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ALEXANDRA NICOLI

ACIDENTES OFÍDICOS NO REBANHO BRASILEIRO: INCIDÊNCIA,


DIAGNÓSTICO E SUA REAL IMPORTÂNCIA PARA A PECUÁRIA - REVISÃO
DE LITERATURA

RIO DE JANEIRO
2007
ALEXANDRA NICOLI

ACIDENTES OFÍDICOS NO REBANHO BRASILEIRO: INCIDÊNCIA,


DIAGNÓSTICO E SUA REAL IMPORTÂNCIA PARA A PECUÁRIA - REVISÃO
DE LITERATURA

Trabalho apresentado para o


cumprimento de atividades referentes ao módulo
13 do curso de Especialização Latu sensu em
Patologia Clínica Veterinária - Universidade
Castello Branco

Rio de Janeiro, março de 2007

ii
ACIDENTES OFÍDICOS NO REBANHO BRASILEIRO: INCIDÊNCIA,
DIAGNÓSTICO E SUA REAL IMPORTÂNCIA PARA A PECUÁRIA - REVISÃO
DE LITERATURA

Elaborado por Alexandra Nicoli


Aluna do Curso de especialização
em Patologia Clínica Veterinária - UCB.

Foi analisado e aprovado com


grau:........................................

Rio de Janeiro, de de

Membro

Membro

Aline Moreira de Souza


Professor Orientador

Presidente

Rio de Janeiro, Março de 2007

iii
Agradecimentos
A DEUS pela proteção e vida
Aos meus pais, que lutaram sempre para realização de meus sonhos
Aos meus irmãos pelo carinho e compreensão.
Aos meus amigos do Rio, pela gentileza,carinho e respeito
Aos professores e principalmente Nádia e Aline pelo aprendizado.

iv
Resumo

NICOLI, Alexandra, Acidentes Ofídicos no Rebanho Brasilero:


incidência, diagnóstico e sua real importância para a pecuária-Revisão de
Literatura.

Esta revisão de literatura revela que as opiniões sobre a importância dos


acidentes ofídicos como causa mortis em bovinos no Brasil são variadas no
meio veterinário. Os casos tidos como envenenamento ofídico, na sua grande
maioria, são apenas suposições, sem embasamento em exame clínico,
necropsia e estudo histopatológico. Isso indica que é necessário melhor
investigar as mortes suspeitas de terem sido causadas por acidentes ofídicos.

O presente trabalho tem como objetivo informar sobre a importância,


fisiopatologia e as principais espécies envolvidas nos acidentes ofídicos no
rebanho brasileiro.

vii
SUMÁRIO
Página

RESUMO..............................................................................................................vi

1- INTRODUÇÃO..........................................................................................................viii

2- REVISÃO DE LITERATURA......................................................................................ix

2.1-.Principais espécies ofídicas do Brasil e seu


habitat............................................9

2.2- Freqüência e susceptibilidade a acidentes ofídicos.........................................10

2.3- Fisiopatogenia do envenenamento e achados clínicos...................................11

2.3.1- Crotalus spp............................................................................................13

2.3.2- Botrhops spp...........................................................................................16

2.3.3- Lachesis spp............................................................................................17

2.4-Achados de necropsia...................................................................................... 17

2.5- Tratamento.......................................................................................................18
.
2.6-Importância de acidentes ofídicos como causa mortis em bovinos..................17

3-CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................................21

4- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................22

viii
1. INTRODUÇÃO

No Brasil, tanto por parte dos Veterinários, como dos fazendeiros e vaqueiros é
muito comum, principalmente em bovinos, a prática de atribuir a acidentes as mortes
de etiologia desconhecidas ou causada por outros agentes. Essa assertiva é ainda
mais freqüente nas diversas áreas onde ocorrem intoxicações por plantas que causam
morte súbita. Não há dúvida que envenenamentos ofídicos ocorrem, porém até que
ponto eles podem ter importância como causa de morte em bovinos, é algo que precisa
ser determinado (TOKARNIA et al. 2006).
Os animais domésticos constantemente são vítimas de animais peçonhentos e
os pecuaristas voltam sua atenção para esses acidentes, principalmente em bovinos,
devido aos prejuízos decorrentes, e também pela dificuldade do tratamento (NOVAES
et al.,1997).
2. REVISÃO DE LITERATURA

