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Gabinete do Reitor • Coordenadoria de Comunicação da UFRJ • Ano VI • Nº 57 • Novembro/ Dezembro de 2010

A mídia se
partidarizou
Os grandes conglomerados da mídia não mediram esforços
para fabricar fatos e influir no roteiro político das eleições presi-
denciais de 2010. No papel de oposição declarada, chegaram
às fronteiras do obscurantismo ao estimular preconceitos de
ordem religiosa para tornar bem-sucedido o programa político
que consideravam o mais conveniente a seus interesses.
Na avaliação de Marcos Dantas, professor da Escola de Co-
municação (ECO) da UFRJ, não é exatamente uma novidade
histórica o alinhamento da mídia brasileira a projetos conser-
vadores que, em algumas ocasiões, desaguaram em golpes de Entrevista

Estado. “O que diferencia o momento atual é que não dá mais Marco Dantas
para contar com um golpe militar e, por isso, são necessárias
outras estratégias de convencimento”, salienta o especialista em
Economia Política da Comunicação da UFRJ.

Raiz
r Clementina de Jesus
d B as i
o
“Tina, vai acender esse cachimbo”, mandava Amélia Rezadeira à filha Clementina, entre uma e outra
peça de roupa lavada à beira do rio. “Sim, senhora”, respondia a pequena Clementina que, segundo
Regina Meirelles, professora da Escola de Música (EM) da UFRJ, preencheu um espaço vazio “que a gente
não consegue preencher, com a memória ancestral que as pessoas de origem negra nos contam”.

Qual UFRJ
Na segunda rodada de conversas organizadas pelo Jornal
da UFRJ para discutir o futuro da instituição, são raros os
pontos de convergência entre os entrevistados. Os professores
Ericksson Rocha e Almendra, da Escola Politécnica (Poli),

queremos ser?
Maria Fernanda dos Santos Quintela, do Instituto de Biologia
(IB), Ricardo Silva Kubrusly, do Instituto de Matemática (IM),
e Roberto Leher, da Faculdade de Educação (FE), apresentam
abordagens distintas acerca da agenda de temas controversos
postos à mesa quando se discute a universidade.
2 Jornal da
UFRJ Novembro/ Dezembro 2010

Esclarecendo... Capes aprova


Na matéria “Reforma universitária: ‘modernização’
pós-graduação da UFRJ
em Macaé
Reitor
Aloisio Teixeira
Vice-reitora vigiada”, publicada na edição nº 55 (julho/agosto), do
Sylvia da Silveira Mello Vargas
Pró-reitoria de Graduação (PR-1)
Jornal da UFRJ, a professora de Ciência Política e So- Fortunato Mauro

P
Belkis Valdman ciologia da UFRJ Miriam Limoeiro, aposentada com-
Pró-reitoria de Pós-graduação
e Pesquisa (PR-2) pulsoriamente em 1969 pelo regime militar, esclarece erseguindo a meta de implantar núcleos de pesquisas de-
Ângela Maria Cohen Uller
Pró-reitoria de Planejamento que o trecho “a universidade que conheci como estu- dicados ao desenvolvimento de estudos voltados às ques-
e Desenvolvimento (PR-3)
Carlos Antônio Levi da Conceição
dante nos quatro primeiros anos da década de 1960 tões regionais, o campus UFRJ-Macaé propôs aos colegia-
Pró-reitoria de Pessoal (PR-4) (...)”, mencionado por ela na reportagem, não se refe- dos superiores da UFRJ dois programas de pós-graduação: um em
Luiz Afonso Henriques Mariz
Pró-reitoria de Extensão (PR-5) re especificamente à UFRJ. Miriam fez graduação na Ciências Ambientais e Conservação e outro em Produtos Bioativos
Laura Tavares Ribeiro Soares
Superintendência Geral Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ) no início e Biociências. Após a tramitação no âmbito da UFRJ, a comunidade
de Administração e Finanças
Milton Flores
da década de 1960. do campus UFRJ-Macaé recebeu a feliz notícia de que a Coordenação
Chefe de Gabinete
João Eduardo Fonseca
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) aprovou a

Errata
Fórum de Ciência e Cultura implantação dos dois programas. Assim sendo, a UFRJ tem seus pri-
Beatriz Resende
Prefeito da Cidade Universitária meiros programas de pós-graduação stricto sensu fora de sua sede.
Hélio de Mattos Alves
Sistema de Bibliotecas e Informação (SiBI) Tais programas preencherão importante lacuna no cenário cientí-
Paula Maria Abrantes Cotta de Melo
Coordenadoria de Comunicação
fico nacional, além de irem ao encontro do objetivo da UFRJ de inte-
Fortunato Mauro Na edição 56 do Jornal da UFRJ, a fo- riorizar não somente o Ensino, mas, em especial, a Pesquisa no estado
Ouvidoria Geral
Cristina Ayoub Riche tografia do professor Luiz Acosta, é de do Rio de Janeiro.
Clara Grivicich, da Agência de Notícias Com a criação dos programas, o campus UFRJ-Macaé caminha
UFRJ Praia Vermelha, e não de Marco a passos largos para se transformar, em breve, em mais um centro de
JORNAL DA UFRJ é uma publicação Fernandes. excelência em Ciência e Tecnologia, de formação de profissionais qua-
MENSAL da coordenadoria de
comunicação da Universidade
lificados e com expressiva atuação regional e nacional.
Federal do rio de janeiro.

Sem credibilidade entre especialistas,


Av. Pedro Calmon, 550.
Prédio da Reitoria – Gabinete do Reitor
Cidade Universitária
CEP 21941-590

Protocolo de Nagoya é assinado


Rio de Janeiro – RJ
Telefone: (21) 2598-1621
Fax: (21) 2598-1605
jornaldaufrj@reitoria.ufrj.br

Stephanie Tondo

M
Supervisão editorial
João Eduardo Fonseca
Jornalista responsável ais de 190 países cias como as de Diversidade Bio- bar influenciando na mudança de desconfiança”, afirma Fernando
Fortunato Mauro (Reg. 20732 MTE)
Edição assinaram, dia lógica, que ocorreu mês passado hábitos por parte das sociedades. Fernandez.
Fortunato Mauro e Luciana Crespo
Pauta 29 de outubro, o em Nagoya (Japão), são positivas, “Há, agora, uma oportunidade A falta de adesão dos estadu-
Luciana Crespo,
e Fortunato Mauro Protocolo de Nagoya (Japão), con- pois estabelecem metas que po- considerável para a conscienti- nidenses às medidas propostas
Redação
Aline Durães, Bruno Franco, Coryntho siderado o maior pacto ambiental dem gerar compromissos por par- zação. Avança-se, cada vez mais, pelas conferências acaba tornando
Baldez, Fernando Pedro Lopes, Luciana
Campos, Luiz Carlos Maranhão, Márcio
Castilho, Mariana Valle, Pedro Barreto,
desde o de Kyoto. O acordo pro- te dos países em relação ao meio com políticas de conservação, e pouco úteis as ações de proteção
Rafaela Pereira, Vanessa Sol e
Stephanie Tondo põe, entre outras questões, a pro- ambiente. Nagoya é apenas uma gota em ambiental adotadas pelos demais
Revisão
Dayse Barreto, Érica Bispo e teção do patrimônio biológico dos O problema é o fato de os meio a essa onda de discussões a países, uma vez que o nível de po-
Luciana Crespo
Arte países – que somente poderá ser eventos não terem produzido, respeito do meio ambiente”, avalia luição e destruição do meio am-
Anna Carolina Bayer
Ilustração explorado mediante autorização até agora, resultados satisfatórios. o professor. biente causado pelos Estados Uni-
Diego Novaes, João Rezende,
Marco Fernandes e Zope
e pagamento de royalties – e a re- “As conferências sobre mudanças Apesar disso, para Fernando dos é um dos maiores do mundo.
Charge
Zope
partição dos lucros obtidos pelas climáticas como as de Kyoto e de Fernandez ainda há muito o que O Protocolo de Nagoya pro-
Fotos empresas farmacêuticas com os Copenhague (Dinamarca) foram fazer no que diz respeito à cons- põe um plano de metas para 2020,
Acervo CoordCOM, Clara Grivicich e
Marco Fernandes países dos quais os recursos natu- um fracasso, não houve sequer cientização ambiental. “A maioria com o qual haveria um aumento
Expedição
Marta Andrade rais foram obtidos. Espera-se que consenso por parte dos países”, da população ainda não tem essa considerável das áreas protegidas
Interessados em receber esta publicação tais medidas colaborem também afirma Fernando Fernandez. No consciência. A eleição para pre- do planeta. A meta é proteger
devem entrar em contato pelo e-mail
O Jornal da UFRJ publica opiniões sobre o para o fim da biopirataria. entanto, mesmo com o pouco sidente, no Brasil, mostrou isso. 17% dos ecossistemas terrestres,
conteúdo de suas edições. Por restrições de
espaço, as cartas sofrerão seleção e poderão ser De acordo com Fernando Fer- êxito delas, as discussões sobre as Os candidatos, no segundo turno, contra os 13% atuais, e 10% dos
resumidas.
nandez, professor do Instituto de questões ambientais ganham cada não tinham fortes propostas polí- oceanos, contra menos de 1%,
Fotolito e impressão
Gráfica Posigraf
25 mil exemplares
Biologia (IB) da UFRJ, conferên- vez mais visibilidade e podem aca- ticas ambientais. E mesmo Marina atualmente.
Silva, que abordou bastante essa Existem dois tipos de prote-
questão, recebeu tantos votos não ção ambiental: a indireta (estrita)
por causa disso, mas por seu po- e a direta, que permite a explo-
sicionamento político e por suas ração dos recursos de área pro-
propostas de políticas sociais”, tegida, mas de modo sustentável.
afirma o pesquisador do IB-UFRJ. “Muitas pessoas entendem hoje a
Este ano, mais uma vez, os sustentabilidade como sinônimo
Estados Unidos se recusaram de ‘tomar cuidado com o meio am-
a assinar o Protocolo, tornan- biente’ e não é nada disso. A sus-
do quase impossíveis de serem tentabilidade está se tornando uma
realizadas as metas propostas palavra vazia. Medidas sustentáveis
pelo acordo. “Eles possuem são aquelas que permitem que o
um presidente bem intencio- nível dos recursos explorados
nado em termos ambientais, seja mantido para a humanida-
mas que está cada vez mais de, ou seja, é explorar sem causar
amarrado. O governo norte- a extinção dos recursos”, alerta
americano é muito dividido. A Fernando Fernandez, que, em
posição do país reflete sua pró- pesquisa, observou que em 120
pria divisão e necessidade de ter casos, nos quais a utilização dos
que agradar democratas, republi- recursos era supostamente sus-
canos e indecisos. Muitas pessoas tentável, 88 não eram de nenhum
veem as questões ambientais com modo assim caracterizado.
3
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 UFRJ 90 anos UFRJ

Tempos de

Márcio Castilho
Reconstrução
P
rimeira instituição oficial ção social e política da instituição nos Programa de Pós-graduação em Edu- Carlos Vainer, professor do Insti-
de Ensino Superior do Bra- últimos 20 anos, projetando também cação, cita a política de editais como tuto de Pesquisa e Planejamento Ur-
sil, a UFRJ comemorou, um olhar para o futuro, isto é, as pers- um dos aspectos mais “nefastos” da bano e Regional (Ippur) da UFRJ, re-
em setembro, 90 anos de existência. pectivas acerca do papel social da uni- contrarreforma. Tal modelo, de acor- lativiza a ideia da fragmentação como
Como parte das atividades e projetos versidade num horizonte mais amplo. do com Leher, permanece nos dias característica constitutiva da institui-
desenvolvidos para celebrar a data, O projeto de uma universidade inte- atuais. “As universidades perderam a ção. Segundo ele, embora originárias,
o Jornal da UFRJ procurou resgatar, grada com seu tempo – “gratuita, de autonomia para definir suas proble- a dispersão espacial e as dificuldades
numa série de cinco reportagens, um qualidade e democrática” – está sin- máticas científicas, desde então in- para se materializar o conceito de um
pouco da memória da universidade e tetizado no Plano Diretor UFRJ 2020. duzidas pelos editais. Resultou dessa campus rico de interações e de troca
sua contribuição para a produção e a política um crescimento exponencial de saberes foram reproduzidas e am-
socialização do conhecimento em di- Ecos da Reforma da pós-graduação (nos anos 1960 ha- pliadas ao longo da história da UFRJ:
ferentes momentos históricos. Desde Depois do período de forte repres- via menos de 100 programas de pós- “Existe uma série de fragmentações
o surgimento das primeiras faculda- são política dos governos militares, a graduação stricto sensu; em 1985, já que não são originárias; foram pro-
des isoladas – Engenharia, Medicina universidade ingressa nos anos 1980 existiam mais de mil). Contudo, o duzidas no processo de moderniza-
e Direito – que deram origem a então refletindo as mudanças da conjuntura preço foi alto, pois se naturalizou uma ção. Somos não apenas os filhos da
Universidade do Rio de Janeiro, em histórica. O processo de redemocrati- lógica de heteronomia na universida- fragmentação, mas pais dela. Filhos
1920, a UFRJ teve papel fundamental zação consolida a ação dos movimen- de”, afirma o docente, criticando tam- porque herdamos uma fragmentação
como lugar do pensamento crítico e tos docente e estudantil. Funcionários bém a Lei de Inovação Tecnológica original, mas a reproduzimos de ma-
do avanço científico, cultural e tecno- técnico-administrativos também são aprovada no governo de Luiz Inácio neira intensa”.
lógico, mas também enfrentou obstá- incorporados ao debate e passam a Lula da Silva, que submete os editais, Para ilustrar esse raciocínio, Vai-
culos. Construiu uma Cidade Univer- participar dos processos decisórios segundo ele, ao crivo do setor empre- ner aponta as divisões entre gradu-
sitária que, por si só, não foi capaz de na universidade durante a gestão de sarial. ação e pós-graduação ou entre Ci-
promover sua integração institucio- Horácio Macedo (1985-1989). Se a Outras críticas do professor da FE ências Humanas e Exatas. “Temos o
nal. Nesse percurso, assumiu caráter UFRJ assegurou conquistas, sobretu- recaem sobre a “ampliação do acesso à Conselho de Ensino de Graduação
nacional e modelar para outras ins- do quanto ao processo de democrati- Educação Superior por meio da oferta (CEG) e o Conselho de Ensino para
tituições de Ensino Superior tal qual zação interna, os efeitos da Reforma privada” e o aprofundamento do pro- Graduados (CPEG), o que sugere que
a Universidade do Brasil, durante o Universitária ou “contrarreforma” de cesso de fragmentação na instituição. a Pesquisa é uma atividade conecta-
primeiro governo de Getúlio Vargas 1968, como muitos especialistas de- “A contrarreforma favoreceu a maior da à pós-graduação, não à graduação.
(1937-1945), e passou por uma “mo- nominam a política do regime militar centralização das atividades acadêmi- São aspectos que ficam congelados
dernização” vigiada durante a ditadu- para o Ensino Superior, continuaram cas, por meio dos departamentos, e a numa estrutura institucional e reali-
ra militar, de 1964 a 1985. como herança no período pós-dita- maior fragmentação, pois o regime de mentam a ideia de que a Pesquisa é
Na quinta e última reportagem, a dura. créditos contribuiu para enfraquecer uma atividade da pós-graduação. Isso
série “UFRJ 90 anos” aborda a inser- Roberto Leher, professor da Facul- o conceito de formação dos estudan- vai diminuindo, mas está presente em
dade de Educação (FE) da UFRJ e do tes”, observa Leher. nossa estrutura institucional que data
exatamente desse período da reforma
ditatorial e não foi mexido. Por que
não, 25 anos depois do fim da ditadu-
ra? Porque gerou permanências e cul-
turas institucionais e acadêmicas que
se reproduzem”, destaca o docente do
Ippur.

Marco Fernandes
4 Jornal da
UFRJ Novembro/ Dezembro 2010

Acervo CoordCOM

Retrocessos institucionais
No contexto de redemocratiza-
ção, com as garantias das liberdades
individuais e de expressão garantidas
pela Constituição de 1988, as univer-
sidades brasileiras se veem diante de
novos desafios. Na UFRJ, as diferen-
tes vozes que compõem a comuni-
dade acadêmica no período seguem
contribuindo para valorização pro-
fissional, repercutindo diretamente
na qualidade das atividades de Ensi-
no e Pesquisa. Ao mesmo tempo, en-
frentam os retrocessos políticos que
marcaram a década de 1990. A atua-
ção dos movimentos sociais, em que Movimentos organizados têm atuação decisiva na redemocratização da universidade e do país.
se inseriam estudantes, professores e
técnico-administrativos, foi decisiva o vice Itamar Franco. Apesar da vitó- de José Henrique Vilhena, professor Instituto de Economia e membro do
na luta contra o programa neolibe- ria política dos movimentos popula- do Instituto de Filosofia e Ciências Consuni à época, como reitor, em
ral do presidente Fernando Collor de res, vivia-se o contexto de hegemonia Sociais (Ifcs), retiraram suas candida- 2002. A vitória de Lessa demonstrou a
Mello. Os segmentos da universidade neoliberal. A política educacional nos turas. Aloisio teve seu nome confirma- unidade dos segmentos da instituição,
expressavam seu descontentamento anos subsequentes propunha o esva- do no Colégio Eleitoral, mas não tomou representando o início de um período
em relação ao governo por meio de ziamento das Instituições Federais posse. Vilhena, terceiro colocado na lis- de correção de rumos, planejamento
greves, manifestações e atos públicos. de Ensino Superior (Ifes). A falta de ta tríplice, foi nomeado pelo presidente e reconstrução da UFRJ. Em 2003, de-
“Fizemos uma enorme greve con- recursos inviabilizava a realização de Fernando Henrique Cardoso. O gesto pois de uma breve passagem de Sérgio
tra as medidas de Collor e em prol de concursos públicos para contratação impositivo foi classificado pela comuni- Fracalanzza como reitor, Aloisio Teixeira
reajustes salariais em 1991, ano em de servidores. dade acadêmica como um ato de inter- assumiu o cargo.
que participei da diretoria da Asso- O funcionamento institucional fi- venção do Governo Federal. “Aqueles quatro anos (1998-2002)
ciação dos Docentes da UFRJ (Adu- cou ainda mais comprometido após Em defesa da autonomia universi- deram à comunidade universitária uma
frj). Realizamos uma bela luta que não ter sido respeitada a decisão de- tária, servidores e estudantes se mo- consciência muito forte de que várias
muito deve orgulhar professores que mocrática de docentes, técnico-admi- bilizaram em forte greve que durou das questões que haviam nos dividi-
dela participaram. A Reitoria esteve nistrativos e estudantes nas eleições cerca de 90 dias. Manifestantes tam- do no passado já não tinham o menor
como aliada dessas lutas”, avalia Ro- para a sucessão de Paulo Alcântara bém ocuparam as dependências da significado. Isso preparou o estado de
berto Leher, acrescentando que Nel- Gomes (1994-1998) na Reitoria da Reitoria, na Cidade Universitária, espírito da comunidade para viver um
son Maculan, então reitor da UFRJ UFRJ. A universidade viveu entre 1998 contra a intervenção. O prédio somen- novo período. A maior conquista que
(1989-1994), teve papel relevante no e 2002 uma das mais graves crises da te foi desocupado por decisão judicial alcançamos foi a pacificação, mas não
fortalecimento da Associação Nacio- sua história. Para entender o episódio e com forte aparato policial, mas os atribuo a pacificação à ação da Rei-
nal dos Dirigentes das Instituições Fe- e suas consequências é preciso recuar protestos não cessaram. Na sequência, toria. Talvez a Reitoria tenha tido a
derais de Ensino Superior (Andifes). no tempo e fazer um pequeno resgate a luta contra a intervenção se dá no sensibilidade de não impedir que a
Diante das denúncias de corrup- do conturbado processo eleitoral. Conselho Universitário (Consuni). O pacificação se desse da forma como
ção política, pressionado pelas forças Em abril de 1998, Aloisio Teixei- colegiado superior, marcadamente, foi se deu. É uma conquista da univer-
sociais, Collor renunciou ao cargo ra, professor do Instituto de Econo- o palco da resistência à gestão de José sidade, de todos nós – professores,
em outubro de 1992, o que não o li- mia (IE), foi o primeiro colocado na Henrique Vilhena de Paiva. técnico-administrativos e estudantes
vrou do processo de impeachment no consulta à comunidade universitária O processo de normalização insti- – que, cansados de um modo de um
Congresso Nacional. Ficou inelegível para reitor. Respeitando a decisão das tucional começou a ser retomado com cotidiano anterior, resolvemos juntos
por oito anos. Em seu lugar, assumiu urnas, os concorrentes, com exceção a posse de Carlos Lessa, professor do construir uma nova maneira de con-
1990

1990 a 1992 1994 1998 2002 2003


Atuação decisiva Permanência de uma Aloisio Teixeira, professor do Instituto de Retomada do Depois da breve
dos movimentos política educacional Economia (IE), vence, em abril, as eleições para processo de passagem de Sérgio
organizados da de esvaziamento das reitor, mas não assume o cargo. José Henrique normalização Fracalanzza, o
universidade instituições federais Vilhena de Paiva, terceiro colocado na disputa, institucional professor Aloisio
(estudantes, docentes e de ensino superior. é nomeado pelo presidente Fernando Henrique com a posse de Teixeira assume a
técnico-administrativos) Falta de recursos Cardoso. O gesto impositivo foi classificado Carlos Lessa, Reitoria da UFRJ.
na luta contra o inviabiliza realização pela comunidade acadêmica como intervenção professor do IE,
programa neoliberal de concursos públicos do Governo. para o cargo de Aprovação da nova
do presidente Collor para contratação de reitor. designação da Escola
de Mello. Período servidores. A UFRJ realiza uma das maiores greves de de Engenharia, que
marcado por greves sua história. Por mais de 90 dias, professores se transforma em
e manifestações e servidores reivindicam melhores salários e Escola Politécnica da
da comunidade mais verbas e vagas nas universidades públicas. UFRJ.
universitária. Manifestantes ocupam a Reitoria.
5
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 UFRJ 90 anos UFRJ

vivência. Isso se refletiu numa série tro da proposta do Plano Diretor UFRJ do acesso, a ampliação das vagas e a ne- receram, naquele ano, 2,98 milhões de
de passos que demos em termos de 2020, aprovada em outubro de 2009 pelo cessidade de investimentos na assistên- vagas. Porém, pouco mais de 1 milhão
normalização e consolidação da vida Consuni. cia estudantil para reduzir os índices de e meio de candidatos conseguiu ingres-
institucional, que foram muito im- “Herdamos um campus que é se- evasão, além da convergência e articula- sar nessas instituições. Os números de-
portantes”, declarou o reitor Aloisio gregado da cidade e, nele, cada pedaço ção entre as diferentes áreas de conheci- monstram, portanto, que praticamente a
Teixeira, no vídeo institucional pro- segregado do outro. mento e a amplia- metade das vagas não foi preenchida nos
duzido pela Coordenadoria de Co- É um conjunto de ção das atividades processos seletivos. Um dos fatores está
municação (CoordCOM) da UFRJ, ‘ilhas’ em uma ilha. “Há a dificuldade de Extensão. associado ao baixo aproveitamento dos
exibido por ocasião das comemorações Todo o projeto do Dados do Ins- alunos do Ensino Médio da rede pública.
dos 90 anos da UFRJ. Plano Diretor visa de uma instituição tituto Nacional de De acordo com Pablo César Benetti,
reverter esse pro- Estudos e Pesqui- professor da Faculdade de Arquitetura e
Plano Diretor cesso. A palavra de como a UFRJ sas Educacionais Urbanismo (FAU) da UFRJ e presiden-
Os tempos de hoje demandam o ordem do plano é a Anísio Teixeira te do Comitê Técnico do Plano Diretor
aprofundamento do debate político em ‘Universidade inte- pensar um (Inep), do Minis- (CTPD), a renovação da universidade
relação aos limites da atuação da UFRJ grada e que se inte- tério da Educação, pública ainda está por ser feita. “Há a
na sociedade, o que significa estender gra à cidade’”, afirma modelo de futuro revelam como o dificuldade de uma instituição como
o conhecimento produzido para além Carlos Vainer. acesso às univer- a UFRJ pensar um modelo de futuro a
dos muros dos seus centros, faculdades, O Plano Diretor a partir de sua sidades públicas partir de sua história. Mas há traços nes-
escolas e institutos. Internamente, bus- reúne as diretrizes ainda está restrito sa história que ela precisa jogar fora ou
cando romper com o histórico de frag- traçadas pelo Plano história.” a uma pequena ter uma postura radicalmente crítica;
mentação de suas unidades, o desafio é de Desenvolvimen- parcela da popu- caso contrário, não vai ser uma univer-
também promover formas de coopera- to Institucional (PDI), apresentado em lação brasileira: o setor privado respon- sidade do futuro. Claro que, com a ten-
ção, favorecendo a ideia de um “espírito 2005, e pelo Programa de Reestrutu- deu por 74,9% das cerca de 5 milhões de dência de renovação dos quadros, como
universitário” a partir da criação de um ração e Expansão (PRE), aprovado em matrículas em cursos superiores no país está ocorrendo agora, há uma mudança
ambiente que estimule a interdiscipli- 2007. Os intensos debates nos últimos em 2008, contra 25,1% do setor público. importante de quem opina. Penso que é
naridade. A dupla integração – entre cinco anos demonstram a consonância O estudo aponta também que a quanti- um desafio colocado. O passado ainda
os cursos da universidade e, no sentido da agenda acadêmica com as demandas dade de estudantes ainda é bastante infe- tensiona muito qualquer atitude no sen-
mais amplo, da Cidade Universitária da própria sociedade. Nessa pauta, estão rior à quantidade de vagas: as escolas pú- tido de quebrar barreiras acadêmicas, de
com o restante da cidade – está no cen- incluídos temas como a democratização blicas e privadas de Ensino Superior ofe- trabalhar em torno da plenitude de uma
Equipe Técnica do Plano Diretor ideia de intercâmbio entre diversas esfe-
ras disciplinares”, salienta o professor.
A história da UFRJ vai se confun-
dindo assim com a história do país. As
transformações ocorridas durante sua
trajetória dialogam diretamente com o
contexto político, econômico e social. A
UFRJ retrocedeu em alguns momentos,
acompanhando as particularidades da
conjuntura mais ampla de uma dada
época. Em outros, rompeu com as amar-
ras do seu próprio tempo, protagoni-
zando avanços em diferentes áreas do
conhecimento, constituindo-se como
lugar privilegiado do pensamento crí-
tico. O resgate de sua história ajuda a
entender a dinâmica da própria so-
ciedade brasileira no século XX. Nos
anos 1990, a universidade inicia nova
jornada, que certamente terá influên-
cia sobre os rumos do país no século
XXI. Mas essa história está para ser
Centro de Convergência CLA-CCJE-CFCH :Expansão Acadêmica, prevista no Plano Diretor UFRJ 2020. escrita.

