cujo cerebro cede,
por motivo de sua predisposição.»
Ora, se por acaso se agrupam em uma companhia
diversos destes predispostos e se ahi calha um só des-
ses maus fermentos de desmoralisação ou de indiscipli-
na, de que vos falarei dentro em pouco, verdadeira epi-
demia de casos agudos, por vezes se manifesta, por jsso
que o exercito é uma multidão, e portanto sujeita aos
azares do que se tem bem ou mal chamado contagio
mental.
Um cominando intelligente deve evitar que taes ele-
mentos maus se agrupem na mesma companhia. E' o
melhor meio de evitar os males resultantes de sua aglu-
tinação : permitta-se-me applicar o termo da technica
bacteriológica.
Ser-me-ia agradavel entrar em minúcias sobre os
quadros clinioos das varias formas mórbidas a que me
referi acima, por isso que as nossas pequenas guerras
deram-me opportunidade de ver casos que se enquadram
perfeitamente nas descripções dadas pelos psychiatras
europeus que aliás têm visto em grosso, agora durante
a grande catastrophe, o que vimos a retalho.
As muitas publicações existentes nas linguas de
maior curso dispensam-me da insistência.
" As observações múltiplas até agora publicadas, mos-
tram que a guerra pode exercer influencias mui diversas
sobre as differentes modalidades de perturbações men-
taes.
Ora, como o diz Georges Dumas, ella os collore
simplesmente, fornecendo a matéria de seus themas deli-
rantes a um doente que, segundo toda a apparencia,
teria delirado 'mesmo sem ella e que algumas vezes já
delirava antes do inicio das hostilidades. Ora a guerra
age de modo mais profundo, ainda que indirecto, pro-
vocando acoessos passageiros de excitação ou depres-
são, de neurasthenia, de alcoolismo, em consequência
de fadiga, estafas physicas e moraes, mudança de há-
bitos, de 'meio e preoccupações de toda especie por ella
accarretada. Outras vezes, emfim, a guerra age dire-
ctamente sobre o systema nervoso, pelas emoções e as
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cómmoçôes das batalhas e estas, são, na opinião de


muitos especialistas, as mais importantes de todas.
Não sendo opportuno aqui um curso de psychiatria,
e não me sendo possível reduzir essa disciplina a pasti-
lha comprimida,; seja-me permittido chamar vossa atten-
ção apenas para o que vós possa interessar do ponto de
vista prophylatico.
Ora, as influencias da guerras sobre os indivíduos já
doentes, ainda que de modo leve, parece-me merecer
toda a attenção porque observando-as bem torna-se pos-
sível affastal-os antes que se tornem maus elementos
para a boa ordem da vida das fileiras.
Em synthese a influencia da guerra manifesta-se
em taes casos:
í. Nas ideias de culpabilidade, de indignidade, de
auto-accusação: Os doentes acreditam que vão ser fuzi-
lados, que vão ser submettidos a conselho de guerra
ou que vão ser degradados.
2. Nas ideias de perseguição: Os doentes se creem
accusados de ser espiões ou inimigos. Dos estrangeiros
que tem sido admittidos no Hospital Nacional, após a
guerra, tenho visto vários casos destes não só em pa-
cientes que tem regressado do campo de batalha, como
também em outros que ainda lá não foram, porque não
foram chamados ou porque não poderam ir.
3. Nas ideias de grandeza: Os megalomanos pen-
sam ter attingido os grãos mais elevados do exercito,
ter relações com o alto cominando ou ter feito inven-
ções que hão de assegurar a victoria a seus respectivos
paizes.
4. Nos delírios que não tem um thema propriamen-
te guerreiro, manifesta-se a influencia da terminologia
militar.
5. As allucinações tem mui frequentemente por ob-
jecto a visão de soenas de batalhas ou a audição de ruidos
de combate.
6. O temor de não haver cumprido o dever patrió-
tico e o desejo desarrasoado e ancioso de ir para a van-
guarda manifestam a influencia da guerra sobre as ob-
cessões.
Antes mesmo de ter o nosso paiz entrado na grande
peleja, tive occasião de ver entre nós, num manicomio
ou fóra delle, a influencia da calamidade sobre o espi-
rito de nossos doentes. Declarada a guerra, vimos mais
amiudados os casos, como aliás já havia occorrido por
14

