Urbanismo
Faculdades Integradas do Ceará (FIC)
208 pag.
M em bro da S o c ié t é F r a n ç a is e d 'E s t h é t iq u e
e da com issão de redação da R evue
d 'E s t h é t iq u e , é iguafm ente diretor da
~ "C ollection d'Esthétique" das Editions
Klincksieck.
P ró x im o s la~çam entos
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E n s a io s d e \filo s o fia p o lític a
O r g . O e n is · K a m b o u c h n e r
Trad. Fulvia M oretto
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F ilo s o fia d o s d ire ito s hum anos
H e in e r B ie le f e ld t -,
~ Trad. D ankw art Bem sm ull~r
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UNIVE~IDADE DO VALE DO R IO D O S S IN O S M ARC JIM E N E Z
R eitor zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Pe. Aloysio Bohnen, SJXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA o QUE É E S T É T IC A ?
V ice-R eitor
Pe. Pedro Gilberto Gomes, SJ
D iretor
Carlos Alberto Gianotti Revisão técnica de
A lvaro L. M . V alls
C onselho E ditorial t
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Attico Inacio Chassot (Presidente) I
EDITORA UNISINOS
COLEÇÃO Focus
3
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uma vez, ou então revisrtar à vontade no computador favor de um contato físico com a arte. Porém, há um fenô-
multimídia a exposição consagrada às maquetes concebidas meno que adquire a cada dia uma importância maior: a arte,
por Leonardo da Vinci? as obras, os artistas, as exposições são cada vez mais
Mas um tal clima ledonista será realmente a última pa- mediatizadas. Isto significa que são cada vez mais numero-
lavra da reflexão estética? Alguns deploram hoje a ausência sos os que conhecem as obras pelo texto, escrito ou falado,
de uma verdadeira crítica de arte ou então sua impossibili- ou pela imagem, catálogo, televisão ou CD-Rom, e não por
dade, devido, exatamente, ao desaparecimento de toda nor- serem postos em contato direto com a própria obra. Ora, se
ma e de todo critério. Porém, que significa "criticar" uma a informação é importante, este saber modifica considera-
obra de arte? A crítica será compatível com o prazer e o velmente a experiência estética tradicional.
gozo estéticos? Será isso um bem ou um mal? A questão não é essa.
Essas perguntas não são todas originais, mas se colo- Mas o discurso sobre a arte não pode eludir tais interroga-
cam hoje de maneira particularmente aguda. De fato, o status ções. Os estetas compreenderam perfeitamente estas preo-
social de uma arte doravante acessível, em princípio, a to- cupações do tempo presente. Sua tarefa consiste também
dos, a democratização da cultura e o apoio financeiro que o em analisar estas novas situações, mesmo se superestima-
Estado concede às iniciativas, aos projetos e às realizações, mos às vezes sua capacidade de dar sempre respostas ple-
sobretudo no domínio da arte contemporânea, modificam namente satisfatórias.
em profundidade a maneira pela qual o público, outrora, Porém, acontece com a estética o mesmo que acontece
percebia a arte. A multiplicação dos centros culturais, dos com a filosofia, em que a arte de colocar os problemas é
museus, das exposições, dos festivais corresponde, incon- muitas vezes mais importante do que a solução. E a estética
testavelmente, a uma vontade política da parte dos dirigen- contemporânea, seja qual for sua preocupação de respon-
tes, mas responde também a uma demanda crescente da der às urgências do tempo presente, pode apenas rememorar
parte do público. Todavia, não é certo que a arte, sempre permanentemente sua origem filosófica.
preocupada em marcar sua diferença em relação à realida- Sobre isso, temos algumas palavras a dizer.
de, e o público que, com ou sem razão, vê na arte uma "Naquilo que chamamos filosofia da arte, habitualmen-
maneira de romper com a vida cotidiana, encontrem vanta- te falta uma ou outra: ou a filosofia, ou então a arte". Esta
gem nessa "promoção" cultural. Se as práticas artísticas se reflexão do filósofo alemão Friedrich von Schegel, em 1797,
baseiam na quantidade de banalidades cotidianizadas - dou parece de muito mau agouro para uma disciplina batizada
uma volta ao museu antes de ir para o escritório - a relação pouco antes como estética.
entre a arte e a realidade não correrá o risco, por conseqü- A alternativa, de fato, faz pesar sobre quem quer que
ência, de ser vivida como um divertimento, uma distração reflita sobre a arte e sobre suas obras o risco do fracasso.
pura e simples, uma "recreação dominical" como já o la- Ou o filósofo se entrega à especulação abstrata, caso em
mentava Ionesco? que a arte enquanto prática concreta lhe é inacessível, ou
Se me dou ao trabalho de me deslocar para ir a um então aplica à arte o resultado de suas meditações, mas ces-
espetáculo, evidencio contudo uma motivação honrosa em sa desde logo de ser filósofo e, se pretende continuar a sê-
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banalidade. Contudo, ela prova o fato essencial de que nesse Em sua preocupação em distinguir tão nitidamente a
período da Idade Média a criação era pensada. Ao contrário criação do artista, Santo Agostinho põe o dedo no essencial.
da Antiguidade greco-latina, em que o conceito de criação egar que a arte possa resultar de uma criação humana
não era concebível, os filósofos e os teólogos do século XIII significa reconhecer indiretamente que, de todos os homens,
refletem sobre a noção de origem, de começo, de princípio só o artista pode com legitimidade reivindicar um status de
primeiro de todas as coisas. Mas seria impossível, sob o pon- criador. O que, evidentemente seria impossível para os "dou-
to de vista teológico, atribuir ao homem um verdadeiro po- tores da graça".
der criador, menos ainda reconhecer nele um poder de cria- Será preciso esperar a Renascença, no Ocidente, para
ção artística. A própria idéia de criação artística é recusada que o conceito de criação artística seja ao mesmo tempo
visto que criar é o privilégio de Deus. Ao produzir uma obra, pensado e aceito. É este um fenômeno à primeira vista sur-
o homem, prisioneiro de sua finitude, revela apenas o poder preendente, pois a reflexão sobre a idéia de criação artísti-
infinito do Todo-Poderoso. O tema edênico da Gênese, que ca e a aceitação de um agir humano, criador de obras e de
origina durante séculos múltiplas interpretações teogônicas valores, revela-se em contradição com a filosofia religiosa.
assim como numerosas disputas teológicas, exprime clara- Até os tempos modernos, no despontar do século XIX, an-
mente a idéia de que a criação permanece o monopólio de tes que se imponham as concepções de Kant e de Hegel,
Deus; o homem, mesmo detentor de uma liberdade que lhe é essa filosofia continua a negar ao homem o poder de criar.
própria, não criou o Paraíso terrestre. Ele foi colocado no Quando ela reconhece nele um poder criador qualquer, é
Jardim de Éden, tendo como única tarefa cultivá-Ia. para valorizar melhor a onisciência e a onipotência divinas.
A herança de Santo Agostinho (354-430), um dos Pa- O homem permanece c r i a t u ra, Deus permanece criador,
dres da Igreja latina, exerce sua inf1uência durante vários incriado.
séculos. Em nenhum caso o artista poderia ser o rival de De fato, esta anterioridade da idéia de criação autôno-
Deus, Criador de todas as coisas: "Mas como criastes o céu ma, que se impõe no domínio da arte no século XV, portan-
e a terra, e que máquina usastes para vosso grandioso traba- to muito antes de ser admitida pela teologia e pensada pela
lho? Vós não operáveis como o artista, o qual forma um filosofia - não é ela ainda hoje apenas tolerada pelo pensa-
corpo com um outro corpo, ao sabor de seu espírito que mento religioso? -, só é aparentemente surpreendente.
tem o poder de exteriorizar a forma que percebe em si mes- A arte constitui de fato o espaço no qual se enfrentam
mo por meio da visão interior. Este poder, de onde viria ao e se enlaçam, de maneira privilegiada, todos os aspectos
.1. Fostes vós que
espírito se não tivésseis criado o espírito l..onmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA contraditórios, até mesmo antagonistas, da atividade huma-
criastes o corpo do artista, o alma que comanda seus mem- na, ao mesmo tempo intelectual e material. Um exemplo: a
bros, a matéria com que faz alguma coisa, o gênio que con- teologia como a filosofia têm toda a liberdade de definir a
cebe e vê dentro de si o que irá executar fora". I liberdade do homem, assim como as condições nas quaís
esta autonomia deve ou pode se exercer. Porém, tal defini-
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Livro X I, cup. 5, P aris: Gnrruer-Fl.unrnarin
, L e s c o n f c s s io n s . 1964, ção permanece abstrata mesmo se tomar a forma de precei-
r· 2';6. tos filosóficos ou de regras morais. Podemos dizer,
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que é estética? Marc jimenez 41
escultor cessam de produzir obras úteis, para uso coletivo. início do Cinquecento, acumula uma fortuna recebendo mil
Tendo sido outrora membros de uma corporação, transfor- ducados de ouro, soma considerável para a época, por seus
mam-se agora em assalariados pagos pela clientela. O clien- afrescos na igreja da Minerva em Roma. De uma geração a
te que faz uma encomenda, mecenas, membro do clero ou outra, as condições mudaram, independentemente da noto-
da aristocracia, às vezes o soberano, desempenha o pape! riedade, comparável aqui, dos dois pintores. E tal transfor-
de empregador. Ele contrata para tarefas precisas e espera mação, que diz respeito tanto ao status do trabalho artístico ,
que o mestre e seus companheiros realizem o quadro, res- à progressiva perda de influência das corporações quanto
peitando as ordens previstas no contrato. Estas prescrições às novas relações comerciais entre produtores e negocian-
dizem respeito tanto ao prazo de entrega, os materiais - tes, traduz perfeitamente a autonomização efetiva do domí-
cores e pigmentos - quanto ao desenho e ao tema. nio artístico e cultural.
Será preciso esperar o final do século XV para que a Mas outros sinais dessa autonomia se multiplicam em
passagem de um modo de produção artesanal a um modo relação, sobretudo, com a extensão do mercado da arte. Na
de produção capitalista influa de maneira decisiva no status Idade Média e no início da Renascença, o objeto artístico
do artista. A libertação progressiva dos pintores e dos escul- deve responder às exigências do comanditário. A obra, tem
tores em relação às corporações e seu funcionamento feu- assim a possibilidade de satisfazer várias finalidades utilitá-
dal constitui, neste sentido, uma etapa importante. Vários rias ou simbólicas: ornar, ernbelezar, decorar igrejas ou pa-
fatores dão o testemunho dessa libertação. Os contratos entre lácios ou celebrar, ao mesmo tempo, a glória do príncipe, a
o comanditário e o artista personalizam-se ao ponto de dei- de Deus ou o poder em geral, eclesiástico ou aristocrático.
xar a este último uma margem de iniciativa, inconcebível Um rico mercador de Florença, Giovani Rucellai, generoso
antes. Isso acontece, por exemplo, na escolha do tema ou cliente de pintores de renome, Filippo Lippi, Verrocchio e
das cores, e até mais: sabe-se que, por volta de 1530, coube Uccello, exprime sua satisfação declarando que suas obras
a Michelangelo decidir sozinho se honraria sua encomenda lhe obtêm "a maior aprovação e o maior prazer, pois elas
executando uma escultura ou um quadro. O preço das obras favorecem a glória de Deus, a honra da cidade e [sua] pró-
aumenta consideravelmente. Fixado outrora em função dos pria memória't.?
materiais utilizados, este preço freqüentemente nada mais O preço dos quadros, como já o dissemos, é estabele-
tem a ver com o custo real da produção, ele se torna livre, cido o mais das vezes de forma contratual, segundo critéri-
em função do renome e do talento de mestres que os prín- os precisos. Leva ele em consideração, sobretudo, o núme-
cipes, as cidades - como Roma, Florença, Paris - ou o Papa ro de figuras a serem pintadas, as cores e pigmentos a serem
disputam. Esta tendência, iniciada já no princípio da Renas- usados: prata, ouro, azul ultramar, etc. assim como o tempo
cença, é consideravelmente reforçada à medida que a de- de execução. Essas obras têm, portanto, um valor determi-
manda cresce no mercado. Um exemplo: Filippo Lippi (Fra
Filippo, 1406-1469), segundo Vasari, vive na indigência, ao
ponto de não poder comprar um par de meias. Alguns de- 'Citado por Michail Baxandall, L'ocil du Qu attrocento. Paris: Gallimard Bibliothe-
que Illustrée des Histoires, 1985, p. 1 J. • '
cênios mais tarde, Filippino Lippi, seu filho (1457-1505), noonmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
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nado, resultado de uma negociação entre o comanditário e ção de uma clientela, ao mesmo tempo ávida de investir nas
o artista. Esse valor pode ser chamado valor de uso, visto obras de arte, mas preocupada igualmente com sua qualida-
que repousa sobre a capacidade que tem a obra de respon- de. A escolha de uma obra de arte não pode depender uni-
der às diversas necessidades e exigências do cliente. camente de motivações econômicas. É fácil imaginá-Io.
Essa situação, todavia, evoluiu a partir da metade da Idealmente, esta escolha supõe o contato com o objeto e,
Renascença. A importância dos materiais na fixação do pre- portanto, a entrada em jogo da percepção, da sensação, da
ço das obras diminui em proveito da perícia, da habilidade emoção, todos afetos que determinam o sentimento de pra-
ou do talento evidenciados pelo artista. Leva-se em consi- zer ou de desprazer sentido diante da obra de arte. Inter-
deração, sobretudo, o poder criador deste último e muito i YXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
vém então o julgamento de gosto que decide sobre a con-
menos a riqueza das cores, muito caras, que exibem um formidade da obra ao que se espera dela. Mais precisamen-
luxo julgado por demais ostensivo. Em outras palavras, o te, a instauração de uma esfera estética autônoma libera a
talento ou o gênio, qualidades intrínsecas à personalidade questão crucial de saber se uma obra é bela em si, se ela
do autor, estão acima de tudo. Definir o artista como autor corresponde a um ideal de beleza ou então à idéia necessa-
significa também reconhecê-lo como proprietário exclusi- riamente subjetiva, que cada um tem do belo. O alargamen-
vo, ao mesmo tempo, de sua obra e de seu talento, tornan- to do público no século XVII e sobretudo no século XVIII,
do-se ambos negociáveis no mercado de arte em expansão. provoca, portanto, uma "desmultiplícação" das questões pró-
O valor de troca começa a prevalecer sobre o valor de uso. prias da arte. Estas últimas dizem respeito à avaliação da
O tempo de trabalho efetivo consagrado à fabricação do obra em relação a regras, a normas ou a convenções - esta
objeto de arte não é mais um critério suficiente para fixar tarefa será da competência das academias. Mas convém tam-
seu preço. Conta somente o tempo de criação e não mais o bém formar, educar o gosto e legitimar o julgamento com o
tempo de trabalho. Passou-se do quantitativo ao qualitativo. auxílio de critérios: será esta a tarefa dos "juizes", chama-
O tempo da criação não é mais mensurável. Trata-se, antes dos a princípio, com muita graça, "árbitros das artes" e mais
de mais nada, de uma duração investi da por um sujeito au- tarde, "críticos".
tônomo, celebrado, adulado, cuja reputação se faz ouvir Mas é melhor não antecipar. Com a Renascença des-
além das fronteiras. Pode-se, decentemente, fixar o preço ponta a noção de criação autônoma. Pouco a pouco, o
da notoriedade ou do gênio? artista liberta-se das coerções religiosas, políticas e sociais
O gênio assina sua obra. Inscreve sua marca, verdadei- da Idade Média e afasta-se da teologia e da filosofia esco-
ro sinete que atesta a mais-valia atribuída doravante à obra. lásticas. Todavia, apesar dessa libertação e apesar da dig-
Ora, uma obra de arte assinada não vale mais para um nidade que evolui para seu status social, decorrem dois
mecenas qualquer, para um indivíduo concreto. Ela vale para séculos antes que a estética se imponha como disciplina
o mercado, para uma coletividade de compradores, para específica e que a arte constitua uma esfera totalmente
um burguês rico ou amador esclarecido. autônoma, independente não apenas em relação à Igreja e
Este fenômeno do mercado, que se amplifica nos sécu- ao poder, mas também em relação à ciência e à moral. Este
los XVII e XVIII, tem assim, como conseqüência, a constitui- atraso é explicável.
Portanto, não é excessivo falar de uma "matematização d u o c r ia d o r , de sua habilidade, de sua capacidade de in-
da arte" nessa época do Quattrocento. No século VI a.c., venção, de sua facilidade, até mesmo de seu temperamento
Pitágoras tentava compreender o universo inteiro com a ajuda C'alegre"). Mas todas essas qualidades devem responder a
dos números. A "ordem das coisas", o cosmos, é redutível a uma tripla exigência: imitar a natureza, respeitar as leis da
leis aritméticas e geométricas. O número, portanto, é sobe- perspectiva e celebrar Deus C 'devoto'').
rano: ao dar acesso ao saber, ele só pode ser sábio, por A relação entre a razão e a sensibilidade evidencia-se
definição. Mas se ele é saber e sabedoria, também não pode assim em toda a sua ambigüidade. A Renascença vê o triunfo
ser senão harmonia e beleza. Os artistas da Renascença apren- do humanismo: é o homem que avalia o ato criador, ao mes-
dem as lições de Pitágoras, cujo nome aparece com fre- mo tempo como artista, "intérprete entre a natureza e a arte",
qüência nos documentos da época; sentem eles um idênti- segundo a fórmula de Leonardo da Vinci, e como objeto, tal
co fascínio por essa cosmologia do número. qual aparece representado na pintura ou na escultura. Esta
Mas a predominância da razão, do intelecto e da abs- posição privilegiada do homem é importante visto que tende,
tração, atestada pela observância estrita das regras aritméti- com rápida progressão, a substituir-se à de Deus. Mas, quan-
cas e geométricas e pela submissão à "ciência da perspecti- do dizemos "homem", ainda não falamos de "subjetividade"
va", excluirá a sensibilidade, por exemplo, a sensualidade nem, se preferirmos, de homem enquanto sujeito.
que o artista investe em sua obra e que se esforça por trans- Além disso, o belo, definido como "conveniência sen-
mitir ao público? Evidentemente não. E os contemporâneos sata", está ligado à harmonia ( c o n c i n n i t a s ) . Implica ele co-
concordam em valorizar numerosas qualidades criadoras que nhecimentos científicos e um saber racional. Em outras pa-
nada devem a uma razão austera. Assim, Cristoforo Landino, lavras, é ainda longo o trajeto que leva a admitir que a ima-
pintor florentino, filósofo e amigo de Alberti, faz o retrato ginação, a intuição, a emoção, a paixão e outros afetos pos-
dos artistas de seu tempo em termos ainda usuais hoje: sam ser igualmente faculdades criadoras ou fatores
"Masaccio era um excelente imitador da natureza, com um globalizantes de criação capazes de engendrar a beleza. Da
sentido muito completo de relevo, de composição correta e mesma forma, será preciso esperar vários decênios antes
de pureza, sem ornamentos. ['. .J. Fra Filippo Lippi pintava que tais faculdades e tais fatores desempenhem um papel
com graça e ornamento; era excessivamente hábil e foi ex- essencial no julgamento do gosto e em sua formulação.
celente [.. .1 igualmente para os ornamentos tanto ao imitá- A idéia de sujeito criador que opera numa esfera de
los quanto ao inventá-Ios. Andrea deI Castagno foi um gran-
de mestre do desenho e do relevo; gostava particularmente
'Citado por Michael Raxandall, p. 178.
das dificuldades de sua arte e dos efeitos de perspectiva; era
o p . e il.,
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dele que depende a cor e não o inverso. A cor, concede Le
dários de uma beleza imutável e universal, uma beleza, em
Brun, pode trazer sua contribuição, mas ela não faz nem o
suma, eterna ou, como a chamava a Academia, "positiva".
Uma brecha no ideal de uma beleza perfeita e única, agra- pintor nem o quadro. Do outro lado, Roger de Piles, parti-
dável a todos, sob a égíde de uma Razão, ela mesma imutá- dário de Rubens, vê em Gabriel Blanchard um "rubenista"
fervoroso. "Um pintor somente é pintor porque usa cores
vel. Nesta brecha, ainda estreita, introduz-se Roger de Piles.
capazes de seduzir os olhos e de imitar a natureza", declara
Tudo acontece como se a requisição da razão pela ordem
Blanchard sem rodeios diante dos acadêmicos em 1671.
política e institucional, ou seja, pelo absolutismo monárquico
Observemos, incidentemente, a ordem das prioridades: em
e pela Academia, provocasse, por seus excessos, uma espé-
primeiro lugar "seduzir os olhos", em seguida, "imitar a na-
cie de "humanização" da razão. Esta palavra deve ser toma-
tureza". Acaso retórico ou sutil audácia diante dos guardiães
da em seu sentido primordial: volta ao homem, à sua sensi-
da Doutrina?
bilidade, a seus afetos. Interesse pelo sujeito em detrimento
Porém, no momento, o importante reside na distinção
do objeto. A importância que adquire a noção de gosto, isto
entre cores e coloridos que de Piles estabelece pela primei-
é, dos movimentos secretos da alma, significa que o indiví-
ra vez em 1672 (Dialogue sur les coloris) e renova em 1708
duo assume, ainda timidamente, sua experiência estética.
(Cours de p e i n t u r e par principes). Le Brun respondera a
Blanchard com argumentos supostamente decisivos e defi-
A q u e stã o da cor nitivos: o desenho constitui o elemento essencial da pintu-
ra; a cor representa apenas um acidente. O desenho dá for-
o debate sobre o colorido, que se agrava a partir de ma e proporção, sozinha, a cor não significa nada. O dese-
1660, revela esta tendência. A questão de privilégio conce- nho está ligado ao mesmo tempo ao espírito, à imaginação
dido, seja ao desenho, seja à cor, não é nova na história da e à mão. Ele pode portanto expressar até mesmo as paixões
pintura. Teve ele sua versão "renascença", sobretudo na da alma sem ter necessidade da cor.
Itália, onde os admiradores do disegno de Rafaello opuse- E a estocada em Blanchard não tarda: "Todo o apanágio
ram-se aos apaixonados pelo colore de Tiziano. Porém, nes- da cor consiste em satisfazer os olhos, enquanto o desenho
ses últimos decênios do século XVII, o conflito adquire vi- satisfaz o espírito". Essa réplica, aparentemente anódina, é
rulência, pois cristaliza interesses que ultrapassam a pintura. contundente. Le Brun afirma, com ela, uma outra prioridade
Charles Le Brun, um cartesiano rigoroso, prega o dese- além da de Blanchard: a da inteligência e da razão. Habil-
nho; não apenas não aceita a expressão "claro-escuro", re- mente, ele encerra com a palavra espírito, palavra final, evi-
centemente forjada por de Piles, mas recusa a importância dentemente. Subentende-se: a cor não pode produzir nem
que este último concede à cor. Fervoroso admirador de tom nem colorido. Ela é somente matéria bruta, válida ape-
Nicolas Poussin, encontra em Philippe de Champaigne um nas para ser misturada por mãos de artesãos e que não po-
outro "poussiniano" convencido de que, como ele, afirma a deria, de maneira nenhuma, aspirar à nobreza do espírito.
primazia do desenho. O "belo método de pintura" ensinado O desenho nos salva do mergulho no seio do "oceano
pela Academia passa pelo creiom. É ele que "dá forma", é da cor" e, na verdade, segundo Le Brun, tudo é desenho.
função resolutamente crítica, inconcebível na tradição clás- ção à ordem sociopolítica: certos filósofos militam pela tole-
sica. Esta razão crítica anuncia esta tendência para uma críti- rância, como Bayle, outros, como Montesquieu, já pensam,
ca da razão exercida pelos filósofos do século XVIII. "Crítica nesse primeiro terço do século, numa crítica da monarquia
da razão" não significa aqui desqualificação da razão nem absoluta.
abandono da pretensão de aceder à verdade por caminhos Que se passa na estética?
racionais, mas exatamente o contrário. A crítica da razão não Apenas três decênios antes que o termo estética venha
prega um irracionalismo qualquer. Simplesmente, em lugar designar uma disciplina autônoma, nada permite prever a
de atribuir à razão a tarefa de chegar à Verdade, ao Absolu- emergência de um discurso específico, coerente, com uma
to, dá-se-Ihe a função de determinar as condições científicas terminologia segura. Numerosos são os equívocos que ain-
que autorizam o conhecimento. E é este conhecimento que da planam sobre os conceitos de gosto, de sentimento, de
dá acesso a uma verdade, aquela que o homem está apto a imaginação, de intuição, de emoção, de paixão, de sensibi-
reconhecer, a afirmar e a defender, levando em considera- lidade ou de gênio. Todas essas noções remetem a um "não
ção o caráter limitado de sua razão. Esta aparente modéstia, sei quê" - para retomar a expressão do padre Bouhours -
que toma às vezes a forma de ceticismo, absolutamente não que somente deve sua relativa precisão às conveniências do
prejudica o radicalismo do vasto movimento crítico - desta momento e ao código em vigor neste ou naquele autor. A
vez no sentido mais agressivo de questionamento - contra própria palavra "arte" não está definida. Não é usada no
as antigas e tradicionais tutelas: quer se trate da autoridade singular, nem com minúscula nem com maiúscula. O uso
política, teológica, moral ou artística. do plural é obrigatório, acompanhado por um adjetivo: as
O termo crítica invade as conversas e os títulos das artes mecânicas, as artes liberais. Estas últimas, catalogadas
obras: Réflexions sur Ia critique (Houdar de La Motte) , Dis- pela Academia: eloqüência, poesia, música, pintura, escul-
sertation critique sur I 'Iliade (abade Terrasson), Dictionnaire tura, arquitetura e gravura, são chamadas "belas-artes", des-
btstorique et critique (Pierre Bayle) e naturalmente: Réflexions de o final do século XVII. La Fontaine teria sido o primeiro,
critiques sur Ia poésie et Ia peinture, publicado em 1719 pelo dizem, a usá-Ia neste sentido. Mas a Escola de Belas-Artes
abade Du Bos, texto "pré-estético" ao qual voltaremos mais só é assim chamada em 1793. Quanto à Academia de Belas-
tarde. Artes, deverá esperar até 1816.
Esta freqüência do termo "crítico" é reveladora da nova As condições para a elaboração de uma filosofia da
postura intelectual e moral dos pensadores do início do sé- arte sob a forma de uma disciplina positiva e autônoma,
culo XVIII: anuncia ela os grandes cortes, isto é, a ruptura portanto, ainda não estão reunidas. Se um discurso estético
do elo com o princípio de autoridade que reina em todos os é possível, ele deve ser constituído sobre uma base de con-
domínios desde a Idade Média. Corte teológico e metafísico: ceitos, de noções e de categorias relativamente confiáveis e
Pensée diverses sur Ia comete (Pierre Bayle, 1682), Historie estáveis sem que suas significações sofram variações por
des oracles (Fontenelle, 1687); corte ético: Saint-Évremond demais profundas de um conceito a outro. No início do
declara-se adepto de Epicuro, considerando que o prazer século XVIII está-se ainda muito longe disso. É preciso com-
não é incompatível com a moral; corte progressivo em rela- preender bem: uma estética - ciência ou filosofia - somente
t
racionalista, consiste em desejar precisamente racionalizar o pronunciar-se sobre o que sente: cabe a ele emitir um julga-
que escapa entre as malhas da razão, por exemplo, o gosto mento de gosto. Esta maneira de expor o problema já anun-
ou a graça. O ideal é chegar a uma coincidência perfeita '.~
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que é estética? 77
Marc YXWVUTSRQPONMLKJIH
[im e n e z
mento, é um outro problema, mais tardio. Falaremos nisso representação, nenhuma concepção, nenhuma imaginação
ao tratarmos de Kant. seriam possíveis.
Poderíamos esquematizar a transformação de mentali- Esta definição do ernpirism o, resumida aqui de forma
dade que nos interessa aqui, reduzindo-a a um deslocamen- sucinta, é, naturalmente, minimal. Ela sofre importantes di-
É exatamente o que significa, na
to do objeto para o sujeito.onmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA ferenciações através de todos aqueles que declaram sua
teoria das artes, a atitude de um Felibien ou de um Roger de posição filosófica empirista antes que o empirismo designe
Piles: comecemos por nos interessar pelo que sente o es- uma teoria coerente em si mesma, no final do século XVIII.
pectador que contempla um quadro e tentemos determinar Se não é possível, aqui, expor em detalhes as concep-
através de que meios pode o artista chegar a ernocioná-lo. ções ernpiristas, não se poderia, contudo, omiti-Ias. O que
Porém, tal deslocamento não é totalmente cartesiano? chamamos "desligamento da razão" do que não é ela mes-
Para Descartes também, a origem de qualquer idéia se en- ma - sensação, sensibilidade, sentimento, intuição, imagi-
contra no próprio pensamento, isto é, na razão, neste bom nação, sensualidade, coração, desejo, entusiasmo, ilusão,
senso que o indivíduo partilha com os outros homens. Na invenção, prazer, paixão, ete. - obedece a um processo lon-
origem do cogito nada mais há além do "eu", sujeito-pensante, go, complexo e às vezes contraditório. A contradição en-
com a exclusão - pelo menos provisória - do mundo. Nada contra-se mesmo no coração da separação, pois, para defi-
de exterior consegue convencer-me de minha existência, nir o que não é a razão, é necessário um conceito, incluso
nem os sentidos, nem os objetos, nenhuma sensação ou numa linguagem estruturada de forma ... racional. É perfei-
percepção.cbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA tamente claro, por exemplo, que não podemos ater-nos,
cada vez, a um "não sei quê". Portanto, não há nesta opera-
ção uma ruptura com a razão e foi por este motivo que
E m p ir is t a s e r a c io n a lis t a s
adotamos o termo desligamento, vocábulo utilizado na ma-
rinha para designar a folga que se cria entre as diferentes
Todavia, a diferença é considerável para os pensadores
partes de um navio. Ora, o clima filosófico, mas também
e os filósofos empiristas que, como o termo o indica, dão
político e ideológico, do início do século XVIII, é também o
prioridade à experiência sensível em detrimento da razão.
do jogo que abala as partes rígidas do edifício racionalista,
Contudo, a oposição tradicional entre empiristas e racio-
clássico e absolutista. Os empiristas contribuem em larga
nalistas não se justifica. Os ernpiristas, de fato, não negam o
escala para esta operação. Prolongando a metáfora, poderí-
papel da razão mas pensam que toda idéia é a representa-
amos dizer que eles exploram as falhas, penetram nos
ção a posteriori do que age sobre os sentidos. Em outras
interstícios, minam as bases da construção. Sobretudo, e é
palavras, tudo o que eu concebo ou imagino supõe uma
certamente o mais importante, chegam eles a conferir um
sensação e uma percepção, um contato primordial com o
estatuto teórico e filosófico a este "outro da razão".
objeto exterior, graças aos órgãos dos sentidos. Estes se
Além disso, é preciso compreender o que significa este
tornam, de algum modo, o intermediário obrigatório entre o
clima. Muitas vezes, a história da filosofia e mais geralmente
objeto e o espírito, uma mediação sem a qual nenhuma
a história das idéias dedicam-se a expor a coerência interna
..6LI
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mcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
D E S liG A M E N T O S E A U T O N O M IA
A m b ig ü id a d e s d a a u t o n o m ia e s t é t ic a
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transversal que correspnde à emergência de um conceito de
qual for nossa opinião sobre as teses expostas na Crítica da colocada entre os textos fundadores da ref1exão estética
faculdade de julgar - Hegel já recusa aderir a elas -, a im- moderna, pré-kantíana, O fato pode parecer paradoxal: Ou
portância do sujeito e da recepção na apreciação das obras Bos é ainda um dos representantes da doutrina clássica,
de arte nunca mais será reposta em causa. O indivíduo é acadêmico e, além disso, secretário perpétuo da nobre ins-
dotado de uma faculdade de distinguir, de julgar, em outras tituição. Mas se o abade Ou Bos é o herdeiro da tradição
palavras, de "criticar", e esta faculdade crítica é o sinal de clássica e um dos últimos teóricos a ainda interrogar-se so-
sua autonomia recém-adquirida. bre as relações entre a pintura e a poesia, suas idéias são
Da mesma forma, a discussão sobre os diversos senti- "modernas". Ou Bos é "geômetra"e, assim como a Acade-
dos da palavra gênio torna-se, para alguns pensadores, so- mia, tomou partido contra os antigos. Mantém relações com
bretudo para Diderot, a ocasião para denunciar o ensino Nicolas Boileau, mas também com Pierre Bayle; encontra
acadêmico e o lugar que este último concede à formação do Malebranche e inicia-se nas teses empiristas com John Locke.
talento em detrimento de um reconhecimento dos dons na- É preciso insistir aqui na inf1uência de Malebranche.
turais. Perfeito conhecedor das obras de Descartes, Malebranche
Quanto à singularização da Arte, ela permite pensar dedicara-se a resolver a questão das relações entre a alma e
melhor as relações com a natureza e argumentar sobre anta- o corpo que Descartes relegara ao plano moral. O problema
gonismos específicos: belo natural/belo artístico, o sublime não fora eludido, mas, por razões já evocadas, não era pos-
na arte/o sublime na natureza, gênio inato ou gênio inspirado. sível ao filósofo transportá-lo para o terreno da estética.
