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_________________________________________________________________________ARTIGO DE REVISÃO

Controle de infecção hospitalar: histórico e papel do estado1

Control of hospital infection: description and paper of the state

Control de la infección del hospital: descripción y papel del estado

Rosangela de OliveiraI, Sônia Ayako Tao MaruyamaII

RESUMO articles found in the Scielo, texts published on


As Infecções Hospitalares - IH são complicações Sanitary Monitoring and pertinent bibliography,
relacionadas à assistência à saúde e se using the describers “hospital infection”,
constituem na principal causa de morbidade e “hospital assistance” and “sanitary monitoring”.
mortalidade hospitalar, gerando prejuízos aos From the obtained material we proceed the
usuários, à comunidade e ao Estado. Nessa reading to identify those that subsidized us in
perspectiva, este artigo tem por objetivo the comprehension of the relation among
abordar a história das instituições hospitalares e nosocomial infection, the hospital institutions
suas relações com as práticas de controle de and the State’s paper. As result, it was possible
infecção, além de identificar o papel do Estado, to relate “The hospitals and nosocomial
dos profissionais de saúde e dos usuários dos infections” and “The control of the nosocomial
serviços no controle das IH. Trata-se de um infections and the State’s paper”. The
estudo de revisão de literatura com base nos information had access for the study allowed us
artigos encontrados no Scielo, em textos to understand that the control of the IH involves
publicados sobre Vigilância Sanitária e em a joint effort of different citizens and instances,
bibliografia pertinente, utilizando os descritores that is, professionals of health, managers, State
“infecção hospitalar”, “assistência hospitalar” e and community.
“vigilância sanitária”. Do material levantado
procedemos à leitura de forma a identificar Key words: Nosocomial infections; Sanitary
aqueles que nos subsidiassem o entendimento vigilance; Nosocomial welfare work.
da relação entre infecção hospitalar, as
instituições hospitalares e o papel do Estado. RESUMEN
Como resultado foi possível relacionar “Os Las infecciones del hospital son complicaciones
hospitais e as infecções hospitalares” e “O relacionadas con la asistencia a la salud y si
controle da IH e o papel do Estado”. As constituyen en la causa principal de la morbidad
informações acessadas pelo estudo nos y mortalidad del hospital, gerando perjuicio a
possibilitaram compreender que o controle das los usuarios, a la comunidad y al Estado. En
IH envolve um esforço conjunto de diferentes esta perspectiva, el propósito del artículo tiene
sujeitos e instâncias, ou seja, profissionais de el objetivo acercarse a la historia de las
saúde, gestores, Estado e comunidade. instituciones nosocomiales y su relaciones con
las practicas de control de las infecciones, más
Palavras chave: Infecção hospitalar; Vigilância allá de identificar el papel del Estado, los
sanitária; Assistência hospitalar. profesionales de la salud y los usuarios de los
servicios en su control. Se trata de un estudio
ABSTRACT de la revisión de la literatura en base de los
The nosocomial infections are complications artículos encontrados en Scielo, textos
related to health assistance and they constitute
the main cause of morbidity and nosocomial
mortality, originating prejudices to the users, 1
Trabalho vinculado ao Grupo de Pesquisa Enfermagem
the community and the State. In this Saúde e Cidadania - GPESC (Integralidade, Práticas de
Atenção e de Gestão e Evento-sentinela), financiado pelo
perspective, the purpose of this article has for
CNPq.
objective to approach the history about hospital I
Enfermeira. Mestranda do Programa de Pós-Graduação da
institutions and its relations with the infection Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Mato
control practices, beyond identify the paper of Grosso. Cuiabá – MT. E-mail: oliveirapedroso@pop.com.br.
II
Enfermeira. Doutora em Enfermagem Fundamental.
State, of the professionals of health and users
Professora da Faculdade de Enfermagem da Universidade
of the service in its control. One is about a Federal de Mato Grosso. Cuiabá – MT. E-mail:
study of literature revision on the basis of soniayako@uol.com.br.

