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A PROBLEMÁTICA DOS

MÉTODOS
QUANTITATIVOS E
QUALITATIVOS EM
BIBLIOTECONOMIA E
DOCUMENTAÇÃO: UMA RESUMO
REVISÃO DE Apresenta a literatura publicada sobre a controvérsia:
LITERATURA* métodos quantitativos x métodos qualitativos. Identifica o
posicionamento geral dos pesquisadores em
Biblioteconomia e Documentação quanto à escolha dos
Cassandra Lúcia de Maya Viana Souza métodos para suas investigações. Sugere a adoção de uma
postura mais crítica frente ao caráter positivista das
Mestranda em Biblioteconomia e Documentação pesquisas, buscando favorecer o desenvolvimento teorético
Universidade de Brasília e a coerência com a realidade social em que estão inseridos
70910 Brasília, DF. ., \ usuários e informação.

1 _ INTRODUÇÃO vantagens e desvantagens de ambos os tipos


de métodos, em confrontação com a natureza
Algumas indagações de ordem epistemológica dos problemas de pesquisa e do próprio objeto
ainda pairam no ar quando se considera a das ciências humanas, já que a problemática dos
Biblioteconomia como "Ciência", no sistema métodos quantitativos e qualitativos em
científico geral. Há lacunas no conhecimento e Biblioteconomia está intimamente relacionada a
as críticas sofridas apontam ausência de uma essa questão no âmbito daquelas ciências.
estrutura teorética sistematizada, tendência
excessivamente pragmática etc. Especificamente, os objetivos do presente
estudo são:
Nesse contexto, a pesquisa em Biblioteconomia
e Documentação reveste-se de maior a) analisar a problemática dos métodos
importância por ser nela que se apoiam as quantitativos e qualitativos de modo a
esperanças dos estudiosos de fazer avançar o conhecer as bases da controvérsia existente;
conhecimento e de ver seus esforços b) verificar qual tem sido o posicionamento geral
reconhecidos. Daí a crescente preocupação com da Biblioteconomia e Documentação quanto
a questão metodológica. à escolha dos métodos para suas
investigações;
Em todas as ciências, a determinação dos c) verificar o âmbito da aplicabilidade de um e
métodos a serem utilizados nas pesquisas é outro tipo de método a essas ciências.
precedida e acompanhada de uma série de
implicações tanto no âmbito do pesquisador, do A literatura consultada abrange, basicamente,
fenômeno estudado, como da própria estrutura artigos de periódicos da área, e alguns outros
do campo de conhecimento no qual se realiza documentos de caráter mais geral sobre métodos
o estudo. de investigação.

Na tentativa de esclarecer este fato, são 2 — O QUE SÃO MÉTODOS QUANTITATIVOS


analisadas algumas diferenças, limitações, E QUALITATIVOS?

* Trabalho apresentado à disciplina "Pesquisa em Uma definição clara desses tipos de métodos
Biblioteconomia", em junho de 1988. não foi encontrada na literatura consultada.
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A problemática dos métodos quantitativos e qualitativos em Biblioteconomia e Documentação: uma revisão de literatura
Cassandra Lúcia de Maya Viana Souza

Porém, utilizando-nos de indicações, descrições As diferenças entre os dois grandes grupos de


