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A “Escola Nina Rodrigues” na Antropologia Brasileira

Muryatan Santana Barbosa1

Resumo

É comum nas obras que tratam da história intelectual brasileira a referência


à “Escola Nina Rodrigues”, como uma corrente específica da Antropologia
brasileira da primeira metade do século XX (F. de Azevedo, 1955 e 1964; W.
Martins, 1978; S. Schawtcman, 1979). Entretanto, poucos são os estudos que
procuraram desvendar as origens, continuidades e razões de existência da
referida “Escola”. O intento deste ensaio, seguindo de perto a abordagem da
antropóloga Mariza Corrêa (1998 [1982]), é contribuir para o melhor
esclarecimento de tal temática.

Nina Rodrigues

Entre os poucos trabalhos que estudaram a chamada “Escola Nina


Rodrigues” encontra-se, sem dúvida, o interessante ensaio de Mariza Corrêa:
Ilusões da Liberdade: Nina Rodrigues e a Antropologia Bahiana (1998)2.
Veja-se como a autora abordou o referido tema em seu livro.
Para analisar a origem da “Escola Nina Rodrigues”, Mariza Corrêa busca,
primeiramente, enfocar a suposta genealogia teoria e institucional de tal “escola”:
o trabalho do conhecido pensador e acadêmico maranhense Nina Rodrigues
(1862-1902).

1
Bacharel em História DH/FFLCH/USP, Mestre em Sociologia DS/FFLCH/USP. Professor das Faculdades
Integradas Tereza Martin.
2
Tese defendida na FFLCH/USP - Departamento de Ciência Política, 1982.
Ao analisar o pensamento de Ni
na Rodrigues, Corrêa procura
contextualizar sua produção teórica sobre relações raciais dentro de uma visão
ampla do autor. Para a autora, os estudos de Nina Rodrigues sobre os “africanos”
no Brasil3 derivariam de sua preocupação de que na Bahia pós-abolição “todas as
classes estão aptas a se tonarem negras”.
É importante saber o que isto significava na época. Para a maioria (senão
todos) os intelectuais brasileiros, no final do século XIX, a raça não era fenômeno
social - como se concebe contemporaneamente - mas fenômeno de ordem
biológica intrinsecamente hierárquico, conforme defendiam as teorias raciais
européias de sua época. Neste sentido, “tornar-se negras”, significava, para tais
pensadores, não implicaria apenas uma degeneração racial adv
inda da
miscigenação, mas também decadência psico-cultural da raça branca. É dessa
perspectiva, como demonstra Corrêa, que se pode entender a angústia de Nina
Rodrigues, em seu livro clássico “Os africanos no Brasil” (1900 [1932]), acerca dos
contatos dos “brancos”, em especial as senhoras da sociedade, com as religiões
negras.
Esclarece Corrêa que, para Nina Rodrigues, o “perigo” maior do problema
racial do país não seria exatamente o “negro puro”, mas a existência de um
grande contingente de mestiços no país. Estes poderiam fazer com que o sangue
negro, geralmente já degenerado pela mestiçagem, pudesse contaminar biológica
e culturalmente a raça superior (branca), tornando-a também degenerada. Daí o
seu interesse em estipular os diversos graus hierárquicos e evolutivos das
diferentes categorias sociais que formariam o “mestiço”: mestiço superior, mestiço
normal, mestiço degenerado4. Tratar-se-ia de uma tentativa de diferenciar os que
serviriam para a civilização e os que já estavam condenados pela degeneração.

