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DEMOCRACIA, MEIO AMBIENTE E MOBILIDADE URBANA

Contribuição ao debate
Eu acredito que devido ao avanço da comunicação global, grandes transformações irão
acontecer no mundo nas próximas décadas. Nos anos sessenta, eu e parte da minha
geração víamos na “democracia” apenas uma etapa na transição para o socialismo. O
tema “meio ambiente” sequer aparecia nas nossas discussões. Hoje democracia e meio
ambiente, são questões centrais na pauta mundial. O que está acontecendo norte da
África, a partir da insurreição popular no Egito é sem dúvida a retomada da luta dos
povos pela democracia. Nos últimos anos o planeta viveu grandes tragédias, e hoje já
está inserida na agenda internacional, a necessidade de definir políticas que
efetivamente combatam o efeito estufa e as emissões de poluentes. Nas grandes
metrópoles, grande parte desta poluição tem origem no transporte em geral, e em
especial na operação do transporte público, que lança diariamente grandes quantidades
de monóxido de carbono e dióxido de carbono na atmosfera. A redução da poluição do
ar nas grandes cidades é hoje o grande desafio de todos. Nas últimas décadas, têm se
investido muito no desenvolvimento de novas tecnologias para motores e combustíveis
menos poluentes. Porém, em termos de políticas públicas, a ação do poder público ainda
é muito tímida e com certeza há muito que fazer. Nos anos oitenta, eu fazia parte de um
grupo de planejadores de transporte, que participou da implantação nas grandes cidades,
de um sistema mais racional no transporte urbano, com terminais de integração
alimentados por ônibus pequenos, linhas troncos com a utilização de veículos de maior
capacidade. Em Campinas, foram realizadas diversas reuniões com organizações de
usuários do transporte público nos bairros, culminando com uma grande assembléia
popular onde se decidiu a implantação desse novo modelo no Terminal Ouro Verde.
Sem dúvida, esse novo sistema era mais racional e mais econômico na sua operação. No
entanto, trazia algum desconforto às pessoas devido à necessidade de um transbordo nos
terminais. Hoje eu penso que este sistema está superado, ou ao menos saturado na
maioria das cidades. Um equívoco dos gestores do transporte público, onde também me
incluo, foi o fato de considerar os verdadeiros financiadores deste sistema, como
“usuários” e não como “clientes”. Quase sempre, nossas ações ainda hoje, são pautadas
por uma ótica econômica, visando preservar o equilíbrio econômico dos operadores e
desconsiderando às vezes, a capacidade de pagamento da população. O que me espanta,
é a maioria dos municípios, ainda utiliza a cartilha do GEIPOT para o cálculo da tarifa.
Esta cartilha, formulada na década de oitenta, basicamente indexava os diversos custos
do transportes ao valor do ônibus. O objetivo era orientar os municípios a calcular os
custos do transporte urbano, por serem deles, a responsabilidade de definir a tarifa do
transporte público. Com as ferramentas da informática disponíveis hoje, temos
condições de avançar na gestão do transporte público, em questões que à época era
impossível. Se não avançarmos, se não dermos um salto de qualidade neste momento,
poderemos ter problemas semelhantes ao que aconteceu nos anos noventa, quando o
aparecimento do transporte clandestino, que pelo vale transporte transportava os
passageiros com mais conforto, direto aos seus destinos, tirou do sistema formal cerca
de 30% dos passageiros. Para avançar, temos romper com alguns dogmas. Temos que
rever a planilha que calcula os custos do transporte público, que ainda traz na sua
concepção parâmetros da cartilha do GEIPOT. Temos condições hoje de separar os
custos do transporte do valor da tarifa. É possível o operador, que é na verdade um
concessionário de um serviço público importante, ter uma remuneração justa e uma
tarifa de acordo com a capacidade de pagamento da população. Temos que investir na
melhoria do transporte público e neste particular, uma grande oportunidade e um grande
desafio será a realização da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
Dependendo da nossa eficiência, nos encaminhamento das ações necessárias,
poderemos obter os mesmos ganhos que Barcelona teve após a realização das suas
Olimpíadas. Temos que resolver a questão da mobilidade urbana nas cidades que irão
participar, implantando melhorias nos sistemas de transportes, utilizando as tecnologias
modernas, como VLT, VLP, BRT e outras que hoje estão disponíveis, adaptando às
características locais e aos projetos em andamento. Outro dogma é o combate ao
automóvel como única solução para os grandes congestionamentos e a melhoria do
transporte público. Esta tese tem seu lado positivo, mas como impedir que milhões de
pessoas que nos últimos anos entraram na classe média no Brasil, deixem de realizar o
sonho de ter um automóvel? Nas grandes cidades, existem regiões bem servidas pelo
transporte público, e outras não. Temos que continuar investindo na melhoria do
transporte público, mas temos também que regulamentar o uso racional do automóvel.
Restringir em algumas regiões e facilitar em outras. Segundo o especialista em
transportes Maurício Thesin: “Para melhorar a mobilidade urbana, é preciso resolver
o primeiro e o último quilômetro dos clientes do transporte público”. Acredito que seja
este, seja o caminho a seguir. Temos que assegurar o desenvolvimento de políticas
públicas, tendo por foco a geração de empregos e a proteção ambiental. Com isso,
garante-se que o transporte não seja um fim em si mesmo, mas uma forma de levar
democracia e cidadania, considerando peculiaridades e potenciais das diversas regiões
do país. O transporte público pode e deve colaborar com o meio ambiente e restabelecer
de fato a democracia para seus clientes.

Keiji Kanashiro

Especialista em transportes foi Secretário de Transporte e Logística de Mato Grosso do


Sul e Secretário-Executivo do Ministério dos Transportes