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Implicações do Novo Perfil de Carga do Sistema Elétrico

Brasileiro para a Nova Estrutura Tarifária, Gestão da


Demanda e Eficiência Energética
7 de abril, 2011
Alan Douglas Poole1

O consumo de energia elétrica aumentou muito no Brasil Durante a última década. Ao mesmo
tempo, houve outra mudança mais sutil e pouco comentada - o perfil da demanda energética
mudou. Isso terá implicações importantes para vários aspectos da política energética.
Há décadas o horário da demanda máxima (a “ponta”) se encontrava entre (aproximadamente)
6:00 e 9:00 pm (18:00-21:00), no final da tarde e o início da noite. A estação de maior
demanda máxima do Sistema Interligado Nacional (SIN) era no fim do outono e no inverno
(maio-agosto), especialmente no SE/CO e no Sul - que juntas dominam a demanda nacional.
Desde o início de 2010 um novo padrão de demanda se manifestou. A época de maior
demanda no SIN se deslocou para o verão (dezembro-março) e o horário da ponta máxima
mudou para a tarde (tipicamente 14:00-15:00).
Esta mudança na hora e estação da demanda máxima é o resultado de tendências que vêm
acumulando há tempo, especialmente desde 2005. A Figura 1 mostra a mudança no perfil
mensal da carga de demanda do SIN ente 2000 e 2010. Foi neste último ano também que a
ponta da demanda máxima instantânea começou aparecer consistentemente no verão e na
tarde.

Figura 1: Evolução da carga mensal de demanda do SIN


(Porcentagem do mês de maior carga no ano)

Fonte: Baseada em dados do ONS

1
Consultor autônomo: alan.douglas.poole@gmail.com
1
Neste artigo consideramos algumas conseqüências importantes desta mudança para a política
de preços e a estrutura tarifária. Levantamos também algumas implicações para a gestão da
demanda e interações com as políticas do uso racional da energia. O momento é oportuno,
porque ambas essas linhas de política estão sendo re-definidas pelo Governo. A agência
reguladora do setor elétrico – ANEEL - está empenhada no processo de re-estruturar as tarifas
elétricas enquanto o Ministério das Minas e Energia (MME) está preparando um novo Plano de
Eficiência Energética Nacional.

******
O perfil da demanda energética é uma característica fundamental para o dimensionamento e
operação do sistema elétrico. A demanda máxima é a base de cálculo da capacidade dos
sistemas de distribuição e sub-transmissão.2 Esta capacidade é cara. Aumentar a intensidade
de seu uso (quer dizer, aumentar o fator de capacidade da rede) reduz os custos médios por
kWh de energia suprida, trazendo ganhos significativos para os consumidores e as
concessionárias. No fundo, este objetivo se traduz em fazer a curva de carga do sistema mais
plana (ou “modular” a demanda), desestimulando consumo nas horas de demanda máxima. É
uma estratégia seguida em quase todos os países do mundo, em maior ou menor grau.
Há duas maneiras (não exclusivas) de modular a curva de carga. Primeiro, pode-se cobrar um
preço maior nas horas da “ponta”. Segundo, para reforçar este sinal de preço, pode ter outras
políticas de fomento do uso racional da energia. Esta segunda categoria é importante porque a
racionalização do uso energético entre os consumidores enfrente muitas barreiras. Muitas
medidas de racionalização que são economicamente viáveis com os preços de energia
existentes não são realizadas por diversos motivos – assunto de uma vasta literatura. As
políticas procuram mitigar essas barreiras.
Desde meados dos anos 80, Brasil tem políticas atuando em ambas dessas linhas. Em 1985
foi introduzida a tarifa horosazonal para consumidores de alta tensão (AT). No fim do mesmo
ano o PROCEL foi criado para racionalizar o uso da energia. Hoje essas duas linhas de política
estão passando por uma atualização. O enfoque principal neste artigo será sobre a nova
estrutura de tarifa em processo de definição pela ANEEL.

*********
A introdução da tarifa horosazonal em 1985 influenciou apenas uma parte do mercado elétrico.
A classe de baixa tensão (BT) foi excluída. Entre os consumidores de alta tensão, muitas
ficaram com a tarifa “convencional”. A partir do final dos anos 90 apareceu o “mercado livre”
que hoje tem uma participação expressiva no consumo de alta tensão. A Figura 2 mostra a
evolução do consumo em cada categoria desde 2003 enquanto a Figura 3 mostra a parcela de
energia consumida em cada categoria em 2009.

