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O por Paulo Caldas e Marcelo Luna, em 1999.

Este documentário, em 2000,


RAP recebeu o Prêmio Especial de Público e de Nova Linguagem no Festival
''É Tudo Verdade'', e também o Buriti de Prata, no Festival Internacional
H de Brasília.
elio O documentário contrapõe as vivências de Hélio e Garnizé, ambos
José nascidos e criados em Camaragibe, um município da Região
Muniz Metropolitana do Recife que “não oferece grandes oportunidades à sua
Filho, população”, como afirmou o baterista Garnizé no documentário. Apesar
mais de estarem inseridas em contexto de exclusão social, as populações
conheci menos abastadas da sociedade, como é o caso de Camaragibe precisam
do como encontrar alternativas para a sua sobrevivência.
Helinho, No documentário, Garnizé envolve-se com a música e com
21 anos, projetos sociais a fim de amenizar tanto o seu próprio quadro social
acusado desfavorável quanto o de sua comunidade. Já Helinho adota uma prática
confess condenada pela justiça como uma forma de sanar os problemas
o por 44 relacionados à violência em Camaragibe, o que lhe rende uma imagem
homicídi positiva perante à comunidade. Ao narrar histórias de vida tão diferentes
os. José seria intencional, por parte dos documentaristas, deixar claro o clichê da
Alexand eterna luta do bem x mal, materializados nas figuras de Garnizé e Helinho
re ou, contrariamente, expor depoimentos que relativizam essas ações? Ou
Santos seja, ao mostrar depoimentos que enaltecem as atividades de Helinho, a
de intenção seria evidenciar que o mal e o bem não são conceitos
Oliveira, estanques, mas mutáveis, graduais.
ou Oportuno alguns comentários sobre o tema violência, que o rap
simples traduz como um reflexo desse estado na sociedade atual. Seria inevitável,
mente portanto, em documentário que pretende mostrar o estado da violência na
Garnizé, periferia de uma cidade do grande Recife, não tocar nas causas que
27 anos, condicionam essa violência. O motivo é simples e do conhecimento de
baterista todos: a ausência do Estado nas obrigações sociais básicas como saúde,
da emprego, educação.
banda O Rap do Pequeno Príncipe, no entanto, evita fazer qualquer tipo
Faces de análise intelectual. Limita-se a registrar uma situação de contraste, e a
do maneira como ela é lida e interpretada por dois seres diferentes. Procura
Subúrbi ser um espelho da condição social brasileira e de como ela se converte
o. Esses em um barril de pólvora prestes a explodir. Não há, no entanto, nenhum
são os discurso definitivo sobre o assunto. É como se os cineastas tivessem
persona resolvido apresentar uma situação exemplar, com todos os ingredientes
gens que foram capazes de reunir, e deixassem a conclusão por conta do
centrais espectador.
do
docume No caso de O rap do pequeno príncipe, observamos a presença de
ntário O dois supertópicos, e seus respectivos subtópicos, que servem como
rap do pilares para a estruturação do documentário. Eles aparecem, como foi dito
pequen anteriormente, dentro de um contexto social que determinará com que as
o populações excluídas seguiam as regras estabelecidas pela lei, ou não.
príncipe Assim, temos os dois supertópicos:
contra 1. Os que seguem regras;
as 2. Os que não seguem regras.
almas
sebosas Após as auto-apresentações dos protagonistas, o baterista
, dirigido Garnizé comenta os crimes cometidos por Hélio. Logo em seguida, o
próprio ter contado. Eu pra mim, ia desabafar, mas não devia ter
Helinho contado. Aí, essas pessoas já começou a contar pras
explica outras (...) Aí já começou a.. já começou uma guerra. Os
como se cara querendo me matar e eu querendo matar eles, aí foi
iniciou quando eu comecei...Matei um, depois matei outro, fui me
seu embora.”
envolvi
mento João Veiga Filho – delegado
com o “(...) As informações que eu tenho, certo, é que ele praticou
crime. A 44 homicídios, declarou à imprensa local escrita, falada e
partir do televisada, certo”.
primeiro
assassi A seguir, após Helinho explicar como e por que motivos deu início
nato, a “limpeza” das almas sebosas em Camaragibe, Garnizé aparecerá para
não só fazer um discurso oposto, apontando a música como uma possível saída
os rivais para que as pessoas não seguim na marginalidade, evidenciando-se um
do aspecto presente nos dois supertópicos do documentário: a motivação,
justiceir que, conseqüentemente, gerará a reação, tanto para se envolver com o
o crime, no caso de Helinho, ou com a música, como aconteceu com
tomam Garnizé, evidenciando-se os tópicos T1a e T2a.
conheci No entanto, vale frisar que, mesmo após apontar as vantagens do
mento mundo musical, o baterista introduz um posicionamento favorável às
de que ações de Helinho, ainda que de uma forma bastante modalizada.
as Depoimento 1:
execuçõ
es eram Garnizé:
praticad “Cara, eu acho que ninguém tem o direito de tirar a vida de
as pelo ninguém. Só que (...) porra (...) só o cara pensar em sair de
“pequen casa, bicho, de manhã cedo e ir trampar, passar o mês
o todinho ralando, pra no final ganhar um 130 conto, chegar
príncipe um filho da puta, meter o cano em cima de tu e tomar teu
”, como sapato, tomar tua grana e arrombar teu..teu barraco e..”
também
a Na primeira frase dessa passagem, Garnizé vai de encontro com o
justiça. discurso da maioria. Sua fala contém, nas entrelinhas, um tom de
Observe religiosidade, pois ele retoma um dos 10 mandamentos da bíblia: “não
: matarás”. Diz o baterista: “Cara, eu acho que ninguém tem o direito de
tirar a vida de ninguém”. Mas, após a confirmação do pensamento “senso
Helinho: comum”, ele introduz uma outra opinião, oposta à primeira, utilizando-se
“...Se do operador argumentativo só que e nesse momento, é como se ele
m abrisse um parêntese para registrar o seu posicionamento, que traduz
quere uma forte carga de ambigüidade, pois ao “defender” as ações do justiceiro
r, eu Hélio, ele põe em xeque os conceitos de “bem” e “mal”, pois perante a
contei justiça os justiceiros como Helinho são vistos como um perigo à
a sociedade; mas perante a população, são vistos como benfeitores.
umas Como fora ressaltado no início desse texto, justamente por
pesso estarem inseridas em um contexto de miséria, violência e poucas
as oportunidades, os setores excluídos da sociedade procurarão uma forma
que... de sobreviver, seja seguindo as regras institucionais (trabalhos
não convencionais ou legalizados, atividades esportivas ou artísticas) ou o
devia contrário (crime, tráfico de drogas). Essa conjuntura também permite uma
compre reporta a pensar sobre o exercício da cidadania pelo indivíduo inserido
ensão, dentro desse contexto social, ou seja, o cidadão. De acordo com Roberto
por DaMatta (1991: 75-76), "o caso brasileiro inegavelmente revela é que a
parte noção de cidadania sofre uma espécie de desvio, (...) que impede de
dessas assumir integralmente seu significado político universalista e nivelador".
comunid Ainda sobre a problemática, DaMatta explica o porquê, "(...) trata-se de
ades, de um modo de organização burocrática, onde o todo predomina sempre
ações sobre as partes e a hierarquia é fundamental para a definição das
como a instituições e dos indivíduos".
de É sabido que o movimento hip-hop, o qual Garnizé está inserido,
Hélio. além de música, executa trabalhos sociais numa tentativa de “costurar” as
Por arestas deixadas pelo Estado; dessa forma, uma considerada parcela de
isso, jovens dos bairros periféricos, por ocuparem uma posição desprivilegiada
Garnizé, na hierarquia, abraçam a ideologia do movimento em busca de
utilizand perspectivas de vida; como uma forma de, enfim, exercer a cidadania. É
o-se do preciso lembrar que o músico, ao longo do documentário, também
operado defenderá o direito à cidadania e a um futuro que não seja o “sem regras”,
r só e para isso aponta as atividades desenvolvidas pelo movimento hip-hop.
que, dá
uma
pausa e Garnizé:
se “Percussão, bicho, é... acho que desde os primórdios, né, a
posicion galera usava a percussão pra se comunicar. E aquela
a de coisa, geralmente a gente liga uma coisa à outra, né, a
uma África, Cuba, Nicarágua, Guatemala, o pessoal usa muito a
outra percussão e é a galera de (incomp.). E a percussão, acho
forma. que, assim... é o forte, cara, é a base de tudo, é como
educação.”
Não é
preciso Após a fala de Garnizé, é a vez dos justiceiros que dão
entrar continuidade ao “trabalho” de Hélio explanarem suas inspirações, ações e
em motivações. Veja os depoimentos:
detalhes
a Justiceiro:
respeito “O que a gente faz? Rapaz, a gente faz é limpar a cidade, é
do tirar as alma sebosa, os ladrão, é...assaltante safado,
estado traficante.”
social
(constra Outro justiceiro:
ngedor) “Apois, eu adoro, bicho. Eu me inspiro na televisão. Eu vejo
em que assim, porra, um filme de ação, meu irmão, aquele Steven
se Seagall, me amarro naquele doido. Aquele cara ali é foda,
encontr é demais. O que eu vejo, eu quero fazer, né, meu irmão.
a a Mas sendo que ele é mocinho, ele nunca morre né. Mas
socieda eu... eu morro, né.”
de
brasileir Terminada a fala dos justiceiros, Garnizé e seus parceiros da
a. A banda Faces do Subúrbio falam sobre como é possível combater, ou pelo
atual menos não estimular, o crime. É como se eles fossem uma espécie
conjuntu justiceiros às avessas, que em vez de matar, tentam recuperar através do
ra nos media e da música. Parece que a dicotomia bem x mal começa a dar os
primeiro a realidade, numa televisão, pô, a gente vai sair ganhando,
s sinais. muita gente vai se informar.”

