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TRABALHOS COMPLETOS

Águas Claras: uma leitura sobre o processo de produção do espaço


urbano

Sílvia Silva Cavalcante Leite. Mestranda em Geografia. Programa de Pós-


Graduação em Geografia – Universidade de Brasília. E-mail: silvialeite@unb.br
Orientadora: Dra. Lúcia Cony Faria Cidade. Programa de Pós-Graduação em
Geografia – Universidade de Brasília. E-mail: cony@unb.br

Resumo:
A reestruturação do sistema capitalista tem implicado em intensificação da
importância das cidades para a acumulação do capital. Logo, há a necessidade
de reflexão a respeito do caráter e do conteúdo do processo de produção do
espaço urbano nesse contexto. Buscamos então contribuir para essa reflexão,
a partir da análise sobre o processo de produção do espaço na Região
Administrativa de Águas Claras no Distrito Federal. São então expostos no
presente trabalho, uma breve discussão teórica sobre “produção do espaço” e
sobre a relação entre capital e trabalho, além de alguns apontamentos iniciais
acerca do recorte espacial da pesquisa, tendo como base as reflexões
empreendidas a partir da construção de dissertação junto ao Programa de Pós-
Graduação em Geografia na Universidade de Brasília.

Abstract:
The restructuring of the capitalistic system has implicated in the intensification
of the importance of the cities to the accumulation of capital. Then, there are the
necessity of reflecting about the matter and content of the process of the urban
space production in this context. We seek, then, to contribute to this reflection,
from the analysis about the process of the space production in the
Administrative Region of Águas Claras in the Distrito Federal. There are
exposed in the present article, a brief theoretical discussion about “space
production” and about the relation between capital and work, besides some
initial notes about the spatial clipping of the research, based on the reflections
undertaken from the construction of the dissertation along with the Program of
Post-Graduation in Geography in the University of Brasília.

Goiânia, 02 e 03 de Dezembro de 2008 - UFG


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Introdução

A reestruturação do sistema capitalista tem implicado em intensificação da


importância das cidades para a acumulação do capital. Tal afirmação, presente
em análises da questão urbana no mundo contemporâneo entre diversos
pesquisadores, aponta para a necessidade de reflexão, não esgotada, a
respeito do caráter e do conteúdo do processo de produção do espaço urbano,
além de suas conseqüências socioespaciais na atualidade. Nesse sentido,
temos como objetivo contribuir para essa reflexão a partir da análise sobre o
processo de produção do espaço na Região Administrativa (RA) de Águas
Claras (Lei de criação nº 3.153, 06/05/2003) no Distrito Federal (DF) - uma das
29 RA’s do DF (SEPLAN/CODEPLAN/GDF, 2006).

Como parte das reflexões em desenvolvimento na construção da dissertação


de mestrado, junto ao Programa de Pós-Graduação em Geografia na
Universidade de Brasília, apresentamos no presente artigo uma breve
discussão teórica sobre “produção do espaço” e sobre a relação entre capital e
trabalho envolvida nesse processo, além de alguns apontamentos iniciais
acerca do recorte espacial da pesquisa.

Justificativa:
No capitalismo, a produção do espaço tem se realizado como forma de
incrementar a acumulação, sendo desconstruído e reconfigurado a fim de abrir
caminho para uma maior acumulação num estágio ulterior, como destaca
Harvey (2006, p. 81). Considerando que o espaço urbano assumiu importância
ímpar no conjunto social a partir da revolução industrial, tem-se desde então,
uma apropriação da forma urbana, e uma transformação de suas funções e
atributos em prol da racionalidade estatal e econômica.
No momento atual, o desenvolvimento capitalista se constitui a partir da
globalização, da acumulação flexível e da ideologia neoliberal. Estes têm
implicado em ampliação da capacidade de acumulação de capitais, e nessa
dinâmica o espaço urbano vem assumindo novos papéis, que se materializam
através da produção do espaço, no qual a classe trabalhadora está diretamente
envolvida.
Dentro dessa lógica, Carlos (2005, p. 29) aponta que, “o processo de
reprodução do capital realiza-se, hoje, através de três setores: o financeiro, o
de lazer e turismo e o do narcotráfico – todos através da produção do espaço”,
sendo que o setor financeiro pode se realizar através do setor imobiliário.
Observa-se então, como destacado por Carlos (2005, p. 33) que “realiza-se o
aprofundamento da contradição entre extensão de valor de troca no espaço e a
possibilidade de realização da metrópole enquanto valor de uso, isto é, a
construção do espaço voltado para a vida cotidiana”. Logo, em países de
economia periférica como o Brasil, cujas desigualdades sociais possuem raízes
históricas, concomitante à consolidação das cidades como mercadoria, tem-se
a expansão de espaços de pobreza e exclusão.
Como parte dos condicionantes de geração de desigualdades socioespaciais,

