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Brasil poder

o mentiroso
não sou eu
em entrevista exclusiva, o ex-ministro da Justiça diz que apresentará provas de suas acusações
contra o presidente e que o governo Bolsonaro nunca priorizou o combate à corrupção
policarpo junior e laryssa borges

Q
uando Sergio Moro de- misericórdia no país ó uma tremenda fazê-lo, as provas que mostram que o
cretou as primeiras pri- ilusão, segundo o próprio Moro. presidente tentou, sim, interferir inde-
sões da Operação Lava- “O combate à corrupção não é prio- vidamente na Polícia Federal. Um
Jato, em 2014, ninguém ridade do governo”, revela o agora ex- pouco abatido, o ex-ministro também
imaginava que começaria ministro da Justiça, que foi descobrin- se disse desconfortável no papel que o
ali uma revolução de con- do aos poucos que embarcara numa destino lhe reservou: “Nunca foi mi-
sequências históricas pa- fria. Ele estava em casa na madrugada nha intenção ser algoz do presidente”.
ra a política, a economia e da sexta 24 quando soube que o dire- Desde que deixou o ministério, ele
o combate à corrupção no tor-geral da Polícia Federal fora demiti- passou a ser hostilizado brutalmente
Brasil. Em quatro anos, as do pelo presidente. Mas o episódio foi a pelas redes bolsonaristas. “Traidor”
investigações revelaram a existência gota díágua de uma relação tumultua- foi o adjetivo mais brando que rece-
de uma monumental estrutura que ti- da. Havia tempo o presidente não es- beu. Mas o fato é que Bolsonaro nun-
nha como membros ativos as maiores condia a intenção de colocar no cargo ca confiou em Moro. Sempre viu nele
empreiteiras do país, altos dirigentes alguém de sua estrita confiança. Bolso- um potencial adversário, alguém que
de empresas estatais e políticos de to- naro frequentemente reclamava da fal- no futuro poderia ameaçar seu projeto
dos os quilates ó de deputados a presi- ta de informações, em especial sobre de poder. Na entrevista, o ex-ministro,
dentes da República. Todos se nutrin- inquéritos que tinham como investiga- no entanto, garante que a política não
do da mesma fonte de um esquema dos amigos, correligionários e parentes está em seus planos ó ao menos por
que, durante anos, desviou mais de dele. Moro classificou a decisão do pre- enquanto. Na quarta-feira 29, durante
40 bilhões de reais dos cofres públi- sidente de pôr um parceiro no coman- a conversa com VEJA, Moro recebeu
cos, dinheiro convertido em financia- do da PF de uma manobra para final- um alerta de mensagem no telefone.
mento de campanhas eleitorais e pro- mente ter acesso a dados sigilosos, deu Ele colocou os óculos, leu e franziu a
pina. O caso fulminou biografias, a isso o nome de interferência política e, testa. “O que foi, ministro?” “O presi-
quebrou empresas, arrasou partidos na sequência, pediu demissão. Bolso- dente da República anunciou que vai
políticos e desmascarou muita gente naro, por sua vez, disse que a nomea- divulgar um ‘vídeo-bombaí contra
que se dizia honesta. A histórica im- ção do diretor da PF é de sua compe- mim.” “E o que o senhor acha que é?”,
punidade dos poderosos levou uma tência e que as acusações de Moro não perguntamos. Moro respirou fundo,
surpreendente rasteira ó e abriu ca- eram verdadeiras. O Supremo Tribunal ameaçou falar alguma coisa, mas se
Cristiano mariz

minho para que um outsider chegasse Federal mandou abrir um inquérito pa- conteve. A guerra está só começando.
à Presidência da República. Com a ra apurar suspeitas de crime. Acompanhe nas próximas páginas os
eleição de Jair Bolsonaro e a nomea- Em entrevista exclusiva a VEJA, principais trechos desta conversa.
ção de Sergio Moro para o Ministério Moro revelou que não vai admitir ser
da Justiça, muitos apostaram que a chamado de mentiroso e que apresen- até o fim Sergio Moro:
corrupção sistêmica sofreria o golpe de tará à Justiça, assim que for instado a “Não recuo em nada do que afirmei”

