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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder

Florianópolis, de 25 a 28 de agosto de 2008

Radioteatro romântico: uma construção de mulher moderna no imaginário feminino de


Florianópolis.

Vívian de Camargo Coronato. (PPGT-UDESC)


Palavras-chave: Radioteatro; Mulher; Imaginário.
ST 4 – Atos de violência: representações de agressão à mulher no palco

Este artigo faz parte de um processo de pesquisa iniciado em minha graduação em Artes
Cênicas que está tendo continuidade no mestrado em Teatro. Apresento aqui uma leitura de um
possível ideal de mulher propagado através de programas de radioteatro românticos transmitidos em
Florianópolis durante as décadas de 1950 e 1960 e a relação com o imaginário de modernidade
presente no período.
Florianópolis entre 1950 e 1970 sofreu uma segunda onda de modernização (a primeira se
deu no início do século XX), sob influência da estética modernista, do desenvolvimentismo e
nacionalismo propagado pelo presidente Juscelino Kubitschek (presidente da república de 1956 a
1961) e pela crença no progresso e crescimento urbano industrial. A população aumentou, as
principais ruas foram pavimentadas, o primeiro Plano Diretor surgiu assim como novas diretorias
do governo, o edifício das secretárias, a Celesc, a Universidade Federal, etc. A verticalização
começava a dominar a paisagem. Segundo Flores: “Desejos, sonhos, fantasias, novas condutas,
novos valores, novos gostos, novos estilos fundem-se aos aparatos do moderno. Na cidade tudo
ganhava o apelo do moderno.”1 O desejo era que “a cidade se projetasse para o resto do estado
como capital, que encontrasse sua peculiaridade e sua potencialidade econômica, cada vez mais
com vistas no turismo.”2
É dentro deste contexto de modernidade que estão inseridos os programas Falando ao
Coração e Encantamento, transmitidos, respectivamente pela Rádio Guarujá e Rádio Diário da
Manhã. Os programas transmitiam peças de radioteatro completas de cunho romântico. Escritas por
Aldo Silva3 era este também que interpretava o papel masculino (ELE) enquanto uma radioatriz,
Neide Maria ou Nívea Nunes, interpretava o personagem feminino (ELA). Encantamento era assim
descrito pelo departamento comercial da Diário da Manhã:

Título: “Encantamento”
Gênero: Feminino
Gênero de apresentação: Estúdio
Duração: 25 minutos
Freqüência: semanal
[...]
OBS: “Encantamento” é a radiofonização de uma carta de amor. Um belo
2
programa que deverá ser apresentado na parte da tarde. Bom veículo para artigos
femininos. [...]4

“Encantamento”
-consultório sentimental, música, romance e poesia
-uma audição especialmente para a mulher
[...]5.

Pode-se notar que o programa era voltado para o público feminino e que este era tido como
apreciador de consultório sentimental, romance, música e poesia. É descrito como bom veículo para
venda de artigos femininos e por isso teve como patrocinadora a Galeria das Sedas, loja de tecidos
localizada na Rua Trajano nº9, centro de Florianópolis. A publicidade era inserida no início,
intervalo e ao final do programa e lida pela mesma dupla que interpretava o par romântico das peças
apresentadas. Aliada a idéia de se comprar um bom e barato tecido estava a de comprar para estar
na moda, para ter acesso às últimas novidades, ser elegante e moderna. Esta, aliás, era tida como a
obrigação da mulher que queria ser moderna, como se pode observar nos trechos da publicidade da
Galeria das Sedas abaixo:

ELE: Neide, você tem razão quando diz que uma mulher jovem deve ser elegante.
ELA: Mas eu não disse toda mulher JOVEM. Mesmo uma menina ou uma anciã,
devem trajar-se com esmêro, de acordo com a moda.
ELE: O que é necessário para observar os preceitos de elegância e distinção,
senhora DITADORA DA MODA?
ELA: Em primeiro lugar, servir-se de um estabelecimento especializado.
[...]
ELA: Sim, Casas comerciais que, pelo bom gosto, pelo cuidado de terem sempre as
últimas novidades, facilitam grandemente a mulher elegante.
ELE: A GALERIA DAS SEDAS, por exemplo?
ELA: Justamente! Muito bem pensado. A GALERIA DAS SEDAS, tão logo Rio
ou São Paulo, lançam suas novidades, invariavelmente, no dia seguinte, as expõe
em suas vitrines. Agora mesmo, estão repletas de novidades. Tecidos maravilhosos
que encantam e obrigam a comprar.
ELE: Vejo que você é uma ardorosa fã da GALERIA DAS SEDAS...
ELA: E não é para menos. Todos os meus bons trajes foram adquiridos na
GALERIA DAS SEDAS, a rua Trajano, número 9.6

