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redescobrir Vigotsky

Destacável NoEsis nº 77 Parceria da Revista Noesis com a APEI - Associação de Profissionais de Educação de Infância e a rede Children in Europe
Ficha Técnica

Textos:
Infância na Europa

Tradução:
Tiago Dinis

Revisão científica (Portugal):


Isabel Lopes da Silva

Design Gráfico:
Metropolis Design e Comunicação
www.metropolis.pt

Impressão
Editorial do Ministério da Educação
Estrada de Mem Martins, nº 4 – S. Carlos
Apartado 113 – 2726-901 Mem Martins

Tiragem:
16500 exemplares: 13500 como destacável
na Revista Noesis, 3000 distribuídos pela APEI

APEI - Associação de Profissionais


de Educação de Infância - www.apei.pt
Children in Europe - www.childrenineurope.org
Índice

REDESCOBRIR VIGOSTSKY
3 A abordagem histórico-cultural de Lev Vigotsky

5 Lev Vigotsky: da “idade de prata” ao “terror vermelho”


Vladimir Zinchenko trata da vida e da época de Lev Vigotsky

7 A perspectiva de educação de Vigotsky


Elena Kravtsova explica como a perspectiva de educação e desenvolvimento
de Vigotsky se centra em três ideias nucleares

Bem-vindos a esta edição especial da 9 Jogar para aprender na escola


Infância na Europa organizada na de-
Elena Bodrova e Deborah Leong analisam as relações íntimas entre
corrência do 17º Congresso Anual da
Associação Europeia para a Investiga- jogo e conhecimentos escolares, no trabalho de Vigotsky
ção em Educação de Infância (European
Early Childhood Research Association - 13 A prática da aprendizagem partilhada
EECERA), realizado em Praga em Agosto Vytaly Rubtsov salienta as condições necessárias para uma actividade
de 2007, cujo tema foi Explorar as Ideias de aprendizagem partilhada eficaz, uma característica fundamental
de Vigotsky: Cruzar Fronteiras. Este nú- da perspectiva de educação de Vigotsky
mero trata as ideias de Vigotsky numa
perspectiva histórica, mas também da
sua relevância e aplicação na educação 15 A ZDP: zona de desenvolvimento próximo
de infância actual. Bert van Oers analisa um dos conceitos centrais de Vigotsky
O número é também especial por outros
motivos. Pela primeira vez, Infância na Eu- 17 Vigotsky, um amigo da prática
ropa acolhe uma editora convidada russa,
Leif Strandberg descreve exemplos das ideias de Vigotsky
Elena Yudina, e inclui artigos provenientes
da Rússia, que são, evidentemente, im- em práticas de educação de infância na Suécia
portantes para uma temática centrada no
grande educador russo. Também tivemos 20 O valor do jogo será realmente compreendido?
a colaboração de um parceiro da Inter-
national Step by Step Association (ISSA),
Pentti Hakkarainen revela como as ideias de Vigotsky motivam
que desempenha um papel importante na muitos a procurar as relações entre jogo e desenvolvimento
educação de infância na Europa Central e
de Leste e em países anteriormente inte- 22 As ideias de Vigotsky nas novas democracias
grados na União Soviética e acolhe este Tatjana Vonta explica o impacto das teorias de Vigotsky
ano o Congresso da EECERA. Como rede
de revistas, Infância na Europa procura nas práticas pedagógicas em curso em países da Europa de Leste
trabalhar com outras redes europeias; esta
colaboração com a ISSA é um bom exemplo
do trabalho em rede com várias redes.
Lev Vigotsky morreu cedo, mas a sua curta
vida foi extraordinariamente produtiva. Dei-
xou uma herança rica. Neste número, home-
nageamos e comemoramos essa vida.

Peter Moss, Editor

A revista Noesis congratula-se por, a convite


da APEI, se associar à publicação deste nú-
mero especial dedicado a Vigotsky, embora
sem partilhar necessariamente todas as ideias
e opiniões nele expressas.
A abordagem histórico-cultural
de Lev Vigotsky
Elena Yudina
* Professora de Desenvolvimento e Educação da Criança e directora do departamento de Psicologia
e Educação da Universidade da Cidade de Moscovo.
eleyudina@yandex.ru

Elena Yudina apresenta alguns dos princi- coisa. A memória utiliza-o como um ins- rais, que tanto podem ser objectos como
pais conceitos e ideias de Lev Vigotsky. trumento. Portanto, a ideia de Vigotsky é pessoas.
que os seres humanos desenvolveram dois Vigotsky sublinhou que um ser humano
Lev Vigotsky morreu jovem, mas teve uma tipos de instrumentos para realizar activi- nunca age como um animal, ainda que a
vida muito intensa. É difícil apresentar re- dades: os externos e os internos. acção pareça ser a mesma, tal como comer:
sumidamente as suas ideias centrais, dada Os signos são produzidos e conservados os seres humanos comem de um modo
a riqueza e originalidade das suas teorias pela cultura. Usam-se constantemente ins- diferente devido a estas mediações cultu-
sobre a natureza e desenvolvimento da trumentos culturais, mesmo sem dar por rais. É por isso que é impossível explicar o
mente humana (ver o artigo de Vladimir isso. Efectivamente, hoje em dia, se alguém comportamento humano apenas do pon-
Zinchenko sobre a sua vida). Especifica- se quer recordar de alguma coisa, provavel- to de vista fisiológico ou neurológico. Os
mente, Vigotsky desenvolveu a teoria e mente escreve-a, em vez de dar um nó. A seres humanos são motivados a fazer ou
metodologia da psicologia histórico-cultu- escrita é outro instrumento – um sistema não algo, e essa motivação não é contro-
ral, a que deu fundamento experimental e cultural de signos. lada pela biologia. Vários exemplos provam
prático. Esta abordagem teve grande influ- O principal sistema de signos é a lingua- que os seres humanos podem ultrapassar
ência na psicologia do desenvolvimento e gem. Na opinião de Vigotsky, o papel da a sua natureza fisiológica – um aspecto
na educação, tendo sido, também, aplica- linguagem na mente humana é realmente importante dado o grande interesse actu-
REDESCOBRIR VIGOTSKY

da com êxito a outras áreas, por exemplo, ilimitado. As palavras são signos para vá- al pelas explicações biológicas (da neuro-
neuropsicologia, psicologia clínica e educa- rios objectos e acções à nossa volta, mas ciência) para os fenómenos psicológicos,
ção especial. também para pensamentos e sentimentos. particularmente para o desenvolvimento
Com o tempo, a abordagem histórico-cultu- Ser humano significa dominar a linguagem, da criança. Embora reconhecendo o papel
ral tornou-se bem conhecida. Hoje em dia, que é um sistema de significados para re- importante dos mecanismos biológicos nas
serve de fundamento a muitos programas presentar o mundo interno e externo. Mas funções mentais, Vigotsky considerava pe-
educativos, tanto na educação de infância existem outros sistemas de signos na cultu- rigoso atender demasiado às explicações
como na escolaridade obrigatória; vários ra, por exemplo, todas as artes e ciências. biológicas em problemas psicológicos.
são descritos neste número. Actualmente, Mas como é que os signos, criados muito
mais ainda do que no passado, o trabalho antes da vida de cada um e conservados O desenvolvimento da criança

4 de Vigotsky permanece vivo e conhecido na


investigação educativa e na prática. Qual é
na cultura, vêm a ser usados pelas pessoas
nas actividades do dia-a-dia? Será apenas
numa perspectiva histórico-cultural
Uma outra ideia importante de Vigotsky é
o segredo da sua popularidade? o resultado de uma educação sistemática? que, para compreender a verdadeira natu-
A resposta reside no conceito vigotskiano reza da mente humana, é necessário acom-
A concepção histórico-cultural de internalização. Os signos transitam do panhar o seu desenvolvimento. É impossí-
na psicologia geral mundo exterior para o interior precisamen- vel perceber como funciona realmente uma
A ideia principal de Vigotsky é de que as te porque são usados como instrumentos função mental depois de estar formada;
funções psicológicas humanas – funções nas actividades diárias. Por conseguinte, a para o saber é preciso analisar o desenvol-
mentais superiores, como as designou, internalização é o processo de transformar vimento da mente nas crianças (ou práti-
e que constituem a mente humana, tais os instrumentos culturais externos (signos ca clínica), onde se pode verificar como a
como memória, pensamento, linguagem externos) em instrumentos psicológicos in- função se apresenta enquanto está em
ou outros processos psicológicos – usam ternos: signos internos. formação. Vigotsky pensava que o desen-
instrumentos muito especiais: instrumen- Vigotsky admitiu que a cultura, como agru- volvimento da criança é a chave da mente
tos internos ou signos, cuja utilização é pamento de sistemas de signos, existe en- humana. Para ele, a criança não é um pe-
semelhante à dos instrumentos exteriores tre a pessoa e o mundo externo. Estes sis- queno adulto, a sua mente trabalha “de um
modo diferente, utilizando meios diferen-
usados pelas mãos, como um martelo para temas de signos participam na actividade
tes”. Neste aspecto concorda com Piaget,
pregar um prego. Por exemplo, para se re- humana como instrumentos psicológicos.
embora discordando da visão deste de que
cordar alguma coisa, pode dar-se um nó, Esta ideia é em geral referida na literatura há leis internas e inatas que regem a mente
que significa aquilo que se quer recordar. contemporânea da psicologia como tratan- da criança e que é preciso descobrir.
O nó é mais do que um nó, tem um signi- do-se da noção de mediação. Por outras Para Vigotsky, a criança nasce sempre
ficado, torna-se assim um signo ou símbo- palavras, a actividade humana é mediada numa sociedade cultural e o seu desenvol-
lo que ajuda a não esquecer determinada por diferentes tipos de fenómenos cultu- vimento é sobretudo orientado pela inter-
nalização de signos e símbolos culturais: te importantes para o desenvolvimento da buscar – as maneiras culturais de agir, atra-
não há nada na mente da criança que não criança, por exemplo, o jogo. Vigotsky des- vés do uso de instrumentos – e como fazer
seja afectado por essa cultura. É por isso cobriu que o jogo é insubstituível na edu- para aprender esses instrumentos. Vigotsky
necessário descobrir sob que condições cação da infância: para o desenvolvimento defende que a criança não é uma garrafa
se internalizam os instrumentos culturais da imaginação, das competências sociais e vazia para o professor encher de conheci-
de modo a tornarem-se instrumentos psi- comunicativas, da auto-regulação, e como mentos, e que ensinar a criança não significa,
cológicos que a criança pode usar na sua motivação para a aprendizagem (ver os ar- necessariamente, que se desenvolva. Pelo
actividade, um processo que também leva tigos de Elena Bodrova e Deborah Leong e contrário, para desenvolver as funções men-
ao domínio do comportamento, isto é, ao de Pentti Hakkarainen). tais superiores, a criança tem de interagir
desenvolvimento da auto-regulação. Como todos os professores e pais sabem, com o ambiente, mas com a mediação de
A ideia de mediação explica a importân- a criança aprende com os outros. Mas Vi- agentes culturais. Em resumo, a criança é o
cia da comunicação no desenvolvimento gotsky diz, exactamente, o que a criança vai sujeito e não o objecto da aprendizagem.
da criança. Por exemplo, a criança tem de
aprender a comer com uma colher. A ma-
neira como um adulto próximo (normal-
mente a mãe) usa a colher é o mediador
para a criança aprender a comer, porque a
REDESCOBRIR VIGOTSKY

criança só pode dominar a maneira cultural


de fazer alguma coisa com a mediação do
adulto. Às vezes a mãe ajuda, outras de-
monstra como se faz, outras ainda, apoia.
A criança desenvolve a aptidão para agir
(fazer alguma coisa) de forma humana na
interacção com o adulto, que é muito mais
competente no modo cultural de agir. A in-
teracção – a comunicação com outros – é, por
conseguinte, muito importante na aquisi-
ção de instrumentos culturais (ver o artigo
5 de Vytaly Rubtsov).
A ideia de Vigotsky acerca da zona de de-
senvolvimento próximo, actualmente muito
divulgada, está relacionada com a ideia de
mediação (ver o artigo de Bert van Oers). A
zona de desenvolvimento próximo signifi-
ca, de facto, a distância entre o nível real
de desenvolvimento da criança, avaliado
pela dificuldade do problema que a crian-
ça pode resolver sem a ajuda do adulto, e
o seu nível de desenvolvimento potencial,
avaliado pela dificuldade do problema que
uma criança consegue resolver com a aju-
da de um colega mais competente ou de
um adulto. Vigotsky considerou que para
promover o desenvolvimento da criança,
a educação deveria criar essas zonas: por
outras palavras, a educação devia estar à
frente do desenvolvimento, e não segui-lo.
Mas, na formação das funções mentais su-
periores, qualquer fenómeno cultural pode
ser mediador. Vigotsky indica algumas acti-
vidades culturais como sendo extremamen-
Lev Vigotsky da “idade de prata”
ao “terror vermelho”
Vladimir Zinchenko
* Professor na Universidade Estatal de Moscovo e editor da revista Psicologia Histórico-cultural