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temos ainda outro fator que encontra-se na essência da produção, de um modo
geral, e da materialização das formas urbanas especificamente, que se
consubstancia a partir da relação entre capital e trabalho, imprescindível à
concretude dessas formas e à acumulação ampliada de capital.
Diante do exposto, entende-se que é importante analisar o conteúdo e
estratégias que se coadunam e orientam a dinâmica de produção do espaço
urbano. A partir da análise do espaço em construção, a Região Administrativa
de Águas Claras, considera-se que há a possibilidade de contribuir para um
desvelamento dos processos e formas como o capital - através de seus
agentes - se organiza para se reproduzir, utilizando-se do espaço e da
exploração da classe trabalhadora, como meios para atender a esse fim.

Metodologia
A pesquisa se constitui com base em revisão bibliográfica, que inclui as bases
teórico-metodológicas de análise a cerca da questão urbana no âmbito da
globalização e da acumulação flexível, sobre o processo de produção do
espaço urbano e sobre a relação entre capital e trabalho; pesquisa de campo
na Região Administrativa de Águas Claras; e consulta a dados secundários e à
matérias jornalísticas.

Considerações Teóricas
Buscando orientar o estudo, compreende-se o espaço como resultado e
condicionante dos processos socioeconômicos e culturais que atuam no
território. Entende-se ainda, que o espaço é estruturado e planejado de acordo
com as forças políticas, econômicas e sociais que pressionam a sua formação,
no qual os interesses dominantes em determinada época e território irão
prevalecer na sua produção (FERREIRA, s/d).
Dessa maneira, ao olharmos para os diferentes períodos históricos em que
cidades, especificamente, foram constituídas, podemos perceber a existência e
o funcionamento de diferentes modelos de desenvolvimento econômico e
político que dominaram a sua formação.
Diante disso, concorda-se com Ferreira (Op. cit), que considera ser importante
para a compreensão e análise da dinâmica do espaço urbano [e de suas
contradições], “identificar e reconhecer os diferentes agentes sociais, bem
como os seus interesses pelo espaço, como atuam e quais são os resultados
para a sociedade”.

● Produção do Espaço e relação entre capital e trabalho


Considerando que neste trabalho buscamos apreender o conteúdo, os
processos sociais que constituem e que se materializam e definem a forma
urbana, tomamos como categoria analítica a “produção do espaço”.
Estudar o espaço urbano a partir da sua produção permite um entendimento
mais profundo sobre os elementos e processos que se articulam na sua
produção, e a respeito das contradições que se constituem durante tais

