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Para a Crítica da

Economia Política [N271]

Karl Marx
Janeiro de 1859

Prefácio

Considero o sistema da economia burguesa por esta


ordem: capital, propriedade fundiária, trabalho assalariado;
Estado, comércio externo, mercado mundial. Sob as três
primeiras rubricas investigo as condições económicas de vida
das três grandes classes em que se decompõe a sociedade
burguesa moderna; a conexão das três outras rubricas salta
à vista. A primeira secção do livro primeiro, que trata do
capital, consiste dos seguintes capítulos:

1. a mercadoria;
2. o dinheiro ou a circulação simples;
3. o capital em geral.
Os dois primeiros capítulos formam o conteúdo do
presente fascículo. Tenho diante de mim todo o material sob
a forma de monografias, as quais foram redigidas, em
períodos que distam largamente uns dos outros, para minha
própria compreensão, não para o prelo, e cuja elaboração
conexa segundo o plano indicado dependerá de
circunstâncias exteriores.

Suprimo uma introdução geral[N272] que tinha esboçado


porque, reflectindo mais a fundo, me parece prejudicial toda
a antecipação de resultados ainda a comprovar, e o leitor
que me quiser de facto seguir terá de se decidir a ascender
do singular para o geral. Algumas alusões ao curso dos meus
próprios estudos político-económicos poderão, pelo contrário,
ter aqui lugar.

O meu estudo universitário foi o da jurisprudência, o qual


no entanto só prossegui como disciplina subordinada a par
de filosofia e história. No ano de 1842-43, como redactor da
Rheinische Zeitung[N174], vi-me pela primeira vez, perplexo,
perante a dificuldade de ter também de dizer alguma coisa
sobre o que se designa por interesses materiais. Os debates
do Landtag Renano sobre roubo de lenha e parcelamento da
propriedade fundiária, a polémica oficial que Herr von
Schaper, então Oberprásident da província renana, abriu com
a Rheinische Zeitung sobre a situação dos camponeses do
Mosela, por fim as discussões sobre livre-cambismo e tarifas
alfandegárias proteccionistas deram-me os primeiros motivos
para que me ocupasse com questões económicas. Por outro
lado, tinha-se nesse tempo — em que a boa vontade de"ir
por diante" repetidas vezes contrabalançava o conhecimento
das questões — tornado audível na Rheinische Zeitung um
eco do socialismo e comunismo francês, sob uma ténue
coloração filosófica. Declarei-me contra esta remendaria,
mas ao mesmo tempo confessei abertamente, numa
controvérsia com a Allgemeine Augsburger Zeitung273, que os
meus estudos até essa data não me permitiam arriscar eu
próprio qualquer juízo sobre o conteúdo das orientações
francesas. Preferi agarrar a mãos ambas a ilusão dos
directores da Rheinische Zeitung, que acreditavam poder
levar a anular a sentença de morte passada sobre o jornal
por meio duma atitude mais fraca deste, para me retirar do
palco público e recolher ao quarto de estudo.

O primeiro trabalho, empreendido para resolver as


dúvidas que me assaltavam, foi uma revisão crítica da
filosofia do direito que Hegel, um trabalho cuja introdução
apareceu nos Deutsch-Französische Jahrbücher[N13] publicados
em Paris em 1844. A minha investigação desembocou no
resultado de que relações jurídicas, tal como formas de
Estado, não podem ser compreendidas a partir de si mesmas
nem a partir do chamado desenvolvimento geral do espírito
humano, mas enraízam-se, isso sim, nas relações materiais
da vida, cuja totalidade Hegel, na esteira dos ingleses e
franceses do século XVIII, resume sob o nome de"sociedade
civil", e de que a anatomia da sociedade civil se teria de
procurar, porém, na economia política. A investigação desta
última, que comecei em Paris, continuei em Bruxelas, para
onde me mudara em consequência duma ordem de expulsão
do Sr. Guizot. O resultado geral que se me ofereceu e, uma
vez ganho, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode
ser formulado assim sucintamente: na produção social da
sua vida os homens entram em determinadas relações,
necessárias, independentes da sua vontade, relações de
produção que correspondem a uma determinada etapa de
desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A
totalidade destas relações de produção forma a estrutura
económica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue
uma superstrutura jurídica e política, e à qual correspondem
determinadas formas da consciência social. O modo de
produção da vida material é que condiciona o processo da
vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos
homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu
ser social que determina a sua consciência. Numa certa
etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas
materiais da sociedade entram em contradição com as
relações de produção existentes ou, o que é apenas uma
expressão jurídica delas, com as relações de propriedade no
seio das quais se tinham até aí movido. De formas de
desenvolvimento das forças produtivas, estas relações
transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma
época de revolução social. Com a transformação do
fundamento económico revoluciona-se, mais devagar ou
mais depressa, toda a imensa superstrutura. Na
consideração de tais revolucionamentos tem de se distinguir
sempre entre o revolucionamento material nas condições
económicas da produção, o qual é constatável rigorosamente
como nas ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas,
religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma, ideológicas, em
que os homens ganham consciência deste conflito e o
resolvem. Do mesmo modo que não se julga o que um
indivíduo é pelo que ele imagina de si próprio, tão-pouco se
pode julgar uma tal época de revolucionamento a partir da
sua consciência, mas se tem, isso sim, de explicar esta
consciência a partir das contradições da vida material, do
conflito existente entre forças produtivas e relações de
produção sociais. Uma formação social nunca decai antes de
estarem desenvolvidas todas as forças produtivas para as
quais é suficientemente ampla, e nunca surgem relações de
produção novas e superiores antes de as condições materiais
de existência das mesmas terem sido chocadas no seio da
própria sociedade velha. Por isso a humanidade coloca
sempre a si mesma apenas as tarefas que pode resolver,
pois que, a uma consideração mais rigorosa, se achará
sempre que a própria tarefa só aparece onde já existem, ou
pelo menos estão no processo de se formar, as condições
materiais da sua resolução. Nas suas grandes linhas, os
modos de produção asiático, antigo, feudal e,
modernamente, o burguês podem ser designados como
épocas progressivas da formação económica e social. As
relações de produção burguesas são a última forma
antagónica do processo social da produção, antagónica não
no sentido de antagonismo individual, mas de um
antagonismo que decorre das condições sociais da vida dos
indivíduos; mas as forças produtivas que se desenvolvem no
seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as
condições materiais para a resolução deste antagonismo.
Com esta formação social encerra-se, por isso, a pré-história
da sociedade humana.

