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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA HUMANA

AS TERRITORIALIDADES DO SAMBA NA CIDADE DE SÃO PAULO

São Paulo

2009

Alessandro Dozena

i

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA HUMANA

AS TERRITORIALIDADES DO SAMBA NA CIDADE DE SÃO PAULO

Alessandro Dozena

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Doutor em Geografia.

Orientador: Prof. Dr. Francisco Capuano Scarlato

São Paulo

2009

ii

Aprovado em 16/12/2009

Banca Examinadora

Prof. Dr. Francisco Capuano Scarlato (Orientador)

Prof. Dr. Antônio Carlos Robert Moraes

Prof. Dr. Julio Cesar Susuki

Profa. Dra. Bernadete A. C. Oliveira

Prof. Dr. Paulo Cesar da C. Gomes

iii

Aqui “jazz” um doutorado repleto de samba, que fez dançar meus pensamentos, reinventando minha imaginação geográfica e mantendo viva minha verdade.

iv

ÍNDICE

INTRODUÇÃO

19

1.

O SAMBA NA CONSTITUIÇÃO DO PROCESSO DE

URBANIZAÇÃO DA CIDADE DE SÃO PAULO

47

1.1

Samba e cultura brasileira: Dos batuques às

escolas de samba

51

1.2

As “raízes territoriais” do samba paulistano

60

1.3

As mudanças na dinâmica do carnaval paulistano

76

1.4

A expansão do samba na cidade de São Paulo

91

1.5

O bairro no “mundo do samba”

121

1.6

O samba na “quebrada” do Parque Peruche

128

1.7

O samba na “quebrada” do Bexiga

140

1.8

O pertencimento comunitário fluído no

“mundo do samba”

153

2.

A DIMENSÃO CULTURAL DO “MUNDO DO SAMBA”

158

2.1

O samba como discurso e prática

de Contra-Finalidade

159

2.2 A Contra-Finalidade em Adoniran Barbosa

168

2.3 O papel da corporeidade na conformação de

territorializações urbanas

183

2.4

Os movimentos de samba na cidade de São Paulo

189

3.

A DIMENSÃO POLÍTICA E ECONÔMICA DO

“MUNDO DO SAMBA”

199

3.1 As negociações políticas

200

3.2 Geração de empregos e de capital

216

3.3 “Fábrica dos Sonhos”: A criação de um território

especializado

230

CONSIDERAÇÕES FINAIS

236

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

254

v

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Foto 1 Jongo em Pindamonhangaba São Paulo

53

Foto 2 Barracão de romeiros em Pirapora do Bom Jesus São Paulo

61

Foto 3 Samba-lenço em terreiro de Rio Claro São Paulo

63

Fotos 4 e 5 Largo do Piques (atual Praça da Bandeira)

67

Foto 6 - Desfile do Cordão Campos Elíseos em 1935

78

Foto 7 Bloco Camponeses do Egito em 1920

80

Foto 8 - Desfile de Blocos Carnavalescos no Memorial da América Latina

83

Foto 9 População aguardando o desfile na Av. São João em 1935

87

Foto 10 Primeiro desfile carnavalesco realizado no Vale do Anhangabaú

88

Foto 11 - Final dos Jogos da Cidade de São Paulo

134

Foto 12 - Roda de Samba na Escola de Samba Vai-Vai

142

Foto 13 - Altar dedicado aos santos católicos na Escola de Samba Unidos do Peruche

143

Fotos 14 e 15 Eventos sociais no Aristocrata Clube

173

Foto 16 Cantinho do Peruche

192

Foto 17 Samba da Vela

194

Foto 18 Projeto Rua do Samba Paulista

196

Foto 19 Quadra da escola de samba Nenê da Vila Matilde

202

Foto 20 Quadra da Escola de Samba Prova de Fogo

208

Foto 21 Loja de produtos carnavalescos na Rua 25 de Março

219

Foto 22 Costureiro trabalhando no quintal de sua residência

225

Foto 23 Carro alegórico com movimento sendo montado por profissional de Parintins

227

Foto 24 Carnavalesco organizando os trabalhos no Barracão da Escola de Samba Rosas de Ouro

228

Foto 25 Terreno onde será construída a “Fábrica dos Sonhos”

231

Fotos 26 e 27 Samba da Laje na Vila Santa Catarina

244

Mapa 1: Territórios negros em São Paulo 1881

70

Mapa 2 Dispersão dos sambistas em São Paulo

99

Mapa 3: Expansão da área urbanizada em São Paulo - 1881 a 2002

100

vi

Mapa 4 Escolas de Samba Paulistanas em atividade Cronologia das Fundações

105

Mapa 5 Distribuição das Escolas de Samba ativas por Classes Econômicas nos Distritos de São Paulo

114

Mapa 6: Proveniência dos associados da Escola de Samba Unidos do Peruche

137

Mapa 7 Limite Hipotético do Bexiga

175

Mapa 8 Uso do território no Bexiga

176

Tabela 1 Escolas de Samba precursoras na cidade de São Paulo (em atividade)

108

Tabela 2 - Distribuição das escolas de samba pelas regiões da cidade de São Paulo Ano Base: 2009

110

Tabela 3 - Distribuição das escolas de samba ativas por Classes Econômicas Ano Base: 2009