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processos e que lhe dão força para sua reprodução.
Corrêa (1989, p. 11), aponta que:
o espaço urbano capitalista é um produto social, resultado de ações
acumuladas através do tempo, e engendradas por agentes
(concretos) que produzem e consomem espaço. (...) os agentes
desse processo são: (a) os proprietários dos meios de produção,
sobretudo os grandes industriais; (b) os proprietários fundiários; (c) os
promotores imobiliários; (d) o Estado; e (e) os grupos sociais
excluídos.
Esses seriam considerados então, como agentes na produção do espaço,
tendo em vista que têm um papel definidor, de comando nesse processo, que
se explica pelo poder político e econômico que possuem (exceto para o caso
dos grupos excluídos).
Corrêa (Op. Cit., p. 12) chama atenção para o fato de que:
a ação desses agentes serve ao propósito dominante da sociedade
capitalista, que é o da reprodução das relações de produção,
implicando na continuidade do processo de acumulação e a tentativa
de minimizar conflitos de classe.
Sendo que o espaço tem um papel crucial enquanto meio para viabilização de
tais propósitos.
No entanto, cabe problematizar, no âmbito da produção do espaço urbano,
sobre o papel reservado à classe trabalhadora nessa dinâmica, como tentativa
de contribuir para uma compreensão mais crítica a respeito do assunto.
Nesse sentido, Silva (1991, p. 18-19) chama atenção, apontando que o
processo produtivo é constituído de relações em que os fatos estão às avessas
porque “o agente indireto [detentor dos meios de produção] aparece como o
agente real; e o agente direto [trabalhador] é negado. (...) O resultado de sua
produção lhe é estranho”. Ou seja, o trabalho realizado para produzir espaço
na sociedade capitalista possui um caráter alienado.
Logo, entende-se que a alienação do trabalhador em relação ao produto final
do seu trabalho busca fortalecer a passividade, e limitar a ação desse ser ao
nível do imediato, criando obstáculos à consciência da totalidade e dessa
forma, enfraquecendo a possibilidade de enfrentamento à ordem vigente.
Ordem tal que precariza as condições de vida dentro e fora do ambiente de
trabalho, culminando na superposição de precariedades, como apontado por
Ikuta (2003, p. 23).
As precariedades inerentes à relação entre capital e trabalho estão
fundamentadas na exploração da força de trabalho, que se concretiza através
da apropriação do excedente por outra classe, como exposto por Moreira
(1982, p. 14):
Nas condições do modo de produção capitalista, os meios de
produção são capital, ou seja, veículos por meio dos quais a força de
trabalho operária, produzindo mercadoria, produz mais-valia. Dessa
maneira, os meios de produção têm sua apropriação por uma classe
social que os considera um meio de geração de sobretrabalho
(excedentes), que ela utilizará com fins de acumulação de capital.

Breve leitura sobre o recorte empírico


Em Brasília, capital federal, apesar do discurso inicial de não-reprodução dos

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problemas típicos das metrópoles brasileiras em seu território, as contradições
inerentes a uma cidade capitalista aí se expressam, como por exemplo, na
materialização concomitante de espaços de pobreza e riqueza. Por ser uma
cidade eminentemente terciária, com estrutura produtiva pouco expressiva, alta
dependência do governo federal e das atividades da administração pública,
Cidade (1999) aponta que é a partir de tais características que a capital
começa a se inserir nos moldes da economia flexível. Brasília passa a se
configurar, no âmbito da gestão e de alocação de investimentos e de
empreendimentos imobiliários, culturais e de turismo, segundo uma ótica
coerente com essas demandas.
É nesse contexto que chama atenção o processo de construção de Águas
Claras, considerada na atualidade como um dos maiores canteiros de obras do
Brasil e da América Latina. Esta Região Administrativa foi pensada pelo
Governo do Distrito Federal em decorrência da necessidade de adensamento
urbano dos vazios entre áreas já consolidadas de Brasília (quais sejam: Plano
Piloto, Guará e Taguatinga) para assim tornar viável o projeto de instalação do
metrô.
A princípio, ela foi pensada para abrigar uma população de baixo a médio
poder aquisitivo e seria construída através de cooperativas habitacionais
(GOMES, 2007). Porém, o êxito do projeto por meio das cooperativas esbarrou
nos altos custos da construção civil. No entanto, em 1999, a partir de
mudanças nos seus parâmetros construtivos através do Plano Diretor Local de
Taguatinga (Região Administrativa limítrofe a Águas Claras), o interesse das
construtoras e incorporadores sobre a localidade passou a se ampliar,
passando a ser vista pelos agentes do setor como uma fonte de “retorno líquido
e certo” do capital investido, conforme enfatizado por Luiz Carlos Atié,
presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis do DF1.
Observou-se a partir de então, a crescente valorização dos lotes em Águas
Claras em decorrência dessas mudanças, que permitiram um aumento do
potencial construtivo, logo favorecendo um maior aproveitamento dos lotes e
maiores lucros.
É importante destacar, que a partir desse momento, a paisagem urbana que
vem se consolidando, tem a prevalência de população de classe média e alta e
a supressão dos espaços públicos em favor do consumo de novas formas de
morar que oferecem lazer, segurança e outros serviços de forma privativa. Por
trás desse produto final estariam então uma gama de novas estratégias e
dinâmicas potencializadas pela nova fase do capitalismo.
Como parte desse processo, de crescente investimento imobiliário e
conseqüente aquecimento da construção civil na localidade2,
1
Fonte: http://aguasclarasdf.com/site/?p=44
2
“O DF tem mais de 45.000 pessoas empregadas - nos mercados formal e informal - no setor da
construção civil, de acordo com dados do DIEESE. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores da
Construção Civil, hoje há mais de 500 obras em andamento em todo o DF - a maior parte em Águas
Claras, cidade considerada um dos maiores canteiros de obras de todo o país.” Fonte:
http://www.sintracom.org.br/noticias.php?cod=1332

