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LEITURASCOMPARTILHADAS

EXEMPLAR AVULSO R$10,00 | DISTRIBUIÇÃO GRATUITA PA R A A S E S C O L A S D O L E I A B R A S I L | FASCÍCULO 6 | OUTUBRO DE 2002 | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR

MEDO
PREPARE-SE!
VOCÊ VAI ENTRAR
EM TERRENO PERIGOSO.
TRATAMOS DOS MAIS VARIADOS
SINTOMAS DO MEDO.
VISITAMOS A LITERATURA E O CINEMA.
BUSCAMOS TODAS AS SUAS CAUSAS:
ESCURIDÃO, VIOLÊNCIA, PERDA E MORTE.
CHEGAMOS AO PRAZER DO MEDO
E AO MEDO DO PRAZER.
COMECE JÁ! NÃO HÁ NADA A TEMER.
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Editorial p.3
Benita Prieto
O fascínio que as histórias de terror e mistério exercem sobre nós. p. 4
Leila Borges de Araújo
Araújo
Mary Shelley e a literatura fantástica. p. 8
Charles Feitosa
Feitosa
Como o medo pode ser sábio. p. 10
Tatiana Belinky
Conheça Nieta, uma moça que temia parecer medrosa. p. 11
Miriam Sutter
Fóbos, entidade mitológica. p. 12
Entrevista
Entre
O cordelista Gonçalv es F
Gonçalves err
Ferr eir
erreira da Silva
eira Silva. p. 14
José Durval Cavalcanti de Albuquerque
Albuquerque
Existirá um dia no qual tenhamos vivido sem o mais leve sentimento
de medo? p. 15
Irineu Eduardo JJ.. Corrêa
Eduardo
Violência: o medo, às vezes, supera a própria causa. p. 16
Entrevista
Entre
Zuenir Ventur
Ventura e uma cidade partida. p. 18
entura
Bárbara Ar
Bárbara anyl de La Corte
Aranyl
O depoimento de quem sofreu a síndrome do pânico. p. 20
Cássia JJaneir
aneiro
aneiro
Quando o medo pode seduzir. p. 22
Maria Clara Cavalcanti de Albuquer
Clara que
Albuquerque
Unidade de leitura. p.24
Entrevista
Entre
A autora da coleção “Quem tem medo?” , Fanny Joly
Joly, fala, em Paris,
Tatiana Milanez
com a jornalistaT Milanez. p. 26
Cacá Mourthé
Pluft, o doce fantasminha com medo de gente. p. 28
João Carlos Rodrigues
Filmes de arrepiar. p. 30
Filmografia p. 31
Filmografia
Ricardo Oiticica
Ricardo
O diálogo entre Álvares de Azevedo e Augusto dos Anjos. p. 32
Paulo Condini
Luizinho sofre com o valentão do ônibus da escola. p. 34
Roberto Corrêa dos Santos
Breve genealogia do medo na obra de Clarice Lispector. p. 36
Didier Lamaison
O pavor de falar um idioma estrangeiro. p.37
Rosa Gens
A força da literatura de terror e seus maiores nomes. p. 38
Thereza Lessa
hereza
Um escritor assombrado por fantasmas geniais. p. 41
Bibliografia p. 42
Bibliografia

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BÚÚÚ! “Se alguma espécie,


em qualquer tempo, não teve medo,
então essa espécie foi extinta. ”

Leituras Compartilhadas é uma publicação da


Quando escolhemos o tema dessa edição, pêlos arrepiados, e outros sintomas que são deri-
ONG Leia Brasil de Promoção da Leitura, distribuída
imediatamente nos ocorreu buscar o depoimento vações de medo, que também se desdobra em gratuitamente às escolas conveniadas à ONG.
Todos os direitos foram cedidos pelos auto-
daqueles que julgávamos sem medo: os evictos. pânico, fobia, pavor etc. res para os fins aqui descritos. Quaisquer repro-
Aqueles que, por estarem condenados por uma Estranhamente, o medo que nos ameaça é o duções (parciais ou integrais), deverão ser au-
torizadas previamente.
vida à reclusão; por viverem na total promiscui- mesmo que nos seduz. Os artigos assinados refletem o pensamento de
dade corroendo seu amor-próprio; por terem es- Drácula, o príncipe das trevas que visitava o seus autores.
Leia Brasil e Leituras Compartilhadas são
quecido as condições de sociabilidade e já não pescoço das donzelas em seus leitos desprotegi- marcas registradas.
terem mais qualquer esperança, são donos do mais dos tarde da noite, aterrorizava e seduzia com a
Editor: Jason Prado
absoluto “nada a perder”. mesma competência. Subeditora: Ana Cláudia Maia
Direção de Arte e Produção Gráfica: Barbara Necyk
Puro engano — se há vida, há medo. É um paradoxo: quanto mais ameaçadora a Projeto Gráfico: Thiago Prado
Consultor literário: Ricardo Oiticica
Logo descobrimos o conceito que norteia esse história ou a personagem, tão mais atraente a obra. Revisão: Sueli Rocha
Tiragem: 10.000 exemplares
número de Leituras Compartilhadas: se alguma O medo inspira a literatura, rende bilhões no
espécie, em qualquer tempo, não teve medo, então cinema e motiva dezenas de esportes chamados Leia Brasil – Organização Não Governamental de
Promoção da Leitura.
essa espécie foi extinta. radicais, onde o homem testa seus limites físicos Rua Santo Cristo 148/150 parte, Santo Cristo, Rio de Janeiro
CEP 20220300
O medo é o mais básico dos instintos e está e emocionais. Tel/Fax: 21 22637449 leiabr@leiabrasil.org.br
www.leiabrasil.org.br
ligado à sobrevivência. Na mitologia, Fóbos, o Deus do Medo, é
Não só à sobrevivência física, à dor e à morte filho de Marte, o Deus da Guerra. Curiosamen-
da matéria. te, sua face foi pouco interpretada pelas artes
Ele está ligado, também, à manutenção de ao longo da história. Talvez porque o medo se
uma situação confortável. Na psicologia, confor- propague e cresça sob o véu da escuridão e do
tável não é o que é agradável, mas o que não nos desconhecimento. Poderíamos até afirmar, di-
ameaça com mudanças. ante disso, que sua mãe seja a Noite, porque é
Vem daí o nosso medo de tudo: do desco- nesse horário que o medo mais se apodera da
nhecido, do novo e até da felicidade.E também mente humana.
do escuro, de altura, de solidão, do outro etc. O medo sempre esteve ligado ao olhar, tan-
Como se isso não fosse o bastante, o medo to pelo que se via quanto pelo que não se via: a
nos é ensinado caprichosamente, por tudo e por Medusa transformava em pedra a todos que a
todos, ao longo da vida.Quem nunca escutou dos viam. E todos os monstros — da Esfinge aos dra-
pais um grito tenso dizendo — “cuidado”. gões medievais, de Cérbero, o cão do inferno ao
Cuidado para não cair. Cuidado com estra- recente Fred Krueger — possuem graves distor-
nhos, com os bichos, com fogo... ções estéticas que ampliam sua capacidade ame-
Quantas histórias ouvimos na infância como drontadora.
as de Chapeuzinho Vermelho, Pedro e o Lobo e Prepare-se para ler sem sustos nem sobres-
o Homem do Surrão, para ficar só nas que nos saltos.
aconselhavam e não falar das que nos davam medo Desta vez vamos falar desse “gigante da alma”1,
como as cantigas de ninar? sob suas mais variadas faces, para ajudá-lo a livrar
Por isso, talvez, o medo nos cause tantas rea- seus alunos dos medos, até mesmo dos livros.
ções físicas como suor frio, taquicardia, boca seca,
paralisia, necessidade de fechar ou cobrir os olhos, 1 Emilio Mira y Lopez.

Georgii &Vladimir Stenberg


(1927) litografia em cores, detalhe.
Biblioteca Estatal Russa, Moscou.

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O FASCÍNIO PE
poderá se refletir em suas ações, quando for
BENITA PRIETO adolescente, adulto ou velho.
Aos poucos, a fantasia vai se organizar em
“A emoção mais forte e mais antiga do
um mundo de fadas ou de bruxas, de mons-
homem é o medo, e a espécie mais forte e mais
tros ou salvadores. A imaginação é muito rica,
antiga de medo é o medo do desconhecido. ” e as intensas e contraditórias emoções do dia
H. P. Lovecraft
podem se converter em imagens aterradoras
Estamos num novo século e a tecnologia durante a noite, nos sonhos.
se desenvolve cada vez mais. No entanto, so- Também a escuridão tende a se transfor-
mos ainda os seres que, maravilhados, ouvimos mar em tudo que representa o desconhecido,
histórias de feitos, façanhas, assombrações... num mundo que está começando a se orde-
Também aumentaram os veículos de comu- nar. A criança tem muita dificuldade de en-
nicação, com o surgimento do rádio, cinema, tender onde acaba o mundo de dentro e co-
televisão, computador. Cada um buscando, à meça o mundo de fora. A escuridão pode au-
sua maneira, relacionar-se com a narrativa. mentar essa dúvida e dar a possibilidade de
E, num caldeirão repleto de gêneros, te- que a imaginação, os sentimentos e as emo-
mos o desejo pelo medo. Querem a prova? ções reinem absolutos.
Pois perguntem a uma criança ou adolescente Nesse momento, pode-se utilizar a arma po-
que tipo de história quer ouvir e terão como derosa e ancestral que é o conto popular. Ele é
resposta um sonoro: TERROR! uma ferramenta valiosíssima a serviço do desen-
O medo é um sentimento básico que faz volvimento emocional da criança. Nesses contos,
parte do desenvolvimento emocional. Ele nos fala-se dos conflitos reais e imaginários que todos
acompanha ao longo da vida e vai adquirindo experimentam durante seu crescimento.
novas dimensões e características. Jacqueline Held no livro O imaginário no
Tudo já começa no nascimento, ou quem poder, apresenta idéias que são fundamentais
sabe antes, quando o bebê, que se encontra- para o entendimento da necessidade que te-
va numa situação de total aconchego e prote- mos dos contos fantásticos. Para ela “a narra-
ção, de repente, passa a conviver com um ção fantástica reúne, materializa e traduz todo um
mundo desconhecido, caótico e confuso. Logo mundo de desejos para transformar à sua própria
ele vai atribuir a esse mundo externo tudo que vontade o universo. Mas vai tocar o leitor ou o
lhe faz mal, como a fome, o frio, a ansieda- ouvinte se não for feito apenas de entidades ou seres
de. O mundo vai ficar dividido no que o sa- abstratos. O que torna vivo o fantástico é o cotidia-
tisfaz e lhe dá prazer e no que lhe provoca no com todos os seus diferentes aspectos”.
tensão, frustração e mal-estar. Podemos pensar nessas questões e re-
A criança passa por vários estágios. No lacioná-las com as histórias de medo, tanto
princípio, na sua fantasia, ela atribui poderes para adultos quanto para crianças. Como já
mágicos a seus pensamentos e desejos, não vimos anteriormente, se inserimos seres fan-
diferenciando o que imagina do que ocorre tásticos em um mundo que é nosso conhe-
na realidade. O que ela representa em ima- cido eles provocam angústia, pois há sem-
gens tem relação com a intensidade de suas pre a possibilidade de os relacionarmos com
tendências amorosas ou destrutivas e com sua o nosso real, mesmo sem percebermos. Mas
capacidade de tolerância à frustração. A qua- isso não causa grandes prejuízos e apenas vai
lidade dessa dinâmica será a medida dos te- possibilitar que vivenciemos todas aquelas
mores e dos medos que sente e, no futuro, sensações fortes, trazidas pela história, que se
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LAS HISTÓRIAS
resolverão num plano imaginário, preservan- E posteriormente servem para aprofundar o
do nossa integridade física. processo de amadurecimento pessoal, já que
Acontece que, muitas vezes, pais, avós, fa- neles estão em jogo emoções básicas.
miliares, amigos transformam o quase prazer Outra questão que nos parece muito inte-
que esses contos provocam em algo aterrador, ressante é de onde vem essa noção de sinistro
através da atmosfera de pavor construída, e pro- tão em moda atualmente?
positalmente criando um medo real, como se Em primeiro lugar, fala-se de uma indu-
algo pudesse acontecer. E muitos de nós já ção artística e literária ao medo que é provoca-
fomos vítimas desse terror na infância, quan- da pelo grotesco, já que ele é o exagero, ou
do ouvíamos que uma infinidade de monstros seja, o deformado, aquele que não tem forma.
podiam nos levar. Portanto há uma indução ligada à morfologia
Por isso deve-se tomar cuidado, não espe- ou iconologia literária facilmente identificável
cificamente com o conteúdo, mas com a forma nos fantasmas ou defuntos, por seu aspecto.
de utilização da história. Claro que estamos Essa idéia-núcleo de deformidade está na base
pensando em crianças que não estão traumati- de diversos arquétipos que se repetem inces-
zadas ou têm algum transtorno psíquico ou santemente nas expressões artísticas.
psicológico. O professor francês Marc Soriano Mas o prefixo negativo de (de)formidade
defende que “as crianças utilizam certo tipo de pode ser lido também como aquilo que está
imagens que despertam nelas ressonâncias afetivas contra a forma habitual. As personificações
para se ‘vacinar’ contra eventuais traumatismos”. deformes seriam aquelas que se contrapõem
Mas de onde vem esse fascínio pelas his- à realidade percebida ou que inclusive se
tórias de medo? aproximam dos mistérios da morte, do va-
O psicólogo Bruno Bettelheim nos expli- zio, do inapreensível.
cou o assunto a propósito dos contos de fa- Também há uma concepção degradada do
das, dizendo que são um meio de projeção grotesco, assimilada do aspecto disparatado,
dos instintos e problemas da criança. Através absurdo, extravagante ou grosseiro que vemos
deles são exteriorizados determinados confli- em muitos personagens.
tos da psique infantil, dando forma e corpo a Historicamente o grotesco já era conheci-
esses “fantasmas”. do na Antigüidade como podemos ver nas re-
Já Freud interpreta o sinistro como aquilo presentações mitológicas dos centauros, sáti-
que foi convertido em espantoso, mas que em ros, medusas... A literatura e a arte medieval
algum tempo foi familiar e conhecido. também estão povoadas de expressões grotes-
Da união das duas idéias podemos supor cas, por causa do tom religioso dessas artes e a
que o sinistro, contido nos contos de medo, conexão com o mundo sobrenatural e escato-
consiste em que tais “fantasmas” pessoais nun- lógico. Portanto o deforme é o que está além
ca nos abandonam de todo e nos revisitam da morte num duplo sentido: como carente
periodicamente, materializando-se na ocasião de forma (espíritos, duendes...) e como exage-
em que algum estímulo os evoque. Por detrás ro ou deformação (as visões do inferno, a ima-
do sinistro está, de forma encoberta um dese- gem do diabo com chifres e asas de morcego).
jo de algo proibido ou oculto. Em todo caso, mais que a deformidade, o
Por isso, nos primeiros anos de vida, es- conceito moderno sobre monstro está aproxi-
ses contos que tanto fascinam são importan- mado ao desconhecido e à surpresa. O mons-
tes, como uma forma inconsciente de exor- truoso é o contravalor da beleza, o espelho ou
cizar medos reais através de medos fictícios. o foco que ajusta a sua imagem ou, dito de
continua
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O FASCÍNIO PEL
outra maneira, a outra face da mesma moe- Agora podemos perceber que o dese-
da. É próprio do sinistro a sua presença la- jo pelas histórias de medo não é da atu-
tente, como na Cuca das cantigas de ninar, alidade. Esses personagens são os que es-
ou a necessidade de ocultamento, daí a im- tão no nosso imaginário e há muito tem-
portância dos heróis mascarados. Todos são po amedrontam e convivem com o ho-
pessoas com uma “pele de animal”, ou ani- mem, embora tenham trocado um pouco
mais com uma “pele de pessoa”, trazendo de feição.
de novo o mito. Nossos monstros de hoje estão basea-
Como exemplo de uma figura folclóri- dos em arquétipos antigos, mas mudaram
ca e sinistra, temos o “Homem do Saco”. de forma e até de endereço. Temos, por
Sua fascinação depende do seu mistério, exemplo, os alienígenas e até os psicopa-
seu ocultamento, e mesmo seus objetivos tas, bem verdadeiros, que passeiam pelas
não revelados. O que acontece é que essa cidades ferindo ou matando.
irracionalidade é assimilada rapidamente, Podemos conviver com todos os tipos
no campo moral, ligado à maldade e à de monstros, como os dos desenhos ja-
monstruosidade. poneses, os Aliens, os Dráculas, os
Mas a morfologia das aparições sinistras morto-vivos e os seres primitivos,
coincide também com o luminoso. Assim a nossos velhos conhecidos, que
presença de Deus é a intuição do desconhe- ainda existem nas peque-
cido, de uma força sobre-humana que pro- nas comunidades. E
duz pânico, estupor e fascínio, que causa ao todos podem ame-
sujeito experiências de diversos graus de pra- drontar, pois de
zer ou desprazer. Deus, em seus aspectos de alguma maneira
fascinante, excessivo, superabundante, apro- revivem os mi-
xima-se do conceito de grotesco no seu du- tos.
plo sentido como carente de forma ou con- E será que essas
tra a forma, contrapondo-se à normal. narrativas também não tra-
A experiência do sagrado se transforma zem embutidas as velhas fun-
à medida que a religião racionaliza a idéia ções de Propp? Através delas, não
do sagrado, em uma experiência do sinis- estaremos buscando como desenlace
tro, do não-conhecido, do inominável, que a recompensa, a descoberta do objeto má-
adota as rubricas literárias do fantástico, gico ou a reparação de um mal?
estranho, aterrador. Mas hoje nossos meninos não são os
Desse modo, o sinistro nos aparece mesmos. Têm um mundo de moderni-
como grotesco e o grotesco se reafirma como dades que os faz ver e sentir de outra
essa percepção irracional dos aspectos des- forma. Aprendem com mais rapidez,
conhecidos de nossa personalidade, como o quando têm acesso à informação e à es-
retorno ao proibido, provocado por estímu- cola. Podem ver o universo através das
los que têm alguma relação (metafórica ou telas dos computadores e dos televiso-
metonímica) com essa pulsão latente. res. Por isso muitas coisas se banalizam
A análise do medo, tendo como paradig- e sentimentos que deveriam ser preser-
ma a psicologia e a psicanálise, é muito ex- vados para toda a vida são esquecidos
tensa, mas não poderia deixar de ser aborda- ou nem são sentidos.
da, mesmo que, minimamente, nesse artigo. Não há mais o silêncio que possibi-

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LAS HISTÓRIAS
litava elaborar os medos internos. Nem doméstica para a morte selvagem.
existe o mistério e o encanto que rodea- Todas essas coisas se associam e para que
va as coisas. As relações vão ficando possamos pensar um pouco sobre o reflexo
frias e individualizadas. E a criança vai delas nas crianças, trazemos uma declaração
perdendo a oportunidade de imaginar. muito interessante do escritor Jesús Callejo que
Talvez dai venha a necessidade de ou- está no seu livro Los dueños de los sueños.
vir/ver o terror, que eles querem forte. Ele sugere que, nos tempos atuais, a Cuca
As histórias têm que ter muitos com- foi substituída pela opressão e comerciali-
ponentes de violência como o sangue, zação que é feita com o carinho, quando al-
ossos expostos, morte. Isso deve expri- guém diz para uma criança: Se não fizer tal
mir o desejo de algo muito mais horri- coisa, eu não vou mais gostar de você. As-
pilante que a própria crueldade da vida, sim a criança vai incorporar à sua grande
vista através dos diversos meios de co- lista de temores o de não ser querida por
municação. aqueles de quem ela gosta tanto e necessita.
Há um lado que pode ser saudável Esse será mais um dos conflitos psicológi-
quando atendemos o pedido: levamos cos que ela terá que vencer ao longo da vida.
contos que tenham os tais elemen-
tos do horror, mas também aju- BIBLIOGRAFIA
dem a recriar algum ambi-
ente mágico. Dessa ma- CALLEJO, Jésus. Los dueños de los sueños: ogros, cocos

neira estaremos, y otros seres oscuros. Barcelona: Martínez Roca, 1998.

mais uma vez, re- CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. São Paulo:

ligando esses ou- Palas Athena, 1990.

vintes a toda uma CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do folclore

ancestralidade. brasileiro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro/

Sem esse clima es- Ministério da Educação e Cultura, 1954. Literatura oral

taremos apenas contribu- no Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo:

indo para banalizar a morte, Editora da Universidade de São Paulo, 1984.

reforçando a violência que ve- COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. 2.ed. Rio

mos todos os dias em nossas casas, de Janeiro: Ática, 1991.

a qualquer hora, impassíveis, através HELD, Jacqueline. O imaginário no poder: as crianças

das centenas de notícias sobre o assunto. e a literatura fantástica. São Paulo: Summus, 1980.