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Brasil Poder

“O COMBATE À
CORRUPÇÃO NÃO É
PRIORIDADE DO GOVERNO”
O ex-ministro Sergio Moro recebeu
VEJA em seu apartamento em
Brasília. Na entrevista, que durou
duas horas, ele lembrou que
aceitou o cargo de titular da Justiça
diante do compromisso assumido
por Bolsonaro com o combate à
corrupção. Aos poucos, porém, foi
percebendo que esse discurso não
encontrava sustentação na prática
do governo ó e fcou bastante
incomodado quando viu o presidente
se aproximar de políticos suspeitos:

“Sinais de que o combate à corrupção


não é prioridade do governo foram sur-
gindo no decorrer da gestão. Começou
com a transferência do Coaf para o Mi-
nistério da Economia. O governo não se
movimentou para impedir a mudança.
Depois, veio o projeto anticrime. O Mi-
nistério da Justiça trabalhou muito para
que essa lei fosse aprovada, mas ela so-
freu algumas modifcações no Congres-
alex Farias/Photo Press/FolhaPress

so que impactavam a capacidade das


instituições de enfrentar a corrupção.
Recordo que praticamente implorei ao
presidente que vetasse a fgura do juiz de
garantias, mas não fui atendido. É bom
ressaltar que o Executivo nunca nego-
ciou cargos em troca de apoio, porém
mais recentemente observei uma apro-
ximação do governo com alguns políti-
cos com histórico não tão positivo. E, Maurício Valeixo, desde que houvesse pronunciamento. Esclarecimentos
por último, teve esse episódio da demis- uma causa, uma insuficiência de de- adicionais farei apenas quando for ins-
são do diretor da Polícia Federal sem o sempenho, um erro grave por ele co- tado pela Justiça. As provas serão
meu conhecimento. Foi a gota díágua”. metido ou por algum de seus subordi- apresentadas no momento oportuno,
nados. Isso faz parte da administração quando a Justiça solicitar.
O senhor acusou o presidente Bolso- pública, mas, como não me foi apresen-
naro de interferir politicamente na tada nenhuma causa justifcada, enten-
Polícia Federal. Tem provas disso? di que não poderia aceitar essa substi- “NÃO POSSO ADMITIR
O presidente tem muito poder, tem tuição e saí do governo. É uma questão
prerrogativas importantes que têm de de respeito à regra, respeito à lei, res-
QUE O PRESIDENTE ME
ser respeitadas, mas elas não podem peito à autonomia da instituição. CHAME DE MENTIROSO”
ser exercidas, na minha avaliação, ar- O presidente Bolsonaro rebateu
bitrariamente. Não teria nenhum pro- E quais eram as motivações políti- as acusações do ex-ministro.
blema em substituir o diretor da PF cas? Reitero tudo o que disse no meu Ele negou que houvesse tentativa

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recado Moro, em relação
a Bolsonaro: “Ele sabe quem
está falando a verdade”

Zambelli. O presidente havia dito uma


inverdade de que meu objetivo era
trocar a substituição do diretor da PF
por uma vaga no Supremo. Eu jamais
faria isso. Infelizmente, tive de revelar
aquela mensagem para provar que es-
tava dizendo a verdade, que não era
eu que estava mentindo”.

Na mensagem, Bolsonaro cita uma


investigação sobre deputados alia-
dos e afrma que aquilo era motivo
para trocar o diretor da PF. O que
exatamente queria o presidente?
Desculpe, mas essa é uma questão que
também vai ter de ser examinada den-
tro do inquérito que foi aberto no Su-
premo Tribunal Federal para investi-
gar esse caso. Reitero a minha posi-
ção. Uma vez dito, é aquilo que foi di-
to. Não volto atrás. Seria incoerente
com o meu histórico ceder a qualquer
intimidação, seja virtual, seja verbal,
seja por atitudes de pessoas ou de ou-
tras autoridades.

