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Nascida da necesidade de estrurura

a verdade criíá expressa nas


filosoiicanenie
Sagradas Escrituras, a EscoLástica oryuizou{c como
umanlosofia praticada por uma cla$e de intelectuais
que conpartjlhavam de conhecimentos. tenninolosiâ
lécnica e expedéncias interiores conuns, o que deu
condiçóes pda qüe se esrabelecsse um diáiogo
ülosónco aliantenle tértil e €specializado
Formada por honens coD una ho.estidade
intelectúal impre$ionute, o legado da Escolásuca
hflúencjou prolundamente os pensadores que a
í,cederam e chesa rigoroso aié os dias de hoje.

"Olavo de Carvalho é o
mais importante pensador
bmsileirc hole."
Wagner Carelli

"Fjlósofo de grande erudiçáo."


Roberto Campos

Bruno Iolenlino

de Carvalho se
destaca porque pensa,
reflete,eédeuma
honestidade intelectual
que chega a ser cruel."
Carlos Heitor Cony

"Louvo a coragem e lucidez


de suas idéias e a maneira
admirável com que as expõe."

illilffiiltl HeÍbeío Sales

Esta Dublicâaáo vem âcompânhâda de um DLD,


que náo pode sêrveÍdldo ÊepârâdâmeDtê.
A Escolástica
Aula 15

por Olavo de Carvalho

coleçáo

História
Essencial da
Filosofia

I
por Olavo de càNalho

Coleçáo História Esencial da FiloÍ,Iia

Acompanha esLd Püblúacào um DvD.


oue nãô Dode srÍ vend dÔ sepa,âddmenle

lorprersô no Brd$1, marçô de 2006


coov isht o 2006 bv Olavo de Càruálho

Foto Olavo de CaNalho

Edilor
Edson Manoel dc Olivei.a Filho
A Escolástica
Moniquc schenkc s e DagmaÍ lliz?olô

Dagui DesiSn
Aula 15

por Olavo de Carvalho

Tereza Mtuia Lou.enço PereiÍa

coleçáo
os direitos autoEis desa ediçáo pertcncem à

É Realizaçóes Edilo€, Livraria e Distribuidora Ltda História


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pÍqiê.qui'ne,ooL Ô".ê.§eiJêlâelcr"'nraoÚr"ir''o
qlüloL!r'rfÓJucáod 'r3 cd''x '
Íii'Ótópia Púra\ao irqÚ0rqurr
o
ütuAr
2006
Colcção Históriâ Essencial dâ Filosofia
A Escolástica - Aula 15
por Olavo de Carvalho

listâmos prosseguindo tratando da Escolástica. Seus pressupostos


s&) dois. Primeiro, a existência dessas vastas conpilaqões de questões
{luc acabaram iomando o título de liütos de se,{lerÇas, dos quâis o
iràis famoso lbi o de um sujeito cha ado Pcdro Lombardo, en1 que as

lirmaqões dos primeiros padres da Igreja eram compiladas e cotejadâs


pirra se encontrar c rcsolver todas as contradiçoes e dúvidas, caso
sc pudcsse. Esse livro de PedÍo Lombardo já pode ser considerado a
.ulminâÇào desse longo trâbâlho de compilâção e coiejo. Sem isto náo
rcria sido possível a Escolásticâ.
A segundâ condição loi justamente o sistema de ensino que vai se
lirmando sobretudo a partir do Império de Carlos Magno, quando
Lrnr monge chamado Alcuíno organizâ um sistema dc cnsino conl â

frctcnsão dc ser o primeiro grânde proieto de allàbetizaçáo universal,


nâs que, evidentemente, làlhou. Com estâ organização se lomla cntáo
Ihcolástica, prccisamente como filosofia de €scola, isto é, a filosofiâ
prriicada dentro de un1â determinada instituiçâo por uma clitsse de
irtclectuâis profissionais quc tinham uma educaqáo mais ou mcnos
LrrilbÍme e compartilhâvam de oonhecimentos comuns, determinologià
rúcnica, c que tinlüm, portanio. condiçóes para unl diálogo lilosótico
rl(âmeDte especiâlizado.
A Escolástica não pode ser estudada como cstudamos os filósolos
rix)dernos, ou seja, por autores: a filosofia de lctni, a filosofrâ de
ll..,.l LrL \a Lsrolas.rca náo pode.(r r.sim. po,.e uma..pccic
de trabalho único qlre se desenvolve dcnúo de uma culetivjdade
iniclectuâl organizada ao longo dc alguns séculos. Desse modo, náo se
podc cntert.lcr nenhun delcs sem rclcrênciaaos (')Lltros ussadimensào (h c(nrsciôncia. e vicc-versa, o que supóe quc seia semprc um e§forço
Áun)râ|. câracieristicamcntc nrodcrna, náo existc. Itrlivi(lurl Mcsmo dentro desse cc,nlexto de um diálogo comuniiário,
.,irlinu.r scndo unl esforÇo individuala ser compartilhâdo com pcssoà§
lAllrno: Isso ?ra sá ?l7r .onnento au lanbé|fi ( ')?l ,t'r,'tI r nri uu incnu\ u me\ma lormu\ao c a' m<tmá' c\peri<nciâ'
A prnneim irlteri(»cs Essas experiências geralmente se remetem, de êlgum modo,
Flra sobretudo nâs nniversidades Tcnros duas lâscs
é
ir urr contcxto simbólico comum, sciâ de ordem religiosa, riiual, seja
quando se lormanr as cllânâclâs escolas paroquiais, convcntuais ou
pck) rncnos de ordcm social É necessário ter um grupo com uma
catcdrais. conioünc l'osserr ânexâdas â Llrna paÍóquia- â unl convento
partil da hora cr|)lriênciâ, uma vivência da realidadc ntâis L,u rneros em comum, e
ôrr a üma catedrâ1. mas isslr âind.L eÍa cnsino médio' A
.r)rn o mcsmo grau de individualização da consciênciâ, parâ que esse
em quc se tcn] essc sis{ema mo tado, conleça a Escolástica' que
(liril()go possê ser possivel. Mas a paÍir do momento en1 quc se cunrpre
âlcançâ uma culmiraçio . Suâ lâsc mâior ó dependcrie dc uma outra
já a partir do csttl condição, â individüâlidade dos sistcmas âcabados se tornet um
instituiÇáo, qüc sao justamenic as gmndcs Llnivcrsjdadcs,
século Xll.
Ilntre a obra de Santo Alberto e a de Santo Tomás. por cxemplo, é
O que hoie nos airai a atençáo, sobrciudo. ó csta Últimâ lasc o1l
(lilicil saber onde termina uma e começâ â outra A pretensão inicial
mclhor esiâ seguncla lasc (náo é â úllinrâ. pois â EscolásiictL na vcrdadc
grandes sistemas inlegrais d0 Santo Alberto foi simplesmente organiz o âristotelismo; elc nâo
prosscgue alé hoje), na quâl âpareccm Lrs
rlrrcria lãzer üma filosoiia pÍópria, nem havia muito esta noçáo de
conr Sânio.{lbeÍio, SaÍio Tomás. São Boâventurâ Como ludo islo
''Iilosofia própria", como houvc depois. E Santo Tomás, quando cl,meça
era muito dialogâtlo e o diálogo se dâvâ dentro de Üma comunicladc
r lrah ha! sua írnica pretensáo é corrigir e completar o trabâlho dc
rel.liivamenic peq!ena de pcssoâs, dcnlro pclo mcnos de un1â classe
santo Embora a síntcse se opere no nível da consciéncia
limiiâda em que todos se conheciarn e âcompanhavâ o tràbalho cle ^lberto.
irrdividuâ1, sua expressáo e sua elaboÍaçáo doutÍinal explícitâ sáo úm
todo mündo. sendo serrpre unrâ discussão pt-rblica , acho que essc
,rrt,.rl ),,.cnrpÍ( (olelivo. scrnDr< côrrnarlilhudo f po' is\u,lue. nc"a.
prilcípio autoral qDe usânlos pârâ dcscrev'r as iilosofiâs modernâs
i,,rl.s sobre a Escolásticâ. nâo cstou dividindo: a filosofia de Santo
iicâ um pouco complicaclo. É cofiro, por cxenrplo, o pÍóprio tmbalho
a lilosofia de Sanio Tomás, a lilosofia de Fulano... coisa náo
dc
clc Ptâlão c Aristóteles, que também é desenvolvido nuln sistcnâ ^lbcrto. ^
ii bem assim. Essas diíercnças apareccm, mas mesmo as divergências
rliálogo conrüniiário, c cntáo às vezes fic.r mcio ditícil saber que r tbi
Iaro sáo 1áo individuâlizadas, sáo geratnentc conflitos de grupos
quc disse o quê Os ântigos estavâm senrpre conscienlcs disso pois os
scmpre sc O pdmeiro conl'lito dc grupo que aparece é o seguinte: como a
orcdievais nunca discuiian col]l Platáo ou com
^ristóteles: Iiscolástica erâ uma investigação filosófica bascadâ num materiâl
referiâm à Acadenria, sâbiam esiâr sc relerindo mais â um grupo de
lcxtual prévio (quc é por un lâdo o Evangelho, ou melhoÍ, as Sagradas
pessoâs do que a un1 "autor"
I,lscrituras inteiras, e por ouiro lâdo as scntenças dos primeiros padres,
lsio pârece cntrâr ü m pou co cn1 coniradiçâo com a própria definiÇáo
os depoimentos dos âpóstolos), e como tudo se faz com bâsc neste
de Lilosoiia, que é a da busca da unidade clo conhecimento na unidade
maierial, entáo cxiste desde o começo uma espécie de pressuposto
rrcsrlo sentido €m que, para Platão, existiam objetivamente suas
lhrx)sls iormâs ou idéias. Quando ele se relere a triângulos, por
enbutido de que tudo Gto é vetdadeiro náo só em seu conteúdo,
cxcnrplo, nAo existem só os triângulos, mas de fato a espécie triângulo,
mas também em suâ expressáo verbal. Isto é, a expressáo verbal
.rtrr âs propriedadcs que adefinern e que seráo reencontrâdas emtodos
do Evangelho, tida como inspirada pelo próprio Deus, é veraz não
()s triângulos possíveis. Àí já se tem ulna primeira d ivergência, mas náo
somentc em seu conteúdo profundo; a própria seleçáo dâs palavras é
sc pode dizer que isto seja uma dlscLssro entrc Roscelino e Guilhenne
de ordem divina. existe um toque de Deus ali, ainda que haja um autor
(lc Châmpeaux, pois era um grupo parâ cá e outro pdra lá, quer dizer,
li)rnrâm todo um estilo.
Acontece que essc pressuposto, cmbora seja dc ordem filológica,
tcm umâ conseqüência filosófica imediata, que é a de que as palavras
No meio dessa discussáo, entra o iamoso Pedro Ábelardo, que
vtli oriar uma soluçâo intermediária que obteve um certo sucesso na
correspondem às coisas, no sentido em quc dizia Santo Tomás: nós
ct»ca. Abelardo resolve a questáo pelo méiodo caÍacteristicâmente
falamos com palâvras, mas Deus fala com as palavras e com as coisas,
c os fatos consumados sáo obras divinas. Se o Evangelho é obra :,I\rolelirodc raodrscurirnsconc.iro\de mododirero..a, rumuelrs
sc âpresentam, mas de sondar o que está neles implícitLr, isto é. aqujlcl
divina, ele é uma espécie de fato consumado, en1ão tem de haver üma
(tue se está quase que inconscientemenle quercndo declârar â padirda
correspondência entre palavras e coisas. Isso implicava uma adesáo à
crporiônciâ reâI, c cnião disccrnir no mesmo conceito vários sentidos.
proposlado chamado "realismo filosólico". queé ade que os conceitos
Pâra perguntdr se os universàis existem objetivamente oll se eles
universais correspondem â realidades no mundo exterior.
sio criaçóes da mente humana, seria preciso. primeiro, perceber que
Ora, isto é un pressuposto filosófico, sendo assim ele pode ser
discutido â {tuâlquer momento. Entáo, no século XII, iá se iem o
r própria palavra "üniversal" não ó um conccito unívoco, mas que
primeiro dos chamados nominalistas, um sujeito chamado Roscelino significa coisas dilêrentes. Às vezes, esláo usando omesmo termo, mas
csiao designândo, mais ou menos sem peÍceber, realidades difcrentcs.
d e Compiégne, que afirma taxativâmente que as palavras qlle enunciam
conceitos gerais, que enunciam conceitos de e§pécie, sáo âpenas essês três ordens de Íealidâdes -quc aiendiam pelo rnesmo nome de
^''universal"
produtos da mente. Desde que você nào tem nenhumâ expeiência -Abelârdo designâ, entáo, comosternos lalinos \t\ uni?ercalia
írrle rcm (universais antes dâs coisas), 1r) Íirersalla l,{ /e (universâis na
sensível dâs espécies, mas táo'só dos seus indivíduos, quando se rel'ere
coisa) e ti) uniüe$aLia posl /em (univemais dcpois da coisa).
a uma delas no sentido univcrsal, quando a designa pelo nome de
Isio significa que, como ele diz, quando se 1ã1â em "universais"
espécic, está acresceniando à realidade percebida algo que foi c{âdo
plrde se estar qüerendo se relerir aos arquétipos das realidadcs
por sua menie. Ou seja, é sua mcnte que cria o universâl no qual se
cxistentes, ou seja. a modelos ou formas ctcrnas tal como existem na
agmpam as várias espécies.
Ircntc de Deus. Este seri:ào\1) úfiíúefiaLia ante rem, o "universal ântes
De imcdiâto, isto é respondido por um suieito chamado Guilhermede
da coisa': antes mesmo de criar uma espécie, Deus tem o scu modelo.
Chanpeàux, que afi rma demodotaxativo que os universais correspondem
llxiste âinda o r'?) a,?izelsdlra in,z, o "universal na coisa'', ou seja, o
à própria esirutura da realidade e que eics existem obietivamente no