115

Tabela 4 Renda Média Familiar por Classes Econômicas Ano Base: 2003

116

Tabela 5 Cortes do Critério Brasil Ano Base: 2003

117

Quadro 1: Periodização do samba paulistano

30

Imagens 1, 2 e 3 Planta da Fábrica dos Sonhos

231

vii

LISTA DE SIGLAS

ABBC

Associação das Bandas, Blocos e Cordões Carnavalescos do

ABEP

Município de São Paulo Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa

CEABRA

Coletivo de Empresários e Empreendedores Negros

COHAB

Conjunto Habitacional

DER

Departamento de Estradas e Rodagem

FAPESP

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

FFLCH

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

IBGE

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

IBOPE

Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística

LigaSP

Liga das Escolas de Samba de São Paulo

NERU

Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos

ONG

Organização Não-Governamental

SASP

Sociedade Amantes do Samba Paulista

SEBRAE

Sistema Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas

SESC

Serviço Social do Comércio

SPTuris

São Paulo Turismo

UESP

União das Escolas de Samba de São Paulo

UNEGRO

União de Negros pela Igualdade

UNICAMP

Universidade Estadual de Campinas

USP

Universidade de São Paulo

viii

Incentivo especial:

Trabalho realizado com bolsa doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo FAPESP, processo n° 06/51309-8.

Devo salientar que é imensa a minha gratidão à FAPESP, por ter tido a ventura de realizar a Pós-Graduação com as condições ímpares propiciadas a um bolsista desta instituição. Espero ter correspondido com o benefício a mim proporcionado pela sociedade paulista, que, pelo pagamento de seus tributos, sustenta essa Fundação.

ix

AGRADECIMENTOS

O trabalho que ora se apresenta, assinala a conclusão do processo de doutoramento iniciado em 2006, quando tive a felicidade de ter sido contemplado com a bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo FAPESP.

Não tenho palavras para explicar a alegria dos quatro anos de orientação apreciados ao lado do professor Dr. Francisco Capuano Scarlato, mestre de grande qualidade intelectual e sensibilidade humana. Também não é fácil tornar patente meu imenso agradecimento por sua amizade, por sua confiança, por sua presença sempre motivadora, pelo seu ânimo e envolvimento na direção deste trabalho. Manifesto minha honra de tê-lo encontrado nesta minha importante fase acadêmica e de vida. Reconheço a sua importância, mestre, em tornar a Geografia brasileira mais afortunada, por sua franqueza no dizer e no proceder.

Gostaria de agradecer igualmente minha querida esposa, Katia Agg, cuja convivência e amor irrestrito sempre me foram fortificantes. Se há um sustentáculo emocional que me possibilitou concluir este trabalho, ele é minha querida esposa. Sou grato pelas palavras elogiosas e de estímulo nos períodos difíceis.

Aqui aproveito para também agradecer aos meus pais, Anibal e Pascoalina, que do mesmo modo, são exemplos na constituição de meu caráter, pelo comportamento do qual busco me inspirar para encarar os embates que a vida proporciona. O que é passível de ser dito é que tentei imprimir neste trabalho a mesma persistência que aprendi com minha mãe, e a simplicidade que aprendi com meu pai. A todos os meus familiares deixo aqui expresso meus agradecimentos pelo apoio e convivência sempre estimulante: Clóvis e Virgínia Agg, Ronaldo, Luciana e Bianca Agg, Agnaldo Agg e Fernanda Gomes, Lilian e Alcides Garcia, Marcelo, Sandra e Isabela Dozena, Aline Dozena e Alex Ciacci.

No que se refere ao encaminhamento da pesquisa propriamente dito, vale salientar que, além dos levantamentos estatísticos e da revisão bibliográfica, as entrevistas foram essenciais para a consolidação da discussão presente na tese. Assim sendo, gostaria de agradecer a todos os entrevistados, pois se dispuseram a prestar esclarecimentos sobre a dinâmica do samba na cidade de São Paulo, do modo mais gentil possível: Tiarajú, Kaçula, Francisco, Lino, Billy, Roberto, Léia, Betinho, Róbson, Nanci,

x

Celso e Penteado.

Agradeço imensamente a professora Dra. Bernadete de Castro Oliveira e o professor Dr. Antônio Carlos Robert de Moraes, pela leitura atenciosa e encaminhamentos fundamentais na ocasião do Exame de Qualificação; manifestando sensibilidade, respeito e sugestões muito pertinentes. Agradeço também ao professor Dr. Paulo César da Costa Gomes e ao professor Dr. Júlio César Susuki, pela leitura da versão final da tese e por aceitarem o convite para a banca avaliadora.

Gostaria de agradecer ao historiador e grande figura humana, Francisco Rocha, que dispôs alguns encontros para me esclarecer acerca da importância de Adoniran Barbosa para o samba paulistano. Devo também ao meu amigo Roberto Goulart Menezes, pelo acompanhamento e horas de conversa. Deixo aqui expresso meu sincero agradecimento pela leitura do projeto de pesquisa realizado por ambos.

Com relação às leituras, gostaria de demonstrar minha enorme gratidão a Antônio Malacquias (Billy) e profa. Dra. Valéria Cazetta que, muito generosamente, leram a primeira versão de meu relatório FAPESP. Agradeço ainda a Andréa Zacharias, Luciene Risso, Neusa Mariano, Gabrielli Cifelli e Dolores Biruel pelos convites para a realização de palestras e participação em Mesas Redondas em suas instituições universitárias, o que de certo modo me possibilitou permanecer em contato com a sala de aula; atenuando-se a saudade da proximidade com o corpo discente.