Tiger – O tópico T1b que diz respeito a Helinho, mas que também recorre
Faces a Garnizé buscando uma possível explicação para a origem dos termos
do “alma sebosa” e “pequeno príncipe”. Esse trecho inicia com rappers
Subúrbi (fazendo uma embolada), justiceiros e o delegado João Veiga Filho, cada
o um a seu modo, definem os seus conceitos da expressão “alma sebosa”.
“Pô, a E também é a vez de Hélio e sua mãe explicarem de onde vem o apelido
gente “pequeno príncipe” que fora atribuído ao jovem justiceiro. É como se fosse
... a uma tentativa de tornar claro para o expectador a origem do curioso título
gente do documentário: O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas.
procu É nesse momento que a estruturação tópica começa a apontar falhas,
ra antes os temas estavam encadeados, guiados por uma seqüência lógica,
relata daí o círculo maior, abrigando os temas relacionados aos dois
r o personagens. A partir desse momento, esse tema (vide gráfico) não está
cotidi mais atrelado aos anteriores, ele, e os demais a seguir, passarão a
ano, gravitar sobre o círculo maior, como se fosse um satélite, que está ligado
enten diretamente a um estrela maior, mas que nunca fará parte dela.
deu, Em O rap do pequeno príncipe, há uma interessante seqüência de
o dia depoimentos que confirmam as precárias condições sociais e econômicas
a dia. do município de Camaragibe, fatores esses que tornará mais fácil a
É... proliferação da violência. Observe:
mostr
ar a Garnizé:
realid “Aparentemente, a gente pensa que Camaragibe é uma
ade. cidade pacata do caralho, (...). E, assim, lá, bicho, é uma
Tem cidade dormitório, bicho, num tem emprego. A gente só vai
que lá pra dormir mesmo e trabalhar aqui no Recife, em
mostr cidades adjacentes. Cara, aí, eu acho que é falta de
ar oportunidade, bicho. Camaragibe num tem oportunidade,
assim num dá oportunidade pro jovem, num... E outra que é
, se a aquela coisa fechada, bicho. Fábrica pequeneninha e
gente poucas pessoas trabalham”.

