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Origem da síndrome metabólica...

Gottlieb MGV, Cruz IBM, Bodanese LC


ARTIGO DE REVISÃO

Origem da síndrome metabólica:


aspectos genético-evolutivos e
nutricionais
Origin of the metabolic syndrome: genetic,
evolutionary and nutritional aspects

MARIA GABRIELA VALLE GOTTLIEB1


IVANA BEATRICE MÂNICA DA CRUZ2
LUIZ CARLOS BODANESE3

RESUMO ABSTRACT
Objetivos: fazer uma revisão e discutir alguns Aims: To review and discuss some of the genetic,
aspectos genético-evolutivos e nutricionais envolvidos evolutionary and nutritional aspects involved in the
no surgimento da Síndrome Metabólica. appearance of the Metabolic Syndrome.
Fonte de dados: artigos científicos das bases de Source of data: Scientific articles from Medline/
dados Medline/Pubmed e Scielo. Pubmed and Scielo database.
Síntese de dados: a origem da Síndrome Meta- Summary of the findings: The origin of the Metabolic
bólica ainda não está esclarecida, mas muitas hi- Syndrome is still not clear, but a large number of hypotheses
póteses e teorias estão sendo postuladas a fim de and theories have been formulated to try to elucidate it.
tentar elucidá-la. Estudos têm mostrado que, desde o Studies have shown humanity has basically maintained the
Período Paleolítico, a humanidade continua basi- same genome since the Paleolithic Period. What has
camente com o mesmo genoma. O que mudou dras- changed dramatically is the life style, which has become
ticamente foi o estilo de vida, que se tornou se- sedentary, based on a high-calorie diet. In the beginning of
dentário, à base de uma dieta hipercalórica. No início the past decade, the Thrifty Phenotype Hypothesis began
da década passada, começou a ser formulada a to be formulated, suggesting fetal development is sensitive
Hipótese do Fenótipo Econômico, sugerindo que o to the nutritional environment. Fetal programming would
desenvolvimento fetal seria sensível ao ambiente aim at increasing the survival chance of the embryo,
nutricional. A programação fetal teria como objetivo resulting in a modified postnatal metabolism.
aumentar as chances de sobrevivência do embrião, Conclusions: Fetal genetic programming can be
resultando em um metabolismo pós-natal alterado. affected by maternal nutrition, which can lead to dis-
Conclusões: a programação genética fetal pode turbances in the energy metabolism. Moreover, a sedentary
ser afetada pela nutrição materna, o que pode levar a life, allied with a high-calorie intake, can unleash the
distúrbios no metabolismo energético. Além disso, Metabolic Syndrome.

1 Bióloga, Mestre em Ciências da Saúde. Aluna de Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Medicina e Ciências da Saúde da
Faculdade de Medicina da PUCRS.
2 Bióloga, Doutora em Genética e Biologia Molecular. Professora Adjunta e Pesquisadora do Departamento de Morfologia, Centro de
Ciências da Saúde. Laboratório de Genômica do Desenvolvimento, Universidade Federal de Santa Maria.
3 Médico Cardiologista, Doutor em Cardiologia. Professor Titular da Disciplina de Cardiologia da Faculdade de Medicina da PUCRS.
Chefe do Serviço de Cardiologia do Hospital São Lucas da PUCRS. Professor do Curso de Pós-Graduação em Clínica Médica da Faculdade
de Medicina da PUCRS.

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uma vida sedentária, aliada a alta ingestão calórica, KEYWORDS: METABOLIC SYNDROME X/genetics; META-
BOLIC SYNDROME X/diet therapy; METABOLIC SYNDROME
pode desencadear a Síndrome Metabólica. X/history.
DESCRITORES: SÍNDROME X METABÓLICA/genética;
SÍNDROME X METABÓLICA/dietoterapia; SÍNDROME X
METABÓLICA/história.

