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Bioquímica

Líquido Cefalo-Raquidiano (LCR)


As Barreiras Hemato-Encefálica e
Sangue-LCR
O Líquido Cefalo-Raquidiano (LCR)
Generalidades

• O LCR: Varolio (1543-75); Sylvius: Pacchioni; Cotugno, Magendie; Quincke


(1891, a 1ª punção lombar).

• Volume:
– Neonatal: 40-60 ml
– < 10 anos: 60-100 ml
– Adulto: 140 ± 30 ml, dos quais cerca de 30 ml estão no espaço sub-aracnoideu

• Secreção:
– É produzido principalmente pelos plexos coroideus dos ventrículos cerebrais
(cerca de 70%);
– O restante, cerca de 30% (pelos vasos sanguíneos (espaço sub-aracnoideu), do
líquido intersticial (extra-celular) e pelo ependimo);
– Cerca de 600 ml de LCR é produzido por dia (24 ml/h; 400 μl/min), para um total
de 140 ml, o que significa que o LCR é renovado cerca de 3-4x por dia.
O Líquido Cefalo-Raquidiano (LCR)
Circulação do LCR

• O LCR é formado pelos


plexos coroideus, circulando
pelo sistema ventricular e
através do foramen de
Magendie e de Luschka
alcança as cisternas basais;

• Este depois circula pelo


restante espaço sub-
aracnoideu, sobre as
superfícies do cerebelo e do
cérebro, eventualmente
chegando aos locais de
reabsorção do LCR.
O Líquido Cefalo-Raquidiano (LCR)
Circulação do LCR

Sistema venoso
(Seio longitudinal
• O LCR é principalmente Vilosidade superior)
aracnoideia Dura-mater
absorvido através das
vilosidades aracnoideias
(granulações aracnoideias ou
corpúsculos de Pacchioni) os quais
são muito abundantes ao longo do
seio longitudinal superior, mas
também são encontrados ao nível
da medula espinhal;

• O LCR é assim drenado através


Foice do
das vilosidades aracnoideias, do Pia-mater
cérebro
Aracnoideia

espaço sub-aracnoideu para o Espaço sub-


compartimento venoso. aracnoideu
O Líquido Cefalo-Raquidiano (LCR)
Composição

• Composição:
– ≤ 5 linfócitos ou células
mononucleadas por mm3;
– 99% de água (soro 93%);
– Electrólitos (Na+, Cl-, etc.);
– Metabólitos (glicose, lactato,
ureia, etc.);
– Aminoácidos (Glutamina,
Glutamato, etc.);
– Proteínas totais (300-500 mg/L);

• Ratios:
– LCR:Plasma Exp.os
• Lactato: 1,6
• Glutamina: 0,9
• Glicose: 0,7
• Proteínas totais: 0,005
O Líquido Cefalo-Raquidiano (LCR)
Composição

LCR Soro
Pré-albumina 2-10%

Albumina 45-71% 50-68%

α1-Globulinas 2-7% 2-7%

α2-Globulinas 2-7% 6-11%

β1-Globulinas 4-16%
9-18%
β2-Globulinas 1,5-11%

γ-Globulinas 5-14% 12-20%

A Composição proteica do LCR


(electroforese em acetato de celulose)
O Líquido Cefalo-Raquidiano (LCR)
Composição

• Cerca de 20% das proteínas do LCR têm origem intra-cerebral


– Para as proteínas de origem sérica o principal principio de
transferência não é o peso molecular mas o raio hidrodinâmico
(Felgenhauer), com as moléculas de menor tamanho passando melhor;
– Contudo, pelo menos 3 proteínas não seguem esta regra, tendo
desproporcionadas altas concentrações no LCR – a β2-microglobulina,
a pré-albumina, a lisozima e a transferrina – e outras
desproporcionadas menores concentrações, como a IgG e a IgA;
– As principais proteínas de origem cerebral são a beta trace (26 mg/L),
a gama trace (6 mg/L) e a pré-albumina ou transtirretina (17 mg/L).
Uma proteína tau será de origem cerebral ou derivada (dessialização)
da Transferrina (1/3) (Transferrina, 14 mg/L).
• A beta trace (identificada como prostaglandina D sintetase), a segunda
maior fraccção proteica do LCR depois da albumina, produzida pelas
leptomeninges e plexos coroideus, é o melhor marcador para identificação
do LCR (por ex.: na rinorreia) e terá um papel funcional na regulação do
sono.
O Líquido Cefalo-Raquidiano (LCR)
Composição