E
irâqo da espécie lal cono está prcsente no indivíduo singular' Parâ p€garam e o câpararn. E isio foi um beneÍício, pois daí ele nâo podia

encontrâr a espécic, bâsta separâr no mcsmo indivíduo singular o


que lüâis se dedicar â làrelas eróiicas e lev€ que se trancar num nosteiro,

é âcidental e o quc ele tcm em comum com outros mcmbros


da mcsmà licar estudando. e deu todas essas contribuições à filosofia universal.
cspécje, cntAo se verá que este traço univcrsal está de fâto
prcsente Abclardo, por causa das circunstâncias da suâ vida, não deixâ de

nele. Un1 gato. aléin de ter â§ caracteÍístiGs que o singularizam,


tcm scr unlilósol'o autobiográfico no úesmo sentido de Sânto Agostinho,

umâ séric de iraços em comum com ouiros gâtos, traços esses


que se beln quc não co â mcsma períeiçáo. EmAgostinho, sua meditaçáo

estáo efctivamcnte nele EÍc é o 'universal na coisa" Enl Íerceiro' àuiobiográfica, seu exâne de consciêncja, é o fundamento de toda a
diz Abetardo. há o universal como conceito ou clrmo coisa pensada' iilosofia que cle constrói dcpois. E há üma perfejta continuidade desdc
já nâo a âü ioconsciência individual entendidâ no sentido cristao de assumir
o tt ünizrefialia posl /e . o "universal depois da coisa", que
dependc dela c que é, cste sim, unrâ criâçáo da nossâ nrente' a rcsponsâbilidadc pelâ própriâ vidâ. pelos próprios atos. conlêssâr os

Abela(lo ten essa leliz inteÍvcnçáo na discussao o que permiie pccâdos e, airavés dâ con frssao, transcendê_los âté o sistcmâ filc,sófico

mosirar o universal "sob cedo âspecio" llssâ cxprcssáo "slrb cerlo compleio, con toda a mctal'ísica e a filosofia da História. Em iudo isto
aspecto" é câractcrisllcamentc aristoiélica rcsolve existc unla perleita continllidadc - náo se pode sepàtaÍ as pâries da
^rislóicle§
clâ quesrão v/rrios nlosofiâ de Agostinho.
quase todas as questões assim, clistinguindo ctentro
âspectos c alizendo: "Sob ceÍtos aspectos é âssinr' sob ouiros âspccios En Abclardo, a coisa iá náo é tão coesa assim: exisie um lado
ó assado...". Esse é o procedimenlo diâlético câracicríslico' llntáo' coin autobiogrifico e também uira séric de polêmicas lilosó[icas nas quais
essa intervençâo de Pedro Abelardo, podc_sc pcrccbeÍ
que o universal clc sc meteu, havcndo âlgu a conexáo. Não se consegue compreendêr
às vezes ó uma realirla.lc, às vezcs é tlm produto da mente, às vezcs
é direito Abelardo sem ter cm visla seu lado âutobiográfico. mâs cie
umâ mistura das duas coisas. não conseglre laz€r aqueià síntese iáo pe eiia que, paÍa mim, tc,rnâ
Abelârclo tem ainda uma outra câract€risticâ que o ioÍna Agostinllo o mais filosófico dos filósoios, na verdade

singulârmcnte importante para nós Todo r rndo conhece a históriâ' é o filósofo por excelência, pois realiza essa definiçáo

o sujeito comcu a aluna e dcpois icntou fugir com ela' Enqllanto ele da ^gostinho
Lrnidade do conhccimento na unidade da consciência. e vice-

eíava comendo a alun.r, ninguém achou n.rda de Úal, pois era mais veÍsa. A unidadc do conhecimento Íáo é separável da unidadc
ou nr(nÔ- urn (o.lume, nrr' ccrulnlcrl(:l' oe'soas inraP nrtn essr da consciência - entendida não no seniido psicológico, âbstÍato, da
história âo contrário, pensam que o sujeiio loi punido porque cstâvâ consciôncia em geral, mas no sentido biográlico concreto da "minhn"
comcndo a allrna, mâs não é natla disso.
gslava colncndo a menina u(,nsciência. Quândo ele estava contando a sacanagem que lez,
fâzia telnpo, e ninguénr diziâ nâala. Dâí, como cie erâ un1 sujcito muito ou cxplicando a Sâniíssima Trindade, ou explicando as §eis etapâs
crislao, comêçou â ficar arÍependido dàqüilo e achou quc tinha que da Llistória, etc., estâva lãzendo â mesma coisa. Tudo isto cra uma
casar. Nessa hora conlplicou, pois â família não queria,
já quc ele era pcdcita continuidade. É como Sócrates, cm quem o aspecio de sua
um pobrctão. Entào o suieito fugiu com a mocinha pâra casar, aí o utoconsciência pessoal, suâ dúvida pessoal, seus problenas pessoais

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10
=.w"!-

náo sáo separávcis da meditaçáo que ele está iàzendo. Sócrates nunca Quando surge esse problema da disputâ dos universais, se elcs
correspondem ou nâo à realidade cxterior, surge junto. e quase que
esiá colocando, pâm outros, problemas que de ce(o modo náo o
automaticamente, uma polémica pró Arisióteles e anti Aristóteles, e
perturbem pessoâlmente, entáo o lado "experiênciâ real humana" e o
com isso uma polêmica pró'filosofia e antililosofia. O maG curioso de
lado 'teoria" estáo muito coesos.
tudo é quc o mesmo lênômeno de que, por um lado, estão se fotmando
Em outros filósofos. essâ coesâo não aparece. Por quê? Porque o
sistcmas filosóficos intcgrais mais ou menos inspirados em Aristótelcs
lado experiência pessoal náo é nafiado, nao é cxposto. entáo, portrás do
para saber qual foi â experiência' e, por outro laalo, surgem reaçôes de ordenmísticâ que dizem quetudo
sistema montaalo, teflos que escav
isso é coisa do câpeta, leva para o Inlêrno, quc é preciso ir patâ a vida
Isso não qucr dizerque eles estejâm ocultando. náo é isto. EnlAbelardo
conicmplaiiva aparece igualmente nas três comunidades religiosâs:
aindâ aparece bastânle a conexáo entre as duâs coisas. lá quando se
na crisrâ, na islâmica e na judaica.
chegâ en1 Sânto Alberio, ou em Santo Tonás, náo é lácil' pois eles
Vamos encontrar um tipo filosófico e um tipo mistico radical nas
escreve e expóem impessoalmente. Por quê? Porque jáeranl lilósofos
três. na mesmâ época, e isto independentemente de contatos lsto
profissionais no sentido medieval da coisa.
náo se pode erplicar nem pelo dilusionismo, nem pelo funcionalismo,
A Escolásticâ. por um lado, nà medida em que monta a casta
profissional dos filósofos e a dota de uma teÍminologia técnica, de um
nen pelo estruturalismo, nem por coisâ alguma. Explica+c pela
própria natureza da questáo, que tão logo aparcce já se perfilant
conjünio de pÍocedimentos metodológicos comrrns à tÔdá a clâssc cria
âutomaticamente as dllas atitudes possívcis. No monento em
um benelÍcio que acelerâ a discussáo Por ouirc lâdo, ela como que
que esscs grandcs sislemas filosóficos começam a se articulâ! que
apaga a pista da ligaçâo entre os sistemas, entre as idéias filosóllcas e a
começa a set possível cxpô los c tomá_los obieto dâ discussáo num
expeÍiênciâ pessoal que esiá no fundo, eniáo nos obriga â escavar pâra
círculo de intelecluais dutâdos da mesmâ qualificâçáo e dâ mesma
descobrir. Mas nós náo podemos esquecer que é com a Éscolástica quc
fonnaçáo, alguns percebem que existe nisso um perigo, que eles
comeÇâ o problenra que vou chamâr de "paralaxc".
o total o eixo náo sabem exatamente no qlle consisle. Eu náo estava lá para âvisá_
A pamlaxe vai ser deslocamcnto enirc da
(\perier(iá rerl ( o ci\o dr con\tru(ao leurér(4. Nro quc iJ 'e los de qlle Gto qLre cles lemiâm era o que se châmava "paralaxc"'
ou seja, o deslocamento cntre o inteiecto conslrutivo teorético e a
observe a paralaxê na Êscolástica não, pojs aqueles homens ,.ram
consciênciâ pessoal. Era esie o problema. Mas para qlle sc tornassc
ale umâ sinceridade brutal -, mas, na medidâ em que o progresso da
possivel enunciá lo era preciso que a coisa live§se se desenrolado e se
técnica do discurso filosófico pernite uma espécie de unjformizaçáo
lnânilestado totalmente. e na épocâ estava em gerüe.
do vocabulário filosófico e â criaçáo de um diálogo padronizado,
Trôs nísticos Sáo BernaÍdo de Clairvâux, Al-Ghazali, no nundo
como âcontece em quatquer comunidade científica. a referência
à experiência conc(eta pode ficar implicita, e, na medida em quc
isLâmico. e Yehucla Ha-Levi, cntre os iudeus -
prolestâm entáo de
irnealiato, alizendo que â lilosofia estava colocada infinitanente abaixo
ela poalc ficar implícita, aos poucos essa experiência pêssoal
da contemplaçáo. e que aquilo que intere§sava cra o conhecimento
pode sumir embaixo.
t3
IZ
contemplâtivo. Acontecc que, nâ hora em quecolocam islo, eLes de certo Náo, a vida contemplativa náo é propriâmente conhccimento, é um
nodo iêm razáo. Mas, âo se colocar filosofiâ r]er§rs contemplação, está_ nodo de se! e de certo modo a primeiÍa condiçâo para que cxista
se colocando as duas no mesmo nÍvel como meios de conhecimenio, e inteligênciâ é que exista a vida contemplativa. Se, em vez dc sc dedicar
nâ verdade isso náo é assim. A vida contemplativâ não é um meio de à vidà contemplativa. o suieito ficar só construindo idéias, ele esiá
conhecimento, é um modo de ser - elâ náo laz partc da teoria, mas da lügindo da realidade para um mundo de sua própdâ construçáo.
realidadc. Entre â contemptaçáo e a teoria, a vidâ intelectual construtiva,
Existe um desnível entre os dois. É claro que qualquer tcoria está existe uma hicrârquia, que é a da realidade para o seu rcflexo, pàra a sua