Friedrich Engels, com quem mantive por escrito uma


constante troca de ideias desde o aparecimento do seu genial
esboço para a crítica das categorias económicas (nos
Deutsch-Französi-sche Jahrbücher), tinha chegado comigo,
por uma outra via (comp. a sua Situação da Classe Operária
em Inglaterra), ao mesmo resultado, e quando, na Primavera
de 1845, ele se radicou igualmente em Bruxelas, decidimos
esclarecer em conjunto a oposição da nossa maneira de ver
contra a [maneira de ver] ideológica da filosofia alemã, de
facto ajustar contas com a nossa consciência [Gewissen]
filosófica anterior. Este propósito foi executado na forma de
uma crítica à filosofia pós-hegeliana. O manuscrito(1*), dois
grossos volumes em oitavo, chegara havia muito ao seu
lugar de publicação na Vestefália quando recebemos a notícia
de que a alteração das circunstâncias não permitia a
impressão do livro. Abandonámos o manuscrito à crítica
roedora dos ratos de tanto melhor vontade quanto havíamos
alcançado o nosso objectivo principal — autocompreensão.
Dos trabalhos dispersos em que apresentámos então ao
público as nossas opiniões, focando ora um aspecto ora
outro, menciono apenas o Manifesto do Partido Comunista,
redigido conjuntamente por Engels e por mim, e um Discours
sur le libre échange publicado por mim. Os pontos decisivos
da nossa maneira de ver foram primeiro referidos
cientificamente, se bem que polemicamente, no meu escrito
editado em 1847, e dirigido contra Proudhon, Misere de la
philosophie, etc. Um estudo escrito em alemão sobre o
Trabalho Assalariado, em que juntei as minhas conferências
sobre este assunto proferidas na Associação dos Operários
Alemães em Bruxelas[N72], foi interrompido no prelo pela
revolução de Fevereiro e pelo meu afastamento forçado da
Bélgica ocorrido em consequência da mesma.

A publicação da Neue Rheinische Zeitung[N71] em 1848 e


1849, e os acontecimentos que posteriormente se seguiram
interromperam os meus estudos económicos, os quais só
puderam ser retomados em Londres no ano de 1850. O
material imenso para a história da economia política que está
acumulado no British Museum, o ponto de vista favorável
que Londres oferece para a observação da sociedade
burguesa, [e] finalmente o novo estádio de desenvolvimento
em que esta última pareceu entrar com a descoberta do ouro
da Califórnia e da Austrália determinaram-me a começar de
novo tudo de princípio e a trabalhar criticamente o novo
material. Estes estudos conduziram, em parte por si
mesmos, a disciplinas aparentemente muito distanciadas em
que eu tinha de permanecer menos ou mais tempo. Mas o
tempo ao meu dispor era nomeadamente reduzido pela
necessidade imperiosa de uma actividade remunerada. A
minha colaboração, agora de oito anos, no primeiro jornal
anglo-americano, o New-York Tribune[N163], tornou necessária,
como só excepcionalmente me ocupo com correspondência
jornalística propriamente dita, uma extraordinária dispersão
dos estudos. Entretanto, [os] artigos sobre acontecimentos
económicos notórios em Inglaterra e no Continente
constituíam uma parte tão significativa da minha colaboração
que fui obrigado a familiarizar-me com pormenores práticos
que ficam fora do âmbito da ciência da economia política
propriamente dita.

Este esboço sobre o curso dos meus estudos na área da


economia política serve apenas para demonstrar que as
minhas opiniões, sejam elas julgadas como forem e por
menos que coincidam com os preconceitos interesseiros das
classes dominantes, são o resultado duma investigação
conscienciosa e de muitos anos. À entrada para a ciência,
porém, como à entrada para o inferno, tem de ser posta a
exigência:
Qui si convien lasciare ogni sospetto
Ogni viltà convien che qui sia morta. (2*)
Karl Marx
Londres, em Janeiro de 1859