[...]
Ele:- Sabe, Nívea... Às vezes, tenho as minhas dúvidas no que diz respeito à moda.
Haverá mesmo necessidade da mulher moderna trajar-se com tanto apuro?
Ela (CHOCADA) – Aldo?... Por quem é!... Não diga uma coisa dessas! Como pode
você, homem esclarecido, ter um pensamento tão arcaico, tão antiquado?
Ele: Contudo.. .o luxo...
Ela- (CORTANDO) – Eu não falei em luxo. Não vamos nos referir a extremos. A
mulher moderna, a mulher dos nossos dias, tem a obrigação de apresentar-se
sempre bem vestida, vestida com esmero, com gosto. Isso não quer dizer que ela
seja obrigada a desprender grandes quantias com seus trajes. 7

A modernidade vinha do Rio e São Paulo que por sua vez seguiam as tendências de Paris
ou Nova Iorque. Beirão Filho8 afirma que todas as novidades no quesito moda incorporadas no Rio
3
de Janeiro eram de pronto seguidas em Florianópolis, que guardava semelhanças, por ser também
litorânea, com a cidade carioca mais que por São Paulo, por exemplo. E tanto as revistas como o
rádio serviram de fonte de referência para a moda na cidade. As publicidades inseridas nos
programas radiofônicos voltados para público feminino eram geralmente de produtos para o lar,
produtos para higiene e beleza, roupas e tecidos. Afinal, a mulher sintonizada no radioteatro era a
mesma que adquiria os produtos no armazém, na farmácia, na loja de roupas e tecidos... Mas que
imagem de mulher estava sendo delineada?
De acordo com as peças transmitidas pelos programas Falando ao Coração e
Encantamento esta mulher deveria ser jovem, bonita, companheira, honesta, delicada, inteligente e
meiga. Deveria perdoar o homem em caso de alguma traição, não deveria se entregar ao primeiro
que aparecesse, mas também não poderia ser muito esnobe, caso contrário ficaria para titia. De
preferência que não trabalhasse, mas se tivesse algum emprego que fosse como professora ou
secretária e que não ganhasse mais que o homem e que o largasse para priorizar a família, o lar, os
filhos. Ela deveria seguir todos os preceitos acima se quisesse se casar e ter UM grande amor –
razão pela qual todas as mulheres deveriam viver.
O ‘um’ acima é proposital. No contexto do amor romântico, apregoado pelas peças de
radioteatro e também pelas revistas femininas e outros veículos do período9 haveria apenas uma
pessoa no mundo com quem alguém poderia se unir em todos os níveis, a personalidade desta
pessoa seria tão idealizada que não se veria nenhuma falha nela, o amor seria como um raio e se
daria à primeira vista, sendo este a coisa mais importante do mundo pela qual todas as outras
considerações, principalmente as de ordem material, deveriam ser sacrificadas, aliás, a entrega a
toda a brida às emoções pessoais era admirável, não importando quão exagerada e absurda pudesse
10
a conduta resultante parecer aos outros. Seguem abaixo alguns trechos das peças de radioteatro
transmitidas que refletem este ideal de amor romântico:

Ela: [...] Já não tememos o infortúnio nem a desgraça, nem mesmo a morte, porque
sobre tudo isto triunfará o nosso amor. [...].11

Ele: [...] Hoje eu sei que existe algo muito mais importante, mais belo e mais
sublime... o amor! O amor que nos torna um rei, quando é correspondido... e num
miserável quando rejeitado [...].12.

Ele: [...] quem ama só conhece as leis ditadas pelo coração... Um coração amante
desconhece os meios termos... O amor é absoluto... arrebatador...fora ele não há
leis nem preconceitos... [...]

