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Os conceitos de Gilbert Simondon como fundamentos

para o design
Jorge Lucio de Campos e Filipe Chagas∗

Índice “O homem está agora começando a


aprender a lidar com esse mundo conceitual
1 Um breve perfil biográfico 2 ao recorrer novamente à sua capacidade
2 Os objetos técnicos 2 imaginativa”.
3 Individuação, transdução, concretiza- V. Flusser
ção 4
4 Realidade técnica e realidade ambien- Novas problemáticas impõem à filosofia
tal 6 novos desafios: o de redefinir, por exemplo,
5 Fundamentos para o design 8 as relações entre o homem e a máquina, en-
6 Referências bibliográficas 10 tre a natureza e o artifício, numa sociologia
da inovação que não vê na técnica apenas um
instrumento a serviço de interesses ideológi-
cos, mas também um importante espaço de
“A ferramenta corta precocemente a mão mediação. Herdeiro de Jacques Latiffe,1 o
humana para dar nascimento à máquina”. pensador francês Gilbert Simondon foi um
A. Leroi-Gourhan dos responsáveis por esse redirecionamento,
cujas idéias vêm ganhando uma visibilidade
“A operação técnica é uma operação que
cada vez maior no cenário filosófico.
coloca em jogo as leis verdadeiras e a
Sua teoria da individuação exerceu
realidade natural. O artificial é de causa
uma influência aguda sobre pensadores
natural”.
como Jean Baudrillard, Georges Friedman,
G. Simondon
Abraham Moles, Gilles Deleuze e Bernard

Jorge Lucio de Campos é Doutor e Pós-Doutor Stiegler. Este ensaio se propõe, mesmo
em Comunicação e Cultura (História dos Sistemas de que concisamente, apresentar esta teoria e
Pensamento) pela UFRJ (1996). Mestre em Filosofia
(Estética) pela UFRJ (1988). Graduado em Filosofia marcar sua inserção no universo do design,
pela UFRJ (1981). Professor do Programa de Pós- buscando, desse modo, contribuir com o
graduação (Mestrado) em Design da ESDI/UERJ. 1
Filósofo que preconizava, em 1932, o desenvol-
Filipe Chagas é Aluno do Programa de Pós-
vimento de uma ciência das máquinas, a mecanolo-
Graduação em Design (Mestrado) da ESDI/UERJ.
gia, que estudaria os processos evolutivos dos objetos
Designer graduado pela ESDI/UERJ.
técnicos industriais.
2 Jorge Lucio de Campos e Filipe Chagas

espírito de revisão e de reavaliação ora em Entre seus escritos se destacam L’individu