Notas de Rodapé:
(1*) Referência a A Ideologia Alemã. (retornar ao texto)
(2*) Aqui tem de se banir toda a desconfiança. Toda a cobardia tem aqui
de ser morta. (Dante Alighieri, A Divina Comédia.) (retornar ao texto)
Notas de Fim de Tomo:
[N13] Deutsch-Französische Jahrbücher (Anais Franco-Alemães) foram
publicados em Paris sob a direcção de K. Marx e A. Ruge em língua alemã.
Saiu apenas um número, duplo, em Fevereiro de 1844. Incluía as obras de
K. Marx Sobre a Questão Judaica e Para a Crítica da Filosofia do Direito de
Hegel. Introdução, assim como as obras de F. Engels Esboços para Uma
Crítica da Economia Política e A Situação em Inglaterra: “O Passado e o
Presente”, de Thomas Carlyle. Estes trabalhos traduzem a passagem
definitiva de Marx e Engels para o materialismo e o comunismo. A causa
principal do desaparecimento da revista foram as divergências de princípio
entre Marx e o radical burguês Ruge. (retornar ao texto)
[N71] Neue Rheinische Zeitung. Organ der Demokratie (Nova Gazeta
Renana. Órgão da Democracia): jornal que se publicou em Colónia sob a
direcção de Marx de 1 de Junho de 1848 a 19 de Maio de 1849; Engels
fazia parte da redacção. (retornar ao texto)
[N72] A Associação dos Operários Alemães de Bruxelas foi fundada por
Marx e Engels no final de Agosto de 1847 com vista a dar uma formação
política aos operários alemães residentes na Bélgica e a fazer propaganda
entre eles das ideias do comunismo científico. Sob a direcção de Marx e
Engels e dos seus colaboradores, a Associação tornou-se um centro legal
de agrupamento dos proletários revolucionários alemães na Bélgica. Os
melhores elementos da Associação faziam parte da organização de
Bruxelas da Liga dos Comunistas. A actividade da Associação dos Operários
Alemães de Bruxelas terminou pouco depois da revolução burguesa de
Fevereiro de 1848 em França, em virtude da prisão e da expulsão dos seus
membros pela polícia belga. (retornar ao texto)
[N163] Tribune: título abreviado do jornal burguês progressista The New-
York Daily Tribune (A Tribuna Diária de Nova Iorque), que se publicou entre
1841 e 1924. Entre Agosto de 1851 e Março de 1862 Marx e Engels
colaboraram no jornal. (retornar ao texto)
[N174] Rheinische Zeitung für Politik, Handel und Gewerbe (Gazeta Renana
sobre Política, Comércio e Indústria): jornal publicado em Colónia de 1 de
Janeiro de 1842 a 31 de Março de 1843. Marx colaborou no jornal a partir
de Abril de 1842, e em Outubro desse mesmo ano tornou-se seu redactor.
(retornar ao texto)
[N271] A obra de Marx Para a Crítica da Economia Política constitui uma
etapa importante na criação da Economia Política marxista. A redacção
deste livro foi precedida de quinze anos de investigação científica, no
decurso dos quais Marx estudou uma enorme quantidade de publicações e
elaborou as bases da sua teoria económica. Marx tencionava expor os
resultados do seu trabalho numa grande obra económica. Em Agosto-
Setembro de 1857 iniciou a sistematização do material recolhido e elaborou
um primeiro esboço do plano dessa obra. Nos meses seguintes elaborou
em pormenor o seu plano e decidiu publicar a obra por partes, em
fascículos separados. Depois de ter assinado um contrato com o editor de
Berlim F. Duncker, começou a trabalhar no primeiro fascículo, que foi
publicado em Junho de 1859.
Imediatamente a seguir à publicação do primeiro fascículo Marx dispôs-se a
publicar o segundo, no qual deviam ser tratados os problemas do capital.
No entanto, investigações suplementares obrigaram Marx a modificar o
plano inicial da sua grande obra. Em vez do segundo fascículo e dos
seguintes, Marx preparou O Capital, no qual incluiu, depois de as redigir de
novo, as teses fundamentais do livro Para a Crítica da Economia Política.
(retornar ao texto)
[N272] Trata-se da “Introdução” inacabada que Marx escreveu para a
grande obra económica que tinha projectado (ver a nota 271). (retornar ao
texto)
[N273] Allgemeine Augsburger Zeitung (Jornal Geral de Augsburg): jornal
reaccionário alemão fundado em 1798; entre 1810 e 1882 publicou-se em
Augsburg. Em 1842 publicou uma falsificação das ideias do comunismo e
do socialismo utópicos, que Marx desmascarou no seu artigo “O
Comunismo e o Allgemeine Zeitung de Augsburg”. (retornar ao texto)