ôccasião da campanha de Canudos. Mâo nos faltou nem


o apparecimento de falsos policiaes mythomanos, como
os descreveu Dupré, zelosos na pesquiza de espiões as
mais das vezes imaginarios e até mythomanos auto-ac-
cusadores já tive occasião de examinar.
Afastai systematicamente das fileiras, doentes da
natureza daquelles a que acabo de referir-me.
Ao lado delles merece especial insistência o grupo
dos adolescentes neurasthenicos.
A neurasthenia, dos adolescentes, ou neurasthenia
postpuberal, como a denomina E. Morselli, é uma das
causas de desvalorisação de muitos soldados jovens. Um
enfraquecimento geral é o caracter fundamental deste
estado morbido que se revela por signaes physicos e
psychicos de certa nitidez. Entre os signaes physicos,
salientam-se os seguintes: desenvolvimento desharmoni-
co do corpo, perturbações digestivas, trophicas, circula-
tórias, sexuaes, adenoidismo, enfraquecimento da inner-
vação reflexa, eenesthesia perturbada, miasthenia geral.
Entre os signaes psychicos domina o enfraqueci-
mento do esforço mental que pouco e pouco se trans-
forma em uma paresia quasi permanente da attenção.
A isto se associa uma fraca ideiação correlata de uma
fraqueza das representações mnemónicas.
As falhas da memoria e da attenção determinam
por contraste um augmento da vida interior do paci-
ente. Este augmento se revela por uma auto-inspecção
continua e por uma grande tendência a fantasiar factos
não existentes.
Sobre este terreno germinam a vista d'olhos mais
ou menos numerosas ideias hypocondriacas. As duvidas
e as preoccupações destes adolescentes versam sobre
motivos vários, de que não vos darei minúcias, para
não alongar demasiado a presente palestra.
Muitos destes casos tenho eu visto em rapazes que
pretendiam seguir a carreira militar. Uns, a conselho
meu, abandonaram tal ideia, indo dedicar-se a outro ge-
nero de actividade social mais accorde com o mau feitio
psychico que possuiam'. Outros, persistiram para evitar
desgostos á familia ou por temerem incorrer em des-
consideração dos collegas e mais tarde passaram quasi
que despercebidamente para essa claudicante retaguarda
social constituída pelos dementes juvenis.
Não insistirei nos outros estados neurastheniformes
que se manifestam mais tarde, muito além dos 20 an-
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nos, porque estes são difficilmente evitáveis, por isso


que não raro surgem em indivíduos com excellente ap-
parencia physica e mental e muito depois do momento
da entrada delles nas fileiras do exercito. Em alguns.,
de resto não raros, um pequeno período de repouso dá-
lhes elementos para reentrarem no serviço activo.
Não insistirei também nos outros e mais graves
estados neurastheniformes que são apenas manifestações
vestibulares de affecções organicas mais graves, que
por certd, impõem reforma em favor dos que delia pa-
decem.
Em seguida aos neurasthenicos adolescentes ha os
débeis mentaes que a todo transe devem ser excluídos
dos exercitos de mar e terra. Se entre elles ha muitos
que são inoffensivos não é pequeno o numero dos de-
beis perversos e maus, incapazes de' refreiar seus ins-
tinctos. Aliás aquelles, os tranquillos e inoffensivos por
vezes entram a delirar de modo vistoso, promovem-se,
dão conselhos aos commandantès e não raro dissertam
muito simploriamente como se estivessem a fazer o acto
mais normal do mundo. Quantos destes me tendes vós
mandado ao manicomio! E de alguns guardo a mais
nitida lembrança.
E a proposito de um caso francez que vos passo
a referir dir-vos-ei algo de algum interesse pratico.
Um rapaz que aos 16 annos estivera internado por
debilidade mental com impulsão a fugas, em 1914 enga-
jou-se no, exercito francez. Depois de duas fugas, foi en-
viado em observação ao Val-de:Graoe> onde esteve de
Abril a Agosto. Por occasião da mobilisação voltou ao
regimento com o qual marchou para a vanguarda. A 23
do mesmo mez, porém, já elle desertava para Pariz,
onde passou 5 mezes trabalhando no grande mercado.
Em Abril de 1915 foi elle preso e submettido a con-
selho de guerra, que o oondemnou a 5 annos de traba-
lhos públicos, apezar da pericia psychiatrica feita por
um alienista de valor, o Dr. Valon. Ao cabo de um
anno foi indultado por boa conducta e voltou ao regi-
mento em Agosto de 1916. Em Dezembro desertou de
novo., abandonando o seu posto na presença do inimigo.
Em resumo, neste caso tratava-se de um débil men-
tal com' impulsão a fugas nitidamente mórbidas, as mais
das vezes inconscientes' e amnésicas, sendo, porém, a
ultima consciente e mnesica. Sobre sua irresponsabilida-
16

