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BITTAR, Eduardo C. B. O direito na pós-modernidade.

Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2005.

1. A problematização do tema: crise de eficácia e pós-


modernidade jurídica

Toma como ponto de partida a práxis e a teoria, que se somam a um só


tempo como duas dimensões da relação dialética: parte-se da práxis que é
o ponto de partida das aflições teóricas, que vem para tentarmos entender
as transformações em curso, retornando a práxis para que o exercício
reflexivo torne-se base das transformações sociais.

Se não fizermos a parada filosófica, com os exercícios filosóficos-reflexivos,


zeteticos- regressivo e zetetico-analitico, faz com que não estejamos apenas
no mundo, sendo levados pelas mudanças que ocorrem na sociedade. As
analises devem ser realizadas sobre hoje, mas sabendo da presença do
ontem e do amanhã (visão historicista?). Essa visão filosófica torna-se
essencial para analise em momentos de crises sociais, para que se conduza
a respostas dos dilemas levantados durante esse tempo. As crises práticas
do direito orientarão o autor durante toda a analise teórica desse livro.

Em suma, analisará o impacto da sociedade nos fenômenos jurídicos, tendo


como base um enfoque filosófico realista.

1.1. O papel da filosofia do direito em tempos pós-modernos:

Não é possível isolar o questionamento sobre o contexto pós-moderno sem


passar pelo questionamento do que de fato seja a pós- modernidade. Busca-
se questionar com base nos conflitos porque o ordenamento jurídico vigente
no Brasil já não responder mais as necessidades desse mesmo sistema
jurídico, avaliar-se-a em que condições encontram-se as praticas jurídicas,
se não esta havendo uma vitimização dele por forças externas ao direito, o
que poderia comprometer a autonomia do mesmo.

Afirma que a filosofia do direito não pode viver de um passado teórico, mas
deve moldar-se a realidade fática presente. Deve concatenar o que se
pensa e espera do direito em uma pratica social, utilizando porem de outras
ciências para poder ver em todo a sua amplitude os acontecimentos sociais
e apoiar suas premissas teóricas. Devendo ser de maior interesse do
jusfilosofo ainda o problema da eficácia do direito, já que além do direito ser
um fenômeno social, é ela ( a eficácia ) que dá enfoque a forma como o
direito deve ser aplicado. É essencial que para uma norma ser considerada
positivada, essa de fato seja eficaz, independentemente de ser norma
escrita ou não .

Através da analise de tridimensionalidade de Miguel Reale (fato, valor e


norma) demonstra exclusivamente positivista, inserindo-o em analises
sociais, o nome desse ramo de estudo da filosofia do direito seria a
culturologia. Por tais razoes a palavra direito de ter uma analise tríplice:
direito como valor de justo; direito como norma ordenadora da conduta;
direito como fato social e histórico. O positivismo não deve ser visto como
a melhor concepção do saber jurídico já que ignora realidade social. Na
mesma esteira pensa Eros Grau ao afirmar que o direito é uma invenção do
homem, contudo marcado por também ser um produto cultural, por tal
razão o Estado não pode ser tida como a fonte legitima do direito, mas sim
a sociedade.

Bobbio- tripartição dos campos de enfoque da filosofia do direito- suas três


funções são: deontológica, fenomenológica e ontológica- torna a jusfilosofia
envolvente e envolvida , ou seja, apesar de uma postura reflexiva também
deve se encontrar comprometida com a realidade concreta dos agentes
sociais.

Para uma abordagem correta da filosofia do direito deve-se buscar não nos
textos legais ou em pensamentos puramente conceituais abstratos o
significado e o estudo do direito, mas sim na realidade social na qual o
direito é praticado. A justiça encontra-se hoje cada vez mais afastada da
realidade social brasileira. Ela deve se afastar da discussão apoiada
meramente na persecução da justiça formal, para também adentrar no
campo da justiça social, sendo assim essencial a analise do direito em
conjunto com as forças sociais e com o mau uso do poder de governo em
nossa sociedade, redirecionando a epistemologia do direito e repensando as
instituições existentes. Cumpre a jusfilosofia a zetetica ( investigação) dos
aspectos formais, conceituais e procedimentais tendo como ponto de
partida a norma positivada. A jusfilosofia visa na verdade não uma analise
do texto normativo em si, mas porque determinadas normas não possuem
aplicabilidade, a concepção das mesmas e de que forma a pos-modernidade
vem influindo no fenômeno jurídico- ocupa-se da interação entre o direito e
a sociedade na qual se encontra.

