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Espaço Físico

Nesta obra, as características do espaço físico são muito importantes uma vez
que nos levam a concluir o modo de vida e as características das próprias
personagens.

Os espaços físicos apresentados ao longo da obra são os seguintes:

Santa Olávia:

Santa Olávia era o solar da família, na margem esquerda do Douro,


simbolizando a vida e a regeneração dos dois varões da família, o clima ameno
que lá se faz sentir representa a purificação de Afonso.

Esta é o símbolo de vida, ligada à água que contrasta com Lisboa, “a cidade
degradada”.

“Carlos passava as férias grandes em Lisboa, às vezes em Paris ou Londres; mas


por Natais e Páscoas vinha sempre a Santa Olávia”. (capitulo IV)

“ (…) que o prendera mais a Santa Olávia fora a sua grande riqueza de águas
vivas, nascentes, repuxos, tranquilo espelhar de águas paradas, fresco murmuro
de águas regantes… E a esta viva tonificação de água atribuía ele o ter vindo
assim, desde o começo do século, sem uma dor e sem uma doença, mantendo a
rica tradição de saúde da sua família, duro, resistente aos desgostos e anos –
que passavam por ele, tão em vão, como passavam em vão, pelos seus robles
de Santa Olávia, anos e vendavais”. (capitulo I)

Lisboa

Lisboa concentra a alma de Portugal, a sua degradação moral, a ociosidade


crónica dos portugueses, simbolizando a decadência nacional, metaforicamente
representada pela estátua de Camões. Por ser a capital, centraliza a vida
económica, literária e politica do país. O retrato social que este meio físico
proporciona é-nos dado pelos “Episódios da vida romântica”.

Ramalhete:
O Ramalhete localizava-se em Lisboa, Bairro das Janelas Verdes, Rua de S.
Francisco de Paula

De todos os cenários, este é o que tem maior densidade e virtualidades


significativas.

O Ramalhete acompanha o desenvolvimento da intriga e as catástrofes.

Fachada:

A fachada do Ramalhete foi a única secção da casa que ainda se manteve intacta
depois das obras.

“Sombrio casarão de paredes severas; Com um renque de estreitas varandas de


ferro no primeiro andar, por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira
do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a
uma edificação dos tempos da S. D. Maria I, com uma sineta e com uma cruz no
topo, assemelhar-se-ia a um colégio de jesuítas”.

Jardim:

“Ao fundo de um terraço de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado às


ervas bravas, com um cipreste, um cedro, uma cascatazinha seca, um tanque
entulhado, e uma estátua de mármore (onde Monsenhor reconheceu logo Vénus
litereira) enegrecendo a um canto na lenta humidade das ramagens”

As obras:

As obras começaram sob o comando de um Esteves (amigo e compadre de


Vilaça), a este artista vinham-lhe ideias como: O projecto de uma escada
aparatosa, flanqueada por duas figuras simbolizando as conquistas da Guiné e
da Índia; uma cascata de louça na sala de jantar.

Após a vinda de Carlos, e com ele a vinda de Jones Bules, um arquitecto –


decorador londrino, os planos para o Ramalhete mudaram; as obras agora
tinham o objectivo de ali criar um interior confortável, de luxo inteligente e
sábio.

Após as obras

O pátio:

“com um pavimento quadrilhado de mármores brancos e vermelhos, plantas


decorativas, vasos de Quimper, e dois longos bancos feudais que Carlos trouxera
de Espanha, trabalhados em talha, solenes como coros de catedral”.
Antecâmara:

“Revestida como uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos


morria: e ornavam-na divãs cobertos de tapetes persas, largos pratos mouriscos
com reflexos metálicos de cobre, uma harmonia de tons severos, onde
destacava, na brancura imaculada do mármore, uma figura de rapariga
friorenta, arrepiando-se, rindo, ao meter o pezinho na água”.

O Corredor:

“Da antecâmara surgia um amplo corredor ornado com as peças ricas de


Benfica, arcas góticas, jarrões da Índia e antigos quadros devotos”.

O Salão Nobre:

“ (…) Todo em brocados de veludo cor de musgo de Outono, havia uma bela tela
de Constable, o retrato da sogra de Afonso, a condessa de Runa, de tricorne de
plumas e vestido escarlate de caçadora inglesa, sobre um fundo de paisagem
enevoada”.

