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Nuno Cavaco → ´CRÓNICAS DE CONISTORGIS

O Guardador das Rotas e das Rótulas – I

Como e para que serve Portugal?

Na iminência constante da desordem do mundo, importa entender os


sinais. Atender aos sinais e às suas expressões não levará também a entender
toda a expressão dos corpos, a saber ler os caracteres que os constituem,
isolados ou agrupados? Assim parece vislumbrar-se o caminho para o
conhecimento do que condiciona e favorece a relação entre dois meios.
Procuremos pois descobrir os mecanismos de equilíbrio no contacto entre duas
inércias; no trânsito da vida, firme-se o ritmo das estruturas ligando os pólos e
garantindo as permeabilidades; com o sentido da verdade, demandemos
então o verso e o reverso daquilo que nos indica o caminho.

Atender às grandes questões que potenciam o ordenamento do território, face aos desafios
internacionais emergentes, torna pertinente e urgente a dedicação, o estudo e a actuação em
torno da importância da logística na definição dos fluxos e dos estabelecimentos que
caracterizam a vida que do homem pende. Neste sentido, a conformação do orbe e da urbe
reflecte a atitude de defesa, e ataque, perante potenciais reordenadores e desordenadores. Essa
atitude tem suas expressões nos elementos físicos definidores de espaços e condicionados pelos
tempos.

Não foi no povo português que, por circunstâncias diversas, convergiram os


conhecimentos das estrelas dos céus, e das marés, e das correntes dos mares,
e das formas da terra e dos ventos dominantes, e a quem, então, coube a
responsabilidade de promover um novo desenho de rotas que abriria uma
nova escala de relações entre todos os povos da terra? Neste sentido, fiéis à
civilização que a tradição nos lega, se procurarmos entender as
características das charneiras ordenadoras do novo desenho global, as
polaridades dos novos rumos e os nexos dos novos fluxos, actuando, depois,
em conformidade, não estaremos a contribuir para que Portugal permaneça
actual e responsável, servindo no concerto das nações?
C.

NC – 28072007
Nuno Cavaco → ´CRÓNICAS DE CONISTORGIS

O Guardador das Rotas e das Rótulas – II

O nome de Portugal
Ao procurarmos compreender as relações dos povos entre si, em todos
os tempos ou em qualquer tempo, parece difícil faze-lo sem que se atenda a
eventuais motores de ordem espiritual, metafísica e religiosa. Consoante o
povo ou os povos a estudar, afigura-se necessário indagar entre todo o género
de expressão humana revelador de condicionantes dos costumes desses
mesmos povos, sendo que essas fontes podem ser de características
epigráficas, iconográficas, bibliográficas, documentais, monumentais, ou
quaisquer outras, mesmo as de aparência subtil e pouco perceptível à leitura
imediata dos sentidos. O percurso, a revelação e a dinâmica que o
Cristianismo (que é como quem diz: a Igreja Católica) a todo o instante
disponibiliza ao mundo, surge-nos também para Portugal, em todo o seu
tempo e em toda a sua extensão, como a novidade em perpétua
propagação, confinando, envolvendo e sublimando amorosa e
universalmente todas as potenciais diversidades.
Assim, não vislumbramos a possibilidade de um novo desenho global nas relações entre
todos os povos, sem a continuação do contributo efectivo de Portugal. Entenda-se Portugal
como uma entidade que se exprime através das gentes das orlas, e que com sabedoria se fixam
em pontos estratégicos gerindo e guardando os portos e as portas pelos quais e pelas quais
passam as novidades que garantem a comunhão entre todos os entes e todas as coisas do mundo.
Em toda a existência, o nome de Portugal parece pois só ter sentido firmado na consciência
constante que as gentes e os povos das orlas hão-de guardar, enquanto responsáveis pela gestão
das passagens que de si dependem.
O corpo de Portugal parece assim espalhado pelo Orbe. Mas, tal como
as passagens numa casa, de fora para dentro, ou de dentro para fora, ou de
um compartimento para o outro, em que nos podemos deparar com avarias
diversas nos mecanismos que constituem as correspondentes portas, por
excesso de uso sem manutenção adequada, ou apenas por negligência,
abrindo caminho inseguro às relações entre os vários mundos que por elas
comunicam, dizia, tal como as passagens numa casa, a quantidade de portos
e de portas, que de acordo com o Arquitecto-paisagista Álvaro Ponce
Dentinho parecem justificar o nome de Portugal, parecem também carecer
da atenção especial dos responsáveis pela respectiva manutenção… Ou, já
que o espírito sopra onde e como quer, terá Portugal mudado de nome?
C.

