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É preciso chamar a atenção para o fato de que não existe saúde total nem um

estado absoluto de doença; o que há é um processo de saúde/doença que se


desloca claramente no sentido da doença – no caso a de Chagas – quanto pior
forem as condições sócio-ambientais. De modo geral, as doenças, em especial
as infecto-parasitárias, são produto do maior desequilíbrio ambiental e da
menor eqüidade social.Conforme indica o Guia de Vigilância Epidemiológica,
recentemente publicado pelo Ministério da Saúde (2014), um conjunto de
ações de baixo custo podem ser realizadas visando à promoção da
saúde.Porém, só pela educação as populações poderão perceber as origens
dos problemas e se apropriar do conhecimento sobre as estratégias de
intervenção necessárias – desta forma, com participação social, as soluções
serão construídas coletivamente e o processo, dinâmico, se reverterá no
sentido da saúde de forma gradual, mas duradoura.
Quase ninguém sabe, mas 8 entre 10 pessoas infectadas não têm acesso a
diagnóstico e tratamento para a doença de Chagas. A negligência é tanta, no
Brasil e no mundo, que até os dados sobre o número de infectados são
baseados somente em estimativas: no Brasil elas vão de 1,9 a 4,6 milhões  e
no mundo chega a 8 milhões . A Organização Mundial da Saúde também
estima que mais de 70 milhões de pessoas no mundo estão em risco de ser
infectadas.
A Doença de Chagas é silenciosa. Os sintomas, quando aparentes, são muito
similares ao de outras doenças. Mas na fase crônica, cerca de 30% a 40% das
pessoas terão algum tipo de dano cardíaco ou no sistema digestivo. Ter acesso
ao diagnóstico oportuno e ao tratamento é a única forma de evitar as sequelas
crônicas.
Porém, o tema não tem destaque nas políticas públicas dos países afetados,
principalmente porque atinge majoritariamente pessoas vivendo em situação de
pobreza. O desconhecimento gera ainda efeitos sociais perversos, como o
estigma associado às pessoas afetadas.

Ainda associamos a doença de Chagas ao passado e a zonas rurais, mas há


bastante tempo ela vem se urbanizando. O Brasil teve expressivos avanços no
controle do vetor – o inseto transmissor, conhecido popularmente como
barbeiro. Porém, além do contato direto com as fezes do inseto infectado,
existem outras formas de transmissão relevantes: a ingestão de alimentos
contaminados com essas fezes, a transmissão na transfusão de sangue, o
transplante de órgãos e a transmissão congênita.

Para que a negligência seja superada, é preciso, em primeiro lugar, que o


diagnóstico e o tratamento sejam incorporados na atenção básica de saúde e
estejam acessíveis. Muitas vezes os profissionais de saúde não suspeitam da
infecção porque não existem normativas que orientem, tanto eles quanto os
gestores, sobre as condutas a serem seguidas. Depois, é necessário que o
tratamento de pacientes em todas as fases da doença se torne uma realidade,
seguindo a recomendação feita pela OMS em 2010.

Ainda hoje, porém, a notificação ao Ministério da Saúde é obrigatória somente


para os casos na fase aguda. Falta a publicação de um Protocolo Clínico e
Diretrizes Terapêuticas para Doença de Chagas – o documento está em
elaboração pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS
(Conitec), com previsão de publicação neste ano.  É um passo essencial para
garantir avanços ao guiar e respaldar a atuação dos médicos.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) prestou assistência médica a pessoas afetadas


pela Doença de Chagas entre 1999 e 2016, em países como Nicarágua,
Guatemala, Colômbia, Bolívia, Paraguai, Itália e México. MSF ofereceu
diagnóstico a mais de 117 mil pessoas, das quais 11 mil apresentaram a
infecção e cerca de 9 mil receberam o tratamento. O tratamento existente –
embora não sendo ideal – obteve bons resultados, chegando a taxas de cura
superiores a 90% em pacientes na fase crônica na América Central. O trabalho
provou que os pacientes com a forma crônica indeterminada podem e devem
ser tratados.
As pessoas afetadas pela Doença de Chagas vivem um ciclo de negligência,
abandonadas pelo poder público, vistas por ele como uma geração perdida e
tendo negado sistematicamente o seu direito de saber que têm a doença.
Mudar esse quadro requer políticas públicas integradas e protocolos claros
para que se amplie o acesso ao diagnóstico e ao tratamento na atenção
básica, no Brasil e em todos os países endêmicos.

Fonte:Artigo publicado originalmente na Folha de São Paulo