Igualmente, deixo meu sincero agradecimento e consideração à professora Dra. Glória Anunciação Alves, pela possibilidade de participação no Grupo de Estudos Sociedade Urbana: Metrópole e Território, pertencente ao Laboratório de Geografia Urbana - LABUR, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo. As prazerosas e proveitosas discussões compartilhadas com pesquisadores de distintas formações acadêmicas fincaram raízes em minha personalidade intelectual. Certamente, um dos principais momentos deste convívio se deu na discussão crítica de meu Relatório de Qualificação, efetuada por Sandra, Nanci, Wagner, Nedir, Cléber, Adailton, César e Gil; além da professora Glória. Valeu pessoal !

Ainda no âmbito do Departamento de Geografia, gostaria de manifestar meu sentimento de estima e de amizade pelo professor Dr. Júlio César Suzuki, agradecido pela leitura do Projeto de Pesquisa e submissão deste à leitura de alguns membros do Laboratório de Geografia Agrária: Selito, Lino, Samarone, Eduardo e Lina, a quem sou

xi

grato. As professoras Dra. Amália Inês e Dra. Mónica Arroyo, desejo assinalar minha admiração e gratidão pela generosidade com que sempre me trataram.

As secretárias do Setor de Pós-Graduação: Ana, Jurema, Cida e Rosângela, que desde a realização do mestrado me trataram com muita presteza.

Toda a estrutura da Universidade de São Paulo facilitou a escrita, merecendo referência suas excelentes bibliotecas e o seu completo conjunto poliesportivo CEPEUSP.

Ao professor Dr. José Guilherme Magnani, cujo trabalho rigoroso e apaixonante muito me inspira e influencia. A participação em sua disciplina Pesquisa de Campo em Antropologia foi edificante e me ajudou sobremaneira.

Não poderia deixar ainda de agradecer ao professor Dr. Mauro Leonel, que generosamente me recebeu como estagiário de sua disciplina Sociedade e Meio Ambiente na USP - Leste, dentro do Programa de Aperfeiçoamento ao Ensino. Igualmente, aos membros do Grup d´Investigacions en Geografia Urbana - GICU e ao professor Dr. Carles Carreras i Verdaguer, que me recebeu por três meses no Departamento de Geografia da Universidade de Barcelona Espanha.

Faz-se importante novamente agradecer a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo FAPESP, pela concessão dos recursos que permitiram esse importante período de “vivência” em Barcelona, e ao Zeus, pelo acompanhamento e apoio.

Também agradeço a Pró Reitoria de Pós-Graduação da Universidade de São Paulo, pelo apoio financeiro que tornou possível a participação no Congresso Luso-Afro- Brasileiro de Ciências Sociais realizado em Portugal, além do auxílio na compra das passagens para o estágio em Barcelona.

Ao professor Dr. José Roberto Zan, pela disciplina inspiradora Estudos Avançados em Música Popular, cursada no Curso de Pós Graduação em Música da Universidade de Campinas UNICAMP, no período que antecedeu meu ingresso no doutorado.

Ao amigo Márcio Michalczuk Marcelino, o popular Lino da Peruche, um dos principais responsáveis por me apresentar vários entrevistados, pelas informações preciosas no início da minha descoberta e inserção no “mundo do samba”, pelas

xii

conversas realmente esclarecedoras e estimulantes. Agradeço também pela parceria no artigo publicado na Revista do Núcleo de Antropologia da USP NAU, elucidando-me muitas questões sobre a presença do samba no Parque Peruche.

Vanir Belo e ao Selito, pelas conversas sobre o samba paulista desde o início do trabalho. Prof. Dr. Rafael Straforini, amigo de graduação, por me acompanhar no trabalho de campo realizado na “Cidade do Samba” carioca.

Ao amigo Samarone Marinho, gostaria de agradecer por estar sempre ao meu lado durante todo o período do doutorado, pelas tardes em que passamos juntos conversando sobre nossos temas de pesquisa e os encaminhamentos teóricos neles presentes, diálogos realmente proveitosos e que me contagiaram de idéias e de admiração por sua qualidade intelectual.

Professora Dra. Samira Pedutti Kahil, grande incentivadora de meu progresso acadêmico. Ao amigo professor Dr. Wendel Henrique pelo incentivo inicial na escolha do tema da pesquisa. A todos os amigos que sempre estiveram por perto: Carlos Henrique da Silva, Carlos Henrique (ex-aluno), Sérgio Lima, Carlos Pinheiro, Ronaldo Pileggi e Joice Dombrova, Wonder Higino e Silvana, Marcos Gomes e Andreza, Vagner Rodrigues, Ricardo Hirata, Rosângela Biruel e Hugo Mariano, Valéria Cazetta e Berg Feracine.

Aos meus “amigos performáticos”: Anabel Andrés, Dani Lasalvia, Andréa Pimentel, Mauro Santos, Jamil Giúdice, Lila Mun, Luiza, Ully Costa e Priscila Briganti. Todas as aventuras musicais que tivemos foram muito importantes para este trabalho e para o meu aprimoramento humano. Viva o improviso da vida !

Ao Nilo Lima, Renata Salles e Marco Pires pela parceria na elaboração dos mapas e discussão dos temas a eles relacionados. Com certeza, foram conversas muito enriquecedoras para todos nós. Também agradeço Sinthia Cristina Batista e Juliana Canduzini pelas sugestões cartográficas.

Ao professor Dr. Carlos Maia e todos os membros do Grupo de Estudos Lux Festas Populares, pelas trocas que têm sido estabelecidas recentemente.