NC – 28072007
Nuno Cavaco → ´CRÓNICAS DE CONISTORGIS

O Guardador das Rotas e das Rótulas – III

IMPRESSÕES DE VIAGEM À MADEIRA


Surge antes de mais uma primeira incerteza que é a de saber quando e
onde se inicia a viagem. De facto, a viagem terá seu início onde e quando o
veículo que nos leva inicia seu movimento, ou no instante em que atingimos o
cais do destino que nos propusemos visitar, logo após nele sermos largados?
Ou antes, no momento e no lugar em que se dá a ideia da viagem que
pretendemos? Ou ainda, numa outra qualquer circunstância que agora não
ocorra?

Quando advém a ideia de visitar a Madeira, imediatamente se perspectiva a


oportunidade de conhecer um território que se nos afigura decisivo na consolidação do Portugal
autêntico, razão eventual do nome que tem – a quantidade de portos, na voz do sábio, assim
como pinhal ou olival designam as quantidades das árvores supostas, o guardador e gestor das
passagens, dos portos e das portas pelos quais e pelas quais passam as novidades que
garantem a comunhão entre todos os entes e todas as coisas do mundo, como já antes tínhamos
escrito.
Efectivamente, a Madeira parece afigurar-se como rótula que desde o início tem servido
como banco para ensaios relativos a inovações tecnológicas e cientificas que supõem intenções
de extensão e aperfeiçoamento no que respeita ao contacto e à comunicação entre os povos. De
resto, não esconderá o nome daquele arquipélago, desde a primeira hora, a função estratégica,
laboratorial e logística necessária ao desenho então traçado pelo Infante de Sagres, com assomos
de projecto de comunicação global em sintonia e em consciência clara com o serviço que a
Portugal cabe?
Madeira não é o mesmo que matéria e a matéria não é o que se manipula nos
laboratórios? E para os antigos, dos quais brota a tradição, não eram os nomes das pessoas, dos
sítios e das coisas a palavra síntese reveladora dos seus atributos herdados e projectados?
Por ora, diríamos que a viagem teve início no breve estudo sobre o arquipélago, a que
nos entregámos em Lisboa antes da partida, por consultas bibliográficas, cartográficas,
fotográficas, etc. A estadia programada confinar-se-ia ao território principal do arquipélago, a
ilha da Madeira.
Ilha? De onde provém este modo de designar uma porção de território cercado por mar?
Quem vive aí dentro sente e entende como tal esse território, como uma ilha? Do que nos tem
sido dado observar, é que não existem territórios tão propícios às comunicações como sejam
essas emergências que se encontram nos meios dos oceanos, quais rótulas por onde giram as
rotas entre continentes, plataformas ancoradoiras propícias aos encontros e desencontros das
vidas que circulam pelos mares abertos.
Na documentação disponível, logo se nos revelou a impressionante conjuntura
fisiográfica do território e nos despertou o interesse por compreender os modos de ocupação e
superação humana relativamente às adversidades e dificuldades inerentes àquelas formas
naturais.
Procurámos compreender o relevo e as exposições aos agentes climáticos; tentámos
perceber as estruturas geológicas e os mantos pedológicos; indagámos a distribuição das vidas
vegetal, animal e humana na ilha, e tentámos conhecer as formas genéricas do povoamento e a
sua natureza dominada. Pois que face à imagem prévia que retivemos no breve estudo inicial,
impressão nos ficou que só dominando a natureza poderia ocorrer possibilidade única de
humanização da paisagem, tal qual a testemunhámos naquela rótula do Atlântico.