INTRODUÇÃO também pela despesa de muita energia na


procura, seleção, preparação de alimentos e
A Antropologia, assim como a Biologia, tem roupas (peles) e no cuidado à prole, conferia
muito a nos dizer a respeito dos hábitos, com- resistência a doenças e intempéries (mudanças
portamentos e estilo de vida do homem mo- climáticas).
derno, pois a primeira, que deriva do grego É verdade que a expectativa de vida naquela
anthropos (homem/pessoa) e logos (razão/pen- época era baixa, mas aqueles indivíduos estavam
samento), é a ciência centralizada no estudo do evolutivamente adaptados àquelas condições
homem, estabelecendo interface com a segunda de sobrevivência (baixa ingestão calórica e alto
em dois momentos: (1) como ciência humana, gasto energético), o que, em termos genético-evo-
voltando-se especificamente para o homem co- lutivos, pouco mudou no homem contempo-
mo um todo, desvendando sua história, cren- râneo. Esse mantém basicamente o mesmo
ças, usos, costumes, filosofia, linguagem, etc.; genoma de seus ancestrais pré-históricos, ge-
(2) como ciência natural, interessando-se pelo rando um grande dilema, pois, evolutivamente,
conhecimento da evolução do homem e da sua ainda não tivemos tempo de reprogramar a
genética. “máquina” (genoma, aparato fisiológico) para a
Em se tratando de evolução humana, é im- vida moderna, com baixa atividade física, alta
portante comentar que desde o Período Paleo- ingestão de alimentos hipercalóricos e níveis de
lítico (500.000 a.C. a 1.000 a.C.) o genoma humano estresse cotidiano elevados. Essa mudança de
continua basicamente o mesmo; ou seja, a taxa estilo de vida repentina, em escala evolutiva, não
de mutação espontânea é baixa, sendo de acompanhada de mudanças genéticas e fisio-
aproximadamente 1x10-5 a 1x10-6 para o Homo lógicas, e o aumento da expectativa de vida,
sapiens (o homem moderno). O que na verdade promovido principalmente pelo desenvolvimen-
vem mudando são os hábitos e estilo de vida to das ciências médicas e novas tecnologias,
do homem pós-Revolução Industrial. O pré- provavelmente, são os grandes promotores de
histórico, do Período Paleolítico, era essencial- doenças crônicas.
mente caçador, coletor (coletava frutos e raízes A Síndrome Metabólica (SM) é um complexo
para complementar sua dieta, hábito adquirido, distúrbio metabólico provocado pela quebra da
muito provavelmente, através da imitação de homeostasia corporal, razão pela qual é também
outros animais silvestres) e nômade (andava de definida como a “Síndrome da Civilização”. Por
lugar em lugar à procura de alimentos, devido à se tratar de um distúrbio que envolve o meta-
hostilidade do meio ambiente). bolismo dos carboidratos, lipídeos e proteínas
Hominídeos como o Homo erectus e o Cro- provenientes da dieta, bem como programação e
magnon, dos quais o Homo sapiens teria evoluído, predisposição genética, a discussão acerca da
se alimentavam da carne de caça que abatiam e origem da SM é o foco deste artigo.
assavam diariamente. O homem de Neanderthal,
segundo análise de fósseis, parece ter sido EVOLUÇÃO, PROGRAMAÇÃO
antropófago. Além disso, acredita-se que a pri- GENÉTICA E DIETA HUMANA: DA
meira “sobremesa” tenha sido o mel de abelhas, PEDRA LASCADA À ATUALIDADE
que já existia no Período Cretáceo (há 135
milhões de anos), quando as flores nasceram, A história evolutiva do homem está intima-
milhares de séculos antes do homem. A dieta mente ligada à procura, seleção e consumo do
rica em proteínas, aliada a um intenso gasto alimento, assim como ao sentimento de autopre-
energético, não somente pelo nomadismo, mas servação, sendo composta também por mu-