tendo Carro de som circulando pela comunidade:
a “Nossa comunidade pública (incomp) tem feito um abaixo
oport assinado pedindo a sua libertação. Centenas de pessoas
unida assinaram o documento que foi encaminhado às
de de autoridades. Nós, moradores dessa comunidade do Vale
cheg das (incomp), em Camaragibe,(...) vimos por meio desse
ar abaixo-assinado, solicitar (...) a liberdade do jovem Hélio
numa José Muniz, por ser (...) protetor de nossa comunidade.
radio, Comunidade essa que, antes da presença do jovem Hélio,
de vivíamos atormentados com assaltos, arrombamentos e
falar etc. Depois que o jovem Hélio José Muniz veio morar em
o que nossa comunidade, passamos a ter paz com os problemas
a de vandalismo, assalto.(...) Outrossim, pedimos com
gente clemência às autoridades competentes para que o referido
vive, jovem seja libertado.”
que sofrem os moradores da região dominada. No caso de Notícias... os
A traficantes é que tomam as rédeas no comando das populações que
ssim habitam os morros cariocas. Em O Rap... a “proteção” da região se dá a
como partir de uma ação individual do justiceiro Hélio, em eliminar os
acontec delinqüentes do bairro onde vive. O efeito dessas ações ganha tal
e em representação perante à comunidade, que a mesma, através de um
“Notícia abaixo assinado pede a libertação de Helinho, por ser considerado pelos
s de moradores como uma espécie de guardião, de anjo da guarda.
uma
Guerra
Particul Eduardo Trindade - Advogado
ar”, "Nossa Constituição diz que todos são iguais perante a lei,
docume independente de sexo, raça, cor, etc. É verdade que nosso
ntário país é um país grande e de... mas é... infelizmente, nem
de sempre os recursos estão bem aproveitados. Por conta
temática disso, a gente tem um problema social grande. A gente vê
social pobreza, a gente vê favela. Acredito que 80 ou 90 % de
também nossa população é de uma classe menos favorecida e que
analisad por conta disso, por si só, pela falta de acesso a
o nessa informação, já tem uma certa falta de acesso também à
pesquis justiça. Porque se a pessoa não tem conhecimento dos
a, nota- seus direitos, como vai procurar? Procurar uma coisa que
se que, nem sabe que tem?"
quando
o Garnizé:
Estado "Eu acho que a educação no Brasil hoje é terceiro plano,
é né. Eu acho que falta educação, o que falta é educação, eu
ausente, acho que a educação é a base de tudo".
dentro
das Programa Cardinot - quem não reaje, rasteja:
próprias "Eu vou conhecer José Itamar Ferreira da Silva, de 53 anos
comunid de idade, a Dona Vera Lúcia Marques de Souza e o seu
ades, Paulo Roberto de Souza. Ontem pela manhã, o
surge comerciante José Itamar foi até Caruaru para fazer uma
alguma( entrega de bolsas. Quando já estavam saindo da cidade,
s) eles foram detidos por policiais militares, foram parados
lideranç pela PM. Eles foram acusados de assalto, de roubo. Eles
a(s) que foram acusados de terem roubado uma mulher na cidade
tenta(m) de Gravatá, vizinha a Caruaru."
de uma
forma Outro aspecto desse tópico que vale salientar é o “ping-pong” feito
“não pelo o advogado Eduardo Trindade e um preso. Enquanto o criminalista
politica explica “academicamente” os crimes e suas respectivas penas, um preso
mente fala como é o procedimento real para cada determinada situação. É como
correta” se o discurso prático adicionasse novos dados o discurso teórico. Isso
corrigir significa que, através do recurso da repetição, o diretor contrasta os
ou diferentes discursos, o de autoridade x o prático, dando ritmo à seqüência
ameniza e facilitando a fixação do assunto tratado para quem assiste ao
r as documentário. Veja os depoimentos:
agruras
sociais Advogado:
“Assa chegar de 5 a 15 anos, se da violência resulta lesão
lto. corporal”.
Artigo
157, Presidiário:
a “Assaltante de banco - bote nos melhor pavilhão. Porque é
pena gente que tem dinheiro, pra ninguém mexer com ele. Tem
vai de tudo de bom e do melhor. Agora, um assaltante que cai por
4 a causa de uma bronca safada apanha muito dentro da
10 cadeia, num tem moral dentro de cadeia, não”.
anos,
pode Advogado:
ndo “Estupro, artigo 213 do Código Penal, de seis a dez anos”.
aume
ntar Presidiário:
de “Agora, o estuprador, antes dele cair no presídio, as própria
um polícia são o primeiro a dizer que vai cair um tarado. E pra
1/3 tarado, é o mesmo que ser um matador de mãe, de pai.
até a Num tem vez, faz a maior sacanagem com ele. De tudo o
meta que você imaginar, a turma faz com ele ali dentro. De botar
de se o pênis na boca dele, fazer sexo com todo mundo lá
esse dentro, ele tem que fazer”.
assalt
o Advogado:
for... “O nosso Código Penal, ele prevê o homicídio, se for
se simples, a pena de 6 a 22 anos, se for qualificado, a pena
result de 12 a 30 anos, no artigo 121”.
ar na
violên Presidiário:
cia, “Ah, os justiceiros... a polícia dá valor com os justiceiros, só
ou que os próprios presos não dão valor. Eles num dão valor
em aos justiceiros, os presos. O negócio deles é dizer logo: "se
grave cair aqui, tu baila, vai morrer logo. Quem mata dos nossos
amea na rua, vem pra cá tem que morrer”.
ça ou
se há Um trecho como esse denuncia o quanto é tênue a linha divisória
concu que separa os conceitos sobre determinadas ações. Enquanto o
rso advogado, explica o que é o assalto, por exemplo, um preso também
de define, de outra forma, o mesmo fato. A diferença se dá por que o sentido
duas depende do posicionamento discursivo, isto é, a produção e a
ou interpretação dos sentidos vai depender da posição ideológica, da
mais conjuntura e da dinâmica social em que o sujeito está inserido.
pesso Após essa passagem, Garnizé fala sobre o Recife, destacando
as. E aspetos positivos e negativos em seguida retoma um discurso semelhante
pode ao início do documentário, dando exemplo de “grandes homens” que
ainda lutaram até a morte por seus ideais. Defendendo mais uma vez, o direito à
saúde, educação e emprego como ponto um de partida para se chegar ao
estágio da cidadania. Esse mesmo depoimento é intercalado pela fala dos
justiceiros e de Helinho, demonstrando um certo desânimo em relação ao
fim da violência, defendo que “se você mata uma alma sebosa, amanhã
tem dois, três no mesmo lugar”. Enquanto Garnizé, mesmo tendo
consciência da atual situação ainda acredita em alternativas para um
mundo “Organização tópica da conversação”. In: ILARI, Rodolfo (org.)
melhor, Gramática do Português Falado. Vol. II. Campinas: UNICAMP, 1992.
os
justiceir MUSSALIM, Fernanda. Análise do Discurso. In: MUSSALIM, Fernanda e
os BENTES, Ana Cristina (orgs.). Introdução à Lingüística: domínios e
demonst fronteiras. Vol. II. São Paulo: Cortez, 2001.
ram
total
pessimi NOTÍCIAS
smo.
Como Notícias de uma guerra particular, 1999, dirigido por João Moreira
se vê a Sales e Kátia Lund é um documentário sobre o estado de violência urbana
luta no Brasil. O cenário é o Rio de Janeiro e os personagens são policiais,
entre o traficantes e moradores de favelas que se vêem numa guerra diária e sem
bem x vencedores. Resultado de dois anos de entrevistas (1997 e 1998) com os
mal está participantes desse conflito, o documentário capta e contrapõe a todo
travada, instante as opiniões dos personagens entrevistados.
agora é O documentário mostra que os moradores do morro vivem entre a
esperar truculência da polícia e a falsa bondade dos traficantes. Alguns dos
para depoimentos evidenciam, que as atuais impressões que se têm sobre a
conferir polícia, em sua maioria, convergem para uma visão negativa da
o instituição. Os meios de comunicação, vez por outra, expõem o
vencedo envolvimento de policiais em situações que comprometem sensivelmente
r. a imagem da polícia enquanto protetora da população1.
Por outro lado, é sabido que o tráfico também não substitui o
Estado no que diz respeito às obrigações sociais, e os próprios moradores
Referên têm consciência de tal fato:
cias
Bibliogr "Antes do tráfico e das armas, era ruim viver no morro,
áficas porque a polícia subia chutando portas e levando tudo o
que via pela frente", diz uma moradora. "Agora, a polícia
DaMAT sobe com cuidado, porque sabe que o tráfico está muito
TA, bem armado".
Robert Mas também, os mesmos moradores também estão cientes de
o. A que, com o tráfico no comando, a situação não melhorou:
casa e
a rua. "Os traficantes ajudam a comprar um remédio, mas se
Rio de acharem que a gente está agindo errado, eles são capazes
Janeir de matar, esquartejar e exibir pra todo mundo só pra servir
o: de exemplo."
Guana
bara/K A organização tópica
oogan
, A. O Policial
1991. B. O Traficante
C. O Morador
JUBRA D. O Início
N, E. Repressão
Céli
1
a et Mais detalhes sobre essa temática, ver RONDELLI, E. “Imagens da violência e práticas
discursivas”. In: PEREIRA, Carlos Alberto Messeder et alli (orgs.). Linguagens da
alli.
Violência. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
F. Veja agora o texto de abertura:
As “Na primeira semana de cada mês, um camburão
A escoltado por três carros da polícia civil deixa a avenida
r suburbana no Rio de Janeiro, sede da delegacia de
m repressão a entorpecentes e vem para esse ferro velho em
a Icajú. O comboio transporta toda a droga apreendida no
s mês, uma quantidade que pode variar de 200 quilos a 3 a 4
G. toneladas. Em menos de duas horas, tudo será incinerado