A categoria do sublime, que Kant tenta definir depois Reduzida à sua mais simples expressão, a interrogação de
de Edmund Burke? cristaliza talvez, sozinha, as ambigüida- Malebranche é formulada da seguinte maneira: pode e deve
a razão compreender tudo no terreno do sentimento? Essa
questão supõe uma distinção entre sentimento e sensibili-
'Edmund Burke (1729-1797). Sua obra Pesquisafilosofica sobre a origem de nossas
idéias sobre o sublime e sobre o belo (757) terá profunda influência sobre a teoria dade, entre o que é percebido pelos sentidos - matéria bas-
do sublime de Kant. tante bruta e imediata - e o que é sentido pela alma. É
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90zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
oxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
que é estética? Marc [imenez 91
possível perceber uma solução se admitirmos a existência nunca são mais aplaudidas do que quando conseguiram
É esse sentimento que, através
de um "sentimento natural".onmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA nos afligir". Observemos, incidentemente, o uso da palavra
das paixões e das emoções, nos permite perceber a beleza arte como sinônimo de pintura.
espiritual da Ordem na qual Deus dispôs os homens e a Na origem da reflexão de Kant sobre o julgamento do
natureza. Reconhece-se o tema da "visão em Deus". Para gosto, há também esta interrogação sobre o "sentimento de
usar um termo do vocabulário freudiano, perfeitamente ana- prazer e de dor". A razão, todavia, não perde todos os seus
crônico aqui, este "sentimento natural" resulta numa espé- direitos, mas intervém a posteriori. O raciocínio participa do
cie de "sublimação" dos afetos imediatos. Se os sentidos julgamento, mas unicamente para explicar a decisão do sen-
nos permitem perceber as relações, as proporções, a har- timento. Em otras palavras, ulteriormente.
monia nas coisas, isso prova que elas não são contrárias à É curioso constatar a semelhança entre as posições de
razão. Elas obedecem a uma disposição, a uma ordem racio- Du Bos e certas teorias estéticas contemporâneas que dão a
nal, desejada por Deus. A razão e o sentimento não poderiam, primazia ao prazer sensível em detrimento da "discussão". É
portanto, ser incompatíveis. um fato singular que os partidários atuais do prazer ou do
Du Bos aplica esta teoria às artes: a pintura e a poesia desprazer imediatos, dois sentimentos erigídos ambos em
obedecem a regras, a cânones, a convenções. Isto é evidente, julgamentos sobre a obra de arte, julgam voltar ao conceito
mas que acontece ao amador, ao contemplador, ao ouvinte Kantiano de julgamento do gosto. De fato, afirmar a prima-
quando estão diante das obras? Para compreendê-Ias e justifi- zia do prazer sobre o raciocínio e sobre o estudo das moti-
car o que sentem, devem discutir a observância das regras? vações racionais que ligam a obra ao espectador, significa
Serão obrigados a ler as críticas para "calcular (suas) percep- negar a existência, de uma razão estética específica, acessí-
ções e (seus) defeitos"? Respota de Du Bos: o sentimento vel à análise.
nos ensina com maior segurança sobre tudo isso do que a A comparação audaciosa, arriscada por Du Bos entre a
razão. A predileção que sentimos pelos quadros e os versos atitude do gastrônomo (ou do gulosol) diante do ragu do
depende unicamente de nosso gosto e não da razão: "Há em cozinheiro e a do leitor ou do espectador diante das "obras
nós um sentido feito para saber se o cozinheiro operou se- do espírito" ou diante dos quadros é mais um elogio dirigi-
gundo as regras de sua arte. Apreciamos o ragu e, mesmo do ao talento do auxiliar de cozinha do que uma homena-
sem conhecer as regras, sabemos se ele é bom. De um certo gem ao pintor e ao poeta. Quanto à hipótese de Du Bos
modo, o mesmo acontece com as obras do espírito e com os sobre a um "sexto sentido" que julgaria em nós, de forma
quadros feitos para nos agradar, emocionando-nos". pretensamente infalível, ela reforça o mistério em lugar de
E "emocionar-nos", para Du Bos, é tanto ocasionar pra- esclarecê-Io.
zer como afligir-nos: "Sentimos todos os dias que os versos Isso não impede que o que é compreensível para um
e os quadros causam um prazer sensível; mas não é menos autor pré-kantiano, leitor de Locke e de Malebranche, o seja
difícil explicar em que consiste este prazer que se asseme- muito menos dois séculos após a publicação da Crítica da
lha, freqüentemente, à aflição e cujos sintomas são às vezes faculdade de julgar. A não ser que se reconheça que a refe-
os mesmos do que aqueles de maior dor. A arte e a poesia rência concerne ao período pré-estético e não a Kant.
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que é estética?
Marc jimenez 93
Ainda voltaremos a este ponto. Porém, a definição do gênio como poder criador, ca-
Esteta do sentimento, Du Bos, em suas Réjlexions paz a qualquer momento e em qualquer circunstância de
crítiques sur Ia poésie et Ia peinture, confere um lugar im- promover a novidade, é dada por Charles Batteux 0713-
portante à noção de gênio. Suas considerações revelam, de 1780), em sua obra Les beaux-arts réduits YXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCB
à un même principe
forma particularmente convincente, a guinada que se reali- (1746). O gênio é aquele que sabe perceber a natureza atra-
za nessa época em relação ao racionalismo. Como bom her- vés de novas relações. Se ele se refere à natureza e a imita,
deiro de Descartes, Du Bos tenta uma explicação fisiológica tal imitação não é uma cópia servil, mas sim uma ocasião
do gênio, "disposicão feliz dos órgãos do cérebro, na boa para criar, com essa natureza, uma relação inédita, fonte de
conformação de cada um dos órgãos como na qualidade do prazeres novos. À força de imitar a natureza em sua simpli-
sangue Pensamos, evidentemente, no seguinte trecho do cidade, o artista genial corre o risco do tédio. Para evitar a
Discours de Ia méthode: "O espírito depende tanto do tem- uniformidade, recorreu ele a uma forma de razão que, asso-
peramento e da disposição dos órgãos do corpo que, se é ciada ao entusiasmo, ao sentimento e à imaginação, explora
possível encontrar algum meio de tornar os homens geral- o objeto ou a natureza a fim de engendrar emoções desco-
mente mais sensatos e mais hábeis do que foram até agora, nhecidas. Este conceito de gênio fora do comum e do artista
penso que é na medicina que devemos procurá-lo", genial como sendo o único capaz de sair dos caminhos ba-
Porém, para Du Bos é evidente que o gênio não é da tidos seduziu Diderot e os pré-românticos alemães, sobretu-
alçada da medicina, tanto mais que ele "não tem confiança do Goethe, Schiller, Novalis e os irmãos Schlegel.
nas explicações físicas, dada a imperfeição dessa ciência na O conceito de gênio que Diderot 0713-1784) expõe
qual é preciso quase sempre adivinhar". A qualidade do na Encyclopédie marca mais um passo na ruptura com o
sangue e a feliz disposição dos órgãos, portanto, apenas racionalismo clássico ainda presente em Du Bos e Batteux.
desempenhariam um papel secundário se não houvesse o O gênio, "puro dom da natureza" é definido em relação ao
furor que anima aquele que "nasceu com o gênio". "O gê- gosto e ao belo. O gosto engendra apenas belezas de con-
nio é este fogo que eleva os pintores acima deles mesmos, venção. O gênio cria o sublime. Em outras palavras, as re-
que Ihes faz pôr alma em suas figuras e movimento em suas gras e os preceitos acadêmicos são incompatíveis com a
É o entusiasmo que domina os poetas, quan-
composições.onmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA emergência do gênio e, portanto, do sublime: "As regras e
do vêem as Graças dançarem num prado, onde os homens as leis do gosto trariam entraves ao gênio; ele os quebra
comuns percebem apenas rebanhos". para voar ao sublime, ao patético, ao grande."
Se Du Bos não repõe em causa os benefícios da educa- O gênio, para Diderot, não visa à perfeição, aquela que
ção artística nem o valor dos preceitos acadêmicos, insiste, procuram tão inutilmente os artistas que respeitam regras
todavia, na vaidade de todo ensino dispensado na ausência de escola. Nas artes, o caráter do gênio reside na força, na
de um "solo propício": o do dom natural, de resto, abundância, na rudeza, na irregularidade, no sublime, no
inexplicável. Somente o gênio assim entendido permitiu a patético, e é assim que "ele surpreende ainda por seus er-
Rafaele, "instruído por um pintor medíocre", elevar-se "mui- ros".
to acima de seu mestre após alguns anos de trabalho". Podemos medir sem dificuldade a importância das crí-
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que é estética? Marc jimenez 97
"teoria das belas ciências", "das belas-artes", mas elas não se desde a Renascença até Lessing, pelo menos sob esta forma.
mantiveram, e com justa razão. Foi igualmente usado o ter- Em suá origem há uma frase do poeta latino do século I
mo "calística", mas trata-se aqui, não do belo em geral, e a.c., Horácio, amigo de Virgílio e protegido de Mecenas:
fim do belo enquanto criação da arte. Vamos, portanto, nos "Utpictura poesis YXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
e r ü " , a poesia é como a pintura. Ou seja,
ate r ao termo estética, não porque o nome nos importe pou- a criação poética possui um poder de descrição, de suges-
co, mas porque este termo recebeu direito de cidadania na tão, de representação imagética tão poderosa quanto o da
linguagem corrente, o que já é um argumento sério em fa- pintura. E compreendemos que Horácio, autor das Epístolas
vor de sua manutenção"." e das Sátiras podia legitimamente desejar, assim como seu
Tais reservas a respeito do uso do termo estética po- amigo Virgilio, o autor do grande poema épico A Eneida,
dem parecer paradoxais em um dos fundadores da discipli- tornar-se igual aos pintores de seu tempo.
na que traz seu nome. Mas elas mostram perfeitamente que A homologia poesia/pintura, pintura/poesia, portanto,
o problema essencial não concerne à palavra, e sim ao que não é perfeita visto que cabe à poesia imitar a pintura e não
ela designa, ao seu conteúdo. É, "no ponto de partida" em o inverso. Todavia, os pintores da Renascença invertem o
que Hegel se situa, o importante é o próprio conceito de sentido da comparação: a pintura é como a poesia. Vejamos
arte. Continua ele: "Esta forma de raciocínio não vai além novamente o que está em jogo: numa época em que os
destes resultados totalmente superficiais na questão que nos artistas pintores abandonam o status de artesãos e em que
interessa: a do conceito de arte"." a pintura acede à categoria de atividade liberal, intelectual,
Como se chegou a esta noção unitária, a esta palavra até mesmo científica, é essencial conferir-lhe títulos de no-
arte, tão evidente em sua acepção corrente que nos faz es- breza. Não esqueçamos que, na época, a eloqüência e a
quecer suas origens? poesia estão à frente das artes liberais, assim como, na Ida-
Temos de partir novamente da Renascença. de Média, o estavam a gramática, a retórica, a dialética, artes
da linguagem. Falseando a comparação, Leonardo da Vinci,
em seu Tratado da pinturas chega ao ponto de estabelecer
Do ut pictura poesis ao Laocoon d e L e s s in g uma hierarquia em favor da representação pictorica, insis-
tindo na superioridade absoluta da pintura sobre a música e
Deverá a pintura ser como uma poesia muda e um a escultura: "Como concluímos que a poesia se dirige, em
poema como um quadro falante? princípio, à inteligência dos cegos e a pintura à dos surdos,
Estas duas questões, unidas, resumem a longa contro- daremos tanto maior valor à pintura em relação à poesia por
vérsia do ut pictura poesis, verdadeira doutrina em vigor estar esta última a serviço de um sentido melhor e mais
nobre do que ela. Esta nobreza é também três vezes maior
I.
!
9 8 zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
oxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
que é estética? Marc [imenez 99
do que a dos outros sentidos, visto que a perda do sentido O mais das vezes, Batteux usa indiferentemente a expressão
da audição, do olfato ou do tato foi escolhida de preferên- as "artes"ou as "belas-artes", isto é, a música, a poesia, a
L ..], A música pode apenas ser chamada irmã
cia à da vista.onmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA pintura, a escultura e a dança. O mais importante é que ele
da pintura por estar submetida à audição, sentido inferior à confere a todas uma mesma finalidade: imitar a natureza, ou
vista L..l. Não encontro entre pintura e escultura outra dife- mais precisamente, a "bela natureza". Esta evocação das re-
rença além desta: O escultor faz suas obras com maior es- gras clássicas nada traz de novo. Na aparência pelo menos,
forço físico do que o pintor; e o pintor faz as suas com pois esta imitação é ela mesma submetida a um imperativo:
maior esforço intelectual." E Leonardo da Vinci está em con- agradar, comover, tocar. E o meio deste prazer é o gosto:
dições de valorizar suas múltiplas competências em todas as amor de si mesmo, o gosto, para Batteux, é "feito unica-
artes como penhor de sua imparcialidade! mente para gozar" e é "ávido de tudo o que pode trazer-lhe
A época clássica não conserva a idéia de uma hierar- algum sentimento agradável". É preciso lembrar que, para
quia das artes, embora seja verdade que Colbert mostra, em Batteux, o gênio é aquele que sabe criar e representar rela-
qualquer ocasião, sua predileção pela pintura de história, a ções novas com a natureza. A "bela natureza" é, portanto, a
"mais nobre das Artes". Evidentemente, parece natural, por natureza transfigurada pelo gênio e a que satisfaz nosso
exemplo, que na expressão "a arte e a poesia" na pena de gosto. Ela deve estar presente em todas as artes, precisa
Du Bos arte designe, é claro, unicamente a pintura e nada Batteux, sem que seja necessário comparar ou hierarquizar
mais. Em compensação, no célebre verso de Boileau, a arte os méritos de cada uma. Não há, de um lado, o corpo, os
capaz de imitar as serpentes e os monstros odiosos designa sentimentos, a imagem e do outro, o espírito, as idéias, a
com toda a evidência a poesia. Este uso da palavra arte é linguagem. A cada uma destas partes, a "arte é obrigada a
muito específico na época. Na verdade, a pintura é ligeira- dar um nível requintado de força e de elegância que as
mente privilegiada. Por ser hegemônica, dado seu status torne singular e as faça parecer novas". "Arte" escreve-se no
político e institucional, ela não precisa temer o que quer singular. A palavra volta várias vezes em Batteux, sem dúvi-
que seja ou quem quer que seja. É por esta razão que o da para mostrar que a arte pertence a todos os tempos e a
século XVII prefere ater-se ao prudente paralelo entre as todos os lugares, mas que somente existe pelo que a dife-
artes da linguagem. Afinal de contas, cantar os louvores do rencia da natureza.
grande monarca ou pintar suas virtudes pode ser feito com A obra de Batteux teve um sucesso imediato e durável,
igual felicidade, sobretudo quando o poeta se chama Boileau, sobretudo junto a Diderot, aos irmãos Schlegel, a Kant e a
o pintor, Le Brun, o escultor Coysevox e o músico Lully. Hegel. O que os interessou foi essencialmente seu conceito
Submetidas de forma explícita ao mesmo princípio de imitar de gênio e a crítica indireta do racionalismo clássico. Po-
a natureza, as artes souberam encontrar um sinônimo: "be- rém, todos esses comentadores, contemporâneos de
Ias-artes", e uma instituição para acolhê-Ias, a Academia de Baumgarten, foram sem dúvida sensíveis igualmente a essa
maneira de encerrar - pelo menos provisoriamente - as dis-
Belas-Artes, ainda que esta última ainda não tenha este nome.
putas sobre o ut pictura poesis.
A obra de Charles Batteux, Les beaux-arts réduits YXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
à un
même p r i n c i p e , não trata diretamente do ut pictura poesis. Todavia, é à obra de G. E. Lessing 0729-1781) Laocoonte,
I
II
I
102 zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
o queYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
éestética? M a rc [im e n e z 103
encontrou ele recentemente um prolongamento na idéia de Este princípio de montagem-desmontagem, construção-
certos partidários do modernismo artístico. Afirmar que to- desconstrução da forma artística tradicional para aumentar
das as artes, sobretudo a pintura, a escultura e a arquitetura, sua expressividade pode ser encontrado nas outras artes,
somente podem evoluir permanecendo circunscritas no in- quer se trate de escultura, de literatura, de cinema ou de
terior de seu meio específico é para Clement Greenberg 0909- fotografia. Ele se encontra na base de uma nova estética
1994) a condição sine qua non de sua autonomia. que afirma a autonomia radical de uma arte moderna reso-
O filósofo e esteta alemão T. W. Adorno pensa que a lutamente oposta à realidade.
convergência das artes - por exemplo, entre a música e a Hoje, duas tendências se enfrentam: as artes especia-
pintura - constitui a característica fundamental da arte "mo- lizaram-se a um ponto extremo. Sua prática usa técnicas e
derna", do início do século XX aos anos 50. Ela permite procedimentos extremamente especializados, e constatamos
definir o sentido da modernidade artística. Todavia, esta que os artistas das diversas disciplinas não se correpondem
unidade somente é possível se cada uma evolui de acordo entre si. Porém, paradoxalmente, assistimos a aproximações,
com seu material e sua lógica próprios. Falar de uma "músi- a conjunções, a intercâmbios que tendem a abolir divisórias.
ca pictórica" ou de uma "pintura musical", portanto, não Tudo acontece como se a vontade de criar elos entre as
tem nenhum sentido: "A partir do momento em que uma diferentes práticas artísticas, de associar materiais heterogê-
arte imita outra, ela dela se afasta,na medida em que nega a neos, de conjugar as práticas artísticas, fosse mais forte do
coerção de seu material específico. Não há nisso nenhuma que a preocupação de classificar, de ordenar, de "adminis-
contradição. A unidade da arte moderna repousa num de- trar" o domínio do imaginário e do sensível. Não se estaria
nominador comum a todas as artes: uma linguagem particu- sonhando com uma "polissensorialidade" que reatasse, de
lar que associa a expressão e a construção, mas que nada forma nostálgica, com a "obra de arte total" e se esforçasse
tem a ver com a linguagem corrente. Esta linguagem retira por unificar a esfera estética?
elementos da realidade e os recompõe para melhor mostrar Todavia, o aparecimento da multimídia, as simbioses
em que grau a arte moderna adota uma distância crítica em inéditas entre o som, a imagem e o texto num universo
relação a essa realidade. Adorno cita o exemplo do quadro virtual de três dimensões deslocam o problema clássico da
Guernica de Picasso, que reconstrói, para melhor denunciá- correspondência das artes bem além da controvérsia sobre
Ia, a realidade de um fato histórico justapondo os "fragmen- o paralelo ou sobre a especificidade das artes. Mas não sem
tos-choques" riscos. De fato, a doutrina do ut pictura poesis como as
de rostos humanos ou de animais.onmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
É o caso,
igualmente, do compositor Arnold Schonberg que descontrói teses do Laocoonte de Lessing aparecem, com o recuo, como
a harmonia tradicional dos sons para aumentar-Ihes a momentos que, de forma contraditória, contribuíram, con-
expressividade graças a uma disposição não habitual de uma tudo, para a autonomia da estética, seja favorecendo o reco-
escala de doze tons. Ao escutar sua obra, Um sobrevivente nhecimento das belas-artes, seja ajudando a emergência de
de Varsóvia (947), o público ouve perfeitamente as um conceito moderno de arte. Poderia a mesma coisa ser
dissonâncias: elas exprimem de fato as discordâncias de um dita da multimídia que, como seu nome indica, inclui a arte
mundo mutilado pela barbárie nazista. e a estética no mundo da comunicação e do sistema cultu-
positor de O r f e u . Pensa reagir ao rigor de Rameau esco- acompanhada de reservas: Diderot, partidário do naturalis-
lhendo o natural, enquanto a simplicidade, a emoção e a mo, hostil ao academismo como ao maneirismo, não terá
paixão se encontram no lado alemão.'? Opção discutível. concedido demasiadamente à imitação da natureza? pergun-
tará Goethe. A única imitação à qual a arte deve dobrar-se
não é a da própria arte e não a da natureza? E a obra de arte
IOÉ preciso algo mais de que uma querela para emocionar Voltaire que, no ll1eio
das hostilidades, conserva uma serenidade totalmente de acordo com a estetica
subjetivista em germe: "ouço gritar: Lulli, Campra, Rameau, Bouffons/Preferis a
França ou a Itália?/ - Prefiro meu próprio prazer". "Denis Diderot, Essais sur Ia peinture. Salons, Paris: Hermann, 1984.
'Ihid. § 39.
"Ibrd. § 33.
"Ibid § 40.
'AlusãoonmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
à famosa definição de beleza dada por Lautréamont em Les cbants de YXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
M a ld o r o r . que tanto agradara a André Breton. "Belo .... como o encontro fortuito "'Ver sobretudo o § 23: "Passagem da faculdade de julgar o belo :1 faculdade de
sobre uma mesa de dissecação de uma máquina de escrever e de um guarda- julgar o sublime".
chuva." "Ibíd. § 44. "Das belas-artes".
'<lbid. § 45.
"N ele T Perspectiva enganosa, pintura que dá a ilusão ela realidade.
1.\lbicl. § 45.
mente concluir que as obras de arte suscetíveis de serem ljErnst C assirer, Rousseau, Kant, Goethe. Deux essais, Paris, Berlin, 1991, trad.
Jean Lacoste, p. 102-103.
"Henry Home (1696-1782), autor de E le m e n t s 0/ C r it ic is m (1762), defendeu a
idéia, nào partilhada por seus contemporâneos, ernpiristas e sensualistas, de que
"Ibid. § 28.YXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA o dever autêntico consiste em obedecer incondicionalmente à lei moral.
1 5 2 onmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
o xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
que é estética? zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA Marcjimenez 153
e por uma Alemanha que sonha, sem por demais acreditar, gicas e, ao mesmo tempo, instala a arte em sua própria his-
em tornar-se uma nação. tória. Ela revela o ponto de vista a partir do qual se pode
Não poderemos compreender a reação romântica, em contemplar a civilização ocidental desde suas origens e com-
arte e em filosofia, se fizermos abstração da perturbação de preender a cultura como processo, evolução, vida e, portan-
toda uma geração de intelectuais diante da situação externa to, morte.
perigosa e de uma situação interna de crises econômicas, Mais ainda: o modelo grego permite pensar a
sociais, políticas e ideológicas particularmente preocupantes. modernidade nascente e antecipar, como em Baudelaire,
A reabilitação da Idade Média, a volta à Antiguidade mas já em Hegel, o caráter efêmero de uma arte que tenta
grega e latina contribuem para a restauração cultural de um romper com a beleza eterna. E o paradoxo da segunda me-
país que procura preservar-se do caos. Pouco antes da inva- tade do século XIX é realmente o fato de a arte grega conti-
são das tropas francesas, Novalis define perfeitamente o es- nuar mostrando-se como um modelo exatamente no mo-
tado de espírito da época: "Na Alemanha, já se podem mento em que os modelos desabam.
discernir, com certeza absoluta, os pródromos de um mun- Resumindo: no início do século XIX, no próprio qua-
do novo. A Alemanha precede, em marcha lenta, mas segu- dro da autonomia da estética, o papel e o status da arte, são
ra, todos os outros países europeus. Enquanto estes últimos modificados. Duas tendências aparecem. Há os filósofos
estão ocupados com guerras, com especulações e assuntos (Schelling) ou poetas (Hôlderlin) que lhe conferem uma
de partido, a Alemanha dedica todo seu esforço a tornar-se vocação metafísica ou teológica: a arte dá acesso ao Absolu-
digna de participar de uma época de cultura superior e esse to, à Verdade, ao Ser, a Deus. Pode-se falar de uma sacra-
adiantamento deve assegurar-lhe, com o tempo, uma gran- lização da arte. Mas há também os que lhe atribuem tarefas
de preponderância sobre todos os outros"." temporais, pedagógicas sociais e políticas. Trata-se, neste
Seja qual for o papel da Idade Média, do sentimento caso, de uma secularização da arte.
religioso, do cristianismo no pensamento romântico, tanto Sacralização e secularização nem sempre são antago-
alemão quanto francês (Chateaubriand e Victor Hugo), a nistas e podem existir no seio de uma mesma estética, por
Grécia antiga, mais ainda do que a Itália, assedia o espírito exemplo, em Schiller ou em Nietzsche. Mas o importante
dos filósofos e dos poetas. reside sobretudo no seguinte fato: a estética conquistou sua
Mas podemos desde já precisar o que dizíamos acima: autonomia tendo por base uma libertação progressiva da
a Grécia romântica não é a do século clássico nem a dos arte em relação às tutelas metafísica, teológica, religiosa e
escolásticos da Idade Média. Também não é mais a de moral; tais desligamentos são acompanhados de uma eman-
Winckelmann, apaixonado pela "nobre simplicidade e pela cipação em relação às coações sociais e institucionais: reco-
grandeza serena" das estátuas gregas. A Grécia doravante nhecimento do status de artista, questionamento das con-
entra novamente na história graças às escavações arqueoló- vençôes acadêmicas.
A estética kantiana representa o momento em que a
autonomia da estética coincide com a autonomia da arte.
"'Friedrich Novalis. Petits écrits, Paris: Aubier 1947, trad. G. Bianquis, p. Iô/seg.
De forma abstrata, todavia: a posição forma lista de Kant
1 5 8 o xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
que é estética? zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Marcjimenez 159
nas a suas próprias leis e isto lhes confere uma espécie de Burke, por exemplo - e a teoria intelectualista - a de Kant -
"naturalidade". Eles traduzem uma perfeita adequação da cometem o erro de privilegiar um dos aspectos da natureza
forma à matéria como se a forma fosse produzida livremen- humana em detrimento do outro. De fato, o homem só se
te por essa mesma matéria, sem coação nem artifício. realiza pela mente e só desabrocha na harmonia destas
Estamos próximos da definição kantiana das belas-ar- pulsões, em outras palavras, quando as limita a arribas gra-
tes que devem "revestir a aparência da natureza", embora ças à intervenção de uma terceira pulsão, à qual Schiller dá
tenhamos consciência de que se trata de arte. Da mesma o nome de pulsão de jogo ( S p i e l t r i e b ) . Entregue à pulsão
forma , reconhecemos a idéia kantiana segundo a qual o sensível, o homem é prisioneiro de sua natureza, de suas
gênio é aquele graças ao qual a natureza prescreve suas necessidades físicas; colocado sob o jugo exclusivo da pulsão
regras à arte. Mas Schiller, ao contrário de Kant, não se con- formal, é ele coagido por sua razão, vítima de seu poder
tenta em precisar que o objeto belo deve possuir certas qua- legislador, abstrato e desencarnado. Somente o jogo das fa-
lidades. Resta determinar a natureza do efeito que tal objeto culdades - entre razão e sensibilidade - permite-lhe escapar
suscita em nós e por que razão o objeto belo, singular, har- a estes dois tipos de servidão. Ora, que outra atividade além
monioso, encontra eco na própria natureza do homem. Kant da arte - ação recíproca da forma e da matéria - representa
falava de faculdades, de entendimento, de imaginação e de melhor esta liberdade que reina no Estado estético?
razão. Quanto a Schiller, exprime-se ele em termos de ins- Assim, a educação pela beleza permite ultrapassar o
tintos próprios da natureza humana: por que a beleza, a Estado sensível, aceder ao Estado estético graças ao domí-
harmonia da forma e da matéria agrada? Porque engendra a nio "racional" das pulsões, e chegar ao Estado político, ga-
harmonia dos dois aspectos da natureza humana, a razão e rantia da autonomia assim adquirida. Nesta passagem de
a sensibilidade. Porque ela é um apelo à conciliação entre o um Estado a outro, a experiência do belo é fundamental: o
instinto formalYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
( F o r m tr ie b ) e o instinto sensível ( s i n n l i c h e r belo enobrece moralmente e este progresso da moralidade
significa um progresso da razão. Ao termo do processo, isto
T r ie b ) .
Na realidade, a tradução comumente aceita da palavra é, da educação estética do homem, projeta-se o Estado ideal
alemã T r i e b como instinto é inadequada. Seria melhor falar no qual o Estado da razão, o Estado moral e o Estado esté-
de pulsão, de impulso dinâmico em lugar de instinto tico se confundem.
( In s tin k t) , tendência inata, imperativa. Schiller, aliás, define É digno de nota que Schiller queira assim, sem traí-Ia,
tais pulsões como energias. O instinto não é perfectível, em ultrapassar a estética kantiana, transpondo-a na ordem dos
compensação as pulsões podem ser orientadas sob a influ- fenômenos, no plano da realidade empírica, social, econô-
ência da educação. Para um herdeiro das Luzes como Schiller, mica e política. A autonomia estética desempenha, portan-
não há projeto educativo sem a crença num progresso do to, um papel essencial. Graças a ela, torna-se possível con-
indivíduo e da humanidade. Se um tal progresso é possível ceber um Estado em que a liberdade, reconhecida a princí-
é porque a natureza humana não se reduz ao antagonismo pio no domínio da arte, pudesse estender-se a todos os
entre a pulsão sensível e a pulsão formal, entre as sensações outros domínios, o das relações sociais e das relações morais.
e a razão. A seus olhos, a concepção sensualista - a de Schiller sabe muito bem que é impossível atingir nova-
l YXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
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que é estética? Marcfimenez 165
Jean-Paul não inventa um estilo nem um modo de ga, modelo imorredouro de delicadeza artística e ética, re-
expessão. Faz muito mais: põe em prática o gênero literário presenta então o único remédio. Um dos mais longos frag-
promovido pelo grupo do Athenaeum: uma sucessão de mentos do Curso é um hino aos gregos, à "fresca juventude
parágrafos, de aforismos mais ou menos longos, "fragmen- do mundo", em resposta à aridez da existência naquele iní-
tos" no espírito de Friedrich von Schlegel e de Novalis. No cio do século XIX: "Que viva e delicada luz este sol e essa
primeiro número da revista, em 1798, Schlegel publica mais lua de Homero, a Ilíada e a Odisséial"
de cem fragmentos atribuídos a Novalis com o título Grãos Jean-Paul vê a Grécia com os olhos de Winckelmann: o
de pólen. Restam ainda mais de três mil a serem editados! sonho torna-se fantasma: "Os gregos dão aos deuses a feli-
Este estilo convém a Jean-Paul. L . .J. A filosofia não era o apren-
cidade, aos homens a virtudeonmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Porém, esta escritura fragmentária não é simplesmente dizado de um ganha-pão, mas da vida, e o discípulo enve-
problema de estilo, nem para os românticos, nem para jean- lhecia nos jardins do mestre L..l. A arte e a poesia não eram
Paul; o fragmento é um desafio ao pensamento sistemático, aprisionadas, enterradas atrás dos muros de uma capital,
ao imperialismo da razão dedutiva e organizadora. O frag- pelo contrário, elas planavam e flutuavam sobre a Grécia
mento é efetivamente como um grão de pólen encarregado inteira", etc.
de semear a verdade. Poderíamos dizer, paradoxalmente, "Nada pulula mais em nossa época do que os estetas,
que o fragmento não é fragmentário: é um microcosmo per- observa em 1804. Mas ele é um dos primeiros a beneficiar-
feito em si mesmo: "Semelhante a uma pequena obra de se da autonomia estética. Aproveita o fato para criar uma
arte, um fragmento deve ser totalmente separado do mundo linguagem inédita, um discurso específico, único em seu
circunvizinho e fechado sobre si mesmo como um ouriço", gênero, que será lembrado mais tarde por Schopenhauer e
declara Schlegel no Athenaeum. Para jean-Paul, receptivo Nietzsche e, no século XX, por Walter Benjamin e Theodor
às crises de sua época doente e sobretudo à profunda crise Adorno.
cultural da qual o romantismo é o sintoma flagrante, o frag- Mas entre jean-Paul e os que aprenderão as lições de
mento, em sua forma mutilada, constitui a escritura adequa- seu Curso preparatório de estética há Hegel. um pensamen-
da a esses tempos febris. to sistemático, coerente, uma das mais espantosas sínteses
Mas o fragmento, graças à sua concisão, é também a das diversas doutrinas e teorias sobre a arte. Entre a extrava-
forma de expressão ideal do Witz, da dito espirituoso. A gância poética de Jean-Paul e o sistema filosófico hegeliano
brincadeira humorística não é apta, como o mostrará Freud, aparentemente não há denominador comum, a não ser a
a conjurar o mal-estar, a neurose e, ao mesmo tempo, a Grécia, esse espelho antigo diante do qual, por alguns de-
revelá-Ios? Sendo um condensado de humor e de ironia, o cênios, a modernidade permanecerá presa, fascinada pelos
Witz, em sua fulgurância irônica, não traduz o desencanto, traços de sua própria imperfeição.
até mesmo o niilismo que povoam esse período?
