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Público • Sexta-feira 11 Março 2011 • 39

Quem não perceber que vivemos num estado de irritação larvar contra “o Estado a que chegámos” não percebe nada

Conversa necessária entre o país ‘à rasca’ e a ‘geração à rasca’

P
RUI GAUDÊNCIO
arece que padeço de uma doença perigo- tido diminuir as indemnizações por despedimento
sa. Primeiro, não me irrito solenemente para os novos contratos e não tocar nas regras dos
com aquilo a que chamam a “idolatria da contratos já existentes. Tal como é injusto ter pena-
juventude”. Depois, não fico com comi- lizado como se penalizou, em contribuições para a
chão quando oiço a música dos Deolinda. Segurança Social, os contratos de estágio.

J
Por fim, pecado máximo, não estou nada assustado
com os perigos “protofascistas” que espreitam por oaquim Vieira estranhou, numa nota que es-
José detrás das manifestações de amanhã, até considero creveu no Facebook, que “a geração que nos
Manuel que o seu eventual sucesso pode ser um sinal bem anos 70 defendeu o totalitarismo, o estalinis-
Fernandes positivo. Pior ainda: incomoda-me a forma quase mo, o maoísmo e os khmers vermelhos (e na
autista e muito snob como os sinais, mais ou me- qual me incluo) critique o inconformismo e a
Extremo nos espontâneos, de revolta que se têm acumulado irreverência da geração jovem. (…) A geração
ocidental nas últimas semanas têm sido recebidos em certos instalada devia fazer a sua autocrítica antes de ata-
sectores. car a geração à rasca”. Eu, que faço parte da mesma
Como sempre, é necessário perceber o essencial, problema não é a precariedade, ou geração, subscrevo a sua estranheza (só não estra-
e o essencial, neste preciso momento, parecem-me
Este país que está, todo ele, pelo menos a precariedade tal co- nho, infelizmente, a forma desonesta como alguns
ser a multiplicação de manifestações diversas de “à rasca”, não pode, não mo o Bloco a entende. Nem a solu- comentadores televisivos trataram de colar à “ge-
profunda e radical irritação com “isto”. E isto, para- ção passa por criar artificialmente ração à rasca” o programa de um outro movimento
fraseando Salgueiro Maia, é “o estado a que chegá- deve, olhar sobranceiro “direitos” em nome de uma ilusão anticlasse política…).
mos”. É uma irritação que se sente por todo o lado para a “geração à rasca”. de igualdade. Primeiro, porque se Felizmente nem todos estarão distraídos ou “hor-
(basta andar na rua), que tem o Governo e Sócrates algumas formas de precariedade rorizados”. Basta lembrar o muito que se comentou
no seu centro, mas que é muito mais difusa – às ve- Nem entregá-la de mão existentes no mercado de traba- esta semana se o Presidente da República, ao desa-
zes inclui o PSD, outras estende-se a toda a classe lho são imorais, a verdade é que fiar os jovens a fazerem ouvir a sua voz – “Este é o
política, outras ainda abomina todas as corporações,
beijada aos defensores de elas são o reverso da medalha de vosso tempo” –, ou ao dizer-lhes para não se acomo-
dos juízes aos sindicatos. Basta ver como os vários soluções ultrapassadas normas legais que são demasiado darem nem resignarem, não estaria a cavalgar, ou a
espaços de debate abertos aos cidadãos anónimos rígidas e facilitam a vida quer aos “surfar”, a onda da manifestação. Foi uma especula-
estão mais violentos e ácidos do que nunca. instalados, quer aos beneficiários de salários de- ção triste, pois um mínimo de memória permitiria
A vitória dos Homens da Luta no Festival da Can- masiado elevados para aquilo que fazem (Portugal recordar que o tema da juventude é recorrente em
ção é apenas a última manifestação deste estado de tem o leque salarial mais desigual de toda a OCDE). Cavaco Silva. Para além disso, o Presidente apenas
espírito inorgânico. Não creio que, ao contrário do Depois porque, nos tempos que correm, todos os fez o que é normal um agente político fazer: veio ao
que já vi ser sugerido, o triunfo de Jel e seus amigos empregos tendem a ser algo precários, uma vez que terreno debater as soluções e indicar caminhos. Por
se tenha ficado a dever a uma orquestração partidá- a economia está em permanente mutação e as orga- isso ele não falou de precariedade, mas de empre-
ria – o tempo em que o PCP mobilizava os militantes nizações não deviam poder ossificar, como sucede endorismo. Não falou contra a classe política, antes
para votarem no Paulo de Carvalho já passou e o demasiado em Portugal. Os mais novos sabem bem de “um novo modo de acção política que consiga
Bloco não é o PCP. Os Homens da Luta venceram do que falo, porque conhecem quem ocupa os luga- atrair os jovens e os cidadãos mais qualificados”. E
pelos motivos inversos que incomodaram aquela res que lhes tapam os empregos ou as progressões, por aí adiante.
espécie de “brigada do reumático” do nosso actual e sentem que isso é muitas vezes mais injusto do Parece que no país onde alguns se licenciam ao
regime que se sentava na plateia do Teatro Camões: que um contrato a termo ou em regime de profis- domingo custou ouvir falar “de uma cultura onde
porque souberam ser a carta fora do baralho, ser os são livre (também há recibos verdes verdadeiros, o mérito, a competência, o trabalho e a ética de
“de fora”, os não comprometidos, os desbocados. convém não esquecer). serviço público sejam valorizados”. E que entre os
Há quem olhe para tudo como um simples fait- Numa altura em os que têm menos de 30/35 anos perdulários não se gostou da passagem sobre “impe-
-divers, tal como antes olharam para a canção dos estão especialmente despertos para discutir as so- dir que aos jovens seja deixada uma pesada herança,
Deolinda. Não sou capaz de me integrar nesse gru- luções para os seus problemas, o combate político feita de dívidas, de encargos futuros, de desemprego
po. Quando ouvi pela primeira vez a música (no tem de passar por lhes dizer que essas soluções não ou de investimento improdutivo”.
YouTube, onde havia de ser?), percebi que ela tinha incluem mais Estado, mais empregos no Estado, Este país que está, todo ele, “à rasca”, não pode,
qualquer coisa de especial, pois tocava no nervo mais “garantias” fictícias ou mais regulamentos e não deve, olhar sobranceiro para a “geração à ras-
sensível de muita gente. Por isso, logo a 4 de Feve- leis, antes implicam deitar abaixo as barreiras que ca”. Nem entregá-la de mão beijada aos defensores
reiro, quando ainda nem se falava da manifestação minam a solidariedade intergeracional. Não faz sen- de soluções ultrapassadas. Até porque, se não for
de amanhã, escrevi aqui um texto sobre “Tudo o que tido, por exemplo, distribuir subsídios de renda – essa geração, que já vai tendo alguma percepção da
espoliámos à ‘geração sem remuneração’” (quem mas faz todo o sentido acabar de uma vez por todas necessidade de arriscar e inovar, a mudar o país, não
quiser pode consultá-lo aqui: http://www.facebook. com as regras que impedem o bom funcionamento serão seguramente os que já providenciaram o seu
com/note.php?note_id=10150104369774208). Pare- do mercado de arrendamento. Tal como não faz sen- próprio conforto que o farão. Jornalista
ceu-me então, como me parece hoje, que os mais
novos se encontram numa situação de injustiça re-
lativa, que começam a aperceber-se disso e que re-
A unidade começa no conhecimento das diferenças
clamam explicações e soluções. Infelizmente muita
gente preferiu continuar a olhá-los do alto da burra a Este país tem atavismos que Portugal anda de chapéu na mão Se, pelo contrário, se preferir o
e proclamar: aquela geração é mesmo “parva”. sempre me farão confusão. Um pelo mundo. consenso mole, nunca se saberá