curso neste campo de atividade. et sa genèse physico-biologique –
L’individuation à la lumière des noti-
ons de forme et d’information (“O indivíduo
1 Um breve perfil biográfico2
e sua gênese físico-biológica: A indi-
Nascido em Saint-Etienne, França, em 2 de viduação à luz das noções de forme e
outubro de 1924, Simondon cedo se interes- de informação”, publicado em 1964) e
sou pela maneira como as inovações científi- L’individuation psychique et collective (“A
cas e tecnológicas eram recebidas pela soci- individuação psíquica e coletiva”, publicado
edade. Aluno no Liceu do Parque em Lyon em 1969). Ambos integravam sua Tese da
e na École Normale Supérieure (1944-8), qual se originou sua obra principal Du mode
foi professor no Liceu Descartes, em Tours d’existence des objects techniques (“Do
(1948-55), onde fez os cursos de Física e modo de existência dos objetos técnicos”,
de Filosofia. Georges Canguilhem,3 Martial publicada em 1989).
Guéroult4 e Maurice Merleau-Ponty5 estive-
ram entre seus professores.
2 Os objetos técnicos
Doutorou-se em 1958, habilitando-se
como docente da Faculdade de Letras da Simondon organiza as idéias desta última em
Universidade de Poitier (1960-3), de Letras torno de três centros: no primeiro, aborda,
e Ciências Humanas da Universidade de Pa- fundamentalmente, a relação entre o homem
ris (1963-9), e de Psicologia da Universidade e o objeto técnico, no segundo, a gênese e a
de Paris V (Sorbonne, 1969-84). Escreveu evolução propriamente dita dos objetos téc-
ensaios em cadernos de pedagogia e de psi- nicos e, no terceiro, a essência da tecnici-
cologia, contribuindo para o estudo de novos dade. De início, avalia o mal-estar recor-
processos de ensino e aprendizagem de cul- rente na sociedade contemporânea relativa-
tura técnica. Os derradeiros anos de sua vida mente aos conhecimentos técnicos - atitude
foram marcados por um sofrimento psíquico que ensejaria a coexistência entre uma pos-
que o levaria a antecipar sua aposentadoria. tura dita tecnofílica e outra dita tecnofóbica
Faleceu em 7 de fevereiro de 1989. – como algo explicável em função de um
2
Sarro, 2000. desconhecimento geral da natureza dos ob-
3
Filósofo e físico francês especialista em episte- jetos técnicos. Enquanto alguns de nós dese-
mologia e filosofia da ciência, principalmente da bi- jariam conhecê-los (e adquiri-los) numa ten-
ologia. Contemporâneo e colega de classe de Jean tativa de acompanhar o fluxo tecnológico e
Paul Sartre e Paul Nizan, preocupou-se em instituci-
impedir sua obsolescência, outros – rotula-
onalizar o conhecimento da medicina e da biologia
enquanto ciências, buscando seus históricos e concei- dos de “conservadores” - não assimilariam,
tos. com a mesma facilidade, as inovações pro-
4
Historiador francês da filosofia no século XVII. vindas dessa área.
5
Filósofo francês do século XX que abrangeu em Mais adiante, sob a luz do conceito de
sua obra contribuições extremas acerca da fenomeno-
evolução criadora de Henri Bergson6 e da
logia, ao colocar o ser humano como centro da dis-
cussão sobre o conhecimento. 6
Filósofo francês, prêmio Nobel de Literatura de

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análise gestaltiana7 dos fenômenos psicobi- na qual o homem teve total contato com o
ológicos, levanta uma hipótese sobre a gê- mundo. Essa fase atingiria um estado de sa-
nese (ou a ontogênese) daqueles objetos, de- turação rematado por uma bifurcação entre
finindo o processo pelo qual eles adquirem técnica e religião. Posteriormente, a técnica
certa autonomia e uma forma própria de in- se subdividiria em techné e epistéme e a re-
dividualidade. Segundo essa linha de racio- ligião, por sua vez, em dogma e ética 9 . A
cínio, seria possível traçar uma evolução his- partir do império romano, a tecnicidade ga-
tórica das técnicas nos seguintes termos: nhou força, progressivamente, até os dias de
1a . fase - Pré-história (fase “mágica”) hoje, passando por três estágios: 1o .) o do
2a . fase - Primeiras civilizações (escrita8 , elemento (das ferramentas, dos instrumen-
metalurgia, etc.) tos) que iria até o século XVI; 2o .) o do in-
3a . fase - Grécia antiga (filosofia da técnica e divíduo (das máquinas) desenvolvido nos sé-
mitologia) culos XVIII e XIX; e 3o .) o do conjunto (das
4a . fase - Império romano (urbanismo e ad- indústrias, das redes) ocorrido já no século
ministração) XX.10
5a . fase - Idade Média (peso da religião, sur- Mais adiante, Simondon leva em conta a
gimento das universidades) resistência aos modos de pensamento téc-
6a . fase - Renascimento (racionalismo, em- nico no meio não-técnico (a magia, a reli-
pirismo, humanismo) gião, a estética), pois acredita que somente
7a . fase - Revolução industrial (máquinas) uma análise da gênese dos objetos técnicos
8a . fase - Séculos XX e XXI (informática,
e do conhecimento de seus modos de exis-
energias e biotecnologia)
tência não é suficiente para solucionar o des-
Suas origens remeteriam a uma fase “má- conforto cultural por eles suscitados. Para
gica” (primitiva, pré-técnica, pré-religiosa) o francês, o objeto técnico teria sido inven-
1927, que escreveu, em 1907, L’évolution creatrice tado, independentemente de qualquer deter-
(“A evolução criadora”). No livro apresentava uma minação econômica, histórica e social, via-
explicação alternativa para o mecanismo evolutivo de bilizando, na presença da realidade humana,
Darwin, sugerindo que a evolução é motivado por um uma relação sem dominação, numa espécie
“ímpeto vital”, também entendido como impulso cria-
de meio associado de evolução correlativa.
tivo natural da humanidade. Na mesma obra, faz uma
releitura do tempo e acaba sendo uma referência para No fim, ele trata a individuação como um
o desenvolvimento das teorias neodarwinistas. conceito que poderia reconciliar e integrar
7
Gestalt é uma palavra de origem alemã. Surgiu a realidade técnica à cultura universal para
em 1523 de uma tradução da Bíblia, significando "o harmonizar as máquinas e as técnicas aplica-
que é colocado diante dos olhos, exposto aos olhares".
Adotada no mundo inteiro, significa um processo de
das aos seres humanos.
dar forma ou configuração, uma integração de partes 9
Simondon sugere que a separação entre a téc-
em oposição à soma do todo. nica e a religião resultou no fim da fase mágica na
8
Vilém Flusser também coloca a escrita como qual ambas eram faces de uma unidade perdida. Ele
um divisor de águas na história evolutiva da socie- crê que o homem está numa busca constante de reto-
dade humana. Sobre a invenção da escrita, ele diz: mada dessa fase, sendo a arte, de certa maneira, uma
“(...) encerrou-se a pré-história e começou a história tentativa nessa direção (Schneider, 2000).
no sentido verdadeiro (...) ela produz a consciência 10
Vargas, 1999.
histórica.” (Flüsser, 2007, pp. 132-3)