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publicados en la supervisión sanitaria y la control de las infecciones nosocomiales y del


bibliografía pertinente, usando los descriptores papel de estado”. Las informaciones accesadas
“infección del hospital”, “asistencia del hospital” por el estudio permitieron comprender que el
y “la vigilancia sanitaria”. Del material control del IH implica un esfuerzo conjunto de
levantado procedemos la lectura para identificar diversos ciudadanos y de los sujetos, es decir,
los que nos subvencionaron en la comprensión profesionales de la salud, encargados, estado y
de la relación entre la infección nosocomial, las comunidad.
instituciones del hospital y el papel de Estado.
Como resultado, fue posible relacionar “Los Palabras clave: Infección hospitalaria;
hospitales y las infecciones nosocomiales” y “El Vigilancia sanitaria; Atención hospitalaria.

INTRODUÇÃO estudados, demonstrando a necessidade de


A assistência à saúde vem, ao longo dos medidas mais eficazes para a redução dessas
tempos, evoluindo com os avanços científicos e taxas no país.
tecnológicos, e tem refletido em melhoria das A infecção hospitalar há muito tempo tem
ações de saúde para a população. Porém, se por sido motivo de preocupação entre os órgãos
um lado se observa o desenvolvimento governamentais e, embora a sua
científico-tecnológico nas ações de saúde, por regulamentação tenha ocorrido na década de
outro, tem-se observado que problemas antigos 80, a problemática no país continua ainda sendo
ainda persistem como é o caso das infecções negligenciada(2,8,9).
hospitalares(1). Neste contexto, com base nas práticas
A infecção hospitalar é definida pela vivenciadas como profissional de saúde em
Portaria MS n° 2616 de 12/05/1998 como diferentes instituições hospitalares, observamos
“aquela adquirida após a admissão do paciente aspectos do cotidiano dos profissionais de saúde
e que se manifeste durante a internação ou e dos usuários que se relacionam com a
após a alta, quando puder ser relacionada com problemática das infecções hospitalares. Diante
a internação ou procedimentos hospitalares”. da realidade apresentada e das reflexões,
Elas representam complicações relacionadas à surgiram questões como: como as infecções
assistência à saúde e constituem a principal hospitalares surgiram? Quais as
causa de morbidade e mortalidade hospitalar, responsabilidades do poder público no controle
aumentando o tempo de internação dos da infecção hospitalar? Quais mecanismos de
pacientes e, com isso, elevam os custos dos regulação e controle de serviços e produtos o
hospitais e reduzem a rotatividade de seus poder público se utiliza?
leitos(2). Os procedimentos cada vez mais O que nos motivou a realizar o estudo foi
invasivos, ao uso indiscriminado e a resistência a necessidade de compreender as infecções
aos antimicrobianos são fatores que apontam as hospitalares a partir da sua constituição e do
infecções hospitalares como um grave problema papel do Estado no seu controle, aprofundando
de saúde pública(3-4). os conhecimentos relativos a esta temática que
No Brasil, sua prevalência exata de um faz parte da nossa atividade profissional, no
modo geral ainda é desconhecida(4), entretanto, intuito de buscar um melhor entendimento para
um inquérito nacional realizado pelo Ministério esse importante problema de saúde pública que
da Saúde revelou que entre as instituições implica na garantia da qualidade e da segurança
avaliadas, a taxa de infecção hospitalar variou na prestação de serviços de saúde.
de 13% a 15%(5-6). Esta se apresenta bastante Assim, buscamos atender a dois objetivos:
alta se compararmos a um estudo levantado abordar a história das instituições hospitalares e
pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que suas relações com as práticas de controle de
encontrou em 14 países, entre 1983-1985, taxa infecção, além de identificar o papel do Estado,
média de 8,7%(7), ou seja, o estudo realizado dos profissionais de saúde e dos usuários dos
no Brasil revelou que este apresenta serviços no controle das IH.
praticamente o dobro de casos de infecção Pretendemos com este artigo subsidiar
hospitalar em relação aos outros países reflexões acerca das práticas de controle de