2
No Brasil (diferente da maioria dos países), a demanda máxima é menos relevante para o
dimensionamento do parque gerador e do sistema de transmissão pesada, porque sua capacidade é
determinada pela necessidade de assegurar energia firme.
2
Figura 2: Evolução do mercado por categoria de tarifa 2003-2009 (MWh)

Fonte: NT Nota Técnica n.º 363/2010–SRE/ANEEL, de 06 de dezembro de 2010

Figura 3: Participação no consumo de energia por categoria de tarifa - 2009

Fonte: NT Nota Técnica n.º 363/2010–SRE/ANEEL, de 06 de dezembro de 2010

Recentemente a ANEEL começou um processo de estudos e consultas visando introduzir uma


nova estrutura tarifária.3 É a maior iniciativa nesta área desde a introdução da tarifa
horosazonal e o novo marco tarifário deve ter impactos importantes durante anos.
Uma medida importantíssima sendo proposta é a introdução de uma nova estrutura tarifária
para consumidores BT (baixa tensão) que reflete melhor as variações no custo do suprimento
de energia, tanto durante o dia, como entre as estações do ano. É chamada a “Tarifa Branca”
e será vinculada à introdução de novos tipos de medidores eletrônicos. É uma proposta
inovadora, que inclui:

3
Ver a Audiência Pública 120/2010 e as Notas Técnicas relacionadas. As matérias são disponíveis no
website da ANEEL.
3
• Três “postos” (ou níveis) tarifários – ponta, intermediário e fora de ponta. O
“horosazonal” tradicional de alta tensão tem apenas dois “postos” (ponta e fora de
ponta). Os postos são utilizados para calcular a alocação dos custos da rede das
concessionárias de distribuição.
• “Bandeiras” sinalizando mudanças mensais no custo da energia comprada pela
concessionária (TE nas planilhas de composição das tarifas ao consumidor). Essas três
“bandeiras” serão incorporadas também na tarifa horosazonal de alta tensão,
substituindo a divisão tradicional entre a estação úmida e seca.
Pela primeira vez, o consumidor BT – que inclui quase todas as residências e muitas
empresas4 - vai ter um sinal de preço que reflete aproximadamente as variações no custo do
suprimento. É uma medida necessária e segue uma tendência mundial, que está evoluindo
para uma rede mais “inteligente”. A iniciativa está facilitada pela queda no custo dos medidores
eletrônicos necessários para esta função.
A categoria BT é de grande relevância, sendo responsável para 58% do consumo das
concessionárias (i.e. excluindo os consumidores livres). O setor residencial representa 60% do
consumo da BT, como mostra a Figura 4. A categoria B3 (demais classes) - composto pelo
comercio, indústrias e muitos prédios públicos – também tem uma participação expressiva.

Figura 4: Segregação do Mercado de Baixa Tensão

Fonte: SAD/ANEEL. 07/2010 na Nota Técnica n.º 362/2010–SRE-SRD/ANEEL, 06 de dezembro de 2010

Apesar dos benefícios esperados da reforma, a ANEEL está sendo muito cautelosa na
introdução desta medida fundamental. Na proposta apresentada na Audiência Pública, apenas
consumidores com um consumo mensal acima de 500 kWh/mês serão obrigados a usar a
Tarifa Branca (>2% dos domicílios). Consumidores na faixa de 200-499 kWh/mês terão a
opção de adotá-la (~8% dos domicílios).
Há bons motivos para esta cautela. O preço da energia está previsto a ser bem mais alto
exatamente no horário de maior consumo residencial, vai mexer com os hábitos de milhões de
consumidores e os novos medidores são mais caros.

4
Há 55,4 milhões de consumidores residências, dos quais 19,8 milhões são enquadrados com “Baixa
Renda” e não são incluídos no programa. Além disso, há 3,6 milhões de consumidores rurais (categoria
B2) e 5,7 milhões na categoria B3 (Comercial e Indústria).
4
A Figura 5 mostra um aspecto do problema como foi apresentado pela ANEEL. 5 É uma curva
de carga diária “típica” para uma residência no Brasil. Mostra a subida rápida da carga a partir
das 17:00, que fica num patamar alto até as 22:00 horas.

Figura 5: Curva de carga típica de residência - Brasil

Fonte: Nota Técnica n.º 362/2010–SRE-SRD/ANEEL, de 06 de dezembro de 2010

Evidentemente, esta curva é uma simplificação. Parece ser a média anual do perfil e da sua
composição (que mudam sazonalmente), más o critério utilizado não está claro. Há também
diferenças regionais importantes como ilustrado na Figura 6.