Numa sala mais pequena

“ (…) Tinha um ar de século XVIII com seus móveis enramalhetados de ouro, as


suas sedas de ramagens brilhantes: duas tapeçarias de Gobelins desmaiadas,
em tons cinzentos, cobriam as paredes de pastores e de arvoredos”.

“Defronte era o bilhar, forrado de um couro moderno trazido por Jones Bule,
onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoaçavam cegonhas
prateadas”.

O “fumoir”:

“ (…) Cómoda do Ramalhete: as otomanas tinham a fofa vastidão de leitos; e o


conchego quente e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era
alegrado pelas cores cantantes de velhas faianças holandesas.

O escritório de Afonso:

“ (…) Revestido de damascos vermelhos com uma velha câmara de prelado. A


maciça mesa de pau-preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o solene
luxo das encadernações, tudo tinha ali uma feição austera de paz estudiosa —
realçada ainda por um quadro atribuído a Rubens, antiga relíquia da casa, um
Cristo na Cruz, destacando a sua nudez de atleta sobre um céu de poente
revolto e rubro. Ao lado do fogão, Carlos arranjara um canto para o avô com um
biombo japonês bordado a ouro, uma pele de urso branco, e uma venerável
cadeira de braços, cuja tapeçaria mostrava ainda as armas dos Maias no
desmaio da trama de seda”.

No segundo andar:

“No corredor do segundo andar guarnecido com retratos de família, estavam os


quartos de Afonso. Carlos dispusera os seus, num ângulo da casa, com uma
entrada particular, e janelas sobre o jardim: eram três gabinetes a seguir, sem
portas, unidos pelo mesmo tapete: e os recostos acolchoados, a seda que
forrava as paredes, faziam dizer ao Vilaça que aquilo não eram aposentos de
médico — mas de dançarina!”

Outros Aspectos

O luxo:

“De resto, não desgostava do Ramalhete, apesar de Carlos, com o seu fervor
pelo luxo dos climas frios, ter prodigalizado de mais as tapeçarias, os pesados
reposteiros e os veludos”.

O Quintal:

“ (…) Tinha o ar simpático, com os seus girassóis perfilados ao pé dos degraus


do terraço, o cipreste e o cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e
a Vénus Citereia parecendo agora, no seu tom claro de estátua de parque, ter
chegado de Versalhes, do fundo do Grande Século... E desde que a água
abundava, a cascatazinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os
seus três pedregulhos arranjados em despenhadeiro bucólico, melancolizando
aquele fundo de quintal soalheiro com um pranto de náiade doméstica, esfiado
gota a gota na bacia de mármore”.

A vista do terraço:

“ (…) Donde outrora, decerto, se abrangia até ao mar. Mas as casas edificadas
em redor, nos últimos anos, tinham tapado esse horizonte esplêndido. Agora,
uma estreita tira de água e monte que se avistava entre dois prédios de cinco
andares, separados por um corte de rua, formava toda a paisagem defronte do
Ramalhete”.

“E sempre ao fundo o pedaço de monte verde-negro, com um moinho parado no


alto, e duas casas brancas ao rés da água, cheias de expressão — ora faiscantes
e despedindo raios das vidraças acesas em brasa; ora tomando aos fins de tarde
um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros do poente, quase semelhantes a
um rubor humano; e de uma tristeza arrepiada nos dias de chuva, tão sós, tão
brancas, como nuas, sob o tempo agreste”. (capitulo I)

A Cascata:

Simboliza a regeneração e purificação (tradição judaico-cristã). A água aparece


num espaço físico preciso que metaforicamente se reporta à família Maia e à sua
decadência.

Consultório de Carlos

O luxuoso consultório de Carlos revela o seu diletantismo e a predisposição para


a sensualidade.

“Carlos não decidira fazer «exclusivamente» clínica: mas desejava decerto dar
consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como prática. Então Vilaça sugeriu
que o consultório estivesse separado do laboratório”.

“E Vilaça bem depressa descobriu, para o laboratório, um antigo armazém, vasto


e retirado, ao fundo de um pátio, junto ao Largo das Necessidades.

- E o consultório, meu senhor, não é aqui, nem acolá; é no Rossio, ali em pleno
Rossio!”