Agradeço Carla Rodrigues, pela revisão final do texto. Do mesmo modo, Girlei Aparecido de Lima pelos apontamentos acerca das regras da ABNT e elaboração da Ficha Catalográfica. E ainda, Érica Oliveira e Lilian Agg pela correção dos resumos.

xiii

Paulo Amarante (Paulinho), pelo auxílio na captação das imagens e edição do documentário que acompanha esta tese.

Deixo aqui expresso meu sincero agradecimento a minha (meu) parecerista FAPESP, por confiar no potencial deste estudo. Mesmo sem conhecê-la (o), gostaria de salientar que suas contribuições foram fundamentais, servindo como um estímulo constante durante o processo de pesquisa e de escrita.

Aos sambistas e ao samba, o grande inspirador deste trabalho. Axé !

À São Paulo, a cidade que aprendi a amar em seu caos às vezes organizado, mas repleta de oportunidades e de amizades.

Por último, mas não menos louvável, quero manifestar minha gratidão a Deus e todas as “forças do além”, por esses anos de pesquisa tão prazerosos, por agirem sempre em meu favor e me presentearem com a alegria de aprender.

xiv

RESUMO

DOZENA, A. As Territorialidades do Samba na Cidade de São Paulo. 2009 f. Tese (Doutorado) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2009.

Esta pesquisa busca compreender os diferentes usos do território na cidade de São Paulo sob a perspectiva particular do samba, visto que ele pode ser retratado espacialmente. A partir dos distintos usos territoriais pelos sambistas, houve a articulação entre a teoria e o trabalho de campo, alcançando-se uma explicação crítica das territorialidades presentes no “mundo do samba”, e realizando-se um aprofundamento teórico-metodológico na problemática que envolve o território e a cultura. Nesse sentido, tornaram-se evidentes os mecanismos pelos quais as práticas sociais, discursos e representações subjetivas dos sambistas se territorializam e atuam como contra- finalidade. Tais ações privilegiam a vivência e o lazer durante o ano todo, não só no carnaval, além de estruturarem redes de sociabilidade que geram territorialidades com um sentido essencialmente coletivo.

Palavras chave: territorialidades, samba, história, São Paulo, urbanização.

xv

ABSTRACT

DOZENA, A. The Territorialities of the Samba in Sao Paulo City. 2009 f. Tese (Doutorado) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2009.

This research attempts to understand the different uses of the paulistano territory in the context of the events which are associated with the samba in Sao Paulo city. From the different territorial uses by sambistas, there was a joint between the theory and the work of field, reaching a critical explanation of the territorialities in the “world of samba” and focusing on the problem that involves the territory and the culture. In this sense, the mechanisms through which the samba “occupies” in social practices and subjective representations became evident; acting as against-finality. All these practices benefit the experience and the leisure over the whole year, not only at Carnival, besides structuralizing sociability nets that generate territorialities in an essentially collective sense.

Words - key: territorialities, samba, history, Sao Paulo, urbanization.

xvi

RÉSUMÉ

DOZENA, A. Les Territorialités de la Samba dans la Ville de São Paulo. 2009. f. Tese (Doutorado) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2009.

Cette recherche a pour but comprendre les différents usages du territoire paulistano dans le contexte des événements associés à la samba dans la ville de São Paulo. À partir des usages territoriaux distincts par les danseurs de samba, nous avons fait l‟articulation entre la théorie et le travail de champ en atteignant une explication critique des territorialités présentes dans le « monde de la samba ». De cette façon nous avons réussi à un approfondissement dans la problématique qui implique l‟territoire et la culture. Dans ce sens sont devenus évidents les mécanismes par lesquels la samba s‟établit en tant que pratiques sociales et représentations subjectives, beaucoup de fois irréductibles à la rationalité économique. Telles pratiques privilégient outre l'expérience et le loisir pendant toute l‟année, pas seulement pendant le carnaval, la structuration des réseaux de sociabilité qui produisent des territorialités avec un sens essentiellement collectif.

Mots - clé: territorialités, samba, histoire, São Paulo, urbanisation.

xvii

Hoje desaprendo o que tinha aprendido até ontem

E que amanhã recomeçarei a aprender.

Todos os dias desfaleço e desfaço-me em cinza efêmera:

Todos os dias reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.

Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência

Dos alicerces às torres, sabendo que é trabalho sem termo.

E do alto avisto os que folgam e assaltam, donos de riso e pedras.

Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.

De um lugar que não se alcança, e que é, no entanto, claro,

Minha verdade, sem troca, sem equivalência nem desengano

Permanece constante, obrigatória, livre:

Enquanto aprendo, desaprendo e torno a reaprender.

Cecília Meireles

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

19

INTRODUÇÃO

Este texto apresenta os resultados da pesquisa documental e de campo, além das

leituras e atividades acadêmicas realizadas no período de elaboração do doutorado, entre

os anos de 2006 a 2009. Nesse período, procuramos concentrar o trabalho primeiramente em uma orientação de cunho mais geral, que atendesse algumas das necessidades do projeto de pesquisa inicial, qual seja, o reconhecimento dos aspectos relativos à territorialização do samba na cidade de São Paulo.

