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Denise Mattos Monteiro

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Introdução à História
do Rio Grande do Norte

4 a edição
revista

FLOB^
SXL
Natal, 2015
® Copyright 2015 - Edição Flor do Sal / Natal - RN
flordosal@uol.com.br

Ia. edição: EDUFRN, 2000


2a. edição: Cooperativa Cultural, 2002
3*. edição: EDUFRN, 2007
4a. edição: Flor do Sal, 2015

Autora

Denise Mattos Monteiro

Editores
Flávia Celeste Martini Assaf e Adriano de Sousa

Revisão
Márcio Simões

Designer Gráfico e Capa


José Antonio Bezerra Júnior

Foto da Autora
Giovanni Sérgio

Ilustração d a Capa
índio Tarairiú, tribo extinta.
Óleo de Albert Eckhout, pintor holandês (1654).

Catalogação da publicação n a Fonte.

M775i Monteiro, Denise Mattos.


Introdução à História do Rio Grande do Norte / Denise
Mattos Monteiro. - 4. ed. - Natal, RN: Flor do Sal, 2015.

208 p. : il.

ISBN 978-85-69107-00-2

1. História do Rio Grande do Norte. I. Título.

CDD 981.32

Todos os direitos desta edição reservados à Flor do Sal


Rua Nascimento de Castro, 1926, S 108 - Lagoa Nova - 59.056-450 - Nata!/RN - Brasil
e-mail: flordosal@uol.com.br - Telefone: 84 302S-4297
O o f í c i o d o h i s t o r i a d o r é. l e m b r a r
o q u e os o u t r o s e s q u e c e m .
Eric Hobsbawm
(Historiador inglês)
M B f e ü S t f MATTOS MONTEIRO

O poder político de fato, aquele exercido localmente.pelo interior da


capitania, estava nas mãos dos c h a m a d o ^ h o n í e n s b o n s ) - como eles se
autodenominavam ou seja, os proprietários "de terras e escravos. Apenas
eles tinham o direito de eleger e serem eleitos, anualmente, para o ConselKõ
•V4 gFCâmarãüé*^Vére"ãdõrésT ou Senado da Câmara, que passou a exÍsHTém r
cada uma das sete viías criadas na capitania, no decorre^ do século XVIII.
Èra"m os" Séna3õs~aãs"Câm¥ras "quê indicavam nomes para os postos "de
comando das Ordenanças, força militar de base local. Além disso, decidiam
sobre questões que diziam respeito à vida do dia a dia nos municípios, como
i / construção de obras públicas, preços e remuneração de diferentes ofícios,
como sapateiro, ferreiro etc., representando o interesse do conjunto dos
colonos perante o rei de Portugal. Mas, também, exerciam a "justiça" local,
p o i j y j s j u í z e s eram eleitos por essas mesmas Câmaras Municipais.
(^[ssirra. ao fechar-se o século XVIII, todo o território da'capitania do Rio
Grandê~estava povoado pelos colonizadores e as bases de sua e s t r u t u r a
econômica, social e política haviam sido implantadas.

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CAPÍTULO V
Novos mercados, novas idéias e velhos poderes:
a passagem de capitania a província
(primeira metade do século XIX)
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DENISE MATTOS MONTEIRO

Escravos u r b a n o s percorriam as ruas de vilas e cidades n o século


XIX, g a n h a n d o d i n h e i r o p a r a s e u s s e n h o r e s . N e g r o s d e G a n h o , o b r a
d e H e n r y C h a m b e l a i n , militar e p i n t o r inglês, d e 1822.

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I N T R O D U Ç Ã O À HISTÓRIA D O RIO G R A N D E DO N O R T E

Novos mercados, novas idéias e velhos poderes:


a passagem de capitania a província (primeira
metade do século XIX)
Entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX, ocorreram
v ç ^ 3 ^ i m p o r t a n t e s transformações na América Portuguesa, das quais o Rio Grande do
Noite participou, como capitania da Colônia. Essas transformações envolveram: a
substituição dojngnopólio do comércio da Colônia - exercido p_or Portugal - pela
liberdade comercial, com a crescente presença econômica inglesa; a.pas&ageiiTdã
condição dè colônia à nação politicamente independente e, por último, aneces-
sidàdeUè dar uma organização política à nação que se formava, mantendo-se o
/J^v monopólio de poder com os proprietários rurais e garantindo-se a unidade de u m
vasto território, constituído, até então, por várias capitanias.
O monopólio do comércio colonial pela metrópole significava que a venda
de mercadorias aqui produzidas - como o açúcar, por exemplo - ou a compra
de produtos portugueses e europeus de maneira geral, só podiam ser feitas
através de Portugal. ^ ^
Essa imposição do sistema coloriial passou a ser cada vez mais danosa
aos interesses da elite colonial - os proprietários rurais - na medida que
impedia o crescimento do comércio da Colônia, num tempo em que a própria
economia portuguesa entrava em decadência e aumentava sua exploração
sobre a Colônia.
O que determinou essa crise do sistema colonial, que acabaria tendo,
por última conseqüência, a independência política das Colônias espanholas
e da Colônia portuguesa, na América? A ocorrência da chamadajRevolução
I n d u s t r i a r i a Inglaterra, que tornaria esse país a principal potência econô-
» mica do mundo no decorrer do século XIX, no lugar das antigas potências
^ n a r í t i m o - c o m e r c i a i s ibéricas: Portugal e Espanha.
Qjj^ A Revolução Industrial possibilitou u m salto nò processo de produção de
mercadorias, que passaram a ser produzidas em maior quantidade, diversidade
e rapidez. P.ara isso, eram necessários mercados que, por um lado, fornecessem
matérias-primas e, por outro, consumissem os produtos fabricados. Nesse
sentido, o monopólio do comércio colonial era u m obstáculo para a continui-
dade da expansão do capitalismo industrial inglês. Ao lado dessas razões de
ordem econômica ocorreram outras, de ordem política, ligadas a guerras na
EuropaTqüè fizeram com que Portugal acabasse dependendo cada vez mais
dãTngTatêfrár cedendo às suas pressões para o fim do monopólio comercial e
concedendo-lhe u m a posição privilegiada no comércio brasileiro. ~ '
No Rio Grande do Norte, no período compreendido entre as últimas
décadas do século XVIII e as duas primeiras do século XIX, ocorreu u m a
mudança econômica significativa que teve relação direta cora essa etapa do
processo histórico europeu.
Vimos, no capítulo anterior, que a pecuária havia sido a atividade econô-
mica através da qual ocorrera o processo de colonização de todo o interior

" E m 1810, Portugal assinaria, c o m a Inglaterra, ura tratado de comércio q u e concederia tarifas
especiais para as m a n u f a t u r a s inglesas i m p o r t a d a s pelo Brasil.