“E tanto se agitou, que daí a dois dias tinha alugado um primeiro andar de
esquina.

Carlos mobilou-o com luxo. Numa antecâmara, guarnecida de banquetas de


marroquim, devia estacionar, à francesa, um criado de libré. A sala de espera
dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas, a plantas
em vasos de Ruão, quadros de muita cor, e ricas poltronas cercando a jardineira
coberta de colecções do Charivari, de vistas estereoscópicas, de álbuns de
actrizes seminuas, para tirar inteiramente o ar triste de consultório, até um
piano mostrava o seu teclado branco”.

“O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quase austero, todo em veludo
verde-negro, com estantes de pau-preto. Alguns amigos que começavam a
cercar Carlos, Taveira, seu contemporâneo e agora vizinho do Ramalhete, o
Cruges, o marquês de Souselas, com quem percorrera a Itália — vieram ver
estas maravilhas”.
“Ocupava-se então mais do laboratório, que decidira instalar no armazém, às
Necessidades. (...) Entrava-se por um grande pátio, onde uma bela sombra
cobria um poço, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a
prendiam ao muro. Carlos já decidira transformar aquele espaço em fresco
jardinete inglês; e a porta do casarão encantava-o, ogival e nobre, resto de
fachada de ermida, fazendo um acesso vulnerável para o seu santuário de
ciência”. (capitulo IV)

Casa de Maria Eduarda:

A casa de Maria Eduarda ficava na rua de São Francisco e era propriedade da


mãe de Cruges. Maria vivia no primeiro andar, alugado a ela e a Castro Gomes.

É a partir dos espaços onde Maria Eduarda esteve, nomeadamente nesta casa,
que Carlos vai tentando adivinhar a personalidade que a caracteriza.

Na primeira vez que Carlos vai à casa de Maria, quando da visita a Rosa, este
apreende neste espaço uma atmosfera de intimidade, sensualidade e luxo.

Na segunda vez, Carlos considera a casa acolhedora, que por sua vez lhe
transmite várias sensações: o bom gosto e o requinte de algumas peças, onde
se destacam o Manual de Interpretação de Sonhos e uma caixa de pó de arroz
ornamentada como se fosse uma coccote. Estes são um presságio da dualidade
de Maria, já que se ligam a Afrodite (deusa do amor e elemento perverso do ser
feminino) e revelam o meio cultural distante do de Carlos, evidência a que este
é sensível.

“O soalho fora esteirado de novo. Ao pé da porta havia um piano antigo de


cauda, coberto com um pano alvadio; sobre uma estante ao lado, cheia de
partituras, de músicas, de jornais ilustrados, pousava um vaso do Japão onde
murchavam três belos lírios brancos; todas as cadeiras eram forradas de repes
vermelhos; e aos pés do sofá estirava-se uma velha pele de tigre. Como no
Hotel Central, esta instalação sumária de casa alugada recebera retoques de
conforto e de gosto: cortinas novas de cretone, combinando com o papel azul da
parede, tinham substituído as clássicas bambinelas de cassa: um pequeno
contador árabe, que Carlos se lembrava de ter visto havia dias no tio Abraão,
viera encher um lado mais desguarnecido da parede: o tapete de pelúcia de uma
mesa oval, colocada ao centro, desaparecia sob lindas encadernações de livros,
álbuns, duas taças japonesas de bronze, um cesto para flores de porcelana de
Dresda, objectos delicados de arte que não pertenciam decerto à mãe Cruges. E
parecia errar ali, acariciando a ordem das coisas e marcando-as com um encanto
particular, aquele indefinido perfume que Carlos já sentira nos quartos do Hotel
Central, e em que dominava o jasmim.

Mas o que atraiu Carlos foi um bonito biombo de linho cru, com ramalhetes
bordados, desdobrado ao pé da janela, fazendo um recanto mais resguardado e
mais íntimo. Havia lá uma cadeirinha baixa de cetim escarlate, uma grande
almofada para os pés, uma mesa de costura com todo o trabalho de mulher
interrompido, números de jornais de modas, um bordado enrolado, molhos de lã
de cores transbordando de um açafate. E, confortavelmente enroscada no macio
da cadeira, achava-se aí, nesse momento, a famosa cadelinha escocesa, que
tantas vezes passara nos sonhos de Carlos, trotando ligeiramente atrás de uma
radiante figura pelo Aterro fora, ou aninhada e adormecida num doce regaço...”
(capitulo XI)

Outra conclusão a que podemos chegar da relação de Maria Eduarda com os


espaços é que estes simbolizam os altos e baixos da sua vida. Tudo isto é
revelado quando Maria conta todo o seu passado a Carlos.