2005 2009 2010


2010

2007 2008
A Reitoria O Conselho Universitário Comemoração
O Conselho Universitário Constituição da comissão,
encaminha proposta aprova em abril, durante dos 90 anos
aprova, em outubro, o Programa em janeiro, para elaboração
de Plano de sessão extraordinária, de fundação
de Reestruturação e Expansão da proposta de “diretrizes
Desenvolvimento a versão da Proposta da UFRJ, em
(PRE), incluindo temas para a execução do Plano
Institucional Preliminar do Plano setembro.
como a democratização do Diretor da UFRJ”. O
(PDI) para debate Diretor UFRJ 2020. Em
acesso, ampliação das vagas, Conselho Universitário
na comunidade outubro, o Consuni
necessidade de investimentos aprova em setembro as
universitária. O aprova a proposta do
na assistência estudantil, diretrizes gerais.
projeto reúne Plano Diretor. A idéia
algumas ações convergência e articulação
central do projeto é a
para superação entre as diferentes áreas de
dupla integração – entre
da cultura da conhecimento e ampliação das
os cursos da universidade
fragmentação e do atividades de extensão, dentre
e da Cidade Universitária
elitismo no acesso. outros.
com o restante da cidade.
6 Jornal da
UFRJ Internacional Novembro/ Dezembro 2010

Não é mais
proibido proibir
Os governos europeus,
ser condenados a multas de 30 mil euros
descrentes quanto ao e penas de até um ano de prisão. Esse tipo
êxito do multiculturalismo de vestuário não é característico do Islã, de
maneira geral, e sim do Paquistão e do
e com enormes déficits Afeganistão. O uso é ínfimo no norte da
fiscais a enfrentar, África, Oriente Médio e demais regiões de
maioria islâmica.
escolhem como inimigos Essa, no entanto, foi muito mais do
símbolos culturais de que uma questão puramente legislativa.
Combalida após a crise financeira global,
seus imigrantes. com baixo crescimento econômico, que
– segundo estimativas do governo – atin-
Bruno Franco girá 1,5% em 2011, isso mesmo como re-

P
cuperação de um cenário recessivo, e com
ressionados pela crise fiscal a taxa de desemprego em alarmantes 9,7%
e pelo panorama político in- e uma impopular reforma previdenciária
terno adverso, governos eu- em pauta (foi aprovado no dia 22/10 o
ropeus – Bélgica e França à frente – estão aumento da idade mínima para a apo-
inserindo mais um componente polêmico sentadoria, de 60 para 62 anos, a partir
em suas agendas, com a adoção de uma de 2018), a França dividiu a agenda entre
postura de confronto frente ao multicultu- os desafios do ajuste econômico e o con-
ralismo, em especial à presença de valores flito cultural que contrapõe seu governo
e símbolos islâmicos, supostamente in- eurocêntrico e a parcela de sua população
compatíveis com o secularismo ocidental. de origem muçulmana.
O primeiro passo foi dado pelo Parlamen- A retórica empregada pelo governo
to da Bélgica, dia 29 de abril, com a apro- francês exacerbou os supostos riscos cor-
vação de lei que proíbe circular “em locais ridos pela sociedade francesa e seus valo-
públicos com o rosto coberto ou dissimu- res, em função do uso de vestes opressivas
lado total ou parcialmente, de maneira pela minoria das mulheres muçulmanas,
que não seja identificável”. De acordo com que constituem, por sua vez, um segmento
Daniel Bacquelaine, relator da proposta, o minoritário da população da França. “Não
principal alvo da medida são os véus islâ- estamos falando de segurança ou de reli-
micos, como a burca e o niqab. gião, mas de respeito aos nossos princípios
A única exceção para a aplicação da republicanos”, afirmou Michele Alliot-Ma-
lei seriam as festividades permitidas pelas rie, ministra da Justiça. O presidente Nico-
autoridades. As penas previstas para as las Sarkozy, por sua vez, descreveu a burca
infratoras podem ser multas entre 82,50 e como símbolo da subjugação feminina.
137,50 euros, ou de um a sete dias de pri- Mais de 5 milhões de muçulmanos vi-
são para as reincidentes. A lei conquistou vem na França, formando uma das maio-
raro consenso entre as duas comunidades res comunidades islâmicas na Europa. No
linguísticas belgas: flamengos e francófo- entanto, a maioria das muçulmanas fran-
nos, e foi aprovada com apenas duas abs- cesas usa roupas ocidentais ou apenas o
tenções. A medida ainda precisa ser apro- hijab, véu que esconde os cabelos e é sím-
vada pelo Senado. bolo de feminilidade, e não de opressão à
A França seguiu o exemplo belga e mulher. De acordo com a DST (Direction
foi além, com a aprovação quase unânime de La Surveillance Du Territoire – Direção
(apenas um voto contrário), pelos senado- de Vigilância do Território Nacional), há
res, de lei proibindo o uso, em público, da menos de 400 usuárias do niqab em terri-
burca (túnica que cobre todo o corpo da tório francês, a maioria, francesas conver-
mulher, dos pés à cabeça, deixando apenas tidas ao Islã.
os olhos visíveis por trás de uma rede) e do Na avaliação de Mohammed El Hajji,
niqab (semelhante à burca, mas aberta na coordenador do Laboratório de Comuni-
região dos olhos). cação Social Aplicada (Lacosa) e do Pro-
A mulher que violar a lei estará su- grama de Educação Tutorial da Escola de
jeita a multas de 150 euros e poderá ser Comunicação (ECO), tal panorama per-
obrigada a fazer um curso de cidadania mite que os observadores questionem a
francesa. Os homens que as obrigarem pertinência de uma lei tão específica para
a usar as vestimentas proscritas poderão um universo de quase 5 milhões de mu-
7
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Internacional UFRJ

çulmanos. “Fica evidente, pela insignifi- comunidades mais fechadas são obrigadas sadas devem ser objeto de desconfiança, a marginalizada comunidade franco-ar-
cância dos números, que se trata de uma a raspar a cabeça e cobri-la de cabelos sin- alerta Hajji, pois “muitas vezes, o cultura- gelina dos banlieues (subúrbios) de Paris,
ação simbólica contra um ícone contro- téticos)”, critica Hajji. lismo veio apenas para substituir o ideário Marselha e demais metrópoles. Quando
vertido. Não se condena, por exemplo, o racista para manter e sofisticar os mesmos ainda era deputado, o atual presidente
uso de peruca pelas judias ortodoxas, que Crescente islamofobia mecanismos de abominação do outro. A francês referiu-se a esse contingente de
não é menos degradante, ou outras formas De acordo com o professor, há que islamofobia é, justamente, o melhor exem- cidadãos como racaille (ralé). Para Hajji, o
de intolerância com relação às mulheres, se ponderar a interpretação da política do plo dessa discriminação em nome do cul- que esses jovens desejam é que sua origem
mas, sim, especificamente o véu islâmico. governo Sarkozy no contexto maior da is- tural, e não do biológico”. seja esquecida e que possam se integrar à
Ou seja, não se busca condenar a opressão lamofobia crescente e da demonização de Não obstante, o professor não nega sociedade francesa: “O problema e a prio-
do feminino e a negação da feminilidade todo um segmento da população mundial, a natureza retrógrada de certos hábitos ridade deles não são de ordem cultural,
em si (muitas vezes, as mulheres judias das “no afã de agradar ao eleitorado racista de sociais e culturais. “A obrigatoriedade de mas, sim, social e econômica: desemprego,
extrema-direita e desviar os olhares dos ver- cobrir-se ‘as partes’ (conforme a formula- discriminação física, discriminação habi-
dadeiros problemas sociais e políticos que ção teocrática) é, em si, injusta, amoral e tacional, desigualdade de oportunidades,
assolam a França e a Europa em geral”. discriminatória. Considerar o falta de boas escolas e outros equipamen-
Análises culturalistas apres- corpo como algo vil ou fonte tos sociais na periferia onde eles são con-
de ‘pecado’ não deve ser visto finados”.
exclusivamente como traço cul-
tural, mas, sim, e principalmente, enquan- Um ponto em discussão não apenas
to sistema político de opressão do outro”, na França, mas na Europa como um todo,
avalia Mohammed El Hajji. é a integração dos imigrantes e a dupla le-
Ainda assim, a proibição (ou aban- aldade deles e de seus descendentes (em
dono) do véu não significa um desfalque relação à pátria de origem e à nação que
nos modos de construção da identidade os acolheu). Conforme Hajji, a conjuga-
étnica, cultural ou religiosa das francesas ção da globalização midiática, das mi-
de confissão muçulmana – acredita El grações e da exposição de todos os povos
Hajji – na medida em que essa identida- do planeta faz com que o mundo esteja
de ou esse sentimento de pertencimento hibridizado quase em sua totalidade. “As
supera os hábitos vestimentares e os sím- múltiplas lealdades e pluripertencimentos
bolos aparentes. “Lembremos da proibição são a regra, e não a exceção. A anomalia
do chamado ‘lenço corânico’ nos colégios não é o jovem franco-argelino, mas o fran-
franceses. Ao contrário do que se temia, cês que ainda acredita na possibilidade
não ocorreu evasão escolar por parte das de monopertencimentos e lealdades ex-
meninas muçulmanas, mas apenas a ade- clusivas. Ou seja, é a França que está com
quação a uma norma administrativa con- problemas identitários, e não o cidadão
dizente com o discurso laico republicano”, atravessado por uma multiplicidade de
rememora o professor da ECO. quadros simbólicos de identificação e re-
conhecimento”, conclui Hajji.
Política paradoxal
Segundo Hajji, é na Tirando o sofá da sala
concomitante defesa da A França já proibira, anteriormente,
cultura eurocêntrica e da o uso de véus, crucifixos, quipás (solidéu
laicidade (neutra por natu- judaico) e outros símbolos religiosos em
reza) que reside o paradoxo da política edifícios públicos. A aprovação da lei
de Nicolas Sarkozy. “A identidade fran- teve como pronta resposta uma amea-
cesa e europeia em geral (como toda cultu- ça da rede terrorista multinacional al-
ra, aliás) não é algo estático, puro, imutável Qaeda: “Vamos nos vingar da França
ou atemporal. São construtos discursivos e com violência, para honrar nossas fi-
simbólicos frutos do contínuo processo de lhas e irmãs”, prometeu, em comuni-
trocas, empréstimos, traduções e reinter- cado à imprensa, a organização.
pretações. Portanto, a verdadeira realidade O repúdio à burca não é apenas
identitária social e cultural da França é a da uma manifestação do “Choque de
existência do véu e outros hábitos que não Civilizações”, que, segundo o cientis-
correspondem ao clichê ‘gaulois’, mas ta político norte-americano Samuel
que não são menos franceses – neste Huntington, explicita o conflito cul-
sentido que são usos próprios a certos tural entre o Ocidente e o Islã. A Síria
grupos da nação francesa contempo- aprovou, dia 20 de julho, uma lei proi-
rânea”, explica o professor. bindo o uso do niqab nas universida-
Hajji considera que a discussão des do país. Outros países de maioria
acerca do uso do niqab e de outras muçulmana, como Egito e Jordânia,
práticas é legítima, mas que o debate aprovaram leis de teor semelhante. No
seja concebido internamente à dinâ- caso egípcio, a argumentação foi de
mica social e cultural nacional, e não que não haveria base islâmica para o
como um debate entre os franceses uso de tais vestes.
e os outros. “Aí, seria mais efi- Para Hajji, a simples proibição
ciente apostar na forma- equivaleria a “retirar o sofá da sala” e
ção iluminista e educação não atacar o caso de frente. “O proble-
laica do cidadão do que a ma nos países árabes e islâmicos é o
imposição de uma norma atraso social, político e científico,atraso
administrativa pertinente, que acaba reforçando o fanatismo. O que
porém envolvida num dis- os mundos árabe e islâmico precisam é
curso rancoroso”. uma revolução social, cultural e políti-
Rancor é um sentimento recor- ca, não apenas a proibição de um (dentre
rente de Sarkozy frente aos imigrantes muitos) dos símbolos de seu atraso”, avalia
muçulmanos e seus descendentes, como o professor.
8 Jornal da
UFRJ Campus Novembro/ Dezembro 2010

Demolição da Ala Sul:


espaço para novo hospital
Marcada para 19 de dezembro de 2010, a
implosão da ala desocupada do HUCFF impôs
uma delicada operação logística envolvendo a
paralisação temporária das atividades assistenciais
na Cidade Universitária.

Marco Fernandes
Fernando Pedro Lopes e Luciana Campos


A
rigor, o prédio do HUCFF Desenvolvimento, professor Carlos Antô- trada de poeira no local. (Infraero), a Coordenadoria de Operações
caiu. Somente não caiu de nio Levi da Conceição. Segundo Giordano Bruno, um dos só- e Recursos Especiais (Core) e batalhões da
fato porque se escorou no Para efetuar a demolição, a UFRJ rea- cios da empresa Fábio Bruno Construções, Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro
outro prédio. Ninguém é irresponsável lizou licitação da qual participaram quatro uma área de 200 metros de raio em torno (PMERJ), além de Fábio Bruno, engenhei-
ao ponto de brincar com vidas humanas empresas. A vencedora foi a Fábio Bruno do hospital será isolada, o que corresponde ro responsável pela implosão, e membros
numa situação como esta.” Essas foram Construções, que há anos atua no setor e a quatro vezes mais a área de segurança re- dirigentes da comunidade universitária.
as palavras de Pablo Benetti, arquiteto e realizou as implosões do edifício Palace comendada para esse tipo de procedimen- Das reuniões, também participa o tenente-
professor da Faculdade de Arquitetura e II, na Barra da Tijuca, e do presídio da rua to. A Ala Sul do prédio será completamen- coronel bombeiro militar Carlos Aguiar,
Urbanismo (FAU) da UFRJ, presidente do Frei Caneca, no Rio de Janeiro. te coberta com camadas de até quatro telas do Departamento-Geral de Defesa Civil
Comitê Técnico do Plano Diretor 2020 da A primeira etapa da demolição teve de material impermeável, minimizando, do Estado do Rio de Janeiro (DGDEC),
UFRJ, em audiência pública realizada dia início em agosto último, com o desmonte assim, a projeção de fragmentos e poeira que é responsável pela coordenação de
27 de setembro, no Centro de Ciências da manual da área que separa a ala ocupada para outros locais. Estima-se que serão ações conjuntas.
Saúde (CCS), para esclarecer dúvidas so- da não ocupada, a fim de que a implosão gerados, com a demolição, cerca de 50 Dentre as providências mais estudadas
bre o processo de demolição da Ala Sul do não afete estruturalmente a área rema- mil metros cúbicos de entulho ou 125 mil está a adequada segurança para o trans-
Hospital Universitário Clementino Fraga nescente. Para maior segurança, os enge- toneladas de concreto, sendo necessários porte e acondicionamento dos 900 quilos
Filho (HUCFF). Benetti se referiu ao nheiros envolvidos no processo decidiram quatro meses para a sua completa remo- de dinamite que serão empregados na
rompimento de dois pilares da parte não por 20 metros de separação entre os dois ção e cujo destino ainda será definido. demolição dos cerca de 110 mil metros
ocupada do prédio do hospital, dia 21 de blocos, o que reduz a quase zero a taxa de A opção pela implosão também im- quadrados da Ala Sul do HUCFF. Outra
junho, demonstrando o estado de colapso vibração que poderia ocorrer no prédio plica uma série de providências que alte- grande preocupação é com a necessária
daquela construção, o que levou o diretor ocupado durante o procedimento. ram a rotina de funcionamento tanto das interrupção do tráfego da Linha Verme-
da unidade, José Marcus Raso Eulálio, pro- unidades acadêmicas e hospitalares, como lha, prevista para acontecer minutos antes
fessor da Faculdade de Medicina (FM), a Logística para a implosão das vias de circulação terrestre e aérea da e depois da implosão. Ela implicará uma
determinar a paralisação parcial dos aten- Pablo Benetti informa que a energia região. rota especial durante o período para
dimentos prestados na alas ocupadas e a do HUCFF será desligada uma hora antes “Lembra uma operação de guerra”, ob- aqueles que acessam a Ilha do Gover-
Reitoria a optar por demolir a edificação da implosão e o fornecimento de água e serva Hélio de Matos, prefeito da Cidade nador ou dela saem, além de uma arti-
inativa. gás será interrompido. Os outros prédios, Universitária, que, junto com sua equipe, culação com a Infraero para compatibi-
A implosão da Ala Sul do HUCFF está como o do CCS, que fica próximo ao hos- já definiu as ruas que terão seu trânsito in- lizar os horários de voos previstos para
marcada para às 7 horas de domingo, 19 pital, não terão nenhum serviço público terrompido na época da implosão. Hélio a manhã do dia 19 de dezembro.
de dezembro. A escolha da Administração interrompido, o que tranquiliza pesquisa- tem participado ativamente das reuniões
Central da UFRJ por esse procedimento le- dores que mantêm laboratórios no local e preparatórias da implosão, que contam Cronogramas em curso
vou em consideração a segurança da parte necessitam de energia e água para o cultivo com representantes de órgãos públicos Maria Fernanda Quintela, decana
ocupada do prédio e o custo financeiro da de microrganismos, manutenção de bioté- como a Companhia de Engenharia de do CCS, antecipou-se aos possíveis im-
operação, pois a demolição manual da to- rios e conservação de outros ambientes de Tráfego (CET-Rio), a Companhia Esta- pactos sobre o calendário acadêmico
talidade da ala desocupada custaria cinco pesquisa. Como medida de segurança, o dual de Águas e Esgotos (Cedae), a con- das mais de 20 unidades vinculadas ao
vezes mais aos cofres públicos, conforme prédio do CCS será evacuado e o bloco A cessionária de energia Light, a Empresa Centro e planejou, em reuniões com
explicou o pró-reitor de Planejamento e será coberto por telas para diminuir a en- Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária diretores, coordenadores de cursos de
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Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Campus UFRJ

graduação e pós-graduação e repre- minantes, em direção à baía da Guana- das atividades do hospital, prevista para com as direções das unidades hospitalares
sentantes da Pró-reitoria de Gradu- bara. Ainda assim, recomendam-se me- a segunda semana de janeiro de 2011. e a Decania do CCS, um folder explicativo
ação (PR-1), uma forma de ajustar a didas preventivas, como a evacuação do O Instituto de Puericultura e Pedia- que vem sendo distribuído desde o início de
interrupção das atividades acadêmicas, prédio, vedação das janelas, proteção de tria Martagão Gesteira (IPPMG), que novembro nos principais pontos de circula-
a partir de 10 de dezembro, com o ca- equipamentos e instalação de telas im- fica em um raio de 200 metros do perí- ção dessas unidades. Foi também produzi-
lendário institucional. Maria Fernanda permeáveis protetoras de poeira. metro de segurança da implosão, também da, pela Coordenadoria de Comunicação
acompanhou de perto a visita, dia 27 Semelhantes medidas serão adota- estabeleceu cronograma de desativação. In- (CoordCOM) da UFRJ, uma página na
de outubro, do tenente-coronel Carlos das pelo HUCFF, que prevê o encer- terrompe atendimento hospitalar em 3 de Internet que disponibiliza, desde meados
Aguiar, da Defesa Civil, e de membros ramento completo de suas atividades dezembro e retoma a prestação dos serviços de setembro, informações atualizadas, sob
da equipe responsável pela implosão da assistenciais e acadêmicas em 3 de de- em 3 de janeiro de 2011. a forma de matérias, infográficos, respos-
Ala Sul, às instalações laboratoriais e zembro. Até lá, cerca de 100 pacientes tas a dúvidas mais frequentes, fotos, vídeos
salas de aula do CCS. internados já terão sido transferidos  Tirando dúvidas e uma área interativa para a formulação de
De acordo com Aguiar, é pratica- quando necessário  para outras uni- Para orientar os usuários acerca de to- perguntas e posterior conferência das res-
mente zero o risco de abalo do solo. dades hospitalares do Sistema Único das as etapas da implosão e seus efeitos so- postas, vinculada diretamente ao site oficial
Segundo ele, mesmo a poeira deverá de Saúde (SUS), que também acolherá bre o funcionamento dos hospitais, a Reito- do CCS. Visite e tire suas dúvidas em http://
deslocar-se, segundo os ventos predo- novas demandas até a plena retomada ria da UFRJ providenciou, em articulação www.ufrj.br/implosaohu.