• Lipoproteínas no LCR:
– A apoE e a apoA-I são as principais apolipoproteínas no LCR,
presentes em HDLs, não existindo VLDL e LDL contendo apoB;
– Entre outras há a apoJ (~2,5 μg/mL);
– A apoE é a predominante e é de síntese intra-cerebral
(predominantemente pelos astrócitos) (~ 5 μg/mL), enquanto que a
apoA-I será transportada do plasma com as HDL (~ 4 μg/mL);
– O metabolismo lipoproteico no LCR-SNC está hoje sob intensa
investigação podendo associar-se a diversa patologia
neurodegenerativa (ex: doença de Alzheimer) ou inflamatória.
O Líquido Cefalo-Raquidiano (LCR)
Composição

• O conceito de síntese
intratecal patológica:
– Como as proteinas do LCR
podem ter uma origem sérica
e/ou intratecal, esta relação
pode estar alterada em
situações patológicas, o qual
pode ser avaliado por métodos
quantitativos e qualitativos;
– De especial relevância actual é
a síntese intratecal de
imunoglobulinas nalgumas
situações neuroinflamatórias –
como a síntese intratecal de
IgG (a mais frequente) na
esclerose múltipla.
RM de uma doente de 25 anos
com esclerose múltipla
As barreiras do SNC
A Barreira Hemato-Encefálica (BHE)

• O conceito de BHE foi evidenciado com as


experiências de Paul Elrich, no final do século
XIX:
– Elrich era um bacteriologista que na altura
estava a estudar colorações, usadas para tornar
estruturas finas visíveis;
– Alguns desses corantes, nomeadamente o de
anilina, que na altura era muito popular, corava Paul Elrich
(1854-1915)
todos os órgãos do animal excepto o encéfalo.
Nessa altura, Elrich atribui este achado ao facto
do encéfalo ter retido pouco corante.
As barreiras do SNC
A Barreira Hemato-Encefálica (BHE)

• Contudo, mais tarde (em 1913), Edwin Goldman


(um dos estudantes de Elrich):
– Injectou corante directamente na espinal medula e
constatou que o encéfalo ficava corado, mas o resto
do corpo permaneceu livre de corante;
– Esta experiência demonstrava claramente a
existência de um tipo de barreira entre estas 2
secções do corpo;
– Na altura, teorizou que os próprios vasos
sanguíneos seriam os responsáveis por esta
barreira.

• Só mais tarde (na década de 1960s), com a Morfologia da BHE dum rato
introdução do microscópio electrónico de
varredura é que este pressuposto foi comprovado.
A Barreira Hemato-Encefálica (BHE)
Constituição

• O encéfalo é irrigado pelo


sangue que provêm de grandes
artérias que na base do encéfalo
formam uma rede anastomótica.
A partir desta região, as artérias
projectam-se para o espaço
subaracnoideu antes de
entrarem no tecido nervoso. No
encéfalo, o espaço perivascular
é rodeado por uma lâmina basal
derivada tanto das células gliais
como da células endoteliais: a
glia limitants.
A Barreira Hemato-Encefálica (BHE)
Constituição

• Células endoteliais não-fenestradas,


ligadas por junções de oclusão,
previnem a difusão de substancias do
sangue para o encéfalo;

• As junções de oclusão representam a


base estrutural da BHE. Esta barreira
selecciona a passagem de algumas
moléculas, mas exclui a maioria das
substâncias;

• Externamente às células celulares


alinhadas existe uma membrana basal e
externamente a esta encontram-se os
pés perivasculares dos astrócitos, onde
se concentra a aquaporina 4. Apesar
destes pés perivasculares não fazerem
parte da BHE, contribuem para a sua
conservação através do transporte de
fluido e iões do espaço extra-celular
perineural para os vasos sanguíneos.
Os astrócitos são fundamentais para a
diferenciação das propriedades da BHE.
A Barreira Hemato-Encefálica (BHE)
A Junção de Oclusão “Tight junction”

• Proteínas Transmembranárias:
– Claudinas, Ocludina, e Moléculas de Adesão
Celular, incluindo as Moléculas de adesão de
junção e o complexo caderinas-cateninas.
• Proteínas Citoplasmáticas Acessórias:
– Proteínas “zonula occludens” (ZO1-3), AF6,
antigénio 7H6, cingulina.
• Proteínas do citoesqueleto:
– Actina, a principal, α-actinina e vinculina.