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DENISE MATTOS M O N T E I R O

da capitania no século XVIII, tomando-se a principal atividade das terras


secas do sertão e do agreste. 63 Em termos de exportação de produtos para
Portugal, os couros constituíam praticamente a única produção importante.
O sal, extraído desde o século XVII, era utilizado para o consumo da popu-
lação local - apesar da proibição da metrópole, que era produtora e tinha o
monopólio de seu fornecimento para a Colônia - e para a fabricação de carne
\ seca e peixe seco, sendo este último produto largamente exportado pelo Rio
q) .Grande do Norte para as capitanias vizinhas. A Revolução Industrial inglesa,
^ ao necessitar cada vez mais de algodão - matéria-prima indispensável para
r Q^v > 0 suas fábricas de tecidos iria estimular a çotonicultura em diferentes áreas
.Q da América, aí incluindo-se o sertão nordestina
y O algodão, como sabemos, era nativo na capitania do Rio Grande, já
conhecido e utilizado por indígenas quando os colonizadores europeus aqui
chegaram. Durante duzentos anos, foram feitos tecidos simples e grosseiros
com sua fibra, que serviam para a confecção de roupas, redes e cobertas para
o uso da população local. O algodão f a z i a p a r t e . assim, de uma agricultura
voltada para o autoabastecimento - como o feijaõTpõr exemplo - , praticada
em terras que eram ocupadas, fundamentalmente, pela pecuária, no sertão,
e pela cana-de-açúcar, na faixa litorânea ao sul de Natal.

F i g u r a 2 2 - Nas f á b r i c a s têxteis i n g l e s a s , o t r a b a l h o f e m i n i n o e infantil foi l a r g a m e n t e u t i l i z a d o .


(Revolução Industrial)

O abastecimento das fábricas têxteis que se desenvolviam na Inglater-


ra era feito, sobretudo, pelos Estados Unidos. A guerra de independência
desse país, entre 1776 e 1783, entretanto, interrompeu esse fornecimento e

w
Agreste é a denominação geográfica p a r a o e s p a ç o da região Nordeste q u e se situa entre a Zona da
Mata litorânea e o Sertão, caracterizando-se p o r ser u m espaço de transição, isto é, p o r a p r e s e n t a r
tanto áreas secas c o m o úmidas.

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I N T R O D U Ç Ã O À HISTÓRIA DO RIO G R A N D E D O NORTE

. o Brasil passou a exportar algodão para a Inglaterra, através de Portugal.


3ACr Assim, a cultura do algodão, presente não só no Rio Grande, mas t a m b é m
^ ^ e m v á r i a s capitanias da hoje c h a m a d a região Nordeste, tornou-se u m a
^ ^ a g r i c u l t u r a mercantil, ou seja, voltada para o abastecimento de mercados.
d° No Rio Grande, a cotonicultura se expandiu e o algodão aqui cultivado
^ - Á ê * P a s s o u a s e r exportado para Lisboa. A expansão desse cultivo, que levou
Li f a u m desenvolvimento comercial da capitania, ocorreu tanto n a s áreas
secas, onde o algodão melhor se desenvolvia, como em terras do litoral.
Referindo-se ao principal engenho de açúcar da capitania - o Cunhaú -v-Ug1
y
viajante europeu deixou registrado em suas anotações de viagem, em{1817)

C u n h a ú n ã o p a s s a d e u m a p r o p r i e d a d e , m a s , t e m m a i s d e 14
l é g u a s d e c o m p r i m e n t o [84 q u i l ô m e t r o s ] ; p e r t e n c e à f a m í l i a
, d o s A l b u q u e r q u e s , m u i t o c é l e b r e s n o s f a s t o s d o Brasil. T e m
u m e n g e n h o ; m a s , a criação do g a d o e o plantio d e algodão é
a sua r e n d a principal. É perto desta propriedade q u e c o m e ç a m
os l i m i t e s d a c a p i t a n i a d o Rio Grande". 6 4

A economia da capitania, até então_basea d a .prindpajmente na j)e çuária,


diversificou-se: era a prímeira vez, desde o início do povoamento europeu, flue
u m produto agrícola era cultivado em larga escala, visando a exportação para
(^exterior. 65 Não existem estudos sobre a quantidade de algodão produzida e
exportada pelo Rio Grande nesse período, além do que os registros sobre produção
econômica eram raros e muitos deles se perderam com o tempo. Mas podemos
supor que essa quantidade era significativa, porque, em 1820, criou-se na capitania
a "Casa de Inspeção do Algodão", cujo objetivo era fiscalizar o produto que era
enviado ao exterior, como forma de enfrentar a concorrência de outros produtores.
O cultivo do algodão constituiu uma alternativa de ocupação econômica
para a grande parcela da população formada por aqueles que haviam sido
excluídos, pelo sistema de colonização implantado na América portuguesa,
a possibilidade de se tornarem donos da terra.
Como seu plantio não exigia grandes extensões de terra nem grandes
investimentos - ao contrário da cana-de-açúcar, cultivada em imensas faixas
de terra com mão de obra escrava e beneficiada em engenhos como era
1 pequeno o tempo decorrido entre a semeadura e a colheita e como o algodão
\ podia ser cultivado junto com lavouras de subsistência (feijão, milho etc.),
o algodão tornou-se uma "roça" muito comum que se expandiu rapidamen-
te, abrindo alguma possibilidade de ascensão social, principalmente para
aqueles com u m pouco mais de posses.

"TOLLENARE, L. F. Notas dominicais, p. 115. O Engenho Cunhaú possuía então, aproximadamente,


150 negros escravos. "Fastos do Brasil" significa memória de fatos históricos célebres do Brasil.
" A p e q u e n a p r o d u ç ã o de açúcar dos e n g e n h o s litorâneos do Rio Grande, d u r a n t e todo o período
colonial e até m e a d o s do século XIX, destinou-se m u i t o mais ao m e r c a d o interno do q u e à
exportação para o exterior.
46
Neste período, do primeiro surto exportador do algodão, o beneficiamento do produto, q u e consistia
e m separar o caroço da fibra, era feito colocando-se o algodão dentro de u m couro de boi, c o m
p e q u e n o s buracos. Batendo-se nele c o m p a u s , desprendiam-se os caroços d a fibra.

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DENISE M A T T O S M O N T E I R O