O senhor sofreu algum tipo de


ação intimidatória após as revela-
ções que fez? Atacaram minha espo-
sa e estão confeccionando e divul-
gando dossiês contra ela com infor-
mações absolutamente falsas. Ela
nunca fez nada de errado. Nem eu
de interferência política na Polícia do presidente ele afrmou falsamente nem ela fzemos nada de errado. Es-
Federal e acusou Sergio Moro de que eu estava mentindo. Embora eu ses mesmos métodos de intimidação
tentar negociar a demissão do diretor tenha um grande respeito pelo presi- foram usados lá trás, durante a Lava-
da PF em troca de sua nomeação dente, não posso admitir que ele me Jato, quando o investigado e proces-
para uma vaga no Supremo Tribunal chame de mentiroso publicamente. sado era o ex-presidente Lula.
Federal. Moro conta por que divulgou Ele sabe quem está falando a verdade.
uma mensagem trocada entre ele Não só ele. Existem ministros dentro
e a deputada federal Carla Zambelli do governo que conhecem toda essa “NUNCA FOI MINHA
(PSL-SP) e outra entre ele e Bolsonaro: situação e sabem quem está falando a
verdade. Por esse motivo, apresentei
INTENÇÃO SER ALGOZ
“Eu apresentei aquelas mensagens. aquela mensagem, que era um indica- DO PRESIDENTE”
Não gostei de apresentá-las, é verda- tivo de que eu dizia a verdade, e tam- Depois das denúncias de Moro, o
de, mas as apresentei única e exclusi- bém apresentei a outra mensagem, Supremo Tribunal Federal determinou
vamente porque no pronunciamento que lamento muito, da deputada Carla que fosse aberto um inquérito para

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Brasil Poder

Fabio RodRigues Pozzebom/agência bRasil

a lenda O ex-juiz da Lava-Jato era, até dias atrás, tratado como “herói” pelos militantes bolsonaristas, mas,...

apurar se o presidente tentou Não tenho medo de ofensa na internet, do governo e explicar por que estava
de fato aparelhar a PF para não. Me desagrada e tal, mas se al- saindo. Essa é a verdade.
fns políticos. Em seu parecer, guém acha que vai me intimidar con-
o procurador-geral da República, tando inverdades a meu respeito no Qual é hoje a sua opinião sobre o
Augusto Aras, pediu que também WhatsApp ou na internet está muito presidente Bolsonaro? Pessoalmen-
fossem investigados os crimes enganado sobre minha natureza”. te, gosto dele. No governo, acho que
de denunciação caluniosa e contra há vários ministros competentes e téc-
a honra — ilícitos que, em tese, O senhor recebeu mais críticas ou nicos. O fato de eu ter saído do gover-
podem ter sido praticados por Moro: apoios por se demitir do cargo e no não implica qualquer demérito em
acusar o presidente? A opinião pú- relação a eles. Fico até triste porque
“Entendi que a requisição de aber- blica compreendeu o que eu disse e os considero vários deles pessoas com-
tura desse inquérito que me aponta motivos da minha fala. É importante petentes e qualifcadas, em especial o
como possível responsável por calú- deixar muito claro: nunca foi minha ministro da Economia. Espero que o
nia e denunciação caluniosa foi inti- intenção ser algoz do presidente ou governo seja bem-sucedido. É o que o
midatória. Dito isso, quero afirmar prejudicar o governo. Na verdade, la- país espera, no fundo. Quem sabe a
que estou à disposição das autorida- mentei extremamente o fato de ter de minha saída possa fomentar um com-
des. Os ataques mais virulentos vie- adotar essa posição. O que eu fz e en- promisso maior do governo com o
ram principalmente por redes virtuais. tendi que era minha obrigação foi sair combate à corrupção.