Vladimir Zinchenko apresenta uma pano- tubro (1917). Infelizmente para a Rússia, e deve antecipar o desenvolvimento, desde
râmica da vida curta mas muito produtiva felizmente para a psicologia, a profissão de que o professor seja sensível à “zona de de-
de Lev Vigotsky e também da extraordi- advogado deixou de ser necessária, já que a senvolvimento próximo”; nos progressos da
nária época em que viveu “justiça revolucionária” ultrapassou tanto os criança uma parte é devida ao ensino e duas
direitos naturais como os humanos. ao desenvolvimento da própria criança. A
A vida de Lev Vigotsky mostra claramente Durante um tempo Vigotsky tentou o jorna- relação entre ensino e desenvolvimento asse-
que os seres humanos estão sujeitos aos lismo, como crítico literário e teatral. Tam- melha-se à versão da antiga lenda de Aquiles
caprichos do destino. Tal como Jean Piaget, bém deu aulas de lógica, filosofia e literatura e da tartaruga (ou da tartaruga e da lebre)
Vigotsky nasceu em 1896, mas a sua vida foi em escolas e numa instituição de formação que alternadamente passam à frente uma da
quase 50 anos mais breve. Apesar dos seus de professores, onde fundou um laborató- outra. É difícil acreditar que estes dois livros
conceitos de desenvolvimento mental serem rio de psicologia. Os anos de 1918 a 1924, foram escritos por um novato em psicologia.
diferentes, merecem, actualmente, a mesma durante os quais Vigotsky viveu em Gomel, Em 1924, Vigotsky mudou-se para o Instituto
atenção por parte dos maiores psicólogos foram bastante produtivos. Tinha grande de Psicologia da Universidade de Moscovo.
mundiais. Em 1996, por exemplo, num con- interesse pela arte e a literatura, embora a Tinha já um programa bem definido para de-
gresso dedicado ao centésimo aniversário psicologia também o atraísse. Conseguiu senvolver a psicologia e em breve se formou
de Jean Piaget, Jerome Bruner apresentou aliar estes interesses num artigo, “A Psicolo- em seu redor uma equipa, o núcleo da escola
um artigo intitulado “O triunfo da variedade: gia da Arte”, que terminou por volta de 1925 científica de Vigotsky. Primeiro Alexander
REDESCOBRIR VIGOTSKY

Piaget e Vigotsky”. Os seus quadros concei- (embora tivesse sido publicado pela primeira Luria e Alexey Leontiev, depois outros, como
tuais são como dois continentes no mapa vez, só em 1965) e constituiu a base da sua Alexander Zaporozhets, Daniil El’konin, Lydia
do desenvolvimento humano. dissertação. Este artigo mostra as origens da Bozhovich, Natalia Morozova e Rosa Levina.
Lev Vigotsky nasceu na cidade de Orsha, abordagem que mais tarde foi designada por À medida que o tempo foi passando, o círcu-
numa família abastada, que depois se mu- “não-clássica” ou por psicologia “histórico- lo dos vigotskianos cresceu, incluindo mem-
dou para Gomel, também na Bielorússia, a cultural”. Nessa abordagem, os sentimentos bros muito para além da Rússia.
parte da Rússia imperial onde era permiti- humanos, normalmente encarados como Vigotsky era um reformador. Boris Mes-
do aos judeus viver. Os seus interesses na totalmente subjectivos, foram considerados cheryakov propôs uma ideia interessante:
escola, e durante toda a sua vida, foram a como mais objectivos, inseridos e fazendo que na busca da sua identidade Vigotsky
história (inclusive a história do povo judeu), parte da cultura, podendo ser expressos pe- imitou Martinho Lutero, que mudou de
a filosofia e a literatura. A sua juventude las belas artes, que considerou como “meios apelido, que era “LuDer” – o apelido de
6 coincidiu com o que mais tarde veio a ser
designada “Idade de Prata”, um período no
mediadores” culturais, instrumentos que
ajudam a sentir e a exprimir sentimentos.
Vigotsky era originalmente “VigoDsky”. Ci-
tava muitas vezes o ditame de Lutero “Aqui
virar do século em que a vida cultural russa As belas artes foram frequentemente para estou” (Hier stehe ich). Vigotsky aceitou a
se desenvolveu rapidamente. Vigotsky não Vigotsky uma fonte de inspiração para de- revolução, adoptou o marxismo e a chama-
foi apenas um observador destes aconteci- senvolver ideias e conceitos científicos. da “tarefa de transformar a sociedade”, até
mentos: cedo se tornou participante activo Ao mesmo tempo que “A Psicologia da mesmo a estúpida e trágica ideia de “criar
desta curta época que, mesmo hoje, provoca Arte”, Vigotsky escreveu um livro, Psicolo- um novo Homo sapiens”. Pensava que a
admiração pela sua mistura de criatividade e gia Pedagógica, provavelmente decorrente condição mais importante para atingir es-
de acontecimentos sociais dramáticos. da reflexão sobre a sua própria experiência tes objectivos consistia numa reforma da
Em 1913, Vigotsky, por instância dos pais, pedagógica. Na edição de 1926 já se encon- psicologia, a que dedicou os últimos dez
entrou para a Faculdade de Medicina da tram debatidas questões como as relações anos da sua vida. O Sentido Histórico da
Universidade de Moscovo, um feito quase entre ensino e desenvolvimento, ensino e Crise da Psicologia pode ser considerado
miraculoso para um estudante judeu. No en- educação, e as correspondentes actividades como a abertura de um espaço para cons-
tanto, mudou pouco depois para a Faculda- de aprendizagem individual dos alunos. Es- truir uma nova psicologia, pois neste livro
de de Direito, começando simultaneamente creveu que “é a própria criança que vai agir, chega à conclusão de que toda a psicologia
a estudar Ciências Humanas na Universida- enquanto ao professor cabe apenas a tarefa se encontrava numa crise profunda.
de Popular A. P. Shanyaavskii. Durante dois de guiar e orientar a actividade da criança”. Hoje percebe-se quão injusto era este juízo.
anos, frequentou os seminários de Gustav Acrescentou que professor e criança devem Estavam em curso muitos avanços notáveis
Shpet, que foram as suas primeiras aulas de cooperar entre si, e que se deve incentivar na psicologia. Recordem-se nomes como
psicologia profissional. Após a licenciatura, nas crianças qualidades tais como o desejo Max Wertheimer, Kurt Koffka, Jean Piaget, e
Vigotsky regressou a Gomel, no momen- e a capacidade de agir em conjunto com o claro, o próprio Vigotsky. Ainda não se sabe
to em que a Rússia imperial foi avassalada professor. Mais tarde, quando Vigotsky tra- por que não publicou O Sentido Histórico da
pelos acontecimentos da revolução de Ou- balhava em Moscovo, propôs que o ensino Crise da Psicologia, editado mais de 50 anos
do e sentido e, por isso, necessita de ser
interpretado. O “meio mediador” (como a
palavra) e o objecto que denota não devem
ser considerados como ligados por corren-
tes de aço. Uma relação fixa desse tipo, que
grava signos, símbolos e mitos nas cabeças
dos cidadãos, tem subjacente a ideologia,
na maioria dos regimes totalitários. Mas a
completa “emancipação” da realidade dos
instrumentos psicológicos leva-os a perder
as suas propriedades de relação com os ob-
jectos, o que pode ser igualmente perigoso.
Os “meios de mediação” não são apenas
instrumentos, ou meios de desenvolvimen-
to. Representam mundos globais: o mundo
dos signos, da linguagem, dos sentidos, dos
REDESCOBRIR VIGOTSKY

mitos e das belas artes. Numa tentativa


de englobar todos estes mundos num úni-
co termo, pode dizer-se que constituem a
cultura, que age como uma força atractiva.
Para a cultura assim concebida, cada ser hu-
mano é algo de desejado e aguardado. Pos-
suindo livre vontade, o ser humano pode ou
não aceitar essa atracção. Quando alguém
não participa na cultura, tanto a pessoa
como a própria cultura ficam prejudicadas,
porque nesse caso a pessoa não cumpre o

7 seu destino na vida. Na minha opinião, este


é o principal significado da teoria histórico-
-cultural do desenvolvimento da mente e da
depois – e para ser justo, o seu espírito crí- superiores são mediadas por instrumentos, consciência de Vigotsky.
tico foi acompanhado por ideias construti- tais como signos, palavras, símbolos: “meios Qual foi a relação de Vigotsky com o marxis-
vas. Nas ideias de Vigotsky, a destruição era de mediação”. Estas funções são adquiridas mo? O seu marxismo não era de tipo firme,
muitas vezes criativa, como se vê claramente a partir da cultura e da sociedade, mas só dogmático. Para o fim da vida, as crenças
nos seus trabalhos subsequentes. através das actividades realizadas por cada iniciais (ou mais exactamente as ilusões)
É interessante acompanhar a evolução das pessoa. Nas palavras de Martin Buber, pode marxistas de Vigotsky desapareceram com-
perspectivas de Vigotsky. O seu percurso na dizer-se que todo o drama do desenvolvi- pletamente. O período reformista e românti-
psicologia encaminhou-se para uma explora- mento mental ocorre num ponto intermédio co do seu trabalho foi substituído por preo-
ção da relação entre sentidos e consciência. – isto é, no espaço situado entre as pesso- cupações sobretudo académicas. A “unidade
Por exemplo, ao começar a analisar a cons- as: é neste espaço que são criadas as dife- dinâmica do afecto e do intelecto” passou a
ciência em Pensamento e Linguagem, carac- rentes formas de actividade mental. A série ser uma forte convicção; talvez a predomi-
teriza-a como um “reflexo de reflexos”; mas, total dos meios de mediação não inclui ape- nância de afecto na sua personalidade te-
no final, qualifica-a como um “sentimento nas signos, palavras e símbolos, mas tam- nha sido substituída por uma predominância
de sentimentos” como unidade de análise bém mitos e obras de arte. Os “mediadores do intelecto. Numa obra tão fundamental
e afirma que a consciência humana é uma personalizados”, tais como pais, professores como Pensamento e Linguagem, não há in-
construção sistemática feita de sentidos. e deuses, desempenham também um papel fluência marxista. As paixões da juventude
Ao estudar o modo como as funções mentais decisivo no desenvolvimento humano. tinham sido esquecidas ou desvalorizadas
superiores têm origem no trabalho humano Importa ainda notar mais um aspecto dos sob a pressão da terrível situação da URSS,
cooperativo, Vigotsky aproximou-se mais do meios de mediação. Um “mediador” (termo inclusive o “desenvolvimento” da ciência,
problema dos sentidos e da consciência. Tal de Vigotsky) não funciona apenas como um com o regime bolchevique a banir muitas
como o conceptualizou, as funções mentais instrumento: traz consigo algum significa- perspectivas, entre as quais a psicanálise e
a pedagogia, a ciência e a prática (próxima com perseverança, por vezes com amarga o seu herói Hamlet) esteve mergulhado
da avaliação na sala de aula) que Vigotsky ironia. Vigotsky costumava dizer, como re- em pensamentos acerca das “mágoas da
tinha passado muito tempo a desenvolver. corda Alexander Zaporozhets: “A diferença existência”. Nesse tempo, os bolchevi-
O segredo do sucesso de Vigotsky neste pe- entre uma situação má e boa não é não ter ques mataram milhões de pessoas, mas
ríodo não reside na censura do seu próprio saída, mas ter uma boa saída”. Encontrou a Vigotsky, ao contrário de muitos dos seus
trabalho, mas antes numa orientação para o solução no trabalho incrivelmente intenso, a colegas, morreu na cama, de tuberculose,
trabalho prático, tanto no desenvolvimento que dedicou todas as suas forças, até aos em 1934, com apenas 38 anos. A sua fa-
da criança, como no ensino escolar, como últimos momentos da vida. mília e discípulos conseguiram conservar
ainda no teatro e no cinema (incluindo tra- As palavras-chave da nova psicologia que e publicar a sua herança científica, apesar
balho com Sergei Eisenstein) ou até mesmo Vigotsky desenvolveu – como “cultura”, dos anos de terror vermelho e da Segunda
na psicologia ocupacional. “história”, “desenvolvimento”, “sentimen- Guerra Mundial. A compilação dos tra-
Escreveu que a “dinâmica da personalidade tos”, como fonte de consciência e de balhos de Vigotsky está hoje disponível
é um drama”, e esta observação parece ba- sentido – revelaram-se inúteis para a he- e psicólogos de todo o Mundo discutem
seada na sua experiência pessoal de vida. A gemonia soviética. Suscitavam uma crítica as suas ideias. Em 2007, académicos de
sua vida familiar foi acompanhada de uma agressiva por parte dos líderes soviéticos. 10 países, incluindo a Rússia, participaram
doença dolorosa, o seu percurso científico, Paradoxalmente, a própria designação da em O Guia Cambridge de Vigotsky. Não
de grandes críticas científicas e de perse- teoria de Vigotsky como “histórico-cultu- há dúvida de que, para os interessados
REDESCOBRIR VIGOTSKY