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danças e adaptações comportamentais e ana- cheque o seu tamanho. Contudo, a expansão do


tômicas. O ancestral conhecido mais antigo cérebro não teria ocorrido se os hominídeos não
do homem contemporâneo é o do gênero tivessem adotado uma dieta rica em calorias e
Australopithecus, que viveu na África por volta de nutrientes. Estudos comparativos demonstram
4 milhões de anos atrás. Os Australopithecus que espécies com cérebros maiores ingerem
possuíam alguns traços de macacos, tais como alimentos mais calóricos, provenientes princi-
ossos dos dedos curvos, caninos levemente pro- palmente de alimentos de origem animal, como
jetados e crânios pequenos. A característica mais leite, carne e ovos. Chimpanzés, por exemplo,
notável é que eram bípedes, demonstrada pela obtêm somente entre 5 e 7% de suas calorias
estrutura da pelve, perna e pé, e pela descoberta provenientes dessas fontes. É concebível então
de pegadas datadas de 3,6 milhões de anos.1 que para o antigo Homo expandir a sua massa
Talvez o bipedalismo tenha surgido como cinzenta fosse necessária uma dieta variada, não
uma postura para alimentação, uma vez que somente composta por frutos, tubérculos e raízes,
possibilitava o acesso a alimentos antes não mas alimentos de origem animal, como forma de
alcançados. Também, a locomoção sobre as duas aumentar a densidade calórica e nutricional.5
pernas liberou os braços para carregar crianças e De fato, a nutrição é um dos fatores am-
objetos. Ao se erguerem, os antigos humanos pu- bientais de maior importância no processo evo-
deram regular melhor a temperatura corporal, ex- lutivo. Entretanto, a genética determina a sus-
pondo menos o corpo ao calor abrasador africa- cetibilidade a doenças, enquanto que fatores
no. Sobretudo, tornar-se bípede permitiu um menor ambientais determinam qual indivíduo, genetica-
gasto energético, comparado ao de um quadrúpede, mente suscetível, será afetado.6 Nos últimos
quando se caminha, mas, por outro lado, maior 10.000 anos, desde a Revolução Agrícola, o
gasto quando se corre à mesma velocidade. O genoma humano basicamente não mudou, ou
bipedalismo, nesse contexto, pode ser visto como seja, a taxa de mutação espontânea para o DNA
uma das primeiras estratégias na evolução nu- nuclear está estimada em 0,5% por milhão de
tricional humana, um padrão de movimento que anos. Portanto, os 10.000 anos passados ainda não
teria reduzido substancialmente o número de foram suficientes para causar mudanças impor-
calorias despendidas na coleta de alimentos.2-4 tantes em nossos genes, que são muito similares
Os estudos antropológicos e paleontológicos aos dos nossos ancestrais que viveram no Período
também permitiram desvendar que, há cerca de Paleolítico, há 40.000 anos, no tempo em que
0,2 milhão de anos para cá, os fósseis hominídeos nosso perfil genético foi estabelecido. Atualmen-
apresentam características tão modernas que já te, a nossa dieta difere muito daquela para a qual
são caracterizados como Homo sapiens. Durante nossos genes foram selecionados. Ela mudou
esse período, as arcadas supraciliares ficaram essencialmente no que diz respeito ao tipo, à
menores, a posição do forâmen magno mais quantidade de ácidos graxos essenciais e à cons-
anterior, o queixo evidenciou-se e a capacidade tituição antioxidante dos alimentos7 (Quadro 1).
craniana aumentou de 1.175 cm3 para 1.400 cm3, A Biologia Molecular tem proporcionado
sendo este o valor médio atual.1 muitos avanços na elucidação de questões im-
Sob uma perspectiva nutricional, o cérebro do portantes relacionadas à nutrição, tais como os
homem moderno responde por 10 a 12% da mecanismos pelos quais os genes influenciam a
demanda de energia de um corpo em repouso, absorção dos nutrientes, o metabolismo, a ex-
comparado ao cérebro do Australopithecus. Um creção e até mesmo o paladar. Além disso,
Australopithecus típico, pesando entre 35 e 40kg, estudos genéticos têm demonstrado o quanto
com um cérebro de 450cm3, teria reservado cerca determinados genes determinam a preferência
de 11% de sua energia em repouso para o cérebro; alimentar e o grau de satisfação (saciedade e
enquanto um Homo erectus, pesando entre 55 e apetite) dos seres humanos.9
60 kg, com um cérebro de cerca de 850 cm3, teria Estudos antropológicos, nutricionais e ge-
reservado cerca de 16% de sua energia em néticos sugerem que a dieta humana, incluindo
repouso – ou seja, cerca de 250 das 1.500kcal ingestão energética e gasto energético, vem
diárias – para esse órgão.3, 4 mudando ao longo dos últimos 10.000 anos
Além disso, o bipedalismo permitiu aos ho- (Revolução Agrícola), sendo que a maior mu-
minídeos resfriar o sangue cranial e, conseqüen- dança ocorreu nos últimos 150 anos, princi-
temente, liberar o cérebro do calor de tempe- palmente no tipo e ingestão de gorduras e
raturas agressivas, que haviam colocado em vitaminas C e E.10