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4 Jorge Lucio de Campos e Filipe Chagas

Ao ler Du mode d’existence des objects te- ação coletiva e de concretização mecanoló-
chniques, percebe-se logo que sua intenção é gica.13
nos conscientizar acerca dos sentidos conti- De forma geral, individuação é o nome
dos por aqueles objetos. A máquina passa a dado a processos pelos quais os “indiferenci-
ser vista como o que aumenta o fator de ne- ados” se tornam “individuais” ou a processos
guentropia. Em termodinâmica, tal termo é em que componentes “diferenciados” se tor-
um sinônimo para “força de coesão”, sendo nam “indivisíveis” como um todo. Este con-
descrita, por Wiener,11 como uma tradução ceito aparece em vários campos de estudo,
física da informação. Sob esta ótica, por- seja na sociologia, na psicologia, na filosofia,
tanto, a máquina passa a ser vista como esta- na teologia ou na biologia. Em economia, in-
bilizadora do mundo, organizadora dos siste- dividuação se assemelha a especialização e
mas psíquicos e, eventualmente, sociais e hu- aumenta a eficiência da divisão de trabalho,
manos, opondo-se à tendência natural à de- servindo como meio para indivíduos encon-
sordem e à degradação energética.12 trarem vantagens comparativas no mercado.
O termo foi redefinido por vários intelectu-
ais de diferentes áreas, como Arthur Schope-
3 Individuação, transdução,
nhauer, Sigmund Freud, Friedrich W. Nietzs-
concretização che e Charles Darwin. Simondon, Stiegler e
Com freqüência, os objetos técnicos são de- Deleuze são alguns filósofos que narram o
finidos como aqueles que foram construídos, processo de individuação. É na psicologia
artificialmente, mediante um propósito hu- analítica de Carl G. Jung que encontramos a
mano e dotados de um sentido de acordo explicação para esclarecer seu significado. 14
com suas implicações utilitárias. Aqui, por- Para Jung, a individuação é um processo
tanto, se constrói um hiato entre os objetos central no qual o ser humano evolui de um
técnicos e os naturais, pois a gênese des- estado infantil de identificação para um es-
tes últimos ocorre, independentemente, da tado de maior diferenciação e ampliação da
vontade humana. Em L’individuation psy- consciência. Assim, o indivíduo se identifi-
chique et collective, Simondon problematiza caria menos com as regras do meio em que
esse hiato simplista e forja uma síntese entre vive e mais com as orientações emanadas
a forma de vida natural e a tecnicidade, para de sua essência (totalidade da personalidade
compreender a posição da técnica no mundo individual). Esse processo não entraria em
e sua evolução: são os conceitos de individu- conflito com a norma coletiva do meio no
qual o indivíduo se encontra, já que, para que
11
Doutor em Ciência da Computação e versado em ocorra, é preciso que o ser humano tenha se
Lógica e Física, o americano Norbert Wiener (1894-
1964) visualizou a informação como quantidade de
adaptado e esteja inserido com sucesso den-
matéria e energia, contribuindo assim para os avan- tro de seu ambiente, tornando-se um membro
ços da computação, da cibernética e das telecomuni- ativo de sua comunidade.
cações. 13
12 Andrade, 2001.
Sarro, 2000. 14
Cf. verbete “Individuação” em Wikipedia (por-
tuguês).