Nas grandes propriedades rurais, os senhores permitiam, em troca de


u m pagamento, que lavradores ocupassem pequenos lotes de terra com suas
roças e criações, plantando algodão. 0 pagamento podia ser feito em produto,
quando o lavrador era o "parceiro" que entregava parte de sua colheita; em
dinheiro, quando o lavrador era o "foreiro" ou "arrendatário"; ou em trabalho,
quando o lavrador era u m simples "morador de condição". Essas formas de
pagamento, que deram origem a relações de trabalho ainda hoje existentes,
variavam de acordo com a posição social e econômica daqueles que não pos-
suíam terra. Deve ser registrada, ainda, a figura doQornalei£c$ o trabalhador
que se empregava por jornada de trabalho, mediante u m a remuneração em
• ^ dinheiro, utilizado, sobretudo, nas épocas de plantio e colheita.
Ao lado
c j ^ n ^ s s e s lavradores "e principalmente no litòíal,"on"dè á lavoura algo-
. ^ "doeira também se expandiu e onde o trabalho escravo negro era mais significa-
rá tiyoi os africanos constituíram uma mão de obra importante. E n t r e ( j ^ e S 8 4 4 ) l
v ^ V ^ r houve um aumento de 315% no número de escravos existentes no Rio G r a n d e " '
6
^ > ç p Podemos supor que se," pôr u m lado, a cotonicultura constituiu u m a
v j alternativa de ocupação econômica para os homens livres que trabalhavam a
«o •-J terra, dentre eles os remanescentes indígenas das ex-aldeias missionárias, por
çp outro lado, a maior parte dos lucros gerados pela comercialização do algodão
ficava com os senhores rurais e, principalmente, com os comerciantes por-
tugueses que monopolizavam o comércio. Estabelecidos nas vilas e cidades
mais importantes do litoral nordestino, como Natal, eles representavam os
interesses da burguesia mercantil de Portugal e ocupavam, de fato, u m a
posição de intermediários no comércio com a Inglaterra.
Para_ns_spnhores rurais do Rio Grande, porém, havia nm_nnt™ proble- ,
ç. ^ ma, além da intermediação portuguesa: era a dependência administrativa *
v- \ a e e c o n ô m i c a da capitania em relação a Pernambuco, estabelecida, em 1701", ^
{\>> pela Coroa portuguesa.
^ ' Essa dependência significava, entre outras coisas, que o comércio direto, k {, l
X q fosse com Lisboa ou com as capitanias vizinhas, era proibido. As mercadorias ' 1
v ^ a seremexportadas eram dirigidas ao porto de Recife, para daí serem enviadas {
à Europa; assim como as importadas entravam pelo mesmo porto, para depois ,.,
O- . serem enviadas ao Rio Grande. Isso implicava n u m pagamento dobrado dos
^V" impostos de importação e exportação, feito às autoridades portuguesas.
Mas, além disso, essa dependência implicava t a m b é m que todo o di- \
nheiro arrecadado na capitania deveria ser enviado à "Junta da Fazenda" de ) - ^
P e r n a m b u c o , órgão da administração metropolitana. Essa J u n t a decidia l vcA
então sobre o dinheiro que deveria voltar ao Rio Grande para custear as
despesas necessárias à sua manutenção.
No decorrer do século XVIII essa situação foi contestada várias vezes pela
Câmara de Natal - expressão dos senhores rurais da capitania - , em cartas
dirigidas ao rei de Portugal, inutilmente.
Em 1808, quando D. João VI migrou para o Brasil com sua corte e, pressio-
nado pelos interesses do capitalismo industrial inglês, proclamou a abertura

" V e j a - s e , adiante, o q u a d r o sobre a p o p u l a ç ã o da província entre 1805 e 1544.


" N a s q u e s t õ e s q u e diziam respeito à Justiça, a capitania do Rio G r a n d e dependia da Ouvidoria d a
Paraíba, d e s d e 1687.

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I N T R O D U Ç Ã O À HISTÓRIA DO RIO G R A N D E DO N O R T E

dos portos do Brasil, decretando o fim do monopólio colonial, a Câmara de


Natal voltou, mais uma vez, a pedir a independência do Rio Grande em relação
a Pernambuco. Entre suas reivindicações estavam a liberdade de comércio
interno e externo e a isenção de impostos de exportação e importação, durante
dez anos, para todas as mercadorias que entrassem ou saíssem da capitania,
aí se incluindo os escravos destinados ao trabalho na lavoura.
Foi somente, no contexto do| Movimento de 1817 ^que a independência
de Pernambuco foi conseguida e, no_Rio^Grandi7~foi instalado o .órgão en-
^ carregado de armazenar, registrar e fiscalizar as mercadoria^exportadas^
j i ^ ' i m p õ r t ã 3 ã s T arrecadando os impostos devidos: aí^Ãlfândega^de Natal. Só
eníaÕTTòuveTdê fãtõ,~a"ãbertura do porto da cidade para o' conTércicTcom
outras nações, mas especialmente com a Inglaterra que, além de comprar
algodão, passou a poder vender diretamente aqui as mercadorias produzidas
em suas fábricas, em número e variedade cada vez m a i o r e s . '
Mas que movimento foi esse, do qual o I^io Grand£JIârti c iP 0 U -
Para entendê-lo é necessário observar, em. primeiro l u g a y q u e ele ocorreu
nos anos compreendidos entre a vinda da corte pórtuguesapara o Brasil, em
1808, e a de£laraçã2_de independência política em relação a Portugal, em
1822. Em,segundo lugar) que foi um movimento político exclusivo de capita-
nias da região Nordeste, tendo envolvido mais diretamente as da Paraíba, Rio
Grande do Norte e Pernambuco, sendo esta última o centro do movimento.
Por u m lado, o Nordeste entrava n u m período de crise econômica, pois
os preços do açúcar e do algodão começavam a baixar no mercado europeu,
sobretudo porque os Estados Unidos voltaram a ocupar o seu lugar de grande
produtor, após o fim de sua Guerra de Independência. Além disso, uma forte se-
ca se abateu sobre o sertão em 1816, atingindo o gado e a produção algodoeira.
Por outro lado, a transferência da corte portuguesa de Lisboa para o Rio
de Janeiro, em 1808, com todos os seus órgãos administrativos, implicou na
criação de novos impostos e no aumento dos já existentes, inclusive para
custear guerras movidas por D. João VI.70
Embora o rei tivesse decretado a liberdade de comércio do Brasil com
outras nações - com a abertura dos portos - , o grande comércio, aquele
encarregado das importações e exportações de mercadorias para o exterior,
continuava sob o monopólio de comerciantes de nacionalidade portuguesa
que, n a posição de intermediários, i m p u n h a m os preços de compra d a s
matérias-primas a serem exportadas - como o algodão - e os preços de venda
dos artigos importados, principalmente ingleses. Da mesma forma, os cargos
públicos importantes ligados à administração metropolitana continuavam
sendo monopólio de portugueses, mesmo depois de o Brasil ter sido elevado
à condição de Reino Unido de Portugal e Algarve, em 1815.
O Movimento de 1817, em Pernambuco, foi composto, essencialmen-
te, por proprietários rurais, comerciantes de nacionalidade brasileira que

" A Alfândega foi oficialmente criada por u m decreto do rei d e Portugal, e m 1820. Um a n o depois,
criava-se t a m b é m a "Junta d a Fazenda" d a província do Rio Grande d o Norte. A dependência da
Paraíba, e m matéria de Justiça, foi rompida em 1818, q u a n d o criou-se a "Ouvidoria" própria d a
província.
" D. J o ã o VI enviou tropas para a o c u p a ç ã o da Guiana Francesa, e m 1809, e iniciou u m a c a m p a n h a
militar pelo d o m í n i o do atual território do Uruguai.
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DENISE M A T T O S M O N T E I R O

disputavam um setor monopolizado e um grande número de padres, alguns


deles formados no Seminário de Olinda - centro de idéias liberais - e outros
pertencentes a ordens religiosas que também eram proprietárias de terras
e engenhos de açúcar.
f~ Sua característica principal foi a oposição ao sistema colonial português,
í v ^ A I 6 S U a p r o p o s t a b á s i c a > a proclamação de independência de capitanias do
^ O U J Nordeste, que passariam a formar uma República em separado do restante
K-* "S da Colônia. Nesse sentido, foi u m movimento organizado e liderado por u m a
parcela regional da elite da Colônia, no longo processo de descolonização."
Os ideais liberais da Revolução Francesa de.1789 e da Independência
dos Estados Unidos, que serviram de inspiração, chegavam a Pernambuco
e capitanias vizinhas através de homens e livros que entravam pelo porto
de Recife, aberto desde 1808. Mas a elite saberia adaptar esses ideais a seus
interesses, pois liberalismo, para ela, era liberdade de comércio e não dos
homens - a escravidão deveria ser mantida na República que se pretendia
implantar.