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QUADRO 1 – Comparação entre características do estilo de vida (dieta e atividade física) entre o Homem
Pré-Histórico e o Contemporâneo. Modificado a partir da Referência 7.

Homem pré-histórico
Estilo de vida homem contemporâneo
período paleolítico
ATIVIDADE FÍSICA Alta Baixa
DIETA
Densidade Energética Baixa Alta
Ingestão Energética Moderada Alta
Proteína Alta Baixa a moderada
Animal Alta Baixa a moderada
Vegetais Muito baixa Baixa a moderada
Carboidrato De baixa a moderada (difícil absorção) Moderada (fácil absorção)
Fibra Alta Baixa
Gordura Baixa Alta
Animal Baixa Alta
Vegetal Muito Baixa Moderada a alta
Ácidos graxos ômega 3 e 6 Alta (2,3g/por dia-1) Baixa (0,2g/por dia-1)
Proporção ômega 3-6 Baixa (2,4) Alta (12,0)
Vitaminas, mg por dia1 Ingestão na população brasileira8
Riboflavina 6,49 –
Folato 0,357 Abaixo das recomendações de consumo
Tiamina 3,91 Dentro das recomendações de consumo
Ascorbato 604 Acima das recomendações de consumo
Caroteno 5,56 Abaixo das recomendações de consumo
(Retinol equivalente) (927) –
Vitamina A 17,2 Abaixo das recomendações de consumo
(Retinol equivalente) (2870) –
Vitamina E 32,8 –

No Período Neolítico (10.000 a.C. a 4.000 a.C.), desencadeamento de mecanismos fisiopatoló-


aconteceram grandes transformações, como o gicos, já que nossos genes estão adaptados a um
desenvolvimento da agricultura e da criação de outro modelo de dieta e de gasto energético.
animais, como bovinos, ovinos, caprinos e suínos. Sobretudo, alguns autores estimaram alta in-
A caça já era de animais menores, característicos gestão de proteína, cálcio, potássio e ácido as-
da fauna atual: javalis, lebres e pássaros. No final córbico, e baixa ingestão de sódio na dieta do
desse período, chamado de Idade dos Metais, a período final do Paleolítico. Atualmente, o que
ação do homem sobre a natureza tornou-se mais se percebe é justamente o contrário: alta ingestão
intensa, e colheitas mais abundantes favoreceram de gorduras saturadas, gorduras trans, gorduras
o aumento da população. A Revolução Agrícola ômega-6 e cereais; e baixa ingestão de gorduras
incrementou a dieta humana, uma vez que pro- ômega-3, carboidratos complexos, fibras, frutas,
porcionou a entrada, no cardápio da huma- verduras, proteínas, antioxidantes e cálcio; além
nidade, de uma enorme variedade de alimentos, de baixa atividade física (sedentarismo).7
principalmente, dos cereais (arroz, cevada e
trigo). A introdução de cereais na dieta humana A VIDA PÓS-REVOLUÇÃO
é algo relativamente recente e também causador INDUSTRIAL: A INDÚSTRIA DE
de alterações na maneira como o alimento DOENÇAS E MORBIDADES
era tratado, pois esses alimentos precisam ser
processados e cozidos antes de ingeridos, o que Antes de ingressar na Idade Contemporânea
também altera sua estrutura química.7 (séculos XIX e XX), a humanidade já havia
Essa introdução de novos alimentos, aliada ao passado pelas eras paleolítica e neolítica, e por
tipo de processamento dado a eles, pode ser a períodos em que predominaram as civilizações
responsável, em termos genético-evolutivos, pelo egípcia e greco-romana, chamados de Antigüi-