Cao num forno de alta temperatura. A expansão do tráfico de
s drogas a partir da metade da década de 80 é diretamente
H. responsável pelo crescimento vertiginoso do número de
Can homicídio. Um pessoa morre a cada meia hora no Rio, 90%
s delas atingidas por balas de grosso calibre. A polícia
a federal estima que hoje o comércio de drogas empregue
ç 100mil pessoas no Rio, ou seja, o mesmo número de
o funcionários da prefeitura da cidade, nem todas essas
pessoas moram em favelas. No entanto, a repressão
concentrasse exclusivamente nos morros cariocas. Esse
programa, rodado ao longo de 97 e 98, ouviu as pessoas
D mais diretamente envolvidas neste conflito: o policial, o
iferente traficante e, no meio do fogo cruzado, o morador.”
mente
da Antes de falarmos propriamente da ordenação dos tópicos, vamos
propost nos reportar a um interessante fato, mas que transparece de forma muito
a de discreta no documentário: a omissão em relação aos consumidores. Em
divisão um determinado trecho da abertura, o narrador versa sobre as pessoas
temática que trabalham no tráfico. Vejamos:
do “A polícia federal estima que hoje o comércio de drogas empregue
autor, 100 mil no Rio, ou seja, o mesmo número de funcionários da
na prefeitura da cidade, nem todas essas pessoas moram em
nossa favelas.”
análise,
estabele Os fatores sociais e a enorme quantidade de material jornalístico
cemos veiculado na mídia apontam para o fato de que a maior parte das pessoas
cinco envolvidas no tráfico de drogas, no caso do Rio de Janeiro, mora nos
tópicos morros. Falar em “maior parte”, no entanto, não implica falar em
(motivaç totalidade. Ou seja, tem pessoas que estão envolvidas com o tráfico, mas
ões, moram em favelas (morros). Isto fica claro quando o locutor fala “nem
nova todas as pessoas moram em favelas”. Muitos dos consumidores de
realidad drogas, por exemplo, pertencem à classe média e não moram em favelas.
e social, O documentário não entrevista os consumidores de drogas. Esse fato
armas, chama a atenção. Talvez essa atitude seja intencional, preferindo o diretor
conflito, trazer para a sua produção apenas os segmentos mais diretamente
vivência envolvidos no confronto armado- o traficante, o policial e o morador -, pois
s/experi são eles que sofrem as conseqüências diretas dessa “guerra”.
ências). Dos cinco tópicos apresentados, o primeiro (T1) versa sobre as
motivações que levam tanto policiais, como traficantes a seguirem suas
respectivas “carreiras”. Isso acontece logo no início do documentário. Veja
as falas abaixo:
Capitão Pimentel:
“Des dessas, mas eu acabei participando, eu participei de
de 6, centenas.”
7
anos Adriano, traficante:
a “Poderia estar trabalhando até num trabalho humilde.
gente Mas... com uma condição de vida boa também, é o que eu
fala não tive. Se eu roubo, (...) não foi pra cheirar cocaína. Se
que eu fiz, foi porque eu tive que comprar primeiramente
quer comida (...) que eu não posso morrer de fome.”
ser
políci Torna-se perceptível na fala do traficante Adriano, um tom de
a e justificativa que, ao mesmo tempo em que expõe suas razões para
depoi exercer o trabalho no tráfico, tenta mostrar que esse tipo de “emprego” foi
s a única solução, disponível para se ter um “vida boa”.
muda Depoimentos como o do Capitão Pimentel e do traficante Adriano
de estarão presentes no decorrer do documentário, onde moradores que
idéia. trabalham no tráfico, delegado e policiais, cada um a sua maneira,
Eu justificam e esclarecem os motivos pelos quais seguem no tráfico, no
nunc trabalho regularizado ou na polícia. Classificamos esse tópico,
a Motivações (T1), como um tópico que apresenta uma característica
mude seqüencial, uma vez que esse assunto não se encerra no bloco inicial do
i de documentário, ele permanece ao longo da narrativa, servindo de “gancho”
idéia. e abrindo espaço para outros temas.
(...)às Um exemplo que ilustra como esse tópico é retomado está na
vezes seqüência de depoimentos da moradora Hilda, que conta como é o seu
eu cotidiano e tudo que faz para evitar que os filhos ingressem no tráfico.
cheg Observe:
o Hilda, moradora:
aqui “Eu acordo às duas e meia da manhã todos os dias. Vou lá
(...) pro meu trabalho entregar meu jornalzinho.(...) E aí eu
dá subo correndo outro vez pra casa. (...) Desço pra apanhar
vonta o irmão na escola.(...) meu marido chega às 10, eu tenho
de de que estar ali pra dar a janta pra ele. (...) E das 10 eu nem
ir pro durmo, eu desmaio (...) e acordo às 2:15 todos os dias da
morro semana, (...) eu tenho que levantar da cama e ir à luta, né?
e (...) eu penso muito no futuro e vejo coisa aí acontecerem
tudo aí com outros crianças que jamais que acontecesse com os
mais. meus.“
(...)
mas Em seguida, a moradora Janete fala sobre as mudanças sociais
eu ocorridas no morro após a tomada do poder pelos traficantes e aprofunda
queri esclarecendo que “coisa” acontece no morro, sob o comando dos
a traficantes:
partic Janete, moradora:
ipar “Quando as armas entraram na comunidade, através do
de tóxico, fez com eles (policiais) entrasse com mais cautela,
uma entendeu. Eles andam com medo porque tá sabendo que
ação essa nova geração (...) tem um espírito suicida (...) só
querem defender a comunidade dessa entrada violenta da
polícia. É o lado bem das armas, agora, o lado negativo (...)
é quando eles têm que cobrar seja de pessoal lá de baixo,
seja especificamente o T2c, que trata das mudanças na realidade social do
da morro, especificamente, o que diz respeito ao papel do Estado.
comu Já apontamos qual o tema do T2 e agora vamos esclarecer os
nidad seus respectivos sub-tópicos, são eles: o papel da polícia (T2a), o papel
e. (...) do traficante (T2b), o papel do Estado (T2c). Nesse caso, podemos dizer
Se que há uma certa linearidade do assunto em pauta, que nada mais é do
eles que o desmembramento de um dos assuntos tratados pelo autor, ou seja,
puder a postura de três instituições perante o tráfico. O interessante da
em apresentação dos sub-tópicos relacionados à nova ordem é o fato de
matar cada um desses segmentos defender a sua importância para um
e determinado setor social, criando um emaranhado de juízos de valor.
esqu Assim, o traficante argumenta sua superioridade em relação ao
arteja Estado, pois diz suprir as carências econômicas e materiais da população
r e dos morros, e também justifica ser superior à polícia no que diz respeito
cortar ao armamento. A polícia, por sua vez, argumenta que “o crime não
e compensa” e que tem um poderoso armamento bélico, capaz de dar
coloc segurança à população. Essa última, não crê nas ações do Estado,
ar lá enquanto bem-feitor das ações sociais que estão preservadas apenas na
pra lei. Enfim, cria-se um interessante jogo de opiniões e posicionamentos
todo bastante diversificados entre dois sub-tópicos. Veja os depoimentos:
mund Adriano, 29, traficante:
o ver “A gente supre aquelas necessidades que às vezes ela
como precisa né. Que é uma necessidade (...) de comprar um
exem gás (...) de comprar um remédio”.
plo,
pra Criança, traficante:
ningu “Uma 130 brasileira, essa aqui é uma K47 russa, uma AR-
ém 15 lança granada. Isso aqui é uma PT92, 9 milímetros”.
vacila
r”. Hélio Luz, delegado:
“O tráfico não transforma nada. Eles é que perdem com
I isso”.
mportan
te Hélio Luz, delegado:
observa “O tráfico não substitui o Estado. Pode ajudar um ou outro,
r que o mas ele não tem o nível de substituir o Estado no morro, é
depoime cascata, é mentira”
nto de
Janete O terceiro tópico (T3) aqui proposto é intitulado As Armas e
conduz coincide diretamente com um dos tópicos apresentados pela divisão feita
o pelo documentarista. Nele, polícia e tráfico tentam medir forças e provar
especta quem está mais preparado belicamente.
dor para Capitão Pimentel:
o “Esses são os armamentos que dispomos no BOPE para o
segundo combate à criminalidade. (...) É o que tem de mais
tópico, moderno no mundo em matéria de submetralhadora. Essa
Nova arma aqui (...) só a polícia do Rio de Janeiro usa. (...) È
Realida uma arma que a gente não vai encontrar na polícia da
de Europa, ou mesmo na americana.”
Social
(T2), Criança, traficante:
“Uma ainda não está no mesmo nível que o tráfico, quando o assunto é
130 armamento:
brasil “Os traficantes hoje no Rio de Janeiro, eles tão usando fuzil
eira, Hk47 que é um fuzil de bolso, que é um fuzil de guerrilha.
essa Tão usando fuzis ARTS, tão usando granadas, tão usando
aqui rojões. (...). Equipamento ainda que nem nosso batalhão
é dispõe.”
uma
K47 Além da divisão entre moradores, em apoiar ou não a ação do
russa tráfico, e das freqüentes mortes ocorridas no meio de policiais e
, uma traficantes, a guerra trará também a perda de um referencial de uma
AR- perspectiva vida para moradores, policiais e traficantes e causará um
15 estado de cansaço em todos os personagens. Veja:
lança Gordo:
grana “Eu tomei penitenciárias armado, por exemplo,
da. metralhadoras, revólver, granada, pistola, eu assaltei
Isso delegacias, eu assaltei camburão. Pra quê? Que história eu
aqui fiz? Crime é história, não é história”.
é
uma Capitão Pimentel:
PT92, “ É, chego em casa, às vezes de uma operação até difícil
9 (...) As nossas famílias nem pergunta mais como é que foi
milím meu dia (...) Nem pergunta mais. Desse jeito, to cansado”.
etros”
.