subordinâdâ à realidade, a qüal. por definiçAo. tcm o primâdo sobre inrâgem. Entáo, sempre que csses camarâdâs protestavâm eles tinham
quâlqucr teorià. Náo é que exista uma teoria chamâdâ 'lealidade" razáo, com a ressalva de quei ao fazercm isso, estavam translbnnando

contra outra chamada 'teodâ", náo é isto. E nâ hora em que esses numa polêmica intelectual, e como que num conlronto de escolas, algo

três coneQam a protestâr contra a tcoria filosólica cm nome da vida qüe nâo era um confronto de escolas de mancira alguna.

coniemplativa, porum lado o protesto é justo, por outro ladoeles cstão


trânslormando a contcmplaçáo num modo de conhecinento ou nuna lAluno: Por qe, ao lazercm isso, eles esíautm tra sfotma do a

espécie de ieoria. Estâo coisilicando também: "llxistc aqui a escola dc aída contemplati?a em uma espécie deleo aouescaLadepefisamento?

pensamento mistica, conicmplativa, e existc â cscola de pensamento EIes do pode am estar sinpLesmeníe nega do a necessídade da
filosófica, racional, tcoréticâ". Iloje entcndenos (lue essa colocâçao é teotia?l
absollrtamenie lalsâ. Náo, eles náo podiam negar. pois todo mundo sabe que isso náo é
delensável. Iêr uma âtitude ânticicniífim náo é possivel. Eles estâvâm
l\lü,.,o Essa escola cotlÍelnpLaíiaa é püamenle intuiíiaa ? Na que tentando r€stâbelecer uma hierdrquia, mas. na hora en1 que formulâm
co sisÍia essa experiê citt?l isso, como é qu€ clcs lãzen? Teoreiicamente também, criando umâ

Não, esses três náo se interessavan pcla lbrmulaçáo teoréticâ. hierarquia de conhecinentos: 'olha. a contemplaÇáo cstá em cina'.
EIes achavam quc o próprio fêio de o suieito se dedicar à Íonnulaçáo
teoréticâ do sistema seÍia, em grande parie, uma perda de teÍnpo, se fÀlünâ: Nao poàe haüer lambém um cerla eng,ano entrc
náo fosse concedida a prioridade à vida Íeligiosa e coniemplaiiva. Essâ cofiÍefiplaçào e abseruação? Obsetüaqãa como aqueLe primei-o passo

prioridade de fato exisle, pois avida contemplaiiva nào diz respeito às do conhecífiefiío? (.--)l

idéias quc o sujeito ten, quen ele é. EIâ é a própda formaçáo,


mas a À observaçào 1ãz parte da contcmplâçáo de algum modo... Éla náo
a própria realidade davida da dln1â, o ptóprio estatuto realquc se tem passa de uma limilaçáo do conceitlr de contcmplaçáo, pois vai scr
observaÇão de faios da r1atureza No aspecto contenlplâtivo, o làto da
Náo sc pod€ dizet, entáo, que sejam dois modos de conhecimcnto. nâ1üreza náo interessa em si mcsmo. só inleressa como índice ou sinal
de realidades espirituais, como veremos em São Boâventura. entáo você tem que viver no neio disto, iem que ier a experiência real
O que €u quero dizer é que contemplação náo é uma via de disto, quer disto obtenha alguma ciência, quer disto obtenha apenas â
conhecimento. É um estado de se! um modo de ser Contemplaçáo salvaçáo da própria alma.
significa simplesmenie estar na reâlidâde ainda que náo se saiba Nesse sentido, â vida religiosa e contemplativa tinha um primado
enunciá-la. óbvio sobre qualquer outra atividade, mâs esse primado náo era, por
suâ vez, de ordem doutrinal. A próp a existência de doutrinas lãzia

lA]unoi Essas prdÍicrs mdítatiüas, elas... essa é uma escola...) parte de um contexto existencial criado pelavida contemplativa, entáo
nâo se coiocavam num mesmo plano. E se você monta Lrma discussáo
Toda disciplina ascética e mística é um modo de ser e náo uma
doutrinal em tomo disto, você está, de certo modo, querendo que
via de conhecimenio. O conhecimento é sonenle um dos aspectos da
a própria existência real, que é o fundo dentro do quâl é possivel a
vjda contemplativa, e a vida contenplativa é um caminho de salvaçáo.
âiividade ieorética, se torne por sua vez uma teoria. Àíjá está fazendo
Entáo, se nesta via você não conseguir enunciât náo conseguir dizer
uma espécic de "elêito Escher": a máo que se desenha a si mesma.
nâda do que loi percebendo, intuindo e amadurecendo nesse ponto,
Em princípio, nenhüm filósofo tem o direito de protestâr contra as
nao inreressa os resulladu\ Iorâm obtido.. I- pnr is.o que digo que
condiçÕes que permitem a âtividade filosóficâ;a própda existência dele
a vida contemplaiivâ náo é um modo de conhecimento que possa ser
é uma delas. Existem coisas que ficam fora da especulaçâo teoréticâ,
comparado com a atividade filosófico'científica nos mesmos termos.
porque elâs sáo a própria condiçáo existencial para que seja possivel
O protesto desses três Àlchazali, Ychuda Ha-Levi e São
a âtividade teorética, entáo náo podem ser contestadâs por aquilo
Bernardo - em làvor da vida contemplaiiva é legítimo em si. O erro
mesmo que e1â possibilita. Ou seja, um filósofo náo tem o direito de
está em equacioná-la como se ela própria losse uma tcoria. Mâs
proiestar contra a realidade. Ele tem o dircito de protestar contra
na época tudo se faziâ assim. Por quê? Porquc tudo erâ discutido
outrâ teoria. mas náo contra a realidade contrâ o fundo existencial,
coletivamente, tudotinhaque ser formulado de mâneira doutÍinalpara
isso ninguém pode. já é uma atividâde de louco. Isso quer dizer que,
poder ser d;scutido. O qüe quer que se dissesse era automaticamente
quando o sujeito faz isso, ele está protestando contra o próprio lato de
entendido como uma nova doutrina. náo apenas como a afirmâção de
estar protestando, Isso é uma loucura modernâ, caracteristicamente.
uma prioridade pessoal! por assim dizer É nisso que vejo, iá nesta
Vê-se que nestadiscussào játinhâentrado uma pontinha disto, na
etapa, â introduçáo do elemento "pâralaxe".
medida em que o primado da realidade fundamental sobre as teo as
Isso quer dizer que mesmo o apelo mais óbvio, - do suieilo que
se transfoma, por sua vez, numa teoria, sendo discutido como tal.
diz: 'A contemplâçào tem um primado sobre a investigâçáo filosófico-
Nâ verdade, qualquer filósofo conhâ o qual um desses três, Yehuda Ha-
científica" , ele está dizendo que a realidade tem um pdmado sobre
Levi, Al-Al-Ghazali ou Sào Bernardo, aprcsentasse objeçóes, ele teria
qualquer ieoria que se lãça â respeito dela. Se â realidade não é
todo o direito de responder: "Sim, você iem toda a razão. só que isto
constituida só do Universo físico, mas também de Deus, dos anjos, etc.,
não intedere em nada nas teorias que estou fazendo. Uma coisa náo

t7
que
da Ocidente, só se liam âlguns dos escritos lógicos de Aristótelcs,
tenl nada a ver com â outra A própria possibilidade dâ existôncia dos
dizendo"' eram os lópicos, as Cal€gorids, etc E nessa época, entáo, airavés
minha teoria depcnde disso que você es1á
árabes, chega a traduçáo das duâs Ánaliiicas, que são propriamcnte

a rcoria do silogismo. Esse Gilbert de Iâ Porrée é, entáo' um dos


lAlüno: "l/oca Aa esíá me conteslando' es á
ramàrudas impnírntes nJ Íonnul"(ao du nnva logca' quc p(rm'rir;r
conàiçAo Paru eu..."l
que. idealnrente, todas as discussóes daí parâ adiante tonassen a
Clârol Entáo, a partiÍ daí, jntrodüz-se uma espócie dc maluqujcc' lorma de deduções silogisticas.
que é tentar lazer a própria Ícalidade que possibilita o discurso entrâr Mais ou mcnos na mesma época, chegam os cscritos de alguns
a
dcnlro .1o próprio discurso. E é isto que, mais târde, vài eclodjt sob filósolos islâmicus, cspecialmente de Al-Farabi, Averróis e Avicena'
lomia rle pâmla-\e, ou seia, um discuÍso que iá náo iem âbsolÚameÍie cuja contribuiçáo cntradc imediatonas discussôes locâis' E todos eles'
nega'
nada a vcr com as conaliçÔes que o possibilitâm' e que até as aleàlgum modo, estáo fortalccendo a fonnâçao da tecnologia Íilosófica
iransiorrnaÍdo boa parte da tilosolia nuÍra expressão do famoso e a corrente aristotélica, quc tendia a lormar un sistema dâs ciôncias'
pfiadoxo do mentiroso: "O suieito que diz quc é mentiroso está É curioso qüe Al-Farabi é um filósofo do século x, cujos escritos
mentindo olr dizcndo a verdade?" chegamaqui porvoltacloséculoXll. Enbotaele losseunr aristotélico'
Esscs três, entáo, com toda a suâboa intençáo, iá possibilitaram quc
era un1 antiaristotélico nun ponto muito importante: acreditava
o germe dâ paralax€ entrasse. que a primcirâ Íachâdura ainda
muito
que os conceiios universâis chegam a nós por iluminaçáo divina'
pequsrd mais rard< rossc \e alugaí. mc"rnn r''nrno' pr'^'cEurdm 3 que
^o exatâmente como Santo Ágostinho. Lembrcm se de
l'orma(áu e o da linguag<rn rilusnfirr 'ruc permit:ri" ^gostinho
"perlci(odmenro diziâ o seguinte: 'Nós só tenros experiência dos seres singulâres'
qu€ a âtividadc teorética c cieniíÍica adquirisse uma apaÍenle Entáo, de onde tirâmos essas grândes noçócs universais? De onde
em relâçáo a seu fundo existencial' Isso querdiTer
que'
independência tiramos até o conceito de igualdade?". Ele dizia: 'É porque existe
nc'
se o indivíduo pode discutir tcorias filosóficas independentementc intelecto humano algo de supra humâno'. Este algo supra+umano
é
c1e quem ele seia, e dc qual ó sua cxpeÍiônciâ
renl. entáo a unidade que nos permite
Lrina assistência que recebe os do intelecio divino'
pessoal do
agosijniana esiá rompida. Isto significa que a consciênciâ conceber coisâs que estáo infinitamenle além da nossa cxpeÍiência
indivíduo é colocâala entre parÔnteses e Íora da discussáo filosóÊca' A isto os aristotélicos sr/iclo sen§t/ observarão que não é assim, que
Só intercssâ o cnunciado teorético É a pârtir do enunciado
teoróticll
obtenos os conccitos universais, mas que os obte os por comparaçào
que começa a aliscussáo; a expedência real qrre esiá subentendida náo dc caracterísilcas comuns enire váÍios entes singulares'
Nc\rd r]Ecu,5ro in||odu/-\e lamo(m umr.nnl'u."o ou< o prúprin
Nesta sucessivâ lorrraçáo da linguâgem, dâ ienninologia filosófica' Aristótelcs, se estivesse vivo. rcsolveria, creio eu, da seguinte maneirâ:
tem muita iÍrportânciâ um cidadáo chanado Gilbert de la Porróe' quc obtermos os conceitos univcrsais por âbstraçáo,
cle diria que o lãto cle
é qucm estâbelece â chamâda "nova lógica"' Aié uma certa época'] no que parâ
isto é, por comparaeão de indivíduo§ singulares, não impede