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infecção hospitalar bem como ressaltar a muitos dos quais eram compartilhados com
importância de co-responsabilizar as pessoas outros doentes(6). Ressaltamos a utilização do
envolvidas no contexto destas práticas, ou seja, termo “hospital” por conveniência didática, haja
gestores, profissionais de saúde, usuários e vista que tal denominação não se aplicava a
familiares, enfim a sociedade, de forma a esta instituição nos primórdios de sua
qualificar a atenção nas instituições que existência.
prestam assistência a saúde. Conforme o Concílio de Nicéia, os hospitais
eram construídos próximos às catedrais(11),
METODOLOGIA caracterizando uma função caritativa, de
Trata-se de um estudo de revisão de assistência aos pobres, inválidos, peregrinos e
literatura, com base em artigos encontrados no doentes. Esses espaços de segregação e de
Scielo e, em textos publicados nos Manuais da exclusão, similares a albergues ou asilos, eram
Vigilância Sanitária e em bibliografia pertinente, considerados fonte inesgotável de doença
utilizando os descritores “infecção hospitalar”, devido às características sanitárias e de
“assistência hospitalar” e “vigilância sanitária”. assistência precárias, não se fazendo presentes,
Do material levantado selecionamos aqueles portanto, nem o médico e nem a atividade
que se enquadravam no período de 1997 a terapêutica(12).
2006. Após a leitura dos mesmos, selecionamos Não dispunham de nenhuma forma de
19 textos que abordavam a temática em sistematização assistencial que evitasse os
questão. Para análise e síntese seguimos os contágios entre as pessoas ali assistidas,
seguintes passos(10): leitura exploratória para favorecendo a disseminação de doenças,
reconhecer do que se tratava o texto; em especialmente as de caráter infeccioso(12). O
seguida procedemos a uma leitura seletiva, hospital era mais do que local de cura e
selecionando o material em busca de cuidado, uma fonte de doença e local de morte.
informações que pudessem estar relacionados Desde o período a.C., na Roma Antiga e
aos objetivos e a temática proposta. Após a na Idade Média, a assistência nos hospitais era
leitura geral dos textos, procedemos ao prestada quase sempre por mulheres, como
fichamento segundo os objetivos propostos, ou religiosas, prostitutas e outras pessoas sem
seja, que nos subsidiassem o entendimento da qualquer tipo de qualificação e remuneração.
relação entre infecção e as instituições Para aquelas consideradas pecadoras, servia
hospitalares e o papel do Estado. Seguimos como um meio para a remissão dos seus
para uma leitura analítica que nos possibilitasse pecados e merecimento de indulgências(13).
a construção de categorias e, posteriormente, Por terem caráter social, os hospitais não
realizamos uma leitura interpretativa, ou seja, eram utilizados pelas famílias mais abastadas.
procuramos dar significado aos dados Estas, realizavam os cuidados e a assistência
encontrados. Como resultado foi possível aos seus enfermos no próprio domicílio. Até
relacionar dois aspectos: “Os hospitais e as meados do Século XVIII, o hospital não era um
infecções hospitalares” e “O controle da IH e o local para o doente se curar e sim um local para
papel do Estado”(10). assistência aos pobres que estavam
morrendo(12).
OS HOSPITAIS E AS INFECÇÕES Paralelamente às condições precárias
HOSPITALARES pelas quais se conformavam os hospitais até
O aparecimento das infecções hospitalares meados do século XVIII, se observou a
é tão antigo quanto o surgimento dos hospitais. ocorrência das infecções hospitalares, ou seja,
Data aproximadamente do ano 330 a.C. no as pessoas doentes assistidas nos hospitais,
Império Romano, a existência do primeiro passavam a desenvolver outras doenças em
hospital urbano, embora tenha sido relatada a função da hospitalização.
construção do primeiro hospital em 394 a.C. na A infecção surge nos hospitais como uma
periferia de Roma Posteriormente, muitos conseqüência das precárias condições em que
outros foram criados, como o Hotel-Dieu na as pessoas eram dispostas e atendidas naqueles
França, que possuía cerca de 1.200 leitos, ambientes. A precariedade das condições por