Ela: (A CARTA) Não... você não se enganou. O amor não tem outro preço que o
amor. [...] Agora estou segura de que seu amor é verdadeiro... e em troca eu
entrego a você o meu, íntegro, sem amarguras, sem lembranças de falsos carinhos,
sem ressaibos de outras carícias.13
4
Ela (narrando) [...] Sim, eu te amo com todas as forças de minha alma. Antes de
saber de teu amor, eu já te amava, mesmo sem saber se meu carinho seria
correspondido. Em verdade não sei qual das duas coisas me proporcionam maior
felicidade se saber que amo ou poder dizer que sou amada por ti. E, agora que sei
que me amas, posso dizer-te que o meu amor é teu; posso dizê-lo ao mundo inteiro,
posso contá-lo e encher o Universo com a alegria de dizer: Eu te amo! Vem pra
mim! Volta e faz-me ouvir de teus lábios as palavras que me farão feliz. 14

Ele: [...] O coração que ama suplanta todos os obstáculos, todas as barreiras... Se
você me amasse, encontraria forças para suplantar todos os tropeços. 15

Ele: Só um grande amor justifica um tal procedimento. Por amor tornamo-nos


heróis ou covardes... Sim, ... o medo de perdê-la foi o grande responsável. Amo-a...
Desgraçadamente, amo-a com loucura!...16

Às mulheres que falhassem ao encontrar seu primeiro e único amor o destino era a
infelicidade. Os homens tinham chance de encontrar um outro amor, a eles também cabiam outras
vantagens como o poder ter relações sexuais com outras. Já a mulher que traísse o homem, tinha o
destino certo: ficaria sozinha e mal falada. Em uma das peças a mulher engana o marido dizendo
que vai viajar para visitar um parente quando na verdade vai à procura de seu “verdadeiro” amor
que, no entanto, lhe dá um “fora” e quando ela volta para casa e pede perdão ao marido, este que
descobrira toda a verdade, lhe confere a sentença:

ELE: - Você morreu, Helena... morreu num pavoroso desastre de avião.


ELA: - Mas, você não pode fazer isso!... E minha filha?!
ELE: - Eu ensinarei a ela que sua mãe morreu num desastre [...].
[...]
ELA: - Mas....
ELE: - Volte para ele, Helena..e seja feliz... se puder.
ELA: - Mas eu não posso voltar...
ELE: Bem, o problema é seu.. Eu não estou interessado em saber porque você na pode
voltar... o que sei... é que não a quero mais... Adeus, Helena.
ELA: - Roberto... eu...
17
ELE: - Adeus, Helena... você morreu, Helena... morreu num pavoroso desastre de avião...

E em grande parte das peças em que o final é infeliz, ou seja, quando não há um enlace
amoroso, a “culpada” é a mulher, que assume para as ouvintes: “Ela: [...] Já sei, já sei... você, minha
ouvinte, tem vontade de me dizer que sou a única culpada... que bastava aceitar o pedido que me
fazia Roberto... Sim, você tem razão, minha boa ouvinte.”18
19
Segundo Priore nas décadas de 1950 e 1960 era senso comum a afirmação que as
mulheres viveriam para o amor e que o romantismo e a sensibilidade seriam características
eminentemente femininas. Este amor, no entanto, era um amor domesticado, feito de razões, não
cabendo paixões que violassem a lei e a ordem, não era possível romper com os moldes tradicionais
da felicidade ligada ao casamento. Como propagadores da moral vigente, os textos de radioteatro
transmitidos em Florianópolis não poderiam afirmar outra coisa senão o modo de ser da mulher
idealizada por esta moral e de mostrar como as “más moças” eram punidas.
5
Em geral, era isso que os veículos femininos faziam (fazem), sem pretensão de modificar o
mundo eles trabalhavam (trabalham) em cima do repertório de seu público, ajudados pelo
estereótipo e pela publicidade. Como demonstra Buitoni, as contradições quase não aparecem ou
são diminuídas20. Ainda mais contundente é a afirmação de Higonnet quanto à publicidade
feminina:

A publicidade pressionava as mulheres a comprar a sua passagem para o lazer e


para o prazer. Ela associava a uma identidade consumidora as características
cosméticas e psicológicas que promovia. As mulheres eram mostradas como
estando completamente dependentes dos produtos comerciais para levarem a cabo
suas tarefas domésticas, atraírem os homens, educarem os filhos ou conseguirem
aceitação social. [...] Identificando a feminilidade com objetos, a publicidade
encorajava as mulheres a identificarem-se elas próprias como objeto. 21