Como Schelling, jean-Paul sente intensamente a sepa-
ração dolorosa entre a aspiração do eu ao Absoluto e a
impossibilidade de aceder a ele. Rememorar a Grécia anti-
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que é estética? Marc]imenez 167
H egel e a filosofia d a a r t e onmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAnara pelas belezas da natureza, Hegel, nômade na Europa
do início do século XIX, somente tem olhos para o belo
É possível ensinar na universidade uma disciplina que artístico.
não existe? Já em 1805 G. W. F. Hegel coloca esta pergunta. Evocamos, precedentemente, as reservas de Hegel so-
A universidade considerada é uma das mais prestigiosas da bre o emprego da palavra "estética". Se a adota, é por não
Alemanha: Heidelberg. Nela, Hegel só se tornará professor ter outra melhor e porque o termo já entrou em uso. A
em 1816. A disciplina que não existe - ela não se beneficia expressão "filosofia da arte", em sua opinião, é de fato mais
de nenhuma cátedra acadêmica com este nome - é a estéti- adequada.
ca! Hegel a ensinará episodicamente a partir de 1818, na
universidade de Berlim, depois, de maneira contínua, entre
1827 e 1830. o b e lo : " u m g ê n io a m ig á v e l"
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o xwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
que é estética? zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA Marc jimenez 169
ças à criação de obras de arte concretas. O belo existe em religião e com a filosofia. A arte sempre simbolizou, repre-
toda parte ao redor de nós. Ele intervém, diz Hegel, "em sentou, figurou o sentimento religioso do homem ou sua
todas as circunstâncias de vida" como neste "gênio amigo aspiração à sabedoria. É graças aos vestígios artísticos das
que encontramos em toda parte". civilizações e das culturas antigas, às estátuas, aos monu-
E - isto não deve nos espantar - o único belo que mentos, aos mosaicos, etc., que podemos reconstituir o que
interesssa é o belo artístico, o das produções humanas, com foram, então, as idéias e as crenças que animavam os ho-
a exclusão do belo natural. Por quê? Simplesmente porque mens das épocas anteriores. Se a arte interessa Hegel até
o belo artístico é sempre superior ao belo da natureza. É este ponto é porque exprime a vida do espírito e permite
uma produção do espírito e "sendo (o espírito) superior à que esta vida seja sentida, percebida graças às obras.
natureza, sua superioridade comunica-se igualmente a seus
produtos e, por conseguinte, à arte".36
Dificilmente Hegel pode ser mais claro do que quando A id é ia d e b e lo e o E s p ír it o a b s o lu t o
declara: "A pior idéia que atravessa o espírito de um homem
é melhor e mais elevada do que a maior produção da natu- Ora, existe em Hegel esta inquebrantável certeza - ou
reza e isto acontece justamente porque ela participa do es- esta "crença" - de que o espírito humano é ele mesmo uma
pírito e porque o espiritual é superior ao natural't." parcela de um espírito que o ultrapassa: um Espírito absolu-
Uma das conseqüências desta superioridade incontes- to rege o conjunto do pensamento e da atividade humanas
tável do espírito é que a arte não poderia ter como finalida- e se desdobra ao longo da história. Este Espírito absoluto
de a imitação da natureza. Hegel aqui opõe-se radicalmente impele para a realização da Verdade e da Liberdade, sejam
à tradição aristotélica em vigor na arte ocidental: "Ao afir- quais forem os obstáculos e as vicissitudes que contrariam a
mar que a imitação constitui a finalidade da arte, que a arte ação dos homens.
consiste, por conseguinte, numa fiel imitação do que já existe, Naturalmente, com um pouco de pragmatismo, poder-
coloca-se, em suma, a recordação na base da produção ar- se-ia objetar-lhe que a história está repleta de exemplos que
tística. Isto significa privar a arte de sua liberdade, de seu desmentem este "otimismo". A história não é feita de uma
poder de expressar o belo"." Ora, a finalidade da arte não é sucessão de guerras, de injustiças, de devastações causadas
a de satisfazer a recordação, mas a de satisfazer a alma, o pela loucura dos homens, todas elas desastres que condu-
espírito. zem ao aniquilamento total das mais ricas civilizações, con-
Basta remontar o curso do tempo para perceber que o sideradas imortais.
"gênio amigo" manteve sempre relações privilegiadas com a Esta objeção não tem valor. O sistema hegeliano, por
sua coerência, supera as contradições e sobretudo os acon-
tecimentos que parecem contrários à realização do espírito
36G. W. F. Hegel, Estbétique op. cit. t. 1. p. 8. objetivo. Não se trata, nele, de otimismo, mas de convicção.
"Ib id . Já a linguagem e, em seu mais alto nível, o Conceito, são os
3Klhid t. I p . 34. sinais do Absoluto: o simples fato de eu poder nomear -
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que é estética? Marc jimenez 173
sificação e o sistema no qual ela desemboca apresentam Não há nada de espantoso no fato de as pirâmides ofe-
algumas dificuldades que não se devem unicamente a uma recerem assim - segundo Hegel - o quadro da própria arte
falha na compreensão do leitor. simbólica. A descrição que faz delas é quase ingênua; "Os
Acabamos de precisar que o Ideal do belo designa a subterrâneos são cheios de labirintos, de profundas escava-
maneira pela qual a Idéia do belo se realiza historicamente ções, de passagens longas que exigem meia hora de cami-
em formas particulares da arte. Cada uma destas formas nhada, o conjunto apresentando um trabalho cuidado e aca-
corresponde assim a um período determinado da história. bado"." O simbolismo egípcio torna-se total na representa-
ção dos deuses - Osíris e Ísis ou a esfinge, enigma absoluto
q A arte simbólica: como a arte hindu, para Hegel, é uma - onde sentimos perfeitamente que o espiritual ainda não
forma rudimentar de arte simbólica, o exemplo mais per- atingiu sua plena e inteira liberdade.
feito é a arte egípcia. Em compensação, a arte grega representa a perfeita
q A arte clássica: a arte grega. adequação da forma e do conteúdo. É nela, diz Hegel, que
q A arte romântica: a arte do Ocidente cristão da Idade é preciso "procurar a realização histórica do ideal clássico".
Média ao século XIX. Os artistas não se esgotam querendo figurar de maneira sim-
bólica, freqüentemente enigmática, aspirações mais ou me-
Cada uma destas artes traduz a maneira pela qual a nos confusas ao divino. Basta-lhes extrair livremente o con-
imaginação procura escapar à natureza, dar forma a um con- teúdo de suas obras nas crenças populares já estabelecidas
teúdo. O grau de adequação forma conteúdo, é, portanto, ou na mitologia. Por exemplo, o escultor Fídias (490-431)
diferente para cada pessoa. Ele está ligado à maneira pela "tomou seu Zeus de Homero". Enquanto a arte simbólica é
qual os homens pensam poder traduzir a religião, suas cren- "balançada entre mil formas", a arte grega "determina livre-
ças ou sua fé na arte. mente sua forma" em função da idéia, do conceito, das in-
Na arte simbólica, egípcia, a Idéia - o conteúdo - ainda tenções que animam o artista. A técnica é tão perfeita que
não encontrou sua verdadeira expressão. Ela é prisioneira domina plenamente a matéria sensível e a submete às or-
da natureza exterior e da natureza humana. Trata-se aqui de dens do Criador.
uma forma 'pré-artística" que não se separou da intuição Este equilíbrio entre a forma e o conteúdo é contudo
sensível e cujo modo de expressão repousa em símbolos frágil. Hegel explica que, a partir do final do século IV, quan-
enigmáticos. Hegel escreve a respeito dos egípcios: "L..] suas do a demagogia sucede à democravia ateniense e a negociata
obras de arte permanecem misteriosas e mudas, sem eco e e as intrigas pervertem a cidade, a harmonia entre o natural
imóveis, pois o espírito ainda não encontrou sua encarnação e o espiritual se degrada. Abre-se um abismo entre as anti-
verdadeira e ainda não conhece a língua clara e límpida do gas aspirações à virtude, o respeito para com as divindades
espírito" .40 e a realidade exterior: a partir da época de Platão e de
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que é estética? zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA M a rc jimenez 175
Xenofonte começa a dissolução da arte clássica antes que A s d if ic u ld a d e s d o s is t e m a
renasçam, mais tarde, outras aspirações à espiritualidade.
É na arte romântica - a última forma particular da arte - Há duas observações a serem feitas nessa periodização:
que a espiritualidade atinge seu apogeu. A arte romântica é
uma arte da interioridade absoluta e da subjetividade cons- c:> e todas as artes estão, com toda a evidência, presentes
ciente de sua autonomia e de sua liberdade. A representa- simultaneamente em qualquer época, cada momento pos-
ção do divino, do "reino de Deus" abandona qualquer refe- sui sua arte privilegiada: arquitetura (arte simbólica), es-
rência à natureza, à realidade sensível. A arte clássica grega cultura (arte clássica) pintura, música, poesia (arte ro-
tomava seu conteúdo aos deuses; a arte romântica encon- mântica);
tra-o na história do Cristo, da Redenção, da Virgem, dos c:> cronologicamente, todas estas formas particulares tradu-
discípulos; ela exprime assim a universalidade em seu mais zem uma espiritualização progressiva: no ponto de
alto grau. partida,a forma bruta, a matéria (arquitetura); no ponto
Esta arte "romântica" - Hegel confere um sentido parti- de chegada, o espírito puro, interiorizado, e a domina-
cular à palavra - cobre o período mais longo da história ção absoluta da matéria (poesia).
conhecida, visto que parte dos inícios da cristandade para
culminar na época de Hegel, naquela em que a significação Pergunta: estas cinco artes, arquitetura, escultura, pin-
filosófica ultrapassa o conflito entre a forma e o conteúdo. tura, música, poesia - formas índivíduaís" e diferenciadas
Esta arte romântica produz obras poderosas em pintura, em do Ideal que se realiza em cada obra - estarão submetidas
música, sobretudo no domínio da criação literária e poética: ao mesmo progresso do espírito sobre a matéria? Certamen-
Dante, Cervantes, Shakespeare, até Goethe e Schiller. te: "Assim como as formas de arte particulares, consideradas
"Modestamente" Hegel considera que a espiritualidade como uma totalidade, apresentam uma progressão, uma
atinge seu apogeu com sua própria filosofia. Seu sistema, evolução do simbólico para o clássico e o romântico, cada
no qual se expressa em seu mais alto grau a significação arte, tomada separadamente, apresenta uma evolução aná-
filosófica por excelência, coincide com o final da arte ro- loga, pois é às artes particulares que as formas de arte de-
mântica. vem sua existência".
Veremos, mais tarde, a propósito do tema do fim da Uma primeira dificuldade concerne à organização da
arte,quais as conseqüências que devemos extrair dela. Mas Estética; qualquer leitor da obra pôde percebê-Ia. De fato,o
assinalemos logo algumas anomalias na classificação de estudo das formas individuais, isto é, das cinco artes que
Hegel.YXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA constituem o "mundo real da arte", intervém na primeira
ar_q_llite_tu_ra_.
e_sc_'"""". pintura, música, poesia
às épocas simbólica.
e as formas individuais, que designam as cinco artes.
seria um arquiteto medíocre? Evidentemente, não é o que I sa dizendo que ela constitui, após a pintura e a música, a
Hegel quer dizer. De resto, a arquitetura, arte simbólica por terceira arte romântica"." Mas algumas páginas adiante de-
excelência, atinge seu ponto culminantemente, segundo ·1 clara que a poesia é a "arte em geral". Ela não está mais
Hegel, provavelmente sensível neste ponto à admiração de I ligada a uma forma de arte particular (arte romântica), ela
I
Goethe, na catedral gótica. Vê-se, pois, que a evolução de diz respeito a todas: "Além disso, ela não se liga a nenhuma
cada arte para uma maior espiritualidade ultrapassa o limite forma de arte, com a exclusão das outras, mas é uma arte
temporal inicial. geral, capaz de criar e de exprimir sob qualquer forma qual-
A última dificuldade que evocaremos concerne à poe- quer conteúdo susceptível de ter acesso à ímagínação.?"
sia e à música. Assim, a poesia seria uma forma de arte ideal, univer-
Lembremos o princípio do sistema das artes: arquitetu- sal, presente em todas as épocas, transistóricas, se puder-
ra = matéria inerte, opaca; escultura = matéria e forma, apa- mos nos expressar assim, na medida em que ela se impõe
= aparência visual em duas
rência da vida orgânica; pinturaonmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
dimensões; música = interioridade subjetiva, ligada ao tem-
po, efêrnera, poesia = subjetividade exteriorizada nas pala- '~Estbélique op. cito t. 1112' parte, p. 9. YXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
I
vras. " / I J id , p.15-16.
I
.. .~
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que é estética? zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA Marc jimenez 179
com a mesma força através das três formas particulares, sim- o mundo mudou e a elevação dos sentimentos prega-
bólica, clássica, romântica. Hegel abstém-se de resolver esta da pelo romantismo degenera em formas insípidas. O roma-
contradição. nesco, o humor, a falta de seriedade no tratamento dos te-
Porém trata-se realmente de uma contradição? Não se mas correspondem à irrupção de uma subjetividade às ve-
tratará para Hegel, amigo de Goethe, de Holderlin e de zes brilhante, mas que doravante se preocupa exclusiva-
Schiller, de mostrar que mesmo a arte pela qual tem a maior mente consigo mesma e não mais com o mundo exterior. A
admiração, a poesia, é também capaz de desaparecer? Como arte, segundo Hegel, "cai sob o domínio do capricho e do
qualquer arte, ela nasce, desenvolve-se e declina. E como humor".
ela encarna, ao mesmo tempo, a arte romântica e a arte É bastante estranho constatar, neste ponto da Estética,
universal, isto significa que a arte romântica, que contribuí- que Hegel toma como alvo um contemporâneo direto. De
ra para a dissolução da arte clássica, está ela mesma conde- fato, o representante típico desta degenerescência do espíri-
nada a perecer. Mas esta é também a sorte que espera a arte to romântico não é outro senão Jean-Paul, o autor do Curso
em geral. preparatório de estética, cuja obra é rica desses "ditos espi-
rituosos, desses rasgos e gracejos" que acabam, por fim, por
"cansar o leitor".
o fim da arte A declaração de dissolução da arte romântica intervém
algumas linhas adiante: "Chegamos ao termo da arte român-
o trecho
da Estética dedicado ao fim da arte romântica à soleira da arte moderna cuja tendência geral pode-
tica,YXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
é, de longe, o mais inesperado, mesmo se a "Introdução" mos definir com o fato de a subjetividade do artista cessar
nos alertara um pouco. Este tema intervém já no tomo II, na de ser dominada pelas condições dadas por tal ou tal con-
conclusão do estudo das formas particulares, simbólica, clás- teúdo ou por tal ou tal forma; ao contrário, ela domina a
sica, romântica, no momento em que se espera de Hegel ambas e conserva toda a sua liberdade de escolha e de pro-
uma celebração do período contemporâneo. dução"." Para bem compreender o sentido desta reflexão,
Hegel acaba de lembrar que o mundo romântico teve freqüentemente objeto de mal-entendidos, é preciso situá-Ia
de realizar apenas "uma única obra absoluta": a propaga- no projeto de conjunto entre a estética e a filosofia hegelianas.
ção do cristianismo. Mas, no início do século XIX esta tarefa O emprego de termos pejorativos para caraterizar a si-
está acabada: "Nenhum Homero, nenhum Sófocles, nenhum tuação da época não deve nos enganar sobre a intenção do
Dante, nenhum Ariosto, nenhum Shakespeare podem ser filósofo. Hegel fala efetivamente de "decadência", de
produzidos por nossa época; o que foi cantado tão "degenerescência" e de "dissolução" da arte de sua época.
magnificamente, o que foi expresso tão livremente quanto Uma certa nostalgia é, pois, inegável. Mas este não é o sen-
o fizeram esses grandes poetas foi feito uma vez por to- timento dominante. Ele precisa, de fato: "Somente o presen-
das" .1)
ado já nas primeiras páginas, o da "morte" da arte. Que diz luto. Mas o conhecimento que nos dá é, de longe, inferior
ele exatamente? Nada além disto: ao da religião e da filosofia. Quando atinge seu grau supre-
"Na hierarquia dos meios que servem para expressar o mo de espiritualização e de subjetivização - na arte român-
absoluto, a religião e a cultura provinda da razão ocupam o tica sobretudo - ela desaparece enquanto arte, criadora de
grau mais elevado, bem superior ao da arte. obras, para ceder o lugar à filosofia. Esta filosofia (da arte)
"A obra de arte é portanto incapaz de satisfazer nossa tem como tarefa refletir sobre o papel que a arte desempe-
última necessidade de Absoluto. Em nossos dias, não se nha doravante em nossa vida cotidiana e na sociedade. Hegel
venera mais uma obra de arte, e nossa atitude para com não diz que a arte está morta nem que os artistas tenham
criações da arte é muito mais fria e ponderada ['. .J. Nós desaparecido,mas que ela cessou de representar o que sig-
respeitamos a arte, nós a admiramos; apenas, não vemos nificava para as civilizações anteriores. É preciso ler deste
mais nela alguma coisa que não possa ser ultrapassada, a modo: a arte permanece para nós - na imagem que dela nos
manifestação íntima do Absoluto; nós a submetemos à aná- transmitiram os gregos, por exemplo - alguma coisa do pas-
lise de nosso pensamento e isto, não na intenção de provo- sado.cbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
car a criação de obras de arte novas, mas, antes, com a I 2 ) Observar-se-ão as "condições gerais do tempo pre-
sente", o mundo "agitado", alusões ao contexto político, social
finalidade de reconhecer a função da arte e seu lugar no I
conjunto de nossa vida. e econômico, pouco favorável a um clima cultural e artístico
"Os dias felizes da arte grega e a época de ouro da sereno, tanto fora da Alemanha quanto dentro do Estado
baixa Idade Média acabaram. As condições gerais do tempo
II
prussiano, autoritário e burocrático. Essa época é crepuscu-
presente não são favoráveis à arte L..l. Seja qual for nosso lar, opaca, marcada peJa industrialização, pelo nascimento
ponto de vista, a arte permanece para nós, quanto a seu .1
'~
da economia capitalista, pela sujeição do indivíduo às insti-
supremo destino, uma coisa do passado. Com isso, perdeu tuições. O próprio sujeito não é mais do que um indivíduo
ela para nós tudo o que possuía de autenticamente verda- dilacerado pela divisão do trabalho, submetido à
deiro e vivo, sua realidade e sua necessidade de outrora , e pauperização e à mecanização das tarefas. As descrições do
está doravante relegada à nossa representação. O que uma universo desumanizado - que citamos aqui a partir de ou-
obra de arte suscita hoje em nós é, juntamente com um tras obras - são ainda mais realistas e sinistras do que as de
prazer direto, um julgamento tanto sobre o conteúdo quan- Schiller.
to sobre os meios de expressão e sobre o grau de adequa- 3 ) O fim da arte e a dissolução da arte romântica coin-
ção da expressão ao conteúdo". cidem com a conclusão do sistema filosófico hegeliano que
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Como foram estranhos essa volta do platonismo em Aristóteles constituem, além disso, pontos sem volta para
pleno racionalismo "esclarecido" e essa crença numa reve- toda reflexão estética ulterior.
lação do Ser graças à beleza da arte! Todavia, isto é um Deste ponto de vista, ele é um dos precursores do
"erro" declara Hegel uns trinta anos mais tarde. Ele não é, nominalismo na arte. Nominalismo, em estética, significa
portanto, o fiel herdeiro dos conceitos românticos que atri- interessar-se por cada obra, independentemente dos gêne-
buem à arte uma função ontológica, teológica e metafísica. ros, das regras, das formas e das convenções que a determi-
Ele também não é o responsável oficial de uma religião da nam. A obra é então analisada ou julgada em função de
arte que iria afetar a arte moderna e contemporânea. Ele é seus próprios critérios e segundo o momento em que apare-
ainda menos aquele que, por volta de 1830, teria privilegia- ce na história. Neste ponto, Hegel aceita a lição dos român-
do o discurso teórico sobre a arte, a estética reflexiva e abs- ticos alemães, sobretudo de Friedrich von Schlegel, para
trata, em detrimento do prazer sensível e sensual que traz o quem a obra de arte, sobretudo a poesia, iria ser objeto de
contato com as obras. uma crítica estética específica, centrada em sua forma e não
A partir dessa data até os dias de hoje, a arte e os artis- em seu conteúdo.
tas aproveitaram largamente e às vezes abusaram dessa li- Hegel estende esta crítica às obras ligadas a todas as
berdade entrevista por Hegel. Partidários das rupturas, os artes. É assim que em música explica claramente por que
artistas de vanguarda libertaram-se das formas e dos con- razão, por exemplo, a música de A f l a u t a m á g ic a de Mozart
teúdos tradicionais. Separaram-se do princípio mimético, não o arrebata apesar do aparente absurdo do libreto de
hesitando em quebrar convenções seculares; arriscaram-se Schikaneder. Da mesma forma,analisa ele, quase como um
a utilizar os mais diversos materiais, a deslocar as formas técnico da música,as óperas de Rossini e de Gluck.
habituais, chegando às vezes ao ponto de dissolver o pró- A posteridade considera como "hegeliano" todo proce-
prio objeto de arte para reduzi-lo ao puro conceito. Em duas dimento estético que se interessa de maneira privilegiada
palavras, fizeram, como diz Hegel, tábula rasa do passado pela idéia, pelo conteúdo expressos pela obra e lhes dá
na esperança de que a arte pudesse novamente estar de prioridade sobre a forma. Ela é assim oposta à estética de
acordo com o curso do mundo, para o melhor e para o Kant para a qual - estam os lembrados - a forma,o desenho,
prior. são preponderantes porque causam, ao contrário da cor,
O mérito de Hegel foi o de ter pensado que o fim da um prazer desinteressado.
arte romântica marcava, em sua época, a soleira da arte e da Esta oposição entre forma e conteúdo, entre kantismo
estética modernas. A reflexão hegeliana sobre a arte é certa- e hegelianismo permaneceu por muito tempo um dos luga-
mente a que teve e tem sempre a maior ressonância na res comuns da reflexão estética. No início do século XX,
estética contemporânea. Mais ainda do que a de Kant, na alguns estetas "marxistas", preocupados em mostrar que a
medida em que ela prova a paixão de Hegel pelas obras arte era o reflexo da realidade social e política, não hesita-
particulares e um conhecimento notável de cada arte em ram em mostrar-se mais hegelianos do que Hegel para justi-
particular. A afirmação da historicidade do belo, contra o ficar suas condenações às revoluções formais na arte mo-
platonismo, e a crítica da imitação da natureza, contra I
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derna ou vanguardista. Mas não é necessário ser hegeliano
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ortodoxo ou dogmático para estabelecer relações entre a seu lugar no conjunto de nossa vida" é uma das questões
ordem social e ideológica e as convenções que regem a arte no programa da reflexão estética contemporânea.
num dado momento de sua história. O historiador da arte São estas semelhanças que levam às vezes a prolongar
Pierre Francastel, não marxista, adota um procedimento de o paralelo entre o início do século XIX e nossa época e a
tipo hegeliano quando mostra, em Pintura e sociedade que ver em Hege! um precursor, quase visionário, da era con-
o sistema da perspectiva adotado na Renascença resulta das temporânea. Porém, não devemos esquecer que ele esboça
transformações sociais, políticas, econômicas e ideológicas seu retrato da modernidade no plano de fundo de uma ima-
que marcam o período do quattrocento. gem mítica: a de uma Grécia ideal que continua a obcecar
De fato, este antagonismo entre forma e conteúdo efe- os filósofos e os pensadores, mesmo estando perfeitamente
tua-se ao preço de uma simplificação e de uma esquernati- conscientes de que esses tempos pertencem ao passado.
zação abusivas dos conceitos de Kant e de Hegel. A refle- Em suma, somos tentados a dizer que à idade de ouro
xão estética sobre a arte moderna e, com maior razão, sobre da arte sucede a idade de ouro da estética. Sem dúvida.
a arte contemporânea desinteressa-se totalmente por este Porém, é também possível ver as coisas de uma forma um
problema. Ela aprendeu, com Theodor Adorno, que a for- pouco diferente. Dizíamos, acima, que o paradoxo da se-
ma artística tem valor de conteúdo, que quebrar ou deslocar gunda metade do século XIX reside no fato de a arte grega
estruturas formais exprime uma idéia pelo menos tão forte e continuar a aparecer como um modelo exatamente no mo-
plena quanto uma representação -figurativa, mimética no mento em que os modelos desmoronam.
sentido tradicional. Precisemos: este desmoronamento não é brutal; o
Esta idéia não é assimilável à Idéia nem ao Espírito, declínio é progressivo. A reflexão de Hegel marca uma gui-
mas antes a um conteúdo social e histórico. Quanto à for- nada, porque, pela primeira vez, desde que se constituiu
ma, ela não é mais determinada por um ideal de beleza, de como disciplina, a estética autônoma começa a lançar um
regularidade, de harmonia, de simetria, mas depende da olhar crítico sobre a arte do passado. Este olhar, todavia,
diversidade dos materiais, dos procedimentos técnicos en- está ainda turvo. Ele não rasga o véu que preserva o modelo
tregues à livre escolha do artista. grego, a harmonia antiga "inimitável" e insuperável. Tam-
O aspecto mais atual da teoria hegeliana reside certa- bém não percebe o status sempre ambíguo da criação artís-
mente em sua maneira de conceber o futuro da estética e a tica. Celebrada, incensada, a arte suscita também desconfi-
autonomia do discurso sobre a arte. De fato, a ação crescen- ança. Platão honra os poetas, mas exige seu exílio para fora
te da reflexão ou - como diz Hegel - do "pensamento, das de Atenas. Dir-se-á que o opróbio só atinge a poesia. Mas
representações abstratas e gerais", tornou-se um traço ca- somente porque é a menos dócil, a mais sutil e a mais espi-
racterístico da modernidade artística e cultural. ritual, teria dito Hegel: é difícil, neste caso, conferir-lhe um
Hoje também temos a impressão de que as dificulda- lugar, um espaço, uma função, como é possível fazer para
des da vida se agravaram. Parece-nos igualmente que este as outras artes, arquitetura, pintura, poesia e mesmo a músi-
agravamento resulta da "maior complexidade de nossa vida ca. Potencialmente, a arte representa um perigo visto que
social e política" e interrogar-se sobre a 'função da arte e do I tenta escapar à influência do discurso filosófico e científico
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Mas a estética autônoma terá por objeto uma arte autô- perfeição ligados à arte grega, esta última assume, sobretudo
noma? segundo Platão, um papel político e pedagógico eminente na
Insistimos, várias vezes, na ambigüidade da noção de civilização ateniense. Aristóteles confere à imitação e à catarse
autonomia estética: a estética constitui-se em esfera particu- poética uma função de educação crítica. É evidente que suas
lar, separada dos outros domínios do conhecimento, mas, considerações "estéticas" dependem de uma teoria da verda-
ao mesmo tempo, "autonomia" significa também tomada de de e do absoluto, mas seria totalmente insuficiente expor o
consciência das relações que ligam a estética às outras disci- conceito platônico de belo ou a teoria aristotélica da mimese
plinas. unicamente do ponto de vista filosófico ou metafísico. Isto
Da mesma forma, convém distinguir a arte como ativi- seria fazer pouco caso da influência considerável que estes
dade portadora de uma autonomia específica penosamente princípios, estéticos e artísticos, nascidos na Grécia antiga,
adquirida pelos artistas desde a Renascença e a arte como exerceram sobre o conceito de arte no Ocidente, do pensa-
fenômeno ligado à história econômica, política e ideológica mento medieval até as revoluções industrial, científica e téc-
de uma sociedade. A estética tem, portanto, como objeto nica da segunda metade do século XIX.
uma criação artística ao mesmo tempo livre e irremediavel- Também neste ponto, Hegel marca uma guinada. Sua
mente implicada na vida dos indivíduos e das espécies. estética apreende um momento-chave da consciência histó-
Diderot, Schiller, jean-Paul e Hegel, - para citar apenas rica que se volta para o passado, respeita uma tradição, mas
estes - traduzem em seus escritos uma espantosa percepção ela já se prepara para traí-Ia, para até mesmo rejeitá-Ia para
dos interesses do discursos sobre a arte e a própria arte. uma total inatualidade. Ele se abstém de ir tão longe. Mas
Diderot sabe que a crítica dos salões participa da Nietzsche (1844-1900) filólogo tão apaixonado quanto Hegel
sensibilização do público pela coisa artística. Schiller inscre- pela civilização e pela cultura gregas, toma a decisão: sua
ve sua educação estética num projeto ao mesmo tempo moral filosofia estética, contemporânea das primeiras rupturas
e político. Jean-Paul concebe seu C u rso p rep a ra tó rio d e es- vanguardistas, é também uma ruptura radical com uma he-
tética como uma resposta a uma época "doente". Quanto a rança antiga, de mais de dois milênios e um cristianismo de
Hegel, reconhece ele implicitamnte que a arte doravante quase dois mil anos.
não pode mais "abstrair-se do mundo que se agita ao seu Quando subsistem fragmentos de tal herança, em Marx
redor e das condições nas quais se acha engajado." 0818-1883), por exemplo, ou em Freud (1856-1939), eles
Neste sentido, podemos dizer que a autonomia da es- engendram curiosas distorções no pensamento de tais auto-
tética permite pensar a heteronomia da arte, isto é, refletir res, entre a modernidade de seus conceitos científicos e sua
sobre o que representa, ou representava no passado, o fe- ingenuidade ou sua cegueira diante da arte de seu tempo.
nômeno "arte". Por ser autônoma, a estética pode analisar Marx, filósofo e teórico do capital, e Freud, fundador
as relações que a arte mantém com outros aspectos da cul- da psicanálise não são estetas profissionais. Seus lugares
tura própria de uma determinada sociedade em um dado numa história da estética decorrem de pelo menos duas ra-
momento de sua história. zões de natureza muito diferente, até mesmo contraditória;
Independentemente dos critérios de excelência e de de um lado encarnam ambos uma forma estranha de
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incompreensão diante das rupturas artísticas e da Neste sentido, são filosofias da "separação" que procu-
modernidade; de outro lado, aspectos inteiros da reflexão ram todos os caminhos possíveis de uma reconciliação. Mas,
estética do século XX permanecem incompreensíveis se não quando o conseguem, é sempre em proveito do mundo
se fizer referência a suas teorias. inteligível e em detrimento do mundo sensível: os valores
Para resumir: a heteronomia da arte - seu papel social do espírito, da inteligência, da razão dominam os valores
ou político - é ambígua. A criação artística rebela-se cons- sensíveis.
tantemente contra as ordens vindas do exterior. Em todos Sem exagerar, poderíamos dizer que toda a estética
os tempos, a arte teve de resistir contra as tentativas que ocidental, da antigüidade até a modernidade, não cessa de
visavam a ditar-lhe leis, a impor-lhe convenções, regras, cri- contar a história desta separação. Sem dúvida ela conserva
térios, cânones, e a conferir-lhe finalidades. Esta resistência ainda hoje suas seqüelas.
manifesta-se tanto na Grécia quanto em todas as outras "épo- Temos, portanto, de voltar momentaneamente ao local
cas" da arte. de nascimento da filosofia. Esta volta é necessária para com-
Todavia, a história tende a esquecer esta resistência da preender as rupturas e as mutações que acompanham a to-
arte e a minimizar sua capacidade de revolta. De fato, cada mada de consciência da modernidade no século XIX. Hegel
época gosta de transfigurar o passado numa espécie de época contenta-se em anotar a dissolução de épocas passadas.
de ouro, mesmo se, paradoxalmente, ela considere estar e m Baudelaire vai mais longe: rejeita o culto da beleza platôni-
p ro g resso em relação aos períodos precedentes. Assim, o ca, eterna, abstrata e indefinível, a fim de promover a beleza
modelo grego, visto através de seus vestígios, foi ligado, na efêmera, fugaz da vida moderna. Quanto a Nietzsche, não
consciência ocidental, a filosofias tão eminentes e criadores hesita ele em instruir o processo de toda a história anterior
quanto as de Platão e Aristóteles. A teoria do Belo, associa- da cultura, de Sócrates até os princípios de um niilismo que
do ao Bem e à Verdade, e o princípio de imitação puderam sua filosofia anuncia para os dois séculos seguintes.
então erigir-se como verdadeiras tradições e impor-se du- Para todos, trata-se de fato de ver-se livres da filosofia
rante séculos. da separação platônica ou aristotélica, mas também de re-
Porém, é preciso saber que estes sistemas dissimulam, nunciar à herança transmitida pela tradição. Mais ainda: a
na realidade, uma fratura profunda: de um lado, valorizam modernidade não reconhece mais o conceito meta físico do
excessivamente a beleza e sua função ontológica (o belo dá belo. Na época das revoluções artística, cultural, social, po-
acesso ao Ser e emana dele); de outro lado, desvalorizam a lítica e industrial, ela cessa de privilegiar o status ontológico
arte ao mesmo tempo como prática e como fenômeno. A da arte. Insiste na implicação concreta da atividade artística
estética de Platão e a de Aristóteles repousam sobre este e da experiência estética do indivíduo na história e na soci-
divórcio entre uma doutrina metafísica do belo e uma teoria edade.
das artes. Elas não conseguem realmente apagar a fronteira Por conseguinte, o olhar que a estética da modernidade
entre o mundo inteligível e o mundo sensível, entre a Ra- dirige para o passado não é mais o mesmo. O véu mítico
zão, o conhecimento, o Logos de um lado, e a sensibilida- rasga-se. Atrás da máscara da estatuária antiga, vestida em
de, o prazer, o gozo, de outro. "sua nobre simplicidade e sua calma grandeza", há esta luta
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permanente da criação artística para preservar sua liberda- com tanto zelo e devoção a uma filosofia tão desconfiada,
de. até mesmo tão desdenhosa em relação à arte?