guições políticas. A ciência da pedagogia ral” proveio de um dos seus críticos mar- nos eternos problemas do desenvolvimen-
foi proibida pelos bolcheviques. Durante a xistas: recordámo-lo quando iniciámos, em to humano, a herança de Lev Vigotsky irá
vida, o seu trabalho esteve sujeito às críticas 2005, a publicação da revista internacional servir, ainda durante muito tempo, de
mais absurdas, que constituíram o início da com o título Psicologia Histórico-cultural. fonte de inspiração.
sua difamação pública. Suportava tudo isto Nos últimos anos de vida, Vigotsky (como

8
A perspectiva de educação de Vigotksy
Elena Kravtsova
* Professora no Instituto Vigotsky de Psicologia na Universidade Estatal Russa de Humanidades.
É, também, neta de Vigotsky.
ekravcva@rambler.ru

Elena Kravtsova desenvolve as três ideias Para a educação ter efeitos no desenvolvi- um cunho distinto e pessoal, quando se
centrais do pensamento de Vigotsky so- mento, contribuindo para o desenvolvimen- percepciona como fonte do seu compor-
bre educação e desenvolvimento to psicológico da criança, os educadores tamento e actividade. Quer isto dizer que
precisam de determinadas competências: a educação só apoia o desenvolvimento
É difícil encontrar, hoje em dia, um siste- serem capazes de organizar actividades pessoal se as crianças se percepcionarem
ma educativo que não se baseie, pelo me- colectivas com grupos de crianças e de in- como a fonte e o sujeito da educação; por
nos em teoria, nas ideias de Lev Vigotsky. teragir com as crianças envolvidas nessas outras palavras, como participantes activos.
Curiosamente, as mesmas referências aos actividades. Se as crianças conseguem fa- Neste contexto, as actividades centradas
seus trabalhos são por vezes usadas para zer alguma coisa em conjunto, como resol- na criança são especialmente importantes,
fundamentar princípios e métodos muito ver um problema, serão mais tarde capazes incluindo todos os tipos de criatividade, a
diferentes e, até mesmo, contraditórios. de lidar sozinhas com tarefas ou problemas começar pelo jogo. Jogo e educação não
Mas se analisarmos a perspectiva global idênticos. É este o modo como as crianças são antagónicos, pelo contrário, o jogo
de educação de Vigotsky, encontraremos adquirem competências e, ao mesmo tem- é um dos principais meios e métodos da
três ideias essenciais sobre a educação das po, progridem no seu nível de desenvolvi- educação.
crianças e algumas maneiras bem definidas mento psicológico. (Ver o artigo de Vytaly Esta ideia pode ser compreendida através
de as pôr em prática. Rubtsov para discussão mais aprofundada da criação de ambientes que reúnem várias
de actividade partilhada em educação.) idades e da organização de acontecimen-
REDESCOBRIR VIGOTSKY

Na prática, também quer dizer que tanto tos interessantes, que sejam atraentes e
Educação e desenvolvimento a educação em si como a organização de divertidos, como férias e festas, aventuras
A ideia central de Vigotsky, abundantemen- actividades educativas estão intimamente e passeios, e nas quais tanto as crianças
te citada por investigadores e educadores, relacionadas com a comunicação. Orga- como os adultos não só participam como
refere-se à íntima relação entre educação e nizar a educação sem comunicação não é também se percepcionam como sujeitos
desenvolvimento. “Só é boa a educação que uma educação para o desenvolvimento. activos da actividade. (Ver o artigo de Elena
conduz ao desenvolvimento.” Para muitos Mas, ao mesmo tempo, a comunicação é Bodrova e Deborah Leong para uma dis-
educadores, esta afirmação significa que a demasiado complicada para as crianças, cussão mais detalhada da importância do
sua principal tarefa é ensinar tendo em conta desencorajando-as. De qualquer modo, jogo na educação.)
as características psicológicas próprias das podem surgir problemas: por exemplo, as
crianças e que os interesses são uma questão crianças podem ser colocadas num grupo
9 de menor importância. Embora esta interpre-
tação possa parecer uma tradução literal da
de ensino especial simplesmente porque
os conteúdos da educação têm pouca ou
Educação espontânea e reactiva
A terceira ideia-chave de Vigotsky envolve
ideia de Vigotsky, os professores sabem, na nenhuma relação com o seu nível de comu- tipos de educação, nomeadamente a dife-
prática, que este tipo de educação não pro- nicação, apresentando um nível superior de rença entre educação espontânea e reac-
move o desenvolvimento da criança e pode comunicação e interacção. tiva. Em formas de educação espontânea,
mesmo impedir mudanças positivas. Na pior A partir dos resultados de estudos experi- as crianças, de acordo com o pensamento
das hipóteses, pode ter como resultado que mentais e de projectos educativos, pode-se de Vigotsky, criam o seu próprio programa,
a criança não queira estudar. Para perceber concluir que o modo de transformar a ideia enquanto na educação reactiva têm de es-
melhor, pode relacionar-se esta ideia de Vi- de educação para o desenvolvimento de tudar pelo programa de outrem.
gotsky com a dos dois momentos de apa- Vigotsky num meio eficaz de promover o Há nesta ideia dois aspectos de grande
recimento das “funções psíquicas”, primeiro desenvolvimento das crianças consiste em importância. Primeiro, a criança só é capaz
nas relações entre as crianças e, depois, organizar grupos de várias idades e uma de estudar reactivamente a partir de uma
como funções psíquicas, naquilo que podem vida diária preenchida com acontecimen- certa idade psicológica, cerca dos oito ou
realizar sozinhas. A partir daqui pode-se per- tos bem planeados e estruturados, que se nove anos: anteriormente, a educação só
ceber que uma educação que conduz ao de- baseiam em várias formas de comunicação pode ser espontânea. Segundo, a educação
senvolvimento implica organizar actividades entre crianças e adultos. espontânea que não seja organizada pode
colectivas ou partilhadas pelas crianças, em muitas vezes ter como consequência atra-
vez de meramente comunicar ou transmitir sar o desenvolvimento psicológico. Para
informação. Este processo exige ter em con- Educação e personalidade que a educação espontânea seja eficaz, o
ta o nível de desenvolvimento das crianças, a A segunda ideia-chave da perspectiva de educador precisa de dar particular atenção
sua capacidade de interagir e os seus interes- educação das crianças de Vigotsky é a sua
a como a estimular e apoiar melhor. Por
ses; se assim não for, não serão capazes de concepção de personalidade. Uma pessoa
exemplo, se um adulto quiser que uma
participar em actividades colectivas. tem “personalidade”, comportando-se com
criança aprenda os quatro pontos cardeais
da bússola, pode dar à criança um ursinho 15 a 25 crianças dos 3 aos 10 anos, que têm Os eventos são um conceito nuclear nas
de peluche que perdeu os pais e tem de se uma “casa” em vez de uma sala de aula. escolas Chave de Ouro, baseando-se em
dirigir para norte para os encontrar. Então a Os professores aprendem a incentivar acontecimentos históricos e pessoais e
criança quer espontaneamente saber onde uma comunidade de aprendizagem com a nas estações do ano.
fica o norte e pede que lho expliquem, per- ajuda da formação em serviço, e os pais Uma descrição mais completa pode ser en-
cepcionando-se como a fonte, o iniciador, são também participantes activos. Dentro contrada em http://faculty.cmsu.edu/dro-
da actividade educativa. das “famílias” de várias idades, as crianças bbins/index.html. Para mais informação, ler
Neste contexto, a noção de Vigotsky de mais velhas aprendem a ser modelos de “Escolas para o Desenvolvimento” (leitura re-
ambiente social para o desenvolvimento é comportamentos mais competentes, as- comendada) ou contactar directamente Elena
bastante significativa. Os adultos organi- sim como a apoiar as crianças mais novas. Kravtsova.
zam a educação espontânea das crianças
com apoio deste ambiente, que coloca a
criança no centro dos processos educati-
vos, e no qual se apercebe de uma educa-
ção que conduz ao desenvolvimento.
Estes princípios de educação são a base da
REDESCOBRIR VIGOTSKY

“Chave de Ouro” e da “Matriz” dos currí-


culos educativos, criados para crianças em
idade pré-escolar e escolar. As crianças
que os frequentam não só concretizam as
suas “zonas de desenvolvimento próximo”
como também as alargam e transformam
de modo significativo. (Ver os artigos de
Bert van Oers e Pentti Hakkarainen para
uma discussão mais aprofundada da zona
de desenvolvimento próximo.) Tornam-se,

10 além disso, mais activas e saudáveis. A


educação baseada na perspectiva de Vi-
gotsky permite às crianças experimentar a
aprendizagem como um tempo feliz e inte-
ressante e não como um trabalho aborre-
cido e difícil.