Em todos os domínios científicos, desde há muito que os


alemães demonstraram que estão ao nível das restantes
nações civilizadas e, na maior parte deles, que são
superiores. Apenas uma ciência não contava com qualquer
nome alemão entre os seus corifeus: a Economia Política. A
razão é evidente. A Economia Política é a análise teórica da
sociedade burguesa moderna e pressupõe, portanto,
condições burguesas desenvolvidas, condições que, na
Alemanha, desde as guerras da Reforma e dos
Camponeses[N275] e, sobretudo, desde a Guerra dos Trinta
Anos[N276], não se puderam estabelecer durante séculos. A
separação da Holanda do Império[N277] afastou a Alemanha do
comércio mundial e reduziu de antemão o seu
desenvolvimento industrial às proporções mais mesquinhas;
e enquanto os alemães recuperavam tão penosa e
lentamente das devastações das guerras civis, enquanto
empregavam toda a sua energia cívica — que nunca foi
muito grande — na luta estéril contra as barreiras
alfandegárias e os regulamentos comerciais loucos que cada
príncipe em formato reduzido e cada pequeno barão do
Império impunham à indústria dos seus súbditos, enquanto
as cidades do Império entravam na decadência dos grémios
e do patriciado —, enquanto tudo isto se passava, a Holanda,
a Inglaterra e a França conquistavam os primeiros lugares no
comércio mundial, estabeleciam colónia atrás de colónia e
desenvolviam a indústria manufactureira ao mais alto grau,
até que, finalmente, a Inglaterra, por meio do vapor, que só
então deu valor às suas jazidas de carvão e de ferro, acedeu
ao cume do desenvolvimento burguês moderno. Enquanto,
porém, foi preciso conduzir uma luta contra uns restos tão
ridiculamente antiquados da Idade Média como aqueles que
entravaram até 1830 o desenvolvimento burguês material da
Alemanha, nenhuma Economia Política alemã foi possível.
Somente com o estabelecimento do Zollverein[N165] ficaram os
alemães em situação de poderem quando muito apenas
entender a Economia Política. A partir desse tempo, começou
de facto a importação da Economia inglesa e francesa para
proveito da burguesia alemã. Em breve os círculos científicos
e a burocracia se apoderaram da matéria importada e
trabalharam-na de uma maneira não muito digna do crédito
do "espírito alemão". Da misturada de cavaleiros de indústria
literatos, de comerciantes, pedantes e burocratas, gerou-se,
então, uma literatura económica alemã que, quanto a
sensaboria, falta de profundidade e de ideias, prolixidade e
plágio, só tem par no romance alemão. Entre as pessoas com
objectivos práticos, desenvolveu-se primeiro a escola
proteccionista dos industriais, cuja autoridade, List, foi ainda
o melhor que a literatura económica burguesa alemã
produziu, apesar de toda a sua obra gloriosa ter sido copiada
do francês Ferrier, criador teórico do sistema continental[N15].
Face a esta orientação, formou-se nos anos quarenta a
escola do livre-cambismo dos comerciantes nas províncias do
Báltico, que papaguearam os argumentos dos free-traders[N148]
ingleses com uma fé pueril, mas interessada. Por fim, entre
os pedantes e burocratas que tiveram de ocupar-se do lado
teórico da disciplina, havia áridos coleccionadores de
herbários sem crítica, como o senhor Rau, especuladores que
a armar ao esperto traduziam as proposições estrangeiras
num Hegelíano mal digerido, como o senhor Stein, ou
respigadores beletriantes no domínio "histórico-cultural",
como o senhor Riehl. O que acabou por sair daqui foi a
Cameralística[N278], um puré de toda a espécie de coisas
estranhas, regado com um molho económico ecléctico, do
tipo do que um licenciado em direito precisa de saber para o
exame de Estado.

Enquanto, deste modo, a burguesia, o pedantismo


académico e a burocracia, na Alemanha, ainda tinham
dificuldade em aprender de cor e em clarificar em alguma
medida os primeiros elementos da economia anglo-francesa
como dogmas intangíveis, fazia a sua aparição o partido
proletário alemão. Toda a sua existência teórica resultava do
estudo da Economia Política e do instante do seu
aparecimento data também a Economia alemã científica,
autónoma. Esta Economia alemã repousa essencialmente
sobre a concepção materialista da história, cujos traços
fundamentais são expostos brevemente no prefácio da obra
atrás citada(1*). Quanto ao principal, este prefácio foi já
reproduzido em Das Volk[N279], pelo que para ele remetemos.
Não apenas para a Economia, mas para todas as ciências
históricas (e são históricas todas as ciências que não são
ciências da natureza), foi uma descoberta revolucionária esta
proposição: "O modo de produção da vida material é que
condiciona o processo da vida social, política e espiritual";
todas as relações sociais e do Estado, todos os sistemas
religiosos e jurídicos, todas as visões teóricas, que emergem
na história, só podem, então, ser compreendidas se as
condições de vida materiais da época correspondente forem
compreendidas e se as primeiras forem derivadas destas
condições materiais. "Não é a consciência dos homens que
determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que
determina a sua consciência." A proposição é tão simples que
teria de ser evidente para quem não esteja preso nas malhas
do logro idealista. A coisa tem, porém, as mais altas
consequências revolucionárias, não apenas para a teoria,
mas também para a prática: "Numa certa etapa do seu
desenvolvimento, as forças produtivas materiais da
sociedade entram em contradição com as relações de
produção existentes ou, o que é apenas uma expressão
jurídica delas,com as relações de propriedade no seio das
quais se tinham até aí movido. De formas de
desenvolvimento das forças produtivas, estas relações
transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma
época de revolução social. Com a transformação do
fundamento económico revoluciona-se, mais devagar ou
mais depressa, toda a imensa superstrutura. [...] As relações
de produção burguesas são a última forma antagónica do
processo social da produção, antagónica não no sentido de
um antagonismo individual, mas de um antagonismo que
decorre das condições sociais de vida dos indivíduos; mas as
forças produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade
burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais
para a resolução deste antagonismo."(2*) A perspectiva de
uma poderosa revolução, da revolução mais poderosa de
todos os tempos, abre-se, portanto, perante nós, desde logo,
com a prossecução da nossa tese materialista e com a sua
aplicação ao presente.