NC – 28072007
Nuno Cavaco → ´CRÓNICAS DE CONISTORGIS

Fig.1 – A brutalidade da natureza, dominada pela paisagem portuguesa, e posta em causa pelo avanço
do turismo.

Exactamente, foi logo à chegada, no percurso entre o aeroporto e o


Funchal que confirmámos as vertiginosas vertentes que em declives bastante
acentuados, desde os picos mais elevados, a cerca de 1900 metros de
altitude, mergulham no oceano, penetrando com o declive genérico da
superfície até atingirem profundidades na ordem dos 3000 metros. A altitude
máxima do relevo madeirense deve assim rondar os 5000 metros! … Abruptos
precipícios com mais de 500 metros caem sobre o mar e sobre vales rasgados
por ventos e por ribeiras que escorrem alimentadas desde os cumes mais altos
por arroios e cascatas. Caminhamos na Madeira embailados numa sinfonia
composta do chilrear diverso dos passarinhos, do tiritar suave das folhagens
que acusam a passagem dos ventos, dos roncos de máquinas agrícolas ou de
veículos na estrada, do matraquear longínquo, e por vezes próximo, irradiado
de martelos pneumáticos e outra maquinaria usados nas imensas (talvez
demasiadas!) obras de construção civil; toda esta ressonância tem como
fundo, sempre, o escorrer e o bater de águas que nos toca os ouvidos desde
múltiplos focos impulsionados por aquelas torrentes imensas que deslizam lá
dos cumes altíssimos, luminosos que tocam o céu, como ilhas emergindo por
entre um mar de nuvens…
Impressiona a contenção a que o homem tem obrigado a natureza
neste jardim do Atlântico; exprime-se com grande fulgor a necessidade
permanente da humanização da paisagem. Só pode ter sido assim desde o
início! … Um confronto ininterrupto do Homem contra a natureza. Toda aquela
paisagem, tal qual a encontramos, resulta de uma labuta intensa e necessária,
desenvolvida pelos homens diária e ininterruptamente desde pelo menos há
cinco séculos e meio, procurando manter viva toda uma actividade humana
que sobre uma força bruta da natureza vem garantindo a função rótula que

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cabe àquela ilha, inserida no serviço reservado a Portugal no concerto das


nações.
É notável a obra agrária, indissociável da hidráulica, expressas nos poios
e nas levadas. É que, sem dúvida, radica nestas obras o segredo do domínio
da natureza bruta que ali emerge; a contenção daquelas montanhas em
degraus por vezes como que nos lembram a velhice dos mistérios da
humanidade ao surgirem na paisagem como que partes de pirâmides em
ruínas.

Fig.2 – Uma levada e um caminho, os homens e as águas seguem os mesmos cursos.

Antes de embarcarmos na viagem, ainda em Lisboa, ouviríamos o


governador da região, em grande espectáculo, numa festa local do seu
partido, dizendo que o continente fez a Pátria portuguesa na Madeira, mas
que agora é a vez dos madeirenses virem em auxilio do continente para tratar
os males que por cá impedem o fluir do espírito patriótico nas decisões
capitais. Confiando assim no sentido patriótico de A. J. Jardim, apetece sugerir
que reúna na Madeira os meios necessários e promova as condições
necessárias, para a formação de autênticos Ordenadores da Paisagem de
tradição portuguesa. Faça-se, pois, aí, a escola de onde sairão os novos
responsáveis pelas paisagens de tradição portuguesa, ou seja, os novos
responsáveis pelos países que hão-de constituir o Portugal do futuro. É que, de
facto, nos ficou a impressão que ali, naquela rótula do Atlântico, ainda flúi o
sopro da Pátria; ainda resiste a sabedoria portuguesa para o ordenamento da
paisagem; no entanto, já ameaçada pelas obras que têm ocorrido à
passagem dessa roda lenta, dentada, de invenção afrancesada que, por
onde passa, deixa rasto de destruição. O turismo…

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Fig.3 – A brutalidade da montanha, contida pela subtileza dos poios.