Escolas Chave de Ouro


Muitos programas educativos inovadores
foram implementados, na Rússia, durante
a Perestroika. Elena Kravtsova desenvol-
veu, no seu laboratório, o currículo Chave
de Ouro, para reduzir o alheamento da
escola vivido por muitas crianças e famí-
lias. Baseadas nos princípios de Vigotsky,
foram criadas mais de 30 escolas Chave de
Ouro, a partir de 1989. Trabalhando com as
ideias de Vigotsky sobre interacção e zona
de desenvolvimento próximo, as crianças
destas escolas são colocadas em famílias
e não em classes, tendo cada “família” de
Jogar para aprender na escola
Elena Bodrova
Investigadora principal no Centro Continental de Investigação para a Educação e a Aprendizagem (McREL),
em Denver, Colorado. Elena@theasis.net
Deborah Leong
Professora da Faculdade Pública Metropolitana de Denver.
exigências da escolaridade formal. Quais- mais do que qualquer outra, a exercer uma
quer que sejam as razões, os resultados auto-regulação. Estas restrições surgem na
são notavelmente semelhantes em países forma de regras que a criança tem de seguir,
tão diferentes como os EUA e a Federação por exemplo quando aceita fazer de “bebé”
Russa: em ambos os casos, os investigado- e não de “mãe” (o bebé não usa facas e tem
res verificaram um declínio na quantidade de esperar que lhe dêem de comer) ou de
e qualidade do jogo de faz-de-conta, que usar um prato de papel para fingir que é um
coincidiu com uma maior pressão para en- volante e não uma tarte (pode dar uma den-
sinar conteúdos escolares a crianças cada tada se for uma tarte, mas não se for um
vez mais novas. volante).
Na perspectiva de Vigotsky, no entanto, a Nem todo o jogo apresenta os mesmos be-
dicotomia entre jogo e aprendizagem esco- nefícios para o desenvolvimento da auto-
lar é falsa. Na sua opinião, o jogo simbólico -regulação. Estudos actuais da relação en-
é um dos mais importantes contextos para tre o jogo e a auto-regulação confirmam a
as crianças desenvolverem competências ideia de Vigotsky de que o jogo de faz-de-
críticas que irão garantir a sua adaptação e conta tem mais potencialidades para me-
REDESCOBRIR VIGOTSKY

desempenho com sucesso, em ambientes lhorar a auto-regulação em crianças extre-


escolares formais. mamente impulsivas, “difíceis de controlar”,
o que, no entanto, só acontece quando as
crianças são capazes de criar, em conjunto,
O jogo promove o desenvolvimento uma situação imaginária, assumindo papéis
da auto-regulação de várias personagens imaginárias, e de as
“Sempre que no jogo há uma situação ima- representar usando adereços, linguagens e
ginária, há regras – não regras estabeleci- gestos simbólicos da sua imaginação.
das de antemão e que mudam durante o
decurso do jogo, mas regras que brotaram

11 da situação imaginária... No jogo a criança


é livre. Mas esta liberdade é ilusória.” (Vi-
O jogo promove o pensamento abstracto
“Do ponto de vista do desenvolvimento, o
gotsky, O Jogo e o seu Papel no Desenvol- facto de criar uma situação imaginária pode
vimento Mental da Criança.) ser considerado como um meio de desen-
Elena Bodrova e Deborah Leong analisam Vigotsky considera vários aspectos em que volver o pensamento abstracto.” (Vigotsky,
a íntima relação entre jogo e aprendiza- o jogo é precursor da aprendizagem escolar. O Jogo e o seu Papel no Desenvolvimento
gens escolares, presente no trabalho de Primeiro, o jogo ajuda a criança a desen- Mental da Criança.)
Vigotsky volver a capacidade de auto-regular o seu O pensamento abstracto, exigido em dis-
comportamento físico, social e cognitivo, ciplinas escolares aos alunos mais velhos,
Em muitos países, os educadores de in- isto é, a realizar esses comportamentos se- está normalmente associado ao uso da
fância de hoje enfrentam o mesmo dile- guindo regras externas ou interiorizadas, em língua – oral ou escrita – em geral, sem
ma: centrarem-se no ensino de conteúdos vez de agir por impulso. As crianças que não os objectos estarem presentes. Vigotsky
escolares ou permitir que as crianças se conseguem prestar atenção ou seguir orien- admitiu, porém, que as crianças mais no-
envolvam em actividades mais apropria- tações, bem como as que não são capazes vas dão os primeiros passos na direcção
das ao desenvolvimento, como brincar ao de controlar as emoções têm, normalmente, do pensamento abstracto ao usarem ob-
faz-de-conta. Existem muitas razões, tais dificuldade em dominar conteúdos escola- jectos (brinquedos, adereços, roupas) no
como as crianças precisarem de aprender, res. Contrariamente à noção típica de jogo jogo simbólico. A utilização de objectos
num mundo mais competitivo, mais do do adulto como um tempo em que as crian- para fazer de conta, sem a finalidade que
que aprendiam no passado e de as crian- ças são livres para fazerem o que quiserem, têm na vida real, serve de ponte entre as
ças de meios desfavorecidos necessitarem Vigotsky considerou o jogo como uma acti- manipulações sensório-motoras dos objec-
de “mais um empurrãozinho” nas primeiras vidade que coloca as maiores restrições nas tos, próprias das crianças que começam a
idades para dar uma melhor resposta às acções da criança, obrigando-a, deste modo, andar, e o pensamento lógico completa-
mente desenvolvido, que surge quando as lavras diferentes para descrever aos com- vamente o futuro sucesso das crianças na
crianças são capazes de manipular as ideias panheiros de jogo essas mudanças. Por escola. Infelizmente, hoje em dia este ama-
em pensamento. exemplo, as crianças podem usar a mesma durecimento raramente se observa. Mui-
No jogo, ao usar vários adereços para re- caixa de cartão, primeiro como garagem, tas crianças dos 3 aos 5 anos brincam da
presentar “coisas reais”, as crianças apren- depois como bomba de gasolina e final- maneira que seria de esperar em crianças
dem a separar o significado ou ideia do mente como mercearia. Dado a caixa ter de cerca de um ano; manipulam simples-
objecto, do objecto em si. Quando a crian- a mesma aparência quando representa os mente os objectos, raramente dialogam
ça faz de conta que conduz um bloco no três edifícios, as crianças têm de comunicar com outras crianças. Os elementos que,
tapete, como se fosse um camião, separa a a sua mudança de função, atribuindo no- para Vigotsky, definem jogo – situação
ideia de camião do camião real e liga-a ao mes diferentes, porque, de outro modo, a imaginária, papéis e regras – estão presen-
bloco. Esta capacidade de separar o signi- criança que está a fazer de mecânico acaba tes de forma rudimentar ou não surgem de
ficado do objecto é precursora do desen- a mudar os pneus na mercearia! todo. Os professores dizem que as crianças
volvimento do pensamento abstracto, em Para Vigotsky, este sucessivo nomear e re- que têm dificuldade em seguir orientações
que a criança tem de manipular ideias que nomear no jogo ajuda as crianças a domi- ou em estar atentas são habitualmente as
podem não ter uma ligação imediata com nar a natureza simbólica das palavras. Leva, mesmas que não se conseguem dedicar a
objectos tangíveis. no futuro, a que compreendam a relação jogos elaborados e imaginativos. Porém,
REDESCOBRIR VIGOTSKY

Tal como acontece com a auto-regulação, única que existe entre as palavras e os ob- os mesmos professores têm normalmente
nem todo o jogo de faz-de-conta promove jectos que significam e, finalmente, à emer- relutância em intervir, partindo do princípio
igualmente o desenvolvimento do pensa- gência da consciência metalinguística – o de que o jogo simbólico se desenvolve na-
mento abstracto. O melhor tipo de jogo é conhecimento do modo como a linguagem turalmente nas crianças.
aquele em que a criança usa adereços não funciona, que investigadores contemporâ- A teoria de Vigotsky apresenta uma pers-
estruturados e multifuncionais, completa- neos frequentemente associam ao domínio pectiva diferente da natureza do jogo,
mente diferentes dos que são realistas e da linguagem escrita, necessário para o su- relacionando-o com o contexto social em
com funções específicas. Com brinquedos cesso na aprendizagem escolar. que a criança cresce. Tanto adultos como
realistas, não há necessidade de separar crianças mais velhas fazem parte desse
o significado do objecto, uma vez que o Como usar o potencial contexto social. Se nem uns nem outros

12 objecto real e o simbólico são semelhantes


e podem ser usados da mesma forma. Por
do jogo de faz-de-conta
Para resumir a investigação feita pelo pró-
brincarem com as crianças mais novas,
servindo de modelo ao desempenho de
outro lado, quando as crianças usam ade- prio Vigotsky e pelos investigadores que um papel ou ao uso de um adereço para
reços não-realistas, não só têm de mudar seguiram as suas pisadas, apenas o jogo fazer de conta, o jogo pode nunca se de-
constantemente o significado atribuído a simbólico plenamente desenvolvido e ama- senvolver. Enquanto as gerações passadas
esses adereços, mas também de usar pa- durecido tem potencial para afectar positi- aprenderam a brincar com os irmãos e vi-
zinhos mais velhos, as crianças dos 3 aos 5
anos passam hoje a maior parte do tempo
em grupos de crianças da mesma idade,
frequentemente sem modelos de jogo.
Quais as implicações de tudo isto para os
educadores de infância? Precisam de acei-
tar mais uma responsabilidade: a de en-
sinar as crianças a brincar. Só se a tarefa
de promover o jogo for encarada com a
mesma seriedade e intencionalidade com
que se considera a promoção do desen-
volvimento cognitivo ou da linguagem da
criança se poderá garantir que o potencial
do jogo, ou, nas palavras de Vigotsky, “a
fonte que conduz o desenvolvimento”,
seja plenamente realizado.
A prática da aprendizagem partilhada
Vytaly Rubtsov
* Director do Instituto de Psicologia da Academia Russa de Educação e reitor da Universidade de Psicologia
e Educação da Cidade de Moscovo

Sendo a interacção fundamental para


a concepção de educação de Vigotsky,
Vytaly Rubtsov indica as condições neces-
sárias a uma actividade eficaz de aprendi-
zagem partilhada

Lev Vigotsky considerava a actividade


partilhada o mais importante dos meios
socioculturais de desenvolvimento; era,
na sua opinião, o modo fundamental de
aprender. É, no entanto, mais fácil falar
das interacções professor-aluno como a
base da aprendizagem bem sucedida, do
que, efectivamente, planear essas interac-
ções numa situação de aprendizagem real.
Segundo Vigotsky, nem todas as formas
REDESCOBRIR VIGOTSKY

de organizar actividades de aprendizagem


partilhadas, ou repartidas, irão permitir às
crianças dominar novos meios e estraté-
gias de resolução das tarefas de aprendi-
zagem. Foi Alexei Leonteev, aluno de Vi-
gotsky, quem primeiro se debruçou sobre
essa questão chave: planear actividades
partilhadas que influenciem o desenvolvi-
mento da criança.

