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Universidade Federal do Ceará

Departamento de Ciências Sociais

Tópicos Especiais em Antropologia VI

Professora de Simone Simões

Eliakim Lucena de Andrade

12 de Dezembro de 2010.

Doxa e crença entre os antropólogos é, antes de tudo, uma chamada


para se pensar como uma interpretação se torna hegemônica e como se
reproduzem os fenômenos de crenças coletivas. É também um importante
escrito para entender o desenvolvimento histórico da antropologia. E mais:
podemos compreender, após sua leitura, teorias e métodos que
fundamentaram, e ainda fundamentam, pesquisas antropológicas no mundo
inteiro.

O interesse de Lygia Sigaud se resume nesta pergunta: como uma


interpretação, em meio a tantas outras disponíveis no mercado de ideias, pode
se tornar hegemônica?

Como método, Sigaud usa o clássico da antropologia, o Ensaio sobre


o Don, de Marcel Mauss, investigando quais as razões para autores, tais como
Claude Lévi-Strauss, proporem determinada interpretação, e essa interpretação
se tornar doutrina quase que indiscutível entre os acadêmicos. Como suporte
de sustentação de sua hipótese, além de Ensaio sobre o Don, Sigaud também
faz uso do não menos importante Diário no sentido estrito do termo, de
Bronislaw Malinowski; uma vez que a comparação entre as duas obras
possibilita o entendimento do como uma interpretação se torna doxa e crença
entre os antropólogos.

O ED fundamentou-se a partir da verificação de que em diversas


civilizações as trocas e os contratos se fazem sob a forma de dádivas,
teoricamente voluntárias, que na prática são obrigatoriamente dadas e
retribuídas. O objetivo de Mauss, segundo Sigaud, era duplo:
(...) Chegar a conclusões arqueológicas sobre a natureza das
transações humanas, sobre a moral e a economia dessas
transações; por outro, mostrar como essa moral e essa
economia funcionam ainda em nossas sociedades, e em
seguida deduzir conclusões de ordem moral. Seu método
consistia em servir-se da comparação precisa, estudando o
assunto em áreas determinadas – Polinésia, Melanésia e
Noroeste americano – e alguns direitos das civilizações da
Antiguidade (2007, p.132).

Todavia, “o ED não era referência obrigatória à época” (2007, p.134).


Por mais que antropólogos reconhecidos como Bronislaw Malinowski – que
dedicou apenas uma nota de pé ao estudo de Mauss, no seu livro dedicado ao
direito e a ordem nas sociedades primitivas: Crime e Custo – e Franz Boas o
citassem.
Foi o antropólogo Claude Lévi-Strauss que tornou o ED uma obra
reconhecida entre os cientistas sociais do mundo com a “ideia fundamental da
reciprocidade”.
Lévi-Strauss, a partir do estudo de Mauss, fez uso do princípio da
reciprocidade, criado por ele, para explicar as trocas matrimoniais. Segundo o
antropólogo adepto do Estruturalismo, Mauss evidenciou que a troca, nas
sociedades ditas primitivas, seria menos em forma de transações que de dons
recíprocos e enfatizou a importância destas práticas para as ditas sociedades e
às nossas sociedades englobadas pelo sistema capitalista moderno. E
finalmente, continuando na reflexão de Lévi-Strauss, que essas trocas não têm
apenas valor econômico, mas tem significado religioso, social, mágico, jurídico
etc. – é aquilo que Mauss chama de fato social total. O fenômeno das trocas,
segundo Lévi-Strauss, faria parte das estruturas fundamentais do espírito
humano.
Em 1950, após a morte de Mauss, Lévi-Strauss foi incumbido de fazer
uma introdução para uma coleção de textos de Mauss. Mais tarde essa
coletânea seria denominada de Sociologia e Antropologia. Foi na Introdução
que Levi-Strauss abriu caminho para tornar-se um intérprete autorizado pela
comunidade de cientistas sociais franceses. Sigaud, fazendo referência ao
trabalho de Lévi-Strauss, expõe:
O trabalho é apresentado como um texto “capital”, o “mais
justamente célebre”, aquele cuja influência foi mais profunda,
“um evento decisivo da evolução científica”, uma obra-prima.
Tantas honrarias o ED jamais recebera em sua saga, que
começara nos anos de 1920 (2007, p. 136).

