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Paródia na paróquia – a eleição presidencial

Sumário

1 – Democracia, sim; palhaçada não!

2 - As figuras de Presidente da República (PR) no atual regime

3 - O crescente desinteresse pela eleição presidencial… e não só…

4 – A inutilidade de um cargo marcado por saudosismo monárquico

5 – Que filosofia e instrumentos para a construção da democracia?

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1 – Democracia, sim; palhaçada não!

Há cinco anos, num contexto de várias publicações sobre o modelo de


representação contido na Constituição da República Portuguesa (CRP), definimos a
existência de um Presidente da República (PR) como uma inútil figura, com cheiro
monárquico. Passado este tempo, entendemos voltar a abordar o assunto, na
proximidade de nova romaria eleitoral, de um exercício ritual no seio da classe
política, que não trará qualquer resultado prático e útil para a vida do povo. A
próxima eleição trata-se de mais um tempo de entretenimento que funcionará
como um campeonato, desta vez com a presença da pandemia.

Uma vida democrática exige o envolvimento de todo um povo, uns


temporariamente escolhidos para executar as demandas populares e, todos para
observar os desempenhos daqueles executantes; procedendo, se necessário ou
conveniente, à sua liminar e oportuna substituição, através de fórmulas rápidas e
lapidares. Para o efeito é preciso que essas decisões envolvam todos, no âmbito
geográfico adequado, como os zeladores mais interessados pelo bem-estar social.

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Isso, porém, não acontece, de modo algum, uma vez que a representação está
falseada com a exclusiva candidatura de indivíduos provenientes da classe política,
um grupo relativamente pequeno de gente, fortemente ancorado em estruturas
fechadas e hierarquizadas que se designam por partidos, pagas formalmente,
apenas por dinheiros públicos; e que se sabe serem complementados com
pagamentos por favores prestados aos mais ricos.

Como se sabe, em Portugal, para a Presidência da República, tudo é preparado e


confinado ao seio da classe política; sabe-se, a priori quem vence e, de fora da
classe política, não é viável o surgimento de um outsider com hipóteses de se
sobrepor a candidaturas provenientes do partido-estado, PS/PSD, mais
concretamente. Para cúmulo, a promíscua relação entre a classe política e os media,
coloca ab initio, fora de mediatismo, qualquer outsider. Recorde-se que a
popularidade do atual presidente foi conquistada, durante anos, na tv, num
programa misto de comentário político e de promoção da venda de livros.

Os media organizam um ou outro debate com os candidatos de topo e, em


separado, com os propostos por partidos de segunda linha – ou algum raro “para-
quedista”, para dar um ar de democracia. E, por vaidade, candura ou estupidez, há
sempre quem se candidate nos pleitos viciados que o regime promove; isso
acontece em Portugal, como nos outros países, dado o verdadeiro monopólio
político e ideológico das democracias de mercado, espetáculos de mediocridade,
como se verificou, recentemente, entre Biden e Trump.

No regime fascista português, as coisas eram mais claras; a oposição era silenciada,
tout court, se necessário com a prisão e a tortura. Na então Assembleia Nacional
também havia um centrão (os apoiantes do presidente do conselho de ministros) tal
como hoje domina o PS/PSD; uma “esquerda”, minoritária que, após a queda do
regime deu origem ao atual PSD; e, uma direita, católica e agressiva, defensora da
continuidade do colonialismo (Kaúlza e Tenreiro) e que hoje, tem outro significado,
representada pelos rapazinhos do CDS, para além da ventureca figura que os media
tanto divulgam.

No regime pos-fascista, a oposição tem o dom da palavra mas todos sabem que os
ganhadores estão sempre ligados ao partido-estado, a coluna vertebral do regime e
que… nada mudará de substantivo, por mais romarias eleitorais que encenem.

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Para a classe política, no seu conjunto, o país é um género de propriedade privada
para sua fruição; e o povo, uma vasta mole de súbditos, de eunucos políticos,
eternamente em estado de agradecimento e veneração, alheios ou cegos face à
mediocridade da classe politica. Povo esse que se deve ainda sentir bafejado pela
sorte de ser infestado, até à saturação, com os debates, os discursos, as promessas,
as vacuidades com que a multidão é amansada, imbecilizada, diante dos écrans que
tem sempre diante dos olhos.