de não pode haver duvida, nem pode haver hesitação


em oonsideral-o incompatível oom o serviço militar.
Na Allemanha, refere o Prof. Specht de Erlangen
que no começo da guerra muitos doentes de tal natu-
reza em observação nas clinicas psychiatricas logo se
offereceram com phrases de mais exaltado patriotismo
para serem engajados como voluntários. Accrescenta
muito bem aquelle notável alienista que se elles não es-
tivessem internados naquelle momento, por certo teriam
ido- esbarrar nos respectivos regimentos e lá augmen-
tado a cifra ou dos desertores ou dos criminosos.
Mesmo antes da entrada de nosso paiz na lista
dos belligerantes, já diversos dos internados no Hospi-
tal Nacional logo cogitaram de offerecer serviços que
elles julgavam mais ou menos indispensáveis. Declarada
a guerra, eil-os de novo conscios da imprescindibilidade
de seus serviços. Uns inventores andam certos de que
ainda não terminou a grande desavença porque não os
deixamos "sair e pôr em pratica seUs grandiosos proje-
ctos. E de não serem aproveitados resulta a ameaça de
offereoerem aos governos de França, Inglaterra ou Nor-
te America os mais extraordinários engenhos de guerra.
E, cousa notável, nenhum delles pensa um momento em
vender suas ideias aos impérios centraes! E' a influen-
cia da leitura dos jornaes! Elles também sabem o pe-
rigo de não acompanhar a opinião publica! Um delles
escreve diariamente uma carta ao Senhor Presidente
da Republica dizendo que ainda não melhoraram as
cousas dentro e fóra do paiz porque não lhe têm que-
rido dar ouvidos.
Não tenho duvida de que muitos destes seriam infalí-
veis elementos da primeira vanguarda que mandassemos
aos campos de batalha, não estivessem elles já interna-
dos, quando deliberaram os poderes públicos intervir no
conflicto.
Com esses ao menos não vos preoccupeitf, Senhores
officiaes. Dos outros, porém, os que ainda perambulam,
é bom que tenhais cuidados. Aproveitai-vos das lições
que nesse particular nos têm vindo sobretudo de França,
Inglaterra e Italia, porque a nós só chegam as dos Impé-
rios centraes depois de tamisadas pelos povos neutros:
Suissa, Hollanda, Suécia, etc.
Ao lado dos debeis, ha casos de demencia precoce
em seu periodo inicial ou em uma remissão, porque a
doença é por Vezes entrecortada por períodos de melhora
17

que illudem muito facilmente, ha casos de demencia pre-


coce, digo, que tentam entrar nos exercitos. Nas épocas
de paz nem sempre é grave o mal que taes doentes fazem
a disciplina, mas em tempos de guerra elles devem ser
systematicamente eliminados porque quando menos se
espera, praticam efes? actos de indisciplina dos mais
prejudiciaes.
Apezar, porém, de não serem sempre graves os actos
de taes doentes, acho que mesmo em tempo de paz não
devem ser elles admittidos nas forças armadas. Dos que
tenho visto no manicomio ha um a que me permittireis
uma referencia, porque viveu mais de meio século inter-
nado, pesando no orçamento da guerra.
Era o velho Lucio de C. M., natural do Ceará, nas-
cido em 1832. Assentou praça voluntário por 6 annos
no meio-batalhão de sua terra, aos 26 de março de 1852.
A 19 de Junho reconhecido soldado particular já a 2 de
Agosto do mesmo anno era preso por faltar á revista de
mostra. Solto' a 4, a 14 do mez seguinte era de novo preso
por dormir na sentinella. A 18 de Dezembro do mesmo
anno obteve licença de favor do Presidente da Provin-
cia. A 20 de Janeiro de 1853 apresento u-se. A 20 de
Fevereiro do mesmo anno foi preso por trazer rolha na
bocca da espingarda. Solto a 23, obteve a 24 nova
licença de 2 meaes. Em vez de apresentar-se a 26 de
Abril, só o fez a 22 de Maio. Respondeu a conselho de
disciplina e foi oondemnado a 7 dias de prisão. A 11
de Junho foi novamente preso por sahir sem licença,,
estando de dia á companhia. A 25 de Setembro foi
preso por faltar ao respeito ao superior. A 5 de Novem-
bro respondeu a conselho de investigação por faltar com
o respeito ao commandante da companhia. A 28 de De-
zembro de 1853 respondeu a conselho de guerra e foi
condemnado a 2 j meaes de prisão, reduzida a 18 dias
de degredo na II* V de Fernando de Noronha pela jun-
ta de justiça militar. Foi desligado para o Rio a 2 de
Outubro de 1855 e incluido no Deposito a 18 do mesmo
mez. A 5 de Setembro de 1856 foi inspeccionado e fi-
cou de observação. A 11 de Dezembro do mesmo anno
foi julgado alienado e a 24 enviado ao Hospicio de
Pedro II, onde permaneceu até 28 de Fevereiro de 1913,
quando falleceu.
Era um caso typico de demencia precoce e os seus
delictos foram apenas as manifestações primeiras de seu
estado morbido.
18