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tem-se então um emprego intenso de mão-de-obra, para as diferentes
atividades que compõe o processo construtivo dos edifícios residenciais e de
infra-estrutura urbana. No entanto, embora a princípio reconheça-se o valor da
construção civil para a oferta de emprego na capital, observa-se, nos canteiros
de obras, mais precisamente entre os operários, indícios de exploração e
precariedade das condições de trabalho, fato que não se limita a Águas Claras
ou ao Distrito Federal, sendo recorrente em todo território nacional3
Para o grande capital que investe e define a produção de novos
empreendimentos residenciais, o objetivo maior é a acumulação de capital, e é
a partir desses interesses e dos condicionantes socioespaciais aí implicados
que se materializam novos aglomerados urbanos, que acirram a fragmentação
e as desigualdades socioespaciais intra-urbanas.
Corrobora para a materialização das contradições socioespaciais intra-urbanas,
a forma como se realiza a produção do espaço, no qual a classe trabalhadora
se encontra alijada do produto de seu trabalho, além de sofrer exploração em
tal medida, que resulta na limitação da reprodução da vida às áreas
segregadas, carentes de infra-estrutura e equipamentos urbanos.
A partir do exposto, reitera-se então, a necessidade de entendimento da
dinâmica de construção/crescimento das cidades, a partir da leitura sobre o
processo de produção do espaço urbano, por permitir identificar os elementos e
processos nele contidos, e com isso, o desvelamento das contradições que
compõe tal processo, o que é importante para a construção do enfrentamento à
lógica dominante.

3
“A falta de equipamentos de proteção e o descumprimento das normas de segurança nos canteiros de
obra colocam mais de 700 trabalhadores da construção civil em situação de risco todos os dias no Distrito
Federal. Os dados são da Delegacia Regional do Trabalho (DRT), que fiscalizou, no primeiro trimestre
deste ano, 256 obras em andamento na cidade. O levantamento revela que 46% das construções
vistoriadas ofereciam algum tipo de perigo aos operários.” Fonte:
http://www.sintracom.org.br/noticias.php?cod=1332

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Referências Bibliográficas
CARLOS, Ana Fani Alessandri. A reprodução da cidade como “negócio”. In:
CARLOS, Ana Fani Alessandri & CARRERAS, Carles (Orgs.). Urbanização e
mundialização: estudos sobre a metrópole. FFLCH-USP: Editora Contexto,
2005.
FERREIRA, Ignez Costa Barbosa. A visão geográfica do espaço do homem.
(s/d).
GOMES, Karla Figueiredo de Oliveira. O capital incorporador como agente
transformador da configuração urbana: o caso de Águas Claras, Distrito
Federal. 2007. 138 f. Dissertação (mestrado) - Universidade de Brasília,
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Programa de Pós-Graduação em
Arquitetura e Urbanismo, 2007.
HARVEY, David. Espaços de Esperanças. São Paulo: Edições Loyola, 2006.
IKUTA, Fernanda Keiko. A Questão da moradia para além de quatro paredes:
uma reflexão sobre a fragmentação dos momentos sociais da produção e da
reprodução em Presidente Prudente/SP / Fernanda Keiko Ikuta. – Presidente
Prudente : [s.n.], 2003.
MOREIRA, Ruy. A geografia serve para desvendar máscaras sociais. In:
MOREIRA, Ruy (org.). Geografia: teoria e crítica. Petrópolis: Vozes, 1982.
SEPLAN/CODEPLAN/GDF. Distrito Federal: Síntese de Informações
Socioeconômicas. Brasília, 2006.
SILVA, Lenyra Rique da. A Natureza contraditória do espaco geográfico. São
Paulo: Editora Contexto, 1991.

Sites consultados:
http://aguasclarasdf.com/site/?p=44 Título da matéria: Valorização elevada, de
26/01/2005. Acesso em 20/08/2008 às 17:20h.
http://www.sintracom.org.br/noticias.php?cod=1332 Acesso em 31/10/2008 às
20:30h.

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