Os vários espaços onde Maria Eduarda viveu durante a sua vida estão
relacionados com os altos e baixos da sua vida.

Após ter saído de Portugal com a sua mãe, Maria Monforte, foi para um convento
onde adquiriu hábitos saudáveis. Este espaço também está relacionado com a
pureza, religião e paz, que, no entanto, muda quando vai viver com a sua mãe
no Parque Monceaux. Esta era uma casa de jogo, mas sofisticada e luxuosa.
Agora, em vez de hábitos saudáveis exemplares que verificava e praticava no
convento, de manhã deparava-se com paletós de homens por cima dos sofás, ou
seja, algo completamente diferente.

Depois foram viver para o terceiro andar de Chaussée-d’Antin, outra casa de


jogos, inferior à anterior. É aqui que conhecem Mc Gren, por que Maria Eduarda
se apaixona, vai viver momentos de felicidade com ele num Cottage e tem uma
filha.

Infelizmente, este morreu na guerra, e como nunca se casaram, Maria Eduarda,


sua filha e sua mãe ficam na miséria numa casa no bairro de Soho em Londres.
Viveram assim até encontrarem Castro Gomes, com quem voltaram para
Portugal.

“Enfim a mamã metera-a num convento ao pé de Tours.”


“A casa da mamã, no Parque Monceaux, era na realidade uma casa de jogo -
mas recoberta de um luxo sério e fino. (…) A pobre mamã caíra sob o jugo de
um Mr. de Trevernnes, homem perigoso pela sua sedução pessoal e por uma
desoladora falta de honra e de senso. A casa descaiu rapidamente numa boémia
mal dourada e ruidosa. Quando ela madrugava, com os seus hábitos saudáveis
do convento, encontrava paletós de homens por cima dos sofás: no mármore
das consoles restavam pontas de charuto, entre nódoas de champanhe; e
nalgum quarto mais retirado ainda tinha o dinheiro de um bacará talhado à
claridade do sol”.

“Mudaram então para um terceiro andar da Chaussée-d’Antin. Aí começou a


aparecer uma gente desconhecida e suspeita”.

“Mas quem veio foi Mac Gren.

E partira com ele, sem precipitação, como sua esposa, levando todas as suas
malas”.

“Alugaram então, no bairro pobre de Soho, três quartos mal mobilados. Era o
lodging de Londres em toda a sua suja, solitária tristeza; uma criadita única,
enfarruscada como um trapo; alguns carvões húmidos fumegando mal na
chaminé; e para jantar um pouco de carneiro frio e cerveja da esquina”.
(capitulo XV)

Vila Balsac:

A Vila Balsac, algures na Graça em Lisboa, é o retiro amoroso de João da Ega.

O nome escolhido leva-nos a duas características fundamentais do carácter da


personagem: a tendência de Ega para a criação literária, geralmente adiada,
mas sempre entusiasticamente planeada, e a sua personalidade contraditória,
porque, escolhendo como “seu padroeiro” um escritor realista, Ega acaba agindo
de acordo com o Romantismo.

Nesta casa, destacam-se o quarto e a sala.

Ega passa grande parte do seu tempo no quarto. Este tem cor vermelha
relacionada com a vida e a morte; e um espelho que enfatiza o carácter
narcisista e ocioso de Ega.
Na sala não existe qualquer tipo de decoração, é uma espécie de espaço de um
“intelectual”, o que faz a oposição entre as ideias que manifesta e aquilo que é,
uma vez que a sua sensualidade sobrepõe-se à sua faceta intelectual.