13 Investigar a interacção
O método dos “pesos” ilustra a forma de Planear deste modo a actividade partilhada representar os problemas que resolvem e
organizar uma actividade conjunta eficaz, ajuda as crianças a compreender a relação os passos de cada parceiro para a solução
neste caso para que crianças de sete a nove entre pesos e distâncias e a utilizar a gene- do problema.
anos compreendam as relações complexas ralização desta compreensão para resolver Outro meio eficaz de organizar a resolução
entre coisas. Duas crianças têm de traba- problemas específicos de equilíbrio. Esta interactiva de problemas é preparar um
lhar em conjunto para equilibrar uma série generalização da compreensão permite- “conflito de aprendizagem”, por exemplo
de pesos num braço calibrado, movendo, lhes: coordenar entre si as acções; aplicar a limitar os materiais ou as operações. O pri-
acrescentando ou retirando pesos. Para re- novas situações esta forma geral de coor- meiro pode implicar a remoção de alguns
solver este problema, têm de ter em conta denar acções individuais; e adaptar o modo objectos essenciais ou a introdução de
a relação entre cada peso e a sua distância de coordenar as acções de cada um, quan- um objecto “inadequado” ou supérfluo, de
relativamente ao centro de gravidade do do a tarefa muda. forma a exigir dos participantes uma aná-
braço. Um participante tem a possibilidade Coordenar acções com um parceiro pro- lise cuidadosa. A segunda pode envolver
de mover os pesos no braço, mas não de os move o pensamento reflexivo da criança. a criação de condições que obriguem os
acrescentar ou retirar; o outro pode aumen- Mas, só por si, não garante que seja capaz participantes a reestruturar previamente os
tar ou reduzir o número de pesos, mas não de identificar os elementos essenciais da métodos de interacção adoptados.
movê-los. Esta divisão de actividades exige, tarefa e de realizar as acções apropriadas A criação destes conflitos apoia vários
por conseguinte, que os dois participantes que os implicam. É necessário usar outros tipos de acção partilhada: análise e se-
trabalhem em conjunto, coordenando as meios para aumentar a eficácia de activi- lecção, avaliação do método proposto e
suas acções, a fim de resolver a tarefa com dades de aprendizagem partilhada, tais adequação da sua implementação; pon-
êxito. Quando as crianças passam para o como a utilização por parte das crianças deração comparativa da eficácia dos di-
problema seguinte, trocam de papel. de modelos simbólicos e pictóricos para ferentes modos de implementar a activi-
dade partilhada. A resolução de conflitos desta documentação permite às crianças vista da sua contribuição para o objectivo
de aprendizagem envolve, ao contrário pesquisar independentemente métodos partilhado.
da dos conflitos pessoais, uma expressão eficazes de resolução de problemas. Para alcançar níveis mais avançados de
emocional relativamente controlada, dado resolução de problemas, as crianças têm
que os parceiros se centram em se sim ou As crianças participam neste trabalho de de ser capazes de chegar à cooperação, o
não cada solução proposta é consistente grupo com muito entusiasmo. Empenham- terceiro modo de acção. É bastante óbvio
com a estratégia geral que adoptaram e se se activamente na discussão de métodos que a capacidade de coordenar as acções
o processo de acção que acordaram fun- de resolução de problemas e dos registos de cada um com as dos outros e a capa-
ciona numa nova situação. que fizeram nos seus diários. Cada partici- cidade de estabelecer uma comunicação e
pante está desejoso de justificar os seus cooperação mútuas são indicadores extre-
métodos e de avaliar outras sugestões. mamente importantes do desenvolvimento
Pôr a investigação em prática São feitas muitas perguntas ao profes- psicológico das crianças. Estas conclusões
Foram introduzidos programas para ensinar sor acerca dos métodos escolhidos pelos provam as ideias de Vigotsky.
a língua russa, artes e física com base no membros do grupo e a sua adequação. As No geral, a investigação inspirada pela te-
trabalho realizado na Escola Experimental crianças avaliam as suas próprias acções, oria de Vigotsky demonstra a importância
nº 91 em Moscovo (escolas experimentais não só em termos da sua eficácia, mas das condições criadas pelo professor para
REDESCOBRIR VIGOTSKY

são aquelas em que os novos métodos também de como se enquadram nas ac- que as crianças participem em actividades
educativos propostos por investigadores ções dos outros membros do grupo. partilhadas de aprendizagem. A condição
são aplicados à prática). Nestes progra- Os resultados de muitos anos de pesquisa mais importante é garantir que a atenção
mas, a actividade partilhada do professor demonstram que as crianças conseguem dos participantes esteja centrada no con-
e das crianças é caracterizada por: dominar estes novos métodos de resolver teúdo do problema e, simultaneamente,
problemas, dentro de um grupo. Conse- nas maneiras de cada um coordenar com o
• O adulto e grupos de crianças a traba- guem usar a experiência para completar seu parceiro as acções direccionadas para
lham em conjunto, consistindo esse traba- novas tarefas. As conclusões também in- a resolução do problema. É importante
lho na resolução prática de tarefas. dicam que essas capacidades de resolução planear actividades partilhadas de modo a
de problemas em grupo se mantêm, para conterem exigências que imponham alguns

14 • As crianças, trabalhando em grupo,


investigam as condições para organizar o
a maioria das crianças, pelo menos até ao
fim da educação escolar. Mais ainda, de-
constrangimentos às acções de cada crian-
ça, para que se envolva cada vez mais em
trabalho interactivo, registando as suas terminados modos de cooperação entre processos de pensamento reflexivo. Des-
acções em “diários de estudo” com essa crianças estão relacionados com determi- se modo, a criança poderá, por um lado,
finalidade e discutindo os resultados al- nadas formas de cooperação na resolução voltar-se para a acção de outro participan-
cançados pelo grupo. As actividades par- de problemas. te e, por outro, estruturar a acção mútua
tilhadas incluem também a troca de diários – relacionando as suas acções com as do
entre grupos, a discussão mútua do traba- • o primeiro modo – abordagem indi- outro. Como foi anteriormente observado,
lho e a criação por parte de um grupo de vidual – caracteriza-se por os participan- estes processos podem ser facilitados pelo
problemas para outro resolver. tes não encararem a solução do problema uso abundante de modelos simbólicos e
como uma tarefa conjunta; pictóricos.
• O professor organiza as actividades À medida que as crianças se dedicam a ac-
partilhadas quer intra-grupo quer entre • o segundo modo – acção paralela – tividades partilhadas e começam a encarar
grupos. Não demonstra como se fazem as caracteriza-se por a acção de um parceiro as tarefas em que trabalham como tare-
tarefas, mas orienta as crianças, organi- ser considerada subordinada á do outro, e fas conjuntas, há uma mudança na forma
zando situações educativas específicas. poder, por isso, “legitimamente” impor-se- como vêem as suas próprias acções o que,
lhe; finalmente, permite uma maior flexibilidade
• O uso de modelos pictóricos e gráfi- dessas acções. Nesse momento, conse-
cos (como desenhar uma balança com pe- • o terceiro modo – cooperação – ca- guem ultrapassar o egocentrismo das suas
sos posicionados de maneiras diferentes) racteriza-se por a acção de um e outro dos próprias acções e desenvolver as compe-
para representar tanto as actividades em parceiros e também as maneiras de as co- tências necessárias para uma cooperação
si como os seus resultados. O intercâmbio ordenar serem consideradas do ponto de bem sucedida.
A ZDP, zona de desenvolvimento
próximo
Bert van Oers
* Professor no Departamento de Teoria e Investigação em Educação, da Universidade Livre de Amesterdão
HJM.van.Oers@psy.vu.nl

Bert van Oers analisa diferentes perspec-


tivas de um dos conceitos centrais de Lev
Vigotsky

Educação, desenvolvimento
e aprendizagem
Teorias recentes em pedagogia defendem
que a aprendizagem escolar não deve es-
tar apenas centrada no domínio de tarefas
cognitivas. Deve, também, promover o de-
senvolvimento das crianças num sentido
mais lato, incluindo o desenvolvimento da
identidade.
Como compreender os processos de apren-
dizagem que podem estimular o desenvol-
REDESCOBRIR VIGOTSKY

vimento da identidade da criança – a sua


capacidade pessoal de participar conscien-
te e reflexivamente em práticas culturais?
Nos últimos anos, as ideias de Vigotsky
tornaram-se cada vez mais relevantes para
os debates sobre a inovação nas práticas
educativas. Segundo Vigotsky, a boa edu-
cação deve estar sempre um passo à frente
dos alunos, ajudando-os a apropriar-se de
novas acções e promovendo, deste modo,

15 o desenvolvimento. Vigotsky afirmou que


o desenvolvimento se baseia na formação
área potencial de processos de aprendiza-
gem, “a zona de desenvolvimento próximo”
mento potencial não pode ser avaliado em
termos absolutos (por exemplo, através
de estruturas complexas das funções psi-
que, em condições adequadas, pode pro- dos resultados num teste de inteligência),
cológicas, na motivação e na relação com
mover neoformações e, por conseguinte, o devendo basear-se no que a criança é ca-
o Mundo. Promover o desenvolvimento
desenvolvimento. paz de aprender em condições óptimas
significa promover inovações nessas es-
  (por exemplo, com apoio). Mais tarde, no
truturas complexas, através da formação
seu trabalho, Vigotsky centra-se mais nas
de novas capacidades de pensamento de
O que é a ZDP? condições necessárias para criar a zona de
nível mais elevado, de novas motivações e
A noção de zona de desenvolvimento pró- desenvolvimento próximo. A zona passou a
de novas atitudes: o que Vigotsky desig-
ximo é provavelmente um dos mais famo- ser um conceito educativo.
na de novoobrazovanie, e que traduzo por
sos conceitos da teoria de desenvolvimen- A maioria das definições parte da definição
“neoformações”.
to de Vigotsky, de que amplamente se usa operacional da zona como a diferença entre
Ao discutir os processos de aprendizagem
e abusa na investigação e na prática. a resolução independente de problemas e
que podem promover desenvolvimen-
Há ainda muita confusão acerca da sua os desempenhos da criança com o apoio de
tos desse tipo, Vigotsky faz notar que os
definição e pretendo propor um conceito adultos ou de colegas com maiores conhe-
educadores devem ter em conta o nível
de zona de desenvolvimento próximo que cimentos. No entanto, esta “regra da dis-
de funcionamento que as crianças já ad-
seja consistente com as ideias educativas crepância”, ao centrar-se no desempenho
quiriram – o nível de desenvolvimento real.
globais de Vigotsky. de tarefas específicas por uma determinada
Mas acentua que, com apoio adequado,
A zona é uma noção que teve evoluções no criança, atraiçoa as verdadeiras intenções
as crianças podem atingir mais do que se
trabalho de Vigotsky. Inicialmente, usou o educativas do conceito. A importância que
poderia esperar com base no seu nível de
conceito como um indicador de potencial Vigotsky atribui ao apoio de outros mostra
desenvolvimento real. Este apoio cria uma
intelectual, defendendo que o desenvolvi- que a zona não é uma qualidade específica
da criança, nem uma qualidade específica samento e Linguagem, escreve Vigotsky: ticipação nas práticas socioculturais. Esta
do ambiente educativo ou dos educadores. O aspecto central de toda a psicologia edu- afirmação não se encontra no trabalho de
Pelo contrário, é essencialmente uma acti- cacional consiste na possibilidade de transi- Vigotsky, mas pode ser facilmente inferida.
vidade partilhada, produzida em colabora- ção para um nível mais elevado de funcio- A imitação refere-se ao facto de que a ac-
ção, na interacção da criança com outros namento cognitivo através da colaboração, tividade cultural é preexistente à criança e
mais conhecedores. As traduções da zona a transição do que a criança já é capaz de pode ser por ela emulada, ao participar nes-
como um “potencial de aprendizagem” fazer para o que ainda não consegue fazer ta actividade a partir das capacidades que
(muito comuns a partir de 1970) concebem- com a ajuda da imitação. É este o funda- possui no momento. A criança recebe ajuda
-na como uma das qualidades do indivíduo mento do sentido da educação para o de- das acções ou funções dessa actividade, que
que aprende. Nesta situação, a zona fun- senvolvimento e que, na realidade, coincide ainda não consegue fazer sozinha. Na minha
cionaria quase como um sinónimo de Q.I., com o conteúdo da zona de desenvolvimen- opinião, a zona de desenvolvimento próxi-
reportando-se à capacidade geral de uma to próximo. Se se conceber a imitação num mo refere-se à área de desenvolvimento de
pessoa para aprender coisas novas – mas sentido lato, esta constitui a forma principal neoformações, que é revelada quando os
não era isso que Vigotsky queria dizer. de a educação exercer influência no desen- alunos participam em actividades sociocul-
Para contrariar este cenário, é preciso com- volvimento (sublinhado meu). turais, em que querem participar e em que
preender a importância da mudança no pen- Ao elaborar a noção de imitação, Vigotsky são capazes de dar sentido à participação,
REDESCOBRIR VIGOTSKY

samento de Vigotsky, no sentido da zona sublinha que não deve ser confundida com a mas em que necessitam de mais ajuda para
como conceito educativo. Esse pensamento mera cópia das acções concretas dos outros. se apropriarem das novas acções e funções
é aprofundado num artigo sobre a interac- A imitação é antes de mais, para Vigotsky, a que essas actividades encerram.
ção entre aprendizagem e desenvolvimen- emulação de uma actividade cultural. Esta relação intrínseca entre imitação e
to. Argumenta que “a plena compreensão participação é da maior importância para a
do conceito de zona de desenvolvimento prática educativa. Na última década, através
próximo deve ter como consequência uma Imitação e participação de diversos estudos em sala de aula, encon-
reavaliação do papel da imitação na aprendi- Não se pode ultrapassar o que o próprio trei vários exemplos da fecundidade desta
zagem”. (sublinhado meu). Vigotsky escreveu e dizer que a imitação interpretação do trabalho de Vigotsky. Por
No seu último e fundamental trabalho Pen- está directamente relacionada com a par- exemplo, quando as crianças estão a come-