1.2. A crise da filosofia e a crise do pensamento


jurídico: saber e sociedade em questão

A razão encontra-se atualmente em crise, e ela era considerada como único


pilar legitimo. Uma crise e a mudança nos processos econômicos, políticos,
sociais, culturais e jurídicos ocasiona, simultaneamente, uma crise nos
valores científicos em si e na própria dinâmica do conhecimento filosófico. A
filosofia tem como função não apenas conhecer o mundo que a rodeia e no
qual ela se insere, mas sim de se conhecer simultaneamente.

Pg. 23- funções da filosofia do direito.

A filosofia nasce junto com a ideia positivista do direito, porem o mundo


pós-moderno inseriu novas preocupações em seu escopo. De acordo com
Castanheira Neves essas interferências reagruparam novas formas de ação
para o pensamento reflexivo (expostos na pagina 24):coloca em duvida a
ideia de razão, já que não seria possível através dela encontrar a verdade;
que as demais formas de vida, que encontram-se na cultura lato sensu,
pode-se buscar a verdade- ciência vista como uma das formas de tradição,
não mais como a única valida; que a linguagem tomou o lugar da razão; que
a verdade ciência-razão deveria ceder lugar a outras intencionalidades,
como a solidariedade; monismo vs. Pluralismo das racionalidades;
observava-se por tras da vontade de verdade, uma real vontade de poder;
por fim o logos.

Todavia o autor afirma que esses não são motivos para que se abandone a
filosofia, principalmente do direito, que tem como base o pensar na contra
corrente das instituições fundadas na era pos-moderna (pg 25), dando-lhe
uma caracterização mais humanista, já que tem como base uma maior
ligação com as aflições humanas. Deve-se notar o potencial de ação que
essa tem ao observarmos o seu olhar critico sobre uma sociedade marcada
pela injustiça- já que não deve usar fatos como condicionamentos, mas sim
deve pensar novas realidades e novas ações contra os fatos reinantes na
realidade presente.

1.3. Modernidade e pós-modernidade: termos


ambíguos e momentos dispares :

A pos-modernidade, eivada de ambiguidade, representa um tempo


histórico posterior a modernidade, logo sendo uma evolução dessa, uma
continuidade ou algo que a englobe. Ambos os termos possuem questões
antogonicas e preveem choques que estão para além do campo meramente
conceitual, atingindo inclusive o campo fático. A crise da razão, da filosofia
como formadora de valores sociais é anterior ao fenômeno da pós-
modernidade. É no final do século XIX e inicio do XX que inicia-se a crise
dos valores modernos ocidentais. A ruptura desses valores não se deu,
como nunca poderia ter se dado, da noite para o dia- necessita-se de um
comprometimento maior das estruturas envolvidas. Parece que a
modernidade vem se diluindo na pós-modernidade.

1.4. Uma questão de método: a inserção da filosofia


do direito no debate pós-moderno

O direito por ser fato social deve ser analisado dentro de contexto, dessa
forma as alterações culturais ocasionam mudanças diretas e indiretas no
próprio direito, como a forma em que os juízes aplicam a lei, como o
legislador cria a norma, dentre outros- essa é a historicidade do direito.
Portanto, nessa obra filosofia do direito destina-se a analisar a “vivencia do
direito como cultura”- o que o diferenciará a o que será realizado aqui de
mera narrativa histórica é que se colocará em cheque a transposição dessas
duas eras do direito, pergar-se-a a informação dada pelo historiador e a
comparará com a “totalidade da existência do homem”. Busca-se indagar se
há uma continuidade nos processos de mudança do direito ou se esse se
parte em varias épocas distintas e isoladas.