de tipos e diferenças entre um e outro, tentaremos métodos aqui analisados foram mencionados por
obter uma noção do que sejam, Grover & Glazier7 em termos da lógica usada
para fazer inferências a partir dos dados
coletados. As metodologias quantitativas usam
Goode & Hatt1, referindo-se aos métodos
uma lógica muito próxima â lógica da
quantitativos, falam em "utilização de técnicas matemática, enquanto que as metodologias
estatísticas" e, ainda, em "aplicação da qualitativas utilizam-se de uma lógica muito
matemática â sociologia". Bem, sabe-se que é semelhante à lógica de classes. Segundo esses
comum aos métodos quantitativos o uso de autores, a pesquisa qualitativa envolve um
técnicas estatísticas e modelos matemáticos. processo dialético: coleta de dados descritivos,
Kaplan2 fala em "medições" e em "técnicas análise e, posteriormente, generalizações. Os
matemáticas", enquanto que Busha & Harter3 dados, assim, são tratados por um processo de
identificam dois tipos distintos de dados análise ou crítica que produz uma generalização
quantitativos: um, como resultado de contagens baseada naquele tipo de raciocínio, que
e outro, a partir de medições. permitiria penetrar no significado dos dados
existentes. Os métodos quantitativos, por sua,
Quanto aos métodos qualitativos, Hounsell & Win4 vez, assim como a maioria das pesquisas nas
consideram como sendo aqueles que partem de ciências naturais, usam o processo inverso:
modelos não tradicionais, isto é, não baseados estabelecem primeiro uma generalização, e
em análise estatística de dados coletados sob depois a testam.
condições experimentais. Já Brenner5, citando
W.J. Filstead, considera que a "metodologia Há divergências, também, quanto â formulação
qualitativa" é aquela que "... permite ao de conceitos. Na abordagem quantitativa inicia-
pesquisador estar próximo dos dados, se com uma hipótese, confirmada ou refutada
desenvolvendo, de uma ou outra forma, os com base em dados ou evidência obtida por
componentes analíticos, conceituais e meios empíricos;, e, aplicando aos dados o
categóricos da explicação a partir dos próprios raciocínio dedutivo, são, então, formulados
dados — melhor do que através de técnicas aqueles. Na abordagem qualitativa, porém, é o
preconcebidas, rigidamente estruturadas e raciocínio indutivo que possibilita a sua
altamente quantitativas, que restringem o mundo formulação.7
social empírico dentro das definições
operacionais que o pesquisador constrói". Hounsell & Winn4, citando outros autores,
levantam algumas outras distinções. Um dos
autores mencionados, P. Halfpenny, afirma que,
Goode & Hatt1 mencionam alguns desses entre as várias opiniões existentes, há aquelas
métodos: análise de conteúdo de documentos, que consideram a diferença em termos de que
estudos de casos e código qualitativo. Outros um é exploratório e de desenvolvimento,
tipos, mencionados por outros autores como enquanto o outro, usando catecjorias a pr/ori, é
pertencentes a esta categoria, foram: método uma pesquisa estatística baseada mais em
histórico, observação participante, observação amostras de população que em estudos de casos
estruturada e não-estruturada, revisão de isolados. Um seria "pesquisa que toma
literatura, entrevista, pesquisa de campo, diário conhecimento do significado que as ações têm
e amostragem de atividades. para aqueles que as praticam", enquanto o outro
seria "estudo de um mundo no qual os objetivos
Quanto a isso, observou-se a inexistência de e os acontecimentos são considerados como
critérios para inclusão destes na categoria de destituídos de significado".
métodos qualitativos. Supõe-se que tal fato se
deva à própria inexatidão na definição e na Para os primeiro autores, a distinção quantitativos
amplitude do termo "qualitativo", ou, ainda, X qualitativos identifica apenas uma dentre uma
porque as suas possibilidades de utilização e variedade de formas em que os modelos não-
estrutura podem variar significativamente, dando convencionais contrastam com o chamado
margem a dúvidas. E assim as fronteiras entre "científico". Seria uma questão mais de natureza
um e outro tipo, entre uma categoria e a outra, que de extensão de um determinado fenômeno4
não seriam tão marcantes. Um exemplo disso é
dado por Wilson6, que demonstra como, na A essa altura, já se pode intuir que há outros
metodologia aplicada para o Projeto INISS, a fatores em jogo para uma melhor compreensão
observação estruturada foi utilizada também e diferenciação destes métodos. O que seria
como uma técnica quantitativa. esse modelo chamado de "científico"? Q'ue