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dade (séculos V a X d.C.), Idade Média (séculos A obesidade é um estado mórbido caracte-
X a XV d.C.) e Idade Moderna (séculos XV a XVIII rizado pelo acúmulo excessivo de gordura cor-
d.C.). Na Idade Moderna, a agricultura, que antes poral. Segundo dados da Organização Mundial
era de subsistência, passa a ter fins comerciais. de Saúde, existem no mundo mais de um bilhão
Produtos como tomate, batata, milho, arroz e de pessoas adultas com sobrepeso, e pelo menos
outras espécies alimentares tornam-se impor- 300 milhões de obesos. A enfermidade pode ser
tantes na alimentação ocidental. O pão era avaliada pelas complicações metabólicas a ela
bastante consumido por todas as classes sociais associadas, onde dislipidemia, doenças cardio-
e as crises na produção de cereais durante esse vasculares e diabetes do tipo II têm um papel de
período tiveram impacto direto sobre a mor- destaque.12 Desse modo, hoje é considerada um
talidade.11 grave problema, tanto nos países desenvolvidos
A Revolução Industrial difundiu-se pelo quanto nos em desenvolvimento.
mundo, e o trabalho realizado pelas mãos do No Brasil, a obesidade como problema de
homem começa a ser suplantado pelo da má- Saúde Pública ainda é um fenômeno relativa-
quina. Essa mudança no processo produtivo da mente recente. Entretanto, hoje o país convive
sociedade trouxe impactos importantes, não com uma polarização nutricional cada vez mais
somente na estrutura econômica e social, mas preocupante. De um lado, a desnutrição infantil,
também na saúde das pessoas. Novas relações que continua matando milhares de crianças com
entre capital, trabalho e nações foram impostas, menos de um ano de idade; de outro, a obe-
e um novo fenômeno emergiu: a chamada cultura sidade, que já atinge proporções epidêmicas cada
de massa, o que vem transformando o estilo de vez mais preocupantes.13
vida das pessoas. Tal fato provocou um enorme O problema da obesidade reside no fato de
êxodo rural, e a produção alimentícia, que antes que uma parcela dos indivíduos obesos apresenta
era de subsistência, agora é realizada industrial- um quadro de morbidades conhecido como
mente, em larga escala.11 Isso afastou o homem “Síndrome Metabólica”.
da lida direta com seu próprio alimento. Na
verdade, com o advento da industrialização, SÍNDROME METABÓLICA: UMA
o que está em jogo é o produto final e o lucro, SÍNDROME DA CIVILIZAÇÃO
ficando a saúde, muitas vezes, em segundo
plano. A SM é um distúrbio que consiste em alte-
Devido à globalização gerada pela cultura de rações do metabolismo dos glicídios (hiperinsu-
massa, o padrão alimentar das populações tem linemia, resistência à insulina, intolerância à
sofrido transformações que fortalecem o desen- glicose, ou diabetes do tipo II) e lipídios (aumento
volvimento de hábitos alimentares inadequados, de triglicerídios e HDL-colesterol diminuído),
o que é fortemente influenciado por diversos obesidade abdominal, hipertensão arterial e
fatores, dentre os quais se destacam o modismo distúrbios da coagulação (aumento da adesão
da propaganda (que muito valoriza a cultura dos plaquetária e do inibidor do ativador do plas-
fast-foods, altamente calóricos) e a supervalo- minogênio-PAI-1). Também é caracterizada
rização da imagem corporal, que muitas vezes por um estado pró-inflamatório, apresentando
produz jovens anoréxicas ou bulêmicas, re- aumento dos níveis circulantes de citocinas, tais
presentando a contestação dos padrões alimen- como proteína C reativa (PCR), fator de necrose
tares em benefício da estética, e não da saúde. tumoral (TNF-alfa) e interleucina 6 (IL-6).14
Esse conjunto de modificações no padrão ali- É importante destacar a associação da SM
mentar tende a interferir na homeostasia cor- com a doença cardiovascular, aumentando a
poral, causando desequilíbrio no aparato fisio- mortalidade geral em cerca de uma vez e meia e
lógico e, por conseqüência, doenças e morta- a cardiovascular em aproximadamente duas
lidade precoce. Isso porque o homem não está vezes e meia.15 Contudo, pouco se conhece a
geneticamente adaptado para alta ingestão respeito da origem da SM. A predisposição
calórica e baixo gasto energético (sedentarismo), genética, a alimentação inadequada e o seden-
e a tendência é que essa energia fique indeter- tarismo estão entre os principais fatores de risco
minadamente acumulada no organismo sob que contribuem para o seu desencadeamento.16
forma de gordura, resultando no aumento ace- Há décadas, alguns pesquisadores postula-
lerado da incidência e prevalência de doenças ram a hipótese de que a origem de diversas
crônicas, tal como a obesidade.10 doenças crônicas e morbidades em adultos,