C.

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O Guardador das Rotas e das Rótulas – IV

ORDENAR A PAISAGEM
Importa detectar, atender e decifrar os sinais que indicam o caminho
adequado à animação e actualização do património português – “retirai
novos de velhos tesouros” ordena o Livro Sagrado.
Afigura-se ventral e redutora toda e qualquer atitude, em qualquer que seja o nível de
intervenção, que pretenda contribuir para o ordenamento da paisagem e que trate o seu objecto
como uma ilha, ou como uma parte, ou como um fragmento. Não é possível determinar regras
para o ordenamento arquitectónico, urbano ou rural isolando o objecto da sua circunstância
física e metafísica. A urbe como suporte da cidade, por exemplo, é o corolário de uma sucessão
dinâmica da vida comunitária já conhecida pelos romanos – Silva, Saltus, Ager, Hortus e Urbes,
é a ordem pela qual a sabedoria clássica nomeou essa sucessão, não sendo a seguinte sem a
anterior sendo sempre todas. Essa ordem não se desenvolve senão em movimento perpétuo e
pendular entre centros de distribuição e pontos de encontro, termos hierarquizantes de toda a
dinâmica territorial.
Assim, quando se trata de ordenar a paisagem com enfoque especial na urbe, toda e
qualquer atitude de contornos ventrais que omita o entendimento da mesma como lugar onde
tudo se une e tudo se cinde – convergência de pastores, agricultores e pescadores; estância de
indústrias e de mercadores; sublimação e irradiação de sabedoria – prejudicará e debilitará o
sentido de justiça, harmonia e paz que na verdade sempre deve irradiar de toda a obra que vise
estabelecer as notas caracterizadoras e as regras que auxiliem a eficaz gestão urbanística de uma
cidade. Neste sentido, a cidade portuguesa é pois um órgão que pertence a um organismo vivo
que através de Portugal atinge os limites do mundo em movimento perpétuo de extensão e
contracção, gregário e diaspórico.

C.

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O Guardador das Rotas e das Rótulas – V

A PONTE DE COMANDO
Acreditamos que enquanto pátria Portugal é perpétuo, embora a
sua existência como nação, conforme a conhecemos desde há pelo
menos quase 800 anos, se nos apresente a definhar, quase extinta. Esta
antiga ponte de comando da grande parte das situações
geoestratégicas de maior excelência que guardam as rotas e as rótulas
marítimas, a que insistimos em chamar Portugal, mais se afigura um
Portugal regressivo, uma quase Lusitânia (ou Conistorgis, para os
algarvios), um Portugal de expressão depressiva, caquéctica e
moribunda.
Aprendemos com os filósofos que nada há sem pensamento. Seguindo a sua
aula, diríamos que a compreensão dos factos históricos só adquire sentido entendendo o
pensamento que os motivou, ou seja: a filosofia da história.
A expressão do pensamento tem lugar no tempo e no espaço, sendo
condicionada pela circunstância física que então dispõe, adquirindo então a forma que
lhe é mais adequada. É através do entendimento e conhecimento razoável das notas
caracterizadoras da forma disponível, que o pensamento que lhe é próprio se dá a saber.
Deste modo, o entendimento da forma disponível requer a necessidade de estudo
rigoroso e objectivo dessa circunstância que condiciona e abriga o pensamento que lhe é
próprio, quer-se dizer: a ecologia.
À obra que é expressão do pensamento humano chamamos Arte. É no que
estabelece a relação entre a obra artística e o pensamento que lhe é próprio que reside a
regra, ou o cânone, dessa mesma obra. Assim, identificando-se a forma disponível com
a obra artística, o estudo das suas notas caracterizadoras, ou seja, a sua Ecologia,
desperta-nos a simpatia pelas razões criacionistas e o conhecimento da sua existência, e
revela-nos o cânone que lhe é próprio.
Seguindo o acima exposto, para que se retirem novos de velhos tesouros, e se dê sentido actual
ao património de um povo, importa estudar e actuar firmados no trinómio constituído pela filosofia da
história, a ecologia e os cânones artísticos que consubstanciam a existência desse mesmo povo.