2. A configuração da modernidade
2.1. O espírito modernidade

Como o termo representa o futuro que o presente deseja foi adequada para
demarcar o período que se basearia na racionalidade e na liberdade- era
um período que buscava desesperadamente a superação dos dogmas
renascentistas. Emerge no século XVII, e principalmente na Europa vem
marcado pela ideia de progresso. O termo possuía ideologias por trás que
traziam a ideia, hoje tido como errada, da liberdade trazida pela
modernidade.

Termos associados com a ideia de modernidade encontram-se na p. 34


ultimo paragrafo e pg 35.

Graças a conexão entre o termo modernidade e progresso houve a


tendência ao pensamento de que essa modernidade seria irreversível no
tempo e espaço, mas demandou também uma mudança de valores sociais,
culturais e políticos sustentada por ideais filosóficos que reconfiguraram as
relações sociais na Europa, mas que por fim se tornaram universais.
Buscava-se a liberdade de circulação de mercadorias e da liberdade de
pensamento que foi se concretizando a partir do século XIII e XIV, mas é
nesse mesmo momento que nasce o germe da corrosão da modernidade: a
crença excessiva na razão e o anseio pela liberdade.

A crença religiosa é transferida para a crença cientifica. O próprio conceito


de natureza é modificado, sai de sua ideia transcendental e passa a ter
característica de algo que se possa fruir, invertendo-se a relação que o
homem tinha com a mesma, transformando o primeiro em predominante
buscando atingir a dominação do homem sobre os meios. Afirma ainda que
o processo de destruição atual muito tem a ver com esse processo de
dominação. A razão instrumental (pragmática) colocado em função da
produção foi responsável por diversos desvios da própria modernização- de
acordo com Horkheimer a filosofia desse período nada mais se tornou do
que um plano de ação cuja a verdade passa a ser o sucesso da idéia (p. 40)

2.2. A construção intelectual da modernidade: os


arquétipos filosóficos

Em primeiro momento deve-se notar que os conceitos englobados dentro da


ideia de modernidade, assim como ela própria, foram construídas durante
um longo processo histórico e filosófico. Diversos autores filosóficos
atribuem a diferentes momentos a preponderância do domínio da razão.
Pode-se presentificar porem o conjunto de ideia que deu origem a esse
fenômeno: de acordo com Jean Boudin a ideia de legalidade esta ligado a
capacidade do poder do soberano, se torna um meio basilar para a criação
do Estado moderno, dando margem a uma das bases filosóficas modernas
de que sem um comando central é impossível a formação de um sociedade
moderna; outro autor fundamental seria Maquiavel que inicia o afastamento
da ética e da política- manda que o principio separe suas ideias ético-
subjetivas da ações que esse deveria tomar como poder soberano- trouxe
as preocupações politicas mais praticas, sendo assim os fins justificariam os
meios.

Hobbes- pensamento busca a unidade do poder do Estado- leviatã esta


acima de todos por se colocar a serviço da unificação dos laços frágeis entre
os cidadãos- em sua visão a pena de morte e recursos extremos para a
manutenção da ordem são justificáveis para que o homem não termine por
eliminar o homem quando esses estivessem no estado de natureza.

Smith e Locke- surgem os fundamentos do liberalismo moderno através da


ideia de mão invisível. Por utilizaram-se de mecanismos de acumulação
permitiram o crescimento e fortalecimento da burguesia, que buscava a
solidificação da ideia de Estado. Essas teorias visam mover o mercado,
cujas regras funcionam melhor se em conjunto com as regras de Estado.
Pensavam que quanto mais amplo for o circulo comercial, mais progresso
haverá, pois cada um se dedicaria a uma tarefa em especial. A preocupação
com o crescimento e progresso são a base do individualismo burguês.

Para Smith o progresso é a regra que instaura e estimula a competição,


nesse o sujeito individual começa a se desenvolver- nesse quadro so a
pessoa pode dar o melhor de si, sendo essa a formula do progresso. Ideia de
que subsdesenvolvimento é uma fase por essa visão esta errada, ele é um
erro. Na verdade os países subdesenvolvidos são os que não aceitam o
progresso. Para Smith as relações jurídicas seriam o cimento das relações
sociais- o direito vem para fixar a liberdade econômica da burguesia,
impedindo que o estado venha a intervir nesse ponto.