Em seguida aos dementes precoces temos os demen-


tes paranoides e os paraphrenicos, incluindo as diver-
sas especies de delirantes chronicos,
Como os dementes precoces, não raro conseguem
taes doentes entrar nas • fileiras do exercito, e isso por-
que elles por vezes mantém as apparencias de sani-
dade mental a . um exame superficial. Pelas ideias de
perseguição de que elles soffrem devem também taes
doentes ser excluidos de modo absoluto do serviço mi-
litar. O mesmo direi do verdadeiro paranoico ainda que
seja mais raro. E o demente paralytico? Se falo nelle
é porque já vi caso de demencia paralytica juvenil en-
gajado em plena doença 1 Taes casos confirmados são
absolutamente incompatíveis com o serviço activo.
A epilepsia e estados epileptiformes quando os que
delles padecem são admittidos nos exercitos, têm occa-
sionado questões dé certa gravidade que por certo acon-
selham evitar essa especie de doentes nas fileiras.
Na guerra actual está demonstrado que em certos
paizes belligerantes esses estados epilepticos têm se tor-
nado mais frequentes. Além disto, es,tá provado que as
crises convulsivas ou os equivalentes chamados psychi-
cos tornam-se mais amiudados e não raro de caracter
muito mais grave em pessoas que até o inicio da
guerra tinham-nos muito espaçados ou muito leves.
Esse augmento de frequencia dos ataques ou a in-
tensificação dos mesmos ou de seus equivalentes psy-
chicos, explica-se e muito bem pelo facto de que esses
doentes com mudarem de hábitos e sobretudo de regi-
men, privados de somno regular, a beira de emoções
repetidas, facilmente entram em crise sobretudo se ao
lado da emoção entra em circulação um pouco de álcool.
Peior que o ataque convulsivo simples é o equiva-
lente psychico. A impulsividade ordinaria do epilépti-
co transforma-se por vezes em phenomenos de automa-
tismo, em verdadeiros estados segundos e que podem ser
accessos de loucura furiosa de uma violência cega, sobre-
vindo por vezes inesperadamente. Em taes condições o
doente chega a praticar assassinatos. Eu poderia refe-
rir-vos casos de uma feição verdadeiramente macabra
e só por si capazes de convenoer-vos de que taes doentes
não devem ser de modo algum alistados.
Ao lado destes accessos de fúria ha as crises de au-
tomatismo que explicam fugas e deserções de conse-
quências mais ou menos graves.
19