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Pedro Ladeira/FoLhaPress

imagem queimada ...depois das acusações que fez contra o presidente, foi alvo de ataques e chamado de “traidor”

“NÃO QUERO PENSAR mente o combate à pandemia. Estou de que eu teria apoio nessas políticas
dando entrevista aqui porque tenho de combate à corrupção. Isso foi um
EM POLÍTICA sido sucessivamente atacado pelas re- compromisso descumprido. Não pos-
NESTE MOMENTO” des sociais e pelo próprio presidente. so voltar para a magistratura. Eu me
Hoje mesmo, quarta, ele acabou de encontro, no momento, desemprega-
Em todas as grandes manifestações dar declarações, ontem deu declara- do, sem aposentadoria. Tudo bem,
dos apoiadores do presidente, ções. Venho sendo atacado também tem gente em situação muito mais di-
a fgura do ex-ministro da Justiça por parte das pessoas que o apoiam fícil que a minha. Não quero aqui fcar
sempre ocupou lugar de destaque. politicamente. Tudo o que estou fa- reclamando de nada. Pedi a quarente-
Após sua demissão, ele passou a zendo é responder a essas agressões, na para ter um sustento durante al-
ser tratado nas redes sociais como às inverdades, às tentativas de atingir gum tempo e me reposicionar, prova-
traidor e oportunista que estaria minha reputação”. velmente no setor privado.
tirando proveito político em um
momento de fragilidade do governo: O que o senhor pretende fazer a Não pensa em entrar definitiva-
partir de agora? Estou num período mente na política? Minha posição
“Lamento ter de externar as razões de quarentena. Tive 22 anos de magis- sempre foi de sentido técnico. Vou
da minha saída do governo durante tratura. Deixei minha carreira com continuar buscando realizar um tra-
esta pandemia. O foco tem de ser real- base em uma promessa não cumprida balho técnico, agora no setor priva-

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Brasil Poder

do. Não tenho nenhuma pretensão O senhor tem medo de sofrer al-
eleitoral. Não me filiei a partido al- gum atentado? Certamente. Sigo
gum. Nunca foi meu plano. Estou tendo a proteção da Polícia Federal.
num nível de trabalho intenso desde Não gosto de falar muito nesse as-
2014. Quero folga. E não quero pen- sunto. Isso é algo que assusta pessoas
sar em política neste momento. próximas a mim.

“PODE EXISTIR UM Foi por isso que, antes de aceitar o


cargo, o senhor pediu ao presidente
MANDANTE DO CRIME” uma pensão caso lhe acontecesse al-
Um dos motivos do desgaste de go? Achei engraçado algumas pessoas
Sergio Moro e da direção da PF dizerem que seria um crime da minha
foi a investigação do atentado parte. O que aconteceu foi o seguinte:
que Bolsonaro sofreu durante a como eu larguei a magistratura, perdi
campanha. O presidente não acredita a aposentadoria e a pensão. E, como eu
que o garçom Adélio Bispo de Oliveira sabia que nós seríamos frmes contra a
agiu sozinho. Crê numa conspiração criminalidade violenta, contra o crime
política patrocinada por adversários. organizado e contra a corrupção, o
A polícia nunca encontrou nenhuma que externei ao presidente foi um dese-
jo de que, se algo me acontecesse du-