16 çar a aprender a ler, procura-se envolvê-las


em actividades comunicativas num sentido
lato, em que participam com os seus pró-
prios meios e em que são encorajadas a
inventar novas formas de comunicação. As
crianças não começam imediatamente a ler,
mas partem de ser escritores e de inventar
e melhorar os instrumentos da escrita. A
partir da compreensão do seu papel como
escritores, podem imaginar as intenções do
escritor de um livro e aprender a interpretar
a sua escrita, através da aquisição gradu-
al – e com ajuda – das técnicas da leitura
como acto comunicativo.
Envolver deste modo as crianças em acti-
vidades culturais cria uma zona de desen-
volvimento próximo em que conseguem
imitar essa actividade cultural. Ao imitar
neste contexto com ajuda de outros,
apropriam--se de instrumentos culturais
significativos, como a leitura, a escrita, a
matemática, etc.
Vigotsky, um amigo da prática
Leif Strandberg
* Psicólogo, trabalha na Suécia
leifstrandberg.ab@telia.com

-infância e não o que têm na cabeça que gem e no desenvolvimento. As crianças não
é decisivo para o seu desenvolvimento. O usam apenas as relações, os instrumentos
que está nas suas cabeças é uma série de e as situações. Também os recriam. Não
actividades anteriores externas e conjun- são apenas utilizadores de instrumentos,
tas, apoiadas por instrumentos e situadas também os constroem. É, por isso, impor-
em contextos culturais específicos. tante que as crianças tenham liberdade
para fazer as coisas à sua maneira, que lhes
seja permitido usar todas as que Loris Ma-
Actividade conjunta é a palavra-chave laguzzi chamou as suas “cem linguagens”,
Vigotsky menciona quatro dimensões nas para que desenvolvam a sua capacidade de
actividades de aprendizagem da criança. Em construtoras de significados.
primeiro lugar, a dimensão social. A compe- Estas quatro dimensões ajudam a criança a
tência de cada criança tem a sua origem em dar um passo em frente. Já que a palavra-
diferentes formas de interacção com ou- -chave é actividade, aceitar a perspectiva
tros. Vigotsky fala de um modelo em dois de Vigotsky abre, nos jardins-de-infância,
tempos. A aprendizagem ocorre duas vezes: um mundo muito prático para crianças
REDESCOBRIR VIGOTSKY

Leif Strandberg apresenta exemplos sue-


cos de métodos práticos para aplicar as primeiro em conjunto, depois a sós. A crian- e educadores. Vigotsky liberta adultos e
ideias de Vigotsky à educação de infância ça está simplesmente a pedir emprestada a crianças de uma pedagogia retrospectiva,
competência de um amigo. Quando não sei diagnóstica e resignada e leva uns e outras
Dar um passo em frente! fazer alguma coisa, peço a um amigo mais para um mundo de actividades – onde se
A vida humana é uma aventura fantástica. esperto que ma empreste e depois consigo olha em frente e não apenas para trás,
A capacidade de passar do que não se sabe fazê-la sozinho. Em cooperação com outros, onde se faz e realiza e não apenas explica,
para o que se sabe, e do que se sabe para a criança consegue “realizar uma cabeça e onde se tem esperança. É uma questão
o que não se sabe, é verdadeiramente fas- mais acima”, como expressa Vigotsky. de desenvolver as interacções entre crian-
cinante e enche de esperança: é possível Em segundo, a dimensão do instrumento. ças e adultos e das crianças entre si; das
avançar, há possibilidade de dar um passo Contestando o primeiro modelo de desen- crianças terem acesso a instrumentos e pa-

17 em frente! A pedagogia da educação pré-


-escolar consiste em ajudar as crianças a
volvimento, Vigotsky introduz o conceito
de mediação. Uma criança activa usa sem-
lavras; de variar as salas; e de envolver as
crianças como parceiros criativos.
dar esses passos. pre instrumentos e signos. Estes contêm Os textos de Vigotsky podem parecer difí-
O que leva a dar esses passos? Por que se conhecimento armazenado, que as crian- ceis, mas os métodos construídos sobre as
quer avançar? Há dois modelos explicativos. ças usam nas suas actividades. Sem contar suas teorias são simples, baratos, agradá-
Um baseia-se nas teorias que defendem pelos dedos, não haverá cálculo mental. A veis e práticos – e produzem efeitos ime-
que as respostas podem ser encontradas palavra é um instrumento particularmente diatos. A criança sente-se capaz de agir,
no interior do apetrechamento mental do importante, pois influencia e transforma a pensar, planear, sentir e querer de maneira
indivíduo e que o desenvolvimento nasce maneira de pensar. totalmente diferente quando lhe é permiti-
da maturação. Tem de se passar algo de er- Em terceiro lugar, a dimensão contextual. do agir com “uma cabeça mais acima” em
rado com a criança que não se desenvolve As actividades de aprendizagem da criança actividades conjuntas, que reconhecem a
correctamente. Esta teoria é um beco sem não se fazem no vácuo. Ocorrem sempre competência da criança. Vigotsky chama a
saída para a criança. em situações específicas e em contextos este tipo de actividade “zona de desenvol-
Para refutar este modelo, Vigotsky de- culturais, por exemplo, em salas. Estes con- vimento próximo”.
senvolveu uma perspectiva totalmente textos contêm competências, a criança pede Dar um passo em frente é uma aventura,
diferente: a psicologia histórico-cultural. A emprestadas as competências da sala. Por mas não um mistério. É possível dar um
voz de Vigotsky está plena de esperança. O isso, “Onde estás quando aprendes?” é uma passo em frente, juntamente com os ou-
desenvolvimento não é uma questão indi- importante questão pedagógica. Algumas tros, o que deve parecer maravilhoso a um
vidual, não desabrocha a partir do mundo salas ajudam, outras impedem a aprendiza- educador. O facto de o desenvolvimento
mental interior. Baseia-se, pelo contrário, gem. emanar de relações dá verdadeiro sentido a
na vida real e prática que a criança leva. Por último, a dimensão criativa. Actividades ser educador e amigo. Eu faço a diferença.
É o que as crianças fazem no jardim-de- criativas têm consequências na aprendiza- Eu significo alguma coisa.
Trabalhar com Vigotsky rentes aspectos do trabalho em equipa: da criança está relacionado com a qua-
O programa educativo dos jardins-de-in- por exemplo como as crianças dão e par- lidade da interacção adulto-criança. Há
fância suecos (centros para crianças de 1 a tilham com outros, como se ajudam mu- sempre duas pessoas envolvidas num acto
6 anos) e das escolas inspira-se nas ideias tuamente, como pensam e fazem planos sociocultural. Os educadores decidiram in-
de Vigotsky. Participei, durante muitos em conjunto. A ideia do jogo reside em cidir mais na linguagem, trabalhando com
anos, em projectos de desenvolvimento as crianças, divididas em pequenos gru- a “Palavra da Semana”. Todas as semanas,
para aplicar essas ideias. A seguir, encon- pos, tirarem uma fotografia e um cartão era introduzida uma palavra nova e inte-
tram-se breves descrições de exemplos (os adultos ajudam-nas a ler a pergunta). ressante que era utilizada com as crianças.
de métodos práticos que os professores O grupo responde então à pergunta e Simples e banal? Sim. Vigotsky é pragmá-
desenvolveram. também demonstra concretamente como tico. Vigotsky convida a fazer.
se ajudam mutuamente; as fotografias Muitas vezes o que parece evidente nun-
auxiliam as crianças a ver que já realizam ca chega mesmo a ser feito porque os
actividades em conjunto e, no jogo, têm a adultos “estão à espera que a criança
Interacção oportunidade de aprender os nomes des- amadureça” – como à espera de Godot...
sas actividades. Todas as actividades que No mundo de Vigotsky “a aprendizagem
Pergunta a três amigos estimulam as crianças a agir em conjunto precede o desenvolvimento”, o que sig-
REDESCOBRIR VIGOTSKY

Este método visa habituar as crian- constituem um passo importante. nifica que os professores podem desafiar
ças a pedir ajuda a outras. As crian- as crianças com o que ainda não sabem.
ças habitualmente voltam-se para o Novas palavras podem ser um desses de-
adulto por nunca terem aprendido Instrumentos e linguagens safios. As palavras são importantes para
que é correcto perguntar a um amigo. Artefactos mediadores o pensamento lógico, abrindo um espaço
As crianças incentivadas a “perguntar A participação das crianças pequenas na para o desenvolvimento conceptual se re-
a três amigos” descobrem que acon- mudança das fraldas é muitas vezes pas- alizar.
tecem coisas boas se se atreverem a siva. Num jardim-de-infância, as crianças
perguntar: os amigos podem ajudar. são incentivadas a fazer algumas coisas
sozinhas, tal como tirar a fralda e pô-la no Salas

18 Os três devem saber


caixote do lixo. Foram colocados bonecos
diferentes no fraldário. Uma menina, que
Pensar e aprender são contextuais, apren-
dem-se coisas diferentes em situações
Desafiámos as crianças a resolver ta- ainda não sabia falar, usou estes bonecos diferentes. Que tipo de salas temos? Como
refas em conjunto e não ficarem sa- de um modo inteligente. Em cada fralda podemos utilizá-las? Num jardim-de-infância
tisfeitas até todos os elementos do havia imagens de animais diferentes. Era fizemos uma visita sociocultural às ins-
grupo as saberem fazer. As crianças evidente que menina queria uma fralda talações e colocámos as seguintes per-
são encorajadas a tornar-se profes- com uma determinada imagem, mas não guntas: em que tipo de sala um grupo de
sores uns dos outros e demonstra- conseguia encontrar a que queria. Então crianças achará fácil ser ouvido, discutir
ram ter jeito para se ajudarem umas foi procurar um brinquedo que correspon- e, também, interagir? Em que tipo de sala
às outras, se tiverem essa oportuni- desse à imagem que desejava. Trouxe um será fácil pedir emprestada a competên-
dade. gato e foi, assim, capaz de achar a ima- cia de um amigo mais capaz? Há um local
gem do gato. Depois disto, o pessoal do onde a criança se possa sentar e falar alto
infantário aprendeu a usar artefactos me- bem como estar em silêncio e só? Como
diadores em todas as interacções. deve ser equipada e decorada a sala para
estar “uma cabeça mais acima” da crian-
Trabalhar em conjunto – um jogo ça, noutras palavras, ser desafiadora? Que
sobre trabalho em equipa Palavras possibilidades escondidas existem nos
Há num jardim-de-infância uma caixa com Num outro jardim-de-infância, os edu- ambientes exteriores? Que tipo de sala
muitas fotografias de crianças em todos cadores consideravam que as crianças ajuda a criança a concentrar-se?
os tipos de actividade conjunta. Escreve- tinham uma linguagem pobre. Mas ao re- O objectivo não era construir novas salas.
mos perguntas em cartões e colocámo-los flectirem, com a ajuda de Vigotsky, perce- Tratou-se, em geral, de uma questão de
noutra caixa. As perguntas incluíam dife- beram que o desenvolvimento linguístico usar tapetes, cadeiras, mesas, coberto-
res e almofadas existentes para ajudar
as crianças a usar diferentes salas com
diferentes finalidades. Umas favorecem o
diálogo e outras, o trabalho em equipa em
grandes grupos, enquanto certos locais
ajudam as crianças a estar sós para orga-
nizarem o seu “discurso interior”.