3
Nina Rodrigues sobre relações raciais: O animismo fetichista do negro no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1935; O problema da raça negra na América Portuguesa, s.ed., 1903; Os africanos no Brasil. São
Paulo: Nacional, 1977; As bellas-artes nos colonos pretos do Brasil: a esculptura. In: KOSMOS, Rio de
Janeiro, a1., no.8, ago., 1904.
4
Este tipo de divisão do “mestiço” em diversas categorias sociais vai ser retomada por Arthur Ramos na
década de 1930 (CORRÊA, 1998).
Os livros de Nina Rodrigues relativos à discussão penal dos mestiços e
negros colocavam-se neste contexto5. Para o autor, a suposta inferioridade racial
destes grupos necessitaria de um código penal que se adequasse às capacidades
limitadas dos indivíduos negros e mestiços para compreenderem as leis da
civilização superior (branca). O tipo de crime e punição seria, portan
to,
determinados pelo grupo racial6.
Assim, a atribuição de normalidade e igualdade dos homens seria
responsabilidade do perito médico-legal, o único capaz de avalia
r as
conseqüências degenerativas dos cruzamentos raciais na conduta humana.
Para Corrêa, os estudos de Nin
a Rodrigues sobre os africanos -
especialmente sobre a religião negra – não seriam portanto, como se costuma
conceber, uma “preocupação” com a “pureza étnica” deste grupo. Seriam estudos
que procuravam averiguar “cientificamente” o grau de primitivismo e degeneração
em que se encontraria essa parcela significativa da população brasileira no
período pós-abolição.

“As passagens de Nina Rodrigues sob as religiões africanas não são


uma louvação da pureza africana, desvio que alguns discipulos vão percorrer
em toda sua extensão (principalmente Arthur Ramos), mas o reconhecimento
dos elementos certos nos lugares devidos: o negro poderia ser agressivo ou
fetichista na África, não no Brasil”7.

Como observa Corrêa (1998), poder-se-ia falar de uma “Escola Nina


Rodrigues” na Bahia ainda durante a vida do próprio Nina. Isso porque, como é
sabido, Nina Rodrigues foi um intelectual de grande reconhecimento nacional e
internacional na década de 1890. Durante este período, seus estudos e trabalhos
“científicos” foram difundidos e reproduzidos por diversos colaboradores e
discípulos, dentro e fora da Faculdade de Medicina da Bahia.

5
Nina Rodrigues sobre mestiçagem e criminalidade: As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil.
Salvador: Livraria Progresso, 1957; Mestiçagem, degenerescência e crime. s/ed., 1899.
6
Para L. Schwatz (1995), as disputas em torno do código penal diferenciado ou não para os negros e mestiços
na década de 1890 eram também disputas de poder institucional e pessoal entre os integrantes da Faculdade
de Direito do Recife (como Silvio Romero) e os integrantes da Faculdade de Medicina da Bahia (como Nina
Rodrigues).
7
Mariza Corrêa. As Ilusões da liberdade: a Escola Nina Rodrigues e a Antropologia no Brasil. Bragança
Paulista: EDUSF, 1998, p.146.
Na virada do século XX, essa influência de Nina Rodrigues se expandiu e
fez-se sentir inclusive na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e nos primeiros
institutos de Medicina Legal de São Paulo. Ali, sob a liderança de Pereira Barreto,
as teorias desenvolvidas a partir do evolucionismo social e do naturalismo tinham
imperado durante a segunda metade do século XIX colocando-se, em grande
parte, contra o determinismo racial de autores como o próprio Nina Rodrigues8.
Entretanto, a partir da década de 1910, a importância nacional de Nina Rodrigues
tornou-se ainda mais determinante, impulsionada pela vinda de discípulos diretos
do autor que fundaram e consolidaram os Departamentos de Medicina Legal nas
Faculdades de Direito de São Paulo (1918) e Rio de Janeiro (1913) e a Faculdade
de Medicina de São Paulo (1912). Nesta prime
ira geração estavam
predominantemente médicos: Afrânio Peixoto (Rio de Janeiro), Oscar Freire (São
Paulo), Diógenes Sampaio (São Paulo) e outros9.
Tratava-se de uma influência baseada os
n seus estudos sobre
criminalidade e loucura do autor maranhense, consideradas áreas de estudo da
Medicina da época. Nesta época, os estudos de Nina Rodrigues sobre as religiões
e os diversos grupos “étnicos” africanos tinham importância secundária. Todavia,
serão definitivamente reabilitados com a expansão crescente dos estudos sobre
relações raciais (geralmente branco-negro) na década de 1930, a partir da
presença de Arthur Ramos, Gilberto Freyre, Ulysses Pernambuco, Edison
Carneiro e outros.