Seja-me permittido referir, em poucas palavras, um


caso publicado por Barat, um intelligente especialista
de quem muito esperava a psychologia franceza.
Trata-se de um reengajado no inicio da guerra que
attingiu rapidamente o posto .de official depois de uma
serie de actos de verdadeira bravura, que lhe valeram
até a proposta do nome para a medalha militar.
Depois de 3 dias e 3 noites de luta aspera e morti-
fera em logar da ordem esperada de attacar, veio a de
estacar.
O official em questão, que desde o inicio da luta era
chefe de companhia tornou-se desorientado e nervoso.
Abandonou-se á sua anciedade, tornou-se inquieto. Fize-
ram-n'o deitar-se quasi á força e no dia seguinte manda-
ram-no ao oommandante. Este deu-lhe ordem de ir ao
posto medico onde elle não chegou. O doente marchou
ao acaso. Lembra-se vagamente de ter entrado numa
casa, onde deram-lhe alguma cousa a comer. No dia se-
guinte foi preso na zona ingleza, onde despertou. Se em
vez de seguir na direcção do sector dos alliados, .fosse
elle na direcção do inimigo é fácil conjecturar a serie de
inconvenientes qúe dahi podiam resultar, quando mais
não fosse, pelos papeis que comsigo elle trazia.
Trata-se de um epileptico de ataques rarissimos, ao
qual çircumstancias de momento tornaram passivel de
culpa.
O facto de estar bem averiguada a existencia de
epilepsia em guerreiros de fama não seja motivo para
justificar a admissão de comiciaes, porque é de uma in-
significância desoladora a percentagem de epilépticos glo-
riosos, na grande multidão dos que foram apenas péssi-
mos soldados.
Impedi, pois, a admissão e a permanencia de taes
doentes assim como dos maniaco-depressivos, nas filei-
ras, sobretudo etn tempo de guerra.
Deveria falar-vos agora de outras doenças nervo-
sas de que se devem libertar os exércitos. A hysteria,
por exemplo, a psychastenia e. vários outros complexos
morbidos facilmente diagnosticáveis nos exames médicos
que devem preceder a admissão. Não o farei, repito,
para não prolongar demasiado a presente palestra.
*
* *

Quanto mais evitardes nas fileiras os desequilibrados


e os alienados, mais reduzireis os casos medico-legaes
20

que fazem perder tempo aos conselhos militares. Os de-


lictos de fugas, abandono de posto, deserção, insubmis-
são. o? actos de violência, os incêndios voluntários, os
roubos, as usurpações de funcções, desapparecerão tanto
mais dos exercitos quanto melhor fôr a selecção do
soldado.
O Dr. Murillo de Campos, aproveitando a opportu-
nidade da commissão que em bôa hora lhe foi dada
no HcJspital Nacional, levantou, nos archivos desse ma-
nicomio, uma primeira estatística de casos de pertur-
bações mentaes em militares de 1891 a 1913. Subia en-
tão a 241 o numeno de doentes do exercito enviados
ao manioomio, a 92 o de gentes da armada, a 40, o
da policia e a 5 o de bombeiros. Se addicionarmos ia
essas cifras os que têm sido remettidos a casas de
saúde e o muito maior dos que vieram a ter mais tar-
de perturbações mentaes dignas de internação, seria ver-
dadeiramente assustadora a frequência em nossas for-
ças armadas de indivíduos que nunca deveriam ter sido
admittidos nas fileiras. Ultimamente um bom serviço de
identificação, veio demonstrar que não era illusoria mi-
nha impressão de que muitos elementos maus excluídos
de um batalhão ou de um regimento se vão reenga-
jar em outros corpos. Ha ali soldados que tem percor-
rido os quadros do exercito, da armada, da policia da-
qui e dos Estados, sendo que não raro foram successi-
vamente ao manicomio, em varias phases de seus dis-
túrbios mentaes, como paisanos, como soldado do ex-
ercito, como marinheiro ou fuzileiro naval, como po-
licia, etc.
Se me sobrasse tempo, eu vos referiria historiais
reaes de alguns desses doentes, aliás em geral tão maus
internados quanto o foram maus soldados. A' lista não
falta nem o crime de violências carnaes, realisadas em
plena paz, no territorio nacional, sem a embriaguez pa-
thologica oriunda da invasão victoriosá de territorio ini-
migo, e, o que é mais, sem que lhes corresse nas ar-
térias e veias o sangue a gue tão injustamente alguns
amnésicos das chronicas militares do mundo, andaram
se esforçando por attribuir o triste privilegio de taes
desvios.
Devo também dizer que não somente entre pretos
e mestiços se tem notado a eiva referida. A gente de
todos os matizes tenho visto deslisar pelos peiores de-
clives.
21