Uma vida democrática exige o alargamento ao maior número possível de pessoas


das funções de representação, com mecanismos que impeçam a sua perpetuação
em situações de representação. Esse alargamento deve compreender a criação de
uma larga massa de pessoas, como intérpretes e executores das ações dedicadas ao
bem-estar social. Isto é, exatamente o contrário do enquistamento actual de gangs
mafiosos parasitando o erário público e promovendo desvios na aplicação de
fundos para proveito próprio, do partido ou, de quem melhor pagar; seja em
géneros, cargos ou transferências para offshores.

Onde isso não exista, a democracia é algo de inexistente ou marcada por


numerosos entorses e tumores que, direta ou indiretamente recaem sobre o bem-
estar dos povos e na engorda de uma classe política, onde avultam parasitas,
incapazes e corruptos que, algum tempo depois se desvanecem, surgindo
posteriormente como distintos empresários ou com cargos em empresas estatais,
autárquicas ou, de amigos. Claro, que em termos legais nada há a dizer pois o
compadrio e a corrupção são ignorados ou ocultos, cobertos por legislação
protetora, no âmbito de um sistema judiciário, normalmente castrado ou conivente,
porque pago com proventos e mordomias, promovidos pelos principais gestores do
sistema, a classe política. Convém não esquecer a intermediação de entidades
particularmente discretas – de advogados1 – que acolhem (também) nos seus
quadros, gente da classe política para efeitos das convenientes intermediações.

2 – As figuras de Presidente da República (PR) no atual regime

Os primeiros Presidentes da República (PR) que se seguiram ao 25 de Abril, não


foram eleitos pelo povo, uma vez que as primeiras eleições só se efetuaram em
1976, após a aprovação da Constituição atual. Vivia-se então, num regime militar e
daí que esses primeiros PR, tivessem sido militares (generais), num seguimento

1
Que se comportam como virgens ofendidas no âmbito do caso de Rui Pinto ou, que recolhem a um rápido
recato quando da divulgação das manobras financeiras de Isabel dos Santos
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temporário da prática do regime fascista, respeitador e incentivador do respeito da
plebe pelas fardas.

António de Spínola, conhecido pelo “caco” - dado o ridículo monóculo que


ostentava para se equiparar a um oficial prussiano do século XIX - foi demitido e
fugiu para Espanha, após uma intentona falhada para se apossar do poder, apoiado
pela extrema-direita (setembro de 1974).

Seguiu-se outro general, Costa Gomes, que exerceu o cargo até junho de 1976, até
à eleição de Ramalho Eanes. Costa Gomes era um conciliador e daí que nos jornais
ingleses da época fosse referido por Costa “Cork” (rolha) Gomes.

Ramalho Eanes, também general e coordenador da “normalização” do regime em


novembro de 1975, foi eleito em 1976 e em 1980 como Presidente da República e
foi o intérprete da consolidação do atual regime, oligárquico, militarmente alinhado
com a NATO e, então em ânsias para a inclusão na UE… de onde a classe política e o
empresariato esperavam um maná; que veio mas, largamente dissipado nos bolsos
do culturalmente indigente empresariato e da cúpida classe política; e que não
retirou Portugal da situação de país mais pobre e com menos instrução da Europa
ocidental. E, numa época de inflação, deficits e do empobrecimento acelerado 2
voltou-se a uma longa tradição de esmagamento dos rendimentos populares – o
desenho do atual regime pos-fascista.

Eanes, indiretamente, criou um partido político (PRD) em 1985, que pretendia viesse
a ser uma âncora do poder, menorizando o PS e o seu gêmeo, o PSD, muito ligados
à crise económica e financeira de 1983/85, que só viria a ser superada com o
começo da entrada dos fundos comunitários.

Seguiu-se como PR, Mário Soares, primeiro-ministro que, como se tornou norma,
manteve o cargo durante dez anos (1986/96), passando depois a uma reforma
dourada, como o seu antecessor e os vindouros no cargo. Iniciava-se assim a
entrega do cargo a alguém do PS/PSD e, para dois mandatos. Soares foi primeiro-
ministro em 1976/78 e 1983/85.