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sua vez, contribuiu para a evolução do infecção puerperal em mulheres que haviam
conhecimento sobre o hospital e sua finalidade, sido tratadas por médicos que antes haviam
que, gradativamente, passa a ter uma nova realizado necropsias, instituiu a rotina de
função na assistência à saúde. higiene de mãos com solução clorada. Neste
A mudança desse paradigma caritativo- simples ato, conseguiu reduzir as taxas de
assistencial ocorre no final do Séc. XVIII, com a infecção de 11,4% para 1,3% em um período
conscientização de que o hospital poderia e de sete meses(6). Ressalte-se que, em 1843,
deveria ser um instrumento de terapêutica, não Oliver Wendel Holmes fez esta mesma relação
pela ação sobre o doente ou a doença, mas que Semmelweis, embora convincente e com
pelos efeitos negativos que ele causava, como argumentos lógicos, foi tratado com indiferença
as desordens econômico-sociais(12). e hostilidade pela classe médica, não
A partir de inquéritos a pedido da conseguindo êxito na época(5,11).
Academia de Ciências em outros hospitais da A partir da contribuição do trabalho de
Europa, inicia-se a reforma e reconstrução do Semmelweis (1860), reforçada por Lister
Hotel-Dieu de Paris. Surgem também novas (1867) e seguidamente por outros
concepções quanto à relação entre fenômenos pesquisadores, foi-se estabelecendo a relação
patológicos e espaciais, como segregação de que havia entre os pacientes internados que
doentes de acordo com a nosologia, cuidados apresentavam as infecções e os óbitos(14).
com contaminações e o ambiente, de forma a Na Inglaterra, no final do Séc. XIX,
evitar os fatos patológicos próprios dos Florence Nightingale representou significativa
hospitais(12). importância histórica com sua contribuição na
A emergência do capitalismo corrobora (re)organização dos hospitais e,
para o processo da reestruturação dos conseqüentemente, na implantação de medidas
hospitais, no objetivo de valorizar o corpo como para o controle das infecções hospitalares,
objeto principal para as forças de trabalho como a preocupação voltada para os cuidados
necessárias ao modelo capitalista(8) e reduzir de higienização, o isolamento dos enfermos, o
custos das instituições hospitalares que atendimento individual, a utilização controlada
mantinham ociosos e necessitados, encarecendo da dieta e a redução de leitos no mesmo
a sua manutenção(12). ambiente, instituindo medidas de organização,
Os hospitais iniciam sua gradual sistematização do atendimento e treinamento
reestruturação, de um local de caridade para de pessoal, especialmente as práticas higiênico-
um local de cura, de observação, de saberes e sanitárias que estabeleceu e que colaboraram
de disciplina, com a inserção dos médicos, para a redução das taxas de mortalidade
melhorando as condições de atendimento, hospitalar da época(8,13). Considerada a
tornando-os instituição mais funcional, precursora da enfermagem moderna, era
internando doentes somente com indicação dotada de um talento raro, muito à frente das
médica para evitar a superlotação e pessoas de sua época, e seus conhecimentos e
contribuindo para o ensino. Essa vivências práticas na assistência à saúde tem
disciplinarização instituída com a entrada dos contribuído até hoje, várias décadas após a sua
médicos nos hospitais, constitui com o saber morte.
médico, o início das relações de poder e da Especificamente no Brasil, as primeiras
hegemonia médica, que se estabelece referências ao controle da contaminação
progressivamente na hierarquização da classe. hospitalar, termo utilizado na época, surgiram
Começam a surgir as primeiras medidas na década de 50, aproximadamente em 1956,
básicas de controle de infecção para o com questionamentos quanto a medidas
atendimento ao novo propósito do hospital. No ambientais, práticas relativas aos
contexto histórico das infecções hospitalares, procedimentos invasivos como as técnicas
em 1847, grande importância representou Ignaz assépticas, processos de esterilização de
Philipp Semmelweis (1818-1865), médico material hospitalar e o aparecimento de
cirurgião húngaro, que em Viena, em meados microorganismos resistentes pelo uso
do Séc. XIX, observando as altas taxas de indiscriminado de antibióticos(5-6). Nas escolas