Como se tivesse sido necessário conceder - uma vez
por todas - a esse primeiro grande sistema do pensamento
Platão: a a r te n a C id a d e
ocidental que a arte precisasse submeter-se para sempre à
filosofia e ao político! Como se tivessem sido definitivamen-
Que teriam sido a filosofia e a estética ocidentais se te aceitos a decadência do mundo sensível e a depreciação
Platão não tivesse existido? Uma tal pergunta seguramente de todos os prazeres e de todos os gozos sensuais que se
não tem nenhuma pertinência filosófica. Sem grande risco, encontram na terra'
poderíamos responder: certamente alguma coisa muito di- Deixaremos de expor, pela enésima vez, a famosa teo-
ferente. Esta falsa interrogação tem a única finalidade de ria das Idéias e não indicaremos aqui todos os trechos sobre
insistir na considerável influência do fundador da Academia a beleza e o amor nos diálogos de Platão; também não acres-
em todo o pensamento ocidental. Influência tão grande que centaremos um capítulo suplementar à lista muito longa e
pode ser encontrada, muito mais tarde, mesmo naqueles certamente inesgotável das interpretações da filosofia platô-
que se defendem de qualquer platonismo: há Platão em nica. Sugeriremos simplesmente algumas pistas de leitura a
Descartes, em Kant, em Hegel e até mesmo - pelo menos fim de melhor compreender por que o século XIX inaugura
negativamente - em Nietzsche. decênios de crises artísticas que não mais estão ligadas ao
Porém, de que Platào estamos falando? Trata-se do poeta horizonte platônico.
e do músico que em sua juventude compõe ditirambos e Todavia, e para dizê-lo sumariamente, Platão também
tragédias para dedicar-se em seguida à filosofia, ou então vive uma época de crise política e cultural intensa. O proje-
do "legislador" sensato que em A s L e is - obra que permane- to de uma Cidade ideal exposto em A R e p ú b lic a é concebi-
ceu inacabada - acabou por tolerar as artes e seus benefícios? do para trazer uma resposta à decadência da democracia
Fala-se do chantre do erotismo e do amor absoluto, celebra- ateniense. Trata-se de uma utopia ou de um plano de refor-
do com paixão e fervor no B a n q u e te ou do pitagórico, ma aplicável à sociedade do século IV? Ninguém o sabe,
geômetra e matemático do T im e u ? Do teórico das Idéias realmente. Em compensação, conhecemos as preocupações
que confunde a trindade da Verdade, do Belo e do Bem em dominantes de um filósofo de uns quarenta anos que deci-
um único conjunto de essências imutáveis e eternas, ou do de assumir, no plano teórico, os problemas da Cidade: a
teórico de A R e p ú b lic a que cobre de opróbrio os artistas em educação e a política, a p a id é ia - pedagogia através da arte
geral e expulsa os poetas para fora da Cidade? e da cultura - e a p o lité ia - constituição ou governo da
A diversidade e as aparentes contradições de uma obra Cidade, da p o lis. Mais precisamente, trata-se de saber que
e de um pensamento que Platão desenvolve durante sua papel deve-se conferir à formação artística para permitir que
longa vida (427/28-347/46) colocam de fato um problema, todos os cidadãos vivam harmoniosamente num Estado li-
sobretudo em nosso domínio. Não é espantoso que tantos vre da tirania, da oligarquia e de uma democracia sempre
teóricos da arte, artistas, poetas e estetas tenham aderido ameaça da pela corrupção.
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Assim, paralelamente à teoria da idéia de belo - ela que é o belo em si mesmo. E conclui com um provérbio em
mesma elemento da teoria das Idéias - existe em Pia tão forma de reviravolta: "As belas coisas são difíceis".'
uma prática do belo, para uso pedagógico e político, atra- A discussão encerra-se, portanto, com uma constatação
vés das artes e das obras que supostamente encarnam a de malogro, como a maioria dos diálogos à procura de de-
beleza. E neste ponto,o sucesso - termo fraco - obtido pe- finições, quer se trate da coragem, da piedade, ( E u t í f r o n e ) ,
las concepções de Platão, decorre da maneira pela qual este da sabedoria (Cármides). Todavia, o balanço não é inteira-
último formula as questões essenciais relativas às definições mente negativo. Os falsos problemas são eliminados e as
da beleza e à prática artística. São formulações tão impor- soluções errôneas são refutadas: o belo não é o simples
tantes e decisivas que podemos nos perguntar se toda a atributo de um objeto que eu possa assinalar na realidade,
história da teoria da arte e da estética até Nietzsche incluído ainda que passasse em revista todas as coisas existentes no
não consiste numa série interminável de variações sobre um mundo.
tema platônico. De fato, a fingida humildade de Sócrates - que não é
outra senão a de Platão - já antecipa a única resposta verda-
deira. Ela surge na sutileza de uma réplica: "Existe um belo
M a lo g r o d e u m a defíníção d o b e lo
em si que orna todas as outras coisas e as faz parecer belas
quando essa forma a elas foi acrescentada't.! A palavra usa-
H íp ia s m a io r, um dos primeirosdiálogos "socráticos",
da por Platão para forma é eid o s, a idéia, que na frase não é
é um testemunho desta arte do essencial: a pergunta "o que
outra coisa senão o belo em si.
é o belo", é colocada sem rodeios. Através de um hábil
Em que consiste esta "idéia"? Visto que nenhuma coisa
estratagema, Sócrates inventa um duplo de si mesmo, um
existente é bela de maneira satisfatória, trata-se da abstração
segundo Sócrates esmiuçador e impertinente, encarregado
do belo? Neste caso, somente a idéia de belo é real. Mas, se
de confessar o pretensioso Hípias. É preferível, graças a t a l
esta idéia é a única verdade, isto significa dizer que ela é
intermediário, poder dizer sua verdade, indiretamente, sem
viva. Se ela não depende da diversidade dos objetos con-
temer sua cólera se por acaso esse vaidoso tomasse consci-
cretos e não é relativa, isto significa dizer que é absoluta. E
ência de sua própria tolice e ao mesmo tempo se mostrasse
já que ela sobrevive a todas as coisas perecíveis, isto signifi-
desconfiado com o fato. A armadilha funciona. Das oito
ca dizer que é eterna.
definições do belo que Sócrates extorque sem dificuldade
H íp ia s m a io r anuncia, portanto, muito timidamente é
de Hípias, nenhuma é conveniente. Não, a beleza não é
verdade, e como em filigrama, a teoria das Idéias que A
uma bela virgem. Por que não, neste caso, uma bela égua
R ep ú b lica expõe detalhadamente na alegoria da Caverna.
ou uma bela panela? Não é nem o ouro, nem a riqueza, nem
Prepara ele, assim, esta apoteose da união da beleza e do
o que convém, nem a utilidade, nem o prazer da vista e do
ouvido, nem o vantajoso, nem o bem.
Que é então o belo? O diálogo não o diz. Sócrates 'Platão, H /p ia s m a io r, .~04 e.
confessa-se ignorante sobre o belo a ponto de não saber o 'Ibid., 289 d .
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amor celebrada em O B a n q u ete. Neste diálogo, um dos mais considera que o belo não é deduzido de nenhuma coisa
célebres de Platão, Sócrates tem a última palavra, como sem- existente. Porém, indiretamente, é possível perceber os ele-
pre. Mas desta vez fala em nome de uma estrangeira de mentos de uma teoria da arte para a qual A R ep ú b lica pro-
Mantinéia," Diotima. Esta sacerdotisa de Zeus comunica a cura encontrar uma aplicação concreta.
solução para a questão que permaneceu em suspenso em O discurso de Diotima, pela boca de Sócrates, parece
H íp ia s m a io r. como reconhecer e conhecer este belo cuja enunciar, desde o início, um paradoxo: para subir os de-
realidade somente comunica fragmentos ou frágeis indícios? graus que conduzem à beleza absoluta é preciso partir, diz
Como perceber esta beleza que "existe em si mesma e por si ela, da beleza sensível. Mas como posso saber que esta be-
mesma, simples e eterna, da qual participam todas as outras leza sensível é uma beleza, visto que ainda não conheço a
belas coisas, de tal maneira que seu nascimento ou sua morte beleza absoluta de que ela participa? Há aqui um enigma.
não lhe traga nem aumento nem diminuição nem qualquer Sua solução encontra-se no HGFEDCBA
F e d ro , um outro diálogo con-
tipo de alteração"." temporâneo do B a n q u ete e da R ep ú b lica ."
Durante os ágapes masculinos do B a n q u ete, anun- F e d ro é provavelmente o texto mais magnífico e mais
ciadores de seqüências orgíacas, nunca se fala de poesia fascinante de Platão, sobretudo por sua profundidade ale-
nem de arte em geral. A conversa tem como objeto a manei- górica. Dá ele a chave da teoria da reminiscência e da parti-
ra de chegar ao reconhecimento do elo indissociável entre a cipação nas Idéias. É preciso saber, em primeiro lugar, que
beleza, o amor e o saber; "Quando nos elevamos das coisas as almas possuem asas que Ihes permitem acompanhar o
sensíveis através de um amor bem compreendido dos jo- cortejo dos deuses no céu. Lá, elas contemplam o mundo
vens até esta beleza e quando começamos a percebê-Ia, das Idéias, as essências de todas as coisas, por exemplo, a
estamos perto de alcançar o objetivo; pois o verdadeiro ca- Verdade, o bem o belo ou então as virtudes: a justiça, a
minho do amor [.. .J é o de partir de belezas sensíveis e subir sabedoria, a temperança. Todas estão ávidas por elevar-se
continuamente para esta beleza sobrenatural passando, como assim para gozar da vista do absoluto. Mas nem todas o
por etapas, de um belo corpo a dois, de dois a todos, em conseguem. Algumas são como iludidas por suas paixões
seguida dos belos corpos às belas ações, depois das belas carnais, seus desejos ou seus vícios; amolecidas por este
ações às belas ciências, para chegar a esta ciência que não é peso, elas caem então novamente na terra. Todavia, conser-
outra coisa senão a ciência da verdade absoluta e para co- vam a lembrança das Idéias vislumbradas de forma fugidia,
nhecer, enfim, o belo tal como é em si mesmo". 5 uma lembrança reavivada pelas pálidas imagens das Idéias
O B a n q u ete não contém qualquer teoria da arte, nem a reencontradas na Terra. Evidentemente, precisa Sócrates, "não
menor concepção da beleza aplicada às obras, visto que se
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é igualmente fácil para todas as almas lembrar-se novamen- sorte de perceber o maior número de verdades, podem sem
te das coisas do céu ao ver as coisas da terra": contempla- dificuldade ocupar e animar um corpo. Elas ocupam a pri-
ção por demais rápida das essências, ou falta de vivacidade meira posição. O homem que produzem só terá então pai-
para algumas. Uma idéia todavia brilha mais do que as ou- xão pela sabedoria, pela beleza, pelo amor e pelas musas.
tras, como uma estrela resplandescente: a beleza; somente Para as outras, divididas em oito ordens, a situação vai-se
ela "goza do privilégio de ser a mais visível e a mais encan- degradando. A segunda ordem dá um rei justo ou um chefe
tadora". guerreiro; a terceira, um político, um ecônomo ou um finan-
Eis por que o homem a reconhece tão facilmente nas cista; a quarta, um ginasta ou um médico; a quinta, um
coisas terrestres. Quando percebe seu reflexo nos objetos ou adivinho ou um iniciado.
nos seres, ele rememora o esplendor da Idéia vislumbrada Depois, as coisas se deterioram: a sexta ordem engen-
outrora e por ela se apaixona. Naturalmente, não se trata, dra um poeta ou algum artista imitador; a sétima, um arte-
para ele, de lançar-se de forma bestial sobre sua presa. Tor- são ou um agricultor; a oitava, um sofista ou um demagogo;
nado cego por seu desejo e sua paixão frenética, perderia enfim, a nona, um tirano, isto é, o contrário absoluto de um
toda possibilidade de ver a beleza absoluta que se esconde filósofo, ou melhor, de um rei-filósofo.
atrás da beleza sensível. Isto acontece, infelizmente, com aque- Se algum dia se procurasse uma relação entre a teoria
les cuja iniciação é por demais antiga. Sócrates descreve, não das Idéias e uma teoria da arte, aqui está ela claramente
sem vigor, o que acontece em tal caso: "L..J longe de sentir exposta. O poeta e o artista imitador ocupam o degrau mais
respeito ao vê-Ia, ele cede ao aguilhão do prazer e, como um baixo ou quase da escala social, um pouco acima do operá-
animal, procura cobri-Ia e lançar-lhe seu sêmen, e no frenesi rio ou do camponês, mas muito abaixo do filósofo.
de sua aproximação não teme perseguir uma volúpia contra
a natureza nem se envergonha por fazê-lo", Eis por que, se-
gundo a Diotima do B a n q u ete, o acesso à beleza eterna e ao A c r ític a d a im ita ç ã o
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q u e é estética ? M a rc [im e n e z 205
relações aritméticas e se baseiam numa harmonia definível A forma dramática da tragédia e da comédia supõe a
com ajuda de relações numéricas, merecem todas as hon- imitação dos heróis por personagens, tentados eles também
ras. Platão invoca Pitágoras: os pitagóricos não afirmam que a copiá-los fielmente, até em suas excentricidades. É preci-
as orelhas foram formadas para o movimento harmônico so, portanto, excluir a forma dramática e substituí-Ia pela
como o foram os olhos para a astronomia? Em compensa- forma narrativa pura.
ção, o ridículo golpeia os músicos que se empenham em Esta condenação da poesia imitativa, debilitante e
criar novas harmonias, que fragmentam ou multiplicam os desmoralizante, aplica-se também, naturalmente, e pelos
intervalos, "importunam e torturam" as cordas de seus ins- mesmos motivos, à música. Nada de melodias lamentosas,
trumentos, dão rabecadas na esperança de extrair sons iné- de cantos chorosos, de harmonias voluptuosas e de ritmos
ditos. Pobres músicos, na opinião de Platão, que preferem o frouxos ou por demais variados que levam à embriaguês ou
ouvido ao espírito! à indolência. Nada de instrumentos de cordas por demais
Para a poesia, os critérios de escolha são claros: so- numerosas que multiplicam as possibilidades harmônicas.
mente são admitidos os hinos em honra dos deuses e os Sobretudo, nada de flauta, instrumento perigoso que emite
elogios de pessoas de bem, mas todos aqueles que cantam demasiados sons, mas somente a lira e a cítara. Se a música
a voluptuosidade, o prazer e a dor devem ser excluídos da deve mimar alguma coisa é a virilidade dos valorosos guer-
Cidade. reiros ou então a serenidade da vida campestre.
A intransigência de Platào diz respeito sobretudo às Ao longo da obra, a crítica da imitação se precisa e
artes que se entregam à imitação, em outras palavras, as endurece. No livro X ela recebe sua justificação filosófica.
artes da aparência. A primeira arte visada é a poesia. Sua Até então, a imitação tinha um sentido bastante vago e ge-
condenação intervém já no livro III de A R ep ú b lica . Em nome ral. Ela extraía sua significação na arte do mimo, do simula-
da educação das crianças, dos futuros homens que deverão dor. A arte do simulador consiste em produzir aparências
'honrar os deuses e seus pais", e que se tornarão os guardiães enganosas, simulacros que desviam a atenção tanto da rea-
da Cidade, Platão pede simplesmente que suas leituras se- lidade concreta quanto das essências que são, de fato, a
jam censuradas. E qual leitura em particular? A de Homero, única realidade.
culpado por usar palavras assustadoras C'habitantes dos in- Doravante, Platão aprofunda estas distinções e hie-
fernos" "espectros", "Estige"), por mostrar deuses chorosos, rarquiza os graus da mimese. Tomemos o exemplo de uma
em larnentações ou então francamente covardes. Apague- cama. Deus produz a essência da cama. Esta essência é,
mos estes versos, pede Platão, e substituamos os termos como seria previsto em Platão, a única realidade. Chega um
negativos por expressões positivas. marceneiro: ele fabrica uma cama, mais exatamente uma
Esta poesia propõe-se imitar comportamentos huma- forma de cama inspirada na Forma criada por Deus. Ele
nos, paixões, emoções. Se se contentasse em imitar as copia. Chega um pintor: ele pinta a cama do marceneiro.
qualidades e as virtudes como a coragem, a temperança, a Portanto, copia uma cópia. Imitação de uma imitação de
santidade, ainda passa! Mas a imitação torna-se um hábito imitação, a pintura é assim a forma mais degradada da
que impele a imitar tudo, inclusive os defeitos e os vícios.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
mimese, cópia da verdade em "terceiro grau", ela é a apa-
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q u e é estética ?
M a r c lim e n e z 207
rência, até mesmo a fraude menos admissível que possa incide com a morte de Péricles (429). O desaparecimento
existir. do estratego significa o fim da idade de ouro, da era da paz,
A poesia, sobretudo a de Homero, não vale muito mais. do domínio de Atenas na terra e no mar, do desenvolvimen-
Não somente propõe ele às crianças o espetáculo das torpe- to artístico e cultural de um povo que se identifica com seu
zas que suavizam a estada dos deuses no Olimpo; não so- arauto, Homero.aZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
À harmonia sucede o caos. A ambição e as
mente cria fantasmas e não realidades, mas nada fez para intrigas pessoais aceleram a decadência da democracia e a
ajudar os homens a serem virtuosos. Sua vida de poeta nô- degradação dos costumes políticos. Logo que é restaurada,
made, vagando de cidade em cidade, recitando versos, in- em 403, a democracia condena Sócrates à morte (399). Este
capaz de atrair discípulos ao seu redor, prova perfeitamente "suicídio" imposto é um choque para Platão. Afetivamente,
a ausência de virtude educativa de sua poesia e de seu en- em primeiro lugar, mas também simbolicamente: é a
sino. encarnação da sabedoria que desaparece. Do ponto de vis-
Observar-se-á como estamos longe - paradoxalmente ta filosófico, esta morte significa também a vitória dos sofis-
- da louca e inextinguível paixão de Hôlderlin por Homero tas, inimigos irredutíveis. Política e institucionalmente, é uma
e Hesíodo: e a que ponto a severidade de Platão contrasta catástrofe que não pressagia nada de bom para o futuro de
Ilia d a e da O d is-
com a admiração de Hegel pelo autor daHGFEDCBA uma Cidade que naufraga na demagogia.
sé ia ! Decididamente, ninguém é profeta em sua terra. Nem A R e p ú b lic a - o título grego é P o lité ia - é, pois, uma
mesmo Homero na Grécia de Platão .... obra de filosofia política cuja vontade de repor em ordem e
Podemos julgar excessivas a condenação da imitação e de restaurar a justiça se inscreve no programa da Academia.
exclusão dos poetas - mesmo coroados de louros - para Este programa é de espírito pitagórico. Privilegia ele a apren-
fora da Cidade, assim como a severidade para com Homero. dizagem da matemática, da aritmética, da geometria e da
A intenção de Platão aparece claramente: trata-se de subme- astronomia, a fim de lutar contra a atração do sensível e de
ter a arte à autoridade da filosofia ou, mais exatamente, à suas mentiras. Eis por que a educação artística deve acom-
competência e à vigilância do filósofo. Somente ele é res- panhar a educação "musculada" pela ginástica acompanha-
ponsável pela Cidade justa e harmoniosa; somente ele sabe da pelo ritmo de música "militar". O preço pago pela arte
o que é bom e bem para os cidadãos; somente ele, enfim, neste combate contra a corrupção e o imoralismo parece-
conhece os meios que previnem a decadência da maioria nos exorbitante: censura, comissão de seleção das obras de
dos governos. Do ponto de vista de um tal projeto o rigor arte, controle, regulamentação e, em caso de necessidade,
do sistema educativo preconizado por Platào é coerente. De exclusão.
fato, não poderíamos esquecer o contexto histórico e políti- Em suma, a teoria das Idéias, da prioridade do inteligí-
co dentro do qual Platão compõe A R e p ú b lic a . vel sobre o sensível, possui sua vertente pragmática e bas-
Vejamos as datas: Platão nasce em 428/427, dois anos tante "realista", conformista, antimoderna e - confesserno-lo
após o início da guerra do Peloponeso, que opõe Atenas e - bastante reacionária. Este conservantismo obstinado, mui-
Esparta. Uma guerra longa, de quase trinta anos, que termi- tas vezes censurado em Platão, não nos interessa realmente
na com a derrota de Atenas. O nascimento do filósofo co- aqui; séculos de interpretação e de comentários de fato de-
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turparam um pouco, o que na verdade estava em causa na tura virtuosa, colorida ou irisada, as esculturas de formas
época. Na própria R ep ú b lica , Sócrates hesita em precisar instáveis.
seu programa. Ele é o primeiro a duvidar que possa ser É verdade que a teoria das Idéias, das Formas imutá-
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é estética ? M a r c jim e n e z 213
vezes muito afastadas do pensamento do filósofo. Por exem- aristotélicos. Começa então, no século XIII, uma era aristo-
plo: Corneille e Racine apóiam-se ambos em Aristóteles para télica, com Alberto, o Grande, e Santo Tomás de Aquino,
legitimar regras dramáticas que não se encontram todas na prolonga-se ela até o início da Renascença, para declinar
obra do filósofo e, além disso, favorecem escolhas estéticas com o cartesianísmo. Mas isso não impede Lessing, August
e poéticas muito diferentes. A famosa regra das três unida- Wilhelm von Schlegel e Goethe de efetuarem, por sua vez,
des, tempo, lugar, ação, não é enunciada em parte alguma uma leitura crítica da P o ética .
por Aristóteles sob a forma de um imperativo absoluto. Para O destino da P o ética é um pouco singular. Sua versão
ele, só importa a unidade de ação. A verossimilhança, à latina data somente do final do século XV; ela somente é
qual Boileau dá tanta importância em sua A rt p o étiq u e, é difundida no século XVI,na Itália. Seu sucesso é imenso.
importante, mas ela não é uma regra predominante. Mas, que aconteceu entre os séculos XII e XVI? Verossimil-
Paradoxalmente, Aristóteles torna-se o responsável por mente, a perda do livro Il, consagrado à comédia. O livro I
uma doutrina clássica já solidamente constituída, quando só trata da tragédia e da epopéia.
surgem, de um lado, as R éflexio n s su r Ia P o étiq u e d 'A risto te, Conhecemos o benefício que o escritor e filósofo con-
do padre Rapin (674) e,de outro lado, a tradução francesa temporâneo Umberto Eco extraiu deste dasaparecimento do
da P o ética por André Dacier (692). livro Il, consagrado ao riso, em O n o m e d a ro sa . A incerteza
Este paradoxo é facilmente explicável. A tradição pla- que plana sobre a leitura que dele possam ter feito as pesso-
tônica é contínua; a de Aristóteles é tardia e esporádica. As as da Idade Média constitui efetivamente um enigma
notas recolhidas por Teofrasto (372-327), seu sucessor à frente perturbador. Porém, o maior enigma reside seguramente na
do Liceu," da escola peripatética, somente deram origem a influência que este texto, curto e incompleto, exerce duran-
uma edição completa das obras no século I d.aZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA c ., mais de te quase quatro séculos.
três séculos após a morte de Aristóteles. Platão seduz o
Ocidente judeu - cristão para quem a concepção da imorta-
A d e fe s a d a im ita ç ã o
lidade da alma e da reminiscência mostra-se compatível com
seu próprio dogma. Santo Agostinho, no século V, tenta
A obra de Charles Batteux L es b ea u x-a rts. réd u its à u n
uma das mais prodigiosas sínteses entre uma filosofia pagã
m êm e p rin cip e (746) é, como vimos, uma das últimas ho-
e sua própria teologia. Aristóteles não é ignorado, mas seu
menagens a Aristóteles e à doutrina da imitação. Batteux diz
pensamento não levanta discussões. O primeiro comentário
ter ficado impressionado pela perspicácia do filósofo grego.
conhecido da P o ética , texto mutilado, lacunar, inacabado,
Ele vai mesmo mais longe: não somente a pintura é uma
data do século XII. Deve-se ele ao filósofo árabe Averróis
poesia muda, mas o mesmo princípio se aplica à música e à
0126-1198) que dedica sua vida ao conjunto dos textos
arte do gesto. Se Batteux permanece sob a dependência da
i tradição, ele se mantém afastado da ortodoxia clássica: imi-
tar a natureza não significa copiá-Ia servilmente, significa
"Discípulo de A r is t ó t e le s , Teofrasto escreveu os C a ra c te re s , obra traduzida por
Boileau e na qual se inspirou para seu próprio livro.
I imitar a natureza transfigurada pelo gênio.
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q u e é estética ' zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA M a r c jim e n e z 215
Homenagem em forma de adeus, numa época em que tutelas que tentam dominá-Ia a fim de poder fundar sua
Montesquieu, no E ssa i su r te g o u t (1757) vilipendia com uma própria ordem, liberta da religião, da metafísica, da moral e
espantosa virulência a filosofia antiga, um "verdadeiro da política.
flagelo"L..l estes diálogos em que Platão apresenta o racio- Estamos lembrados de que Platão condena a imitação
cínio de Sócrates, estes diálogos tão admirados pelos anti- em nome de princípios ontológicos, morais e políticos: a
gos, são hoje insustentáveis, porque estão baseados numa imitação em segundo ou em terceiro grau, afasta da Forma,
filosofia falsa: pois todos estes raciocínios sobre o bom, o da Idéia; é um simulacro enganador utilizado para seduzir e
belo, o perfeito, o sábio, o louco, o duro, o mole, o seco, o corromper, cujos efeitos são nefastos sobre a educação; não
úmido, tratados como coisas positivas nada mais significam". há lugar para os poetas, músicos, pintores, dramaturgos
É urgente, para Montesquieu, rasgar de uma vez por todas imitadores ria Cidade ideal.
este "tecido de sofismas" e pôr de lado o idealismo platôni- Ora, tais princípios desempenham igualmente um pa-
co , a física e a metafísica de Aristóteles: sem dúvida tam- pel essencial na defesa da imitação feita por Aristóteles, mas
bém, mesmo se ele não o precise, a P o ética . num sentido diametralmente oposto. Ele não admite a sepa-
A irritação de Montesquieu,um pouco exagerada, tem ração entre o mundo das Idéias e o mundo sensível. Se a
pelo menos o mérito de mostrar a influência exorbitante Idéia existe num universo ao qual não temos acesso, ele é
dos dois filósofos gregos e a focalização de todos os deba- desconhecível e, por consequinte, nós ignoramos até mes-
tes, durante séculos, ao redor de suas teorias. Não se dizia,no mo que ela é uma Idéia. Evidentemente, Platào admite a
século XVII, que, se a razão reina, Aristóteles governa? Aris- possibilidade de uma "participação" ao mundo ideal graças
tóteles nem mesmo é mais o nome de um filósofo nascido à reminiscência. Porém, apreender as essências supõe que
em Estagíra, cidade da Macedônia, em 384 a. C. , ele é pura nos afastemos do mundo sensível, pálida cópia do mundo
e simplesmente uma regra. inteligível, que renunciemos às paixões e que recusemos os
A observação de Montesquieu é, contudo, injusta pelo prazeres terrenos.
menos em dois pontos: de um lado ela imputa a Aristóteles Para Aristóteles, as Idéias não estão no além, elas exis-
o que certamente deve ser atribuído aos múltiplos exegetas, tem na realidade. Admite ele, como Platão, a necessidade
comentadores e intérpretes mais ou menos confiáveis de de aceder à verdade, ao belo e ao justo, mas a partir de uma
sua obra; de outro lado, ela nada diz sobre as razões que realidade sensível que está no poder do homem conhecer
permitiram que esta filosofia se impusesse de forma tão graças à ciência, ao discurso, ao la g o s. Em outras palavras, o
durável. Sem dúvida, há outros interesses, que não os poé- Ser existe,mas em lugar de refugiar-se num mundo dificil-
ticos e estéticos, e motivos mais políticos e ideológicos para mente acessível, de brilhar, de algum modo, por sua ausên-
explicar a sobrevivência do sacrossanto princípio de autori- cia, ele está presente de diferentes maneiras no indivíduo e
dade e a submissão a uma ordem considerada estabelecida na natureza. O "Ser se diz de múltiplas maneiras", segundo
há vários lustros. O debate estético secular sobre nações de a expressão de Aristóteles. As Idéias não são, portanto, a
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imitação e de catarse dissimularia então um outro interesse: única realidade; o mundo sensível é igualmente real e o
o do desafio que a arte lança permanentemente às diversas i indivíduo é a primeira e a mais alta realidade ou substância.