Pedro ladeira/FolhaPress
prova concreta disso. Questionado
sobre o assunto, o ex-ministro diz rante a gestão, como eu havia perdido
que a hipótese não é absurda: a pensão, minha família não ficasse
desamparada. Certamente teria de ser
“Existe uma forte suspeita de que o analisada juridicamente a viabilidade
Adélio tenha agido a mando de outra disso, e a aprovação através de uma
pessoa. A Polícia Federal fez a investi- lei. A condição para que a pensão fosse risco de processo Aras: pedido de in
gação. Como o presidente é vítima
neste caso, nós fzemos uma apresen-
tação no primeiro semestre de 2019
no Planalto. Os delegados apresenta-
ram todo o resultado da investigação
até aquele momento. Pende para o f-
nal da investigação um pedido de exa-
me do aparelho celular de um advoga-
do do Adélio. A polícia buscou esse
acesso, e isso foi obstado pelas Cortes
de Justiça, e ainda não há uma decisão
defnitiva. Depois do exame desse ce-
lular, o inquérito poderá ser concluí-
do. Esse é o conteúdo de inquérito que
foi mostrado ao presidente, não é ile-
gal, já que ele é a vítima e tem, como
vítima, a meu ver, o direito de ter es-
sas informações. Não é nenhuma
questão só do crime em si, mas um ca-
so de segurança nacional. A suspeita
de que pode existir um mandante in-
telectual do crime não pode ser des-
divulgação

cartada. Enquanto não se tem a con-


clusão da investigação, não se pode
ter um juízo defnitivo”. Mandante Adélio, que tentou matar o presidente: caso ainda não encerrado

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paga seria a minha morte. Só externei
que, caso eu fosse morto em combate,
fosse garantida uma pensão integral à
minha família, correspondente aos
vencimentos de ministro.

O senhor se arrepende de ter larga-


do a magistratura para entrar no go-
verno Bolsonaro? Não. A gente tem
esse espelho da Operação Mãos Lim-
pas, na Itália. Foi feito um trabalho fan-
tástico lá pelos juízes, mas houve um
retrocesso político na Itália naquela
época. Eles lamentavam muito. Embo-
ra soubesse que minha ida para o go-
verno seria controversa, o objetivo
sempre foi continuar defendendo a
bandeira anticorrupção, evitando re-
trocessos. Não, não me arrependo.
Acho que foi a decisão acertada naque-
le momento. Agradeço ao presidente
por ter me acolhido. Assumi um com-
promisso com ele que era muito claro:
combate à corrupção, ao crime organi-
zado e à criminalidade violenta. Eu me
investigação por denunciação caluniosa e crime contra a honra do presidente mantive fel a esse compromisso. ƒ
Raysa LeiTe/aFP

CONSPIRAÇÃO A facada: o ex-ministro diz que ainda existem “suspeitas” de que o atentado possa ter um mandante

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BRAsil CONGREssO

REPRODUÇÃO VíDEO

“NOVO” GOVERNO,
Qualquer um pode, se eu der, por
exemplo um ministério para um par-
tido com o objetivo de comprar voto,
me questionar que estou interferindo

VELHA POLÍTICA
no livre exercício do Poder Legislati-
vo”, afirmou. Segunda-feira, 20 de
abril de 2020: o presidente aparece
em outro vídeo, agora de um encon-
Acossado pela crise, Bolsonaro busca o Centrão para reforçar sua tro cheio de sorrisos com o deputado
base e barrar impeachment EDOARDO GHIROTTO, JOÃO PEDROSO DE Arthur Lira (Progressistas-AL), um
CAMPOS, MARCElA MATTOS, NONATO VIEGAS e RObERTA PADuAN dos líderes do Centrão, que reúne
mais de 200 parlamentares e é decisi-
SÁbado, 27 de outubro de 2018, ca, sem o toma lá dá cá que marcou a vo para aprovar ó ou barrar ó qual-
véspera do segundo turno da eleição história brasileira. “Qualquer presi- quer coisa no Congresso. E que fez fa-
presidencial. O candidato Jair Bolso- dente que, porventura, distribua mi- ma pela desenvoltura com que nego-
naro posta nas redes sociais um vídeo nistérios, estatais ou diretorias de cia cargos em qualquer gestão em
para reforçar um de seus principais banco para conseguir apoio no Parla- troca de apoio. O bloco anda agora
compromissos de campanha: estabe- mento está infringindo o artigo 85, em estágio avançado de namoro com
lecer uma nova forma de fazer políti- inciso II, da Constituição. E daí? o governo que chegou ao poder di-