2.1. Principais espécies ofídicas do Brasil e seu habitat

Existem no mundo, aproximadamente 3 mil espécies de serpentes, das quais apenas 410 são
consideradas venenosas. No Brasil estão catalogadas, até o momento, 256 espécies, sendo 69
venenosas e 187 não venenosas. Das 69 espécies venenosas, 32 pertencem ao gênero Bothrops, 6 ao
gênero Crotalus, duas ao gênero Lachesis e 29 ao gênero Micrurus (TOKARNIA et al.2006).
De acordo com TOKARNIA et al., (2006) as serpentes da família Crotalidae (com fosseta loreal)
são encontradas nas Américas e na Ásia. A esta família pertencem as serpentes venenosas mais
importantes do Brasil, dentre as quais as jararacas, urutus e cruzeiras (Bothrops), cascavéis (Crotalus) e
a surucucu (Lachesis).
Dentre as espécies que, pelo seu habitat, podem causar acidentes, estão as corais que
pertencem ao gênero Micrurus, cuja peçonha tem ação neurotóxica, provocando paralisias progressivas,
que resultam em apnéia, devido à inativação da musculatura respiratória pela toxina, que é
curaremimética. Estas dificilmente causam problemas, pois não são agressivas e seu aparelho bucal
praticamente as impede de atingir os bovinos (NOVAES et al.,1997).
As serpentes do gênero Crotalus, são encontradas principalmente em regiões semi-áridas. No
Brasil, o envenenamento provocado por esta serpente é responsável por 14% dos acidentes em seres
humanos, no entanto se considerarmos a incidência em seres humanos e o número de animais
acometidos por este acidente, conclui-se que ocorra mais em animais que em humanos pelos primeiros
estarem mais expostos (LAGO et al.,2000). O veneno das cascavéis, serpentes do gênero Crotalus,
também é neutóxico (curaremimético) e hemolítico e, a partir de 0,05 mg/kg de peso vivo é letal para
bovinos. E ainda pela quantidade de veneno que pode ser inoculada, um bovino necessitaria pesar
2.000 kg para sobreviver, quando picado por uma cascavel (NOVAES et al.,1997).
Segundo SANTOS et al., 2003 A serpentes do gênero Bothrops são responsáveis por 90% dos
acidentes por serpentes na América do Sul. Há formação de intenso edema no local da picada, além das
ações coagulante e necrosante deste veneno. O sintoma mais exacerbado é o processo inflamatório,
desencadeado pelo veneno, que produz edema volumoso. Este atingindo a glote pode levar o animal à
morte por insuficiência respiratória. Todavia, essa ação é menos deletéria quando atinge os membros ou
outras partes do animal. Esse gênero apresenta peçonha em média 5 vezes menos potente que a
crotálica, segundo NOVAES et al.(1997).
Das que vivem sobre o solo, ganham destaque às do grupo crotálico, botrópico e laquético.
Deve-se assinalar que as do grupo botrópico podem ser eventualmente encontradas em árvores. Os
ofídios peçonhentos são mais encontrados nos campos ou em áreas cultivadas do que no interior de
florestas, nas quais há escassez de pequenos roedores, especialmente ratos. De modo geral pode-se
dizer que as serpentes do grupo crotálico preferem locais mais secos e pedregosos, enquanto as do
grupo botrópico ocorrem com maior freqüência em áreas mais úmidas, como banhados, beiras de rios e
lagoas. Em nosso meio constata-se um fenômeno bastante interessante. Na matas ou áreas não
devastadas pelo homem, encontram-se aproximadamente 80% de serpentes não venenosas e 20% de
venenosas. Nas áreas dedicadas às atividades agropecuárias ocorre uma inversão, devido à presença
de roedores, registrando-se nesses locais, 80% de serpentes venenosas e 20% de não venenosas. As
cobras do grupo elapídico preferem vida subterrânea (TOKARNIA et al, 2006).