HUCFF: 60 anos de projetos e incertezas


Foram precisos 60 anos para que dos, parcialmente, serviços de revestimen- encontravam em novo impasse e incerteza, já abandonada como projeto hospitalar,
uma decisão técnica determinasse pôr to dessas áreas expostas; porém, a vistoria a Medicina avançava a passos largos. Foi praticamente ao relento. A recuperação
fim a uma edificação que já nasceu mar- concluiu que a estrutura “se apresenta em um período de grande desenvolvimento de parcela dessa estrutura vinha sendo
cada pelo exagero e pelo sucessivo des- um estado de regular para bom, havendo, das Ciências da Saúde, impulsionado pela estudada pela atual Reitoria quando o
compasso entre as verbas necessárias e as no entanto, a necessidade de se atacar num introdução no país dos chamados exames rompimento de dois pilares, em 21 de
de fato empregadas na construção. tempo muito breve a reposição da imper- complementares, que auxiliavam os de ana- junho, precipitou a decisão de demoli-la.
Em 1951, já se tem registro dos en- meabilização da cobertura do bloco C (já mnese e físicos através do fornecimento de Diagnóstico revelando as péssimas con-
saios de Engenharia Civil dos primeiros feita e condenada por deixar vazar água e exames de comprovação de diagnósticos e dições da estrutura, realizado pelo
“corpos de prova” dos pilares do então comprometer o cimento da laje do 13º an- tratamento. Com isso, houve grande avan- Instituto Alberto Luiz Coimbra de
Hospital de Clínicas da Universidade do dar), bem como a impermeabilização dos ço nas diversas especialidades médicas, que Pós-graduação e Pesquisa de Enge-
Brasil. Uma grande estrutura de concreto blocos A e B”. exigiram uma reformulação na estrutura, nharia (Coppe) da UFRJ, ainda em
com 220 mil metros quadrados, conce- Ainda em 1967, graças à atuação políti- concebida há quase 30 anos, para adequar o 2007, já assinalava esse desfecho.
bida pelo arquiteto Jorge Machado Mo- ca de diversos atores da universidade que se perfil do edifício às inovações técnicas e no- Para o diretor do HUCFF, José
reira, dentro do projeto executado sob a engajaram, de uma forma mais militante ou vas concepções clínico-hospitalares vigen- Marcus Eulálio, essa demolição é o
responsabilidade do Escritório Técnico mais diplomática, na campanha pela reto- tes na época. Nesta linha, outra comissão, prenúncio de uma importante de-
da Universidade do Brasil (Etub), subor- mada das obras do hospital, o projeto seria instituída em 1974 pelo reitor Hélio Fraga cisão: a construção, no espaço que
dinado inicialmente ao Departamen- finalmente reavaliado. O reitor Raymundo e presidida por Clementino Fraga Filho, fica vago, de um novo hospital uni-
to Administrativo do Serviço Público Moniz de Aragão no- decidiu transformá-lo versitário, que garanta a manutenção
(Dasp), ainda na presidência de Getúlio
Vargas, e que somente em 1964 passaria
meou um grupo para tal
tarefa, encabeçado pelo “Essa demolição em um hospital inte-
grado, ao contrário da
dos cerca de 550 leitos atuais e abra pers-
pectivas para uma gestão médico-hospi-
a ser gerido pela universidade.
Segundo documentos da época, o
vice-reitor, professor Cle-
mentino Fraga Filho, que
é o prenúncio de concepção inicial que
previa a prestação de
talar mais compatível com os avanços no
ensino, na pesquisa e na assistência às ne-
hospital pretendia fornecer 2 mil leitos e em seu livro A Implanta- uma importante diversos serviços in- cessidades de saúde da população. É isso
capacidade de abrigar práticas próprias ção do Hospital Univer- dependentes. que prevê o Plano Diretor do HUCFF
do ensino de diversas especialidades da sitário da UFRJ (1974- decisão: a A inauguração para a década 2011-2020, elaborado
área da Saúde, antiga reivindicação dos 1978) (FUJB, 1990) relata do hospital, em 1º de com a ativa participação do corpo
estudantes de Medicina da então capital que “o assunto mais im- construção, março de 1978, foi social da instituição e em consonân-
federal do país. Entretanto, as preten-
sões iniciais seriam frustradas com a pa-
portante era a projeção
inicial do número de
de um novo marcada pela resistên-
cia do professor Hélio
cia com as diretrizes do Programa
de Reestruturação dos Hospitais
ralisação das obras em 1955, em meio a leitos. Logo se concluiu hospital Fraga de permanecer Universitários Federais (Rehuf) do
um conturbado momento político que pelo exagero, aceitando- no cargo de reitor, por Governo Federal.
dificultava a negociação da universidade se a ocupação da metade universitário.” discordar da decisão Em recente vistoria de técnicos
com o governo por liberação de verbas. da área total da estrutura. de inaugurar o hospi- do Ministério da Saúde, foi reconhe-
Após o suicídio de Vargas, em 1954, o Sugeriram, alguns, a demolição da parte tal ainda inacabado. Coube, então, ao pro- cido que o atual prédio onde funcio-
país entrou em grave crise política que que não seria utilizada. Paulo de Góes, dire- fessor Renato Luiz Caldas, seis meses após a na o HUCFF é de manutenção cara
somente seria abrandada com a posse de tor do Instituto de Microbiologia, defendeu renúncia de seu antecessor e companheiro e pouco apropriado para incorpo-
Juscelino Kubitschek na Presidência em que fosse preservada, com dois argumentos: de administração, ocupar o mais impor- rar sucessivos avanços científicos
1957. a má repercussão do reinício das obras por tante cargo da universidade durante a ceri- e tecnológicos na área. De acordo
Em 30 de maio de 1967, foi encami- uma demolição e a previsão de ampliação mônia. No primeiro dia do HUCFF foram com José Marcus, ficou compro-
nhado à direção do Etub um relatório que as grandes instituições devem fazer”. atendidos 108 pacientes. vado que é mais viável construir
técnico sobre as condições estruturais do Assim, essa comissão estabelecia em Clementino Fraga Filho foi aclamado um novo prédio do que insistir
prédio do Hospital de Clínicas. A edifica- 110 mil metros quadrados da área origi- diretor do HUCFF, em resposta a seu papel em reformas cada vez mais cus-
ção foi vistoriada por uma comissão de nalmente erguida como o espaço onde de liderança frente aos trabalhos de retoma- tosas. Foi com essa filosofia que o HU-
especialistas, sob a supervisão do enge- seria efetivamente implantado o Hospital da das obras e, em seguida, de adaptação CFF reuniu seu corpo social e construiu
nheiro Leon Eizemberg, do Etub, a fim Universitário e decretava, na prática, o sur- da estrutura originalmente erguida para a um Plano Diretor que contempla três
de fazer um diagnóstico sobre a conser- gimento da parte jamais ocupada, que seria nova unidade de saúde, sendo conferido ações básicas. A primeira ação é a de-
vação do concreto armado. apelidada de “perna seca”. Em 22 de janei- seu nome ao Hospital Universitário, em jus- molição da Ala Sul. A segunda trata do
No histórico das obras mencionado ro de 1970, eram finalmente retomadas as ta homenagem, um ano depois de deixar a plano de manutenção do hospital atual
no relatório, registra-se que em 1963 já obras, após um período de 15 anos de qua- direção, na década de 1980. para subsistir enquanto o novo prédio é
se verificavam sinais de deterioração nas se total inatividade. Contudo, em 1972, as Passados 33 anos da inauguração, novos construído. A terceira, depois da cons-
vigas, lajes e pilares, com alguns ferros de obras entraram em ritmo lento e acabaram percalços provocados pela falta de verbas trução do outro prédio, é a transferência
suas armações expostos e recobertos por novamente paralisadas. dificultaram a manutenção da parte ocupa- total das atividades do HUCFF para essa
camadas de ferrugem. Foram realiza- Ao mesmo tempo em que as obras se da e condenaram as estruturas da Ala Sul, nova edificação.
10 Jornal da
UFRJ Direito Autoral Novembro/ Dezembro 2010

Pedro Barreto e Mariana Valle

O
Ministério da Cultura (Minc) deve enviar ao Congresso Nacional, até o final do ano, uma proposta
para revisão da Lei 9.610/98, que versa sobre os Direitos Autorais. O documento contempla pontos
levantados por consulta pública, realizada entre maio e agosto de 2010, disponível na página oficial
do Minc na Internet (www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral), e em encontros promovidos por todo o país. O
objetivo é, considerando as novas ferramentas tecnológicas, democratizar o acesso do cidadão à informação e à
cultura sem, contudo, negligenciar os interesses dos autores.
sociais
Direitose autorais Alguns pontos propostos já suscitam debates pela imprensa. Entre eles, o que permite à Presidência da Repú-
blica conceder licença de uso sem a autorização dos titulares das obras em determinados casos. De acordo com
Joaquim Welley Martins, professor da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ, a proposta prioriza os direitos do
consumidor, em detrimento do autor. “Os aspectos desse licenciamento precisam ficar bem claros. Senão, pode ha-
ver uma grande ingerência quanto aos direitos patrimoniais dos autores”, afirma o docente, que leciona a disciplina
Legislação e Ética em Comunicação.
No entanto, para Sônia Barroso, professora de Direito Civil da Faculdade de Direito (FD) da UFRJ, as mudan-
ças são necessárias, pois a atual legislação restringe o acesso à cultura e à informação. Segundo ela, os principais
beneficiados pela Lei 9.610/98 são os grandes conglomerados editoriais. “Os autores são os últimos a receber, sal-
vo raríssimas exceções, como escritores consagrados nacional e internacionalmente, que podem negociar melhor
os contratos de edição e distribuição. A maioria recebe um percentual mínimo diante da exploração que é feita”,
analisa a especialista, que já foi vítima de má-fé por parte de uma editora, quando foi convidada a participar de
uma publicação coletiva na área do Direito, cujo contrato previa remuneração proporcional sobre os primeiros
mil exemplares. A obra, no entanto, foi reimpressa sem que os autores autorizassem. “Estava em Brasília e vi um
exemplar não autorizado em uma livraria. Depois soube que também foi feita uma edição eletrônica sem que fos-
sem combinados os valores pertinentes. Somente quando fomos buscar uma notificação para possível ação é que
recebemos o que nos era devido”, relata a docente.
Outra medida em andamento no Ministério da Cultura é o Edital de Estímulo à Gestão Coletiva dos Direitos
Autorais. A iniciativa tem como objetivo “fomentar a implementação ou modernização operacional de entidades
de gestão coletiva de direitos autorais” e “promover a redução dos custos operacionais, o aumento na arrecadação
relativa a direitos autorais e distribuição mais justa e eficaz com um significativo impacto na economia da cultura,
em vários segmentos culturais”.
A atuação de órgãos gestores dos direitos autorais, como o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de
Direitos Autorais (Ecad), é contestada principalmente por aqueles que deveriam ser beneficiados pela arrecadação:
os autores. Sônia Barroso relata o caso de um compositor que, certa vez, durante apresentação pública, foi interpe-
lado por um fiscal do Ecad pelo não pagamento da taxa devida à entidade, referente à execução de suas próprias
músicas. “O artista disse que abriria mão dos direitos autorais, no que o agente replicou que ele poderia abrir mão
de receber, mas não poderia deixar de pagar”, recorda. “Como se pode abrir mão dos direitos sem que se verifique
o destino dos recursos? A questão da burocracia em torno do direito autoral perdeu o direcionamento inicial que
era beneficiar o próprio autor”, completa a especialista.
Outra crítica da docente em relação à Lei 9.610/98 é o tempo definido para que a família detenha os direitos
conexos do autor, após sua morte, antes que as obras sejam definidas como “domínio público”. A proposta enviada
ao Congresso sugere a redução dos atuais 70 para 50 anos de exploração por parte dos herdeiros ou outros bene-
ficiários. Sônia Barroso explica que a Convenção da União de Berna, na Suíça, que reúne 163 países, sugere essa
diminuição. No entanto, segundo ela, a tendência mundial é pela manutenção do prazo de 70 anos. “Para explorar
patrimonialmente os direitos de autor, alguns herdeiros negam o acesso a publicações que poderiam ser atualiza-
das.” Este é o caso das obras de Carvalho de Mendonça e Pontes de Miranda, que estão na biblioteca da Faculdade
de Direito. “Nós gostaríamos de atualizar o acervo, mas os detentores dos direitos de exploração patrimonial não
permitem que isso aconteça”, informa a professora, para quem o confronto, nesse caso, “é entre o direito à infor-

João Rezende
11
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Direito Autoral UFRJ

Marco Fernandes
mação e a chamada propriedade absolu- tivo, que é quem nos interessa atingir”,
ta ao direito da exploração patrimonial. afirma a dirigente.
Nossa Constituição fala em função so- Um exemplo de como harmonizar
cial da propriedade. Ora, a propriedade conteúdo digital e direitos autorais vem
intelectual não é uma propriedade?”. da Espanha. Fernanda Ribeiro informa
que o governo daquele país assumiu,
Conteúdos digitais recentemente, a responsabilidade por
Licenças de conteúdo digital como 70% dos custos de digitalização de todo
o Creative Commons e o Copy Left já o acervo da Biblioteca Nacional espa-
se propõem democratizar o acesso do nhola. Dessa forma, o leitor poderá
grande público a obras outrora restritas optar pela consulta física do exem-
à exploração comercial. A primeira per- plar; pela compra do livro na edição
mite que o autor compartilhe suas obras, digital, parcial ou integralmente; ou
ao mesmo tempo em que as protege, de pela aquisição da obra impressa dire-
acordo com os limites estabelecidos pelo tamente da editora ou em uma livra-
próprio. No segundo caso, o autor reti- ria da preferência do consumidor. “O
ra as barreiras que limitam a utilização, leitor tem essa liberdade de escolher
difusão e, inclusive, a modificação das o meio eletrônico ou não. Isso tudo
obras por parte de terceiros. é feito através do site da biblioteca.
A última edição da tradicional Feira Assim, ninguém tem prejuízo: nem os
do Livro de Frankfurt, na Alemanha, livreiros, nem a editora e nem o autor.
realizada no início de outubro, contou Acho que isso é fantástico e que tam-
com um grande número de lançamentos bém pode ser uma tendência aqui no
em versões virtuais. Dispositivos como o Sandra Barroso: “Como se pode abrir mão dos direitos sem que se verifique o destino dos recursos?” Brasil”, analisa a diretora.
Kindle e o iPad prometem, um dia, subs-
tituir os livros em papel. “Sem dúvida,
no formato digital, o livro fica mais bara-
Ação sem nenhum respaldo legal
to do ponto de vista da produção. Mas a na Escola de Serviço Social
margem de lucro também diminui. Nos
Estados Unidos, as vendas de e-books O dia 13 de setembro de 2010 reito (FD) da UFRJ. “A ação não teve das no exterior e não disponíveis
já são significativas. Aqui, ainda não”, poderá não ser rapidamente esque- nenhum respaldo legal”, afirma a espe- no mercado nacional; III – Obras
analisa Paulo Pires, professor da ECO. cido pela comunidade da Escola cialista. Segundo ela, qualquer injun- de domínio público; e IV – Obras
Apesar das vantagens comerciais, Pires de Serviço Social (ESS) da UFRJ. ção em área federal deve passar, obri- nas quais conste expressa autoriza-
não acredita que as novas plataformas Na ocasião, agentes da Polícia Civil gatoriamente, pelo Tribunal Regional ção para reprodução”. Finalmente,
sejam capazes de criar maior interesse entraram no campus da Praia Ver- Federal, para que o juiz conceda um o artigo 3º permite aos docentes da
pela leitura. “O que ajuda a conquistar melha, se encaminharam ao setor mandado de busca e apreensão. Além UFRJ “disponibilizar para reprodu-
novos leitores é uma educação melhor de fotocópias da escola e apreen- disso, completa a professora, “os agen- ção material destinado às discipli-
e mais consistente. Essa é a política do deram grande volume de material tes agiram motivados por uma denún- nas que ministram”. A mesma ses-
livro de verdade”, afirma o docente, que acadêmico. De acordo com Mavi cia anônima. Ora, lugar de denúncia é são do Consuni aprovou ainda uma
ministra a disciplina Livros e Novas Rodrigues, diretora da unidade, no Ministério Público! Se a polícia ti- carta enviada ao governador Sérgio
Tecnologias. foram levados 13 livros originais, vesse uma notícia-crime a respeito de Cabral Filho solicitando a devolu-
Fred Góes, professor da Faculdade parte do acervo não apenas do Ser- alguma situação irregular, deveria ter ção do material apreendido. Já no
de Letras (FL) da UFRJ, autor de li- viço Social, como também de outras encaminhado à Direção da ESS, à De- dia 27 de outubro, a vice-reitora
vros como Brasil, mostra a sua máscara unidades da Praia Vermelha. “Ha- cania do Centro de Filosofia e Ciências Sylvia Vargas, na função de reitora
(Língua Geral, 2007), Antes do furacão via mais de 200 pastas de docentes, Humanas (CFCH) ou à Reitoria, que em exercício, reiterou o documento
(Língua Geral, 2008) e O poço de Cam- bibliografias dos cursos, recortes cumpriria os trâmites administrativos. e encaminhou o pedido à Secreta-
paná (Língua Geral, 2010), e compositor de jornal, entre outros materiais, Por todas essas razões, não é possível ria de Estado de Segurança Pública,
de mais de 40 canções em parceria com que estavam ali atendendo uma de- justificar a ação”. Mavi Rodrigues afir- para que sejam dados os encami-
Moraes Moreira, Zeca Barreto, Toni manda dos próprios professores”, ma que não foi informada pela Divisão nhamentos devidos.
Costa, entre outros, considera os direitos relata Mavi, que diz que os agentes de Segurança (Diseg) da entrada dos Para Sônia Barroso, a resolução
autorais “inalienáveis”. O docente admite não portavam mandado de busca e agentes no campus. “Fui informada da é importante, pois fornece respaldo
até mesmo disponibilizar suas obras na apreensão. chegada da polícia quando eles já es- legal a todas as unidades da UFRJ.
Internet, mas sem abrir mão, contudo, Mavi Rodrigues classifica como tavam dentro. Se tivesse sido avisada, “No caso de outra situação seme-
da remuneração devida. Além disso, “canhestra” a interpretação da lei, não teria autorizado o ingresso dos po- lhante, as pessoas poderão apresen-
para ele, o papel do editor – que tende a tanto por parte da polícia quanto liciais”, recorda a diretora. tar um documento, elaborado por
ter o espaço reduzido com o crescimen- da Associação Brasileira de Direitos A partir do episódio, o Conselho um conselho, portanto, um órgão
to dos livros eletrônicos – é fundamental Reprográficos (ABDR). “Para eles, Universitário (Consuni) aprovou, ratificado pela instituição, e assina-
no processo de publicação. “Sem eles, eu qualquer atividade de cópia para no dia 23 de setembro, a Resolução do pelo reitor”, avalia a especialista
não teria conseguido lançar um livro se- fins de lucro é passível de ser cri- 19/2010, que regulamenta a reprodu- em Direito Civil. Mavi Rodrigues
quer”, avalia o autor, acreditando que o minalizada”, afirma. Além do ma- ção de livros, revistas científicas e peri- também elogia a iniciativa da Reito-
crescimento dos e-books é a tendência terial apreendido, Henrique Papa, ódicos em todas as dependências e ór- ria. “A resolução é a resposta a uma
natural do mercado, mas não crendo no permissionário do serviço de foto- gãos da UFRJ. Em seu artigo 1º, o do- visão obtusa e atende a uma solici-
fim dos livros, como profetizam alguns cópias na unidade, foi detido e indi- cumento autoriza “a reprodução, sem tação da ESS, equivalente ao que
analistas. “Eu jamais conseguiria viver ciado por “crime contra os direitos finalidade lucrativa, em cópias repro- já foi feito na Universidade de São
sem os meus ácaros”, brinca Fred Góes. autorais” e “desacato à autoridade”. gráficas de trechos, como capítulos de Paulo (USP)”, destaca a diretora. No
Fernanda Ribeiro, diretora-executiva Papa está sendo assistido por pro- livros e artigos de periódicos e revistas entanto, Mavi acredita que outras
da Editora UFRJ, afirma que a UFRJ já fessores da Faculdade de Direito, científicas mediante solicitação indivi- medidas ainda devam ser tomadas.
estuda o processo de digitalização de que tentam, junto ao Ministério dual e para uso próprio do solicitante”. “Acho que a universidade tem que se
seus livros para democratizar o aces- Público, que a denúncia da Polícia Além disso, o artigo 2º permite as fo- envolver mais na revisão da Lei dos
so do público às obras. “Nós já temos Civil não seja acatada. tocópias de livros do acervo da UFRJ Direitos Autorais, que tem caráter
o compromisso de vender mais barato. A operação é duramente critica- nas seguintes categorias: “I – Obras comercial. A universidade tem que
Fazemos doações a bibliotecas e damos da por Sônia Barroso, professora de esgotadas sem republicação há mais brigar por sua autonomia”, argu-
descontos de 50% para que o livro che- Direito Penal da Faculdade de Di- de dez (10) anos; II – Obras publica- menta a professora.
gue ao público de menor poder aquisi-
12 Jornal da
UFRJ Cidade Novembro/ Dezembro 2010

Criação de Rede de Observatórios de Conflitos Urbanos a partir de experiência inovadora do Ippur da UFRJ permitirá
mapeamento das desigualdades sociais e regionais em diversas cidades do Brasil. Dados levantados poderão subsidiar
políticas públicas e fornecer ferramenta extraordinária para estudos urbanos comparados.
Coryntho Baldez

