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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
CURSO DE MESTRADO EM HISTÓRIA DO BRASIL

A Primeira Guerra Mundial N”A Tribuna Religiosa


-Formação da Neo-cristandade- (1917-1919)

Severino Vicente da Silva

1985
A Primeira Guerra Mundial N”A Tribuna Religiosa
-Formação da Neo-cristandade- (1917-1919)

Severino Vicente da Silva

“Nesta hora solene e grave da história do Brasil, para que Deus Nosso Senhor conceda a
nossa Pátria querida a vitória completa dos seus direitos, é necessário que nós
brasileiros, sendo patriotas como os que mais o são, fiquemos mais do que nunca unidos
a Deus e aos seus representantes na terra, a fim de que, sobrenaturalizado o nosso
patriotismo, chamemos sobre nós e a nossa causa a abundância das graças divinas”
30 de Novembro de 1917.
D. Sebastião Leme

“Muitas vezes, especialmente no período Constantino, não anunciou com suficiência


seus ideais de bondade, justiça e amor à sociedade e ao Estado injustos. Mas, proferiu
estar afirmativamente ao lado dos grandes proprietários e dos exércitos mais fortes.
Comprou com a aura de justiça eterna os senhores injustos da sociedade, dando-lhes
legitimidade e motivando a muitos a se sacrificarem de bom grado e com humildade
pela minoria no processo de produção, como também nos campos de batalha. O
catolicismo perdeu o seu sal escatológico e se tornou uma ideologia que justificava as
ordens de dominação dadas. Desta maneira, só aumentou a dicotomia entre o particular
e o universal e evitou a sua reconciliação numa sociedade mais livre. Tornou-se
reacionário”.
R. Siebert, apud Leonardo Boff

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ÍNDICE

01. APRESENTAÇÃO..........................................................................03

02. AGRADECIMENTOS.....................................................................05

03. INTRODUÇÃO – POR


QUÊ?...............................................................................................07

04. Cap. I – A IMPRENSA


CATÓLICA....................................................................................16

05. Cap. II – A TRIBUNA RELIGIOSA.............................................25

06. Cap. III – O FIM DA


NEUTRALIDADE........................................................................32

07. Cap. IV – A GUERRA EM CASA...............................................41

08. Cap. V – POSIÇÃO DA


HIERARQUIA..............................................................................48

09. Cap. VI – A DIPLOMACIA NA


TRIBUNA.....................................................................................58

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10. Cap. VII – O PAPADO E A
GUERRA......................................................................................66

11. Cap. VIII – O FIM DA


GUERRA......................................................................................75

12. Cap. IX – O MONSENHOR AFFONSO


PEQUENO: UMA PENA PELA
PAZ.....................................................................................................81

13. CONCLUSÃO..............................................................................89

14. BIBLIOGRAFIA
GERAL...............................................................................................94

APRESENTAÇÃO

Este trabalho foi feito com o objetivo de obter o grau de mestre em História do
Brasil, em defesa pública, na Universidade Federal de Pernambuco. É evidente que o
autor não pretende de forma alguma estar completando ou apresentando a forma
definitiva de um tema que, a cada dia, mais chama atenção aos estudiosos. Houve um
momento em que se julgou ser ultrapassado qualquer estudo mais sério sobre a Igreja no
Brasil e na América Latina. Nos últimos anos, contudo, a efervescência do continente
Latino Americano, numa fase em que sai dos subterrâneos da História, para tornar-se
sujeito de sua própria História, tem sido demonstrado a grande importância e o papel
catalisador e orientador que as igrejas – na maioria dos casos, a Igreja Católica – tem
desempenhado nesse processo de assumpção história das massas latino americanas. É
por isso que o interesse de estudar a Igreja tem aumentado. É necessário compreender as
diversas etapas pelas quais vem trilhando a Igreja, pois, se ela é parte do processo, e as
experiências de Nicarágua e El Salvador mostram isso, cabe-nos evitar que
simplificações sem fundamentos sejam lançadas e assumidas como fossem de verdade.
Estudamos aqui parte do processo, o nascimento de um momento que, ao longo
de cinqüenta anos, caracterizou a ação da Igreja na América Latina e no Brasil.
Buscamos esclarecer como uma Igreja local assume o seu papel dentro de um processo
que, simultaneamente, ocorre em todo continente, e por isso faz surgir até mesmo um

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quase confronto dentro da Igreja local, pois a realidade é não uniforme, como gostariam
que fosse aqueles que buscam impor modelos aos povos.
Dividimos o trabalho nas seguintes fases:
1. A Introdução e os capítulos I e II procuram justificar o trabalho e dar uma visão da
Imprensa Católica e do Jornal A TRIBUNA RELIGIOSA, procurando ressaltar,
além do simples acontecimento, a sua importância social e posição sistêmica.
Buscamos explicitar que a TRIBUNA RELIGIOSA é parte de um grande contexto e
de uma forma específica de se viver o catolicismo;
2. Os capítulos de III a VIII procuram aprofundar as questões mais ligadas à guerra em
diversos aspectos. Primeiro, como ocorria a experiência da neutralidade do país e a
chegada da guerra. Cuidamos, então, de aprofundar como o povo de Recife viu e
experimentou o gosto da guerra, o ódio ao inimigo (cap. IV). Em seguida
procuramos ver, nas páginas dA TRIBUNA RELIGIOSA, como a hierarquia
católica vê e analisa a guerra, orientando os seus fiéis (cap. V); como o jogo
diplomático entre a Sé Romana e o Governo brasileiro é apresentado ao público
leitor (cap. VI) e então procuramos a imagem que A TRIBUNA RELIGIOSA faz do
papa Bento XV para os seus leitores. Finalmente, no capítulo VIII, apresentamos
como foi, em Recife, para os católicos, o fim da guerra.
3. A parte final do trabalho é dividida em duas partes: primeiro dedicamos uma
atenção especial ao Monsenhor Pequeno, pois o julgamos como um precursor de
uma cristandade que se forma. Os estudiosos do pensamento político brasileiro
poderão encontrar uma analogia entre ele e Alberto Torres, dois teóricos a quem a
guerra matou, pois os pensamentos que esposaram não se coadunavam com a
realidade econômico-política internacional que advém com a paz de Versalhes; em
segundo lugar, apresentamos as nossas conclusões, refletindo em torno da arte
política de Dom Sebastião Leme, Bispo de Recife na época, e seu principal fiador,
pois, sendo A TRIBUNA RELIGIOSA o seu jornal oficial, nela estavam as suas
idéias.
Assim, com esse trabalho, esperamos estar contribuindo para o debate amplo e
necessário a ser feito por todos os setores da sociedade brasileira, o debate sobre
suas próprias origens e superações, o debate sobre as suas instituições e projetos, o
debate sobre si mesmo.

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AGRADECIMENTOS

Este é um trabalho de muitos, cumpridos por um. Nas páginas que se seguem há
os sonhos de tantos, que é uma pretensão assinar este trabalho. Não é uma fuga das
responsabilidades. O texto e as idéias são minhas. Mas, a realização desse trabalho é
fruto das noites e dias de trabalho de papai, João Vicente da Silva, agricultor analfabeto
que veio para o Recife com o sonho de ver os filhos formados; de Maria Ferreira da
Silva, a minha mãe, uma mulher que veio a aprender a dominar as letras muito tarde,
mas que ensinou a minha fé e, com o seu exemplo de vida simples e santa, ilumina a
minha vida; de João Batista, meu professor do curso primário, o homem que me ensinou
a dar as primeiras aulas, quando me chamou a tomar as lições dos meus colegas. Ele fez
de mim o professor que, aos dez anos, alfabetizava os adultos do bairro de Nova
Descoberta, homens que, como eu, vinham fugindo do domínio do latifúndio. Aqui se
encontram os sonhos de todos os homens e mulheres de Nova Descoberta. Eles sempre
acreditaram em mim e sempre me amaram – o seu amor mantém a minha vida, ainda
agora, que já não estou materialmente entre eles; estão os sonhos de Tereza Noronha
Ramos, que se tornou Vicente da Silva para tornar minha vida mais doce e mais amável;
estão os gestos de amizade de meu compadre e dileto amigo José Nivaldo Jr.,
companheiro dos mais altos ideais de minha vida, embora apreçamos tão distantes;
Hebert Mansfield que me ajudou a compreender e a superar as fronteiras que separam e
unem os povos; aqui se encontram os gestos de amizade – a certeza de Armando Souto
Maior (ajudou-me quando tentei desistir do curso); de Marc Jay Hoffnagel, o professor

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exigente e compreensivo com o aluno pouco metódico; de Roberto Amorim, que se
dispõe a entender as minhas discussões pela metade. Aqui se encontram os
ensinamentos de Eduardo Hoornaert, Pe. Humberto Plumem, Michael Bargman; aqui
está a atenção que me deram Dom Lamartine, Monsenhor Isnaldo Cabral e Josefa
Bezerra da Silva, conhecida como “Menininha”. Nestas páginas está o apoio do Instituto
de Teologia do Recife, apoio moral e financeiro, a minha gratidão ao padre João Ernani
Pinheiro; aqui se encontra o carinho da comunidade franciscana de Olinda, de quem fui
hóspede para poder pensar com tranqüilidade; aqui se encontra o entusiasmo de Antonio
Jorge de Siqueira, o meu orientador, que tanto me entendeu e suportou de minha
arrogância; aqui está Marly Cavalcanti, está Clécia Ramos, a direção do Colégio 2001
Absolon Pedrosa Bezerra, Eduardo José de Almeida, Cilas Cunha de Menezes e tanta
gente eu devo este trabalho. Todo esse trabalho é por causa deles e para eles. Eles
pertencem a classes sociais diferentes, são um retrato do Brasil, a quem devo tudo que
sou, ou melhor, quase tudo. Pois, esse trabalho é fruto do amor de Deus para comigo, e
a Ele, por meio de seu povo, esse trabalho é dedicado
.

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INTRODUÇÃO
POR QUÊ?

Os estudos de História do Brasil só nos últimos anos têm recebido uma maior
atenção por parte dos diversos setores da sociedade brasileira. A rigor, o brasileiro não é
um homem que parece gostar de cultivar o seu passado, ou que dele tenha orgulho. É
voz corrente que “o povo não tem memória”, e isso se deve ao fato de que ele vota,
quase sempre, naqueles que o têm explorado e dele se servido para avançar na escalada
social. É voz comum, dita por artistas, políticos, cardeais, professores, atletas e outras
aves não muito raras que o “povo não está preparado” para votar, escolher seus
dirigentes, possuir isso ou aquilo. Na verdade, no olhar da elite brasileira – às vezes se
pensa aristocrática – o povo brasileiro não está preparado para nada. Tal é o desprezo
que essa elite cultiva pelo povo do Brasil, que chega a causar surpresa que ainda
continuem a viver aqui, em contato com tal povo. Talvez fiquem por aqui por não serem
aceitos em outras regiões (exceto quando vão gastar em algumas horas o resultado de
meses de trabalho de muitos operários), ou mesmo porque sejam incapazes de conviver,
talvez por inapetência natural, com seres que já se descobriram humanos e iguais.
Também é anedota corrente que outros povos da América Latina, aos brasileiros,
chamam-nos de “los macaquitos”. É que têm as nossas elites o hábito terrível de imitar
jeitos e trejeitos europeus, pois precisam compensar o tamanho desprezo que nutrem
pelo Brasil e sua gente trabalhadora. Muitos de nós temos dedicado mais tempo em

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nossas vidas ao estudo dos costumes, hábitos e história dos outros povos, de tal forma
que somos capazes de “assoletrar e dizer de cor salteado e de traz pra frente e de frente
pra traz” toda a história dos outros, mas somos profundos desconhecedores e completos
ignorantes da história do lugar de nossa origem. Não temos, ás vezes, consciência de
nós mesmos.
É muito recente o hábito de nos voltarmos para os nossos valores. A Semana de
Arte Moderna de 1922 foi o início precursor de uma atitude que só muito lentamente se
formula e mais lentamente ainda a ela nos habituamos. Felizmente, nos últimos anos
tem aumentado essa tendência. É que em época de crise econômica já não é mais tão
fácil passar as férias na Europa. Essas são feitas por aqueles a quem o deus Mercúrio ou
o Protetor de Midas, bafejaram de tal sorte as suas vidas, que o seu modo de viver está a
produzir a morte dos outros. A tudo que tocava, Midas fazia virar ouro, diz-nos o mito;
e o seu toque veio a produzir-lhe a morte. Tal qual os nossos dirigentes. Midas estava
distante de seu povo e, semelhante a Narciso, morreu por pensar basta-se. Mas, a nossa
desgraça como povo parece tão mais imensa que o toque dos nossos “midas” provoca a
morte do povo.
Sempre, e hoje mais que nunca, é grande-demasiado grande – a responsabilidade
daqueles que se pretendem historiadores. Entender o movimento do tempo e das ações
humanas, o destino dos homens, procurar entender aquilo que ele fez e faz; entender-se
e aos outros, os de ontem e os de hoje, uma dialética em que o homem é o pêndulo e o
caminho do pêndulo.
Entender o pêndulo e ver o seu caminho, sendo o pêndulo. Talvez até apresentar
pistas pra correção do curso. Embora seja quase imperceptível a participação do
indivíduo na História, ele faz parte das mudanças, das permanências, das viradas de
épocas. Passou-se o tempo em que se via o historiador apenas como um mero fotógrafo
dos acontecimentos, como se ele não estivesse a fazer julgamento, seleção de fatos, para
elaborar o seu trabalho. A busca de uma imparcialidade absoluta em muito atrasou o
pensamento histórico. Cria-se em uma quimera, não em um sonho. O sonho é dos
homens lúcidos, a quimera é o desespero, a crença no não perceberem as mudanças,
pois a elas as mudanças não interessam. Preferem a manutenção do status que só a eles
beneficia.
Ainda hoje, em nossas faculdades, formamos professores de história que outra
coisa não fazem que transmitir fatos, datas, como se isso simplesmente, algum dia,
tivesse sido ciência. Confundimos tanto almanaque com livros de história: entretanto,

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ainda no início, estamos começando a procurar o verdadeiro saber e sabor de nossa
gente, de nossa história. É urgente conhecermos melhor os passos que já demos, pois só
assim, esse povo poderá alevantar-se e tomar em suas mãos o seu presente. Sem refletir
sobre as suas realizações passadas um povo não pode criar o seu futuro. Cabe a todos os
homens de um povo a tarefa de caminhar com as suas próprias pernas, mas, em um país
como o nosso, cabe aos que, pelo seu trabalho e pelo trabalho dos outros, pela
acumulação de alguma riqueza – que foi tirada da produção da pobreza dos outros –
chegaram aos institutos universitários, auxiliar todo o resto do povo a manter-se de pé.
Não que ele não saiba, mas porque os de sempre não o deixaram e ainda não o
permitem.
O pretenso historiador que sou, faz este trabalho nessa direção. Pretende auxiliar
o seu povo a se entender, na recordação de fatos (e na sua interpretação), que ainda
estão presentes na mente de alguns e que foram deixados escritos em alguns papéis e na
sua interpretação.
Os estudos de História não podem prescindir de alguma erudição, mas, como
nos ensina Fernand Braudel, “cada forma de História, implica, de fato, uma erudição
correspondente”1 É provável que tenhamos de procurar, em textos pouco usuais nesta
escola, citações e informações para um trabalho que, embora seja sobre a realidade
brasileira, não é dos mais enfocados em nossos institutos universitários: a História da
Igreja no Brasil.
Embora a Igreja esteja presente, desde o início de nossa História, na formação do
povo brasileiro e de seu caráter, o que dela se tem estudado é a história anedótica,
episódica, ou de alguns homens que, em um determinado momento, vislumbraram o
domínio de Cena. Isto é resultante do próprio tipo de historiografia que foi realizada
durante muito tempo no Brasil, uma historiografia baseada na arte memorialística, ou na
busca de antecedentes que pudesse garantir galardões heráldicos a esta ou àquela
família. O período colonial, época das mais estudadas e, no entender de professores
como Caio Prado Jr., Celso Furtado, Jocab Gorender, Nelson Werneck Sodré,
Capistrano de Abreu, Antonio Novaes e muitos outros, de enorme importância pois é de
lá que vem toda a nossa base como Povo, Nação e Estado2 . Dessa época temos as
crônicas da Companhia de Jesus, os Sermões de Pe. Vieira, As Visitações do Santo
Ofício, o Orbe Seráfico, Monumenta Brasiliae. Porém todas carecendo de uma visão
crítica da realidade, que seus autores não possuíam na época, envolvidos que estavam
com o Pacto Colonial3 .Têm sido feitos estudos sobre as ordens religiosas, como a

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dissertação de Maria do Céo sobre a ordem dos Oratorianos, mas que infelizmente não
tem sido reproduzida para o grande público, ainda que os estudantes. O período
Imperial parece sofrer mais ainda, pois a participação de setores do clero no processo de
independência tem tolhido a reflexão história sobre os personagens mais famosos
daqueles momentos, sem perceber que a Instituição a que pertenciam não tem sido
estudada com o mesmo afinco.
Nos últimos anos o estudo das instituições está-se avolumando em nossa
sociedade. Aos poucos estão sendo superados os estudos meramente biográficos –
embora haja ainda muitas biografias a serem escritas, não a dos ligados aos latifúndios
(criatórios ou agrícolas), mas de gente que, ao seu tempo, foi representante dos anseios
do povo – para melhor compreensão não do indivíduo e sua glorificação, mas para
compreensão da sociedade brasileira e do seu caminhar ao longo do tempo.
Apresentam-se os estudos sobre a imprensa, sobre a mentalidade das classes sociais,
sobre os partidos políticos, os modos de produção, os processos de destribalização,
desculturação, entre outros temas. A maior parte desses estudos tem sido feito ora por
sociólogos, ora por antropólogos, psicólogos etc. Em muito os historiadores podemos
aprender, aproveitar e contribuir nesse processo de dissecação de nossa sociedade. Não
podemos nos colocar à margem de uma tendência que está presente em todas as ciências
sociais, pois então correremos o risco de sermos virtualmente inúteis em nossa
existência. É necessário estar voltado para as realidades e “entendo por realidades
sociais, todas as formas amplas da vida coletiva: as economias, as instituições, as
arquiteturas sociais e, por último (e sobretudo) as civilizações, todas elas realidades que
os historiadores de ontem, certamente, não ignoram, mas que, salvo alguns
supreendentes precursores, consideram com excessiva freqüência pano de fundo,
estendido apenas para explicar – ou como se quisesse explicar as obras dos indivíduos
excepcionais, em volta dos quais se move complacentemente o historiador”. 4Cabe-nos,
aos que nos dedicamos ao estudo da história, contribuir para que todos entendamos –
nós e a sociedade – que, embora formada por homens, as instituições adquirem uma
vida histórica que, em dadas circunstâncias, supera o ato individual, os acontecimentos
em si. Precisamos estudar História, procurando entender a dor e a esperança que cada
acontecimento causa aos indivíduos. Mas, urge entender as causas profundas dessas
dores e dessas esperanças. E, precisamos procurar entender por que elas ultrapassam os
indivíduos e alcançam toda a sociedade.

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A História está em constantes “dores de parto” e essas dores são as esperanças
de uma mudança e a esperança da superação dessas dores. É lamentável ver que, de
tanto dissecarem a dor, esquecem que, se a vida continua, é porque o sonho continua
sendo o alimento dos homens, tanto quanto – ou mais – o pão. É, pois quem sabe,
necessário que se estude também a história da esperança humana e se descubra quais as
fontes que possuem o homem e as sociedades, para manterem-se firmes e constantes na
caminhada histórica. E, talvez, aqui, embrenhemo-nos no campo das ideologias. E,
nesse campo, encontremos as igrejas e as religiões, embora nem são elas sejam
ideologias, e nem só elas podem se prestar ao papel de “falsas representações da
realidade”. Penso necessário dizer isso, pois parece haver um preconceito especial
contra elas, pois tão pouco nos debruçamos honestamente sobre essas instituições e suas
formas específicas de manifestações sociais.
Inegável, havermos sempre de repetir, a importância que a religião católica
representou na formação de mentalidade do povo brasileiro5, embora não apenas ela.
Quase sempre há colonial. Contudo, à medida que nos aproximamos acima, sobre o
período recentes – Império e República – forma sendo deixados de lado os estudos
sobre a Igreja. Seria isso apenas conseqüência de nossas mazelas de atraso cultural, ou
não estaríamos confundindo o trabalho do historiador com o trabalho do político
partidário? Como a República definiu-se sem confissão religiosa, não será que julgamos
inexistente a religião e então nos abstivemos de estudá-la? Ou será que acreditamos
tanto na explicação de que a religião é uma falsa ideologia, e por ser falsa, por que
estudá-la? Não seria melhor, podíamos estar pensando, estudar as verdadeiras realidades
em lugar da “falsa ideologia? É tempo de desenvolvermos novas atitudes em relação à
História das Religiões no Brasil, quando, se não para evitar que as façam os que não
manejam bem os métodos da ciência.
Eis, contudo, nos últimos anos já começam a proliferar livros e trabalhos
científicos sobre o papel de Religião, das Igrejas, e especialmente da Igreja Católica no
Brasil a maioria desses trabalhos estão mais focados no interesse de entender o
comportamento da Igreja em relação ao Estado de força militar que se estabeleceu no
Brasil após o Primeiro de Abril de 1964. Surpreendente é que a grande parte dessa
produção é feita nas universidades estrangeiras, em teses 6, como é o caso do livro de
Roberto Romano, que é “uma versão da tese de doutoramento defendida em Paris, na
École de Houte Études en Sciences Sociales”; de M. Morais Alves, L‟Eglises et La
Politique au Bresil; CH. Antoine, L‟Eglises et le Pouvoir au Bresil, Naiscence du

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Militarismo; Th, Buzun, The Political Transformation of The Brasilian Catholic, em
Londres etc.; etc. Mas, na maioria das universidades brasileiras, nem uma linha dos
currículos dos programas das Faculdades de História é dedicada à reflexão dos
movimentos da Igreja (com exceção aos tradicionais movimentos de Canudos,
Contestado, Juazeiro, a “Questão Religiosa”). Acontece isso, porque “certas noções
adquiriram o estatuto de verdades inquestionáveis, como, por exemplo, a subsunção da
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Igreja sob a rubrica de „aparelho ideológico‟ do Estado”? Ainda que fosse assim,
precisamos estudar para provar se é verdadeiro ou não tal hipótese, ou “fé”.
Esta dissertação pretende compreender um pouco a participação da Igreja
Católica Apostólica Romana na Arquidiocese de Olinda e Recife durante os anos de
guerra de 1914-1918, lastimavelmente chamada de primeira de uma série. Buscamos
compreender qual o papel que a Imprensa Católica desempenhou naquele momento
excepcional da História do Brasil. Sendo A TRIBUNA RELIGIOSA órgão da Diocese,
coube a ela explicitar o movimento pendular da instituição diante das forças sociais que,
tendo como pano de fundo a participação do Brasil no conflito europeu, disputavam
acirradamente o controle do poder.
Para alcançar tal objetivo, fizemos a leitura do jornal A TRIBUNA
RELIGIOSA, órgão oficial da Arquidiocese, apenas nos anos da guerra, mais
detalhadamente nos anos 1917 e 1918. O jornal não foi distribuído durante o ano de
1918, e apenas os anos de 1917 e 1918 dedicam um maior espaço à guerra. Aquele por
nele ocorrer o debate sobre a neutralidade ou não, além do alinhamento do Brasil ao
lado dos “aliados”, e este pelas influências que a declaração de guerra aos Países
Centrais vieram a ter no país. Naquele período ocorreu epidêmico da Gripe Espanhola e,
em uma Quinta-feira, o jornal não saiu, porque seus tipógrafos foram acometidos de tal
mal 8. O jornal, naquela época, era publicado sempre às quintas. Como tal tema, a
guerra, não trouxesse maior controvérsia com os demais jornais de Pernambuco, não
procurei a ressonância nos outros jornais dos artigos publicados nA TRIBUNA
RELIGIOSA. Realmente era uma época de grande confrontação e debate entre a Igreja
e a sociedade civil sobre a educação religiosa, avanço do protestantismo, confronto em
torno do tema da guerra.
A TRIBUNA RELIGIOSA deixou de circular nos anos 1960. A sua vida,
iniciada em 1907, é bastante atribulada. Em várias ocasiões, questões econômicas e
financeiras afastaram o jornal das mãos dos católicos recifenses e pernambucanos. Em
substituição à TRIBUNA RELIGIOSA, o BOLETIM ARQUIDIOCESANO, desde

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1969, também semanal, tem servido de elo de ligação entre a Igreja e a sociedade, a
hierarquia e os leigos.
Tendo sido um jornal oficial da Arquidiocese, nas páginas de A TRIBUNA
RELIGIOSA aparecem, necessariamente, a orientação de cada bispo, o direcionamento
que ele imprime no trato das questões sejam de ordem interna, sejam de ordem externa.
Ler A TRIBUNA RELIGIOSA é recuperar os diversos momentos vividos pelo
catolicismo em Pernambuco, as diversas formas que, ao longo de cinqüenta anos, tomou
o catolicismo em Pernambuco. É de notar que o Bispo de Olinda, na época em que nos
detemos, é Dom Sebastião Leme, o mesmo que veio a dirigir os caminhos da Igreja no
Brasil, desde o seu cargo de cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, tendo sido um dos
artífices, se não o maior, da neo-cristandade, que dominou o Brasil desde 1930 até as
calendas dos anos sessenta.
Em sua monumental e importantíssima HISTÓRIA DA IMPRENSA DE
PERNAMBUCO, Luiz do Nascimento dedica oito páginas à TRIBUNA RELIGIOSA.
O tempo vivido pelo jornal, seja na sua duração, seja na sua dinamicidade, já nos dá
caminho para entendimento de sua importância. Foi testemunha de momentos cruciais
da História do Brasil e da História de Pernambuco, de modo especial. A TRIBUNA
RELIGIOSA pode ser motivo de interesse para o estudioso da arte, da gravura, pelos
anúncios de suas páginas, que em determinados momentos chegou ao número de três,
completamente tomadas pelos anúncios de casas comerciais. Abre perspectivas para um
estudo sobre as idéias agrícolas da época, pois o jornal mantinha uma secção com
matérias especialmente voltadas para o agropecuarista. Sendo um jornal vendido no
agreste e sertão, uma vez que a diocese alcançava os limites do Estado, era um material
com leitor garantido. Mas, n‟A TRIBUNA RELIGIOSA podem ser encontrados dados
para uma história demográfica, se o pesquisador se debruçar sobre os relatórios das
paróquias. A TRIBUNA RELIGIOSA é um manancial para o estudo da sociedade
pernambucana, inclusive porque mostra essa sociedade na visão de um grupo que se
percebe com especiais obrigações e direitos.
Não foi a TRIBUNA, o primeiro jornal católico em Pernambuco. O
CATHOLICO, publicado entre 1869 e 1872, durante o governo de Dom Cardos Aires
foi um período de caráter oficial. Após o seu fechamento, pode-se mencionar “A
ORDEM”; “O LIDADOR ACADÊMICO”; “O ORIENTE”, “O OITO DE
DEZEMBRO”, o que denota a grande atividade da imprensa católica em Pernambuco.