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A problemática dos métodos quantitativos e qualitativos em Biblioteconomia e Documentação: uma revisão de literatura
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falhas pode ter esse modelo a ponto de se À observação estruturada atribuem-se limitações
proporem alternativas? Que relação pode haver tais como: a necessidade de muito tempo de
entre a natureza do fenômeno estudado e a dedicação ao estudo; dificuldade, por parte do
escolha dos métodos? observador, na interpretação de algumas
atividades pela rapidez na ocorrência dos
Tentaremos dar respostas a essas indagações eventos; amostragem pequena; resultados
no desenvolvimento deste estudo. dependentes de preparação dos observadores
Primeiramente, procuraremos aprofundar-nos para a utilização do método; e outras. Porém,
em algumas propriedades dos métodos, como considera-se que é extremamente útil na
fatores que podem impor limitações à sua investigação de problemas sobre os quais pouco
aplicação. se sabe; é igualmente útil tanto para construção
de teoria como para sua verificação; possibilita
uma visão ampla do meio ambiente, o que facilita
3 — PROPRIEDADES DOS MÉTODOS
o estudo, especialmente quando vários fatores
QUANTITATIVOS E QUALITATIVOS atuam simultaneamente, além de outras
vantagens7.
Qualquer que seja o tipo de abordagem adotada,
sempre nos deparamos com o problema das Quanto aos estudos de caso, Stenhouse8
suas limitações na representação de todo o considera que podem melhorar o julgamento do
universo relativo ao fenômeno investigado. praticante através da ampliação de sua
Algumas dessas limitações são inerentes aos experiência e do caráter mais reflexivo e analítico
próprios métodos de pesquisa, sejam eles que fornece a essa experiência.
quantitativos ou qualitativos.
Em um âmbito mais geral, os métodos qualitativos
Quanto aos primeiros, Hounsell & Winn4, possibilitam ao pesquisador acadêmico uma
aceitando a opinião de E.G. Mishler e de M. Q. nova compreensão do fenômeno, não
Patton, afirmam que a busca quantitativa pó previamente examinável em sua totalidade9. São
generalizações leva a um simplificação ou um ponto de apoio para tópicos não manuseáveis
obscurecimento das complexidades dos em estudos formais ou para aqueles não
universos em que os indivíduos vivem e reconhecidos como merecedores de
trabalham. Esses métodos podem falhar pelo não investigação; aumentam a capacidade da
reconhecimento de que a verdade tem vários pesquisa produzir interesses, assuntos,
lados, e por não considerarem que os modos de inquietações, teóricos ou práticos, e responder
ação dos indivíduos são moldados pelas suas àqueles dos investigadores; e elevam a
próprias e distintas visões da realidade cotidiana. conscientização metodológica por exigirem
Acreditam, Hounsell & Winn, que é necessário análise e exposição explícita do papel do
entender o indivíduo em uma situação de "vida pesquisador na produção e interpretação dos
real". dados10.
Podemos perceber que aí pode haver um A maioria dos autores consultados ressalta as
componente crítico em relação ao empiricismo caracaterísticas positivas das abordagens
dessas abordagens, isto é, uma preocupação qualitativas. Porém, isto não é suficiente para se
com o controle de variáveis, levando ao estudo compreenderem as razões que levaram os dois
do fenômeno sob condições artificiais. últimos autores citados a fazer objeções quanto
aos métodos convencionais ou "científicos".
Entretanto, há falhas comuns a ambas as
abordagens. Uma delas é quanto ao Talvez algum esclarecimento possa advir do
reconhecimento e descrição das relações entre reconhecimento de que os métodos existem em
fenômenos, ao final do processo de aplicação função dos problemas de pesquisa, e, portanto,
de raciocínio indutivo (qualitativa) ou dedutivo a eles devem ser adequados.
(quantitativa). É o que afirmam Grover & Glazier7.
Sobre isso Grover & Glazier7 dizem que "uma
Existem, ainda, vantagens e desvantagens metodologia pode ser julgada superior a outra
próprias de determinados métodos específicos dependendo da sua aplicação em uma dada
de cada uma das grandes categorias aqui situação", e ainda, que "cada estágio de um
analisadas. A observação estruturada e os projeto envolve um aspecto da totalidade do
estudos de caso foram alguns dos tipos sobre problema de pesquisa. É através da análise do
os quais se encontraram comentários quanto a problema de pesquisa que o método apropriado
esses aspectos. é descoberto".