A “Escola Nina Rodrigues” e o campo dos estudos étnico-raciais na década


de 1930.

Como é sabido, a década de 1930 foi palco de uma guinada teórico-política


no campo intelectual, tendo os estudiosos sobre relações étnico-raciais um papel
central na luta pela legitimidade e consagração simbólica do movimento

8
Idem, ibidem, p.217-225.
9
Idem, ibidem, p.199-207.
modernista e das novas abordagens mais “positivas” sobre a identidade nacional.
Como assinala Renato Ortiz (1994):

“A partir das primeiras décadas do século XX, o Brasil sofre


mudanças profundas. O processo de urbanização e de industrialização se
acelera, uma classe média se desenvolve, surge um proletariado urbano. Se
o modernismo é considerado por muitos com um ponto de referência, é
porque este movimento cultural trouxe consigo uma consciência histórica que
até então se encontrava esparsa na sociedade (...). Com a Revolução de 30
as mudanças que vinham ocorrendo são orientadas politicamente, o Estado
procurando consolidar o próprio desenvolvimento social. Dentro deste
quadro, as teorias raciológicas tornam-se obsoletas, era necessário supera-
las, pois a realidade social impunha um outro tipo de interpretação do Brasil.
A meu ver o trabalho de Gilberto Freyre vem atender a esta ‘demanda social’
”10.

Gilberto Freyre foi, de fato, o grande nome que promoveu o prestígio e


reconhecimento para o campo de estudos sobre relações raciais (brancos e
negros) e antropologia. Este passou a ter importância a partir da década de 1930.
Logo que voltou ao Brasil, em 1926, Gilberto Freyre conseguiu alcançar grande
prestígio nacional e, posteriomente, internacional, com o lançamento de Casa
Grande & Senzala (1933) e a organização do 1º Congresso Regionalista (1926) e
logo depois Afro-brasileiro (1934). Ademais, foi o fundador de várias cátedras de
Sociologia no país, como: na Escola Normal do Recife (1928), na Faculdade de
Direito do Recife (1935) e na Universidade do Distrito Federal, onde também
lecionou Antropologia Social e Pesquisa Social11.
Esse sucesso repentino de Gilberto Freyre o colocou, gradativamente,
como um dos maiores especialistas do país em relações raciais. Talvez só foi
comparável à influência (decadente) de autores até então consagrados como
Oliveira Vianna e Roquette Pin
to, ideólogos do chamado “idea
l de
branquemaneto”, durante as primeiras décadas do século XX (Skidmore, 1978).
Arthur Ramos foi da mesma geração de Gilberto Freyre. Ambos foram
“companheiros” no início da década de1930, na Universidade do Distrito Federal.

10
Renato Ortiz. Cultura Brasileira e Identidade Nacional. 5 ed. São Paulo: Brasiliense. 1994, p.40.
11
Dados bibliográficos de Gilberto Freyre In Gilberto Freyre. Casa Grande & Senzala: formação da família
brasileira sobre o regime da economia patriarcal. 35ed. Rio de Janeiro: Record, 1999.
O primeiro como professor de P
sicologia Social; o segundo, Diretor do
Departamento de Ciências Sociais12.
O fato é que Arthur Ramos - apesar de já ter 7 livros publicados em 1930 -
não possuía um interesse especial pela área de relações raciais. Tinha apenas
alguns artigos esparsos sobre a Antropologia do negro13. Sua preocupação era a
psicologia social e, nesta área, segundo Corrêa, foi o período em que seus
trabalhos mais se aproximaram dos de Nina Rodrigues.
Mas no decorrer da década de 1930, Arthur Ramos foi desenvolvendo um
interesse cada vez maior pela Antropologia e os estudos das relações entre
brancos e negros no Brasil. Não era um interesse apenas de Arthur Ramos. Era
também de outros intelectuais baianos que tinham vindo trabalhar no Rio de
Janeiro nas décadas de 1920-30, como Afrânio Peixoto e Edison Carneiro. É a
partir deste momento, que Arthur Ramos procurou afastar-se cada vez mais da
esfera de influência teórica e política de Gilberto Freyre14. Como coloca Corrêa,
tratava-se de legitimar o trabalho de um grupo de intelectuais, sobretudo de Arthur
Ramos, em contraposição ao grupo hegemônico, liderado por Gilberto Freyre.
A “Escola Nina Rodrigues”, em sua forma antropológica, coloca-se neste
contexto:

“Foi só depois de mudar-se para o Rio de Janeiro (1933), quando


Afranio Peixoto e Arthur Ramos deram início a re-edição de livros de Nina
Rodrigues, e também a partir do momento que Gilbeto Freyre se apresenta
no cenário intelectual como pesquisador de relações raciais, que Arthur
Ramos passou a redefinir sua atuação dentro do contexto da “escola” (Nina
Rodrigues) de maneira explícita e reiterada”15.

A hipótese de Corrêa é que a “refundação” do mito de origem da “Escola


Nina Rodrigues” por Arthur Ramos (1936) deve ser compreendida no contexto da

12
Onde Gilberto Freyre gabava-se de ter aconselhado Arthur Ramos a estudar antropologia e largar o
psicanalismo e os seus “excessos marxistas”. Mariza Corrêa, op. cit., p.216.
13
Entre eles o artigo apresentado no 1º Congresso Afro-brasileiro: Os Mythos de Xangô e sua degradação no
Brasil In: Gilberto Freyre (org.). Estudos Afro-brasileiros: Trabalhos apresentados ao 1º Congresso Afro-
brasileiro reunido em Recife 1934. 1º vol. Rio de Janeiro: ARIEL, 1935.
14
Em 1937 Arthur Ramos publica seu primeiro livro na área: As Culturas negras no Novo Mundo.
15
Mariza Corrêa, idem, p.222.
disputa de poder e reconhecimento intelectual em torno de Arthur Ramos e
Gilberto Freyre na área de estudos sobre relações raciais. Neste caso, retornar a
Nina Rodrigues era uma tentativa de dar identidade e profundidade histórica ao
trabalho do grupo “baiano” de antropologia, principalmente Arthur Ramos,
distinguindo-se da esfera de influência de Gilberto Freyre.
Para Corrêa, esta hipótese tornar-se-ia ainda mais convincente se
observarmos as importantes diferenças teóricas que poderíamos colocar entre
Nina Rodrigues e os seus “discípulos” na década de 1930.
De fato, a autora aponta para uma série de temas e questões que
mostrariam a descontinuidade teórica existente entre a obra de Nina Rodrigues e
Arthur Ramos16. Entre eles: a) o destaque dado por Arthur Ramos à aculturação e
acomodação racial, em contraposição à análise do conflito racial de Nina
Rodrigues; b) a análise de Arthur Ramos do conceito de “afro-luso-brasileiro”, bem
mais próxima de Giberto Freyre do que de Nina Rodrigues; c) a importância da
Psicanálise nas obras de Arthur Ramos entre 1933-37; d) o uso do método
psicanalitico (depois “culturalista” boasiano) de Arthur Ramos, em contraposição
ao método histórico-evolutivo de Nina Rodrigues (Corrêa, 1998).
Tal contraposição teórica entre Nina Rodrigues e seus discípulos na década
de 1930, fica ainda mais evidente, se comparar-se a obra de Nina Rodrigues
(ligada a relações raciais) com os trabalhos de outros membros da chamada
“Escola Nina Rodrigues”. Edison Carneiro, por exemplo, em seu artigo no 1º
Congresso Afro-brasileiro (1934) faz uma anál
ise tipicamente marxista
(“tradicional”) da situação do negro no Brasil, que vale a pena ser citada:

“O processo histórico de transformação da sociedade semifeudal do


Brasil em sociedade capitalista, que se traduziu, primeiro na demagogia
abolicionista, depois na consciência, por parte dos senhores de escravos, da
necessidade do trabalho assalariado, que produz a mais-valia absoluta, e

16
Principais obras de Arthur Ramos sobre relações raciais: A aculturação negra no Brasil. São Paulo: Ed.
Comp. Nacional, 1942; As culturas negras no Novo Mundo. São Paulo: Civilização Brasileira, 1937, 1º ed. até
4º ed. Ed. Nac. 1979; O folclore negro no Brasil. 2ed. Livraria Casa do Estudante do Brasil, 1954; O negro
brasileiro: etnografia religiosa. São Paulo: Ed. Comp. Nacional, 1940; O negro na civilização brasileira. Rio
de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1956; Guerra e relações de raça. Rio de Janeiro: Gráfica Perfecta,
1943; Introdução à antropologia brasileira. Rio de Janeiro: Dep. Cultural, 1943.
onde a exploração do trabalhador pode ser levada ao extremo, - veiu mudar
sómente a fórma de exploração e de domínio”17.

Esta era uma posição, aliás, bastante louvável para a época, mas que não
tinha a haver com o determinismo racial de Nina Rodrigues. O próprio Edison
Carneiro referia-se, posteriormente, com certo desdém à chamada “Escola Nina
Rodrigues”, afirmando ser ela uma “invenção” de Arthur Ramos 18.
Evidentemente, a posição teórica de Edison Carneiro mais importante e
interessante não se encontra nestes primeiros escritos, mas na sua produção
posterior, nas décadas de 1950-6019. Entretanto, este artigo é aqui relevante
porque mostra o grau de incompatibilidades teóricas entre Edison Carneiro e Nina
Rodrigues, na década da suposta formação da “Escola Nina Rodrigues” (1930)
Por outro lado, as razões mundanas da disputa entre Gilberto Freyre e
“grupo baiano” eram evidentes também em Edison Carneiro. Em 1940, Edison
Carneiro escreveu um interessante artigo: O Congresso Afro-brasileiro da Bahia,
em que o autor relata com regojizo como as previsões pessimistas de Gilberto
Freyre em relação ao congresso (2º Congresso Afro-brasileiro- Bahia, 1940) não
se teriam concretizado. Alias, o contrário. Para completar, ressalta o seguinte:

“O Congresso prestou a homenagem que devia a Nina Rodrigues


(escrita pelo próprio Edison Carneiro) – inexplicavelmente negligenciada pelo
Congresso de Recife, - proclamando-o o pioneiro incontestável dos estudos
sobre o negro no Brasil”20.