O
sonho autoritário de uma Hoje, o Observatório de Conflitos tória, além de Belo Horizonte. Difun- cia. Para outros, é como se defender do
cidade harmoniosa e obe- Urbanos possui dados georreferencia- dindo-se com extrema rapidez, a Rede bandido”, opina Carlos Vainer.
diente vem sendo posto à dos, disponibilizados online, que re- de Observatórios está prestes a fincar Ele também cita como exemplo a
prova, nos últimos anos, pelo Obser- velam quem reivindica o quê e como raízes em Belém, Salvador, Curitiba, noção de espaço público para os ca-
vatório Permanente de Conflitos Ur- em diferentes regiões da cidade. A Porto Alegre, Campos e Uberlândia. melôs – que veem a rua como local
banos na Cidade do Rio de Janeiro, do Segurança Pública, por exemplo, é o “Também estabelecemos contatos in- de trabalho – e os moradores da Zona
Instituto de Pesquisa e Planejamento objeto de conflito mais incidente no ternacionais e o Observatório já existe Sul, para os quais ela é apenas local
Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ. Observatório, com 710 registros, ou em Buenos Aires (Argentina) e está de moradia ou lazer. Em bairros mais
O seu rico acervo de dados, com cerca seja, 36,5% de um total de 1.946, entre em vias de ser implantado em Medelín abastados, predomina a ideia de cercar
de 2 mil conflitos registrados no Rio de 1993 e julho de 2010. O mapeamento (Colômbia), La Paz (Bolívia) e, talvez, praças para que não sejam frequenta-
Janeiro, desde 1993, não apenas aplica da vida na cidade, pela ótica dos con- Miami (EUA), Joannesburgo (África das por mendigos ou tomadas pelos
um choque de realidade em visões de flitos sociais, transformou-o em ferra- do Sul) e Atenas (Grécia)”, informa camelôs.
Estado que nutrem a ideia de pacificar menta potencial para a formulação de Carlos Vainer, especialista em Desen- As técnicas de planejamento ado-
a cidade – com o uso da violência, se políticas públicas – um dos seus obje- volvimento Econômico e Social pela tadas nas últimas décadas fecharam os
for preciso – como permite estudá-la a tivos principais, como uma iniciativa Université Paris 1. olhos a essas con-
partir de uma ótica inovadora. ligada à Extensão –, mas também em Recentemen- “A ‘polis’ tradições sociais e
“A ideia não é conhecer os conflitos fonte para a pesquisa universitária. Já te, em agosto
sempre se regionais presen-

insurgiu
para evitá-los. Há uma visão de que existem dissertações, monografias e passado, foi rea- tes no espaço ur-
conflitos sinalizam uma patologia da trabalhos de iniciação científica elabo- lizada, no Rio, a bano e buscaram
cidade. Digo o contrário. O conflito é rados na UFRJ que utilizaram sua base primeira reunião contra a harmonizá-las ar-
uma manifestação da vitalidade do es-
paço social. Uma cidade sem conflitos
de dados. da rede, com 30
participantes de ‘city’, tificialmente, ou
mesmo anulá-las
é uma cidade morta”, explica Carlos Rede de observatórios várias cidades. desde o pelo uso da for-
Vainer, professor-titular e coordena- O êxito da experiência no Rio de Inicialmente, o
surgimento ça. Para Vainer,

das
dor do Observatório – criado no âm- Janeiro atraiu a atenção de estudiosos Ippur cedeu o a utopia de uma
bito do Laboratório Estado, Trabalho, de várias cidades do Brasil e fez surgir software gratuita- cidade pacificada
Território e Natureza, do Ippur, com o um projeto ainda mais ambicioso: a mente às outras primeiras tem duas verten-

cidades.”
apoio da Comissão de Assuntos Urba- criação de uma Rede de Observatórios instituições que tes. Uma, de viés
nos da Câmara de Vereadores do Rio de Conflitos Urbanos. Por iniciativa criaram observa- autoritário, tem
de Janeiro. O Observatório dá conti- de pesquisadores da Universidade Fe- tórios – a maioria como objetivo re-
nuidade ao Projeto Mapa dos Confli- deral de Minas Gerias (UFMG), Belo formada por universidades públicas – mover o conflito por meio da repres-
tos Urbanos, que cobriu o período de Horizonte passou a ser a segunda ca- e agora lançará um novo e moderno são. A outra pretende refrear a organi-
1993 a 2003, tendo como fontes de pital a abrigar um Observatório de layout, mais rico em ferramentas de zação de sujeitos coletivos por atos de
pesquisa três jornais diários – O Dia, Conflitos Urbanos. Hoje, já existem consulta. violência simbólica. “Se o Rio quer ser
Jornal do Brasil e O Globo – e os arqui- unidades em funcionamento em For- Segundo Vainer, a conflituosidade uma cidade olímpica, não pode apa-
vos do Ministério Público Estadual. taleza, Maceió, Recife, São Paulo e Vi- urbana é uma maneira de entender a recer como cidade conflituosa. É pre-
cidade e, com o mapeamento dos con- ciso produzir determinada imagem e
flitos em duas ou mais, será possível o agente do conflito passa a ser visto
criar um instrumento extraordinário como traidor da pátria”, exemplifica o
de estudos comparados urbanos, tanto pesquisador.
no plano nacional como internacional.
“Polis” versus “city”
Cidades desiguais A ideia da cidade harmônica,
Uma das principais contribuições portanto, não constituiria senão um
do Observatório, segundo o professor mito que esconde a verdade acerca
do Ippur, é a produção de uma carto- da cidade. De acordo com o profes-
grafia da conflituosidade urbana, que sor do Ippur, a conflituosidade si-
fornece importante ferramenta de lei- naliza a diversidade da cidade – “o
tura das desigualdades na cidade. “Os que é algo bom” – e denuncia a desi-
conflitos na Zona Sul ou no asfalto que gualdade urbana, porque nem todos
envolvem a Segurança Pública têm por promovem manifestações ou ações
alvo os criminosos. De outro lado, a de protesto pelos mesmos motivos.
maioria dos conflitos nas favelas tem Vainer afirma que a cidade não é ho-
por alvo a polícia. Em tese, todos es- mogênea e sua organização espacial
tariam lutando pela melhoria da Segu- projeta sobre o território urbano as
rança Pública, mas o que é Segurança desigualdades sociais. “Há uma divi-
Pública, para cada grupo, é diferente. são socioespacial do território. Por-
Para Carlos Vainer, o conflito entre a “polis” e a “city” é constitutivo da vida urbana. Para uns, é como se defender da polí- tanto, analisando o mapa dos confli-
13
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Cidade UFRJ

tos, é possível visualizar os problemas ceção. Ou seja, todas as regras valem em instrumento de luta de agentes co- todas as capitais brasileiras e em cida-
de diferentes grupos sociais e como desde que sejam para assegurar o bom letivos, e não em instrumento de po- des com mais de 500 mil habitantes. E
eles se manifestam”, resume o especia- andamento dos negócios. Por exem- der do Estado sobre as cidades”, afirma se, de fato, a “polis” sempre se insur-
lista. plo, define-se que o gabarito em deter- Vainer. giu contra a “city”, desde o surgimento
Para enfrentar as tensões e os pro- minado bairro é 10, mas, como o in- Uma grande aliada do planejamen- das primeiras cidades – como sustenta
blemas urbanos, durante a ditadura corporador imobiliário quer gabarito to conflitual será a expansão da Rede Vainer –, não faltarão conflitos para
militar, imperava a ideia de planeja- 20, cria-se uma lei de exceção para de Observatórios – e de sua metodo- alimentar o trabalho da rede e subsi-
mento tecnocrático, formatado em contemplar os interesses do capital logia –, cuja ambiciosa meta é estar diar políticas públicas de novo tipo.
gabinetes hermeticamente fechados imobiliário. Em outubro, por exem- presente, até o ano que vem, em
a qualquer influência da sociedade. plo, a Câmara Municipal aprovou
Hoje, segundo Carlos Vainer, o que uma série de isenções de impostos
predomina é o chamado planejamen- para, supostamente, facilitar proje-
to estratégico para o negócio. “Essa é tos que interessam à realização
a cidade-mercadoria, onde o conflito é das Olimpíadas de 2016.
uma ameaça ao lucro e a ‘city’ domina “No caso do Rio, temos
a ‘polis’. Na concepção que defende- uma cidade de exceção
mos, a cidade é o espaço da cidadania, nos territórios pobres,
que se insurge e surge como sujeito da nos quais não há lei, ou
cidade, onde a ‘polis’ domina a ‘city’. onde vale a lei do mais forte.
Não estou propondo ainda o fim do E também temos uma cida-
mercado, mas que a cidadania se so- de de exceção nas chama-
breponha ao mercado, e não o contrá- das áreas nobres, porque
rio”, sustenta o docente. nelas também vale a lei
O planejamento dos tempos atuais, do mais forte, enten-
segundo Vainer, propõe flexibilidade dido não como aquele
para aproveitar as oportunidades de que possui mais armas,
negócio. Se uma determinada regra mas como o que
está impedindo o negócio de um ca- possui mais capi-
pitalista, põe-se então a regra de lado tal. Tem-se, então,
– ou se “flexibiliza a regra” – para que a duplicidade da
não se perca a oportunidade de negó- cidade de exceção,
cio. que, num caso e nou-
Segundo ele, o conflito entre a tro, é a destruição da
“polis” e a “city” é um processo cons- possibilidade da ci-
titutivo da vida urbana. O problema dade como espaço
– acrescenta – é quando a ideia de público da política,
cidade-negócio, que deve ser dirigida da ação coletiva dos
como empresa, se sobrepõe e esmaga cidadãos visando ao interes-
a política, em seu sentido mais pleno, se público”, completa Carlos
e despolitiza o espaço urbano, como Vainer.
acontece hoje. “Por essa visão, a cidade Em contraposição às visões
deixa de ser um espaço de políticas pú- tradicionais, o pesquisador
blicas para ser um espaço de gestão de aponta a difusão e a conso-
negócios”, destaca o professor. lidação da ideia de planeja-
mento conflitual. “Nele, o
Cidade de exceção conflito deve ser visto como
A cidade na qual a política não tem algo virtuoso. É um planeja-
lugar, para Vainer, é uma cidade de ex- mento que pode se transformar

Na Jornada de Iniciação Cien- sões e assassinatos. O restante dos con- De acordo com a análise de Pau- As graduandas da UFRJ desta-
tífica, Artística e Cultural Júlio flitos (6,2%) teve origem em denúncias la Gralato Santos e Renata Nogueira cam que a arbitrariedade das ações
Massarani de 2010, da UFRJ, as de ineficiência da polícia. Martins, existe uma padronização da Polícia Militar vem transferin-
estudantes Paula Gralato Santos Quanto às regiões da cidade, as es- nas respostas dadas pela Polícia Mi- do, ao longo dos anos, a decisão do
(graduanda em Geografia) e Rena- tudantes verificaram que 63% dos litar quando questionada a respeito uso da força do Estado para o pró-
ta Nogueira Martins (graduanda conflitos que tinham como alvo a dos conflitos. Se os mortos ou feridos prio policial. Segundo elas, arrai-
em Ciências Sociais) apresentaram PMERJ se deram na Zona Norte, são crianças, mulheres ou idosos, na gou-se na sociedade o pensamento
um trabalho – com base nos da- 15% na Zona Sul, 14% na Zona Oes- maior parte das vezes a polícia alega de que as políticas de segurança
dos levantados pelo Observatório te e 7% na Zona Central. Os que ti- que os tiros foram disparados por tra- mudam de perspectiva de acordo
de Conflitos Urbanos – intitulado veram alguma favela como origem ficantes. Mas quando as vítimas são com os setores sociais aos quais
“Como a população carioca se ma- somaram expressivos 86%, enquan- jovens e adultos do sexo masculino, a são dirigidas.
nifestou contra a Polícia Militar to apenas 14% se originaram no as- polícia justifica a ação como “autos de Em relação aos setores mais
nos últimos 15 anos”. falto. resistência” e acusa as vítimas de serem abastados, concluem as estudan-
Com a leitura de relatos de 325 Chamou a atenção das bolsistas traficantes, segundo o relato das estu- tes, predominam cobranças de
conflitos que reclamavam de ações do Observatório o fato de que a gran- dantes. propinas e ações que passam longe
da Polícia Militar, elas constataram de maioria protestava contra agres- Em vários casos, elas observaram de qualquer punição aos transgres-
que a absoluta maioria (93,8%) de- sões e assassinatos cometidos por uma contrarresposta da população que sores. Aos menos favorecidos eco-
nunciava o excesso de repressão po- membros da PMERJ em incursões presenciou a ação policial, que busca nomicamente, estão reservadas as
licial. Havia reclamações por abuso em favelas. Os relatos apontam 385 reunir provas da inocência das vítimas medidas violentas e repressoras, na
de poder, cobrança de propinas, homicídios e 113 feridos que seriam ao mostrar boletos de faculdade, car- maioria das vezes não perceptíveis
roubos, injúrias, estupros, agres- resultantes de ações da Polícia Militar. teira de trabalho e outras referências. aos olhos do resto da população.
14 Jornal da
UFRJ Especial Novembro/ Dezembro 2010

Parte II
Qual UFRJ
queremos ser?

Luiz Carlos Maranhão

N
esta segunda rodada de conversas organizadas pelo
Jornal da UFRJ para discutir o futuro da instituição, são
raros os pontos de convergência entre os entrevistados.
Os professores Ericksson Rocha e Almendra, da Escola Politécnica
(Poli), Maria Fernanda dos Santos Quintela, do Instituto de
Biologia (IB), Ricardo Silva Kubrusly, do Instituto de Matemática
(IM), e Roberto Leher, da Faculdade de Educação (FE), apresentam
abordagens distintas acerca da agenda de temas controversos postos
à mesa quando se discute a UFRJ. O Programa de Apoio a Planos
de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni)
está no centro deste debate que envolve, entre outros assuntos,
a democratização do acesso à universidade e as relações com o
mundo mercantil.
15
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Especial UFRJ

Professor-adjunto e diretor da Ericksson Rocha e Almendra


Escola Politécnica (Poli), Ericksson

“Democratismo
Rocha e Almendra aponta a
existência de um “democratismo
estapafúrdio” que dificulta a
tomada de decisão na UFRJ. O
professor cita o debate sobre
a transferência de unidades da
Praia Vermelha. “Uma decisão
tomada há décadas e ainda
continuamos discutindo o
assunto”, critica.
estapafúrdio”
Rocha e Almendra aponta
riscos na implantação do
sistema de cotas sociais e diz
não ver qualquer heresia no
fato de a universidade dispor
sua competência a serviço de
empresas privadas. “Todos os
setores da universidade podem
prestar serviços. Há uma mística
de que isso é somente na
área da Tecnologia”, afirma o
professor.

Jornal da UFRJ: Que perspectivas o Reuni


abriu para o futuro da UFRJ?
Ericksson Almendra: Eu enxergo o Reuni
como um mecanismo de financiamento
de determinadas políticas governamentais.
Certamente que ele significou uma guina-
da. Houve significativo aporte de recursos
vinculados, sobretudo, ao aumento de va-
gas. O que é positivo, porque há carência
de mão de obra qualificada no Brasil. Au-
mentou a quantidade de dinheiro que veio
vinculada a metas essenciais, com as quais
eu concordo.

Jornal da UFRJ: Aumento de vagas e quali-


dade de ensino podem andar juntos?
Ericksson Almendra: Qualidade e quan-
tidade não se opõem. O fato de nas dé-
cadas de 1960 e 1970 ter havido uma ex-
pansão dos ensinos Fundamental e Médio
com a deterioração da qualidade leva as
pessoas a avaliar que isso sempre acontece.
Não é verdade. Exemplo típico é a minha
unidade, que há mais de 10 anos cresce a
uma média de 5% ao ano em número de
vagas, e continuamos sendo bem avalia-
dos. A Engenharia da UFRJ é a melhor
do Brasil. As pessoas, quando querem ser
contra, têm enorme tendência a apresentar
argumentos falaciosos.

Jornal da UFRJ: Foi correta a instituição de


cotas sociais na política de acesso à UFRJ?
Ericksson Almendra: Eu avalio que deve-
mos introduzir as cotas sociais. Mas acho
também que a decisão da UFRJ em fazer
mudança no vestibular, inclusive com as
cotas sociais, representa um risco muito
grande, risco que a universidade resolveu
correr.
Setembro/Outubro 2010 Especial
Jornal da
UFR J 16

Jornal da UFRJ: Qual é o risco? grande demais, com estruturas muito ve- Ericksson Rocha Almendra: O problema é que aqui na Politécnica, na Coppe, você
Ericksson Almendra: Hoje nós conhece- lhas, e, sem dinheiro, digamos assim, essas é discutir o que vem a ser exatamente Ex- pode aceitar as demandas, mas a institui-
mos nossos estudantes. Sabemos que tipo estruturas ficaram empedradas. Então há tensão. Há várias maneiras de definir. Ex- ção tem que saber e aprovar. Então o Erick-
de aluno o vestibular vai nos entregar. Isso uma dificuldade enorme de tomada de tensão é colocar as competências existen- son pode dar palestra? Pode. Pode ganhar
permite nos adaptarmos a esse aluno. O decisão. Há  a enorme tendência de demo- tes na universidade a serviço da sociedade. dinheiro? Pode. Só que, antes de qualquer
que virá no ano que vem vai ser uma novi- cratismo estapafúrdio. Vamos supor que a Companhia Vale do coisa, a instituição tem que saber e aprovar.
dade. Não são necessariamente estudantes Rio Doce esteja construindo seis ou sete O dinheiro não vai para o meu bolso, vai
piores, mas de qualidade diferente. E isso Jornal da UFRJ: Como assim? portos no mundo afora. Então nos contra- para a fundação. A instituição vai retirar,
significa que a universidade deve se adap- Ericksson Almendra: Toda vez que se ta para dar um curso específico de espe- no mínimo, 33% do que estava no projeto. 
tar a esses. E não fazemos isso com boa toma decisão se quer retomar a discussão. cialização em Engenharia para uma turma É norma da casa. Se você ganhar dinheiro,
velocidade. Acho que a forma a que che- Um exemplo típico é a vinda de unidades fechada. É correto a universidade não co- a instituição tem que ganhar mais do que
gamos de reserva de vagas tem um lado da Praia Vermelha para a Cidade Univer- brar esse curso? E se cobrar, não é Exten- você. Eu incentivo, eu controlo, eu tenho
extremamente positivo e um que acho sitária. Essa decisão foi tomada há décadas, são? Ora, é a competência da universidade recursos adicionais. E socialmente é mais
errado. quando se decidiu construir a Cidade Uni- posta a serviço de uma empresa brasileira. correto.
versitária na Ilha do Fundão. No entanto, Aí dizem: “Mas é uma empresa”. Sim, mas
Jornal da UFRJ: O que foi positivo? nós não apenas tomamos a decisão de vir por acaso a empresa não é um ente social, Jornal da UFRJ: Há hipertrofia na presen-
Ericksson Almendra: Extremamente po- para cá, como continuamos discutindo o que gera renda, paga salários? Tem lucro. ça da UFRJ no campus da Cidade Univer-
sitivo foi escolher a escola pública. Porque assunto de dois em dois anos, de três em Mas aí vamos discutir a legislação que sitária?
cota apenas tem sentido se for para resol- três anos. Essa discussão já deveria estar controla isso. Outra forma de Extensão Ericksson Almendra: Todo mundo faz
ver um problema: a qualidade da escola encerrada. Ela já está tomada, no meu en- é colocar nossos alunos para fazer obras um discurso de que a universidade tem
pública. A forma correta de resolver e, tender. O que tem que ser discutido são as sociais na favela carente. Isso é valioso que servir ao meio em que vive, à socie-
sobretudo, democrática, é dizer pra todos condições para vir. Mas não usar isso para para eles. É formação. As empresas estão dade em que está inserida. Para o bem ou
que a escola pública é um problema e por atrapalhar a vinda. querendo pessoas com para o mal o Rio de Janeiro tem petróleo.
isso que as cotas têm que existir. capacidade de entre- Se fosse ouro, seria a “Ourobras”. Isso não
Jornal da UFRJ: Onde há democratismo? ga. São dois mode- é necessariamente ruim. Mas é claro que
Jornal da UFRJ: Quais, então, as suas res- Ericksson Almendra: los completamente eu tenho que ter as minhas preocupações.
trições? Um exemplo: anuncia- distintos. Eu posso ter Eu fiz agora um esforço danado para trazer
Ericksson Almendra: Agora, a maneira se que um tema vai A carreira críticas para um e para para o Parque Tecnológico uma empresa
de aplicar as cotas eu acho que tem que ser ser discutido no Con- outro. Não se deve cair não ligada diretamente ao petróleo, a Usi-
aperfeiçoada. E baseado em simples ques- suni. Pede-se reunião do professor no erro fácil de que uma minas. Isso é positivo. Livrei a universida-
tão: se um aluno vem da melhor escola da de departamento, de Extensão é  correta e ou- de do petróleo? Coisa nenhuma. A empre-
cidade e outro de uma pequena escola pú- congregação, de centro. universitário tem tra é errada. sa veio aqui e vai pesquisar aço para a in-
blica do subúrbio, e os dois tiveram a nota Mesmo que as reuniões dústria do pré-sal. Temos que fazer esforço
sete, o melhor aluno é certamente o cara aconteçam, pouca gente como primeira Jornal da UFRJ: Existem para trazer empresas de outros setores.
que estudou na pior escola. Então daremos participa. Aí o Consuni críticas radicais contra
um bônus a ele. Acrescente-se determina- decide. Surge a crítica atribuição cursos pagos na UFRJ. Jornal da UFRJ: A contrapartida da em-
da quantidade de pontos à nota que ele ti- de que o assunto não foi Ericksson Almendra: presa está à altura?
rou. Eu acho que esse sistema é mais justo, bem discutido e se pede dar aula na Minha opinião: o ensino Ericksson Almendra: Diz-se que a Petro-
permite que se faça ajuste de ano a ano, o nova discussão. Isso deve ser gratuito, sim, bras não beneficia as áreas de Letras e de
que é mais difícil com a reserva automática atrapalha. E as pessoas graduação. é um investimento e o Ciências Humanas. Que privilegia a área
de vagas. cedem à pressão em Brasil está carente nisso. tecnológica. E eu sou obrigado a concor-
nome da democra- O que o Brasil fez de pior dar. Mas dizer que não beneficia outras
Jornal da UFRJ: E o Exame Nacional do cia. Essa é  a crítica na sua história foi a Educação. Agora, eu áreas é cegueira.
Ensino Médio (Enem) é caminho adequa- aos nossos dirigen- acho que o curso para a Vale tem que ser
do? tes. Temos que dar cobrado. Não vou dar curso para a Coca- Jornal da UFRJ: Como o senhoravalia a
Ericksson Almendra: O vestibular é um um basta nisso. Tomar a decisão e implan- Cola, para a Mercedes-Benz de graça. articulação entre a graduação e pós-gradu-
horror. Enem, em tese, é um mecanismo tar a decisão. ação?
interessante. Um grande exame nacional. Jornal da UFRJ: É necessário instituciona- Ericksson Almendra: Na década de 1950
A implantação foi feita de forma atabalho- Jornal da UFRJ: A estrutura de departa- lizar a relação da UFRJ com o mercado e a o governo criou duas agências, a Coor-
ada, tardiamente, quase no fim de governo, mentos é ruim? relação de pesquisadores com as empresas? denação de Aperfeiçoamento de Pessoal
comprometeu a credibilidade do sistema. Ericksson Almendra: Eu conheço aqui na Ericksson Almendra: A forma da insti- de Nível Superior (Capes) e o Conselho
UFRJ departamentos que funcionam, não tucionalização já existe. São as fundações Nacional de Desenvolvimento Científico
Jornal da UFRJ: Voltando ao Reuni: uma são barreiras para integração com outras universitárias. Essas fundações são criti- e Tecnológico (CNPq), e elas sobrevive-
das críticas é a de que a universidade não áreas, sem burocracia. O meu departa- cadas por setores da sociedade e da uni- ram 60 anos a todo tipo de governo. O
teria se preparado para receber esse pro- mento, o de Metalurgia e Materiais, não versidade. Curiosamente todos os setores resultado é essa extraordinária produção
grama. O Plano de Reestruturação e Ex- tem regimento. As pessoas simplesmente da universidade podem prestar serviços científica crescente. Consequência drás-
pansão (PRE) não teria respondido a isso? se respeitam. O departamento se resolve para empresas. Há uma mística de que tica: desbalanceou a relação graduação/
Ericksson Almendra: Eu acho que a críti- porque as pessoas se encontram no cafe- isso se dá somente na área da Tecnologia, pós-graduação. Como 90% da produção
ca correta não é essa. Certamente, se com- zinho, têm reuniões periódicas, vida social somente na Engenharia. O fato é que qual- universitária são relacionados à pós-gra-
pararmos a velocidade das obras que estão intensa. Mas ele é sólido, institucional, tem quer competência existente é demandada duação, criou-se a mística de que o im-
sendo realizadas aqui com a velocidade das excelente nota na Coordenação de Aper- em maior ou menor grau pela sociedade. portante é a pós-graduação. Eu não estou
obras que estão sendo realizadas em outras feiçoamento de Pessoal de Nível Superior Professor de Filosofia é convidado para criticando. Agora, professor que se dedica
universidades, vamos verificar que a UFRJ (Capes), faz e acontece. Não é que eu esteja palestras e – acontece cada vez mais – es- à graduação tem muito menos possibili-
está começando muito tarde. Ela poderia defendendo, mas quando é para falar das tabelecimentos pagam por isso. Empresas dade de prestígio do que o que se dedica
ter aproveitado melhor o Reuni. Isso é mazelas da universidade sempre se come- demandam estudos de Linguística, na área à pós-graduação. Mas quero frisar que
verdade. Eu acho que a origem da crítica é ça pelos departamentos. de Comunicação, de Psicologia, de Recur- eu não acho que deva haver professor de
essa constatação. Agora, o diagnóstico está sos Humanos, trabalhos são encomenda- graduação e pós-graduação. A carreira do
errado. Eu não acho que a UFRJ não tenha Jornal da UFRJ: A política de Extensão dos de tudo o que é lado. Trabalhos são fei- professor universitário tem como primeira
se preparado. O problema é que a UFRJ é atende às necessidades atuais? tos de forma não institucional. A diferença atribuição dar aula na graduação.
17
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Especial UFRJ

A professora Maria Fernanda Maria Fernanda dos Santos Quintela


dos Santos Quintela, ex-diretora

Enem deve ser


e professora do Instituto de
Biologia (IB) da UFRJ, afirma
que o maior desafio do Plano
de Reestruturação e Expansão
(PRE) é garantir a expansão
da UFRJ com qualidade.
Maria Fernanda, que assumiu
recentemente a Decania
do Centro de Ciências da
Saúde (CCS), defende o
consolidado
Programa de Apoio a Planos
de Reestruturação e Expansão
das Universidades Federais
(Reuni), embora considere que
a forma como o programa “foi
induzido pelo governo” não
tenha sido a mais democrática.
A professora, que também
apoia as cotas sociais, diz que
a democratização do acesso
à universidade deve levar em
conta a ocupação de vagas
ociosas. A decana do CCS
considera o vestibular “um
processo perverso e elitista” e
acha que o Exame Nacional
do Ensino Médio (Enem) deve
ser consolidado.