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Essas afirmações servem apenas para confirmar mecânica de seu objeto, adotando amplamente
o fato de que nenhum método pode ser os métodos quantitativos.
considerado bom ou ruim, superior ou inferior a
outro, por si mesmo, ou de forma decisiva. Porém, confirmadas ou não nossas suposições
Segundo Oldman11, a seleção de metodologias quanto à origem da atual situação, o fato é que,
envolve um princípio de relatividade, isto é, "o durante muito tempo, e até hoje, atribui-se uma
formato do projeto depende da natureza do superioridade dos métodos quantitativos em
problema que originou a pesquisa. Um problema relação aos outros não baseados no mesmo
inicial pode ser traduzido em mais de um tipo paradigma.
de projeto ou forma".
A controvérsia iniciou-se exatamente quando
Apesar disso, ainda há uma valorização de grupos de pesquisadores começaram a
estudos cujo projeto será pré-planejado, não questionar a validade do modelo vigente para o
manipulativo, e que envolva análise de muitos estudo dos problemas sociais, já que o
casos, tipo survey, por corresponderem ao rótulo comportamento dos indivíduos não era regido
de "Ciência" (método quantitativo)11. Esse tipo por leis determinísticas. Surgiu, então, a
de concepção baseia-se no princípio de que os necessidade de se criarem e buscarem novos
outros tipos de abordagens, não-quantitativas, métodos. Daí a "nova onda" por métodos
por envolverem maior contato entre o qualitativos.
pesquisador e o seu objeto de estudo, estão
sujeitas à "contaminação", a um viés proveniente A questão do paradigma sob o. qual foram
de ideologias ou interpretação errônea do desenvolvidos os métodos é importante para a
investigador. verificação da racionalidade que guiou nossas
suposições.
Sobre isso, diz Brenner5 que "a busca de
métodos para obterem-se medições não sujeitas
a vieses, e, em última anafise, que garantam a 4.1 __ PARADIGMAS E OUTROS FATORES
validade dos dados obtidos, vem da própria IMPLÍCITOS
dificuldade da realização, na prática, das teorias
de medição estabelecidas, por serem estas Vários autores (Olaisen12, 1985; Wilson6, 1981;
incompatíveis com as reais condições sociais e Hammersley13, 1981; Harris14, 1981; Hounsell &
psicológicas nas quais os dados são coletados". Winn10, 1981), afirmam que o problema da
aplicação dos métodos quantitativos às ciências
Neste ponto estamos já nos defrontando com o sociais reside no modelo hipotético-dedutivo,
âmago da controvérsia quantitativos X próprio das ciências naturais, que os
qualitativos. Vejamos, então, mais exatamente, fundamenta.
de que se trata.
Olaisen12 faz uma análise mais profunda dessa
4 — QUANTITATIVOS X QUALITATIVOS: questão. Utiliza uma tipologia desenvolvida por
APENAS UMA QUESTÃO DE MÉTODOS? F. Galtung, que identifica três orientações
científicas quanto ao papel do pesquisador e aos
objetivos da investigação: empiricismo,
O que vem ocorrendo, atualmente, na criticismo e construtivismo. Considera que "a
Biblioeconomia e Documentação em relação à orientação determina a relação entre os dados,
discussão aqui focalizada parece estar vinculado as teorias e os valores do pesquisador"12.
à própria discussão quanto ao caráter científico
ou não das ciências humanas. Supõe-se que, No empiricismo, cuja origem é atribuída a
estas últimas, por seu surgimento formal posterior Augusto Comte, a visão "positivista" coloca a
ao das ciências naturais e na busca de uma maior ciência como monista, fisicalista (naturalista) e
respeitabilidade e status dentro do sistema das reducionista, isto é, todo o saber possível é
ciências, teriam sido levadas a utilizar os métodos reduzido a um único campo científico: o das
já existentes, cujos padrões de validade e ciências naturais; daí as noções de "ciência
confiabilidade e caráter experimental eram unificada" e "método científico único". Daí
garantidos pela aplicação de técnicas também a concepção do comportamento
matemáticas e estatísticas. Sob o princípio de humano Como sendo governado por leis
que a precisão desses métodos poderia ser invariantes, que devem, preferencialmente, ser
transplantada para aquelas, conferindo-lhes a formuladas em termos matemáticos e, então,
desejada denominação formal de "ciências",
formalizadas como teorias. Para isto, conceitos
esqueceram-se da natureza complexa e não
comportamentais devem ser tratados do mesmo

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modo que as entidades físicas: isolados, nos referir, mais adiante, no tópico "O objeto das
manipulados experimentalmente e medidos12. ciências humanas".