• Estas proteínas localizam-se em regiões da


membrana ricas em colesterol associadas a
caveolina-1, que interage e regula vias de
transdução de sinal – regulando o estado
das proteínas do complexo de junção e
assim a permeabilidade da BHE;

• As principais vias de regulação são:


concentração de Ca2+, a fosforilação e as
actividades da PKC, da PKA (AMPc) e da
proteína Rho.
A Barreira Hemato-Encefálica (BHE)
Os órgãos circunventriculares

• Existem zonas do cérebro


desprovidas da BHE (órgãos
circunventriculares):
– Neuro-hipófise: hipófise posterior (HP)
e eminência media (EM) do OSF
hipotálamo;
– Área Postrema (AP); OVLT OSC P
EM
– Organum vasculosum da lamina
terminal (OVLT) (crista supraóptica); HP
– Órgão Subfornical (OSF);
– Órgão Subcomissural (OSC);
– Glândula Pineal (P).

• A maioria tem vasos sanguíneos


fenestrados e funções secretórias
AP
(oxitocina, vasopressina, hormona
hipofisária hipotalâmica).
A Barreira Hemato-Encefálica (BHE)
Funções

• Funções de transporte – ver esquema


– Difusão simples
• Via para-celular aquosa (agentes hidrofílicos) e de transporte lipofílico;
• Compostos lipo-solúveis (etanol, nicotina, imipramina, etc), água, gases (CO2, O2,
N2O, Xe e anaestésicos voláteis);
• Pobre para H+, pelo que o pH no fluido intersticial reflecte o pCO2 e não o pH
sanguíneo.

– Difusão facilitada (mediada por transportadores)


• Sistema das Hexoses (GLUT-1)
– D-glicose (não L-glicose), manose, maltose (intermediário para a galactose, pobre para a
frutose);
– Insulino-independente;
– Também para o ácido dehidroascórbico (depois da supra-renal é o órgão mais rico em vit. C).
A Barreira Hemato-Encefálica (BHE)
Funções

• Funções de transporte
– Difusão facilitada (mediada por transportadores)
• Sistema dos Ácidos monocarboxílicos
– L-lactato, piruvato, acetato, corpos cetónicos (importante no recém-nascido e jejum
prolongado).
• Sistema L
– Leucina, fenilalanina, tirosina, isoleucina, valina, triptofano, metionina, histidina, L-Dopa.
• Outros sistemas de influxo
– Aminoácidos básicos (arginina, lisina);
– Aminoácidos ácidos (glutamato, aspartato – lento);
– Β-aminoácidos (taurina);
– Colina;
– Vitaminas;
– Sódio;
– Outros.
A Barreira Hemato-Encefálica (BHE)
Funções

• Funções de transporte
– Transporte Activo (de efluxo)
• Na+/K+ ATPase
– Localizada predominantemente na face anti-luminal da célula endotelial;
– Efluxo de K+, do espaço intersticial para o sangue e influxo de Na+ para o espaço intersticial;
– Secreção de fluido intersticial para o LCR.
• Sistema A
– Sistema de efluxo de pequenos aminoácidos neutros (alanina, glicina, prolina, GABA)
• P-glicoproteina 1, mdr1a
– Proteína transportadora ABC (ATP-binding casette), produto do gene MDR1, expressa na
superfície luminal da barreira;
– Sistema de efluxo de drogas do cérebro para o sangue. Transportará também opiáceos
endógenos e outros neuropéptidos, podendo representar um novo sistema de comunicação
do SNC com o resto do organismo –para além do sistema hipotalámico-hipofisário e do
sistema autonómico.

– Transcitose mediada por receptores


• Transporte de péptidos plasmáticos para o SNC, como a insulina, a transferrina, e a
leptina.

– Endocitose adsortiva
• Para a albumina e outras proteínas plasmáticas cationizadas.
A Barreira Hemato-Encefálica (BHE)
Mecanismos de Transporte da BHE
Complexos de
junção
Sangue

Célula
Endotelial

Via Para-celular aquosa Transporte lipofílico Difusão facilitada Encéfalo


(agentes hidro-solúveis)
(Transportadores)
glicose, aa, purinas ...