Não obstante, a quantidade de elogios lhe fosse útil para legitimação


de seus escritos, como um grande intérprete da obra de Mauss, faltaram para
Lévi-Strauss as críticas à referida obra para ultrapassar Mauss e angariar “um
lugar ao céu” na comunidade científica mundial. E ele o faz. Nas palavras de
Sigaud,

A observação empírica não lhe permitia ver a troca nos fatos,


mas tão-somente as obrigações de dar, receber e retribuir...
Como a virtude da coisa não está na coisa, mas é concebida
subjetivamente, ou bem essa virtude não é outra coisa se não
o próprio ato da troca, ou bem é de uma natureza diferente e,
em relação a ela, o ato da troca se torna um fenômeno
secundário. O único modo de escapar ao “problema teria sido
perceber que é a troca que constitui o fenômeno primitivo, e
não as operações discretas nas qais a vida social a
decompõe. Mauss teria procurado restituir o todo com sua
partes, porém, como isso seria impossível, teria então
acrescentado uma quantidade suplementar. Essa quantidade
seria o hau. “Não estamos aqui diante de um desses casos
(não tão raros) em que o etnólogo se deixa mistificar pelo
nativo?” “O hau não é a razão última da troca: é a forma
consciente sob a qual homens de uma sociedade
determinada, em que o problema tinha uma importância
particular , conceberam uma necessidade incosciente cuja
razão está alhures”... Graças a essa técnica argumentativa, o
hau, que aparece em Mauss como uma noção central do
direito maori, torna-se, com Lévi-Strauss, a explicação da
troca (2007, p. 137).

Ou seja, o direito, questão fundamental para Mauss, passa para


segundo plano com Lévi-Strauss. Este, a partir da concepção de hau,
desenvolve a teórica da reciprocidade.
Usado por Sigaud para autenticar seus estudos, o caso anglo-saxão
envolve os escritos pessoais do “etnógrafo dos etnógrafos”, Malinowski, e o
polêmico antropólogo estadunidense Clifford Geertz.
O Diário no sentido estrito de termo foi escrito nas passagens de
Malinowski por Mailu, entre setembro de 1914 e agosto de 1915, e nas ilhas
Tobriandesas, entre outubro de 1917 e julho de 1918.
No diário, encontramos uma série de trechos que comprometem a
ideia formada por Malinowski (seguida, até então, como crença) de que o
antropólogo deve desenvolver uma empatia em relação aos “nativos”.
Geertz foi o grande debatedor desse método e viu no Diário a
oportunidade para ruir com tudo que a Escola de antropologia inglesa, que
construiu todo o seu aporte teórico-metodológico a partir da célebre obra
Argonautas do Pácifico Ocidental.
Para Malinowski, o fundamento para um etnografia de sucesso é a
empatia. No entanto, explica Geertz, nas palavras de Sugaud: “o Diário
revelava a ausência de empatia”, dessa forma, não se fazia necessário a
empatia como instrumento de acesso à vida nativa. E continua com a seguinte
pergunta: “se o conhecimento do ponto de vista dos nativos não depende da
empatia, como então ele seria possível?”. Dessa forma, a solução, propõe
Geertz, “seria o estudo das formas simbólicas: as palavras, as imagens, as
instituições e os comportamentos” (2007, p. 77). Assim,

A diferença não residia, portanto, na empatia, jamais invocada


por este como recomendação de método, mas na natureza
das questões formuladas. Em Geertz, a questão consistia em
interpretar significados, tarefa que propõe que ser realizada da
mesma forma como se interpreta um texto ou um poema.

Desse modo, para Geertz, o método da antropologia seria a etnografia,


sendo ela assim um esforço para narrar à experiência.
A doxa é construída a partir dos dois casos citados acima. O que
estava em jogo nas interpretações produzidas era a projeção do nome e a
ascensão na academia. Desse modo, explica Sigaud,

Levi-Strauss, em um primeiro momento filiar-se a Mauss para


ser aceito por seus pares na França, e dele se distinguir por
meio da indicação do erro para fazer avançar sua própria
teoria e sua própria carreira; para Geertz, em um primeiro
momento demolir Malinowski no âmbito da concorrência como
os antropólogos britânicos e depois utilizá-los para legitimar
uma nova definição do ofício de antropólogos (2007, p. 150).
A credibilidade às interpretações gerou nos seguidores uma
despreocupação em buscar no texto original – o ED e o Diário. As
interpretações de Lévi-Straus e Geertz eram autorizadas pela comunidade de
antropólogos, e não se fazia necessário (ou não era permitido) buscar em
Mauss ou Malinowski possíveis erros nas afirmações.