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Simondon teorizou a individuação nos indivíduo técnico que “é” esta máquina ou
processos técnicos.15 Para ele, no pro- aquele objeto, mas o processo de individua-
cesso de individuação progressiva (opera- ção que “surge” por meio da série dos obje-
ção de transdução ou de “individuação em tos técnicos. Isso os aproximaria da noção de
progresso”), o sujeito individual é conside- indivíduo presente na biologia, em que cada
rado como um efeito da individuação, e não indivíduo constitui um conjunto de disposi-
como sua causa. Conseqüentemente, o pro- tivos articulados que formam um corpo em
cesso torna-se ontológico, permanente e in- separado.
completo, sempre deixando um “resíduo pré- A partir da observação de determinadas
individual” capaz de futuras individuações. máquinas se percebe que a trajetória de vá-
Cada fase ou patamar atinge um equilíbrio rios objetos técnicos resulta numa tendência
metastático e possui um potencial de criação progressiva à indivisibilidade e à articulação
de novas formas ou de invenção de novas so- funcional compatibilizada do conjunto dos
luções sem, no entanto, eliminar as antigas: elementos que o formam. No início, os ob-
“O indivíduo é individual e continua a se in- jetos são considerados abstratos ou artifici-
dividualizar”.16 ais, uma vez que os homens precisam, cons-
Ao criticar a teoria cibernética de Wie- tantemente, intervir para garantir seu funci-
ner, Simondon começou a desenvolver uma onamento. À medida que ocorre essa evolu-
"fenomenologia geral” das máquinas. Para ção, a necessidade de participação humana
ele a “matéria que funciona” não seria ob- diminuiria e o objeto perderia sua artifici-
jeto da física, mas da mecanologia de Latiffe. alidade essencial. O objeto técnico con-
Para se tornar um indivíduo, o objeto técnico creto resulta em um corpo plenamente ajus-
necessitaria adquirir uma condição especial, tado, cada vez mais miniaturizado e reticu-
denominada por ele de concretização.17 Os lar, guardando várias semelhanças com os
parâmetros para se avaliar a atividade técnica seres vivos. Ele não precisa mais de um
seriam outros: os índices de produtividade e suporte exterior que possibilitaria seu rendi-
a capacidade de intervenção pontual de uma mento. Ao contrário, ele poderia existir tanto
máquina não determinariam sua eficiência, isoladamente quanto em associação com ou-
mas a passagem de um estado de artificia- tros objetos, pois sua constituição integrada
lidade e de desarticulação para uma sinergia e sinérgica o faria prescindir de um suporte
complexa dos componentes internos do ob- exterior, ficando aberta a possibilidade para
jeto. uma conceituação diferente dos objetos téc-
Portanto, os objetos técnicos não devem nicos, em que sua importância residria me-
ser entendidos como peças destacáveis (“este nos em uma funcionalidade restrita (automa-
ou aquele objeto”), mas sim como resultados ção) do que no potencial criativo de compa-
de diversos desenvolvimentos em processos tibilidades internas do objeto.
contínuos de evolução. Interessante não é o Através dos motores seria fácil perceber
15
essa evolução.18 O motor de avião é um ob-
Cf. verbete “Gilbert Simondon” em Wikipedia
(inglês). 18
A evolução dos motores também é usada como
16
Simondon apud Sarro, 2000. exemplo por Paul Virilio em seu L’art du moteur (“A
17
Andrade, 2001.