Outro perigo é que, atualmente, (Novas buscas em educação, v.7)

construímos uma idéia de que somos LOVECRAFT, Howard Phillips. O horror sobrenatural

imortais. Quem sabe para abafarmos o na literatura. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987.

enorme pavor que temos de morrer. Essa Benita Prieto Engenheira, atriz, produtora, contadora de históri-
falsa idéia de imortalidade deve-se ao as do Grupo Morandubetá, especialista em Literatura Infantil e
Juvenil, e em “Leitura: teoria e práticas”. Autora do livro infantil:
aumento da expectativa de vida do ho- As “armas” penadas.
mem, através do avanço da medicina e
à modificação de nossos rituais, pois ge-
ralmente estamos sós em um leito de hos-
pital quando chega o nosso momento fi- “O medo é tão saudável para o espírito como o
nal. A morte não é mais compartilhada e, banho para o corpo.”
como diz Philippe Ariès passamos a morte Máximo Gorki 1868-1936 escritor russo

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LITERATURA FANTÁSTICA
histórias de fantasmas alemãs e francesas, Mary
LEILA BORGES DE ARAÚJO Shelley criou a história de Frankenstein na
Suiça, numa noite de insônia, no verão de
O medo é um sentimento universal e 1816. Segundo suas próprias palavras, Mary
muito antigo. Pode ser definido como uma “viu” nessa noite a cena central de sua histó-
sensação de que você corre perigo, de que algo ria: o jovem cientista apavorado diante da gro-
de muito ruim está para acontecer, em geral tesca criatura a que acaba de dar vida. Seu conto
acompanhado de sintomas físicos que inco- começava com a frase “Era uma noite lúgubre de
modam bastante tais como: palpitações, ton- novembro...”, que na versão definitiva do ro-
turas, sudorese, calafrios, falta de ar, boca seca, mance corresponde à abertura do capítulo V,
atordoamento, taquicardia, confusão mental, justamente aquele em que se narra o momen-
contrações musculares, sensação de que algo to em que a criatura de Frankenstein ganha
horrível está preste a acontecer. Quando esse vida. A primeira edição do romance data de
medo é desproporcional, irracional, com for- 1818. Mary Sheley ficou conhecida mundi-
tíssimos sinais de perigo, e também seguido almente por esta obra, cujos leitores ficaram
de evitação das situações causadoras de medo, fascinados com o fato da criação de um ser
é chamado de fobia. A fobia na verdade é uma com pedaços de vários cadáveres, de aspec-
crise de pânico desencadeada em situações es- to monstruoso e horripilante, que gerava um
pecíficas. Em nosso artigo não vamos abordar sentimento de medo intenso, mas ao mes-
fobia, mas sim apenas o sentimento de medo. mo tempo de curiosidade, fascínio por aque-
O medo na literatura gerando um fascínio em le ser sobrenatural.
vivenciar este sentimento. Para entender melhor sobre o fascínio
O sentimento do medo libera uma subs- pelo medo na literatura pode-se abordar o
tância conhecida como adrenalina, e isto sem- fantástico na literatura. E o que seria, então,
pre acontece quando passamos por situações o fantástico na literatura? Em Introdução à
de medo ou estresse. Quando há o alívio des- literatura fantástica, Tzevetan Todorov que
ta situação no nosso organismo, há a libera- afirma que “o ponto principal do fantástico é a
ção de outra substância conhecida como en- situação de ambigüidade”. As histórias que
dorfina, esta traz uma sensação de alívio e bem pertencem a este gênero nos deixam as per-
estar. O ato de fazer amor passa pelo processo guntas: Realidade ou sonho? Verdade ou ilu-
de liberação da adrenalina durante o ato e, são? Quando um leitor se depara com um
depois do orgasmo, a endorfina. Talvez por mundo que é exatamente como o seu, qual-
isso muitas pessoas tenham um fascínio por quer acontecimento que fuja às leis desse
algo que as faça sentir medo, é uma maneira mundo familiar cria a dúvida e a incerteza
de liberar tensões reprimidas, e ler contos ou sobre a possibilidade do fato ser ou não real.
romances que nos fazem sentir medo nos faz Todorov diz que “o fantástico ocorre nesta in-
bem. Algumas pessoas precisam passar por si- certeza (...). O fantástico é a hesitação experimen-
tuações de perigo para se sentirem felizes e sa- tada por um ser que só conhece as leis naturais,
tisfeitas. Poderia citar alguns esportes radicais face a um acontecimento aparentemente sobrena-
praticados pessoas e que são perigos e nos fa- tural. O conceito de fantástico se define pois com
zem liberar adrenalina. relação aos de real e de imaginário...”. O autor
De forma mais explícita ou menos, o sen- recorrerá a outras definições de fantástico
timento do medo já habitou os mais diversos afirmando que em algumas “cabe ao leitor he-
gêneros literários. Influenciada por leituras de sitar entre as duas possibilidades” e, em outras,

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“Convivo com o medo de morrer e ele


me fascina.”

AYRTON SENNA 1960-1994 Piloto de Fórmula 1


DESEJO
esta hesitação fica a cargo da personagem. O
limite entre o estranho e o maravilhoso é
apenas o tempo de uma hesitação. Essa he-
sitação que, segundo o crítico, é comum ao
leitor e a personagem, porém tem sua dura-
ção restrita ao momento da narração do fato.
A hesitação não só da personagem, como
também do leitor é a condição primeira do
fantástico.
Uma ressalva que o crítico faz às defini-
ções do gênero é a da insistência em colocar
o “critério do fantástico (...) na experiência par-
ticular do leitor”. Mais especificamente na ex-
periência de medo ou terror que ela é capaz
de provocar. Se a duração do fantástico é a
hesitação, então, estamos diante de um gê-
nero extremamente frágil, que pode se des-
fazer a qualquer minuto.
A literatura fantástica do século XIX sur-
ge como reação a um mundo em que o medo
não tem mais espaço diante da infalibilida-
de das leis postuladas pela ciência. A ciência
passa a ser o desconhecido, o fantástico no
mundo.Este mundo ordenado é substituído

O homem
por um mundo de ambigüidade, sempre
aberto para uma contínua revisão, tanto dos
valores quanto das certezas.
No século XXI, no entanto, seria isso que
deveria acontecer, a ciência acima de tudo, mas
as pessoas não param de ler e nem de assistir a
cenas que os conduzem e fazem sentir medo.
O homem ainda reage de maneira a querer sen-
em movimento.
tir esta experiência de medo.
Qual a explicação deste fascínio? A res-
posta seria a vontade de viver perigosamen-
te, liberando adrenalina para depois relaxar
com a endorfina e alcançar o prazer.
Próxima edição de
LEILA BORGES DE ARAÚJO Doutoranda em Psicologia da Edu-
cação – Universidade do Minho – Braga – Portugal, Mestre
LEITURASCOMPARTILHADAS
em Literatura Inglesa pela University of London e Mestre em
Psicologia pela Universidade Gama Filho- Coordenadora do
Curso de Letras do Centro Universitário da Cidade –
UniverCidade - Pesquisadora em Psicometria e Desenvolvi-

Assinejá!
mento Cognitivo – Universidade Gama Filho, Universidade
Estácio de Sá e Universidade do Minho

www.leiabrasil.org.br
9 assinaturas@leiabrasil.org.br
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A SABEDORIA
DO MEDO
conhecimento. O senhor precisa do servo
CHARLES FEITOSA vivo, para que sua autonomia possa se
constituir. Hegel é o primeiro filósofo da
Segundo uma definição antiga (Aristó- modernidade a mostrar que o poder não
teles), medo é a expectativa de um mal que se dá apenas pela administração do gover-
se avizinha. O medo pode se manifestar de no ou através de autoridades instituídas,
várias formas e graus, mas tem sempre uma mas principalmente como uma relação de
causa específica: medo de avião, de altura, força, como uma maneira de controlar
de escuro etc. Todos os animais sentem indivíduos, classes, povos, minorias, na-
medo, mas esse medo refere-se sempre a tureza ou os próprios desejos. O poder é
uma ameaça iminente (um predador, por uma forma de controle através da ameaça
exemplo). Somente o homem é capaz de constante de morte, uma exploração vio-
sentir medo mesmo que não haja risco à lenta do medo. Ora, que tipo de sabedo-
vista. Somente o homem é capaz de tremer ria pode haver então em uma atitude te-
mesmo no aconchego e na segurança da sua merosa que conduz à servidão?
sala de estar. Esse tipo de medo, especifica- É no medo do nada, na angústia diante
mente humano, não é provocado por ne- da morte, que Hegel vê a origem da sabedo-
nhum motivo determinado: não há nada ria. Não se trata de uma sabedoria científica,
em si que o justifique. Parece um medo de nem técnica, mas existencial. Para Hegel,
nada, mas é algo muito mais sério: trata-se embora o homem que teme se torne um ser-
do medo do nada, ou melhor, do “nada” vo, ele fez uma experiência que o impulsio-
mesmo se manifestando! nará para o futuro. A autonomia do senhor,
O medo é o começo da sabedoria, diz ao contrário, se revelará frágil, pois se sus-
o filósofo alemão Hegel (1770-1831) em tenta apenas na subjugação do outro. O ser-
uma famosa passagem da sua Dialética da vo aprende no medo que a morte é o “se-
dominação e da servidão (In: Fenomeno- nhor absoluto”, quer dizer, a morte tem po-
logia do espírito, Cap. IV) . Nesse texto der tanto sobre o servo como sobre o senhor.
Hegel descreve teatralmente um combate de No temor da morte o homem aprende algo
vida e morte entre dois homens, ávidos pelo acerca da sua finitude, pois ele treme e esse
reconhecimento de sua autonomia e inde- tremor faz com que todas as suas certezas,
pendência absolutas. Um deles irá até as verdades e valores precisem ser reexamina-
últimas conseqüências, empenhado em con- dos e revalorados. Diante da morte (uma
firmar sua liberdade; o outro vai hesitar ao possibilidade certa, ainda que a hora seja
considerar que a manutenção da vida é ain- incerta), todos os problemas têm importân-
da mais importante. Um tem medo e o ou- cia relativa, todos os projetos têm urgência
tro, não. Um vai abdicar servilmente da sua absoluta. O medo do servo é em certa medi-
DETALHE DE “MORTE E VIDA” DE GUSTAV KLINT (1916)

própria independência para se manter vivo; da um saber da finitude. Essa sabedoria do


o outro vai ser premiado, pela sua coragem medo tem o poder da transformação de si e
de correr riscos, com o poder. Um é o ser- do mundo, rumo à outras formas de liber-
vo: o outro, o senhor. dade, que não se baseiem mais nem na do-
É interessante notar que a partilha de minação, nem na servidão.
poder não ocorreria se o senhor matasse
o servo. Com a morte do outro, seria ve- Charles Feitosa Doutor em Filosofia pela Universidade de
Freiburg/Alemanha e professor da UNIRIO (Universidade Fede-
dada também a possibilidade de obter re- ral do Estado do Rio de Janeiro).

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MEDOS E MEDOS...
volta-e-meia se mete em toda sorte de “saias jus- - Ora se você tem coragem de se postar na
TATIANA BELINKY tas” das quais na verdade não precisaria. minha frente com seu cigarro, eu terei cora-
Bem, só pra dar um exemplo, vou contar gem de atirar!
Falar sobre medo é até fácil. Eu poderia um pequeno caso verdadeiro, que aconteceu Mas infelizmente ele não estava brincan-
falar do medo do escuro, do medo do trovão, com uma moça que eu conheci, há muito tem- do, e se plantou, todo pimpão, de perfil para
de fantasma, de vampiro, de bruxa, de cobra, po. O caso de uma jovem que não era medro- Nieta, com o cigarro – um “Minister” longo -
de lobisomem e de outros menos votados, até sa, mas era tímida, e tinha muito medo de “dar espetado entre os lábios.
mesmo do popular medo de barata. parte de fraca”, em especial diante dos rapa- E agora? Se a Nieta desistisse de topar o
Mas o medo de que eu quero falar é um zes. Vamos lá. desafio, passaria por medrosa, e isto ela, nos
medo diferente. Não é um medo racional, Aconteceu certo dia que esta Nieta – di- seus brios feministas, não podia permitir. Ou
nem irracional, nem mesmo o já conhecido gamos que este era o seu nome – estava em achava que não podia...
medo do medo. O medo de que eu estou fa- um daqueles parques de diversões e mostrou- Daí, ela pegou a espingarda de ar com-
lando é um medo todo especial: é o medo de se muito boa de pontaria no estande primido, com seus chumbinhos, e a levou ao
“parecer medroso”! de tiro-ao-alvo. Mas muito boa mes- ombro – sem qualquer apoio. Suspense ge-
O medo de parecer medroso resulta da in- mo, tanto que ganhou vários prê- ral, todos assistindo, meio receosos. E a
segurança que a pessoa – criança ou não – sen- mios, como um ursinho de pelú- Nieta não fez o que obviamente deveria
te, e que faz com que ela esteja a toda hora que- cia e até uma caixa de charutos, ter feito, que era mirar bem pra fora daque-
rendo se afirmar, demonstrar que não tem medo para aplausos dos admirados cir- le alvo difícil, resolvendo o assunto com um
disto, daquilo ou daquilo outro. Isto acontece cunstantes. inofensivo tiro no ar. Mas isto nem sequer
muito com a pessoa tímida, que acha que pre- E foi aí que aconteceu o ines- lhe passou pela cabeça. Na sua honestida-
cisa sempre provar alguma coisa a respeito de si perado. O rapaz que a acompanha- de – ou seria ingenuidade? – ela mirou o
mesma, do seu próprio valor. va, um garboso estudante de Medici- cigarro mesmo – do meio para a ponta, é
E que por isso mesmo na, resolveu testá- verdade – mas o cigarro, sim. Mirou e
la e provocou: apertou o gatilho – com tanta sorte (e ex-
- Como é Ni- celente pontaria) – que cortou o bendito ci-
eta, você que é tão garro pelo meio!
boa de pontaria, teria Vitória! Aplausos gerais para os dois
coragem de acertar com o bobos – a Nieta e seu desafiador. Dois
seu chumbinho um cigarro na bobos, sim – porque aquela exibição não
minha boca, a uns oito metros era um ato de coragem, que é o contrá-
de distância – ou teria medo? rio de medo, mas uma tola bravata dos
Assim desafiada, a Ni- dois jovens protagonistas.
eta retrucou sem hesitar E bravata, gente, não é coragem.
– na esperança, claro, Coragem seria vencer um medo verdadei-
de que ele estives- ro – e muitas vezes sensato e inteligente
se apenas brin- – em caso de extrema necessidade ou si-
cando: tuação-limite.
Imaginem só se o medo da Nieta, o de
parecer medrosa, resultasse em um ferimen-
to no rosto, ou mesmo no olho, do valentão
que provocou aquela cena? Ixi!

TATIANA BELINKY Escritora. Entre os seus livros estão: Coral


dos bichos e Mandaliques

ILUSTRAÇÔES DE FÊ PARA O LIVRO DOS DISPARATES DE TATIANA BELINKY, ED. SARAIVA

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FÓBOS,
a Discórdia; Éros, o Amor; e assim por diante.
São palavras divinizadas, ou melhor, são daí-
mones, “poderes divinos” que não possuem
propriamente um mito, mas que se constitu-
em como realidades divinas no e pelo próprio
nome que as designa. Quando se presentifi-
cam no íntimo do homem, os daímones são
sentidos como forças que ultrapassam e extra-
vasam o ser humano, pois um daímon é “o
rosto oculto da ação divina”. O medo, em gre-
go Fóbos (Phóbos)1, é uma dessas palavras: é um
daímon, uma força divina.
E é como um daímon que encontramos
Fóbos em Homero. Na Ilíada, Fóbos sempre
está presente quando Ares, o deus da guerra
sanguinolenta, o deus que se sacia de sangue
e de carnificina, o “matador de homens” está
em ação.
Ares instigava os troianos, Atena de olhos
brilhantes, os aqueus. Deímos (o terror) e Phó-
bos (o medo) estavam soltos, e também Éris ( a
discódia), a aliada-irmã de Ares matador de ho-
mens, o insaciável e incontido furor da san-
guinolenta carnificina … ( Il.IV, 399 sqq.)
No mundo da lógica lingüística, no en-
tanto, fóbos possui uma outra história. Em
sua origem ou etimologia, fóbos é um nome
de ação, derivado do verbo “fébomai” (phé-
bomai). Este verbo é empregado por Home-
algum mito específico do medo? Não, não há! ro no sentido de “fugir”, especialmente quan-
MIRIAM SUTTER
MICHELANGELO

Mesmo porque na linguagem dos mitos ou na do menciona um“grupo de pessoas que foge
“gramática” da consciência mítica as palavras tomado de medo, pânico ou terror. O senti-
Medo, pânico, terror, temor, horror, pa- não precisam necessariamente de uma “expla- do primeiro de fóbos é, portanto, “fuga”, mas
vor, fobia! A todo o momento nos confronta- nação discursiva”. Elas próprias, as palavras, fuga motivada pelo medo. Medo de enfren-
mos com estes sentimentos que nos inundam assumem o caráter de “seres míticos”, dotadas tar o adversário na luta, medo da violência
e assombram e nos parecem únicos e unipes- de um poder mágico, que as transforma em desenfreada de Ares, em última instância,
soais. Cada qual sofre os seus medos! Mas o uma espécie de força divina primitiva, de onde medo da violência de matar e ser morto. Sen-
que é o medo? A moderna ciência talvez te- emana e se corporifica ou presentifica tanto o timento e ação se fundem, e de seu sentido
nha já suas teorias e suas respostas, talvez não! ser quanto a ação ou sentimento que a palavra primeiro, “fuga”, fóbos passa a significar o
Mas antes do pensamento científico, a consci- designa. “No princípio era o Verbo …” próprio medo em si.
ência mítica, operando por uma lógica dife- Nos mitos gregos encontramos muitas Mas para a mentalidade mítico-religiosa,
rente, experienciava o medo e sentimentos se- destas palavras que designam paixões, quali- Fóbos, o medo, é um daímon, uma força exteri-
melhantes e os explicava por meio de uma lin- dades intelectuais, sentimentos: Mnemosýne, a or ao homem, e por isso personificada como
guagem própria, a linguagem mítica. Mas há Memória, a mãe das Musas é uma delas; Éris, um “demônio” divino. Hesíodo, poeta poste-

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UMA POTÊNCIA DIVINA


rior a Homero, confirma esta personificação invisíveis, estendeu-a sobre o leito conjugal e tração, qual seja, a concórdia, o consenso, o
na sua Teogonia. avisou a esposa de que saía para receber suas equilíbrio e, como tal, estava desde sempre
Na genealogia divina de Hesíodo, Fóbos homenagens cultuais na ilha de Lemnos. associada ao âmbito do amor e à deusa Afrodite,
como personificação do Medo recebe uma Afrodite imediatamente chamou Ares, que de cujo cortejo fazia parte. Personificada, tor-
filiação definitiva. Seu pai, como não pode- sôfrega e velozmente se precipitou ao encon- na-se a filha de pais antagônicos, Ares e Afro-
ria deixar de ser, é o terrível deus Ares, o fla- tro da amada. Estavam juntos no leito quan- dite, e ganha por irmãos Deímos e Fóbos.
gelo dos homens. Mas é então que a simbo- do subitamente se viram enredados na arma- Deímos, o terror que paralisa momentâne-
logia mítica nos surpreende e encanta. Sua dilha de Hefesto. Este logo chamou os deu- amente o homem, é irmão de Fóbos, o medo
mãe é Afrodite, a deusa da fecundidade, a ses para testemunharem a traição e a desonra do desconhecido que faz fugir.
personificação do instinto biológico que as- do leito conjugal. Para seu espanto, porém, Morte, vida, discórdia, concórdia, ódio,
segura a perpetuação das espécies e, conse- Apolo, Posídon, Hermes riram-se da situação amor, desarmonia, harmonia, medo, destemor
qüentemente, deusa do desejo sexual e deu- e convenceram Hefesto a soltar os dois aman- … constelam, assim, na linguagem mitopoéti-
sa do amor. tes, mediante um tipo de “indenização por ca, um complexo divino de opostos “aparen-
Hesíodo, todavia, só menciona a união de perdas e danos”. Libertos, Ares voltou para tados” e, justamente por isso, são símbolos de
Ares e Afrodite e os filhos que os dois deuses seu lar na Trácia; Afrodite, para Chipre, onde realidades paradoxalmente opostas e comple-
geraram. Mas Homero, na Odisséia (VIII, 266 as ninfas a banharam, untaram seu corpo com mentares, que subjazem à condição humana,
sqq.), nos relata um episódio pitoresco da óleos odoríferos e a vestiram com mantos des- ambígua em si mesma, ontem e hoje … e sem-
união amorosa de Ares e Afrodite. lumbrantes. pre. A nós, meros mortais, resta-nos a aventu-
Segundo o mito, Afrodite desposara em Indiscrições homéricas à parte, da união ra de descomplexificá-los, de harmonizá-los,
bodas legítimas o deus Hefesto, o deus fer- desses dois extremos antagônicos de um todo, sem fóbos, ou como diz a nossa poesia oral,
reiro, que confeccionava artefatos extraordi- pulsão de vida (Afrodite) e pulsão de morte “sem medo de ser feliz”.
nários em suas forjas divinas. Mas Hefesto (Ares), nascem Fóbos e seus dois irmãos: Deí- 1 Fóbos, em grego, possui muitos correlatos semânticos. Pâni-
era o único deus feio e fisicamente imperfei- mos (o terror) e a bela Harmonia. co (< panikós “do deus Pã ”, terror infundido pela aparição de
Pã) é um deles; déos, “medo dos deuses”, “temor respeitoso”,
to do Olimpo, pois era coxo. Além disso, Harmonia, etimologicamente, significa “o “reverência”; deíma, “temor” são outros, com outras nuances
pode-se dizer que também era “manco” psi- acordo”, “a junção das partes”. Harmonia é, semânticas.