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AMIGOS O presidente e Arthur Lira: o
deputado costura o apoio de Bolsonaro
ao seu desejo de presidir a Câmara

zendo que jamais repetiria os vícios


da chamada velha política. Nos últi-
mos anos, Bolsonaro passou de um
fenômeno eleitoral que deixou na
poeira os partidos tradicionais a um
governante acossado por uma grave
crise, desencadeada na esteira da
pandemia do coronavírus, mas ana-
bolizada por sua capacidade inesgo-
tável de cavar dia após dia o seu isola-
mento político. Acuado, percebeu que
só resta costurar uma coalizão nos
moldes tradicionais. O movimento é
eticamente questionável, sobretudo
para alguém que jurou não recorrer a
esse tipo de expediente. Do ponto de
vista prático, porém, faz todo o senti-
do: pode garantir governabilidade e,
de quebra, um colchão de apoio con-
tra o fantasma do impeachment.
A aproximação com o Centrão re-
presenta um dos principais atos da
tentativa de uma refundação da ges-
tão Bolsonaro às pressas, concebida
dentro do Palácio do Planalto. A pri-
meira versão do governo acabou na
sexta-feira 24, com a traumática saída
de Sergio Moro do Ministério da Justi-
ça (veja a reportagem na pág. 30). O
rompimento com o herói da Lava-Jato
e as conversas avançadas com a por-
ção mais fisiológica do Parlamento
mostram que, em sua nova fase, o go-
verno prefere enrolar a bandeira anti-
corrupção agitada com entusiasmo no
pleito de 2018 em troca do pragmatis-
mo político capaz de garantir sua so-
brevivência. Os principais líderes do
FOTOS PedrO Ladeira/FOLhaPreSS

bloco são investigados, indiciados,


denunciados, réus ou condenados por
corrupção. Alguns estiveram até pre-
sos, como Valdemar Costa Neto (PL)
e Roberto Jefferson (PTB), dois perso-
nagens célebres do escândalo do men-
salão. Diante do aumento da instabili-
O retOrnO dOS... Jefferson: de ...MenSAleIrOS Costa Neto: dade de seu mandato, Bolsonaro terá
ex-detento a interlocutor do governo da prisão para o Banco do Nordeste de ceder cada vez mais às velhas rapo-

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BRAsil CONGREssO

Ueslei Marcelino/reUTers

NEGOCIADOR Braga Netto: símbolo da ascensão militar no Palácio, o general comanda articulação por nova base política

sas de Brasília em busca de salvação. nha com o presidente de seu partido, presidência da Câmara em 2021 com
Não que seja neófito nisso. Um pri- senador Ciro Nogueira (PI) ó este o apoio do bolsonarismo. “Já fui do PP
meiro ensaio se deu com a reforma da acusado pela Odebrecht de receber 7,3 (antigo nome do Progressistas) por
Previdência, quando prometeu emen- milhões de reais como propina ó, pa- mais de dez anos. Por que não vou
das e cargos para aprovar o projeto. ra abocanhar o que pode. De quebra, conversar com eles que foram meus
Mas à época sofreu com uma articula- Lira tenta se cacifar também para colegas?”, questionou Bolsonaro na
ção política mambembe. Agora, tenta substituir Rodrigo Maia (DEM-RJ) na terça 28. O partido aguarda a nomea-
formar uma base política que garanta ção de Marcelo Lopes da Ponte, ex-
um mínimo de estabilidade para ele chefe de gabinete de Nogueira, para a
no Parlamento. Para evitar o afasta- presidência do Fundo Nacional de De-
mento, são necessários 172 votos, de senvolvimento da Educação (FNDE),
um total de 513 deputados. Parece cujo orçamento é de 54 bilhões. Tam-
pouco, mas hoje o presidente tem, for- bém está de olho na Superintendência
malmente, apenas o apoio de metade de Seguros Privados (Susep) e em se-
do PSL ó cerca de 25 parlamentares. cretarias do Ministério da Agricultu-
A ida do governo ao balcão de ne- ra. Ainda disputa a presidência do
gócios da política vai custar caro. O Banco do Nordeste com o PL, dirigido
adriano Machado/reUTers