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jeto técnico mais concreto do que o motor de tituição, enquanto os objetos técnicos bus-
carro (seu antecessor), uma vez que aquele cariam, ao final de sua evolução, adquirir
não necessita de refrigeração por água, sendo essa condição, tornando-se semelhantes e
este um recurso que implica numa regulação complementares. Tecnicamente falando, se-
externa sobre o objeto. A necessidade do ria uma evolução dirigida para o homem,
dispositivo de refrigeração representa a falta mesmo que esta individuação ocorra de uma
de articulação entre as engrenagens internas forma espontânea e não voluntariamente.21
do objeto e demanda a intervenção pontual Assim, avaliar a constituição compatibi-
de um elemento externo dotado de uma fun- lizada e sinérgica dos objetos e seus dispo-
ção única e não-essencial. No objeto con- sitivos – não por uma perspectiva utilitária
creto, tal apêndice regulador desaparece e ele e antropocêntrica – aproximaria os parâme-
se aproxima, continuamente, da condição de tros de avaliação da esfera técnica aos do
ente natural e isso ocorre em todo processo mundo natural. Essa discussão aparece, cla-
evolutivo dos motores. Resumindo: quanto ramente, nos embates atuais relacionados às
mais um objeto técnico evolui por essência modernas inovações na área da biotecnolo-
(concretização ou superdeterminação funci- gia e da engenharia genética e às atividades
onal), mais ele se torna indivisível, plurifun- pró-ambientais.22
cional e próximo da individualidade em seu
sentido biológico.19 Em vez de relações pre-
4 Realidade técnica e realidade
visíveis, imóveis e dependentes, como as das
máquinas na fábrica ou das plantas na estufa, ambiental
a concretização dos objetos técnicos resulta- Nas pesquisas de biotecnologia, o mercado
ria em relações inesperadas e não programá- capitalista costuma desenvolver projetos que
veis. se revelam autênticos atentados contra a
Anne Fagot-Largeault20 disse, em um co- preservação ambiental e o desenvolvimento
lóquio de 1994, que o esquema evolutivo de técnico (vide algumas orquídeas híbridas).
Simondon não é neodarwinista, já que não Aquilo que parece ser um avanço tecnoló-
comportaria pressões de mutação ou de se- gico passa a corresponder a uma espécie de
leção, pois as soluções inadequadas não são perversão, tanto natural quanto técnica, que
eliminadas, conservando, contudo, uma hi- se traduziria na impossibilidade do objeto
pótese criacionista neolamarkiana que con- natural manter intercâmbios sustentáveis e
sidera que o indivíduo ou o organismo em dinâmicos com o seu meio.
formação participa, ativamente, de seu re- Uma flor criada em estufa, que só dá péta-
arranjo, de sua própria reorganização. Se- las e não pode gerar um fruto, é a flor de uma
res naturais seriam concretos desde sua cons- planta artificializada – o homem desviou as
arte do motor”), onde discute a amplitude das novas funções dessa planta de sua realização coe-
tecnologias e as novas relações criadas entre o homem rente, e agora ela não pode ser reproduzida
e sua realidade (Virilio, 1996). sem intervenção humana... assim a artifici-
19
Andrade, 2001.
20
Cátedra de filosofia das ciências biológicas e mé- 21
Sarro, 2000.
dicas no Collège de France, Paris. 22
Andrade, 2001.