F i g u r a 23 - Os r u m o s e c o n ô m i c o s e políticos de províncias do q u e h o j e c h a m a m o s N o r d e s t e
e r a m d i s c u t i d o s por m e m b r o s d e s u a s elites. (Reunião política)

No Rio Grande do Norte, o Movimento de 1817 formou-se com senhores^


de engenho, padres e militares. De u m total de 28 implicados e processados,
pela Coroa portuguesa, três eram senhores de e n g e n h o (André de Albu-
querque, proprietário do Cunhaú e coronel de cavalaria miliciana; Luís de
Albuquerque Maranhão, proprietário do engenho Belém e coronel do regi-
mento de cavalaria de Natal e São José do Mipibu; e André de Albuquerque
Maranhão - primo de André de Cunhaú - proprietário do engenho Estivas

n
República é u m sistema de governo baseado em eleições para a escolha do governante de u m a nação,
ao contrário d a monarquia absolutista, na qual o rei é o poder supremo, poder esse transmitido
hereditariamente.

60
INTRODUÇÃO À HISTÓRIA D O RIO G R A N D E D O NORTE

e capitão-mor de Vila Flor e Arez), quatro eram padres e dezesseis eram


oficiais das Milícias, alguns deles membros da mesma família Maranhão."
Do ponto de vista geográfico, o movimento envolveu principalmente a
área de domínio dos Albuquerque Maranhão - a faixa litorânea ao sul de
Natal até a Paraíba além de Portalegre e da Serra do Martins. Por que
especificamente essas duas últimas áreas? É u m a questão que somente o
desenvolvimento da pesquisa histórica pode responder.
A.liderança do movimento coube a André de Albuquerquejylaranhão,
senhor de Cunhaú e também de muitas terras no sertão, "para pastagens de
gado, [provavelmente] não inferiores de trinta a quarenta léguas, desta que
é preciso andar-se três a quatro horas para vencer-se uma"." Secundado por
tropas por ele comandadas, e tendo o apoio de lideranças da Paraíba, André
de Albuquerque Maranhão tomou o governo em Natal e instalou u m a Junta
Provisória de Governo, por ele presidida. Em Portalegre, realizou-se u m a
reunião à qual compareceram proprietários rurais de vários pontos da ribeira
do Apodi, que deram apoio à Junta de Natal.
O novo governo, entretanto, duraria apenas um mês. Por um lado, diver-
gências na Junta comandada por André de Albuquerque Maranhão deixa-
ram-no em posição isolada, o que acabou redundando em seu assassinato.
Por outro lado, a repressão desencadeada pelas forças portuguesas pôs fim
ao movimento em todas as capitanias do Nordeste nele envolvidas. 74
No Rio Grande, os que aderiram ao movimento tiveram suas penas abran-
dadas, não tendo a Coroa portuguesa aplicado a pena de morte ou de degredo
a n e n h u m deles, ao contrário do que ocorreu em outras províncias. Enviados
para prisões em Recife, alguns lá morreram, outros foram perdoados pelo
rei em 1818, e outros ainda ficaram presos até 1820.
Apesar da repressão, o processo de descolonização do Brasil estava em
marcha. Os anos de 1820 a 1822, no Rio Grande, como em outras províncias
do Brasil, foram marcados por acontecimentos que refletiram o período de
transição política em que se vivia.

72
Como vimos no capítulo anterior, os postos de oficiais das Milícias eram ocupados por proprietários
rurais o u seus familiares.
?J
KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil, p. 82. Koster era u m comerciante inglês estabelecido
no Recife e q u e deixou anotações d e viagens por ele feitas, em 1810.
74
A c a u s a dessas divergências, segundo alguns d e p o i m e n t o s da época, estaria n o c o m p o r t a m e n t o
personalista e autoritário d e André d e Albuquerque M a r a n h ã o . A p ó s a repressão, forças rebeldes
p a r a i b a n a s c o m a n d a d a s por David Targini a i n d a s u s t e n t a r a m por algum t e m p o o M o v i m e n t o d e
1817, e m Portalegre, ali f o r m a n d o u m a nova J u n t a Provisória. Encerrado o movimento, alguns
g r u p o s a r m a d o s c o n t i n u a r a m a t u a n d o n a ribeira do Apodi.

81
DENISE MATTOS M O N T E I R O

Em 1820, em Portugal, ocorreu a Revolução Constitucionalista que,


contestando o poder absolutista do rei D. João VI, exigiu sua volta, ordenou
a constituição de Juntas Provisórias de Governo em todas as províncias do
Brasil - como p a s s a r a m a ser chamadas as capitanias - e tomou medidas
que visavam fazer o país voltar à sua condição de Colônia de Portugal. Era
a expressão dos interesses da burguesia mercantil portuguesa que queria a
volta do sistema de monopólio do comércio brasileiro, quebrado com a aber-
tura dos portos de 1808 e consolidado com a elevação do Brasil à categoria
de Reino Unido, em 1815.
Dessa forma, em 1821, no Rio Grande, por ordem expressa de D. Pedro,
príncipe Regente que ficara n o Brasil representando a Coroa portuguesa,
jurou-se fidelidade a Portugal. Mas a Junta Provisória de Governo local,
eleita no mesmo ano, era composta, em sua maioria, por homens que haviam
participado do Movimento de 1817 na província, como o coronel Luís de
Albuquerque Maranhão. Esse fato indica o avanço das forças pró-indepen-
dência, que voltavam à cena política da província e revela como o exercício
do poder político era monopólio de u m a elite agrária.
Os militares portugueses que aqui serviam, e todos aqueles que defen-
diam os interesses de Portugal, rebelaram-se contra a J u n t a eleita. Sob a
ameaça das armas, pressionaram a Câmara de Natal para a eleição de u m
Governo Temporário, até a eleição de nova Junta. Esse governo, porém, não
foi reconhecido por várias Câmaras de vereadores de vilas do interior, prin-
cipalmente Portalegre, Príncipe (Caicó) e Princesa (Assu), que protestaram,
julgando-o ilegítimo.
Os conflitos na província, que se deram com m o t i n s de rua e prisões,
refletiam a própria instabilidade política do período. D. Pedro oscilava entre
acatar as ordens de Lisboa para que voltasse a Portugal, a t e n d e n d o a o s
interesses da burguesia mercantil portuguesa, ou ficar no Brasil, tomando
posições favoráveis à sua independência e aproximando-se, dessa forma, dos
interesses dos grandes proprietários rurais brasileiros.
Em Natal, em julho de 1822, u m a Assembleia composta pelos membros
da Câmara de Vereadores da cidade, pelos membros da nova Junta eleita e
pelo comando da Guarnição Militar tomou partido, por unanimidade, pela
permanência de D. Pedro no Brasil, com poderes para governá-lo, o que foi
divulgado por todo o interior da província.
Finalmente, a declaração de independência em setembro de 182;
por D. Pedro, garantiu o liberalismo comercial no Brasil; principal motivo
das lutas que a desencadearam. O latifúndio e a escravidão - tão caros aos
proprietários rurais - permaneceriam intocados. Nesse sentido, a emanei:
pação política do Brasil constituiu u m a transição de Colônia para Nação
independente sem transformações profundas de sua estrutura interna, do
ponto de vista econômico, político e social. Em outras palavras, foi u m a
transição conservadora.