17
Edison Carneiro. Situação do negro no Brasil, p.237-41. In Gilberto Freyre (org.). Estudos Afro-
brasileiros: Trabalhos apresentados ao 1º Congresso Afro-brasileiro reunido em Recife 1934. 1º vol. Rio de
Janeiro: ARIEL, 1935.
18
Edison Carneiro. APUD Mariza Corrêa. op. cit., p. 408 (Nota 92).
19
Entre outros, destacamos: Folguedos tradicionais. 2 ed., Rio de Janeiro: Funart/INF, 1982; O Negro em
Minas Gerais. Rio de Janeiro: MEC, s.d.; O Quilombo dos Palmares. 2ed. rev. São Paulo: Ed. Comp.
Nacional, 1958; Os mitos africanos no Brasil. São Paulo: Ed. Comp. Nacional, 1937; Samba de umbigada.
Rio de Janeiro: MEC/CDFB, 1961; Religiões negras e negros Bantos. 2 ed., Rio de Janeiro: Ed. Civilização
Brasileira, 1981; Candomblés da Bahia. 2 ed. Rio de Janeiro: ANDES, 1954; A guerra dos palmares. México:
Fondo de Cultura Econômica, 1946; Antologia do negro brasileiro. Porto Alegre: Globo, 1950. Ladinos e
crioulos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964; Ursa maior. Salvador: UFBA/Centro de Estudos Afro-
Orientais, 1980; O Negro brasileiro. Rio de Janeiro: Cadernos Brasileiros, 1968.
20
Segundo Correa, Gilberto Freyre dizia que os iniciadores da antropologia no Brasil eram: Roquette Pinto,
João Baptista Lacerda, Fróes da Fonseca, Ulysses Pernambuco, etc.
Mas se em Edison Carneiro ainda pode-se encontrar algumas posições
(mas corporativas do que teóricas) que nós levariam a classificá-lo na “Escola
Nina Rodrigues”, em outro autor bastante citado, Manuel Querino, tal classificação
é totalmente improcedente.
Manuel Querino (1851-1923) foi contemporâneo e “auxiliar” de pesquisas
de Nina Rodrigues (1862-1906). Ele era “negro” (moreno escuro) e autodidata. Foi
recruta na Guerra do Paraguai, pintor, escritor, decorador e desenhista -
diplomado pela Liceu de Artes e Ofícios. Posteriormente, interessou-se pela
política, foi republicano e abolicionista da Sociedade Libertadora (Bahia). Chegou
a ser membro da Câmara Municipal, mas foi preterido em todas as demais
promoções ou cargos de governo21. Escreveu diversas obras sobre o negro no
Brasil22.
Só depois de sua morte seus trabalhos ganharam certa notoriedade na
Bahia. Foi então louvado como grande pesquisador do negro. No dizer de Arthur
Ramos, sob o aspecto documental, foi mais valioso do que seu mestre: Nina
Rodrigues23.
Sua obra é, sem dúvida - além de importante fonte de dados - bastante
“progressista” para sua época (basta compará-la com os trabalhos de época de
Oliveira Vianna). Como se pode observar na Introdução à Raça Africana e seu
Costumes (1916):

“Incontestavelmente, o feiticismo africano exerceu notória influência


em nossos costumes; e nos daremos por bem pagos si o reduzido material
que reunimos puder contribuir para o estudo da psicose nacional no indivíduo
e na sociedade. E, aproveitando o ensejo, deixamos aqui consignado o
nosso protesto contra o modo desdenhoso e injusto por que se procura
deprimir o africano, acoimando-o constantemente de boçal e rude, como
qualidade congênita e não simples condição circunstancial”24.

21
Pinto Aguiar. Manuel Querino e sua obra. In: Manuel Querino. Raça Africana e seus Costumes. Salvador:
Editora Progresso. 1995
22
Escreveu: Artistas Baianos (1906), As Artes na Bahia. Salvador: Livraria Progresso. 1909; A Raça Africana
e os seus costumes na Bahia. Salvador: Progresso, 1956; O Colono preto como fator da civilização brasileira.
Salvador: Imprensa Oficial do Estado, 1918; Candomblé do caboclo (1919), Homens de cor preta na história
(1923), A Arte culinária na Bahia (1928), Costumes africanos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1938; A Bahia de outrora. 2 ed., Salvador: Progresso, 1955.
23
Aguiar de Pinto, op. cit., p.8.
24
Manuel Querino. Raça Africana e seus Costumes. Salvador: Editora Progresso. 1995, p. 22-23.
Em verdade, a única razão plausível para se colocar Manuel Querino como
pertencente ou percursor da “Escola Nina Rodrigues” (de antropologia) é o fato de
ele ter nascido na Bahia (Santo Amaro) e ter estudado o negro no Brasil. Aliás,
com uma competência que deve ser reverenciada e citada mais freqüentemente.