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Embora seja o jornal oficial da diocese, ele não é o único jornal católico em
Pernambuco. Várias paróquias possuem seu próprio jornal. Em Pernambuco, como em
todo Brasil, temos Boa Imprensa e há um relacionamento entre os diversos jornais,
tendo havido mesmo um esforço para a formação de uma agência católica de notícias
para fornecer notícias aos diversos jornais e gazetas. Alguns jornais fundados à época da
criação da TRIBUNA ainda subsistem hoje, sendo O SÃO PAULO, órgão da
Arquidiocese de São Paulo, o mais famoso de todos. Através de A TRIBUNA
RELIGIOSA pode-se acompanhar, em parte, o debate católico nacional, uma vez que
foram transcritos muitos artigos de periódicos de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Encontramos artigos de Afonso Celso, Tristão de Ataíde, Gustavo Corção, ao lado de
assinaturas como as de Nilo Pereira, Luiz Delgado, Potiguar Matos, Zeferino Rocha, e
outros.
Nos seus últimos anos de vida. A TRIBUNA RELIGIOSA esteve sobre os
cuidados da Associação da Boa Imprensa, fundada por Dom Miguel Valverde, em 1923,
então bispo de Olinda e Recife. O tempo escasso do pesquisador, sem auxílio e
tranqüilidade, situação própria do pesquisador que habita o terceiro mundo, impediu-nos
de buscar os arquivos da Associação de Boa Imprensa, e daqui nos desculpamos e
lamentamos não ter podido fazê-lo. Manuseamos a coleção do jornal que pertence à
Arquidiocese de Olinda e Recife. É evidente que ficamos devendo um estudo sobre a
contabilidade e as verdadeiras razões do desaparecimento da TRIBUNA RELIGIOSA,
o que tem de passar, necessariamente, pelos arquivos da Associação da Boa Imprensa.
Apesar de termos em mãos tão vasto e tão rico material, decidimos orientar a
nossa pesquisa e reflexão em torno do período da Primeira Guerra Mundial. Duas razões
nos levaram a tal decisão: primeiro, a guerra nos oferece um momento especial para
entender o comportamento da Igreja diante do problema humano, do Estado e do Estado
em Guerra. A doutrina da Igreja sobre o comportamento do católico face ao Estado
apresenta possibilidades de confronto que, em situações normais, ou seja, de
problemática não extremada, sequer são percebidas. Em segundo lugar, o momento da
guerra de 1917-1918, a nosso ver, apresenta um momento especial nas relações entre a
Igreja e o Estado no Brasil desde a Proclamação da República que a Igreja se via
afastada do poder, do palco efetivo do poder. Raras foram as oportunidades que tivera,
até então, para mostrar a sua importância dentro da sociedade brasileira, para a
manutenção da paz social. Os casos de Canudos, a Questão do Contestado, os milagres
do juazeiro, forma fatos regionais e sem maiores repercussões nacional. A guerra,

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contudo, é um problema nacional e, mais que nunca, a Igreja tem a ocasião de prestar
serviços que, pela sua relevância, não poderiam ser dispensados pela sociedade civil,
política, militar e, por que não dizer, econômica. Então estaria provocada a importância
da Igreja, importância negada por outros grupos, outras filosofias, outras religiões. A
Primeira Guerra Mundial marca o início de uma nova aliança entre a Igreja e o Estado,
uma nova cristandade, um novo pacto que durará meio século. A TRIBUNA
RELIGIOSA nos mostra o seu nascimento e acompanha o desenrolar do Drama.
Estudamos o seu nascimento.

Referências Bibliográficas

1
BRAUDEL, Fernand- História e Ciências Sociais. Lisboa: Editorial Presença, 1982, p.
58.
2
Cf. Os Clássicos Formação do Brasil Contemporâneo. Formação Econômica do Brasil
– Escravismo Colonial.
3
Veja a apreciação de Eduardo Hoornaert em História da Igreja no Brasil. Tomo II,
Período Colonial, Petrópoles: Ed. Vozes, 1979; também de Eduardo Hoornaert,
Formação do Catolicismo Brasileiro, Vozes, 1977.
4
Braudel, Op. Cit. p. 57.
5
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso, Edit. Nacional, e Raízes do Brasil,
José Olímpio. Quero apenas citar esses dois, pois são Clássicos, entretanto existem
vários outros que podem ser apresentados. É uma longa lista.
6
Cf. ROMANO, Roberto. Igreja Contra Estado, São Paulo: Kairós, 1979.
7
ROMANO, Roberto. Op. Cit. p. 12.
8
Isso ocorreu no dia 17 de outubro de 1918, conforme o jornal seguinte. TR. N.º 40 –
Ano
II – 24.10.1918.

17
Capítulo I
A Imprensa Católica

Características das mais fortes na sociedade que se forma desde o final da Idade
Média aos nossos dias é o uso da imprensa. A palavra escrita é tão sintomaticamente
significativa entre nós, que os historiadores dividem a história em antes e depois da
escrita, tendo sido aceito sem debates mais sérios, até pouco tempo, que os povos
ágrafos não seriam históricos. Essa é uma visão dos alfabetizados, não dos que não
possuem o domínio do mistério das letras. O homem é anterior à escrita e, portanto, a
história também o é. Entretanto, é de suma relevância a presença ou a ausência da
escrita entre os povos. Na verdade, o fato de poder armazenar as informações em
tabuinhas ou livros, ou o que quer que seja, aumentou em muito as possibilidades de
invenção e modificação dos padrões culturais humanos desde então. Mas, enquanto
eram precárias as condições de armazenamento dessas informações pergaminhos e os
trabalhos de reprodução fossem sempre únicos e solitários, os benefícios dessas
informações acumuladas só a poucos interessava ou atingia mais de perto. No início da
chamada Idade Moderna, o aperfeiçoamento dos tipos móveis e a invenção da imprensa
vieram a dar um novo ânimo à produção e guarda do material abstrato, sonhado,
intelectual, teórico, o que seja, criado pelo homem. Desde então a palavra disseminou-se
em uma permanência que jamais havia alcançado. A possibilidade de fazer várias cópias
do mesmo texto amplia o horizonte de modificações possíveis de serem provocadas por
aquele texto. Este é o milagre da imprensa, o milagre de estende o eco de seu pensar

18
para além dos limites de sua voz e de um texto unitário. O mundo em que nós vivemos é
o mundo da palavra imprensa, o mundo do livro e dos jornais.
O livro parece ser o momento nobre da palavra, o quase definitivo, enquanto
puderem ser definitivas as palavras e ações humanas. O jornal é cotidiano, o incidente
rotineiro, a escrita leve, ligeira, mas que atinge com maior presteza, se bem que sempre
com maior justeza. A imprensa jornalística vai-se tornando parte essencial da vida
humana, à medida que avançam os séculos, á medida que se forja a sociedade da massa,
à medida que aumenta o número daqueles que sabem ler. A revolução industrial exige
trabalhador letrado e aquele que foi alfabetizado deseja continuar o exercício da leitura,
mesmo quando não profunda, mas precisa da leitura aquele que sabe ler, como o corpo
precisa do alimento.
É preciso ter estado acompanhando o caminhar dos homens, registrando os seus
passos, no dia-a-dia, que a imprensa é uma fonte de pesquisa inestimável e
insubstituível para o conhecimento das sociedades contemporânea. Edgar Carone,
referindo-se á consulta aos jornais para a pesquisa da vida republicana, diz que “aí então
realmente eu senti a diferença entre a pesquisa em livros propriamente dita e a pesquisa
em outras fontes como jornais”, pois, se “os livros são fundamentais, ou jornais talvez o
sejam mais”1. Continuando, Carone diz que, ao defender a sua tese, uma das críticas
recebidas foi que os jornais eram partidários. Ora, toda a publicação é partidária. Ao
escrever um livro, um artigo para jornal ou qualquer outro tipo de publicação o autor
seleciona os fatos, escolher alguns para não dizê-los, esconder certas realidades,
procurando enaltecer outras que estejam mais de acordo com a sua posição social. Toda
leitura é uma leitura, toda explicitação é uma explicitação, seja a dos livros, seja a dos
jornais. Por pertencerem por estarem ligados a algum grupo social – ou classe social –
os jornais nos retratam as forças sociais em ebulição, sem os rebusques literários
(embora haja grandes momentos de beleza literária nos escritos jornalísticos), pois esta
não é a sua função, mas a de informar e formar a opinião pública.
Ora, ainda não existe uma literatura histórica a partir da leitura e análises dos
jornais, embora algumas obras já estejam ao alcance do público, mas ainda estamos
longe de termos desvendado a nossa sociedade através dos periódicos. Foram já
apresentados estudos sobre os jornais paulistas à época da República, estudos sobre a
imprensa na Independência. As obras de Edgar Carone são amplamente documentadas a
partir dos jornais, assim como as obras de Bóris Fausto e outros que se dedicam ao
estudo do Brasil contemporâneo. Entre nós, do Nordeste, temos o pioneirismo de

19
Gilberto Freyre, Amaro Quintas, Vamireh Chacon. É, pois, o estudo do jornal como
fonte de pesquisa que se impõe para um conhecimento real dos movimentos sociais
brasileiros.
A imprensa chegou ao Brasil tardiamente, decorrência do exclusivismo colonial.
Só após a presença da Família Real portuguesa foi permitido o estabelecimento de
oficinas gráficas em territórios brasileiros2. Evidentemente, foi a princípio, uma
imprensa quase folclórica e oficial, com o jornal da corte. Contudo, a imprensa, em seus
primórdios, já apresenta os ideais dos setores que pretendem a liberdade do Brasil,
como o Correio Brasiliense, de Hipólito da Costa3. Desde os anos 30 do século passado
podemos observar o avanço da imprensa em todo o território nacional, seja nos centros
urbanos, seja nas áreas rurais. Gastão Thomas de Almeida fez um estudo sobre o avanço
da imprensa no interior paulista, que, com as especificidades das diversas regiões do
Brasil, é provável que possa ser aplicado nas demais regiões4. Embora fossem pequenos
os números de leitores, pois é um país de um grande número de escravos e de
analfabetos, a imprensa mostra uma enorme vitalidade no século XIX.
Dom Duarte Silva, bispo de Goiás, em sua pastoral de 7 de março de 1902, diz
que “qualquer lugarejo para ter foros de civilização há de ter ramas, rolos, galés,
componedores, carrampões e uma velha e imprestável máquina, para publicar, nem que
seja de seis em seis meses, um jornaleco qualquer”5 e, apesar de um certo desprezo que
se apresenta em certas palavras, isso mostra como era forte a presença dos jornais ao
longo do território nacional. Em nosso trabalho interesse sobremodo a relação entre a
Igreja e a imprensa, de como ela reagiu aos jornais e como ela produziu a sua própria
imprensa.
De maneira geral a imprensa é vista como um progresso e um fator de progresso
das sociedades. assim nos diz Dom Duarte:

“efetivamente é o jornal que tem por missão manifestar os abusos dos


depositários dos destinados da nação, é o jornal que ilumina, esclarece e dirige a
opinião pública, enveredando-a para o bem e arendando-a do mal; é o jornal que
descobre a falsidade e, confundindo a mentira, apresenta ao público a verdade
em toda a sua pureza; é o jornal o oficioso dos direitos dos fracos e do oprimido,
do perseguido, da vítima, abatendo a protávia, o orgulho e a prepotência e o
despotismo do forte, do opressor, do perseguidor, do algoz; (...) é o grande fator
do desenvolvimento do pensamento urbano, maior eficácia do que o livro, porque
familiarizou-se com todas as classes de pessoas (...)”.

20
Este também é o pensamento de Dom Francisco de Campos Barreto, bispo de
Pelotas, na sua carta pastoral “Sobre a Imprensa”, datada de 4 de agosto de 1913,
quando
afirma que “receber, guardar, conservar e transmitir às gerações os conhecimentos
e a ciência dos antigos, os esforços já adquiridos e as energias já
É, vencidas, para um fácil e proveitoso aperfeiçoamento – eis o papel da
aqui, então imprensa, da verdadeira imprensa, da digna imprensa”.
encontram
os que o pensamento dos bispos é um pensar dualístico, pois, se eles afirmam a
existência de “uma verdadeira imprensa”, uma “digna imprensa”, é porque eles
entendem a existência de uma “má imprensa”, da qual devemos conhecer a sua
definição. Para Dom Francisco de Campos Barreto, a

“má imprensa é o inimigo contra o qual todos os nossos esforços de


bons católicos devem se voltar, pois ela, com os recursos dos ímpios
e com o favorecimento das paixões sempre saciadas das perversas
doutrinas que prega, tem procurado avassalar tudo, deturpando aos
mais belos princípios da religião e da moral,

e mais adiante diz


que a má imprensa

“é toda aquela que ataca a religião, os costumes e a sociedade. Assim, sob o


ponto de vista religioso, todo jornal, livro ou revista que atacam a Deus, a
Jesus Cristo, a Igreja, o Papa, os bispos, os padres, a verdade da fé, os
princípios da moral cristã, o culto e as cerimônias católicas. Sob o ponto de
vista dos costumes, é má toda imprensa que corrompe o coração, destilando-
lhe mortífero veneno quer falando-lhe pela voz dos romances que oferecendo-
lhes vistas ou gravuras indecorosas.”

21
Poderíamos continuar extraindo das pastorais uma definição da má imprensa. É
contra essa “má imprensa” que serão fundados os jornais católicos, as revistas católicas,
as publicações católicas, que são definidas assim:

“o jornal católico deve especialmente defender e restabelecer os


sãos princípios da nossa fé e da nossa moral no meio do mundo,
onde, caluniosamente, todos os dias são arremessados à rua da
amargura a Igreja, os seus ministros e até católicos de ação franca
e sincera”.

Esse pensamento de Dom Francisco de Campos Barreto corresponde ao de Dom


Duarte Silva que diz que o fim do jornal católico é “conservá-la (a fé), e assim
conservar a religião Santa Católica”. Dom José de Camargo Barros ensina que

“A imprensa católica é uma obra pia utilíssima, grandemente


necessária e igualmente santa e por isso constante e
energicamente recomendada pelos Sumos Pontífices e bispos do
orbe católico”

pois,

“onde o púlpito dorme e não fala, o periódico torna-se para


o povo o suplemento da homilia ou da palavra do pároco e,
para dizer todo o nosso pensamento, o seu único
catecismo”.

Essas considerações e definições mostram como a história viu, sempre com grande
preocupação, a imprensa. Assim, os pronunciamentos dos papas Pio IX, Leão XIII,
além das disposições do Concílio Plenário Latino-Americano, são sempre lembrados
nessas pastorais.
O CEPHIB – Centro de Pesquisas e Estudos de História da Igreja no Brasil –
tem-se preocupado com a necessidade de estudar mais atentamente a Imprensa católica
no Brasil, pois ela é “uma espécie de termômetro da comunidade eclesial em cada uma

22
das épocas históricas significativas. Através da Igreja, de suas posições e se pode contar
com dados preciosos e diversificados para uma interpretação objetiva da participação
dos católicos na vida da sociedade brasileira” 7. Ora, isso só é possível porque, ao lado
da imprensa leiga, “profana”, desenvolveu-se, em paralelo, uma imprensa confessional
e, no nosso caso estudo, uma imprensa católica. Embora tardia em relação à outra
imprensa, o primeiro jornal católico foi publicado em 1836 na Bahia e se intitulava
REVISTA CATÓLICA8. Logo depois, em todo território brasileiro, outros periódicos
surgiram como A SELETA CATÓLICA, na diocese de Marina, em Minas Gerais, e que
circulou entre 1846 e 1847, sendo em seguida substituída por ROMANUS. Em São
Luiz do Maranhão, Dom Joaquim Silveira publicou O ECLESIÁSTICO durante o ano
de 1852. Em São Paulo, no ano de 1855, circulou O AMIGO DA RELIGIÃO. Em
Pernambuco, no ano de 1847, publicou-se A ÁGUIA CATÓLICA. Nos anos após 1860
aumentou o número de jornais católicos em todo o Brasil, alguns com maior ou menor
duração, mas todos morreram na dobrada do século. Temos então O APÓSTOLO, na
corte; A BOA NOVA, em Belém do Pará; A TRIBUNA CATÓLICA, em Fortaleza,
CE; A CRÔNICA RELIGIOSA, Salvador, BA; UNIÃO, Recife, PE; O BOM
LADRÃO, Marina, MG; A ORDEM, São Paulo, SP; O TABOR, São Paulo, SP;
PÁTRIA, São Paulo, SP; CRUZ, Goiás, GO; CORREIO CATÓLICO, Uberaba, MG;
ERA NOVA, Recife, PE; VIÇOSO, Marina, MG; A ESTRELA, Curitiba, PR8. No
início do século XX continuaram a surgir novos jornais, que sempre tiveram uma vida
curta. Um ou outro ultrapassava a casa dos 30 anos. Tudo isso era devido aos problemas
financeiros, aos custeios e manutenção do jornal. Tendo de ser vendido em um país de
analfabetos, era pouco o número de leitores efetivos dos jornais. Isso não ocorria apenas
com os jornais católicos, pois, como nos afirma Gastão Thomas de Almeida,

“este abre-fecha não era exclusividade do interior paulista, mas era – e é, ainda
hoje – o normal em todo o Brasil e, possivelmente, em todo o mundo. A
longevidade nunca foi uma das características das publicações periódicas e
constituem exceção os casos daqueles que conseguiram superar os cem, duzentos
ou mais anos. Um exemplo conhecido é The Times, de Londres, fundado em 1875
(com o nome de Daily Universal Register, passando a ter o nome atual em 1888)
que parece estar em condições de superar a enorme crise por que passa nestes
últimos anos.”10

23
Na verdade, poucos são os jornais brasileiros que ultrapassam a marca dos cem anos,
tendo astão Thomas feito uma relação em que se encontram: o Diário de Pernambuco
(1825); O Jornal do Comércio do Rio de Janeiro (1827); O Estado de São Paulo (antiga
Província de São Paulo (1875)); O Correio Paulista; que fechou após completar cem
anos em 1966; O Mossoroense (1873); A Tribuna do Norte; de Pindamonhangaba (1862);
Diário Popular (SP 1884); e seguem os jornais, em maior número de 90, 80, 60, 50 e
menos anos em atividade11. Ora, pois, não há surpresa que os jornais católicos tenham
tido pouca vida, ainda porque eles são dirigidos a um público bem mais restrito que os
demais jornais. Um jornal, para ser caracterizado como católico, não significa apenas
que seja feito por católicos, mas que exerça uma “vinculação orgânica com a Igreja,
sendo parte de sua missão no mundo”12, conforme conceituação por Frei Oscar Lustosa.
Evidentemente, os jornais católicos não apresentam a mesma linha desde o
aparecimento da imprensa católica até os dias de hoje. Assim, é necessário promover
alguma periodização para o estudo. O Frei Hugo Fragoso apresenta uma proposta que
divide a imprensa católica nos seguintes períodos:
1. do início do Império (1822) até o começo do segundo Império, em
que “os periódicos procuram defender o Catolicismo em face das
idéias liberais e do protestantismo”;
2. desde 1850 até 1870, fazendo coincidir essa fase com o movimento
de “reforma” de Igreja no Brasil, onde os bispos passaram,
ostensivamente, a “servir-se dos meios de comunicação como
instrumento Pastoral”, sendo esta fase mais preocupada com a
exposição da doutrina da Igreja, embora esteja penetrada na luta
contra o liberalismo e Protestantismo;
3. começa por volta de 1872, caracterizando-se pela Luta contra a
maçonaria, pela defesa da fé católica, da infabilidade papal e dos
demais dogmas13.
A periodização de Frei Hugo Fragoso detém-se no período imperial, talvez
devido a que se dedica e à obra se publica. Entretanto, não fica muito clara a diferença
entre o segundo e terceiro período apresentado por ele, embora pareça tomar como
ponto base de sua divisão a famosa questão Religiosa, pois, naquele momento, muitas

24
foram as folhas católicas que surgiram como uma reação de uma Igreja que se sentia
perseguida.
Outra periodização é apresentada pela CEPHIB, no livro do Frei Oscar Lustosa
que, embora diga que é apenas uma proposta, dificilmente, no momento atual de
investigação sobre a Imprensa Católica no Brasil, posa ser afastada, Frei Lustosa divide
a Imprensa nas seguintes fases:
1. fase de iniciação, compreendendo 1830 até 1870. Observa-se nessa
fase “o empirismo, o artesanato e a dispersão de iniciativas”, que é
decorrente do tipo de catolicismo praticado no Império, por uma
natural influência do sistema de Padroado que “não permitia
quaisquer iniciativa s em que transparecesse a intenção e a tendência
de articular um movimento ou um programa de Igreja;
2. fase de consolidação e articulação – de 1870 até 1900. Neste
momento, os jornais apresentam uma maior informação sobre os
assuntos da Igreja e com perspectivas polêmicas, tendo de enfrentar
as muitas mudanças que estavam ocorrendo na sociedade brasileira e
que, em grande parte eram trazidas da Europa. Havia uma
necessidade de defender-se contra os ataques sofridos pela Igreja. São
nesses ataques que fazem proliferar uma maior quantidade de jornais
católicos;
3. fase de organização e articulação – de 1900 até 1945, em que pode
ser encontrada uma preocupação com a formação de uma infra-
estrutura para o jornal e se pensa formar uma Associação de Boa
Imprensa, como se faz em várias dioceses e até mesmo um Centro da
Boa Imprensa, que serviria de base para a centralização e distribuição
de notícias para todos os jornais católicos no Brasil;
4. fase da especialização, após 1945, em decorrência dos avanços
tecnológicos e dos meios de comunicação que devem criar novas
perspectivas para a missão da imprensa católica14.
É pouco dificultoso notar que a essa periodização do CEPHIB, apresentada por
Frei Lustosa, pouco se pode propor. Contudo, deveríamos notar que eles se refere
apenas aos jornais, não levando em consideração as revistas como VOZES,
CONCILIUM, CEAS, e outras que, surgiram após o ano de 1945, embora a Revista
VOZES circule desde 1910. Por outro lado, deve-se ainda pensar na formação das

25
editoras criadas pelas ordens religiosas que chegaram ao Brasil após 1880, como os
Maristas, os Paulinos e Paulinas e outras ordens que se dedicaram à Boa Imprensa. Há,
pois, muito ainda a se estudar e se compreender na atuação da Igreja na Imprensa e, por
meio dela, na Sociedade brasileira. Há, ainda, no campo das comunicações sociais, todo
um estudo a ser feito, analisando a participação da Igreja no campo da rádio difusão e
da televisão. Contudo, esses são um outro aspecto dessa imensa realidade que é a
necessidade do estudo sobre a Igreja no Brasil.