2.2. Freqüência e susceptibilidade a acidentes ofídicos

Há considerável variação na susceptibilidade dos diferentes animais aos efeitos dos venenos
ofídicos. Em experimentos realizados, eqüinos, ovinos e bovinos mostraram-se com maior sensibilidade
ao veneno de ofídios, vindo depois, em ordem decrescente, caprinos, caninos, coelhos, suínos, cobaias,
camundongos, gatos e hamsters. Em outro experimento, os bovinos reagiram de maneira mais sensível
a venenos de cobras, seguindo-se eqüinos, ovinos, caprinos, caninos e suínos. Carnívoros parecem ser
mais resistentes a venenos ofídicos do que outros animais, no entanto o gato é resistente ao veneno
botrópico (proteolítico e coagulante) e muito sensível ao veneno de Crotalus spp sul-americana; já o
hamster é mais resistente do que os gatos ao veneno crotálico. (TOKARNIA et al, 2006).
NOVAES et al. (1997), cita a afirmação de Vital Brasil de que os eqüídeos e bovinos são, dentre
os animais domésticos, os mais sensíveis à picada de cobras.

2.3. Fisiopatogenia do envenenamento e Achados clínicos

No caso do acidente ofídico, o processo inflamatório ocorre devido á agressão determinada pela
peçonha, provocando congestão ativa e estase sanguínea. O calor e o rubor são determinados pelo
aumento do fluxo sanguíneo, através das arteríolas que elevam o suprimento de nutrientes, oxigênio e
anticorpos. Substâncias nocivas oriundas da degranulação de mastócitos, polimorfonucleares e outras
células que morrem, aumentam o processo por toda a região. O edema é resultado do aumento do fluxo
sanguíneo e da permeabilidade de arteríolas, que tem seus revestimentos e endotélios lesados pelas
diversas substâncias liberadas pelos tecidos mortos, e também pela vasoconstrição de vênulas pós-
capilares, que determinam maior exsudação e ainda tem o fator de Hageman, que provoca trombose, e o
aumento da estase. A dor é conseqüência da compressão nervosa pelo edema, associado também às
quininas (aminas vasoativas que induzem a dor) liberadas, que tem ação vasodilatadora. Se o plasma
continua a escapar para os interstícios, esses mediadores químicos se fazem novamente presentes,
causando novo aumento da permeabilidade vascular. O tecido é, então, banhado por esse liquido,
juntamente com glóbulos brancos, que liberam quinina, histamina e plaquetas, que liberam serotonina.
Esta fase é denominada histaminodependente. (NOVAES et al., 1997).
Se a agressão é maior e persistente, como no caso de envenenamento botrópico, uma segunda
fase se desencadeia, provocada por novos mediadores, especialmente as quininas e prostaglandinas.
Desse modo, o edema e a dor já presentes são agravados pelas quininas e potencializados pelas
prostaglandinas. Determinando ainda novas lesões e irritações celulares. Neste estádio é acionado um
sistema complementar, a quimiotaxia, determinda pelos leucotrienos (opsoninas), que causam nova
destruição de células, liberando enzimas digestivas, irritando os tecidos adjacentes, e com isso o
resultado é nova liberação de prostaglandinas das membranas celulares, intensificando a dor, a
exsudação e a migração celular, formando um verdadeiro efeito cascata. Conclui-se que o próprio
organismo intensifica essa inflamação, e no caso do acidente ofídico o objetivo é reter e diluir o agente
agressor. A migração celular determinada por quimiotaxia promove aumento de células que morrem
durante a fagocitose. Esse fato, somado ao acúmulo de tecidos desvitalizados, é utilizado pelas
bactérias veiculadas pelas presas inoculadoras de veneno, bem como pelas enzimas proteolíticas, que
determinam a infecção e necrose (NOVAES et al., 1997).
Em relação à ação e ao quadro clínico-patológico que as toxinas ofídicas provocam, há, no
Brasil, muitos estudos baseados na sua maioria, em envenenamento no homem e em experimentos
realizados em animais de laboratório e no cão. Apesar de a maioria desses estudos valerem, em parte,
para o bovino, é necessário alertar que os sintomas e as lesões, além de variarem com o gênero e a
espécie da serpente, também, diferem em função da espécie dos animais-vítima (TOKARNIA, et al.
2006).
A picada em bovinos, dependendo do local e da quantidade de veneno inoculado, pode ser fatal.
O local da picada pode ser identificado por dois pontos de sangramento, que correspondem à distância
das presas inoculadoras. Momentos depois da picada ou da inoculação do veneno forma-se um edema
que atinge o grau máximo, em média, em 48 horas, podendo perdurar por 120 horas mais. Embora seja
um bom indicador do estado geral do animal, o grau do edema pode, de acordo com a resistência do
mesmo, ser falho porque a ação coagulante do veneno transforma todo fibrinogênio em fibrina, tornando
o sangue incoagulável, podendo induzir hemorragias intestinais, levando o animal à morte. (NOVAES et
al,1997).