quicamente, uma vez que fora rejeitado por portanto, outra daquelas palavras divinizadas MIRIAM SUTTER Professora da PUC-Rio, doutora em Língua e
seus pais, Hera e Zeus, ao nascer. Mas essa e personificadas que presentificam uma abs- Literatura Latina

já é outra história.
Certo dia, Hefesto rece-
beu a visita de Hélio, o deus
Sol que tudo vê, ao percor-
rer diariamente o mundo
em seu magnífico carro
dourado, puxado por cava-
los imortais. Hélio tinha
visto Afrodite e Ares quan-
do se amavam às ocultas no
próprio palácio de Hefesto.
O feio e coxo deus, julgan-
do que era desprezado por
sua imperfeição física, resol-
veu flagrar os dois amantes.
Confeccionou uma rede de
malhas inquebrantáveis e
DIVULGAÇÃO

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CABRA VALENTE DO CORDEL


Chegando perto da
cerca, tinha seu camara-
ENTREVISTA da, que o havia recebi-
do na noite anterior,
“Medo para Rafael
na porteira:
continuava um segredo,
- Ô rapaz, eu passei
pois aprendeu ser valente
por uma situação esta
teve que lutar tão cedo
noite. Uma situação
que na vida nunca teve
inaceitável para um ho-
qualquer sensação de medo.”
mem do sertão, acostu-
Do cordel Duelo de machos, de Gonçalo Ferreira da Silva mado a não temer coisa
alguma. Meia-noite,
A literatura de cordel reflete de forma quase quando fui atraves-
imediata, o cotidiano, as crenças e aspirações sar a gruta da Avó,
do povo brasileiro. Um povo, que em grande uma figura se agigan-
parte, raramente tem acesso a uma educação tou de maneira estú-
formal e aos livros. Narrativas jocosas, aventu- secreto. Ele não deixa exteriorizar o medo, a não pida na minha
rescas ou aterradoras mantêm viva essa tradi- ser no dia que tiver uma prova monstruosa. Pois frente. Só o pé
ção do nordeste levada ao sul-maravilha em na literatura de cordel não existe maior virtude - dava mais de um
caminhões e ônibus de migrantes. nem bondade ou beatitude - que a coragem de um metro.
O cordelista Gonçalo sujeito.” - Mais ou me-
Ferreira da Silva é um nos assim...
autor e um apaixonado Um amigo meu estava na casa de um com- E o sujeito mostrou o
pela literatura de cor- padre. Quando chegou perto da meia-noite, pé que se agigantava nas
del e pelo repente. foi aconselhado pelo dono da casa: sombras do lusco-fusco do
Em Santa Teresa, - Rapaz, você não devia viajar a esta hora, amanhecer. O amigo só
bairro histórico do é muito perigoso. Você vai passar pela gruta quis mostrar que medo é
Rio de Janeiro, ele da Avó. coisa de ocasião.
reúne um acervo in- E o outro, com fama de cabra macho,
comum de cordéis e retrucou: E perguntado se já sen-
promove encontros - Não, isso é coisa que não existe, é coisa tiu medo Seu Gonçalo respon-
com os denominados de leigo. de: “eu não sei se o que sinto é medo. Pelo que as
por ele acadêmicos Quando chegou na gruta da Avó, meu pessoas falam, o que eu sinto seria um princípio de
da Academia Brasi- amigo viu que tinha um camarada parado. De medo, mas como eu não tenho certeza, digo que não.
leira de Literatura de repente, a figura do sujeito se agigantou de uma Só de uma prova monstruosa”.
Cordel. Em meio a pe- maneira inaceitável, ficando com quatro ou cin-
quenas histórias do canga- co metros de altura. Aí ele teve medo, muito “Foi este mais um capítulo
ço, lendas brasileiras e his- medo. Quis correr, mas as pernas lhe negaram da maldade e tirania
tórias urbanas, ele pinçou equilíbrio. Ele ficou numa situação tal até que da história do nordeste
uma que fala do medo, ou ele acabou correndo de qualquer maneira. para ser contado um dia
melhor, da falta de medo O sol veio raiando às cinco horas da ma- que acaso for abordado
do homem do nordeste, que nhã, e ele ficou feliz pela vista da porteira do assunto de valentia”
segundo Gonçalo “por nature- cercado, da aproximação da casa. E disse:
Do cordel Labareda, o capador de covardes, de Gonçalo Ferreira
za não sente medo, e se sente é algo - Ah! Valeu-me Deus que estou em casa. da Silva

DETALHES DE XILOGRAVURA DE ERIVALDO PARA O CORDEL A CHEGAD


CHEGADAA DE LAMPIÃO NO INFERNO
INFERNO,, DE JOSÉ PACHECO

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NOSSO VELHO E
ESTRANHO CONHECIDO
nadas e, no entanto, verdadeiramente senti- direção de uma satisfação. Em seu princípio,
JOSÉ DURVAL CAVALCANTI das. São tantas as coisas que, mesmo sem este ser inerme sai de sua obscuridade através
DE ALBUQUERQUE existirem, existem o tempo todo. É o afeto do grito. Grito esse a presentificar o outro,
que pode nos tomar quando contemplamos próximo na resposta ao seu apelo. Esta res-
Existirá um dia no qual tenhamos vivi- uma bolinha de papel na correnteza d’água, posta, formada na ajuda, confere sentido ao
do sem o mais leve sentimento de medo? a pular desassossegada na direção do escuro grito. É ato inaugural de uma compreensão
Não é possível, e ninguém objetará, se após de um bueiro. É quando entendemos a noite mútua, edificada sobre a dependência consti-
procurarmos na mais recuada de nossas me- que se aproxima como aquilo que tira o mun- tutiva do ser humano. É o que determina um
mórias dissermos que esse dia não aconte- do do mundo, assinalando o umbigo do modo de relação que vai servir de palco para
ceu. Medo do dia que se inicia. Medo do medo. Como dizia o poeta, “é o medo da mor- o desenrolar da história do homem.
dia que se vai com a noite, a chegar com seus te e o medo de depois da morte”. A criança não sabe do certo ou do erra-
sortilégios. Medo, onde o sono nos envol- Na sua origem, biologicamente, a cria- do, do bem ou do mal. Estas noções encon-
ve em sonhos, a nos transportar a lu- tram-se no outro, a bem dizer, nos pais, atra-
gares que, apesar de desconheci- vés do que dizem e mostram. É do próximo
dos, são estranhamente familia- que ela vai receber as palavras com as quais
res. Medo contido no grito da se “entende”. É da mãe que, ouvindo o cho-
criança, na noite, a assustar ro da criança, diz: “Tens sono, tens fome,
seus pais, horrorizada com tens medo”. É um outro que fala pelo um.
as formas da sombra a de- Implica isto um constante medo do errar,
senharem fantasmas de num viver entre a culpa e o castigo. No
um “bicho”, de um “la- pior dos medos, a perda do amor ou
drão”, de um “papão”. do abandono. O homem lança mão
Aquele expresso no sonho de recursos: heróis imortais e im-
de cair no abismo, de con- batíveis, espíritos prote-
templar o próprio corpo, de que tores serão inventa-
nos perseguem, da onda gigantes- dos. Orações po-
ca prestes a nos engolfar, da pessoa derosas contra
querida com vestes e rosto do desco- os inimigos se-
nhecido. Do sentimento de que nos rão invocadas.
contam alguma coisa em voz que não se Mais tarde,
ouve. De contemplar uma nuvem a desenhar quem sabe, talvez,
formas não sabidas. Medo, que determina um “não preciso de nada”. Ou ainda, um de
um estupor diante do realizado da tragédia tura humana, comparada aos outros animais, tudo saber. Antídoto vigoroso, o amor, deve
que só no pensamento foi rascunhada. No sofre uma prolongada dependência daque- ser usado. Porém, paradoxalmente, este traz
perseverante medo infantil, a nos acompa- les que a nutrem e amparam. Em seu come- novamente o medo. O de perder o seu obje-
nhar com a imagem de monstros que nadam ço, este ser constitui-se com um arremedo to de amor ou de não ser correspondido. O
em poço negro e profundo, como algo que de abertura para o mundo, ao qual lançará retorno ao inanimado, a morte, é o final da
não se gasta e que permanece fora do tem- seus apelos. Internamente, do ponto de vis- cadeia do medo.
po. É qualquer coisa que nos habita, que até ta psíquico, um condensado de energias sem
no sono nos agita, sem descansar. Angústias organização, onde não existe vontade, o não, JOSÉ DURVAL CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE Médico, psi-
quiatra e membro psicanalista da Sociedade de Psicanálise
sonhadas, muito mais reais do que as que o a contradição, a noção de tempo, mas tão Iracy Doyle.
dia a dia nos traz. Sensações somente imagi- somente uma força constante e imperiosa na E-mail: jdurval@unisys.com.br

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A VIOLÊNCIA
Em sua trajetória, as pessoas vão experi- Nesta conjunção estarão estabelecidas as
IRINEU EDUARDO J. CORRÊA mentando uma infinidade de sensações agra- condições para que apareça o estado chama-
dáveis e outras tantas desagradáveis, as quais do de medo. Embora seja claramente um es-
Assaltos, seqüestros, assassinatos, balas podem, até mesmo, estar distanciadas daque- tado de desequilíbrio, onde predominam as
perdidas, brigas em boates e bailes. Todos têm las, direta e inicialmente, ligadas à fome, ao sensações desagradáveis, o medo tem um pa-
um caso de violência para contar. A impren- frio e à saciedade, até a um ponto quase im- pel importante, de certo modo vital para a
sa noticia a sua banalização e ela acabou por possível de identificar qualquer relação entre sobrevivência, quando ajuda na identifica-
se tornar a maior preocupação da sociedade. aquelas primeiras e as novas. Nesse processo, ção e controle por enfrentamento ou fuga
Várias causas são apontadas para a explicar a podem entrar na lista de objetos mesmo aque- de alguma situação desfavorável aos seus in-
situação: miséria, patologias individuais e so- les que não foram diretamente testados, bas- teresses ou de algum inimigo.
ciais, educação, decisão individual, decisão tando que se pareçam com algum que já este- Mas não é este o medo que se constitui
política. Um único sentimento está no cen- ja na lista. A identificação dessa semelhança na preocupação maior da sociedade atual.
tro das ações de vigilância, prevenção e defe- varia de indivíduo para indivíduo, o que ser- Neste caso está o medo que vem sendo gera-
sa: o medo de ser tocado por ela. ve de ponto de referência para um, não serve do por uma situação de violência que asso-
O medo é um velho companheiro do ho- necessariamente para outro, embora, num cia episódios de alta potência com constân-
mem, embora não tenha nascido com ele. Re- mesmo grupo os gostos tendam a se aproxi- cia permanente, uma combinação que vem
cém-nascidos, aparentemente, não têm o que mar uns dos outros. Aliás, quem diverge mui- fazendo com que as pessoas se sintam de-
chamamos de medo. O primeiro choro do to da média do seu grupo costuma ser cha- samparadas, de tal forma que perdem o sen-
bebe é ocasionado pela distensão dos pulmões mado de excêntrico ou esquisito. De qualquer timento de ser sujeito e se vejam como se
e os imediatamente seguintes são devidos à modo, as sensações de ambos os tipos vão se fossem mero objeto, subordinado às vicissi-
sensação de desconforto gerada pela falta de acumulando e o indivíduo se aproxima de um tudes da violência que o faz sofrer.
alimento na barriga ou pela falta de manu- estado de equilíbrio homeostático e psicoló- Neste estado de coisas, a imensa despro-
tenção da temperatura no nível epidérmico. gico, no qual a sua consciência de diferencia- porção entre a potência do ato violento e a
Com o passar do tempo, os comportamen- ção das coisas e pessoas do mundo avança, para presumida capacidade de resposta do indi-
tos associados àquelas sensações se tornam além daquela dimensão prática de quando era víduo faz com que esta se torne inexeqüível
mais complexos e variados. Um deles corres- bebê, em direção a uma subjetividade que per- e, de imediato, não reste ao indivíduo nem
ponderia a uma espécie de angústia, seja di- mite que ele se reconheça definitivamente a fuga e nem o enfrentamento, apenas aguar-
ante da fome, seja pela falta do seio ou da como sujeito e reconheça o mundo como di- dar que passe. Na verdade, uma fuga sim,
mamadeira que saciará aquela sensação. Idem ferenciado de si, onde têm existência objetos e mas por uma espécie de congelamento ou
em relação ao frio, que será saciado por uma o Outro. anestesia até que aquele acontecimento ter-
boa coberta ou, de modo igualmente eficien- Todavia, este equilíbrio não é estático ou mine. Posteriormente, uma alegria desmedi-
te, por um bom aconchego. definitivo, até mesmo no indivíduo adulto, da, gerada pelo fim da situação de tensão,
Na medida que as sensações se repetem, e a manutenção do equilíbrio é uma ativida- pouco depois, uma profunda melancolia e
entra em cena uma divisão prática entre aque- de constante e árdua, mesmo que não seja uma raiva incomensurável, mes-
le que as sentem, a quem podemos chamar de consciente todo o tempo. mo quando negadas ou
sujeito, e aquela coisa outra que sacia. O de- O ato que identificaremos como violento reprimidas.
senvolvimento de cada pessoa tem por base é aquele em que o equilíbrio é rompido de
essa relação, um processo que faz as distinções modo drástico e a integridade do sujeito é colo-
entre os objetos que estão no mundo, sejam cada em risco, quer do ponto de vis-
pessoas, coisas ou ações. Importante lembrar ta objetivo, quer do
que todo e qualquer sujeito poderá ocupar a subjetivo.
posição de objeto ou de Outro. E isto não pa-
rece ser problema para nenhum deles, pelo
menos, em situações normais.

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QUE PARALISA
Noutra ponta, as atitudes que preveniri-
am a violência tentarão se equiparar a ela em
potência. Ao sujeito ameaçado em sua integri-
TERROR DA MORTE (fragmento)
dade, qualquer espaço protegido é considera-
do um oásis, não importando o preço que se “Ah, o horror de morrer!
pague por isso, em termos concretos ou subje- E encontrar o mistério frente a frente
tivos — seja dinheiro, liberdade individual ou Sem poder evitá-lo, sem poder...
coletiva. Os automóveis particulares são blin- Gela-me a idéia de que a morte seja
dados. Pessoas, condomínios e trechos de ruas O encontrar o mistério face a face
recebem segurança particular ostensiva. As re- E conhecê-lo. Por mais mal que seja
sidências são gradeadas e se transformam em A vida e o mistério de a viver
verdadeiras fortalezas. A vigilância constante E a ignorância em que a alma vive a vida,
em locais públicos por câmeras de vídeo se dis- Pior me [relampeja] pela alma
AMOR E MEDO (fragmento)
semina. A imprensa repercute o clamor por A idéia de que enfim tudo será
Sabido e claro...
uma polícia de eficiência absoluta, leis muito
O animal teme a morte porque vive,
“Como te enganas! meu amor, é chama
mais rígidas e sentenças judiciais mais longas e Que se alimenta no voraz segredo,
O homem também, e porque a desconhece;
de execução sem possibilidade de comutação E se te fujo é que te adoro louco...
Só a mim é dado com horror
ou outros recursos de suavização. Ninguém És bela — eu moço; tens amor, eu — medo...
Temê-la, por lhe conhecer a inteira
nota que diariamente a polícia prende mais e Extensão e mistério, por medir
mais suspeitos e criminosos, os tribunais es- Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
O [infinito] seu de escuridão.
tão abarrotados de processos, os julgamentos Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Medo da morte, não; horror da morte.
se sucedem e as prisões e penitenciárias estão Horror por ela ser, pelo que é Das folhas secas, do chorar das fontes,
superlotadas. Alguns políticos dizem que “ban- E pelo inevitável.
” ”
Das horas longas a correr velozes.
dido bom é bandido morto”. Algumas pesso-
FERNANDO PESSOA 1888-1935 Considerado um dos CASIMIRO DE ABREU 1839-1860
as concordam. O medo da violência parece maiores poetas da língua portuguesa Poeta. Autor de As primaveras.
justificar a violência contra o Outro.

DIVULGAÇÃO
IRINEU EDUARDO J. CORRÊA Psicólogo, mestre em Letras e pes-
quisador da Fundação Biblioteca Nacional. Trabalhou como co-
ordenador de projetos da FUNABEM e exerceu a presidência da
Comissão de Ética do Conselho Regional
de Psicologia do Rio de Janeiro.

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“Quem tem medo do futuro,


tem medo de ser livre!”
Frei Beto Escritor
ZUENIR VENTURA
bou por criar uma cultura do medo que, como já
ENTREVISTA disse, tornou o medo da violência pior do que a
própria violência.
O Rio de Janeiro continua lindo. Mas in- LC: O início dos agrupamentos humanos, que
felizmente esta beleza está encoberta pela som- deram origem às cidades, foi causado pela neces-
bra da violência. Uma sombra que encobre sidade da união dos habitantes de determinadas
também outras grandes e belas cidades brasi- regiões de se unirem para uma melhor defesa con-
leiras. É triste ver as cadeiras nas calçadas de tra inimigos externos. Hoje, o inimigo é interno.
antigas ruas de subúrbio serem recolhidas para Isto pode gerar um processo inverso de isolamen-
dentro de casas gradeadas. O comércio fecha to e fuga dos grandes centros?
suas portas, as casas, suas janelas e a popula- Zuenir: Todas as formas de isolamento, de segre-
ção seu coração, trancados a cadeado pelo gação, de distanciamento já foram tentadas. Aqui
medo. Lar de brasileiros e estrangeiros, demo- no Rio, primeiro as pessoas tentaram cercar suas
crática em suas praias e rodas de samba, e hoje casas com grades, depois foram para condomí-
rasgada pela miséria e violência. nios fechados. Tentaram criar exércitos particula-
Em seu livro Cidade partida, o jornalis- res de seguranças, se fechar em verdadeiros
ta Zuenir Ventura conta a história de uma ci- bunkers, e nada disso deu certo. Um caso contro-
dade que nasceu com a vocação da acolhida vertido são os condomínios da Barra da Tijuca1,
e foi mutilada pela insegurança. Em entrevis- onde teoricamente as pessoas estariam livres da
ta ao Leituras Compartilhadas, este cronista violência, com a realidade mantida de fora. Por
da vida carioca fala da cultura do medo esta- fim, foi constatado que havia uma violência en-
belecida e de sua crença de que o Rio de Ja- dógena, um tipo de violência interna que se criou
neiro vai continuar sendo... nos condomínios. Hoje, um dos seus maiores
problemas é exatamente a violência dos jovens
LC:O grande problema do Rio de Janei- que roubam carros para comprar drogas e as bri-
ro atualmente é a violência. O que isto gas de gangues, tornando os condomínios se-
gera no cotidiano da cidade? melhantes a guetos violentos. Muitas tentativas
Zuenir: O problema dos níveis de vio- de segregação, de apartheid, foram tentadas e to-
lência hoje é que eles provocam, além das fracassaram. A solução não é fácil. É demo-
do medo natural e justificável, o rada. É a solução da integração da cidade. O Rio
medo irracional e, às vezes, imo- de Janeiro é uma cidade calorosa, de encontro,
tivado. Há casos em que o afetuosa, uma cidade realmente de celebração.
medo se torna pior que a O destino do Rio vai ser o de voltar ao encon-
própria violência. Hoje, tro, à celebração. Espero que o momento atual
muitos têm medo de seja um acidente de percurso. Espero que a vo-
vir ao Rio de Janeiro. cação do Rio, seu destino, seja realmente a da
Um medo que não integração. O apartheid, seja o racial, seja o soci-
cede à argumenta- al, não dá certo em nenhum lugar do mundo e
ção de que mui- no Rio de Janeiro também não dá. Apesar de
tos cariocas, por tudo, a esperança é que haja realmente o encon-
exemplo, nunca tro, o destino natural das cidades.
foram assalta-
dos. A cultura LC: Então a busca de interação cultural, como os
da violência aca- projetos que procuram integrar os habitantes da