Centrão já colocou para circular a lis- por Costa Neto, que já tem reservada a
ta dos cargos que precisam estar na Secretaria de Vigilância em Saúde, o
mesa de negociação. O novo amigo principal órgão de formulação de es-
do presidente, Arthur Lira ó cuja ex- tratégias contra o coronavírus. O ex-
mulher Jullyene Lins afirmou a VEJA ministro Gilberto Kassab (PSD) pode
em dezembro passado que ele tem um PRÓXIMA VÍTIMA? ficar com a Fundação Nacional de
patrimônio oculto de pelo menos 40 Tereza Cristina: ela é contra ceder Saúde (Funasa) e parte do Ministério
milhões de reais ó, atua em dobradi- cargos em seu ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e

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son (PTB) saiu da sombra. Em tom de
denúncia, passou a alardear um plano
articulado por Maia para derrubar o
governo. Enquanto isso, em silêncio,
trabalha para a recriação do Ministé-
rio do Trabalho, que a sigla já contro-
lou no passado. “Falta discutirmos
mais seriamente com os deputados
para oficializarmos (a aliança)”, afir-
mou Jefferson. As negociações em an-
damento poderão ter o efeito colateral
de levar a novas defecções no gover-
no. A ministra Tereza Cristina (DEM),
da Agricultura, cansada de atuar co-
mo bombeira nas sucessivas crises
Maryanna Oliveira/CaMara dOs deputadOs

com o agronegócio, ameaça deixar o


cargo se o Palácio do Planalto lotear
os postos que controla. Marcos Pon-
tes, titular da pasta de Ciência, Tecno-
logia, Inovações e Comunicações, é
outro cotado para deixar o governo na
bolsa de apostas de Brasília, caso um
naco importante de seu ministério se-
ja entregue a Kassab.
DONO DA BOLA Maia: mais de trinta pedidos de impeachment em suas mãos O desenho do “governo Bolsonaro
ó parte 2” é feito com a participação
Comunicações. A negociação é tão consigam brilhar na ponta da linha”, efetiva da ala militar, cujo líder é Bra-
explícita que o deputado Paulinho da diz uma liderança palaciana. Um dos ga Netto, sempre à mesa com o Cen-
Força (Solidariedade -SP) disse a que andam anotando esse tipo de pe- trão, ao lado de outro general da cú-
quem quisesse ouvir que o governo dido é o líder do governo no Congres- pula, o ministro Luiz Eduardo Ramos
havia lhe oferecido o Porto de San- so, senador Eduardo Gomes (MDB- (Secretaria de Governo). Braga Netto
tos, histórico polo de falcatruas, mas TO). Foi ele quem articulou a ida de se tornou, na prática, o novo supermi-
que ele recusara porque não era a ho- Flávio Bolsonaro ao Republicanos, nistro, principalmente porque, em
ra de entrar no governo ó mas, é cla- presidido pelo pastor e deputado Mar- meio à crise, tem feito a máquina an-
ro, segue negociando. cos Pereira (SP), que reivindica a Se- dar. “Nenhum governo dá certo sem
Parlamentares que acompanham cretaria Nacional de Mobilidade e a coordenação, e nós perdemos muito
as barganhas explicam que a intenção Companhia Nacional de Abasteci- por falta de uma pessoa com o perfil
do Planalto é esvaziar uma das princi- mento (Conab), além de uma vice- do Braga. Ele tem método de traba-
pais atribuições de Maia: a de montar presidência da Caixa, que já ocupou lho, é o típico milico: coordena, defi-
a famosa lista de cargos em estatais. no governo de Michel Temer. À épo- ne meta e cobra prazo”, afirmou um
Com o governo sem base no Congres- ca, Joesley Batista, dono da JBS, afir- dos auxiliares do presidente. Além da
so, até agora cabia a Maia colher as mou que a direção do banco facilitou trombada com Paulo Guedes (Econo-
reivindicações dos deputados e levá- um empréstimo de 2,7 bilhões de reais mia) em torno do controverso progra-
las aos articuladores do governo. A à companhia em troca de propina de 6 ma de investimentos públicos Pró-
diferença apontada por deputados é milhões de reais a Pereira. Já o MDB Brasil (veja a reportagem na pág. 56),
que antes os pedidos não avançavam e no Senado quer a Companhia de De- Braga Netto entrou em campo para
ficavam restritos a postos de menor senvolvimento dos Vales do São Fran- tentar apaziguar o então ministro da
influência. “Os cargos agora têm rele- cisco e do Parnaíba (Codevasf). O go- Saúde, Luiz Henrique Mandetta,
vância maior, têm uma abrangência verno, porém, já havia prometido que quando este desafiava abertamente
nacional e conseguem fazer com que deixaria o órgão com o DEM, que não Bolsonaro em suas entrevistas coleti-
todos os deputados daquele partido quer largar o osso. Até Roberto Jeffer- vas diárias sobre o coronavírus. Com