Esse modelo, também chamado de hipotético- Quanto a outros fatores, implícitos, que também
dedutivo, é aquele a que nos referimos no início influenciam na opinião dos pesquisadores,
deste tópico. Oldman11, analisando algumas críticas
comumente feitas às pesquisas qualitativas,
Os métodos quantitativos, portanto, estão levantou, para cada uma, as verdadeiras razões
impregnados desse tipo de visão de mundo, de que as originaram. Conclui ele que essas críticas
homem, de ciência etc., que são transferidas são, freqüentemente, expressões de interesses
para todos os elementos envolvidos na não demonstrados explicitamente, e puramente
investigação. O tipo de visão implícita no modelo ideológicas no sentido de que apoiam uma
adotado influencia o comportamento do estrutura social em que algumas classes
fenômeno ao ser tratado e afeta, dominam as outras. A exigência de hipóteses
preponderantemente, o próprio pesquisador, explícitas, por exemplo, pode ser pano de fundo
dirigindo seu pensamento e, conseqüentemente, para critérios de caráter pessoal: preocupação
o seu procedimento no processo de pesquisa. com o resultado final ou benefícios da pesquisa,
interesses de grupos específicos etc. Também
Wilson6 diz que "a escolha do método de as críticas quanto ao envolvimento do
pesquisa é claramente relacionada a um pesquisador, viés ou contaminação do objeto,
paradigma global dentro do qual se pretende envolvem uma concepção de que o pesquisador
trabalhar". Apresenta uma tabela, cujos dados e o pesquisado têm interesses diferentes ou
foram obtidos a partir do trabalho de E. G. Guba, opostos. Segundo o autor, isto até pode ser
mostrando os vários paradigmas existentes e que verdade nos casos em que pessoas ou
foram favorecidos por diferentes grupos de instituições pagam pela pesquisa a ser feita com
pesquisadores, em épocas diferentes, suas outras pessoas, com o propósito de impor a elas
respectivas técnicas fundamentais e visões da certas condições subseqüentemente. Nestes
verdade. casos, embora as pesquisas sejam feitas sob
um presumível espírito de auxílio, utilidade
Todos esses fatos mencionados demonstram pública ou generosidade, elas envolvem, de um
que por trás da questão metodológica residem lado, aqueles que irão fazer coisas, e de outro,
outros fatores a serem considerados, que aqueles para os quais as coisas serão feitas. O
também impõem limitações à pesquisa. Pode-se objetivo principal, então, é verificar se o
dizer, portanto, que a suposta inferioridade pesquisador está "do lado certo". "As diferenças
atribuída às abordagens qualitativas não têm um de interesse é que levam a distinções no âmbito
fundamento lógico como se pretendia, mas metodológico."11
baseia-se em critérios tão subjetivos quanto
outros que são criticados pelo chamado Essa sua última afirmação pode estar relacionada
"pensamento científico", à questão dos paradigmas, já que cada modelo
inclui propósitos e concepções específicos de
Como alternativa, alguns propõem o uso de determinados grupos, em determinadas épocas.
vários métodos ou técnicas, simultaneamente, ou
ainda uma combinação deles (Hounsell & Winn10, Ainda em relação às diferenças de interesses,
1981; Olaisen12, 1985; Wilson6, 1981), de modo pode ser levantada a suposição de um possível
que não se esteja vinculado a um único vínculo com a dicotomia teoria X praxis, com a
paradigma, o que tem acarretado certa distinção pesquisa X avaliação14, ou ainda
tendenciosidade às pesquisas. pesquisador X praticante9.

Aqui cabe uma reflexão: como ficam, então, os Exon9 comenta que interesses pragmáticos
critérios de validade da pesquia, já que os muitas vezes se sobrepõem á atividade teorética,
paradigmas limitam a visão do pesquisador? A sendo a pesquisa formal, em muitos casos,
questão dos paradigmas não deveria ser "condenada", isto é, não divulgada, por ter
analisada para se considerar uma investigação utilidade prática limitada. Segundo esse autor, a
válida? credibilidade relativa dos diferentes métodos
varia em função das diferentes proporções de
A objetividade, validade e confiabilidade, como difusão no meio profissional.
critérios para a credibilidade da pesquisa,
também têm sido alvo de críticas por parte de Se tomarmos essa afirmação como verdadeira e
alguns autores, e a este assunto voltaremos a considerarmos que os métodos quantitativos