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LIMITE, ED. AGIR

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E A CIDADE PARTIDA
favela com os do asfalto, seria um caminho? mamos a atenção para isto. Eu diria que hoje há te e também na mais remota. Para sair disto
Zuenir: Quando eu disse que, às vezes, o medo uma maior consciência da sociedade de que ela leva tempo, mas eu creio que hoje já esteja
da violência é pior do que a violência, isso acon- tem uma tarefa a cumprir nessa questão. surgindo uma luz no fim do túnel. Sabemos
tece muito pelo nosso olhar daqui do asfalto para LC: Então a sociedade, como forma de combater que a solução está na aproximação e não na
as favelas. Nós temos a idéia, a impressão carre- o medo, partiu para tentar conhecer e entender guerra. Nós temos uma certa vantagem, pois
gada de estereótipos, de que lá é um antro, uma os problemas que causam a violência e, por con- no Brasil não existem questões explosivas,
usina de violência, esquecendo que ali a maioria seguinte, o medo? como por exemplo, a questão racial do Leste
da população é pacífica, ordeira e trabalhadora. Zuenir: Exatamente. Durante décadas, até mais Europeu, em países como a Iugoslávia em que
A violência ali é produzida por um núcleo míni- de um século, fomos criados com todos os se mata por achar que o sangue é diferente.
mo de 0,1 % dos moradores. Eu acho que você estereótipos em relação às favelas como um Temos preconceito e racismo, mas não é uma
olhar para a favela, para o outro, para o diferen- antro de violência. Quando você vê as condi- forma tão explosiva, de jeito que não esta-
te, e mudar seu olhar de suspeita, desconfiança, ções de vida lá, se surpreende de como é pa- mos à beira de uma guerra racial, étnica. Po-
é uma forma efetiva de aproximação. A cultura, cífica essa população. Porque, na verdade, demos estar próximos de uma guerra social,
mais uma vez, está fazendo isso como fez no todos os bens, direitos e conquistas da cida- isto é, de uma convulsão social. Mas todo pro-
fim do século XIX com o samba, que nasceu dania ainda não chegaram lá. Então criamos blema social tem jeito. A questão da miséria
sendo a música dos segregados, discriminado, e uma série de barreiras preconceituosas, uma é uma questão de vontade política, que pode
acabou sendo apropriado pela classe média, de- visão estereotipada, estigmatizando um uni- ser resolvida com um programa de integra-
pois de um primeiro momento em que ela o re- verso por ele ser diferente do nosso. Diferen- ção social. O Brasil tem - e o Rio de Janeiro
jeitava e temia. Está acontecendo um pouco isto te na cor da pele, diferente na maneira de tem muito - uma energia vital, uma alegria,
com a cultura do hip hop, do funk, e com os gru- morar, o fato de ser pobre... Isto tudo em um muito grande. Apesar de tudo, neste momen-
pos de música de periferia. Essa é uma forma de processo de associação que é muito mais to, o que vivemos é a vocação da celebração,
integração. No Rio, ou melhor, no Brasil, a eco- antigo.Vou me remeter apenas ao período da do encontro, da alegria, da paz.
nomia separa o que a cultura une. A ponte desta abolição da escravatura, quando os negros fo- 1 Bairro do Rio de Janeiro conhecido por seus condomínios e shoppings .

cidade partida tem de ser feita além do movi- ram jogados na rua: “agora vocês se virem”. Por ZUENIR VENTURA Jornalista e professor universitário há 40 anos.
Ganhou o prêmio Esso de Reportagem e o Prêmio Wladimir Herzog
mento social, também pela cultura. esse processo de discriminação ter sido mui- de Jornalismo, em 1989. É autor de 1968, O ano que não termi-
to permanente, muito freqüente, ele está ar- nou e Cidade partida. Atualmente é colunista do jornal O Globo.

LC: Cidade partida foi lançado em 1994. raigado, entranhado na nossa história recen- ANA CLÁUDIA MAIA

Nestes oito anos, o que mudou? Você consi-


dera que houve melhora ou a situação se de-
gradou ainda mais? “...A missa foi na segunda-feira, e no dia do que iriam ser vítimas de um arrastão igual
seguinte, no feriado ensolarado, quem não es- ou pior do que o de outubro de 1992.
Zuenir: O que evoluiu daquela época para cá é
tava vendo a parada militar, estava na praia. Às duas manifestações anteriores de vio-
que, hoje, a sociedade tem, mais do que naquele
Às 12h45, as areias de Ipanema e Arpoador lência – a chacina de Vigário Geral e um mês
momento, a consciência de que a violência é um
estavam lotadas. antes o massacre dos oito meninos de rua na
problema dela também. De que não adianta vi-
De repente, a confusão. Cerca de cinqüen- Candelária – se somava mais essa. Os três epi-
rar as costas para esta questão. De nada vale di-
ta garotos, identificados depois como funkeiros sódios estavam carregados de um intenso peso
zer que se pagam impostos, portanto isto é pro-
de algumas favelas da cidade, começaram a simbólico. Segundo o antropólogo Luiz Eduar-
blema do governo, ele que resolva o problema
brigar. Os tiros disparados para o alto pelos do Soares, significavam ‘a violação de três es-
da violência. Sabemos que não é assim. Até por- policiais militares – uns poucos, já que a maio- paços míticos: o espaço sagrado, o espaço do-
que a bala perdida não escolhe cabeça. Ela está ria estava no desfile – aumentaram o pânico. méstico e o espaço do convívio democrático, a
caindo do nosso lado, aqui no asfalto. Essa cons- O tumulto durou menos de uma hora, mas praia’. A imagem da cidade apartada pelo
ciência, que ainda é embrionária e precisa ser de- foi suficiente para esvaziar as duas praias vizi- medo reforçava a comoção social.”
senvolvida, começa a tomar corpo na sociedade. nhas e encher a imaginação das pessoas de ter- Cidade partida, de Zuenir Ventura, Ed. Companhia das
Com os movimentos do terceiro setor e toda essa ror. Os banhistas correram apavorados, achan- Letras, págs. 87,88.
tragédia que aconteceu, de alguma maneira cha-

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SÍNDROME DO PÂNICO
UMA HISTÓRIA REAL
próprios movimentos e pensamentos. E tre- com nível de exigência muito alto para consi-
BÁRBARA ARANYL mores, ou dentes batendo, cólicas, enjôo, pres- go mesmas - e o medo de não ser capaz (seja lá
DE LA CORTE são baixa, muitas vezes tudo ao mesmo tem- do que for) leva à crise. E há também o medo
po. Terror. de não ter controle absoluto sobre si mesmo,
Até onde consigo me lembrar, tive minha A vontade que se tem nessas horas é de corpo/mente/coração. E também o medo de
primeira crise de pânico aos 17 anos. Naque- correr para algum lugar seguro... Mas, uma vez enfrentar o mundo que nos cerca (e que, con-
la época ainda não eram freqüentes - não mais que não existe leão (ao menos não um de gran- venhamos, não anda dos mais tranqüilos). Ou
que uma a cada 5 meses - mas já o suficiente de juba e quatro patas), não há esse lugar segu- o medo do sofrimento, de estar sozinho, de se
para me fazer acreditar ser algo amalucada, ou ro. A ameaça é interna, é você frente aos seus entregar... Toda uma família de medos - bas-
cercada por espíritos malignos... Em 1987 pou- medos, aos seus fantasmas... E eles o acompa- tante aparentados entre si, diga-se de passagem.
co ou nada se falava no Brasil sobre a síndro- nharão para onde você for. Acho difícil falar em superação total des-
me do pânico. Passaram-se os anos e várias cri- Já ouvi várias explicações para a síndrome ses medos. Eles vão e vêm, rondam, esprei-
ses mais, até que um dia eu me deparasse com do pânico, dadas por médicos, psicólogos, psi- tam... Mas tenho aprendido que não há outro
uma reportagem sobre a síndrome. Meu senti- quiatras. Em todas elas o fator predominante caminho que não seja o enfrentamento. Claro
mento - diferentemente do da maioria das pes- era o medo. A síndrome é comum em pessoas que isso não é fácil, e aí uma ajuda profissio-
soas quando recebem esse diagnóstico - foi de
alívio. Opa! Eu não era Carrie, a estranha... E
tampouco a única a ter aquele tipo de proble-
ma. E, melhor ainda, se havia um nome, se
era um quadro clínico, então haveria de existir
também uma forma de tratamento.
Mas ainda levei muitos anos até conseguir
controlar as crises. Vivia em altos e baixos. Às
vezes se passavam muitos meses sem nenhu-
ma crise e, de repente, tinha duas em um mês.
Cheguei a cercear minha vida em função da
síndrome. Tinha uma crise em um bar, com ami-
gos, e resolvia que não queria mais sair de noi-
te... Que em casa estaria mais “segura”. E então
tinha uma crise em casa, e não havia o que fa-
zer... Demorei algum tempo até perceber que o
problema estava dentro de mim e, não, fora.
É muito difícil explicar uma crise de pâni-
co a quem nunca as vivenciou. Costumo ten-
LIMITE, ED. AGIR

tar assim: imagine-se sozinho, no meio de um


ILUSTRAÇÃO DE JUAREZ MACHADO PARA SEU LIVRO LIMITE

campo e, de repente, vendo um enorme leão


pulando na sua frente, pronto pra devorá-lo.
Só que não há leão.
Física e emocionalmente, isso se traduz em
uma sensação de perda de controle do pró-
prio corpo, como se estivesse em curso um
motim interno que não nos achamos capazes
de combater. Você sente-se sufocar, faltando o
ar, faltando o chão, faltando-lhe o controle dos

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O Caderno de Leitura do Programa


“Temer o amor é temer a vida e os que temem
Leia Brasil reunindo crônicas, contos, poesias,
a vida já estão meio mortos.” entrevistas e artigos de especialistas para ajudar
Bertrand Russell 1872-1970 Filósofo e matemático inglês
educadores a trabalhar a leitura na escola.

nal é, na minha forma de ver, fundamental.


Fazer uma terapia, para tentar descobrir qual a
origem e como funcionam esses medos. E tam-
bém buscar um tratamento, seja alopático, ho-
meopático, acupuntura, ayurveda... Desde que
sério e seguido com constância.
Juntamente com a ajuda profissional, é de O que se pode
um valor inestimável a ajuda da família e dos
amigos. Carinho é um poderoso remédio con- ler nos rios ou
tra a síndrome.
Quanto a mim, não posso me dizer “cura- através deles?
da”. Sigo com meu tratamento, e vou seguir
enquanto for necessário. Estou em algo como
um work-in-progress. Um contínuo respirar fun-
do e tomar coragem. Respirar fundo e mandar
os fantasmas procurarem outra morada, por-
que aqui eles não são mais bem-vindos. Isso
porque acredito que – um tanto inconsciente-
mente - somos nós que os mantemos por per-
Velhas diferenças,
to. E o fazemos quiçá por medo... Sim, por-
que por mais contraditório que isso pareça,
que fazem, de
esses medos, a síndrome, o pânico, depois de cada um, um.
um tempo, também podem se constituir em
uma morada, conhecida, e, como tal, aparen-
temente mais segura. Algo assim como morar
em uma casa mal-assombrada, mas que é a
única casa que você conhece. Quem pode ga-
rantir que fora dela não vá ser ainda pior?
Não é. Tome seu lugar
Sei muito bem que conselho não se dá, mas
algumas dicas posso, não? São pequenas coisas
a bordo. Porque
que fui descobrindo no decorrer dos anos, e
que me ajudaram muito. Se ajudarem a uma
navegar é preciso,
pessoa mais que seja, já fico feliz. Vamos lá. e ler também.
A síndrome do pânico atinge cerca de 3% da
população mundial. No Brasil, são aproxi-
madamente cinco milhões de pessoas. Nem
sempre os sintomas são claros. Saiba mais.
Indispensável para escolas que
Associação Nacional da Síndrome do Pânico têm e que não têm um Programa
Telefone (11) 5579-7257
Plantão SOS Psicológico
Telefone (11) 3654-1313
de Leitura.
www.sos.org.br
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21 assinaturas@leiabrasil.org.br
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APROXIMAÇÃO
só a espera pode ser. Sinto meu coração e meus mais quente. Num átimo sinto todo o meu
CÁSSIA JANEIRO nervos todos vibram uníssonos, segundo a se- corpo, a maciez da minha pele, a textura da
gundo. Uma gota de suor escorre em minha minha boca úmida. Os passos estão mais pró-
Ouço passos no corredor comprido de testa, apesar do frio. O teto me comprime, como ximos e agora o medo é fascínio, é sedução e
minha casa. A porta do meu quarto está fecha- se procurasse sufocar qualquer tentativa de fuga. terror. Quanto mais próximo o som, mais sin-
da. Os passos se tornam mais fortes e eu sei Imobilizada, apenas ouço e espero ... e espero to o corpo, sensível como só aqueles que es-
DANAIDE, DE AUGUSTE RODIN

que, em breve, a porta se abrirá num estron- ... Não posso mais sentir minhas mãos e meus tão totalmente expostos podem ser. O lençol
do. Tremo sob as cobertas. Poderia fugir, mas pés. Paralisia. Não sei o que virá, mas é mais a roçar na minha pele traça um desenho deli-
sinto-me inerte. aterrorizante a espera do que o que está por cado, uma estranha dança de sensações. Não
A peregrinação do desconhecido é um acontecer. Meus olhos ainda se mexem e pro- me movimento, embora o corpo seja leve; sou
lapso de tempo, mas curam uma saída, uma réstia de esperança vã. inteira uma teia de possibilidades.
longa como Sei, contudo, que escapar é impossível. A escu- Não ouço mais os passos, não porque não
ridão é completa, mas meus olhos tentam, de- existam, apenas porque estou embevecida e
sesperados, ver através dela.. abafam-nos as batidas do meu coração. Sei que
Um calor lascivo me toma o corpo, num a porta se abrirá. Temo porque não conheço e,
estranho regojizo desprotegido. Estou só. Eu e não conhecendo, não posso, não estou no
meu desconhecido. Sinto o calor ruborizando controle. Mas, como alguém que está por afo-
a minha pele clara e delicada. Delírio quen- gar-se, sei que de nada adiantará me debater.
te é o medo. Não sei até quando posso Deixo que a correnteza de sensações me leve
sustentar a névoa que me encobre as para onde quiser. E, no exato instante em que
sensações e, paradoxalmente, as paro de lutar, posso desfrutar da hipnose da
desvela. Minhas roupas estão minha alma, que também pulsa na sua pró-
jogadas no chão. Sei que pria escuridão. Não procuro alívio. Sei que
estou nua e a nudez estou encurralada e há um estranho prazer nis-
me torna ainda mais so. Arrebata-me a satisfação de não estar mais
frágil e desprotegi- no controle, não saber o que virá, não ter idéia
da e também do que acontecerá.
Tenho os olhos fixos na porta agora. Sei
que está muito próximo o momento em que
ela se abrirá. Volto a olhar para as minhas rou-
pas inertes no chão e minha nudez não é mais
a mesma, é uma nudez total. Inesperadamen-
te desejo estar ali e não em qualquer outro lu-
gar. Já não importa o que virá da porta. Ela
está fora de mim. E dentro de mim está uma
desconhecida cujo corpo se contorce faminto
entre os lençóis, derrubando o pesado cober-
tor. Descubro o medo nas frestas da minha
alma, parte dela que pulsa e lateja. Não posso
me separar dele, não agora que ele é medo que
se faz fascínio.
A porta se abre num estrondo. Fecho os
olhos e deixo-me tomar. Entregue. Inexorável.
CÁSSIA JANEIRO Poeta e educadora. Autora de Poemas de Janeiro.

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O CORVO DE EDGAR ALLAN POE


Tradução de Machado de Assis Com longo olhar escruto a sombra, Fico atônito, embora a resposta que dera
Que me amedronta, que me assombra. Dificilmente lh’a entendera.
(FRAGMENTOS) E sonho o que nenhum mortal há já sonhado, Na verdade jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
“Em certo dia, à hora, à hora Mas o silêncio amplo e calado,
Uma ave negra, friamente posta
Calado fica; a quietação quieta;
Da meia-noite que apavora, Só tu, palavra única e dileta, Num busto, acima dos portais,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga, Lenora, tu, como um suspiro escasso, Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Ao pé de muita lauda antiga, Da minha triste boca sais; Que este é seu nome: ‘Nunca mais’.
De uma velha doutrina, agora morta,
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Ia pensando, quando ouvi à porta No entanto, o corvo solitário
Foi isso apenas, nada mais.
Do meu quarto um soar devagarinho Não teve outro vocabulário.
E disse estas palavras tais: Como se essa palavra escassa que ali disse
Entro co’a alma incendiada,
‘É alguém que me bate à porta de mansinho;
Logo depois outra pancada Toda a sua alma resumisse.
Há de ser isso e nada mais’.
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela: Nenhuma outra proferiu, nenhuma.
‘Seguramente, há na janela Não chegou a mexer uma só pluma,
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Alguma coisa que sussurra. Abramos. Até que eu murmurei: ‘Perdi outrora
Era no glacial Dezembro;
Eia, fora o temor, eia, vejamos Tantos amigos tão leais!
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A explicação do caso misterioso Perderei também este em regressando a aurora’.
A sua última agonia.
Dessas duas pancadas tais. E o corvo disse: ‘Nunca mais!’
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Sacar daqueles livros que estudava
Obra do vento e nada mais’. Estremeço. A resposta ouvida
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
É tão exata! é tão cabida!
Destas saudades imortais
Abro a janela e, de repente, ‘Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará mais. Vejo tumultuosamente Que ele trouxe da convivência
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias. De algum mestre infeliz e acabrunhado
Não despendeu em cortesias Que o implacável destino há castigado
E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando Um minuto, um instante. Tinha o aspecto Tão tenaz , tão sem pausa, nem fadiga,
Dentro em meu coração um rumor não sabido, De um lord ou de uma lady. E pronto e reto, Que dos seus cantos usuais
Nunca por ele padecido. Movendo no ar as suas negras alas, Só lhe ficou, da amarga e última cantiga,
Enfim, por aplacá-lo aqui, no peito, Acima voa dos portais, Esse estribilho: ‘Nunca mais’. ”
Levantei-me de pronto, e: ‘Com efeito, Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas; ...
(Disse) é visita amiga e retardada Trepado fica, e nada mais.
Que bate a estas horas tais.
“‘Ave ou demônio que negrejas!
É visita que pede à minha porta entrada: Diante da ave feia e escura, Profeta, ou o que quer que sejas!
Há de ser isso e nada mais.’ Naquela rígida postura, Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Com o gesto severo, - o triste pensamento Regressa ao temporal, regressa
Minh’alma então sentiu-se forte; Sorriu-me ali por um momento, À tua noite, deixa-me comigo.
Não mais vacilo e desta sorte E eu disse: ‘Ó tu que das noturnas plagas Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Falo: ‘Imploro de vós - ou senhor ou senhora, Vens, embora a cabeça nua tragas, Pluma que lembre essa mentira tua.
Me desculpeis tanta demora. Sem topete, não és ave medrosa, Tira-me ao peito essas fatais
Mas como eu, precisado de descanso, Dize os teus nomes senhoriais; Garras que abrindo vão a minha dor já crua’.
Já cochilava, e tão de manso e manso Como te chamas tu na grande noite umbrosa?’ E o corvo disse: ‘Nunca mais’. ”
Batestes, não fui logo, prestemente, E o corvo disse: ‘Nunca mais’.
Certificar-me que aí estais’. EDGAR ALLAN POE 1809-1849 Poeta, contista e jornalista norte-
americano. Criador do romance policial e um dos grandes no-
Disse: a porta escancaro, acho a noite somente, Vendo que o pássaro entendia mes da literatura fantástica. Entre suas obras estão: O gato preto;
Somente a noite, e nada mais. A pergunta que lhe eu fazia, O poço e o pêndulo; A queda da casa de Usher.