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médicas, esta temática era pouco abordada, manuais e normas técnicas(6). Em 1989 ocorreu
fato que persiste ainda nas instituições o I Congresso Brasileiro sobre Infecção
formadoras de profissionais de saúde(6,15). Hospitalar em São Paulo, como conseqüência do
Nas últimas décadas do Séc. XIX no Brasil, desenvolvimento desse conhecimento entre os
os índices de infecção verificados entre os profissionais e na constituição de um novo
pacientes submetidos a procedimentos mercado de trabalho que se criava(5).
cirúrgicos chegavam a até 90% e suas causas Os anos 90 marcaram um progressivo
se relacionavam a falta de regras básicas de desgaste no Programa de Controle de Infecção
higiene e de isolamento dos doentes portadores Hospitalar Brasileiro, mesmo com a publicação
de doenças infecciosas, causando o que se da Portaria MS nº 930/1992. A política de
denominavam na época de “gangrenas dos descentralização das ações de saúde, amparada
hospitais”, representando a principal causa de pela Lei nº 8.080/1990, provocou a
mortalidade nos hospitais brasileiros(6). fragmentação e dispersão das bases de apoio
Os primeiros relatos no país quanto à em controle de infecção hospitalar do Ministério
ocorrência de infecção hospitalar, surgiram na da Saúde(6).
década de 50, e, embora se utilizasse o termo O efeito dessa descentralização culminou
“contaminação hospitalar”, referiam como na formação de núcleos de profissionais em
causas a esterilização do material hospitalar, o alguns Estados com o intento de manter trocas
uso indiscriminado de antibióticos e o de experiências, dando origem a várias
surgimento de microorganismos resistentes(5-6). associações de profissionais em controle de
A partir de 1968 surgem as primeiras infecção(6).
Comissões de Controle de Infecção Hospitalar Em conseqüência do não cumprimento da
(CCIH) no país, vinculadas a instituições de Portaria MS nº 930/1992 por grande parte dos
ensino inicialmente. Em 1976, o governo hospitais brasileiros, o Ministério da Saúde
determina a necessidade de criação de CCIH emitiu a Lei Federal nº 9.431/1997 que
nos hospitais próprios da previdência, mas a determinava a obrigatoriedade de manutenção
medida não causa impacto pela falta de de Programas de Controle de Infecção
fiscalização. Hospitalar em todos os hospitais do país, mas
A década de 80 caracteriza-se por um vetava a obrigatoriedade de serviços de
grande avanço no controle de infecção, controle de infecção e busca ativa de casos.
ocorrendo vários eventos relativos ao tema, Quase dez anos após a emissão da Lei
levando a criação de várias CCIH nos hospitais Federal nº 9.431, o Ministério da Saúde emite a
brasileiros(5-6). Portaria nº. 2.616/1998, ainda em vigor, que
Em 1983, o Ministério da Saúde, mantém a obrigatoriedade da existência de um
pressionado pelos fatos veiculados na imprensa PCIH em todos os hospitais do país, trata da
relativos a casos de infecções hospitalares, organização e competências da Comissão de
emitiu a Portaria MS nº 196/1986 que Controle de Infecção Hospitalar -CCIH e do
recomendava aos hospitais brasileiros a criação Programa de Controle de Infecção Hospitalar -
de CCIH. PCIH, estabelece os conceitos e critérios
Em 1985, a morte do recém-eleito diagnósticos das Infecções Hospitalares, dá
Presidente da República, Tancredo Neves, por orientações sobre a vigilância epidemiológica
septicemia devido a uma infecção pós-cirúrgica, das infecções hospitalares e seus indicadores,
causou grande repercussão nacional, faz recomendações sobre a higiene das mãos e
corroborando para que o Ministério da Saúde enfatiza a observância de publicações anteriores
implementasse ações e projetos que mudassem do Ministério da Saúde quanto ao uso de
o panorama e os rumos do controle de infecção germicidas, microbiologia, lavanderia e
no país. Desencadearam-se ações como o farmácia.
levantamento das instituições brasileiras que já Com a necessidade de centralizar ações de
tinham CCIH operacionalizadas, capacitação de regulação de alimentos e medicamentos
multiplicadores, intercâmbio de conhecimentos inicialmente e, posteriormente, de produtos e
entre os profissionais de saúde, elaboração de serviços de interesse da saúde, em 1999 foi