Considerando, porém, as coisas mais de perto, verifica-


se logo também que a proposição de aparência tão simples
como a de que a consciência dos homens depende do seu ser
e não inversamente contunde directamente, logo nas suas
primeiras consequências, todo o idealismo, mesmo o mais
dissimulado. Todas as visões tradicionais e habituais acerca
de tudo o que é histórico são por ela negadas. Todo o modo
tradicional do raciocínio político cai por terra; toda a
patriótica nobreza de alma se levanta indignada contra uma
concepção tão desprovida de carácter. A nova maneira de
ver choca, portanto, necessariamente, não apenas os
representantes da burguesia, mas também a massa dos
socialistas franceses que querem levantar o mundo dos
gonzos com a fórmula mágica liberte, égalité, fraternité(3*).
Causou, porém, o mais consumado furor entre os
vociferadores democratas vulgares alemães. Apesar disso,
procuraram de preferência explorar as novas ideias,
plagiando-as, embora com rara incompreensão.

O desenvolvimento da concepção materialista, mesmo


sobre um único exemplo histórico, era um trabalho científico
que teria exigido um estudo tranquilo durante anos, pois é
evidente que, nesta matéria, nada se pode fazer com simples
frases, que só um material histórico em massa, criticamente
considerado e completamente dominado, pode habilitar para
a solução de uma tal tarefa. A revolução de Fevereiro lançou
o nosso partido na cena política e tornou-lhe, assim,
impossível a prossecução de fins puramente científicos.
Apesar disso, esta visão fundamental atravessa como fio
condutor todas as produções literárias do partido. Em todas
elas, em cada caso sempre se prova como a acção todas as
vezes brotou de impulsos materiais directos, e não das frases
que os acompanhavam e como, pelo contrário, as frases
políticas e jurídicas saíram dos impulsos materiais tal como a
acção política e os seus resultados.

Quando, depois da derrota da revolução de 1848/1849,


houve um momento em que a acção sobre a Alemanha a
partir do estrangeiro se tornava cada vez mais impossível, o
nosso partido abandonou o terreno das disputas de
emigração — pois essa era a única acção possível — à
democracia vulgar. Enquanto esta se agitava à saciedade,
andando hoje à pancada para amanhã confraternizar e
depois de amanhã, novamente, lavar toda a roupa suja
diante de toda a gente, enquanto ela ia por toda a América
pedir esmola para, logo de seguida, armar um novo
escândalo acerca da repartição dos tostões apanhados — o
nosso partido ficou contente por, de novo, encontrar alguma
calma para estudar. Tinha a grande vantagem de ter uma
nova visão científica como base teórica, cuja elaboração lhe
dava suficientemente que fazer; logo por isso nunca podia
descer tão baixo como os "grandes homens" da emigração.
O primeiro fruto destes estudos é o livro que temos
diante de nós.

II

Num escrito como este não se pode tratar de uma mera


critica desultória de capítulos isolados da Economia, do
tratamento separado desta ou daquela questão económica
polémica. Ele visa antes, desde logo, uma visão de conjunto
sistemática de todo o complexo da ciência económica, um
desenvolvimento coerente das leis da produção burguesa e
da troca burguesa. Como os economistas não são mais do
que os intérpretes e os apologistas destas leis, este
desenvolvimento é, ao mesmo tempo, a crítica de toda a
literatura económica.

Desde a morte de Hegel quase nenhuma tentativa foi


feita para desenvolver uma ciência no seu próprio
encadeamento interno. Da dialéctica do mestre, a escola
hegeliana oficial tinha-se apropriado apenas da manipulação
dos artifícios mais simples, que aplicava a toda e qualquer
coisa e, frequentemente ainda, com uma ridícula falta de
jeito. Todo o legado de Hegel se limitava, para ela, a um
puro chavão, com a ajuda do qual cada tema era construído
de uma forma apropriada, e a um índice de palavras e de
maneiras de dizer que não tinham qualquer outro fim do que
estarem presentes no momento certo em que as ideias e os
conhecimentos positivos faltassem. Aconteceu, assim, que,
tal como um professor de Bona disse, estes hegelianos não
percebiam nada de nada, mas podiam escrever sobre tudo. E
certamente assim era. No entanto, estes senhores, apesar da
sua suficiência, tinham, contudo, uma tal consciência da sua
debilidade que se mantinham o mais possível afastados das
grandes tarefas; a velha e antiquada ciência conservava o
seu terreno, em virtude da sua superioridade em saber
positivo; e só quando Feuerbach despediu o conceito
especulativo é que a hegelianice se foi gradualmente
apagando e pareceu que o império da velha metafísica com
as suas categorias fixas tinha começado de novo na ciência.