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inclusive SM e doenças cardiovasculares, fosse ta adaptativa do organismo para ajustá-lo a


embrionária ou fetal.17 Tal hipótese postula que condições nutricionais específicas em estágios
fatores ambientais, principalmente a nutrição, iniciais do desenvolvimento, que se caracterizam
atuam desde a vida intrauterina, programando o por: (1) uma suscetibilidade limitada para uma
risco para o desencadeamento de SM, doença janela ontogênica crítica no início do desen-
cardiovascular e até mesmo morte prematura na volvimento; (2) um efeito persistente ao longo da
vida adulta. vida adulta; (3) uma conseqüência específica e
Tanto a ecologia evolutiva quanto a biologia mensurável, a qual pode ser diferente entre
molecular confirmam que um determinado indivíduos; e (4) uma relação, dose-dependente
genótipo pode resultar em diferentes fenótipos ou linear, entre uma exposição específica e o
sob determinada condição ambiental. Além resultado.21
disso, o impacto de fatores ambientais experi- Nesse sentido, é importante ressaltar que a
mentado em uma geração pode determinar o ação ambiental sobre um genótipo resulta em
desenvolvimento e o comportamento da geração plasticidade fenotípica; isto é, retrata a capa-
seguinte. Portanto, fatores ambientais na gestante cidade de um indivíduo em adequar sua fisio-
podem afetar diretamente o desenvolvimento do logia/metabolismo e morfologia em decorrência
feto, o que pode perdurar por várias gerações.16 da ação de fatores ambientais, gerando varia-
Ou seja, o conceito de que existe uma resposta bilidade genética. Essa plasticidade é essencial
adaptativa, em embriões ou fetos, a um ambien- para processos biológicos e para a sobrevivên-
te intrauterino inadequado, que resulta em cia de uma espécie, uma vez que pode criar
conseqüências adversas, é consistente com vantagens adaptativas em condições ambientais
uma definição de “programação” proposta por diferentes, instáveis ou adversas, como no caso
Lucas18 em 1991: “tanto a indução, quanto a de fetos submetidos a um aporte nutricional
deleção ou falha no desenvolvimento de es- escasso.22
truturas somáticas ou de um sistema fisiológico, Alguns estudos conduzidos por Barker et al.23
através de estímulos ou danos ocorridos em mostram que o efeito do baixo peso ao nascer
períodos sensíveis ou críticos, resultam em con- sobre algumas doenças (como as cardiovas-
seqüências funcionais ao longo do desenvolvi- culares e o diabetes mellitus tipo II) é influen-
mento”. ciado pela maneira em que acontece o cres-
A existência de períodos críticos, nos quais a cimento na infância. Por exemplo, o rápido ganho
nutrição tem grande influência, pode ter conse- de peso nesse período aumenta o risco associado
qüências para o crescimento e o metabolismo do a essas doenças. Além disso, o autor descobriu
embrião ou feto. Estudos em ratos mostraram que que o baixo peso ao nascer combinado com o
a desnutrição em estágios iniciais de desenvol- rápido ganho de peso na infância, entre os 3 e 11
vimento influencia de modo permanente o anos de idade, prediz grandes diferenças na
crescimento desses animais, enquanto que a incidência cumulativa de doença cardiovascular,
desnutrição em fases de desenvolvimento mais diabetes tipo II e hipertensão arterial.23
tardias apenas afeta de modo transitório ou Uma vez que a SM é um conjunto de fatores
passageiro o animal.19 de risco cardiovascular, que inclui resistência à
A teoria do “fenótipo econômico” proposta insulina (com ou sem intolerância a glicose),
por Hales e Barker,20 sugere que o desenvolvi- hipertensão arterial, dislipidemia e obesidade
mento fetal seja sensível ao ambiente nutricional. abdominal, a teoria do fenótipo econômico sa-
Quando este é precário, surge uma resposta tisfaz alguns questionamentos sobre o desenvol-
adaptativa que promove o crescimento de órgãos vimento desse distúrbio. Estudos têm mostrado
chave, como o cérebro, em detrimento de outros, que a privação nutricional pré-natal promove
como as vísceras. Essa programação fetal teria perda estrutural em órgãos importantes, como
como objetivo aumentar as chances de sobre- néfrons, cardiomiócitos e células β (Figura 1)
vivência do feto e resultaria num metabolismo Essas perdas, ao longo do envelhecimento, po-
pós-natal alterado, o qual também teria o obje- dem induzir ao surgimento da SM. Entretanto,
tivo de aumentar as chances de sobrevivência parece que a teoria do fenótipo econômico
sob condições de nutrição precárias e intermi- apresenta uma contradição evolutiva: como um
tentes. aporte nutricional intrauterino inadequado
Logo, a “impressão metabólica” que a nu- (escassez de nutrientes) pode afetar de forma
trição causa nos embriões e fetos é uma respos- decisiva o metabolismo pós-natal de um indi-