" Da eleição participaram 43 eleitores, representando Natal, Extremoz, Goianinha, São José do
Mipibu, Vila Flor, Arez, Príncipe (Caicó), Princesa (Assu), Portalegre, Apodi e Pau dos Ferros.
"Veja-se, e m Anexo G, o ofício enviado pela Câmara da Vila d a Princesa à C â m a r a d e Natal, e m
protesto contra a decisão t o m a d a .

62
INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DO RIO G R A N D E D O NORTE

A aclamação de D. Pedro como Imperador do Brasil ocorreu, em Natal,


em 1823, com grandes festas e, nesse mesmo ano, dois representantes da
província do Rio Grande do Norte foram eleitos para participar de u m a
Assembleia Constituinte convocada pelo Imperador, para elaborar a primeira
Constituição da nova nação."
O comportamento político de D. Pedro, após a independência, porém,
revelou sua tendência a ser u m rei absolutista e isso gerou conflitos, desta
vez entre ele e a elite brasileira, tornando-se o Nordeste, novamente, u m
foco de lutas.
O projeto de constituição elaborado pela Assembleia continha leis que
procuravam limitar, por u m lado, a participação portuguesa em cargos pú-
blicos no Brasil, e, por outro, o poder do próprio Imperador, frente à Câmara
de Deputados. Em reação, D. Pedro dissolveu, em 1823, sob a ameaça das
armas, a Assembleia Constituinte e, u m ano depois, impôs u m a Constituição
ao Brasil, a primeira de sua história como nação independente: a Carta
Outorgada de 1824, que instituía, além dos poderes Executivo, Legislativo
e Judiciário, o Poder Moderador, expressão de sua tendência absolutista.
Dentre as determinações dessa Carta, estavam aquelas que tiravam a
autonomia das províncias, que deveriam a partir de então se subordinar
diretamente ao poder central, ou seja, ao Imperador. A ele caberia nomear
o presidente da cada u m a das províncias e aprovar ou não as decisões dos
Conselhos Provinciais, a serem criados e que representavam as oligarquias
locais. Além disso, a Carta i m p u n h a o centralismo fiscal, ou seja, toda a
renda dos impostos arrecadados nas províncias seria controlada pelo centro
do Império, situado no Rio de Janeiro, onde se decidiria sobre sua aplicação.
O fechamento da Assembleia e a imposição da Carta Outorgada signi-
ficaram o fortalecimento do-ftüdsr central, frente ao poder local existente
^ em cada província.(Em^ecorrênçia)ocorreram .pr.Qte.gtos das.elites agrárias
. provinciais em vários pontos do Brasil, mas foi no Nordeste, que atravessava
^ J^P outra forte seca e"onde as insatisfações se acumulavam, que esses protestos
Y~ N ^ > t o m a r a m forma concreta: em 1824, eclodju^a Confederação.do.Equador,
O Xs^ 1 ' móvimèhto què,"embora tenha se espalhado, principalmente, pelo Rio Gran-
dé"do"Nortè7Pàíáíba"e Ceará, teve Pernambuco como seu centro, onde os
^jj. revòltosos tomaram o Governo.

3 0Ãoc1 ^
èo W *

" Foram eleitos: o deputado Francisco de Arruda Câmara, doutor e m Medicina pela Universidade de
Coimbra e grande proprietário de terras n a Paraíba, e seu suplente Tomás Xavier Garcia de Almeida,
advogado formado pela mesma universidade, eleitos com dezoito votos. A elite brasileira costumava
m a n d a r seus filhos estudarem na Europa, n u m t e m p o e m q u e a i n d a n ã o havia universidades
n o Brasil. Eles d e s e m p e n h a r i a m u m papel f u n d a m e n t a l c o m o m e m b r o s do Governo ou altos
funcionários públicos no novo Estado-Nação q u e se formaria a p ó s a Independência.
63
DENISE MATTOS M O N T E I R O

A Confederação retomava a proposta do Movimento de 1817, ao propor


que as províncias do Nordeste se separassem do restante do país e formassem
uma república federalista independente. 7 "
Na província do Rio Grande do Norte, os que apoiavam a Confederação
se reuniram è "enviaram a Pernambuco três representantes. Estes assinaram,
junto com o representante do governo revolucionário daquela província, u m
acordo determinando: a união das duas províncias "contra qualquer agressão
do governo português ou do governo do Rio de Janeiro para reduzir as mes-
mas províncias a u m estado de servidão", "o estabelecimento da liberdade
constitucional das d u a s províncias", e o envio de grupos armados de apoio
para a divisa com a Paraíba, onde os revoltosos também se organizavam."
Esses grupos armados estariam encarregados de defender a Confedera-
ção, formando tropas revolucionárias. Mas quem forneceria os contingentes
para essas tropas senão os homens livres pobres e não proprietários, já que
aos negros escravos não se entregariam armas?
Assim, se por u m lado a Confederação foi essencialmente u m movimento
da elite agrária regional insatisfeita com os rumos econômicos e políticos
do Brasil pós-independência, por outro, ela acabou englobando t a m b é m
camadas populares, do campo e das vilas e cidades, o que trouxe problemas
para sua liderança.
É bastante provável que aqui, como em Pernambuco, a Confederação
estivesse t o m a n d o r u m o s não previstos e desejados pela elite dirigente,
o que acabou por dividi-la na continuidade da luta. Além disso, deve ser
observado que dentre os líderes do movimento em Recife havia aqueles que
propunham o fim do tráfico de escravos pelo porto da cidade - abastecedor
das províncias vizinhas - e os que eram favoráveis à utilização de escravos
nas tropas revolucionárias, como única forma de garantir sua vitória militar.
Essa proposta assustou muitos daqueles que haviam aderido à Confederação,
pois pairava no ar o medo de que se repetissem no Brasil os acontecimentos
da Revolução de Independência do Haiti, em 1804, que findou com a tomada
do poder pelos escravos.

" O Federalismo é u m a forma de governo e m q u e u m a n a ç ã o é constituída de diferentes estados


(ou províncias) q u e são ligados p o r interesses c o m u n s (nacionais), m a s q u e m a n t é m , c a d a u m ,
sua autonomia. N u m a república federalista, os estados t ê m constituições próprias, q u e coexistem
c o m u m a constituição nacional.
" R e p r e s e n t a r a m o Rio Grande do Norte: o padre Francisco d a Costa Seixas, José J o a q u i m Ffemandes
de Barros e José J o a q u i m G e m i n i a n o d e Moraes Navarro.
" O Haiti era u m a colônia francesa, c u j a esmagadora maioria d a p o p u l a ç ã o era c o m p o s t a de negros
escravos. Sob os ideais d a Revolução Francesa, os negros conseguiram t o m a r a liderança d o
processo de Independência, d e c r e t a n d o a abolição da escravidão e expulsando os brancos d a ilha.
Foi a primeira n a ç ã o negra i n d e p e n d e n t e do continente americano.