Montesquieu- levanta a necessidade da tripartição dos poderes, que é


construída através do paradigma de legalidade e unidade de uma
constituição que representa as forças sociais e os interesses gerais da
sociedade. Sem a divisão das tarefas atividades do Estado compromete-se a
capacidade estatal de produzir e distribuir justiça.

Rousseau- teoria contratualista e suas inspirações jusnaturalistas- vem


ensinar a liberalização das concepções limitativas do poder do Estado- já
que nem a soberania nem e o hobbesianismo era suficientes para equilibrar
as tensões e diferenças das classes sociais. Ele busca a democratização do
poder- vontade geral e soberania popular, sendo os exercentes do poder
apenas os representantes do povo- cria as limitações do uso do poder pelo
soberano, sendo que, contrariamente a Hobbes, não ve mais o soberano
como acima da lei, mas como um fiel cumpridor dela.

Kant- inaugura o criticismo, mostrando a impossibilidade do racionalismo


adentrar a esfera da metafisica- traz o idealismo moral, a liberdade como
premissa ética do dever e o direito como instancia capaz de regular as
liberdades individuais atritantes. Propoe a máxima liberdade e
responsabilidade individuais. Ele traz as grandes bases do direito moderno,
nas quais uma liberdade individual encontra sua limitação na liberdade do
outro, e para a autonomia da razão na condução e realização do dever.
Hegel- razão e estado se concretizam através de seu idealismo, mas o
estado é a expressão máxima da razão. Ve no direito o momento em que a
razão determina a liberdade, já que por ele que o comportamentos dos
vários sujeitos são regulados- fixa limites entre o justo e o injusto, o licito e
o ilícito. Consolida a perspectiva de racionalização e tecnização modernos.

Marx- desigualdades sociais e exploração são seus temas centrais- inaugura


uma analise critica da politica e da economia. Constata que as riquezas da
nação estão sendo dirigidas a uma só classe. Sua critica revolucionaria ao
capitalismo em direção ao comunismo, mostrando a necessidade de uma
revolução social e econômica. O ideal comunista é uma resposta ao
imaginário ideal da modernidade.

O ilusionismo da razão ocorrido nessa fase que fez com que seus filósofos
idealizadores perdessem a critica por suas próprias concepções, não afastou
a possibilidade de erro.

2.3. A domesticação do mundo pela ordem: a


eliminação da ambivalência

A razão pauta todo o projeto moderno. A ordem aparece como a projeção da


razão para ordenar as dimensões da vida, tanto social como individual. À
modernidade se colocou a tarefa de criar a ordem. Busca-se, graças a
racionalidade e a busca por ordem, moldar a realidade. Todo o dado da
natureza passa a ser moldado pelo já “construído” da razão. A ideologia da
modernidade é “o domínio mais extremo da palavra que se exprime em
uma forma de mundo”(pg. 55). Medir o mundo e coloca-lo em uma ordem
buscada pelo ideal moderno. Essa ordem é a escravização das coisas à
vontade humana. Aonde não há essa ordem, há a ambivalência, ou ate o
caos, que o descontrole que a razão não consegue alcançar. O único calculo
que não foi feito no projeto ordenador moderno é o controle do refugo. O
fim da ambivalência é causadora dos abalos que vieram desestabilizar a
própria modernidade.

2.4. O Estado, a burocracia a lei e a organização


burguesa do mundo

A forma de reafirmação dos interesses burgueses, da realizabilidade do


liberalismo politico e a fortificação do mercado são direito, a legalidade, o
Estado e a burocracia. Estado moderno “corta e recorta, assim como molda
e controla pragas”.

Com o aparecimento do pensamento kantiano e seu categórico (ética do


dever pelo dever), há um crescimento da subjetividade, da individualidade e
da racionalidade- coloca o ser humano como o regente desse dever. A
liberdade passa a ser a peça fundamental da constituição dos espaços
sociais e logo da necessidade de criação, sagração e proclamação dos
direitos.
Ao pensarmos o direito como neutro e pacificador das relações sociais o
destacamos de sua origem que é burguesa e liberal. Na verdade a
modernidade traz as bases firmadoras do direito: monopólio da produção
normativa; a sobrevalorização das fontes formais do direito e a reafirmação
do direito como um sistema em si mesmo. O direito define a própria forma
organizacional do poder. Aqui nasce a burocracia, que nada mais é que a
expressão máxima da literalidade das regras, dos procedimentos e das
instituições jurídicas. Há um relação entre o surgimento do Estado moderno
e a forma legalista na qual o direito é visto hoje. A dominação jurídico-
racional é o modelo fundante das relações estruturais do corporativismo
jurídico-burocrático. De acordo com Weber a dominação burocrática está
inscrita em todas as partes.