Referências Bibliográficas

1
CARONE, Edgar. Arquivo, Boletim histórico e informativo. São Paulo: Edição
Arquivo do Estado, vol.4, n.º 3, 1983, pp. 109-110.
2
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Edt.
Civilização Brasileira, 1966.
3
KOSHIBA, Luiz e PEREIRA, Denise Nanci. História do Brasil. São Paulo: Editora
Atual, 1980, p. 124.
4
ALMEIDA, Gastão Thomas de. Imprensa do Interior, Um Estudo do Preliminar. São
Paulo: Convênio IMESP-DAESP, 1983.
5
Pastoral publicada in Lustorsa, Oscar de Figueredo. Os Bispos do Brasil e a Imprensa.
São Paulo: Edições Loyola/CEPHIB, 1983.
6
Todas as citações das pastorais são retiradas da obra de Oscar Lustosa citada na nota 5,
não sendo necessário enviar o leitor às notas cada vez que citamos uma pastoral, desde
agora.
7
LUSTOSA, Oscar de Figueredo. Op. Cit. p. 11.
8
Idem, pp. 13.
9
Idem, pp.12 e seguintes.
10
ALMEIDA, Gastão Thomas de. Op. Cit., p.24.
11
Idem. p. 24 e seguintes, aqui Gastão apresenta um quadro em que estão listados os
jornais paulistas mais antigos e ainda em circulação.
12
LUSTOSA, Oscar de Figueredo. Op. Cit. p. 29.
13
FRAGOSO, Hugo. Imprensa Católica no Império. In: História da Igreja no Brasil.
Petrópoles: Vozes. Tomo II/2, 1981, p. 214 ss.

26
14
LUSTOSA, Oscar de Figueredo. Op. Cit. p. 12 ss.

Capítulo II
A Tribuna Religiosa

Em toda a História do Brasil, Pernambuco tem sempre marcado sua presença de


uma forma criativa e, muitas vezes, de maneira pioneira. Na colonização, no
estabelecimento de uma forma própria de ocupação territorial, no aproveitamento das
terras, nas lutas pelos ideais libertários, na formação de uma ideologia nacional, nas
campanhas pela Independência, além de ter sido a última trincheira revolucionária do
século XIX, precursora dos ideais socialistas. Tudo isso faz parte da História de
Pernambuco e do Brasil. na imprensa, contudo, não foi Pernambuco um precursor.
Coube ao Rio de Janeiro tal honra, ainda porque sede do governo. E, se o Rio de Janeiro
apresenta o primeiro exemplar de jornalismo no Brasil, é na Bahia que se publicam as
primeiras folhas católicas. É lá onde nasce a imprensa católica no Brasil.
Os jornais, são, sem a menor dúvida, uma das principais fontes de pesquisas para
o conhecimento dos homens, das sociedades grafas. Neles podemos encontrar o dia-a-
dia, a preocupação singela, os acontecimentos fortuitos que tecem a vida de uma cidade,
de uma comunidade, de um bairro, ou de um grupo social mais próximo, porque
identificado com os sentimentos mais profundos e arraigados, que são os sentimentos
religiosos. Ora, Pernambuco possui em sua história uma plêiade de jornais e pasquins

27
onde estão retratados, a cru, os mais diversos matizes políticos e sociais das diversas
classes, defendendo os mais díspares interesses econômicos, religiosos, políticos,
desportivos, etc., etc., etc.
Já pouco antes da Independência do Brasil. Cipriano Barata lançou o seu famoso
“Sentinela da Liberdade”, de vida tão heróica quanto conturbada. Em 1821, Rodrigo
Fonseca Magalhães dirigia o “Aurora Pernambucana” e Felipe Calado publicava o
“Cegarrega”. Mais famoso e maisconhecido foi o “Tiphys Pernambucano”, do
carmelita, Prof. Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Além desses, podíamos citar
tantos outros, porém apenas mencionaremos o “Diário de Pernambuco”, “O Repúblico”,
“O Tribuno”, “O Sete de Setembro”, “O Diário Novo”, “O Jornal de Recife”, e tantos
outros que fizeram e ainda fazem a história da imprensa em Pernambuco. Não é nosso
intento nem nosso objetivo nesse trabalho enveredar por uma longa pesquisa e
dissertação no campo vasto da análise dos jornais pernambucanos. Amaro Quintas,
Gilberto Freyre, Vamireh Chacon, Mario Márcio, Marc Jay Hoffnagel, José Nivaldo Jr.,
Leda Rivas, e tantos outros já o fizeram e ainda o fazem com a propriedade que não
possuímos1. A obra mais monumental é a de Luiz Nascimento, História da Imprensa de
Pernambuco, e que nos dá um retrato de riqueza qualitativa e quantitativa da imprensa
pernambucana.
Mas a vitalidade publicatória veio a alcançar, também o espaço das confissões
religiosas, especialmente a Igreja Católica em Pernambuco, que nos interessa
sobremodo. Já no século XIX floresceram aqui uma série de publicações, de vida
relativamente curta, de orientação católica. Ainda em 1848, o Diário de Pernambuco
anunciava o nascimento da folha O GUIA CATÓLICO e augurava sucesso ao novo
jornal, pois “a religião é o primeiro e mais forte elemento formador da sociedade”2. De
todos os jornais e folhas católicos publicados no século passado foi A UNIÃO o que
mais tempo viveu.
A própria TRIBUNA RELIGIOSA nos informa sobre a vida diversos jornais
católicos existentes em Pernambuco. A lista que ela apresenta é:

28
A Voz Parochial- publicado em Vitória, com tiragem mensal;
A Voz das Crianças- publicado em Recife de forma irregular;
A Pátria- mensário publicado em Recife desde 1913;
A Mocidade- publicado na cidade de Olinda sob a direção do Pe. João Uchoa;
O Lyrio- publicação da Academia São Luiz de Gonzaga;
A Folha do Sertão- semanário publicado na cidade de Triunfo;
A Gazeta- semanário da Paróquia da Boa Vista, em Recife;
Maria- revista mensal dos Filhos de Maria;
Alto Sertão- jornal publicado semanalmente em Floresta;
Mês do Clero- revista fundada em 1917 pelo Monsenhor Affonso Pequeno3.

Ora, não queremos fazer um levantamento de toda a imprensa católica em


Pernambuco com o que foi explicado acima. Pretendemos mostrar que o jornal A
TRIBUNA RELIGIOSA é um jornal filho de seu tempo, não sendo único nem solitário.
Apenas tem uma importância especial, pois ele é, por desejo de seus bispos, o órgão
oficial da diocese de Olinda, desde o dia primeiro de fevereiro de 1909.
A TRIBUNA RELIGIOSA tem o seu nascimento na fase que o Frei Oscar
Lustosa chamou de “Organização e Articulação” de imprensa católico no Brasil, fase
que vem desde 1900 até 1945. Contudo, a vida de A TRIBUNA RELIGIOSA segue até
o início dos anos de 1960, tendo, portanto, alcançado a fase da chamada
“especialização”.
Conforme dissemos anteriormente, nas páginas de A TRIBUNA RELIGIOSA
encontramos os mais diversos assuntos, tais como conselhos aos agricultores sobre
método de plantio; notícias sobre epidemias que nos assolam; debate político, apesar de
dizer se “apolíticos”; luta contra o protestantismo, que avança sobre Pernambuco desde
o início do século XX; análises de filmes; notícias do mundo; defesa do Papa etc.. Em
sema, todos os artigos que possam provocar interesse aos homens de leitura, ou de
escuta, pois é de se esperar que, nas noites sem televisão de antanho, tenha sido comum
a roda à boca da noite, para a leitura comum do jornal, por aqueles a quem a sorte e os
caprichos do sistema econômico-político-social tenha permitido a graça de aprender a
ler.
A Tribuna Religiosa, como tantos outros momentos de rara inspiração da Igreja
Católica em Pernambuco, nasceu no Seminário de Olinda. Os Seminaristas estudantes
de teologia formavam a Pia União de São Luiz de Gonzaga e, e reunião do dia 13 de
julho de 1906, decidiram pela formação de um jornal que receberia o nome de A
TRIBUNA. Tudo isto está contado no n.º 1 do jornal, a nossa principal fonte de

29
pesquisa. Quando ocorreu a fundação do jornal, a diretoria da Pia União de São Luiz de
Gonzaga estava assim formada:
Presidente - Clérigo Olynpio Mello
Vice-Presidente - Clérigo Balthazar Vieira
Primeiro-Secretário - Clérigo João Von Werdt
Segundo-Secretário - Sr. José Antero
Orador - Clérigo Ricardo Vilella
O primeiro número veio a ser publicado em 26 de agosto de 1906, com o
formato 27X18, com quatro páginas de duas colunas. A impressão do jornal foi feita nas
oficinas do Jornal do Recife, na Rua do Imperador, n.º 434. Os primeiros redatores do
jornal foram: Dom José Pereira Alves, Dom João Tavares de Moura, ainda estudantes
de teologia do Seminário, Dom Augusto Álvaro da Silva, então vigário de São José e o
Pe. Vicêncio Luna Sobrinho, vigário de Vicência5.

Os primeiros números de A TRIBUNA indicam que ela foi criada para ser um
órgão dos estudantes do Seminário, contudo eles esperavam que as paróquias vizinhas
ao Seminário viessem a ler beneficiar-se do jornal. De fato eles escreviam para toda a
sociedade. Desde o primeiro editorial que vem com o título “A Boa Imprensa”. Esta é
definida como

“A Salvaguarda da civilização e da moral por ela há


de pregar a verdade”6.

e o terceiro número, com o editorial “A Cruz e a Imprensa”, afirma que é

“a Imprensa a alavanca poderosa que cavou a


ruína do despotismo”7.

Está aqui presente a idéia da liberdade que a Igreja sentia ameaçada


naquele momento, seja pela Estado brasileiro seja por outros, como a França –
que é chamada de “França Ingrata”, ou o México, vizinho mais próximo, onde a
Igreja está sofrendo maus momentos com a Revolução Mexicana.
O Arquivo da Arquidiocese de Olinda e Recife, das iniciais dos dez
números, só conta com os três primeiros. Segundo Luiz Nascimento, o “n.º 10,

30
datado de janeiro de 1907, insere portaria do Bispo de Olinda, Dom Luiz Brito,
segundo a qual ficava aumentado o corpo redacional, sob a direção do
Monsenhor Marcolinho Pacheco do Amaral, reserva-se uma secção para o
“Boletim Oficial destinado a divulgar a solução dos casos de moral, as
disposições da Santa Sé e as da administração diocesa”8. O número 11, datado
de 1º de fevereiro de 1907, torna o jornal Órgão Oficial da Diocese de Olinda e
passa a ostentar o nome de A TRIBUNA RELIGIOSA. Tal título, quem sabe,
seja uma afirmação contra outras religiões que proliferam cada vez mais em
Pernambuco. Assim, o jornal parece querer-se afirmar como a “única” tribuna
religiosa. Agora, órgão oficial, a TRIBUNA RELIGIOSA apresenta uma novo
formato 37X25, com três colunas e passa a ser tipografado na Imprensa
Industrial, situada na Rua do Apolo, n.º 49/519 e a redação do jornal passa a ser
no palácio do bispo. O jornal define-se afirmando que

“somos inteiramente estranhos à política, pelo que não nos


Veja-se que se
enredos dos partidos. Desejamos concorrer para o
entende política, aqui, no 10
nobilitamento moral da sociedade” .
seu sentido tacanho, não
percebendo que o “nobilitamento moral da sociedade” é uma postura política em seu
aspecto mais saudável. É desta época que se forma um sistema de assinatura que, com
várias crises e penúrias, irá manter o jornal funcionando até os anos de 1960.
Várias crises acompanharam o jornal durante esse longo tempo de vida,
variando, também as oficinas tipográficas que fazem o jornal. Desde 15 de agosto de
1907, segundo Luiz Nascimento, passou a ser tipografado na Agência Jornalística
Pernambucana, de propriedade de Júlio Agostinho, que, funcionava na Rua do
Imperador, n.º 31/33. Neste número, o jornal apresenta um novo formato, 49X35. Em
1909 passa a possuir sua própria oficina, na Rua da Aurora, n.º 197, e se torna semanal.
Uma das grandes crises foi em 1916, quando foi suspenso, reaparecendo em 15
de março de 1917 e, em editorial, o jornal desculpa-se por ter estado ausenta tanto
tempo, mas afirma estar de volta para cumprir

“o alto dever de expor a verdade, defender a Fé Católica e


combater o erro sob todas as formas de modalidade”11.

31
Uma outra pequena crise, em 1921, faz o jornal voltar ao nome primitivo. A
TRIBUNA12. Pensando na manutenção do jornal, o Arcebispo Dom Miguel Valverde
cria a Associação da Boa Imprensa e, desde 18 de outubro de 1923, o jornal passa a ser
órgão dessa Associação que, a cada primeiro Domingo de cada mês, tem campanha com
objetivo de angariar fundos13. Entre 1932 e 1934 passa a ser publicado
bissemanalmente, sob a direção do Professor Rui Belo, mas, ao final de 1934, volta a
sua edição semanal14. Entre 1943 e 1947 o jornal fica suspenso e, ao retornar, sob a
direção de Luiz Delgado, mantém contrato com “Notícias Católicas”, agência mantida
pelo National Catholic Welfare Coucil15.
Sem dúvida, se condições financeiras foram sempre causas da suspensão de A
TRIBUNA RELIGIOSA, como deixa a entrever a circular do Bispo Dom Sebastião
Leme, em 12 de fevereiro de 1917, ao dizer que

“com o encarecimento dos materiais de imprensa, essas


dificuldades cresceram tanto, que ela (A TRIBUNA) deixará
de existir, se não acudirmos com pronto remédio”16.

O remédio adotado foi aumentar o preço da assinatura que, segundo o bispo, é


mais barata que a dos demais jornais que circulam na cidade. Pede ajuda aos vigários
para conseguir novas assinaturas. É aos vigários que o bispo “entrega a sorte do nosso
pobre jornal”.
Os articulistas colaboradores do jornal era, a princípio, na sua maioria, padres.
Padres foram os seus diretores, como Pe. Alberto Pequeno, Pe. Leonardo Mascelo, Pe.
Pereira Costa. Mas, também foram leigos diretores do jornal ao longo tempo. Católicos
leigos como Lacerda de Almeida (1925), Rui Aires Belo (1932). Luiz Delgado (1947).
Os colaboradores do jornal eram os mais diversos, padres, leigos. Citamos uma lista de
alguns, mais ou menos na cronologia em que escreveram pra a TRIBUNA
RELIGIOSA: Antônio Guedes Alcoforado, Pe. José G. de Sá Leitão, Pe. José do Carmo
Barata, Prof. João Feliciano da Motta Albuquerque, Barreto Campelo, Landelino
Câmara, Correia Brito, Tributino Mondin, Epifânio Bezerra, J. Falcão Filho, Manuel
Cirilo, João Monteiro, Eustógio Vanderlei, Bejamim de Albuquerque, Pe. Dubois, Pe.
Júlio Cabral, Álvaro Negromonte, Heloísa Fonseca, Andrade Bezerra, Monsenhor
Xavier Pedrosa, Pe. Nestor de Alencar, Felisberto de Santos Pereira, Mauro Mota, Pe.

32
Antônio Fernandes, Mílton Cabral, Costa Rego Jr., Domingos de Albuquerque, Gomes
Maranhão, Nilo Pereira, Pe. Tenório das Canavieiras (este era o pseudônimo de D.
Cabral Beltrão), Luiz Delgado, José Vieira Coelho, Manuel Lubambo, Tristão de
Ataíde, Ségio Higino, Novais Filho, Oscar Mendes, Dom Costa, Dom Hélder Câmara,
Pe. Daniel Lima, Dom Pedro Bandeira de Melo, Pe. Bonifácio Hemelink, Judite
Listowel, Pe. Zeferino Rocha, Amadeu Cunha, Francisco Barreto Campelo, Costa Porto,
Carlos Schanal, Pe. Francisco Hansen, Frei Bonifácio Muller, Flávio Guerra, e tantos
outros. Pelos nomes de seus colaboradores, nota-se que a importância de A TRIBUNA
RELIGIOSA é grande dentro do mundo intelectual pernambucano, e este, por si só, já
seria um motivo para estudar a TRIBUNA, entender o que ela representou para uma
geração, ou melhor, várias gerações de católicos, alguns dos quais homens de brilho nas
letras e nos pensares pernambucanos. Contudo, queremos apenas entender qual o papel
que A TRIBUNA RELIGIOSA representou no grande drama da Primeira Guerra
Mundial, momento crítico para a sociedade brasileira, momento do zênito e do declínio
da aristocracia rural, momento do início da ascensão da burguesia ao poder.

Referências Bibliográficas

1
Veja-se nos compêndios de História do Brasil e Luta contra os Holandeses; Carlos
Guilherme Mota. MOTA, Carlos Guilherme da. A Idéia de Revolução no Brasil,
Petrópoles: Vozes, 1980. Nordeste 1817, E. Perspectiva, 1978. QUINTAS, Amaro. O
Sentido Social da Revolução Praieira. Recife: Ed. Universitária – UFPE, 1975.
CHACON, Vamireh. História das Idéias Socialistas no Brasil. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1966.
2
LUSTOSA, Oscar. Os Bispos e a Imprensa no Brasil. São Paulo: Ed. Loyola/CEPHIB,
1983, pp. 14.
3
TRIBUNA RELIGIOSA, n.º 43, Ano XII, 7.11.1918, pp. 01.
4
NASCIMENTO, Luiz de. História da Imprensa de Pernambuco. Recife: Ed.
Universitária – UFPE, Vol. 05, 1975, pp. 118.
5
Idem.
6
TRIBUNA RELIGIOSA, n.º 2, Ano I, 09.09.1906.
7
TRIBUNA RELIGIOSA, n.º 3, Ano I, 16.09.1906.

33
8
NASCIMENTO, Luiz do. Op. Cit., pp. 182.
9
Idem.
10
Idem.
11
TRIBUNA RELIGIOSA, n.º 1, Ano XI, 15.09.1917, pp. 01.
12
NASCIMENTO, Luiz do. Op. Cit., pp. 182.
13
Idem, pp. 185.
14
Idem, pp. 188.
15
Idem, pp. 188.
16
TRIBUNA RELIGIOSA, n.º 1, Ano XI, 15.03.1917, pp. 01.

Capítulo III
Preâmbulos de Guerra
- O Fim da Neutralidade –

Até 1917 o Brasil proclamou-se neutro diante o conflito armado que se iniciara em
1914 como conseqüência da expansão dos países capitalistas europeus. O imperialismo
economicamente provoca tais conflitos. Os diversos segmentos da sociedade brasileira
não estavam unidos quanto à posição de neutralidade adotada pelo Estado brasileiro.
Seguindo a orientação vinda do Vaticano, a Igreja Católica assumiu e defendeu a
neutralidade. Outros segmentos sociais também tomaram uma posição de neutralidade e
defendiam uma política que levasse à paz. Os setores operários assumiram tal postura,
desde a denúncia sistemática dos “sorteios militares” até à formação do exército
profissional. Os setores operários do país entenderam que a guerra era uma necessidade
capitalista, dos diversos capitalismos nacionais, uma vez que os mercados internos já
não ofereciam condições para o consumo de toda a produção nacional de sua indústria.
O operariado nacional condena a guerra por ela fazer parte de uma política de expansão

34
ou de uma política colonial. Assim o conflito de interesses “surgido em virtude das
rivalidades comerciais e industriais das potências européias”1 faz com que patriotismo,
honra nacional, raças, defesa da cultura e da civilização, tornem-se balelas que
encobrem os reais interesses da burguesia. Por essas razões os operários dizem:

“Nós queremos a paz. A guerra fere fundo os nossos interesses


mais vitais. Recusamos aos governos dos países em guerra o
direito de perturbar a vida internacional. A conflagração é um
crime monstruoso de lesa- humanidade. E contra os criminosos
guerreiros, nós, todos, dos povos dos países neutros, temos o
direito de protestar. Temos o direito de exigir a paz. Temos o
direito de exigir que a guerra termine”2.

A burguesia, por seu turno, é guerreira. Deleite-se com a ação de Olavo Bilac,
com a sua companha pelo serviço militar obrigatório, com a organização da Liga de
Defesa Nacional, com a formação das linhas de tiro. Ora, na prática, apesar do discurso
neutro, mesmo antes da declaração de guerra, membros da hierarquia católica assumem,
regionalmente, a direção da Liga de Defesa Nacional, numa clara demonstração de
adesão aos conceitos da burguesia. Contudo, dentro da Igreja havia setores que estavam
mais próximos das razões operárias e viam com seriedade a política de neutralidade.
O Cônego Afonso Pequeno é um dos defensores da neutralidade e se contrapõe
com entusiasmo aos grupos que pressionam o governo para que o Brasil entre na guerra.
Em artigo publicado em 12 de abril de 1917, ele assim escreve:

“não quero levantar a mão desse papel sem protestar contra as


indignas insinuações de alguns jornalistas belicosos que cinicamente
argumentam que devemos passar o lado dos aliados. Para não
sofrermos a pressão da Inglaterra que se arvora em garantidora de
nossos empréstimos aos banqueiros da Europa”. “Protesto também
energicamente contra os que dizem que devemos seguir aos Anglo-
saxãos Americanos”. “Nunca. O Brasil não é satélite de povo algum.
Ele tem sua órbita independente gravitando unicamente em torno do
sol da justiçpa13”.

35
Neste artigo do Monsenhor Afonso Pequeno uma demonstração de uma política
contra a guerra. Ele, o Monsenhor, não a deseja. Mesmo porque a postura da Igreja tem
sido de neutralidade, pois desde o início do conflito que o papa Bento XI tem-se
oferecido para servir de mediador e pôr fim à guerra. Contudo, o Monsenhor apresenta
razões que não serão as defendidas pela maioria de hierarquia católica no Brasil. o
Monsenhor denuncia que o patriotismo não é o verdadeiro motivo da guerra. Mostra que
certos setores estão ligados a potências estrangeiras e ele se recusa a aceitar tal
dependência. O seu artigo pretende que o Brasil possa evitar a dependência do capital
Estrangeiro e dá a entender que as nações vivem em um mundo em que as vontades
individuais se sobrepõem aos mecanismos de interesses. O posicionamento do
Monsenhor Pequeno torna explícito a dualidade permanente da postura da Igreja,
dividida entre a vontade de alguns e a imposição política que se direciona em busca da
formação de uma nova cristandade.
Neste mesmo número é anunciado que o navio PARANÁ foi torpedeado e
ocorre o rompimento de relações com a Alemanha4. Começa agora o momento de tensão
em que a Igreja e o clero de Recife vêm a viver, pois, indiferente aos apelos do papa, a
Guerra continua.
O editorial do número 6, do dia 10 de abril de 1917, é dedicado á questão do
navio PARANÁ e qual será o rumo que o Brasil irá tomar.

“Seremos arrastados ao grande incêndio? Os Estados Unidos


nos levarão na sua cauda à desumana guerra em que se matam
os povos?”5

Nota-se aqui, mais uma vez, a colocação de que o Brasil irá à guerra arrastado
pelos Estados Unidos. Neste editorial os brasileiros são chamados a “confiar na ação
prudente, enérgica e inteligente do nosso patriótico governo”, embora afirme que a guerra
deva ser evitada, pois o editorial esforça-se para defender uma posição de neutralidade,
pois essa é a postura do Santo Padre,

“porém Quod Averat justas razões obrigarem os brasileiros às armas,


então caminharemos para o campo da honra e da vida”.