As mulheres que ouviam as peças de radioteatro romântico e tinham uma identificação


com as mesmas, ou seja, que almejavam encontrar o grande amor; também ouviam da atriz que
fazia o papel de mocinha do par romântico de que a mulher moderna deveria estar sempre na moda
e por isso deveria comprar na Galeria das Sedas. Ela só seria elegante e assim atrairia os homens e
conseguiria aceitação social, citada acima, se além de seguir a moral vigente expressa nas peças
também comprasse as novidades da loja.
A novidade, o novo, é símbolo da modernidade. Deseja-se sempre o novo, de modo que ser
moderno seria um eterno desejar, já que após se tomar conhecimento ou adquirir a novidade ela
perde imediatamente seus status de novo. Este desejo de modernidade, no entanto, não aparece nos
textos de radioteatro nem no contexto geral da cidade imune de contradições. Ao mesmo tempo em
que se desejava ser moderno, não se desejava todas as novidades da modernidade. A mulher, por
exemplo, deveria seguir as antigas regras morais. O divórcio fora estabelecido pela lei “moderna“,
mas ser divorciada era um escândalo (como se pode notar em vários artigos de jornais locais22), era
prova de que a mulher fora incapaz de ser boa esposa.
São as contradições que me interessam, os não-ditos, os que ficaram de fora. Se os
programas Encantamento e Falando ao Coração transmitiam um certo ideal de mulher que deveria
comprar na loja tal para ser elegante e moderna, interessa-me saber quem ouvia os programas, quem
eram estas mulheres (e homens, por que não?), qual o ideal de mulher para elas (afinal as
mensagens não são recebidas isentas de interferências) e, principalmente, o que elas têm a dizer?
Um dos meus objetivos atuais é encontrar ouvintes destes programas e assim tentar responder estas
e outras questões. Afinal, mais da metade da população de Florianópolis, segundo o IBGE, possuía
na década de 1950 um aparelho radiofônico e os textos de radioteatro romântico foram transmitidos
por cerca de vinte anos, o que me leva a pensar que os programas tinham boa audiência, que esta
não deveria ser um bloco homogêneo e que as peças contribuíram para a formação do imaginário
moderno em Florianópolis.
6

1
FLORES, Maria Bernardete Ramos. Estética e modernidade. IN:FLORES, Maria Bernadete Ramos; Lehmkuhi,
Luciene; Collaço, Vera.(orgs.) A casa do baile.Florianópolis: Fundação Boiteux,2006, p.16.
2
Idem, p.21.
3
Em maio de 1957 Aldo Silva deixa a Guarujá e passa a trabalhar na sua concorrente, a Diário da Manhã. Com Aldo
foram também os programas por ele criados, que passaram a ser apresentados pela Diário com nomes diferentes. O
programa Falando ao coração apresentado na mais popular tornou-se Encantamento na nova emissora.
4
RÁDIO Diário da Manhã. Florianópolis [19__]. Não publicado.
5
PROGRAMA. Florianópolis [19__]. Não publicado.
66
Publicidade da GALERIA DAS SEDAS. Florianópolis: [19__]. Não Publicado. 2p.
7
TEXTO para Intervalo. Florianópolis: [19__]. Não publicado. 2p.
8
BEIRÃO FILHO, José Alfredo. Remodelando corpos : as costureiras e suas reminiscências na Florianópolis de 1950.
2004. 85 f. Dissertação (Engenharia de Produção ) Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Tecnológico.
9
Em realidade o amor romântico tem suas origens no século XVIII e foi inspirado pelo amor cortês medieval.
10
LONDRES, Lawrence et al. apud CAMPBELL, Colin. A Ética romântica e o espírito do consumismo moderno.Trad.
Mauro Gama.Rio de Janeiro: Rocco, 2001, p.284.
11
SILVA, Aldo. ESTOU doente. Florianópolis: [1955]. p.5
12
SILVA, Aldo. SEREI eu uma vítima da prudência. Florianópolis: [19__] Não publicado p.3.
13
Idem, p.6.
14
SILVA, Aldo. TRABALHÁVAMOS na mesma firma. Florianópolis: [1955]. Não Publicado, p.5.
15
SILVA, Aldo. QUANDO a vi...Florianópolis: [1959]. Não publicado, p.3
16
SILA, Aldo. AH, você sempre... Florianópolis: [1967]. Não publicado, p.5.
17
SILVA, Aldo. HELENA. Florianópolis: [19__]. Não publicado, p.6-7.
18
SILVS, Aldo. SEREI eu uma vítima da prudência. Florianópolis: [19__] Não publicado,p.4.
19
PRIORE, Mary Del. História do amor no Brasil. São Paulo: Contexto, 2005, p.209.
20
BUITONI, Dulcília Schroeder. Imprensa Feminina. São Paulo: Ática, 1986. (Série Princípios),p.7.
21
HIGONNET, Anne. Mulheres, criação e representação. IN: DUBY, Georges; PERROT, Michelle. Historia das
mulheres no ocidente. v.5. Porto: Afrontamento, 1990,p.407.
22
Como por exemplo a coluna de Hamilton Alves, de título Divórcio, publicada na capa da Gazeta de 17 de junho de
1958 em Florianópolis.