“Não havia um quadro, uma flor, um ornato, um livro — apenas sobre a


jardineira uma estatueta de Napoleão I, de pé (…)”

“E quis imediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama; aí reinava um


cretone de ramagens alvadias, sobre fundo vermelho; e o leito enchia,
esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da «Vila Balzac»; e nele se
esgotara a imaginação artística do Ega. Era de madeira, baixo como um divã,
com a barra alta, um rodapé de renda, e de ambos os lados um luxo de tapetes
de felpo escarlate; um largo cortinado de seda da Índia avermelhada envolvia-o
num aparato de tabernáculo; e dentro, à cabeceira, como num lupanar, reluzia
um espelho”

“Na sala de jantar, quase nua, caiada de amarelo, um armário de pinho


envidraçado abrigava melancolicamente um serviço barato de louça nova; e do
fecho da janela pendia um vestuário vermelho, que parecia roupão de mulher”.
(capitulo VI)

Toca:

Toca é o nome dado à habitação de certos animais, apontando desde logo para o
carácter canibalesco do relacionamento amoroso entre Carlos e Maria Eduarda.

Este é o recanto idílico, nos Olivais, onde Maria Eduarda e Carlos partilham as
curtas juras de Amor. Propriedade de Craft arrendada por Carlos para preservar
a sua privacidade amorosa, representa simbolicamente o “território” de Carlos e
Maria Eduarda.

A decoração permite-nos antever o desfecho desta relação. Os aposentos de


Maria Eduarda simbolizam a tragicidade da relação, pois estão carregados de
presságios: nas tapeçarias do quarto “desmaiavam, na trama lã, os amores de
Vénus e Marte”, de igual modo o amor de Carlos e de Maria Eduarda estava
condenado a desmaiar e desaparecer; “…a alcova resplandecia como o interior
de um tabernáculo profano…” misturando o sagrado com o profano para
simbolizar o desrespeito pelas relações fraternas. Deste modo, a descrição do
quarto tem traços próprios de um local dedicado ao culto: a porta de
comunicação “em arco de capela”, de onde pendia “uma pesada lâmpada de
Renascença” conferindo maior solenidade. Com o sol, o quarto “resplandecia
como (…) um tabernáculo. Carlos mostrava-se indiferente aos presságios,
inconsciente e distante, mas Maria Eduarda impressionava-se ao ver a cabeça
degolada de S. João Baptista, que foi degolado por tem denunciado a relação
incestuosa de Herodes, e a enorme coruja a fitar, com ar sinistro, o sei leito de
amor”, lembre-se que a coruja é considerada uma ave de mau agoiro, que surge
aqui para vaticinar o futuro sinistro para este amor). O ídolo japonês que há na
Toca remete para a sensualidade exótica, heterodoxa, bestial desta ligação
incestuosa. Os guerreiros simbolizam a heroicidade, os evangelistas, a religião, e
os troféus agrícolas, o trabalho que teria existido na família Maia (e no Portugal).
Os dois faunos simbolizam os dois amantes numa atitude hedonística e
desprezada de tudo e de todos. Na primeira noite de amor entre Carlos e Maria
Eduarda, a qual se dá precisamente na Toca, dá-se uma grande trovoada como
que a prever um mau ambiente que se criaria resultante deste incesto.

“Logo depois do portão, penetrava-se numa fresca rua de acácias, onde cheirava
bem. A um lado, por entre a ramagem, aparecia o quiosque, com tecto de
madeira, pintado de vermelho, que fora o capricho de Craft, e que ele mobilara à
japonesa. E ao fundo era a casa, caiada de novo, com janelas de peitoril,
persianas verdes, e a portinha ao centro sobre três degraus, flanqueados por
vasos de louça azul cheios de cravos.”

“(...)Veio para o gabinete forrado de cretones, que abria sobre o corredor; e


ficou ali, espreitando da porta, mas escondido, por causa do cocheiro da
Companhia. (…) , pela rua de acácias, alta e bela, vestida de preto, e com um
meio véu espesso como uma máscara. Os seus pezinhos subiram os três
degraus de pedra. (…)”

“Maria Eduarda resvalara sobre uma cadeira, junto da porta, num cansaço
delicioso, deixando calmar o alvoroço do seu coração.

- É muito confortável, é encantador tudo isto — dizia ela olhando lentamente em


redor os cretones do gabinete, o divã turco coberto com um tapete de Brousse,
a estante envidraçada cheia de livros.(…)”

“Começaram pelo segundo andar. A escada era escura e feia: mas os quartos
em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de papéis claros, abriam sobre o
rio e sobre os campos.(...)”