36
Postura dúbia:
“iremos ressuscitar o heroísmo do nosso passado glorioso e
derramar pela nossa querida pátria o generoso sangue de
nossas veias6”

quer-se a neutralidade, sabe-se que há o interesse americano, mas os valores do


patriotismo e expressões como “campo de honra” pretendem encobrir as verdadeiras
razões. Assim, o jornal caminha em uma linguagem bilacquiana para dizer que embora
seja dito que a guerra é “um grande incêndio” onde se matam os povos”. Observamos,
pois, que a neutralidade é uma política que pode mudar em função da pátria. O Jornal
mostra-se voltado para os anseios de uma parcela do povo, e virá a animar o patriotismo
ufanista, o patriotismo esperado pelo movimento que tem como líder Olavo Bilac, um
patriotismo próximo da burguesia e distante das parcelas operárias do Brasil.
Ainda nesse número 6, é mencionado que o povo carioca “tem feito manifestações
ruidosas ao Presidente da República diante da atitude que assumiu o Brasil perante o
torpedeamento do Paraná”.
Como se comportará o clero perante a guerra que se aproxima inevitável? O
Bispo Dom Sebastião Leme concedeu entrevista ao Jornal A PROVÍNCIA, de Recife,
no dia 6 de maio de 1917. Parte foi reproduzida nA TRIBUNA RELIGIOSA do dia 10
de maio, número 9 daquele ano. Assim se manifesta o prelado:

“Afaste Deus do Brasil, os flagelos da guerra. Mas se para cumprir


honrosamente o seu dever o nosso governo declarar guerra, nós do clero
estaremos em nosso posto de honra. Nós estamos, pois, ao lado do governo.
Por último a minha opinião pessoal: nem a guerra afoita por amor aos
aliados, nem a Paz humilhante por amor aos alemães. Nem atitudes de quem
perdeu o juízo, nem atitudes de quem tem medo de definir-se. Sejamos dignos
de nossos antepassados, calmos e ponderados em nossas relações com o
estrangeiro, mas cônscios de nossa dignidade. Ciosos da Honra de nossa
Bandeira”7.

37
Notamos, nessa declaração, como é entendida a neutralidade e qual será a
política que pautará todo o comportamento da Igreja e do jornal face à guerra: ela
deverá ser evitada, mas, se vier, encontrará a Igreja, o clero e os católicos ao lado do
governo, com espírito patriótico aceso e pronto pra as armas.
No número 12, do dia 31 de maio de 1917, um artigo assinado por Zacheu, traz o
título “Cobardia...Não!” . Então é analisada a participação dos padres na guerra. Estavam
sendo assacadas acusações de que os padres não queriam a guerra. Em defesa dos
presbíteros, Zecheu afirma que

“o clero não deseja a guerra porque a guerra é um mal, mas


quer a paz porque a paz é um bem”8.

Continuando, o artigo coloca que

“não devemos proclamar a necessidade da guerra por


conveniência baixas que a dignidade repele9”...

Então a guerra é vista


como uma questão moral, uma questão ética que não pode ser presa à interesse
“menores”. Zacheu diz que a atitude do brasileiro e do clero católico face à guerra dever
ser de cautela mas,

“se o Brasil, obrigado pelas circunstâncias, apanhar um cartel de desafio


e entrar na guerra, nenhum sacerdote, estou certo, recusará seus serviços
á Pátria, porque todos amam acendradamente o Brasil; mas, enquanto o
país estiver á margem do abismo, o grito de todo brasileiro deve ser este:
Pela Paz! Paz! Enquanto não se avilte a nossa honra”

e continua

“o pensar do Clero Católico é este: se a guerra vier, o Brasil dispõe


de nossas forças, de nossa vida, porque somos a sentinela da
religião e da Pátria10”.

38
e ,então vemos a relação Religião-Pátria. A guerra oferece a oportunidade para reatar as
relações, os laços próximos que a República cortara, vemos a formação da nova
cristandade, ou seja, esse modo específico de inserção da Igreja na sociedade, em que se
utiliza o poder político e social das classes dominantes como mediação junto aos
homens.
O reatamento das relações é buscado por ambos os lados, pela Igreja e pelo
Estado. O jornal de 3 de maio de 1917, número 8, traz uma nota informado que o
Ministro do Supremo Tribunal Federal e Presidente da Liga de Defesa Nacional, Olavo
Bilac, comunica ao Bispo de Olinda que ele foi nomeado membro do Diretório Regional
de Pernambuco da Liga de Defesa Nacional11.Vê-se que o processo de aproximação das
instituições vem sendo acelerado por conta desse momento de crise. Dom Sebastião
assumiu o cargo em sessão solene realizada no Teatro Santa Isabel12 no dia 13 de maio
de 1917. Naquela ocasião, o Bispo discursou analisando a situação em que vive o Brasil
e que ele chamou de “Letargia do Civismo13. Então afirma:

“a Liga quer preparar a defesa nacional primeiramente


dos perigos externos, imediatos, diretos, atuais e
possíveis14.

Porém, como afirmara anteriormente, o Bispo não deseja a guerra, pensa em


evitá-la. Assim ele comenta:

“Não quero referir-me à probabilidade de uma guerra


próxima. Longe de mim, concorrer para escaldar o
espírito público. Apóstolo da Paz não posso pregar a
guerra15”.

Ora, como Bispo ele não pode querer a guerra, ele é o defensor da Paz, mas é, ao
mesmo tempo, membro da Liga de Defesa Nacional, por isso exclama:

“de uma momento para outro os povos fracos e desarmados


podem ser vítimas dos mais fortes. Nestas condições não
podemos descurar de armar a Nação. Pois, mais do que a
guerra porém, nós amaldiçoamos a possibilidade de uma
derrota16”.

39
seguindo o seu discurso, apela para que

“desapareça, por isso, as desconfianças e morram as


dissenções e de pé juremos defender a unidade da Pátria”.

e a Igreja pode ser o cimento que irá promover a unidade da Pátria. A partir desses
dados, podemos notar que há um grande esforço para demonstrar que a Igreja não é
inimiga do Estado ou do governo. Pelo contrário. É um esforço que se percebe a nível
nacional. O exemplar de número 12, de 31 de maio de 1917, reproduz trechos da
circular dos bispos do Sul sobre a Religião e o Patriotismo. Tal circular vem assinada
pelo Cardeal Arcoverde, Rio de Janeiro; Dom Silvério, Mariana; Dom Duarte , São
Paulo; Dom Carlos, Cuiabá; Dom João, Porto Alegre. Os bispos estabelecem que não há
qualquer oposição entre o fato de ser católico e o patriotismo, pois

“à Igreja importa a submissão da inteligência aos seus


dogmas, da vontade às suas disciplinas, do coração à
sua direção”.

Além disso, nada impede a adesão às demais questões sociais que dependem de uma
direção à qual se furta o pronunciamento episcopal.
O diálogo entre as instituições – Estado/Igreja – continua. No dia 14 de junho de
1917, o número 14 transcreve telegrama que o Marechal Castanho de Farias, Ministro
da Guerra, enviou ao Cardeal Arcoverde. Refere-se à circular dos bispos. Diz o
telegrama:

“Permita que eu facilite a V. Ema. como chefe de nossa Igreja, pelos


conceitos altamente patrióticos da circular coletiva dos Exmos. Srs.
Arcebispos. Permita, ainda, que eu apresente a V. Ema. os mais
sinceros agradecimentos pelas honrosas referências ao soldado
brasileiro, em cujo caráter repercutirão as palavras de amor e
patriotismo da Circular. A Nação, e especialmente o exército,
sentirão, ao ler tão importante documento, um justo orgulho em
possuir, em seu seio , um Clero que sabe tão nobremente aliar os seus
diversos sagrados com os sentimentos nacionais17”.

40
Em tais documentos há uma linguagem de respeito mútuo a que não estamos
mais acostumados em tempos mais recentes. Naquele momento de guerra, tudo se
encaminhava para unir as instituições maiores. E isso não ocorria apenas no Brasil.
Mesmo na França, em que o anticlericalismo no período anterior à guerra foi tão forte,
os bispos franceses, noticia a TRIBUNA RELIGIOSA

“a fim de obterem vitória fácil para os seus exércitos, fizeram


voto de celebrar anualmente, com toda solenidade e em todas as
Igrejas e Capelas da França, a festa do Sagrado Coração de
Jesus18”.

Inferimos, então, que é desejo da hierarquia o reatamento das relações. Este


desejo é prontamente respondido por um setor social que está em ascensão e que no
momento é foco das atenções, devido à iminente declaração do estado de guerra. O
Exército sente-se „orgulhoso‟ em saber que o clero “sabe aliar os seus deveres sagrados
ao patriotismo”. As duas espadas, os dois “gládios” estão próximos. As duas instituições
sentem-se irmanadas e aptas para enveredar por um longo caminho de convivência. A
confiança foi restabelecida. A manutenção da ordem e o respeito aos valores nacionais
são abençoados sobre as orações consagrações da França, da Bélgica ao Sagrado
Coração de Jesus. A cidade do Recife é consagrada à Nossa Senhora do Carmo. O
Brasil à Nossa Senhora de Aparecida. A neutralidade em face à guerra acaba. E, com o
seu fim, a hierarquia, embora continue falando de Paz, assume posição ao lado do
Estado que se prepara para a guerra. Tudo isso se torna mais claro quando o governo
declara guerra. É o que veremos a seguir.

Referências Bibliográfica

1
CARONE, Edgar. A primeira República. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1973,
pp. 247.
2
Idem, pp. 247-251. Manifesto assinado pela Confederação Operária Brasileira,
Federação Operária do Rio e Janeiro, Sindicado dos Operários das Pedreiras, Sindicato

41
dos Panificadores, Sindicato dos Sapateiros, Centro dos Operários Marmoristas, Liga
Federal dos Empregados de Padarias, Liga Nacional dos Pintores, União dos Alfaiates,
Sociedade União dos Estivadores, Centro Cosmopolita, Liga Anticlerical, Centro de
Estudos Sociais.
3
T.R. – Dia 03.04.1917, pp. 1, n.º 5.
4
T.R. – Idem, pp. 3.
5
T.R. n.º 6, dia 10.04.1917, pp. 1.
6
Idem.
7
T.R. n.º 9 – 10.05.1917, pp. 1.
8
T.R. n.º 12 – 31.05.1917, pp. 1.
9
T.R. Idem.
10
T.R. Idem. Ibiden.
11
T.R. n.º 8 – dia 03.05.1917, pp. 1.
12
T.R. n.º 11, dia 24.05.1917.
13
T.R. Idem, pp. 1.
14
T.R. Idem.
15
T.R. Idem.
16
T.R. Idem.
17-
T.R. n.º 14 – dia 14.06.1917.
18
T.R. n.º 22 – dia 09.08.1917.

42
Capítulo IV
A Guerra em Casa

Quando candidato à Presidência da República, Wenceslau Braz disse que o bom


Presidente “governa fora e acima dos partidos”1. Tal frase fora o sonho dos imperadores
Pedro I e Pedro II, o poder moderador, Wenceslau Braz apresentou-se “paciente,
contemporizador, maleável, tolerante, por índole e cálculo, o político mineiro não tinha
prazer em forçar os acontecimentos. A sua tática seria sempre ladeá-los, contando com a
função emoliente do tempo”2. O Presidente não desejou a guerra, conforme manifesto
feito á Nação e que foi reproduzido nA TRIBUNA RELIGIOSA, como também em
todos os períodos. Os navios brasileiros foram torpedeados e a participação do Brasil na
guerra foi oficializada em 26 de outubro de 1917, através do decreto n.º 33613. Os
leitores de A TRIBUNA RELIGIOSA tomaram conhecimento do fato através do
número 34 do ano XI, datado de primeiro de novembro de 1917, com o surgimento de
uma nova secção, que será publicado durante todo o restante do ano e durante o ano de

43
1918, enquanto perdurarem entusiasmos que a guerra provoca. A secção chama-se O
BRAZIL NA GUERRA e começa assim:

“A 25 do corrente, chegou ao Brasil a notícia do torpedeamento do


vapor nacional Macau, por um submarino alemão nas costas da
Espanha, sendo aprisionado o seu comandante. Em vista deste novo
ataque à soberania da Nação, o Sr. Presidente da República enviou
ao Congresso a seguinte mensagem, e que foi aprovada na Câmara
por 114 votos contra 1 e no Senado por unanimidade, no dia 26 de
outubro último. Fica reconhecido o estado de guerra iniciado pelo
Império Alemão contra o Brasil. O Presidente da República é
autorizado a adotar as providências constantes na mensagem do dia
25 do corrente mês de outubro e a tomar todas medidas para a defesa
Nacional e a segurança pública que julgar necessária; abrindo
créditos e revogando as disposições em cotrário. A notícia da
declaração de guerra foi recebida com patriotismo por todos os
brasileiros que saberão cumprir o seu dever”4.

A nota completa, chamando atenção para a necessidade de União Nacional


diante do grave momento em que vive a Nação e chama a atenção para a inexistência de
desordens públicas, “neste momento histórico cessarão os ódios políticos, calar-se-ão as
simpatias individuais, e unidos todos ao governo farão do amado Brasil uma Nação forte,
porque um país unido é um país vitorioso. O nosso Brasil mostrou sua alta educação na atual
emergência. Apesar do grande patriotismo dos seus filhos, não houve uma desordem, não
houve uma dessas manifestações hostis que depôem contra a educação de um povo”5.
Essas últimas palavras são expressivas, o articulista deve estar pensando em
manifestações como as que foram anunciadas terem ocorrido na Argentina. No número
31, datado de 11 de outubro de 1917, entre os Registros da Semana, na página 5, pode-
se ler: “Na Argentina tem havido desordens por ocasião de manifestações em favor da
neutralidade”6.
Provavelmente estaria pensando em um bom número de frades de origem alemã
que dirigiam paróquias na cidade. Mas, para o articulista, o Brasil é uma Nação ordeira
e de um povo educado. Qualquer movimento contrário à ordem pública será sempre
mostrado como obra de meus elementos. É claro que o jornal percebe inquietação em
alguns seguimentos da sociedade quanto ao clero, conforme vimos anteriormente.

44
Logo após a tomada de conhecimento da declaração do estado de guerra, o
“Comitê Pró-Pátria” realizou uma concentração na Praça da Independência, com falação
de vários oradores7. Após o “meeting” foi realizada um “prestito” que após percorrer
diversas ruas da cidade, dirige-se ao Largo da Soledade, então residência dos Bispos8.
Na ocasião Dom Sebastião conclama “a multidão a manter-se unida aos poderes da Nação,
pronta sempre para todos os sacrifícios que a Pátria exigir, mas sem se afastarem em suas
manifestações das normas da ordem, calma e civilização, respeitando assim as pessoas e os
bens dos estrangeiros residentes no Brasil”9.
Esses fatos ocorreram no dia 4 de novembro de 1917. Era um Domingo. Nos
dias seguintes, outros “meetings” ocorreram na cidade e em outros estados brasileiros.
Tudo ocorrendo dentro da ordem, segundo A TRIBUNA RELIGIOSA.
No dia 7 de novembro, após um desses “meetings” na Praça da Independência,
ocorreram “desordens”, infelizmente só muito tarde dominadas pela política10. A turba
incendiou a Casa Alemã da Sra. Júlia ª Dorderlein e ameaçou invadir o convento dos
Franciscanos localizado na Rua do Imperador. Acompanhemos, pela TRIBUNA, a
repercursão da tentativa de invasão do Convento, pois ao outro fato não há qualquer
menção.
O número 36, datado de 15 de novembro de 1917, coloca em destaque os
acontecimentos do dia 7. Na primeira página está estampada a Proclamação do
Arcebispo ao Povo e ao Clero. Esta proclamação está dividido em três etapas: na
primeira conclama pra que os “cristãos, oremos pelo Brasil”, sendo esse o seu dever.
Enquanto brasileiro chama o povo a dar “todo o apoio e estímulo às linhas de tiro” para
evitar “para o nosso Pernambuco a inglória de uma abstenção gelada nos preparativos de
defesa da Pátria”. Ainda nessa primeira parte lembra que “ao clero e aos fiéis católicos,
cabe o dever de um patriotismo sem jaça. Oração fervorosa e instante, apoio incondicional às
autoridades do país, confiança absoluta em nossas forças alarmar o povo, ocasionando
desordens ou perturbando a vida Nacional da população, muito menos, comentar notícias
tendenciosas que possam deprimir as nossas capacidades de defesa”.
A segunda parte da Proclamação é para aconselhar que se evite tocar na pessoa e
nas propriedades dos estrangeiros que vivem no Brasil. Clama que é “contra a Alemanha
armada e não contra a Alemanha armada e não contra eles, inermes, a nossa guerra”.
A terceira parte da Proclamação é dedicada ao comportamento que deve ter para
com os religiosos de origem alemã sitos em Pernambuco. Deixemos Dom Sebastião
falar:

45
“quanto aos religiosos nascidos no país em guerra conosco, nada
absolutamente eu temo que possa fazer de menos leal para com a nossa
Pátria. Respeite-se neles o caráter sacerdotal. Somos um povo cristão. Apesar
de serem homens pacatos, sacerdotes respeitáveis e inofensivos, já em nome
deles me entendi com as autoridades competentes para que a qualquer hora e
do modo que for julgado melhor sejam fiscalizados os seus conventos. Bom é
que se saiba que tais conventos não são alemães; são conventos brasileiros,
presentemente administrados por alemães, como podiam ser administrados
por brasileiros, franceses ou outras nacionalidades. Em todo caso,
respeitando desconfianças possíveis, já os religiosos alemães deixaram as
paróquias que estavam a seu cargo”11.

Esta Proclamação estabelece uma nova postura de colaboração com o Estado,


uma nova atitude que demonstra a capacidade de a Igreja, em sua hierarquia, variar o
seu comportamento perante o Estado e os seus segmentos mais afirmativos e
dominantes da sociedade. Com esta Proclamação, a Igreja põe-se totalmente nas mãos
de uma sociedade para quem “a liberdade do Estado estava acima das liberdades dos
particulares, entre eles a Igreja12”.
Ainda no número 36, página dois, há um informe de que o Arcebispo pediu um
inspetor para vigiar os religiosos do Convento e que foi escolhido para tal missão o
capitão Dr. A. Marques, oficial do Exército.
Na secção Brasil na Guerra, o comentário sobre essas iniciativas continua dessa
forma:

“no mesmo dia em que todas essas providências formam


ultimadas, um boato falso do torpedeamento do Bejamim
Constant fez desencadear a tempestade, no meio das justas
expansões do patriotismo popular, alguns maus elementos
cometeram as mais reprováveis cenas, apedrejando e
incendiando casas. Um ou dois metigueiros anticlericais
tentaram danificar o Convento de São Francisco aos gritos
ensurdecedores de “morram os frades alemães”. Felizmente
que o vetusto Convento foi a tempo defendido pela política,
poupando-nos assim a negra fama de destruidores de
igrejas13”.

46
Notamos que o articulista isenta o povo de qualquer responsabilidade. Toda a
ação foi colocada sob a responsabilidade de “maus elementos” e de “anticlericais”.
Quanto ao povo, a sua ação é considerada como um “justo patriotismo”. Assim continua
a matéria:

“Para a honra do povo pernambucano, devemos notar que a sociedade e o


povo da cidade e do Estado não pactuaram e o povo da cidade e do Estado
não pactuaram com os desordeiros triviais que, procuramos desvirtuar os
calores do Patriotismo popular pensaram em cometer imprudentemente os
mais baixos crimes. Nem o povo, nem o povo, nem a política lhes serviu de
capa. A verdade nua e crua foi esta: a multidão popular tremia de
Patriotismo mas os excessos criminosos não partiram do povo, e sim de um
punhado de desclassificados14”.

Veja-se, portanto, neste texto, a eterna preocupação existente nas camadas


dirigentes do Brasil em jamais admitir que o “povo” possa fazer algo de violento. Esses
atos são sempre colocados sob a responsabilidade de alguns criminosos, “subversivos”,
“agitadores” etc.. Para as Elites, o povo é sempre inocente e usado por alguns para
atingir as autoridades constituídas, ou àqueles que, em alguma situação venha a ser com
eles confundidos.
A tentativa de invasão ao Convento de São Francisco, mereceu, ainda, um artigo
assinado por “um ilustre e digno pernambucano”. A assinatura é simplesmente: “Dr. X
de X”15. Nesse artigo se afirma claramente que não é o momento para discutir “se o
Brasil errou ou não ao entrar na guerra”, agora é aceitar, “com confiança, a linha traçada
pelo Chefe da Nação”16. Adianta o seu pensamento dizendo que, se antes da declaração
do estado de guerra com a Alemanha, fosse admissível que brasileiros se dividissem em
germanófilos e aliadófilos, após o dia 26 de agosto, “seria criminoso o brasileiro que ainda
fosse germanófilo”17. Acusa alguns “desclassificados” de tentarem pular o muro do
Convento, e lembra que “Pernambuco inteiro estigmatizou essa fúria destruidora”18.
O Dr. X de X afirma que o ataque ao Convento de São Francisco “foi uma
injustiça e uma ingratidão”19 contra os frades. Analisa que os frades alemães chegaram
há vinte anos e “se dedicam ao serviço da salvação das almas no Brasil” Sacerdotes
abnegados, na Europa deixaram pai, mãe, irmãos e para aqui vieram trabalhar por nós e

47
pelo Brasil”20. Em seguida, o articulista narra das dificuldades enfrentadas pelos frades
franciscanos, desde o sol, as chuvas e até a morte, vitimados que foram pela febre
amarela. Lembra, ainda, os serviços que foram prestados pelos frades “na Campanha de
Canudos”, na “Questão do Contestado” e até quando a “peste bubônica assolou
Pernambuco, quem recolheu-se aos hospitais para dar aos pestilentos o consolo da Religião?
Quem? O frade alemão. Qual o crime deles? Ter nascido na Alemanha. Mas, esse crime
infando não terá sido resgatado por vinte anos de serviços desinteressados aos brasileiros? ”,
pergunta o articulista.
Os argumentos, pois, pretendem ressaltar que os frades alemães não são
inimigos. São brasileiros. Mas o Dr. X de X levanta uma questão séria e a responde de
pronto. Se por acaso, eles, em algum momento, traírem o Brasil, qual deve ser a atitude
adotada? O Dr. X de X não tergiversa e responde:
“então nós mesmos seremos os primeiros a entregá-los á autoridade militar”21.
Este artigo foi feito sob encomenda pela redação dA TRIBUNA RELIGIOSA e
revela e que a guerra foi assumida e por isso até a delação, se necessária, passa a ser
cogitada. O bispo mostra-se disposto à colaboração, os padres estrangeiros são
afastados, o católico declara guerra, o jornal assume o clero, Católico e Nação passam a
confundir-se. A guerra, indesejada a princípio, é assumida em toda a sua crueza e
extensão. Acima da tolerância e da compreensão a defesa da Pátria coloca-se acima de
tudo e domina as relações sociais.

Referências Bibliográfica

1
FELIZARDO, Joaquim Jr.. História Nova da República Velha. Petrópoles: Vozes,
1980, pp. 80.
2
esta é a observação de José Maria Belo IN: História da República. São Paulo: Cia.
Editora Nacional, 1972,citado por Felizardo, Joaquim, Op. Cit. pp. 81.
3
FELIZARDO, Joaquim. Op. Cit. pp. 81.
4
T. R. n.º 31, Ano XI, dia 01.11.1917, pp. 2.
5
T. R. Idem.
6
T. R. n.º 31, Ano XI, dia 11.10.1917, pp. 5.
7
T. R. n.º 35, Ano XI, dia, 08.11.1917, pp. 2.