Na lista dos identificados no respectivo gabinete


do Ministério da Guerra, de 22 de Agosto de 1916 a
28 de Agosto de 1917, ha entre 215 sujeitos que de-
sejavam alistar-se ou foram sorteados, 54 que tinham
sido expulsos de outros corpos ou tinham tido entrada
nas cadeias por vários Crimes, tendo eu verificado que
alguns delles haviam feito seu estagio nos manicomios
do Estado. De um delles guardo uma lembrança muito
nitida, porque, tendo tido alta do hospital, conseguiu
baixa do exercito, graças a um attestado que lhe for-
neci eu. Alguns dias após, apresentou-se ao hospital
para agradecer-me o serviço. Nesse mesmo dia, á tarde
foi elle surprehendido, ao descer a escada da casa em
que habito, levando á cabeça uma cadeira de palha da
varanda. Se vísseis vós, o seu bom aspecto physioo e
sobretudo as suas boas côres, por certo vos teríeis in-
clinado a acreditar gracioso, meu atte3tado de invalidez
mental para um tão bello soldado.
E garanto-vos que não vos deixaria hoje, se dos
casos que sei, vos quizesse eu falar por miúdo. Razão,
pois, tinha o auditor Dr. Garcia Pires quando, em seu
relatorio de 1913, insistia e muito no seu segundo ca-
Ditulo sobre a necessidade de uma melhor selecção do
voluntariado.
Seja-me portanto perdoado o ter aproveitado a vos-
sa hospitalidade para, com franqueza talvez desabrida,
vir falar-vos de nosso soldado, que todos nós devemos
desejar tão sadio physicamente quanto psychicamente.
Perguntar-me-eis: Então sobre a melhor parte da
nacionalidade ha de somente pezar o seu esforço def-
fensivo? E aos anormaes ficará apenas o tranquillo pa-
pel de espectadores? Não, senhores. Sejam elles mobili-
sados para o roteamento dos campos. Restituamol-os aos
trabalhos rudes da agricultura, ao serviço das estradas
de rodagem e caminhos vicinaes, sem os quaes não pode
haver um bom serviço de aprovisionamento em tempo
de paz nem em tempo de guerra, sem os quaes não
circula a seiva de civilisação pelos cantos e recantos do
paiz. Serão assim os anormaes também úteis á collecti-
vidade. 4
Quaes os meios práticos de melhorar a selecção das
forças* armadas?
Em synthese:
1. Tornar obrigatorio o exame mental e de todo
22

apparelho nervoso do candidato a entrar para as filei-


ras, quer seja soldado, quer seja official;
2. Tornar obrigatoria a frequencia das clinicas psy-
chiatricas e neurológicas a todo aquelle que pretender
ser medico militar;
3. Designação em cada Capital em que houver ma-
nicomio, de uma commissão de especialistas que reali-
sarão pericia psychiatrica nos casos que os médicos mi-
litares julgarem duvidosos, ou naquelles doentes que o
solicitarem, por se não julgarem capazes do serviço
activo;
4. Installação, em todos os hospitaes militares de
terra, ou mar, de enfermarias especiaes de observação
e tratamento de casos neuro-psychicos, a exemplo do
que já existe no Hospital Central do Exercito do Rio
de, Janeiro;
5. Mesmo depois de instituído o exame mental do
recruta, sendo possível que um ou outro' alienado ou
simples desequilibrado penetre nas fileiras, bom será
que nos conselhos de guerra haja sempre um medico.
E melhor será que este seja um alienista, afim de que
não somente os accusados soffram um exame mental
mas ainda certos queixosos. Não vos esqueçais de que
o testemunho nem sempre tem o valor que se lhe têm
emprestado.
6. Assegurada a instrucção psychiatrica do medico
militar, muito util seria que 'nas escolas militares hou-
vesse annualmente um curso elementar, em poucas li-
ções de psychologia mórbida, , com o fim especial de
orientar na melhor direcção as qualidades didacticas
dos officiaes. Ha por certo entre os officiaes de nossas
forças armadas psychologos innatos que evidentemente
já fazem a psychiatria de urgência, descobrindo cedo
os desvios mentaes de seus commandados. Quão provei-
tosa será para a nacionalidade a polarisação dessas qua-
lidades innatas para o melhor aproveitamento do es-
forço pedagogioo, do official, porque este, sendo, como
é para o soldado, o que o mestre-escola ó para a cre-
ança," tem de instruil-o, desenvolver-lhe a educação mo-
ral, fortificar-lhe a coragem, inculcar-lhe o justo uso
da iniciativa e o sentimento da disciplina.
Antes de terminar eu vos deveria lembrar um lado
dos mais importantes da prophylaxia dos distúrbios
mentaes nos exercitos. Refiro-me a campanha anti-ve-
nerea e anti-alcoolica nas forças armadas. Averiguado
23