“Desceram à sala de jantar. E aí, diante da famosa chaminé de carvalho lavrado,


flanqueada, à maneira de cariátides, pelas duas negras figuras de núbios, com
os olhos rutilantes de cristal, Maria Eduarda começou a achar o gosto do Craft
excêntrico, quase exótico... Também Carlos não lhe dizia que Craft tivesse o
gosto correcto de um ateniense. Era um saxónio batido de um raio de sol
meridional: mas havia muito talento na sua excentricidade...”

“Junto do peitoril crescia um pé de margaridas, e ao lado outro de baunilha que


perfumava o ar. Adiante estendia-se um tapete de relva, mal aparada, um pouco
amarelada já pelo calor de Julho; e entre duas grandes árvores que lhe faziam
sombra, havia ali, para os vagares da sesta, um largo banco de cortiça. Um
renque de arbustos cerrados parecia fechar a quinta, daquele lado, como uma
sebe. Depois a colina descia, com outras quintarolas, casas que se não viam, e
uma chaminé de fábrica; e lá no fundo o rio rebrilhava, vidrado de azul, mudo e
cheio de Sol, até às montanhas de além-Tejo, azuladas também, na faiscação
clara do céu de Verão.

(…) O melhor é baptizá-la definitivamente com o nome que nós lhe dávamos.
Nós chamávamos-lhe a Toca.”

“A cozinha agradou-lhe muito, arranjada à inglesa, toda em azulejos. No


corredor Maria Eduarda demorou-se diante de uma panóplia de tourada, com
uma cabeça negra de touro, espadas e garrochas, mantos de seda vermelha,
conservando nas suas pregas uma graça ligeira, e ao lado o cartaz amarelo de la
corrida, com o nome de Lagartijo. (…) desagradou-lhe com o seu luxo estridente
e sensual. Era uma alcova recebendo a claridade de uma sala forrada de
tapeçarias, onde desmaiavam, na trama de lã, os amores de Vénus e Marte: da
porta de comunicação, arredondada em arco de capela, pendia uma pesada
lâmpada da Renascença, de ferro forjado: e, àquela hora, batida por uma larga
faixa de Sol, a alcova resplandecia como o interior de um tabernáculo profanado,
convertido em retiro lascivo de serralho... Era toda forrada, paredes e tecto, de
um brocado amarelo, cor de botão-de-oiro; um tapete de veludo, do mesmo tom
rico, fazia um pavimento de oiro vivo sobre que poderiam correr nus os pés
ardentes de uma deusa amorosa — e o leito de dossel, alçado sobre um estrado,
coberto com uma colcha de cetim amarelo, bordada a flores de oiro, envolto em
solenes cortinas também amarelas de velho brocatel, enchia a alcova,
esplêndido e severo, e como erguido para as voluptuosidades grandiosas de uma
paixão trágica do tempo de Lucrécia ou de Romeu. E era ali que o bom Craft,
com um lenço de seda da Índia amarrado na cabeça, ressonava as suas sete
horas, pacata e solitariamente.

Mas Maria Eduarda não gostou destes amarelos excessivos. Depois


impressionou-se, ao reparar num painel antigo, defumado, ressaltando em
negro do fundo de todo aquele oiro — onde apenas se distinguia uma cabeça
degolada, lívida, gelada no seu sangue, dentro de um prato de cobre. E para
maior excentricidade, a um canto, de cima de uma coluna de carvalho, uma
enorme coruja empalhada fixava no leito de amor, com um ar de meditação
sinistra, os seus dois olhos redondos e agoirentos... Maria Eduarda achava
impossível ter ali sonhos suaves.

(…) Para desfazer essa impressão desconsolada levou-a ao salão nobre, onde
Craft concentrara as suas preciosidades. Maria Eduarda, porém, ainda
descontente, achou-lhe um ar atulhado e frio de museu.