48
8
desde fevereiro de 1917 que o Arcebispo se havia mudado pra o largo da Soledade,
pois havia sido vendido aos padres jesuítas o Palácio da Soledade pela quantia de 200
contos de réis, sendo 150 contos a crédito. O Arcebispo então estava no largo da
Soledade, em prédio hoje demolido, e onde funcionou, mais tarde, a fábrica dos Irmãos
Vita. Já em 1919 o Arcebispo iria para o Palácio dos Manguinhos. Ver T.R. n.º 1, do
Ano XI, datado de 15.03.1917.
9
T.R. n.º 35, Ano XI, dia 08.11.1917, pp. 2.
10
T.R. 36. Ano XI, dia 15.11.1917, pp. 2.
11
T. R. 36. Idem.
12
ROMANO, Roberto. Brasil: Igreja contra Estado. São Paulo: kairós Livraria e
Editora, 1979, pp. 109.
13
T.R. n.º 36, Ano XI, dia 15.11.1917, pp. 2.
14
T.R. Idem.
15
T.R. Idem.
16
T.R. Idem.
17
T. R. Idem.
18
T.R. Idem.
19
. T.R. Idem.
20
T.R. Idem.
21
a política imperial, ao criar dificuldades para a formação de novos noviços, pôs em
perigo de extinção as ordens religiosas. No final do século XIX, ocorreu um grande
processo de restauração dessas ordens. Os franciscanos da Província de Santo Antônio
(BA) e São Francisco (Recife) foram restauradas por frades da Saxônia que chegaram
ao Brasil por volta de 1893. Inicialmente, porém, eles pensaram em dedicar-se aos seus
contemporâneos do sul, mas terminaram por assumir as Províncias do Nordeste.
22
T. R. Idem.

49
Capítulo V
Posição da Hierarquia

Todos sabemos que a Proclamação da República veio a separar o Estado e a


Igreja1. Pondo fim ao sistema de Padroado que dava à Igreja uma proteção que a
abafava2. Quando, porém, foi promulgada a Constituição de 1891, a separação do
Estado-Igreja tomou outro diapasão que não o esperado pela Igreja. “Um ato de tirania
na bandeira um lema de uma escola filosófica”3. O Pe. Júlio Maria via que os
legisladores republicanos secularizaram o novo regime político, confundindo as idéias
de “Estado Laico” com “Estado Ateu”4. O que teria ocorrido no final do século XIX e
que “no momento em que se instaurou a República, o político liberal utilizou em sua
luta para reduzir a Igreja à particularidade, “argumentos” clássicos do tipo “écrassez
I‟infâme”: Ressurgem na sua fala as figuras do clero enganador, do maquiavelismo
jesuítico e romano, da astúcia e da superstição, cujo fim inconfessado seria manter a
consciência da massa no atraso e na ignorância”5. Parece que se esperava que a Igreja

50
aceitasse desaparecer nas sombras, para entregar “aos sábios competentes o monopólio
do poder espiritual, e isto sem nenhuma dissimulação já agora por parte dos positivistas,
nos parâmetros de uma ditadura que, segundo seu mestre, seria o preâmbulo” de toda
verdadeira regeneração”6. Contudo, a Igreja “pouco a pouco foi desfazendo a cortina
ideológica que a separava das política dos “homens do progresso” na América Latina e
no Brasil”7.
A guerra, palco de tantas dores e sofrimentos, apresentou à Igreja meios para se
recompor socialmente. A TRIBUNA RELIGIOSA ocupa espaços para, dentro de uma
situação de crise, afirmar, através de artigo de um colaborador que assina L. de B, que

“é preciso combater e abandonar as doutrinas perniciosas


que antes da guerra foram semeadas a mãos cheias,
produzindo a decadência moral, a corrupção dos
costumes, o horror ao trabalho honesto, a avidez do
dinheiro, a ânsia de enriquecimento sem esforço e sem
trabalho”, 8

e, refletindo sobre os atuais momentos em que vive a humanidade, proclama que

“a guerra à religião, a educação sem Deus e sem moral não


podiam dar outros frutos”9.

“o resultado tem sido a decadência do ensino, a decadência


da moral que se manifesta no aumento da criminalidade, no
abandono de todos os escrúpulos de honestidade e horadez,
nos freqüentes assaltos aos cofres públicos, na cínica
ostentação das rápidas fortunas desonestamente
adquiridas”,10

Continua exaltando a necessidade de um retorno do Estado à Igreja, dizendo que

“sem Deus a pátria é uma palavra vá e o patriotismo


deixa de ser um sentimento elevado para se transformar
.
em banal retórica”11.

51
É esta toda uma interpretação teológica da história, uma visão que tem por
centro a Igreja e do seu papel insubstituível na sociedade. Mais tarde, Alceu de
Amoroso Lima, analisando “a luta civil e a falta de Conselho Nacional vigentes (1936)”
dizia quase as
mesmas palavras: “a Revolução que aí temos desencadeada não é obra de governos
nefastos nem das oposições extremadas. Ela é obra da Constituição
sem Deus, da Escola sem Deus, da família sem Deus, das
consciências sem Deus. Restituir a Lei de Deus, de Cristo e da
Igreja, à Constituição, à escola, à família e às consciências, eis aí o
caminho único da paz”12.

A guerra ofereceu uma senda por onde os homens podiam trilhar para o encontro
de Deus e da Igreja, pois

“os Capitães Militares tiveram um fecundo campo de ação entre os que


partiram, nos campos de batalha ou nos hospitais”13.
Mas não só no
campo da
assistência
religiosa, pura e simples. O Senador Henry Chéron, relator Comission De la Armé, diz a
TRIBUNA RELIGIOSA, na sessão de 15 de fevereiro de 1917, teria dito:

“desde os princípios desta guerra, os membros do clero... Têm


mantido uma atitude digna dos maiores elogios. Muitos padres foram
gloriosamente mortos pelo inimigo. Eles têm cumprido o seu dever,
quer como ganscardiers, quer nas ambulâncias, quer nos hospitais”.
O Sr. Ministro da Guerra, General Lyautay, tomando parte na
discussão parlamentar disse: „permitir que com a mais firme
convicção eu em associe a referência que o honrado relator fez aos
eclesiásticos que tão largamente têm pago tributo à pátria‟”14

52
Ou ainda, com o título “Patriotismo do Clero na guerra, vindo ainda da França, A
TRIBUNA RELIGIOSA publica
.
“nesta guerra os padres têm cumprido o seu dever com simplicidade,
sempre com dedicação (...) perto de 200 sacerdotes já morreram no
campo de honra (...) mirem-se neste espelho. Os brasileiros,
felizmente contra os padres e principalmente os jesuítas. Heróis de
Christo, sabem ser heróis da Pátria”15.

Procurando esclarecer, ainda mais os brasileiros de como a religião e a Igreja


exercem um papel fundamental na vida social, a TRIBUNA RELIGIOSA publicou sob
o título “O que a guerra fez” o seguinte:

“Seria cousa monstruosa expulsar novamente da França, quando


terminar a guerra, pessoas (das ordens religiosas) a que confiamos,
com tanto acerto, os nossos numerosos feridos. A separação da
Igreja do Estado, a lei sobre as associações, na forma atual,
constituem enorme falta. A guerra pode ministrar ocasião de
reparár-las seria mlavadez e impolítico deixá-la escapar”16.

Para A TRIBUNA RELIGIOSA, o momento serve para mostrar que da guerra


podem ser tiradas lições de convivência política e de aprendizado mútuo e benéfico,
tanto para a Igreja quanto para o Estado. A França dá o exemplo. A Igreja francesa
muito sofreu no início do século. Os fundadores da República foram buscar entre os
franceses o seu evangelho de Ordem e Progresso. A TRIBUNA RELIGIOSA aponta
que o Estado brasileiro poderia aprender as lições de Clemenceau.
Mas, se a declaração de ministros do governo francês devem ensinar o
comportamento a ser tomado pelo Estado brasileiro, o clero esforça-se por encontrar na
guerra as razões divinas. Assim, A TRIBUNA RELIGIOSA apresenta declarações do
Monsenhor Ginisty, Bispo de Verdun, concedidas a um jornal das trincheiras. Teoriza o
Monsenhor:

“Esta guerra espantosa é a bancarrota de todos os cálculos


humanos, tanto do lado dos aliados, como nos Impérios Centrais:
ela revela com evidência o papel e os desígnios da Providência na
trama dos acontecimentos; esses desígnios são manifestações a
53
salvação da cristandade e a vitória da Igreja”17.
Claro está que a guerra, apesar de não ser a vontade de Deus, pode trazer de
volta o mundo ao seu rebalho, pois não há contradição entre ser cidadão e ser cristão e a
guerra apresenta uma oportunidade ímpar de se compreender o verdadeiro papel da
religião e a sua real importância. Também uma linguagem conciliatória foi usada pelo
Observatore Romano, fonte oficial de informações do Vaticano, quando ocorreu a
invasão alemã sobre a Itália. Apesar de posição neutral do Vaticano, a nota diz assim:

“se em todo tempo a circunstância se impõe aos cidadãos e


obrigação de cumprirem os seus deveres e principalmente os
que professam as nossas crenças e princípios, esta obrigação
surge de modo especial agora que a Pátria está em perigo.
Temos o dever de escrupulosa obediência às leis do Estado,
de firme disciplina, de dignidade calma, de redobrado zelo
para inculcar a todos, mediante a palavra e exemplos. A
prática daquelas virtudes cívicas, que, unidas nobremente às
religiosas, formam o patrimônio sagrado e guia seguro de
todas as consciências retas”18.

Para A TRIBUNA RELIGIOSA este é o desejo da Igreja no Brasil, quando luta


para o retorno do ensino religioso nas escolas. Então, as virtudes religiosas poderão
complementar a educação laica e fortalecer os ideais patrióticos. Por isso tudo existe um
grande júbilo quando a TRIBUNA RELIGIOSA publica carta do Almirante Alexandre
D‟Alencar, Ministro da Marinha ao Cardeal Arcoverde, pedindo para que as Irmãs de
Caridade possam trabalhar nos hospitais da Marinha19, ou quando publica essa notícia
com o título “Christo no Júri”:

“O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo pegou o pedido de


Habeas Corpus solicitado por um jurado de Botucatu, alegando o
constrangimento pela colocação de Imagem de Cristo no Salão do
Júri. Alguns ministros observaram que , em tal caso, poderia
impetar a ordem era o Cristo, que muita vez deve sentir-se
constrangido com as injustiças praticadas pelo Júri popular”20.
54
Ora, tudo o que um jornal selecione a publica é a sua ou a defesa de seus
argumentos e suas razões. Os argumentos e as razões de um jornal católico não são
outros senão os desejos dos senhores bispos.
A guerra ofereceu aos bispos a oportunidade de falar sobre temas políticos, sobre
a guerra e o comportamento dos católicos face a tais problemas. Circulares foram
produzidos pelos bispos e reproduzidos pelos periódicos católicos. A TRIBUNA
RELIGIOSA publicou várias dessas circulares ou pastorais, algumas na íntegra, outras
apenas partes. O número 39 do Ano XI, datado de 6 de dezembro de 1917, publica
trechos da circular dos bispos de Minas Gerais, o número 40 do Ano XI, datado de 13
de dezembro de 1917, publica “trechos de circular dos Bispos de São Paulo”. O número
37, datado de 22 de novembro de 1917, publica a “circular do Sr. Cardeal Arcoverde”.
O número 41, datado de 20 de dezembro de 1917, publica “Circular do Arcebispo de
Diamantina”. Essas pastorais causaram tal simpatia e acolhida por parte do governo que
informa que vai publicar um volume com todas as Cartas Pastorais sobre o Estado de
Guerra21.
Essas Pastorais estão carregadas de um sentimento de Patriotismo agregado às
virtudes cristãs. Assim, o Cardeal Arcoverde escreve que

“todos (párocos, eclesiásticos, sacerdotes) que nos honramos com o


título de cidadãos brasileiros e que pela grandeza da Pátria, na defesa
dos seus direitos, para a glória do seu nome e pela integridade de seu
território, não hesitamos um instante em afrontar os maiores perigos, e
suportar e abraçar os sacrifícios mais penesos; não somos nós que,
neste momento de tamanha gravidade, tenhamos de mentir ao nosso
mumus, calando ou sopitando sentimento que muito nos honram e
plenamente justificam as expansões generosas de Santo Amor e de
verdadeira fidelidade que todos nós devemos à Pátria querida”22.

Mais adiante, informando que foi recebido pelo Presidente da República, afirma:

55
“Temos o prazer de vos comunicar que fomos recebidos pelo Exmº Sr.
Presidente da República em audiência por nós solicitada, e mais uma
vez sentimos e dizemo-lo mais gostosamente que em boa hora foram
confiados os destinos dessa grande Pátria a esse Varão Conspícios,
Presidente, criterioso, bem intecionado e enérgico que é o Exmº Sr. Dr.
Wenceslau Braz”23.

Os Bispos de São Paulo afirmam que

“depois do amor materno, não conhecemos na terra um sentimento


mais vivo, mais generoso que o amor da Pátria (...) „Sentimo-nos
tão inteiramente ligados aos nossos destinos, que compreendemos
perfeitamente aquela passagem do livro dos macabeus, “Mellius
este Nobis Morri in Bello, Quanvidera mal Gentis Notras”24.

Os bispos esperam que no “nosso fervor patriótico, não nos esqueçamos de


nossas responsabilidades tradicionais” e pedem, como o Presidente, respeito aos nossos
irmãos alemães, suas propriedades, suas convicções nacionais”26. Os bispos tocam um
ponto nevrálgico, ao mencionar o binômio indivíduo-sociedade com outro, Católico-
Patriota.

“Entre o coração do Pastor que ama sinceramente as suas ovelhas, sem


distinção de nacionalidade e a alma do patriota que prefere a morte a
assistir a desgraça de seu povo, desenha-se o campo acidentado e
ingrato de nossa ação pastoral. O que certamente se faz mister e
sinceramente esperamos obter é que todos os católicos desta Província,
sacerdotes e leigos, sem distinção de nacionalidades e simpatias,
auxiliem a nossa ação Pastoral, como homenagem a atual situação do
Brasil, que os abrigou ou os viu nascer, e uma prova de afeto filial aos
prelados que tanto os estimam e veneram27”.

Os bispos afirmam com bastante forças que

56
“não se pretende, todavia, a sombra de respeitáveis imunidades religiosas e
eclesiásticas, favorecer aspirações do inimigo declarado da Pátria, não se
profane o púlpito com pregações imprudentes e (que seria pior) insultuosas
ao país, ao governo ou ao povo; não se expandam em comentários que os
comprometem ou nos ausceptibilizem. Em casos tais seríamos forçados a
“dar a César o que é de César” e, certamente saberíamos, ainda que com
pesar, restringir como fosse necessário, a âmbito de nossa vontade e
auxílio28”.

Como se nota, este último texto refere-se aos padres de origem alemã. É uma
ameaça para que não duvide, a sociedade, das reais intenções de cooperação para com o
Estado. São provas insofirmáveis da cooperação para com o Estado e dos benefícios que
o Estado pode receber e também oferecer à Igreja. A linguagem é dura para os padrões
eclesiásticos. É uma opção política clara. Principalmente nas regiões meridionais onde
era maior o número de religiosos e leigos chegados recentemente da Europa.
A exortação dos bispos de Minas Gerais apresenta o mesmo tom. Afirma que

“não haveremos de apadrinhar imprudentes ou ingratos desleais à


hospitalidade que lhes dispensamos. (...) Um crime de lesa-
patriotismo é certamente uma injustiça, um pecado contra Deus e
contra o próximo29”

e mais adiante pergunta- se:


“Que faremos pela Pátria? Tudo. tudo quanto ela nos
pedir e estiver em nossas forças. Não sabemos se o nosso
sacrifício irá até o tributo de sangue, mas é mister que
para ele nos preparemos, além de tudo mais que
possamos fazer para a defesa do abençoado solo
brasileiro30”.

Podemos notar que os bispos não fazem qualquer restrição. Afirmam que
“faremos tudo quanto ela nos pedir”. É um compromisso tão forte com o Estado que
quase se perde o senso crítico.

57
Mas, os bispos têm esperanças para com o Estado, tanto oferta e prova de
amizade espera uma contrapartida. Deixe-mos os bispos falar:

“Esperamos que o governo tenha confiança em nós e não duvide


jamais de nossa colaboração decidida e generosa, em tudo o que seja
necessário à segurança do país e não vá de encontro à nossa
consciência e aos nossos deveres de Bispos católicos. Esperamos que
o governo, malgrado as insinuações sectárias que vão surgindo
contra os sentimentos gerais do país, contra o verdadeiro espírito
democrático e a liberdade espiritual, não tome nenhuma medida de
exceção contra as congregações religiosas e os seus bens, nem
qualquer outra que venha melindrar a Consciência Católica, e que
seria um verdadeiro desastre no atual momento de união de todos os
brasileiros31”.

O diálogo, como se vê, é de Instituição pra Instituição. Não parece que existam
outros setores na vida nacional. Governo e Igreja debatem, conversam, decidem(?)
soberanamente sem ouvir os demais setores que podem ser acusados de “sectários”. Por
outro lado, a preocupação dos bispos é consigo mesmos e com as ordens religiosas e
seus bens. Nenhuma palavra para e sobre os sofrimentos que a guerra pode vir a causar
às massas. A pastoral está mais preocupada com a “consciência católica” do que com o
que os católicos possam vir a sofrer com a fome e as exigências que uma guerra
normalmente traz.
Assim, ainda aqui notamos como a guerra foi momento excepcional nesse
diálogo entre a Igreja e o Estado no Brasil República. O momento de comoção social
fez surgir e desabrochar os sentimentos cívicos do país e a Igreja, bem ou mal, contribui
para a formação e manutenção desse entusiasmo, quase sendo uma “muleta do estado”,
mobilizando os sentimentos em direção a guerra.
Os bispos brasileiros sentiram o imposto do fim do Padroado durante as
primeiras décadas da República. Viram o crescimento de outras religiões e Igrejas que
agora tinham privilégios a que antes só ela tinha acesso. Em momento de crise tão grave
apresenta-se a possibilidade de a Igreja servir como cimento da nacionalidade e, com
isso, retomar os benefícios que haviam escapado. Sem dúvida essa atuação valeu-lhe o
reconhecimento pelo Estado Burguês que se instala após a Revolução de 1930.

58
Referências Bibliográficas

1
Decreto de 7 de Janeiro de 1890, n.º 119-A – Governo Provisório.
2
Pastoral coletiva do Episcopado Brasileiro de 1890, in A Igreja na República. Brasília:
Edt. Universidade de Brasília, 1981.
3
FRETRE, Felisbelo. História Constitucional da República dos Estados Unidos do
Brasil. In: MARIA, Júlio. A Igreja e a República. Universidade de Brasília, 1981, pp.
106.
4
O Pe. Júlio Maria argumenta baseado no raciocínio de Leroy Beaulieu, O Estado
Moderno e suas Funções. In: Júlio Maria, padre, Op. Cit., pp. 107.
5
ROMANO, Roberto. Brasil: Igreja conta Estado. São Paulo: Kairós Livraria e Editora,
1979, pp. 115.
6
ROMANO, Roberto. Idem.
7
Idem. pp. 117.
8
T. R. n.º 3, Ano XII, 31.01.1918, pp. 1.
9
Idem. Ibidem.
10
Idem.
11
Idem.
12
In Azevedo, Thales de. A Religião Civil Brasileira, um instrumento político.
Petrópoles: Vozes, 1981, pp. 80.
13
K. Bihlmeyer e H. Tucle. História da Igreja. São Paulo: Ed. Paulinas, vol. 3, 1965, pp.
685.
14
T. R. n.º 5, Ano XII, 14.02.1918, pp. 3.
15
T. R. n.º 7, Ano XII, 28.02.1918, pp. 1.
16
T.R. n.º 3, Ano XII, 31.01.1918, pp. 3.
17
T.R. n.º 30, Ano XI, 04.10.1917, pp. 2.
18
T. R. n.º4, Ano XII, 07.02.1918, pp. 1.
19
T. R. n.º 23, Ano XI, 16.08.1917, pp. 3.
20
T. R. n.º 24, Ano XI, 23.08.1917, pp. 1.
21
T. R. n.º 41, Ano XI, 20.12.1917, pp. 5.
22
T. R. n.º37, Ano XI, 22.11.1917, pp. 1.

59
23
T. R. Idem, Ibdem.
24
T.R. n.º40, Ano XI, 13.12.1917, pp. 1.
25
Idem, Ibdem.
26
Idem.
27
Idem.
28
Idem.
29
T.R. n.º39, Ano XI, 08.12.1917, pp. 1.
30
Idem, Ibdem.
31
Idem.

Capítulo VI
Diplomacia na Tribuna

O historiador Fernand Braudel, em uma das obras, afirmou que “as catástrofes
não serão necessariamente os artífices, mas são, com toda certeza, os arautos infalíveis das
resoluções reais; em todo o caso, constituem sempre um incitamento e pensar, ou melhor, a
repor a ordem do universo”1. Essas palavras talvez com um pouco de complascência,
pudessem ser aplicadas à situação em que foi posta a sociedade brasileira por conta da
guerra de 1917-1918, lamentavelmente conhecida como a Primeira Guerra Mundial. É

60
nosso entendimento que o conflito foi motivo para uma política de maior aproximanção
e entendimento entre a Igreja e o Estado no Brasil, e isso teria acontecido, tanto no
plano interno quanto no externo.
“A Primeira Guerra Mundial seria responsável por consideráveis transformações no
quadro econômico, político, social e ideológico, quer no plano externo quer no plano interno”2.
Durante a Guerra, inicialmente neutro, não foi o Brasil afetado diretamente pelo conflito
que se iniciara na Europa. Contudo, possuindo uma indústria ainda incipiente, em muito
dependia dos países europeus para atender as necessidades de consumo de certos setores
de sua população. Por outro lado, a sua situação financeira e suas tradicionais alianças,
levá-lo-iam, fatalmente, à guerra.
A nós interessa ver o relacionamento do Brasil, não com as potências
beligerantes, mas com o Estado Desarmado, o Estado que tinha o seu Chefe
“prisioneiro”, em uma situação que só seria resolvida, bem mais tarde, com o Estado
Italiano. Interessa-nos a relação do Brasil com Santa Sé.
As relações do Brasil com a Sé Romana sempre foram amigáveis. Na verdade,
durante o período colonial eram relações de perfeita harmonia, e durante a maior parte
do período imperial as relações de Padroado evitaram estremecimentos maiores.
Contudo, como sabemos, o Império desabou algum tempo após a chamada Questão
Religiosa, que envolveu os bispos de Olinda e Belém. Alguns historiadores acham que
esta foi uma das causas da Proclamação da República e da dissolução do Império. Na
verdade a dita Questão Religiosa serviu para demonstrar que o sistema de Padroado já
não era de boa serventia, seja à Igreja, seja ao Estado Monárquico. O Padroado, que
durante tantos séculos prendera a Igreja no Brasil aos destinos do Estado, não tinha mais
serventia, pois o Estado brasileiro encontrava-se dominado por maçons e bebia de uma
nova ideologia que já não mais necessitava do estofo ideológico que a religião católica
sempre lhe oferecera. Por outro lado, questões eram transferidas da Europa, fazendo
reviver aqui os embates entre a maçonaria e o catolicismo ultramontano2. A definição,
posterior, da República como um Estado leigo foi uma vitória dos positivistas. Os
entendimentos de uma parte da Igreja ensinam que

“a laicização termina por ser sinônimo de descristianização. À


antiga religião do Estado sucede a irreligião estatal”4

61
E tal coisa, entende a Igreja, pode ser evitada, como nos dá a entender A TRIBUNA
RELIGIOSA e a política papal. Já no Pontificado de Leão XIII, a Santa Sé mostra um
interesse especial para com o Brasil, pois

“era o principal interesse da Santa Sé erigir novas dioceses no


Brasil”5.

Durante o Período Colonial e o Período Imperial, ou seja, enquanto durou o


sistema de Padroado, foram poucas as dioceses criadas. Como cabia ao Estado o
pagamento das despesas dos clérigos e a manutenção das dioceses e paróquias, não
interessava ao governo um grande número de prelados em atuação dentro do território
brasileiro. A situação da Igreja no Brasil era, portanto, precária, pois o sistema de
Padroado a manietava, além de que muitas ordens religiosas passaram fortes riscos de
serem fechadas6, pois desde 1855 o Ministério da Justiça publicara um aviso

“proibindo noviciado, até que se procedesse uma reforma nas


ordens religiosas, a ser estipulada com a Santa Sé. Esta medida do
Governo representava a pena de morte das ordens religiosas”7.