2
Sobre a evolução de Portugal a partir dos anos 50 do século passado;
https://grazia-tanta.blogspot.com/2018/07/a-longa-marcha-das-desigualdades-1-o.html (1953/77)
https://grazia-tanta.blogspot.com/2018/08/a-longa-marcha-das-desigualdades-2-da.html (1977/95)
https://grazia-tanta.blogspot.com/2018/09/a-longa-marcha-das-desigualdades-3_6.html (1995 - ...)

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Jorge Sampaio (1996/2006) nunca se tornou primeiro-ministro mas contracenou
com Guterres, Durão Barroso, Santana e Sócrates como titulares daquele cargo. Na
viragem do século teve de fazer face aos efeitos da renúncia de Guterres como
primeiro-ministro (2001), convocando eleições que conduziram à nomeação de
Durão Barroso para o cargo; este, que por sua vez, renunciou ao mandato (2004)
para aceitar a nomeação como presidente da Comissão Europeia, premiado pelos
seus méritos de estalajadeiro nos Açores na recepção a Bush, Blair e Aznar, para
estes prepararem a invasão do Iraque.

Num curto período, a chefia do governo PSD/CDS coube a Santana Lopes do qual
não se esperavam capacidades para um bom desempenho; e, como a chefia do PS
havia recaído em Ferro Rodrigues, afetado pelo caso da pedofilia na Casa Pia,
Sampaio teve de procurar alguém como José Sócrates, nomeando Ferro Rodrigues
para uma tranquila estadia em Paris como embaixador português na OCDE. As
novas eleições elegeram Sócrates como chefe do governo em 2005 e, um ano
depois, Sampaio passou o testemunho a Cavaco Silva.

A sinistra figura de Cavaco Silva (2006/16) cruzou-se com José Sócrates, Passos
Coelho e António Costa, enquanto primeiros-ministros. Foi nesse período (2008)
que ocorreu a burla BPN (…nacionalizado por Sócrates) que enriqueceu figuras gradas
do PSD e próximas de Cavaco que, nesse período fez uma troca muito polémica da
sua residência no Algarve. A crise do subprime caiu com estrondo na economia e na
sociedade portuguesa em 2011, com os banqueiros a decidirem a queda do
governo Sócrates, com o apoio na AR da “esquerda” par(a)lamentar, animada pelo
apoio dos media a grandes manifestações, protagonizadas por grupos sem projeto
de contestação ou de organização, evidenciando assim, o seu claro objetivo de
diluição do descontentamento popular; e, com a presença de obscuras figuras
(“Geração à Rasca” e “Que Se Lixe a Troika”) a que a pobre imprensa portuguesa
não regateou apoios.

Assim, um PR marcadamente reacionário (antigo primeiro-ministro de um governo


PSD) juntou-se a um governo de coligação PSD/CDS, chefiada por sociopatas como
Passos e Portas, à frente de um leque de mediocridades (Relvas, Albuquerque, Mota
Soares…). A dívida pública subiu em flecha 3, os salários reais tiveram grande quebra,

3
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/11/reestruturar-divida-publica-nada.html
https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/05/divida-deusa-sem-altar-mas-com-um-clero.html
https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/05/porque-nao-se-fala-na-enorme-e.html
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/05/divida-publica-divida-publica-cancro.html
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ao contrário do desemprego que subiu; o Tribunal Constitucional não esteve isento,
e foi iniciado um programa de venda de bens públicos juntamente, com a entrada
de fundos do BCE/FMI no âmbito de um plano espartano para colmatar o deficit e
que se veio a chamar, popularmente, “plano da Troika”.

No sector financeiro aumentou em muito o domínio do capital estrangeiro e, em


2014, deu-se a falência da joia da coroa da banca “nacional” – o BES - num processo
rocambolesco que continua, com pesadas sequelas para o erário público, seis anos
depois da falência.

Finalmente, Marcelo Rebelo de Sousa chegou a PR (2016) depois de muitos anos


como entertainer televisivo, mostrando-se um verdadeiro e ubíquo papagaio, ao
contrário da figura de tartamudo, do seu antecessor. Nos anos 80 foi deputado e
membro do governo e, em 1990, perdeu a eleição para presidente da Câmara de
Lisboa, apesar de um mediático mergulho nas águas poluídas do Tejo; e, chegou a
presidente do PSD em 1996/99.