Péptidos
- - Xenobióticos
+
- +
+-
- +

ATP
+ ADP
- -
+ +
- A
+- + Na+ K+

+ -
+ -
+
- - Sistema Na+
A
Transcitose mediada por receptores Endocitose adsortiva (Albumina e Transportes activos de efluxo
(insulina, leptina, transferrina,…) outras proteínas cationizadas) (Luminais e na face anti-luminal)
A Barreira Hemato-Encefálica (BHE)
Funções

• Funções Enzimático-Metabólicas
– A BHE é também uma “barreira enzimática” protegendo o SNC de
neurotransmissores circulantes ou seus percursores, ou toxinas:
• MAO;
• L-Dopa descarboxilase;
• Aminopeptidases;
• Peptidil-dipeptidases;
• Adenil ciclase;
• Guanil ciclase;
• Etc.
A Barreira Hemato-Encefálica (BHE)
Funções

Péptidos,
drogas
Funções
Funções Metabólicas
Imunológicas ATP

mdr ATPase
K+
Na+
Barreira
enzimática

Difusão Na+ Na+


Endotélio
Sistema A
simples Alanina, outros

Outros
Transportadores, Glicose Sistema L
Receptores Outros Leucina, outros
As barreiras do SNC
A Barreira Sangue-LCR

• O epitélio dos plexos coroideus


representa uma barreira entre o LCR
sangue e o LCR;

• Várias substancias podem sair dos Células


capilares mas não entram no LCR; endoteliais
fenestradas

• A formação de LCR pelos plexos Junções


coroideus envolve a passagem de
dum ultrafiltrado do plasma através Oclusão
do endotélio fenestrado dos
capilares sanguíneos e tecido LCR
conjuntivo em redor. As células
epiteliais coroideias
transformam este ultrafiltrado
num produto excretório: o
liquido cefalo-raquidiano.
A Barreira Sangue-LCR
Funções

• Funções de transporte
LCR
– Quantitativamente em geral
menos importante do que Difusão
através da BHE, mas em simples
casos pontuais mais
importante de que esta – para Difusão
o cálcio; Facilitada
– Sistema de efluxo (para o Transporte
sangue) importante é o dos activo
ácidos orgânicos fracos, que
inclui os catabolitos Sistema de
neurotransmissores ácido Efluxo Secreção de
Ácidos orgânicos
homovalínico e ácido 5-hidroxi- fracos
LCR
indolacético (inibido pelo K+
probenecide);
– Migração fisiológica de
linfócitos para o LCR (com as
vénulas do espaço
subararacnóide).
A Barreira Sangue-LCR
Funções

• Secreção do LCR
– Os plexos coroideus (PC) Na+, Cl-
5
Sangue
constituem a principal fonte de H2O
produção de LCR;
1
– Esta consiste num processo de 2K+
transporte iónico activo 3Na+
2
CO2 + H2O Na+
resultando na secreção de
3 AC H+
Na+e Cl-, os principais
Na+
constituintes iónicos do LCR. É Cl- HCO3-
K+ Cl-
aqui importante a anidrase 4
carbónica;
LCR Epitélio dos
– Os PC produzem e secretam
plexos
um dos principais coroideus
constituintes proteicos do
LCR, a pré-albumina ou 1) Ubaina, reduz a secreção de LCR
2) Sistema antiporte
transtirretina e com as 3) Acetazolamida, inibidor da anidrase carbónica
leptomeninges, a beta-trace. (AC), reduz a secreção de LCR
4) Transporte simporte inibido pela furosemida 5)
Aquaporina 1, concentrada no polo apical dos PC,
para transporte de água
As barreiras do SNC
Resumo

BHE Barreira Sangue-LCR Epitélio coroideu


Superfície capilar 5000x Orgãos circunventriculares
superior à da Barreira (plexos coroideus, etc.)
sangue-LCR Célula Junções
endotelial Junções de oclusão
Endotélio contínuo ou Capilares fenestrados de oclusão
com junções de oclusão
Pinocitose discreta Pinocitose activa
Lúmen Membrana
Abundância de basal
mitocôndrias (10-11%) do
citoplasma (2,5-3% noutros Tecido conjuntivo
tecidos) Astrócito

Geração e manutenção Fenestração Lúmen

pelos astrócitos capilar


Funções metabólicas, Secreção de LCR
enzimáticas e reguladoras Sistemas de transporte activo
Capilar Capilar
específicas, incluindo e passivo ± específicos cerebral plexo
sistemas de transporte ± Os plexos coroideus e as
específicos coroideu
vénulas do espaço sub-
aracnoideu serão as vias de
migração fisiológica dos
linfócitos para o LCR.