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criada a Agência Nacional de Vigilância Sanitária pela necessidade de manter a paz, o


(ANVISA), autarquia ligada ao Ministério da crescimento ordenado, o controle das riquezas e
Saúde, em cujas atribuições inclui também o as condições de manutenção da saúde que
controle de infecção hospitalar em nível federal, surgem em função do crescimento das
com suporte às Secretarias Estaduais por meio cidades(12).
de apoio técnico, capacitações, expedição de Dotada de um conjunto de regulamentos e
normas e legislações, consolidação de de instituições múltiplas, na área da saúde,
informações e promoção da socialização das visava a regulamentação do exercício da
informações pertinentes.Para a profissão médica, também realizado por
instrumentalização mais efetiva das ações de curiosos sem formação específica(13),
fiscalização sanitária no monitoramento das combatendo o charlatanismo, promovendo o
ações de Controle das Infecções nos saneamento das cidades, fiscalizando as
estabelecimentos hospitalares, a ANVISA emitiu embarcações, os cemitérios e a comercialização
a Resolução RDC nº. 48/2000, para estabelecer de alimentos e evitando que as doenças se
a sistemática para avaliação/inspeção dos propagassem entre a população(17).
Programas de Controle de Infecção Hospitalar. No Brasil, a preocupação sanitária data
Serviu para dar suporte à fiscalização sanitária entre os séculos XVIII e XIX, pouco após o seu
e aos profissionais das CCIH dos hospitais. surgimento na Europa, embora já no século XVI
A deficiência de indicadores de infecções tenham ocorrido ações de fiscalização e de
hospitalares(16) levou a ANVISA a desenvolver o punição de curta efetividade(17).
Sistema de Informações para o Controle de Para o controle sanitário de serviços e
Infecção em Serviços de Saúde (SINAIS), cujo produtos de interesse e de atenção à saúde, o
objetivo é conhecer o perfil epidemiológico e as poder público tem como responsabilidade fazer
taxas de infecções hospitalares nos hospitais, com que as normas e legislações relacionadas
buscando uniformizar e padronizar os sejam aplicadas para evitar a exposição da
indicadores com possibilidade de população a riscos. O descumprimento do
acompanhamento, além de servir como exercício atribuído ao agente público, implica na
instrumento de orientação para implantação das desconsideração e responsabilidade que lhe foi
ações que visam diminuir sua incidência e imputada, constituindo obrigação legal do
gravidade nos serviços de saúde, medir sua Estado promover a indenização dos prejuízos
eficácia e monitorar a qualidade da assistência causados em razão da não execução das
hospitalar e riscos. atividades públicas atribuídas(18).
Na prática, mesmo com a existência de As ações de Vigilância Sanitária englobam
legislações e normativas para o exercício do a fiscalização e/ou vistoria, o licenciamento, a
controle sanitário, verificamos a interferência de imposição de penalidades (notificação,
vários discursos influindo nas práticas, sejam de apreensão, infração e interdição), o trabalho
ordem política, econômica, jurídica ou técnica, educativo (educação em saúde), coleta,
acarretando confrontos dos mais variados, que processamento e divulgação das informações de
acabam por interferir nas ações da regulação interesse para a Vigilância Sanitária e
sanitária. Esses discursos, embora não Epidemiológica, dentre outros, observados os
possuam a capacidade de perpassar domínios ditames legais e normativos das três instâncias
técnicos e científicos, constituem relações de (federal, estadual e municipal) que embasam
forças capazes de suprimir a execução do seus mecanismos.
exercício institucional efetivo de controle de As práticas de fiscalização sanitária,
infecção hospitalar no Brasil. inicialmente, conformavam-se de forma
essencialmente policialesca, caracterizando o
O CONTROLE DE INFECÇÃO HOSPITALAR E “exercício de polícia”. Atualmente, a forma de
O PAPEL DO ESTADO atuação vem sendo modificada, numa
O sistema de fiscalização sanitária, concepção de trabalho voltada para a educação
originou-se na Europa entre os séculos XVII e sanitária da população, com o objetivo de tornar
XVIII, na época denominada “polícia sanitária”, mais efetiva e eficaz a atuação da Vigilância