Jornal da UFRJ: O Plano de Reestrutura-


ção e Expansão (PRE) é instrumento ade-
quado para preparar a UFRJ para o futuro?
Maria Fernanda Quintela: Acredito que
sim. O plano permite a discussão ampla
e aberta acerca do planejamento estraté-
gico da universidade. Uma das maiores
questões dessa discussão é o crescimento
da universidade com qualidade, que con-
sidero como o seu maior desafio. Para
isso é necessário envolver a comunidade
acadêmica em torno dessa ideia e ampliar
a discussão de forma que cada segmento
assuma as responsabilidades em suas com-
petências e atribuições. Há necessidade de
um planejamento estratégico, um plano de
ações de curto, médio e longo prazos, além
de uma modernização da gestão.

Jornal da UFRJ: Há críticas que identifi-


cam no Reuni interferência nas decisões da
universidade. São corretas?
Maria Fernanda Quintela: Eu apoio o
Reuni. Considero que a forma como foi
induzido pelo governo não foi a mais de-
mocrática, mas a adesão ao programa era
voluntária. No CCS a participação de vá-
rias unidades acadêmicas foi forte e com
propostas que já vinham sendo construí-
das com discussões antes do Reuni. No en-
tanto, na UFRJ, esse processo foi discutido
amplamente, houve discussões nas unida-
18 Jornal da
UFRJ Especial Novembro/ Dezembro 2010

des, nas bases e aprovação nos colegiados consolidar como um processo de acesso a Maria Fernanda Quintela: Não conside- texto em que se insere, devendo considerar
superiores. Não foi uma discussão fácil, todas as universidades. Em primeiro lugar ro, pelo menos nos cursos de licenciatura as grandes questões nacionais e internacio-
mas o resultado foi positivo e atualmente quero fazer um elogio aos colegas que ao do CCS. A procura continua alta e a maio- nais do presente e do futuro. Assim, tem
temos que aperfeiçoar as ações propostas, longo dos anos têm trabalhado com o ves- ria dos estudantes que se graduam no ba- que contribuir para a tomada de decisões e
para que possamos avançar no processo. tibular na UFRJ, dando contribuição valio- charelado solicita reingresso para curso de preparar os jovens para enfrentar os gran-
Não considerei que houve interferência di- síssima. No entanto, sou contra o tipo de licenciatura. O que ocorre é um desprestí- des desafios que estão se delineando para o
reta nas decisões das universidades. Hou- acesso que é realizado pelo vestibular, que gio da carreira de professor, que não tem futuro. Existem várias formas de a univer-
ve uma indução, assim como outras que considero um processo perverso e elitista. sido valorizado por sucessivos governos sidade se relacionar com o setor privado, e
acontecem com editais na área de Pesquisa nos diferentes âmbitos de poder. estas devem ser normatizadas nos diferen-
e Extensão. Jornal da UFRJ: A estrutura departamen- tes fóruns de discussão e de decisão.
tal é obsoleta? Jornal da UFRJ: Como melhor aproximar
Jornal da UFRJ: A expansão de vagas, nas Maria Fernanda Quintela: Acho que essa a graduação da pós-graduação? Jornal da UFRJ: Há críticas em relação à
condições atuais, poderá comprometer a estrutura foi importante na estruturação Maria Fernanda Quintela: Uma das for- exuberância física da Petrobras na Cidade
qualidade do ensino? organizacional da universidade em deter- mas de integração entre a pós-graduação e Universitária.
Maria Fernanda Quintela: O aumento de minada época, mas atualmente acredito a graduação já praticada na universidade é Maria Fernanda Quintela: A relação
vagas para estudantes na UFRJ tem que vir que seu papel se esgotou. Os docentes e a participação de alunos de graduação em da UFRJ com a Petrobras no campus da
acompanhado de várias medidas de gestão pesquisadores devem se organizar de acor- iniciação científica nos laboratórios, inse- Cidade Universitária é antiga e data da
e de aporte de novos recursos financeiros do com as áreas de interesse, e devem ter a ridos em projetos de pesquisa, nos quais década de 1970. Mas recentemente a uni-
que permitam a velocidade da gestão, a liberdade de escolha em diferentes perío- mestrandos e doutorandos desenvolvem versidade, em seus conselhos superiores,
modernização das salas de aulas, labora- dos de sua vida acadêmica. suas dissertações ou teses. Esse convívio discutiu e aprovou a ocupação da área ce-
tórios de aulas práticas, equipamentos e entre os diferentes estudantes e a integra- dida anteriormente e a contrapartida da
laboratórios de pesquisa. Há necessidade Jornal da UFRJ: A transferência de unida- ção nas discussões nos projetos facilitam a Petrobras para a UFRJ. A exuberância do
da melhoria da infraestrutura como um des da Praia Vermelha para a Cidade Uni- integração entre os dois níveis de ensino. projeto do Centro de Pesquisas e Desen-
todo e das condições de trabalho. Há ne- versitária é relevante para a integração da Ao mesmo tempo, alu- volvimento Leopoldo Américo Miguez de
cessidade da capacitação dos servidores UFRJ? nos de pós-gradua- Mello (Cenpes) na Cidade Universitária
técnico-administrativos em Educação de Maria Fernanda Quintela: Concordo ção podem ser envol- contrasta com a infraestrutura projetada
apoio e técnicos mais especializados, as- com a transferência das unidades da Praia vidos nas atividades na década de 1960 pelo governo federal
sim como de realização de concursos para Vermelha e do centro de ensino de graduação, para instalar a UFRJ. Essa infraestrutura
técnicos mais qualificados. Há também a da cidade para o cam- Sou contra o tipo através de programas de durante todo esse período sofreu com a
necessidade de consolidação de uma po- pus da Cidade Univer- tutoria, o que lhes dá a falta de recursos financeiros para aplicar
lítica moderna de Tecnologia da Informa- sitária. A permanência de acesso que é possibilidade de ganhar na sua conservação e modernização. O
ção. Aos estudantes, deve ser assegurada de todos em um único experiência pedagógica projeto do Cenpes reflete a grandiosidade
uma política de assistência e permanência campus poderia nos realizado pelo no ensino de graduação. da Petrobras.
estudantil. facilitar o convívio e a Em algumas unidades
integração, em especial vestibular, que existem disciplinas co- Jornal da UFRJ: Qual é a sua opinião sobre
Jornal da UFRJ: Como a senhora avalia as em relação aos estudan- muns entre graduação e a existência de cursos pagos na UFRJ?
políticas afirmativas? tes, proporcionando considero um pós-graduação. Esse tipo Maria Fernanda Quintela: Existem cur-
Maria Fernanda Quintela: Sou a favor das uma vida universitária de iniciativa permite de- sos pagos em várias unidades da UFRJ,
cotas sociais. Em relação às cotas raciais, mais rica e integrada. processo perverso bates e discussões mais geralmente cursos de especialização lato
tenho postura contrária, porque acredito No entanto, algumas amplas e com maior pro- sensu e cursos ditos de Extensão Universi-
que no Brasil a questão não é racial, mas questões de logística e elitista. fundidade em relação a tária (atualização, capacitação, treinamen-
social. No entanto, após a discussão no são importantes e pos- determinados assuntos. to etc.). Considero tais cursos como ativi-
Conselho Universitário (Consuni) e ou- so dar alguns exem- dades de Educação Continuada que não
vindo com atenção o discurso do professor plos: ligação rápida Jornal da UFRJ: Os professores deveriam são o objetivo primordial da UFRJ, mas
Marcelo Paixão, tenho refletido acerca do e efetiva entre os ser obrigados a dar aulas na graduação e na acredito que a universidade deve dar essa
assunto e procurado conhecer mais pro- diferentes prédios pós-graduação? contribuição à sociedade. Assim, não vejo
fundamente os argumentos, para poder no campus, ligação através dos meios de Maria Fernanda Quintela: Considero problema na questão do pagamento des-
entender melhor essa questão complexa. transporte de massa com a cidade do Rio importante a participação de todos os do- sas atividades por empresas, por grupos
Acho que uma forma de contribuir para a de Janeiro para que a circulação da comu- centes no ensino de graduação, dando sua de profissionais, entidades de classe, e ain-
democratização do acesso à universidade nidade acadêmica ocorra de forma rápida contribuição para a formação da maioria da por pessoas que estão interessadas no
é a implantação de uma política efetiva de e segura. dos estudantes da universidade. Na pós- seu desenvolvimento pessoal. O que deve
ocupação das vagas ociosas, o fortaleci- graduação, desde que o docente tenha a ser discutido é a forma como o pagamen-
mento de mecanismos que interfiram na Jornal da UFRJ: O Plano Diretor UFRJ qualificação exigida para os programas, to ocorre, qual a aplicação dos recursos
melhoria da qualidade do Ensino Médio 2020 é adequado? ele deverá também contribuir. Existem al- oriundos dos cursos e quais os percentuais
e a consolidação da política de assistência Maria Fernanda Quintela: Sim. O projeto guns casos excepcionais em que o docente destinados a unidades e laboratórios en-
e permanência estudantil. Na questão dos está bem estruturado e pode ser moderni- tem qualificação muito específica e dife- volvidos e à manutenção da infraestrutu-
mecanismos a serem implementados para zado ao longo do tempo com avaliações renciada e sua participação se torna funda- ra. A questão deve ser regulamentada pela
o fortalecimento do Ensino Médio, o papel periódicas. Tais avaliações devem ter a mental em determinado programa de pós- UFRJ. Acredito que um dos pontos impor-
da Extensão Universitária se coloca pre- participação da comunidade universitária graduação; desta forma, poderá diminuir tantes da discussão é a existência de um
ponderante com a participação ativa dos e levar em conta as questões ambientais no a sua participação no ensino de graduação. percentual das vagas sem pagamento para
estudantes da universidade. gerenciamento dos resíduos, conservação Porém, não concordo com a ausência des- alunos e técnico-administrativos em Edu-
de energia, reúso de água e utilização de ses docentes nos cursos de graduação. cação da UFRJ. O que ocorre atualmente é
Jornal da UFRJ: O Enem é o caminho? energia limpa. Há necessidade de planejar que muitos desses cursos são importantes
Qual é a sua opinião sobre o vestibular? áreas de paisagismo que tornem o campus Jornal da UFRJ: Qual deve ser o relaciona- na complementação da formação de nos-
Maria Fernanda Quintela: Eu sou a favor mais agradável para aqueles que o fre- mento entre a UFRJ e as empresas privadas? sos estudantes para o mercado de trabalho
do Enem, mas é um sistema que preci- quentam todos os dias. Ela deveria levar mais em consideração o e para atualização e treinamento de nossos
sa de avaliação efetiva e de modificações mercado na formação de seus estudantes? servidores técnico-administrativos, e mui-
fundamentais na logística, além de moni- Jornal da UFRJ: A licenciatura está des- Maria Fernanda Quintela: A UFRJ não tas vezes eles não podem fazer esses cursos
toramento acadêmico, para que se possa prestigiada? pode ficar isolada da sociedade e do con- oferecidos devido ao custo.
19
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Especial UFRJ

Professor-adjunto do Instituto Ricardo Silva Kubrusly


de Matemática da UFRJ,

Banir cursos
Ricardo Silva Kubrusly defende
a extinção do Conselho de
Ensino de Graduação (CEG)
e do Conselho de Ensino para
Graduados (CEPG). “Eles têm
uma intencionalidade que é
perversa”. Critica a hegemonia
do pesquisador “senhor dos
acontecimentos na universidade”,
no ambiente de distorção que
pagos
faz surgir a figura do professor
que não gosta de estudante.
Iconoclasta, Kubrusly relata uma
história acerca de cursos pagos
na UFRJ: “Fui coordenador de
Extensão e o que me aparecia
de curso pago dizendo que era
de Extensão não era brincadeira.
Eu dizia (ao professor): isso é
extensão do seu bolso”.

Jornal da UFRJ: O Programa de Apoio a


Planos de Reestruturação e Expansão das
Universidades Federais (Reuni), que deu
base ao Plano de Reestruturação e Expan-
são (PRE), atende às necessidades de um
horizonte estratégico para a UFRJ?
Ricardo Kubrusly: O Reuni tem coisas
boas e ruins. Mas a forma como ele acon-
teceu nas universidades foi muito intem-
pestiva. Ou as universidades tinham que
se filiar às ideias do Reuni ou então seriam
banidas de certa ajuda paternalista que vi-
ria lá do Ministério da Educação. E a ma-
neira como foi discutido aqui foi o pior dos
caminhos, com participações truculentas e
com pouca voz aos estudantes.

Jornal da UFRJ: O que o senhor destaca


como positivo no programa?
Ricardo Kubrusly: A tentativa de uni-
versalizar a universidade é vista com bons
olhos, claro. Por mim. Por muitos não. Por
muitos a universidade é vista como coisa
elitista, separada do que venha a ser ca-
racterizado como massa. O que acho mais
complicado nesse processo é a falta de par-
ticipação dos estudantes. A universidade
tem que entender que é fundamental a
participação dos estudantes.

Jornal da UFRJ: Quais são os gargalos que


a universidade deve superar?
Ricardo Kubrusly: Uma das coisas que na
universidade eu acho mais gritante é essa
proposição de Ensino, Pesquisa e Extensão
como estamentos iguais, com o mesmo
valor, e a prática mostrar que Pesquisa, En-
sino e Extensão têm um valor “estamentá-
rio” nessa ordem. Você tem o pesquisador,
que é o senhor de todos os acontecimen-
tos. Que ganha, além dos seus salários,
20 Jornal da
UFRJ Especial Novembro/ Dezembro 2010

algumas inserções financeiras pelos proje- muito equivocada, em alguns casos. Uma formação de professores não está sendo Não é o cara que quer entender o mun-
tos, aos quais se acopla a todos. E se acopla universidade que tem medo do novo. E privilegiada. do. A universidade vira uma espécie de
por interesses pessoais, mesquinhos, sem olha que eu participo de um programa que trampolim para entrar nas empresas.
nenhum amor, quer seja à Ciência, quer é novo, interdisciplinar, que tem enorme Jornal da UFRJ: A licenciatura perdeu seu
seja à Nação. Supondo que não houvesse apoio da Reitoria, à qual eu sou muito gra- lugar social? Jornal da UFRJ: Esse tipo de cultura
mais Extensão, Pesquisa e Ensino, o sujeito to. Agora, uma coisa é a ideia das pessoas; Ricardo Kubrusly: Olha, o prestígio está afasta o professor da sala de aula?
que está aqui na universidade, professor, outra é essa massa que se move inercial- nos pesquisadores, que durante a ditadura Ricardo Kubrusly: Nós temos o profes-
estudante ou técnico-administrativo, está mente. Esse é que é o problema. saíram do Brasil para criar uma estrutu- sor que não gosta de aluno, é feito um
operando com esse trinômio. Ou isso não ra científica, entre os quais eu me incluo. padre que não gosta de rezar, um médico
é uma universidade. Sem mudanças efeti- Jornal da UFRJ: A estrutura de departa- Nunca tivemos tantas bolsas como no que detesta diagnóstico. Em alguns ca-
vas, avalio que os nossos caminhos serão mentos é um entrave? A burocracia atrapa- tempo da ditadura, e lutávamos contra ela. sos, aula se transforma em punição. Não
paliativos e que não nos levarão a bons re- lha? E isso - eu não estou elogiando - surge de acredito que dentro de uma universida-
sultados. Ricardo Kubrusly: Isso não me preocupa um plano que passa pela vontade de um de o ensino seja uma punição.
muito. A burocracia tem que existir. Os país diferente do que a gente deseja. E hoje
Jornal da UFRJ: E o que nos leva a essas burocratas são pessoas normais, preci- temos essas pessoas dominando a pes- Jornal da UFRJ: No Plano Diretor UFRJ
dificuldades? sam de emprego, merecem viver, às vezes quisa no Brasil e dominando em todas 2020, a transferência de unidades para a
Ricardo Kubrusly: A universidade agora até beijam bem. Sou contra o império da as universidades. Porque uma universi- Cidade Universitária é polêmica.
é toda gerida por edital. É edital para isso, burocracia, que vende facilidades, criando dade é valorizada apenas pelas pesquisas Ricardo Kubrusly: Eu acho que é uma
edital para aquilo. Primeiro, que o edital dificuldades para valorizar o seu produto. de ponta que está fazendo. E uma pes- bobagem o sujeito não querer sair da
privilegia quem já tem. É igual financia- Quero dizer que, quando ataco as diretri- quisa somente é considerada de ponta Praia Vermelha. Agora, acho também
mento de banco, que é para beneficiar zes da universidade, não estou atacando quando os caras que estão lá em cima que a universidade não deveria tirar os
quem já tem. O edital é democrático? Eu as pessoas. Agora vejo que a universidade dizem se esta é ou não uma pesquisa de cursos de onde eles estão. Deveria criar
não vejo muita democracia, não. Eu acho vai numa direção precária, de se acomo- ponta. E isso cria um jogo de perversão outros cursos. Por exemplo: tem a Filo-
que a universidade tinha que ter coragem dar. E nisso eu acho que a UFRJ é muito completamente absurdo. sofia lá no Centro; deixa a Filosofia lá,
de pensar os problemas brasileiros e esta- semelhante ao governo federal brasileiro. cria outra Filosofia aqui. Isso acontece
belecer metas de pesquisas a serem reali- A gente elegeu o Lula há alguns anos e nós Jornal da UFRJ: O em várias universidades na França. Nós
zadas, e distribuísse esses editais para to- esperávamos grandes mudanças, e tudo que deve ser feito temos o Instituto de Filosofia e Ciências
dos, e não para aqueles que tivessem uma isso ficou num estado meio lamentável. E com os cursos pagos Sociais (Ifcs) fazendo Antropologia e
secretaria mais bem organizada, mas que agora tivemos essa elei- da UFRJ? temos o Museu Nacional também fa-
atendesse quem está alijado do sistema e, ção presidencial que é a Nós temos o Ricardo Kubrusly: zendo Antropologia em pós-graduação.
por isso, despojado de outros interesses. mais sem graça que nós Deveriam ser bani- Agora, tirar de lá para vender o prédio à
já vivemos. E vamos ter professor que não dos. E são muitos. E às Petrobras, isso não é uma boa atitude. Já
Jornal da UFRJ: O senhor defende a extin- eleições para a Reitoria; vezes há alguns com venderam quase o campus todo para a
ção do CEG e do CEPG? pelo andar da carru- gosta de aluno, é título de Extensão. empresa.
Ricardo Kubrusly: Nós teríamos que aca- agem, vai no mesmo Eu fui coordenador
bar com essas instâncias. Não seria o caso rumo, sem proposta de feito um padre que de Extensão e o que Jornal da UFRJ: O senhor tem críticas
de o Conselho Universitário (Consuni) grandes mudanças. me aparecia de cur- sobre a Petrobras na Cidade Universitá-
simplesmente substituí-los, mas que se não gosta de rezar, so pago dizendo que ria?
criasse somente um colegiado. Não tenho Jornal da UFRJ: No era de Extensão não é Ricardo Kubrusly: Acho que nem bom-
a fórmula. Não é que o CEG e o CEPG se- esforço para democra- um médico que brincadeira. Eu dizia: ba resolve isso. Nós devíamos botar a
jam obsoletos, o que dá ideia de que eles tizar o acesso à UFRJ isso não é Extensão. Petrobras para fora daqui. A Petrobras
passaram no tempo. É que eles têm uma contamos, agora, com detesta diagnóstico. Isso é extensão de seu deixou de ser uma aliada de nossas
intencionalidade que é perversa. Eles estão as cotas sociais. Qual a bolso. É uma coisa de pesquisas e passou a ser um patrão de
vivos e empurram a universidade para o sua opinião? louco. Já passou aqui nossos pensamentos. Essa hipertrofia
lugar que não é o melhor. O CEG se fecha Ricardo Kubrusly: no sábado? É cheio de cursos funcionan- da Petrobras é humilhante para os pro-
com posições corporativistas de um grupo Se você tirar uma do. Existem telefones de ramal da uni- fessores da UFRJ. Interfere nas linhas
e o CEPG fica pensando como uma uni- fotografia da Cidade versidade para os quais você liga e aten- de pesquisa. Interfere na nossa vontade
versidade norte-americana. Aqui, grande Universitária e do seu de alguém dizendo que é da empresa tal de ter uma universidade. Porque nós
parte de nossos pesquisadores não vive no entorno, verá uma ilha branca num mun- funcionando aqui dentro. No Instituto temos uma universidade atravessada
Brasil, não tem noção de Brasil, fala e es- do preto. Isso tem que ser mudado. Então, Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação por empresas que têm interesses que
creve apenas em inglês. Eles somente con- cotas são um caminho que vai mudar isso. e Pesquisa de Engenharia (Coppe) há não são os da UFRJ. Os interesses da
versam internacionalmente porque plan- Temos que botar mais cor aqui dentro, e várias. universidade não podem ser tão direta-
taram dentro de si uma ideia de ciência isso é bom. Por outro lado, qualquer solu- mente influenciados pelas empresas que
internacionalista que não existe, porque ção que passe por um conceito de raça, ou Jornal da UFRJ: Há problemas nas rela- estão aqui.
os problemas são regionais. O resultado de cor, faz ressurgir o conceito de racismo, ções de pesquisadores da UFRJ com em-
dessa mentalidade é que não se encaram porque o racismo é que inventa raça. Eu presas privadas? Jornal da UFRJ: As relações entre a gra-
os problemas regionais porque às vezes não sei se esse é bem o caminho. Talvez o Ricardo Kubrusly: Isso é muito ruim duação e a pós-graduação podem ser me-
passamos a encarar problemas que são de melhor fosse mobilizar o país para que as porque você cria várias categorias de lhoradas na UFRJ?
países que estão construindo aceleradores escolas públicas, nos seus graus inferiores, professores. Você tem, por um lado, Ricardo Kubrusly: Eu acho que não
de partículas. Mas nós, antes de construir- fossem realmente de qualidade. Tem que aquele professor que é grande cientista e deveriam existir graduação e pós-gra-
mos aceleradores de partículas, temos que ser feita alguma coisa, e está sendo feita al- tem benesses via projetos, via bolsas de duação. Eu sou coordenador de uma
construir rede de esgotos, coisas mais bási- guma coisa. Vamos aplaudir. No entanto, pesquisa. E temos outros, aqueles que pós-graduação e afirmo que essa que eu
cas, mais baratas e com mais futuro para a acho que se poderia fazer mais e diferen- são os mais espertos, que conseguem dirijo deveria estar integrada à gradua-
nossa realidade. te. Fazer com que o jovem que chegasse à se embrenhar no mundo empresarial e ção e ser outra coisa. É mais uma “disci-
universidade não fosse diferenciado por recebem também. Então, a universidade plinarização”: o aluno de pós-graduação,
Jornal da UFRJ: Temos, então, uma agen- classe social. Nem que para isso fosse ne- passa a ser um ponto de partida para ele o aluno de graduação, de doutorado, o
da de pesquisa conservadora e equivocada? cessário acabar com o ensino privado. O se dar bem saindo dela, e não entrando professor pós-doc no exterior. Você cria
Ricardo Kubrusly: Temos uma univer- ensino privado é meio medieval mesmo. nela. Aí é criado um professor universi- uma hierarquização que existe apenas para
sidade conservadora e com uma agenda Agora, precisamos formar professores. A tário que não tem a essência de professor. perpetuar benesses.
21
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Especial UFRJ

O professor Roberto Leher, da Roberto Leher

Discutir o futuro
Faculdade de Educação da
UFRJ, é cáustico em suas críticas
ao Reuni: “É um contrato de
gestão” que exacerba a perda
de autonomia da universidade.
Suas baterias também se voltam
contra o Plano Diretor UFRJ
da UFRJ é um
desconforto
2020, que, segundo ele, se
sustenta na interdisciplinaridade
pós-moderna, “que é um vale-
tudo”. Roberto Leher acusa
a existência de grupos de
excelência que atuam movidos
pelos interesses “particularistas”
de empresas privadas. “Para
esses, discutir o futuro da UFRJ
é um desconforto.” O professor
lança mão de uma sigla fictícia,
a “Petroufrj”, para traduzir suas
restrições às relações entre UFRJ
e Petrobras.