A actualização e o sentido da existência da ponte de comando do Portugal dos


portos, requer o exercício urgente sobre a filosofia da história que lhe dá o sentido, o
descobrimento da ecologia que potencia o seu lugar no concerto das nações e a
aplicação dos cânones que são próprios e adequados ao desígnio que importa seguir –
guardar as rotas e as rótulas pelas quais passam as novidades que garantem a
comunhão entre todos os entes e todas as coisas do mundo.

C.

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O Guardador das Rotas e das Rótulas – VI

URBANISMO E PAISAGEM

“É bela a paisagem que está certa.”


A ideia em epígrafe, da Arquitecta-paisagista Vera Gilbert,
recorrentemente é lembrada e recomendada por A. P. Dentinho como lema à
arte de bem entender, compreender e ordenar a paisagem.
Estranho tempo, este que nos é dado viver! Nunca, como na actualidade, os homens
dispuseram de tantos meios que permitissem a expressão dos seus pensamentos, e a sua
intervenção sobre a existência, com uma segurança que invejaria qualquer homem de outros
tempos. No entanto parece desolador o panorama que se depara na ocorrência próxima do
mundo. Como se o mundo deixasse de ser mundo – isto é, caos organizado, e passasse a
constituir-se numa acumulação de fragmentos justapostos sem critério reconhecível ao
entendimento, como que imitando uma qualquer obra de Picasso. É que toda a existência
aparece fragmentada, e cada fragmento, ou cada parte, perdida que está daquela que lhe cabia
ser vizinha, parece não mais ter capacidade de conhecer e saber sobre a nova vizinhança. A
composição que resta é feita de cacos justapostos entre si em procura desesperada de uma forma
perdida. A existência que corre apresenta-se em forma nostálgica ou incompreensível de partes
partidas e repartidas, recolocadas e coladas de acordo com interesses invisíveis, difusos e
desconhecidos que mais parecem confinados a domínios particulares sem que se vislumbre
ocorrência universalizante. Efectivamente a vida actual decorre às partes; e embora cada parte
se aparente una em si, sucede que perdidos os respectivos e necessários complementos, o
sentido universal fica ausente.
Como nada há sem pensamento, foi a partir de Descartes que irradiou e impregnou no
mundo a sistematização filosófica que ainda hoje nos condiciona as relações de vizinhança e
incessantemente consubstancia a desagregação fragmentária das realidades. Essa irradiação
prolongada por todo o século XVII, XVIII e XIX terá levado a que, ou já por estratégia
operativa de efectivação desse pensamento, ou já por previsão do frenesim escorregadio,
estridente e caótico em que a vida se tornaria, emergisse uma nova disciplina. Destinou-se ela a
determinar ou controlar o domínio das regras, das técnicas e dos hábitos de que os homens
dispõem para conceber e construir, sobre o território, a vida comunitária. Chamariam a essa
disciplina o urbanismo, designação conotada com a imagem urbana da comunidade. Assim se
procurou dominar o sentido da urbe, defendendo-o da estratégia e da previsão criadas pela
geometria descritiva, com a homogeneização e pontualização que Descartes concebeu para o
espaço. Será evidentemente discutível se o urbanismo surge para efectivar ou para contrariar a
geometria cartesiana. O que não é discutível é o sentido da urbe enquanto lugar onde tudo se
une e tudo se cinde – convergência de pastores, agricultores e pescadores; estância de indústrias
e de mercadores; sublimação e irradiação de sabedoria.
“As três mais belas cidades do mundo são Constantinopla, Rio de Janeiro e Lisboa. Eu
prefiro Lisboa porque é aquela onde a natureza está mais moralizada”. Acabo de transcrever
um trecho da correspondência do Conde de Gobineau, o famoso autor do «Tratado Sobre a
Desigualdade das Raças Humanas». Esta transcrição dá-nos a imagem com que uma grande
sensibilidade de artista viu como a paisagem emerge do país, mas humanizando-o ou
moralizando-o. Constitui o mais adequado testemunho de que a beleza de uma paisagem
provém de ela estar certa, como sugere o lema proposto pelo Arquitecto-paisagista Álvaro
Ponce Dentinho, entendendo por certa a adequação do país ao homem, à moral ou ao
pensamento.
C.