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Sanitária, socializando o corpo social quanto à construção dentro das normas sanitárias
noção das possibilidades dos riscos a que estão requeridas na RDC/ANVISA nº 50 de
expostos nas diferentes práticas sob controle 21/02/2002. Em casos cujas construções são
sanitário e de suas intervenções quando antigas e fora dos padrões sanitários vigentes,
necessárias(19). A participação e o controle após análise prévia do projeto, são sugeridas
popular como constituição de uma relação de adequações possíveis de serem realizadas para
poder mútua se imbrica com as ações de que estejam o mais próximo possível do
controle do órgão fiscalizador, garantindo sua estabelecido nas normas. Tais análises
participação ativa no processo como permitem buscar estratégias de forma a
representante dos interesses da sociedade como permitir a minimização de riscos de infecções
consumidores e, conseqüentemente, hospitalares, especialmente em setores
colaborando na otimização e resolutividade das considerados críticos como as terapias
práticas fiscais. intensivas e os centros cirúrgicos por exemplo,
A atuação do órgão de Vigilância Sanitária uma vez que são nesses setores que os
representa o cumprimento do papel que cabe ao pacientes são submetidos a procedimentos
Estado que é o monitoramento de controle de invasivos, estando conseqüentemente, mais
ambientes, produtos e serviços de interesse à expostos às infecções hospitalares. Nessa
saúde, embasados em legislações e normativas perspectiva, é importante a participação da
das três instâncias. CCIH do estabelecimento nas discussões dos
Os hospitais são serviços complexos e projetos a fim de contribuir com seus
envolvem um grande número de legislações e conhecimentos técnicos específicos.
normativas, devido à sua especificidade Quando evidenciamos problemas
complexa e característica. Muitas dessas decorrentes da estrutura física, seja no que se
legislações e normativas são criadas para refere a fluxos, espaços ou acabamentos
setores ou serviços específicos, dentro da utilizados, o serviço é notificado a encaminhar
própria instituição. Devido à extensão de projeto para avaliação, para que, em seguida,
atividades realizadas na fiscalização, se procedam às adequações necessárias.
procuraremos destacar os pontos principais da A inexistência de normalização e
inspeção sanitária nesses serviços. socialização das diferentes práticas são
O principal aspecto verificado diz respeito comumente verificadas e implicam na
às questões higiênicas do estabelecimento, ineficiência do serviço de instituir as normas e
requisito considerado básico e fundamental para rotinas (Procedimentos Operacionais Padrão -
o funcionamento do serviço, pois sua realização POP) para o seu funcionamento, que devem ser
efetiva e adequada permeia todos os outros seguidas uniformemente por todos os
processos que ocorrem no hospital. Embora seja profissionais. Sua elaboração pode ser feita em
essa uma atividade básica, ainda representa um parceria com o Serviço de Educação Continuada
grande problema em muitos serviços, e a Comissão de Controle de Infecção
constituindo um importante foco de Hospitalar, seguido de capacitação para a
disseminação de partículas e microorganismos, socialização das informações instituídas no
favorecendo a ocorrência das infecções serviço aos profissionais de saúde(2,15).
hospitalares. A inatividade ou ineficiência da Comissão
Todos os demais processos e de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) é
procedimentos realizados no hospital, tanto os outro fato muito comum encontrado nos
que envolvem a assistência aos clientes como hospitais e que acaba acarretando prejuízos à
os demais, são criteriosamente avaliados pela instituição, seja pela falta de capacitação ou
importância no contexto assistencial. perfil dos profissionais para atuação na área ou
Quanto à estrutura física, é de praxe a por falta de conscientização do gestor quanto às
aprovação prévia do projeto arquitetônico do necessidades propostas pela CCIH, nem sempre
estabelecimento pelo órgão sanitário quando atendidas. Muitas vezes ocorre da CCIH não
em situações de construção, reforma, dispor de um Programa de Controle de Infecção
adequações ou ampliações, permitindo sua Hospitalar (PCIH) implantado e implementado,