84
I N T R O D U Ç Ã O À HISTÓRIA DO RIO G R A N D E DO NORTE

F i g u r a 24 - Frei Caneca, u m dos lideres da C o n f e d e r a ç ã o


do Equador, pagou c o m a v i d a por s u a s idéias. (Execução de Frei C a n e c a )

Na Confederação do Equador, os militares de baixa patente tiveram par-


ticipação significativa, como foi o caso do Rio Grande do Norte, onde vários
deles se envolveram no movimento. Esses militares pertenciam à "Tropa de
Linha", que, juntamente com as Milícias e Ordenanças, constituíam as forças
armadas da província, como de todas as outras do Brasil.
A Tropa de Linha, ao contrário das outras duas forças, era a tropa pro-
fissional, a que era paga, o exército propriamente dito. Seu comando era
confiado, de preferência, a portugueses, assim como os postos de oficiais
superiores. O corpo de soldados, e oficiais de baixa patente, era composto
por aqueles que se alistavam voluntariamente, pelos que eram obrigados
a fazê-lo, por serem "desocupados" - como os vadios, os criminosos e os

85
DENISE MATTOS M O N T E I R O

negros libertos - e, principalmente, por um processo de recrutamento for-


çado, sempre que necessário. Assim, a Tropa de Linha incorporava parcelas
da população que não era proprietária n e m branca, e que viviam, como
membros da tropa, com os soldos permanentemente atrasados, sobretudo
nos períodos de crise.
A essa Tropa de Linha pertencia o oficial de baixa patente que comandou
a tropa revolucionária de cinqüenta homens formada na província, em apoio
ao governo revolucionário de Recife - o alferes Miguel Ferreira Cabral.
Cumprindo o acordo feito com os confederados de Pernambuco, esse
grupo a r m a d o p a r t i u em direção à Paraíba, m a s regressou em seguida a
Natal - engrossando com voluntários do sul, principalmente de São José do
Mipibu - com o objetivo de "levantar a bandeira republicana" no Rio Grande
do Norte. Essa tropa, entretanto, foi impedida de entrar na cidade, sendo seus
homens obrigados a depor as armas, no confronto com forças comandadas
por militares de alta patente do quartel de Natal e que eram monarquistas.
A repressão ao movimento, desencadeada por ordem de D. Pedro I, havia
sido iniciada - com o envio de forças terrestres e marítimas para Recife - , e
u m a parte da elite dirigente que desencadeara a Confederação, recuou de sua
posição, o que favoreceu ainda mais as forças monarquistas. A se crer nos
registros históricos existentes, esse parece ter sido o caso do presidente da
província do Rio Grande do Norte na época - Tomás de Araújo Pereira - que
havia aderido inicialmente à Confederação."
Aqui foram presas, e enviadas para o Rio de Janeiro, treze pessoas,
incluindo-se o alferes Cabral, os três membros da Comissão que havia sido
enviada a Pernambuco - dentre eles u m padre - vários militares da Tropa
de Linha e alguns funcionários públicos, todos taxados de "influídos vio-
lentos". Os que tentaram escapar fugindo foram perseguidos pelas forças
monarquistas.
A turbulência política e social, porém, continuaria. No sertão, u m ano
depois, em 1825,13 indígenas foram fuzilados sob o argumento de que eram
"monarquistas" - além dos setenta que foram mortos em Portalegre n u m
levante local, como vimos no capítulo anterior - , e os povoados da ribeira do
Apodi andavam "infestados de bandos de ladrões e facinorosos", segundo o
presidente da província, em carta para o governo central,

" T o m á s d e Araújo Pereira era grande proprietário de terras e escravos em Acari. Dele se dizia q u e
m a n t i n h a u m a prisão privada em sua propriedade para punição de negros escravos. Era a c u s a d o de
explorar o trabalho de indígenas de Extremoz, impondo "despoticamente o trabalho de pescarias aos
h o m e n s e d e fiação às mulheres, q u e n ã o tinham afazeres habituais", o q u e levou a u m a a m e a ç a
de a t a q u e desses indígenas à cidade de Natal n o a n o d e 1824, o m e s m o a n o d a Confederação d o
Equador (LYRA, A. Tavares de. História do Rio Grande do Norte, p. 228).

86
INTRODUÇÃO À HISTÓRIA D O RIO G R A N D E DO NORTE

Por essa ribeira havia passado a "Divisão Constitucional do Equador",


tropa confederada que escapara do cerco de Recife pelas forças monarquistas,
não aceitando a capitulação imposta pelo exército imperial. Comandada,
entre outros, por Frei Caneca, essa tropa atravessou o sertão do Rio Grande
do Norte em direção ao Ceará, travando batalhas contínuas, até sua rendição
nessa última província.
Mas não era apenas o sertão o palco de agitações sociais: em São José
do Mipibu, o capitão Joaquim Torquato, que era t a m b é m juiz da vila, foi
suspenso de seu cargo por ter feito u m brinde, n u m a festa, a Simão Bolívar,
líder republicano nos países da América Espanhola. E o capitão Francisco
Ribeiro de Paiva, conhecido como "Mataquiri", que havia tomado parte na
tropa republicana sob o comando do alferes Cabral, em 1824, mantinha u m
bando armado em seu sítio.
O primeiro presidente de província no Rio Grande do Norte nomeado por
D. Pedro I, após o fim da Confederação do Equador, em 1825 - Manuel do
Nascimento Castro e Silva - , definiu regras para o policiamento da capital
que b e m indicam o clima de revolta e conspiração existente, e o temor que
elas despertavam. Essas regras estabeleciam que:

- Todo o t r a n s e u n t e [era] o b r i g a d o a p a r a r n a r u a p a r a ser


inquirido, sob p e n a de resistência. Depois d e corrida a caixa
d a s 9 n i n g u é m [seria] isento d e ser a p a l p a d o e revistado, e
a n t e s m e s m o d e s s a h o r a h a v e n d o s u s p e i t a . - Os e s c r a v o s
a q u a l q u e r hora. - [Ficava] proibido d e noite parar n a s
esquinas, nos quintaes e n a s ruas; dar assobios, ou quaesquer
signaes. - [Seriam] presos os m a s c a r a d o s , o s embuçados, e
os q u e [ t r o u x e s s e m ] c h a p é u s d e s a b a d o s , o s h o m e n s v e s t i d o s
de mulher e as mulheres vestidas de h o m e m e entregues
ao Juiz Territorial p a r a processá-los. - Todo (aquele] q u e
[fosse] encontrado, depois do toque d e recolhida, e m
v e n d a o u t a v e r n a , s e n d o l i v r e [ s e r i a ] p r e s o e [ p a g a r i a ] 2$;
na reincidência, o d o b r o , e a s s i m p r o g r e s s i v a m e n t e . Sendo
e s c r a v o , [iria] p a r a o c a l a b o u ç o , o n d e [ s e r i a ] c a s t i g a d o c o m
a ç o i t e s . O d o n o d a t a v e r n a [seria] p r e s o t a m b é m , e [ p a g a r i a ]
4 $ , o d o b r o n a r e i n c i d ê n c i a . - Q u e m ( a c h a s s e ] p a s q u i m [era]
obrigado a rasgá-lo, sem publicar o q u e c o n t i n h a . "

Ao descontentamento da elite brasileira com seu Imperador, devido ao


centralismo de poder manifestado por D. Pedro, seriam somados outros
motivos.

u
"Muitos d o s q u e c o m p u n h a m esse grupo se celebrizariam mais tarde como terríveis cangaceiros".
(LYRA, A. Tivares de. História do Rio Grande do Norte, p. 228].
M
"Caixa d a s 9" era o toque d e t a m b o r d a d o por grupos de soldados q u e percorriam as ruas da cidade
a n u n c i a n d o o t o q u e de recolher à noite. " P a s q u i m " era u m p e q u e n o jornal crítico, muitos deles
contendo desenhos satíricos sobre o poder constituído. Foram muito comuns nessa etapa da História
do Brasil, nas capitais do Império. (Ato do Presidente de Província Manuel do Nascimento Castro e
Silva, de 14 de abril de 1825, apad ROCHA POMBO, História do Rio Grande do Norte, p. 309-310).