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mimese, a P o é tic a é também sua ilustração. É um tratado uma das primeiras etapas em direção à felicidade; ele pode
incluído provavelmente no programa de ensino destinado à ser vil ou nobre, segundo sua natureza. Em seguida,
formação intelectual de Alexandre, o Grande." Aristóteles admite uma evolução possível das formas artísti-
Imitar é logo definido como um ato legítimo, é uma cas: elas cessam de obedecer a uma forma de beleza imutá-
tendência natural: "parece realmente que a poesia deve, em vel e eterna. Enfim, a poesia em geral, tragédia ou comédia,
geral, sua origem a duas causas e duas causas naturais. Imi- é reconhecida como um gênero maior; ela é mais "filosófi-
tar é natural nos homens e manifesta-se já na infância (o ca" do que a história, pois a imitação é enriquecida pela
homem difere dos outros animais por ser capaz de imitação imaginação do criador. Este último não pinta as coisas como
e é através dela que adquire seus primeiros conhecimentos) são; ele as imita tais como deveriam ser. Não somente Sófocles
e, em segundo lugar, todos os homens gostam das imita- - um dos raros dramaturgos tolerados por Platão - mas os
ções.'" outros trágicos ou autores de narrativas épicas, como
Observemos que a poesia designa aqui também a mú- Homero, encontram novamente seu lugar na Cidade.
sica que acompanha os poemas. A importância da imitação Uma vez reabilitada a mimese, a única questão real-
é apreciada em dois pontos: de um lado, no plano do artista mente importante é a de saber qual é a forma poética mais
criador, ela assume desde a infância uma função de conhe- elevada: a tragédia, a poesia dramática ou a epopéia, a nar-
cimento; graças a ela aprendemos, precisa Aristóteles. De rativa, a poesia épica? A questão de Aristóteles é direta: "qual
outro lado, ela traz prazer tanto àquele que imita quanto ao é a melhor, a imitação épica ou a trágica, é uma questão que
público. pode ser colocada". 11
A imitação concerne a qualquer objeto: belas ações ou De fato, é uma questão de nuança. Pois a tragédia e a
atos vulgares. Aristóteles constata simplesmente que os gê- epopéia apresentam eminentes qualidades idênticas. A tra-
neros, como a tragédia ou a epopéia, desenvolvem-se e se gédia, todavia, tem uma leve vantagem, pois se desenvolve
tornam, pouco a pouco, conformes à sua própria natureza: em menor tempo do que o da leitura. "Prefere-se o que é
assim, Sófocles, sobretudo, seu E d ip o , melhora a tragédia mais comprimido ao que é disperso durante um longo tem-
em relação a Esquilo: na llía d a e na O d issé ia , Homero le- po; suponhamos, por exemplo,que se transponha o E d ip o
vou a epopéia à perfeição. de Sófocles em tantos versos quantos há na llía d a !" Sobre-
A oposição a Platão é flagrante. Em primeiro lugar, imi- tudo, ela se beneficia da música e do espetáculo, precisa
tar, tendência natural, concerne a coisas ou ações concretas Artistóteles,isto é, de "meios muito seguros de produzir pra-
e não mais a idéias abstratas. O prazer que dela deriva é zer".
"Prazer"! A palavra decisiva. Mas que tipo de prazer?
"Em 342, Aristóteles parte para a Macedônia, a convite de Felipe 11, na qualidade
de preceptor dejihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
seu filho Alexandre. Somente volta a Atenas em 335. Supõe-se
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que aHGFEDCBA
P o é tic a tenha sido redigida em grande parte durante esse período.
loAristóteles, P o étiq u c, Paris, Gallimard, 1996, trad.aZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
J . Hardy, prefácio de Philippe ,
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Fala-se de desrecalque. Não é um acaso o fato de ter imitação de ações que suscitem o temor e a piedade. Essa
Freud escolhido o termo catarse para designar a finalidade purgação repousa sobre um ato psicológico muito particu-
do tratamento psicanalítico: a volta das pulsões recalcadas à lar: a identificação do espectador com os personagens imi-
consciência, sobretudo nos casos das neuroses. Nada há de tados pelos comediantes". I;'
mais prejudicial ao equilíbrio do indivíduo e da sociedade Brecht critica com virulência a catarse e seus efeitos
do que comprazer-se no mal-estar e no sofrimento de pai- anestetizantes em relação à realidade pouco agradável do
xões e de pulsões condenadas ao mutismo, repelidas para o mundo atual. Mas é menos Aristóteles que ele denuncia do
âmago do inconsciente. que a "dramaturgia aristotélica", a tradição do teatro clássico
Esta interpretação estabelece um elo entre a P o ética e a e "carunchado". Censura-o também por insistir na identifi-
P o lítica . Num plano mais geral, ela revela as implicações cação entre o espectador e os personagens a fim de engen-
políticas - no sentido largo do termo - e o discurso sobre a drar um prazer ilusório que desvia o público da realidade
arte. Ora, também não foi um acaso o fato de este tipo de concreta. A esta demasiada proximidade que visa, em sua
interpretação ter sido sistematicamente omitido pela tradição opinião, mistificar o espectador, ele opõe o d ista n c ia m e n to .
que segue Aristóteles. Aliás, a mesma coisa poderia ser dita a Este último tem como efeito instaurar precisamente uma
respeito de Platão. No século XVII, já o dissemos, há sobretu- distância crítica. Ela permite que o público tome consciên-
do a preocupação do alcance moral do teatro. Somente se dá cia dos interesses políticos e ideológicos da ação fictícia
importância às regras da arte, aos procedimentos técnicos representada em cena. A grande dificuldade deste teatro
que permitem chegar ao efeito procurado. No final do século didático e épico, que respousa numa concepção marxista
XVIII, Lessing denuncia a assimilação aristotélica entre a po- da história e da sociedade, consiste evidentemente em con-
esia e a pintura em sua crítica do u t p ictu ra p o esis. A função ciliar, no interesse do espectador, didatismo e divertimento,
catártica através da encenação do terror não lhe agrada. Pre- pedagogia política e magia do espetáculo.
fere a piedade e considera que a tragédia deve sobretudo Aristóteles deixa em suspenso o problema da catarse,
suscitar compaixão. Quanto a Goethe, pouco sensível ao efeito como aliás todos os seus intérpretes e comentadores. Pode-
de purgação e de purificação da catarse, fala ele somente da mos lamentar a perda do livro II da P o ética ; todavia não é
volta ao equilíbrio. Em seu período antiquizante e clássico e certo que ele tivesse podido resolver definitivamente o pro-
no quadro de uma estética idealista, privilegia a harmonia blema. Devemos ou não mostrar um espetáculo represen-
que nasce da contemplação da beleza ideal própria da obra tando ações e heróis de forte carga emocional? Produz ele
de arte bem sucedida. Sobretudo quando esta obra de arte um efeito benéfico ou nefasto no público? Nós ainda não o
pertence à poesia dramática. sabemos. Basta pensar nos debates atuais, quase insolú-
Mais recentemente, Bertold Brecht 0898-1956) baseou veis.sobre a legitimidade da representação da violência fie-
sua teoria e sua prática teatral neste elo entre estética e po-
lítica: "O que nos parece ter o maior interesse social é a , I
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finalidade que Aristóteles confere à tragédia: a catarse, a "Bertold Brecht, É c rilS sur te tb éâ tre, 1, Paris, l'Arche, 1972, "Critique de Ia P o étiq u e
d 'A r is t o t e " , p. 237 s.
purgação do espectador do temor e da piedade através da
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q u e é estética .' zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA M a rc jim en ez 229
Entre a morte de Hegel e as primeiras rupturas que No final das contas, Aristóteles partilha a mesma des-
transformam o mundo da arte, há somente uma geração. confiança de Platão diante das obras de arte que desafiam
Vinte anos, durante os quais os "modernos", admirativos, os limites do razoável, da razão e tendem a se afastar da
mas resolutos, aprendem a renegar o mito grego, doravante verdade. Daí seu interesse pela poesia épica de Hornero, já
por demais inacessível, entre as coisas do passado. Vinte velha de vários séculos e pela tragédia, já antiga, de Sófocles;
anos, durante os quais a arte aprende a não permanecer daí também suas reservas diante das obras de sua época,
indiferente diante das transformações do mundo.sobretudo raramente citadas.
quando elas tomam a forma de revoluções, começando pela A tradição não se apaixonou por este aspecto "engajado"
revolução industrial. da filosofia da arte dos antigos. Ela, o mais das vezes, igno-
Mas não basta reservar a arte e o pensamento antigos rou esta implicação da arte na vida concreta dos indivíduos.
ao estudo arqueológico e filológico. A modernidade tenta Preferiu promover e legar à posteridade os aspectos mais
liquidar cinco séculos de tradição aos quais, apesar de tudo, lisonjeiros do mito grego: a "calma grandeza e a nobre sim-
ela deve seu nascimento. Nada há de espantoso, neste caso, plicidade" da arte assim como a grande elevação espiritual
em constatar que a história do século XIX balbucie; uma das filosofias platônica e aristotélia, levemente afetadas por
história ainda prisioneira de sua nostalgia por uma passada séculos de interpretações se não duvidosas, pelo menos
idade de ouro e já levada pelo turbilhão da modernidade. sempre interesseiras.
As rupturas são vividas em primeiro lugar como um Quem venceu, diante deste ideal mítico? Qual é o sen-
dilaceramento. tido destas rupturas provoca das pelo que chamamos a
Dizíamos, acima, que Diderot, Schiller, jean-Paul e Hegel "modernidade"? Os fatores são numerosos, ligados às con-
_ para retomar nossos exemplos, - traduziam em seus escri- dições políticas, sociais e econômicas que convergem, na
tos, uma espantosa tomada de consciência dos interesses da metade do século XIX, para a dissolução de um mundo
arte e da estética de sua época. Pensam no contexto de um antigo. Evocaremos ulteriormente, no próximo capítulo, a
discurso autônomo sobre a arte e, ao mesmo tempo, estão natureza das transformações no plano da arte e da reflexão
em condições de perceber as relações que ligam a arte e a estética; mostraremos igualmente as razões pelas quais es-
metafísica à religião, à sociedade e ao político. Deduzimos tas rupturas merecem seus nomes, e veremos por que dife-
deste fato que a autonomia estética permitia pensar na rem por sua radicalidade, das mutações anteriores, tanto na
heteronomia da arte. Renascença quanto no século das Luzes.
Ao voltar à Grécia antiga, constatamos curiosamente Mas o termo modernidade longe está de ser simples e
que os filósofos gregos já manifestavam a mesma lucidez. É unívoco. Ele se define tanto pela recusa do passado, pela
evidente que a arte está sob a dependência da metafísica, rejeição de uma tradição que continua a assediar os espíri-
da ontologia e da filosofia, mas tais ligações longe estão de tos quanto por sua abertura em direção ao futuro. É esta
serem incompatíveis com uma interrogação muito concreta ambivalência que atrai nossa atenção nas obras de Marx, de
sobre o papel que a arte deve assumir no campo político e Nietzsche e de Freud.
no interior da Cidade.
E N T R E N O S T A L G I A E M O D E R N I D A D E zyxwvutsrqponmlkjihgfedcb
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mento de sua história, segundo o estágio de desenvolvi- ma: "a relação desigual entre o desenvolvimento da produ-
mento material e econômico que tiver atingido. Marx e Engels, ção material e o da produção artística, por exemplo". E todo
- muitas vezes co-autores - o dizem claramente: "l...laZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
a mo- seu esforço consiste em tentar resolver esta "incoerência"
ral, a religião, a metafísica e todo o resto da ideologia, assim em apenas duas páginas. São algumas linhas surpreenden-
como as formas de consciência que a elas correspondem, tes por serem justamente repletas de espanto às vezes ingê-
perdem logo qualquer aparência de autonomia". O gênio nuo e inesperado do teórico intransigente do C a p ita l.
que se concentra em alguns artistas de exceção não é, por- Em primeiro lugar, considera ele como um fato aceito
tanto, um dom da natureza nem o efeito de um furor divino, que "certas épocas de floração artística absolutamente não
mas um produto da divisão social do trabalho. têm relação com a evolução geral da sociedade nem, por-
Todavia, Marx e Engels não cessam de pedir cautela tanto, com o desenvolvimento de sua base material". Repe-
contra uma interpretação mecanicista e materialista de suas tindo claramente: os gregos produziram obras-primas, tra-
teorias. A economia somente age e m ú ltim a in stâ n c ia sobre gédias, epopéias, bustos, monumentos que o estágio de
a produção intelectual, isto é, ela abre caminho entre uma evolução de sua sociedade - inferior ao da sociedade mo-
série de ações e de reações recíprocas entre a base econô- derna - não devia logicamente permitir. Se conseguiram fazê-
mica e a ideologia. Eles admitem, portanto, que se o "de- 10 é porque dispunham de uma mitologia, da natureza e das
senvolvimento político, jurídico, filosófico, religioso, literá- formas sociais, transfiguradas em arte pela imaginação dos
rio, artístico, etc., repousa no desenvolvimento econômico", artistas. Daí sua superioridade sobre a arte egípcia: "A mito-
estes domínios "reagem todos igualmente uns sobre os ou- logia egípcia nunca teria podido ser o solo, o seio materno
tros assim como sobre a base econômica". que pudesse ter produzido a arte grega". Mas é claro, em
Todavia, em princípio, a cada uma das sociedades compensação, que a mitologia grega não poderia ser uma
correspondem formas artísticas particulares em relação com fonte de inspiração na época dos teares, das locomotivas e
seu nível de desenvolvimento: as pirâmides no Egito antigo, do telégrafo.
a estatuária e a poesia épica na Grécia, as catedrais na Idade Curiosamente, Marx se exprime numa forma inter-
Média, etc. Uma arte que surge numa determinada época rogativa e no tom de uma falsa evidência, como se pudesse,
pode assim agradar aos contemporâneos e não satisfazer a apesar de tudo, subsistirr uma dúvida: "Aquiles poderá exis-
seus sucessores. Não se trata apenas de um problema de tir na época da pólvora e do chumbo? Ou, em resumo, aHGFEDCBA
gosto: as condições materiais de produção mudaram, tra- Ilia d a com a imprensa, com a máquina de imprimir? Os
zendo uma modificação das formas de representação, das cantos, as lendas, as Musas não desaparecem obrigatoria-
idéias, dos mitos, dos usos e costumes e também, justamen- mente diante da barra do impressor? E as condições neces-
te, do gosto. sárias para a poesia épica não se desvanecem?"!
Ora, Marx toma consciência de que a arte constitui uma I
I
espécie de exceção a esta concordância global entre o está-
gio econômico e social de uma sociedade e sua produção I
'Karl Marx, ln tro d u c tio n à Ia c ritiq u e d e l'e c o n o m ie p o litiq u e . Paris, Gallimard,
.1 1965, Bibliothéque de Ia Pléiade, trad. M. Rubel e[ L. Evrard p.265 sq.
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intelectual. Este é o assunto do sexto ponto de seu progra-
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teúdos diferentes, visto que são produzidos por grupos so- derada contrária ao bom gosto e à moral. Mas o que choca
ciais diversamente evoluídos. o público desorientado é menos a impudica serenidade do
Aqui, duas respostas são possíveis. olhar de Olympia do que a audácia de uma técnica liberta
De um lado, a tragédia ou o poema épico tratam de das convenções habituais: não há mais tradição grega, ro-
temas eternos: luta do homem contra a natureza, vítima da mantismo italianizante ou oriental. Marx absolutamente não
fatalidade, submetido a seu destino, prisioneiro de suas pai- gostou dessas provocações.
xões, angustiado pela morte ou exaltado pelo amor, - "te- A orientação que se deduz destes textos inacabados
mas" transistóricos que escapam em parte - felizmente' - às revela a flagrante contradição entre a modernidade e suas
condições materiais da produção e às coerções econômicas. análises filosóficas e políticas e um classicismo alimentado
De outro lado, o teórico da exploração do homem pelo de nostalgia por uma idade de ouro irremediavelmente per-
homem teria podido fixar-se no que havia de comum entre dida, situada nos arredores do mar Egeu. Ao erigir como
a sociedade escravagista, a sociedade feudal e a sociedade "norma" o modelo grego, doravante inacessível, Marx ex-
capitalista: mesmo domínio de uma classe sobre uma outra, pressa seu apego aos grandes princípios da estética tradici-
mesmo princípio da divisão do trabalho. onal, sobretudo à regra da imitação, atitude que não quer se
A perenidade das formas e dos conteúdos artísticos é comprometer com a aventura ainda indecisa da modernidade.
uma questão estética interessante, nas não é surpreendente. Marx teria declarado não ser marxista. Estaria pressen-
Numa civilização de progresso, o que é muito mais surpre- tindo o que iria acontecer com sua filosofia política? Duvi-
endente e inquietante é a perenidade do ditador, aliás do damos de que tenha podido pelo menos entrever o
tirano, ou então a sobrevivência da sorte dos mineiros," en- inverossímil destino de uma teoria tragicamente transforma-
terrados nas minas, versão mal retocada do escravo da, de maneira muitas vezes abusiva, em prática revolucio-
ateniense ou do servo da Idade Média. nária.
Os escritos de Marx consagrados à teoria da arte ocu- A estética de Marx - o único aspecto de sua obra que
pam um espaço mínimo em sua obra. Evidentemente, não nos interessa aqui - cedeu rapidamente lugar a numerosas
se poderia censurá-Io por não ter tido oportunidade nem estéticas marxistas. Estas teorias alimentaram a maioria das
tempo de desenvolvê-Ios e de precisar seu pensamento, · grandes controvérsias artísticas do século XX que se interes-
sobretudo diante das perturbações que afetam o mundo da sam pelas relações entre a arte, a sociedade e a política. O
arte em sua época. Ele morre em 1883, no mesmo ano que I
I
debate está ainda longe de sua resolução. Veremos alguns
Édouard Manet. Quase vinte anos antes, este último provo- I de seus aspectos. Porém é preciso desde já saber que, assim
cara um escândalo com seu quadro O ly m p ia . Um verdadei- I como sua filosofia, a estética (fragmentária) de Marx teve de
ro tumulto: uma jovem modelo nua, sem sombras, consi- I sofrer numerosas interpretações errôneas e caricaturais. Pro-
I vavelmente porque, embora ela não carregue toda a res-
I ponsabilidade, esta estética se presta a tais abusos. Não se
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decreta impunemente a perda da autonomia da arte, ativi-
"N. de T. Em francês, "gueules noires": caras pretas.
dade
desde então, compreendida na ideologia _e_i_r_re_m_e_d_ia_- ...JHGFE
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velmente implicada na esfera produtiva da sociedade. O sua inquietação a respeito de um uso abusivo de suas teori-
apego exclusivo ao "conteúdo" em detrimento da forma tam- as: "Tremo pensando em todos aqueles que, sem justifica-
bém não é totalmente inocente. Os doutrinários do realismo ção, sem estarem preparados para minhas idéias, invocam
socialista, nos ex-países do Leste e seus homólogos ociden- minha autoridade!" Convencido de que era o último grande
tais souberam extrair conseqüências particularmente desas- filósofo do século, Nietzsche, é verdade, não peca por ex-
trosas desta possível submissão da arte à política, ao Parti- cesso de modéstia. Reconheçamos, contudo, que mostra uma
do: conferiram-lhe como única finalidade a representação surpreendente lucidez. Não suficiente, contudo, para pres-
"fiel" do herói proletário e da revolução em marcha e com sentir o papel nefasto que sua cara irmã - seu "fiel lama" -
isto a desfiguraram em pura e simples propaganda. associada a seu anti-semita marido, Fôrster, desempenharão
A nostalgia pelas estátuas gregas, modelos inacessíveis, justamente nos cortes extremamente parciais de sua obra
é compreensível. É legítimo partilhá-Ia ainda hoje. Este sen- póstuma.
timento é mais inquietante quando se torna fascinação pela Os leitores de Albert Camus lembram com toda a certe-
norma, quando engendra estas réplicas geladas de pedra ou za a homenagem que o escritor presta a Nietzsche em
de bronze, caricaturas alegóricas e funestas, caras a todos os L 'h o m m e ré v o lté . A conclusão é decisiva: "Na história da
regimes totalitários. Mas isto Marx não podia concebê-Io inteligência, com a exceção de Marx, a aventura de Nietzsche
nem, sobretudo, prevê-Io.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA não tem equivalente; nunca teremos acabado de reparar a
injustiça que lhe foi feita. Conhecemos, sem dúvida, filoso-
fias que foram traduzi das e traídas ao longo da história.
N ie tz s c h e e o e s p e lh o grego Porém, até Nietzsche e o nacional-socialismo não havia exem-
plos de que um pensamento inteiramente iluminado pela
A filosofia e a estética de Friedrich Nietzsche (1844- nobreza e os dilaceramentos de uma alma excepcional te-
1900) ocupam um lugar excepcional no pensamento do sé- nha sido ilustrada aos olhos do mundo por um desfile de
culo XX: a oposição entre o apolíneo e o dionisíaco, a von- mentiras e pela horrível pilha de cadáveres concentracio-
tade de poder, o super-homem, o eterno retorno, a morte nários". Assim são ditas as coisas uma vez por todas!
de Deus, o niilismo, tornaram-se quase lugares comuns do Mas excetuando as sinistras caricaturas, pensamos tam-
discurso filosófico. bém nas múltiplas análises e comentários que, ao se justa-
É forçoso constatar que este status privilegiado nem porem, encobrem o texto nietzscheano ao ponto de torná-
sempre serviu aos interesses do filósofo. Pensamos, eviden- 10 irreconhecível. Entre estas interpretações, a mais deplorá-
temente, nas grosseiras e perigosas manipulações de sua vel e infelizmente a mais freqüente é aquela que se apóia
obra pelo Terceiro Reich e nas interpretações aberrantes dos nas numerosas contradições do pensamento de Nietzsche,
termos do super-homem e da vontade de poder que permi- distribuídas en diferentes períodos de sua vida. É fácil então
tiram ao nazismo reivindicar indevidamente seus escritos. dizer que a coerência de sua filosofia desaba sob o peso de
Pouco após a publicação de A ssim fa la v a Z a ra tu stra contradições insolúveis.
(1883), sua última grande obra, comunica a sua irmã Elisabeth Algumas dessas contradições parecem, de fato, indu-
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bitáveis: discípulo de Schopenhauer, de quem toma os temas Trata-se, portanto, para Nietzsche, de inverter a ótica
do pessimismo e da vontade-de-viver, rompe ele com seu histórica: não cabe a nós interpretar os gregos. Temos de
"educador" e adere momentaneamente às teses positivistas e ver neles, pelo contrário, os intérpretes dos tempos. Pene-
cientistas de sua época. A princípio admirador fervoroso de tremos sob o véu opaco tecido pela tradição e escutemos
Wagner, rejeita em seguida com virulência a música do mes- então o que tem ele a nos dizer.!
tre de Bayreuth e se entusiasma pela C a rm en de Bizet. Vio- Mas de que Grécia se trata? Certamente não da que nos
lentamente antimístico, anticristão, antimetafísico e imoralista, foi transmitida pelos notáveis helenistas e arqueólogos do
parece reatar, em seu Z a ra tu stra , com conceitos cosmológicos século XVIII, os Winckelmann e outros historiadores neoclás-
matizados de irracionalismo e de misticismo. sicos que apenas farejam nos gregos "belas almas", "ponde-
Em lugar de nos determos - mais uma vez - nestas rações douradas". Somente a "tolice alemã"pode contentar-
contradições, preferimos ver em Nietzsche uma reflexão que se em descobrir nos gregos "a calma na grandeza, o senti-
se procura, em busca de sua própria coerência, num final mento ideal".
do século XIX desprovido de qualquer coesão e rico em Vemos que Nietzsche não tem palavras suficientemen-
paradoxos. Nietzsche faz parte desses pensadores que, como te duras para denunciar a "fatuidade dos educadores clássi-
Freud, dizem, se contradizem e além disso dizem que se cos que declaram estar na p o sse d o s a n tig o s' e legam seu
contradizem.aZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
É esta, sem dúvida, sua única maneira de do- saber com a única finalidade de transformar os herdeiros
minar docilmente, com o pensamento, uma realidade rebel- em "pobres velhos ratos de bibliotecas, corajosos e loucos".
de e caótica. Porém, o que mais o irrita é o balanço desastroso dessa
Antes de ser um pensador contraditório, Nietzsche apa- educação milenar: em lugar de aprender a vida, nós nos
rece, portanto, e sobretudo, como um pensador da contra- "gastamos" com a educação clássica. Em lugar de provocar
dição e como um dos primeiros psicanalistas das tensões e nosso assombro diante do poder de trabalho e da força de
das pulsões que agitam em segredo uma sociedade ociden- vida dos gregos que os impeliram ao saber científico, com
tal ao mesmo tempo otimista e inquieta, entusiasmada pela um golpe desferiram-nos a ciência sem estimular nosso de-
idéia de progresso e, contudo, angustiada com o futuro. Um sejo de aceder ao conhecimento.
analista sem complacência em relação à modernidade, para Nietzsche põe o dedo numa ferida pedagógica bem
quem a concepção dos gregos, tal qual os imagina, determi- conhecida pelos professores e alunos do século XX: o
na o ponto de vista que lhe permite criticar o mundo con-
temporâneo. E cce h o m o (1886), o último livro escrito em
seu período de plena consciência é, confessadamente, uma 'o tema do espelho encontra-se no próprio Nietzsche: "Quando falamos dos
gregos, falamos também involuntariamente de hoje e de ontem: sua história,
"crítica d a m o d e rn id a d e ', das ciências modernas, das artes universalmente conhecida é um espelho claro que reflete sempre algo mais do
modernas, sem excluir a política moderna". A Grécia antiga que se encontra no próprio espelho. Servimo-nos ela liberdade que temos de
i falar deles para poder nos calar sobre outros assuntos - a fim de perrnitir-lhes
constitui, a partir de então, uma espécie de espelho, um
i murmurar alguma coisa ao ouvido elo leitor meditativo. É assim que os gregos
horizonte retrospectivo que permite contemplar a imagem !
facilitam ao homem moderno a comunicação ele coisas difíceis de dizer, mas
dignas ele reflexão" (O p in iõ es e sen ten ça s m istu ra d o s, aforismo 218).
invertida do que se tornou o mundo ocidental.
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irreparável foi cometido, diz ele, "quando nos impuseram, dos indivíduos submetidos à moral, à religião, às mistifica-
pela força, a matemática, em lugar de levar-nos, em primei- ções ideológicas, submetidos a estas tutelas que são o Esta-
ro lugar, ao desespero da ignorância e de reduzir nossa pe- do, a Igreja, ou então a estes poderes espirituais que são a
quena vida cotidiana, nossos movimentos e tudo o que acon- Ciência e a Moral.
tece da manhã à noite na oficina, no céu e na natureza, a Para Nietzsche, o 1I11CIO deste processo remonta a
milhares de problemas, problemas torturantes, humilhan- Sócrates e a Platão, a uma época em que o desenvolvimen-
tes, irritantes, - para mostrar então ao nosso desejo que to do espírito e da cultura já era sentido como uma ameaça
temos, antes de mais nada, n ecessid a d e de um saber mate- para o Estado. O milagre grego não é devido a Péricles, este
mático e mecânico, e ensinar-nos em seguida o primeiro "grande engano otimista", que prega a união entre a Cidade
a rreb a ta m en to científico causado pela lógica absoluta deste e a cultura; ele provém, sobretudo, do fato de a cultura ter
saber!" conseguido sobreviver aos censores da Cidade. Em H u m a -
Estranho paradoxo que deseja que seja deturpada a n o , d em a sia d a m en te h u m a n o , ele não é suave para com o
palavra de Sócrates: em lugar de ensinar-nos que saber é autor de A R ep ú b lica : "A Cidade grega era, com qualquer
exatamente saber que nada sabemos, fizeram-nos acreditar potência política organizada, exclusiva e receosa diante do
que saber era ingurgitar à força tudo o que os outros havi- crescimento da cultura; seu profundo instinto de violência
am descoberto e aprendido antes de nós. Ora: "Teremos quase só mostrava diante dela embaraço e entraves. Ela não
aprendido alguma coisa do que justamente os gregos ensi- queria admitir na cultura nem história nem progresso: a dis-
navam à sua juventude? Teremos aprendido a falar como ciplina estabelecida na Constituição devia constranger to-
eles, a escrever como eles? Teremos nos exercitado, sem das as gerações e mantê-Ias em um nível único. Assim com
trégua, na esgrima da conversação, na dialética? Teremos Platão o desejava ainda para seu Estado ideal. Era, portanto,
aprendido a nos movimentar com beleza e altivez, como a p esa r da p o lis que a cultura se desenvolvia"." Ela se desen-
eles, a nos distinguirmos na luta, nos jogos, nos pugilatos, volveu, mas o mal já estava feito. Ela trazia em si os germes
como eles? Teremos aprendido alguma coisa do ascetismo da decadência.
prático de todos os filósofos gregos?'? Portanto, se esta Grécia pós-socrática não pode mais
Em suma, para Nietzsche nossa educação é um logro, servir como referência para os modernos, qual é a que pode
não somente no plano individual, mas no plano da cultura "murmurar alguma coisa ao ouvido do leitor meditativo?".
histórica. O irreparável é este déficit de vida em benefício É a esta questão que a paixão de um jovem filósofo de
do adestramento secular, tendo em vista a produção do ho- vinte e oito anos tenta responder já em sua primeira obra,
mem domesticado, "animal gregário, ser dócil, doentio, que provoca escândalo, O n a scim en to d a tra g éd ia (1 8 7 2 ).
medíocre, o europeu de hoje". O homem, este "aborto su- I Paixão que, durante toda a sua vida, se transforma em obs-
blime", está assim pronto a reunir-se à multidão indiferenciada i tinação obsessiva em querer resolver o enigma por excelên-
I,
I
,
'F. Níetzsche, A u ro ra , aforisrno 195.aZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA "1'. Nietzsche, H um ano, d em a sia d o hum ano, aforisrno 474.
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q u e é estética ? M a rc fim e n e z 247
cia. Este enigma, Nietzsche o formula na época de E cce H o m o , tegoria metafísica e ontológica: ela é a essência das coisas.
precisamente no "Ensaio de autocrítica" colocado em posfácio Ela ocupa o lugar do númeno ou da coisa em si na filosofia
à reedição, em 1886, de O n a scim en to d a tra g éd ia : "Ainda de Kant. Ela é, pois, universal, eterna, imutável e livre.
Schopenhauer
hoje, há tudo a descobrir e a exumar neste ponto.aZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
É preciso, vai, aliás, até ao ponto de supor que cada
sobretudo, dar-se conta de que há aqui um problema e que vez que usava a expressão "coisa em si", Kant imaginava
os gregos permanecerão incompreensíveis, inimagináveis sobretudo uma espécie de vontade livre.
para nós enquanto não tivermos respondido a esta pergun- Esta vontade aplica-se a "todos os fenômenos do mun-
ta: o que é o espírito dionisíaco?". do"; ela é a "realidade última e o núcleo do real". A grande
Dioniso, filho de Zeus e de Sêmele, deus da vinha e do diferença em relação a Kant é que a vontade se exprime no
vinho, é uma das figuras chaves da obra de Nietzsche, até mundo e no homem pela vontade de viver, pelo desejo e
mesmo de toda a sua filosofia. Todavia, não se pode com- especialmente pela sexualidade. Portanto, posso conhecê-
preender o papel e o significado que ele lhe atribui sem Ia, enquanto em Kant nada posso saber da coisa em si. Para
associá-Io à sua figura ao mesmo tempo antagonista e com- ele, o mundo dos fenômenos é o que me "represento", é
plementar: Apoio, filho de Zeus e Leto, deus da luz e das minha "representação", e ao mesmo tempo é a aparência na
artes. Mais além desses protagonistas de O n a scim en to d a qual a vontade se reflete.
tra g éd ia , dois outros personagens desempenham, nos bas- Percebem-se sem dificuldade as conseqüências desta
tidores, um papel essencial: Schopenhauer e Wagner. posição. Em primeiro lugar, ela é anticartesiana, visto que a
Bastidores, é verdade, abertos a todos: a dedicatória da vontade toma o lugar da razão como princípio de todas as
obra é uma homenagem vibrante ao compositor dos M estres coisas conhecíveis. Ela é anti-hegeliana visto que o Espírito
ca n to res, e Nietzsche compraz-se em dizer que aprende muito é substituído, em todas as suas manifestações, pela vonta-
com a vizinhança de Wagner, pois se trata de um "curso de.
prático de filosofia schopenhaueriana". Sejam quais tenham Uma tal afirmação da vontade de viver - manifestação
sido os desacordes posteriores, ele sempre reconheceu a da vontade em todas as coisas - deveria desembocar num
dupla influência do filósofo e do músico sobre sua própria otimismo. Ora, isso não é verdade. Paradoxalmente, Scho-
penhauer chega à conclusão contrária: o homem conhece a
obra.
vontade, mas a vontade nada conhece. Ela é livre, evidente-
mente, mas cega. Schopenhauer diz com muita clareza: "A
A in flu ê n c ia de Schopenhauer vontade, que constitui nosso ser em si, é de natureza sim-
ples; ela não faz outra coisa a não ser querer, e não conhe-
Dois temas, desenvolvidos por Arthur Schopenhauer ce."
0788-1860) em sua obra O m u n d o co m o vo n ta d e e co m o Resultado: o homem leva uma vida sem fim, sem fina-
rep resen ta çã o , chamam a atenção de Nietzsche: exatamente lidade, desprovida de qualquer significação. Nossos dese-
a vontade e o pessimismo. A vontade não é, para Scho- jos, nossas paixões, nossas emoções só têm sentido após a
penhauer, uma noção psicológica ou moral, mas uma ca- morte. Eles, de algum modo, sobrevivem a nós, manifesta-
E c c e H o m o . o caso Wagner.