A coisa tinha o seu fundamento natural. Ao regime dos


Diádocos[N280] de Hegel, que se tinha perdido em pura
fraseologia, seguia-se naturalmente uma época em que o
conteúdo positivo da ciência prevalecia de novo sobre o seu
lado formal. A Alemanha, porém, lançava-se também ao
mesmo tempo com uma energia deveras extraordinária para
as ciências da natureza, correspondendo ao poderoso
desenvolvimento burguês desde 1848; e com o tornar-se
moda destas ciências, em que a tendência especulativa
nunca tinha alcançado qualquer valor significativo, a velha
maneira metafísica de pensar, inclusive a banalidade
wollfiana mais extrema, propagou-se de novo. Hegel tinha
desaparecido, desenvolvera-se o novo materialismo das
ciências da natureza que, teoricamente, em quase nada se
distingue do do século XVIII e que, na maioria dos casos, só
tem a vantagem de um material científico-natural mais rico,
designadamente químico e fisiológico. Reproduzido até à
mais extrema banalidade encontramos o tacanho modo de
pensar filisteu do período pré-kantiano de Büchner e de Vogt,
e mesmo de Moleschott, que jura por Feuerbach e a cada
instante se perde, do modo mais divertido, entre as
categorias mais simples. A pileca ancilosada do entendimento
quotidiano burguês estaca naturalmente embaraçada perante
o fosso que separa a essência do fenómeno, a causa do
efeito; mas, quando se vai à caça a cavalo com galgos, no
terreno muito acidentado do pensamento abstracto,
precisamente, de modo algum, se pode montar uma pileca.

Havia, portanto, aqui uma outra questão para resolver,


que não tinha nada a ver com a Economia Política em si.
Como tratar da ciência? De um lado, encontrava-se a
dialéctica de Hegel, na forma "especulativa", completamente
abstracta, em que Hegel a tinha deixado; do outro lado, o
método ordinário, essencialmente metafísico-wollfiano, agora
novamente na moda, segundo o qual os economistas
burgueses tinham escrito os seus grossos livros falhos de
coerência. Este último tinha sido de tal modo teoricamente
aniquilado por Kant e, sobretudo, por Hegel, que só a inércia
e a falta de um outro método simples puderam tornar
possível a sua persistência prática. Por outro lado, na sua
forma presente, o método de Hegel era absolutamente
inutilizável. Ele era essencialmente idealista, e aqui tratava-
se de desenvolver uma visão do mundo que era mais
materialista do que todas as anteriores. Ele partia do
pensamento puro, e aqui devia partir-se dos factos mais
obstinados. Um método que, segundo o seu próprio
testemunho, "de nada através de nada chegava a nada"[N281],
não estava, nesta [sua] forma, de modo algum, no lugar
[certo]. Apesar disso, de entre todo o material lógico actual,
era o único fragmento a que ao menos se podia ligar. Não
tinha sido criticado, não tinha sido superado; nenhum dos
adversários do grande dialéctico tinha podido abrir uma
brecha no seu glorioso edifício; tinha desaparecido, porque a
escola de Hegel não tinha sabido agarrá-lo. Antes do mais,
tratava-se, portanto, de submeter o método de Hegel a uma
crítica eficaz.

O que distinguia o modo de pensar de Hegel do de todos


os outros filósofos era o enorme sentido histórico que lhe
estava subjacente. Por abstracta e idealista que fosse a
forma, o desenvolvimento do seu pensamento não deixava
de ir sempre em paralelo com o desenvolvimento da história
universal, e esta última, propriamente, não deverá ser senão
a prova do primeiro. Ainda que, por este facto, a relação
correcta tenha sido também invertida e posta de pernas para
o ar, o seu conteúdo real penetrou, contudo, por todo o lado,
na filosofia; tanto mais que Hegel se diferenciava dos seus
discípulos em que não se gabava, como eles, da sua
ignorância, mas era uma das cabeças mais sábias de todos
os tempos. Foi ele o primeiro a procurar mostrar um
desenvolvimento, um encadeamento interno, na história e,
por estranha que agora muita coisa na sua filosofia da
história nos possa parecer, a grandiosidade da própria visão
fundamental é ainda hoje digna de admiração, quando se lhe
comparam os seus predecessores ou mesmo aqueles que
depois dele se permitiram reflexões universais sobre a
história. Na Fenomenologia, na Estética, na História da
Filosofia, por toda a parte perpassa esta grandiosa concepção
da história e, por toda a parte, a matéria é tratada
historicamente, numa conexão determinada, ainda que
também abstractamente distorcida, com a história.

Esta concepção da história que fez época foi o


pressuposto teórico directo da nova visão materialista e, já
por este facto, fornecia também um ponto de partida para o
método lógico. Se esta dialéctica desaparecida, a partir da
posição do "pensamento puro", tinha conduzido já a
semelhantes resultados, se, além disso, tinha acabado, como
que a brincar, com toda a lógica e a metafísica anteriores,
tinha em todo o caso de haver nela mais do que sofística e
bizantinice. Mas a crítica deste método, perante a qual toda a
filosofia oficial tinha recuado e recua ainda, não era coisa de
pouca monta.

Marx era, e é, o único que podia entregar-se ao trabalho


de tirar da casca da lógica hegeliana o núcleo que encerra as
descobertas reais de Hegel neste domínio e de restabelecer o
método dialéctico, despido das suas roupagens idealistas, na
forma simples em que ele se torna a única forma correcta de
desenvolvimento do pensamento. Consideramos a
elaboração do método que está na base da crítica de Marx à
Economia Política como um resultado que, pelo seu
significado, em quase nada é inferior à visão materialista
fundamental.