2.3.1- Crotalus spp

Segundo TOKARNIA et al.,2006 o veneno de serpentes deste gênero tem ação neurotóxica,
miotóxica, coagulante e nefrotóxica. A ação neurotóxica é atribuída às frações neurotóxicas,
fundamentalmente a crotoxina do veneno crotálico, que produzem efeitos tanto no sistema nervoso
central, quanto no sistema nervoso periférico. A crotoxina induz à paralisia, semelhante à causada pelo
curare, em todas as espécies animais estudadas. Sugere-se que as paralisias motora e respiratória no
envenenamento crotálico sejam decorrentes do bloqueio da transmissão nervosa na junção
neuromuscular, por ação da neurotoxina que inibe a liberação de acetilcolina na sinapse. (TOKARNIA et
al. 2006)
A ação miotóxica tem sido atribuída à crotoxina, e à crotamina, que têm a capacidade de
produzir lesões no tecido muscular esquelético, sistematicamente, em pontos distantes do local da
picada. Há rabdomiólise sistêmica, traduzida por necrose hialina das fibras musculares esqueléticas,
com conseqüente mioglobinúria. A ação coagulante, semelhante a da trombina, acaba determinando um
consumo dos fatores da coagulação e, por fim, a “incoagulabilidade” sanguínea. Há queda dos níveis
sanguíneos de fibrinogênio com prolongamento do tempo de coagulação, ausência de protrombina e
deficiência parcial de tromboplastina, sem redução do número de plaquetas. Apesar das alterações nos
testes de coagulação, as manifestações hemorrágicas são discretas. (TOKARNIA et al. 2006)
O veneno crotálico ocasiona lesão tubular direta, de caráter nefrotóxico, mas admite-se ainda
uma ação indireta pela mioglobinúria (obstrução tubular por cilindros de mioglobina e lesão dos túbulos
pelo miopigmento). Outros fatores, correlatos ao choque (desidratação com policitemia relativa,
hipotensão arterial, acidose metabólica e sequestro de líquidos para a musculatura esquelética), podem
estar associados à rabdomiólise e contribuem para a instalação da lesão renal. Existem casos que
evoluem para a insuficiência renal aguda. Quanto ao quadro patológico do envenenamento crotálico, a
lesão é renal como necrose tubular aguda, mas também tem sido relatadas glomerulonefrite e nefrite
intersticial agudas, degeneração hidrópica e presença de cilindros de mioglobina. Nos músculos ocorre
necrose hialina das fibras musculares esqueléticas. No fígado há degeneração hidrópica dos hepatócitos
com localização centrolobular. As hemorragias são raras nos órgãos internos, porém ocorrem com maior
freqüência no sistema nervoso central. As causas mais importantes da morte são insuficiência
respiratória aguda e choque, sendo este último menos freqüente nos acidentes botrópico e laquético.
(TOKARNIA et al. 2006).

Num experimento realizado com inoculação de veneno crotálico em bovinos, o quadro clínico
que se instalou iniciou-se imediatamente após o envenenamento com a observação de alterações
comportamentais como inquietação e desconforto. Ao final da 2a hora, os animais apresentavam apatia
com cabeça baixa, letargia e edemaciação discreta no local da inoculação. Na 6a hora, a edemaciação já
havia desaparecido e mioclonias foram observadas nas grandes massas musculares; na 10a hora houve
diminuição da sensibilidade superficial, do tônus muscular com aparecimento de incoordenação motora,
decúbito esternal e diminuição de reflexos patelar e gastrocnêmico; na 14a hora, observaram-se
movimentos de “pedalagem” e diminuição da sensibilidade profunda; na 16a hora, observou-se paralisia
flácida dos membros pélvicos; e , na 20a hora, surgiram dispnéia e sialorréia e a ocorrência das primeiras
mortes, que foram verificadas para cada animal quando decorridas 21, 22, 24, 35 e 41 horas, com curso
médio de 28 +- 9 horas. Este quadro clínico foi caracterizado por severa neuropatia, em decorrência da
ação conjunta dos componentes do veneno e das ações específicas das enzimas crotamina, convulxina
e crotoxina. Esta última age na junção pré-sinaptica, impedindo a liberação de acetilcolina, provocando
paralisias, incoordenações e salivação. A crotamina age especificamente sobre as fibras musculares e
superexcitação. Isto ocorre de tal forma que a fibra se torna refratária a novos estímulos de contração. A
inoculação de veneno, do tipo crotamina positivo, produz o seguinte quadro clínico em bovinos:
hiperestesia inicial seguido de quadro depressivo, mioclonia, paralisia e morte, em média, após 28 horas
decorridas desde a inoculação. Apesar do quadro de dispnéia, não ocorreu alteração na freqüência
respiratória assim como na temperatura retal (LAGO et al.,1997).