Ao tratarmos de cidade não desconsideramos o fato de que a dinâmica intra-

urbana se articula com as dinâmicas interurbanas (LEFEBVRE, 1999), em um único processo que comanda a constituição da rede urbana e da metrópole paulistana. Igualmente, a opção pela categoria de análise cidade ocorreu pela demarcação do estudo não abarcar outros eventos de samba presentes na Região Metropolitana de São Paulo, o que ampliaria em muito o recorte aqui proposto. A cidade é aqui considerada como um fato econômico e uma relação política (WEBER, 1982), um fenômeno de origem político-espacial manifestada em sua dinâmica territorial (GOMES, 2002), a combinação entre a forma material e o seu conteúdo social (SANTOS, 2002) e a expressão concreta dos processos sociais na forma de um ambiente construído, que reflete as características

da sociedade (MUNFORD, 1961).

Ao focalizar o objetivo central do trabalho e buscar compreender alguns processos pelos quais o samba estabelece territorialidades por meio de práticas sociais e representações subjetivas que tornam São Paulo uma cidade capaz de “convidar” os indivíduos à realização humana por meio da integração com o samba, que permeia todas as suas regiões; faz-se necessário perceber os significados dos territórios demarcados pelos sambistas e como se dá a interação dos sambistas com esses territórios.

Em outras palavras, torna-se necessário a reconstrução da dialética existente entre

a forma e o processo, pois como afirma Francisco Scarlato (2004), os espaços

construídos, sejam os públicos ou os privados, revelam códigos e sentidos no bojo da interação social, transcendendo sua materialidade e sua temporalidade; remetendo-se à memória que extrapola o momento atual além de suplantar gerações.

Cabe de início enunciar que o objetivo principal deste trabalho é o de realizar um aprofundamento teórico-metodológico na problemática que envolve o território e a

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

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cultura, buscando-se a compreensão do uso do território na cidade de São Paulo sob a perspectiva particular do samba, visto que ele pode ser retratado espacialmente. Além disso, busca-se pesquisar os mecanismos pelos quais as práticas sociais, discursos e representações dos sambistas se territorializam e atuam como contra-finalidade. Assim, é intuito do trabalho analisar as territorialidades do samba dentro da trama da cidade de São Paulo, verificando onde o samba se manifesta, como ele se manifesta, como ele evoluiu e como ele se deslocou para as distintas regiões da cidade. Além disso, analisaremos algumas ações de demarcação, apropriação, controle e vivência territorial exercidas pelos sambistas.

Tendo em vista o cumprimento do objetivo geral e em função da amplitude da problemática desta pesquisa, optamos por empregar inicialmente dois “recortes” em duas escolas de samba do Grupo Especial do carnaval paulistano, como procedimento metodológico da pesquisa de campo. O primeiro, refere-se à análise das formas de manifestação do samba no Parque Peruche, bairro pertencente ao distrito de Casa Verde, na Zona Norte. O segundo foi o acompanhamento da fase de preparação do carnaval de 2007, levado a cabo na quadra da Escola de Samba Vai-Vai.

A escolha desses recortesse justifica por serem áreas tradicionais de samba na cidade de São Paulo. Conforme constatamos no Mapa 1 Escolas de Samba Paulistanas em Atividade Cronologia das Fundações, o Parque Peruche encerra um importante destaque na presença de escolas de samba. Além disso, a afinidade com alguns moradores facilitou o contato durante a realização da pesquisa de campo. No caso da Vai-Vai, a escolha foi feita em virtude de ser uma das mais tradicionais escolas de samba da cidade, localizada em um dos “berços” do samba paulistano - o bairro do Bexiga; além de ter um caráter “cosmopolita”, por congregar freqüentadores de vários pontos da cidade.

Uma das reflexões importantes presentes nesse trabalho, diz respeito ao fato de que o samba não se trata apenas de um estilo musical que ainda conserva no imaginário social do brasileiro e do estrangeiro uma das mais importantes formas de representação de brasilidade. É preciso reconhecer que o samba ultrapassa o estilo musical e que, algumas relações estabelecidas pelas camadas sociais populares em seus bairros, geralmente, não são reveladas para toda a sociedade, embora forneçam relevantes indícios simbólicos onde acontecem. Outro equívoco (presente tanto no discurso dos

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

21

sambistas como de alguns estudiosos do assunto) pode ser percebido no ideário a respeito do carnaval, quando o considera uma festa democrática nas cidades, compartilhada ao longo da história de modo homogêneo por todos os seus participantes. Ou ainda, quando se considera que o carnaval que acontece nos bairros, em geral associado a bandas, blocos carnavalescos ou escolas de samba que não desfilam no Sambódromo do Anhembi, é de menor importância; embora repleto de espontaneidade, improvisação e simbolismo 1 . É possível, até mesmo, traçar um paralelo com os jogos dos times de futebol de várzea, que mesmo com pouca infra-estrutura, mobilizam muitas pessoas durante os finais de semana na cidade de São Paulo 2 .

Iniciamos este trabalho salientando que o samba apresenta uma dimensão mais ampla que a do carnaval. Embora a festa carnavalesca tenha sido envolvida pelo espetáculo televisivo que tem como palco o Sambódromo, ela nunca saiu dos bairros e hoje “costura” novas relações sociais a partir de uma movimentação própria que se dá nos territórios do samba, motivada pelos blocos carnavalescos, rodas e movimentos de samba; além dos eventos que ocorrem ao longo do ano nas quadras das escolas de samba.

Posto isto, vale bem diferenciar o samba do carnaval, cujo elemento central reside exatamente nas festas realizadas no mês de fevereiro ou março, marcadas pela apropriação de alguns elementos presentes no samba. Igualmente, é importante reafirmar que o universo do samba não só circunscreve um estilo musical, mas, também, as práticas sócio-espaciais e estilos de vida que coexistem com os acontecimentos carnavalescos; o que, como já frisamos, muito influenciou historicamente sua configuração e associação direta com o carnaval.