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UNIDADE DE LEITURA
QUEM TEM MEDO DO LOBO MAU?
esperar da vida que se inicia.“Dorme neném Quando mudamos as estruturas destas
MARIA CLARA CAVALCANTI que a Cuca vem pegar / Papai foi à roça, ma- histórias numa tentativa de torná-las menos
DE ALBUQUERQUE mãe foi trabalhar” ou “Bicho-papão em cima tristes, tiramos das crianças a oportunidade
do telhado / Deixa meu menino dormir sono de vivenciar seus medos, compartilhar com
Quem tem medo do lobo mau? O Cha- sossegado.” os personagens seus sentimentos menos no-
peuzinho Vermelho, os três porquinhos, os Com ouvidos adultos, parece-nos bem bres, enfim, acalmar seus lobos. Se ressusci-
sete cabritinhos, nossos alunos, você e eu. pouco provável que uma criança adormeça tamos D. Ratão, por exemplo, dando-lhe um
Uma vez perguntaram ao folclorista Câ- ouvindo sobre perigos tão próximos ou ame- bom banho e o casamos com D. Baratinha,
mara Cascudo se, depois de tantos anos es- aças tão aterrorizantes, mas o fato de um teremos não só negado à criança que nos es-
tudando nossos mitos, ele acreditava em lo- adulto compartilhar com ela o conhecimen- cuta uma excelente oportunidade de apren-
BONECO DE PEDRO E O LOBO DO GRUPO GIRAMUNDO

bisomem. Cascudo passou as mãos pelos to da presença do monstro, aliado ao acon- der a lidar com perdas, como criado, aí sim,
cabelos e respondeu mais ou menos assim: chego e à voz que a embala, dá-lhe a certeza uma história de terror imensurável. Imagi-
“aqui, nesta sala iluminada, conversando com de não estar sozinha e a faz relaxar. nem o fruto deste casamento - um rato e uma
você, não acredito não, mas em noite de lua Não é à toa, também, que as histórias de barata - nem Lovecraft, em seu mais louco
cheia, andando sozinho no mato, meu amigo... fadas clássicas vêm sendo contadas, através devaneio, seria capaz de pensar semelhante
acredito sim e você também”. dos séculos, a crianças que nelas encontram horror!
O medo está presente em nossa vida des- alívio para os mais diferentes sentimentos. À medida que vamos crescendo e que o
de que nascemos. Medo do bicho-papão, Poder ouvir que a madrasta inveja a be- mundo a nossa volta vai se modificando, os
da alma penada, do escuro, de não sermos leza de Branca de Neve; que o Pequeno Po- lobos vão ganhando novos nomes e contornos.
amados por nossos pais são somente alguns legar consegue ludibriar o terrível gigante; Podemos chamá-los de morte, solidão, doen-
pesadelos que povoam nossa infância. que Dona Baratinha, após chorar a morte de ça, guerra, separação, desemprego, violência,
São os lobos infantis que rondam nos- D. Ratão, volta à janela para procurar outro fome... O nome varia, mas o sentimento de
sos sonhos e enchem de uivos nos- noivo; que Cinderela, desobedecendo as impotência que nos invade é o mesmo.
sa imaginação. ordens da madrasta, vai ao baile proibido e Como já não temos quem nos tome nos
Não é à toa que os acalan- consegue casar com o príncipe; que João e braços e acalme nosso coração, procuramos
tos com os quais somos em- Maria conseguem sobreviver apesar do aban- outros meios de enfrentar a alcatéia faminta
balados já nos avisam dono de seus pais é sinalizar que nem tudo que nos rodeia.
dos perigos e está perdido. Num tempo de alta tecnologia, onde o
nos orien- É saber que não somos os únicos a sen- homem é capaz de brincar de Deus clonan-
tam sobre tir inveja, que mesmo a força poderosa de do animais e ensaiando a clonagem de pes-
o que um gigante pode ser vencida se usarmos a soas, nunca se estudou tanto as profecias ou
cabeça, que às vezes é preciso enfrentar as se consultou tantos astrólogos e videntes,
situações para conseguirmos o que deseja- numa tentativa de adivinhar o futuro e acal-
mos, que mesmo após as grandes perdas a vida mar nossos temores. Como não temer o dia
continua, e que, mesmo nossos pais, são ca- de amanhã se acompanhamos ao vivo e a
pazes de sentimentos ruins. cores, confortavelmente instalados em nos-
Ouvir que outras pe- sas salas, o desmoronamento de dois sím-
ssoas comparti- bolos do maior império contemporâneo? Se
lham de nos- o lobo já entra em nossa casa não só pela
sos senti- porta, mas também através do cabo da tele-
mentos visão, é preciso usarmos todos os meios pos-
nos faz síveis para, pelo menos, enjaulá-lo.
menos A arte, sempre cronista de seu tempo,
sozinhos. nos sinaliza caminhos e escapes. Os filmes

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coleção
“Ciência e religião têm uma origem comum:
a necessidade humana de controle do medo.”

Marcelo Gleiser Físico.

de terror lotam as salas dos cinemas, os li-


vros sobre bruxaria alcançam as listas dos
mais vendidos, os jornais e revistas se esgo-
tam ao falarem do crime organizado. O
outdoor de propaganda de uma revista nos
alerta - Bons tempos em que só se sentia medo
de bandido solto.
Precisamos desesperadamente de alguém
que converse e compartilhe conosco, seja em
que linguagem for, dos nossos medos, pois,
como diz João Carlos Rodrigues em seu ar-
tigo, “nenhuma ficção pode ser hoje mais ame-
drontadora do que a realidade.”
No entanto, são as histórias - ficcionais
ou não -, livros, filmes, músicas, peças de
teatro e novelas, as armas com que podemos
nos municiar para tentar, pelo menos, do-
mesticar nossos lobos particulares e ajudar
nossos alunos a enfrentarem os seus.
Por que não voltarmos com eles ao tem-
po de embalá-los com histórias e leituras que
lhes permitam elaborar e compartilhar seus
sentimentos? Ao trabalharmos o medo de
monstros imaginários, estaremos fortalecen-
do-os para lidar com os medos reais. Ao fa-
larmos abertamente de medos contemporâ-
neos, estaremos lhes dando a oportunidade
de exorcizarem suas preocupações e temores.
É preciso vencer o medo de falar do
medo. O diálogo aberto, a história bem con-
tada, a leitura compartilhada nos permitirão
olhar o lobo de frente e construir casas resis-
tentes que não caiam com um mero sopro, Histórias de bruxas,fantasmas e outros habitantes do
atravessar florestas sabendo como não cair em universo do terror sempre fizeram parte do imaginário
conversa de estranhos, saber a quem devemos infanto-juvenil. E que atire a primeira pedra quem
ou não abrir a porta de nossa casa e nos man- nunca conferiu se havia um monstro embaixo da
termos alertas à aproximação das feras.
cama ou deixou a luz acesa em noite de tempestade.
Aí sim, como já dizia Cascudo, só senti-
remos medo de lobos e lobisomens no meio
do mato em noite de lua cheia, e não nas
salas iluminadas.

MARIA CLARA DE CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE Psicóloga e


especialista em Literatura Infanto-juvenil e Leitura.

ONDE OS MELHORES AUTORES SE ENCONTRAM


www.record.com.br
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MEDO DE QUÊ,
instintivos que encontramos em todas as cri- muito dos medos infantis foram criados pelos
TATIANA MILANEZ anças. Quando começamos a pensar nesta co-
leção, fizemos uma lista de medos. Escolhe-
adultos?
Fanny: Usar o medo da criança como método
Fanny Joly adora rir. Foi rindo que ela es- mos então doze temas que nos pareciam uni- de educação – entre aspas - ou como meio de
creveu seu primeiro texto, um monólogo cô- versais. Nós até fizemos um teste: pergunta- obter o que se quer como o exemplo que você
mico para a irmã mais velha, a atriz Sylvie Joly. mos a algumas crianças quais os medos que utilizou, eu acho que é algo realmente nocivo.
Isso foi há quase trinta anos. Hoje, aos 47, um elas tinham. Nós terminamos por escolher te- Para mim, o medo é um elemento muito ne-
marido e três filhos, a escritora continua se mas que nos permitiam uma história tranqui- gativo no dia-a-dia. Ele nos impede de ir para
divertindo com o trabalho. Apesar da Licenci- lizadora e engraçada. A idéia era mostrar o a frente, nos bloqueia, nos freia, nos faz andar
atura em Letras, Fanny confessa que sua for- medo num contexto onde não haveria razão para trás. Acho então que é um elemento que
mação não foi na universidade. Seu aprendi- para que ele existisse, como medo de dragão, deve ser combatido. É verdade que hoje em
zado foi no trabalho. Começou como redato- medo de rato, medo de escuro... Eliminamos dia nós, adultos, temos razão de ter medo. A
ra publicitária, uma profissão que, segundo ela, os temas que falavam de coisas que realmente mídia nos submete a uma enorme quantidade
lhe ensinou a ser direta no texto, dado essen- dão medo e que são perigosas, como por exem- de notícias, nós somos bombardeados de ima-
cial na literatura infantil. Fanny também es- plo, o fogo. A gente preferiu se concentrar em gens que nos transtornam, é difícil de lidar com
creveu roteiros para o cinema e televisão, além medos de conto de fada, quase míticos. tudo isso! Mas se eu tivesse que escrever, por
de esquetes para o teatro. Mas o que mais lhe exemplo, “Quem tem medo de seqüestro?”,
dá prazer são as histórias para crianças. Foram LC: E por que escrever sobre o medo? Quan- num contexto onde isso pode acontecer, não
mais de 130 livros traduzidos em 14 línguas, do criança, a senhora tinha medo? sei o que faria... Porque o que as crianças amam
entre eles a conhecida coleção Quem tem Fanny: Eu era muito medrosa, muito mesmo. nestas histórias sobre o medo é que elas se sen-
medo de. Nas paredes em volta de sua mesa Na verdade, eu não escolhi escrever sobre este tem tranqüilas. O fio condutor da história é
de trabalho, vários desenhos de pequenos lei- tema. Como na época eu já era uma autora “você tem medo de rato?”, “mas o rato não
tores. É nesta sala, num apartamento claro e mais ou menos conhecida dos editores, me vai te comer!”, “você tem medo de aranha?”,
confortável, a poucos metros da Torre Eiffel, propuseram fazer essa coleção em torno do “mas, olha, a tua avó pega a aranha com a
em Paris, que Fanny Joly recebeu a repórter de medo. E como de fato eu era muito medrosa mão...”. É este tipo de coisa que tranqüiliza,
Leituras Compartilhadas: quando criança, achei a idéia interessante e me mas é verdade que com um seqüestrador, por
deu vontade de fazer. exemplo, você corre o risco de encontrá-lo e
LC: Os seus livros da coleção Quem tem medo vai ser horrível!
de falam de medos infantis que parecem uni- LC: Hoje em dia a educação infantil se preocu-
versais. A senhora acredita que existam medos pa em ajudar as crianças a perder o medo. Mas LC: Os seus livros são sempre engraçados, bem
que todas as crianças sentem em determinada antigamente o medo era utilizado como mé- humorados. A senhora acredita no riso como
idade ? todo de educação como, por exemplo, “tem arma contra o medo?
Fanny: Esta coleção é dirigida às crianças entre um monstro no teu quarto que vai te pegar, se Fanny: Ah, sim! Eu acredito no riso como arma
3 e 8 anos. Nesta fase existem medos quase você não dormir”. A senhora acredita que contra quase tudo no mundo. Contra o medo,

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FANNY JOLY?
rir é uma arma fantástica. Quando você está rar este medo. É uma etapa de crescimento, de
com medo e alguém te faz rir, o medo se des- maturidade. É bom poder falar.
faz imediatamente. De qualquer maneira eu
sou uma pessoa que adora rir e todos os meus LC: A senhora acha que a série sobre o medo
livros têm um tom humorístico. Nessa cole- terminou ou acha que daria para escrever mais
ção eu escolhi um estilo diferente. De todos alguns livros sobre o tema?
os livros que escrevi, os livros Quem tem Fanny: Eu acho que acabou. Para mim a idéia
medo são os únicos nos quais eu falo com a original dessa coleção foi há dez anos. Ela foi
criança na segunda pessoa. Geralmente nos li- criada num grande formato, depois relança-
vros para crianças a narração é feita na terceira mos a coleção num formato menor, mas não adorei poder contar uma história delirante e
ou na primeira pessoa. Nessa coleção eu esco- escrevi livros novos, ficamos com os doze te- saber que nunca vamos encontrar um. Houve
lhi falar diretamente com a criança. Ela é o mas. Foram os doze estabelecidos inicialmen- uma idéia de fazer “Quem tem medo de la-
herói da história. Quando o medo aparece de te. Aliás, o mais difícil para mim foi escrever o drão?”, - parecido com a idéia do seqüestrador
repente, ela se identifica ainda mais, ela está livro Quem tem medo do mar?. É verdade de que falamos agora há pouco - , mas decidi-
dentro da história. E o que acontece no livro, que existem crianças que têm medo da água e mos não incluir este tema, porque no nosso
acontece com ela também. E eu acho que esse é verdade que depois que aprendemos a nadar espírito seguro e engraçado, não cabia ...
estilo funciona muito bem. Eu encontrei mui- perdemos esse medo e que no mar tem peixi-
tas crianças que leram esses livros. Na França, nhos. Mas, ao mesmo tempo, o mar pode ser LC: Hoje em dia as crianças enfrentam o medo
eles foram publicados há dez anos, então tive perigoso. Quando eu te dizia que o fogo pode do dia-a-dia: medo de terroristas, medo de
a oportunidade de encontrar muitas crianças e ser perigoso, o mar também pode ser perigo- bomba... A senhora acha, no entanto, que elas
professores que me disseram que o texto na so, então não foi muito fácil. Foi o tema mais ainda têm medo de monstros e bruxas?
segunda pessoa fala diretamente às crianças, difícil a ser tratado. Fanny: Sim, porque há um prazer de ter medo,
funciona. que é o medo com o qual podemos brincar,
LC: E como você achou a solução para falar de sabendo que ele não existe de verdade. As cri-
LC: Muitas crianças são reprimidas quando têm um tema difícil? anças têm realmente medo quando vêem o
medo. Alguns pais dizem aos seus filhos que Fanny: Para mim a melhor solução seria não ter noticiário com assuntos assustadores, mas elas
medo é sinal de fragilidade. A senhora acredi- que escrever sobre o mar. Eu não gosto da idéia adoram ter medo com os livros, com brinque-
ta que é importante sentir medo? de ter que dizer: “não precisa ter medo do mar”. dos... Elas brincam com o medo porque sa-
Fanny: Eu não acho que temos que eliminar o Por outro lado, o livro sobre o monstro, por bem que no fundo é mentira e que de alguma
medo e sim tentar compreendê-lo e superá-lo. exemplo, foi fantástico escrever, porque mons- forma é um prazer ter medo. Quando estamos
Tentar entender o porquê, se o medo tem ra- tros não existem! É ótimo poder dizer no final lendo, nossa vida não corre nenhum risco.
zão de existir naquele momento. O fato de não da história: “os monstros são ótimos, mas fe-
TATIANA MILANEZ Jornalista
termos medo não significa que está tudo bem, lizmente não existem, só nos livros”. Sobre os
mas o importante é tentar ir em frente, supe- extraterrestres, como eu não acredito neles, Com colaboração de Ana Cláudia Maia

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PLUFT, O FANTASMINHA
à procura do tesouro há dez anos. Maribel é velhas idéias e velhas posturas para, assim, nos
CACÁ MOURTHÉ a neta do Capitão Bonança e com ela o pira-
ta quer se casar. Pluft vê um ser humano pela
renovarmos e aceitarmos a nova situação.
Outro momento interessante da peça é
Como todas as obras de indivíduos cria- primeira vez, quando Maribel surge em sua quando o bandido Perna de Pau é obrigado a
dores, Pinóquio de Collodi , os contos de fada casa. Ele tem medo de gente. Sua mãe o re- deixar Maribel sozinha no sótão para buscar
de Andersen e outros , as peças de Maria Cla- preende, pois quer fazer um “intercâmbio uma vela na cidade. A menina se desamarra e
ra Machado são importantes tanto para crian- cultural” entre gente e fantasmas. Pluft con- corre até a janela para pedir socorro. Pluft apa-
ças como para adultos. Um espetáculo de tea- versa com Maribel, os dois ficam amigos e o rece e Maribel desmaia. Ele observa a menina
tro bem feito é um estímulo para qualquer sen- fantasminha acaba por virar herói ajudan- durante um longo tempo tentando entender
sibilidade. Para a criança então, que não está do a menina a libertar-se do pirata. as diferenças. Neste momento ela acorda e fi-
tão preparada como nós para lidar com a reali- A peça nos fala do medo que temos de cam os dois parados, emocionados um em
dade externa, por estar mais ligada à sua reali- crescer e sair de nossa casa para o mundo e do frente ao outro. Neste instante é comum ha-
dade interna, ao esforço para crescer e em ven- medo que temos do encontro com o outro. O ver um grande silêncio na platéia. Existe um
cer seus medos e ansiedades, as boas histórias medo não é um valor absoluto, passa a ser re- enorme suspense. Pluft (o mundo imaginário)
e seus símbolos se tornam um alimento neces- lativo e todos o possuem: adultos e crianças. e Maribel (o mundo objetivo) estão frente a
sário para a alma em desenvolvimento . Quando o espetáculo abre com o célebre frente. São absolutamente diferentes, não exis-
O teatro dirigido para a criança é um te- diálogo entre Pluft e sua mãe, ele está seguran- tindo entre eles nenhuma semelhança. Os dois,
atro muito especial. Enquanto o público adul- do uma boneca velha que encontrou dentro em um primeiro momento, procuram algum
to pode pensar sobre o que viu e tem a capa- do baú de seu tio Gerúndio. Observa a bone- ponto de identificação e não encontram. Mais
cidade de criticar, de selecionar seus sentimen- ca e em pânico pergunta: tarde, com seus medos aplacados pelo conta-
tos para julgar o que está vendo, a criança só to real com o outro, descobrem dentro do baú
poderá captar o espírito da obra pelos seus - Mamãe, gente existe? (o inconsciente) o Tio Gerúndio - antigo fan-
símbolos. Ela adere totalmente ao que vê, - Claro, Pluft, claro que gente existe. tasma de navio e amigo do Capitão Bonança
identificando-se com as personagens, não fa- - Mamãe eu tenho tanto medo de gente (larga a Arco-Íris, avô de Maribel. A partir daí, os dois
zendo ou não podendo fazer mais a divisão boneca) se tornam grandes amigos. O outro ( Pluft X
entre o que é ficção e o que é realidade. Se ela - Bobagem Pluft. Maribel ) aqui deve ser escrito com letra mai-
se identifica com as personagens, ela transfe- - Ontem passou lá embaixo, perto do mar, e eu vi. úscula, o OUTRO, como um mistério que
re os seus medos e ansiedades para essas cria- - Viu o que, Pluft? devemos aprender a amar. O mistério é sem-
turas. Está, pois, aliviando as tensões. A cri- - Vi gente, mamãe. Só pode ser. Três. pre uma intervenção divina que nos impulsio-
ança vê seus medos interiores exteriorizados - E você teve medo? na para a construção de uma vida plena. Ven-
e resolvidos através do faz-de-conta. Ela dei- - Muito, mamãe. cido o medo inicial, que é a tensão entre medo
xa o mundo concreto e hostil para se trans- e coragem, os dois se tornam heróis e vão em
portar a um país longínquo onde todas as Pluft se sente frágil para encarar o mundo busca do tesouro . O fantasma atua como re-
dificuldades se tornam menos ameaçadoras. real (adulto). Ele prefere não acreditar e conti- velador de uma verdade interna (inconscien-
Estamos, então, lidando com o mundo ma- nuar a viver em seu mundo seguro e conheci- te) que age de forma poderosa, fazendo com
ravilhoso, com arquétipos. do. O desfazer do “velho” em nossas vidas e a que a força vital se manifeste. Agora, impulsi-
A história de Pluft, o fantasminha chegada do “novo” nos apavora e nos ameaça onados por essa força, os meninos conseguem
gira em torno de uma família de fantasmas como se não tivéssemos recursos para enfren- vencer o bandido Perna de Pau e recuperam o
envolvida com marinheiros em busca de um tá-lo. É preciso, então, que a vida nos impo- tesouro do velho Bonança Arco-Íris. Pluft, ao
tesouro. A Senhora Fantasma vive com seu nha novas situações. Porque é só através da abrir o tesouro, encontra uma foto de Mari-
filho Pluft em uma casa abandonada, onde experiência que podemos compreender que já bel, um rosário e uma receita de peixe assado,
foi escondido o tesouro do Capitão Bonan- estamos preparados e prontos para o que vier. ao contrário do que imaginava o pirata encon-
ça Arco-Íris. Aparece por lá a menina Mari- Neste momento somos tomados pelo arquéti- trar, ouro e jóias. O bandido, em Pluft, somen-
bel, raptada por Perna de Pau, pirata que está po do herói e somos obrigados a deixar de lado te conhece o poder materialista da vida. No

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DE MARIA CLARA MACHADO


momento em que o cofre é aberto, uma nova
dimensão da vida é apresentada. O pirata con-
funde a riqueza interior com a idéia do poder
material e, por isso, é mandado para o fundo
do mar, para junto do tesouro que procura.
Enfrentado o medo do desconhecido, Pluft e
Maribel descobrem o verdadeiro tesouro da
vida, que somente se encontra através do amor
e do encontro real com o OUTRO que é: um
rosário (alimento para o espírito), uma receita
de peixe assado (alimento para o corpo), uma
foto da neta Maribel (o afeto, alimento para
as relações se perpetuarem).
Estes três ingredientes revelam a verdade
do grande bem da vida, o lado humano e espi-
ritual, despojado de qualquer conotação ma-
terial que possa vir a ter, como recompensas e
heranças que estimulam a ambição e afastam
o homem do seu Ser. Pluft e Maribel encon-
tram, através da experiência mútua e da supe-
ração dos seus medos, a receita do bem viver.
Maria Clara Machado trabalha o medo em
Pluft, não como um ato de covardia que im-
pediria o desenvolvimento do homem, mas
com um grande respeito ao medo verdadeiro
da criança em seu processo de crescimento e
entendimento do mundo, fazendo assim com
que a criança o encare como possibilidade de
mudança. Pluft é uma onomatopéia que desig-
na algo que estoura, que se abre para o mundo.
CACÁ MOURTHÉ Diretora do curso do Teatro Tablado

AMOR E MEDO
ASMINHA, TEATRO TABLADO

“Estou te amando e não percebo,


porque, certo, tenho medo.
ANTASMINHA
ASMINHA

Estou te amando, sim, concedo,


mas te amando tanto
FANT
PLUFT,, O FANT

que nem a mim mesmo


DETALHE DO CARTAZ DE PLUFT

revelo este segredo.”


AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA Poeta, crítico e
cronista. Entre suas obras estão: Textamentos; A mu-
lher madura.

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O MEDO NO CINEMA
cinema nacional contribuiu para Daí podermos também incorpo-
JOÃO CARLOS o gênero, com o brasileiríssimo Zé rar na nossa lista os filmes de sus-
RODRIGUES do Caixão. pense, nos quais o espectador co-
Outra vertente de filmes apa- nhece tudo o que ameaça os per-
Os historiadores contam que, vorantes trata do cientista louco, sonagens, mas que estes ignoram.
em 1895, em plena Belle-Époque que desafia a natureza ultrapassan- Psicose, de Alfred Hitchcock é um
parisiense, na primeira exibição co- do os limites da sensatez e crian- clássico desse gênero que ame-
mercial do cinematógrafo dos ir- do criaturas monstruosas que fo- dronta sem apelar para o sobrena-
mãos Lumière, a platéia entrou em gem do seu controle. O cenário tural. É o mundo dos assassinos
pânico ao ver um trem avançan- aqui é um laboratório, com seus seriais tipo Freddy Krueger em que
do frontalmente em direção à câ- tubos de ensaio com estranhas um simples ranger de escada arre-
mera no documentário A chega- borbulhas. É o caso dos célebres pia nossas espinhas dorsais. Essas
da de um trem na estação. Mais Dr. Frankenstein (que criou um obras, que se passam em cenários
de um século depois, isso hoje nos homem com pedaços de diferen- contemporâneos e banais, mani-
parece engraçado, mas nunca o tes cadáveres), Dr. Moreau (em pulam o medo nosso de cada dia.
olho humano tinha tido oportu- cuja ilha animais eram transforma- Hoje, quando a TV mostra
nidade de ver uma locomotiva dos em gente) e Dr. Jekyll (o mé- nos telejornais da hora do jantar
sob esse ponto de vista sem ter dico que vira monstro ao tomar tiroteios ao vivo com mortes re-
morrido esmagado. Daí o medo uma estranha beberagem). Em ais, e que o filme Cidade de Deus
das pessoas que se abaixaram nas anos mais recentes tivemos o caso revela um mundo monstruosa-
cadeiras, gritaram no escuro ou do Parque dos dinossauros e A mente impiedoso a poucas qua-
simplesmente saíram correndo. mosca, descendentes das tarântu- dras dos nossos lares, os Dráculas
Meio século depois, a indústria de las e caranguejos gigantes das dé- são outros, e podemos encontrá-
Hollywood tentou repetir esse efei- cadas anteriores. los em qualquer esquina, à luz do
to com as películas em três dimen- O medo também alimenta boa dia, sedentos do nosso sangue. Ne-
sões, vistas com óculos especiais, parte da produção de ficção-cientí- nhuma ficção pode ser hoje mais
onde objetos eram atirados em di- fica, que pode ser ambientada em amedrontadora do que a realida-
reção ao público, que desviava o naves espaciais de design ultramoder- de. E pouco a pouco nos acostu-
rosto assustado, embora já saben- no ou em cenários cotidianos. De- mamos com o que devia nos re-
do que se tratava de um truque. pendendo do clima político da épo- voltar. Vivemos a banalização do
Esses foram casos raros, pois ca de sua produção, esses filmes re- medo. As sepulturas coletivas dos
o medo no cinema em geral está presentam o Outro (no caso os alie- massacrados da Bósnia e os aviões
associado aos filmes de ficção do nígenas) ora como boas-praças mais se esborrachando nas torres do
DIVULGAÇÃO. FOTOGRAMAS DE “PSICOSE”, DIRIGIDO POR ALFRED HITCHCOCK

gênero terror. Entre cenários góti- desenvolvidos que nós humanos e World Trade Center nos esprei-
cos de velhos palácios, cemitérios que suplantam nosso pânico inicial tam... Longe daqui, aqui mesmo.
e escadarias ocultas pela neblina (Contatos imediatos do terceiro Existirá ainda a possibilidade
habitam as entidades do outro grau e ET), ou, pelo contrário, de voltar atrás, aos bons tempos,
mundo. Algumas são semi-anima- como forças irracionais e destruti- e nos amedrontarmos novamen-
lescas, como o Conde Drácula, vas (A invasão dos discos voado- te apenas com uma simples alma
que se transforma em morcego, ou res, a série Alien) que devemos do outro mundo, um velho vam-
o Lobisomem, que se metamorfo- matar para não morrer. piro ou um pobre morto-vivo?
seia num lobo sanguinário. Outras Segundo o Dicionário Hou-
são mortos-vivos como Nosferatu, aiss, medo é “o estado afetivo de JOÃO CARLOS RODRIGUES Jornalista, pesquisador
e crítico de cinema. É autor dos livros João do Rio:
a Múmia ou os Zumbis. E até o consciência ou premonição do perigo”. uma biografia e O negro brasileiro e o cinema.

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ROTEIRO DO MEDO
Quando pensamos em medo imediatamen- MEDO DE ESCURO (Afraid Of The Dark), 1991, sócio. Depois do crime praticado o assassino inva-
te lembramos de filmes de terror, dos clássicos França/Inglaterra. De Mark People – Menino, cuja de suas vidas e um deles passa a sofrer com o medo
do expressionismo alemão aos famosos e cultua- mãe é cega, mergulha em um mundo de medo e e o remorso.
dos filmes B. Mas o medo está presente no cine- ansiedade quando um psicótico passa a atacar
ma também em dramas, comédias e thrillers psi- mulheres cegas. O SALÁRIO DO MEDO (Le Salaire De La Peur),
cológicos. Aqui você tem uma pequena lista de 1953, França. De Henri-Georges Clouzot – Qua-
filmes em que o medo move as personagens para .A. (Monsters, Inc.), 2001, EUA. De
MONSTROS SS.A
.A tro estrangeiros presos em vilarejo centro-ameri-
a fuga ou para o “enfrentamento”, dominando Peter Docter e David Silverman – Animação. As cano aceitam por uma recompensa de dois mil
seus destinos. Muitas vezes o maior terror não criaturas que assustam as crianças nos armários e dólares a tarefa de atravessar o país dirigindo dois
está no sobrenatural, mas nos demônios produ- embaixo das camas são na realidade funcionários caminhões carregados de nitroglicerina.
zidos pela própria mente. de uma empresa que utiliza os gritos infantis como
fonte de energia para a cidade dos monstros. O SÉTIMO SELO (Det Sjunde Inseglet), 1957, Sué-
ALIEN
ALIEN,, O OIT
OITAAVO PPASSA
ASSAGEIRO (Alien), 1979, EUA.
ASSAGEIRO cia . De Ingmar Bergman – Cavaleiro Cruzado joga
De Ridley Scott – Tripulantes de uma nave espacial NEBLINA E SOMBRAS ( Shadows And Fog), 1992, xadrez com a morte para adiar sua pena até retor-
são ameaçados por uma criatura clandestina que es- EUA. De Woody Allen – Os habitantes de uma nar ao lar. Ele encontra seu país entregue ao fana-
palha morte e terror a bordo. cidadezinha abalada por um misterioso assassi- tismo e desesperado pela fome e pela peste.
no decidem empreender uma caçada ao crimi-
ANATT OMIA DO MEDO (Ikimono No Kiroku),
ANA noso. Mas o medo faz com que desconfiem uns SEXTOO SENTIDO (The Sixth Sense), 1999, EUA.
O SEXT
1955, Japão. De Akira Kurosawa – Comédia dra- dos outros. De M. Night Shyamalan – Menino assustado com
mática. Com medo de ataques nucleares, um sua capacidade de enxergar os mortos recebe a aju-
rico comerciante japonês decide se mudar para NOSFERA TU,, O V AMPIRO DDAA NOITE (Nosferatu,
TU
NOSFERATU da de psicanalista com atormentado passado.
o Brasil. The Phanton Der Nacht), 1979, Alemanha/Fran-
ça. De Werner Herzog – refilmagem do clássico PSICOSE (Psycho), 1960, EUA. De Alfred Hi-
ENCURRALADO (Duel), 1971, EUA. De Steven de Murnau (1922). Vampiro espalha o terror e a tchcock – Mulher se hospeda em lúgubre motel
Spielberg – Homem é perseguido agressivamente peste ao chegar a Weimar à procura de jovem de beira de estrada. Um clássico do suspense.
na estrada por misterioso caminhão. pura e ingênua.
REPULSA A O SEXO (Repulsion), 1965, Inglater-
MARYY SHELLEY (Mary Shelley’s
FRANKENSTEIN DE MAR EXORCISTAA (The Exorcist), 1973, EUA. De
O EXORCIST ra. De Roman Polanski – Mulher perturbada e
Frankenstein), 1994, EUA. De Kenneth Branagh – Willian Friedkin – Exorcista trava uma batalha com sozinha em apartamento vê seus medos virem
Jovem cientista pretende vencer a morte e dá vida o demônio para libertar uma menina possuída. à tona quando passa a não diferenciar delírio
a monstruosa criatura. Considerado um dos mais assustadores filmes já e realidade.
produzidos.
GASPARZINHO
ARZINHO,, O FFANT
GASPARZINHO ANT CAMARADA (Casper),
ASMINHA CAMARAD
ANTASMINHA SEM MEDO DE VIVER (Fearless), 1993, EUA. De
1995, EUA. De Brad Silberling – Solitário fantas- O GABINETE DO DR. CALIGARI (Das kabinett Des Peter Weir – Depois de sobreviver a terrível aci-
minha não consegue fazer amigos, pois todos têm Doktor Caligari), 1919, Alemanha. De Robert Wi- dente aéreo, homem acredita ser invulnerável e
medo dele. Até a chegada da filha de um “tera- ene – Filme que deu origem ao Expressionismo ale- passa a arriscar sua vida continuamente.
peuta de fantasmas”. mão. Misterioso hipnotizador é suspeito de uma
série de assassinatos. SOB O DOMINÍO DO MEDO (Straw Dogs), 1971,
GUERRA DOS MUNDOS (The War of The Worl- EUA. De Sam Peckinpah – Pacato professor se
ds), 1953, EUA. De Byron Haskin – Versão cine- O ILUMINADO (The Shining), 1980, EUA/Ingla- muda com a esposa para vilarejo escocês onde sofre
matográfica da história de H.G. Wells que cau- terra. De Stanley Kubrick – Escritor desemprega- a hostilidade de alguns jovens locais. A tesão e as
sou pânico ao ser transmitida pelo rádio por Or- do se muda para hotel abandonado com a mulher agressões crescem até um desfecho violento.
son Welles em 1938. e o filho. Aos poucos ele começa a enlouquecer e
se torna uma ameaça para sua família. UM CORPO QUE CAI (Vertigo), 1958, EUA. De Al-
M, O VAPIRO DE DUSSELDORF (M), 1931, Alema- fred Hitchcock – Detetive que tem fobia de altura
nha. De Fritz Lang – Grupo de criminosos se une O INVASOR, 2001, Brasil. De Beto Brant – Dois
ASOR
INVASOR é contratado para vigiar uma jovem, suicida em
para capturar e julgar um assassino de crianças. amigos contratam um matador para assassinar seu potencial.

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A CASA-FANTASMA DE
rênteses: no elogio ou na crítica, na vida ou fresco? A hora é a hora da meia-noite que apa-
na obra, ambos destinados ao desacerto. vora. Efetivamente, ao pedido de Álvares por
O presente artigo promove, em meio aos libação, traz fogo e dois charutos/ E na mesa de
desacertos, o encontro da arte de dois anjos, estudo acende a lâmpada, um gesto de Augusto
par resultante da posição ímpar que ocupam estabelece o contato: Toma um fósforo, acende
nas respectivas escolas, o Romantismo e o Sim- teu cigarro.
bolismo. Não apenas porque antecipassem o Psicografia? Não a da pessoa; talvez a de
prosaísmo – Gregório de Matos o fez bem an- Pessoa. Não a psicografia realizada por Jorge
tes e mais francamente. É ímpar sua posição Rizzini e Chico Xavier com Augusto dos An-
mesmo e sobretudo naquilo que têm de arcai- jos, mas a “autopsicografia” por Fernando Pes-
co e carcomido, vistos de outro ângulo. À luz soa e seus heterônimos. Mais precisamente,
do que Augusto chama “a solidariedade subjeti- uma interpsicografia de texto: os processos
va/ de todas as espécies sofredoras” e Álvares vê mentais dos poetas de Versos íntimos e Idéi-
como “Duas almas que moram nas cavernas de as íntimas gerando a intimidade intertextual,
um cérebro pouco mais ou menos de poeta”, eles se onde o dado biográfico – o menino autodi-
tornam contemporâneos extemporâneos – de data que, nascido “em meio de avisos sobrena-
nós e entre si. turais e almas do outro mundo” num engenho
RICARDO OITICICA Através do médium da crítica, Augusto da Paraíba, sofrerá o vaticínio de que “Este
lança o grito do seu livro – Eu – para Álvares: menino não se cria” (informações de Magalhães
No ensaio Amor e medo, Mário de An- E haja só amizade verdadeira de uma caveira para Jr. sobre Augusto dos Anjos), ou o estudante
drade faz com Álvares de Azevedo o mesmo outra caveira/ Do meu sepulcro para o teu sepul- paulista que prenuncia o ano de sua morte,
que o modernismo com Augusto dos Anjos: cro?! Antes depois da morte do que nunca. ocorrida num domingo da Ressurreição, um
ignorar o antecipatório de uma poética. Álva- Álvares confirma o local de encontro: Ami- mês após queda de cavalo etc... etc, – só im-
res continuava a ser apenas o “lacrimoso pere- zade! Onde a viste? Foi acaso/ No escuro cemité- porta se relacionado ao processo de criação, que
ne” e Augusto o “poeta do hediondo”, mas na rio de joelhos/ Sobre o torrão que abriu a pá a Augusto define por uma “série indescritível de fe-
Paulicéia de 1850 alguém já gra- nômenos nervosos” e Álvares por
fitava esses versos: “Escrevo na “vibrações convulsas”. A vida en-
parede as minhas rimas/ De painéis quanto metalinguagem, tal
a carvão adorno as ruas”, alguém como expresso por Augusto em
no Rio-1900 já falava dos “anún- O poeta do hediondo:
cios das casas de comércio” e “da Em alucinatórias cavalga-
cara geral dos edifícios”. das,/ Eu sinto então, sondando-
Só mais à frente será passa- me a consciência,/ A ultra-inqui-
do recibo: Antonio Candido vai sitorial clarividência/ De todas as
considerar Álvares “o primeiro, neuronas acordadas (...)/ Eu sou
quase o único antes do modernismo, aquele que ficou sozinho, cantan-
a dar categoria poética ao prosaís- do sobre os ossos do caminho/ A
mo cotidiano” (o que seria omitir poesia de tudo quanto é morto.
Augusto), enquanto Ferreira Nesse sentido, um texto
Gullar acredita que “a poesia de pode ser “cavalo” de outro, na
Augusto opera uma revolução. medida em que estabelece a
Com ela, nossa poesia passa a fa- condição objetiva entre subje-
lar da vida real, comum” (o que tividades, seja a intra-subjetivi-
seria esquecer Álvares). Entre pa- dade de um mesmo autor, caso
FOTOGRAFIAS DE CELSO BRANDÃO

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ÁLVARES DOS ANJOS


do poema Autopsicografia e dos heterônimos Pelo caminho, toda uma fauna em co- corte minha singularíssima pessoa”, é o que vem
de Pessoa, seja a intersubjetividade de autores mum: corvos, cobras, sapos, lagartixas, mos- no bolso do outro. A autópsia do texto se faz em
distintos. Meu sonho, poema de Álvares de cas, até o indefectível verme da última subs- rins, tórax, intestino, tripas, estômago, tíbia, fê-
Azevedo, possibilita a leitura dos dois níveis tância. Animal doméstico por excelência, o cão mur – despojos encontrados na caixa-livro de
de subjetividades no diálogo entre as persona- assume proporções de Cérbero, tanto em um ambos. Aqui o prontuário de um: “Foi-lhe palácio
gens “Eu” e “O fantasma”. (“E latiu como um cão mordendo um século”) quan- o hospital, a esse/ Cuja fronte era um trono à poesia”;
Atormentado pelo galope agourento, per- to em outro (“E irá assim, pelos séculos adiante,/ ali o prontuário do outro: “O coração do poeta é um
gunta o “Eu”: Latindo a esquisitíssima prosódia”), assim como hospital/ Onde morreram todos os doentes”. Mas ne-
“Cavaleiro, quem és? Que mistério/ Quem te o cavalo será da estirpe de Ucrânio, a monta- nhuma visita deste mundo. Pudera: se um não é
força da morte no império/ Pela noite assombrada ria cantada por Lord Byron. E antes mesmo amado, “Meu Deus! Ninguém me amou!”, o outro
a vagar?” de Baudelaire comparar a raça dos poetas à do também não ama: “O amor, quando virei por fim a
Responde o “fantasma”: inadaptado albatroz, cujas asas de gigante o amá-lo!”. Só o túmulo lhes será alcova para en-
“Sou o sonho da tua esperança,/ Tua febre que impedem de andar, Álvares de Azevedo já vê contros: “Eis-te aí, prostituída aos vermes/ Que só te
nunca descansa,/ O delírio que te há de matar.” o vate “como uma águia nas trevas – tropeçava e mordem com seus agros beijos. E ainda: Ser meretriz
A intra-subjetividade: depois do túmulo/ (...) Oferecer-se à
Álvares é ao mesmo tempo bicharia infame/ Com a terra do
o “Eu” e o “fantasma”, uni- sepulcro a encher-lhe os olhos”.
ficados pela morte após a A recepção de Augusto dos
queda de cavalo. A febre Anjos e Álvares de Azevedo é
que deveras sente já estava palco, ela também, da disputa
em alto grau no poema. Per- que se estabelece no interior da
meia a cavalgada ficcional obra, resultando em repulsa e
e a cavalgada verdadeira a atração. O que Antonio Candi-
mesma pulsão que o teria do diz de Álvares vale para Au-
feito escrever, na parede de gusto: “Ou nos apegamos a sua
seu quarto, o ano de sua obra, passando sobre defeitos e limi-
morte, ao lado dos nomes tações que a deformam, ou a rejei-
de colegas de faculdade de tamos com veemência, rejeitando a
quem fez o elogio fúnebre. magia que dela emana.(...) a ele só
A intersubjetividade: o ca- nos é dado amar ou repelir”. Você
ráter dialógico do texto pos- pode entender a obra de Álva-
sibilitará a interlocução res como “falsificações sistemati-
com Augusto dos Anjos, zadas inconscientemente” (Mário
meio século depois, quan- de Andrade) e como “falseamen-
do este, cavalgando, se diz to do real” (Ferreira Gullar) ou, à
o cantor de tudo quanto é morto. O “Eu” e o caía”, em muito diferente da águia condoreira maneira da referida autopsicografia de Pessoa,
“fantasma” também são Augusto dos Anjos, do romantismo. Na casa de Álvares dos An- como fingimento: “Escutai-me, leitor, a minha his-
o poeta do Eu. No alucinado galope do tempo jos, há pouso para Poe, conhaque para Byron, tória/ É fantasia, sim, porém amei-a”. Se assim for,
– esse “cavalo de eletricidade”, para Augusto –, os absinto para Baudelaire... e há Mary Shelley. a fantasia leva ao fantasma e a obra de ambos
dois poetas emparelham “como se Deus ou Satã Arrombada a porta como a uma tumba – será lida como quem, no engenho da literatura,
dissesse-lhes:/ Correi sem mais parar” (ainda Eros e “Cuidado, leitor, ao voltar essas páginas” –, damos “das ruínas de uma casa assiste ao desmoronamento
Tânatos em Álvares), até o encontro virtual das com o corpo da obra. “Poetas, amanhã ao meu ca- de outra casa”.
paralelas na casa-fantasma de um híbrido Álva- dáver/ Minha tripa cortai mais sonorosa”, diz o bi-
RICARDO OITICICA Doutor em Letras e pesquisador da Fundação
res dos Anjos. lhete no bolso de um. “Tome, Dr., esta tesoura... e Biblioteca Nacional