87
DENISE MATTOS M O N T E I R O

A exportaçao dos produtos tradicionais do Brasil - como o açúcar, o


algodão, o fumo e os couros - enfrentava a concorrência de outros produtores
e declinava, enquanto as manufaturas inglesas entravam no país em número
cada vez maior, causando u m desequilíbrio na balança comercial. Além
disso, D. Pedro iniciou u m a guerra pela tentativa, fracassada, de controle do
atual Uruguai - a Guerra da Cispiatina, que se estendeu de 1825 a 1828 - aba-
lando ainda mais as finanças do país, comprometidas com u m empréstimo
externo contraído com bancos ingleses.
Mas foi, sobretudo, sua aproximação crescente com os p o r t u g u e s e s ,
e a possibilidade a i n d a p r e s e n t e de recolonização, que fez c o m q u e se
u n i s s e m no Brasil republicanos e m o n a r q u i s t a s na oposição a D. Pedro.
Esse período foi marcado por um crescente sentimento antiportuguês,
que se d i f u n d i a por diferentes camadas da população. Em Natal, em 1831,
c o m e ç a r a m a c i r c u l a r p e q u e n o s p a n f l e t o s que p r o p u n h a m T e x p u l s ã o
d e j o d õ s os portugueses-dã"cidãde: Foi, n o v a m e n t e , e n t r e o~s s o l d a d o s
da Tropa de Linha que esse sentimento se traduziu n u m a ação concreta:
sob o c o m a n d o de dois oficiais de baixa patente e u m f u n c i o n á r i o públi-
co - c h a m a d o s de_"os c a b e ç a s a n á r q u i c o s " - , os soldados se r e b e l a r a m
exigindo a demissão de dois c o m a n d a n t e s e a suspensão de dois capitães
e do secretário de governo, acusado-os de partidários da m o n a r q u i a ab-
solutista e de Portugal. w
Os conflitos não se r e s t r i n g i r a m a Natal: em Goianinha, Extremoz e
São José do Mipibu t a m b é m ocorreram revoltas e agitações p o p u l a r e s .
O s e n t i m e n t o a n t i p o r t u g u ê s expressava a insatisfação c o m o encareci-
mento dos gêneros de primeira necessidade, por p a r t e daqueles q u e eram
m a r g i n a i s a u m sistema b a s e a d o na m o n o c u l t u r a açucareira da g r a n d e
propriedade rural, existentes nessas áreas.
A rebelião de soldados ocorrida em Natal, em 1831, seguia de p e r t o
o movimento que teve l u g a r em Pernambuco, no m e s m o ano, conhecido
como " S e t e m b r a d a " ao final do q u a l " f o r a m presos e d e p o r t a d o s p a r a
F e r n a n d o de N o r o n h a m a i s de oitocentos, tendo sido m o r t o s e feridos
em combate cerca de trezentos". A repressão à rebelião n o Rio Grande
do Norte teve como c o n s e q ü ê n c i a a expulsão, para fora da província, de
88 soldados a m o t i n a d o s e o envio de forças militares para as três vilas em
que se verificaram revoltas. 85

* Os líderes acusados foram: o alferes M a n u e l Gabriel Carvalho, o capitão José Lucas Soares Raposo
da Câmara, e seu c u n h a d o J o ã o Álvares de Quental, e o escrivão Joaquim José Pinto
15 4
ROCHA POMBO. Op.cit.,p. 327.

88
INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DO RIO G R A N D E D O NORTE

Figura 25 - D e s e n h o s satíricos r e p r e s e n t a v a m os p o r t u g u e s e s partidários d a m o n a r q u i a


a b s o l u ü s t a . (Caricatura)

w M
A abdicação ao trono por D. PedcgJ, em favor de seu filho, e sua partida
para Portugal, nesse mesmo ano d^l83l) marcou o fim do Primeiro Império.
A partir de então, a elite brasileira, sem o imperador ão qual se aliara na
etapa inicial do processo de independência, trataria de construir, de fato,
' o o novo Estado Nacional brasileiro, sem abandonar o sistema monárquico.
Cp' Mas essa tarefa não se cumpriria pacificamente. N o j e r í o d o r e g e n c i a l , que
{) <iPs* t £ f e estendeu até 1840, q u a n d o D. Pedro II. a s s u m i u o trono d a n d o início
"O . y / a o Segundo .Império, u m a série de revoltas eclodiu em várias .províncias
brasileiras, ameaçando a unidade do território do novo Estado Nacional.
Num ofício dirigidcTáõ'presidentè^la província do Rio Grande do Norte,
o Ministro da Justiça - padre Feijó - dizia, em 1831:

[...] c u m p r e - m e p a r t i c i p a r a V. Ex. q u e a o g o v e r n o c o n s t a existir


nesta cidade [Natal] u m a sociedade secreta q u e , tendo por fim
p r o c l a m a r o s i s t e m a r e p u b l i c a n o , p r o c u r a r a m i f i c a r - s e p o r todas
a s p r o v í n c i a s d o Brasil, p a r a q u e V. Ex. p o r t o d o s o s m e i o s a o
seu a l c a n c e o b s t e a q u e a í se e s t a b e l e ç a tal f o c o d e p e r t u r b a ç õ e s
e d e s o r d e n s , o u q u a n d o j á e s t e j a e s t a b e l e c i d o , p r o c u r e aniquilá-
lo n a c o n f o r m i d a d e d a s leis.* 6

Algumas dessas revoltas foram movimentos de elites provinciais rebe-


ladas contra a existência de u m poder central forte se sobrepondo ao poder
local em cada província. Outras tiveram u m c u n h o mais popular, quando

" R O C H A POMBO. História do Rio Grande do Norte, p. 328.

89
DENISE MATTOS M O N T E I R O

parcelas de homens livres e pobres, e também escravos, tentaram dar outra


direção à luta, questionando as bases do poder que se m a n t i n h a m no Brasil
- a grande propriedade rural, a monocultura e a escravidão. 87
Apesar dessas revoltas do período regencial, que a m e a ç a r a m dividir o
país, o monopólio do poder político pelos grandes proprietários rurais do
Brasil ficou garantido; a Constituição vigente durante todo o século XIX de-
terminava que só tinham direito de participar das eleições, como eleitores ou
como candidatos a vereador, deputado e senador, os que tivessem u m a renda
mínima anual, que era previamente determinada pela própria Constituição.