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alização é um processo de abstração no ob- dições através das quais o objeto técnico não
jeto artificializado. Em contrapartida, atra- se afaste da natureza... Estou totalmente de
vés da concretização técnica, o objeto, ini- acordo com essa necessidade de adaptar o ob-
cialmente, artificial torna-se cada vez mais jeto técnico à natureza... (Kechkian, 1983.)
similar ao objeto natural (Garcia dos Santos,
apud Andrade, 2001). A realidade técnica é vista, comumente,
O pensamento ambientalista define, em li- por todos os setores sociais, como um es-
nhas gerais, os impasses entre o potencial paço de inovação inesgotável e de amplia-
técnico do homem e os cuidados com o am- ção quantitativa. Para Simondon, o auto-
biente. O desenvolvimento tecnológico e os matismo em sua utilização industrial (au-
aprimoramentos das tecnociências, acopla- tomação) possui um significado econômico
dos ao crescimento industrial, são vistos com ou social mais relevante do que sua signi-
potencial de destruição do ecossistema, uma ficação técnica, uma vez que o rendimento
vez que redefinem questões de segurança so- propriamente técnico seria pervertido por e
cial e ambiental. Portanto, mesmo não sendo submetido às ordens econômicas assenta-
causa direta da degradação do ambiente, o das. Utiliza-se o conhecimento técnico uni-
avanço técnico – composto por um infinito camente para fins de acumulação e perfec-
número de objetos fragmentados e depen- cionismo econômico, sem respeitar os parâ-
dentes dos imperativos humanos – é capaz metros técnicos de evolução e de eficiência
de gerar riscos latentes que incidem sobre os inscritos no processo de invenção e evolução
agentes sociais mais variados e, de maneira dos objetos (individuação da tecnologia). O
inusitada, se situa em uma posição de con- industrialismo sacrifica o avanço técnico, do-
corrência em relação às qualidades e poten- minando o objeto técnico como um escravo
cialidades da cultura. indefeso.
Simondon polemiza ao afirmar que os mo- O autômato perfeito23 corresponde à má-
vimentos que defendem o ambiente são in- quina auto-suficiente, ou seja, aquela cujo
sensíveis à realidade técnica, ou seja, inca- funcionamento dependeria, exclusivamente,
pazes de entender a técnica como parte das das articulações de seus componentes. No
questões ambientais e, igualmente, sujeitas entanto, ele lembra que uma das caracterís-
às interferências do industrialismo e do pro- ticas básicas dos objetos técnicos construí-
jeto de mercado capitalista. A maioria pro- dos pelo homem consiste no fato de que eles
cura a preservação da natureza, sem consi- são feitos a partir de informações que ad-
derar as condições de evolução da técnica, vém de seu exterior e lhe fornecem o sentido
como se fossem questões distintas, relem- de seu funcionamento. Uma máquina repre-
brando seus questionamentos sobre tecnofo- sentaria a materialização do pensamento hu-
bia e tecnofilia. Em suas palavras: mano, que forja conexões e as inscreve no
objeto. Dessa forma, a máquina não é um
Tudo que eu peço a esses movimentos (eco- 23
Um dos grandes mitos da modernidade consiste
logistas) é para não rejeitarem misticamente na metáfora do robô, uma máquina valorizada em vir-
a tecnicidade. Eles devem aprender com os tude de sua capacidade de sinergia interna incompre-
cientistas ecologistas, como Dumont, as con- ensível aos agentes exteriores (Andrade, 2001).

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8 Jorge Lucio de Campos e Filipe Chagas