O laissez-faire se aplica exclusivamente a economia, pois o direito, a politica


e clinica são ligados ao controle, à exclusão e à condenação. O humano é
visto como uma parte descartável e invisível do sistema- houve na
modernidade uma inversão de valores, uma substituição dos mesmos. Para
a riqueza ser acumulada algum custo social deve ser dado em contrapartida
para a alimentação dessa mecânica.

A docilização dos corpos e sua perfectibilização, na visão foucaultiana, fez


com que esse cumprisse sua função de força laboral parece ter sido o
grande instrumental para a manutenção das instituições liberais, burguesas,
controladoras e repressoras da modernidade. Na modernidade busca-se
uma normatização como instrumento de homogeinização dos
comportamentos. Essa normatização faz parte da normalização da qual o
direito tem função essencial. Direito na modernidade é opositor do Estado,
assim como codificador da unidade massificadora de comportamentos
sociais. Há um paralelismo entre o surgimento da codificação e a ampliação
da exclusão social na qual a anormalidade é tratada com severidade. Direito
passa a funcionar como uma espécie de sistema garantidor do sistema
econômico nascente. O positivismo já é tao parte do direito que o se torna
indispensável sua compreensão para o entendimento da logica sistemática
do direito- o direito é tao tecnizado que na modernidade parece que ele
apenas pode ser visto como positivo, e tudo que se encontra fora seria
idealismo. Tudo o que não pode ser comprovado racionalmente passa a não
poder ser conhecido. De acordo com Castanheira Neves a filosofia do direito
se viu superada pelo positivismo. Isso tem sua demonstração na teoria
kelsiana e sua hierarquização das leis. Códigos passam a ter algo de
sagrado na logica da perfeição moderna- direito passa a ser apenas o
agrupamento de todas as normas jurídicas.

Expressões do poder do direito: pg 66.

2.5. O positivismo e a sagração jurídica do espirito


da modernidade:

Como a transição da era pré-moderna para a era moderna deve se fazer


com base no instrumental jurídico, o progresso material deve se fazer
simultaneamente ao progresso dos saberes jurídicos, o que so pode ser feita
com superação da era metafisica e a entrada da era positivista (Comte).

2.6. As idéias de legalidade e de ordenamento jurídico: paradigmas


modernos de ordem e sistematicidade

I. Art. 5º, II CF – Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer


alguma coisa, senão em virtude de lei. Trata-se da linha mestra do
direito constitucional.

II. Decorre da noção de estado de direito – concepção liberal-burguesa


de domesticação do poder pelo direito. O principio da legalidade é
tido como um libelo anti-arbítrio e pertence ao ideário do Estado
Moderno: regras pré-determinadas regulam a ação dos cidadãos e do
Estado (regras determinando criação das regras – sistema,
autopoiese).

III. Noção de legalidade, de ordenamento jurídico sistematizado nas


fontes, escalonado, hierárquico, rígido, positivado, etc. remonta à
tradição kelseniana sobre o sistema jurídico, visão que perdurou pelo
século XX.

IV. Método de Kelsen: (i) A metodologia da ciência deve trazer a forma


de saber capaz de isolar-se de contaminações externas para produzir
objetos delimitados e circunscritos; (ii) Reflexões jurídicas centradas
na validade; (iii) Redução do direito às regras postas pelo Estado
(contra axiologia); (iv) Impossibilidade de fundamentação do sistema
piramidal e hierárquico por princípios externos ao direito.

V. Nessa linha, a pouca preocupação com a justiça faz da realidade


normada o consenso em torno do qual devem gravitar as polêmicas
dos juristas – tendência anti-ideológica da teoria pura.