5
Nota Técnica n.º 362/2010–SRE-SRD/ANEEL, de 06 de dezembro de 2010.
5
Figura 6: Curvas diárias típicas regionais das residências – exemplos diferentes
(mesma legenda da figura 5)
Nordeste Sul

Fonte: Nota Técnica n.º 362/2010–SRE-SRD/ANEEL, de 06 de dezembro de 2010

A ANEEL estima que nada menos que 43% da demanda da ponta no setor residencial é devido
ao chuveiro elétrico, apesar dele ser responsável para apenas 24% do consumo residencial.
Em comparação, o ar condicionado consome 20% da energia más contribui apenas 7% à ponta
(ver Tabela 1). Esta visão parece ser baseada em pesquisas da PROCEL publicadas em
2005.6

Tabela 1: Percentual da composição da ponta instantânea do setor residencial - Brasil

Fonte: Nota Técnica n.º 362/2010–SRE-SRD/ANEEL, de 06 de dezembro de 2010

Infelizmente, os estudos da ANEEL não mostram estimativas da contribuição do setor


residencial (e da categoria de BT em geral) à demanda máxima do sistema nacional ao lado
das outras categorias tarifárias (horosazonal AT, convencional AT, mercado livre). Faltam
também estimativas da contribuição das diferentes categorias à curva de carga diária do
sistema nacional – sem falar dos sistemas regionais de operação. Esses são omissões
importantes numa análise para fundamentar uma nova estrutura tarifária.

6
PROCEL/Eletrobrás; Pesquisa de Posse de Equipamentos e Hábitos de Consumo de Energia; Rio de
Janeiro, 2005.
6
No entanto, podemos inferir que o peso atribuído ao setor residencial é grande. A contribuição
da categoria horosazonal de alta tensão à demanda máxima está estimada em apenas 22%
apesar de ter 28% do consumo. Ao mesmo tempo, as tipologias de curva de carga para outros
setores de consumidores de baixa tensão sugerem uma contribuição menor à ponta que sua
participação no consumo – especialmente no caso das indústrias e do comércio (veja as
tipologias de carga na Figura 7). Os períodos de demanda máxima nesses setores coincide
muito pouca com uma ponta do sistema entre 18:00 e 21:00.

Figura 7: Tipologias de demanda de consumidores de baixa tensão


(Vermelho = >85% do carregamento máximo; verde = <40% do carregamento máximo)
Tipologia do consumidor comercial BT Tipologia do consumidor industrial BT

(Vermelho = horário do posto da ponta; amarelo = horário do posto intermediário)


Rural Iluminação pública

7
: Nota Técnica n.º 362/2010–SRE-SRD/ANEEL, de 06 de dezembro de 2010

Portanto, na visão atual fundamentando o diagnóstico para a nova tarifa, o setor residencial
tem um peso muito grande na composição da demanda máxima e dentro deste setor, o
chuveiro elétrico tem um papel de destaque. Apesar de não ter valores publicados, não seria
surpreendente se o valor atribuído ao chuveiro elétrico for equivalente a toda categoria de
horosazonal AT.
O grande peso atribuído à categoria BT na composição da ponta implica uma alocação de
grande parte do custo da capacidade de distribuição à BT. Isso, por sua vez, repercute
primeiro no cálculo da RPFP (razão ponta/fora da ponta) dos custos de distribuição da
concessionária e finalmente na razão ponta/fora da ponta do preço ao consumidor.7
Um preço relativamente alto no horário da ponta traz um problema. Mexer com os hábitos de
milhões de famílias é muito delicado. Provavelmente a questão mais delicada diz respeito ao
banho noturno (ANEEL certamente a tratou como tal). Para reduzir o aumento do custo da
nova Tarifa Branca a grande maioria dos consumidores teria que mudar seu comportamento –
adiando seu banho (2-3 horas) ou encurtando-o.8 Este tipo de adaptação promete ser
impopular. Isso e o tempo necessário para introduzir alternativas tecnologias ao chuveiro
elétrico justifiquem a cautela das autoridades em introduzir a nova tarifa.