ser fechado em suas engrenagens, mas um nejamento e no desenvolvimento dos obje-


sistema aberto, propenso ao diálogo e à troca tos do mundo moderno e, ainda, se apresenta
constante de informações. Objetos técni- como um processo de ordenação dos meios
cos automáticos não permitiriam tal diálogo de comunicação, no que diz respeito à se-
nem formas de exploração criativa por sacri- miótica e a transmissão de informação.
ficarem tanto as possibilidades de funciona- Com essa certeza, o historiador Rafael
mento quanto as utilidades possíveis, o que Cardoso coloca a crítica ao funcionalismo
os desvalorizaria dentro de uma perspectiva como uma meta prioritária do design e acre-
de perfeição técnica. Trata-se de um grandes dita que o designer precisa assumir sua tarefa
desafios da inteligência artificial. de atribuir significados extrínsecos aos obje-
Frente a toda essa situação, percebe-se tos, em vez de de se refugiar na idéia des-
que Simondon é mais otimista que Martin gastada da adequação forma/função ao bom
Heidegger24 (para quem a técnica seria uma objeto. Cabe o design conciliar qualidade,
“vontade de domínio” e um “meio de in- criatividade e viabilidade no projeto dos ob-
crementar o fazer”) e Jacques Ellul25 (para jetos úteis e isso tende a ter uma enorme im-
quem a cultura técnica seria um abuso de portância no mercado consumista.27
senso e de não-senso num sistema autônomo Em A evolução das coisas úteis, Henry Pe-
e anti-humanista).26 Ele viu a necessidade troski aponta diversos exemplos disso. Ques-
de salvar a técnica no mundo industrial. Da tiona também a doutrina do funcionalismo
mesma maneira que a problemática ambi- do design e introduz a idéia de que a falha é
ental implica em um projeto coletivo de to- importante para a compreensão dos proces-
mada de consciência e alteração nos padrões sos de concretização dos objetos. Ele apre-
de produção econômica e decisão política, senta o raciocínio de David Pye que diz que
os objetos técnicos precisam ser resgatados “a forma dos objetos criados é decidida por
em favor de suas próprias condições de ren- escolha ou então por acaso, mas nunca é, de
dimento e de eficácia. As duas dimensões fato, decorrência de uma outra coisa qual-
– a técnica e a ambiental – precisariam ser quer”:
unidas mediante práticas complementares,
O conceito de função em design, e mesmo
tendo a individuação como um fator de equi- a doutrina do funcionalismo, poderá merecer
líbrio metaestável. alguma atenção se as coisas invariavelmente
funcionasse. É, contudo, bastante óbvio que
5 Fundamentos para o design nem sempre funcionam. Na verdade, algu-
mas vezes penso se nosso motivo inconsci-
A diversidade de coisas feitas pelo homem ente de fazer tanto trabalho inútil seria mos-
aponta para a história de uma busca pela evo- trar que, se não somos capazes de fazer as
lução técnica dos objetos. O design se con- coisas funcionarem direito, pelo menos pode-
figura como uma peça quase ubíqua no pla- mos fazer com que tenham uma boa aparên-
cia. Nada do que projetamos ou construímos
24
Heidegger, 2002, pp. 11-38. realmente funciona. (...) Nossa mesa de jan-
25
Ellul, 1968, pp. 1-62. tar deveria ser variável em tamanho e altura,
26
Sarro, 2000.
27
Cardoso, 1998.

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removível por completo, imune a arranhões, Mas não é apenas no design de produtos
autolimpante e sem pernas. Nunca conse- que a individuação se encaixa. A definição
guimos um desempenho satisfatório. Tudo desse conceito em um dicionário (Aurélio)
aquilo que projetamos e fabricamos é um im- nos dá a base para o entendermos como fun-
proviso, um quebra-galho, algo inepto e pro- damento de design como um todo:
visório. (Pye, apud Petroski, 2007)
S.f . 1. Ato ou efeito de individuar(-se). 2.
Podemos encontrar falhas em qualquer Filos. Escol. Realização da idéia geral em
objeto comum se o analisamos com severi- cada indivíduo singular.
dade. Essa imperfeição onipresente, tão exa-
gerada por Pye, é o traço comum em todos Realizar uma idéia em cada indivíduo sin-
os produtos fabricados que impulsiona o de- gular é o objetivo do design. O design corpo-
senvolvimento de uma marcha evolucioná- rativo é um bom exemplo, pois oferece mais
ria. Na verdade, o que nos chama a atenção à companhia do que uma simples mudança
são as coisas que fogem à regra. É mais fácil visual. No entendimento da empresa japo-
detectar as diferenças do que aquilo que está nesa PAOS,30 o design não se limita às ar-
“certo”. Compreendemos, assim, a razão tes gráficas, à identidade visual, ao design
pelo qual falamos em um “design aperfeiço- de produtos ou de embalagens. Qualquer
ado” por meio de mudanças sucessivas, su- forma de expressão corporativa seria deten-
postamente, melhores. Um design pode ser tora de valor e de estética, e, conseqüente-
considerado bem sucedido quando se atinge mente, teria potencial para diferenciar a em-
um equilíbrio entre forma e contexto (uso).28 presa e seus produtos da concorrência.31
Em The meanings of modern design (“Os Alguns vêem isso como o próprio pro-
significados do design moderno”), Peter cesso de individuação do design, sendo o
Dormer crê que o futuro do design está numa branding um resultado de sua concretização
postura ética frente à sua produção e às suas enquanto uma área de conhecimento.
relações com o mundo. Uma vez que o pro-
duto de um designer pode ser desejado e tes- A razão dos nomes corporativos estarem por
tado, deve ter cuidados com o óbvio neces- todo o lugar é que o branding é a chave da
cultura comercial. Colocar sua marca em
sário, como a clareza de definição e de po-
tudo que estiver no conjunto é o coração do
tencial de uso, a segurança e a satisfação do
marketing moderno. Branding era inevitável.
usuário.29 Neste ponto, Dormer se aproxima Tinha que acontecer. No momento que a má-
de Petroski e Simondon. Para ele, o designer quina foi usada para produção qualquer um
deve ser um agente de transdução, ou seja,
30
deve enxergar os processos evolutivos do ob- Fundada por Motoo Nakanishi em 1968, a em-
presa colocou a prática do design dentro das estraté-
jeto técnico – suas imperfeições e seus aper-
gias de negócio e desenvolveu relevantes projetos de
feiçoamentos (individuação) – para alcançar identidade para grandes corporações japonesas, como
seu potencial máximo de utilização (concre- a Mazda, a Bridgestone, entre outras. Sempre inves-
tização). tiu, portanto, nos campos da teoria, da gestão e da
metodologia do design. Ver mais no site da empresa
28
Petroski, 2007, pp. 34-9. PAOS ou da Japan Design Consultant Associations.
29 31
Dormer, 1990, pp. 174-5. Rodrigues, 2006.