l8
isso sejn necessáriâ a âiüda do intclccto divino. Por quê? Porque, duas correntes náo sao, então, rcâlmente opostas, mas na época
qüândo vocô compara dois seres singulares paÍa pegar o que cles têm pâreceram opostas.
cm comun, o que precisâmente você comparou dc um com o outro? Tambén não deila de ser interessante que a mesma solüçáo que
lá dei uma aLlla sobÍe isso, dizendo: sc você vâi comparar um gaio Abelardo havia aÍticulado ao problena dos universais aparcça na obra
com outro gato, coln outro gato. con outro gato, para obrcr no finâl de Avicena, outro camarada que vive no século X para o XL Com
o conceiio universàl "gâto", é necessário que os traEos obseNadoslro rel"(âo ao. un \er\ai\. el( diz ,.De lãro. o, uni\cr.a, \ao criaçoe\
prineiro gato sejê os m€smos obscrvâdos no segundo. Se num vocô da mentc humana. porém a eles corresponde, na esfera da realidade.
obsclvou a co! no outro obseNou op€so, no teÍceiro ohservou a posiEào, a essência de cadâ espécie. que está na cspécie e nâo na nossa mente.
no quarto obse ou a açáo, se eleestâva dormindo ou acordado, andando Portanto, o univeÍsal é ao mesmo tempo invenEáo da mentc humana e
ou parâdo. no final você náo vâi obter l1âda. A própria possibilidade da um traço cfctivo da realidade, algoque eslá presente na realidade ". Sua
comparaçáojá subentende uma certa unidâde da iolma quevocê capta soluçáo é bastante semelhante à de Pedro Abelardo, e eles a obtiverâm
em cadâ um dlrs seres singlrjares. dc maneirâ totalmenle independente.
O p,o(e.'o ab)lrallvo c . nrào nec, 'sd':o. ou '(ia ü conrporo(an Também na mesmâ época chegam aqui as obrâs de Averróis,
parâ câptar os clcmcntos comuns é unl processo necessário, mas ele um sujeito que não foi importante no contexto islâmico onde foi
náo seriâ possível se você já náo estivesse, dc ccrtomodo, pré orienlado esquecido logo depois de morto , mas que no Ocidente teve um efeito
por umaespécie de pressentimento de quais sáo os elementos que você arrasador, criando aqui, pelos séculos seguinies, Llmâ visâo totalmente
de\e.omla'ar (nrÍc \u!< Iil({\e a rÔrnpaíacao oor eüada do que teria sido a evoluAâo do pensamento islâmico. Para os
partcs, jarnais chegaria â nâda. PoÍ ej(enplo, âqui você pega unl gâto. ocidentâis ou lâtinos, Averróis estava no centro dos aconiecimêntosi
que é marrom; do lâdo tem uma bola mârrom entáo, nesse sentido, e, para os islâmicos mcsmos, Averróis nem estava lá.
o gato € a bola sâo a mesma coisâ. E depois tem um gato prcto, c esse Ele tinha duas teorias que no meio islâmico fomm consideradâs
gaio preto. sob esse âspecto, é enorúement€ difcrcntc do gato mâIlom altamente heréticas. Uma delas é a de que a verdadeira religiáo é mesmo
e da bolâ marrom entáo ellr vai cntrar numâ outrâ espécie. Como é a filosofia; somenie a filosofia permite o acesso às verdâdes universais
que você conseguiria lbrmar os conceitos das espécies se sua atcnçáo principais. e a religiáo, com todo o seu aparato de simbolos, mitos,
iá náo cstivesse voltadâ para aquele esquemâ comum que os vádos rituais, etc., não é senâo uma espécie de expressáo exótica ou floreada
objetos têrn uns com os ouiros e que pcrmite que sua mente percebâ o das mesmas vcrdades quc a filosofia capta por outro meio. A segunda
agrupamento dcles numa espécie? leoria explica o conhecimento dos conceiios üniversais; segundo ele,
o velho Àristóteles, se eslivesse vivo naquclc momcnto ola, ele â parte superior da inteligênciâ humana. ou sejaj aquela que capiâ os
se a Lrm polrco menos aristotélico do quc os aristotélicos medievais conceitos universais, é uma só em todos os seres humanos.
. diriâ: "Você obtém os conceitos universais por abstmçáo, com Nessa épocâ, dividia-se o inielecto humano em dois aspectosi o
alguma aiuda dâ iluminaçao divina, como dizia Agostinho". Essâs intelecto agefile, que é aquele que fornece a -leÍdadet c o inteLerto

2A 2t
possí?el, qüe é aquele que a recebe. Averróis disse: "O intelecto você, você, você... Essa é a teoriâ de Santo Tomás, de que a diferença

agentc, que é a parle divina da inteligência humana, é um só para individual é exchsivamente material. Ao que alguns objctâvam: se a
todos; e o intelecto possível é um para cada um. Entáo, qüando você diíerença individual ó apenasmaterial, entào, também, como épossível
percebe um conceito univcrsal, o que está agindo em você é o mesmo a salvaçáo da alma? Por que um pedaço de matériâ há de ser salvo?

que cstá agindo em min1". Acontece que isso criava um problema Surge üma oütrâ escola que diz que a individuaiidade náo pode

ieológico, pois, se é assim, se o intelecto agente, à parte nrais nobrc da cstar só na matéria, deve estar na forma. Há dilêrença essenciàl de
âlma humana, é um só ern todos, somenie esta parte é que pode ser individuo para indivíduo. Existe una espécie de essência indjvidual,
que mais târde Iohn Duns Scot chamará de esseídade. A esseidade é a
sâlva quando o sujeito moÍre, nao hâvendo propriamente a salvaçáo
individual. O intelecio agente, queveio do Céu, volta para o Céu, c nós minha essôncia, a sua essência, a dele... Há uma pâra câdâ um.

todos vamos paÍa o buraco. Evidentemente, os mlrçulmanos ficarâm Esta mesma coisa que surgirá no século XIII com Duns Scot já
muito revoliados, e os cristáos também, quando ouviram lãlar djsto. havia lido expressa (vamos dar Llma olhadinha no século xI) por
Surge, entáo, toda uma discussão, principalmente com Santo lbmás um filósofo judeu, Ibn Gabirol, que alguns chamâram de Àvicebron.
deÁquino. Ele até fará uma polêmica comÀverróis sobre estc ponto, e E Avicebron dizia que a almâ, a própria âlma, qlle estaria com relaçáo

seus argumentos sáo absoiutamente devastadores. ao corpo como a forma está para a matérla, ela própria náo é forma, é

\a
epo(a junlo com o rnlere.'c pclus uni\(Í.àir. comec" a surgiÍ tambem compo'ra di iorma c marena. Lle di,,ra que e\rsre umu mür(Íia
uma outra questáo, que ó o problema dà indi?iduaLização. Ele se da qual .ao Íeira. à, àlmar. f (*lr mrtéria. DUr .u.r \ez. na cria(ao
formula mais ou mcnos da seguinte maneiÍa: se na mcnte de Deus os dos entes concretos, subdivide se numa "matéria espiritual" (como se

univcrsais, ou seja. as idéias, as essências das espécies, precedem â losse o sollzrare do indivíduo) e numa "matéria material", que seria

criaçâo dessas espécies, e se Iormalmente, portanto, todos os mcmbros o scu corpo. Entáo lbn Gâbirol já tinha mâis ou menos âpreendido o

de uma espécie são o mesmo, pois obedecem ao mesmo csquema geral,


pincípio dâ soluçáo que mais lârde Duns Scol daiá ao problema da
o que os diferencia individualmente? De ond€ surgem os individuos, individualidade.
de onde vem a diferença individual? Nesta época, iambém se difunde muito o conhecimento de
Aí surgem duas hipótescs. A primeirâ é a següinte: a diferença outro filósofo judeu imporlante, que é Moisés Maimônides. que
individual está apenas na matéria. É como se você tivcsse um mesmo tomâ decididânente o partido da corrente anstotélica afirmando
molde. Por exemplo, a espécie humana: tem um molde chamado tâxâtivâmente que o conhecimento racional c cicntÍfico é até um dever

"humânidade". Coníorme csse molde loi aplicâdo, hoie nós dirianos, religioso. lsso deixará umâ mârcâ muito imporlante no pensamento
judaico pelos séculos seguintes. Embom aceiiando integralmente o
num grupo de moléculas de carbono que estava locâlizado na cidâde
de Campinas, cm 1947, no dia tal, no Hospital da Beneficência conteúdo das Escrituras, eie dirá que, na interpretaçáo deles, o que
Portuguesa, virou eu. E se o mesmo molde Ioi aplicado em outro prcdomina é realmente a razâo. Onde houver um conllito direio,
pedaço de maiéria quc estava em outro lugar, daqui a pouco viroll onde umâ âfimâcáo das EscÍiturâs conirâdiz lÍontâlmenre â razão.