como está o augmento das doenças venereas, especial-


mente a syphilis, depois do inicio das operações belli-
cosas, devemos, a exemplo da Allemanha, da Inglater-
ra, da Franççi, da Italia e dos Estados Unidos, tomar
medidas mui energicas para debellar tamanho mal entre
os nossos soldados, porque, da syphilis sobretudo, sa-
bemos os males por ella produzidos para o lado do sys-
tema nervoso.
E que dizer do alcoolismo? Do que servirá toda a
selecção do soldado se depois facilitarmos que elle se
intoxique? Sobre uma cellula nervosa de resistencia di-
minuida por uma impregnação alcoolica, são pavorosos
os effeitos dos modos actuaes de guerrear. Os povos em
luta bem o comprehenderam e logo de inicio procuraram
intensificar a campanha anti-alcoolica. Infelizmente, por
contrabando, tem os liquidos espirituosos chegado a pe-
netrar nas fileiras, indo produzir aqui e alli seus desas-
trosos malefícios. Demos, pois, combate a esse grande
inimigo, interno, maior que todos os outros.
Visando a eugenetica do povo brasileiro seja o ex-
ercito um foco de propaganda anti-alcoolica.

Por certo vos havia de interessar os meios utili-


sados pelos especialistas das outras nações em guerra
para o exame dos novos engajados. Os Estados Unidos
do Norte entrando por ultimo na peleja, procuraram apro-
veitar as lições dos velhos povos, da Europa e para o
respectivo trabalho de selecção de methodos de exame
o Cirurgião Geral do Exercito norte-americano requisi-
tou da Commissão de Methodos Clinicos e uniformisação'
de exames e relatorios, a norma a seguir. Foi a sub-com-
rhissão denominada de hygiene mental dos trabalhos
de guerra, quem se encarregou do serviço. Compõem-na
os mais notáveis especialistas de Norte America: os pro-
fessores Augusto Hoch, de Nova-York; Adolf Meyer,
de Baltimore; Thomaz W. Salmon, de N. Y ; E. E.
Southard, de Boston; Alb. M. Barret, de Mich; Wil-
liam White, de "Washington; J. Collins, de N. Y.; T.
W. Weisemburg, de Philadelphia e Robert Yerkes, de
Cambridge.
Não vos darei por miúdo as grandes linhas dos exa-
mes adoptados pelos Norte-Americanos porque sem de-
24

monstração pratica seria isto enfadonho; apenas vos af-


firmo que á uma nacionalidade que se propõe equipar um
exercito de milhões tendo sido possível pôr em pratica
os exames eliminatórios estabelecidos, a nós que não po-
demos ainda ter a prétenção de largos números, por certo
muito mais fácil será a escolha dos que devam ser utili-
sados, sobretudo se attenuarmos um pouco os rigores lá
adoptados. Emfim, sobre o caso, por certo já terão medi-
tado as nossas altas autoridades militares em cujo des-
cortino confiamos.

Meus Senhores:
Em 1879 escreveu o velho Moltke que: «uma me-
lhora do presente estado de cousas não se produzirá
senão no dia em que todos os povos vierem a reconhecer
que toda a guerra, mesmo uma guerra victoriosa, é uma
desgraça nacional».
Um brilhante official francez, o tenente coronel Man-
ceau, disse não ha muito que: «II n'est pas douteuJÇ que
la guerre actuelle augmenterá le nombre des ennemies
de la guerre».
Bem convicto estou dessas verdades incontestáveis.
Seja, porém, como fôr, não chegará infelizmente tão
cedo o momento de desarmar o' mundo. Seja, pois, o exer-
cito, por uma rigorosa selecção de seus membros, uma
projecção sadia e integra* do resto da nação, encarre-
gada de velar pela saúde physica e mental desse resto,
ao qual transmittirá as qualidades adquiridas com as
voltas annuaes, ao seio do povo, dos que tiverem pas-
sado por esse crivo de disciplina mental que deve ser o
serviço da patria. E assim ha de ser até que todas as'
patrias se convençam definitivamente de que se devem
contentai' em serem apenas modestas parcellas de uma
só humanidade.