6F. Nietzsche,HGFEDCBA "Um problema musical", 2.
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T r a g é d ia ce daí
e n i l l i s m o zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA o ditirambo. Apoio teve de "compor" com Dioniso, e
sua música melodiosa foi obrigada a harmonizar-se com os
Se a publicação de O n a scim en to d a tra g éd ia encanta ritmos e os sons não habituais, assustadores e selvagens de
os músicos e os musicólogos sensíveis à musica wagneriana, Dioniso. A alma helênica, trágica por excelência, re~ulta desta
ela provoca a consternação e a cólera dos filólogos e dos aliança entre o espírito dionisíaco e o espírito apolíneo:
helenistas da Universidade alemã. Que um jovem professor equilíbrio entre a medida e o descomedimento celebrado
da universidade de Bâle, sem doutoramento, possa consa- pelas primeiras tragédias antigas, antes da epopéia homérica
grar um trabalho científico à Grécia antiga é uma audácia. e, portanto, anterior a Sócrates.
Que centralize seu estudo sobre a tragédia n o esp írito d a Colocado sob o patrocínio de Schopenhauer, O n a sci-
m ú sica já é mais suspeito. Que use o subtítulo "helenismo e m en to d a tra g éd ia anuncia, contudo, a ruptura com a afir-
pessimismo" é uma provocação. Mas o cúmulo é atingido mação do pessimismo radical do filósofo: para Schopenhauer,
quando considera Sócrates e Platão como os responsáveis o pessimismo constituía uma solução para a vontade de
ancestrais da decadência do pensamento ocidental. viver. Ora, segundo Nietzsche, se a tragédia é por essência
O que choca, sobretudo, é a reabilitação do Deus pessimista - ela põe em cena homens vítimas da fatalidade
Dioniso, aparentado à embriaguês musical. Figura do su- - ela é também, por suas origens, afirmação da vida exube-
blime , talvez , da vontade de viver, certamente: o deus re- rante da vontade de viver.
nasce periodicamente à vida. Ele é sua afirmação. Dioniso A provocação iconoclasta de Nietzsche começa real-
é o homem-bode, o sátiro, cujo culto é celebrado por can- mente com sua interpretação de Sócrates. Sócrates encarna
tos litúrgicos, os ditirambos, por ocasião das faltas que lhe o tipo do homem moderno, o filósofo teórico, dialético,
são consagradas, as dionisíacas. Estas festas são mal co- antimístico, moralizador e virtuoso. Mas sobretudo, Sócrates
nhecidas, mas podemos imaginá-Ias desenfreadas, entre- é otimista: ele crê no poder da ciência, no progresso. Seu
gues à frenesia sexual e às licenças orgíacas que "submer- aparecimento na cena helênica coincide com a decadência
gem toda instituição familiar e suas regras veneráveis". O da tragédia, despojada pouco a pouco do espírito da músi-
"encanto" de Dioniso tem assim a virtude de reconciliar o ca: "sob o chicote de seus silogismos, a dialética expulsa a
homem e uma natureza que cessa de ser hostil e distribui música da tragédia". A tragédia "pessimista" nasceu do coro
seus dons, leite e mel, em abundância. Graças a ele, o antigo, dionisíaco. Ele está ainda presente em Ésquilo, mui-
homem não é mais artista, diz Nietzsche, ele se torna obra to menos em Sófocles. Em Eurípedes ele desaparece em
de arte. proveito do discurso, da narrativa, da linguagem, do racio-
A hipótese de Nietzsche é a seguinte: durante séculos, cínio. É o fim da embriaguês dionisíaca. "Sócrates, o herói
os gregos foram preservados dessas febres voluptuosas e dialético, aparenta-se ao herói de Eurípedes que deve justi-
cruéis, vindas da Ásia, graças à Apoio, deus luminoso, sím- ficar suas ações à força de argumentos e de contra-argu-
bolo da bela aparência, das formas ideais, do sonho plásti- mentos e que, com isso, corre freqüentemente o risco de
co. Porém, chegou um momento em que eles cedem à atra- não obter nossa compaixão trágica. Pois, quem irá contestar
ção destas festas desenfreadas, exaltadas e entusiastas; nas-HGFEDCBA que a dialética comporta um elemento o tim ista , que celebra
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q u e é estética ? zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA M a rc jim en ez 257
gras tonais tradicionais. Este mesmo pressentimento torna- da "bela aparência" apolínea nem da serena grandeza do
se, aliás, uma certeza em Richard Strauss, Gustav Malher e deus de Delfos.
Claude Debussy que, todos, não se enganarão quanto à O eterno retorno marca, já o dissemos, o fim da histó-
importância da música wagneriana, nem quanto à profundi- ria. Ele significa também, para Nietzsche, o fim da história
dade das análises de Nietzsche. da arte: a única arte susceptível de "voltar" deveria reatar
Dioniso, o deus da dissonância dominada, é também o com o espírito trágico dos gregos!
deus das forças obscuras, subterrâneas, que destrói o equi- Esta arte de fato voltou à terra alemã, mas não mais sob
líbrio, a simetria e a aparência sabiamente ordenada das a forma trágica dos pré-socráticos. Ela tomou os traços gros-
formas. Este deus, que volta repentinamente para perturbar seiros de um pretenso neoclassicismo, e uma outra tragédia
o olhar sereno dos europeus, sobretudo dos alemães sobre não ilusória, mas bem real, foi encenada. Os pseudo-Fídias
a Grécia antiga, significa também, em linguagem freudiana, do Terceiro Reich, como Arno Brecker, abriram seu funesto
a emergência das pulsões eróticas reca1cadas pela civiliza- prólogo, dispondo na cena estátuas belicosas, desprovidas
ção ocidental. O próprio Nietzsche não fala do instinto de de qualquer serenidade e vestidas para a guerra: sinistras
vida reprimido pelo instinto de morte das sociedades mo- réplicas dos fantasmas nazistas, encarnados no mito do gran-
dernas? de ariano louro. Disso, diferentemente de Marx, Nietzsche
Que seria uma transposição do tema dionisíaco nas ar- tivera o pressentimento. Seu mérito foi o de ter-se inquieta-
tes plásticas na época das primeiras revoluções formais? Esta do.
não é uma pergunta para Nietzsche.
Nietzsche não gostava de pintura. Dizia-se "pouco sen-
sível ao plástico" ao ponto de ser "tomado de uma repug- o c 1 a s s ic is m o d e F r e u d
ver a cidade e de forma alguma por amor de "não sei que tárias do século :x x , o nazismo e o stalinismo, tenham invo-
pinturas!" . cado - de maneira errônea - respectivamente Nietzsche e
Quando faz referência ao pintor da G io c o n d a o faz para Marx. Em compensação, ninguém até hoje tentou inspirar-
celebrar Richard Wagner: um único compasso de T ristã o basta se no modelo psicanalítico freudiano para realizar concreta-
para dissipar todos os enigmas de Leonardo da Vinci. Vinte mente uma sociedade e um Estado. Sem dúvida, porque
anos mais tarde esta não será a opinião de Freud. esta sociedade já existe. Porque esta sociedade é a nossa,
Sua única emoção pictórica lhe vem de Claude Gellée, constantemente invadida por desassossego, atravessada por
chamado le Lorrain 0600-1682). Diante do mestre da paisa- crises egocêntricas, assaltada por pulsões de morte e suas
gem e da luz ele cai em soluços. Mas esses quadros, é tendências autodestrutivas, ávida de apropriação, submeti-
verdade, apenas lhe revelam "toda a arte bucólica dos anti- da por cupidez ao princípio de realidade e hipocritamente
gos". Mesmo sendo moderno, crítico, iconoclasta, numa pa- i receosa diante do princípio de prazer.
I
lavra, d io n isía c o , não se escapa tão facilmente ao encanto Os hicroglifos, Roma, Pompéia, a Grécia, sobretudo,
'I
1
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q u e é estética ? M a rc jim en ez 259
não foram para Freud refúgios para os tempos presentes, confessa nada saber de música, não ter nela nenhum prazer.
uma maneira arqueológica de descer ao âmago da alma Terá chegado ao ponto, como o teria confidenciado, de
humana a fim de decifrar seu enigma? detestá-Ia? Estranho paradoxo, em todo caso, na pátria de
Provavelmente. Porém, esta volta para a história pode Mozart e numa cidade como Viena, capital das revoluções
também ter um outro significado que faz surgir uma preo- musicais!
cupação comum ao mesmo tempo a Marx, a Nietzsche e a A estética em geral inspira-lhe a maior desconfiança.
Freud. Os três tentam compreender o papel e o significado Esta ciência da arte e da beleza é capaz de grandes discur-
das forças subterrâneas, inconscientes, que regem ao mes- sos para elogiar os méritos de uma obra, mas nenhum este ta
mo tempo a atividade dos homens e o devir da humanida- conta a mesma coisa que seu vizinho e "diz o que poderia
de. Partem eles, de algum modo, do princípio de que o resolver o enigma para o simples admirador" Y Em compen-
mundo não é mais transparente. Seria melhor dizer: tomam sação, a arte exerce sobre ele um "efeito poderoso" e sobre-
consciência da transparência ilusória de um mundo que se tudo, por ordem decrescente de interesse, a literatura, a es-
julgava límpido.aZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
É por esta razão que procuram identificar o cultura e a pintura.
mecanismo escondido que explique sua evolução. Para Marx, O enigma ao qual faz alusão e que decide decifrar é
este mecanismo é econômico; para Nietzsche ele é religio- duplo. Ele concerne, de um lado, à gênese da obra num
so, moral e cultural. Para Freud, ele é psicológico e repousa artista, à razão, podemos dizer, da criação: que intenções
no inconsciente. Em todos os casos, trata-se realmente de profundas, que motivações impelem certos indivíduos e não
fazer surgir, na consciência forças obscuras, artificialmente outros a dar forma à sua imaginação, a seus afetos, a seu
dissimuladas ou recalcadas. desejo?
Ora, se a maioria das atividades humanas, intelectuais Mas este enigma diz respeito também à relação entre a
ou materiais, respondem a motivações e a finalidades evi- obra de arte e aquele que, diante dela, sente uma emoção
dentes como a procura da felicidade ou do conforto materi- particular, positiva ou negativa, atração ou repulsão. Esta
al, há pelo menos uma que permanece um enigma, isto é, a relação não pode ser puramente intelectual. O choque esté-
criação artística. E é para tentar resolver, pelo menos parci- tico que às. vezes "agarra poderosamente" deve ter como
almente, este enigma que Freud, médico, de formação cien- origem o fato de eu reconhecer uma semelhança, um pa-
tífica, especializado em neuropatologia, consente em inte- rentesco, entre as emoções e as intenções expressas pelo
ressar-se, como "profano", pelo domínio da arte. artista e as minhas próprias. Freud supõe assim que a pró-
Freud reconhece de fato, que não é entendido nesta pria obra de arte se presta à análise, para além do efeito que
matéria." Nietzsche dizia que nada entendia de pintura, Freud produz: atração, fascínio, ambíguo ou não. De fato, para
ele, estas impressões ou estes sentimentos são sempre am-
bíguos. Naturalmente, ninguém é obrigado a uma tal análi-
NA p r im e ir a frase de seu e s tu d o s o b re o HGFEDCBA
M o is é s d e M ic h e la n g e lo d iz o s e g u in t e :
L
9 I b id , p.88.
étra n g eté, P a r is , G a llim a r d , 1985, p.87.
se e é muito compreensível que alguém se atenha à depen- Cada pessoa, é claro, tem o direito de revoltar-se con-
dência imediata do que é ditado espontaneamente pelo jul- tra a fatalidade, mas isto não impede, diz Freud, que "a
gamento de gosto. Mas posso também, como diz Freud, lenda grega tenha sabido apreender sentimentos que todos
tentar adivinhar a intenção do artista, ser tentado a encon- os homens reconhecem, porque todos os experimentaram".
trar o sen tid o e o co n teú d o da obra e, portanto, a in terp retá - HGFEDCBA Ele extrai deste exemplo uma conclusão ao mesmo tempo
Ia . Por que não tentar compreender a razão? Freud é ani- estética e psicológica: o interesse que sentimos pela literatu-
mado pela certeza de que é sempre benéfico para o indiví- ra, pelo teatro, repousa no fato de reconhecermos um pa-
duo saber o que acontece ou aconteceu nele. Esta convic- rentesco entre a sorte reservada ao herói e a nossa. Eviden-
ção encontra-se no próprio fundamento da psicanálise; ela temente, pensamos na famosa teoria aristotélica da ca ta rse ,
vale igualmente para a arte. Neste domínio também, perma- retomada pela doutrina clássica: a purgação das paixões,
nece convencido de que nossas impressões e o prazer sus- terror e piedade, resulta da identificação do espectador com
citados por uma obra absolutamente não são enfraquecidos os personagens. Mas Freud vai mais longe: "Cada especta-
pela análise e pela interpretação. Um tal saber pode mesmo dor foi um dia um Édipo em germe, em imaginação e assus-
estar na origem de um maior gozo estético. ta-se ao ver a realização de seu sonho transportado para a
As primeiras interpretações da arte que usam a desco- vida, treme de acordo com o recalque que separa sua situa-
berta do inconsciente são feitas na literatura. ção infantil de sua situação atual".
Em 1896, pouco após a morte de seu pai, Freud tem Portanto, não se trata mais apenas de um simples reco-
um sonho estranho: ao querer entrar numa loja vê um letrei- nhecimento baseado numa relação mimética, mas de uma
ro pedindo aos clientes que "fechem os olhos". No momen- verdadeira tomada de consciência, pelo leitor ou especta-
to, ele não presta atenção a essa cena onírica. Porém, um dor, de pulsões reca\cadas, lançadas às vezes durante lon-
dia, em 1897, este sonho volta-lhe à memória e ele descobre gos anos para o inconsciente. É digno de nota o fato de esta
em si mesmo a existência de um sentimento estranho em explicação responder parcialmente à questão colocada por
relação a seu pai, falecido um ano antes. Um sentimento Marx: se a tragédia e a epopéia antigas causam, após vinte e
alimentado desde a infância, ambivalente, uma mistura de cinco séculos, um prazer e um gozo estéticos, talvez seja
amor por sua mãe e de ciúme por seu pai. Inquieta-se e porque elas representem o jogo de estruturas psíquicas in-
encontra um equivalente literário dessa situação na tragédia conscientes que escapam às transformações sociais e histó-
de Sófocles, E d ip o rei: o oráculo não advertiu Laio, o pai de ricas.
Édipo, sobre o trágico destino de seu filho, obrigado a rea- A descoberta do complexo de Édipo, fundamental para
lizar três atos assustadores: um parricídio, um incesto, e uma a terapia psicanalítica, é considerada por Freud como o pri-
automutilação, vazar os olhos? Assim o sonho anterior, "fe- meiro indício de uma relação profunda entre as obras de
char os olhos", realizava simbolicamente pulsões reca\cadas; arte e o inconsciente. Ela permite esclarecer o comporta-
ele revelava também, indiretamente, sob uma forma mento aparentemente absurdo de personagens de ficção,
disfarçada, a culpabilidade inconsciente sentida por Freud como o de Hamlet no drama de Shakespeare, Por que o
quando da morte de seu pai.aZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA herói é tão indeciso em matar seu tio, assassino de seu pai e
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M a rc jim e n e z 263
esposo de sua mãe, se não for por causa do "tormento" mente fraco na criança, vítima de um traumatismo sexual (o
causado pela lembrança de um desejo antigo e recalcado: o que Freud chama a "cena primitiva"), muito mais intensa no
de desposar, ele também, sua própria mãe? O que supõe, adulto que sofre inconscientemente as seqüelas deste
antes, a eliminação física de seu pai. A demência fingida de traumatismo ou um novo choque emocional.
Hamlet, sua indiferença para com uma Ofélia levada à lou- O sonho esconde, portanto, um conteúdo latente cujo
cura e ·ao desespero não são reveladoras desta assustadora sentido ele confunde um pouco como uma escrita codifica-
culpabilidade que, como uma fatalidade, o conduz ao casti- da à maneira de "hieróglifos". O termo é de Freud. Ele mos-
tra que nós nos situamos sempre na Antigüidade ou melhor,
go?
Excetuando esta transposição da situação edipiana para entre o Egito da Esfinge, seus enigmas e a Grécia de Sófocles.
uma peça do teatro elisabetano, é interessante observar, desde Para compreender o sonho, devo, portanto, decodificar o
já, o fato de Freud recorrer à mitologia grega ou latina, quer sentido do conteúdo manifesto, mas tal decodíficação é uma
se trate dos próprios mitos, dos deuses ou dos heróis. São primeira etapa. É preciso, em seguida, iniciar a interpreta-
eles que infiltram, por assim dizer, a terminologia freudiana ção, como um pianista abandona pouco a pouco o estágio
e determinam as noções essenciais: catarse, Édipo, eros da decifração da partitura para de fato interpretar a totalida-
(pulsão de vida), tánatos (pulsão de morte) libido. Voltare- de do trecho de maneira artística. Este exemplo, podemos
mos ao assunto. imaginá-lo, não é de Freud, que prefere, de longe, a literatura
Dois anos após a descoberta de Édipo, Freud publica A e as artes plásticas. Mas a comparação com a obra de arte
in terp reta çã o d o s so n h o s. Esta obra fixa os primeiros gran- justifica-se e é Freud quem estabelece esta afinidade entre a
des princípios da psicanálise. Freud já entrevira, em si mes- criação artística e o sonho, entre o artista e o neurótico.
mo, a importância do sonho, sobretudo após o enterro de
seu pai. Além disso, todas as suas observações sobre paci-
" G r a d iv a "
entes atingidos por perturbações psíquicas de origem neu-
rótica atestam curiosas correlações entre as alucinações ou
No início do século XX, Freud dispõe assim de dois
os sonhos contados pelos doentes e seus estados clínicos.
instrumentos teóricos, provindos da teoria psicanalítica, a
Não seria o sonho a manifestação de pulsões inconscientes,
fim de continuar sua reflexão sobre a arte e sobre os meca-
recusadas pelo sujeito em estado de vigília e uma maneira,
nismos da criação: o complexo de Édipo e a simbólica dos
para ele, de realizar com total impunidade, desejos
sonhos. É grande a tentação de para eles encontrar uma
recalcados? E se admitirmos que a pulsão erótica seja a mais
aplicação. A ocasião surge em 1907. Ao visitar Freud, Carl
primitiva e a mais poderosa de todas, podemos imaginar
Gustav ]ung chama sua atenção para um pequeno romance
que ela vá se manifestar no sonho de maneira dissimulada,
de Wilhelm ]ensen - escritor alemão pouco conhecido -
edulcorada e simbólica. A censura está vigilante: interditos,
chamado G ra d iva . Trata-se de uma simples novela, publicada
tabus se multiplicaram por causa da educação moral, social,
em 1903, batizada "Fantasia pompeana", um tema bastante
religiosa. O sonho realiza, portanto, um trabalho de
banal: uma história de amor convencional em que os dois
maquiagem das pulsões recalcadas; um trabalho relativa-
Terceira Parte
AsZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
R U P IU R A S
o D E C L ÍN IO D A T R A D IÇ Ã O
~i
I:
B a u d e la ir e e a M o d e r n id a d e
I
Em 1828, Hegel julga ter chegado ao fim da arte ro-
I mântica. Imagina-se já no "limiar da arte moderna", na espe-
ra iminente de uma nova época em que o artista aparece
enfim totalmente livre de escolher o conteúdo e a forma de
suas obras.
Mas um século separa o romantismo do século XIX e o
cubismo do século xx. A soleira alarga-se bem mais do que
as previsões de Hegel, pois a herança clássica e neoclássica
não acaba de consumir-se. Ela ainda se mantém nas con-
cepções estéticas dos pensadores e dos teóricos da
modernidade, quer se trate de Marx, de Nietzsche e mais
tarde de Freud. Eles não ignoram a arte de seu tempo, mas
recusam-se a perceber os novos laços que ligam a criação
artística às mutações de sua época. Mesmo a fascinação de
Nietzsche pelas inovações musicais de Wagner alimenta-se
da esperança de ver renascer o coro da tragédia antiga.
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q u e é e s té tic a ? Marc j i m e n e z 277
É verdade também que Hegel prediz o sucesso da esté- das c o r r e s p o n d ê n c i a s = Ele nega ao "professor-juramentado",
tica, isto é, de uma filosofia da arte que - como toda filoso- a esse "tirano rnandarim", a esse "ímpío que se substitui a
fia - chega sempre, podemos lembrá-Io, a p ó s os aconteci- Deus", o direito de apenas pronunciar-se sobre a beleza'
mentos, isto é, tarde demais. Esta predição, muito mais con- porque o "belo é sempre bizarro" e porque um "belo banal';
vincente do que a pretensa morte anunciada da arte, define é um absurdo.
a sorte que marca doravante o discurso teórico sobre a arte: Numa palavra, diante da beleza da vida moderna a
o filósofo esteta assiste, impotente e às vezes deslumbrado, tarefa mais urgente da estética é a de se calar pois "todo
ao desfile ininterrupto e precipitado, das escolas, das ten- mundo concebe sem dificuldades que, se os homens en-
dências e dos movimentos ébrios de novidade, de carregados de exprimir o belo se conformassem às regras
modernidade e de rupturas. dos professores-juramentados, o próprio belo desapareceria
Em 1855, Baudelaire fustiga em vão os "modernos pro- da terra"."
fessores juramentados de estética", desconcertados pelos "fru- Baudelaire assume a herança romântica do gênio
tos" de uma pintura inédita "cujo gosto engana e desloca os indefinível e imprevisível, audaciosamente insurgido contra
sentidos"; espíritos saudosistas assombrados pela irrupção o credo acadêmico do progresso irreversível de uma arte
de um mundo de "harmonias novas" e de uma "vitalidade com vocação pedagógica e moral: "O artista somente de-
desconhecida" .1 pende de si mesmo. Promete aos séculos futuros apenas
Que reações esperar desses "winckelmanianos" atrasa- suas próprias obras. Só responde por si mesmo. Morre sem
dos, imobilizados em seu racionalismo acadêmico? Baudelaire filhos. Foi s e u r e i ] s e u s a c e r d o t e e s e u Deus'.'
responde: "O insensato doutrinário do Belo, sem dúvida, Dois anos após estas linhas, Baudelaire publica a obra
diria disparates; fechado na obstinada fortaleza de seu siste- "escandalosa", L e s f l e u r s d u m a l (1857). Crítico de arte e
ma, blasfemaria contra a vida e a natureza e seu fanatismo sobretudo não esteta, conhece os escândalos, defende ar-
grego, italiano ou parisiense, o persuadiria a proibir este dentemente as dissonâncias de uma vida bela e efêmera
povo insolente de gozar, de sonhar ou de pensar por outros assim como as discordâncias repetidas da arte moderna. Até
processos que não os seus próprios". a morte, em 1867, ele consegue recensear esses escândalos;
Baudelaire não é mais brando com a estética reduzida sua sucessão desenrola-se ainda em ritmo lento. Todos são
ao estado de "ciência manchada de tinta, gosto bastardo, para ele ocasiões para desmentir a comprovação chorosa de
mais bárbaro do que os bárbaros, que esqueceu a cor do Michelet em 1860: "Não criamos mais, a história matou a
céu, a forma do vegetal, o movimento e o odor da anima li- arte". Baudelaire não somente o contradiz, mas demonstra a
dade e cujos dedos crispados, paralisados pela pena não inépcia desse l a m e n t o de inspiração hegeliana: digamos antes
podem mais correr com agilidade sobre o imenso teclado
"lbid.
lIbid p.238.
'Charles Baudelaire, C r itiq u e d 'a r t suivi de C r itiq u e m u s ic a le , "Exposition
universelle de 1855", Paris, Gallimard, Folio essais,1992, p.237. <Ibid. p.241.
_1_
por demais rapidamente recuperado pelo academismo e o
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M O D E R N ID A D E E VANGUARDA
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q u e é e s té tic a ? M a r c jim e n e z 289
vem esta pretensa violência? De Duchamp-Villon, irmão de de quase três metros, em bronze, com os pés solidamente
Mareei Duchamp, de Braque, de Picasso e outros "cubistas'' plantados no chão, ao contrário do andar aéreo de Gradiva
qualificados de "bando de malfeitores que se comportam que parece querer a qualquer momento abandonar a pedra
no mundo das artes como os apaches na vida comum". Es- de seu baixo-relevo. Que pensa dele o jovem Picasso, ele
tranha perspicácia da parte dos censores institucionais e dos também presente no mesmo local e que descobre o artista
gendarmes da tradição - que se confundem com os guardas no auge de sua glória? Poderá ele pensar, por um único
da ordem estabelecida - e não tem quem os iguale para momento, na igual celebridade que o espera e
o fará gozar,
encontrar com um faro infalível, às vezes antes dos próprios alguns anos mais tarde, de uma fama universal?
artistas, o ponto exato em que a arte moderna incomoda. Mas voltemos a este sujeito bastante robusto que pare-
Nesse ano de 1912, na época em que Picasso abando- ce decidido a avançar a qualquer preço para um destino
na o cubismo analítico por um cubismo sintético baseado desconhecido enquanto permanece pregado no chão. Para
nas colagens e nos papéis colados, o quadro destinado a quem não conhece o cuidado particular de Rodin em não
violentar a sensibilidade artística das gerações futuras já está terminar suas obras, o colosso causa, de fato, estupefação: é
acabado. Ele é pré-cubista, pouco conhecido do público, e desprovido de cabeça. Visto de frente, o espetáculo é estra-
traz um nome propenso à confusão, pelo menos em fran- nho, mas apenas isso: quantas estátuas gregas decapitadas
cês: as D e m o i s e l l e s d 'A u i g n o n , e x - B o r d e l pbilosopbique, alu- por acidente não se oferecem, sem complexo, à admiração
são a uma honrada casa do bairro de Avinyo de Barcelona. dos arqueólogos e dos turistas? É quando é visto de perfil,
As senhoras com rosto de lua crescente - metade de sobretudo pelo lado direito, que a estranheza se transforma
c a m e m b e r t para os que não gostam, máscaras africanas para
em angústia: será possível, razoavelmente, caminhar sem
os admiradores - até hoje não acabaram de comunicar seu cabeça? E para ir aonde?
segredo. Este quadro de 1907 está para a pintura moderna O ano de 1900 é também, estamos lembrados, a data
assim como está para a música o Q u a r t e t o d e c o r d a s n° 2 em de publicação da obra maior de Freud, A i n t e r p r e t a ç ã o d o s
fá sustenido menor de Arnold Schonberg, primeira tentativa s o n h o s . Na soleira do século XX, o homem, seguro de si
de escrita atonal à qual se arrisca o compositor vienense. mesmo, consciente de seu progresso, de sua economia, de
Estas duas obras, consideradas pela posteridade como sua ciência, de sua arte e de sua política, descobre em si
emblemáticas das rupturas surgidas na arte ocidental, ins-
uma falha. Mais ainda: é-lhe revelado seu calcanhar de
tauram um momento de irreversibilidade: elas consagram a
Aquiles sob o aspecto de pulsões inconscientes que ele não
herança do passado ao mesmo tempo em que abrem o vas-
domina e que, todavia, comandam o conjunto de sua ativi-
to campo da criação do século XX que nenhum artista con-
dade. Em outras palavras, o mundo que ele se empenha em
temporâneo poderia pretender ter acabado de explorar to-
construir de forma racional é largamente o produto de seus
talmente.
fantasmas incontrolados e quase incontroláveis.
Em 1900, no pavilhão da Exposição universal, especial-
O gigante de Rodin impressiona por sua musculatura,
mente reservado a Auguste Rodin (1840-1917) o público,
estilo M o i s é s de Michelangelo, porém pertence ao seu tem-
boquiaberto, contempla o H o m m e q u i m a r c h e : um gigante
po e está muito longe da Renascença; sobretudo, diferente-
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q u e é e s t é t i c a ? zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA M a r c J im e n e z 291
mente de seu "irmão" L e P e n s e u r , outro atleta espantoso, ao George Grosz, Otto Dix, Kurt Schwitters, Hans Arp, Max
mesmo tempo filósofo e poeta; os sonhos lhe são proibi- Ernst, distinguem-se neste tipo de composições "alquímícas"
dos, a reflexão também e, naturalmente, o sentido de orien- que subvertem a percepção habitual do mundo e colocam
tação. Compreendem-se melhor as reticências deste corpo no banco dos réus uma realidade angustiante. Em 1921,
sem cabeça, que é, contudo, uma obra de arte, em avançar; dois anos antes da autodissolução da mais revoltada das
não estará ele encarnando, sozinho, todas as rupturas e as vanguardas, numa grande tela bizarramente intitulada L 'o e i l
fraturas de um século que se prepara a cristalizar uma parte c a c o d y l a t e , Francis Picabia, imprevisível "farsante" da arte,
de seus mais atrozes e mais concretos conflitos ao redor da instiga os Dada e seus aparentados a colar o que bem en-
questão da arte? tenderem e a assinar cada um por sua vez. Gesto iconoclasta
Simples datas não fazem a história, mas há convergên- que zomba da arte, ao qual se associam, sobretudo, Man
cias, que merecem atenção: Rodin morre em 1917, ano de Ray, Tristan Tzara e ... Marcel Duchamp.
sinistra memória para o fronte franco-alemão; o movimento Marcel Duchamp, exatamente, companheiro um pouco
Dada funda uma galeria, começa a expor e publica sua re- afastado de Dada, que se associa, também sempre distancia-
vista em Zurich. Dada é formado por pintores, poetas, es- do, ao M a n i f e s t e d u s u r r é a l i s m e p u b l i c a d o por André Breton
cultores que, em Paris, New York, Berlim, Colônia, Muni- em 1924. Duchamp que, a partir de 1914, começa a semear,
que, Hanover, Barcelona, lançam o mesmo grito de deses- no campo já caótico da arte, pequenas bombas de efeito
pero e de revolta contra a guerra, contra a arte ilusão, contra retardado: uma R o u e d e b i c y c l e t t e , um P o r t e - b o u t e i l l e s . São
o belo enganador, contra o egoísmo de uma sociedade ca- objetos já feitos, produtos industriais e estandardizados,
paz de exterminar milhões de homens. Por isso, todos os r e a d y - m a d e , acessíveis no comércio, que o artista desloca
meios são bons, da provocação niilista à zombaria amarga, de seu lugar habitual, desvia de suas funções prosaicas e
da cólera ao humor, para mostrar que a arte e os artistas não utilitárias e deseja expor nos espaços consagrados, galerias
podem permanecer indiferentes nem neutros diante da his- e exposições.
tória real. Portanto, "rnerda para a beleza!", exclama Dada e Em 1917, decididamente, a maior das bombas: um
isto é de tal forma verdade que não se pode pintar, escrever, U r i n o i r , assinado com o pseudônimo R. Mutt, batizado
esculpir "belo" sobre um fundo de cadáveres em pedaços, F o u n t a i n . A partir dessa data até os nossos dias, estas minas
sanguinolentos e empilhados em trincheiras de nome tão de efeito retardado não param de explodir em intervalos
atrozmente evocativo. regulares, causando desordem e confusão nas fileiras dos
Nenhuma forma artística poderia ser conveniente para artistas e da crítica de arte. Rebeldes a qualquer tentativa de
exprimir e denunciar esta realidade mutilante e mutilada a desmontagem, elas conseguem, às vezes, fazer esquecer o
não ser aquela que resulta da disposição aleatória de frag- pintor do N u d e s c e n d a n t u n e s c a l i e r (911), de L a m a r i é e
mentos de matéria e de materiais colados segundo as leis de m i s e à n u p a r l e s c é l i b a t a i r e s e de L a b r o y e u s e d e c h o c o l a t
um arbitrário, de fato rigorosamente controlado. Todos os (9 1 3 ), L a jo c o n d e (919) enfeitada com barba e bigode,
dadaístas e os que estão próximos do movimento Dada, assinada LHOOQ, não é um r e a d y - m a d e , mas precede de
alguns inspirados pelo futurismo e pelo expressionismo, pouco a passagem ao ato final, último gesto "artístico" de
o objeto do último capítulo: "A guinada cultural da estética". época artística se define graças ao seu estilo, isto é, pelos
traços característicos formais próprios das obras representa-
tivas de um dado período e de uma dada sociedade. Ao
A te o r ia e s té tic a e as vanguardas estudar comparativamente o estilo clássico e o estilo barro-
co e a passagem de um a outro, Wólfflin mostra assim que o
Já indicamos o relativo atraso da estética diante do rit- linear (Dürer) opõe-se ao pictórico (Rernbrandt), o plano à
mo imposto pela arte moderna e pela rápida sucessão das profundidade, a forma fechada à forma aberta, a claridade
diversas vanguardas. absoluta à obscuridade relativa, a pluralidade à unidade. O
Uma primeira explicação para esta defasagem de certa estilo evidencia-se então como a expressão do estado de
forma rende homenagem a Hegel: diante das transforma- espírito de um povo em um dado momento de sua história
ções e das rupturas da modernidade, a interpretação estéti- que rege a criação particular dos artistas.
ca e filosófica intervém senão tarde d e m a i s , pelo menos Croce recusa esta dependência da obra em relação a
m a i s tarde. Ela precisa de um certo tempo para responder à estruturas globais e a princípios gerais de organização; pelo
espontaneidade criadora dos artistas e à subitaneidade das contrário, privilegia a obra concreta e singular, negando a
inovações: apenas cinqüenta anos entre o B a i n t u r c (Ingres) fatídica distinção entre a forma e o conteúdo, visto que a
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q u e é e s té tic a ? M a r c [imenez 299
sionistas de Arnold Schonberg, pintor e compositor; no das rupturas, a procura frenética da novidade, o radicalis-
mesmo ano, Schonberg publica seu T r a t a d o d e h a r m o n i a ; mo, pelo menos teórico, da tábula rasa em relação ao passa-
porém, esta obra de técnica musical, que prega o alarga- do, o extremismo das posições antiarte, a virulência das re-
mento da tonalidade para os 12 tons da escala cromática, ações do público, das instituições e do poder político diante
inscreve-se em preocupações que vão além de problemas das incessantes provocações. Em suma, a arte torna-se um
puramente composicionais. Schónberg sabe que está rom- problema maior e a estética, domínio outrora periférico, tor-
pendo com quatro séculos de tradição musical e que tal na-se central nas preocupações teóricas.
ruptura provoca uma transformação cultural de grande am- O início do século XX é marcado, em filosofia, por
plitude: "Nossa época interroga-se muito. Que encontrou várias guinadas significativas: marxismo, fenomenologia,
ela: o conforto? Ele invade até mesmo o domínio das idéias existencialismo, lingüística orientam a reflexão e fazem es-
e o torna confortável demais para nosso bem". cola, e a época contemporânea sofre ainda, em graus diver-
Nessa data, Schonberg ainda ignora quais são as amea- sos, a influência dessas grandes correntes de pensamento.