zz 2l
sem possibilidade de conciliaçáo, nesses casos a Escritura deve ser a filosofia, entâo nem sc d isclute. "Prínuín üiüerc, deinde philosophare"
interpretada alegoricamente ou simboiicamente, Nunca se vai fazer ("primeiro viver, depois filosolãr"), este é o sentido. Quer dizer que
com que a E5cíilLrra em 5i predomine:obre a Ía7ao. porquc a ra7ào a vidâ, nâo se trata da vida prática, náo - "Primeiro eu vou gânhar
é o único meio que se tem de interpretá-la. Seria uma espécie de filosofaC', náo é disso que ele está Íalando.
meu dinheiro, depois vou
curto-circuilo. Maimônides náo aceita esse curto-circuito, entáo diz: Está falando da vida no sentido de existôncia real. E â existência
'A Escritura predomina, mas ela mesmâ exige a intcrpretaçáo racional. real é existência nào só no mundo mâterial, mas no mundo material
E onde 1'or confrontada com a razâo, significâ que náo se entendeu, dentro do imenso contexto da infinitude espiritual que o cerca. A vida
entáo aquilo tem um outro sentido". contemplativa é simplesmenie a âbertura da alma para a infinitude da
Note bem: contra indivíduos como lbn cabirol e Maimônides, realidade, e é claro que isio precede qualquer elabomçâo teórica.
aparece Yehuda Ha-Levi; contra Averróis e Avicena, aparece Se na esÍera da discussâo filosóficâ havia esses prcblemas dos
Àl-Châzalii contlâ os arislotélicos ocidentais todos, Pedro Abelardo
e universais, da individualidade, etc., pelo lado dos místicos também
e ortros, aparece Sáo Bernardo. Esses três lênômenos sáo mais ou havia alguns problemas, e na verdade problemâs até mais graves.
menos concomitantes. lsso mostra que essa quesláo é de cerio modo Porque toda e qualquer atividade mÍstica, seia nâ eslerâ cristá, seja na
estrutural. Onde existir um desenvolvimento de u â filosofia dentro islânica ou na judaica, oferece dois dscos.
de um contexio religioso, aparecerá esse problema dâ contemplâçáo O primeirorisco é o chamado "egoísmo espirituâI":o sujeitoestátáo
zelsus a construçáo teorética e a construçáo científica. E, nos tÍês imbuído da sua bu sca mística que se esquece da humanidâde e cuida só
casos, o problema será mal equacionado pelos partidários da vida de si mesmo. Claro que eie está dedicado a uma atividade muito nobre,
cootemplaiiva, mal equacionado a um ponto em quc Sáo Bernardo mas especificamente no coniexto cristáo isto é condenado. Pelo qüê?
cria umâ verdàdeira obsessáo anti-Âbelardo. llram amigos de infância, Pelo 20 Mandamento. O sujeito está pmticando o 1" Mandâmento: eie
mas ele vivia cismado com Abelardo e todo dia ia procurar alguma âma a Deus sobre todas as coisas, entáo só pensa nele 24 horas por
coisa herética nos seüs escrltos, c nunca cncontrava. Eie dizia: "Esse dia. Mas como é a maneim concreta de você âmar a Deus sobre todas
negócio deve ser herético...", daí revirava. Mas nunca conseguiu as coisas? Deus náo precisa de você pa-ra absolutamente nadâ. O quc
provar efetivamente nada. Esta espécie de obsessáo anti-herótica iá você podelãzer em favor dele? Nada. Entáo, o amor concreto a Deus se
mostra que havia âlguma coisa crradâ na l'ormulaçáo de uma outra manifesta no 20 Mandamento: 'Ama a teu próximo como a ti mesmo".
que era profundamenie verdâdeira. No primâdo da conternplêçao, A mistica é, entáo, muiias vezes, a fugâ ao dever da caridade.
Sáo Bernardo estava montado na razáo, mas, caso se transtormasse o Em segundo lugar: a vida mística levândo ao conhecimento dos
prinado da cont€mplaçào, por sua vcz, numa teoria, entâo ela entrava mundos espiriiuais e, em última análise, ao conhecimento dc Deus.
em conlionto com outra teoria. Como o conhecimento dentro de um contcxto medieval é semprc
\o(e qLe paÍa Ago5lrnho nada disso tazia n mcnor .cntido. L a idenlificaçáo entre o sujeito cognoscente e a coisa conhecida, ele levava
contempiaçáoquc lhe permitia ter a consciência de si, da qual ele tiravê a uma espécie de identificaçáo do suicito com Deus. Dessa maneira, o

z5
estendem ao mundo animal e até vegetal. Este processo dâ idcniificação
sujeitojá náo sabia mais quem ele era individualmente, podendo dize!
conl Deus e do egoísmo místico, que no mundo islâmico virará umâ
como Sáo PauloÀpóstolo: "Já náo sou mâis eu quem falo, é Cristo que
fala pormim". Bom, em termos. Porque sempre tem âquele negócio do verdadeira epidemia, no mundo ocidental é então cortado pelâ
intcrferência providcncial dc Sâo Francisco, que será o pai inteleciüal
Diâbo. O padrc cstava fazendo um exorcismo e dizendo assim: "Em
nomc de Iesus Cristo, saídaí". E o Diabodiz: "De Iesus Cristo eu iáouvi de um grdnde fi,osolo. que e Sro Buirenrurr

falâr, mês você quem é?". Esta dilêrençâ entÍe o Criador e a criatura
A Ordem Franciscana foi fundada para isto, o amor ao próximo,
é entáo irredutível, sempre peÍnanece. Se existe umà identificaçáo, a caridadc. A Ordem Dominicana, ao contrário, cm de frades
essa identificaçáo é oíe uay: é vocé qre é absorvido em Deus, náo intelectuais e pregadores. Você tem a dos liades mendicantes, que
cram os franciscanos, € frades prcgadores, que eram os dominicanos.
Deus que é absorvido em você. O místico em transe de identificaçáo
E eles setornam os dois pólos da discussáo filosófica, gcrando algumas
com Deus pode lãzet entáo, como aquele fâmoso Al Haliai, o místico
islâmico, que um dia saiu em praça púbiica e disse: "Ana aL Haqq" diferençâs absolutâmente fantásticas, marâvilhosâs, entre o mundo de

("Eu soü Deus")- E imediatâmente lhe coÍtaram a cabeça o que, se Santo Tomás de Aquino e o de São Boaventurâ, que Íalvez nós náo
consigamos expor agora.
ele era Dl}us, náo teda the feito mal algum.
Esses dois riscos o primeiro de ordem ética e o segundo de ordem Como eu disse, o centro da discussáo inlelectuâl nesse período, nâ
fase áurea da Escolásticâ, são entáo as u nivers idades, pârticularmente â
cognitiva -, foi contra isto que São Francisco dc Ássis funda a sua
baseada essencialmente na prática Universidade de Paris, onde, numa abadia, que existe ainda em ruínas,
ordem. A odem de Sáo Francisco é

do amor ao próximo, entáo aí náo há perigo nem do egoísmo místico um abade châmàdo Siger de Brâbânte adere, de uma só vez, a todos
nem da ideniificaçâo de Criador e criatüra.
os pressupostos filosófrcos aristotélicos os mais heréticos possíveis.
lsso l'oi uma vantâgem, pois de certo modo iez da Universidade o
tambéíL ttào A orução da paz, a Oúem pólo arislotélico dessa discussáo. Ele âdere âté à noção aristotélica
l{l'rÍro Tem a oruçào é?

de São Fruncisco.l
da eiernidade do mündo, dizendo: "Se esiá em Aristóteles, deve ser
verdade de alguma mâneirâ". Vai contra o próprio princípio da criaçâo
Náo, a OÍdem de Sáo kancisco é essencialmente o amor, o socorro
do murdo, pois, se o mundo é etemo, eie não foi criado nuncai no
ao próximo.
entanto, na Bíblia está dito que náo é eterno.
Siger âdere também âo monopsiquisno à teoriâ do Áveróis de que

ÍAluno E a otução tambéfi, ndo é?l o intelecto agente éumsóem todos os sereshumânos e, evidentemente,
quando chega em contradiçóes, com isso admitc quc pode haver düâs
Náo. A oraçáo está em iodas, não é ocaracteístico. O característico
verdades totâlmente contrâditóriâs: há uma verdâde teológica, que
éisto mesmor os franciscanos vivem de ajudaruns aos outros ede ajudar
se dedlrz da Bíblia, e uma outra verdade filosófica, que se deduz da
os demais. E para isso vale tudo. Justamente nesta ideniificaçáo, neste
observaçâo c dc Aristóteles. Náo tcm problema, pode-se pcrfciiâmente
amor, neste socono às criaturas, eles náo param no ser humano, se