O Papa Leão XIII tomou a iniciativa de dar uma nova vida á hierarquia, criando
as dioceses do Amazonas, Paraíba, Niterói e Curitiba. Ao terminar o Século XIX, havia
apenas 16 dioceses no Brasil, enquanto que entre 1900 e 1918 – inclusive foram criadas
32 novas dioceses. Tais desmembramentos mostram uma expansão da atividade
missionária e também uma atenção especial para com o Brasil por parte da Santa Sé8. O
estabelecimento de dioceses visa criar uma estrutura mais propícia pra o atendimento
das necessidades dos fiéis católicos e servia para promover um clima de maior
animação naquele momento em que, no Brasil, a Igreja começava a dar os seus
primeiros passos sem as muletas do Estado.
Passos de boa vontade foram dados pela Sé Romana, quando consagrou o Brasil
à Nossa Senhora Aparecida, com decreto emanado da Basílica Vaticana de São Pedro,
em 28 de dezembro de 19039. Ainda no início do século, a Santa Sé fez de um brasileiro
o primeiro cardeal da América Latina, o Arcebispo do Rio de Janeiro, o Cardeal
Arcoverde. A representação do Vaticano junto ao governo brasileiro, que era de nível de
embaixada, foi elevada à categoria de nunciatura apostólica. Essas gestos de boa
vontade para com o Brasil, fazem de uma ofensiva diplomática da Santa Sé para

62
conseguir um melhor relacionamento com o novo Estado brasileiro. É bom jamais
esquecer que o Brasil, por sua extensão territorial e sua população, concentrava, à época
e hoje, um dos maiores contigentes de católicos do mundo. Esses católicos deveriam ser
melhor atendidos. Por outro lado, o movimento anticatólico e anticlerical que se
expandia na Europa, tornava cada vez mais necessária a manutenção do catolicismo na
América Latina, pois essa é uma reserva da qual não pode descuidar-se a Igreja
universal.
Em 1918, o CORREIO DA MANHÃ, do Rio de Janeiro, publicou um artigo de
Gil Vidal que foi transcrito por A TRIBUNA RELIGIOSA. Dizia assim:

“Há algum tempo elevou a Santa Sé a sua internunciatura à


nunciatura e aquela corresponde a legação e esta à embaixada.
O Soberano Pontífice já há anos é, representado junto ao
Governo brasileiro por um embaixador, ao passo que o
Governo do Brasil junto ao Vaticano continuou a ter ali
simplesmente um ministro”10.

É um lamento por parte dos católicos. Era Ministro brasileiro junto à Santa Sé o
Dr. Magalhães de Azevedo. E foi ele quem entregou à Santa Sé a resposta do Governo
Brasileiro à Proposta de Paz feita por Bento XV. Há um razoável lapso de tempo entre a
Proposta de Paz (1º de agosto de 1917) e a resposta do Governo Brasileiro (novembro
de 1917). Tal lapso é justificado por, não estando o Brasil em Estado de Guerra, não se
sentiu o governo motivado ou obrigado a responder a tal iniciativa do Sumo Pontífice.
Contudo, nos primórdios de sua participação na guerra, o governo brasileiro dirigiu
carta à Santa Sé, justificando a demora de sua resposta e explicando a sua participação
no conflito, além de chamar atenção para os limites de sua adesão à proposta de Bento
XV. A TRIBUNA RELIGIOSA achou por bem de publicar na íntegra a resposta do
Governo Brasileiro ao chamamento de Paz do Pontífice. “Vossa Excelência dirá a Sua
Santidade que o Sr. Presidente da República não tinha autorizado ainda a responder a
sua proposta de Paz, porque agora o Brasil está em estado de guerra. Nação que nunca
fez a guerra de conquista e que inscreve o arbitramento obrigatório na sua Constituição
Republicana para a solução dos problemas externos; que nada sofreu no passado; nada
tendo a vingar no presente; que resolveu serenamente todas as suas questões de limite,

63
sabendo o que tem de seu, conhecendo definitivamente toda a extensão do seu território,
que é grande e que vai sendo maior, graças não só ao trabalho dos seus filhos,
ambiciosos de provar que merecem a honra de possuir tão rico Patrimônio, como no
trabalho dos estrangeiros que a nossa hospitalidade faz logo brasileiros; o Brasil, pode
afirmar Vossa Excelência à Sua Santidade, teria ficado estranho ao conflito da Europa,
apesar das sympathias da opinião pública pela causa liberal dos aliados, se a Alemanha
não estendesse à América os processos violentos da guerra, impedindo a todos os povos
neutros o seu comércio com o exterior.
O Brasil não podia faltar aos seus deveres de Nação Americana, e tomando em
última extremidade a posição de beligerante fizemo-o sem ódio e sem interesse, mas tão
somente na Pátria; hoje, felizmente, todas as Repúblicas do Novo Mundo, umas mais
ofendidas que outras, mas todas ameaçadas na sua liberdade e na sua soberania,
estreitam uma solidariedade que já era geográfica-econômica, histórica e que o
sentimento de defesa comum e Independência Nacional vai tornando política também.
O Brasil não pode por isso ter hoje uma atitude isolada nem mesmo falar
individualmente, solidária como deve ser e como é, facto, com as Nações a que se
ajuntou.
Não houve, entretanto, coração brasileiro que não recebesse com uma viva
emoção o eloqüente apelo de Sua Santidade, pedindo aos beligerantes a Paz em nome
de Deus; o Brasil, embora não seja o Estado órgão de nenhuma crença revelada, livres e
garantidos como são todos os cultos, não deixa de ser por isso a terceira Nação Católica
do Mundo. Com relações quase seculares e nunca interrompidas com o Governo da
Igreja, reconhece os generosos motivos que inspiram o apelo de Sua Santidade,
reclamando “com o desarmamento e a arbitragem a implantação de um regime em que a
força material dos Exércitos seja substituída pela força moral do direito, acordadas as
reivindicações territoriais da França e da Itália, considerados devidamente os problemas
dos Balcans e restituída a liberdade da Polônia”.
Os povos mais diretamente interessados nessa questões é que poderão dizer se a
honra das armas já está salva nesta guerra, ou se estas modificações na Carta Política da
Europa, podem dar-lhe tranqüilidade, estando como está ainda de pé a organização
política e militar que suspendeu a vida do direito em toda a parte, suprimiu as
conquistas que o espírito humano supunha definitivas na alteração dos rigores da guerra
e destruiu tudo quanto o sentimento cristão tem inspirado a sociedade das Nações.

64
Só eles dirão se, tendo desaparecido a confiança nos tratados e na lealdade
internacionais, haverá uma força senão um espírito novo de ordem a garantir a Paz, sem
que dos desenganos, dos sofrimentos, tenha saído um mundo melhor, como se fora
nascido da própria liberdade.
Assim se firmaria a Paz duradoura, sem restrições políticas, o seu lugar ao sol,
com os mesmos direitos, trocando idéias, trocando trabalhos e trocando mercadorias,
sob bases amplas de justiça e equidade.
Queira Vossa Excelência apresentar a Sua Santidade as homenagens de profunda
veneração do Senhor Presidente da República.
NILO PEÇANHA”.
Como pudemos ver, o Ministro de Relações Exteriores do Brasil faz questão de
mostrar que não tinha havido qualquer rompimento das relações entre os dois Estados, e
faz questão de chamar para o Brasil a honra de ser um dos países de maior número de
católicos do mundo. Por outro lado, apresenta o Brasil como sendo, desde o passado até
então, um dos Estados que tem praticado o arbitramento, inclusive por forças de lei e
que se obriga a tal. O Governo brasileiro faz ver ao Governo da Santa Sé que a guerra
lhe foi imposta e só os principais beligerantes, os mais ofendidos, é que podem decidir o
momento em que a ofensa tenha sido superada, para então ser assinada a paz.
Ao publicar a carta do Ministro do Governo brasileiro, A TRIBUNA
RELIGIOSA quer mostrar que, apesar dos percalços, analisados em outro momento
deste trabalho, a Sé do Vaticano tem uma expressiva importância para o Governo,
ressalvando-se que foi de pronto e imediata a resposta brasileira, tão logo o estado de
guerra foi declarado. Embora possa parecer clara essa importância, a política de certos
setores da sociedade é de mostrar uma importância menor do Vaticano entre as nações
do mundo. As constantes publicações, nas páginas da A TRIBUNA RELIGIOSA, de
notícias das relações entre a Santa Sé e os Estados têm uma função educativa e
pedagógica: demonstrar a importância do Vaticano no seu relacionamento como mundo
e levar a uma aceitação de melhoria das relações entre o Brasil e a Santa Sé. É com esse
objetivo que são publicadas notícias como essa:

“O novo governo da Finlândia acaba de enviar á Santa Sé uma


missão diplomática composta dos Senhores Lourenço Kihlman,
Eugênio Wolff, Tancredi Borenius, com o fim de participar a Sua
Santidade a constituição da Finlândia em Estado independente e
livre”12.

65
Ainda:

“O Observatore omano, do dia 11 de julho, tendo a República da


China mostrado desejo de entrar em relações com a Santa Sé,
Sua Santidade acedeu bem voluntariamente a tal desejo e
acertou a nomeação do Sr. Tay Tcheny Ling, para enviado
extraordinário e Ministro Plenipotenciário junto à Santa Sé”13.

“Resposta da Bélgica á mensagem do Papa. O governo da


Belga examina a possibilidade de contribuir, tanto quanto
dele dependa, a realização do amplo desejo em que se
inspirou a mensagem, a saber: Apressar o fim da guerra,
atenuar e tornar impossível a repetição de semelhante
catástrofe”14

e este outro que procura manter um governo que caiu:

“O Ministro da Rússia junto à Santa Sé declarou não


reconhecer o atual governo do seu país e considerar nulos
todos os tratados feitos com os Impérios Centrais”15.

Todas essas notas e outras que estão publicadas em uma secção com o título
“Pelo Mundo”, ora aparecendo na página 1 a maioria das vezes, ora na página 2,
demonstram um esforço de A TRIBUNA RELIGIOSA em realçar a presença e a
importância da Igreja no cenário internacional e o seu reconhecimento pelas Nações.
Esse esforço visa educar os brasileiros e alertar para que o Brasil promova um melhor
relacionamento com a Santa Sé. É neste sentido que Gil Vidal chama atenção ao
Governo Brasileiro para o distanciamento injustificável enter o Brasil e o Vaticano. Por
isso ele afirma que:

“ao Brasil Republicano, mais do que ao Brasil Imperial,


tem a Santa Sé acumulado de atenções. Não foi no Brasil
que ela escolheu o primeiro cardeal da América do Sul?
Corresponde ao benévolo e atencioso tratamento que66
sempre tem merecido do Soberano Pontífice”16.
Em 191918 logo após a guerra, o Brasil elevou à categoria de embaixada a sua
representação junto ao Vaticano, sendo o Dr. Magalhães de Azevedo o primeiro
Embaixador do Brasil junto à Santa Sé. Posteriormente, por acordo entre o Itamarati, a
Nunciatura e os demais embaixadores, o Núncio Apostólico veio a ser considerado o
Decano entre os diplomatas junto ao Governo brasileiro. Desde então melhoraram
sensivelmente as relações entre os dois Estados, especialmente até final dos anos de
1960, momento em que a cristandade que se organizara durante e após a primeira
guerra, começa a ser desfeita por conta da militância político-social de setores leigos e
mesmo de uma parte do clero. É evidente que não queremos atribuir à A TRIBUNA
RELIGIOSA ou a qualquer jornal católico a responsabilidade pela melhoria das
relações entre os dois Estados, apenas constatamos que os jornais, órgãos formadores de
opinião pública, serviram-se de suas páginas para esclarecer os temores que certos
setores da sociedade brasileira quanto às relações entre o Brasil e a Santa Sé. Não se
deve temer um Estado que merece o respeito de tantos outros congêneres, parece querer
ensinar a A TRIBUNA RELIGIOSA, notadamente quando o seu chefe, é um dos que
podem ser citados como artífice da Paz e é uma potência desarmada.

Referencias Bibliográficas
1
BRAUDEL, Fernand. História e Ciência Social. Lisboa: Ed. Presença, 1982, pp. 51.
2
FELIZARDO, Joaquim José. História Nova da República Velha – Do manifesto de
1870 à Revolução de 1930. Petrópoles: Vozes, 1980, p. 96-97.
3
CASTRO, Marco de. 64: Conflito Igreja X Estado. Petrópoles: Vozes, 1982, p. 35-51.

67
4
SILVEIRA, Monsenhor Paulo Florencio da. In: Brhlmeyer. História da Igreja.
Paulinas, 1965, pp. 748.
5
Idem. pp. 751.
6
Interessava ao Império o fechamento dos Conventos para poder assenhorear-se dos
bens de mão morta, quando da morte do último frade ou monge. Desde 1860 que havia
um grande esforço por parte de Bispos reformadores na reorganização e fortalecimento
da Igreja e das ordens e Congregações religiosas. Confira Azzi, Reollando, O
Movimento da Reforma Católica durante o século XIX in Reb, Vol. 34, set. 1974, p.
647-662; Azzi, Riollando. Dom Manuel Joaquim da Silveira, Primaz da Bahia (1861-
1874) e a luta pela liberdade da Igreja in Reb, Vol. 34, junho 1974, p. 359-370; Fragoso,
Hugo. Igreja na formação do Estado Liberal (1840-1875) in História da Igreja no Brasil,
Tomo II/2, Vozes, 1980.
7
FRAGOSO, Hugo. Igreja na formação do Estado Liberal (1840-1875), OP. Cit.
8
Foram criados nesse período as dioceses de Maceió, Pouso Alegre, Terezina,
Campanha, Uberaba, Florianópoles, Botucatu, São Carlos do Pinhal, Ribeirão Preto,
Taubaté, Campinas, Natal, Aracaju, Pesqueira, Montes Claro, São Luiz de Cárceres,
Pelotas, Uruguaiana, Santa Maria, Aracaju, Barra, Caitité, Ilhéus, Cajazeiras, Crato,
Sobral, Porto Nacional, Caratinga, Penedo, Guaxupé, Aterrado, Garanhuns, Nazaré.
9
SILVEIRA, Monsenhor Paulo Florenço. Op. Cit. pt. 755.
10
T.R. n.º 41, Ano XII, 31.10.1918, pp. 1.
11
T.R. n.º 39, Ano XI, 06.12.1917, pp. 1.
12
T.R. n.º 15, Ano XII, 25.04.1918, pp. 2.
13
T.R. n.º 36, Ano XII, 19.09.1918, pp. 2.
14
T.R. n.º 04, Ano XII, 07.04.1918, pp. 2.
15
T.R. n.º 16,. Ano XII,02.05.1915, pp. 1.
16
T.R. n.º 41, Ano XII, 31.10.1918, pp. 1.
17
SILVEIRA, Monsenhor Paulo Florença. Op. Cit, pp. 759.
18
Idem, pp. 759.

Capítulo VII
O Papado e a Guerra

Todos sabemos que as interpretações históricas são provenientes de um


determinado lugar, o lugar onde se encontra o historiador, a sua classe social, a sua

68
ideologia, as suas lealdades, ainda que ele se esforce para evitar tais penetrações em
suas análises. É assim que podemos compreender que a Primeira Guerra Mundial, como
qualquer evento humano, pode ser vista e analisada por vários e, às vezes, contraditórios
ângulos, e apresente as mais diversas versões. Na busca das causas da guerra, um
historiador católico diz que

“ela foi o fruto maduro do desenvolvimento fatal do século


XX e assinala a explosão das graves crises sociais e
espirituais que por muito tempo se foram preparando”1

“as causas mais profundas desta catástrofe mundial são, não


bastante tudo, ideológicas: o afastamento de Deus da parte
dos Estados e dos povos na idade recente, a sua defecção dos
ideais cristãos para os bens materiais e o egoismo nacional
anticristão”2.

Esta é uma opinião que tem uma visão idealística e religiosa da História,
segundo a qual a guerra foi provocada pela irreligião, pela crença de que os homens e a
sua ciência tudo podem e tudo fazem. É um engano achar que o homem tudo pode, é um
engano acreditar que os atos humanos são resultados apenas de suas vontades, é não
compreender toda uma gama de interesses que, sem dúvida, às vezes encobre o
indivíduo.
O final do século XIX foi de uma grande expansão na ciência e nas técnicas de
comunicação e transporte. A Igreja não soube reagir e assimilar, de imediato, as
mudanças que estavam ocorrendo ao seu redor. A sua estrutura medieval e as suas
instituições não possuíam a agilidade dos novos tempos. A condenação aos „erros do
mundo moderno‟ feita por Pio IX na Encíclica QUANTA CURA e no SILLABUS em
muito contribuiu para isolar a Igreja do mundo. É de lá que o Cardeal Tiago Della
Chiesa, eleito Papa (setembro de 1914), governará a Igreja com o nome de Bento XV,
até 19223. Desde o Vaticano

“ele ergue de modo infatigável a sua voz contra o


prosseguimento da guerra”4.

Para ele a guerra se apresentava como o suicídio da Europa Civil.

69
Desde o início da guerra, desde o início do seu pontificado, Bento XV tentou
promover a Paz. Debalde seus esforços e, ainda que historiadores católicos vejam a
guerra como fruto do “egoísmo nacional anticristão”, vê se surgir na França

“grupo de católicos, guiados pelo historiador da Igreja,


Alfredo Boudrilat, reitor do Instituto Católico de Paris,
promoveu uma desagradável campanha propagandística
contra a Alemanha, vista como única responsável pela
guerra e a pior inimiga da Igreja”5.

Por outro lado os católicos alemães reagiram, e os protestantes também, pois

“na Alemanha, no ano jubilar da Reforma


Protestante(1917), procurou-se caracterizá-la (a guerra)
como uma luta pelos bens conseguidos pelo
protestantismo” .
6

A guerra, fruto da expansão capitalista, é transformada em uma cruzada entre


partidos religiosos. E, a tudo isso era necessário vencer e esta parece ter sido a grande
campanha de Bento XV. Em 1º de agosto de 1917 Bento XV ofereceu ao mundo uma
proposta de Paz. Ela está transcrita pela TRIBUNA RELIGIOSA no número 30, do ano
XI, datada de 04 de outubro de 1917. Nesse documento o Papa Bento XV, dirigindo-se
às potências, chefes dos povos Belgirentes, diz que:

“Desde o princípio do nosso Pontificado, entre os horrores da terrível


tempestade que caíra sobre a Europa, três coisas nos propusemos
acima de todas as outras: uma perfeita imparcialidade para com todos
os beligerantes, como convinha a quem é pai comum e ama com igual
afeto todos os seus filhos, um esforço contínuo para fazer o maior bem
que pudêssemos isso sem acepção de pessoas, sem distinção de
nacionalidade ou religião, como nos impõe o Supremo Ofício que nos
foi confiado por Cristo e finalmente o cuidado assíduo, exigido
igualmente pela nossa missão de Paz, de nada omitir que nos fosse
possível para abreviar o fim dessa calamidade, induzindo os povos e
70
seus chefes a conselhos mais pacíficos, a serenas deliberações da Paz,
de uma Paz justa e duradoura”7.
Após esse início, que é um resumo de sua ação durante a guerra, Bento XV
propõe que

“em primeiro lugar, o ponto fundamental deve ser que a força


seja substituída pela força moral do direito, por conseguinte um
justo acordo de todos na diminuição dos armamentos”8.

Para conseguir isso, o Papa chama atenção de que normas devem ser
estabelecidas com clareza, de comum acordo entre todos, objetivando a manutenção
desse acordo, Bento XV propõe

“em substituição das armas, o instituto da arbitragem, com a


sua alta função de Paz, segundo as normas a serem
determinadas e as sanções a serem estabelecidas”9.

O Papa propõe, ainda, que

“se tire todo o obstáculo ás vias de comunicação dos povos


Compreendo que um com a verdadeira liberdade e comunismo dos mares”10.
dos grandes problemas a serem
resolvidos após a guerra é a questão das indenizações aos prejuízos causados pelo
conflito, o Papa diz:

“quanto aos danos e despesas de guerra, não descobrimos


outro meio de resolver a questão que a norma geral de um
interiço e recíproco perdão, justificado pelos benefícios do
desarmamento”11 71
Ora, o que o Papa está sugerindo é que se aplique a norma cristã do perdão e isso
exige a contrapartida na prática, por isso ele ensina que

“estes acordos pacíficos com inumeráveis vantagens,


não são possíveis sem a recíproca restituição dos
territórios atualmente ocupados”12.

Embora apresente algumas falhas de precisão em alguns pontos, este é sem


dúvida, um programa para uma Paz verdadeira entre as Nações, pois, estabelecendo o
desarmamento e a restituição de territórios ocupados, pretende afastar algumas das
principais causas das guerras. O Papa propõe o reinício da vida internacional em novas
bases. A TRIBUNA RELIGIOSA comenta e exulta com a proposta da Papa. Não pode
ser esquecido que estava ocorrendo, naquele período, o processo de centralização na
Cúria Romana e que ainda há pouco havia sido estabelecido o dogma da infabilidade
papal13. Talvez por isso a proposta de Bento XV é saudada como a palavra do “Rei sem
Exército” no editorial intitulado “O Anjo da Paz”14. Ainda no número 24, datado de 23
de agosto de 1917, o Monsenhor Affonso Pequeno no artigo “Aurora da Paz” faz
comentários sobre a proposta do Pontífice e argumenta em torno da Igreja católico da
seguinte forma:

“Podem esbravejar os inimigos da Igreja Católica


(...) mas não poderão apagar esta figura grandiosa
que no branir da borrasca fala e o mundo pára”15.

É evidente que o Monsenhor e A TRIBUNA RELIGIOSA pretendem tornar o


mais claro possível a autoridade do Papa. E isso é feito não apenas em função dos
Estados, mas tendo em vista as demais religiões e líderes religiosos. Por isso entende o
Monsenhor que

72
.
“só a Igreja Católica aparece em todos os campos de
batalha, caridade para com todos, somente ela pode
dizer e diz: basta, eu vos pelo a Paz em nome de
Deus”16.

É um tom apologético de defesa e ataque, se o Papa procura evitar confrontos


em sua proclamação, o articulista, ferido na luta contra a expansão do protestantismo e
do espiritismo, além de ferido pela política do Estado laico, desafia, tendo como
objetivo alcançar a realidade local, por isso escreve:

“onde estão as outras religiões? Onde estão as filosofias


e seitas que nos movem guerra? Onde está esta Ciência
Materialista que pretende substituir-se à Igreja de J.C?
são instrumentos da destruição e da morte nas mãos dos
governantes”18.

Interessa ainda à TRIBUNA RELIGIOSA esclarecer a importância e a ação do


Papa, sempre e cada vez mais. Então, apresenta uma série de notícias registrando a
resposta das Nações à proposta do Papa, permite o leitor admitir o quanto o Pontífice
importa ao mundo. Na Secção Registro da Semana, diz que

“o Presidente dos Estados Unidos responde á Proposta de


Paz de Bento XV, dizendo que era impossível aceitá-la,
agora”19.

Embora não apresente qualquer comentário sobre a resposta do governo


americano. A TRIBUNA RELIGIOSA tece comentários sobre a maçonaria inglesa, pois
começa a se ventilar que esta estaria forçando medidas pra impedir a presença do Papa
em um futuro Congresso de Paz20, enquanto os jornais ingleses acusam de que deve ter
havido uma influência alemã na proposta de Paz feita pelo Papa21 e, entretanto, pelos
católicos da Inglaterra, Bélgica e França a “proposta de Paz do Santo Padre foi bem
receviada”22.
A TRIBUNA RELIGIOSA mostra que a proposta de Paz feita pelo Papa Bento
XV estava fadada ao fracasso. No número 14 do ano XII, datada de 18 de abril de 1918,
A TRIBUNA RELIGIOSA apresenta um artigo publicado pelo jornal A UNIÃO do Rio

73
de janeiro, como título “A Santa Sé e a Paz”. Neste artigo fala-se sobre a Convenção de
Londres, realizada em 26 de abril de 1915, onde um acordo secreto foi assinado pela
Inglaterra, Rússia e França. Esta acordo “foi tornado público pelos Maximalistas
Russos”23 após a vitória da Revolução Bolchevique naquele país. A TRIBUNA
RELIGIOSA reproduz o artigo XV da Convenção de Londres, que diz assim:

“Artigo XV – A França, a Grã Bretanha e a Rússia tomam o


compromisso de apoiar a Itália, não consentindo que a Santa
Sé desenvolva qualquer ação diplomática sobre a conclusão
de Paz e solução de assuntos conexos com a guerra”24.

Sem apresentar qualquer comentário próprio, A TRIBUNA RELIGIOSA


continua a citar o artigo de A UNIÃO, onde se diz:

“o que há deveras odioso em tal acordo, interessou a


opinião pública, não só dos católicos, mas dos que estão
superiores às mesquinhezas partidárias”25.