Considerações finais

Desde o ensaio aqui realizado, apoiado no clássico de Mariza Corrêa,


pode-se supor que a formação da “Es
cola Nina Rodrigues” deva ser
compreendida, historicamente, a partir das lutas pelo capital simbólico no campo
de estudos étnico-raciais na década de 1930. Neste caso, de fato, a realidade
parece dar razão a Pierre Bourdieu e seus discípulos da sociologia dos campos
culturais. Fica, todavia, uma questão não respondida: não existe uma conexão de
conteúdo entre Nina Rodrigues e seus herdeiros, que se mantenha para além das
descontinuidades já apontadas neste ensaio?
Depois de enfatizar as descontinuidades teóricas que marcariam a obra de
Arthur Ramos em relação à de N
ina Rodrigues, Corrêa conclui sua tese
justamente explorando certos traços de continuidade entre ambos, que estariam
mais no terreno político do que teórico. Esta é a idéia inserida no título: Ilusões da
Liberdade...
Para a autora, além das divergências teóricas entre Nina Rodrigues e
Arthur Ramos existia, em última instância, uma fundamentação básica (racial em
Nina, psico-cultural [inconsciente] em Ramos) que teria por objetivo comum a
restrição da liberdade dos indivíduos, em particular do negro. Assim diz Corrêa:

“Ironicamente também, a perspectiva ‘racista’ de Nina Rodrigues,


explicitamente condenada por seus discípulos, parecia ser mais reveladora dos
conflitos sociais que eles negarão em nome de uma harmonia racial e social, do
que as noções de ‘sincretismo’ ou ‘aculturação’ utilizadas por eles para nomear
esta harmonia ao substituir a noção de raça pela de cultura. Para Arthur Ramos,
principal agente desta substituição, a liberdade era tão ilusória como para Nina
Rodrigues, mas por outras razões – ‘agimos como se fôssemos livres’, dizia ele,
ao utilizar uma versão modernizada do atavismo já combatido por seu mestre, a
teoria da mentalidade pré-lógica de Levy-Bruhl. A ‘raça’ ou o ‘inconsciente’
serviriam, ambos, em momentos diferentes para comprovar a incapacidade do ser
humano em dirigir-se (...) A circunscrição cuidadosa dos limites da liberdade de
cada um parece ter sido afinal o objetivo comum a todos os membros da Escola
Nina Rodrigues”25.

Esta posição de Arthur Ramos fica ainda mais evidente quando tomamos
os seus ataques (1952)26 à participação particular do negro na vida política do
país; defendendo a aculturação, assimilação, etc, em oposição às reações “contra-
aculturativas” que estariam fadadas ao fracasso.
Para Corrêa, a ruptura com esse “paradigma determinista” só iria acontecer
a partir da década de 1950. Está claro que Correa coloca Gilberto Freyre nesta
interpretação27. Uma perspectiva de análise que vai ser retomada por Ricardo
Benzaquem (1995)28 e explorado mais amplamente por Lourdes Martinez-
Echazábal (1995)29, ao analisar a “racialização da cultura” nas obras de Gilberto
Freyre, Jorge Amado e outros autores latino-americanos da mesma geração.
Neste particular, portanto, Arthur Ramos, principal expoente da “Escola
Nina Rodrigues” segue a tendência dominante de época, reproduzindo uma visão
racializada da cultura. Resta saber, por fim, se tal tendência também era comum
aos escritos dos demais “membros” comumente citados como pertencentes a tal
escola: Manuel Querino e Edison Carneiro. Esse trabalho, entretanto, ficará para
um próximo ensaio sobre o tema.

25
Mariza Corrêa. op. cit., p.311-12.
26
Arthur Ramos. La Métissage au Brasil, coleção dirigida por Josué de Castro, Hermann et Cie éditeurs, Paris
APUD Mariza Corrêa op. cit., p.
27
Mariza Corrêa é enfática: “No Brasil, Gilberto Freyre e Arthur Ramos, ambos dizendo-se discípulos
criados à sombra de “Nina Rodrigues”, retomariam a distinção proposta por Boas entre raça e cultura numa
trajetória que no entanto não avançou muito em relação à situação estabelecida por Nina Rodrigues para o
tema das relações raciais”. (Mariza Corrêa, op. cit., p.214.)
28
Ricardo Benzaquem de Araujo. Guerra e Paz: Casa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos
anos 30. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.
29
Lourdes Martinez-Echazábal. O Culturalismo dos anos 30 No Brasil e na América Latina: deslocamento
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