*********
Más que acontece se a época de demanda máxima do sistema mudou para o verão e o horário
da ponta máxima do ano fica na tarde e não no início da noite? Certamente alguns aspectos do
diagnóstico mudarão dramaticamente. Porém as análises da ANEEL não fazem qualquer
7
Neste artigo a sigla RPFP será usada exclusivamente em referência à razão ponta/fora da ponta) dos
custos de distribuição da concessionária, não à razão nos preços finais ao consumidor. Segue a prática
dos documentos da ANEEL em relação à nova estrutura tarifária.
8
Há alternativas tecnológicas que permitem atenuar o impacto do chuveiro elétrico, como aquecimento
solar e chuveiros de baixa vazão. Porém elas sofrem do fato que exigem investimentos iniciais bem
maiores dos consumidores (especialmente aquecimento solar) e vão levar anos para penetrar
significativamente no mercado. No caso do aquecimento solar há um agravante. O inverno é a época
histórica de demanda máxima no ano e também a época quando o rendimento dos sistemas de
aquecimento solar é menor no Sudeste e Sul (onde o chuveiro elétrico pesa mais que no Nordeste).
8
referência a este novo comportamento da demanda. Há o perigo que a nova estrutura tarifária
esteja projetada para responder a uma situação já ultrapassada.
Neste novo quadro podemos concluir a priori que a contribuição do chuveiro elétrico à ponta vai
cair dramaticamente. Podemos concluir também que o peso do ar condicionado vai aumentar
muito. É intuitivamente óbvio o que está acontecendo com a demanda. Com o aumento da
renda, o uso de ar condicionado está crescendo rapidamente tanto nas empresas como nas
residências. Afinal, o Brasil é um país tropical e sub-tropical.
É muito provável também que a contribuição do setor residencial à ponta seja bem menor do
que o valor atualmente atribuído. Finalmente, no verão (a nova estação crítica) é provável que
haja um patamar de demanda alta durante mais horas do que no inverno (que continua com um
perfil mais ou menos como resumido acima). No verão espera-se também dois (ou mais) picos
de demanda (sendo o maior na tarde e o menor de noite). Este comportamento diferenciado
entre as duas estações é muito importante e pode ser visto nas projeções das curvas de carga
dos sistemas regionais feitas pelo ONS em 2007 que constam na Figura 8.9 A diferença está
especialmente marcada nas regiões Sul e Sudeste/Centro-Oeste.

Figura 8: Curvas de carga diárias para meses distintos

SE-CO Sul

Nordeste Norte

9
ONS; Consolidação da Carga para o PAR 2008-2010; Análise da carga consolidada para os estudos
do Plano de Ampliações e Reforços da Rede Básica - Ciclo 2008-2010. Relatório ONS RE 3/040/2007
emitido pela Gerência de Previsão e Acompanhamento das Cargas/DPP, Operador Nacional do Sistema
Elétrico, Rio de Janeiro, 2007.
http://www.ons.org.br/download/analise_carga_demanda/Relatorio_PAR_08-10-Carga.pdf
9
Fonte: ONS; Consolidação da Carga para o PAR 2008-2010; 2007

A maior diferença entre o comportamento da demanda hoje e as simulações para 2009


ilustradas na Figura 8 é que, em todas as regiões os picos de demanda na tarde aumentaram
em relação ao pico noturno, especialmente no verão (linha amarela). A Tabela 2 mostra as
datas e a hora dos recordes de demanda máxima instantânea por região até 28/03/2011, além
do recorde anterior. No SE/CO e no Sul a ponta máxima está claramente na tarde e no verão.
No Nordeste e Norte a ponta máxima ainda oscila entre a tarde e a noite. De qualquer forma, a
diferença sazonal das curvas de carga é menos pronunciada no N/NE do que no SE/CO/S.

Tabela 2: Record atual de demanda máxima instantânea

Região Recorde Atual (28/03/2011) Recorde Anterior


Data Hora Data Hora
SE/CO 22/02/2011 15:48 23/02/2010 14:44
Sul 27/01/2011 14:35 05/02/2010 14:33
Nordeste 09/10/2010 18:46 18/03/2010 15:44
Norte 19/03/2011 19:09 27/09/2010 14:40
SIN 22/02/2011 14:35 23/02/2010 14:44
Fonte: ONS; Boletim Diário da Operação; várias datas

Infelizmente, não há nada publicada no âmbito das análises da ANEEL sobre a nova estrutura
tarifária que leva em conta a nova realidade temporal da demanda máxima. Aliás, é difícil achar
publicadas em qualquer lugar curvas de carga com base no histórico recente da operação do
sistema nacional ou dos sistemas regionais.
É crucial que a nova estrutura tarifaria responda aos desafios do futuro e não aos do passado.
Portanto é urgente que a ANEEL, junto com as outras entidades coordenando o setor elétrico,
prepare e analise o novo retrato da demanda. Essas análises devem:
1. Explicitar as profundas diferenças na curva de carga no verão e no inverno, tanto ao
nível nacional como regional. Incluir análises sistemáticas da composição das cargas
horárias por categoria de tarifa (horosazonal AT, convencional AT, BT, mercado livre), e
das conseqüências para a alocação dos custos da capacidade de distribuição entre
essas categorias.