O Gordo, traficante:
Mesmo O projeto era fazer tudo aquilo, todos os buracos deixados
esclarec pelo poder, o comando vermelho entrava.
endo as
vantage Kleber, 23 anos, na prisão:
ns do Nós somos da nova direção do comando vermelho. (...) a
poderio gente faz pela nossa população pela nossa sociedade (...)
bélico pelo nosso povo, é um povo carente, um povo humilde.
da
polícia, Janete, moradora:
não Minha filha passa mal (...) Aí eu chego lá no movimento,
demora digo “minha filha ta doente” (...) daqui a meia hora o
muito, e remédio chegou.
o
Capitão Adriano 29, traficante:
Pimente A gente supre aquelas necessidades que às vezes ela
l admite precisa né. Que é uma necessidade (...) de comprar um
que a gás (...) de comprar um remédio.
polícia
Adriano 29, traficante:
Se falece um morador, o enterro que faz é nós.

Referências Bibliográficas
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N,
Célia MARCUSCHI, Luiz Antônio. Análise da Conversação. 4. ed. São Paulo:
et alli. Ática, 1998.
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nizaçã _______. Bases para uma definição da repetição na língua falada. Recife,
o 1991 (mimeo)
tópica
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conver KOCH e Kazue Saito Monteiro de BARROS (orgs.). Tópicos em
sação” lingüística de texto de análise da conversação. Natal: EDUFRN, 1997.
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do
Portug SAUSSURE, Ferdinand. Curso de lingüística textual, 20. ed. São Paulo:
uês Cultrix, 1995.
Falad
o. Vol.
II.
Campi
nas:
UNIC Notícias de uma guerra particular é um documentário de 45
AMP, minutos, realizado sob a direção de João Salles e Katia Lund, na cidade
1992. do Rio de Janeiro. Rodado ao longo dos anos de 1997 e 1998, o
documentário é construído a partir dos depoimentos das pessoas
KOCH, pertencentes aos grupos sociais mais diretamente envolvidos no conflito
Inged gerado pelo tráfico de drogas no Rio de Janeiro: os policiais, os traficantes
ore e os moradores dos morros.
Villaça Vale notar que a opção de focalizar apenas esses três segmentos
. A excluiu do documentário a referência à classe média e sua irrefutável
coesã participação no tráfico de drogas, como consumidora majoritária dos
o narcóticos. Podem-se levantar diversas explicações hipotéticas para essa
textual exclusão, como a negligência, ou o propósito de eximir a classe média de
. 4. sua responsabilidade nesse processo. No entanto, indiretamente, o
ed. próprio documentário pressupõe a existência e importância desse
São segmento para o tráfico, a partir mesmo de um enunciado verbal presente
Paulo: no início do filme. Logo na abertura, o locutor afirma que o documentário
Conte ouviria "apenas as pessoas mais diretamente envolvidas nesse conflito".
xto, Como 'conflito' está sendo utilizado aqui como sinônimo de guerra, uma
1991. possível explicação para os consumidores não prestarem depoimentos no
documentário diz respeito ao fato de eles não participarem corporeamente
do conflito armado.
Ao abordar a questão da Liberdade, o Gordo afirma que “todos os
buracos deixado pelo poder, o Comando Vermelho entrava”, o que dá
margem a alguém da equipe do cineasta, insatisfeito com o que obtivera
até então, pedir maiores informações sobre as ações do CV, indagando-
lhe: “E matriz “todos os buraco deixado pelo poder, o comando vermelho
faziam o entrava”.
quê?”.
Como Maurinho, 16: "Eu tava assim abaixado. Aí o policias disse levanta aí.
resposta Aí, apontou pra minha perna e atirou. Eles pegam o dinheiro e ainda
, o esculacha a gente"
Gordo Adriano, 29: "Todo mundo sabe que a (incomp.) não tá no bandido, tá
irá dizer: nele. No caso, me prendendo, levando eu pra delegacia, tentando
“Tudo o extorquir pra ganhar o que eu tenho, ele já num vai ganhar só o
que o salário dele."
governo
não 5.c)
faz”,
parafras
eando a
5.d)

Janete: "Se você tivesse um aparelho de televisão bom, um vídeo


bom, eles já levavam. Não queriam saber se você tinha nota fiscal
que comprou na loja. Eles diziam que era coisa de ladrão, mesmo a
pessoa sendo honesta."
Hélio Luz: "Eu digo, não precisa me dizer. A polícia é corrupta, eu
afirmo a polícia é corrupta. Esta instituição que existe é uma
instituição que foi criada para ser corrupta, né?"

Ainda que em diversas vozes, os enunciados convergem para um enunciado


matriz, que seria "A polícia é corrupta." As paráfrases neste trecho dizem todas respeito
aos desvios de comportamento dos policiais, aos maus tratos que essa categoria dedica à
população dos morros, a sua desonestidade, enfim. Algumas passagens tornam-se
ilustrativas dessa posição: "eles pega o dinheiro e ainda esculacha a gente", "tentando
extorquir pra ganhar o que eu tenho", "eles já levavam", "a polícia é corrupta".
Outro exemplo semelhante a este, em que há uma corrente de depoimentos
convergentes, envolve o líder comunitário Itamar Silva, o chefe de polícia Hélio Luz e o
traficante Francisco, de 16 anos:

6.a) Itamar Silva (líder comunitário) - "Eu acho que essa juventude (...) tá
buscando uma afirmação muito forte. Eu acho que o tráfico oferece
um respeito que ele não tem quando opta por ser um entregador de
remédio da farmácia. (...) Esse poder que ele acha que tem sobre um
sociedade que não reconhece seu real valor."
6.b) Hélio Luz - "O coração vibra, não vibra? Alguém nosso pode ser gente,
alguém nosso pode comprar um carrão, alguém nosso pode ter
cinco mulheres. Um de nós conseguiu chegar e se dar bem na vida."
6.c) Francisco, 16 - "Porra, me senti o dono do mundo, (incomp.) segurei a
primeira arma, me senti o dono do mundo. É mais ou menos um
monte de mulher fica te olhando, fica dando em cima".
Nos exemplos acima, os depoentes estão comentando sobre os motivos que
levam um jovem a ingressar no tráfico de drogas. Como nos exemplos anteriores, o editor
é bem sucedido ao colocar o depoimento da maior autoridade no assunto (no caso, um
jovem que participa do tráfico) para confirmar o que todos haviam dito, e que talvez não
passasse de especulações se não houvesse esse fechamento. Trata-se de um exemplo
de emprego de uma escala argumentativa.
Entendemos que nestes casos, o discurso de autoridade não reside necessariamente no
discurso de uma pessoa legalmente reconhecida como autoridade. Por se tratar de um
meio marginal, distante em diversos aspectos das instituições sociais vigentes, o morro
cria suas próprias autoridades legitimadas em seu próprio universo. Quem irá negar que
um traficante, cria do morro, conforme as próprias palavras de um deles. tem mais
respaldo e autoridade para falar sobre a situação do tráfico no morro do que um delegado
de polícia?

Eles estão apontando o salário irrisório pago nos empregos como uma das causas
que fazem os jovens ingressarem no tráfico, onde podem ganhar várias vezes mais do
que se estivessem trabalhando no mercado informal.