(…) Enchendo quase a parede do fundo, o famoso armário, o «móvel divino» do


Craft, obra de talha do tempo da Liga Hanseática, luxuoso e sombrio, tinha uma
majestade arquitectural: na base quatro guerreiros, armados como Marte,
flanqueavam as portas, mostrando cada um em baixo-relevo o assalto de uma
cidade ou as tendas de um acampamento; a peça superior era guardada aos
quatro cantos pelos quatro evangelistas, João, Marcos, Lucas e Mateus, imagens
rígidas, envolvidas nessas roupagens violentas que um vento de profecia parece
agitar: depois, na cornija, erguia-se um troféu agrícola com molhos de espigas,
foices, cachos de uvas e rabiças de arados; e, à sombra destas coisas de labor e
fartura, dois faunos, recostados em simetria, indiferentes aos heróis e aos
santos, tocavam, num desafio bucólico, a flauta de quatro tubos. (…) um luxo
morto: finos móveis da Renascença italiana, exibindo os seus palácios de
mármore, com embutidos de cornalina e ágata, que punham um brilho suave, de
jóia, sobre a negrura dos ébanos ou o cetim das madeiras cor-de-rosa; cofres
nupciais, longos como baús, onde se guardavam os presentes dos Papas e dos
Príncipes, pintados a púrpura e oiro, com graças de miniatura; contadores
espanhóis empertigados, revestidos de ferro brunido e de veludo vermelho, e
com interiores misteriosos, em forma de capela, cheios de nichos, de claustros
de tartaruga... Aqui e além, sobre a pintura verde-escura das paredes,
resplandecia uma colcha de cetim, toda recamada de flores e de aves de oiro;
ou sobre um bocado de tapete do Oriente, de tons severos, com versículos do
Alcorão, desdobrava-se a pastoral gentil de um minuete em Citera sobre a seda
de um leque aberto...

Era ao centro, sobre uma larga peanha, um ídolo japonês de bronze, um deus
bestial, nu, pelado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso, com o ventre
ovante, distendido na indigestão de todo um universo — e as duas perninhas
bambas, moles e flácidas como as peles mortas de um feto. E este monstro
triunfava, enganchado sobre um animal fabuloso, de pés humanos, que dobra
vapara a terra o pescoço submisso, mostrando no focinho e no olho oblíquo todo
o surdo ressentimento da sua humilhação...

Sentaram-se ao pé da janela, num divã baixo e largo, cheio de almofadas,


cercado por um biombo de seda branca, que fazia entre aquele luxo do passado
um fofo recanto de conforto moderno: e como ela se queixava um pouco de
calor, Carlos abriu a janela. Junto do peitoril crescia também um grande pé de
margaridas; adiante, num velho vaso de pedra, pousado sobre a relva,
vermelhejava a flor de um cacto; e dos ramos de uma nogueira caía uma fina
frescura. (...)”

“Os banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo, avivado por um velho
tapete vermelho da Caramânia”. (capitulo XIII)

Coimbra (Paços de Celas)

Em Coimbra passam-se os estudos de Carlos e as suas primeiras aventuras


amorosas. Este é um boémio fonte de diletantismo, marcado também pela
estagnação. O seu relevo no romance deve-se à formação (ou deformação) de
Carlos. Através de Coimbra e da sua vida de dispersão sugere-se que os
indivíduos que estavam à frente dos destinos do país passaram forçosamente
por este meio de sentimentalismo.

“Matriculou-se realmente com entusiasmo. Para esses longos anos de quieto


estudo o avô preparara-lhe uma linda casa em Celas, isolada, com graças de
cottage inglês, ornada de persianas verdes, toda fresca entre as árvores. Um
amigo de Carlos (um certo João da Ega) pôs-lhe o nome de «Paços de Celas»,
por causa de luxos então raros na Academia, um tapete na sala, poltronas de
marroquim, panóplias de armas, e um escudeiro de libré.

Ao princípio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas suspeito
aos democratas; quando se soube, porém, que o dono destes confortos lia
Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava também o país uma
choldra ignóbil — os mais rígidos revolucionários começaram a vir aos Paços de
Celas tão familiarmente como ao quarto do Trovão, o poeta boémio, o duro
socialista, que tinha apenas por mobília uma enxerga e uma Bíblia.” (capitulo IV)

Estrangeiro

As idas para o estrangeiro eram a forma de resolver os problemas:


- Afonso da Maia exila-se em Inglaterra para fugir à intolerância Miguelista;

- Pedro e Maria Monforte vão viver para Itália e Paris devido à recusa do seu
casamento pelo pai de Pedro;

- Maria Eduarda ao descobrir o seu parentesco com Carlos, vai vier para Paris;

- Carlos da Maia vai viver para Paris apões se ter apercebido que falhara na sua
vida.

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