Outra constatação é a de que, cada vez mais, os movimentos e rodas de samba dialogam com a comunidade tendo a sociabilidade como fundamento. Nesse entendimento, contrapõem-se, na maioria das vezes, aos valores culturais de consumo imediato, vislumbrando-se novas possibilidades de construção de outra realidade. Ao mesmo tempo, reafirmam a hipótese central desta pesquisa, a de que o samba - a partir de

1 Na verdade, a dinâmica do espetáculo está diretamente relacionada aos eventos orientados ao grande público. Conforme tratado pela profa. Dra. Bernadete A. Castro Oliveira em Mesa Redonda na UFSCar/Sorocaba, em 29/08/2009, há outros casos de dinâmicas que se encerram em manifestações ritualísticas, capazes de demarcar alguns aspectos culturais pela repetição, pela idéia da “refundação” dos valores sociais e comunitários envolvidos.

2 É interessante notar que, por um curto período de tempo, a “TV Cultura” exibiu o campeonato “Desafio ao Galo”, disputado por times provenientes dos vários bairros da cidade. Ainda que fosse um campeonato marcado pela competição, exprimia uma “vitalidade social” a partir da congregação dos moradores dos diversos bairros, o que tecia um paralelo importante ao futebol de caráter espetacular e televisivo.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

22

redes de sociabilidade dotadas de um sentido coletivo - inspira e aponta para caminhos

alternativos aos do cotidiano atual, repleto de contradições e paradoxos. A perspectiva

teórica a respeito das redes de sociabilidade auxilia na discussão sobre a territorialização

dos sambistas e a formação dos “territórios do samba”:

Rede de movimentos sociais são redes sociais complexas, que transcendem organizações empiricamente delimitadas, e que conectam, simbólica e solidaristicamente, sujeitos individuais e atores coletivos, cujas identidades vão se construindo num processo dialógico de identificações sociais, éticas, culturais, político-ideológicas e/ou de intercâmbios, negociações, definição de campos de conflito e de resistência aos adversários e aos mecanismos de discriminação, dominação ou exclusão sistêmica (WARREN, 2005, p.35).

É no lugar que um conjunto de ações passa a acontecer, havendo o

questionamento do funcionamento da racionalidade instrumental (HABERMAS, 1975)

comandada pelo princípio da eficácia, por intermédio do Estado e da economia, e que se

utilizam de mecanismos reguladores controlados pelo poder e pelo dinheiro. Na

perspectiva de Habermas, o questionamento do estabelecido torna possível a instauração

da racionalidade comunicativa, fundamentada na argumentação e na indagação das ações

e dos valores, o que também permite a negociação coletiva dos fins.

Nessa mesma direção, Thompson argumenta que “uma cultura é também um

conjunto de diferentes recursos, em que há sempre uma troca entre o escrito e o oral, o

dominante e o subordinado, a aldeia e a metrópole, em uma arena de elementos

conflitivos” (THOMPSON,1998, p.17).

A partir de seu engajamento direto com o samba e comunitariamente, os

sambistas apropriam-se do território tanto para a vivência 3 quanto para a produção e

reprodução de sua vida material. São essas apropriações do espaço geográfico, que a

partir das relações sociais produzem e podem fortalecer uma identificação que utiliza o

território como referência. Assim, os sambistas desenvolvem trocas simbólicas com os

territórios em que estão inseridos, “constituindo parte de seu equipamento sócio-

psíquico, adquirido em seu processo de socialização e de vida” (MORAES, 2001, p. 44).

3 Estamos considerando a perspectiva de Walter Benjamim (1995) segundo o qual, aqueles acontecimentos captados e amparados pela consciência que provocam o choque, assumem o caráter de vivência.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

23

A noção de sambista que aqui é considerada abrange o sujeito que impulsiona a

“evolução” do samba - o que independe da sua cor da pele - com ações e motivações

próprias, guiadas por escolhas e concepções que igualmente lhes são próprias,

envolvendo discursos, representações e formas de consciência particulares. Neste

sentido, é a partir das manifestações dos sambistas que se produzem as territorialidades

que aqui serão retratadas.

Na perspectiva arraigada em um caráter de dominação política e dominação do

acesso a uma área geográfica, Robert Sack (1986) sugere que o território se manifesta

pela tentativa por um indivíduo ou grupo de atingir, influenciar ou controlar pessoas,

fenômenos e relacionamentos, através da delimitação e afirmação do controle sobre uma

área geográfica. Seguindo essa perspectiva, Paulo Gomes (2002) define territorialidade

como sendo “o conjunto de estratégias, de ações, utilizadas para estabelecer este poder,

mantê-lo e reforçá-lo” (GOMES, 2002, p. 12), ou ainda como “a forma de expressão

geográfica do poder social” (ibidem, p. 120). Daí o autor não acreditar que a noção de

território possa se confundir com qualquer dimensão emotiva ou de identidade, pois estas

já seriam parte de uma estratégia de tomada de controle:

O conceito de território é antes de mais nada uma classificação, não simplesmente uma classificação de coisas, mas de coisas dentro de um espaço. Visto dessa forma, o território é definido pelo acesso diferenciado do qual ele é o objeto, por uma certa hierarquia social da qual é a representação e finalmente por um exercício do poder do qual é produto e um dos principais instrumentos (GOMES, 2002, p. 139).