VI. A legalidade é conceito do século XIX. É um produto histórico de


antes de Kelsen, que data da consolidação da ordem burguesa, da
hegemonia do capitalismo, do racionalismo positivista, do liberalismo
político - tal contexto demanda um direito seguro, rígido, formal, que
permita a ação do mercado.

VII. Já lei e código são noções que vem desde a antiguidade. A invenção
da modernidade é a legislação como meio único do direito.
Emergência simultânea de constitucionalidade e legalidade com a
modernidade (delimitação dos poderes do Estado). Do período
medieval ao moderno, a lei vai ganhando mais força que as demais
fontes do direito e mitiga sobretudo os costumes, até então forma
prevalente nas decisões judiciais.
VIII. A lei corresponde a uma série de anseios, tendo seu papel agigantado
na distribuição da justiça: controle do poder soberano, soberania
popular e representatividade, necessidade de normas de conteúdo
previsto ou previsível, urgência na distribuição de competências no
Estado burocratizado, uniformidade de poder numa base territorial
fixa, etc. Daí vem a noção do século XIX de que a lei constitui todo o
direito.

IX. Trata-se de uma simbiose entre estado do pensamento jurídico e


condições sócio-contextuais que culmina no ambiente propício ao
positivismo teórico e prático. Nessa linha, ordenamento é sinônimo
de sistema e lei é sinônimo de ordem e isso é tudo que o Estado
precisa para cumprir suas funções e aspirações como verdadeira e
perfeita máquina de engenharia social (Boaventura de Souza Santos).
O Estado converte-se em verdadeira unidade natural da
transformação e intelegibilidade social.

X. A idéia de que a lei é senso comum teórico dos juristas é fruto de


uma concepção ideologicamente identificável e determinada: as
idéias burguêsas-capitalistas-liberais. O longo uso da ideologia leva a
resistência de setores sociais, notadamente classes jurídicas, em
enfrentar mudanças sócio-contextuais não previstas pelo ideário
novecentista acerca da política, do direito e do Estado.

XI. Assim, os novos conflitos: (i) Ou são ignorados pelo Estado; (ii) Ou são
controlados pelos meios tradicionais, o que aumenta a
conflituosidade social; (iii) Ou o Estado reconstrói a lógica do sistema
abolindo as formas tradicionais na questão social para atingir seus
fins. O estado positivista, alienado, em meio a crise de paradigmas
não acompanha as mudanças à sua volta.

XII. Paradoxo: desmonte da estrutura estatal, com prevalência da


ineficácia e expansão do caráter explosivo dos conflitos sociais , em
meio a um Estado que continua a viver na linguagem abstrata e
conceitual, privatista e individual do século XIX. Boaventura de Souza
Santos identifica um paulatino aumento na discricionariedade dos
organismos judiciais, legislativos e burocráticos com vistas a manter
o padrão de dominação – positivismo incapaz de lidar com questões
como as trazidas pela sociedade de classes. Isso leva a reduções
simplificadoras que levam a um enclausuramento da consciência
jurídico-política ante as inovações do século XX. A pós-modernidade
traz consigo fluxo ininterruptos de mudança social.

XIII. Bittar: Na pós-modernidade, o sistema jurídico carece de sentido,


rumo e, sobretudo, de eficácia técnica e social. Isso porque se
estruturou em paradigmas modernos já caducos para enfrentar a
litigiosidade contemporânea. A noção de justiça resta assim
contaminada pela falsa percepção da realidade. Lentes do
ordenamento ainda estão ajustadas à miopia do século XIX (que
brega!).

XIV. No século XX o que se verifica no direito internacional é um conjunto


de tentativas de estabelecimento de uma codificação escrita e
sistemática. No plano interno, o Legislativo aparece inchado em
relação aos demais Poderes. No direito comparado, verifica-se uma
explosão legislativa pelo mundo, sobretudo após 1950. Já no século
XXI se contrapõe a desregulação a antiga necessidade de
regulamentação; microssistemas a um sistema completo e sem
lacunas ante o grande número de leis ineficazes para a sociedade.
Busca-se mais eficácia que validade e mais sentido prático e social
que forma.