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são os mais apropriados para avaliações, e, O reconhecimento de que indivíduo e sociedade


conseqüentemente, os mais utilizados em são inseparáveis, de que um comportamento
situações práticas, pode ser, então, justificada a individual é influenciado pelos membros dos
sua maior credibilidade em relação aos grupos sociais em uma relação de
qualitativos. A suposta "preferência" por parte interdependência mútua, levou ao
dos pesquisadores seria, portanto, mais uma desenvolvimento de metodologias como o
questão conjuntural do que de convicção. "interacionismo simbólico"7. Essa metodologia,
assim como a "sociologia fenomenológica" e
Contudo, o aumento da credibilidade foi outras, baseia-se parcialmente em paradigmas
encarado como demonstração de superioridade minoritários e possibilita melhor habilitação para
de uns sobre os outros. lidar com fenômenos sociais (Brenner5, citando
vários autores).
4.2 — O OBJETO DAS CIÊNCIAS HUMANAS
Já Piaget16 considera que, apesar das diferenças
Parece um tanto óbvio afirmar que as ciências do objeto de estudos, o intercâmbio de métodos
humanas estudam fenômenos diferentes com as ciências naturais é salutar, levando a uma
daqueles das ciências naturais. É necessário, tendência recíproca de "naturalizar" as ciências
porém, compreender melhor essas diferenças de do homem e de "humanizar" as ciências naturais.
forma a poder ser confirmado o seu vínculo com
a questão metodológica. É certo que não se pode negar as contribuições
trazidas tanto pelo métodos (quantitativos) como
Goldhor15 aborda as relações entre variáveis na por estruturas teoréticas dessas ciências, que
pesquisa em Biblioteconomia, de natureza foram aplicados a pesquisas das ciências
semelhante à daquelas de outras ciências humanas em geral. Entretanto, é preciso impor
humanas, e afirma que os fenômenos, nestas limites a essas "adaptações" de modo a evitar
ciências, estariam mais sujeitos a leis de distorções na realidade social.
probabilidade que a leis. mecânicas, já que a
relação de causa e efeito opera em base Ao que parece, as ciências naturais têm "filtrado"
aproximada e não em termos absolutos. Segundo eficientemente as possibilidades de aplicação de
ele, a complexidade dos fenômenos leva a supor outros tipos de métodos ao seu objeto,
mesmo um sistema de causas múltiplas no qual garantindo a manutenção de sua estrutura
os fatores, podem atuar tanto diretamente como original através dos critérios rigorosos que lhe
em interação com outros. são próprios.
Conhecendo esses fatos, é possível entender por O mesmo não tem acontecido no âmbito das
que Harris14 decidiu não utilizar o modelo clássico ciências humanas. Com efeito, W. J. Filstead,
(hipotético-dedutivo) em seu projeto para citado por Brenner5, diz que os cientistas sociais
incorporar a educação do usuário nos programas "têrrvse ocupado em moldar, reformular e
acadêmicos. deturpar o campo social empírico para se
encaixar no modelo usado para investigá-lo.
Stenhouse8 comenta que, enquanto nas ciências Sempre que possível, a realidade social é
físicas os experimentos dependem do controle ignorada".
das variáveis, nas ciências da vida, do
comportamento e ciências sociais este controle Patrick Wilson, citado por Olaisen12, afirma em
torna-se cada vez mais difícil. Esta dificuldade seu livro Secondhand Knowledge que o
provém da impossibilidade de se isolar o progresso nas ciências sociais (incluindo a
comportamento humano das reais condições em Biblioteconomia) tem sido extremamente lento,
que ocorre. apesar do uso cada vez maior de métodos das
ciências naturais.
Grover & Glazier7, citando W. Dunn, expressam
aquilo que consideram como diferença Se forem tomadas como verdadeiras as
fundamental entre as ciências naturais e as conclusões de Wilson, poder-se-á afirmar, então,
ciências sociais: "Enquanto nas primeiras que o processo de "naturalização" preconizado
assume-se que a criação, disseminação e por Piaget não pode ser tomado como condição
utilização do conhecimento não dependem, em necessária para fazer avançar o conhecimento
grande parte, do significado subjetivo do nas ciências humanas. Para sermos mais exatos,
conhecimento para o conhecedor, nas não parece haver mesmo uma correlação
metodologias qualitativas focalizam-se os significativa entre a utilização àe métodos de
aspectos subjetivos daquele fenômeno". outras ciências e o desenvolvimento científico.