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Inanição/ Fenótipo Alta


Ingestão V ida A dulta
D estrunição E conôm ico
C alórica/
O besidade

P erda de
função e
crescim ento

G estante/Feto
C élulas β D iabetes
C ardim iócitos Tip o 2
N éfrons S índrom e
D im inuição do M etabólica
tam anho e peso
do feto ou
recém nascido

Figura 1 – Esquema de representação do fenótipo econômico sobre o desenvolvimento do Diabetes Tipo 2 e Síndrome
Metabólica.15,18

víduo, desencadeando doenças, uma vez que, como o alimento é utilizado nos processos me-
evolutiva e geneticamente, já fomos selecionados tabólicos são aspectos que fazem interface entre
e adaptados para uma baixa ingestão calórica e a energia adquirida e a energia despendida.
um ótimo aproveitamento dos nutrientes? Ou Essa dinâmica energética tem conseqüências
seja, esse déficit nutricional pré-natal não deveria adaptativas importantes, pois determinará o
afetar a saúde do adulto, a não ser que este, ao sucesso reprodutivo, a manutenção da prole e,
longo do seu desenvolvimento, adquira um estilo por conseguinte, a perpetuação da espécie.
de vida não saudável (sedentarismo e alta Entretanto, ao longo da Revolução Agrícola e
ingestão calórica/obesidade). Industrial, a humanidade tem experimentado
Dessa forma, parece que a dieta exerce um uma rápida mudança no estilo de vida que tem
papel importante na regulação gênica que, afetado diretamente a saúde das pessoas. Os
dependendo da qualidade e quantidade de nu- hábitos de vida não saudáveis, como uma dieta
trientes, atuará de forma diferencial, por exem- hipercalórica, aliada ao sedentarismo, têm afe-
plo, ativando/desativando genes. Por isso, no tado de forma negativa a dinâmica energética
caso da SM, a prevenção é muito mais complexa, (entrada e gasto de energia) dos seres humanos,
porque além de sofrer forte influência pré-natal, já que grande parte da energia adquirida na
também está ligada à idade e à dieta, esta um forma de alimento fica estocada no organismo,
fator ambiental determinante. interferindo na homeostasia corporal.
A quebra da homeostasia orgânica acaba
CONSIDERAÇÕES FINAIS gerando distúrbios metabólicos que, ao longo dos
anos, podem-se traduzir em doença. Uma das
A nutrição, sem dúvida, foi determinante morbidades mais prevalentes na nossa sociedade
no estabelecimento de condições ideais para é a SM, também chamada de “Síndrome da
a humanidade se perpetuar e habitar cada Civilização”. Muitos são os fatores desenca-
canto do planeta. A alimentação teve um papel deadores desse distúrbio, porém o que possi-
fundamental na evolução humana, uma vez que velmente determinará o seu aparecimento será a
a procura, seleção, preparo, consumo e maneira interação genético-ambiental, ou seja, a forma