Os bovinos são mais sensíveis ao veneno da cascavel sul-americana que a maioria das
espécies domésticas. Esta serpente inocula em 75% de suas vítimas 50 mg de seu veneno, quantidade
que pode levar à morte bovinos com pesos superiores a 1.000 Kg . Contudo, animais desta espécie
sobrevivem se inoculados com 0,025 mg de veneno por quilo de peso vivo via intramuscular, mas
morrem em menos de 24 horas quando recebem 0,05 mg, nas mesmas condições. O veneno inoculado
pelas serpentes pertencentes à subfamília Crotalinae possui elevadas concentrações de várias enzimas
proteolíticas, que atuam alterando diversos processos funcionais (através de ação periférica na placa
motora-neurotoxina pré-sinaptica), miotóxico, sistêmico (predominantemente sobre fibras do tipo I) e
anticoagulante através de uma ação tipicamente do tipo trombina. (LAGO et al.,1997).

2.3.2 - Bothrops spp

A ação necrosante decorre da ação citotóxica direta de frações proteolíticas do veneno. A esta
ação atribuem-se, principalmente, as lesões locais como rubor, edema, vesículas e necrose; os efeitos
vasculo-tóxico e coagulante também podem contribuir para a instalação dessas lesões. A ação vasculo-
tóxica (hemorrágica) determina aumento de permeabilidade ou rompimento da membrana basal do
endotélio vascular e conseqüente edema e hemorragia. As hemorragias podem ser locais ou sistêmicas,
afetando os pulmões e rins. Às vezes são fatais, quando no sistema nervoso central. Além do edema no
local da picada, há hemorragias na gengiva, epistaxe, hematemese, hematúria, hemorragia digestiva alta
e, às vezes, até no bordo do leito ungueal. TOKARNIA et al.,2006)
A ação coagulante decorre da ativação do fibrinogênio, já que a fração coagulante da maioria
dos venenos botrópicos tem capacidade de ativar o fator X e a protrombina. Quando ocorre a ativação
do fatror X, há também consumo dos fatores V, VII e das plaquetas, levando ao quadro de coagulação
intravascular disseminada (CID), com formação de microtrombos na rede capilar, o que poderia
contribuir para desencadear a insuficiência renal aguda (IRA). (TOKARNIA et al.,2006).
Os acidentes botrópicos podem ser acompanhados de choque, com ou sem causas definidas,
entre elas, a hipovolemia por perda de sangue ou plasma no membro edemaciado, a ativação de
substâncias hipotensoras, o edema pulmonar e a coagulação intravascular disseminada. A insuficiência
renal observada eventualmente em envenenamento botrópico, pode instalar-se por ação direta ou
secundária a complicações em que o choque está presente; além disto, se admite que a CID seja capaz
de provocar isquemia renal por obstrução da microcirculação. Outro mecanismo proposto para explicar
as lesões é ainda o espasmo dos vasos renais por liberação de substâncias vasoativas. (TOKARNIA et
al.,2006)
Em relação à patogenia, Amorim et al .(1951) citado por Tokarnia et al. (2006) descreveram, no
local da inoculação, forte hemorragia e edema com necrose de coagulação do tecido subcutâneo e dos
músculos estriados subjacentes, hemorragias em vários órgãos internos e trombose hialina nos capilares
em 60% dos casos, principalmente no pulmão (em 47% dos casos). No rim estes autores encontraram
somente lesões hiperêmico-hemorrágicas. Por outro lado, outros trabalhos descrevem necrose tubular
aguda, necrose cortical renal e, ocasionalmente, glomerulonefrite e nefrite intersticial. As causas da
morte, em geral, são insuficiência renal aguda (IRA) e hemorragias incontroláveis, além do choque.