27
viver com esta conttadiçáo. A coisa em si é absuÍda, mas como pdncípio lAluno: Mes,rlo com um Co cília àeliberunàa que aquilo está
estrüturador da vidâ universitrfuia é müito bom, pois permjie â convivência en'ado?l
eodiálogo das duas.láque náo se i€m a soluqáo doproblema, admite_se,
Bom, estáerrado. mas se se pudesse argu mentar.. Vejâ, nessaépoca,
pelo menos provisoriamente, â existência de âmbas.
a.rgumenraqào (ra urdo. O |csoâl hoje nào cun,egue imagindr u
Atilude similâr apârecerá no século xx corn um filósofo muito
respeito que a Idade Média iinha pela argumeniaçáo. Se o sujeito pode
estranho, um italiâno chamado Ugo Spirito, que ctiará uma filosofia a
n,o\ dr n que eirá di/endo. \ ai udo bcfl. Tanro c a,rIr qJc. nrc\mn no5
que vai châmar de "problematicismo". Ele coloca um monlede dúvidas
processos de heresia, antes de chegar ao processo l'ormal, o inquisidor
fitosóficas e diz: "olha, eu náo digo que elâs náo tenhâm soiuçâo; elas era obdgado a discutir com o suspeito. dúrante anos se fosse preciso.
ialvez até tenhan, mas eu náo conheço nenhuma. Entáo, enquanto Se o suspeito conseguissc convencê-lo, ele dizia: "Entáo não é herético.
isso, vâmos ficândo com os problemas".
Herético sou eu' Daí tinha que voltar parâ trás e dizer: "Olha, deu
Na discussão pró e anti-Âristóteles, evidentemente, a primeira coisa
errado". Isto aconteceu nuitas vezes. Você va; acusâí o cara, e ele
que âconlece quando se começa a divulgaÍ os escritos adstotélicos é
prova que está cel1o. E loi exaiamenic o quc aconieccu aqui.
a repulsa total. Vai logo haver um Concílio que condena 28 tescs de
Quandoestavam nessadiscussâo entre â rejeiçáo iotâl deÀristóteles
Aristóieles, ao mesmo tempo em que uma outrà parte, como o própric) e ê adesào totâ], surge enião duas tenlativas de conciliaçáo, ambas
Siger, aderia por compl€to, enlientândo claramentc o Corcílio. muito bem-sucedidâs: uma lranciscana, com Sáo Boavcrtura, c outra
O pessoa, pensa que nê ldade Médiâ era assim: o Pêpa fâlava, todo dominicana, com Sânro Àlberto Magno e Santo Tonás de Àquino.
mundo obedecia seNilmenie. Imaginam que a Idade Módia era uma Boâventura é um camarâda qlre tem uma tal simplicidade. uúa
espécie de Partido Comunista, qu€ haviao Comitê Central que decidia e
ra1candum para cxplicar as coisas, uma tal boa-fé que e1e dcsarma
todo mundo. âtó o último, iinha que repetir Náo, aquilo era exatamente qualquer um. Seu livro pdncipâ], qne se ch:àDtd ltinetlttio da fiel1te
o contrário, un1 sâco de gatos e uma discussão permancnte. Entáo. uma pala Deús.'é um dos granLles livros da humanidade que todo mundo
instituiçáo inportantíssima, como a UniveÍsidade de Paris, era dirigida devia ler Boaventura diz o seguinie: todo e qualquer conhecimento de
por um sujeiin que enfuentava ostensivamente o Concilio - muito mais
toda e qualquercoisâ
é, enlúltima análise, un1conhecimento ânâlógico
do que qualquer Leonatdo Boff hoie. À divergência era mlrilo mais de algo que. em últina insiânci.r, remelea Deus. Esiude vocé o que IoL
prolundâ. Leonardo Boff náo tem nenhumâ divergência lilosófica f)eus está poÍ trás de iudo, é universal, onipresente. tem o primado
com ninguérn, náo é capaz de compreender essas coisâs, mas Siger de metdfisico âbsoluto e, pensando bem, Eie é o próprio Ser, à própd.t
Brabante sâbiâ perfeitamente corn o que estava lidando. No entanto,
existência,Iale você do que for.. Não importa do que você esiá lalando,
náo houve puniçáo ncm perseguiçáo. PoÍ quê? Porque não e(a maiória últi
em a análise está falando dc Dcus, náo tem como escapar
decidida ainda. isso estavâ em discussáo.
Sem negar totalmente o princípio da abstmçáo, Boaventum diz
a ooisa nais óbvia do mündoi "Olha. sem Deus não poderíamos
BOAVENTUM, Irn,errro dd ,rc,rr,?r7, ,r?!r Ir: RO^VnNTIJRr\ llll Rr\GNORIIGIO.
r. !:l (q,l
]xas íilasóÍi.:a tcaLlei@s Fonor\Lesrc, Edlrucrs/lF N 1993 Pcnsrment)
lll 2t
ier nem percepção sensível". Existc iluminação divina ató quândo ser, conhecer e amar, está pegando a própria Saniíssima liindâde em
um gato vê uma lasartixa. nlim isto parece supremanrenle óbvio ânalogia. em microcosmo.
Ou ^
o illinitlr.rlrarca e iranscende o linito, e não só €m torno, mas Isso quer dizer quc Boavcntura vê o universo todo como uma séric
derÍro dele mesoro, ou seia, todos os intcrsticios, todos os hiâtos do de esleras das quais uma é nnagcm da outra; as mais iniêriores sâo
finito sâo preenchidos pelo infinito , ou Deus é onipresenie, ou lle imâgens indirctas c, por assim dizer, encobertâs das superiores. Isto
náo é coisíssinra nenhunrâ. significa que ele contorna o problema dos universais de uma maneirâ
absolutamen te genial, poisvocê só coloca csse prcblema dos Lrniversâis
l\t.-- ( ),tt tt lt t'tt bt'J^ta ü' Jt.'t a'.,n, 'ttt. ttn.,oca se esquecer essc âspccto snnbólico e anâiógico, que uma esfcra rcmcte
pastando é iluninada, eLa só nào sabe.) Entio, o que qucr quc vocô diga numa ceria esfera é de certo
à outra.
modo inexalo, porque só na esfera supcrior ó que tem â explicaçáo
É o que diz Boaventurê: â iluminação divina está presente em
daquilo, só quando chegar em Deus é que daí lêchâ a pirâmidc todâ.
quàlqucr ato cognitivo, por mais modeslo qur sejà. Elenão esiápresenie
dc marcira dircta c cvidcntc. cstá prcscntc dc mancira cncobcrla.
Isto significâ quc, cm todos os debaies lilosólicos p:rrciâis, em
nenhum deles você vai ler certezâ absoluia, pois sempre vai depender
Entâo ele cliz que existeln três etapês no conhecimento dc Deus. Você
dc vocô subir na escala. E é justanente esta âscensáo, cstc iiincrário
conhece Deus râ suâ sor,7óra. O que é sonbra? P o univeNo visivel
dâ mente a Deus que ó â própria filosofiâ. Na veÍdade, a sollrçáo dos
Entáo tcm cssa sombra dc Dcus. Dcpois quc vocô conhccc o univcrso
problemas filosóficos parciais náo étáo importantc assim, pois qualqueÍ
visivel. dâí con1eça â conhecer Deus na sua irTagem. o que é â inagem
csfcra de realidade que vocé esteja tratando é sonentc uma imagcm dc
de DeUs? É a sua próprià allna. o cLrnhecinenlo interior. Depois que
uma esfcra supcrior O que inieressâ náo é Íesolver o problema aqui.
você conhccc â sua alma, ai conhccc Ders etn Si mesno, cn1 sva
Ínas subir para â esli?ra seguinte, e ir subindo, subindo, ató chegar a
Deus. Isto quer dizer que, em Boaveniurâ, não existe diÍêrençâ entre
Nos três casos. é à mesma coisa que você está conhecendir, e
ncssc scntido Boaventura adere à teoria do Sto Agostinho de qüe
r filosofia c a njrslrca. \ao e{ardmcnre
" mesm" rois.r. rp(nür nurnri
diversos da mesma coisâ.
a própriâ estrutura da allnâ humanâ é uma imagcm da Santissima
]}indade. A âlma hunana. primeiro, é êlgun.r coisâ, tem o s?r
portânto. expressa â on ipoiência divin a. Deus Pai. Segundo,len1 o dom IAlnno Hieruryuia.l
de corÀecer. é inteligcntc e intcligívcl - portanto, rcflclc o Filho. quc é Hierarquia. BoaventuÉ coÍrrprcende entalr que, se no Evângelho,
o Logos, â irlleligência d€ Deus.:lerceiro, elâten oamol. Ser, conhecer nas Sâgradas Escritüras, há muiia coisa dita em modo simbólico, isto é
c âmar sáo os três aspectos qlre correspondern ào Pai, alr lilhlr e âo porque a própria realidade é simbólica. Não cxistc essa dlferençâ entre
Espírito Santo. ou â onipotôncia, a onissâpiênciâ e a bondade dc Deus. â expressáo, qüer dizer umÍ coisa náo pode ser literal ou sinbólica,
Quardo você vai âpreendendo que a esirutura da almâ consiste em pode ser apenas um pouco mais lltcral ôu üm pouco nrais simbólica,

30
mas seú simbólica nos dois casos. É também â partir daí Boaventura correkTções e conhecer o mundo. Aí tefi uma etapa extra, porque
desenvolve uma certa filosofia da história parecida com a de Santo essa segunda etapa...l
Âgostinho; e dá um desenvoivimento da histó a humana em seis
Mas no fundo ele está dizendo a mesma coisa que Boaventura,
etapas, qüe rcIletem os seis diâs da CriaÇáo, o que significa que ele
apenas está dizendo pelo lado oposto. Agostinho está descrevendo o
u(eila inreirame.lle o [amoso \rmboli\-no do) números
caminho da alma para fora, por ampliações sucessivas. Já Boaventura
Acho esse Boaventura umâ figura absolutamente fascinante,
náo está falando apâÍiirdaalma, mas a partir do cosmos, da realidade.
maravilhosa. Tüdo o que para os outros é problema, pâra ele nâo é
A reâlidade visível é apenas umaesferaque estádentro de outrâ esfera,
problema de mâncira alguma, pois vai com a maior simplicidade resolver
que está dentro de outra esfera, que estádentro de outraesÍera. e assim
tudo. Ele diz: "Olha, vocês estáo discutindo porque estâo tomando
subindo até Deus. Ele náo começa a descriçáo a pafiir da sua própriâ
isso dc maneira demasiado literal, como se essas questões, se referindo
aima, mas da experiência do mundo sensível.
a dimensôes da realidadc que estáo âbaixo de Deus, pudessem ter uma
Noie que, no caso de Boaventurâ, a distinçáo entre o universo
soluçáo definitiva. Mas só Deus é definitivo. entáo essa questáo será
teórico e a experiênciaviva nâo aparece. Élâ está exatamente como em
rcsolvida de maneira parcial e p{ovisória só parâ que dela você possâ
Agostinho, pois está muito claro que, em cadaenunciado filosófico, ele
subir um degrau na escala". lsso quer dizer que todas as discussóes
está falando de sua experiência mística. No instante em que percebe
filosóficas em Boaventura se translbrmam em etapas, em degraus de
que atrás de câda eiemento do mundo sensível está a própria presença
uma ascensáo mÍstica a Deus.
de Deus, isso náo é uma teoria, isso é vida contemplativa.
Boaventura seria, pdrâ mim, dentro desta ordem, como um
lAluno: Esses degraus, qüe o senhor está er.plícando que
modelo de filósofo. Depois de Sócrates e quando digo Sócrates iá
Boaüenturu percebe, eles parccem como que a esttututd rcdl à quaL se
estáo embutidos aí Plaiáo e Àristóteles e de Agostinho, tenho esÍe
col1lrupõe a estfüturu da percepção índiaidual que Santo Agostinho
Boaventura como exemplo do filósofo que realiza perlêitamenie, tanto
esíabeLece nos degraus de rccioru idade. Sa to Alostí ho dizia que
em sua pessoa quânto em sua obra, €sta definiçâo da filosofia como
eu cofieço num níael àe percepçào muilo básico, as meus sefiLidos,
unidade do conhecimento na unidade da consciência pessoal real e vice-
elc., e posso fie fechÍtÍ nisso. Vou set utn útíco. Mas eu posso aceitar
versa. Náo é possível vocé distinguir o que é a filosofia de Boaventura
elelnefilos. .l
.
do que é a alma de Boaventura, é a mesma coisa nos dois lados.
Depende, é âbeftura ou lêchamento dâ alma? Iá em Santo Tomás de Aquino a coisa não é bem assim... EIe eÍa
muiio amigo de Boaventura, mas tinha Iá essa divergência. Santo
Tomás dizia que a Saniíssima Tlindade só podia ser compreendida por
tÀluno: (...) em uátias etapas. Então eu aceito utna certa
analogia, por exemplo, coma almahumana. Sóque, quando ele via que
abetÍuru do Lipo "conÍi& o que as outrus pessoas Íalam", mas
estava conhecendo uma coisa por analogia, achavâ que isto eraüm sinâl
eu mesmo não ai, e issa iá amplia fiífiha cítpacidadc de eLaborut