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BRAsil CONGREssO

a troca por Nelson Teich, os militares


emplacaram o número 2 da pasta, o
general Eduardo Pazuello. Braga
Netto também avançou sobre a área
de comunicação ó a peça de lança-
mento do Pró-Brasil foi feita em seu
gabinete, sem a participação da Se-
cretaria de Comunicação da Presi-
dência (Secom), chefiada por Fabio
Wajngarten. “O desempenho dele só
chama atenção porque o governo
nunca teve um ministro que exercesse
a função da Casa Civil. Onyx Loren-
zoni nunca atuou como coordenador
de ministérios nem como articulador
político”, diz o general da reserva
Maynard Santa Rosa, que chefiou a
Secretaria de Assuntos Estratégicos.
A ascensão militar envolveu o pró-
prio Mourão, que assumiu o renova-
do Conselho da Amazônia, que pas-
sou a abarcar catorze ministérios.
A chance de ser vitoriosa a emprei-
tada de Bolsonaro pela refundação de
seu governo é incerta. Depois de, no

ZeCa RiBeiRo/CamaRa dePUTadoS


início da gestão, ter tentado negociar
com bancadas temáticas, à margem
dos partidos, e ver a estratégia reve-
lar-se insuficiente pela falta de coe-
são entre os agrupamentos, ele agora
corre o risco de virar refém do que di-
zia abominar. Não só Bolsonaro é im-
previsível, como o Centrão também NÃO DEU CERTO Dilma: nem a aliança com o Centrão evitou o impeachment
não é conhecido por ser fiel. “Quando
o Bolsonaro se livrar dessa condição
mais delicada, ele próprio vai chutar
o Centrão. Do mesmo modo que, se o
Bolsonaro cair em popularidade, o
Centrão, depois de receber esses re-
cursos, vai pular fora”, afirma Antô-
nio Augusto Queiroz, analista políti-
co do Departamento Intersindical de
Assessoria Parlamentar (Diap). O
apelo ao bloco fisiológico na hora da
aLoiSio maURiCio/FoToaReNa

crise lembra as situações vividas por


Fernando Collor e Dilma Rousseff ó
em nenhum dos casos, o movimento
garantiu a sobrevivência. Em com-
pensação, funcionou com Michel Te-
mer, que barrou no Congresso duas
denúncias feitas pela Lava-Jato em DEU CERTO Temer: denúncias e pedidos de cassação barrados no Congresso

42 6 de maio, 2020

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