10
• No caso da baixa tensão tentar atualizar a discriminação entre a contribuição
dos setores (B-1 residencial, B-2 rural, etc) às curvas de carga
2. Entrar em algum detalhe sobre as diferenças nas curvas de carga entre as
concessionárias numa grande região e até sub-sistemas de algumas concessionárias.
3. Incluir novas pesquisas sobre equipamentos e padrões de uso de energia,
especialmente na BT, reforçadas por medições da realidade quantitativa de amostras
de consumidores. Essas informações são fundamentais para entender os usos
energéticos que estão puxando a demanda máxima.
Os estudos (1) e (2) podem ser executados com certa rapidez. Seriam baseados em
informações já disponíveis e analisadas pelos agentes do setor. Aliás, estranha-se a relativa
falta deste tipo de análise nos documentos já publicados.
O item (3) apresenta um desafio maior. Na documentação atual, entrou-se em bastante
detalhe nesta questão.10 Infelizmente, a base das informações está muito desatualizada. O
problema é que a execução deste tipo de pesquisa através dos mecanismos habituais do
governo ou PROCEL exige tempo, começando com a demora na licitação do estudo. A ANEEL
quer re-estruturar a tarifa o mais cedo possível e tem bons motivos para isso. O problema é
amenizado pelo fato que essas informações parecem ser menos urgentes para definir os
parâmetros da nova tarifa. São mais relevantes para a implementação de programas
complementares (veja abaixo). No entanto, uma opção para mobilização relativamente rápida
que deve ser considerada: a execução desta pesquisa com recursos de entidades
internacionais – multilaterais, fundos e fundações. Há muito interesse internacional no fomento
da eficiência energética e em apoiar estudos como este que podem fundamentar novas
políticas.

********
ANEEL planejava promulgar uma nova estrutura tarifária até meados de 2011. Com os
estudos e novas análises propostas o cumprimento deste prazo provavelmente seria
impossível. O processo pode se prolongar por mais 6-12 meses. Porque insistir? A resposta é
que as mudanças resultando dessa re-avaliação podem ser muito importantes. Além de mudar
o horário do posto da ponta – por si só uma mudança profunda. Exemplos das possibilidades
são:
a) O horário do posto da ponta deve ser flexibilizado para responder às realidades de cada
concessionária (ou pelo menos cada Estado). Não faz o menor sentido ter um único
horário (posto) de ponta em todo o país. Cabe lembrar que o RPFP é uma função
apenas dos custos de distribuição das concessionárias, não da energia que elas
compram no atacado. A alocação deste custo depende do comportamento temporal de
demanda naquela área de concessão. Como mostra a Figura 9, há diferenças
significativas entre os Estados na mesma região, tanto nos níveis relativos de demanda
no inverno e verão, como nas curvas diárias típicas de cada estação (especialmente o
verão). As diferenças são maiores entre as grandes regiões de operação (Figura 8).
b) A flexibilização do horário deve também considerar:
• dividir o horário da ponta em dois segmentos – por exemplo: 14:00-15:30 e
19:00-20:30. e/ou

10
Nota Técnica n.º 362/2010–SRE-SRD/ANEEL, de 06 de dezembro de 2010.
11
• Mudar o horário da ponta sazonalmente Se houver uma curva de carga
profundamente diferente no verão e no inverno, porque não reconhecer isso na
estrutura dos preços nessas estações?
c) A introdução do “posto intermediário” na Tarifa Branca para BT foi uma inovação
importante. É um passo no reconhecimento do fato que a nova curva de carga na
época de maior demanda tem um patamar alto durante quase 11 horas (11:00 até
22:00), as diferenças entre as curvas de verão e do inverno reforçam este “patamar”
alto e prolongado. Neste contexto, é contra-produtivo ter um preço relativamente muito
alto por apenas 3 horas.
• O posto intermediário deve ser estendido para as tarifas horosazonais existentes
de AT. Para começar, é uma questão da consistência da proposta. Se o posto
intermediário é válido para a BT, é igualmente válido para a AT.
A transição pode ser implementada em fases para evitar choques tarifários de
curto prazo. O ritmo da transição será condicionado pela necessidade de trocar
medidores. Inevitavelmente levará alguns anos para permitir a instalação de
novos medidores, necessário em muitos casos. A opção de escolher essa nova
modalidade da tarifa horosazonal AT deve ser aberta à todos os consumidores
desta categoria desde o início. Deve ser obrigatória para qualquer conexão
nova.

12
Figura 9: Curvas de carga diárias para meses distintos – Estados do Sistema Sudeste/Centro-Oeste
São Paulo Minas Gerais RJ & ES