Criatividade
O jardim-de-infância é um contexto ideal
para o jogo, a imaginação e a criatividade,
actividades que são mesmo importantes
quando as crianças estão para dar um
passo em frente. O jogo, escreve Vigotsky,
é o método próprio da aprendizagem das
REDESCOBRIR VIGOTSKY

crianças: “o jogo cria uma zona de desen-


volvimento próximo para a criança... no
jogo é como se estivesse uma cabeça aci-
ma da sua.” Muitas vezes basta dar espaço
ao jogo das crianças para que elas próprias
inventem diferentes formas de brincar. No
entanto, alguns jardins-de-infância esta-
beleceram as seguintes actividades.

parte do jardim-de-infância e as crianças as actividades e, num momento oportuno,


19 Oficina de Trapalhadas
Um jardim-de-infância tinha um canto
têm muitas oportunidades para descobrir
novas orientações de pensamento. Mas,
introduzi-los na terminologia matemática.
Este pequeno projecto também ajudou a
cheio de trapalhadas, como computadores numa escola secundária, o jogo foi usado estabelecer uma continuidade entre o tra-
partidos, bicicletas e tecidos. Os educado- para permitir que os adolescentes chegas- balho pedagógico do jardim-de-infância e
res incentivavam as crianças a desmontá-los sem a novos níveis de abstracção na ma- da escolaridade obrigatória. Temos a mes-
e a usar as peças para construir coisas no- temática e na física. ma tarefa, mas trabalhamos de maneiras
vas, a “criar por eles alguma coisa”. diferentes.

As crianças pequenas
Metodologia do jogo fazem matemática Conclusão
e zona de desenvolvimento próximo Foi pedido ao pessoal duma escola para O objectivo do meu artigo é demonstrar
Há vários elementos que podem ser inclu- dar uma especial atenção à matemática. quão fácil, simples e barato pode ser tra-
ídos no jogo das crianças para as ajudar a Um grupo de supervisores de creche, tra- balhar pedagogicamente utilizando uma
dar um passo em frente. Um é a visualiza- balhando com crianças mais novas, inter- perspectiva sociocultural, onde as inte-
ção de um objecto que não existe. Uma rogou-se se esse pedido teria a ver com a racções, instrumentos, salas e criatividade
cadeira pode transformar-se num barco. sua acção. Mostraram-me fotografias de geram uma zona de desenvolvimento pró-
Essa capacidade de visualização – dando actividades diárias das crianças e discuti- ximo. As perspectivas de Vigotsky ajudam
significado a um objecto – é um aspecto mos se incluíam matemática. Era emocio- as crianças a dar um passo em frente. Vi-
importante para o desenvolvimento do nante ver que muitos conceitos matemá- gotsky leva a querer fazer, experimentar,
pensamento abstracto, por outras pala- ticos podiam ser, realmente, descobertos ousar. E ao apoiar o desenvolvimento das
vras, para encontrar uma nova orientação nestas actividades. Tendo-o percebido, crianças, tanto estas como os adultos se
de pensamento. O jogo faz naturalmente podiam ajudar as crianças a prosseguir com devem divertir.
O valor do jogo será realmente
compreendido?
Pentti Hakkarainen
* Consórcio do Campus de Kajaani, Universidade de Oulu, Finlândia.
phakkar@sun3.oulu.fi

Pentti Hakkarainen apresenta investiga- lhor forma a criatividade e o desenvolvimen- a resolução de problemas que se verifica
ções, inspiradas pelas ideias de Vigotsky, to das crianças. Tanto o clube de jogo como quando há ajuda de outro competente (nor-
que aprofundam as relações entre jogo e a sala de aula reunindo diferentes idades malmente, o professor). Mas como é que o
desenvolvimento, tinham como objectivo apoiar a iniciativa e adulto pode ajudar a criança a brincar? Na
a imaginação das crianças. As crianças po- tradição nórdica, tem-se como ideal o “jogo
Na Finlândia, bem como em todos os pa- diam escolher entre diferentes actividades livre” das crianças, em que o adulto tem o
íses nórdicos, o jogo da criança tem um criativas no clube: actividades para todo o papel de espectador que não intervém no
estatuto especial na educação de infância grupo, actividades em pequenos grupos seu desenrolar. Por outro lado, está a ser
(EI). Há documentos oficiais que relacio- distribuídos por diversas áreas e actividades cada vez mais introduzido na educação de
nam o desenvolvimento da criança com a individuais. Procurou manter-se o equilíbrio infância um ensino directo de transmissão
experiência de brincar. Mas como, é que o entre as actividades da iniciativa da criança de conhecimentos, como aspecto necessá-
jogo desenvolve a criança e qual o melhor e da iniciativa do adulto, e fornecer espaço rio à preparação para a escola.
tipo de jogo no quotidiano? Apesar de ha- e tempo suficientes para o jogo individual. Procuramos encontrar a solução combinan-
ver uma atitude favorável, estas questões As crianças da sala, integrando diferentes do formas directas e indirectas de apoio do
não são tratadas nas orientações curricu- idades, trabalhavam 60 a 70% do tempo em adulto no jogo e na aprendizagem. Porquê?
lares para a EI; por exemplo, o Currículo diferentes “enquadramentos narrativos”: Consideramos que, para crianças peque-
REDESCOBRIR VIGOTSKY

Finlandês para a Educação Pré-Escolar tra- mundos conjuntos de fantasia (descritos nas, a experiência emocional e a atribuição
ta detalhadamente modos de desenvolver abaixo), jogo temático, projectos narrativos de significado são sempre componentes
o domínio cognitivo, mas não de métodos e jogos. O tempo restante era diversificado, essenciais do processo de aprendizagem. O
de jogo. Posteriormente, na escola, o jogo trabalho escolar para o primeiro e segundo conhecimento objectivo e os simples fac-
é apenas proposto como método comple- anos e actividades de jogo para as crianças tos são para a criança elementos estranhos
mentar, para tornar o ensino mais interes- mais novas. A diversificação era possível por à sua compreensão do Mundo. A imagi-
sante. haver uma equipa de 3 adultos (professor do nação é o factor básico na aprendizagem
1º ciclo, educador de infância e auxiliar de da criança, mesmo para dominar conheci-
educação) a trabalhar na sala. mentos e capacidades que têm a ver com
Investigação experimental sobre jogo a realidade.

20 A relação entre jogo e desenvolvimento


constituiu a primeira temática de investi- Criar a “zona
gação experimental sobre jogo do Centro de desenvolvimento próximo” A criação de mundos de fantasia
de Investigação de Ensino e Aprendizagem Como é que os adultos ajudam a criar a No trabalho experimental que realizamos,
para o Desenvolvimento no campus de zona de desenvolvimento próximo no jogo adultos e crianças constroem “mundos de
Kajaani da Universidade de Oulu (http:// e em enquadramentos narrativos? A defini- fantasia” partilhados em torno de temas
www.kajaaninyliopistokeskus.oulu.fi/tutki- ção “padrão” da zona de desenvolvimento importantes para a vida das crianças. Os
muskonsortio/developunit.htm). O ponto próximo dá realce à aprendizagem como professores iniciam habitualmente o mun-
de partida teórico foi o enigmático co-
mentário de Vigotsky, “o jogo cria sempre
a zona de desenvolvimento próximo”, que
pode parecer uma promessa vazia. Mas os
trabalhos experimentais que realizámos
em clubes de jogo criativo para crianças
(do nascimento aos 6 anos) e em salas de
aula que reuniam diferentes idades (dos 4
aos 8) demonstram que se deve interpretar
este comentário em articulação com outras
ideias de Vigotsky sobre o desenvolvimen-
to da criança e o jogo.
O nosso desafio foi criar ambientes de jogo
e aprendizagem que promovessem da me-
do de fantasia contando uma bela história trassem na cave do castelo (a cave da es-
ou lenda. É por exemplo contada a história cola). Decidiram que Rumpelstiltskin tinha
dos duendes de Moomin e construído em medo do vermelho, por isso todas pintaram
conjunto um mundo imaginário. O mundo os escudos de vermelho. Achando que não
da fantasia constitui uma actividade sema- bastava, inventaram um feitiço contra os
nal durante 5 a 7 meses e tanto as crianças poderes mágicos de Rumpelstiltskin. Esse
como os professores podem introduzir no- feitiço estava escrito no interior de cada es-
vos elementos. Por exemplo, os professo- cudo e era pronunciado em voz alta à porta
res podem ajudar as crianças a elaborar o da cave. Curiosamente, as crianças que cos-
tema, representando um determinado pa- tumavam ser mais gabarolas e destemidas
pel ou cena depois de ter observado o jogo nas situações do dia-a-dia não se manifes-
livre das crianças. taram nessa altura tão corajosas.
Tem sido difícil convencer os directores O que é importante neste exemplo? Não
das escolas de que o mundo de fantasia se trata de “jogo livre” das crianças: os com muito entusiasmo, e somos, por vezes,
pode ser um ambiente de aprendizagem adultos criaram novas situações imaginá- acusados de que este tempo é “roubado à
mais eficaz do que o das aulas tradicionais. rias, representaram-nas, desempenhando
REDESCOBRIR VIGOTSKY

verdadeira aprendizagem”. Este argumento


Chamamos a atenção para o desenvolvimen- papéis. Por que é isto necessário? Nos baseia-se na ideia de que apenas os traba-
to da imaginação, da iniciativa das crianças, jardins-de-infância encontram-se poucas lhos e as tarefas que são distribuídos em
e para a vontade de mudar as características crianças capazes de criar enredos de jogo, cada matéria escolar e as explicações do pro-
pessoais de cada um, questionando como os períodos de jogos são curtos e com fessor podem conduzir à “verdadeira apren-
pode um adulto ajudar as crianças a desen- apenas dois ou três participantes. Mesmo dizagem”. A indicação do que é essencial na
volver essas qualidades. O nosso trunfo tem as crianças mais velhas (dos 4 aos 6 anos) aprendizagem põe em causa esta ideia de
sido o conceito de instrumentos psicológicos ainda brincam com objectos ou sozinhas. educação. No jogo, tudo faz sentido para as
de Vigotsky. A elaboração conjunta de um mundo de crianças, mas no ensino “normal” do 1º ciclo
fantasia cria situações imaginárias desafia- as crianças precisam de ser motivadas para
doras, nas quais as crianças têm de tomar resolver as tarefas que lhes são propostas.
21 Instrumentos psicológicos
Que instrumentos são esses? Vigotsky iden-
iniciativas, desempenhar papéis e resolver
problemas complicados. O conceito de jogo
Essas tarefas escolares não fazem parte do
mundo e da criatividade das crianças; em
tificou dois tipos de instrumentos: os tradi- de Vigotsky sublinhou estes aspectos como muitos casos o ensino não visa ampliar a
cionais, como um martelo ou serra que se o mecanismo desenvolvimental do jogo. As iniciativa das crianças, mas limitá-las muito.
usam para mudar objectos do ambiente; e crianças modificam o seu comportamento, Em resumo, há uma grande diferença entre
os instrumentos psicológicos, usados para ao usar o papel que representam como jogo e “aprendizagem escolar séria” na pro-
mudar a vida psicológica. Um belo exem- instrumento psicológico. Desempenhar um moção da iniciativa das crianças.
plo de instrumentos psicológicos passa-se papel e criar uma situação imaginária im- Concluímos, a partir do nosso trabalho, que
numa das nossas salas de aulas. Há cerca plica adoptar regras culturais escondidas, os mundos de fantasia e as actividades nar-
de dois meses as crianças tinham visitado que guiam acções; por exemplo, a manei- rativas criam uma comunidade de aprendizes
o mundo de fantasia de Rumpelstiltskin. O ra como a criança desempenha o papel de envolvidos e activos: implicam as emoções e
mensageiro do rei (papel representado pelo mãe está intimamente relacionada com o a curiosidade das crianças; introduzem um
professor) introduz uma nova reviravolta na modo como é tratada no seu ambiente tópico ou tema humano/pessoal importan-
aventura do mundo de fantasia, anuncian- cultural. Na psicologia vigotskyana, o jogo te, apelam a respostas, discussão, partilha e
do que Rumpeltiltskin tinha capturado as do faz-de-conta da criança foi chamado “a reflexão; e envolvem as crianças na solução
pessoas da corte, tendo-as prisioneiras nas escola da vontade e motivação”. dos problemas colocados pelo mundo de fan-
caves escuras do castelo. Seriam os meninos tasia. Em Kajaani, consideramos que o apoio
capazes de as libertar? Inconscientemente, dado pelos adultos às iniciativas e experiên-
as crianças começam a preparar instrumen- Criar uma comunidade de aprendizes cias das crianças conduz a mudanças reais no
tos psicológicos que as ajudassem a vencer envolvidos e activos desenvolvimento e cria uma zona de desen-
o medo. Todas as crianças recortaram um No nosso exemplo de mundo de fantasia, os volvimento próximo tanto no jogo, como na
escudo de cartão para levarem quando en- alunos do primeiro e segundo anos brincam aprendizagem.
As ideias de Vigotsky
nas novas democracias
Tatjana Vonta
* Directora do Centro de Investigação em Desenvolvimento - ISSA, Lubliana, Eslovénia
tatjana.vonta@amis.net