Mesmo depois de adquirido o método, a crítica da


Economia podia ainda ser abordada de duas maneiras:
historicamente ou logicamente. Como na história, tal como
no seu reflexo literário, o desenvolvimento, a traços largos,
progride das relações mais simples para as mais
complicadas, o desenvolvimento histórico-literário da
Economia Política fornecia um fio condutor natural a que a
crítica se podia ligar e, a traços largos, as categorias
económicas apareceriam na mesma ordem do que o
desenvolvimento lógico. Esta forma tem aparentemente a
vantagem de uma maior clareza, pois, assim, segue-se o
desenvolvimento real; de facto, porém, no máximo tornar-
se-ia apenas mais popular. A história procede
frequentemente por saltos e em ziguezague e, se houvesse
que segui-la ao mesmo tempo por toda a parte, teria não
apenas de recolher muito material de pouca importância,
como também o curso do pensamento teria frequentemente
que ser interrompido; além disso, não se poderia escrever a
história da economia sem a da sociedade burguesa e, deste
modo, o trabalho tornar-se-ia infindável, úma vez que faltam
os trabalhos preparatórios. Portanto, o modo lógico de
tratamento era o único que estava no seu lugar. Este
[modo], porém, não é de facto senão o histórico, despido
apenas da forma histórica e das casualidades perturbadoras.
Por onde esta história começa, por aí tem de começar
igualmente o curso do pensamento, e o seu avanço ulterior
não será mais do que o reflexo, numa forma abstracta e
teoricamente consequente, do decurso histórico; um reflexo
corrigido, mas corrigido segundo leis que o próprio decurso
histórico real fornece, na medida em que cada momento
pode ser considerado no ponto de desenvolvimento da sua
plena maturidade, da sua forma clássica.

Com este método, partimos da primeira e mais simples


relação que historicamente, facticamente, se nos apresenta
— neste caso, portanto, da primeira relação económica com
que deparamos. Analisamos esta relação. Pelo facto de que é
uma relação, acontece ja que tem dois lados que se
relacionam um com o outro. Cada um destes lados é
considerado por si; decorre daí o modo do seu
relacionamento mútuo, a sua acção recíproca. Dar-se-ão
contradições que reclamam uma solução. Como, porém, não
consideramos aqui um processo de pensamento abstracto,
que se passa apenas na nossa cabeça, mas um processo
real, que se passou realmente ou ainda se passa num tempo
qualquer, estas contradições desenvolveram-se na prática e
verosimilmente encontraram [aí] a sua solução. Seguiremos
o modo dessa solução e verificaremos que foi causada pela
produção de uma nova relação, cujos dois lados contrapostos
teremos doravante que desenvolver, etc.

A Ecoftomia Política começa com a mercadoria, com o


momento em que produtos são trocados por outros, quer por
indivíduos quer por comunidades naturais. O produto que
entra na troca é mercadoria. Ele só é, porém, mercadoria
porque à coisa, ao produto, se liga uma relação entre duas
pessoas ou comunidades, a relação entre o produtor e o
consumidor, que aqui não mais se encontram unidos na
mesma pessoa. Temos aqui, desde logo, um exemplo de um
facto peculiar que perpassa toda a Economia e estabeleceu
uma lamentável confusão na cabeça dos economistas
burgueses: a Ecomonia não trata de coisas, mas de relações
entre pessoas e, em última instância, entre classes; estas
relações estão, porém, sempre ligadas a coisas e aparecem
como coisas. Esta conexão que, em casos isolados, este ou
aquele economista, sem dúvida vislumbrou, descobriu-a
Marx pela primeira vez no seu valor para toda a Economia e,
por esse facto, tornou as questões mais difíceis de tal modo
simples e claras que agora mesmo os economistas burgueses
as poderão compreender.
Se considerarmos agora a mercadoria segundo os seus
vários aspectos e, designadamente, a mercadoria tal como
se desenvolveu completamente, e não tal como ela só
penosamente se desenvolve no comércio de troca natural de
duas comunidades primitivas, ela apresenta-se-nos sob os
dois pontos de vista de valor de uso e de valor de troca; e
entramos aqui, de pronto, no domínio do debate económico.
Quem quiser ter um exemplo flagrante de como o método
dialéctico alemão, no seu estádio actual de formação, é
superior ao antigo [método] metafísico, chão e politiqueiro,
pelo menos tanto como os caminhos-de-ferro o são
relativamente aos meios de transporte da Idade Média, leia,
em Adam Smith ou em qualquer outro economista oficial de
nomeada, que suplícios o valor de troca e o valor de uso
causaram a estes senhores, como se torna para eles difícil
distingui-los ordenadamente e apreender cada um deles na
sua própria determinatez [Bestimmtheit], e faça a
comparação com o desenvolvimento simples e claro de Marx.

Ora, uma vez desenvolvidos o valor de uso e o valor de


troca, a mercadoria é apresentada como unidade imediata de
ambos, tal como entra no processo de troca. Que
contradições é que aqui se dão pode ler-se nas páginas 20-
21(4*). Observamos apenas que estas contradições não têm só
um interesse teórico, abstracto, mas que reflectem, ao
mesmo tempo, as dificuldades provenientes da natureza da
relação de troca imediata, do comércio de troca simples, as
impossibilidades a que necessariamente chega esta primeira
forma grosseira de troca. A solução destas impossibilidades
encontra-se no facto de a propriedade de representar o valor
de troca de todas as outras mercadorias ser transposta para
uma mercadoria especial — o dinheiro. O dinheiro, ou a
circulação simples, é, então, desenvolvido no segundo
capítulo e, designadamente: 1. o dinheiro como medida dos
valores, pelo que, então, o valor medido em dinheiro, o
preço, recebe a sua determinação mais aproximada; 2. como
meio de circulação, e 3. como unidade de ambas as
determinações como dinheiro real, como representante de
toda a riqueza material burguesa. Com isto termina o
desenvolvimento do primeiro fascículo, reservando-se o
segundo para a passagem do dinheiro a capital.