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Um fator que demonstra ser mais determinante Concentramo-nos na consistência, sem dar muita
nesta questão é a fundamentação teórica dessas atenção a se estamos sendo consistentes ou se
ciências. Lacunas na atividade teorética estamos sendo consitentemente certos ou
certamente podem dificultar o avanço do errados. Como conseqüência, podemos ter
conhecimento. estado aprendendo, em grande parte, sobre
como perseguir uma direção incorreta com o
Uma das fontes de antagonismos entre os máximo de precisão".
métodos, e que se relaciona ao problema teórico,
é mostrada porOldman11, ao referir-se à natureza Hammersley13 diz que a preocupação quase
do conhecimento nas ciências sociais. Segundo exclusiva com testes (verificação), característica
ele, há dois modos de conhecer: um pela da tradição "positiva"*, leva a se ter como meta
contingência (padrões de ocorrência), da pesquisa a validade das hipóteses, mais que
explicando-se os fenômenos dentro de uma o estabelecimento de teorias válidas e bem
estrutura de leis ou conjunto de leis. O outro seria desenvolvidas.
através da compreensão, isto é, da racionalidade
pela qual os indivíduos percebem, definem e Para Goldhor17, "quando os dados ou evidência
reagem às situações. Aqui a explicação é obtida são válidos, são necessariamente dignos de
a partir do entendimento do fenômeno pelas confiança, mas dados dignos de confiança não
pessoas. são necessariamente válidos, tal como tem sido
de sobejo constatado. Além de serem dignos de
Verificou esse mesmo autor que algumas crédito, os dados válidos devem também ser
pesquisas não consideravam ambos os modos relevantes, ou pertinentes". Esta afirmação se
como importantes, enfatizando um em detrimento coaduna com as considerações de l. Deutscher
do outro, e, com isto, optando por ser ou quanto à ênfase na questão da confiabilidade,
quantitativa ou qualitativa. "Esta escolha implica servindo como um alerta quanto aos erros que
uma relação de certo modo assimétrica entre o daí podem provir.
pesquisador e o seu objeto de estudo".
5 — OS MÉTODOS E AS "CIÊNCIAS DA
Existem, também, nas ciências sociais, técnicas
INFORMAÇÃO"
de análise de dados, como a mencionada por
Hammersley13 e Grover & Glazier7: "teorização
As pesquisas na área de informação utilizam-se
básica" envolvendo uma fase de amostragem
de metodologias de estudo das ciências sociais,
teorética, e outra de "triangulação e indução
portanto é natural que toda a problemática
analítica". Essa metodologia visa desenvolver a
abordada anteriormente a tenha afetado de
fundamentação teorética da sociologia, e é
algum modo.
aplicável às demais ciências do homem, que têm
objetos semelhantes.
Vejamos, primeiramente, qual tem sido o seu
Os critérios de validade e confiabilidade dos posicionamento geral. Alguns autores (Olaisen12,
dados em ciências humanas também são fatores Hounsell & Winn10, Mostafá18) afirmam que, no
decisivos. A suposta preocupação com a campo da Biblioteconomia, os métodos
objetividade tem sido um argumento favorável à predominantes são os baseados no modelo
crescente utilização dos métodos quantitativos. hipotético-dedutivo de pesquisa, e, portanto,
quantitativos.
Oldman11 argumenta que "toda pesquisa, de
qualquer modo que seja conduzida, é igualmente Segundo Exon9, foi por volta de 1970 que
vulnerável ao viés, emoção, negligência, começou o questionamento quanto aos métodos
mudança de direção, erro lógico e mesmo estabelecidos. Em 1979, J.M. Brittain enfatizou
fraude... Objetividade é como um convenção a natureza não cumulativa da pesquisa nas
legitimada em relação ao que um método ciências do comportamento (fonte para os
particular já produziu, e não uma qualidade métodos de estudos de usuários). Em 1980, J.
intrínseca de determinado método". Allred expressou suas suspeitas quanto às
implicações éticas e sociais dos métodos
Segundo l. Deutscher, citado por Brenner5, a
adoção do modelo "científico" nas ciências * O termo é utilizado para designar a concepção que
sociais "resultou em uma preocupação preconiza a existência de um universo social objetivo. O
desmedida com problemas metodológicos termo também é utilizado, às vezes, vinculado à
centrados na questão da confiabilidade e numa predominância de medidas quantitativas, generalizações e
negligência quanto ao problema da validade... uso de controle físico e estatístico na pesquisa social.