2.3.3 - Lachesis muta

O veneno desta espécie de serpente possui ações proteolítica (necrosante), coagulante e


vasculo-tóxica; admite-se ainda uma ação neurotóxica. As serpentes do gênero Micrurus produzem
veneno que têm, principalmente, ação neurotóxica.

2.4- Achados de Necropsia

Nos animais necropsiados, observou-se a formação de intensos edemas sero-hemorrágicos


subcutâneos, que se estendiam do local inoculado na face ao queixo, barbela e parte do tórax. A
abertura da cavidade abdomial evidenciava petéquias hemorrágicas e sufusões subserosas no intestino
grosso e rúmen. Hemorragias intestinais não foram observadas quando o animal apresentava as
mucosas anêmicas. Na cavidade torácica, as lesões se limitavam a petéquias hemorrágicas no coração
e pericárdio, e por vezes presença de líquido serohemorrágico na cavidade pericárdica (NOVAES et al.,
1997).

2.5- Tratamento

Segundo NOVAES et al.,(1997) em um estudo realizado quanto ao tratamento opcional para


acidentes ofídicos com serpentes do gênero Bothrops em bovinos, utilizando a técnica da aplicação de
um antiiflamatório não esteróide, associado á diurético, resultou em uma redução do edema formado
permitindo a absorção do veneno, sua metabolização e eliminação do organismo. Esse fato motivou a
verificação do comportamento de um determinado antiinflamatório, inibidor da ciclo-oxigenase, que
impede a síntese de prostaglandinas a partir do ácido araquidônico, associado a diurético, para
tratamento do edema produzido pelo envenenamento botrópico. Essa medicação, empregada em dois
casos de envenenamento grave classificados como botrópicos, apresentou resultados satisfatórios, e
também em outros 3 casos, em que a picada foi provocada na face dos animais para induzir o
acidente, nos quais os resultados foram os mesmos.
Para o grupo de animais picados, os que foram tratados apresentaram índice de 100% de
sobrevivência, assim distribuídos: com alta em 24 horas o índice foi de 46%; com 48 horas, 69%; com 72
horas, 92% e com 96 horas, 99,6%. As testemunhas permaneceram com edema considerado grave e
um óbito ocorreu no grupo da Bothrops alternatus (urutu). O índice de sobrevivência foi de 55% para os
animas inoculados que foram tratados, sendo que nos grupos inoculados com veneno de B. jararacussu
(jararacuçu) e B. moonjeni (caiçara), 66% e para B. jarara e B. alternatus (urutu) não houve
sobrevivência. A recuperação desses animais ocorreu entre 72 a 96 horas (NOVAES et al.,1997).
Para os animais inoculados que não foram tratados com o antiinflamatório (testemunha), o índice
de sobrevivência foi de 83% até 120 horas após o envenenamento Todas as testemunhas, após 120
horas, foram medicadas para evitar a ocorrência de necrose, que é uma das ações características do
veneno botrópico (NOVAES et al.,1997).
A ação antiinflamatória da medicação empregada age somente sobre o edema, protegendo o
animal, mas sem qualquer ação coagulante do veneno. A escolha de substância antiinflamatória se deve
ao fato da fisiopatologia do processo inflamatório. Utilizando um antiinflamatório inibidor da ciclo-
oxigenase, que é responsável pela trasnformação do ácido aracdônico em prostaglandina, prostaciclina
e tromboxano, vai haver interferência na segunda fase do processo inflamatório, aliviando a dor,
reduzindo o processo inflamatório, permitindo que o veneno seja absorvido e caia na circulação, onde é
metabolizado e eliminado.(NOVAES et al.,1997. SANTOS et al.,2003).
Neste caso, cabe lembrar que a ação antiinflamatória da medicação empregada age somente
sobre o edema, protegendo o animal, mas sem qualquer ação sobre o efeito coagulante do veneno.
Além disso, observou-se que os traumatismos sofridos pelos animais no tronco de contenção são pontos
em que a ação do veneno se faz notar, devido aos intensos hematomas que provocam. Esse fato foi
observado nas necropsias e sugere que animais acidentados não devem ser contidos em troncos para o
tratamento (NOVAES et al.,1997).