Em contrapartida, alguns autores atentam para a dimensão subjetiva do

território, a exemplo das noções de “território cultural” ou “território simbólico”

presentes em Bonnameison e Cambrezy (1996), conforme aponta Haesbaert (2006).

Também em Guattari (1987), a noção de território apresenta-se relacionada com a de

espaço vivido, sendo sinônimo de apropriação e subjetivação (sabendo que, quando há

um sentimento identitário por uma determinada área, existe um momento em que a

identidade é ativada como movimento de reconhecimento e se transforma em algo que é

objetivado, podendo conformar um movimento de luta ou de reivindicação territorial

coletiva).

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

24

A noção de territorialidade que estamos levando em conta é aquela que

considera a apropriação e o controle dado ao território pelos sambistas; a partir de mediações espaciais de poder, que se estendem desde o concreto ao simbólico (HAESBAERT, 2004; SOUZA, 1995). Essa noção muito se desenvolveu pelo contato com os antropólogos, intercambiando-se questões referidas a simbolismos, heranças e gêneros de vida. As territorialidades são, assim, as ações estratégicas de demarcação, de prática do poder, controle e vivência territorial exercidas pelos sambistas, onde “por meio deste controle é possível a imposição das regras de acesso, de circulação e a

normatização de usos, de atitudes e comportamentos” (GOMES, 2002, p. 12) sobre um pedaço do solo.

Buscando interpretar as representações e identificações presentes no território e considerá-lo como uma dimensão da experiência humana dos lugares, passamos a estimar a apropriação realizada cotidianamente pelos grupos que nele habitam e lhe conferem dimensões não apenas simbólicas, mas também econômicas e políticas. Ao tratar das territorialidades no “mundo do samba” consideramos que a apropriação “pode ser construída a partir de múltiplos veículos, imaginário, sentimentos, posse, propriedade, uso, sem que nenhum deles signifique sempre o exercício efetivo de um controle sobre os objetos e as práticas sociais que aí ocorrem” (GOMES, 2002, p. 13).

Esta foi a “saída” encontrada para tratarmos das redes de sociabilidade presentes no “mundo do samba”, o que permitiu não ficarmos presos à clássica concepção de território sob o aspecto do poder territorial. Não optamos pela noção de espacialidade pelo seu caráter de vagueza e obscurantismo, sendo freqüentemente usada sem muito rigor teórico. Além disso, entendemos que a noção de territorialidade tem um caráter mais “humano-concreto”; o que, portanto, revelou-se interessante para o presente estudo. Preferimos não utilizar a termo espacialidade por acreditarmos que, embora seja muito utilizado principalmente pelos pesquisadores em geografia, consiste em uma definição ainda vaga e genérica 4 .

De certo modo, os conceitos de espacialidade e de territorialidade se superpõem,

não sendo possível estabelecer limites tão rígidos entre eles. Vale lembrar que o território

4 A partir da consideração de que o espaço geográfico é configurado pela vida e pelas ações, podemos constatar que a espacialidade abrange esta vida fluída nele presente. A espacialidade é essa essência da mobilidade do território, que é dinâmica e móvel. Interessantes reflexões sobre esta temática estão presentes em MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro:

Bertrand Brasil, 2008.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

25

guarda sua espacialidade, na medida em que também contém ações. Entretanto, ao optarmos pelo conceito de territorialidade, acreditamos ganhar maior objetividade no direcionamento das várias funções que o território pode adquirir em momentos distintos, modificando-se em sua função social.

Diante disto, o conhecimento dos “territórios do samba” abriu-se à possibilidade de se entender as relações com outros lugares, ampliando a discussão para além do cultural e recuperando outras dimensões ligadas ao cotidiano. A partir do cotidiano, os sambistas definem o seu território e fazem uso daquilo que antecede a própria noção de território - o espaço geográfico. São estas apropriações do espaço geográfico que o transforma em territórios do samba, apropriações assumidas como mediação de representações construídas a partir de um imaginário ao samba relacionado, onde os próprios bairros passam a fomentar representações da vida urbana. Não somente eles como também as quadras e barracões 5 das escolas de samba, os viadutos apropriados para ensaios, os fundos de quintal, as lajes de casas simples, os centros culturais e praças públicas, os bares, as feiras e ruas onde as rodas de samba acontecem. Mais do que simples edificações ou áreas situadas em algum ponto da cidade, estes lugares 6 adquirem uma diversidade de significados e valores subjetivamente projetados e territorializados.

Em uma dinâmica cotidiana, o espaço geográfico é transformado em território pelo uso social, econômico e cultural que lhe é conferido pelos sambistas a partir das apropriações cotidianas desse espaço. Para Agnes Heller (1972), o cotidiano é revelador das diversas atividades exercidas sobre o território, e é nele que se desenvolvem diferentes práticas sociais em suas respectivas sociabilidades através da história. A vida cotidiana, segundo esta autora, não pode se dissociar do cotidiano da história da sociedade, pois os fatos históricos nascem no cotidiano e remetem à idéia de repetição. Contudo, esse território não é só de reprodução, mas também de produção de sentidos, que são acompanhados de espontaneidade. Este posicionamento já implica considerar a espontaneidade como uma das principais características do cotidiano, “não querendo

5 Os barracões são os locais onde tanto as escolas de samba quanto os blocos carnavalescos utilizam para a confecção de suas fantasias e adereços, além da construção dos carros alegóricos. Nestes locais, o carnavalesco e o chefe de barracão orientam as costureiras, os serralheiros, os decoradores e os carpinteiros no desenvolvimento das etapas de trabalho voltadas ao desfile carnavalesco.