Tudo indica que manterá o seu estilo asfixiante de verbo fácil para todas as
circunstâncias, de viagens constantes para se mostrar ao povo, não precisando de
grande esforço – para além do aproveitamento da crise pandémica, para estar
sempre ao lado do governo para anular a concorrência e garantir a reeleição em
2021. O atual primeiro-ministro poderá apresentar-se como seu sucessor quando
Marcelo findar o seu segundo mandato, em 2026 para a manutenção da tradicional
transição entre Dupond e Dupont.

3 - O crescente desinteresse pela eleição presidencial… e não só…

Os dados abaixo contemplados e várias vezes analisados neste blog 4 sobre os


resultados das várias eleições revelam uma participação efetiva em evidente
decrescimento. Isso constitui um óbvio sinal de falta de interesse da população
porque esta sabe nada resultar de substantivo das mesmas; apenas ligeiras
tonalidades de “mais do mesmo”.

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/03/porque-nao-e-pagavel-divida-publica.html
4
https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/10/eleicoes-num-regime-pos-fascista-e.html
https://grazia-tanta.blogspot.com/2018/07/a-classe-politica-preocupa-se-com.html
https://grazia-tanta.blogspot.pt/2017/10/autarquicas-2017-nada-de-novo-no-final_15.html
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/10/depois-da-romaria-eleitoral-o-programa.html
https://grazia-tanta.blogspot.pt/2017/09/democracia-eleicoes-democraticas-onde.html
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A análise dos resultados eleitorais para a escolha de um PR vai demonstrando
paulatinamente o crescente desinteresse da plebe pelas romarias eleitorais. Tudo
parece uma crescente rotina de uma figura inútil excepto para quem tem simpatias
partidárias, que vota, “porque sim” ou, por irreprimível espírito de apostador. O
gráfico seguinte mostra que:

 nos dois últimos concursos eleitorais, mais de metade do eleitorado não votou
e que os vencedores não chegam a captar ¼ dos votos do eleitorado total;

 a revalidação dos mandatos presidenciais corresponde a maiores taxas de


abstenção e revela o desinteresse da plebe perante factos que considera e, com
razão, passeios eleitorais, folclore;

 os votos no candidato vencedor superam as abstenções até 1991, equiparando-


se em 1996 e, a partir de 2001, posicionam-se aquém, não se aproximando
sequer da metade das abstenções, nos dois últimos campeonatos, ainda que
com diferentes candidatos;

 A soma dos votos dos candidatos vencidos nunca ultrapassa a fasquia atingida
pelo vencedor. Mas, pode mostrar-se muito próxima, como nos casos da
disputa Soares/Freitas em 1986 e, nos três concursos mais recentes em que
foram eleitos Cavaco Silva (duas vezes) e Marcelo;

 Os votos em branco ou anulados têm pouco significado, revelando que as


atitudes expressas de repúdio do regime têm pouco significado; e que, sendo
grande o distanciamento, nem no repúdio se manifesta;

 Tudo isto num plano em que o regime não se mostra interessado, sequer, em
organizar um recenseamento eleitoral fiável.

Distribuição dos eleitores no contexto de eleições presidenciais

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As eleições para o preenchimento de lugares na AR corroboram (v. gráfico seguinte)
a situação atrás referida e, observa-se também, na relação entre os votos dirigidos a
partidos que poderão encontrar-se em vias de serem ultrapassados, em próxima
romaria eleitoral, por quantos não votam ou não expressam no voto uma
preferência por qualquer produto partidário.

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4 – A inutilidade de um cargo marcado por saudosismo monárquico

Já em tempos afirmámos que a CRP é excessivamente palavrosa, repleta de


tautologias e detalhes que caberiam em legislação ordinária; e daí que seja das mais
longas entre todos os estados-nação. Mais, não se descortina, no seio da classe
política qualquer ímpeto reformador dos preceitos constitucionais; a continuidade
de um regime oligárquico, conjuga-se bem com a complexidade escusada, o
palavreado gongórico, formas de afastamento, sobretudo para um povo que não
brilha pelos níveis de conhecimento incorporados5.

Vejamos alguns aspetos sobre a função de PR na atual CRP.

O artº 110º define quais são os órgãos de soberania – PR, AR, Governo e Tribunais,
no âmbito dos quais o PR é o único individualizado, reproduzindo, portanto as
figuras reais das monarquias; embora sem um cargo vitalício mas que por hábito,
vem sendo de dez anos, através de uma rotineira revalidação após o primeiro
mandato.