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trabalhando sem um direcionamento para suas visando garantir à população o acesso a


ações. serviços de saúde que disponibilizem
Muitos hospitais ainda não atentaram para atendimento seguro e de qualidade.
a importância da contribuição da CCIH na
assessoria administrativa da instituição, CONSIDERAÇÕES FINAIS
diagnosticando e vigiando a freqüência e A infecção hospitalar é um grave problema
distribuição das infecções hospitalares entre os de saúde pública e representa um grande
pacientes internados e egressos, intervindo desafio a ser enfrentado pelo poder público para
através da implantação e/ou implementação de a execução das ações de prevenção e controle
medidas de controle de infecção, visando de infecção nas instituições hospitalares.
garantir a qualidade e segurança da sua A realidade de muitos hospitais ainda é
assistência(16). deficiente sob aspectos relativos às questões
As práticas sanitárias evidenciam a sanitárias legais e normativas, e principalmente,
necessidade de implementação de medidas de quando se trata da inexistência de Comissões e
maior impacto no funcionamento dos serviços de Programas de Controle de Infecção
hospitalares, com um enfoque maior para a Hospitalar para a aplicação das medidas de
institucionalização de práticas de controle de prevenção e controle desses eventos.
infecção, que, muitas vezes, não tem o respaldo Defendemos a importância dos fatores
administrativo para a sua devida “vontade e iniciativa” dos sujeitos, entretanto,
operacionalização. Há necessidade contínua de não desvinculamos a valorização das ações de
revisões e implementação das práticas de capacitação e conscientização dos agentes
prevenção e controle, em virtude da utilização (trabalhadores e usuários) articulados em
de procedimentos cada vez mais sofisticados e consonância com os gestores dos serviços.
invasivos, da virulência dos microorganismos, Nesse sentido, pactuamos da necessidade
do uso inadvertido de antimicrobianos e da de institucionalização dessa temática nas
resistência microbiana(2). unidades de formação de profissionais de saúde
Além das práticas relacionadas aos no Brasil, permitindo que os profissionais de
procedimentos técnicos, é de fundamental saúde possam atuar com maior respaldo
importância para o êxito das ações de controle científico no assunto. Sabemos também que
de infecção, o envolvimento, a participação e a essa atitude implica em decisões políticas que
integração da CCIH com os serviços de apoio do devem ser instigadas num esforço coletivo entre
hospital(20), como, especialmente, o laboratório profissionais de saúde e população em benefício
de microbiologia, a farmácia hospitalar, a do bem comum.
lavanderia, a nutrição e o serviço de limpeza, Assim, a problemática das infecções
uma vez que estão também envolvidos com o hospitalares requer também mudanças de
controle de infecção. Nessa perspectiva, ordem governamental, como a criação de uma
relacionamos alguns Programas básicos a serem política para o controle de infecção de maior
instituídos nos hospitais, como Programa de efetividade, que vá além do estabelecimento de
Controle Médico e Saúde Ocupacional (PCMSO), mecanismos legais e normativos para a sua
Programa de Prevenção de Riscos Ambientais regulação, que envolva a população usuária dos
(PPRA), Programa de Gerenciamento de serviços, tornando-a partícipe no processo.
Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS), É necessário refletir sobre todas as
Controle Integrado de Pragas e Vetores, estratégicas possíveis que possam contribuir
Programa de Manutenção Preventiva e Corretiva para a mudança do atual panorama que se
de Equipamentos Médico-hospitalares e apresenta, como: a inserção da temática nos
Programa de Manutenção e Controle de Limpeza currículos dos cursos de graduação na área de
dos Condicionadores de Ar ou Sistemas de saúde; a ampliação dos investimentos na
Ventilação, em especial nos setores críticos. disponibilização de cursos de pós-graduação em
Assim, o Estado busca através de diversos controle de infecção para profissionais de
mecanismos regulatórios, fiscalizar e normatizar saúde, especialmente fora dos grandes centros;
as práticas de controle de infecção hospitalar, garantias legais no reconhecimento e autonomia

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