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O Guardador das Rotas e das Rótulas – VII

O Desenho e o Desígnio
Face aos desafios internacionais a conformação do orbe e da urbe reflecte a
atitude de defesa e projecção perante potenciais reordenadores e desordenadores;
essa atitude tem suas expressões nos elementos físicos que definem os espaços e
ritmam os tempos. Como temos vindo a referir, afigura-se premente a definição de
indicadores essenciais ao entendimento da paisagem que conduzam ao seu certo e
justo ordenamento; o estudo da logística assume particular e decisivo relevo na
definição dos fluxos e dos estabelecimentos que caracterizam a vida que do homem
pende. Casos de estudo a enunciar, pela posição geográfica e pelo património que
guardam, revelam-se notáveis e singulares casos de caracterização.
A procura de caracteres da mobilidade humana por identificação de rotas e rótulas
notáveis, que por metodologia de caracterização fisiográfica do suporte territorial entroncada
nas expressões da humanização da paisagem respectiva, tende a revelar hierarquias intemporais
das deslocações, interacções e assentamentos humanos no orbe e nas urbes.
Para o ordenamento da paisagem, implica e afigura-se decisivo o estudo rigoroso e
objectivo em certos domínios, com elaboração e fixação de elementos caracterizadores do
ambiente em causa e indiciadores de procedimentos projectuais possíveis. Esses elementos,
entre outros, poderão consistir na produção de cartografia reveladora nos seguintes domínios:
fisiografia com a identificação e hierarquização de festos e talvegues; identificação dos ventos
dominantes, suas características e rumos específicos; as incidências da luz e ensombramentos
potenciais, com exposições genéricas e específicas do relevo; condicionantes geológicas, com
noções das estruturas e dinâmicas tectónicas; definição, caracterizações genérica e especifica, e
delimitação defensiva dos solos férteis; identificação e protecção dos mananciais hidrológicos;
identificação e caracterização de campos electromagnéticos e outras emanações energéticas;
indicadores toponímicos; a potencialidade dos locais decorrente do estudo de aptidão segundo a
exposição. Importa também destacar estudos de sobreposição de vias, como sejam as de
transumância de gados, as do ordenamento romano, as da composição cristã do mundo, as
decorrentes do motor de combustão, as da era cibernética. Também cabe lembrar a importância
do registo da sobreposição de edificações, como sejam: os castros, os castelos, as fortalezas, as
bases militares, as telecomunicações, as estruturas portuárias, a assistência humanitária através
de capelas, ermidas, gafarias, estalagens, hospitais, etc.
As rótulas consistem em centros de encontro ou centros de distribuição, sendo que
destes, numa abordagem fisiográfica, de um modo genérico e com carácter intuitivo, os
primeiros podemos identificá-los nas separações dos festos e os segundos nas convergências de
águas. A rótula gera a região que será ordenada a partir de uma urbe, uma quinta, uma ermida,
uma capela, um convento, um mosteiro, um castelo… que, em função de uma série de factores,
assume posição hierarquicamente estratégica na região que lhe cabe. É nas relações polares e
pendulares que os homens incessante e incansavelmente desde a origem cumprem entre rótulas,
que sobre o suporte ficam gravadas as rotas, qual forma análoga àquelas das águas sobre os
solos que sulcam.
Descobrimos e caracterizamos a razão da forma da paisagem nas interacções
humanamente impressas e inteligidas sobre a circunstância histórica natural e artificial do
mundo. O desígnio da humanidade patenteia-se nos sinais implícitos e explícitos que se revelam
nas formas do frenesim da imensa existência. É na capacidade de leitura e exposição desses
sinais que reside o segredo da arte de bem ordenar a paisagem; estamos a falar do que o
Desenho é, ou seja, o Desígnio.
C.