Vê-se como com este método o desenvolvimento lógico


não precisa de se manter no domínio puramente abstracto.
Pelo contrário, ele requer a ilustração histórica, o contacto
contínuo com a realidade. Estes elementos de referência são
inseridos, portanto, também com grande diversidade e,
designadamente, tanto as alusões ao decurso histórico real
em diferentes estádios do desenvolvimento social como à
literatura económica, em que, desde o princípio, se procura a
elaboração clara das determinações das relações
económicas. A crítica dos modos singulares mais ou menos
unilaterais ou confusos de conceber [a matéria], no
essencial, está já dada, então, no próprio desenvolvimento
lógico e pode ser brevemente exposta.

Num terceiro artigo, entraremos no conteúdo económico


do próprio livro[N274].

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Notas de rodapé:
(1*) Ver o presente tomo, pp. 529-533. (Nota da edição portuguesa.)
(retornar ao texto)
(2*) Ver o presente tomo, pp. 530-531. (Nota da edição portuguesa.)
(retornar ao texto)
(3*) Em francês no texto: liberdade, igualdade, fraternidade. (Nota da
edição portuguesa.) (retornar ao texto)
(4*) Ver Karl Marx, Para a Crítica da Economia Política. (Nota da edição
portuguesa.) (retornar ao texto)
Notas de Fim de Tomo:
[N5] Diádocos: generais de Alexandre Magno que, após a sua morte,
iniciaram uma aguda luta entre si pela conquista do poder. No decurso
desta luta (fim do século IV e início do século III antes da nossa era) a
monarquia de Alexandre, que constituía em si mesma uma união militar-
administrativa sem solidez, dividiu-se numa série de Estados separados.
(retornar ao texto)
[N15] Sistema continental ou bloqueio continental: proibição, imposta em
1806 por Napoleão I aos países do continente europeu, de comerciarem
com a Inglaterra. O bloqueio continental caiu após a derrota de Napoleão
na Rússia. (retornar ao texto)
[N148] Free-traders (livre-cambistas): partidários da liberdade de comércio
e da não intervenção do Estado na vida económica. Nos anos 40-50 do
século XIX os livre-cambistas constituíram um agrupamento político à
parte, que posteriormente entrou para o Partido Liberal. (retornar ao texto)
[N165] Zollverein (União Aduaneira), fundada em 1834 sob os auspícios da
Prússia. Agrupava quase todos os Estados alemães; estabelecendo uma
fronteira alfandegária comum, facilitou a futura unificação política da
Alemanha. (retornar ao texto)
[N274] Este artigo de Engels é uma recensão do livro de K. Marx Para a
Crítica da Economia Política. Engels caracteriza-o como eminente conquista
científica do partido proletário e importante etapa da elaboração da
concepção científica proletária do mundo. A recensão ficou por acabar.
Publicaram-se apenas as duas primeiras partes. A terceira parte, na qual
Engels se propunha fazer uma análise do conteúdo económico do livro, não
apareceu impressa devido à suspensão do jornal; o manuscrito não foi
encontrado. (retornar ao texto)
[N275] Reforma: vasto movimento contra a Igreja Católica que conquistou
muitos países europeus no século XVI. Na maioria dos países o movimento
da Reforma foi acompanhado por grandes batalhas de classe; a guerra
camponesa de 1524-1525 na Alemanha decorreu sob a bandeira ideológica
da Reforma. (retornar ao texto)
[N276] Guerra dos Trinta Anos (1618-1648): guerra europeia geral
suscitada pela luta entre os protestantes e os católicos. A Alemanha
tornou-se o campo principal desta luta e foi objecto da pilhagem militar e
das pretensões de conquista dos participantes na guerra. (retornar ao
texto)
[N277] Entre 1477 e 1555 a Holanda fez parte do Sacro Império Romano-
Germânico; depois da dissolução deste caiu sob o domínio da Espanha. Em
resultado da revolução burguesa do século XVI a Holanda libertou-se do
domínio espanhol e tornou-se uma república burguesa independente.
(retornar ao texto)
[N278] Cameralística: sistema de disciplinas administrativas, financeiras,
económicas e outras ensinadas nas universidades medievais, e mais tarde
também nas universidades burguesas, de vários países da Europa.
(retornar ao texto) (retornar ao texto)
[N279] Das Volk (O Povo): jornal publicado em língua alemã em Londres
de 7 de Maio a 20 de Agosto de 1859 com a participação directa de Marx;
no início de Julho tornou-se de facto seu redactor. (retornar ao texto)
[N280] Aqui, alusão irónica aos hegelianos de direita que, nos anos 30-40
do século XIX, ocupavam muitas cátedras em universidades alemãs e que
utilizavam a sua posição para atacar os representantes de tendências mais
radicais em filosofia. Sobre os diádocos ver a nota 5. (retornar ao texto)
[N281] Ver Wissenschaft der Logik, Teill, Abt. 2 (Ciência da Lógica, de
Hegel, primeira parte, secção 2). (retornar ao texto)