2.6. Importância de acidentes ofídicos como causa mortis em Bovinos

De acordo com Pacheco e Carneiro (1932) citado por Tokarnia et al, 2006, o homem do campo
tem uma tendência inata a atribuir às plantas e às cobras a maioria das “mortes súbitas” em bovinos.
Esses autores acreditavam “ que nem as plantas, nem as cobras têm esta importância como causa de
mortes” e eram da opinião que as principais causas das “mortes súbitas” em bovinos seriam o
carbúnculo hemático e o carbúnculo sintomático.
As considerações sobre a imunização contra o envenenamento ofídico de animais de alto valor
são que a imunidade não chegaria a ter importância prática, porque é de curta duração, a vacinação tem
alto custo e o perigo de picadas de cobra seria relativamente baixo para bovinos e eqüinos.
Especificamente em relação aos acidentes por cobras do gênero Bothrops, os casos fatais em bovinos
são raros, devido à toxicidade relativamente baixa dos venenos destas cobras para grandes animais
domésticos (TOKARNIA et al, 2006).
TOKARNIA et al (2006) também deixam a questão da significância dos acidentes ofídicos em
bovinos em aberto ao dizerem que “ não há dados sobre o número de mortes de bovinos, que foram
vitimados por cobras venenosas, conseqüentemente não há cálculos econômicos sobre estas perdas; os
fazendeiros avaliam como importantes os casos de mortes em bovinos causadas por cobras, em
especial as causadas por picada de cascavel”.
As serpentes do gênero Crottalus, como a cascavel sul-americana (Crotalus durissus terrificus),
são encontradas principalmente em regiões semi-áridas. No Brasil, o envenenamneto provocado por
esta serpente é responsável por 14% dos acidentes ofídicos em seres humanos. Dados epidemiológicos
sobre a incidência desses acidentes em bovinos ainda não são disponíveis em nosso país. Se
considerarmos a incidência em seres humanos, pode-se levantar a hipótese de que o número de animais
acometidos por este acidente ofídico seja mais freqüente, por estarem mais expostos (LAGO et
al.,1997).
Segundo TOKARNIA et al.,(2006) após um levantamento sobre os acidentes ofídicos no Brasil
em diferentes regiões contatou-se ser raríssimo um acidente ofídico ser causa mortis em bovinos; ele
cita também que acidentes ofídicos não fatais relatados por patologistas e clínicos do Brasil ocorrem.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A revisão bibliográfica revelou não ser fácil determinar com precisão, até que ponto os acidentes
ofídicos ocorrem no Brasil. Isso ocorre principalmente por serem escassas as informações sobre os
mesmos no rebanho brasileiro, principalmente pela dificuldade encontrada em se estabelecer um
diagnóstico clínico preciso e a tempo de salvar o bovino, que na maioria das vezes, é encontrado morto
ou em estágio clínico terminal. Além disso, o médico veterinário necessita realizar o diagnóstico
diferencial de outras enfermidades, como raiva, carbúnculo hemático, carbúnculo sintomático,
intoxicação por plantas (sobretudo as causadas por plantas que causam “morte súbita” e plantas
cianogênicas), botulismo e outras doenças que cursam com paralisia motora e deficiência de cobre –
“falling disease”, as quais pela maioria das vezes são tidas como a causa mortis dos bovinos.
Torna-se claro que é preciso melhor investigar, por meio de diagnósticos mais precisos, as
mortes suspeitas de terem sido causadas por acidente ofídico em bovinos no Brasil. O diagnóstico como
no caso de outras doenças, deve ser estabelecido através do maior número possível de dados,
sobretudo o histórico, o exame clínico e a necropsia, complementada por exames histopatológicos.
Também o conhecimento de dados sobre o habitat e a distribuição das serpentes venenosas certamente
contribui para estabelecer, de forma mais acurada, a importância de acidentes ofídicos para animais
domésticos em cada região brasileira.
4-REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LAGO, L. A; FERREIRA, P.M; FACURY FILHO, E.J; MELO,M.M; ALZAMORA FILHO,F. Quadro clínico
do envenenamneto crotálico experimental em bovinos (Crotalus durissus terrificus- crotamina
positivo). Braz. J. Vet. Res. Anim. Sci. [on line].2000,vol.37,no 4 [citado 08-03-2007]. Disponível
em:http://www.scielo.br .

NOVAES, A.P; LUCAS, S; ABE, A.S; FERNANDES,W; PUORTO, G; ALMEIDA, I.L; Envenenamento
Botrópico em Bovinos:tratamento opcional. Vet News, n30, p.9-12, 1997.

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