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pela qual o ambiente modulará a transcrição e a 7. Simopoulos AP. Genetic variation and evolutionary
aspects of diet. In: Papas A, editor. Antioxidants in
tradução de genes e o metabolismo energético. nutrition and health. Boca Raton: CRC Press; 1999.
Muitas teorias e hipóteses têm sido for- p.65-88.
muladas para tentar esclarecer o mecanismo 8. Sichieri R, Coitinho DC, Monteiro JB, et al. Reco-
causador da SM, no entanto, ainda falta muito mendações de alimentação e nutrição saudável para a
para que o mesmo seja totalmente desvendado. população brasileira. Arq Bras Endocrinol Metab.
2000;44:227-32.
Por isso, antes de ficarmos esperando a cura
9. Prado-Lima OS, Cruz IBM, Schwanke CHA, et al.
definitiva, através da ciência e de novas tec- Human food preferences are associated with a 5-HT2
nologias, deveríamos mudar nosso estilo de vida Aserotonergic receptor polymorphism. Mol Psychiatry.
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ditas da Civilização pós-moderna, inclui priori- 10. Eaton SB, Konner M. Paleolithic nutrition. A con-
tariamente uma nutrição saudável (preferindo sideration of its nature and current implications. N Engl
J Med. 1985;312:283-9.
frutas, verduras, legumes e produtos lácteos fer-
11. Vicentino C. História geral. São Paulo: Scipione; 1991.
mentados, e evitando açúcar, sal, gorduras e
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alimentos industrializados), além de atividade Disease Project. Geneva: The Organization; 2002 [acesso
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A chave para manter uma boa saúde é healthinfo/bodproject/en/index.html
encontrada não somente impressa em nossos 13. Pinheiro ARO, Freitas SFT, Corso ACT. Uma
genes, mas também no equilíbrio entre a energia abordagem epidemiológica da obesidade. Rev Nutr
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ingerida versus a energia despendida. Além
14. Alberti KGMM, Zimmet P, Shaw J, for the IDF
disso, as evidências indicam que a restrição do Epidemiology Task Force Consensus Group. The
crescimento intrauterino e o baixo peso ao nascer, metabolic syndrome: a new worldwide definition.
seguidos de ganho de peso excessivo na infân- Lancet. 2005;366:1059-62.
cia e na adolescência, estão associados com 15. Chew GT, Gan SK, Watts GF. Revisiting the metabolic
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entre outros desfechos desfavoráveis. Dessa perspective. Epidemiol Rev. 1998;20:157-72.
forma, a nutrição adequada de gestantes e 17. Barker DJ, Eriksson JG, Forsen T, et al. Fetal origins of
crianças deve ser entendida e enfatizada como adult disease: strength of effects and biological basis.
elemento estratégico de ação, com vistas à Int J Epidemiol. 2002;31:1235-9.
promoção da saúde também na vida adulta. 18. Lucas A. Programming by early nutrition in man. Ciba
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Endereço para correspondência:
6:77-88. MARIA GABRIELA VALLE GOTTLIEB
6. Leonard WR, Snodgrass JJ, Robertson ML. Effects of Av. Ipiranga, 6690 sala 300
CEP 90610-000, Porto Alegre, RS, Brasil
brain evolution on human nutrition and metabolism. Fone: (51) 3320-5120 – Fax: (51) 3320-5190
Annu Rev Nutr. 2007;27:311-27. E-mail: vallegot@hotmail.com

38 Scientia Medica, Porto Alegre, v. 18, n. 1, p. 31-38, jan./mar. 2008