2.7. O desmoronamento dos arquétipos modernos: o balanço


histórico

I. O século XX é marcado por uma profunda ambivalência. De um lado


ele era marcado pelas promessas de avanço econômico e científico
enquanto por outro apresentou uma imensa proliferação de conflitos.

II. Desmoronamento dos anseios da modernidade, falência do que se


pregava como solução para a humanidade – apesar de no século XX
terem sido consolidadas codificações em diversos países, de se terem
multiplicado os países democráticos, de terem sido inúmeras as
tentativas de paz mundial nada impediu situações que levaram a se
vislumbrar um extermínio geral da humanidade.

III. O pós-moderno foi se construindo ao longo de todo o século XX com


cada fracasso da promessa da modernidade, sobretudo as que
tomaram lugar nos países centrais.

IV. Instaura-se um contexto de crise, alguns sinais de transição


traumática entre duas épocas bastante distintas. A crise que é
oferecida pela modernidade é justamente a demonstração das
desrazões modernas.

3. A descrição da pós-modernidade

3.1. A pós-modernidade: conceituação e definição

I. O termo pós-modernidade é contestado por autores como Beck - que


prefere modernidade reflexiva - e Balandier - que prefere a expressão
supermodernidade. Além disso, a designação pós-modernidade é
plurívoca, associada a concepções divergentes.

II. Não há acordo também sobre o marco inicial da pós-modernidade.


Habermas e Harvey identificam que ela teria emergido nos anos 60 e
ganhado forças ao longo dos anos 70. Nesta década surgem como
concepções fortes: a filosofia da existência, a desesperança nos
projetos da modernidade, desencanto do mundo, a idéia de absurdo.
A queda da modernidade associada a uma sensação de passagem
lançam olhos críticos na racionalidade moderna, que leva ao
vislumbre de uma análise dos resultados trazidos pela modernidade.

III. A pós-modernidade não trouxe a superação completa da


modernidade. Os valores desta ainda permeiam em grande medida
as práticas institucionais e sociais. Origem da noção de um viver
intertemporal – passado erodido e presente multifário.

IV. A pós-modernidade, segundo Bittar, deve ser entendida como o


estado reflexivo da humanidade ante suas próprias mazelas, capaz
de gerar um revisionismo completo de seu modus actuandi et
faciendi, especialmente considerada a condição de superação do
modelo moderno de organização da vida e da sociedade. A pós-
modernidade é menos um estado de coisas exatamente porque ela é
uma condição processante de um amadurecimento social, político,
econômico e cultural que haverá de alargar-se por muitas décadas
até sua consolidação.

3.2. A diversidade dentro da pós-modernidade: a formação


filosófica do discurso pós-moderno

I. São muitas as formas de se conceber a pós-modernidade. Há até


aqueles, como Rouanet, que nega a pós-modernidade, afirmando que
a humanidade sequer teria atingido a modernidade.

II. Mesmo em meio a esta turba de indefinições pode-se perceber: (i) A


história da filosofia contemporânea revela traços progressivos de
uma crítica à modernidade; (ii) A filosofia contemporânea, em grande
parte, tem se agrupado em tendências de filósofos pós-modernos ou
antipós-modernos; (iii) a filosofia contemporânea, que reconheça ou
não a pós-modernidade, quer se aproprie ou não deste termo, está o
tempo todo considerando dialeticamente o diálogo pós-moderno na
constituição de sua linguagem.

III. Bittar empreende uma história das idéias que abriram espaço para a
modernidade. Ele começa citando Nietzsche, passando por
Wittgestein e pela escola de Frankfurt até Habermas. Cita também a
importância de franceses como Focault, Deleuze e Sartre. Nada de
muito inovador com partes ininteligíveis. Segundo Bittar, a primeira
visão consciente do que seria de fato a pós-modernidade vem com
Lyotard, que batiza a discussão dos arquétipos modernos e a
decadência do saber universal.

III.3. Jean-Fraçois Lyotard: referencial e marco teórico para a


pós-modernidade

I. A contribuição de Lyotard vem nos pós-meio de 68, pós-guerra


fria, numa chamada tradução do fim das grandes narrativas. Sua
teoria não é um sistema para fazer frente aos problemas da pós-
modernidade, mas um fundamento para uma mudança de
perspectivas teóricas que fomenta as reflexões posteriores.