Figura 26 - A n u m e r o s a p o p u l a ç ã o escrava do Brasil da s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o XIX estava


excluída de q u a l q u e r direito político. (Mercado)

Assim, internamente a cada província, não houve mudanças nesse mo-


nopólio de poder, (^presidente de província era nomeado pelo poder central,
mas os deputados da Assembleia Provincial, que elaboravaniTs leis - - sobre
impostos, obras, instrução, polícia e empregos públicos - , eram eleitos lo-
calmente, de forma que esses cargos permaneceram nas mãos de^algymas
poucas famílias por província, durante o Impérid^Da m e s m a forma*, em

" E s s a s revoltas foram: a C a b a n a g e m n o P a r i (1835), a Farroupilha n o Rio Grande d o Sul (1835), a


S a b i n a d a n a Bahia (1837), a B a l a i a d a no Maranhão (1838) e a República Juliana e m Santa Catarina
(1839). A elas deve ser acrescentada a revolta dos escravos Malês da Bahia (1835) e a Revolução
Praieira de P e r n a m b u c o (1848).
" S e g u n d o a Constituição d e 1824, as eleições eram indiretas, escolhendo-se primeiro os q u e iriam
eleger os vereadores, d e p u t a d o s e senadores. A renda mínima inicial, ou seja, para os eleitores
primários, era equivalente ao valor de 150 alqueires de farinha de mandioca, daí o n o m e popular d e
"Constituição da Mandioca". O primeiro senador do Rio Grande do Norte no Império, cargo q u e era
então vitalício, foi Afonso de A l b u q u e r q u e M a r a n h ã o , proprietário d e terras, e n g e n h o s e escravos.

90
I N T R O D U Ç Ã O À H I S T Ó R I A D O RIO G R A N D E DO NORTE

|\Aj(3a PcKa lic.ôr igual


cada vila de província, as Câmaras de Vereadores continuaram nas mesmas
maòs,Õú seja L confÕs_désçe.ndentés_dos "homens bons" doperípdo colonial.
Em 1834,"no contexto de u m avanço das forças políticas favoráveis a u m
fortalecimento do poder local no Brasil, elegeu-se a primeira Assembleia
Legislativa Provincial do Rio Grande do Norte. Na capital, participaram
dessa eleição setenta homens, q u a n d o Natal tinha u m a população total
entre cinco e seis mil habitantes. Os vinte deputados eleitos para compor
essa Assembleia eram proprietários rurais, mas também padres, militares e
aqueles que exerciam cargos públicos de importância.
Entre 1805 e 1844, a população total da província teve u m aumento de
370%, ou seja, mais que triplicou. Pelo quadro abaixo, podemos ver esse cres-
cimento, inclusive com os números referentes à população livre e escrava.

EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO DA PROVÍNCIA


Anos
Condição Social
1805 1835 1844

43.482 77.691 130.919

5.768 10.240 18.153

49.250 87.931 149.072

A esse aumento populacional correspondeu u m aumento no número


de vilas existentes no Rio Grande do Norte. Na primeira metade do século
XIX, mais sete povoações foram elevadas à categoria de vila, distribuídas
tanto pelo litoral leste e norte, como pelo sertão. Na figura 27, encontra-se
sua localização, juntamente com aquelas que haviam sido criadas no século
XVIII, todas com seus nomes originais.
A capital da província, até l845,.£Qntinuou_ tendo por centiQ_urhana-a
área em torno da atual Praça.André d_e Albuquerque z jy:hama_daXÍdade
Alta. Neia se situavam, além da Igreja Matriz, as outras únicas quatro cons-
truções importantes da cidade, que abrigavam o Senado da Câmara de Natal,
o Palácio do Governo, a Fazenda Pública e o Quartel Militar. Algumas casas
se e s p a l h a r a m pelas atuais r u a s Santo Antônio, Princesa Isabel, Vigário
Bartolomeu, João Pessoa e Conceição. Desta última rua partia a ligação da
Cidade Alta com a Ribeira, ou Cidade Baixa, onde, desde a primeira década
do século XIX, já havia aproximadamente trezentos moradores, dentre eles
w
Fonte dos números: Carta do capitão-mor do Rio Grande do Norte. José Francisco de Pau.la Cavalcanti
de Albuquerque, ao Príncipe Regente D. João, e m 1806, Projeto Resgate Barão do Rio Branco] LYRA,
A. Tavares de. Diccionario histórico, geograpfuco e ethnografico do Brasil, p. 471-473. Deve ser
o b s e r v a d o q u e são n ú m e r o s aproximados, referentes a u m tempo e m que não havia um trabalho
regular e oficial de recenseamento da p o p u l a ç ã o :
" A s datas de criação foram: Goianinha, 1832; Angicos, Acari, Apodi, São Gortçalo do Amarante e
Touros, 1833; S a n f A n a do Matos, 1836; Maioridade (Martins), 1841 e Macau, 1847. Algumas delas
foram criadas, extintas e recriadas. Pau dos Ferros p e r m a n e c e u c o m o freguesia, e nao vila, nessa
primeira m e t a d e do século XIX.

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DENISE MATTOS MONTEIRO

os comerciantes que f a z i a m os negócios de importação e exportação de


mercadorias da província, em seus armazéns situados na Rua da Alfândega,
atual Rua Chile.
Datam da primeira metade do século XIX as primeiras escolas de ins-
t r u ç ã o pública primária, e m Natal e em algiujias-jnlas da província, e a
primeira de instrução pública secundária - d^theney^íorte-rio-grandense.
Data desse período, também, o estabelecimento dÕprimeiro médico público
na capital da província. \ "^CC - A ^ ò O
Para dar conta dessas despesas e outras necessárias, como abrir estradas
ligando diferentes vilas, o governo provincial dependia dos impostos, princi-
pal fonte de renda pública. Dentre esses impostos, aquele que recaía sobre a
criação de gado era o mais importante, u m a vez que a pecuária continuava
sendo a principal atividade econômica da província, apesar do surgimento
da lavoura mercantil do algodão no início do século XIX.
Em 1845, u m a grande seca abateu-se sobre o Nordeste e, ao atingir o
rebanho bovino, desarticulou a economia do Rio Grande do Norte. Essa seca,
aliada a outros fatores que entraram em cena a partir de então, determina-
riam novas mudanças econômicas e sociais na província, como veremos a
seguir.

F i g u r a 27 - Vilas c r i a d a s n a p r o v í n c i a do Rio G r a n d e do Norte a t é 1850, c o m s e u s n o m e s


originais.

" Até o surgimento dessas primeiras escolas, os filhos da elite da província a p r e n d i a m a ler, escrever
e contar c o m professores particulares. A criação d a instrução secundária permitiu q u e tivessem
a c e s s o ao c o n h e c i m e n t o d a geometria, filosofia, latim, f r a n c ê s e retórica, m a t é r i a s oferecidas pelo
A t h e n e u Norte-rio-grandense. Em 1844, segundo os d a d o s do relatório do próprio presidente d a
província, s o m e n t e 16,3% do total d a p o p u l a ç ã o sabia ler.

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