O
deles é essa ideia mirabolante de Mesmo admitindo que o discurso onde estão as fronteiras do acordo
que se está a passar diante dos nossos que, para se alcançar a unidade, tinha sido de facção – coisa que não e do desacordo, algo que só
olhos pode ser uma batalha política cru- política é melhor começar por foi, foi apenas mais directo e mais serve a políticos oportunistas e
cial para o nosso futuro. Graças aos De- ignorar as divergências e depois, se claro do que o habitual, o que se manobradores.
olinda, aos Homens da Luta e à atenção necessário, a própria realidade. saúda –, toda esta argumentação Em democracia não se
que a comunicação social começou a A linha de ataque do PS labora num equívoco pré- deve temer as diferenças,
dar aos problemas desta geração, os “apolíticos” e ao discurso de Cavaco Silva democrático e iliberal: a ideia de as divergências ou mesmo a
“desinteressados” que até nem costumam ir votar adoptou este concepção. Teria que unidade se alcança apagando existência de pontos de vista
começaram a discutir política e a debater soluções. sido um discurso que “não as diferenças, quando esta se deve radicalmente diferentes. E o
Quem duvidar deve visitar a página do evento no une os portugueses”, disse a basear no princípio de que são as Presidente da República também
Facebook ou ler os textos que o PÚBLICO tem vindo eurodeputada Ana Gomes. Já diferenças que dão vigor (e sal) aos não é um lugar por omissão,
a disponibilizar online. Leiam ao menos o texto que Carlos César considerou que nossos regimes. O que é saudável, quanto mais não seja por se tratar
abre a longa série, de Pedro Loureiro, um gestor de “o país não saiu mais unido antes de se procurar qualquer do único órgão de soberania eleito
34 anos de Coimbra. desta tomada de posse”. O tema unidade, é precisamente sublinhar directamente pelo voto popular.
Como a natureza tem horror ao vazio, o Bloco de seria depois glosado por vários as diferenças para se perceber Por mim, apreciei ouvir frases
Esquerda tratou de aproveitar a onda juvenil para comentadores, que invocavam quais são os pontos comuns, pois cortantes, ou mesmo cruéis, em
colocar a discussão e o protesto nos seus terrenos piedosos a necessidade de unidade só sobre estes se pode construir vez de recados subentendidos
preferidos, em especial o da precariedade. Só que o nestes dias tão difíceis em que uma base de aproximação sólida. escondidos nas entrelinhas.