Tatjana Vonta descreve a influência que


estão a ter as teorias de Vigotsky em
novas práticas pedagógicas de países da
Europa de Leste

A educação de infância no sistema comunis-


ta tinha uma estrutura hierárquica e autori-
tária, muito influenciada por uma abordagem
behaviorista do desenvolvimento da criança,
e por um paradigma de ensino transmissi-
vo. O trabalho do professor consistia em
implementar actividades para todo o grupo,
de acordo com os programas aprovados, os
planos e manuais escolares, em que todas
as crianças faziam e aprendiam as mesmas
coisas, ao mesmo tempo. As oportunidades
REDESCOBRIR VIGOTSKY

para as crianças escolherem e brincarem


com jogos ou materiais não eram valoriza-
das como experiências de aprendizagem; na ças educativas. Nomeadamente, no seio da é apoiar as crianças a construir na sala de
maioria dos países, a aprendizagem séria e o rede associativa, as ideias de Vigotsky têm aula uma comunidade com a sua cultura,
jogo livre eram vistos como sendo totalmen- contribuído para redefinir o papel do edu- com valores e comportamentos que criam
te diferentes. Era dada maior importância às cador de infância, pela importância atribu- um contexto social para a aprendizagem.
competências cognitivas e físicas do que aos ída ao significado das experiências sociais Por exemplo, nos encontros da manhã e
aspectos sociais da aprendizagem e o uso da e à comunicação e pela necessidade de ter da tarde, as crianças constroem relações
linguagem reduzia-se, no geral, a responder como referência a zona de desenvolvimento mútuas; preocupam-se uns com os outros;
às perguntas do professor. Este clima hierár- próximo das crianças para planear e indivi- negoceiam e elaboram as regras da sala de
22 quico também existia na formação de profes-
sores e no envolvimento das famílias.
dualizar o trabalho pedagógico. aula, encontram em comum soluções para
as suas vidas; e partilham conhecimentos,
A ISSA – Step by Step Association põe em compreensão e experiências. As crianças
contacto profissionais da educação de in- O trabalho com crianças planeiam em conjunto com os professores
fância e do 1º ciclo da Europa Central e de A aprendizagem ocorre em processos e reflectem sobre o que estão a fazer, o
Leste e da ex-União Soviética (ver página interactivos que aprendem, e o que deve mudar. As in-
seguinte). A abordagem da associação é A abordagem Step by Step (passo a pas- teracções sociais com outros adultos são
centrada na criança e assenta numa articu- so) cria experiências sociais que ajudam incentivadas e planeadas através da inclu-
lação criativa de diferentes fontes teóricas, as crianças a desenvolver-se e a aprender, são das famílias em actividades da sala de
sendo Vigotsky uma das mais importantes. proporcionando situações em que podem aula e de oportunidades em que as crian-
Muitos educadores destes países ou não escolher grupos e projectos, facultando-lhes ças saem e comunicam com membros da
conheciam as suas teorias ou não compre- um grande número de oportunidades para comunidade e os membros da comunidade
endiam as suas implicações na prática. Mas ouvir e falar com outros e partilhar experi- entram na sala de aulas.
rapidamente se verificou que o trabalho de ências. Os educadores propõem, ao longo
Vigotsky podia ter um impacto positivo nas do dia, actividades de todo o grupo e de A linguagem e a comunicação são
mudanças necessárias a vários níveis, que pequenos grupos; dão às crianças a pos- essenciais no processo de aprendizagem
incluíam: o trabalho dos professores com sibilidade de escolherem as actividades de Vigotsky mostrou que a linguagem expres-
as crianças na sala de aula; o desenvolvi- trabalho; criam grupos de várias idades (se sa a partilha de experiências, necessária
mento profissional dos professores e as re- possível); e possibilitam a inclusão de crian- para construir o desenvolvimento cog-
lações com as famílias e as comunidades. ças com necessidades de apoio e de meios nitivo. A abordagem proposta pela ISSA
Neste artigo são apresentados exemplos da familiares diversos. considera que as crianças não aprendem
influência das ideias de Vigotsky em mudan- Neste contexto, o papel dos educadores só fazendo, mas também fazendo em con-
junto e falando (notem-se as diferenças apoiar a sua aprendizagem. “Colocar andai- mas de neutralizar essas influências nega-
com o behaviorismo ou as perspectivas do mes” envolve correr riscos, testar hipóte- tivas, a fim de melhorar o contexto social
desenvolvimento da criança de Piaget). O ses, aprender com os erros, que só podem do ambiente de aprendizagem.
papel do professor é redefinido, e de úni- proporcionar experiências de aprendizagem
co transmissor de conhecimento passa a bem sucedidas em ambientes em que as
ser um orientador, que cria situações para crianças se sintam psicológica e fisicamen- Relações com as famílias e comunidades
as crianças falarem e aprenderem umas te seguras. Para criar este tipo de ambien- De acordo com Vigotsky, a associação consi-
com as outras. A aprendizagem coopera- te, deve ser construído um forte sentido de dera que a aprendizagem e o desenvolvimen-
tiva alarga, aprofunda, apoia e estimula a comunidade, através de interacções entre to das crianças são fortemente influenciados
comunicação e a interacção a diferentes crianças, famílias, educadores, directores e moldados pelas famílias, comunidades, cul-
níveis, entre crianças e entre crianças e das escolas e membros da comunidade. tura e estatuto na sociedade. O processo de
adultos, de modo a apoiar a aprendizagem aprendizagem assenta no que as crianças tra-
da criança. O professor também incentiva a zem da microcultura familiar: o que já sabem
participação activa de todas as crianças na O desenvolvimento profissional e pensam. Para criar as melhores condições
vida social da sala de aula e ajuda-as a pôr dos educadores de aprendizagem, é necessário conhecer o
em prática e compreender as suas respon- As experiências sociais e os processos in- contexto familiar da criança, mostrar que se
REDESCOBRIR VIGOTSKY

sabilidades num ambiente democrático. teractivos de aprendizagem são também lhe dá apreço e incorporar alguns dos seus
importantes para o desenvolvimento profis- aspectos no contexto da sala de aula.
Zona de Desenvolvimento Próximo sional dos educadores. Trabalhar em equipa Uma forma de conseguir esta inclusão dos
Um outro conceito vigotskyano que in- e em rede dá oportunidades para partilhar, contextos sociais da criança é através do
fluenciou a abordagem de ISSA é a zona reflectir e crescer pessoal e profissionalmen- envolvimento activo dos membros da fa-
de desenvolvimento próximo – a distância te. Os cursos de formação da associação pro- mília em actividades de aprendizagem que
entre a tarefa mais difícil que a criança con- porcionam oportunidades de aprendizagem associam a escola e a família. Os educa-
segue fazer sozinha e a tarefa mais difícil interactiva, em que os educadores partilham dores procuram recolher informação junto
que consegue fazer com o apoio de crian- as suas experiências para melhor compre- dos pais que irá ajudar a aprendizagem da
ças mais competentes ou de adultos. Este ender conceitos educativos e a forma de os criança e incluir os pais nos processos de

23 apoio é conhecido como colocação de an-


daimes e pode, pela informação ou apoio
implementar.
Este trabalho de desenvolvimento profis-
avaliação e planeamento. Esta participação
realiza-se numa atmosfera de respeito, co-
dado à criança, ajudá-la a alcançar um novo sional engloba a ideia de que há uma zona operação e abertura à diversidade, em que
conceito ou capacidade. Para dar este tipo de desenvolvimento próximo na aprendi- os pais sentem que têm poder e são efi-
de apoio, os educadores devem observar as zagem dos adultos. A associação promo- cazes, tanto em casa como no jardim-de-
crianças para determinar onde se encon- ve diferentes formas de aconselhamento -infância que os seus filhos frequentam.
tram no processo de aprendizagem e onde para professores: sistemas de aconse-
são capazes de chegar a seguir, tendo em lhamento regional, equipas de aconse- CONCLUSÃO
conta as suas necessidades individuais e o lhamento centradas na escola, aconse- Incorporar as ideias de Vigotsky na educa-
contexto social que as rodeia. lhamento entre colegas, aconselhamento ção de infância tem potencialidades para
São estas as bases do trabalho da asso- online, etc. O aconselhamento facilita a mudar as nossas sociedades; valorizar e
ciação na área da individualização, influen- auto-avaliação dos educadores, saberem melhorar as interacções sociais e promo-
ciando todas as actividades relacionadas onde se encontram no processo de me- ver a participação de cada um na socieda-
com o planeamento curricular. As neces- lhoria da prática e ajuda-os a identificar os de civil. As ideias de Vigotsky produziram
sidades de desenvolvimento, interesses, passos que necessitam de dar a seguir. O mudanças importantes nos países da rede
estilos de aprendizagem, conhecimentos, programa de formação e aconselhamen- da associação. No entanto, a associação
capacidades e experiências de cada crian- to da associação também promove uma aprecia a diferença. Por isso, a imple-
ça são tidos em conta. O educador esta- consciencialização dos preconceitos, ten- mentação das ideias de Vigotsky reflecte
belece uma ponte entre as exigências do denciosidades e opiniões inconscientes as diferenças dos contextos sociais dos
currículo oficial e as suas observações, os que podem influenciar o comportamento membros da rede, dando oportunidade a
conhecimentos que tem de cada criança e dos professores e as interacções com as uma investigação que possa proporcionar
a sua apreciação quanto à melhor forma de crianças e famílias, disponibilizando for- novas maneiras de ver Vigotsky.
A Infância na Europa visa contribuir para o desenvolvimento de po-
líticas e práticas europeias e nacionais. É uma rede europeia de 15
revistas nacionais que se juntaram para produzir uma revista única,
com o mesmo nome, publicada duas vezes por ano em 11 países eu-
ropeus e em 14 línguas e destinada a todos os que trabalham com e
para crianças dos zero aos dez anos. Integra um parceiro de Portugal
– a APEI - Associação de Profissionais de Educação de Infância – que
traduz e distribui a revista europeia pelos seus associados.

A Infância na Europa tem também como objectivo a criação de um


fórum – Espaço Europeu – para troca e partilha de ideias, práticas e
informação. Actualmente está em discussão pública um documento,
preparado pelo conselho editorial da revista, que visa estimular um
diálogo democrático sobre as políticas europeias e a necessidade de
uma abordagem europeia para as crianças e para a criação de políticas
para a infância (consulte e participe em www.apei.pt).