II. O autor empreende um reestudo da idéia de jogos de linguagem


sem guardar pretensões de um universalismo teórico.

III. Lyotard entende que estudar a pós-modernidade é desapegar-se


das influencias medievais modernas dedicando-se à compreensão
de práticas da linguagem por meio das quais interagem atores
lingüísticos uma vez que isso se reverte em capacidade para
produção de compreensão e entendimento sociais. Ele pretende
desvelar as incertezas da pós-modernidade a partir da
incredulidade das metanarrativas modernas. O desuso da meta
narração para legitimação corresponde à crise da filosofia
metafísica e da instituição universitária que dela dependia.

IV. Lyotard não é universalista. Suas reflexões voltam-se para as


sociedades contemporâneas ocidentais abertas para a vivencia
capitalista. O autor é também contrário às magnitudes abstratas e
igualitaristas nos campos social e jurídico.

V. As idéias de Lyotard são marcadas por um caractere das


sociedades pós-modernas nos países centrais: a idéia de povo
deliberador, detentor de toda a soberania (em contraposição ao
Estado moderno). Para ele, uma nova cultura deve fazer surgir
novas referências contra-modernas, que geralmente fundam-se
num senso comum, valor atualmente em desuso.

III.4. Pós-modernidade, modernidade reflexiva, modernidade


líquida, modernidade radicalizada ou hipermodernidade:
diálogos inacabados.

I. São várias as teorias acerca da pós-modernidade, mas estas podem


ser agrupadas nas seguintes tendências: (i) Pós-modernismo radical –
a pós-modernidade irrompe uma nova ordem de valores, afirmando-
se sobre a modernidade; (ii) Modernismo radical – nega a morte da
modernidade, tendendo a dela extrair algum tipo de continuidade;
(iii) Pós-modernismo estratégico – conciliadora das duas correntes
anteriores, encaminha o diálogo para uma somatória de forças entre
as épocas e ideologias.

II. Mais uma vez ele perpassa a contribuição de muitos autores. Textos
meio initeligíveis sobre Bauman, Beck, Giddens, Habermas, etc.

III. Da análise das diferentes posições desses autores, Bittar extrai as


seguintes reflexões: (i) Há um consenso quanto as mudanças em
curso; (ii) Há um consenso quanto a indeterminação destes tempos
com mudanças institucionais e na avaliação dos debates; (iii) Há um
consenso quanto ao fato de que a pesquisa sobre os tempos
presentes ainda estão em pleno processamento; (iv) Há uma
confusão entre autores modernos e pós-modernos entre o que se
deseja que as coisas sejam e entre o que as coisas realmente são.

III.5. O que é a pós-modernidade?

Se não há um consenso teórico acerca da pós-modernidade, pode-se aferir


algumas transformações recentes que abalaram a modernidade. Bittar
aponta seis:

I. Franco comprometimento das idéias de progresso e ordem ante a


vivência das experiências contemporâneas (guerras, genocídios,
etc.). Isso substitui a idéia do desenvolvimento a todo custo pelo
desenvolvimento sustentável e responsável.

II. Torna-se cada vez mais indefensável a defesa da razão instrumental,


a serviço da produtividade e do crescimento a medida que se
expande a compreensão da ética de consenso e da deliberação como
fontes primárias de construção de decisões corporativas e
participativas dentro das dinâmicas sociais.

III. Perda da identificação da razão como instrumento ou força opósita à


dimensão da crença em face do desprestígio das ciências
relativizadas pelo excessivo grau de especialização do conhecimento
e pelo relativismo de idéia/opiniões e eficácia de resultados.

IV. Mitigação da crença na justiça do mercado que vem sendo substituída


pela idéia de justiça social.

V. Baixa na aposta do investimento na indústria em contraposição ao


crescimento dos investimentos em serviços, o que provoca alteração
das relações sociais.

VI. Fim da centralização das atividades sociais na atuação do Estado


ante a ineficiência das políticas públicas e o desaparecimento da
dicotomia sociedade civil/Estado/terceiro setor.

A partir de tais fatores, Bittar defende que não persiste a modernidade –


vigência de um estado transitivo.