8) No documentário Notícias de uma guerra particular, fica bem claro


o confronto de palavras entre grupos sociais distintos no intuito de
reforçar sua ideologia. Enquanto os policiais se referem ao tráfico
de drogas como crime organizado ou simplesmente tráfico, os
moradores dos morros, que, de uma forma ou de outra, são
Janete - "Ele tá beneficiados com esse comércio, denominam o tráfico de
querendo se movimento, o que lhe confere uma conotação social /
envolver. Sabe assistencialista aceitamente virtuosa.
por causa de
quê? Porque
ninguém tá Torna-se notável, no documentário, a afirmação de que o
querendo mais conflito gerado pelo tráfico de drogas no Rio de Janeiro ganhou
esse salário de proporções de uma guerra, uma guerra particular. Essa é a tese
miséria." central defendida pelo documentário, que se apoia em dados
Hélio Luz - estatísticos e depoimentos de pessoas que vivenciam essa guerra,
"Então ele vai procurando apontar as razões e o decorrer desse conflito,
pra lá. Pra finalizando em um desfecho um tanto pessimista sobre essa
ganhar um situação.
salário mínimo
é 112, e lá é, ele
oferece 300 por
semana pro RAP
garoto. O
garoto vai
trabalhar com Rodado em sua grande parte na cidade de Camaragibe,
ele. Ele escolhe. subúrbio de Recife, e nos morros que compõem a periferia da
É lógico que ele metrópole pernambucana, o documentário "O rap do pequeno
escolhe. príncipe..." alcançou notável reconhecimento por parte da crítica e
do público, tendo sido contemplado com diversos prêmios. Entre
os mais importantes, destacam-se o Prêmio Glauber Rocha
(Jornada da a relativizar os conceitos de bem e de mal e as associações que
Bahia), o Prêmio poderíamos fazer desses conceitos em relação aos personagens
de Público de do filme, optando por uma postura não maniqueista. Entretanto,
Melhor Filme no conforme observaremos, essa relativização se dá apenas em
Festival relação ao personagem de Helinho, figura central e mais polêmica
Internacional de do documentário.
Documentário É O perfil que é traçado de Helinho nunca é definido em
Tudo Verdade termos absolutos, estando sempre oscilando entre o bem e o mal.
(São Paulo e Rio Ele é o personagem central do filme e, apesar de ter pouco tempo
de Janeiro) e de fala em relação a outros personagens, está sempre sendo
Prêmio de objeto dos outros depoimentos. Esses depoimentos que as
Público de pessoas dão em relação a ele entram, muitas vezes, em
Melhor Filme no contradição, ficando a cargo do espectador a possibilidade de
2o Festival concluir se as suas ações eram boas ou más. O documentário em
Internacional de si sugere uma impossibilidade de classificação das ações de
Cinema de Helinho em conceitos tão estanques quanto bem e mal.
Brasília. A mesma ambivalência não é proposta em relação a
Garnizé. As suas ações são sempre tidas como benéficas,
1.1 A louvadas como redentoras. Trata-se de um personagem que não
relativização do suscita polêmica e ao qual são atribuídos valores sempre
bem e do mal positivos. O fato do documentário não apresentar pessoas dando
no depoimentos sobre as ações de Garnizé já pressupõe a falta de
documentário polêmica em relação a ele. A simples exposição, por parte do
"O Rap próprio Garnizé, das ações que ele realiza são suficientes para
do pequeno que o espectador crie um juízo positivo acerca delas.
príncipe..."
aborda a
questão da 2. Análise do título do documentário
violência urbana, Para procedermos à análise discursiva do título do
tendo por ótica documentário, vamos antes analisar a semântica dos diversos
fundamental as elementos que compõem esse título.
diferentes
posturas Rap: sigla que vem do inglês para abreviar Rythm And
assumidas por Poetry, forma musical desenvolvida por negros norte-americanos,
jovens da que integra um movimento contracultural mais amplo intitulado Hip
periferia na Hop, com expressão também nas artes plásticas e práticas
tentativa de desportistas, tendo sido consagrado uma das mais notáveis
remediar a tendências estéticas do final do século XX, agregando milhões de
violência de que adeptos por todo o mundo. As letras de Rap contêm um forte teor
são vítimas. A de contestação e inconformismo, sendo a violência (seja qual fôr
abordagem que sua forma) um dos temas mais recorrentes. No documentário, o
o documentário Rap é encarnado na figura de Garnizé, natural da cidade de
realiza sobre a Camaragibe e baterista da banda Faces do Subúrbio, tida como
questão da um dos maiores expoentes do Rap brasileiro dos anos 90.
violência é digna Garnizé, além de músico, desenvolve ações educativas em sua
de alguns comunidade e revela em seus depoimentos um grau elevado de
comentários. preocupação social.
Observa
mos que essa Pequeno Príncipe: Pseudônimo dado a Helio José Muniz
abordagem é Filho, também conhecido como Helinho. Responsável pelo
feita de maneira homicídio de 44 pessoas, Helinho foi morto alguns meses após a
filmagem do designar malfeitores de toda ordem, ladrões, estupradores e
documentário, assassinos. A autoria do termo é atribuída a um radialista de
por grande popularidade na região, chamado Cardinot, que chega a
companheiros de aparecer no filme e é responsável por programas policiais. As alma
cela no presídio sebosas são, no filme, o agente catalisador da violência, à qual
Annibal Bruno, reagem de maneiras distintas, os demais membros da população,
em Recife, onde representados pelos rappers e pelos justiceiros, no documentário.
cumpria pena.
Helinho era tido Vejamos algumas possibilidades de interpretação desse
em sua sugestivo título, destacando a ambigüidade sintática presente nele.
comunidade - e Tomemos Rap na sua acepção mais usual, a que designa a
assim é música com letra extensa e crítica. A partícula conectiva do (Rap
apresentado no do Pequeno Príncipe) pode tanto fazer do Pequeno Príncipe o
documentário - autor, quanto o objeto da música. Nestes casos, teríamos um rap
como um composto pelo Pequeno Príncipe e um Rap composto sobre o
justiceiro, ou Pequeno Príncipe. A partir dessas duas interpretações, teremos
seja, um uma série de permutações envolvendo os sujeitos do filme e os
indivíduo que papeis sociais que eles ocupam, a saber, o de Pequeno Príncipe e
executa por o de Alma Sebosa.
conta própria Se temos um Rap composto pelo Pequeno Príncipe,
pessoas teremos que entender que nesse caso, a palavra Rap se reporta
envolvidas em às ações praticadas por Helinho. Assim, cria-se uma analogia
atividades entre a reação discursiva de Garnizé, através do rap enquanto
delinqüentes. música, e as ações de Helinho que são de violência física. A
Como mostra o analogia torna-se possível pelo fato de ambas retratarem o mesmo
documentário, as processo: o da iniciativa privada ocupando os espaços deixados
ações de Helinho pelo Estado.
eram bem Se, entretanto, tomarmos o Pequeno Príncipe como
recebidas na objetivo do Rap (O Rap sobre o Pequeno Príncipe), teremos então
comunidade , a que o próprio filme assumirá o formato de um rap, isso não apenas
ponto da mesma pelo fato de ser um rapper o principal narrador, mas por conter o
realizar um filme elementos inegáveis da estética do hip-hop, tendo um caráter
abaixo assinado denunciativo e crítico em relação aos problemas sociais.
no intento de
soltá-lo da
prisão. Veremos que as paráfrases discursivas se manifestam em
abundância nesse documentário. Isto porque ocorre uma
Almas aproximação entre a formação discursiva dos rappers e justiceiros,
Sebosas: gíria com relação ao problema da violência urbana, conforme
bastante testemunham os diversos depoimentos que estes dão no
difundida na documentário.
grande Recife,
usada para
Justiceiro: "Você mata uma alma sebosa, amanhã tem dois, três,
no mesmo lugar. Sempre tem, é uma batalha grande, pô!"
2.b) Helinho: "A malandragem, sempre... começa com um, mas
termina com dez. E se matar um, tem que matar todos. E se matar
um, matar dois, três, se junta dois, três que está vivo, já começa a
conhecer outros piores (...)."

3- A
tem o direito de tirar a vida de ninguém. Só que... porra... Só o cara
pensar em sair de casa, bicho, de manhã cedo e ir trampar, passar o
mês todinho ralando, pra no final ganhar 130 conto, chegar um filho
3- B da puta, meter o cano em cima de tu e tomar teu sapato, tomar tua
grana e arrombar teu barraco e..."
"A gente pega um exemplo como Helinho, um cara que pode ser
"Cara, eu acho resgatado, né, como Malcom X. Malcom X já foi traficante, já foi
que ninguém ladrão, né... cafetão e várias outras coisas."

Entre grupos marginais, é notório o recurso a gírias como uma forma de auto-
preservação e afirmação de seu grupo junto à sociedade. Entre os rappers, esse linguajar
se desenvolveu de maneira prodigiosa e o Rap do pequeno príncipe (...) testemunha essa
afirmação, até porque parece ser uma das propostas do filme usar de artifícios estéticos
próprios da cultura do Hip Hop para dar mais personalidade à narrativa. Uma das provas
disto reside no próprio letreiro de abertura do filme, todo filmagem de um muro grafitado,
sendo o grafitti a expressão gráfica do Hip Hop.
Observamos através do documentário, que o posicionamento discursivo dos
rappers, em muito aproxima-se da dos justiceiros. Vejamos as seguintes expressões:

7- A Garnizé: "Helinho já tinha feito umas limpeza por lá e foi morar em


Camaragibe e se envolveu com uma galera lá, que começou a
detonar uma raça podre que tinha lá."
7- B Justiceiros: "Rapaz, a gente faz é limpar a cidade, é tirar as alma
sebosa, os ladrão, é... assaltante safado, traficante."

Assim temos as expressões fazer uma limpeza, limpar e detonar, que


sugerem a eliminação dos maus elementos, que são chamados de alma sebosa,
raça podre, ladrão, assaltante safado e traficante. Alguns desses termos se
referem a categorias específicas de bandidos, mas temos dois termos de uso geral
que são o raça podre e o alma sebosa, este sendo o mais difundido e citado no
próprio documentário.
Em relação à nomenclatura "alma sebosa", utilizada sem ressalvas pelos
rappers e pelos justiceiros, vejamos como em outros momentos do documentário,
pessoas com formações discursivas distintas recorrem a ele:

8- A Delegado: "Bem, eu não gosto de me reportar a isso não, porque


essa expressão alma sebosa é uma expressão de... sem nível,
certo? É uma expressão de marginal para marginal, certo. E eu,
como autoridade, acho que o que dizem por aí de alma sebosa são
pessoas que não têm uma conduta perfeita, que é um desajustado
(...) Se ele achava que era alma sebosa, é a maneira que ele
tem, ou que teve na oportunidade de se expressar. Mas eu
jamais diria que as pessoas que ele tirou a existência era alma
8- B sebosa."
Mãe de Helinho: "Ah, mãe, isso é alma sebosa! Meu filho, pelo
amor de Deus, num faça isso, não. É uma vida. Uma vida?! Mas
queria tirar a vida de num sei quem, mas tirou a de num sei quem,
8- C mas roubou num sei quem. Tem que morrer."
Justiceiros: "Alma sebosa é aquele cara que num serve pra nada,
ele é um inútil, um indigente".
Ainda a respeito da formação discursiva dos rappers, identificamos algumas
expressões recorrentes que traduzem a postura contestadora e inconformista destes
músicos. O tom da música é ditado por uma proposta denunciadora da realidade que
vivem as pessoas na periferia e que parece ser negligenciada pelo Estado. Dessa forma,
os rappers assumem o papel de porta-vozes da "verdade". Eis alguns trechos em que
esses agentes expõem os propósitos de sua música:

9- A Tiger: "a gente procura relatar o cotidiano, entendeu, o dia a dia.