É este um acordo que praticamente tornou nula a proposta de Paz de Bento XV.
As Nações recusam o auxílio do Pontífice. O Vaticano parece relegado a um plano
secundário entre as grandes Nações. As disputas entre a Itália e o Vaticano pesam muito
forte, e o que pode fazer o Papa? A TRIBUNA RELIGIOSA mostra que o Papa não se
afastou de sua conduta. Na verdade “O Vaticano se tornou uma Segunda Cruz
Vermelha”26. Foi criada uma extensa rede informações para acudir prisioneiros de
guerra e esforço dos homens em guerra. A TRIBUNA RELIGIOSA registra uma farta
quantidade dessas ações. Por exemplo:

“O Santo Padre obteve do governo Austro-húngaro a liberdade


para os prisioneiros na Áustria, vítimas de tuberculose”27

ou como forma de resumo em um artigo sob o título “Que Fez o Papa Pelas Vítimas da
Guerra?”

74
“1- O Papa tem condenado as barbaridades e as crueldades,
2- O Papa tem obtido das Nações beligerantes a libertação dos
prisioneiros inábeis par guerra,
3- O Papa tem conseguido comutação de pena de morte,
4- O Papa obteve a cessação das perseguições turcas conta os
armênios,
5- O Papa obteve que os prisioneiros fossem conduzidos para a
Suiça, país onde têm tratamento humano,
6- O Papa tem socorrido os povos mais duramente atingidos pela
guerra – os belgas e polacos,
7- O Papa tem levantado a voz para que sejam preservadas as obras
de arte e a vida dos não combatentes,
8- O Papa obteve serem internadas na Suíça os prisioneiros com
mais de três filhos”28.

Vê-se, portanto, que há um discurso que promove a figura do Papa, a sua


autoridade, como aquele que verdadeiramente está preocupado com o destino dos
homens, acima de qualquer interesse e o único que tem a real intenção de, como pai de
todos, encontrar o melhor para seus filhos. Mais ainda, A TRIBUNA RELIGIOSA
procura nos jornais internacionais o reconhecimento, principalmente dos que não são
católicos.

“É tal a influência benéfica da Santa Sé que o Boletim da Sociedade


Alliance Française em seu número de 15 de novembro passado inicia um
artigo sobre a Santa Sé e a guerra com as seguintes palavras que tiramos da
edição portuguesa editada em Paris: “No decorrer desta guerra os neutros
honraram-se imenso pela sua tão infatigável como engenhosa caridade.
Aqui mesmo dissemos o que os Estados Unidos e a Suíça fizeram. Todavia
no destaque desta luta de generosidade deve se ainda citar a Santa Sé.
Tendo afirmado em diversas ocasiões a sua neutralidade, não quis nunca
que a pudessem tomar por indiferença. O Papa praticou plenamente a
palavra do Evangelho que tomou como divisa: Misereor Super Turbam. Em
Aq
seu nome mandou declarar pelo Cardeal Gaspari numa circular aos bispos:
ui, mais
Ele “entende que não se faça distinção nenhuma de religião, nem de
que em
nacionalidade, nem de língua”29.

75
qualquer outro momento, A TRIBUNA RELIGIOSA assume o seu caráter de jornal
católico. A defesa do primado de Roma, a defesa da infabilidade papal. A prática de
Bento XV é visto como sinal da santidade de sua função e, sem dúvida, ele está acima
de qualquer paixão ou patriotismo. O desejo do Papa é o fim da guerra. A TRIBUNA
assiste, registra e procura convencer.

Referências Bibliográficas
1
TUCLE, H. e K. Bihlmeyer. História da Igreja. Vol. 3, São Paulo: Editora Paulinas,
1965, pp. 604.
2
Idem. pp. 604.
3
Os dados sobre Bento XV foram tirados da História da Igreja de Bihlmeyer. Op. Cit.
pp. 608 e vs.
4
TUCLE e BIHLMEYER. Op. Cit. pp. 608.
5
Idem. pp. 605.
6
Idem. Ibdem.
7
T.R. n.º 30, Ano XI: 04.10.1917, pp. 1.
8
Idem.
9
Idem
10
Idem.
11
Idem.
12
Idem.
13
O dogma da infalibilidade Papal foi decretado no Concílio Vaticano I, sob o Governo
de Papa Pio IX, em 1870.
14
T.R. n.º 24, Ano XI: 23.08.1917, pp. 1.
15
T.R. Idem, pp. 1.
16
Idem.
17
Em vários números do jornal aparecem artigos de caráter apostólico analisando o
“erro da reforma e do espiritismo. Isso, aliás, desde o primeiro número. Por outro lado,
toda a Igreja do Brasil está em forte campanha para que seja permitido o ensino
religioso nas escolas. Mas, esse é um assunto para outro trabalho.
18
T.R. n.º 24, Ano XI: 23.08.1917, pp. 1.
19
T.R. n.º 25, Ano XI: 30.08.1917, pp. 5.

76
20
T.R. n.º 26, Ano XI: 06.07.1917, pp. 1.
21
T.R. n.º 37, Ano XI: 22.11.1917, pp. 1.
22
Idem, Ibdem.
23
T.R. n.º 14, Ano XII: 18.04.1917, pp. 1.
Os Bolchevistas, ao tomarem o poder, tornaram público documentos secretos assinados
pelo governo Tzarista, como forma de justificar a sua saída da guerra européia, uma vez
que travavam uma guerra intestina contra o Exército Branco, este financiado pelas
potências capitalistas.
24
T.R. n.º 14, Ano XII: 108.04.1917, pp. 1.
25
Idem, Ibdem.
O historiador Bihlmeyer diz que “enquanto, porém, o secretário de Estado (da Santa
Sé), espera a solução dela (a guerra) não com a força das aramas ou de uma
internacionalização da lei das garantias, mas do bom senso e do espírito de justiça do
povo italiano (26 de junho de 1918), a Itália, com o artigo XV do tratado secreto de
Londres (26 de abril de 1915), já havia empenhado todos os seus aliados na exclusão da
Santa Sé nas futuras negociações de Paz e da discussão da questão relativas à guerra”.
Bihlmeyer, Op. Cit., pp. 610.
26
Bihlmeyer. Op. Cit., pp. 609.
27
T.R. n.º 15, Ano XIII: 25.04.1918, pp. 2.
28
T.R. n.º 34, Ano XII: 05.09.1918, pp. 1.
29
T.R. n.º 2, Ano XII: 24.01.1918, pp. 3.
A partir deste número, a TRIBUNA RELIGIOSA passa a ter como endereço a Rua da
Aurora n.º 197, Recife.

77
Capítulo VIII
O Fim da Guerra
A guerra, vista pela hierarquia católica e comentada nas páginas da TRIBUNA
RELIGIOSA, não apresentava nenhuma das causas encontradas pelos setores operários
da sociedade. Para a hierarquia a guerra era quase uma brincadeira de mau gosto,
praticada por meninos travessos e que estava causando um grande mal ao mundo,
embora tenha vindo para cumprir algum desígnio de Deus. Mas, na verdade, é um
distanciamento muito grande da Igreja para com os segmentos subalternos da vida
nacional. A hierarquia via a guerra como um pecado. Apenas afirma que

“O Clero não deseja a guerra porque a guerra é


um mal, mas quer a Paz porque a Paz é bem”1.

Esta é a posição dos católicos, de A TRIBUNA RELIGIOSA, de Dom Sebastião


Leme, arcebispo de Olinda e Recife.

“Afaste Deus do Brasil os flagelos de uma


guerra”2.

Mas, a guerra veio, e os bispos tomaram a posição de católicos e de patriotas.


Admoestaram e deram uma orientação de como os católicos deveriam agir para
enfrentar o grave momento que era vivido pela Pátria e pelo mundo. Aqui em
Pernambuco, como em todo o Brasil, padres admoestaram e aconselharam os jovens a
participarem das “Linha de Tiro”. A TRIBUNA RELIGIOSA anunciava:

“Do dia 1º a 10 do corrente, está aberto o


voluntariado para exército em todas as regiões
militares”. Na Terça-feira, mais de 50 jovens
foram-se apresentar ao quartel-general do Recife
para entrarem nas gloriosas fileiras do nosso
exército”3.

78
Não se pode deixar de notar uma certa euforia na parte final desta nota. É um
orgulho enorme que sente A TRIBUNA RELIGIOSA. Nesse mesmo número, aparece
uma outra nota, também em linguagem de euforia. É sobre o fim da guerra que se
aproxima. É feito anúncio de uma nota alemã pedindo o final da guerra. A TRIBUNA
RELIGIOSA diz assim:

“A nota alemã é assim concebida:


“O governo alemão pede ao Presidente dos Estados Unidos que
assuma a direção das discussões para o estabelecimento da Paz e leve
o pedido ao conhecimento dos beligerantes, convidando-os a enviar
plenipotenciários para iniciar as necessárias conversações tomando
por base das negociações a exposição feita pelo Presidente Wilson na
mensagem de 8 de janeiro, e declarações subsequentes,
particularmente as do seu discurso de 27 de setembro, a fim de impedir
a continuação da efusão de sangue. O governo alemão pede a
conclusão imediata do armistício na terra, no mar e no ar. (ass)
Maximiliano Baden”.
Oxalá, continuava A TRIBUNA RELIGIOSA, este desejo ardente de
Paz que há muito se manifesta no mundo inteiro, se venha a realizar
desta vez e brevemente. Que os homens abandonem o ódio sedento de
sangue e voltem ao trabalho, unidos todos no ósculo da Paz”6.

Este editorial vem acompanhado com uma foto de um anjo e, nA TRIBUNA


RELIGIOSA, começa a contagem regressiva para o dia da Paz.
A proposta do príncipe Maximiliano Baden tem por base os Quatorze Pontos
apresentados pelo Presidente W. Silson, dos Estados Unidos. No mesmo número, nas
“Notícias da Grande Guerra”, vem o seguinte telegrama:

“Os Estados Unidos responderam à nota alemã pedindo a Paz,


declarando recusar a proposta de Armistício feita aos aliados
enquanto a Alemanha não evacuar os territórios da Entente que
ora ocupam.”7

79
Na medida do possível, sendo um jornal semanal, A TRIBUNA RELIGIOSA
procura apresentar o diálogo entre as nações em direção à Paz. Não são feitos quaisquer
comentários quanto aos interesses que estão em jogo. Dentro da visão dos redatores da
TRIBUNA RELIGIOSA não importa saber muito o que ocorre por trás dos telegramas,
quais as tramas de interesses que existem e não desenvolvidas pelas nações. Apenas os
telegramas. Nenhum partido é tomado, por isso nenhuma análise é feita.
Em outro telegrama publicado nas “Notícias da Grande Guerra” diz que:

“Na sua resposta a Wilson, a Alemanha declara desejar


discutir um Armistício sobre a base da situação atual e
em relação às forças atuais”8.

O encaminhamento em direção de paz é acompanhado em outros países. Assim


temos:
“A Áustria pediu Paz em separado ao Presidente
Wilson, aceitando todas as condições impostas
pelos aliados”9.

e na mesma coluna traz as notícias da Alemanha com o seguinte teor:

“a Alemanha declarou que as autoridades militares


imperiais acham-se agora, debaixo da autoridade do
povo e que a Alemanha aguarda a proposta de Paz
para um Armistício”.10

É desejo dA TRIBUNA RELIGIOSA informar os seus leitores, embora saiba


que ela não pode concorrer com os jornais diários. Contudo, ela atinge um público
vasto, e este público, embora com pequenos flashes, recebe as notícias e acompanha o
andamento das negociações; assim é que os seus leitores recebem as notícias da Paz:

“Assinado Armistício com a Áustria cessando as


hostilidades no dia 4 às 15 horas”11
“O Armistício com a Turquia começou a vigorar às 12
horas de 31 de outubro”12

80
Finalmente, na primeira página do número 43, datado de 14 de novembro de
1918, vem uma oração que tem por título “Aurora da Paz” e neste número vem um artigo
onde se explica como se alcançou a Paz com a Alemanha. Ei-lo:

“O Fim da Guerra”
“Na Segunda-feira, 11 do corrente, foi assinado logo de
manhã, no quartel do Marechal Foch, o Armistício pedido
pelos alemães aos aliados. Neste Armistício foi
estabelecido que as hostilidades cessariam às 11 horas
desse dia”13.

Diz ainda o artigo que os alemães “sujeitaram-se a todas as imposições dos


aliados” e afirma que isso significa que foi confessada a “completa derrota”. Informa
ainda que a notícia chegou ao Recife, por volta do meio dia, da mesma Segunda-feira e
que foi “confirmada no dia seguinte por telegrama do Sr. Nilo Peçanha dirigido ao Sr.
Governador do Estado”. Passa então a descrever a cidade, na ocasião:

“o entusiasmo que tal notícia despertou foi


indiscutível. A cidade embandeirou-se, manifestações
foram, improvisadas, as sirenes dos vapores surtos no
porto uniram os seus silvos ao repicar dos sinos das
Igrejas, ao troar dos canhões, e no som melodioso
das bandas muicais”.14

O Arcebispo uniu-se ao povo na alegria do fim da guerra. Foi expedido, pela


secretaria do arcebispado, o aviso sob n.º 75, que diz o seguinte:

“Aviso n.º 75
Em regozijo pela assinatura do Armistício entre as Nações beligerantes,
menda o Exmo. e Rvdmo. Sr. Arcebispo Metropolitano que todas as Igrejas
matrizes repiquem festivamente os sinos hoje à tarde, por ocasião do toque
da Ave-Maria.
Domingo próximo, em todas as matrizes que o quiserem fazer, em seguida à
missa mais freqüentada de povo, haverá canto do “Te-Deum”.
Os Rvdmos. Vigários, convidem o povo a orar pelas intenções do Santo
Padre, o Apóstolo da Paz, cujo coração magnânimo vê hoje restituídos ao
mundo, a Concórdia e a Fraternidade.
Câmara Eclesiástica, 12 de novembro de 1918.
Mons. José de F. Machado.
81
Secretário do Arcebispo”.
Foi assim que A TRIBUNA RELIGIOSA viu chegar a paz, comemorada pela
cidade, com festas, o pensamento voltado para o Papa. As palavras finais do Arcebispo
foram para as intenções do Papa, que desde o início do conflito tentou evitá-lo, ou
estancá-lo. Alguns anos mais tarde, o pensador Alceu de Amoroso Lima escreveria:

“Por maior, portanto, que seja a diminuição do poder


efetivo da palavra do Papa, em virtude das condições da
moderna sociedade seculareizada –seu poder moral é
considerável- de modo que a mensagem de Roma assume em
nossos dias, a despeito do fracionamento da cristandade
unida de outrora, uma importância considerável para o
nosso tempo, mesmo para os que estão fora da Confissão
Católica”15.

Mas, o que chama atenção é que, a partir desta data, 14 de novembro de 1918,
não há mais menção sobre a guerra, em todo o restante do mês de novembro e
dezembro, nem mesmo das repercussões ocorridas em outras partes do país, nem sobre
o encaminhamento do desarme. É como se nada mais houvesse de importância a ser
dito, agora que a guerra acabou. Para a TRIBUNA a guerra havia acabado. Não há mais
o que conversar ou discutir. Outros seriam os temas para os redatores de A TRIBUNA
RELIGIOSA. A guerra havia cumprido o seu termo. A TRIBUNA havia cumprido o
seu dever.

Referências Bibliográficas
1
T.R. n.º 12, Ano XI: 31.05.1917, pp. 1.
2
T.R. n.º 09, Ano XI: 10.05.1917, pp. 1.
3
T.R. n.º 35, Ano XI: 08.11.1917, pp. 1.
4
T.R. n.º 36, Ano XI: 15.11.1917, pp. 2.
5
T.R. n.º 26, Ano XII: 12.07.1918, pp. 1.
6
T.R. n.º 39, Ano XII: 10.10.1918, pp. 1.
7
T.R. Idem, pp. 3.
8
T.R. n.º 40, Ano XII: 24.10.1918, pp. 3.

82
9
T.R. n.º 41, Ano XII: 31.10.1918, pp. 2.
10
T.R. Idem. Ibdem.
11
T.R. n.º 42, Ano XII: 07.11.1918, pp. 3.
12
Idem. Ibdem.
13
T.R. n.º 43, Ano XI: 14.11.1918, pp. 2.
14
Idem.
15
LIMA, Alceu de Amoroso. Mensagens de Roma. Rio de Janeiro: Ed. Agir, 1950, pp.
77.

83
Capítulo IX
O Monsenhor Affonso Pequeno
Uma Pena Pela Paz

A guerra é uma situação excepcional e, com isso, faz brotar emoções diversas e
traumatizantes. Diante de cada situação traumatizante, os indivíduos e as pessoas
colocam observações sobre a sua vida, uma reconsideração dos conceitos que até então
os têm norteado na vida. A Primeira guerra levou a Igreja Católica no Brasil a uma
situação de limite e ela tomou atitudes que definiram uma conduta posterior. A guerra
promoveu a possibilidade de uma nova ação conjunta entre o Estado e a Igreja, ação
que, desde a época de Dom Vital e Dom Macedo, parecia uma redefinição do papel da
Igreja diante de sociedade brasileira. Ela optou por um caminho de cooperação quase
irrestrita aos valores do Estado, esquecendo-se de praticar um criticismo sobre os
motivos reais da guerra. Temerosas de não ser considerada uma “boa brasileira”,
indicou que “é necessário que nós, brasileiros, sendo mais patriotas como os que mais o
são, fiquemos mais que nunca unidos a Deus e aos seus representantes na terra, a fim de
que, sobrenaturalizado o nosso patriotismo, chamamos sobre nós e a nossa causa a
abundância das graças divinas”, como foi a proclamação de Dom Sebastião Leme,
Bispo de Olinda, em 30 de novembro de 1917. Nessa declaração podemos perceber que
não há um vestígio de crítica sobre as verdadeiras causas da guerra. Pelo contrário,
induz o leitor e ouvinte a confundir qual a vontade de Deus e qual a vontade do homem.
É um momento crucial. A Igreja Institucional tem que se definir e defender-se de
acusações de que está ligada a um poder estrangeiro. As situações críticas exigem uma
tomada de posição rápida e clara. A Instituição tomou a sua. Não teve uma posição
crítica diante da guerra. Alguns homens, dentro da Instituição, sempre se sobressaem e,
de alguma maneira, conseguem fazer a ligação entre o passado e o futuro, não dando
créditos definitivos ao presente. O Monsenhor Affonso Pequeno é um desses homens
que não se deixa dominar pelas ondas momentâneas do emocionalismo fácil e de
interesse de certos grupos, setores da sociedade brasileira.
O Monsenhor Affonso Pequeno foi uma das mais vibrantes penas que
freqüentou as páginas dA TRIBUNA RELIGIOSA. O exemplar de n.º 1 do Ano XII,
datado de 26 de março de 1918, apresenta o elogio fúnebre do Monsenhor. Ele foi

84
sepultado na Catacumba n.º 8, no cemitério da Ordem Terceira de São Francisco, em
Olinda. Os seus artigos eram assinados simplesmente como A.P.
Nasceu o Monsenhor Affonso Pequeno em Icó, Ceará, no dia 24 de julho de
1817, e fez seus estudos no Seminário de Fortaleza, porém os concluiu na Pontifícia
Universidade Gregoriana, no Pio Latino-Americano. Nos últimos anos, problemas de
saúde forçaram o então seminarista a retornar aos estudos em Olinda. Foi ordenado
sacerdote no dia 19 de agosto de 1894, em Nova Friburgo. Na época era secretário de
Dom Francisco do Rego, Bispo de Niterói. Vindo para o Nordeste, ocupou o cargo de
Vice Reitor do Seminário de Olinda, além de acumular as cátedras de História
Eclesiástica e Direito Canônico.
Mas, se o Monsenhor era um homem de letras, não lhe faltou a experiência do
contato com o povo, pois foi vigário de Villa Bella, Floresta, Belmonte e Garanhuns. O
contato com os hábitos e trabalhos dos sertanejos e agrestinos é que lhe permitiram,
mais tarde, escrever, sobre assuntos referentes à economia e ao plantio de certas
espécies nos sertões de Pernambuco. Vivendo em uma região em que o protestantismo
avançava, juntamente com outras religiões, o Pe. Affonso Pequeno fez surgir o jornal
“O SERTÃO”, levando a imprensa católica para o interior do Estado. A sua luta contra
o protestantismo o fez publicar no número 22 do Ano XI, em 09 de agosto de 1917, um
artigo onde faz a relação entre o avanço do protestantismo e uma praga que dizimava os
algodoais de Pernambuco. Ambos, segundo o Monsenhor Pequeno, vinham da mesma
fonte, os Estados Unidos da América. Em seu artigo, que tem o título A LAGARTA
ROSADA E AS NOVAS SEITAS, ele diz que, enquanto uma destrói os algodoais do
agreste, a outra pretende destruir a unidade nacional1. Na defesa dos seus ideais o seu
estilo é forte e contundente. Para estancar o fluxo do protestantismo no agreste e sertões,
o Monsenhor Pequeno fundou o Colégio Santa Sofia em Garanhuns, para atender jovens
que então estavam buscando as lições no Colégio XV de Novembro, de orientação
protestante, fundado alguns anos antes. Aliás, seria interessante um estudo de ocupação
ideológica dos sertões, não só de Pernambuco mas dos Estados vizinhos. Esses dois
colégios recebiam alunos das principais cidades da Paraíba e Ceará.
Pessoalmente, parece que o Monsenhor Pequeno era contrário à guerra. Não era
uma simples conseqüência do seguimento da linha dos bispos e da Igreja. Ele possuía
uma adesão pessoal ao pacifismo, à neutralidade. A maioria dos artigos publicados pela
TRIBUNA RELIGIOSA nos anos 1917 e 1918, até da sua morte, passaram pela sua
pena.

85
O Monsenhor Affonso Pequeno tem uma sensibilidade para os efeitos da guerra
sobre a população brasileira que escapa á maioria dos analistas. Em maio de 19172 ele
analisa as conseqüências da guerra sobre alimentação da população. Na época está
ocorrendo a escassez de farinha de trigo e de farinha de mandioca. O arguto professor
argumenta que esta é uma ótima oportunidade pra que se aumente a área de plantio da
maniva e da excessiva dependência de produtos que não produzimos aqui. Na verdade,
nota o Monsenhor, serão os ricos que mais irão sentir a falta dos produtos europeus. A
guerra afeta a todos, a massa miserável sentirá pouco, pois a ausência de certos produtos
é crônica. A guerra afeta o fornecimento dos produtos pra os ricos, e o país pode lucrar
com isso, pois pode haver uma melhoria na balança comercial do Brasil, uma vez que a
guerra leva, forçosamente, a uma diminuição das importações. A análise do Professor
de Direito Canônico e de História está de olho em que a neutralidade pode e deve ser
mantida, tendo em vista os benefícios que advirão á economia brasileira. Mesmo
quando ele empunha a sua pena em defesa do clero, em artigo publicado no dia 12 de
abril de 1917, ele afirma que está defendendo o Clero

“contra indigna insinuação de alguns jornalistas


belicosos que devemos passar ao lado dos aliados, para
não sofrermos pressões da Inglaterra”3.

Devemos ter em mente que o Monsenhor julga as questões econômicas e os interesses


que existem por trás da guerra. Expressará os mesmos argumentos um mês depois em
um artigo outro.
O Monsenhor Pequeno não é um sonhador, embora pareça. Ele sabe dos
sacrifícios que são impostos à Nação em guerra. Ele reflete sobre as conseqüências
práticas de duma guerra para a população. Essas razões o fazem preferir a neutralidade,
pois esta pode trazer benefícios para a maioria, embora alguns pequenos grupos, os que
se alimentam de produtos importados, sejam prejudicados. Arrisca-se a passar por
covarde, mas não pretende ser o líder de um povo em direção à guerra. Bem poderia ser
dele a frase de Dom Sebastião Leme

“longe de mim concorrer para escaldar o espírito público.


Apóstolo da Paz, não posso pregar a guerra”5.