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E ENTÃO...
bateu surdo e apressado no peito. nhar terreno, como que a retardar ao máximo

PAULO CONDINI Era tudo o que ele não queria mais ter que
fazer. Subir naquele ônibus, que já fora a sua
o inevitável.
O pouco leite que havia tomado rebelou-
alegria, e precisar olhar para a cara repulsiva de se, querendo fugir.
— E então?... Estamos conversados? — O Bruno, um garoto atarracado da quarta série que O coração disparou e a coisa entalada na
pai perguntou. E em seguida informou: — gostava de se divertir às custas dos menores. garganta aumentou.
Apanhou na rua, apanha em casa. Ele detestava ver alguém se aproveitar dos Finalmente o ônibus parou.
Luizinho sentiu o coração apertado. As per- mais fracos. Subiu o primeiro degrau...
nas tremeram e uma coisa entalou na garganta. Lembrou de como o pai costumava fazer Do último banco, a voz esganiçada de
— E não adianta ficar me olhando com es- com sua mãe quando ela o contrariava. Era Bruno:
tes olhos esbugalhados. — O pai continuou, suficiente perceber seu descontentamento — Entra depressa, Lulu!
sem dar conta do desespero do menino. — quando ele chegava em casa com os olhos ver- A turma, ao seu lado, gargalhou.
Você entendeu o que eu disse? melhos e a voz empastada. Seu rosto ardeu. O leite quase chegou
— Sim... ele respondeu, num fio de voz. O ônibus apontou no fim da rua. à boca.
— Assim está melhor. — O pai falou, olhan- Ele se encolheu e sentiu o corpo tremer. Mesmo assim entrou no corredor e o ôni-
do-o muito sério, e arrematou. — Agora trate Na memória, viu os olhos de sua mãe en- bus voltou a andar.
de ir para a escola. sombrear. Observou os rostos alterados pelo riso da
A mãe, parada na porta da cozinha, perce- Como num filme, observou o ônibus apro- turma dos meninos maiores, e procurou seu
beu a mãozinha trêmula buscar a alça da mo- ximar-se lentamente, parecendo não querer ga- lugar para sentar.
chila amarela que ele adorava. Mas hoje, ela
também notou, Luizinho não demonstrava o
menor prazer em colocá-la às costas.
— Tchau, pai! — Ele falou sem olhar para
o seu lado. — Tchau, mãe! — E lhe endere-
çou um olhar de cortar o coração.
Ela bem que gostaria de dizer alguma coisa
para lhe transmitir um pouco de confiança,
mas sabia que se abrisse a boca o marido iria
ficar bravo. Por isso calou e acompanhou a
saída do filho, com um enorme sentimento
de culpa.
O pai voltou ao jornal e ao café da manhã.
Luizinho saiu para a rua.
A mãe foi chorar escondida na área de serviço.
Na calçada, o vento fresco da manhã arre-
piou a penugem dos seus braços finos de me-
nino de oito anos.
Do outro lado da rua, a moça bonita que
via sair para o trabalho, todas as manhãs, fe-
chou a porta do carro e arrancou apressada.
Luizinho olhou para a sua esquerda, esperan-
ILUSTRAÇÃO LUIZ AGNER

do ver o ônibus da escola.


A qualquer momento ele iria chegar.
A boca ficou ainda mais seca. O coração

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TANTOS MEDOS
Vozes, indistintas, gritavam: “Lulu! Lulu!” TANTOS MEDOS Isso a gente faz,
Um zumbido insuportável, na cabeça, qua- E OUTRAS CORAGENS isso a gente não faz.
se o impedia de andar. (fragmentos)
As crianças, sentadas nos bancos da frente, Que a vida é um jogo
fingiam não estar vendo nem ouvindo nada. “Muitos medos a gente tem assim,
Animado pelo sucesso, Bruno levantou e e outros a gente não tem. de tantos medos
foi para o corredor, rindo ensandecido... Os medos são como e outras coragens. ”
O motorista olhou pelo retrovisor e sacu- olhos de gato
Do livro Tantos medos e outras coragens, Ed. FTD.
diu a cabeça. brilhando no escuro.
O ônibus passou por um buraco, na aveni- Há, por exemplo, o medo do escuro ROSEANA MURRAY Poeta. Entre suas obras estão: Manual
da delicadeza; Jardins; Paisagens.
da, e balançou forte. e tudo o que o escuro tem:
Luizinho levantou os olhos e viu Bruno lobo mau, floresta virgem, alma •••
andar em sua direção, com os olhos congesti- do outro mundo, portas fechadas,
onados, corpo gingando, a boca entreaberta e
“Tenho muito medo
cavernas, porões, ai que pavor!
das folhas mortas,
lembrou do seu pai chegando em casa.
medo dos prados
Na área de serviços a mãe chorando, en- O escuro tem mãos de veludo
cheios de orvalho.
colhida... que fazem o coração rolar
eu vou dormir;
E então, como uma centelha, a coisa enta- pela escada,
se não me despertas,
lada na garganta se libertou e, com os olhos pela rua,
nublados pelas lágrimas, correu pelo corredor pela noite afora
deixarei a teu lado meu coração frio. ”
em direção ao brutamontes e desferiu um chute como um cavalo sem freio ” FEDERICO GARCÍA LORCA 1898-1936 Poeta e dra-
violento entre suas pernas. maturgo espanhol.

Bruno gritou fino e dobrou o corpo. “Os medos são como


flores secretas, •••
A turma do fundão calou-se, surpresa.
Bruno sentou-se no chão a chorar. cores secretas, “Aumentam-se-me então os grandes
Uma voz indistinta gritou: invisíveis vaga-lumes medos.
— Chora, Bru Bru ! marcando o caminho. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa
E as crianças dos bancos da frente sauda- Num desenvolvimento de borracha,
Isso a gente faz,
ram com gritos, assobios e muitas palmas...
isso a gente não faz.
Variando à ação mecânica dos dedos! ”
PAULO CONDINI Jornalista, ator e produtor, foi editor da Melho- Augusto dos Anjos 1884-1914 Poeta. Publicou ape-
ramentos e da Carthago & Forte. Escreveu Scorro; Os filhos do Como um relógio oculto. nas um livro em vida: Eu.
rio; Juju e o unicórnio.

P R O D U Ç Õ E S E D I T O R I A I S

Todo mundo pergunta, o que quer dizer Manati. A palavra de ori-


gem caraíba, significa “gênio da água” ou “sereia” e é um dos nomes
populares do peixe-boi-marinho.

A editora Manati nasceu em mares brasileiros, mas esse é apenas


um dos motivos de seu nome. Quem conhece nossos livros sabe que
Manati quer dizer muito mais...
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O MEDO-AFIRMATIVO
EM CLARICE LISPECTOR
constituinte, será sempre imprescindível para cias poderosas de uma imantação e de uma
ROBERTO CORRÊA a base sólida do dínamo do crescimento: o fortalecida beleza que, do lado de quem as-
DOS SANTOS investigar. Nesse ato, o preparo, a pesquisa, siste, não se sabe de onde terá nascido tal
o reconhecer e o reelaborar. Ao saber o bom gigante e divino domínio. Tais substâncias
A vida exige uma legião de sentimentos uso da investigação, o medo, de constrange- foram exigidas para a plenitude, provisória
a serem polidos para tornar-se ela mesma dor, torna-se auxiliar e, então, já não permi- qual relâmpago, de um destino ali, em ele-
uma obra; em certo sentido uma obra-de- te que ele – o medo – se erga a tal altura que vada intensidade da arte, daquela a torcer e
arte. Ou seja, algo que vagarosamente e com gere o terror, o pânico, a comportar, conse- a modelar o medo. É desse modo que o
delicadeza irá sendo construído, de modo a qüentemente, o afrouxamento das virtudes medo se integra ao fazer de Clarice Lispec-
ampliar a harmonia dos afetos de que se é da alegria. Esta, em si mesma, libertadora. tor: o medo cria, não interdita. Daí a obra.
formado e de que se é formador. Para tanto, Crescido desproporcionalmente, o medo Sua radical coragem. Se medo há, será para
retira-se dos próprios meios de subjetivação levaria à ignorância e à cegueira e ao empa- desenhá-lo, tecê-lo para a construção dessa
(experiência, encontros, perdas, exame do redamento, constituindo um elemento emo- ou daquela personagem, interessando mais
trânsito entre os seres, os estados e os pro- cional inibidor, a cons- especialmente o sutil vi-
cessos sociais) a matéria a modelar-se ao abrir- tranger e a paralis ar. gor a minuciosamente
se ao sopro do espírito: o sopro consiste no Como porém, como a construir-se na aparente
nome outro para designar a alma – a rede da vida quer vida, a educa- e inicial timidez de algu-
organicidade afetiva. ção dos sensos deverá mas delas.
Dentre os sentimentos a abrigarem a sa- convergir para que se Bem se verá, na gene-
bedoria para que um ser amplie seus espa- manifeste em nós a ou- alogia clariceana, o que se
ços, movimentos, gestos e percepções, en- tra face do medo: a au- segue ao medo: a luta, o
contra-se – e a afirmativa pode parecer para- dácia. Os dois termos salto, o inquebrantável
doxal – o medo: o medo, em seu grau justo integrantes de um único exame da vida múltipla.
e necessário (não além do limite do útil à e mesmo signo. Ir: por O medo em A paixão se-
vida), permite que a força natural (o bicho medo. Fazer: por medo. gundo G.H., face à figu-
que somos) se alastre e detenha os avanços Ous ar: por medo. E ra histórica, real e imagi-
impedidores do que se costuma chamar de logo – nos desdobra- nária da barata, constitui
entendimento coletivo com suas regras ge- mentos desses atos – ul- a usina de fatura de uma
rais convencionadas por um outro severo e trapassar o medo. Revertê-lo, dobrá-lo à nos- entretecida grade de afecções anímicas que
restritivo da vontade de singularização, a le- sa imperiosa energia vital. A cada novo ele- cruamente se abre a esse-outro-que-lê: o nós.
gítima vontade do experimento e das meta- mento de confronto (o confronto é uma das Esse, sim, intimado a seguir, a ser rápido (qual
morfoses das potências do corpo criador. técnicas do aprendizado do medo posto à sapiente animal), e entender, até certo pon-
O animal, por ter medo (pois o medo nossa serventia), saber que tudo ocorrerá pro- to, aquilo-que-o-espreita, gestando sua – ágil –
procede da mais soberana das forças – a de visoriamente, pois este – o medo – reatuali- artesania de simultaneamente entregar-se e do-
viver), desenvolve e aguça seus sentidos (o za-se sempre sob diversos formatos. Ora me- mar: trata-se, em Clarice, de um curso para
tato, o cheiro, o ouvir, a visão e a inteligên- nos, ora mais fantasmáticos. fazer-se soberano. Estar no e estar para além
cia do reconhecimento para mover seu mun- Se assim é, deve-se , frente a alguma de do medo. São bem incomuns os modos de
do livre e atento). Assim, ampliam-se as ha- suas aparições, dar-lhe o crédito de invocar Clarice expor o medo. Descrevem-se, em A
bilidades do agir: recuar, saltar, observar, co- no corpo, e novamente, as reações químicas paixão, máscaras do medo. Apresentam-se al-
mer, subir, desfazer-se da visibilidade, voar, de vibrantes atitudes criativas presentes nas gumas delas a fim de que possam servir de
migrar. Superar, portanto, a iminência do pe- respostas políticas e, tantas vezes, estéticas. mínima seleta para uma antropologia literária
rigo. Ter medo como alavanca para vencer: O medo de falhar, em um palco, abre cadei- do medo, a história de suas emergências. Su-
vencer-se. O medo, nesse grau afirmativo e as de fluxos pelos quais se movem substân- blinhe-se parte de como este se encontra por

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“As coisas são para temer somente


que encerrem contra alguém poder de mal;
as outras não, não causam dano à gente. ”
DANTE ALIGHIERE 1265-1321 Poeta italiano. A LÍNGUA TRAVADA
Clarice, desenhado em frases de diamante:
Medo do que é novo; medo de viver o que não
DIDIER LAMAISON do medos arcaicos que remontam ao
meu segundo ano de existência. Perco
se entende; medo em relação: a ser; medo de ir vi- Toda excitação se alimenta de an- toda autonomia, tudo temo.
vendo o que for sendo; medo de não pertencer mais gústias sublimadas. A excitação da via- Leva tempo recuperar-se dessa terrí-
a um sistema; medo de que o nosso modo não faça gem tem muito de angústias reprimidas, vel experiência. A angústia inicial do ae-
sentido. E logo depois, diante da barata, afir- uma a uma superadas: a angústia de se roporto se abranda pouco a pouco em
ma-se: Estava me libertando da minha morali- perder, a do esquecimento, a da novi- mania, inquietude, apreensão. Apreen-
dade – embora isso me desse medo, curiosidade e dade. Podemos enumerar outras, mas a são que nos toma todas as vezes em que
fascínio. Ou, para ao medo contrapor-se: se eu angústia mais específica das viagens é devemos nos exprimir nessa língua es-
for o mundo não terei medo (se a gente é o mundo, certamente a angústia lingüística. Quan- trangeira cuja enigmática alteridade tão
a gente é movida por um delicado radar que guia). do desembarcamos sem preparação em profundamente nos transtornou em nos-
E medos como: o medo do amor; o medo de mi- terra estrangeira, o primeiro suor frio sa chegada. Quanto tempo é preciso para
que nos percorre é o da descoberta bru- vencer este medo de “se lançar” num fa-
nha mudez final na parede.
tal de que a língua não flui e a comuni- lar que não é o nosso? Alguns não o do-
No amplo raio dos medos, propõe que se
cação mais elementar torna-se súbita e minam jamais. Ele decorre de duas fixa-
deveria dizer assim – ele está muito feliz porque
espantosamente problemática. As mais ções diferentes: a de não se fazer devida-
finalmente foi desiludido. O que era antes não
banais placas de sinalização me são mente entender e a de se estar exposto
era bom. Isso em razão de que, afirmará, ser
enigmas absolutos. Concebidas para o ao julgamento dos outros. A primeira
necessário: correr o sagrado risco do acaso; subs-
usuário, eu as percebo, ao contrário, põe em risco o liame social que se esta-
tituir o destino pela possibilidade; perder-se; ir
como ameaças: ameaças do sem-senti- belece originalmente a partir da comu-
achando e nem mesmo saber o que fazer do que se
do, do contra-senso, da deriva, da mar- nicação lingüística. A outra ameaça nos-
for achando; abandonar a terceira perna (com
ginalização, da exclusão. sa própria integridade e nossa identida-
duas, anda-se; a terceira prende , estabiliza). E a
Fazer apelo a alguém não me é me- de: me arrisco a parecer ao interlocutor
aprendizagem da mais forte expressão da um triste bárbaro, um falante rudimen-
nos complexo, quer dizer: horripilante.
bravura, a que nasce do não temer o medo . Como perguntar meu caminho, como tar, um comunicador frustrado e inibi-
Arriscar: arriscar porque confio na minha covar- entender a resposta? O acúmulo de an- do, um inculto, um primitivo obtuso.
dia futura, e será minha covardia futura que me gústias provoca verdadeiro pânico. Vivo E se o aprendizado de línguas vivas
organizará de novo em pessoa; agir face ao hor- a experiência de um mundo opaco, ci- começasse por uma boa psicoterapia, exi-
ror, já que o horror sou eu em diante das coisas. frado, cujo sentido se esquiva. Disso re- gindo-se dos professores, de entrada, sé-
E, para findar esta antologia miúda, que sulta um extraordinário embaraço do rias referências em psicologia?
fique a imagem inscrita em: se uma pessoa ti- nosso funcionamento, inteiramente des-
ver coragem de largar os sentimentos descobre a conectado e inadaptado, na fronteira da DIDIER LAMAISON Tradutor em língua francesa de alguns
dos mais importantes escritores brasileiros, como Machado
ampla vida de um silêncio extremamente ocupa- paralisia. Eu me infantilizo, reencontran- de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar.
do, o mesmo que existe na barata, o mesmo nos
astros, o mesmo em si próprio. Face a tudo, es-
tarão no livro o convite e a ordem – dá-me
O ABISMO (Fragmento)
tua mão. A sentença repete-se e, sobrepon-
do-se ao pedido de socorro, arrasta-nos para “Tenho medo do sono, o túnel que me esconde,
que conheçamos os sítios dos medos poten- Cheio de vago horror, levando não sei aonde;
tes: dá-me (leitor) tua mão. Doinfinito,àjanela,eugozooscruéisprazeres,

E meu espírito, ébrio afeito ao desvario,


Roberto Corrêa dos Santos Professor dos cursos de pós-gradua-
Ao nada inveja a insensibilidade e o frio.
ção da Faculdade de Letras da PUC-Rio. Autor de Lendo Clarice - Ah, não sair jamais dos Números e Seres.”
Lispector
CHARLES BAUDELAIRE 1821-1867 Poeta e escritor francês.

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DETALHES DE “O GRITO” DE EDVARD MUNCH, 1893
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PARA ALÉM
PERSEGUINDO O SUSTO
ROSA GENS
Mas o que provoca o medo? E quais se-
riam os principais elementos das narrativas
SOB O DOMÍNIO DO MEDO
de terror? Comecemos por ir no rastro de
Coração acelerado. Respiração entrecor- Howard Phillips Lovecraft. Nascido em 1870
tada. Um calafrio. Um tremer de pernas. e falecido em 1937, escritor e ensaísta, em
Uma gota de suor que chega e cai. São mui- seu longo ensaio O horror sobrenatural na
tas as reações físicas a situações de medo que literatura (Francisco Alves, 1987), formu-
aparecem no cotidiano e se espraiam. Por lou uma estética da história do horror so-
vezes, transformam-se em narrativas, vindo brenatural. O ensaio surgiu encomendado
a se constituir em um circuito de textos que por um amigo, que pretendia publicá-lo em
vai sendo acionado oralmente e reafirma uma revista especializada (1924), e reveste-
as reações de susto. No entanto, o estímu- se de especial importância por apresentar um
lo que deflagra o medo pode ser uma nar- estudo de um escritor que é também ficcio-
rativa escrita, capaz de manter o leitor em nista –– entre as obras de Lovecraft situa-se
estado de alerta e lançar adrenalina em A tumba, considerada uma obra-prima da
seu corpo. literatura de terror.
Afinal, por que dar atenção a narrati- O discurso de O horror sobrenatural
vas que se centralizam no medo? Basta na literatura se constrói ao arrolar obras e
pensar, inicialmente, na adesão que os mais obras, como se fosse um catálogo, só
jovens têm apresentado, ao longo dos que fortemente amarrado, numa unidade or-
últimos anos, às obras que se embasam gânica. O autor reconta os livros que leu,
no medo. Nas três últimas décadas, unindo-os na sua busca principal, que é a da
principalmente, multiplicaram-se li- psicologia do medo. A idéia perseguida ao
vros e filmes que provocam sensações longo do ensaio é que a emoção mais forte e
de pavor e, mais do que isso, fazem mais antiga do mundo é o medo, e, dentro
do medo o seu tema básico. Um ar- dessa emoção, a mais forte seria a do medo
repio, um recuo ao toque, uma sen- do desconhecido. Lovecraft procura mostrar
sação de náusea, repulsa e pronto: que a atração pelo espectral e pelo macabro
estamos face ao que não desejáva- exige do leitor uma certa dose de imaginação
mos e é impossível recuar. O hor- e capacidade de desligamento da vida cotidi-
ror, é certo, nos causa ameaça. Em ana. E aponta que relativamente poucos são
última instância, ameaça o nosso os que se deixam levar por uma sedução pelo
mundo, que já anda muito amea- desconhecido.
çador. No entanto, por entre pos- Nas narrativas de horror, para Lovecraft,
sibilidades de balas perdidas e um o mais importante seria o clima, a atmosfera.
assalto a cada esquina, podemos Assim, o único teste da literatura verdadeira
nos dar ao luxo de ficarmos assus- de horror é saber se suscita no leitor um sen-
tados com histórias de vampiros, timento de profunda apreensão, uma atitude
lobisomens, monstros, fantasmas... sutil de escuta ofegante. E esse sentimento se