A insistência na criação de um lugar de PR tem uma longa história, a do combate


entre a democracia e os defensores do autoritarismo, no período que se seguiu à
Revolução Francesa. E, nesse contexto, reproduzimos um texto elaborado há cinco
anos :

… As ideias mais avançadas, de uma assembleia onde repousasse a soberania,


tiveram um primeiro eco na Península Ibérica com a constituição espanhola de
1812 (chamada de Cadiz) e cuja influência se veio a observar na América Latina e
na constituição portuguesa de 1822, esta na sequência da revolta liberal do Porto,
dois anos antes. No Brasil, o imperador Pedro I colocou-se a chefiar o executivo
numa lógica do governo forte, contida na primeira constituição do país, em 1824;
era clara a inspiração francesa, desta vez reacionária, da Carta Constitucional de
1814, outorgada por Luis XVIII depois da queda de Napoleão, iniciando uma
tradição ainda vigente na França de hoje, onde os presidentes detêm um poder
executivo considerável. Em 1826 o mesmo imperador do Brasil,
(momentaneamente como Pedro IV de Portugal) outorgou aos portugueses a
Carta Constitucional de 1826, que viria a estar em vigor, com alterações, até ao

5
https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/11/europa-dificuldades-escolares-de-jovens.html
https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/08/os-niveis-de-educacao-entre-os-povos-da.html
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final da monarquia em 1910. Aí se definia um poder moderador que, de facto se
impunha ao legislativo e ao executivo e que tinha como protagonista um rei que
repartia a soberania com a nação, que tinha todo o poder sobre as cortes e que
ancorava o seu predomínio num recenseamento eleitoral muito restrito e na
ligação à nobreza e ao clero. Na constituição republicana de 1911 o PR é pouco
mais do que um símbolo da nação, no âmbito interno e externo. É eleito por
quatro anos, não pode ser reeleito durante o quadriénio imediato, pode ser
destituído pelo Congresso e compete-lhe promulgar os projetos de lei vindos das
duas câmaras do congresso; neste campo, mesmo que se remeta ao silêncio,
quinze dias passados surgirá automaticamente a promulgação. Mais sintomático
da debilidade dos poderes do PR na I República portuguesa é o artº 49 que
reproduzimos na íntegra “ Todos os actos do Presidente da República deverão ser
referendados, pelo menos, pelo Ministro competente. Não o sendo, são nulos de
pleno direito, não poderão ter execução e ninguém lhes deverá obediência.”…

O artº 115º nº1. estatui que a plebe pode ser chamada a votar num referendo, com
a decisão a caber ao PR, sob proposta da AR ou do governo; ou ainda, por proposta
popular dirigida à AR desde que por… “questões de interesse nacional” (nº 3), algo
que só a classe política, claro está, é que tem gabarito para enxergar… E para
reforçar o bloqueio oligárquico acrescenta-se a submissão à fiscalização preventiva
da presidencial figura (nº 8). Até um referendo nas Regiões Autónomas é decidido
pela monárquica figura de PR! (Artº 232º nº2); o reizinho da Baratária nem os trocos
deixa de controlar…

Não vamos desenvolver aqui todos os termos e exigências que o regime pos-
fascista colocou na CRP para castrar quaisquer iniciativas populares, dando por
adquirido que o escol pensante da paróquia se reduz à classe política e aos que
financiam os partidos no governo para obter a satisfação dos seus interesses; e
esses, claro, não precisam de recorrer a referendos… Os ilustres escribas do enorme
artº 115º tiveram um esmerado cuidado para que nenhum referendo de iniciativa
popular alguma vez seja realizado.

Para além do uso do voto, não há efetivas iniciativas e menos ainda, decisões a
tomar diretamente pela população. Mesmo as propostas de referendo propostas
por grupos de pessoas, podem ser recusadas, alteradas, deturpadas, pela classe
política através das instituições que controla.

O Título II da CRP trata especificamente do PR que, fica-se a saber pelo artº 120º,
contempla abstrações ou contradições evidentes face ao texto constitucional;

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primeiro, o PR representa a República e garante a… independência nacional, algo
que, na realidade, ninguém sabe onde está; há funções e decisões que competem à
UE e à NATO; e, porque em 1976, a globalização estava numa fase embrionária,
tornando a CRP desatualizada.