Mostrar a realidade (...) se a gente tá tendo a oportunidade de chegar
numa radio, de falar o que a gente vive, a realidade (...)"
9- B Garnizé: "É som de resgate, de conscientização. É... que fala a
verdade nua e crua, assim , o que acontece, o cotidiano das pessoas
dentro da periferia (...). É contar a realidade mesmo, num adianta
colocar verniz em cima do que acontece na periferia, do que
acontece no Brasil, do que acontece em muitos estados por aí (...)."
do muitas vezes a uma oratória uniformizada, sendo esta somente
possível devido a Formação Discursiva comum.
Observe
mos
também
que
O Rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas (2000, 75 min) traz
estes
dois às telas de cinema um retrato da violência tipicamente brasileira, em que
depoime
os pobres são as personagens principais.
ntos se
constitu
em em
Documentário rodado em Pernambuco, conta a história de Helinho –
o que
nós justiceiro de Camaragibe preso no Aníbal Bruno por ter uma ficha corrida
chamam
com 65 assassinatos, Garnizé - músico da banda Faces do Subúrbio que
os de
paráfra também vive em
se
Camaragibe.
discursi
va.
Trata-se
Roteirizado por Paulo Caldas, Marcelo Luna e Fred Jordão, o filme é uma
de uma
situação apologia à violência nos centros urbanos. Mesmo que o cenário seja
discursi
Recife, a história é universal e dispensa narradores pela força dos
va em
que dois depoimentos que
falantes
traz. Cada entrevistado se apresenta e relata sua perspectiva da
se
pronunci violência,
am com
a partir das próprias vivências que tem. Mesmo assim ainda há espaço
a
mesma para ainterferência dos diretores, que conduzem a história fazendo
opinião,
escolhas que evitam o sensacionalismo, mas podem também mascarar a
recorren
realidad à televisão através do canal Brasil de TV a cabo. Por sua temática, já
e. conquistou prêmios no II Festival Internacional de Cinema de Brasília
(Prêmio de Público – Melhor Filme), V Festival Internacional de
Realiza Documentários - É tudo verdade (Prêmio do Público - Melhor Filme) e
do num Prêmio GNT de Renovação de Linguagem do Documentário Brasileiro.
período
de
quase
dois Rossana Reguillo (1999, pág. 132), afirma que “a América Latina
anos, o produziu mais pobres nas últimas décadas do que em toda a sua história:
Rap temos mais pobres, menos oportunidade de emprego formal, um
estreou crescimento acelerado das economias informais e um fosso crescente
chegou entre as populações com acesso a condições dignas de vida e os que
às telas vivem em situação de pobreza”. Abre-se uma enorme lacuna entre os que
pela têm e os que tentam ter. O aumento da violência está diretamente
primeira relacionado a isso e a uma falta de investimento na educação de base.
vez no Essa violência gera uma estética midiática de enormes
IV proporções: os jornais que supervalorizam casos policiais, programas de
Festival TV que incentivam desacertos familiares, músicas que são como
de declarações de guerra – basta observar os hinos dos clubes de futebol,
Cinema etc. No cinema não é diferente. Hollywood costuma ser julgado como o
do centro produtor dos filmes mais sanguinolentos da sétima arte.
Recife. Para enfrentar os temores que se instalam, a sociedade se
Depois organiza de modo que a cidadania deixou de ser uma garantia de vida.
foi Perdeu-se o sentido da coletividade. Diante do descrédito generalizado
exibido em relação às instituições sociais - como o Governo, a Polícia e mesmo a
nacional Igreja – a sociedade vive numa crise de valores, em que justiceiros
mente passam a ser exaltados por matar e assaltantes são linchados sem
em perdão. E os conflitos localizados acabam desviando a atenção das
salas de pessoas para uma questão muito maior, que toma conta da sociedade
arte e como um todo, pois o tráfico e o crime organizado são problemas que
há extrapolam o caráter meramente sociológico do impasse. Como indica
pouco Roger Bartra (apud Reguillo, 1999), existe atualmente uma “manipulação,
chegou refuncionalização e recriação de alguns conflitos selecionados, que se
converte vive um conflito localizado, em que a Polícia não tem poder de decisão, e
m em a justiça está nas mãos do crime organizado. Lá, Helinho é o herói. A
um inversão de valores fica óbvia no trecho do filme em que um carro de som
poderos circula pelas ruas do bairro defendendo o Pequeno Príncipe:
o
aparato “Nossa comunidade pública (incomp) tem feito um abaixo
cultural assinado pedindo a sua libertação. Centenas de pessoas
e assinaram o documento que foi encaminhado às autoridades.
ideológi Nós, moradores dessa comunidade do Vale das (incomp), em
co de Camaragibe, junto com os moradores de áreas adjacentes,
controle vimos por meio desse abaixo-assinado, solicitar das
das autoridades competentes a liberdade do jovem Hélio José
express Muniz, por ser o mesmo uma pessoa de nossa confiança,
ões protetor de nossa comunidade. Comunidade essa que, antes
mais da presença do jovem Hélio, vivíamos atormentados com
agudas assaltos, arrombamentos e etc. Depois que o jovem Hélio
de luta”. José Muniz veio morar em nossa comunidade, passamos a ter
A paz com os problemas de vandalismo, assalto, ou seja, a
ssim presença do referido jovem em sua comunidade melhorou em
revela O 100% a marginalização em nosso bairro. Outrossim, pedimos
Rap do com clemência às autoridades competentes para que o
Pequen referido jovem seja libertado e venha fazer parte de nossa
o comunidade que tanto defendeu por sua atitude em livrar os
Príncip pais, mães e jovens da marginalização e vandalismo. Na
e esperança de que venham a cumprir o nosso pedido, nós
Contra abaixo assinamos.”
as
Almas Os justiceiros e as almas sebosas são personagens desse
Sebosa universo. A aproximação entre eles é feita pelo delegado, que considera
s. A todos bandidos; o afastamento se faz a partir da realidade local, em que a
comunid comunidade sabe diferenciar os dois grupos, chegando a apoiar um deles.
ade de
Camara (um dos justiceiros)
gibe
“Al a você. Alma sebosa é aquele cara que ele num serve pra
ma nada, ele é um inútil, um indigente.”
se
bo (Mãe de Helinho reproduzindo um diálogo com seu filho)
sa, “Ah, mãe, isso é alma sebosa. Meu filho, pelo amor de Deus,
me num faça isso não. É uma vida. Uma vida?! Mas queria tirar a
u vida de num sei quem, mas tirou a de num sei quem, mas
irm roubou num sei quem. Tem que morrer.”
ão,
é (Delegado)
aq “Bem, eu não gosto de me reportar a isso não, porque essa
uel expressão alma sebosa é uma expressão de... sem nível,
e certo? É uma expressão de marginal para marginal, certo. E
(in eu, como autoridade, acho que o que dizem por aí de alma
co sebosa são pessoas que não têm uma conduta perfeita, que é
mp um desajustado, que é isso, que é aquilo, tal... Mas não sou
), nenhum psicólogo, não sou nenhum cientista político, num
vo sou nenhum... é... pessoas que vivem a cuidar
u- permanentemente, a não ser quando eu estou exercendo a
lhe delegacia, certo. Se ele achava que era alma sebosa, é a
ex maneira que ele tem, ou que teve na oportunidade de se
pli expressar, dizer que o pessoal era alma sebosa. Mas eu
car jamais diria que as pessoas que ele tirou a existência era
, alma sebosa. Eram um ser humano, como nós outros.”
vo
u Herschmann (2000:171) indica que neste contexto marcado pelo descaso
das autoridades, “podemos considerar a violência desencadeada pela
es
sociedade, no Brasil, não só como indícios de uma ‘desordem urbana’,
cla mas também, em certo sentido, como uma forma de expor a insatisfação
perante uma estrutura autoritária e clientelista que promove
rec
sistematicamente a exclusão social”.
er
a
pa
Já O Rap procura ancorar a violência em matrizes sócio-culturais,
ra
problematizando-a. A partir dessas matrizes culturais, são elaborados
da
discursos construídos, cuja função é organizar uma “explicação” plausível
que os limites entre legalidade e ilegalidade, posto que ou não existem regras
justifiqu claras, ou estas obedecem a códigos distintos (Fausto Neto e Quiroga,
e esse 2000:230). Sendo assim, a dicotomia bem/mal torna-se nebulosa,
comport mostrando que o mal “não é tão mau assim”.
amento.
A