Jornal da UFRJ: o Programa de Apoio a


Planos de Reestruturação e Expansão das
Universidades Federais (Reuni) comprome-
te a autonomia da UFRJ?
Roberto Leher: A autonomia da univer-
sidade em geral e da UFRJ, em particular,
nunca se materializou. A Constituição de
1988 representou um avanço importan-
te ao definir que a universidade é uma
instituição autônoma, sem remeter esse
conceito a qualquer legislação infracons-
titucional. Mas a correlação de forças na
década de 1990 submeteu a universida-
de ao Estado e, sobretudo, aos governos.
O Reuni é a exacerbação dessa perda de
autonomia. É um contrato de gestão na
medida em que submete a liberação de re-
cursos ao cumprimento de determinadas
metas. Isso é a base do contrato de gestão
do Bresser Pereira (ministro do governo
FHC 1995-2002).

Jornal da UFRJ: Quais metas?


Roberto Leher: Metas como taxa de
conclusão de 90%. Algo que inexiste no
mundo, mesmo em países com assistên-
cia estudantil e condições de vida muitos
melhores dos estudantes. Mas o pior é a
correlação entre estudantes e professores.
Nós passaríamos do patamar de 1 para
11, como existe atualmente, para o pata-
mar de 1 para 18. Isso não quer dizer que
cada professor tenha hoje 11 alunos. Isso
é uma média na qual se leva em conside-
ração vários fatores, com diversas variáveis
em jogo. Mas, para você ter uma ideia, 1
para 18 hoje é a mesma taxa que existe nos
colégios de Ensino Médio da rede pública
estadual e nas piores instituições privadas.

Jornal da UFRJ: Qual seria o impacto des-


sa medida?
22 Jornal da
UFRJ Especial Novembro/ Dezembro 2010

Roberto Leher: O Reuni tem como pres- particular. Creio que nenhuma outra ins- abandonou a perspectiva do universalis- vez mais da mediação da Lei de Inovação
suposto uma mudança no parâmetro no tituição realizou tanto concurso quanto a mo. Ela pode atender jovens pobres que Tecnológica. Isso feito através de funda-
trabalho docente. Ou seja, a universida- UFRJ, o que mostra o peso dela no sistema conseguem concluir o Ensino Médio, ções privadas, em espaços não coletivos.
de pública passa a ter como balizador da federal. sobreviventes. Criamos uma regra que Só que é de se indagar se muitos desses
relação professor/aluno a mesma taxa da vai democratizar aquela ponta. Mas e o grupos ainda têm características universi-
universidade com “c”, da Estácio, da Gama Jornal da UFRJ: Existe a crítica de que restante? Os milhões de jovens que não tárias. Daí alguns professores começarem
Filho, da Uniban, das instituições com fins UFRJ não se preparou para aproveitar me- concluem o Ensino Médio, a gente finge a se perguntar: qual o sentido de dar aula.
lucrativos. O resultado disso é aproximar lhor os recursos do Reuni. que não viu? A política de cotas não tem Qual o controle social sobre as fundações
a universidade brasileira de um modelo Roberto Leher: Por causa do sucateamen- nenhum nexo com a Educação Básica e privadas? Quando se levantam esses pro-
massificado que já está em curso na Eu- to resultante da falta de recursos, as univer- com mecanismos que permitam estru- blemas, o debate é evitado. Para os nichos
ropa neoliberal e em algumas instituições sidades perderam a capacidade de projetar turalmente assegurar que uma parte dos vinculados aos processos de Inovação Tec-
dos Estados Unidos. Esse modelo vai des- o futuro. Tanto é verdade que, no caso da jovens das camadas populares aumente nológica ou particularistas de determina-
locar as poucas universidades públicas no UFRJ, os modestos recursos do Reuni não paulatinamente a sua formação no Ensino das empresas, discutir publicamente o fu-
Brasil – vale lembrar que 89% das institui- foram inteiramente aplicados. Você olha Médio e na Educação Superior. turo da UFRJ, o seu modelo de expansão, é
ções de Ensino Superior no Brasil são pri- para o campus, excetuando a Petrobras, um desconforto.
vadas – para um modelo massificado, uma não há obras. A grande obra foi o Res- Jornal da UFRJ: A universidade poderia
temeridade. taurante Universitário, pra lá de modesto. ter algum papel nessa direção? Jornal da UFRJ: O senhor tem críticas ao
De fato, o que nós estamos fazendo é criar Roberto Leher: Na universidade de Cha- Plano Diretor UFRJ 2020?
Jornal da UFRJ: No plano estratégico, quais vagas. Mas pensar o futuro não é somente pingo, no Sul do México, em vez de cotas, Roberto Leher: O Plano Diretor se susten-
as consequências? pensar os prédios, é pensar o que a gente os professores da universidade passaram a ta na interdisciplinaridade pós-moderna,
Roberto Leher: Estamos abrindo mão do vai fazer com eles, o sentido da expansão atuar em algumas escolas que eles chamam que é um vale-tudo. Quer reunir Ciências
conceito de que a universidade pública é da universidade. E temos um cenário pre- de preparatórias, nas quais, em alguns casos, Contábeis com Educação. Esse plano não
uma instituição estratégica para o processo ocupante para o futuro. Vamos entrar no o estudante entra por sorteio. Quem entra tem um projeto estratégico que diga qual
de Nação. É ela que pode estudar e anteci- governo da Dilma Rousseff com constran- nessas escolas vai para a é o futuro das Ciências Sociais e Huma-
par problemas com autonomia, protegida gimentos enormes. Nada garante que o universidade sem vesti- nas na UFRJ. Qual é o nosso sonho aqui
dos interesses mercantis. dinheiro vai continuar vindo. No governo bular. A vantagem disso, na Praia Vermelha? Nós poderíamos ter
FHC houve expansão, entre outras, é a estrutu- excelentes mestrados e doutorados inter-
Jornal da UFRJ: Ampliação de vagas e pre- mas faltaram recursos. Mas pensar o ração da Educação Bási- disciplinares. Hoje, quanta gente do Ser-
juízo na qualidade do ensino é uma falsa ca na região. viço Social, pensando a questão social,
questão? Jornal da UFRJ: Uma futuro não é quer entender melhor a problemática da
Roberto Leher: Qual a razão de não po- expansão de vagas? Jornal da UFRJ: Há Educação, e vice-versa? O Plano Diretor
dermos ampliá-las mantendo um padrão Como assim? somente pensar os hierarquização excessi- foi se organizando mais por um impera-
de qualidade, de espaço para produção de Roberto Leher: Uma va na UFRJ? tivo pragmático. Quanto dinheiro tem?
conhecimento novo, engajado num pro- expansão enorme de prédios, é pensar Roberto Leher: Pri- O que dá para transferir? Eu não quero
jeto de Nação democrática? Hoje o Brasil vagas. É que os reito- meiro criou-se um que a Educação seja uma área técnica de
gasta 4% do Produto Interno Bruto (PIB) res fizeram um pacto o que a gente vai sistema de hierarquia serviço. Reivindico a Educação com uma
com educação pública, índice dramatica- para expandir as vagas, entre professores, entre dimensão da formação humana que esta-
mente baixo. A Organização das Nações mas a contrapartida de fazer com eles. centros, entre institu- mos investigando. É a formação humana
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cul- investimentos nunca tos. Esses mecanismos imbricada com as questões social, econô-
tura (Unesco) recomenda no mínimo 7%. veio. De 1995 a 2005 nós de hierarquia pressupõem que exista uma mica, política, com o campo da Psicologia.
Desses 4%, a União entra com apenas 1% tivemos a ampliação de rota para a excelência acadêmica. Só que
do PIB. Os outros 3% são bancados por es- 65% no número de estu- essa rota é arbitrária porque os grandes Jornal da UFRJ: A presença da Petrobras
tados e municípios. Da verba federal, 0,5% dantes da graduação. Só centros e os grandes pesquisadores que no campus ganhou uma dimensão que di-
do PIB vai para o Ensino Superior. Mas a que o acréscimo do número de professores hoje estão no “Olímpo” não passaram vide opiniões.
União fica com mais de 60% dos tributos. não chegou a 20%. Agora nós vamos, com por ela. A origem disso é o momento da Roberto Leher: É chocante. Pegaram o
Ou seja, a União não tem feito um esforço o Reuni, em cima do crescimento de 65% expansão da pós-graduação no projeto de campus e cortaram ao meio. Nem mais
educacional. É óbvio que os recursos das até 2005, para mais 60%, 65%, o que signi- modernização conservadora na ditadu- contínuo é. Eu sou a favor que a UFRJ
universidades estão estrangulados não por fica um aumento de 120% a 140%, depen- ra civil-militar. As rotas de excelência são esteja engajada na tecnologia da pros-
falta de dinheiro. Sabemos o quanto paga- dendo da instituição. Mas o orçamento, rotas tardias criadas por esses grupos na pecção de petróleo, no conhecimento da
mos de juros. em relação a 1995, se corrigirmos, não terá defesa de seus privilégios. Essa hierarquia energia de hidrocarburos. Avalio que seja
mais do que 20%. Uma expansão não sus- deforma a universidade. importante para o país. Mas eu pergunto:
Jornal da UFRJ: Mas mesmo críticos do tentável: 140% a mais de alunos com 20% a será que o papel da universidade, distin-
Reuni afirmam que nunca viram tanta ver- mais de recursos em 2011. Então estamos Jornal da UFRJ: Como assim? tamente do da Petrobras, não seria fazer
ba para a UFRJ nos últimos 30 anos como reduzindo drasticamente o custo/aluno. Roberto Leher: Esses grupos de excelên- uma reflexão sobre a prospecção, sobre o
agora. cia, como antes, vivem dos editais. Só que uso dos hidrocarburos, mas pensando nos
Roberto Leher: Sim. É fato. Mas é preciso Jornal da UFRJ: As cotas sociais são um os editais hoje não trazem a lógica do na- seus nexos com a questão socioambiental?
dizer que a verba aumentou em relação ao avanço? cional desenvolvimentismo que, de algu- Não seria isso que a universidade poderia
período de governo de Fernando Henri- Roberto Leher: As políticas de ações afir- ma forma, ainda que contraditória, apon- fazer de original, de importância para o
que Cardoso, quando não havia nenhum mativas são absolutamente necessárias. tava para a necessidade de um Estado que país? Será que o papel da universidade não
recurso para investimento. Agora o gover- Não existe universalismo numa socieda- fosse forte e que produzisse conhecimento seria questionar os modelos dos leilões das
no libera recursos e parece que estamos de liberal burguesa. O universalismo do em áreas estratégicas. Hoje, os editais estão bacias de petróleo? Mas se a universidade
vivendo um período de ouro da univer- mérito não é real. É um falso universalis- demandando para a universidade cada está toda financiada pela Petrobras, se nós
sidade. A ordem de grandeza de recur- mo. As crianças de classes populares têm vez mais serviços. Não há a preocupação temos a “Petroufrj”, a UFRJ não tem auto-
sos não autoriza dizer isso. O que é mais escola com menor infraestrutura, menor com a formação de cientistas. Tirando nomia de crítica.
positivo nas contradições do Reuni é que tempo de aula. Há mecanismos sutis de pouquíssimas áreas, a quase totalidade dos
o seu estágio inicial exigiu contratação de segregação em que a questão de classe se editais de Inovação Tecnológica é de inte- Jornal da UFRJ: O que o senhor diz sobre
professores. Nós tivemos um crescimen- imbrica com a questão de etnia. A minha resse das empresas, e não da sociedade. E os cursos pagos na UFRJ?
to relevante de professores na UFRJ, em divergência da política de cotas é que ela esses grupos de excelência dependem cada Roberto Leher: Devem ser extintos!
23
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Entrevista UFRJ

Marcos Dantas
Os grandes conglomerados
da mídia não mediram esforços
para fabricar fatos e influir no
roteiro político das eleições
presidenciais de 2010. No
papel de oposição declarada,
chegaram às fronteiras do
obscurantismo ao estimular
preconceitos de ordem
religiosa para tornar bem-
sucedido o programa político
que consideravam o mais
conveniente aos seus interesses.
Na avaliação de Marcos
Dantas, professor da Escola de
Comunicação (ECO) da UFRJ, não
é exatamente uma novidade
histórica o alinhamento da
mídia brasileira a projetos
conservadores que, em algumas
ocasiões, desaguaram em
golpes de Estado, como ocorreu
em 1964. “O que diferencia
o momento atual é que não
dá mais para contar com um
golpe militar e, por isso, são
necessárias outras estratégias
de convencimento”, salienta
o especialista em Economia
Política da Comunicação e
doutor em Engenharia de
Produção pelo Instituto Alberto
Luiz Coimbra de Pós-graduação
e Pesquisa de Engenharia Entrevista
(Coppe) da UFRJ. Estudioso
das novas tecnologias digitais,
Marcos Dantas acredita que as
mídias sociais vêm rompendo,
em muitos casos, a pauta de
debates imposta pelos meios
tradicionais. “Na Internet, não
se pode controlar a produção de
conteúdo. O conglomerado que
controla o setor de comunicação
no Brasil tem consciência de
que as novas mídias são uma
ameaça aos seus negócios”,
avalia o professor.
Nesta entrevista ao Jornal
da UFRJ, Dantas defende uma
“re-regulamentação” das
comunicações voltada para a
convergência das mídias e o
fortalecimento da produção
de conteúdo nacional. No
entanto, adverte que a efetiva
democratização dos meios de
comunicação é muito difícil em
uma sociedade movida pelo
poder do mercado.
24 Jornal da
UFRJ Entrevista Novembro/ Dezembro 2010

A mídia se
partidarizou

Coryntho Baldez

Jornal da UFRJ: Nesta última eleição Marcos Dantas: Não diria que é exa- Jornal da UFRJ: Por quê? relacionadas à sociedade brasileira. Os
presidencial, como o senhor avalia o papel gero se levarmos em conta o que acon- seus interesses se articulam com um
da mídia tradicional? A mídia, de fato, se teceu, por exemplo, na Venezuela. Sem Marcos Dantas: Porque hoje existe, ou conjunto amplo de outros interesses, na-
partidarizou? dúvida alguma, houve uma tentativa de deveria existir, um consenso em torno cionais e internacionais. O que estava em
derrubada do governo constitucional de da defesa de um Estado laico e republi- jogo nessas últimas eleições era o novo
Marcos Dantas: Podemos afirmar que Chavez, em 2002, com a ajuda decisiva cano. Um consenso em torno da defesa papel internacional do Brasil. Um papel
a mídia se partidarizou por uma razão da televisão e dos jornais. E quase conse- de um projeto de raízes iluministas. E que pode ser reforçado ou não, depen-
muito simples. A presidente da Asso- guiram seu intento. Também há o exem- os dois candidatos que participaram do dendo da orientação que se dê ao pré-
ciação Nacional de Jornais, Edith Frias, plo do apoio da mídia brasileira ao golpe pleito presidencial no segundo turno são sal, por exemplo, que criou uma nova
do grupo Folha, deu uma declaração de 1964. O que diferencia os momentos pessoas que possuem essa raiz, mesmo dimensão geopolítica para o país. O que
pública dizendo que quando a oposição é que, agora, não dá mais para contar com suas diferenças. Então é muito di- estava em jogo era um projeto de cons-
é débil a mídia deve assumir esse papel. com um golpe militar. Por isso, são ne- fícil entender que, de repente, os meios trução de um espaço sul-americano para
É algo oficial, não uma análise feita de cessárias outras estratégias de conven- de comunicação venham a suscitar um os sul-americanos. Além disso, houve a
fora. A mídia assumiu oficialmente uma cimento e de construção de consensos, debate fundamentalista no Brasil. Um incorporação ao consumo de cerca de 30
posição partidária e não sou eu que vou que levem a população a dar consequ- debate obscurantista e absolutamente milhões de brasileiros. É preciso, claro,
contradizê-la. ência a um projeto golpista através, por reacionário. Isso deveria ter sido alvo que também tenham acesso à educa-
exemplo, de um impeachment. Aparen- de combate por parte de todos os can- ção, à cultura. Trata-se de um processo
Jornal da UFRJ: Pode-se dizer que é algo temente, houve sim um esforço de fa- didatos. Eles não deveriam aceitar, em que não pode parar. Existem mudanças
que não acontece com tanta intensidade bricação de consenso para levar a uma hipótese alguma, a interferência do obs- em curso e mais quatro ou oito anos do
desde as eleições de 1989? mudança do rumo político e histórico curantismo religioso nas discussões po- mesmo projeto podem torná-las irre-
do momento. líticas, que significa abrir espaço para a versíveis. Os meios de comunicação, ar-
Marcos Dantas: Não sei. Mas esse com- construção no Brasil de uma República ticulados com outros interesses, tentam
portamento é recorrente. Muito pro- Jornal da UFRJ: A chamada grande im- teocrática. Não vamos imaginar que cumprir um papel de impedir que esse
vavelmente os mais velhos lembrarão a prensa, no processo eleitoral, deu curso esse fenômeno seja exclusivamente mu- projeto prossiga.
crítica implacável dos meios de comuni- a debates retrógrados que vinculavam çulmano. Nada impede que seja cristão
cação ao segundo mandato de Getúlio temas como o aborto, a opção sexual e também. E hoje existe uma parte grande Jornal da UFRJ: Nesse processo, qual a
Vargas. A derrocada do Jango foi outro visões religiosas. Instalou-se no país qua- da nossa população que está sendo arre- sua avaliação do fenômeno dos novos
momento de união da mídia em torno se um clima de inquisição e perseguição banhada por um projeto teocrático. Esse meios de comunicação, especialmente das
de forças retrógradas. No golpe militar, os religiosa. Como o senhor avalia isso? é outro fenômeno que merece discussão. redes sociais na Internet?
editoriais e as reportagens da maioria abso- Eu não consigo encontrar uma explica-
luta dos grandes jornais foram todos am- Marcos Dantas: Olha, estamos muito ção de como se suscitou tal debate numa Marcos Dantas: Essa questão requer
plamente favoráveis aos militares. Do ponto perto dos acontecimentos para poder campanha presidencial, a não ser por responsabilidade acadêmica para ten-
de vista histórico, essa unanimidade da im- avaliar com segurança esses aspectos. uma espécie de golpismo superficial. tarmos compreender o fenômeno. Ain-
prensa em torno de determinadas posições Na minha condição de acadêmico, é da não temos muitos elementos. Há 15
políticas é tradicional e aconteceu também preciso certa prudência. Quando digo Jornal da UFRJ: Foi depois da realização anos, a televisão aberta tinha quase o
na eleição de Fernando Collor de Mello, em que há um processo de fabricação de da I Conferência Nacional de Comunica- monopólio da audiência, no mundo e
1989. Agora, a história se repetiu nesta elei- consensos por parte dos meios de co- ção (Confecom), em abril de 2009, que a no Brasil. Nesses últimos anos, esse mo-
ção presidencial de 2010. É uma trajetória municação, é porque existem estudos grande mídia intensificou a estratégia de nopólio foi quebrado praticamente no
que mostra muita coesão da mídia em mo- que comprovam isso. O momento que oposição ao governo com a intenção de mundo inteiro pela penetração da TV
mentos cruciais de nossa história. vivemos merece investigação mais resguardar os próprios interesses? por assinatura e da Internet. Mas no Bra-
aprofundada para que possamos com- sil isso ainda não aconteceu. Hoje, nos
Jornal da UFRJ: Seria exagero identificar preendê-lo melhor. O que posso dizer é Marcos Dantas: A Confecom pode ter principais países capitalistas, a popula-
um comportamento golpista da mídia, que essas questões que você levanta me contribuído, mas penso que a mídia está ção tem à sua disposição centenas de
como alguns chegaram a apontar? causam estupefação. expressando questões mais profundas canais de televisão. Assim, nenhum país
25
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Entrevista UFRJ