Goias & DF Mato Grosso do Sul Mato Grosso

d) Fonte: ONS; Consolidação da Carga para o PAR 2008-2010; 2007

13
• Para responder ao platô de demanda alta no verão especialmente, o posto
intermediário deve ser prolongado de 2 para 4 ou 5 horas (para BT e AT), com a
mesma flexibilidade do posto da ponta em relação ao horário. Pode-se
considerar também o prolongamento do posto da ponta .
e) Com a inclusão de mais horas do dia no cálculo do custo da capacidade de distribuição,
a RPFP deve cair substancialmente do novo patamar atualmente proposto para o
segmento horosazonal de AT. No caso da Tarifa Branca para BT, que já inclui o “posto
intermediário”, a RPFP cairia também, porém menos.
As mudanças já previstas na proposta da ANEEL para re-estruturar as tarifas representam
avanços importantes no caminho para uma precificação mais realista da energia. Por exemplo,
na horosazonal AT ela elimina o fator de 1.72 aplicado no preço da energia [TE] na hora da
ponta. Este fator sempre foi completamente artificial, sem qualquer relação à realidade
brasileira de geração elétrica. Outro avanço importante é a inovação das “bandeiras” no preço
da energia (TE), refletindo as variações no custo da energia comprada pela concessionária já
no mês seguinte
Na categoria BT, a iniciativa da Tarifa Branca (e a nova tecnologia de medição associada)11 é
um passo fundamental para sinalizar as variações no tempo do custo de suprimento na maior
categoria de consumo no país.
No entanto, as medidas sugeridas acima - a flexibilização do horário da ponta, a introdução do
posto intermediário na horosazonal AT (e seu prolongamento na BT e AT), e a redução da
RPFP no componente da distribuição – parecem importantes para alcançar os objetivos
almejados pela estruturação das tarifas.
*********
Até hoje os consumidores na categoria horosazonal AT respondem a um sinal exagerado do
preço da eletricidade na hora da ponta comparado com o preço fora da ponta. Neste contexto,
a prioridade dos consumidores para a “racionalização energética” tem sido a redução da
demanda no horário da ponta, a troca da Tarifa Azul para a Tarifa Verde 12 ou migrar para o
mercado livre. Investir em medidas de eficiência energética, propriamente dito, geralmente
ficava em segundo plano. É importante eliminar esta distorção na horosazonal AT e evitar que
se repita na nova Tarifa Branca.
Deve-se lembrar que, no Brasil, a otimização energética mais importante do lado dos
consumidores é melhorar a eficiência do uso da energia, não reduzir a demanda máxima. O
“apagão” de 2001-2 não foi resultado da falta de capacidade em kW para atender a demanda
máxima más da capacidade de gerar MWh/mês durante meses. No planejamento estratégico
da expansão o principal fator dimensionando o sistema de geração é assegurar o suprimento
de “energia firme” em GWh (ou MW-mês) ano por ano.
Uma política de preços que desestimula investimentos na eficiência energética é contra-
produtiva. Foi exatamente isso que aconteceu com a tarifa horosazonal AT, chegando ao
absurdo de grupo geradores a diesel para geração na ponta ser uma opção rentável.
11
Num processo paralelo a ANEEL está analisando normas mínimas para os novos medidores
eletrônicos. Veja Audiência Pública 43/2010. É importante lembrar que a definição da estrutura tarifária
será uma referência básica para definir as características mínimas dos novos medidores – uma infra-
estrutura com vida útil de 20 anos ou mais.
12
Em 2003 ~25% do consumo no grupo horosazonal foi na Tarifa Verde,em 2009 alcançou ~60%. A
Tarifa Verde favorece consumidores com fatores de carga relativamente baixos no horário da ponta.

14
Evidentemente, a redução da demanda máxima é um objetivo importante e os preços são o
instrumento principal para alcançá-lo. Questiona-se apenas o exagero na sinalização. Deve-se
lembrar que ganhos em eficiência (kWh) geralmente se traduzem em reduções proporcionais
de demanda (kW). Esses ganhos tal vez não melhoram o fator de carga do sistema, mas
reduzem o crescimento da demanda máxima que dimensionará a expansão da capacidade de
distribuição. No médio prazo este efeito sobre a demanda máxima será tão grande quanto
qualquer ganho através da modulação da carga, e provavelmente bem superior. Ademais, que
adianta ter um horário de apenas 3 horas por dia de preços relativamente muito altos quando
você tem uma curva de carga com um platô alto de 10-11 horas, como existe no verão hoje?
Apesar da proposta atual da ANEEL melhorar a situação anterior na categoria horosazonal AT,
não se sabe quanto. A ANEEL ainda não publicou um conjunto de simulações. Ao mesmo
tempo, na Audiência Pública 120/2010 ficou evidente a dificuldade de várias entidades simular
os impactos sobre a tarifa final ao consumidor. Porém, é provável que a RPFP da distribuição
e, portanto, a razão do preço ponta/fora da ponta ao consumidor ainda ficará muito alto.
Além disso, a razão ponta/fora da ponta pode aumentar se houver um deslocamento do horário
da ponta para a tarde – uma mudança que a realidade deve impor dentro de poucos anos,
ainda se não for incorporada na nova estrutura tarifária desde o início. Com este novo horário
da ponta a contribuição da horosazonal AT à demanda máxima seria maior, cabendo uma
alocação maior dos custos da capacidade de distribuição a esta categoria.
Assim, sem outros ajustes na estrutura nas linhas recomendados acima - como estender o
período de preços mais altos, com um posto intermediário, a perspectiva é que os
consumidores horosazonais AT continuarão dando prioridade maior à gestão da ponta que à
eficiência geral.