32 33
de que nào se tem um conhecimento pcrfeiio. mas um conhêcinrento O que Santo Tomás de Aquino estavâ procurando cra outra coisa.
impelfcito. Se você só conhece uma coisê por comparaçáo corn outra. É como se dissesser "Boaventura estava filosofândo para si mesmo, e
entáo não está conhecendo bern. Â analogia, para ele, era um sinal da Santo Tomás dc Aquino estava filosolando pam a civilizaçáo inteiÍa".
lirnitação de nossos conhecimcntos. Já Boaventura dizia: ,,Isto nAo é O problena é entáo dilerente. Do ponto de vista da asccnsão da alma,
linitaçâo alguma. Não é que você só conhecc por anatogia por náo dâ salvâçáo, o que Boâventura está dizendo é mais do que suficienie.
poder conhecer de uma maneira melhor, é o Univcrso que é construído Você já eniendcu a pirâmidc que vai indo ató Deüs, vâi subindo, e iem
assim. O Univeíso é consiituído de esleras, em que umâ é análog.r uma série de questôes filosóficas que seráo resolvidas imperfeitamente.
à outm. Ou sejê, \rocê náo está tendo um conhecimento inexâioi a pois o próprio mündo é imperfeiio, e é imperleito porque cada degrau
analogiâ nesse sentido é perlcitanente exata, pois elâ é â própdâ é somente analogia ou símbolo do seguinte. cntáo só tem soluçáo
ordem de construçáo da.realidade". Esse dcbate é importantíssimo, e quando chegar em Deus. Muito bem, digo eu, suponha que você tenha
acho quc Boaventura tinha razáo. chegâdo lá. Como é que vai fazer a pirámide de volta? Como é que
vâi orsânizar o mundo humano e o mundo do conhecimcnto? Estc
lAlun (...) cerlos tílósolos chegaü um deLennínado ponto e aí segundo problema era o de Santo Tomás de Aquino. Então, por um
eles fiesmos se complicam. Nâo sei se eLes Íicaít afigustíados (__.)_l lâdo. eles estáo se contradizendo, como se diz aÍistotelicamenle: sob
Não é que coÍnplicam, depende do problena quc o sujeito está certo aspecto. estáo se contradizendo, mas sob ouiro aspecto náo há
tentando resolver Veja, Sânto Tomás dc Aquino esiâva tentando resolvcr contradiçAo, mas apenas uma dilerença de objetivo.
um problema que€ra o meslllo de SantoAIberto, que é a constr!ção de Isto significa que em Boâventura se realiza mais perfe;tanrente
un sisiema explicativo universâ], o sistema integral das ciênciâs. Esse
aquilo que nós definimos como cssênciâ da filosofia. A filosofia será
sistema das ciências náo é somente a soluçáo de um problemâ pessoal uma organizâçáo da unidade do conhecimento, mas na escala da
e dc üm problema filosófico: é a solLrçáo dc um problemâ civilizacional consciôncia individual. Ou entáo aquela resposta serve para aquele
e social. na verdade. Eies têm que fazer um sistema das ciências que indivÍduo e para âqueles que têm uma vivência da realidade parecida ou

possa ordenâr a sociedade intcira, afinal de contas oralenar o ensino. similarà dele poÍtanto. não tem va,idade sociai. Se pâssa a ter validade
-
â prática científica, as leis, etc. E Sáo Boaventura? Ele nào esiava social, ó porque já ó a filosofia c algo mais. O que entendemos hoje, na
tazendo nada disso, estava âpenas tcntando cxplicar o que captava da nodernidade, por ciência é algo que temvalidade social. Por exemplo,
realidade. Da suaperspeciiva, ele dizi ,,Olha, eu consjdero que. se você nurn lribunal, você pode alegar um ârgumento cieniítico. Você quer
chegou nestâanalogiâ. está perleitamente explicaalo. Se o que intcressa proibir as pessoas de fumar, entáo diz: "Olha, cientificamentc. dizem
é oitinerário da alma até Deus, estáresolvialo o problema. Você chegoü que 1àz mal, que as pessoâs nlorreln. Está âí o Olavo, quejámolreu 1ãz

na analogiacmaisdoque issovocênáovai conseguir.,. Muitobem, nla§ vinte anos...". Esse é um argumenio científico, Filosoiicamente, isso
como transformar isso num sistema cieniíIico socialnente válido? nâo 1ãz o menorsentido, pois a filosofia só é válida para indivíduos que
lêm uma vivência da realidade similar A filosofiâ, nesse sentido, não

1.1
tem autoridade extema, náo pode ser imposta. Só pode usar do quê?
absolutamenle formidável. Àlém de ser um filósofo. ele cra uma
Da persuasáo racional. Mas a pe$uasão racional pode falhar
espécie de administrador do mundo. Isso quer dizer que, deste ponto
de vista - que era mais externo e já náo se tratava da ascensáo até
l&lrno: Efitão, segun.lo um grupo, Íumar ào é ptoblema, e pav Deus, mas dâ descidâ até Deus, do govemo do mundo a ânalogia já
-,
o outro grüpo é ptobLema?l
náo bastava. Ele precisava de algo mals, queda uma provâ. Mas como
Dependendo da persuâsão que você consiga. No câso alo fümo, no mundo não mandamos nada mesmo, e eu estou poüco me lixando
eu
dei o exemplo porque esse negócio náo tem nada de científico. é türjo pâra o governo do nundo, entáo eu fico com São Boaventura.
furado, é furadézimo. Vocês nem queiram saberl Eu nunca quis Santo Tomás tem coisas, por exemplo, de filosofia políticâ. que sáo
ialar..
porque váo dizer que esiou faiando em causa própria. de uma veracidade permancnte. Pode ser base do governo do mundo
Mâs um dia eq
vou falar, e vocês vão ver a desgraça que vou fazer É tualo furado. mesmo; o governante que seguir aquilo vai dâI certo. Ele tcoriza, por
ó
uma ftaude monstruosa. Fumâr náo faz mal algumt É mesmo! cxemplo, em favor dâ democracia, isio é, diz que para haver â ordem
social é necessário quetodos participcm do cxercício do poder. todos.
Quemsáo "todos"? Sãoas três classes: os opli,fiares, osaristocratas;
[Ah]no: Tem Íorlo fizAo.l
o pcssoal que não é aristocrata, mas tem dinheiro; e o povinho. Todo
As estatisticas todas, todas, sáo furadíssimas. Algumas delasjáforarn mundo teln que participar Ádvoga a lãvor da dcmocracia, mas dizl
até judicialmente condenadas como fraude. No entanto... 'A democracia não é absoluta, náo é uln valor absoluto, é relativa.
Entáo a filosofia tem o lundamento mcional, mas suâ mcionalidade, Às vczcs cla sc transformâ numa coisa má. quando se instaura a
embom seja universalmente vaida, nâo o é socjalmenie, náo poate ditadura dos de bâixo". E daí ele pergunta: "Quais são os sintomas
ser
imposta. Se imposta, parou de ser fiiosofia e começou a ser ouha dc que se instâurou uma ditadura dos de bâixlr?". Primeiro, é que os
coisa.
Por exemplo, a autoridade do filósofo se exerce sobre âqueles que bens dos ricos são tomados; scgundo, é que coneça a se irtroduzir
sáo
capâzes de compreendê-la, e ele nâo tem o dircjto de a impor quem a corrupção nas eleiçóes, os caras sào compmdos; terceiro, é que se
a náo
acompreende. Já um govemo náo pode âgir assim. O filósofo ensina. clegem pessoas ineptas. É o Brasill Entenden? Ete diz que, quândo a
ele
explica, etc. Se o sujeito nâo entendeu o que se disse, ele não é obrigado democraciavirou uma ditadura dos d€ baixo, então tem que haverulnâ
a aceitar E um govemo? Ele vâi dizer ,,Esta lei aqui é obrigatória para reaçáo âdstocráticâ pârâ botar as coisas em ordcm dc novo.
os que a compreendam,,? Náo épossível. Veia que quando
você entm na
esfera do exercício do poder, enáo apenas da auioddaale (a
autoridade é l{l[no PoÍque tenos hoje ( ..) linha da opiniãa púbLica tambén,
intrinseca, mas o poder é extrinseco), esiá agindo fora dâ filosofia. nao é?l
Om, Santo Tomás é um sujeito quefoi cogitado para ser papa, e ele
Mas náo é? Esse tipo de coisa... Vocô vê que, onde acont€ça isso,
tem muitos tabalhos que sáo uma espécie ale aconselhâmento para
o essas tÍês condiçires se maniiestàm: é o voto comprado, é a corrupÇáo
goveÍno das coisas nesse mundo, inclusive coisas ale
uma sabealoda

36
37
financcirâ, e. quando o lator ilnanceiro começa a interlerir grâvcmcntc Essa diltrcnçâ cntrc Sâo Boaventurâ e Sânto'Iomás náo é leóricâ, é

na eleiçâo, comcça cssc ncgócio de os câras de bâiro tomaren os bens umâ diÍerença de objetivos vil.ris e do que estavam fâzcndo rcalmcntc
dos ricos Comcçanl â irvadir lãzcnda, comcçânl a tazcr náo sci o quô. Sobre Sânto h )ás vercmos dcpois.

E comcçam a clcgcr o Luiz Inácio Lulâ da Silvâ. O negócio, segundo


Santo Tornás, fioou brabo, c scriâ de alia convcniênci.t... Ah, Sanio lAluno: Àssa disLiüçaa é estnttLtLll também no judaísnLo? vaú
Totrás já explicou rudo isso. Os sintomas da ditadürâ de bâixo sao Lefi os üolelas e lent os sace otes.l
esses três. os trôs cstão aí mânilestosl
Sen1 soDrbrà de dúvidal Isto é univcrsâI. Vcia quc mctadc das
Nestes asslrnlos Sâo Boavcnturâ nunca nem se meteu. Ele esuva chanradas divcrgônciâs dc Plaião corn Aristóicles advén disio: Platio
lá pensândo: "Como é que vênlos fazer parâ usar as invcstigaçócs cra um rclbrmador social. nâo era soneDte um lilósolo o sentido
lilosóficas como um mcio de ch€gar até Deus?". Erlláo, por um lâdo, ârislolélico Nao é que urn ieff râzáo c o outro não: as perspectivâs
vê se que em São Boaventura o confliro cntrc mística e lik»oiia (que
cm alguns casos deu até em Drorie) sinlplcsmenic náo cxistiâ. E note
bem quc clc náo icorizâ â 0nidade das duas coisas, simplesnentc â O senhot Íalou sabrc a questào àa lilosoÍia nàn podet se
l{luno
pralica Demonsira o movimento andando, dcnrorstrâ que não exisle social, LoÍLo ctitit'io social, nào é?l
lojtltlt
conflito mostrândo que. nâ pessoa dele, não há conilito algum. Acho
que esscs dois dc ccrto rnodo se conrplementaDr.
Não. elâ pode. O qLre ela náo pode é reivindicar para si cssâ
âutoridâd., c.rDo vai fâzcr ra Rcvoluçâo Frâncesa.

lÀlr1na: O senhot t1ãa (rcha que üaa se ryre existir srssi d.,rs?l
[Àluno] ,\Ías d l,roporla dd. íe otne oLóliú do
as téLtLiais de rcdução
Flsses dois modelos:' Ccrtamcnte. Mas Sânto To rás já náo é só um lhtssetLeoutas tio lêm a objeÍíua de tor arliioamplafia te dit'utl.li.La l
filósolà, ó uma espécie de governante, corro Plâtâo.
HDsserl tanihénr é unr chele de escolâ. tânrbóm é um rclbrmador
dâs ciências. e ele tarnbóm prctcndia nraugurâr uma l'orma coletiva
ÍA],].lna lá é urt hL)t en de oção.l
.le investigaçáo. Erâ unl rlovo Plâtáo, e ráo um novo Aristóteles.
Claro. É por isso quc o cogita.anr para Papà. O Pâra não pode ficilr
Mâs 1ãz parle da essênciâ da l'ilosol'ia csta âusôncia de poder externo.
só lilosolando. O quc ele 1ãz? Elc fica só rcrando e indo...? Nlro. ele
llla age essencialncntc pcla persuasaLo racional. Porianio, é válida
tcm quc agir dentro do nundo.
para qucm scjâ capâz dc âcompânhá l.r; os outros não têm obrigâçáo
nenhulra. l:lporisso que S(icrâtcs dará razão a seus cârrâscos. Enrborâ
lAlunít: ( . ) é aÍé bom, e íAo. para a hut tinidade que haia esses. ) ele estivessc scguro de quc estâva ceÍo, com â raz,to, diz: "Eles não
É, esscs sáo tipos êiernos, vao senpre existir (...) Platâo e cstão me cniendendo, nen lêm à Lrbrigaçao de enlcnder Qucr sabcr?
Arislóleles, isso é caracteristico. Aristóteles é o sáhio prramenle Tênl que n1e mândaÍ nresnto parâ o bclclóu".
lAluno: Mas históteLes íambém não lez um moüime to de método cstá effado, â resposta eslá errada e as conseqüências esláo
arya izar as ciê cias e as (.-.)?l errêdàs. Estátudo errado. No cntanto, como diziân, eleeÍaum homem
bem-inlencionado.
sirn ,ná. , prelen.ao Jelc fi, ou nru,rô mai, aqucnr