ças que pesam sobre este "conforto". Porém, uma das mais importantes guinadas é, sem dú-
vida, a guinada estética da filosofia na medida em que estas
diversas formas de pensamento, neste ou naquele momento
P r e lú d io s à s g u in a d a s d o s é c u lo :xx de seu desenvolvimento, encontram a questão da arte e mais
geralmente o problema da cultura e, sobretudo, o de sua
Os artistas das primeiras vanguardas e os da entre-guerra finalidade e de seu papel na sociedade moderna.
são de fato, como já o dissemos, os primeiros teóricos de A filosofia de Nietzsche, particularmente o status privi-
suas próprias obras. Práticos e teóricos de gênio - como se legiado que confere à arte e à estética, constitui a espoleta
dizia no século precedente - exploram eles as múltiplas decisiva dessa guinada: evidentemente, a arte é uma ilusão
possibilidades oferecidas por suas épocas para a utilização e uma consolação, mas é também, segundo Nietzsche, a
de materiais e de novos processos e para a escolha de for- atividade metafísica e filosófica por excelência. Esquemati-
mas inéditas. Enquanto filósofos, interrogam-se sobre as zando ao extremo, poderíamos dizer que o mundo deve ser
implicações sociais, políticas, até mesmo metafísicas, da arte visto, doravente, do ponto de vista da arte.
moderna. A arte, todavia, mudou; ela não reflete mais, como no
Após a passagem da impetuosa vaga dos "isrnos", a passado, a imagem harmoniosa de um universo sublimado
partir dos anos 20, a filosofia dita acadêmica, largamente e colocado sob a transcendência de um belo ideal. Ela se
herdeira de Kant e de Hegel, não pode mais, decentemente, secularizou num mundo submetido à crescente racionaliza-
considerar a arte e a estética como simples complementos ção de todas as atividades humanas, endurecido por clivagens
de um sistema já constituído, relegados, bastante tarde, para ideológicas conflitivas e sacudido por revoluções de caráter
os confins de uma doutrina, atrás da teoria do conhecimen- social, econômico e político. O engajamento militante das
to, da lógica ou da moral. Demasiados acontecimentos pro- vanguardas, quer se trate do anarquismo ambíguo do fu-
vam o caráter essencial da criação artística: a exacerbação turismo italiano ou da adesão dos surre alistas ao comunis-
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q u e é e s té tic a ?
I M a r c jim e n e z 301
I
mo, não permite mais considerar a modernidade artística nece potencialmente perigoso, ele traz um enfraquecimento
como um fenômeno histórico e ideologicamente neutro. I das exasperações ideológicas. O desenvolvimento dos mei-
Esta modernidade, todavia, se expõe a interpretações os de reprodução, as possibilidades de difusão maciva e o
contraditórias: será ela a expressão negativa de um "declínio acesso de um público cada vez maior a todas as formas da
do Ocidente" ou então aquela, positiva, de um mundo em arte moderna e contemporânea modificam em profundida-
progresso cujas primícias eram constituídas pelas vanguar- de a percepção dos interesses da criação artística. Se o final
das? dos anos 60 vê ressurgir os ideais vanguardistas dos anos
É esta uma questão primordial que encerra a estética 20, a vontade de revigorar o projeto de emancipação e de
da primeira metade do século xx: em controvérsias particu- transformação formulado pelos movimentos radicais da época
larmente vivas até a época subseqüente à Segunda Guerra fracassa diante da ascensão do poder da sociedade de con-
Mundial. De um lado, a arte moderna cristaliza o que o sumo e da civilização dos lazeres. O fato de o apogeu do
filósofo alemão Max Weber chama "o desencantamento do crescimento nas sociedades ocidentais marcar ao mesmo
mundo", mas escondendo a esperança, muito freqüentemente tempo seu declínio e coincidir com o fim dos famosos Trin-
utópica, de que a criação artística pode contribuir para a ta Gloriosos nada muda no desenvolvimento sem prece-
instauração de um futuro se não idílico, pelo menos melhor. dentes das indústrias culturais. A instituição de poderosos
De outro lado, ela polariza as consciências individuais e sistemas de produção e de distribuição de objetos culturais
coletivas em oposições irredutíveis: a arte moderna e as van- acelera a integração de todas as formas de uma arte passada
guardas conseguem a proeza inaudita de se exporem ao e atual no circuito complexo e, às vezes, imprevisível, da
ódio dos fascismos e à execração do stalinismo, regimes promoção e da valorização econômica.
totalitários inimigos, unânimes, contudo, em suas condena- Esta guinada c u l t u r a l da estética sobre um fundo de
ções de uma arte considerada degenerada ou decadente. crise leva, a partir dos anos 80, a um reexame crítico das
Excetuando tais paroxismos, em que a arte é usada aquisições da vanguarda e da modernidade. E os fenôme-
para finalidades de pura e simples propaganda, a querela nos que caracterizamos ainda hoje, sem dúvida apressada-
dos Antigos e dos Modernos conhece, no restante das de- mente, com as denominações "pós-modernas" e um pouco
mocracias, uma nova versão muito mais áspera do que a do necrológicas de "desaparecimento das vanguardas", "morte
século XVII: ela opõe, doravante, reacionários e progressis- da arte" e "fim da crítica", obrigam a estética a aceitar novos
tas, burgueses conservadores e revolucionários utopistas desafios.
sobre um fundo de lutas ideológicas, elas próprias expres- Mais do que nunca cabe a ela demonstrar a falsidade
sões das tragédias sangrentas da história real. A guinada deste balanço e desempenhar seu papel: ajudar na interpre-
e s t é t i c a da filosofia transformou-se assim, rapidamente, em tação das novas obras, dissipar as zonas de sombra e de
guinada p o l í t i c a da estética. incompreensão que obscurecem as relações entre o público
Será preciso esperar o início dos anos 60 para que a e a arte atual, e acompanhar a aventura imprevisível, sem-
querela político-estética se atenue progressivamente. Se o pre inédita e intempestiva, da criação artística.
arrefecimento dos conflitos entre o Leste e o Oeste perma- Porém, antes de nos interrogarmos sobre o presente e
A s GUINADAS 00 SÉaJLO X X
A G U IN A D A P O L ÍT IC A D A E S T É T IC A zyxwvutsrqponmlkjihgfedcba
tanto, perecíveis ao longo da história podem cessar de ser um ponto de vista global sobre o sentido da existência , ele
históricas e chegar a impor-se ao longo dos séculos, até constata, mas evidencia indiretamente uma forte e invasora
mesmo dos milênios, como valores supostamente eternos? nostalgia da totalidade perdida. Após o declínio da epopéia
Lukács esboça um início de resposta em A a lm a e a s homérica, resta a forma que recolhe exatamente a tragédia
fo rm a s (1910). O tema central deste ensaio diz respeito à do divórcio entre a vid a e a vida, entre o essencial e o
relação entre a alma humana e o absoluto e a possibilidade inessencial, entre o autêntico e o inautêntico; temos quase
de o indivíduo dar um sentido essencial à própria vida. Ora, vontade de falar da tragédia que é a separação entre o mun-
a vida atual, alienante, desiludida, desprovida de ideal, é do das Idéias e sua pálida copia na realidade, e de evocar o
inautêntica. Não é mais possível dar-lhe uma forma, tanto corte platônico entre o inteligível e o sensível, na medida
na realidade, na experiência vivida quanto na literatura, e em que o próprio Lukács considera Platão como um dos
mais geralmente, na arte. O artista não é aquele que elabora primeiros autores ensaístas conhecidos.
e p õ e em fo rm a os dados brutos da vida empírica a fim de Lukács detém assim um elemento de resposta para a
sugerir uma vida, evidentemente ilusória, porém mais es- interrogação de Marx: a arte que perdura a despeito da his-
sencial do que a vida real? tória é aquela que, sempre, uma vez esquecida a felicidade
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da Grécia original, põe em forma a tragédia fundamental da mento "mais profundamente antigrego", isto é, o dos inícios
existência humana. Esta forma não é uma norma etern a , da filosofia. Ora, a filosofia é sempre "o sintoma de uma
mas essen cia l: ela traduz o drama permanente e atemporal falha essencial entre o interior e o exterior, significativa de
do indivíduo ao tomar consciência de que a vida é "uma uma diferença essencial entre o eu e o mundo, de uma não-
anarquia do claro-escuro", de que "nela, nada se realiza to- adequação entre a alma e a açào"."
talmente" e de que "nunca alguma coisa vai até seu termo". Para Lukács, a época presente é mais do que nunca a
Será o pressentimento de uma catástrofe iminente que da filosofia, isto é, do esquecimento das origens, da essên-
impele Lukács a evidenciar em 1911 um pessimismo e uma cia; tempo de nostalgia em que "o céu estrelado de Kant
consciência da morte que parecem responder como um eco somente brilha ainda na escura noite do puro conhecimen-
às primeiras provocações vanguardistas: "A verdadeira vida to" onde ele cessa de "iluminar o caminho de cada homem";
é sempre irreal, sempre impossível para a vida empírica. e "no mundo novo, ser homem é ser só", precisa Lukâcs.' A
Alguma coisa resplandece, estremece, resplandecendo mais questão é saber que tipo de literatura, que arte, que forma
além de seus caminhos percorridos; alguma coisa que per- estética convêm doravante a esta civilização ocidental dila-
turba e seduz, alguma coisa de perigoso e de surpreenden- cerada, supondo que ainda lhe seja possível dar um sentido
te, o acaso, o grande instante, o milagre. Um enriquecimen- ao seu destino.
to e uma perturbação: isto não pode durar, não seria possí- Em A a lm a e a s fo rm a s , Lukács privilegia o ensaio, mas
vel suportá-lo, não se poderia viver nas alturas - nas alturas a forma deste ensaio é limitada; ela não é senão a expressão
de sua própria vida, das possibilidades últimas e próprias. da recusa das consciências solitárias aspirando em vão à
Deve-se recair novamente na apatia, deve-se renegar a vida essência. Ora, a época moderna exige expressões literárias
para poder viver'?' capazes de corresponder a atitudes humanas coerentes e
Entre 1914 e 1915, a catástrofe cessou de ser uma vir- suscetíveis de exprimir a totalidade "extensiva" da vida. En-
tualidade, e Lukács termina a redação de sua grande obra, tre os gregos, a epopéia homérica desempenhava perfeita-
uma das mais conhecidas, em plena guerra, A teo ria d o ro - mente este papel; ela dava conta dessa totalidade, com muita
m a n ce. O mito original da Grécia constitui a tela de fundo evidência e naturalidade; ela devolvia a imagem idílica de
sobre a qual Lukács expõe a evolução histórica e filosófica uma harmonia entre o homem e a natureza, entre as criatu-
I
das grandes formas épicas. Esta Grécia é a da epopéia, dos ras e os deuses, entre a vida terrena e a transcendência do
tempos bem-aventurados que podiam "ler no céu estrelado ./ além.
o mapa dos caminhos que lhes são abertos e que eles de- Mas nada disso é mais possível. Lukács recebe as lições
vem seguir". de Hegel e de Marx: a epopéia (homérica) - assim como a
Mas esta Grécia é também a do platonismo, do pensa-
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tragédia de tipo clássico - é uma forma literária própria da consiste em saber se o romance permanece a forma ade-
infância e da juventude da humanidade e, portanto, de uma quada para a era da "perfeita culpabilidade"; será esta forma
época passada. Hoje, somente convém uma outra grande bem representativa de um mundo lacerado que reduz todas
forma épica, isto é, o romance, "forma literária da maturida- as coisas humanas, inclusive o homem, ao estado de sim-
de viril". Por que o romance? Porque, diferentemente do ples objetos, sujeitos a interesses políticos e econômicos?
ensaio, que atesta a impossibilidade de aceder à reconcilia- Ou já deveremos pressentir, como em Tolstoi, a emer-
ção eZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
à totalidade, o romance repousa sobre a ação de um gência de uma "nova época da história mundial"? No autor
herói, por exemplo um louco ou um criminoso, capaz de de A n n a K a ren in a , esta nova era aparece somente em
encarnar e de assumir os aspectos mais contraditórios da filigrana, simples esboço abstrato e nostálgico. A perspecti-
existência, ou seja, a totalidade da vida. Assim, Lukács defi- va de uma transformação é mais nítida no autor de C rim e e
ne o herói romanesco como "problemático"; este herói é, o ca stig o , onde os contornos do mundo novo são traçados de
mais das vezes, a projeção do próprio romancista em sua maneira objetiva. É interessante ler esta bela passagem que
obra, prisioneiro do mundo social e cultural - mundo "con- encerra A teo ria d o ro m a n ce: "[Dostoievskil pertence ao
vencional" e reificado - porém, em busca, permanente e mundo novo e somente a análise formal de suas obras po-
desesperada, do absoluto e de valores autênticos. derá mostrar se ele já é o Homero ou o Dante deste mun-
Destinada a servir de introdução a um estudo sobre do.l. .. .J se ele é apenas um início ou já é uma realização. E é
Dostoievski, A teo ria d o ro m a n ce já inicia uma guinada de- somente então que a interpretação histórico-filosófica terá a
cisiva no itinerário intelectual e filosófico de Lukács. A pro- tarefa de dizer se estamos efetivamente no ponto de aban-
cura de formas literárias capazes de descrever a decadência donar o estado de perfeita culpabilidade ou se simples es-
do mundo ocidental contemporâneo e particularmente da peranças anunciam o início de uma nova era - sinais de um
sociedade burguesa significa que o filósofo abandona a re- futuro ainda tão fraco que a força estéril do que se limita a
ferência ao modelo de uma Grécia mítica, muito afastada existir pode ainda aniquilá-lo com uma simples brincadei-
das realidades presentes, como se houvesse, de certo modo, ra.:"
um esgotamento da nostalgia em relação a um universo ir- Em 1918, Georg Lukács adere ao recente Partido Co-
remediavelmente perdido. Porém, imergir na história e nas munista húngaro, dois anos antes da publicação de A teo ria
sociedades contemporâneas através de uma forma roma- d o ro m a n ce. Em A a lm a e a s fo rm a s, Lukács apaixonara-se
nesca e graças à intermediação de um herói confrontado pelo gesto de Kierkegaard, rompendo seu noivado com
com situações que o ultrapassam, significa considerar que o Regine Olsen, preferindo simular a vida de um sedutor, ávi-
indivíduo não é mais o único dono de seu destino: este do de gozos sensuais a viver de maneira inautêntica no en-
pertence doravante à comunidade da qual depende e a uma gano e na mentira. Gesto existencial, decisivo, graças ao
história, precisamente, cujo curso é importante transformar. qual o filósofo dava um sentido definitivo à sua vida, fo r-
A teo ria d o ro m a n ce não vai muito além desta perspec-
tiva. Ela contenta-se em evocá-Ia, apoiando-se em Tolstoi e
'Ibid. p.lSS.
Dostoievski. Lukács coloca simplesmente a questão que
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na esperança de aceder ao absoluto. Lukács suspei-
m a va -a zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA pela política do Partido, realismo vulgar enaltecido a partir
tava que faltasse autenticidade no empreendimento de de 1934 por Stalin e jdanov, mas o de um realismo bem
Kierkegaard: uma decisão brutal, uma escolha tão categóri- compreendido na linha do grande realismo crítico do sécu-
ca não podiam dissipar todos os equívocos. lo XIX. A arte tem como tarefa realizar a imagem da realida-
O gesto de adesão de Lukács ao marxismo, concretiza- de tal qual ela se reflete na consciência dos homens. E quando
do pela publicação, em 1923, de H istó ria e co n sciên cia d e estes homens imaginam uma realidade transformada pela
cla sse, é incontestavelmente um gesto autêntico, e todavia o revolução, a arte deve tender para uma reprodução que re-
livro faz pesar sobre a obra ulterior do filósofo um equívoco flita fielmente o real.
que ele mesmo nunca conseguirá dissipar. Não é nossa in- Esta teoria do reflexo, em Lukács, não significa que se
tenção expor ou comentar, mesmo sumariamente, as teses deva copiar minuciosamente a realidade para chegar a uma
políticas e filosóficas dessa obra. Condenado pela ortodoxia figuração ingênua e esquemática segundo as concepções
comunista, que julga o texto por demais idealista, H istó ria e estreitas da doutrina oficial do Partido. A realidade refletida
co n sciên cia d e cla sse incita Lukács à autocrítica sem nunca não é um clíchê fotográfico; é uma realidade transfigurada
evitar a armadilha da ambigüidade que lhe vale a acusação pela consciência dos homens e alimentada por sua imagina-
de revisionismo no Leste e de stalinismo dogmático no Oes- ção. O artista autenticamente realista constrói a realidade a
te. partir de um detalhe, de um elemento típico, particular, para
O que nos interessa prioritariamente aqui é a idéia de chegar ao essencial, à totalidade. Se Zola, ao contrário de
que H istó ria e co n sciên cia d e cla sse corresponde a uma gui- Walter Scott, Balzac ou Thomas Mann, não recebe a aprova-
nada política espetacular no pensamento estético de Lukács. ção de Lukács é porque seu naturalismo dos detalhes e dos
A esperança de uma volta à vida autêntica repousa doravante acontecimentos às vezes sórdidos da vida cotidiana lem-
na revolução, no proletariado, na história, todos vistos como bra, sobretudo uma reportagem social; estes "detalhe;" per-
fatores de abertura do horizonte de uma reconciliação entre manecem abstratos, eles não são reintegrados na totalidade
o homem e o mundo, entre os indivíduos e a sociedade. de uma obra coerente.
Talvez não seja exagerado dizer que a revolução proletária Resta, portanto, a espinhosa questão do formalismo,
realiza, doravante, para Lukács, as exigências da Idéia termo pejorativo sob o qual Lukács reúne o conjunto das
hegeliana e que a sociedade desempenha o papel de princí- experimentações formais da arte moderna e das vanguardas
pio transcendente cuja ausência é tão dolorosamente senti- expressionistas, dadaístas ou surrealistas.
da em A a lm a e a s fo rm a s e na T eo ria d o ro m a n ce. Portan- É claro que o privilégio conferido por Lukács à Idéia
to, somente um caminho se abre para a arte: não o das hegeliana, ao conteúdo determinado pelo ideal revolucio-
vanguardas ocidentais que se comprazem na expressão da nário, não o leva a defender uma arte considerada como o
degradação do capitalismo e descrevem de maneira aflitiva reflexo da decadência e da desintegração do mundo mo-
a angústia do indivíduo; não o do romantismo revolucioná- derno. Já em 1934 Lukács estabelece a lista dos formalistas
rio que se satisfaz beatificamente com o retrato idílico dos decadentes que ele avalia pela medida de um realismo
heróis proletários; não o do realismo socialista, escravizado balzaquiano erigído em modelo do realismo crítico. Ele rei-
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M a rc jim en ez 319
homem moderno, "atirado" num mundo desencantado e minados pelo céu estrelado, o universo da dissonância está
desumanizado. É contudo esta vibrante sensibilidade com privado de Deus e de qualquer transcendência, os tempos
as dissonâncias e as desfigurações de um universo mutilado bem-aventurados terminaram e o homem não pode mais
que influencia profundamente, nos anos 20, a orientação aceder ao essencial, à harmonia e à totalidade. Somente o
filosófica e estética de pensadores como Walter Benjamin e marxismo pode abrir ao homem o horizonte de um mundo
novo.
Theodor Adorno.
Esta descrição aflitiva da realidade existente, do "mun-
do vivido", segundo a expressão Husserl, é encontrada qua-
H e id e g g e r eo r e to r n o à s o r ig e n s se idêntica em Heidegger. O "mundo vivido" não é outra
coisa a não ser o meio ambiente dominado pela ciência e
Os escritos de Martin Heidegger (1889-1976) consagra- pela teoria, requisitado pela técnica e pela industrialização.
dos à arte, particularmente à poesia, trazem um outro exem- Uma tal decadência resulta de um longo processo que re-
plo da guinada "política" da estética na primeira metade do monta não à noite dos tempos, mas à Grécia socrática e
século x x . Traduzem eles, igualmente, esta polarização das platônica. Ela está ligada à emergência progressiva da
atitudes e das tomadas de posição negativas contra a arte modernidade e acelera-se ao longo de etapas decisivas:
moderna que encontramos em Georg Lukács. cartesianismo, espírito das Luzes, cientismo e positivismo.
Mais além das oposições políticas e dos antagonismos Evidentemente, para Heidegger, esta evolução não
ideológicos, a marcha intelectual dos dois pensadores apre- corresponde a um progresso, mas a uma lenta e irresistível
senta numerosas semelhanças. Ambos, herdeiros da queda na modernidade, visto que é acompanhada pela
fenomenologia, representam duas grandes correntes da fi- emancipação progressiva do sujeito, pelo triunfo da razão e
losofia moderna, o materialismo dialético, para Lukács, e o pela vitória da racionalidade em seu domínio irreversível da
existencialismo para Heidegger. Ambos se aproximaram das natureza. A idéia de que uma espécie de fatalidade pesa
ou aderiram às duas grandes ideologias totalitárias do sécu- sobre o pensamento ocidental evoca seguramente o niilismo
lo, ao stalinismo e ao hitlerismo. Cada um teve o cuidado de nietzscheano, ponto de chegada ao qual conduz a perda do
conservar uma postura propriamente filosófica, adotando sentido metafísico.
uma distância prudente - e, portanto, equívoca - em rela- A questão ontológica, a do Ser doravante perdido, es-
ção às realizações políticas concretas dessas ideologias. quecido pelo homem, está no centro da filosofia heídeg-
Antes de seus pensamentos tomarem caminhos diver- geriana. A emergência da subjetividade, a autonornização
gentes, suas concepções sobre a filosofia da história e seus progressiva do indivíduo, que nos apareceram como fenô-
diagnósticos sobre sua época procedem de uma mesma menos históricos be~éficos em estética, são consideradas
análise. Lembramos o profundo pessimismo que pesa sobre por Heidegger como sinais patentes do declínio: o homem
as primeiras obras de Lukács, A a lm a e a s fo rm a s e A teo ria não somente erradicou os mitos, liquidou a teologia, mas
d o ro m a n ce: uma "perfeita culpabilidade" reina no mundo cortou o caminho que o conduzia à essência das coisas,
em declínio, o homem vagueia por caminhos não mais ilu- inclusive à de sua própria essência. O resultado, ou seja, a
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Benjamim permanece "afastado de todas as correntes", se- dade. Uma obra de arte foi criada num momento e num
gundo a expressão de Adorno: nem Moscou, nem Jerusa- lugar precisos, de forma única, e esta unicidade explica por
lém, nem Frankfurt! que as obras de arte antigas, as que encontramos nos locais
Paris, a "capital do século XIX" simboliza para ele as de culto, igrejas ou santuários, parecem rodeados de misté-
contradições da modernidade, as mesmas que Baudelaire rio: conservariam elas, secretamente, a lembrança de seus
consegue expressar na forma da criação poética: como po- esplendores passados e do efeito que produziram sobre os
demos continuar a escrever poemas em plena revolução que as contemplavam? Benjamin lembra-nos as origens his-
industrial, no "apogeu" do capitalismo? É a Paris que o con- tóricas da arte, quando esta estava ligada a práticas mágicas,
duz finalmente o exílio, com a esperança de freqüentar o rituais e culturais que nossa civilização esqueceu. Toda tra-
grupo surrealista. As relações não dão certo, porém ele en- dição é constituída sobre a base do caráter transmissível da
contra Louis Aragon, Julien Green, Pierre Jean Jouve, André autenticidade e da aura de uma obra, e a função do rito é
Gide, Mareei Jouhandeau. Raymond Aron considera notável precisamente o de ajudar esta transmissão da herança anti-
seu ensaio sobre A o b ra d e a rte n a ép o ca d e su a rep ro d u çã o ga.
m ecâ n ica (redigido em 1936), e a primeira versão francesa Mas as técnicas modernas de reprodução de massa não
do texto é estabelecida por Pierre Klossowski, revista pelo têm mais necessidade dessa mediação tradicional: elas agem
próprio Benjamin." na rapidez e na simultaneidade. Que lhes importa uma aura
Em algumas páginas, Benjamin procura analisar a in- que não podem, aliás, conservar nem comunicar! O que
fluência das técnicas modernas de reprodução e de difusão interessaà época moderna, pragmática, materialista, coloca-
sobre a obra de arte. Mais precisamente, pergunta se o fato da sob o signo do dinheiro, é reproduzir, trocar, expor, ven-
de multiplicar uma obra de arte para apresentá-Ia simultane- der. O declínio progressivo da aura significa que as obras
amente a uma multidão de espectadores afeta ou não o perdem seu valor de culto; além disso, se lhes é atribuído
original. A pergunta pode parecer estranha, pois não se vê um valor de troca que as torna negociáveis como qualquer
em quê uma cópia ou uma reprodução mudariam seja o bem de consumo.
que for no primeiro modelo, que permanece original acon- Portanto, Benjamin interpreta este fenômeno como uma
teça o que acontecer. Ora, segundo Benjamin, alguma coisa degradação da arte: o desaparecimento inelutável da arte
muda, que é menos o original em si mesmo do que a rela- traz um empobrecimento das experiências estéticas basea-
ção entre o público e a obra original propriamente dita. Esta das na tradição e corresponde a uma transformação cultural
alguma coisa ele a chama "aura", espécie de halo que nimba sem precedentes. Todavia, ele não se atém a este aspecto
certos objetos - ou certos seres - com uma atmosfera etérea, pessimista. A perda da aura não teria seu lado positivo? As
imaterial e que confere ao original um caráter de autentici- técnicas de reprodução, como a fotografia e o cinema, que
tendem a se tornar independentes e atraem para si um pú-
blico cada vez mais vasto, não poderiam servir a fins cultu-
"ensaio foi traduzido ulteriormente com o título "L 'o e u u re d 'a rt à l'ê re d e s a rais e políticos como distrair as massas e ao mesmo tempo
rep ro d u cu b itité tech n iq u e".
pô-Ias em guarda contra a ascensão dos poderes infernais?
Pesquisas Sociais dirigido por Adorno e Max Horkheimer, uma minoria de privilegiados, preocupada em a firm a r a
Herbert Marcuse publica um artigo intitulado "sobre o cará- existência desse mundo ideal, em princípio reservado a to-
ter afirmativo da cultura" .19 dos e destinado a servir de modelo às condutas humanas.
Este texto é importante por duas razões. De um lado, Mas este mundo ideal - universo da sublimação - apre-
confirma o lugar predominante da arte e da estética nas sentava pelo menos uma vantagem: constituía um poderoso
preocupações filosóficas da época; ele é testemunha da rup- estimulante para o desejo de transformar a realidade coerci-
tura com os grandes sistemas idealistas, como os de Kant e tiva, até mesmo de transformar a sociedade existente; em
de Hegel. O engajamento dos artistas de vanguarda nas lu- teoria, pelo menos, visto que a própria estrutura da socieda-
tas ideológicas, já há dois decênios, prova que a arte cessou de, dividida em classes, proibia concretamente qualquer
de ser uma atividade inocente, objeto de puras especula- modificação.
ções metafísicas. Mas, de outro lado, os novos interesses Ora, segundo Marcuse, a cultura moderna nada perdeu
artísticos ultrapassam a conjuntura histórica. Vimo-lo muito de seu aspecto "afirmativo", ela até mesmo o reforçou, por
bem em Benjamin: é claro que também quer lutar contra o exemplo, despojando a arte do conteúdo explosivo ou sub-
fascismo, mas sua preocupação essencial concerne, decidi- versivo que ela escondia mesmo sob sua forma idealizada.
damente, à sorte da cultura na sociedade ocidental moder- Outrora, a arte p ro m etia u m a felicid a d e de tal forma
na. espiritualizada que ela se tornava quase inacessível; doravante
a cultura o b tém p ra zeres, particularmente os de consumo
sempre acrescido de bens culturais, desde que a realidade
existente e o sistema social permaneçam imutáveis.
"Maurice Merlau-Ponty, LKJIHGFEDCBA
L e u isib le et t'in o is ib lc , Paris: Gallimard, 1964, p. 152-153.
A cultura moderna se apresenta, pois, como uma cultu-
WHerbert Marcuse, C u ltu re et so ciété, Editions de Minuit, 1970, trad. G. Billy, D.
Bresson, ].-B. Grasset.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA ra "afirmativa" à segunda potência. Ela apresenta todos os
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no seio da Teoria crítica, estes filósofos e estes pensadores :'.1 música; em compensação, Horkheimer e Adorno interro-
Na época, trata-se de reatualizar o alcance crítico das van- à literatura. Como seu nome indica, esta estética insiste na
guardas do início do século: insiste-se no significad~ co.rr~- importância da acolhida, da "recepção" da obra pelo públi-
sivo das transformações formais para lutar contra a ínsntur- co. jauss insiste particularmente no papel primordial da re-
ção e inserir novamente a arte na vida cotidiana. A estética ação dos leitores, de seus julgamentos e de suas expectati-
e a filosofia da arte trazem sua caução teórica aos artistas vas diante de obras novas. Face à novidade artística, três
que tentam subverter a política oficial da ação cultural. reações são possíveis: a satisfação imediata, a decepção, até
A partir de 1968, Daniel Buren declara que cada pes- mesmo a irritação ou então o desejo de mudar e de se adap-
soa, os não-artistas, os "outros" são a p rio ri tão dotados tar aos horizontes inéditos abertos pela obra. Para Jauss,
quanto os próprios artistas: "A única coisa que talvez, se estas diferentes atitudes diante do que ele chama justamen-
possa fazer após ter visto uma tela como as nossas, e a te um "horizonte de espera" não se eqüivalem. Elas permi-
revolução total". tem mesmo estabelecer normas de qualidade e hierarquizar
Em 1974, em A rt et p o litiq u e, Mikel Dufrenne milita com as obras: pode-se assim conceder um privilégio àquelas que,
entusiasmo e vivacidade por uma arte realmente popular, em razão de seu grau de novidade, causam nos leitores um
ao alcance de todos. Sensível às teses de Marcuse, ele reativa prazer inédito. Elas não satisfazem um desejo já programa-
a utopia de uma revolução ao mesmo tempo artística e po- do pelo hábito, mas preenchem uma espera secreta e ante-
lítica em que a beleza, o jogo, o prazer infiltrar-se-iam em cipam, de algum modo, as aspirações implícitas.
todas as dimensões da existência: "Onde quer que criar seja jauss, portanto, põe o dedo sobre uma das insuficiên-
jogar, e em que o jogo introduza jogo no sistema, ab.ale e~ cias da teoria de Adorno: valoriza a importância do gozo
algum lugar as relações de dominação e as certezas ideoló- estético, e considera que tal gozo nada perde ao ser comu-
gicas que as justificam, a arte é política". nicado a um público, por mais vasto que seja. Segundo suas
O início dos anos 80 registra um nítido esboroamento palavras, convém "restaurar a função comunicativa da arte,
dessa dimensão política, ideológica e anticultural da arte. e até mesmo devolver-lhe sua função criadora de normas".