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DO SUSTO
perpetua. Os textos de terror são muito, mui- acreditar Deus. Fruto da Ciência, a criatura
to antigos. O horror cósmico aparece em nar- formada pelo Dr. Victor Frankenstein desa-
rativas do mais remoto folclore; as cerimôni- fia a moral, deixando entrever o questiona-
as de conjuração de demônios são comuns mento dos limites entre o errado, numa es-
em rituais antigos; tipos e personagens som- pécie de ética de expansão. A narrativa trata
brios de mitos e lendas passaram por séculos, de responsabilidades, entre criadores e cria-
via tradição oral, e tornaram-se parte da he- turas, e nada poderia ser mais atual em uma
rança permanente da humanidade. Por exem- época como a nossa, em que a criação de
plo, a sombra que aparece e reclama o sepul- humanos, através da clonagem, tornou-se
tamento de seus ossos, o demônio enamora- uma realidade. Drácula aciona a idéia de
do que vem raptar a amada, ainda viva, o ho- finitude da humanidade, justamente por
mem lobo, o mágico imortal, foram narrados apresentar a imortalidade como eixo. O
em antigas civilizações, passaram e se fortifi- desdobramento obtido a partir do sangue
caram na Idade Média, para continuarem em remete ao aspecto sexual, mas o erotismo
nosso tempo. é velado. Em O médico e o monstro, o
tema da duplicidade comparece e faz com
que um médico–– perfeito espécime so-
NARRANDO O HORROR
cial ––acabe por perder seu senso de na-
São muitas as narrativas que causam turalidade e transforme-se, por meio de
medo. Contudo, algumas podem ser entre- uma poção, em um monstro, capaz de
vistas como matrizes, visto que inauguram crimes brutais. Bem e mal aqui travam
uma certa linhagem. Provocam influência e uma luta dentro de uma única
continuam, até hoje, vivas, seja pela leitura, criatura.Nos protagonistas das três
seja pelo recontar, seja por sua inserção em obras, concentra-se, à maneira ro-
outras formas de discursos. Todas surgiram mântica, o desejo de descobrir a es-
no século XIX: Frankenstein ou O moder- sência do humano, nelas concreti-
no Prometeu (1816) , de Mary Shelley; O mé- zada a partir de imagens e metáfo-
dico e o monstro–– o estranho caso do Dr. ras. Na verdade, podemos até não
Jeckyll e Mr. Hyde (1885), de Robert Louis querer entrar em contato com es-
Stevenson, e Drácula (1897) de Bram Stocker. sas personagens, mas elas persis-
Vale a pena recordar que as obras ensejaram tem em nossa cultura justamente
mais de cem filmes e, tanto nos desenhos te- por mostrarem o desconhecido
levisivos como nas histórias em quadrinhos, que nos habita.
vemos marcas de seu poder. Também nos Sustos e revelações são artifí-
RPG e jogos de computador podemos encon- cios dessas obras, e encontram-se
trá-las. E não é à toa que comparecem enfei- também presentes em lendas do
xadas em um único livro publicado pela folclore brasileiro, em Não olhe
Ediouro (2002), traduzidas com cuidado por atrás da porta, de Lia Neiva, em
Adriana Lisboa. Pente de Vênus, de Heloísa Sei-
Frankenstein apresenta a possibilidade de xas, nas lendas urbanas que circu-
o ser humano criar vida –– em suma, de se lam na Internet e percorrem as
continua

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PARA ALÉM DO SUSTO


cidades, e em muitos outros textos. Tais vida após a morte, punição, mal, violência e do a visão. Stephen King nos revela, em seu
narrativas exibem-se, muitas vezes, como ritu- destruição. prefácio ao volume Sombras na noite (Fran-
ais e distorções de nossos maiores medos. Convenhamos que, na época em que vi- cisco Alves, 1987), que o leitor de terror é jus-
vemos, tornou-se difícil encontrar quem não tamente aquele que não consegue desviar o
tenha participado de uma experiência de hor- olhar do acidente. E, ainda, observa que exis-
CURIOSIDADE E ESQUIVA
ror. E, caso tenha a sorte de não a ter viven- tem narrativas que mostram o próprio aciden-
O verdadeiro autor de histórias de ter- ciado, pelo menos com ela defrontou-se na te, em detalhes (o que pode ser percebido,
ror, qualquer que seja a sua dimensão, ex- mídia, haja vista a profusão de imagens vio- por certos críticos, como mau gosto) e
plora os limites do que as pessoas são capa- lentas que inundam nosso cotidiano via outras que apenas exibem as ferragens
zes de fazer e as fronteiras do que são capa- meios de comunicação. Assim, enquanto retorcidas, deixando ao leitor a tarefa de
zes de experienciar. Assim ele se aventura nos sentamos num sofá, cadeira ou poltrona para imaginar o que aconteceu. Para além do
domínios do caos psicológico, desertos emo- ver televisão, confortavelmente recostados, susto, fica a vontade de pensar mais e
cionais, traumas psíquicos, abismos abertos entram em nosso lar imagens de guerras, ter- mais sobre o destino humano.
pela imaginação, histeria e loucura, todos os remotos, assassinatos, em meio a anúncios
ROSA GENS Professora de Literatura Brasileira da Fa-
elementos que ficariam na divisa do bárba- de máquinas de lavar, iogurtes e carros. Tam- culdade de Letras da UFRJ, Coordenadora do Curso
ro. As narrativas de terror muitas vezes apre- bém ao abrirmos os jornais encontramos o de Especialização em Literatura Infantil e Juvenil dessa
instituição.
sentam imagens e figuras de caos e sofrimen- mesmo panorama.
to, como se tematizassem várias espécies de Basta lembrar acidentes de carros, em “E, aqui dentro, o silêncio...E este
“inferno”, tomando a palavra como exem- que motoristas quase batem ao tentar olhar espanto! e este medo!
plo de uma condição humana extrema. o que aconteceu. Podemos ler neste gesto cu- Nós dois...e, entre nós dois,
Trabalhemos um pouco com as palavras riosidade ou até mesmo solidariedade huma- implacável e forte,
“horror” e “terror”. O horror deriva do la- na, mas sabemos que não é bem isto que os A arredar-me de ti, cada vez mais,
tim horrere: fazer o cabelo se arrepiar. Ou seja, move. E nem adianta afirmar que esse é uma a morte... ”
horripilar: horrorizar, eriçar os cabelos, ar- reação que visualiza a realidade como ficção. OLAVO BILAC 1865-1918 Poeta e contista.
repiar. Vem do latim eclesiástico horripilare. Qualquer que seja o ângulo de abordagem,
O que causa o eriçamento dos cabelos.Já ter- continua a ser fundamental a idéia de pro-
ror viria do latim terrorem, do tema de terre- cura pelo desconhecido, e busca pela
re, espaventar, causar grande medo.Assim, sensação de susto e repulsa. E, ain-
numa abordagem etimológica superficial, da além, constata-se que as pesso-
poderíamos aventar a hipótese de que o as se sentem fascinadas pelo que
horror é uma reação física, enquanto o ter- lhes causa repulsa.
ror seria uma reação provocada pelo sobre- Olhar o acidente e, ao
natural, pelo desconhecido, a ameaça des- mesmo tempo, desviar o
conhecida. De qualquer forma, as narrativas olhar. Ou, como as cri-
de horror de terror (ou horror) parecem sur- anças, espalmar a mão
gir com a tentativa de encontrar adequados aberta sobre o rosto e
símbolos e descrições para forças, medos e ver entre os dedos,
energias primitivas relacionadas à morte, à negando e procuran-

DETALHE DE “CINZAS” DE EDVARD MUNCH, 1894

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AS ABERRAÇÕES SÓ
SÃO SUTIS NO LUSCO-FUSCO
O espelho próximo à entrada, em perspec- provocativo bardo. Ao que George, volatiliza-
THEREZA LESSA tiva, permitia refletir a sua mesa de trabalho e, do, vestiu a carapuça. Talvez seja apenas uma
ao mesmo tempo em que criava, assistir a cria- jogada marketeira da Editora. Porque ao que me
George K. voltou assombrado da Editora ção. Telas e esculturas contemporâneas mes- consta não cabe à Editora nacional essa inter-
B. Durante o percurso, não mais de três qua- cladas à memorabilia e aos objetos pessoais da- mediação. O silêncio do bardo era também uma
dras, ouviu Borges acusá-lo de cabotino e Nel- vam um toque mais ousado ao ambiente. Tra- sentença. E o prenúncio de uma rebelião.
son, de canalha. Já não tentava mais argumen- tava-se de um homem culto e vulnerável. Liderados por Borges e Nelson foram pou-
tar com os colegas posto que os respeitava. Mas Como a extensão do imóvel exigia manu- co a pouco aderindo outras vozes, Conrad, Fau-
sentia-se perseguido pelos dois desde que pas- tenção George mantinha a empregada. Mas sua lkner, Machado, Proust, Dostoievski, Rosa,
sou a integrar a lista dos mais vendidos. E eles presença lhe era por demais eloqüente. Simples- Stendhal, Cortazar, Shakespeare, Kafka, Sylvia,
eram contundentes, rigorosos e geniais. Como mente avistá-la o desconcentrava e perturbava Baudelaire, Drummond, Flaubert, Virginia,
ignorá-los? Como privar-se de tão estimulante a ponto de paralisá-lo. Não conseguia escrever Freud, Sófocles, Fante, Clarice, Beckett, Céli-
convívio? Como não se atormentar? uma linha sequer. A solução foi inverter o fuso ne, Pessoa entre milhares de mestres formando
Perplexo com o sucesso do autor, colhen- horário. Acordava às dezessete horas e reco- um pelotão rumo à redenção pela palavra.
do os louros de seu terceiro romance, decidiu- lhia-se por volta das cinco. Na calada da noite, K. pela primeira vez não teve dúvidas. Es-
se pelo isolamento. Sem entrevistas. Sem lan- sem ruídos , sem interrupções, pôde enfim ala- tava escrito.
çamentos. Sem badalações. Amante da melhor vancar sua obra: um novo romance a cada dois Abriu as janelas e caiu na real.
literatura, leitor voraz de romances de fôlego anos e um livro de contos a cada três.
(lia calhamaços de setecentas páginas no origi- Antes de estabelecer a rotina, George vi- THEREZA LESSA
Escritora.
nal) afligia-se por não conseguir o distanciamen- via estressado, tenso, triste. Sentia-se diferente Autora de Patavina.
to crítico necessário como seu próprio leitor. e julgado pelos outros. Durante anos as visitas
Portador de um super-ego proporcional à baixa diárias ao analista, seu único interlocutor, eram
auto-estima chegou a pensar em dar por encer- fundamentais para a criação. O fato de pagar
rada a carreira no auge de seu reconhecimento pela conversa o eximia de culpas face à bruta-
como escritor: vendia livros num país de anal- lidade de suas revelações. Mas com o tempo
fabetos. Como conviver com essa contradição? as sessões de análise ficaram rarefeitas, uma vez
Há qualquer coisa de podre, brandiu o que a análise tem por princípio o fim das ilu-
bardo inglês. Há qualquer coisa... sões. K. sabia que era um labirinto mas torna-
Que vocação e talento nem sempre cami- ria-se um precipício com os dois pés no chão.
nham juntos, ele sabia. A frase parecia em Em casa nunca estava só. O sistema de ilu-
mantra involuntário e reverberava como um minação sem luz no teto provocava sombras
pastor evangélico em sua cabeça. George tinha em diferentes pontos da sala. Vultos de tama-
certeza de que escrevia por vocação. Quanto nhos diferentes reproduzindo a sua imagem
ao talento, restavem dúvidas. E dúvidas. davam-lhe uma sensação de proteção. Ficavam
Em busca de aplacar a angústia, ter (ta- em silêncio, velando seu dia-a-dia. E intimida-
lento) ou não ser (escritor), George tratou de vam de certo modo a verve ferina dos colegas
construir o seu mundo. Comprou um apar- estampados em encadernações vistosas nas es-
tamento de trezentos metros quadrados com tantes, capazes de fazer um estardalhaço em
vista panorâmica de cento e oitenta graus. seus tímpanos.
Nele plantou a sua biblioteca de vinte mil O telefone tocou. E ouviu através da se-
volumes, classificados, catalogados e limpos, cretária eletrônica o recado do editor. Gosta-
derrubou paredes e transformou a sala num ria de marcar uma conversa com a agente lite-
imenso escritório-cenário onde podia se re- rária em Berlim, promessa de carreira no exte-
DIVULGAÇÃO

conhecer. E aos seus. rior. Há qualquer coisa de podre, sussurrou o

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HISTÓRIAS DE
A caverna dos Titãs. Ivanir Aprendendo a viver. Júlio nhas deram vida a uma variedade nina que adora a magia da noite.
Calado. Ed. Record. Coisas estra- Emílio Braz. Ed. Ediouro. Claudia de monstros incríveis. Eu morro de medo de bicho!
nhas começam a acontecer em e Isabel descobrem que a mãe foi Chapeuzinho Amarelo. Chico Babette Cole. Ed. Ática. Chico
moderno shopping center recém- contaminada com o vírus do HIV Buarque. Ed. José Olympio. Cha- tem pavor dos animais, mas pre-
inaugurado. pelo próprio pai. Juntas têm de peuzinho Amarelo é uma menina cisa vencer seus medos.
A coisa. Stephen King. Ed. enfrentar a dor, o medo e o pre- que não sai, não brinca nem vai à Frankenstein. Mary Shelley.
Objetiva. O atual metre do terror conceito. festa porque tem medo de tudo. Ed. Cia. das Letras. Adaptação de
nos leva ao tempo em que acredi- Arrepiando a pele/Quem tem Coleção Contos de espantar Ruy Castro. Cientista quer supe-
távamos em nossos pesadelos. medo fica de fora!/Segure o gri- meninos. Regina Chamlian. Ed. rar a morte e cria monstro com pe-
A cristaleira. Graziela Boza- to! Stella Carr. Ed. Scipione. Parte Ática. Série de livros que resgata daços de cadáveres.
no Hetzel. Ed. Ediouro. Menina da Série Calafrio que apresenta as personagens fantásticos de nosso História de fantasma. Tatia-
amedrontada pelas brigas domés- aventuras de Gargalo, Espirro, folclore e os transporta para a atu- na Belinky. Ed. Ática. Tati se acha
ticas procura um abrigo para fugir Carrapicho e Agulha. alidade. muito corajosa e zomba do medo
das discussões. Corda bamba. Lygia Bojunga. do irmão.
A maldição de Sarnath/ Da- Ed. Agir. Maria é uma menina que Histórias de bruxas (traves-
gon/ Nas montanhas da loucura/ busca dentro de si a força para sas). Maria Mañeru. Ed. Record.
O horror em Red Hook. H.P. Lo- vencer os medos e traumas do pas- Bruxas sem complexos e trapalho-
vecraft. Ed. Iluminuras. Nas his- sado. nas, elas não são exatamente más.
tórias deste grande mestre do hor- Deuses e heróis. Zelita Sea- Histórias extraordinárias.
ror o mal, o pior e o terrível apa- bra. Ed. Record. As figuras da mi- Edgar Allan Poe. Ed. Martín Cla-
recem de forma fantástica e per- tologia grega que influenciam, ret. Reunião de contos de um dos
turbadora. até hoje, nosso imaginário. maiores escritores da literatura do
A peste. Albert Camus. Ed. Drácula. Bram Stoker. Ed. sobrenatural.
Record. Uma cidade colocada em Ediouro. O sedutor vampiro Con- Histórias fantásticas. Vários
situação limite: o pavor causado de Drácula quer reencontrar seu autores. Ed. Ática. Histórias de
pela peste devastadora. amor perdido séculos antes. autores renomados como Edgar
Aí tem coisa. Graziela Boza- Allan Poe e Kafka em que o so-
no Hetzel. Ed. Manati. A macaca brenatural interfere no cotidiano.
Dalila decide investigar a estranha Artemis Fowl/ Artemis Fowl, Medo do escuro. Antonio Car-
lei que proíbe os animais de ter uma aventura no Ártico. Eoun los Pacheco. Ed. Ática. Uma his-
rabo. Colfer. Ed. Record. As aventuras tória sensível que ajuda a criança
de um anti-herói de 12 anos( ge- a não ter medo do escuro.
nial, mas mal-humorado e pessi- Medroso! Medroso! Tatiana
mista) que misturam ação, a mo- Belinky. Ed. Ática. Às vezes o mais
dernidade da internet e seres fan- medroso é quem mostra maior
tásticos. coragem.
As “armas penadas”. Benita Meus (terríveis) fantasmas.
Prieto. Ed. Argos. História com Luis Tomás Melgar. Ed. Record.
toques de terror que vem sendo As histórias fantasmagóricas nos
contada há anos por um artesão aterrorizam porque talvez elas pos-
do interior paulista. Em boca fechada não entra sam realmente acontecer.
(asquerosos) Bichos mons- estrela. Leo Cunha. Ed. Ediou- Múmias e outros mortos
truosos. María José Valero. Ed. ro. Inverte um dos medos tradicio- (bem vivos). Maria Mañeru. Ed.
Record. As fantasias mais estra- nais da infância ao mostrar uma me- Record. Múmias, vampiros e ou-
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TIRAR O FOLÊGO
tros mortos-vivos são frutos do parte dedicada aos “Medoliques”: apresenta às crianças, e conhecen- O retrato de Dorian Gray. Os-
grande mistério que é a vida após pequenos poemas que brincam do-o é mais fácil enfrentá-lo. car Wilde. Ed. Martin Claret. Ho-
a morte. com os medos infantis. mem renuncia a moral por medo
de perder sua beleza e juventude.
Um estranho pacto faz com só seu
retrato demonstre seu verdadeiro eu.
Pedro e o lobo. Denise Cris-
pun. Ed. Agir. Adaptação bem
humorada do clássico russo sobre
um menino e um assustador lobo.
Pente de Vênus. Heloísa Sei-
xas. Ed. Record. Reunião de con-
O mistério do relógio na pa- tos perturbadores sobre nosso co-
rede/ Um vulto na escuridão. tidiano.
John Bellairs. Ed. Record. Meni- Pluft, o fantasminha. Maria
no vai morar com o tio em uma Clara Machado. Ed. Cia. das Le-
O médico e o monstro. Robert casa antiga e cheia de mistério, trinhas. Fantasminha com medo
Não olhe atrás da porta. Lia Louis Stevenson. Ed. Martin Cla- onde vive uma série de aventuras. de gente faz amizade com uma
Neiva. Ed. Ao Livro Técnico. ret. Respeitável médico liberta seu O nome da rosa. Umberto menina raptada por piratas.
Noite na taverna. Álvares de monstro interior ao ingerir fórmu- Eco. Ed. Record. Misteriosas mor- Que medo! Mary França. Ed.
Azevedo. Ed. Nova Alexandria. la secreta. tes em um monastério medieval Ática. Lili assusta seu avô com suas
Reúne cinco contos em que o mal O medo e a ternura. Pedro estão relacionadas a manuscrito histórias de animais ferozes.
é personificado pela libertinagem. Bandeira. Ed. Moderna. Menina que pode subverter as relações de Quem tem medo de dentis-
O abraço. Lygia Bojunga. Ed. confundida com filha de milioná- poder pelo medo. ta/mar/lobo/bruxa/tempestade/
Agir. Ao abordar o estupro de rio é seqüestrada e sofre no cati- escuro/dragão/extraterrestres/
meninas e jovens a autora rompe veiro. monstro/fantasma. Fanny Joly.
a barreira do medo e do silêncio O menino e o tempo. Bia Het- Ed. Scipione. Série de livros que
que mantém impune este crime zel. Ed. Manati. Menino toma ajuda às crianças a enfrentar temo-
covarde. consciência do tempo e da finitu- res e aprender a rir deles.
O barulho fantasma. Sonia de das coisas, até dele próprio. Sombras da noite. Stephen
Junqueira. Ed. Ática. Mário está King. Francisco Alves. Como em
sozinho e escuta um estranho ba- toda sua obra, o autor parte de
rulho que se aproxima. uma falsa tranqüilidade cotidiana
O coronel e o lobisomem. para entrar em um mundo sinis-
José Cândido de Carvalho. Ed. tro e assustador.
Rocco. O coronel Ponciano é ca- O Ogro do Apagão. Tatiana Sonho passado a limpo. Leo
bra valente que não tem medo de Belinky. Ed. Ediouro. A força de Cunha. Ed. Ática. O pior pesade-
nada, nem de lobisomem. uma comunidade para enfrentar a lo de Isabela é o fato de estar se
O fantasma de Canterville. ameaça de blecaute. tornando uma mulher.
Oscar Wilde. Ed. Nobel. Uma his- O pequeno papa-sonhos. Tantos medos e outras cora-
tória de amor e terror contada com Michael Ende. Ed. Ática. O pai gens. Roseana Murray. Ed. FTD.
o habitual sarcasmo do autor. da princesa Soninho encontra a O que é medo para uns é coragem
O livro dos disparates. Tatia- O menino inesperado. Elisa solução para acabar com seus para outros. Prêmio da F.N.L.I.J e
na Belinky. Ed. Saraiva. Tem uma Lucinda. Ed. Record. O medo se pesadelos. Lista de Honra do I.B.B.Y.