86
Entretanto, a guerra veio. E, com ela, os problemas que os belicistas,
embriagados pelo ideal do falso patriotismo, não perceberam, ou não quiseram perceber.
A falta de alimentos, a escassez de produtos, as cotas que são determinadas a serem
enviadas aos homens em batalha, tudo isso afeta o falso patriotismo. Os descontentes
com o fim da neutralidade por causa das seqüelas que a guerra acarreta, apoquentam-se.
Queriam a guerra, mas jamais pensaram nos problemas que a guerra acarreta. Viam a
guerra como um empreendimento romântico. Estavam desiludidos. A guerra não lhes
parecia mais tão bela. Em artigo publicado no dia 16 de agosto de 1917, número 23 do
Ano XI, o Monsenhor Pequeno cobra o entusiasmo dos belicistas, cobra o patriotismo, o
falso patriotismo burguês que alegremente esperou e desejou a guerra e agora abomina
os eus efeitos, pois ales agora são atingidos em sua farinha de trigo. Mas, vejamos o
artigo do Monsenhor:

“NÃO TEMOS RAZÃO


Eu fui pela neutralidade do Brasil na guerra européia. Pensava que não nos devamos
intrometer em questões alheias. Isto dos aliados estarem defendendo o direito, a civilização, a
democracia não há ingênuo que o creia agora depois de os aliados terem declarado o seu
intuito de anexações, destruição da Turquia, desmembramento dos Impérios Centrais. O direito
da Inglaterra nem parece tão respeitável como o da Alemanha; não sei em que os alemães são
menos civilizados de que seus inimigos. Quanto à democracia, que não existe menos nos
Impérios Germânicos de que nas outras nações, não é coisa que, pelas amostras que nos têm
dado nesta adorável república, valha a pena morrer por ela. Mas, uma vez que o nosso
governo, cedendo à pressão da opinião pública que não sei se foi encomenda, ou à dos
poderosos credores de além mar e dos nossos amigos yankees, rompeu a neutralidade, manda-
me o Patriotismo que seja solidário com o Governo do meu País, porque um povo dividido é um
povo vencido. Eis porque venho defender o nosso Governo contra os clamores que se erguem
por causa da carestia de vida e dos aumentos dos impostos.
Não temos Razão.
O rompimento da nossa neutralidade que a nossa imprensa advogou com suspeito ardor,
impunha-nos obrigações para com a causa da nossa simpatia. Não tínhamos exército pra
mandar combater pela Inglaterra ao lado dos Cipaios e Zulus; devíamos mandar ao menos
gêneros alimentícios. Mas não havia barcos para o transporte. Intimaram-nos que nos
apoderaríamos dos navios alemães abrigados à sombra de nossa bandeira, e que eu também
não achei nem justo nem honroso para o Brasil. Dizia-se que era para resolver a crise do
transporte, sobretudo do nosso comércio interno. Nenhum deles se anuncia que venha a nossos
portos, mesmo porque a maioria desses portos não tem fundo para o calado dos grandes

87
transatlânticos. Estes navios que vão tomando o nome das nossas cidades, servirão pra levar à
faminta Europa carnes congeladas, feijão, arroz, batatas, e até a nossa outrora farinha de pau.
Daí a carestia. Nossa posição internacional tão desejada, havendo até quem quisesse guerra
efetiva, exige que nos ponhamos em defesa, fatalmente tinha que vir o aumento das despesas e
portanto de impostos. Por que este clamor? Quisemos a causa e não queremos os efeitos! Bem
vêem que não temos razão. O Dr. Manoel Borba convida os interessados que nos ameaçam com
greves e desordens contra a carestia, a discutir e acertar com ele os meios de debelar a crise na
alimentação. Não sei que medidas poderão sugerir ao Governador. Um inverno desmantelado
não nos deu milho e feijão
. A seca de 15 destruiu mais da metade dos nossos rebanhos. Do sul não nos virá o bom
feijãozinho de São Paulo, a exportação de cereais congelados elevou o charque a um preço
fabuloso e a Argentina e os Estados Unidos nos dão trigo à ração. Se a carestia já é
insuportável ao povo agora no tempo da safra, a que será da pobreza daqui a alguns meses?
Faça-se um meeting colossal e peça-se ao meu belicoso amigo Dr. Gonçalves Maia que
propugnou com tanto civismo pela guerra do Brasil contra os Bárbaros e pelo confisco dos
navios alemães, para que faça com que ditos navios não nos levem os gêneros alimentícios
matando à fome o nosso povo e telegrafa ao Sr. Wilson par que nos mande trigo e, antes de
acudir a Europa, acuda ao Brasil, em nome da Doutrina Monroe e do Pan-americanismo que
nos fez romper a neutralidade.
A.P:”

É um linguajar rápido e preciso em que se mostra a anatomia do falso


patriotismo, das falsas análises de grupos sedentos de sangue e carentes de uma real
preocupação com as questões que atingem a maior parte da população. Em seu artigo, o
Monsenhor denuncia os falsos motivos da guerra. É provável que ele perceba que os
reais motivos não foram abordados pelos bispos como também não o foram pelos
jornalistas aos quais se referes. A sua intervenção nesse debate é de clareza meridiana,
pois demonstra a dissimulação dos motivos. Chega a duvidar se a grande campanha pelo
engajamento do Brasil na guerra não foi fruto de interesses de potências estrangeiras,
levando em consideração o fato de que a participação do Brasil na guerra, a quem
interessaria?
Analisa, também, Affonso Pequeno, a parca disponibilidade de material bélico
da Nação. Como fazer guerra sem navios, sem exército? Só mesmo pessoas de
patriotismo duvidoso levariam o país a tal situação. O Monsenhor denuncia e deixa
claro a irresponsabilidade da burguesia urbana militarista, que estava aliada aos

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interesses europeus, notadamente britânicos6 e 7. Argumenta Affonso Pequeno que o
esforço da guerra vem a tornar mais pesada a carga sobre os pobres, uma vez que a
carestia é uma das conseqüências doa envolvimento do Brasil no conflito europeu.
Embora preocupado em desnudar o “patriotismo” da burguesia, apenas de relance, A. P.
fala de “greves e desordens”, usando expressão própria dos detentores do poder quando
talvez o Monsenhor percebesse a real profundidade dos problemas sociais advindos com
a participação do Brasil na guerra, porém não dirige a sua análise nessa direção, quiçá
limitado pela sua posição de padre e por não pretender entrar em suas pastorais. Poderia
o Monsenhor Affonso Pequeno ter escrito mais sobre os conflitos, ou tensões sociais
que estavam ocorrendo então. Esses conflitos eram percebidos pelas classes dominantes
como “anarquistas”, obra de baderneiros, pois desde sempre ao povo não é dado o
crédito de poder-se organizar para defender e estabelecer com clareza as suas idéias.
Contudo, vale ressaltar que o Monsenhor Pequeno admite a existência desses
movimentos em que simplesmente não se menciona tais eventos nas páginas de A
TRIBUNA RELIGIOSA. A TRIBUNA RELIGIOSA prefere assumir as posições da
Liga de Defesa Nacional, este um movimento da burguesia ascendente e de caráter
militarista. A análise de A.P. é uma voz isolada no jornal.
Há uma clara percepção por parte do Monsenhor Affonso Pequeno, do jogo das
grandes potências. Ele entende que tal jogo não leva em consideração os interesses reais
dos pequenos Estados. Ironiza a Doutrina Monroe e os sentimentos de Pan-
Americanismo, que só são usados em benefício dos Estados Unidos e pouca
importância têm, nessa política, os interesses dos demais países americanos8. É por essa
razão que o Monsenhor lamenta a quebra da neutralidade, pois ela em nada beneficiou o
país, apenas veio a dar uma dimensão maior aos graves problemas econômicos e sociais
que estão esgotando a paciência do povo mais pobre. O Monsenhor entende que um não
alinhamento, ou uma neutralidade semelhante a tal posição, teria sido bem melhor para
o Brasil, seja no plano da economia doméstica, seja no plano internacional9.
Na verdade, tudo indica que para o Monsenhor Pequeno, a Paz não significa
apenas o estancamento de guerra, o fim das hostilidades. A paz requer uma economia
que efetivamente atenda aos interesses de toda a população brasileira e não apenas da
burguesia. O Monsenhor Pequeno percebe e denuncia que a falta de gêneros
alimentícios está “matando à fome o nosso povo”. Durante a guerra os preços dos
alimentos quase dobraram.

89
Infelizmente, o Monsenhor Pequeno é uma voz isolada, além do que morreu
ainda nos primórdios da participação da Brasil na guerra. É provável que sua pena teria
voltado à cena em outros assuntos e oportunidades e teria cobrado uma outra postura
diante do conflito. Teria voltado a denunciar o vazio do discurso burguês-militarista
que, empapado de falso patriotismo levou o país a participar de uma guerra para a qual
não estava preparado, nem em homens, nem em armas.

Referências Bibliográficas
1
T.R. n.º 22, Ano XI: 09.08.1917, pp. 3.
2
T.R. n.º 11, Ano XI: 24.11.1917, pp. 2.
3
T.R. n.º 5, Ano XI: 03.04.1917, pp. 1.
4
Ver Cit. 2, acima.
5
T.R. n.º 11, Ano XI, pp. 1.
6
CARONE, Edgar. A República Velha – L. Instituições e classes sociais. São
Paulo:Difel, 1975, pp. 130.
7
As idéias de Monsenhor Pequeno chegam próximas à de Pandiá Calógeras, citado por
Nelson Werneck Sodré em História Militar do Brasil, quando afirma “Há trinta anos
está acéfaloo ministério da guerra”, escreverá o comentarista abalizado. O latifúndio só
se preocupava com os chefes militares, com sua formação, de acordo com a situação
política. “As promoções ao generalato foram felizes. Obedeceram a considerações políticas e
pessoais, a relações de amizade, muito mais do que às conveniências do serviço. Apesar de
estarmos em guerra, da responsabilidade tremenda que recai sobre quem tem que escolher os
chefes futuros de nossas tropas, seus guias nos combates; apesar de se tratar de selecionar os
homens a quem incumbirá a missão terrível, embora honrosíssima, de defender o nome do
Brasil, o brilho de sua bandeira, o resguardo da vida de seus comandados o que mais pesou no
critério da eleição foram a simpatia, serviços políticos, parentes influentes e empenhos, e não
como devera ser, o crisol do valor profissional, de dedicação á tropa, do esforço militar”.
Prossegue Nelson Werneck, demonstrando as forças do exército que ia para a
guerra: “no que dizia respeito ao aparelhamento material, a situação era precaríssima. E
surgiram, agora, iniciativas, cujas finalidades eram transparentes, de introduzir
indústrias inteiras de armas e munições, como se houvesse aqui uma siderurgia
altamente desenvolvida, que as suprisse do necessário, como se a demanda interna de
canhões fosse inexaurível. (...) A instrução estava esteticamente e dão coesão à tropa; a

90
de combate não existia; as unidades estavam desfalcadas ou mesmo sem efetivos ou
sem verbas; “de norte a sul chovem telegramas sobre a situação precária da força, sem
cobertores, sem capotes, sem fardamentos, sem quartéis, sem viaturas, pré-retardados,
instrução nula”. A Cavalaria não tinha cavalos, a artilharia não tinha canhões, a
infantaria não tinha fuzis: a norma fora liquidada, a Instituição estava praticamente
liquidada” pp. 195.
8
A crítica do Monsenhor Pequeno sobre a doutrina Monroe não se distancia do
pensamento de Alberto Torres, que cita Elihu Root “Uma falsa concepção da Doutrina
Moroe, do que ela prescreve e do que ela justifica, de seu escopo e de seus limites,
invadiu a imprensa e afetou a opinião pública, nestes últimos anos. Grandiosos planos
de expansão nacional invocam a Doutrina de Monroe. Interessa por obrigar os países da
América Central e do Sul a fazer ou deixar de fazer qualquer coisa de que cidadãos
americanos possam tirar proveito, invocam a doutrina de Monroe. Ambições de glória
nacional, alimentadas por cérebros muito vazios, para aprenderem, em seu conjunto, o
senso do dever nacional, invocam a doutrina de Monroe. A pretensão intolerante de
exercer essa espécie de superintendência sobre a conduta e opiniões de outros povos,
que é da essência da tirania, invoca a doutrina de Monroe é um título de intervenção dos
negócios internos das nações mais fracas do novo mundo”. Citado por Nelson Werneck
Sodré – pp. 197, in História Militar do Brasil – Civilização Brasileira, RJ, 1968, 2ª
edição.
9
A guerra de 1914, confirmava a inferioridade das nações que dependiam do
estrangeiro para as coisas essenciais da vida. Demonstrava, por outro lado, que éramos
capazes de improvisar várias indústrias. O nacionalismo econômico nascia, pois com a
guerra, abrindo novas perspectivas, novo trabalho”.
José Maria Bello, citado por N.W.S.
H. Militar do Brasil, pp. 198.

91
Conclusão

O final do século XIX assistiu ao rompimento das relações privilegiadas entre o


Estado e a Igreja no Brasil. desde o descobrimento pelas terras brasileiras por
navegadores portugueses que o Brasil foi definido como terra pertencente à Ordem de
Cristo. Ora, como o Rei de Portugal era o Prior desta ordem também era a maior
autoridade para assuntos de religião na Colônia. Assim, todos os padres, bispos, ordens
religiosas, antes de virem ao Brasil, deveriam passar pelo território português e prestar
obediência ao rei português. Então, observamos uma perfeita união entre essas duas
instituições sócio-culturais. Uma unidade perfeita, de interesse de ambas, pois tanto o
Estado passaria a ter uma auxiliar perfeita para a dominação cultural da colônia, como a
religião via-se atendida em suas necessidades para atingir um número maior de pessoas,
visando convertê-las para a lei de Cristo. A essa situação de união perfeita dos „dois
gládios‟ para usar uma expressão querida aos teólogos e filósofos da Idade Média,
chamamos de Cristandade. A Igreja usa os meios que lhe são oferecidos pelas classes
dominantes para, através deles, converter o mundo. Historicamente isso fez crescer
numericamente a Igreja, todavia os resultados de benefícios pastorais podem ser
bastante contestados. Mas com grande esforço teórico e uma vasta produção, sendo um
dos aspectos que mais chamam atenção, agora, na Igreja da América Latina e na
Universal.
Durante o Período Colonial e durante o Império, apenas pequenas escaramuças
afetaram essa cristandade, esse pacto das duas instituições. Nesses casos o simples
afastamento dos envolvidos foi a solução, sendo que o Pe. Malagrida sofreu na fogueira
a sua desatenção ao Padroado.
Com a proclamação da Independência e o fortalecimento do clero regalista,
chegou-se a pensar-se na nacionalização do clero, procurando evitar qualquer influência
da Santa Sé nos negócios da Igreja no Brasil. Na segunda metade do século XIX o
governo brasileiro veio a tomar medidas que diminuíram as possibilidades de uma
expansão das congregações religiosas. Houve pouca defesa das ordens, por parte dos
bispos. A questão que mais emocionou a população e forçou um maior congraçamento
entre os bispos foi a prisão dos bispos em Pernambuco e Pará. Mesmo assim a
solidariedade com os bispos em prisão não teve a prontidão esperada.

92
Quando da proclamação da República, ocorreu o inevitável, a separação da
Igreja do Estado, ainda no governo Provisório e, mais tarde ratificado pela Constituição
de 1891. Então a Igreja teria, agora, de viver sem o auxílio do Estado, se bem que este
auxílio nem sempre foi benéfico para a Instituição. Entretanto, uma série de privilégios
que eram concedidos ao catolicismo, vieram a ser substituídos por uma política de
indiferença e, segundo alguns observadores, até por um desprestígio que beneficiava
mais outros grupos religiosos.
A impossibilidade de contar com o apoio do novo governo na execução de sua
tarefa é que fez a Igreja tornar-se mais atuante na formação de novos bispados.
Procurava-se dar um maior dinamismo à Igreja, pois de repente ela se descobre fraca e
percebe que o auxílio recebido dos Estados nos momentos anteriores mais serviram para
torná-la dependente do que uma força realmente ativa dentro da sociedade.
No final do século XIX e no início do século XX, muitos movimentos surgiram
na igreja, procurando dar alguma resposta aos problemas que a nova realidade social
apresentava. No Nordeste, o Padre José Ibiapina promoveu uma assistência social ás
populações mais carentes, vindo inclusive a gerar preocupações às autoridades, pois
temiam ser ele um dos chefes do movimento Quebra-Quilos, conforme estudo do
Armando Souto Maior. Essa atuação do Padre Ibiapina não comoveu as autoridades
eclesiásticas, que inclusive chegou expulsá-lo da diocese de Fortaleza. O espírito
religioso do Povo Nordestino veio a promover a sua própria organização no movimento
liderado por Antônio Vicente Maciel, mais conhecido como Antônio Conselheiro. Foi
mais uma oportunidade que a igreja perdeu para uma melhor ligação com as populações
marginalizadas e periféricas da sociedade brasileira. É notória a ação da hierarquia ao
lado dos poderosos da República Velha e do Estado da Bahia, em detrimento da
benéfica ação de Antônio Conselheiro para o povo pobre do nordeste. Essa
incapacidade de compreender os signos do tempo parece acompanhar a parte
institucional da Igreja no final e início do século.
Ainda no Nordeste, foi completamente mal visto a atuação do Padre Cícero
Romão, que, apesar dos percalços, foi um momento de modernização de certas relações
sociais nos sertões nordestinos. Como não foi compreendido pela Igreja, que poderia
ter-se aplicado melhor à compreensão dos eventos. O Pe. Cícero terminou sendo usado
pelas oligarquias, tornando-se um sustentáculo dos poderes estabelecidos e parte de um
processo de alienação do povo pobre. O que poderia ter sido um passo em direção da
liberdade foi uma corrida para a alienação.

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E foram tantos os desencontros da hierarquia eclesiástica com o povo brasileiro.
Mesmo nos setores urbanos da sociedade houve uma tentativa de uma relação mais
positiva entre a hierarquia e o povo brasileiro. O Pe. Júlio Maria, primeiro redentorista
brasileiro, pregou incessantemente que a Igreja não poderia dar as costas ao povo, para
ele o verdadeiro poder dentro do Brasil. Mas, no mesmo ano em que morria o Padre
Júlio Maria, Dom Sebastião Leme, então eleito bispo para a Diocese de Olinda, que ele
irá transformar em Arquidiocese de Olinda e Recife, lançou a sua famosa pastoral, a
Pastoral de 1916. Nela estão esboçados os caminhos que a hierarquia irá trilhar. Ali é
feita a opção pelas camadas médias da população. Ali estão os caminhos que serão
seguidos por Dom Sebastião, quando ele se tornar Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro.
Ali estão direcionados os passos que formarão a nova cristandade, a nova aliança entre a
Igreja e a classe que tomará o poder em 1930, a classe média armada. Embora sem
descuidar de sua ligação com a República Velha, Dom Sebastião aponta para uma
aliança com a classe média ascendente. Aliás, é essa a direção que se pode notar com as
pastorais dos Bispos sobre a Boa Imprensa, publicadas ultimamente pelas Edições
Loyola em conjunto com o Centro de Estudos e Pesquisa da História da Igreja no Brasil.
uma preocupação tão grande em atingir uma parte tão ínfima da sociedade civil
brasileira será recompensada com as benesses que a Igreja volta a usufruir após a
Revolução de 1930.
No período que nós estudamos, neste trabalho, Dom Sebastião Leme é o bispo
de Olinda, e o jornal A TRIBUNA RELIGIOSA, publicado como órgão oficial de
Diocese, esponsa as idéias e as disposições do seu bispo. Podemos ver, nesse momento,
a preparação da nova cristandade que se forma, sob a direção do Cardeal Arcoverde, do
Rio de Janeiro. A atuação de Dom Leme em Recife há de levá-lo ao Rio e ao
Cardinalato. Ele será o artífice da nova aliança entre o poder político e o poder
eclesiástico. Ele estará presente na Liga de Defesa Nacional e estará presente no
Gabinete de Washigton Luiz, quando de sua deposição. Dom Leme será o principal
interlocutor dos generais nesse incidente. Ele é o chefe da Igreja no Brasil, ele dará o
tom da nova cristandade.
Dirigindo a Diocese de Olinda, Dom Sebastião Leme é o principal responsável
pela TRIBUNA RELIGIOSA. Ela é o porta voz da diocese. É através dela que se dá a
conhecer as decisões e disposições da cúria. Observando o comportamento da
TRIBUNA RELIGIOSA, podemos já adivinhar o comportamento que tomará a
hierarquia nos próximos anos.

94
Durante todo o período da guerra, quase não há menção da existência de
problemas com os pobres. Embora naqueles anos tenha ocorrido uma série de
manifestações públicas contra a guerra e os grupos operários tenham se pronunciado
contra a participação do Brasil na guerra, A TRIBUNA RELIGIOSA não lhes faz eco.
Contudo, discursos de deputados, citações de autoridades, celebrações promovidas pela
Liga de Defesa Nacional, manifestações favoráveis ao governo, tudo isso aparece pelas
páginas do jornal católico. É parece-nos, uma política de cooperação em relação a um
grupo e de desassistência ao outro. Ao mesmo tempo em que desenvolve esses temas. A
TRIBUNA RELIGIOSA enfoca a necessidade de retornar-se ao ensino religioso nas
escolas, e a defesa que faz do catolicismo como religião capaz de manter a unidade
nacional é um exemplo de atitude de colaboração extensiva aos grupos dominantes. É
extremamente interessante as constantes referências ao exército e o apoio dado à
formação das Linhas de Tiro. As páginas dA TRIBUNA RELIGIOSA apontam o
compromisso com os novos estratos sociais que crescem na vida política brasileira,
assumindo todos os seus valores, inclusive com a possibilidade de denunciar os
católicos, mesmo participantes do clero, que não se enquadraram na linha patriótica
desenvolvida pela Liga de Defesa Nacional, liderada por Olavo Bilac, e assumida pelo
Bispo de Olinda. Evidentemente, a Primeira Guerra ofereceu esta bela oportunidade de
a Igreja hierárquica provar a sua fidelidade e a sua capacidade de mobilizar a população.
É lógico que isso não poderia passar despercebido pelos grupos sociais que se
encaminhavam para o poder. Os documentos pastorais expedidos pelos bispos de
diversas regiões do Brasil e publicados pela TRIBUNA RELIGIOSA são uma amostra
clara do que podem as classes governantes auferir de uma colaboração, favorecendo as
atividades da Igreja, evitando que sejam oferecidos os deveres da “consciência
católica”. Observamos ainda que, clamando os católicos a darem à Pátria “tudo quanto
ela pedir e estiver em nossas forças”, os bispos esperam que o governo não tome
nenhuma “medida de exceção contra as ordens religiosas e seus bens”. Não aparece uma
preocupação desse nível sobre as condições de vida do povo, sobre a possibilidade de
falta de gêneros alimentícios, ou coisa que o valha. A hierarquia assume os sonhos da
classe média ascendente, separa-se do povo, deixa passar uma oportunidade de estar
mais ligada ao povo.
Embora o Bispo Dom Sebastião Leme seja um dos responsáveis pela introdução
da Ação Católica no Brasil, juntamente com o Pe. Leonel Franca, devemos notar que,
tendo sido um seguidor dos ensinamentos do Papa Pio XI quanto à Ação Católica, não

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percebeu o lamento do pontífice que dizia ter sido um a maior perda da Igreja, a perda
da classe operária. A cristandade que se formará, e a guerra é uma preparação para tal,
será com a classe média. É uma nova cristandade, ufanista, que viverá até meados do
século XX, quando, então, os setores apontados como importantes pelo Pe. Ibiapina. Pe.
Cícero, Antônio Conselheiro, Pe. Júlio Maria e o Monsenhor Affonso Pequeno irão
desabrochar na miséria a que foram relegados pelos dirigentes hierárquicos e pelos
redatores da TRIBUNA RELIGIOSA e de outros jornais católicos do Brasil. As
contradições inerentes a uma cristandade são muitas, os enganos que ela propõe são
maiores. O maior deles é confundir as disposições de uma classe com a Igreja, isso é
querer usar e ser usado. Os herdeiros da TRIBUNA RELIGIOSA saberão disso, e
compreenderão, um pouco tarde, talvez, que as opiniões do Monsenhor Pequeno eram
as mais corretas com o encaminhamento de história e, agora, deverão dizer: “Não temos
razão” em afirmar que o povo abandonou a Igreja; foi a hierarquia, a Igreja
institucional, que preferiu, durante a guerra, aliar-se aos poderosos e olvidar o povo.
Nas páginas da TRIBUNA RELIGIOSA duma voz aponta para o caminho que será
seguindo depois. Assim, nesse jornal, que fala pela hierarquia, sobrou um lugar para os
“outros”, o lugar do futuro. O mesmo jornal aponta o presente e o passado, mas nele
podemos encontrar os passos do futuro, o futuro que seria do povo, se as elites não se
aliassem tão fortemente para evitar que o verdadeiro afiançador da vida da Nação viesse
a desabrochar. A TRIBUNA RELIGIOSA viveu enquanto o pacto entre a Igreja e a
burguesia durou, a sua morte marca, na área local, a morte dessa cristandade.

96
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