ÍAll'fio: Ele fião lifiha isso como objelioo então?l l{luno: E licaram estudando dütunle sécuLos o debaíe que (...) en
nome dele, nào é?l
Náo, clc mesmo, quândo estudava a ciênciâ política. a organizàçáo
do Estâdo, procedià con1o um cientista puro e simples. náo esiava Mâs estou Iâlandor a ONU é filhote deie. Há um livro do padre
propondo coisa alguma. Michel Schooyans, La lace Mchée de L'ONU' ('A lace oculta da
oNU"), em que ele demonstra que atrâvés do Kânt veio lGlsen. e dai
vem essa coisa da "paz pcrpétua", da Nova Ordem Mundial.
Por assitn dízet, ldl?ez Íosse uma oryanização com Distas
l{ll]no:
ao púptío conhecimento (...) e não com üisÍas o ser socíalnefiíe...)
l{l,rna O oldenamento jutídíco a partir (...) a Co sliluição.-.?l
Claro, dele e do seu grupo. Você deixa aquilo paÍa a sociedâd€, e
usa quem quer Mas, se você já tem uma espécic dc rcsponsabilidade de É, isso ó l(antiano, como o I(elsen. Eniáo nós estamos vivendo
governo, a perspectivâjá é outra. Plâtâo queria estâ responsabilidade e dentro de um mundo kantiano.
ienta inteÍÍeir eletivamente. e Sanlo Tomás de Aquino era consultado
com frcqúôncia pelos governantes e pclo Vâticano.
l{lllno: Se i que é pot isso que é diÍícil entender'?l

NAo, é dilícil de entcnder só porque l«nt é un lilósofo técnico,


ÍAluno E Kant se encaira cotno (...)?)
como tambén os escolásticos. Náo é lácil leÍum escolástico, porque há
I(ant é un] relbrnadormesmo. Ele é o invenlor da ONUI Essâ ial dessa toda terninologia técnica. Se náoíosse assim, não teriam conseguido
a

"paz perpétua"l É como dizenr, é o pai da porcaria. E0 odeio l(antl escrever Porexenlplo, um livrode IGnt, parâ ser exposto em linguagem
n tcria que ser eni dez volumes. Iá dizia Horácio: 'A brcvidade
ao técn ica.

-titsltt pait ]olora -D?i\o do se opôc à clareza". É preciso entáo dominar a t€rminologia técnica de
IAjunu Lra' nún rcntida ele eta
qualquer ianeirâ, scnáo nem adianta se aventurar ai. Se você vâi lcr
ieito gue está, nào nexe". O ptíncípio deLe eru basícamente esse:
o IGnt scm isso, a câdâ termo novo vsi teÍ que pegâr o dicionário de
"Está ítssiú, ao üale".l
filosofia, vai ter que estudaÍ a história dâquelc conceito Entâo vâi dar
I(ani náo em hidrófobo, mas o número de idéias errâdas quc um trabalho. Mas sempre valerá a pcna, porque é melhor entender do
ele legou pâra a humanidâde dificilmente algum outro conseguiu.
praticênente tudo eslá eftâdo em I(ant: a pergunta está eÍrada. o
rNli{:hc s(rHoOY^NS a, /u.?.r.rá. d. l'OÀaJ Paris: Sarnrcnl.2000
40 +1
lAlrllo: O tísca de eLe tet stdt) mat etltendído é alto, nao é?l
chegou umcarnarada quctoipegândo itcm poritem dcmonstranrlo por
Nâo, acho que I(ânt toj müilo bem cnierclido, muito bcrn que isso era unra inpossibilidade absoluta. Daí irataranr de inventar
compreendido. isso é que é o pior de tudo. porque os carâs náo outrâ explicaçâo idiola E, se clc lcsse Sáo Boavcnt0ra. entcndcria por

enterderam, clrmo estâo fâzendo o quc ele disse parâ iàzcr que icm o iotem, como cntenderia todos os rituâis. stmbolos. etc.
Veja, a idóiâ de que. por cxcmplo. se possa explicar o mito Você
pega ünr antropólogo n1oden1o, como Lévi-Strauss e ouiros. Mlrilo
lAlnno Enkl dercm Kã t, mds nào elúenderam na(ta do (tue. .l
ben. vamos Bciocinar agostinianamcnt€. Se vocô náo conhecc a si
lntenderâm o IGnt, rnâs náo entcnderam a realidarle Só mcsmo. náo vai cnlender ó nada. Você já pcrcebeu qual ó a funçáo
entenderan o I(.ntr
do cicffento mÍtico cm sua vida? Quanlo da suâ vidâ é baseada cÍrl
elenento Íríiico? Se cnt€ndeu isso, talvez entenda o nri(o... Mas.
lAlúo M.rs cLe achou que etu una h(Dnlrlatibiti(lade.l sc n.'n) entcndc neür enl vocô rnesmo. nào vâi cntcnder nadâ tá lbra.
Ninguém cxigiu isio do Lévi Strauss. Quer dizer quc o sujeiro formâ
É incompâtibilidâde: c|(enclc um, não entendeo outro. Se vocô
se
unrê teoria pâmexplicar o üniverso intciro, Ínas essâ tcoria não explica
entcnde algo da re:rlicla.le, pcrcebc que o Kant ó incomprecrrsivet.
cle úesmo. E isto o que é? Paralaxe. Do Lóvi-Sirauss, para não t ar
Se vocô entcndeu o Iüni, nunca nrais vâi enrcnder
a rcali.t.de
dos antropólogos evolucionislas.
Iá no século XlX, comecâ a aparecer lanta ic1éia cslúpjda. uma
É curioso qüe a antropologia evoilrcionisia já caiu, cstá iotatn1enie
JIa\ di úurr:r. (n,i^ u\,rr ,\ ti/ium umr. i <ror.rJro\\ \úcc,lu(r
dcsmoralizâda há mais de um sóculo, no cnlanio a ieorja da cvoluçito
cxplicar uln fcnóncno social, o fcnômcno totômico, por exemplo: plrr
quc âs tribos têI]] totcm, etc. tntão aparcce um canarâdâ quc
conlinua cÍr pé. Nlas, sc cla é táo boa âssinl, devc scr aplicâda cnr
soita
ânrropologia. Por que â aplicação :r antropologiâ deu crrado? Deve ter
uma tcoriâ. c essa tcoria faz succsslr e fica conro explicação válicla
aié o
algo lurado ncla mcsrno. tsso náo qrer dizcr quc o tênômeno cvotuçarl
séculoXX. quândo um sujc,io, umjudcu. clevasiou, isto é. arrâsou
coDl
essc negócio na .lócadâ de 1920 Era
nio cxisia.Pode scr até que erista. mas o làto ó que nAo sabcmos.
üna .xpljcaÇão evolucionista quc
E uma coisa que nio sâbcnros não podc scrvir cte base pam explicar
dizia o seguinie: "Cêrios ânimais eram econoÍricamenle importântes,
outra que tambóm rão sabemos.
cnlao. pârâ quc não os natassem, cles trânslbínavam em iotcnl,:.
Mas
Essc negócio da pâralaxe. quc co reça mais no sécuto XII,
transiormâr em toiem? Não ó ruito rDâis fácit proibn dc Dratar, lrllar:
"Isso aqui vocô não maia,,, pronto. àcabou.l
vai abrnldo. âbrindo, alé quc cheg:r um ponto eln quc o fitíjsdb
reâlmcnte naLr sabc mais o quc cstá diTendo, não tem mais a nrcnor
idéia do quc está dizendo. Está no mundo da lua. complerâmenre. E o
lAtüno: (. .) tab ?1
pior é que ninsuén acha isso ruinr.
É Então ele vâi explicar isto como n ec€ssidadc,
undo engole.
e roclo rn
É umê explicaçáo perl'eitâmente imbccilt Até quc, na dócadâ dc r920.

12
lAlúno l: Sobrc a questão rlo l<aní, que se üocê enÍende a rcatíiLade
não e tende o Kant e vice Í)ersa, eu lefibro que quand,o eu tiüe a
primeifa aula cofi o Gíanflotti a USP..I

Esse é pior ainda. Se entender o ciannotti você está...

lAluno 2: Aula do Gia notti sobrc a lkní fiausp?EunAoEletu (...).)

É trem-fantasmal

ÍAlüÍto lt Mas olha que íntetessa te_ Tínha ufia aluna na classe
que não conseguia entendet ile ieiÍo nenhum aquilo que ele estaaa
erplícando. Ela íazia as peryuntas, até que chegou uma hold efi que
eLe olhou paru ela e talou: "Nào, aocê não consegue entendet isso».
Nào Íoutm acatomefite as palaotas, mas o conceito. ,,polque a sua
cdbeÇa é rcalista, entâo isso agui aocê ào aaí pegar mesmo,"l

"Basta você abdicar da realidade e entenderá tudo o que estou


dizendo." É isso mesmo, é disto qüe se tmta.

ÍAlrno 2: ELe toi honesto, hein?l


Chega um ponto em que as pessoas não fazem mais nenhumâ
Leituras sugeridas
questâo da reâlidade. Ele já âcha que isto é inteiramente normal.

DEMPF, La únepción del mundô ei b EAad Méd.ia. Madti: G€dos, 195A.


^lois.
GILSON, Eriênne. Id prilosúprie aú Moyên-ÁÃe. 2 êd- Év. e aúm. pârG, Payot, 1933.

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Redi@oten ancieít wisdfu ond llrni1at^tusli4s
d the Dak acq
Nês Yôrh: HarcôÍrl. 2003.

WOODS JR., Thomas E. Iíor ,re CnthoLic Church Built W*teru Citilizatjoh.
ühshinslon: R€Enee 2005.

44 45
oados Intemaciônâis de calãlôgaçáo nâ ?ublicâçáo (cIP)
(Cânâra Bnsileim do Livrc, Sq Brasil)

Dor Olavo deC{nalhô - Sáo Pâulo ÉRêahaçÔes 2006.


icole(áo hhtôm e$enciâ & filosoÊa)

Contêúdor oula 3: Âdv€nlo do cristiúhmo -


,nl,c: Pilo$Eâ ôauBlii e8.oáucc aJlâ10 Sânro {gÔsi.nho
aula I Toma'd;Aquinoe Dun: S.o_-âulo r/ Filosoba i"lám'ca-
I
âula 15: Filosona cristã âda:14: Idéiaúsrs6 realidade -âula:15r A êscolástica'

1. lilosofia - Estudo e Õsino 2. FilosoEâ _

HGIóriâ I ntulo. II Série.

cDD-109

índices pm catálogo sistemático:

Este livro é a transcriçáo da aulê que


loi smvàda no dis 1110712005 na
É Reaiizâçóes em sáo Paulo - sP Brasii.

Impresso mrço de 2006 Püa a


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Os tipos usados s6o dâ hmilia Dutch.
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