********
No caso da nova Tarifa Branca para BT a principal preocupação é diferente. Como já foi
observado, na proposta atual seu ritmo de introdução é modesto – especialmente no setor
residencial – apesar de supostamente trazer benefícios para o sistema e os consumidores. O
motivo desta cautela parece ser o forte impacto sobre o preço por kWh exatamente no período
de maior consumo residencial.
As recomendações resumidas acima devem mitigar este problema no setor residencial. O
deslocamento (total ou parcial) do posto da ponta e do posto intermediário para a tarde em vez
da noite terá o efeito imediato de reduzir a contribuição à demanda máxima atribuída ao setor
residencial (e em menor grau à BT como todo). Portanto reduzirá o custo da capacidade
atribuída a esta categoria – transferindo o peso para outros (como a horosazonal AT citada
acima). Não se sabe por quanto, más o impacto deve ser significativo. Com esta mudança e as
outras possibilidades sugeridas (flexibilização do horário e prolongamento do(s) posto(s)):
• A razão do preço ponta/fora de ponta diminuirá na Tarifa Branca.
• O posto da ponta e intermediário cairá menos (tal vez muito menos) nas horas de
consumo máximo das residências.
Com essas mudanças o “choque de banho frio” - literalmente e politicamente – associado com
a introdução da Tarifa Branca diminuiria muito. Neste novo quadro, caberia re-avaliar o ritmo de
implementação da Tarifa Branca – visando acelerar sua penetração no mercado, pelo menos
no médio prazo.

15
**********
A reforma da estrutura tarifária é uma iniciativa de grande importância e as mudanças já sendo
propostas pela ANEEL apontam no sentido certo. Neste artigo sugerimos alguns
aperfeiçoamentos levando em conta as novas realidades do perfil de demanda no sistema
brasileiro que estão se manifestando. Nosso intuito é aumentar os benefícios que esta reforma
tarifária pode trazer, tanto do lado da oferta como da demanda. Nesta mesma linha, cabe
ressaltar que a nova política de preços não deve ser implementada de forma isolada.
Sabe-se que a realização de uma grande parte dos benefícios atribuídos à nova estrutura
tarifária depende das reações dos consumidores aos novos sinais de preço. Isso se manifesta
na “sensitividade ao preço” (% mudança de consumo/% mudança no preço). O valor deste
coeficiente é bastante incerto, tanto no curto como no médio/longo prazo. Sem entrar no mérito
dos valores escolhidos pela ANEEL para cálculos ilustrativos, o que se sabe é que a grande
maioria dos consumidores enfrenta dificuldades na otimização de seu uso energético em
reação aos sinais de preço.
Como já observado no início deste artigo, políticas e programas complementares podem
facilitar a racionalização energética entre os consumidores, mitigando as barreiras encontradas
nos diversos segmentos de consumo. Assim, podem em princípio aumentar a “sensitividade
ao preço” e os benefícios resultando das reformas tarifárias.
Infelizmente, não se vê muito entrosamento hoje entre a política de preços e a gestão da
demanda por um lado e as políticas de eficiência energética por outro. A gestão da demanda
se faz quase exclusivamente através do preço altíssimo na ponta para consumidores
horosazonais AT. Ao mesmo tempo, a maior parte dos recursos para programas de
racionalização energética são para consumidores que recebem subsídios ou são mal
pagadores. Muitas vezes parece que um dos principais critérios na prática é reduzir o prejuízo
das concessionárias com essas classes de consumidor. De modo geral, ainda falta uma
estratégia coerente para “transformar o mercado” ajudando os consumidores otimizar seu
consumo energético em função dos preços que estão pagando.
Como alinhar a política de eficiência energética para reforçar a política de preços e promover a
transformação do mercado é um assunto complexo que foge o escopo deste artigo. No
entanto, cabe destacar sua relevância, especialmente tendo em vista o fato que o governo está
empenhado em definir uma nova política de eficiência energética.
No Box há uma curta discussão de algumas das possíveis interações entre a política de
preços, gestão de demanda e eficiência energética no setor residencial. É ilustrativo de como
as mudanças recentes no perfil da demanda fazem as políticas mutuamente mais relevantes.
A urgência da gestão da demanda deve aumentar nos anos que vem. Desde 2000 até 2009/10
o aumento mais rápida da ponta no verão ainda não impactava na demanda máxima do SIN.
Alias a tendência da demanda máxima aumentar mais no verão teve o efeito de nivelar a curva
de carga no ano, aumentando o fator de carga do sistema. A partir de agora não haverá este
benefício. A tendência será para a demanda máxima do sistema crescerá mais rapidamente
em relação ao crescimento do consumo do que ocorreu na última década.
Espera-se que, ao responder a esse desafio no horizonte, as políticas de gestão da demanda
(kW) e do consumo (kWh) podem se reforçar mais que no passado, respaldadas por uma nova
estrutura tarifária que sinaliza na medida do possível o custo real do suprimento da energia.