pode dizer que tem 50%, 40% ou 30% de Marcos Dantas: Temos um dispositivo cisco, Los Angeles, Chicago, Detroit. nal comunitário, e aprovou uma lei que
audiência. constitucional de 1988 que nunca foi E quando falo de Brasil, lembro de São lhe permitiu criar a Net e dominar 60%
aplicado. Esse é o exemplo mais óbvio Paulo. Então, quando defendo a produ- do mercado. Com isso, o mercado parou
Jornal da UFRJ: E isso ainda acontece no de como o sistema consegue controlar ção local sei que é preciso também um de crescer no Brasil. Estacionou.
Brasil? o ritmo da mudança e tem o poder até dinamismo econômico local para sus-
mesmo de barrá-la. Mas é possível que tentá-la. Portanto, a questão do oligopó- Jornal da UFRJ: Parou de crescer por
Marcos Dantas: Sim, a Globo não tem agora se consiga abrir o debate porque lio da mídia vai além da lei e faz parte de causa da renda média dos brasileiros, já
mais uma audiência de 60% porque a Re- existem novos atores envolvidos, como um processo amplo de mudança. que os serviços monopolizados pela Net
cord emparelhou com ela em alguns ho- ficou claro na Confecom. A sociedade são caros?
rários, mas ainda detém índices médios está querendo discutir e influir nos ru- Jornal da UFRJ: E é possível vislumbrar
de 30% a 40%. Mas em qualquer lugar mos dessa discussão. alguma mudança nessa direção? Marcos Dantas: Sim, pela renda e tam-
do mundo hoje, grandes redes, mesmo a bém pelo tipo de conteúdo, que não inte-
BBC inglesa, têm cerca de 10% de audi- Jornal da UFRJ: No Rio de Janeiro, um Marcos Dantas: Recentemente parti- ressava ao público. Enquanto isso, a Glo-
ência e ficam felizes com esse percentual. mesmo grupo empresarial controla a TV cipei de um seminário no Nordeste e bo foi se preparando para a transição,
E existem centenas de canais com 1% ou aberta, as tevês pagas e a rádio AM de fiquei admirado com o que ouvi. Está construindo seus próprios canais para
2%, que mostram uma diversidade de maior audiência, além dos dois jornais havendo hoje um crescente dinamis- concorrer no mercado do cabo, como os
oferta e segmentação do mercado que mais lidos. Há exemplo disso no mundo? mo econômico do interior e já existem telecines, o GNT, entre outros. Ela come-
são imensas. A reconstrução da estraté- cidades médias que são relativamente çou a testar esse tipo de mercado e a se
gia de audiência mudou completamente Marcos Dantas: Não. Mas a questão do autossustentáveis do ponto de vista eco- transformar em uma grande produtora
a maneira de fazer negócios em vários oligopólio tem que ser vista de modo nômico. de conteúdo. E é exatamente o que ela é
países. mais complexo. É um conceito econô- hoje. Diria até que a Rede Globo terá um
mico que indica que há um pequeno Jornal da UFRJ: Isso já se reflete na pro- grande futuro se assumir esse perfil para
Jornal da UFRJ: Mas as chamadas mí- grupo de empresas dução de cultura? disputar, por exemplo, com os grupos
dias sociais conseguem confrontar a mí- de determinado setor Warner e Fox. Mas aí entra a cultura de
dia tradicional em termos de informação, controlando o mer- “Numa sociedade Marcos Dantas: Eu emissora da TV Globo. Ela se pergunta:
escapando à lógica de produção monopo- cado. Por esse estrito não ousaria dizer o que sei fazer? E responde: produzir e
lizada da notícia? viés econômico, seria capitalista que já se reflete, mas emitir. E não admite que lhe digam que,
possível dizer que há uma clara expec- agora, não pode mais possuir um canal
Marcos Dantas: Sim, conseguem. Na In- não há monopólio moderna, os meios tativa de que esse de VHF.
ternet não se pode controlar a produção no Brasil. Existem processo reflita no
de conteúdo. De repente, um cara lá na centenas de emisso- de comunicação plano da cultura. Se Jornal da UFRJ: A implantação do Con-
Austrália, como aconteceu recentemen- ras de rádio, dezenas tivermos políticas selho Nacional de Comunicação, que é
te, coloca na rede documentos secretos de jornais. Ao todo são empresas públicas adequadas, uma das resoluções da Confecom, seria
sobre ações de militares norte-ameri- no Brasil existem, se é possível fazer com um instrumento importante para demo-
canos no Afeganistão e muda a pauta. não me engano, 470 capitalistas que o dinamismo cratizar a mídia no Brasil?
Um dos elementos mais importantes emissoras de televi- econômico também
da estratégia de produção de consenso é são pertencentes a voltadas para o estimule a produção Marcos Dantas: Vou tentar discutir
exatamente o controle do agendamento. grupos empresariais local. Nesse caso, um melhor essa questão da democratização
Quando se tem um conjunto pequeno diferentes. Mas não lucro.” dispositivo regulador da mídia. Digo com clareza o seguinte:
de corporações controlando a informa- se pode olhar a ques- que determine que em uma sociedade de mercado, é muito
ção, esse grupo diz o que pode ou não ser tão pelo conceito estritamente econômi- a programação tenha 25% de produção difícil democratizar os meios de comu-
notícia. Mas quando se tem uma diversi- co, não é um problema para o Conselho local vai certamente acelerar esse proces- nicação. Não vamos confundir mercado
dade grande de produtores de informa- Administrativo de Defesa Econômica so. com democracia. Para alcançarmos a
ção essa pauta controlada começa a ser (Cade), órgão que fiscaliza casos de abu- democratização da mídia é preciso de-
quebrada. O conglomerado que controla so de poder econômico. Devemos ana- Jornal da UFRJ: Por que é tão difícil no mocratizar a sociedade. Posso até afir-
o setor de comunicação no Brasil há cer- lisar como funciona o setor das comu- Brasil aprovar uma lei geral que regule o mar, dialeticamente, que para a demo-
ca de 50 anos tem perfeita consciência de nicações, do ponto de vista econômico, setor de comunicações? cratização da sociedade um dos aspectos
que o fenômeno das novas mídias é uma mas também entender os seus elos com importantes é democratizar a mídia. São
ameaça aos seus negócios. a política e com a cultura. Marcos Dantas: É um processo. No Bra- como dois pedais de uma bicicleta. Mas
sil, existe uma estrutura que se organi- não vejo como a criação de um Conse-
Jornal da UFRJ: E como esses grupos li- Jornal da UFRJ: Há modelo no mundo zou, há cerca de 50 anos, com o controle lho de Comunicação resolverá isso sozi-
gados à mídia tradicional estão se prepa- parecido com o brasileiro? de determinadas corporações, e elas não nha. É necessário um conjunto amplo de
rando para enfrentar essa mudança? vão querer “largar o osso”. Como disse, mecanismos para democratizar a socie-
Marcos Dantas: O modelo norte-ameri- estão brigando para controlar o ritmo e dade e, com base nessa perspectiva, in-
Marcos Dantas: Bem, eles sabem que a cano é muito parecido com o brasileiro. a direção da mudança. Um exemplo de troduzir uma questão importante nesta
transição vem. E raciocinam da mesma Mas nos Estados Unidos existiam, não que isso já vem acontecendo é a “Lei do discussão.
maneira que D. João VI ao aconselhar o sei se ainda existem, mais de mil emis- Cabo”. Houve um momento em que, es-
filho D. Pedro a respeito da Independên- soras de televisão aberta espalhadas pelo pontaneamente, começaram a aparecer Jornal da UFRJ: E qual é?
cia do Brasil em relação a Portugal. Se ela é país. E havia uma legislação que obri- operadoras de TV a cabo. Quando isso
inevitável, “antes seja para ti, que me hás de gava que 25% da programação dessas aconteceu, a produção de conteúdo era Marcos Dantas: É a própria visão dos
respeitar, do que para alguns desses aven- emissoras tivessem origem local. O res- um monopólio das emissoras de TV, meios de comunicação, que é funcio-
tureiros”. Ou seja, eles estão tentando con- tante da programação era da cabeça de inclusive regulado pela própria Cons- nalista. Por essa visão, cuja referência
trolar a transição. Com o atual processo de rede. A estrutura de rede nacional é bem tituição. Criou-se então um vazio legal. mais distante é o liberalismo na acepção
mudança política, econômica e social no parecida com a que existe no Brasil Encaminhou-se um projeto de lei, o mais legítima, os meios de comunica-
Brasil, inclusive com a realização da Confe- tempo inteiro instrumentalizado pela ção teriam uma função ligada à cultu-
com, temem perder o controle do ritmo e Jornal da UFRJ: Essa obrigatoriedade de Rede Globo, que gerou um mercado de ra, à democracia, à informação ampla.
do rumo dessa transição que acontece em programação local é uma das demandas televisão a cabo sob o seu controle. Foi Acontece que, numa sociedade capita-
seu próprio negócio. Daí também a feroci- da Confecom? uma lei feita sob medida. E alcançava lista moderna, os meios de comunicação
dade com que tentam barrar tal processo. apenas o cabo, deixando de fora a outra são empresas capitalistas voltadas para
Marcos Dantas: É, mas quando falo nos modalidade de TV por assinatura, por o lucro. Se quisermos adotar uma visão
Jornal da UFRJ: E daí também a dificul- Estados Unidos lembro, de imediato, de meio de satélite. Ali, a Globo fez uma funcionalista, teríamos que dizer que a
dade de regular o oligopólio no setor de co- cerca de seis ou sete polos econômicos negociação com o Fórum Nacional pela função deles é dar lucro e ponto final. O
municações, como acontece em qualquer distribuídos pelo país, como Nova Ior- Democratização das Comunicações, seu objetivo não é a democracia. São em-
país do mundo? que, Miami, Seattle, Houston, São Fran- dando algumas migalhas, como um ca- presas que produzem para lucrar e têm
26 Jornal da
UFRJ Entrevista Novembro/ Dezembro 2010

no capitalismo uma dimensão cada vez lógica. Ou seja, não importa se assisto parando o que é infraestrutura e o que é natura. Primeiro, trouxe para o PL 29 a
mais importante. O conhecido econo- à televisão na telinha, na telona ou no conteúdo. É a proposta que defendo. Um TV por satélite, que não está na “Lei do
mista John Kenneth Galbraith disse que computador. Em relação à plataforma, modelo muito interessante é o do Proje- Cabo”, e a chamada MMDS, outra tecno-
é impossível pensar a sociedade indus- interessa apenas a possibilidade de se ter to de Lei 29, já aprovado na Câmara e logia, mas que está em extinção. Isso sig-
trial sem a televisão. Lamentavelmente, a oferta mais diversificada possível. Ago- que está tramitando no Senado. nifica criar um serviço de acesso condi-
boa parte dos economistas, inclusive ra, do ponto de vista do conteúdo, é pre- cionado, não importando a plataforma. E
os marxistas, não atentou para todas as ciso uma política pública que fortaleça, Jornal da UFRJ: Qual a novidade desse depois, propôs a discussão a respeito do
consequências dessa conclusão. De fato, primeiramente, a identidade nacional, projeto? conteúdo, até porque TV por assinatura,
não se pode pensar o capitalismo con- que passa pelas identidades regionais e hoje, no Brasil, é sinônimo de programa-
temporâneo sem compreender o lugar culturais existentes no país. Em segundo Marcos Dantas: Ele desagrega a ca- ção estrangeira. Já na televisão aberta,
que os meios de comunicação ocupam lugar, essa política deverá garantir espaço deia produtiva, ou seja, identifica quem por uma política de pressão da ditadura
nele, que é o de produção de consumo. para a produção de produz conteúdo, militar, existe forte presença de conteúdo
Eles não estão nem aí para discutir ideias, conteúdo não comer- “Não se pode quem programa e nacional. E a população se habituou a ver
para a democracia ou para a liberdade de cial, ou seja, de natu- quem transporta. A a novela brasileira e o Jornalismo brasi-
expressão. Querem produzir consumo e reza exclusivamente pensar o partir daí, para cada leiro. Pode-se achar bom ou ruim, mas a
é isso o que fazem. cultural, educacional, um desses atores, o população se acostumou com o jeito bra-
lúdica. As propostas capitalismo projeto estabelece as sileiro de fazer televisão. Então, começa-
Jornal da UFRJ: O negócio é mover a da Confecom que regras adequadas. mos uma briga para que se colocasse um
roda? fortalecem a ideia de contemporâneo A proposta nasceu forte percentual de conteúdo nacional na
produção de conte- de um movimento TV por assinatura. Apesar dos lobbies e
Marcos Dantas: Exatamente. Claro, as údo nacional são, na sem compreender feito pelas teles para de alguns recuos, o projeto manteve a
pessoas precisam de mais crédito e mais minha avaliação, as comprar pequenas ideia central de que qualquer pacote de
renda para consumirem. Mas apenas mais importantes. o lugar que operadoras de TV a TV por assinatura tem que ter 1/3 de ca-
isso não é suficiente. É necessário criar cabo. Isso gerou uma nais brasileiros e pelo menos três horas
uma mentalidade voltada para o consu- Jornal da UFRJ: os meios de reação da Associação e meia diárias de programação nacional
mo. Não apenas pela publicidade, que Decorrido mais de Brasileira de Televi- qualificada.
tem um foco direto, mas pelas ideias e um ano do término comunicação são por Assinatura
valores que chegam às pessoas que as- da Confecom, o que (ABTA), dominada Jornal da UFRJ: Explique melhor essa
sistem a uma novela, a um programa de aconteceu com as pro- ocupam nele.” pelas organizações ideia.
auditório ou a um jogo de futebol. Todo postas aprovadas e Globo, para impedir
esse ambiente está criando uma visão como anda a mobilização em torno delas? a iniciativa das teles. A alegação era a Marcos Dantas: Fomos buscar na le-
que associa a vida ao consumo. Quan- Pode haver avanço no próximo governo? de que, pela LGT, as teles não poderiam gislação europeia o conceito de espaço
do a renda cresce, a primeira coisa que ser proprietárias de operadoras de TV a qualificado, que é definido por exclusão.
a pessoa faz, impulsivamente, é comprar. Marcos Dantas: O atual governo criou cabo. Começa então uma guerra de pro- Ou seja, programação qualificada é o que
Por isso, numa economia de mercado, o um grupo de trabalho e prometeu deixar jetos de lei no Congresso, com posições não é jogo de futebol, programa de audi-
máximo possível é expandir, criar e di- pronto um projeto de regulamentação opostas. tório, noticiário. Por exclusão, sobram os
versificar os canais competitivos de pro- para o próximo ano. No próprio governo documentários, filmes, seriados, enfim,
dução de consumo. A remodelação capi- de Fernando Henrique Cardoso havia Jornal da UFRJ: E o que aconteceu de- esse tipo de programação. É um avanço
talista dos últimos 20 anos, apoiada pelas uma proposta elaborada de regulamen- pois? e há uma possibilidade de aprovar esse
novas tecnologias, gerou tal efeito nos tação para os meios de comunicação projeto antes do fim do ano.
Estados Unidos, Europa e Japão. Os ca- eletrônica, deixando de fora as chama- Marcos Dantas: Um desses projetos aca-
nais competitivos foram multiplicados, das telecomunicações, porque já existia a bou nas mãos do deputado Jorge Bittar Jornal da UFRJ: Qual a sua opinião acer-
mas isso não é democratizar os meios de Lei Geral das Telecomunicações (LGT). (PT/RJ), que foi o seu relator na Comis- ca do papel das escolas de Comunicação,
comunicação. É apenas ampliar a faixa É muito provável que, agora, depois de são de Ciência e Tecnologia da Câmara atualmente?
de oferta de consumo. Quem gosta de oito anos e todas essas mudanças, tenha- Federal. Ele teve a sensibilidade para
futebol sintoniza em um canal específi- mos um projeto de lei que trate das co- reunir projetos capengas e propor uma Marcos Dantas: Não se pode deixar de
co e não precisa mais ficar esperando o municações em um mesmo pacote, se- grande regulamentação de TV por assi- dar ao jovem a formação necessária para
domingo à tarde para ver uma partida. que ele seja um bom profissional, mas
Da mesma forma, não é mais preciso acho que o papel de qualquer universida-
esperar o “Corujão” para ver um filme. de é construir consciência crítica. E está
Isso significa a diversificação de ofertas e cada vez mais difícil. Quando Karl Marx
a criação de outros valores sempre volta- escreveu naquele velho manifesto que
dos para a produção de consumo. o capitalismo penetra em tudo, ele não
imaginava a que níveis isso chegaria na
Jornal da UFRJ: Que propostas da Con- sociedade atual. As pessoas com maior
fecom o senhor citaria como as mais im- visão crítica optam, normalmente, pela
portantes? carreira acadêmica. E aí há o risco de se
ter uma produção acadêmica crítica, que
Marcos Dantas: Bom, não quero brigar fica fazendo discurso contra os meios, e
com meus amigos. É claro que, se tiver- a realidade do mercado é outra. É algo
mos que criar um conselho, vamos fazê- que não se sustenta porque, pela ordem
lo, até porque ele pode ser um espaço de natural das coisas, as novas gerações co-
debate interessante. Mas eu, contrarian- meçarão a produzir na academia tam-
do boa parte de meus colegas, não acho a bém para o mercado. Já existe, por exem-
proposta do conselho a mais importante. plo, a Globo Universidade. Em outros
As propostas mais importantes produzi- setores da Ciência, como a Biologia, já há
das na Confecom são aquelas que focam uma forte imbricação entre universidade
numa re-regulamentação das comuni- e empresa. No campo das Ciências Hu-
cações brasileiras voltada para a conver- manas e Sociais, existe uma herança crí-
gência e para a produção de conteúdo. tica, mas o fato é que a universidade não
São aquelas que identificam a necessi- está fora da sociedade. Fica a pergunta:
dade de se ter uma regulamentação que até que ponto essa herança vai resistir, a
considere o conteúdo em seu conjunto, não ser que se comece a reconstruí-la na
indiferentemente da plataforma tecno- própria sociedade?
27
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Cultura UFRJ

Angelo Agostini

Caipora e Nhô-Quim – e suas aventuras – são alguns dos famosos personagens que ganharam
vida através das mãos e dos traços de Angelo Agostini.
Rafaela Pereira

J
ornalista, ilustrador, artista, chargista. Esse foi Angelo Agostini, nascido em Ver- Guerra do Paraguai, escravos, relação entre Estado e Igreja foram alguns dos as-
celli, norte da Itália, que escolheu, em 1859, a cidade do Rio de Janeiro para vi- suntos trabalhados por Agostini. Isso sem falar de D. Pedro II, um de seus personagens
ver. Adorado e odiado por muitos, Agostini é reconhecido como o pioneiro das preferidos.
histórias em quadrinhos no Brasil, país ao qual chegou e onde encontrou o Segundo Muitas foram as charges ou caricaturas produzidas pelo artista. Até mesmo a capa
Reinado, um imperador como D. Pedro II, a Guerra do Paraguai, o trabalho escravo e a da Revista Ilustrada deu espaço para uma ilustração em que o artista mostra D.
proclamação da República. Pedro II dormindo sentado. “Ele fazia oposição à Guerra do Paraguai, guerra
Ele é considerado o primeiro a alinhar a charge com um projeto consistente de esta que não aceitava. Em São Paulo ele documentou a briga entre os tropei-
intervenção no cotidiano político e na sociedade. Com humor irreverente, seus ros e o surgimento da ferrovia, por exemplo. Agostini retratava a política, já
traços produziam sátiras políticas e duras críticas ao sistema vigente na época. que não existia documentação do que estava acontecendo na cidade. Mas ele
Era o começo da imprensa humorística no país, a história sendo contada atra- fazia isso sempre com a sua interpretação pessoal”, analisa Cagnin.
vés das imagens, das charges, das ilustrações e das histórias em
quadrinhos. Disputa pelo primeiro lugar
Para Antonio Luiz Cagnin, doutor em Semiologia pela Es- Qual foi a primeira história em quadrinhos no mundo? Essa é uma per-
cola de Comunicação da Universidade de São Paulo (USP), gunta polêmica. Para muitos especialistas, quase a unanimidade, a primeira
instituição na qual lecio- na, e um dos mais HQ é a Yellow Kid, criada pelo norte-americano Richard Outcault, em 1895.
antigos estudiosos As tiras do menino amarelo eram apre-
de Angelo Agos- sentadas nos jornais de Nova Iorque
tini, o artista era e mostravam um personagem fixo,
mais do que um com ação fragmentada e balõezinhos
caricaturista, era um de texto.
grande contador de his- Contudo, há uma corrente que coloca Angelo
tórias – em quadrinhos, cla- Agostini no rol dos pioneiros da arte em quadri-
ro. “Tudo ele transformava em quadrinhos, até as cartas. nhos, apesar de não usar o balão e a onomatopeia –
Se engajou no desenho político e nunca mais parou”, figura de linguagem muito utilizada no universo das HQ. E há quem diga
analisa o semiólogo. até ser essa diferença justamente o que faz dele o pioneiro. “Sempre ouvi
falar que eram os norte-americanos, com o Yellow Kid. Mas depois eu vim
Revistas: espaço e temas recorrentes a saber que essa não era a primeira, uma vez que ela não era considerada
E o espaço utilizado pelo artista eram as revistas história em quadrinhos, pois havia a interferência da palavra. Foi quando
ilustradas, muito comuns naquela época. Em São encontrei Angelo Agostini e percebi que essas, sim, eram as verdadeiras
Paulo, Diabo Coxo foi o primeiro periódico da HQ – nas quais a história se desenvolve na imagem, e não na palavra”,
cidade a dar espaço para charges, caricaturas e acredita Cagnin, referindo-se às histórias sobre as experiências de um
imagens. Já no Rio de Janeiro as revistas sur- caipira perdido na cidade grande, As Aventuras de Nhô-Quim, lança-
giam com mais abundância, e uma das mais das em 1869 e publicadas na revista Vida Fluminense.
Para Octávio Aragão, professor da Escola de Comunicação
(ECO) da UFRJ, não importa se ele foi primeiro ou não. O impor-
tante é a presença que ele teve na política do país: “Ele foi uma pes-
soa plural e marcante. Sem dúvida, foi ele quem fez, naquela época,
charge, ilustração e caricaturas por mais tempo”.

Referências e influências
A importância e a relevância de Angelo Agostini se refletem
também no quanto ele influenciou outros artistas. Até mesmo
tempos depois da sua morte.
Monteiro Lobato, por exemplo, chegou a comparar a impor-
tância da obra do artista com a da documentação histórica dos
trabalhos de Debret e Rugendas. Para Lobato, Angelo Agos-
tini era como o construtor da imagem brasileira. Octávio
Aragão vai além: “Avalio que Jeca Tatu, personagem de
Monteiro Lobato, foi claramente influenciado pelo uni-
conhecidas era a Revista verso do Nhô-Quim. E o reflexo da obra de Agostini vai muito mais
Ilustrada, criada pelo próprio longe, chegando até Mazzaropi, que conquistou fama interpretando o personagem
Agostini. Ela circulou durante Jeca Tatu”.
os anos de 1876 a 1898. Para Aragão, “o humor que a turma do Casseta e Planeta, por exemplo, faz é
A proposta era produzir uma pu- também influenciado por Agostini. Exemplo disso são as ‘Organizações Tabajara’.
blicação com tiragem semanal com linguagem satíri- O Agostini também fazia isso, mas de outra maneira: ‘Seu escravo é fujão, quer
ca, política, abolicionista e republicana. Para Antonio Luiz Cagnin, a manter ele perto de você? Compre as nossas algemas especiais para agarrar seu escravo.
Revista Ilustrada ajudou a construir o pensamento crítico de muitas pessoas naquela Nunca mais ele sairá de perto de você ’. Isso não seria uma algema Tabajara? De onde
época: “Creio que a opinião pública da época era formada por Agostini e sua revista. vem isso? Não sei se é uma questão junguiana. Pode ser uma piada tão boa que você
Não havia rádio, televisão e nem cinema. Somente a Ilustrada”. esquece quem contou primeiro”, acredita o professor da ECO.
28 Jornal da
UFRJ Saúde Novembro/ Dezembro 2010

Aline Durães

G
ustavo não fala e não uma vida inteira? Para a maior par- nismos estão intimamente ligados cente é aquela que, por não ter sido
anda. Não distingue co- te deles, a compreensão dos meca- a vivências anteriores”, explica José bem constituída nesses indivíduos,
res ou odores. Também nismos do esquecimento envolve o Mauro Braz de Lima, neurologista não se consolida. Eles deixam de
não se alimenta sozinho, tampouco entendimento dos processos relati- e professor, diretor do Hospital-Es- registrar os fatos. Se não registram,
é capaz de reconhecer seus familia- vos à memória. cola São Francisco de Assis (Hesfa) consequentemente, não lembram”,
res. Gustavo tem 60 anos. Há 10, Dentro do funcionamento cere- da UFRJ. afirma o médico.
começou a desenvolver Alzheimer, bral, a memória desempenha papel A memória é uma capacidade Já a Psicologia qualifica essa ca-
doença degenerativa caracterizada crucial. Ela resgata fatos e experi- cognitiva complexa e ainda pouco pacidade como implícita ou explí-
pela atrofia cerebral. ências passadas que visam a pre- conhecida. Cada vertente da Ciên- cita. Segundo Paula Rui Ventura,
Assim como ele, cerca de 35 mi- servar a integridade do corpo. “Lu- cia a define e classifica de manei- professora do Instituto de Psicolo-
lhões de pessoas em todo o mundo tar pela sobrevivência é a função ra própria. Para a Neurologia, por gia (IP) da UFRJ, a primeira é qua-
sofrem desse mal, que, em sua fase principal do cérebro. Todas as suas exemplo, ela pode ser de dois tipos: se automática. A segunda, entre-
inicial, compromete a memória do habilidades e sentidos são organi- recente ou antiga. “A memória an- tanto, exige esforço voluntário para
indivíduo, tornando-o incapaz de zados no sentido de manter o or- tiga é a remanescente nos pacientes ser evocada. “Tocar instrumentos,
realizar mesmo a mais simples das ganismo vivo. A memória tem uma que ingressam na senilidade e nos andar de bicicleta, dirigir e digitar
tarefas. Casos como o de Gustavo função fundamental nesse proces- portadores de Alzheimer. Ela tem são alguns exemplos de memória
intrigam a comunidade médica e so de proteção. Diante de qualquer muito mais a ver com os fatos que implícita. Já a memória explícita
levam pesquisadores a se questio- ameaça à vida, o cérebro dispara ameaçaram a vida do que com epi- pode ser dividida em memória de
nar: como alguém pode esquecer mecanismos de defesa. Esses meca- sódios bonitos e saudáveis. Já a re- trabalho e memória de longa du-
29
Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Saúde UFRJ