O artº 295 refere a possibilidade de referendo para a aprovação de tratado que vise
a construção e aprofundamento da União Europeia; mas como é público, trata-se de
letra morta, pois nada nesse âmbito foi validado por referendo. Da mesma forma, o
Memorando da Troika, apesar da sua importância para a vida das camadas
populares, não foi objeto de qualquer consulta popular.

O PR é o Comandante Supremo das Forças Armadas (artº 120º) embora a atuação


destas se processe primordialmente no âmbito das operações da NATO e,
eventualmente em operações de proteção civil, no âmbito do combate aos
habituais incêndios estivais. Se houvesse algum espírito progressista em Portugal, as
FA há muito deveriam estar extintas, integrando apenas funções no quadro de uma
proteção civil, mais atuante e competente; e ainda promovendo a vigilância da ZEE,
com funções de vigilância de tráficos e pesca ilegal.

Por outro lado, no contexto de uma guerra moderna, Portugal não tem
profundidade para resistir a uma invasão terrestre e, as áreas insulares são
demasiado pequenas para o mesmo efeito. Em suma, o PR é o comandante de
umas Forças Armadas burocratizadas, sob o comando efetivo da NATO, com uma
operacionalidade escassa e dependente de mercenários, contratados a prazo. A
proporção entre oficiais e não oficiais é completamente disparatada.

O Artº 126º nº 1, refere que será eleito como PR “o candidato que obtiver mais de
metade dos votos validamente expressos, não se considerando como tal os votos
em branco”. Mesmo admitindo utilidade ao cargo, mais ajustado seria a
representatividade do PR ser medida no contexto do eleitorado total; e não, como
acontece nos pleitos mais recentes, os ungidos como pais do povo, se pautem por
pouco mais de 20% do eleitorado (ver gráfico mais acima). Ora, não existindo um
limite mínimo, abaixo do qual a representatividade não se verifica, está no terreno a
possibilidade de uma eleição validade apenas com a votação dos elementos da
classe política e dos amigos e familiares dos candidatos. Esta questão não é
colocada pela classe politica porque não lhe é, de todo conveniente, que o seu
caráter oligárquico seja posto em causa.

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O Artº 130 nº 4. é curioso ao separar a idoneidade do PR em dois campos – o do
exercício do cargo e o exterior ao cargo; a idoneidade torna-se dependente da cor
do chapéu… Assim, se um PR é acusado de negócios imobiliários privados escusos,
por exemplo, as suas responsabilidades ficam suspensas até ao fim do mandato; e,
não é claro se essa suspensão transita para o período de um segundo mandato,
caso em que haverá todo o tempo pela chegada da prescrição.

O PR é substituído, quando necessário, pelo Presidente da AR (artº 132º) o que


coloca em evidência que a existência do segundo pode obviar, claramente à
existência de um PR como defendemos, anos atrás.

O artº 133º enumera as competências do PR face a outras instituições. Vejamos o


Conselho de Estado oriundo de um medieval Conselho Régio e incorporado na
atual CRP, para consulta do PR de serviço.

Uma das funções do PR consiste em presidir ao Conselho de Estado para


aconselhamento do próprio. É constituído, na sua grande maioria por gente ligada a
partidos – atualmente, 18 em 20 conselheiros, sendo os dois não-mandarins,
Eduardo Lourenço e António Damásio. Seis dos seus membros têm lugar por
inerência de funções (Presidente da AR, o Primeiro-Ministro, o Presidente do
Tribunal Constitucional, o Provedor de Justiça, os Presidentes dos Governos
Regionais) e três são ex-PR. Inclui ainda 5 pessoas escolhidas pelo PR de turno e
outros cinco escolhidos pela AR, de acordo com a proporcionalidade ali desenhada,
entre os partidos.