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10 Jorge Lucio de Campos e Filipe Chagas

que a tivesse poderia inundar o mercado com em estruturas preexistentes e um instrumen-


a sua própria versão de seu produto. (Twit- tal teórico-técnico eclético. Assim como Si-
chell, 1999, p. 166.) mondon diz que os objetos técnicos precisam
Por isso, diz-se que o branding representa sair da obtusidade e ter seus processos anali-
esse estágio atual de evolução da própria sados com seriedade, Chaves afirma que es-
marca, mais maduro. (Nunes & Haigh, 2003, tas práticas necessitam com urgência de um
p. 74) processamento analítico que resulte numa bi-
bliografia teórica específica, sólida e extensa.
Para o consultor em design corporativo
Flusser nos lembra do tempo que a es-
Norberto Chaves, as intervenções sistemá-
crita levou para ser assimilada pela huma-
ticas sobre a imagem das empresas e das
nidade.33 Isso indica que, para amadurecer
instituições experimentaram um significativo
e se consolidar como prática profissional le-
processo evolutivo, pois se multiplicaram até
gítima (mesmo que para isso seja preciso
o ponto da generalização, como forma re-
impor seus limites e assumir sua interdisci-
gular de gestão, excedendo seus alcances e
plinaridade), o design precisa de um tempo
marcos iniciais. Passa-se a falar em um
não-previsível, independente dos anseios so-
sistema interdisciplinar de ações que busca
ciais, políticos e econômicos.
construir uma proposta inovadora de iden-
O design poderia, portanto, até certo
tidade de marca através do estabelecimento
ponto, ser comparado a um objeto técnico
de imagens, percepções e associações pelas
que ainda necessita passar pelos procedi-
quais diversos públicos que influenciam uma
mentos da individuação e da concretização.
organização irão se relacionar com um pro-
A este respeito, as teorias de Simondon, ex-
duto, serviço ou empresa:
cedendo os limites do universo da filosofia,
Em conseqüência (disso), as práticas profis- teriam, sem dúvida, muito a esclarecer sobre
sionais vinculadas a estes serviços sofreram os novos termos de realização – ora em plena
modificações de envergadura similar: den- construção - do próprio design.
tro das disciplinas básicas – como o Design
Gráfico – consolidaram-se as especializações 6 Referências bibliográficas
nessa temática e se afirmou a tendência à in-
tegração interdisciplinar das distintas profis- ANDRADE, T. de. “Intersecções en-
sões que concorrem nos serviços globais de tre o ambiente e a realidade téc-
identificação institucional.32 nica: Contribuições do pensamento
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