ração. A memória de trabalho é o Inimigos da memória


quadro-negro da mente. É onde ar- O tempo é o maior inimigo da
mazenamos a informação por cur- memória. Isso porque é natural que, Bioquimicamente falando...
to período até que ela seja esqueci- com o passar dos anos, o indivíduo
da ou transferida para a memória comece a desenvolver dificuldades Uma série de reações bioquímicas acontece no cére-
de longo prazo. Esta, por sua vez, em reter novas informações. Com bro cada vez que um fato é registrado. “A base da me-
pode ser dividida em memória se- o envelhecimento, os neurônios mória ou a maior parte dela estaria nas conexões entre
mântica e episódica. A semântica morrem e o cérebro se atrofia. os neurônios. Um impulso elétrico faz com que um neu-
refere-se ao nosso conhecimento O que nem todos sabem, entre- rônio dispare um neurotransmissor. Esse neurotrans-
de mundo; das regras gramaticais tanto, é que algumas substâncias missor provoca um estímulo no receptor do neurônio
e do vocabulário, por exemplo. A podem produzir efeitos semelhan- seguinte, passando informação para ele. A ideia é que
memória episódica refere-se aos tes aos da senilidade. É o caso do a memória seja uma alteração nas conexões. Ela seria o
eventos armazenados com contex- álcool, por exemplo. Ele é uma das resultado de alguma mudança provisória ou permanen-
to espaço-temporal específico. Por maiores causas de distúrbios cog- te nas sinapses entre neurônios que fazem com que a in-
exemplo, no momento em que re- nitivos do cérebro. Perde somente formação que, primeiro, entrava e ativava determinados
cebemos a notícia de que havíamos para a velhice, mas ganha do Mal neurônios passe a ativar outros”, explica Olavo Amaral,
passado no vestibular, em geral nos de Alzheimer, de acidentes vascu- professor do IBqM-UFRJ, que desenvolve, há cerca de
lembramos onde estávamos, em lares cerebrais (AVC) e de trauma- um ano, pesquisa na qual, através de modelos computa-
que dia aconteceu e até que roupa tismos cranianos. O uso contínuo cionais e de experiências em ratos, tenta entender como
estávamos usando”, elucida Paula. e abusivo de bebidas alcoólicas, funcionam os processos de extinção e consolidação da
bem como o de drogas sintéticas, memória: “O interesse está em saber como o cérebro
Lembrar versus Esquecer provoca, entre outras coisas, des- consegue armazenar informação de alguma complexida-
Esquecer o nome de um grande povoamento neuronal progressivo de. Tentamos compreender como, a partir de alterações
amigo de infância. Lembrar deta- e arteriosclerose (espessamento e sinápticas muito simples, a gente consegue elaborar uma
lhes do término doloroso de um endurecimento da parede arterial). informação complexa para um organismo vivo”.
relacionamento. Eventos como es- As drogas medicamentosas, O conhecimento sobre esses processos possibilitará,
ses são comuns e geram ainda mais como ansiolíticos e antidepressi- futuramente, aperfeiçoar o tratamento de doenças como
curiosidade acerca do funciona- vos, também costumam ser respon- o Alzheimer e transtornos psíquicos, como o estresse
mento da memória. Que fatores sáveis por problemas de memória, pós-traumático. E pode provocar mudanças até mesmo
estão por trás da seleção das infor- mas, ao contrário do álcool, não na forma de o homem apreender o mundo. “Fortalecer
mações que serão armazenadas em acarretam danos irreversíveis. “Re- e flexibilizar memórias podem refletir em bem-estar
nossas mentes? médios podem prejudicar o desem- para as pessoas. Não significa que pretendemos criar
Para José Mauro, o ser humano penho cerebral, pois, enquanto são super-humanos que se lembrem de tudo ou que quere-
tende a guardar melhor as experi- usados, impedem o indivíduo de mos apagar as mentes. Entender memória é entender
ências negativas: “As vivências do- registrar adequadamente as infor- como funciona o aprendizado e, assim, produzirmos
lorosas são mais marcantes porque mações. O álcool e as drogas não. uma educação melhor com base nas Neurociências”,
serão utilizadas em novas situa- Eles atuam diretamente no cérebro conclui o pesquisador.
ções. Se você apaga o que lhe acon- e afetam mesmo os neurônios”, ob-
teceu de ruim, pode voltar a agir serva José Mauro.
para que aquela experiência se re- Os especialistas garantem, en-
pita. Mas existem outras dinâmicas tretanto, que nem todo esqueci- homem que, depois de ficar paralí- de tudo o tempo todo. Duvido que
relacionadas à emoção que estão mento é indicativo de problemas tico em um acidente, passou a con- alguém queira se recordar do que
envolvidas no processo de esquecer cerebrais. Os lapsos são normais seguir memorizar cada detalhe do lhe fez mal. Funcionar, viver, con-
e lembrar. São elas que fornecem a diante do excesso de informação ao seu dia e do mundo ao seu redor. seguir estar no mundo envolvem
cada cérebro a característica de in- qual o ser humano é submetido na O curioso da narrativa é que, ao esquecer e lembrar. Talvez mais es-
divíduo. Cada cérebro é um, cada atualidade. “As falhas de memória passar o tempo recorrendo a anti- quecer do que lembrar. O ideal não
pessoa é única, e o que acontece são comuns em associação com a gas lembranças e registrando dados é lembrar mais de tudo, mas realçar
com uma pode não acontecer com ansiedade, com momentos de es- novos, Funes esquecia, efetivamen- coisas importantes e descartar da-
outra, embora os processos men- tresse, com preocupação excessiva. te, de pensar. dos inúteis”, avalia o neurocientis-
tais sejam semelhantes”, esclarece o A depressão também está bastante A história de Borges levanta uma ta.
neurocientista. associada a problemas de memó- dúvida que muitos pesquisadores Já para José Mauro, o ser hu-
Para Paula Ventura, o grau de ria. Quando são muito frequentes ainda não conseguiram decifrar. mano deve entender seus limites e
importância do ponto de vista e provocam prejuízo funcional, de- O que é mais interessante, ter uma cessar a busca por remédios mila-
emocional será determinante no vem ser investigadas por um pro- memória mais forte ou mais sele- grosos. “A memória é uma das ha-
processo de seleção. “Situações que fissional”, analisa Paula Ventura. tiva? Na opinião de Olavo Bohrer bilidades da função cerebral e ela
tenham conteúdo emocional mais Amaral, professor e pesquisador deve funcionar para o bem-estar e
forte tendem a ser mais facilmente Lembrar mais ou lembrar do Instituto de Bioquímica Médica para evitar situações ameaçadoras
armazenadas”, afirma a psicóloga. melhor? (IBqM) da UFRJ, apesar do desejo da integridade do indivíduo. Não
No conto “Funes, o memorioso”, o humano ser o de ter a capacidade existe remédio de memória. Te-
escritor argentino Jorge Luis Borges de registrar uma quantidade maior mos que desmistificar um pouco
narra a saga de Ireneo Funes, um de fatos, guardar todas as lembran- o conhecimento cartesiano de que
ças é contraproducente. “Provavel- certos sintomas do cérebro podem
mente, a gente não quer se lembrar ser revertidos. Assim não teremos a
crença de que há um remédio má-
gico para determinado sintoma”,
pontua o pesquisador.
30 Jornal da
UFRJ Meio Ambiente Novembro/ Dezembro 2010

Brasil avança na p
Vanessa Sol

U
m grave problema tornou- ção Ambiental e Processamento de Lixo
se pauta constante na agen- Tecnológico, professor do Instituto de
da pública mundial: o que Química (IQ) da UFRJ, concorda que a
fazer com o lixo produzido em larga PNRS representa um avanço ambiental
escala pela sociedade? Nos países mais ao país por instituir “a responsabilidade
desenvolvidos, programas de coleta se- pós-consumo de produtos que seriam
letiva e reciclagem cumprem o papel do descartados inapropriadamente”.
desenvolvimento sustentável e minimi- Na opinião de Elen Vasquez Pacheco,
zam os impactos ambientais provocados professora do Instituto de Macromolé-
pelo descarte inadequado do lixo através culas Eloisa Mano (IMA), o consumidor
de seu reaproveitamento. tem que entender que é também respon-
No Brasil, um avanço em relação a sável pelo lixo que produz. Antes essa
antigos problemas ambientais foi alcan- responsabilidade era imputada apenas às
çado. Após quase 20 anos de tramitação indústrias e aos municípios. “O gerador
no Congresso Nacional, foi aprovada e (consumidor) tem que se sentir respon-
sancionada, em agosto deste ano, a Lei sável pelo que ele consome e produz em
12.305/10, que institui a Política Nacio- termos de resíduos. Essa responsabili-
nal de Resíduos Sólidos (PNRS). Ela en- dade vai proporcionar um descarte ade-
cerra as diretrizes para o gerenciamento quado ou fazer com que ele participe vo-
dos resíduos sólidos, além de defini-los luntariamente da coleta seletiva”, ressalta
e classificá-los,  criando um padrão que a especialista em Tratamento e Aprovei-
facilitará a organização e gestão do lixo tamento de Rejeitos Sólidos Poliméricos.
no país, visando a padrões sustentáveis
de produção e consumo de bens e ser- Gestão integrada de resíduos sólidos
viços. Com a nova política, os estados e
A nova lei implica mudanças com- municípios terão prazo de dois anos para
portamentais e culturais significativas o desenvolvimento de ações voltadas ao
à sociedade, que terá de se adequar às gerenciamento dos resíduos e descar-
novas maneiras de descarte dos resídu- te adequado do lixo, através dos Planos
os sólidos. No entanto, a sociedade civil Estaduais de Resíduos Sólidos (PERS) e
não é a única a ser responsabilizada a dos Planos Municipais de Gestão Inte-
partir da lei. As esferas pública e priva- grada de Resíduos Sólidos (PMGIRS),
da também terão obrigações no manejo respectivamente. Ambos terão de im- nos aterros sanitários. O aterro de Gra-
adequado de resíduos. plantar programas de coleta seletiva para Luciano Basto. macho já está, teoricamente, saturado”.
serem beneficiados com incentivos ou No entanto, quando o assunto é a lo- O desenvolvimento de programas de
Responsabilidade compartilhada financiamentos de entidades federais de gística reversa, Júlio Afonso explica que coleta seletiva e reciclagem, na opinião
A responsabilidade compartilhada crédito ou fomento às políticas ambien- seu desenvolvimento, por ela ser onero- de Júlio Afonso, amplia e diversifica o
pelo ciclo de vida dos produtos, agora tais. sa, é um dos grandes desafios a serem rol de atividades econômicas. Afirma,
dividida entre os diferentes segmentos Por essa nova perspectiva que a lei enfrentados pela PNRS. “Imaginemos ainda, o professor que a medida será im-
da sociedade, tem como objetivo pro- apresenta, Elen Pacheco destaca que diferentes produtos (lâmpadas, pilhas, portante para tratar um problema proe-
mover o aproveitamento de resíduos a PNRS terá mais reflexos na esfera eletroeletrônicos, entre outros) sendo minente no mundo atual, o lixo eletrôni-
sólidos, reduzir a sua geração, evitar o pública por esta não ter implantado, consumidos e descartados em todo o co. No Brasil, sua produção cresce com
desperdício de matéria-prima, dimi- efetivamente, um sistema de gestão e país. A logística reversa tem que prover velocidade superior a do lixo comum,
nuir a poluição e os danos ambientais, gerenciamento de resíduos sólidos. A uma escala mínima para a reciclagem o que o torna um dos países emergen-
assim como estimular tanto o consumo pesquisadora afirma ainda que vai levar poder atuar. Esse é um dos desafios que tes que mais produzem lixo eletrônico
de produtos derivados de materiais re- algum tempo até que todos os estados teremos que enfrentar quando a lei esti- no mundo, superando, inclusive, a Chi-
ciclados e recicláveis quanto atividades e municípios, bem como seus órgãos e ver na sua fase de implantação”, explica na. “A tecnologia de reciclagem de lixo
econômicas voltadas para a reciclagem. instituições, se adaptem às mudanças. o professor. eletrônico é muito complexa porque os
Para Luciano Basto Oliveira, especia- “Imagine a Prefeitura do Rio de Janeiro: inúmeros tipos de materiais dificultam
lista em Desenvolvimento Sustentável, ela tem um programa de coleta seletiva Fortalecimento da reciclagem e o processo, e o Brasil não tem mão de
pesquisador do Instituto Al- implantado? Trata seus efluentes? Basta da coleta seletiva obra especializada para esse tipo de re-
berto Luiz Coimbra de Pós- olharmos esses dois pontos para imagi- Com os novos dispositivos da lei, a ciclagem. Porém, a partir de agora nós
graduação e Pesquisa de narmos quanto tempo demorará para a coleta seletiva será fortalecida. Elen Pa- teremos condições de criar atividades
Engenharia (Coppe) da adaptação”, enfatiza a professora. checo conta que para implantá-la é ne- econômicas nesse segmento”, esclarece
UFRJ, a importância cessário ter indústrias para reciclagem de Júlio Afonso.
da lei está no fato de Logística reversa material coletado e que, portanto, o mu- Segundo dados do Instituto de Pes-
ela “estabelecer um Outra inovação da PNRS é a nicípio, ou o estado, terá que criar incen- quisa Economia Aplicada (Ipea), o Bra-
marco regulatório logística reversa. Através dela, se- tivos para a instalação dessas empresas sil produz cerca de 60 mil toneladas de
para o setor”, equipa- rão necessárias a elaboração e a em sua região. “Precisaremos de recicla- lixo por ano; no entanto, apenas 2,5%
rando-se a legislação implantação de mecanismos ade- doras bem-estruturadas para processar são reciclados. O fato reflete um atraso
internacional através quados de descarte para que os re- o material coletado, que se transformará do país no desenvolvimento e incenti-
da responsabilidade síduos possam ser reaproveitados e em outro artefato e voltará à cadeia pro- vo a políticas ambientais. Para Luciano
consorciada. Júlio voltem ao seu ciclo de vida produ- dutiva. O material separado na coleta se- Basto, isso acontece porque há “muitas
Carlos Afonso, es- tiva. “A logística reversa privilegia a letiva que não pode ser reciclado conti- forças contrárias e falta de percepção de
pecialista em Polui- reciclagem, que tem um ingredien- nuará sendo encaminhado para o aterro que existem dezenas de bilhões de dóla-
te social muito importante, sanitário”, diz a especialista, destacando, res sendo desperdiçados no lixo todos os
uma vez que sua aplicação contudo, que “temos um problema hoje anos, enquanto convivemos com deze-
pode ser imediata”, destaca no Rio de Janeiro que é a falta de espaço nas de milhões de miseráveis. É o que os
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Jornal da
Novembro/ Dezembro 2010 Meio Ambiente UFRJ

política ambiental
A Política Nacional de Resíduos Sólidos
(PNRS) apresenta as diretrizes para o
descarte adequado do lixo produzido
no Brasil. A nova lei, considerada
um avanço, representa um marco
regulatório da questão ambiental
no país, implicando mudanças
comportamentais e estruturais para os
diferentes segmentos da sociedade.

Projeto prevê a transformação de lixo em


energia elétrica
O Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesqui-
sa de Engenharia (Coppe) e a Companhia Municipal de Limpeza
Urbana (Comlurb) assinaram um acordo de cooperação técnica
no qual firmam parceria para avaliar a viabilidade técnica e am-
biental da implantação de usinas de geração de energia elétrica a
partir de resíduos sólidos. De acordo com Luciano Basto, a ini-
ciativa “decorre de um trabalho realizado pela Coppe há mais de
uma década sobre o tema”.
A previsão é de que as usinas funcionem onde são as atuais
estações de transferência e nos aterros sanitários. Porém, o pes-
quisador afirma que é “preciso confirmar se há restrição de licen-
ciamento em alguma dessas áreas”. As usinas terão capacidade
para receber 9 mil toneladas diárias de lixo. Para esse montante,
poderão ser criadas seis usinas com capacidade
de gerar até 30 megawatts de eletricidade cada
uma, valor permitido pela legislação brasileira
para usinas que utilizam lixo na geração de energia.
De acordo com Luciano Basto, a medida desafoga os
aterros sanitários e aumenta sua vida útil. No entanto, “a
técnica de mineração de aterros para retirar o que neles já
foi depositado evita tragédias como a que ocorreu no início
do ano no Morro do Bumba, em Niterói, no Rio de Janeiro”.
economistas chamam de imperfeição de foi desenvolvida uma metodo- Os benefícios da produção de energia elétrica a partir de
mercado”. logia que pretende ser expandida resíduos sólidos, de acordo com o professor da Coppe, estão
O panorama em países da Europa para as demais unidades da UFRJ. A no “consumo de lixo como combustível, gerando eletricidade, na
e nos Estados Unidos é bem diferente escolha não foi aleatória. O centro foi se- descentralização da geração de energia, na redução das perdas
do brasileiro. Nesses países reciclam-se lecionado por agregar o maior número da transmissão (que chega a cerca de 15% atualmente), além da
mais de 45% dos resíduos produzidos. de pesquisas na área de resíduos sólidos mitigação de gases do efeito estufa”.
Apesar de o atual cenário refletir o e ter, inclusive, um programa de coleta
atraso do país frente às políticas ambien- seletiva pontual já implantado.
tais, o Brasil se destaca na reciclagem de De acordo com Elen Pacheco, que foi para o meio ambiente. “A universidade lidar com a questão ambiental, como
latas de alumínio. Hoje, são recicladas também coordenadora da comissão de pública trabalha para o país e o que nós multiplicadores de uma nova cultura e
90% das latas produzidas. Júlio Afonso implantação do “Recicla CT”, a univer- queremos é fortalecê-lo com as pesqui- de novos costumes.
explica que o fenômeno ocorre em fun- sidade desenvolve muitas pesquisas na sas nessa área, assim como fortalecer Para Júlio Afonso, a Educação Am-
ção do alto valor agregado do alumínio: área de reciclagem, cujo objetivo é o ge- o Rio de Janeiro, uma vez que querem biental tem a característica de agregar
“Ao reciclá-lo chega-se a uma economia renciamento dos resíduos sólidos, além transformá-lo na capital recicladora”, pessoas em um objetivo comum, com
de 95% de energia em relação ao que de desenvolver produtos sustentáveis a destaca a professora. consequências positivas e com garantia
seria consumido no processamento da partir de resíduos e pesquisas sobre ater- de uma qualidade de vida melhor para
matéria-prima”. ros sanitários. Educação ambiental todos: “É preciso valorizar a Educação
Além dos tradicionais materiais que No IMA, há um programa de coleta A sociedade precisa se conscientizar Ambiental como ferramenta transfor-
são reciclados, como papel, vidro, plástico seletiva para resíduos comuns e perigo- de que mudanças de hábitos são bené- madora da sociedade”.
e alumínio, outros resíduos têm potencial sos implantado desde 1996. Além disso, ficas para o meio ambiente e a tornam
para reciclagem, como os alimentos orgâ- a unidade da UFRJ tem a licença de ope- sustentável, permitindo que as gerações
nicos, passíveis de compostagem. ração do órgão ambiental desde 2005 e futuras tenham acesso à matéria-prima
realiza pesquisas na busca de tecnologias como a geração atual e a passada tive-
A favor do meio ambiente limpas, isto é, desenvolvendo processos ram. A escola terá papel importante
Antes mesmo de a PNRS ser apro- que gastem menos água e energia, me- nesse contexto, sendo dissemi-
vada, a UFRJ já desenvolvia projetos de nor quantidade de produtos químicos, nadora do conhecimento mul-
reciclagem. O Centro de Tecnologia foi além de substituí-los por outros menos tidisciplinar e incentivando a
escolhido para estabelecer um projeto- nocivos. Para Elen Pacheco, a universi- participação efetiva do cidadão.
piloto de coleta seletiva, o “Recicla CT”, dade tem papel fundamental no desen- Cabe à universidade formar
implantado em fevereiro de 2007. Nele, volvimento de tecnologias sustentáveis profissionais mais capacitados para
32
Jornal da
UFRJ Persona Novembro/ Dezembro 2010

“Clementina vem Clementina de Jesus

Raiz d o B
preencher um espaço
vazio que a gente não
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consegue preencher,
com a memória
ancestral que as
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pessoas de origem
negra nos contam”.

Pedro Barreto

T
ina, vai acender esse
cachimbo”, mandava
Amélia Rezadeira à fi-
lha Clementina, entre uma e outra
peça de roupa lavada à beira do rio.
“Sim, senhora”, respondia a pequena
Clementina, “aspirando o cheiro-
gosto áspero do fumo de rolo pica-
do, aquilo se grudando na garganta,
temperando as cordas vocais”, relata
a jornalista Lena Frias, no artigo “A
saga de uma rosa negra”, publicado
em Rainha Quelé: Clementina de
Jesus (Prefeitura de Valença e Finep,
2001), organizado pelo diretor tea-
tral e musical Heron Coelho.
E assim foi se formando, desde a
tenra infância, aquela “voz singular,
rascante e musguenta”, como des-
creve Hermínio Bello de Carvalho,
compositor, produtor cultural, poeta
e, acima de tudo, descobridor do ta-
lento de Clementina de Jesus. Foi em
15 de agosto de 1963, durante a festa
em homenagem a Nossa Senhora
da Glória, na base do Outeiro, que Hermínio descobriu Na meninice, convidada pelo vizinho João Cartolinha, ro. Hermínio Bello de Carvalho recorda o que aconteceu
a católica e misseira Quelé, como também era conhecida, aprendeu a cantar ranchos pastoris, de tradição católica naquela noite de março de 1965: “Clementina tinha no
entoando sambas, jongos, corimás, caxambus e lundus, portuguesa, incorporada aos folguedos do Carnaval ca- repertório uma coisa absolutamente de gênio, e o povo
herança africana dos avós, escravos forros de engenhos rioca no início do século XX. No cortejo que saía às ruas urrava, ninguém entendeu nada. Aquela preta velha linda
do Sul Fluminense. Hermínio vinha da praia, ainda em na noite de Natal recolhendo brindes, comidas e doces, no palco. Ela tinha um negócio bonito de mãos, cantava
trajes de banho, para homenagear a santa e “tomar umas” Clementina interpretava a pastora Peixeira. Foi também fazendo aquele negócio, e quando ela levantava para dan-
na Taberna da Glória. Foi ali, na “festa profana em louvor João Cartolinha que a levou a Oswaldo Cruz, onde teve çar aqueles partidos-altos, aquelas batucadas, aí o público
à Senhora do Outeiro”, que escutou pela primeira vez a voz seu primeiro contato com sambistas como a zelado- vinha abaixo, diante de algo muito novo para ele”.
áspera de timbre singular, saída dos pulmões daquela ne- ra de santo Dona Esther, o macumbeiro Mané Pesado Em 1966, Clementina representou o Brasil no Festi-
gra já sexagenária. e a mãe de santo Maria de Neném, madrinha de Laís, val de Arte Negra, no Senegal, e no Festival de Cinema
Difícil identificar que havia ali o elo perdido das mais primeira filha de Clementina. Católica praticante, Que- de Cannes, na França, onde dividiu o tapete vermelho
legítimas tradições de ancestralidade africana, um dia- lé frequentava as cerimônias nos terreiros de Oswaldo com Sophia Loren. Mas todo o carinho de seus pares foi
mante em estado bruto? “Não foi difícil. Já tinha o pa- Cruz unicamente em razão da música. “Eu gostava de demonstrado no espetáculo realizado no Theatro Muni-
râmetro de outra voz cheia de estranhezas: Pastora Pa- cantar, porque tinha prazer”, afirma Clementina, em cipal, em agosto de 1983. Idealizada pelo então secretário
vón, La Niña de los Peines, grande fonte de inspiração depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS), estadual de Cultura, Darcy Ribeiro, a iniciativa chegou
para Garcia Lorca”, explica Hermínio Bello de Carvalho. em 25 de setembro de 1967. No entanto, incorporou o a assustar as senhoras da high society, ao verem o
“Clementina vem preencher um espaço vazio que a gente traço ritual de tradições afro-brasileiras: um lanho no palco centenário dominado por sambistas tais
não consegue preencher, com a memória ancestral que peito, para fechar o corpo, aprendido nas cerimônias em como João Nogueira, Beth Carvalho, Paulinho
as pessoas de origem negra nos contam”, analisa Regi- Oswaldo Cruz. da Viola e Elizethe Cardoso. Todos a reverenciar
na Meirelles, professora da Escola de Música (EM) da Quelé. “Clementina é a voz de milhões de negros
UFRJ. “Baobá musical” desfeitos no fazimento do Brasil”, justificou Darcy
Impossível precisar a idade exata de Clementina, A primeira apresentação de Clementina para o gran- Ribeiro.
pois os registros de seu nascimento variam entre 1900 de público aconteceu no dia 7 de dezembro de 1964, a par- O último show aconteceu em 24 de maio de
e 1907. O fato é que ainda jovem veio com a família tir do “Movimento Menestrel”, idealizado por Hermínio e 1987, em um restaurante no Méier. Já idosa e po-
morar em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. O pai, o realizado no Teatro Jovem, ao lado do violonista Turíbio bre, a ex-empregada doméstica, rainha absoluta
violeiro Paulo, rejeitou o serviço de zelador que lhe foi Santos. O sucesso de crítica e público fez com que, no do Partido-Alto, passava dificuldades no final da
oferecido. Festeiro, não aceitou a condição imposta de ano seguinte, Hermínio criasse, no mesmo local, o espe- vida, vítima de empresários aproveitadores. “Ela é um
não receber gente em casa. Restou a Amélia Rezadeira táculo “Rosa de Ouro”, uma ampliação do “Menestrel”, baobá musical maltratado e explorado”, disse, à época,
entregar-se ao ofício de tirar quebranto, ventre virado, com mais componentes e de formato despojado. Ali, Hermínio Bello de Carvalho, em comparação à frondo-
olho gordo e espinhela caída. Já Clementina dedicou-se Clementina viveu seus melhores dias, ao lado de nomes sa árvore africana. Internada no dia 16 de junho, após o
aos afazeres domésticos, trabalho que exerceu até pouco como Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Paulinho da quinto derrame cerebral em poucos anos, Clementina de
depois de iniciar a carreira artística. Viola e Anescar Pereira Filho, o Nescarzinho do Salguei- Jesus da Silva faleceu no dia 19 de julho.