O PR nomeia e exonera os Representantes da República para as regiões autónomas


sendo estas o único caso de aplicação da regionalização que o regime incluiu na
CRP e que, de todo, não pretende instituir de modo generalizado a todo o território.
Trata-se de uma excepção que vem dos tempos do fascismo quando se falava de
Portugal e Ilhas Adjacentes, uma designação que remontava à Constituição de 1838.
Entretanto, em 2004 extinguiram os cargos de “ministro da República”, um género
de fiscais do governo nacional para os povos dos arquipélagos que, precisariam de
quem zelasse por eles. Como convém à lógica burocrática de um regime corrupto
em terreno empobrecido, foram criados os cargos de Representante da República
para cada um dos arquipélagos. Mudam-se as moscas…

O artº 225º e seguintes estatuem o regime político-administrativo dos Açores e da


Madeira e ancora-se nas “características geográficas, económicas, sociais e culturais”

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(nº 1) que, obviamente também existem no território continental mas onde não
merecem tal especificação. O nº 2 do mesmo artigo refere que a autonomia visa a
“participação democrática”, algo que não é referido como aplicável à população do
Continente onde, certamente não é preciso autonomia já que a participação
democrática será … intensa e extensa (?). O reacionarismo, a cupidez e a ignorância
são a imagem de marca da classe política.

Como não há uma regionalização a sério, mesmo que esteja contemplada na CRP
desde a sua instituição e, mesmo que Portugal seja um dos países mais
centralizados da OCDE, o regime tem-se escusado a aplicá-la no Continente. As
Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto, criadas em 2008, afastam-se totalmente
dos princípios democráticos de uma regionalização, pois os seus órgãos são
preenchidos por membros das assembleias municipais (a Assembleia Metropolitana)
e dos presidentes das câmaras (a Junta Metropolitana). Em 2013, com Passos
Coelho, surgiram as Comunidades Intermunicipais dentro do modus faciendi
habitual do regime. Obviamente, trata-se de estruturas marcadas pela presença
obsessiva e oligárquica dos partidos políticos, ocupadas pelos seus mandarins locais
com as receitas autárquicas e os fundos comunitários a alimentar esse grau zero de
democracia.

Não há, portanto, Assembleias de caráter regional, nem governos regionais, nem
legislação regional. A geografia regional no Continente terá sido iniciada pelo “luso
bom aluno” no seguimento da sua aplicação no âmbito da UE; e como o seu
desígnio essencial é a distribuição dos fundos comunitários, já foi objeto de várias
configurações, com denominações diversas, consoante o governo de turno, com a
constituição de vários conjuntos de municípios.

Em 2013 foi extinta a figura do governador civil, um tipo de representante do


governo central e para a área continental que, de facto, pouco representava.
Embora não haja distritos, parte substantiva da administração pública continua a
estar estruturada em termos distritais; uma bagunça administrativa.

5 – Que filosofia e instrumentos para a construção da democracia?

Hoje, clamar pela aplicação da lei é, muitas vezes aceitar os termos ali colocados
pela classe política, para se favorecer a si e, aos interesses que representa. A lei só
vale enquanto emanação da democracia e não como instrumento de um grupo
social muito minoritário e de baixo coturno.

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Num regime democrático todos têm o direito de escolher e de serem escolhidos,
para o desempenho de tarefas de interesse coletivo, sem a perturbadora existência
de quistos oligárquicos que, para mais tendem, por axioma, a tomar-se como elite
de iluminados gestores da res publica.

Neste contexto, num regime político seriamente democrático, a tomada de decisões


sobre os interesses coletivos pode basear-se em pontos como os que se seguem, a
partir dos quais se pode passar à criação de um modelo de representação
democrático. Se assim não for estar-se-á num qualquer grau de não-democracia, a
rejeitar liminarmente.

• Eleição de indivíduos e não de listas;

• Qualquer eleito só pode exercer funções num limitado do número de


mandatos;

• Todos os órgãos serão coletivos, não hierarquizados, não havendo lugar à


centralização de poderes numa só pessoa;

• Qualquer mandato pode ser cessado, em qualquer momento, por iniciativa dos
eleitores que o outorgaram, através de referendo;

• Mais genericamente, a realização de referendos é um instrumento


inequivocamente democrático e sempre disponível por iniciativa popular;

• Total ausência de mordomias e imunidades. A representação, o desempenho de


funções em prol da comunidade é um dever e um direito para qualquer pessoa;

• A administração pública – a nível autárquico, regional e nacional - e o aparelho


judicial são independentes do governo e escrutinados por instâncias
democráticas;

• Acesso gratuito e facilitado, por qualquer indivíduo, a todas as decisões dos


órgãos públicos;

• Moldura penal agravada e, sem prescrição, para casos de corrupção ou de actos


danosos.

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grazia.tanta@gmail.com 15/11/2020 14