A atitude negativa de Adorno, sua maneira de valorizar Não significa isso, diz jauss, provar uma grande fideli-
excessivamente uma experiência subjetiva julgada incomu- dade a Kant, para quem o gosto é precisamente a faculdade
nicável suscitam reticências. Certos filósofos, até mesmo
global~ente seguidores de sua teoria, censuram-Ih~ sU,ar~-
cusa obstinada de qualquer compromisso com a indústria 'Hans Robert Jauss, P o u r u n e estb étiq u e d e Ia récep tio n , Paris: Gallimard, 1978,
trad. Claude Maillard, prefácio de Jean Starobinski. Esta obra é uma coleção de
cultural. Pensam que a experiência estética das obras de textos, alguns publicados em 1972, sobretudo "Pequena apologia da experiência
arte clássicas ou modernas é suficientemente rica e densa estética", já polêmica, em oposição a Adorno. Hans Robert Jauss, nascido em
1921, é professor de literatura na universidade de Konstanz.
para resistir à laminação das mídias e à banalização cultural.
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q u e é estética ?
M a rcjim en ez 365
de julgar tudo o que permite comunicar-nos com qualqu~r tal" - que, segundo Horkheimer e Adorno, conduz o mun-
outro homem, até mesmo com nosso sentimento? Kant nao do ao fechamento burocrático e à cegueira, Jürgen Habermas
une o valor do prazer desinteressado ao fato de poder ele opõe a "razão comunicativa", uma razão baseada no discur-
so, no intercâmbio e na interação entre os indivíduos.
ser universalmente partilhado?
Portanto não há, segundo Habermas, uma única e mes-
ma razão, fatalmente condenada a tornar-se um instrumento
E s t é t ic a e c o m u n ic a ç ã o : Jürgen H aberm as de opressão. Existem, pelo contrário, diferentes formas de
racionalidade, científica, ética, estética. Elas não são antago-
As concepções de Jürgen Habermas desempenham um nistas nem destinadas a um afrontamento. Habermas observa
papel considerável nesta maneira de considerar o. ~niverso que no século XVIII, particularmente em Baumgarten, a esté-
da comunicação, particularmente por parte dos filósofos e tica ou ciência da beleza corresponde a uma diferenciação da
estetas contemporâneos. No plano teórico, legitimam eles a razão. Podemos, lembrar, aliás, que Baumgarten define a es-
idéia de que as mídias tecnológicas aumentam a difusão das tética como uma forma inferior de conhecimento porque,
obras de arte junto ao público e favorecem assim uma reno- apesar de tudo, está ligada à sensibilidade.
vação benéfica das experiências estéticas. Portanto, Habermas não exclui a possibilidade de que
Antigo assistente de Adorno na universidade de Frank- a estética possa, a longo prazo, agir sobre as outras
furt, Jürgen Habermas (nascido em 1929) é um herdeiro dis- racionalidades e influir na existência cotidiana. Numa pers-
sidente da Escola de Frankfurt. Várias vezes, em sua obra, pectiva mais ou menos longínqua, chegar-se-ia assim a uma
critica ele as teses desenvolvidas por Horkheimer e Adorno reconciliação de todas as figuras da razão. Esta eventualida-
sobre a indústria cultural. Não acredita que a submissão das de evocada por Habermas tem o direito de levar ao ceticis-
obras ao sistema econômico transforme o prazer estético mo: a realização de um tal objetivo não lembra uma utopia?
em puro e simples divertimento. Em sua opinião, é errado Mas, a não ser retirando-se do próprio ambiente, pode-
pensar que o consumo cultural possa servir de c~n:pens_a- se reconhecer também que não há outra escolha possível:
ção às frustrações da existência cotidiana. As mídias sao aceitar as regras do sistema atual significa também homena-
essencialmente veículos da linguagem, "amplificadores da gear a "soberania" de uma arte capaz de sobreviver aos "maus"
comunicação linguageira" que apresentam a vantagem de tratos do sistema cultural. Como uma garrafa lançada ao mar,
abolir o tempo e o espaço. Eles "densificam" as trocas de cada obra segue seu caminho: ninguém conhece realmente o
discursos; autorizam a intersubjetividade e a íntercorn- poder de sua mensagem e ninguém sabe quem a recolhe.
preensão. Enquanto tais, não dependem do sistema com:~- A maioria dos recentes trabalhos sobre filosofia da arte,
cial. pelo contrário, favorecem a possibilidade de rransmítir tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, traduzem este
as experiências estéticas a um público maior e, portanto, de apaziguamento da crítica em relação à indústria cultural e
manter concretamente a promessa de felicidade contida nas ao sistema comercial. Mais voltados para a arte contemporâ-
obras de arte e tão cara a Adorno. nea, estão eles preocupados sobretudo em encontrar-lhe
A esta razão fria e cínica - a "racionalidade instrumen- um status na sociedade atual, insistindo nas capacidades de
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q u e é estética ? M a rc]im en ez 373
objeto que, embora seja materialmente indiscernível dela, em grau máximo com a interpretação que o próprio artista
não é uma obra de arte. Algumas dessas qualidades podem dá de sua "obra". Todo o trabalho interpretativo consiste
muito bem ser estéticas ou originar experiências estéticas"." portanto, em acumular o maior número de conhecimenms
Uma pergunta se coloca: que são estas qualidades se sobre o mundo da arte a fim de reduzir ao mínimo a even-
elas não são perceptíveis? Se não são perceptíveis, como tual margem de incompreensão entre a intenção do artista e
afirmar que são diferentes? Em que reside a diferença entre o público.
as qualidades "estéticas" e as qualidades "não estéticas"? Arthur Danto sublinha uma das tendências ~
Danto acrescenta: "L..l mas antes de poder reagir a es- trovertidas da arte do século XX: a que faz depender a atri- \
tas qualidades num plano estético, é preciso saber que o buição da qualidade da obra ao que se sabe dela do artista .
objeto em questão é uma obra de arte. Portanto, para poder de seus projetos, de sua inserção no ambiente' da artéY~/
arte nada mais é do que aquilo que se decide que e1a-~eja,. ..
l'\l \.(J \I
reagir diferentemente a essa diferença de identidade, é pre-
ciso já saber distinguir entre o que é arte e o que não é"." um puro pr~duto, n~o mais a rtístico , mas .a rti.[icia l, .engen-
Resumindo: é preciso saber diferençar para saber fazer drado pelo Jogo da lmguagem e da comurucaçao no interior
a diferença. Para distinguir um objeto qualquer de uma obra da instituição artística.
de arte, é preciso saber antes que objeto é uma obra de arte. É verdade, por exemplo, que as "ações" de ]oseph Beuys
A solução reside, como vimos, na interpretação ...Falta, po- somente se esclarecem a partir das intenções do artista e de
rém, compreender de onde a instituição, na origem extrai sua vida. A C a d eira (1964), o T ra je d e feltro (1970), P a ra d a
esta presciência que lhe faz adivinhar que objeto é uma d e T rem (1976) são incompreensíveis para quem não conhe-
obra de arte. ce a simbólica do.s mat~riais usados: graxa, feltro, metal, ~t~."J
A dificuldade de Danto, que é também a de mais de Sem nenhuma afirmação sobre o sentido desses "obje~
um visitante de exposições de arte contemporânea, não virá público somente veria neles resíduos menos providos - se
N~
do fato de conservarmos aqui a categoria "obra de arte" isso for possível! - de atração estética do que o mictório-
para aplicá-Ia a um objeto que absolutamente não reivindi- chafariz de Duchamp e as caixas de papelão de Warhol. Pode-
ca esta qualidade? se também, ao contrário de Danto, considerar esses "atos"
anto, como Goodman, considera supérfluos e inade- como provocações: sem dúvida, eles irrompem no mundo da
quados o julgamento de gosto, a apreciação subjetiva e a arte, mas, se transpõem a entrada da instituição, é com a
avaliação qualitativa. É verdade que nos exemplos citados esperança de abalar seus muros e de desastibilizá-Ia. Uma
eles provavelmente aumentariam a confusão. A interpreta- esperança, de resto, freqüentemente frustrada.
ção do públicao é válida unicamente se conseguir coincidir Mas, para Danto, esta concepção de uma arte hostil à
sociedade e à realidade não pode fazer esquecer que ela
participa, querendo-o ou não, do "mundo da arte" e que ela
é também, segundo a expressão de Goodman, uma "manei-
3Arthur Danto, L a LKJIHGFEDCBA
tra n s fig u ra tio n d u b a n a l. U n e p h ilo so p h ie d e l'a rt, Paris: Le
Seuil, 1989, p.160. ra de fazer o mundo". Trata-se aqui de uma interpretação
'Ibid, p.160-161. incontestavelmente mais pragmática e realista do papel da
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q u e é estética ? M a rc]im en ez 375
criação artística na sociedade ocidental moderna. Resta sa- tornam-se mais intensas. A moda dita "retrô" já era sintomá-
ber se esta imagem de uma arte reconciliada com o mundo tica de um requestionamento de um sentido da história que
não é justamente aquela que os artistas se esforçam sempre evoluía de forma linear para um futuro modernista e radio-
por desunir. .~. so. A época da pós-modernidade e da pós-vanguarda quer
Compreende-se melhor a origem do debate conteinpo- marcar o final da idade moderna e da utopia com uma per-
râneo entre a estética analítica, de tradiçã~ ~nglo-sax~.- e:;- feição inacessível. É- a 'época do individualismo e da afirma-
sencialmente norte-americana - e a tradição europeia da ção de uma liberdade que deixa a cada pessoa a liberdade
qual a estética de Adorno, por exemplo, se quer herdeira. de julgar e de avaliar a seu bel prazer. Rejeitam-se os critéri- .
Para ma, seria ímpossível, repetir ao infinito o jogo os e as normas estabelecidas pela arte moderna, e cada um
ínterrrunável do[ulgamento __ de valor, sentI?!e subjetivo, e se torna mais conciliador para com as formas e os estilos do
que se julga universal. Ela valoriza a função de co n b eci-: passado.
~~tf'l da arteZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
-e à possibilidade oferecida dê- abrir-se ao Na França, em 1983, um ardente defensor da arte con-
mundo, até mesmo de aceitá-Ia tal como é e ,
temporânea dos anos 60-70 anuncia, como subtítulo à sua
Para a outra __em compensação, a obra-de arte encerra obra, uma "crítica da modernidade", O autor constata a de-
elementos históricos e sociais que a estética tem a tarefa de fasagem entre o dinamismo da vida cultural e a decrepitude
explicitar. A obra não somente "julga'l-à sua maneira a histó- das artes plásticas condenadas a alimentar-se nas fontes já
ria e a sociedade, mas ela própria é candidata à apreciação e esgotadas de uma modernidade moribunda: Dada, arte
à avaliação do público. Um pouco como se este último tives- conceptual, pop art, neo-expressionismo ete.
se de julgar, a cada vez, a qualidade da contribuição artística. O retrato aflitivo das "belas-artes" é feito em termos
Estas duas grandes correntes da filosofia da arte serão vivos e vigorosos: "De um lado, os últimos representantes
inconciliáveis? A questão continua aberta. da pintura abstrata e analítica multiplicam ao infinito as va-
riações sobre o invisível e o quase-nada. E para enganar
esta penúria do sensível, a glosa inchar-se-á em proporção
c r itic a d a m o d e r n id a d e : o p ó s -m o d e r n o
A cbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA inversa de seu objeto: quanto mais diminuta for a obra mais
erudita será sua exegese. Uma dobragem da tela, um traço,
A acolhida favorável reservada, sobretudo na França, um simples ponto tornam-se um pretexto para um extraor-
às teses de Nelson Goodman e de Arthur Danto deve muito dinário anfiguri em que se respondem os diferentes jargões
ao contexto artístico e estético. Uma teoria que neutralize os das ciências humanas [...J Alhures, os devotos da antiarte,
julgamentos de valor sobre as obras e conceda uma priori- sessenta anos após Dada, continuam a agitar os sinais
dade à-descrição sobre a avaliação convém mais a uma épo- derrisórios de um apelo às armas ao qual ninguém respon-
ca abalada pelo desaparecimento dos pontos de referência de - nem respondeu alguma vez".'
e dos critérios estéticos.
A partir do final dos anos 70 e no início dos anos 80, as SJean Clair, C o n sid éra tio n s su r l'éta t d es b ea u x-a rts. C ritiq u e d e Ia m o d erriité,
críticas dirigidas à modernidade e aos projetos vanguardistas Paris: Gallimard, 1983, p.12-13.
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q u e é estética ? M a re jim en ez 377
~ As correntes ditas pós-modernas que se multiplicam no entíficas do período moderno tendem a se tornar caducas.
I domínio das artes e do pensamento filosófico se apresen-LKJIHGFEDCBA As "grandes narrativas" vivem uma crise de legitimidade.
J tam, portanto, como remédios -.salvadores para a crise. De Ninguém mais crê seriamente no tema do progresso da hu-
~ que se trata? manidade nem no da emancipação iminente do homem gra-
"'~:;:J'
~;] O termo pós-moderno tem origem nos debates que
opõem, nos anos 60, as arquiteturas construtivistas e mo-
dernistas, herdeiras do Bauhaus, Walter Gropius, Moholy-
ças à ciência e à técnica. Segundo Lyotard, este processo de
crise é irreversível. O termo pós-moderno, para ele, é pejo-
rativo. Ele não tem a ver, diz o filósofo, com a ideologia da
- I" ((31ãrIes Nagy, Mies van der Rohe, Le Corbusier e uma geração mais
recente representada particularmente por Robert Venturi e
Moore) Estes últimos desejam reagir contra o funci-
pós-modernidade, nem com as paródias e as citações que
invadem todas as artes.
O vocábulo pós-moderno é, pois, afetado por dois sig-
~o exaltado por seus ilustres predecessores. Consídes nificados contrários. Mas a moda e o espírito do tempo fa-
ram-no por demais austero e por demais característico da zem seu trabalho. O primeiro sentido leva a melhor. Torna-
modernidade dos anos 20-30. Propõem uma arquitetura mais _ se sinônimo de crítica da modernidade enquanto Lyotard
flexível, concedendo uma maior importância à fachada e, pedia somente a reavaliação da modernidade. Seus protes-
aos elementos decorativos. À pura função substituem a "fun- tos contra a amálgama não mudam nada. A época "moder-
ção-ficção simbólica'~: Agrada-lhes integrar formas do pas- na" é declarada antiquada e a "pós vanguarda", versão artís-
sado, recorrer aos estilos antigos, sem contudo quebrar o tica da pós-modernidade, derrama-se, com velocidade epi-
caráter funcional da arquitetura. dêmica, na pintura, na literatura, na música e na filosofia.
Declaram-se, portanto, pós-modernos apesar do cará- O neologismo "pós-vanguarda" mais ainda do que o
ter rebarbativo deste neologismo. Charles Moore, o arquite- de pós-modernidade, pode fazer sorrir, por sua curiosa cons-
to da Piazza d'Itália em New Orleans - um dos exemplos trução a partir de dois prefixos antagônicos "pós"e "avante".
mais espetaculares do pós-modernismo - não gosta da pala- Propõe ele um "após", conservando uma aparência de nos-
vra. Se a adota, é somente porque a arte, a moda e a deco- talgia em relação ao passado. Ele dá a estranha impressão
ração de interiores já se apoderaram dela. Em 1978, Charles de querer predizer o futuro escovando a história a contrapelo.
]encks, crítico de arquitetura, declara ter empregado a pala- Esta ambigüidade caracteriza efetivamente as correntes
vra pela primeira vez em seu livro L 'a rch itectu re p o stm o - artísticas dos anos 80, sobretudo nas artes plásticas: os
d ern er "anacronistas" ou "citacionistas" italianos e francesas, con-
L a co n d itio n p o stm o d ern e, de ]ean-François Lyotard, é sagrados na bienal de Veneza de 1984, o movimento
publicada no ano seguinte (979). A obra do filósofo fran- Transvanguarda de Achille Bonito Oliva, os Novos Fauves
cês, elaborada nos Estados Unidos, tem uma repercussão alemães exprimem ao mesmo tempo uma firme vontade de
considerável. O autor explica como as grandes teorias ci- ultrapassar o modernismo e uma grande perplexidade dian-
te do desaparecimento das vanguardas. Os artistas inspi-
ram-se na memória histórica, justapõem ou misturam de for-
"Charles jeneks, L 'a rch itectu re p o strn o d ern e, Paris: Denoel-Gonthier, 1978. ma eclética estilos heterogêneos numa mesma obra, juntam
378 olkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
q u e é estética ? M a rc jim en ez 379
o decorativo, a citação, o folclore num caos muitas vezes do futuro que ela se recusa a encarar, ela aparece, sobretu-
lúdico e humorístico. do, como o sintoma de um novo "mal-estar na civilização".
Tratar-se-à de conjurar o medo de entrar na "pós-histó- O sintoma desaparece progressivamente. A crise permane-
ria" e de celebrar com um brilhante buquê final o fim do ce: ela ocupa hoje um lugar considerável no debate estético
espetáculo oferecido pela modernidade? Achille Bonito Oliva sobre a arte contemporânea.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
parece pensar assim quando declara, em 1980, que o con-
texto atual da arte é um contexto de catástrofe, "assistido
por uma crise generalizada de todos os sistemas". Este sen- a r te e a c r is e
A cbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
380 olkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
q u e LKJIHGFEDCBA
é
estética ?
M a rcjim en ez 381
as incertezas, as perturbações e as exasperações marcam a é, O nascimento de um poderoso sistema econômico encar-
história da arte? Sobretudo ao longo dos dois últimos sécu- regado da gestão das práticas culturais e artísticas.
los, pontuados pelas rupturas, pela sucessão dos "ismos" e As instituições e as indústrias culturais conheceram de
pelos repetidos choques das vanguardas! A crise não desig- fato um desenvolvimento sem precedentes ao longo dos
nará o estado permanente da evolução artística, como o da dois últimos decênios. O sistema cultural moderno tem a
sociedade inteira? vantagem de suprimir o antigo antagonismo entre a arte
Toda época tem este sentimento de ser um momento- burguesa, freqüentemente elitista, e a arte de massa, reser-
charneira, oscilando entre a nostalgia do "já visto" e o dese- vada ao grande público. Governado pelo princípio de ren-
jo do "nunca visto"; período de desconforto e de incerteza tabilidade, ele distribui ao maior número de pessoas o mai-
em que os antigos valores fora de moda ainda não estão or número de bens culturais e funciona como uma gigantes-
substituídos pelos novos; instante de tão profunda confu- ca cornucópia em que todos podem satisfazer à vontade os
são que "a humanidade projeta inconscientemente seu de- próprios desejos e paixões.
sejo de sobreviver na quimera das coisas que nunca foram Este sistema tolerante e laxista aceita todas as formas e
conhecidas, mas esta quimera assemelha-se à morte".' todos os estilos da arte passada, moderna e contemporânea.
Lembremo-nos de Platão expulsando para fora da Ci- Todavia, se deixa ele em segundo plano as hierarquias de
dade os poetas e os compositores de músicas por demais valor e as diferenciações estéticas, também não se desinte-
voluptuosas, de Le Brun qualificando os coloristas de borra- ressa pelo valor das obras. Dispõe porém de seus próprios
tintas e de tintureiros, de Carl Maria von Weber declarando critérios, somente conhecidos pelos peritos e pelos especia-
Beethoven "bom para o asilo de alienados"e dos burgueses listas do mundo da arte e apenas por eles. Seus meios
que gritam diante de L e d éjeu n er su r l'b erb e, dos antidebus- promocionais são de forma a conseguir criar um consenso
systas que vociferam na estréia de P elléa s et M élisa n d e ete. ao redor de obras contemporâneas, mais apreciadas em fun-
Interrompamos esta lista que, de qualquer modo, é intermi- ção da fama do artista do que em razão de suas qualidades
nável! próprias e cuja chave escapa o mais das vezes ao grande
A crise atual é ilusão ou realidade? Duas interpretações público.
se enfrentam. Elas parecem suficientemente contraditórias Criador de seus próprios valores e de seus critérios de
para mergulhar na maior complexidade a reflexão estética excelência, o cultural pode, portanto, economizar uma re-
contemporânea, desesperadamente à procura de uma visão flexão estética que se interessa sem descanso e prioritaria-
global da situação presente. Mas é possível formular uma mente pelas resistências que cada obra opõe à sua absorção
hipótese: perguntar, por exemplo, se "crise" e "ausência de no circuito do consumo cultural. Excetuando os fatores eco-
crise" não são as duas facetas de um mesmo fenômeno, isto nômicos, sempre conjunturais, o mal-estar contemporâneo
é, portanto, bem real. Paradoxalmente, resulta ele do pró-
prio sucesso de um sistema cultural hegemônico, apto a
7T. W. Adorno, M in im a M o ra lia . R é fie x io n s s u r Ia v ie m u tilé e , Paris: Payot, 1980, desarmar qualquer crítica graças à sua generosidade e à abun-
trad. E. Kaufholz eZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
J . R. Ladmiral, p.222.
dância de suas contribuições.
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q u e é estética ? M a rc jim en ez 385
Ficou um traumatismo e seqüelas de que nossa época sibilidade de uma sociedade em um dado momento; elas
parece sofrer ainda. O rea d y-m a d e coloca de fato o proble- não são entidades abstratas que se podem arrastar à vonta-
ma da definição da arte: nada ou quase nada no ponto de de dentro da história. Continuar neste caminho significa evi-
partida, um objeto banal ou trivial transforma-se milagrosa- denciar uma nostalgia pelo passado, às vezes respeitável,
mente em "obra de arte" pela graça do batismo do "artista" mas inapta a compreender a evolução da arte. A menos que
e da "confirmação" da instituição. O milagre provém de pouca ela já não seja, em si mesma, um julgamento, implícito e
coisa: basta deslocar as fronteiras da arte. Não se pergunta desfavorável, sobre a arte contemporânea.
mais "O que é a arte?", mas, como diz Nelson Goodrnan: A segunda solução consiste em erigir o prazer e o gozo
"Quando existe arte?", a partir de que momento e em que estéticos em critérios de qualidade ou de êxito de uma obra.
condições opera-se a transmutação? Esta atitude não é nova. Ela remonta ao século XVII e lem-
Na realidade, o problema aqui está mal colocado. Não bra os debates intermináveis sobre o gosto, entre os partidá-
há transmutação nem conversão do rea d y-m a d e em objeto rios do sentimento e os defensores do julgamento baseado
de arte, mas simplesmente irrupção, no campo artístico, de na razão. Todo mundo concorda facilmente em reconhecer
uma ação inédita, de tipo Dada. A implicação do mundo da que o defeito redibitório de uma obra de arte é o de suscitar
arte transforma esta mistificação jocosa em mistificação sé- seja a indiferença, seja o tédio. Devemos dizer, por isso, que
ria. prazer eqüivale a julgamento?
Ela o é, de fato. Pois este ato sacrílego - ou dessa- Evidentemente, resolvemos o problema dos critérios
cralizante - tem como conseqüência um abalo de todos os impossíveis de serem encontrados, sobretudo para a arte
critérios clássicos que servem habitualmente para julgar e contemporânea. Eliminamos a questão do julgamento, da
criticar a obra, ou mais geralmente o objeto de arte. Portan- avaliação, da hierarquia dos valores, grande dificuldade da
to, não é de espantar que o final do século :XX, já perturba- estética. Porém, simplificamos ao extremo a noção de pra-
do pelo desaparecimento dos critérios modernos ou zer. Freud mostrou, de fato, que o domínio do prazer e do
vanguardistas e pelo ecletismo pós-moderno, considere gozo estéticos apresenta a mesma complexidade que o gozo
Duchamp - erradamente - como o grande responsável pela erótico: ambos são ambivalentes. Isto significa que o gozo e
decadência da arte contemporânea. o prazer encerram às vezes uma boa dose de seus contrários,
Que soluções propor à deliqüescência dos critérios es- assim como o ódio é o amigo-inimigo do amor.
téticos? Evidentemente, três se apresentam ao espírito: ou Além disso, dificilmente podemos admitir que o prazer
restauram-se os critérios antigos, ou substitui-se a obrigação seja uma espécie de dado em estado puro na obra de arte.
de julgar e de avaliar pelo imediatismo e pela espontaneida- Uma obra de arte me agrada, seja! Mas o prazer que sinto é
:íde.J!g prazerestético, ou procuram-se novos critérios.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
elaborado por mim, em função de meu temperamento, do
V~ ~o de critérios tradicionais coloca pro- despertar de minha sensibilidade à arte e de minha educa-
blemas insolúveis. Que tipo de critérios? Extraídos de que ção. O prazer, de forma alguma específico à esfera estética,
época? Antiga, clássica, romântica, moderna? não é, portanto, um critério de qualidade artística. Talvez
As normas e as convenções estéticas exprimem a sen- ele seja um dos múltiplos elementos do julgamento, mas ele
3 8 6 ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
o lkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
q u e é e sté ~ ic a ?
M a rc jim e n e z 387
me ensina muito mais sobre mim mesmo do que sobre a creve em um projeto coerente do artista, como a escrita
obra com a qual sou confrontado. automática dos surrealistas.
Enfim, o prazer não poderia indicar seja o que for so- A "obra de arte" designa habitualmente um objeto, uma
bre a qualidade artística de uma obra. A satisfação sentida ação, um gesto que apresentam um mínimo de lógica em
na leitura de um romance policial ou diante de um filme suas demarches e de rigor em seus procedimentos. Contra-
destinado a divertir não leva, por tal razão, a julgar que se riamente ao preconceito corrente, as obras de arte não se
trata de obras-primas nem mesmo de obras de arte. Em perdem nesta vaporosidade artística ou estética que com
contrapartida, pode acontecer que uma coreografia moder- demasiada freqüência serve para depreciar a arte aos olhos
na, não familiar ao meu gosto, ou então uma pintura realista dos cientistas.
e crua acabem por forçar minha atenção a despeito de qual- Será possível dizer que o gesto do escultor, a técnica
quer atração espontânea. Aqui tudo é questão de nuanças e contrapontista, a pincelada do pintor, a escritura política, a
são estas diferenciações, às vezes sutis, que permitem levar marcação de uma coreografia, os gestos do ator são despro-
em consideração o que pertence à estética - o que aqui vidos de precisão? Acusam-se o T ra ta d o d e h a rm o n ia de
lisonjeia os sentidos - e ao artístico, que supõe um mínimo Schonberg, o C ra vo b em tem p era d o de Bach, o T ra ta d o d a
de objetividade. p in tu ra de Leonardo da Vinci, as S en h o rita s d e A vig n o n de
O terceiro caminho orienta-se para a definição de crité- serem vaporosos? Mesmo se o primeiro rea d y-m a d e de Mar-
rios estéticos específicos para as obras contemporâneas. cel Duchamp, é "não importa o quê" ele não é não importa
Concebe-se com facilidade a dificuldade deste tipo de pesqui- onde, não importa quando, não importa como!
sa. Os critérios, já o lembramos, são a expressão de uma Porém as obras citadas aqui mais do que obedecerem a
situação histórica e social particular. Não existem critérios modelos pré-estabelecidos, produziram, sobretudo, critérios.
intemporais imutáveis que permitam apreciar, sobre as mes- Como dizíamos precedentemente, são as obras de arte que
mas bases, um quadro de Botticelli e uma obra de Francis engendram os critérios e não o inverso. Nem todas as obras
Bacon, a música de Palestrina e a de Ligeti. de arte são obras-primas. Quando isso acontece, o fato sig-
Se quisermos absolutamente falar de critérios, será pre- nifica que souberam transgredir as normas em vigor em sua
ciso, portanto, procurá-Ios não numa esfera transcendental época. Mas isso somente o tempo pode prová-Io.
qualquer, aistórica, mas na própria obra. Admitir-se-á, por Aplicada à arte contemporânea, a questão dos critérios
exemplo, que é difícil considerar como obra de arte bem aparece, portanto, como um falso problema. Imaginemos
sucedida, e com maior razão como obra-prima, um objeto um critério aparentemente indubitável como aquele invoca-
suscetível de passar despercebido. Da mesma forma, uma do acima: o caráter racional da obra. Quem me diz que tal
composição pictórica, musical ou literária incoerente, ela- critério é e será sempre bom? Qual é o critério do critério, e
borada de modo arbitrário, totalmente aleatória, a partir de assim por diante? Não seria melhor dizer que o aspecto "ló-
materiais e de formas justapostas de maneira heterogênea, gico" de uma obra é, ele também, um dos parâmetros entre
impõe-se raramente como obra de arte ... excepto se esta outros? Evidentemente, ele é importante, porque constitui
incoerência provém de uma demarche intencional e se ins- um elemento de inteligibilidade e de compreensão da obra.
B m I lO G R A F I A S E L E T IV A
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3 9 4 zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
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Í N D I C E D E N O M E S P R Ó P R I O S zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVU
Adler 266
Adorno 7,21,102,143,165,186,305,306,307,318,325,326,327,
328,336,338,348,349,354,355,356,358, 359, 360,362,363,364,
365,366,370,374,380
Agostinho (santo) 34, 35, 84, 211, 212
Alberti, Leon Battista 36, 37,44,46
Alberto, o Grande 2, 33, 213
Alernbert, Jean d' 81
Alexandre, o Grande 66, 101, 218
Andrea del Castagno 46
Angelico 47
Apoio 68, 209, 246, 252, 253, 255, 271
Aquiles 235,236,270,289
Aragon, Louis 297, 328
Ariosto (Ludovico Ariosto, dito I') 178
Aristófanes 209
Aristóteles 20, 26, 66, 83, 106, 167, 185, 193, 194, 210, 211, 212, 213,
214,215,216,217,218,219,220,221,222,223,224, 225, 226,227,
229,237,278,280
Arnauld, Antoine 69
Aron, Raymond 328
Arp, Hans 291
Atenodoro 100
Atget Eugêne 334
Averróis 212
I:
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•...
li'
J
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406 lkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
o que é estética? M arc jim enez 407 zyxwvutsrqponmlkj
Montesquieu, Charles de Segondat, barão de 71, 214 Polidoro 100
Moore, Charles 376 PolIock, Jackson 388
Morris, William 286, 296 Poussin, Nicolas 22, 55, 62, 64
Mozart, W.A. 15,166,185,259 Praxíteles 237
Musil, Robert 316 Príamo 100
Prometeu 345
N Proust, MareeI 326, 334, 349
Ueeello, Paolo 41
v
Valéry, Paul 345, 349
Van Eyek, ]an 166
I J
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11XWVUTS
ÍN D IC E D A S N oçÕ E S ,
E S C O L A S E M O V IM E N T O S
c
Cinquecento 38, 41
Classicismo6,14,44,49,58,62,109,150,223,239,257
Clássico 52,54,58,74,93,99,103,150,151,152,173,175,176,224,
225,293,308,312
Constructivismo 270, 280
Cubismo 275, 280, 288
Fauvismo 280
Funcionalismo 286, 376
Futurismo 270, 280, 290, 299, 335
Naturalismo 111,315
Niilismo 6, 164, 195, 231, 240, 252, 255, 319, 325, 347
Nominalismo 185
Quattrocento 37, 38, 39, 41, 44, 46, 56, 186, 279
Racionalismo 24, 52, 56, 70, 79, 80, 81, 92, 93, 99, 140, 150, 184, 242,
276,281
Renascimento 12, 323
Romantismo 117, 150,227
Romantismo 5, 95, 115, 144, 150, 151, 164, 179, 183, 210, 239, 275,
295,305,314,327
s
Simbolismo 173
Sturm und Drang 139,150
Subjetivista79, 110
Surrealismo 270, 292, 297, 326
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