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A problemática dos métodos quantitativos e qualitativos em Biblioteconomia e Documentação: uma revisão de literatura
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baseados em pesquisas operacionais para Entretanto já há determinados grupos de


avaliações de serviços. Ainda, um simpósio pesquisadores, conscientes das limitações de tal
promovido pela BLRDD analisou a "nova onda" paradigma, que têm procurado soluções
de métodos qualitativos usados por alternativas para os problemas da pesquisa e
pesquisadores da informação. das lacunas teoréticas nessas ciências.

As conseqüências da tendência quantitativa nas De acordo com a literatura, as metodologias


"ciências da informação" são mencionadas por qualitativas parecem ser mais eficientes e
alguns autores. Hounsell & Winn10 afirmam que a adequadas para a natureza do objeto das
predominância desse tipo de abordagem "ciências da informação", estimulando um
despersonalizou o fornecimento de informações desenvolvimento teorético mais abrangente e
e o seu uso, isolou-os das situações em que mais coerente com a realidade social em que
ocorrem e dirigiu o enfoque para o indivíduo, estão inseridos usuários e informação.
excluindo desse processo os aspectos sociais.
Olaisen12 diz que a Biblioteconomia, limitando-se É necessário, porém, esclarecer, que não se está
à orientação funcionalista (lógica empiricista), propondo exclusividade para esse tipo de
permaneceu unidimensional, voltada para a método, assim como não se pode propor o
tecnologia e a solução de problemas simples incremento da pesquisa como solução
administrativos, de recuperação de informações para os problemas da área. O estímulo à
e de estudos de usuários. Mostafá18 comenta que realização de pesquisas, somente, não será
essa ciência "enclausurou o seu objeto na suficiente para sanar as deficiências existentes,
formalização do mensurável" e que não deveria se não for aprofundada a estrutura teórica,
ficar limitada à relação causa-efeito. especialmente se a tendência empiricista não for
dosada e seus métodos bem empregados.
Assim como nas demais ciências humanas, as
lacunas teoréticas representam o maior problema Os métodos devem servir às ciências, e não o
das "ciências da informação". A pesquisa é um contrário. Por isso são válidas as propostas de
elemento fundamental para superar essa que se utilizem vários métodos ao mesmo tempo,
situação crítica. Porém, segundo Grover & o que não só garantiria maior confiabilidade e
Glazier7, citando as opiniões de outros autores, validade ás pesquisas, como evitaria a
têm faltado pesquisas criativas, conceitualmente tendenciosidade paradigmática. Outra opção
seria a combinação de vários métodos, mas é
estruturadas e que se utilizem de uma maior
importante, também, que se busquem e criem
variedade de metodologias.
novas alternativas.
Ao que parece, o rigor da pesquisa quantitativa
pouco tem contribuído para enriquecer a Os próprios critérios "naturalistas" de validade
essência teorética da Biblioteconomia e e confiabilidade deveriam ser reavaliados, tendo
Documentação. E este continua sendo um fator em vista a possibilidade do "viés paradigmático"
primordial para o seu estabelecimento formal e a própria natureza do objeto das ciências
como "ciência". humanas. Esses dois elementos, a nosso ver, já
são, por si mesmos, motivo suficiente para que
as "ciências do homem" procurem assumir seu
6 — CONCLUSÕES E SUGESTÕES caráter de "ciências" através da auto-afirmação
estrutural e metodológica, e não permaneçam à
Resumidamente, pode-se dizer que a espera do reconhecimento pelas chamadas
problemática dos métodos quantitativos e "exatas", que sempre as considerarão, segundo
qualitativos se originou da concepção de que seus próprios parâmetros empiricistas,
haveria uma superioridade intrínseca dos incompatíveis com o caráter não determinístico,
métodos quantitativos em relação aos outros. O não-mecânico, daquelas.
questionamento desse modo de pensar levou á
busca de novos métodos mais adequados aos
problemas enfocados e á própria natureza do
objeto das ciências humanas, gerando uma REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
movimentação a favor dos métodos qualitativos.
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