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O Guardador das Rotas e das Rótulas – VIII

A Tourada

Temos que o touro bravo existe para proteger determinados territórios que constituem
fontes de vida para certas comunidades. Territórios organizados por definida
composição humana, cujas as funções dos elementos se supõem em hierarquias
claramente organizadas, compostas em harmoniosa articulação. Entre essa gente o
touro bravo atinge foros de expressão sagrada, pois que garante a defesa contra a
intrusão de malfeitores nos seus territórios, domínios ancestrais das suas vidas.

A sublimação, o ponto alto da exaltação do animal surge nos extremos pendulares das
estações do ano com a transumância do gado em busca de zonas climáticas mais
adaptáveis ao seu bem estar e onde na época poderão dispor de pastagens
adequadas às suas necessidades. Esses extremos, de partida e chegada do gado,
nos quais o bovino assume lugar especial, proporcionam a festa em que a exaltação
máxima ocorre dentro da arena com a lide dos touros bravos. O cavaleiro, qual S.
Jorge sobre cavalo branco saído da luz para o círculo que define a arena – imagem
geométrica do caos – que com inteligência de aristocrata deve dominar e levar a
besta, a fera, a força bruta desprovida de pensamento e saída da sombra, para o
centro onde deixará cair a lança sobre o dorso do animal, metamorfoseando a arena
conferindo-lhe finalmente a forma de circunferência, deixando então simbolicamente
fixada a ideia do Cosmos, qual mundo devidamente ordenado.

A lide de touros é o tributo regular dos homens ao animal que guarda as fronteiras de
um território necessário à existência de uma comunidade humana. O touro, forte,
sóbrio e assustador coroa uma espécie que tem oferecido aos homens desde o início
os fertilizantes para as culturas dos seus territórios, a força bruta para puxar os arados
e arrastar as cargas que excedem as possibilidades humanas, o leite e a carne que
possibilitam a reposição obrigatória e regular das proteínas no organismo humano, as
peles para os coiros e cabedais destinados à indumentária e outros artefactos úteis à
sobrevivência humana, a irradiação de calor aos lares, fonte ancestral de aquecimento
das antigas habitações rurais, aliás, fonte arquetípica de calor, logo presente na
natividade de Jesus.
A tourada afigura-se racional, necessária e decisiva para a preservação da paisagem
portuguesa. O touro português é o guardador das fronteiras entre a civilização do mar
e as potências colonizadoras continentais. É o touro o primeiro reduto da defesa da
nossa civilização. É entre os cabanos e os gravitos que passa a linha que distingue
profundamente a civilização aberta, excêntrica, destemida, liberal, dos portos, ou
Portugal e a civilização enclausurada, egocêntrica, receosa, proteccionista dos
castelos, ou Castela. A erradicação da tourada, significa o extermínio dos touros, e o
extermínio dos touros significa a explosão caótica da Península Hispânica. A
paisagem da tradição portuguesa, que exprime a sabedoria de encontro ecuménico,
de relações liberais, e de tendência universal no convívio entre homens das mais
diversas proveniências metafísicas, intelectuais, genéticas e biológicas, tenderá a
desmoronar-se definitivamente.
A tourada é a festa rústica de primeira ordem da Pátria Portuguesa, na qual se exalta
o animal que é decisivo para a sobrevivência da nação em que o espírito que dá
sentido a Portugal primeiramente encarnou. As ganadarias nacionais são a guarda
avançada da civilização talássica e o touro afigura-se como o guarda-mor da
paisagem portuguesa lusitânica (se é que Portugal ainda mora aqui…).
C.

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