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Gestão da demanda e eficiência: “serviços de frio” no setor residencial

Uma conseqüência da transição da época de maior demanda do inverno para o verão e de um horário
nítida de demanda máxima no início da noite para um platô com 2-3 horários distintos de demanda
máxima (no verão) é que a gestão da demanda converge mais com a gestão mais geral da eficiência do
uso da energia. Porém, para aproveitar esta convergência será importante aprimorar as informações
sobre o uso da energia e aperfeiçoar políticas.
A mudança no perfil da demanda certamente destaca a importância para a gestão da demanda de
melhorar a eficiência do estoque de geladeiras/freezers e ar condicionadores. São usos finais
prioritários para a eficiência energética porque já em 2005 consumiam 47% da energia residencial (27%
nas geladeiras/freezers). Porém, ficavam em segundo plano na perspectiva da gestão da demanda
máxima. Apenas 21% da composição da ponta residencial foi atribuída a esses usos finais, sendo que
2/3 disso (geladeiras e freezers) é considerado pouco susceptível à modulação de carga no horário da
ponta.
Obviamente, com a mudança do perfil da demanda do sistema, a contribuição desses “serviços de frio” à
ponta residencial deve aumentar muito; provavelmente mais do que se pensa. Observa-se nas Figuras 5
e 6 acima que a demanda de geladeiras/freezers é considerado como constante durante 24 horas. Isso
não pode ser verdade, pelo simples fato que as temperaturas ambientais da tarde são mais altas que da
madrugada, o que aumenta o trabalho do eletrodoméstico para manter a mesma temperatura interna. O
mesmo vale para o verão em comparação com o inverno. Ao mesmo tempo, diferente do contexto antes
de 2009, as horas de maior demanda desses eletrodomésticos coincidem em maior parte com as horas
de maior demanda do sistema. Portanto, a visão simplificada nessas figuras precisa ser corrigida, com
base em medições reais de amostras de consumidores durante pelo menos duas estações distintas.
Ao mesmo tempo, a Nota Técnica 362/2010 da ANEEL tratou a demanda das geladeiras/freezers como
sendo inalterável. Hoje isso é verdade no Brasil. Porém uma possibilidade aberta pela “rede inteligente”
(para a qual os medidores da Tarifa Branca são um passo fundamental) é que, em momentos de
estresse da rede, certas cargas podem ser desligadas ou termóstatos ajustados por curtos períodos por
controle remoto – sendo “NegaWatts” despacháveis e descentralizadas. No Brasil há duas dúvidas
pairando sobre a entrada desta opção.
a) Uma dúvida diz respeito às novas tecnologias previstas para entrar no mercado. Os novos
medidores que serão instalados junto com a Tarifa Branca e a interface consumidor/rede terão
capacidade para esta opção? Entre os novos eletrodomésticos à venda haverá alguns modelos
com a capacidade de interagir com a rede ou informação no medidor?
b) Não há uma tarifa regulamentada para esta opção. Evidentemente o consumidor entrando neste
tipo de acordo voluntário precisa de um incentivo tarifário. A tarifa “interrompível” de AT não
deve ser confundida com esta nova opção tarifária para BT (que, claro, deve ser estendida à AT
também).
Sem atenção ao marco regulatório, a opção de “NegaWatts” despacháveis não parece factível no Brasil
num futuro próximo. Espera-se que a ANEEL aborda esta questão explicitamente, tanto na regulação da
tarifa como na definição das características dos novos medidores.
Se a reforma da estrutura tarifária e o projeto dos medidores e da interface com a rede incorporar esta
possibilidade, seu fomento deve ser também um componente dos programas relevantes de eficiência
energética. São esses programas de EE que têm contatos mais íntimos com os fabricantes e os
consumidores. Até hoje a política da gestão da demanda operava principalmente através do sinal de
preço altíssimo na ponta, sem muito interação com programas complementares.
Esta discussão ilustra dois vertentes para responder à nova realidade. Por um lado, os enfoques da EE
são mais relevantes para a gestão da demanda máxima do que antes. Por outro, programas de EE
podem ser adaptados para fomentar objetivos da gestão da demanda.

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