Tentando escapar de uma análise descontextualizada da violência,
pobreza
o Rap... mostra esse problema social de maneira justificada chegando até
, o
a ser compreensível a partir da veiculação da idéia de que o contexto que
desemp
envolve os infratores permite que eles sejam entendidos como vítimas. Os
rego, a
trechos do filme destacados, proferidos pelos “extremos-opostos” da
falta de
película, servem-nos de exemplos:
educaçã
o, enfim,
(Helinho)
a
“Nesse mundo, a gente tem que tirar pra num morrer. E se eu não
exclusã
tirasse a vida de muita gente, muita gente...Se eu não tirasse
o social,
muita gente, vida de muita gente safada, muita gente inocente
alimenta
tinha morrido.”
o
desenvo
(Garnizé)
lvimento
“Cara, eu acho que ninguém tem o direito de tirar a vida de
da
ninguém. Só que... Porra... Só o cara pensar em sair de casa,
marginal
bicho, de manhã cedo e ir trampar, passar o mês todinho ralando,
idade e
pra no final ganhar um 130 conto, chegar um filho da puta, meter o
da
cano em cima de tu e tomar teu sapato, tomar tua grana e
delinqüê
arrombar teu... teu barraco e...
ncia.
Nesse
“Cara, aí, eu acho que é falta de oportunidade, bicho. Camaragibe
universo
num tem oportunidade, num dá oportunidade pro jovem, num... E
periféric
outra que é aquela coisa fechada, bicho.”
o de
trabalho
Segundo Rocha (2000:12), os jovens da periferia foram criados dentro de
e vida
uma “linguagem da violência” que lhes conformou a vida e suas relações
se de sociabilidade, de forma que alguns deles sentem a necessidade criar
uma alternativa, um recurso simbólico que lhes seja autêntico e
diluem
desvencilhe os mesmos do ciclo da violência como ato social. E esse
recurso Quiroga,2000:223). Suas músicas falam dos dilemas por eles enfrentados
simbólic no quotidiano, das favelas e bairros periféricos onde são destacados os
o é preconceitos, estigmas e segregações dos quais são vítimas (Fausto Neto
represe e Quiroga,2000:223).
ntado
essenci
(Garnizé)
almente
pelos Porra, Recife é do caralho, bicho. É... segundo estatísticas aí,
movime
dizem que é a quarta pior cidade do mundo pra se viver. Mas eu
ntos e
estilos quero saber qual é a melhor cidade pra se viver. Porra, ainda falta
musicai
muita coisa aqui ainda, bicho. A gente tá descobrindo ainda muita
s
ligados coisa enrustida aqui no Recife, ou na região. Pra falar melhor, falar
à cultura
de música, né. A gente tá vendo aí hoje a galera despontando aí,
Hip-Hop
– descobrindo novos valores. A música que eu tou falando é o rap,
bastante
que é o ritmo e poesia, né. Essa poesia aí, marginal, o ritmo
comuns
nos também marginal, que vem da periferia. Falando a verdade
guetos
mesmo, doa em quem doer aí. A gente fala pra quem tá afim de
norte-
america escutar: pra preto, pra branco, pra pobre, pra índio, pra amarelo,
nos e
pra homossexual, pra biker, pra skatista...
que vêm
sendo
apropria
(Tiger - Faces do Subúrbio)
dos de
modo Pô, a gente... a gente procura relatar o cotidiano, entendeu, o dia a
geral
dia. É... mostrar a realidade. Tem que mostrar assim, se a gente tá
pelas
camada tendo a oportunidade de chegar numa radio, de falar o que a gente
s menos
vive, a realidade, numa televisão, pô, a gente vai sair ganhando,
favoreci
das da muita gente vai se informar. Tá entendendo? Mostrar que a gente
populaç
tá aqui pra conseguir o espaço que é de direito de cada um de nós
ão que
habita
as
periferia
s das
grandes
Essa tentativa em não ser maniqueísta acaba acentuando as
cidades
brasileir características positivas, tanto de Helinho quanto de Garnizé. O primeiro
as
acaba sendo visto com um fruto mal compreendido da sociedade, alguém
(Hersch
mann, que foi acolhido por sua comunidade, que tornou-se defensor das causas
Micael
justas locais. Mesmo matador, ele não é visto como prejudicial por não ser
apud
Fausto um oportunista criminoso que mata para roubar. O lado maléfico de
Neto e
Helinho foram cortadas para não escandalizar as platéias. “Num dado momento
é Helinho dizia que sentiu vontade de beber o sangue das vítimas. Não
desprez queríamos chocar o público com isso”, indica o Jordão.
ado. Os Garnizé surge como o jovem politicamente “bem” direcionado.
próprios Suas tatuagens revelam a predileção por mártires estrangeiros: Luther
cineasta King, Malcom X, Che Guevara. O cosmopolistismo dessas opções revela-
s se pouco abrangente, pois despreza heróis nacionais, numa escolha que
trabalha pode se mostrar ao mesmo tempo deslumbrada e pouco consistente. Mas
ram os três são usados como exemplos de que as coisa podem mudar –
nesse inclusive com Helinho. O sentimento é de que para tudo há uma
sentido, esperança.
como
afirmou A CIDADE vem sendo representada pelas pessoas que fazem cinema.
o Chagas sociais de uma cidade problemática se transformam em sucessos
roteirista comerciais.
Fred Encontramo-nos num tempo em que as ações populares perderam
Jordão eficácia.> Os discursos políticos, credibilidader, os protestos de rua só se
num legitimaram se forem captador por cãmeras de televisão. A dependência
debate não se configura mais no poder político, mas na benevolência da mídia.
sobre o Logo são os intermediários culturais que emprestam voz aos excluídos.
filme. Assistimos hoje à decadência do espaço público, ao enfraquecimento e
Ele desarticulação das massas.
declara A pobreza é romantizada, a violência mostrada como caminho ineviotável.
que De repente, problemas urbanos como falta de condições de moradia,
somente volência, tráfico de drogas, desemprego, transformam-se em temas a
20% do serviço de cineastas, recebendo ora tratamento dramático, ora cômico,
depoime superficial e em algumas vezes, espetacular.
nto do “O cinema brasileiro atual providencia, deste mesmo modo,
justiceir representações complexas da experiência urbana, encenando
o fora superações de medos e angústias, assim, como encontros com o “outro”,
utilizado o excluído, o escuro ou o invisível na percepção da alma humana. (...) É
e que característico que os filmes atuais se esforcem para abrir novas locações
cenas para lugares – o centro, os bairros marginais, as favelas, a zona norte etc
fortes – que não só se situam fora da imagem comum da cidade como também,
às injusta ela pode também ser e, como é difícil a vida daqueles que não têm
vezes, muitas chances.
são Os depoimentos se revezavam com imagens. Falas de Helinho e seus
inacessí comparsas de crime detalhando como ocorriam os assassinatos.
veis Testemunhos da mãe de Helinho demonstrando o quão dolorido é para
para a uma mãe ver seu filho ligado ao crime.
maioria Helinho recebe tratamento de herói
do
público
do
cinema,
isto é, à
classe
média
carioca
(Schollh
ammer,
2000:17
1)
O
cineasta
se alia à
periferia
para
mostrar
aos
bem
nascido
s o
quão
diversa
é a
cidade,
o quaõ
Na década atual, a violência ordinária é protagonizada de forma espetacular e mediática
por policiais civis e militares contra integrantes das classes populares, revelando forte
conteúdo – além de classista, racista, uma vez que produz vítimas, em sua maior parte,
pobres e negras.

A violência urbana tem gradações diferenciadas e é assimilada de formas distintas de


acordo com as frações de classe e as categorias sociais contra as quais é dirigida.
Quando esta modalidade de violência e impingida aos setores mais privilegiados da
população, as reprovações social e legal são inequívocas. No entanto, ao atingir os
setores historicamente excluídos – exclusão esta que já encerra, em sua própria lógica,
boa dose de volência – as reações são ambíguas, dada a associação exclusão-
marginalidade-violência, e sua consequente banalização. Incluier esta forma de violência
na agenda nacional de direitos humanos exige embates e negociações.
A violência policial contra as camadas populares se expressa através do emprego de
táticas bem desenvolvidas de coerção, do recursos a ataques violentos, inesperados e
aparentemente aleatórios, de guerra psicológica –ameaças intimidações e retaliações que
buscam silenciar protestos e denúncias, criando uma atmosfera de insegurança
generalizada.

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