6 Neste trabalho, lugar tem o sentido posto por Rogério Haesbaert, ao afirmar que além do lugar “envolver características mais subjetivas, na relação dos homens com seu espaço, em geral implica também processos de identificação e relações de identidade (HAESBAERT, 2006, p. 138).

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

26

dizer com isto que todas as atividades do cotidiano estão no mesmo nível, mas que existe uma tendência marcante do cotidiano para a espontaneidade” (HELLER, 1972, p. 18).

Concordamos com autora ao tratar da espontaneidade como aquilo que é criativo e manifesta o potencial de negociação e circulação por realidades e situações distintas. Neste sentido, certas práticas sociais fundamentadas no cotidiano induzem ou favorecem a configuração de territórios do sambana cidade, configuração que depende de múltiplas variáveis, como o contexto histórico de cada localidade, a doação do terreno pelo Poder Público, a existência de terrenos mais baratos, a maior ou menor acessibilidade, dentre outros fatores que serão aqui tratados.

Diante

desse

quadro,

uma

questão

principal

se

apresenta:

Quais

são

as

territorialidades geradas pelo samba na cidade de São Paulo?

Dividido em capítulos, este trabalho apresenta algumas reflexões fornecidas pelos diversos conjuntos documentais consultados e pela pesquisa de campo realizada entre 10/06/2006 (início da pesquisa) até o momento de sua finalização, no ano de 2009.

No primeiro capítulo, procurou -se concentrar a investigação na questão do samba na constituição do processo de urbanização da cidade de São Paulo. Complementarmente, outras questões foram surgindo: o tema da “economia do samba”, o das negociações políticas presentes no “mundo do samba” 7 , a questão da propriedade dos terrenos onde estão localizadas as quadras das escolas de samba, o financiamento dos desfiles carnavalescos, os empregos gerados e o anúncio da construção da “Fábrica dos Sonhos” 8 .

É interessante notar que as diversas atividades econômicas direcionadas ao desfile carnavalesco são amparadas principalmente pelo trabalho temporário, que abrange uma série de atividades, a exemplo da confecção das fantasias e camisetas por costureiras terceirizadas, e da montagem dos carros alegóricos realizada por profissionais especializados, muitos deles provenientes de Parintins (AM). Assim, pode-se afirmar que

7 A designação “Mundo do Samba” visa englobar as atividades que têm o samba como o elemento central, dentre elas aquelas que acontecem nas escolas de samba, rodas de samba, bares, casas noturnas especializadas, projetos e movimentos de samba. Em virtude da amplitude de possibilidades de pesquisa, focamos a análise nas escolas de samba, rodas e movimentos de samba. Não houve um apego aos eventos de gafieira, samba-rock e naqueles que ocorrem em bares sofisticados ou botecos; o que por si só renderia outro trabalho. 8 Projeto anunciado em 2008 pela Prefeitura Municipal de São Paulo, que disponibilizará um local para que as escolas de samba do Grupo Especial confeccionem seus carros alegóricos, fantasias e adereços. Esta questão será retomada adiante.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

27

estas atividades mobilizam um mercado específico localizado principalmente na Rua 25 de Março (centro) e voltado ao comércio de tecidos, plumas e adereços.

Diante do que até aqui foi exposto, constata-se que parece haver uma tendência de direcionamento do carnaval aos meios de comunicação, acompanhada pela invasão de uma lógica de gestão empresarial nas escolas de samba que desfilam nos dias destinados ao Grupo Especial. No modelo de “desfile midiático” prevalecente, as escolas de samba têm o fim manifesto de competirem no carnaval, ainda que dentro delas exista a possibilidade de acontecerem outras manifestações culturais e de convívio social que nem sempre estão vinculadas a esta competição. Principalmente devido à alta lucratividade obtida, a postura tradicional dos meios de comunicação e do Poder Público é a de privilegiar o carnaval transmitido pela televisão, desconsiderando, na maioria das vezes, o conjunto das relações sociais estabelecidas fora do âmbito dos eventos vinculados ao desfile televisivo.

Tal como expresso no projeto que deu origem a esta pesquisa, o samba funciona como uma das práticas materiais e simbólicas que contribuem para o bem-estar na cidade de São Paulo, embora a lógica da concentração territorial da produção cultural muitas vezes esteja atrelada a fatores econômicos. Neste sentido, existe um “mundo do samba” na Paulicéia que tem por base a relação entre duas lógicas complementares: a da cidade que transforma parte do samba em produto para o consumo (com destaque para o carnaval televisionado) e a do lugar, tradicional ponto de cultivo e fruição de vínculos de pertencimento e sociabilidade comunitária.

Dessa maneira, o carnaval, evento público e privado realizado, praticado e estimado pelos sambistas, revela-se não como o único instante privilegiado para o aprofundamento das reflexões. Outros eventos que se dão na cidade durante o ano todo são de grande importância, embora desconsiderados por parte dos pesquisadores que se debruçam sobre o tema. Estes, ao visualizarem o samba em sua associação única com o “instante” do carnaval, o reduz à lógica da reprodução de racionalidades programadas e mercantilizadas vigorantes no carnaval midiático.

Vê-se, como já exposto, que o carnaval, festa considerada a mais profana de todas, apropriou-se de elementos do samba, que se tornou legitimado e inserido em uma dinâmica espetacular. Assim sendo, o samba passou a acontecer nos sambódromos,

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

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cooptado por uma indústria que trocou a pele de animal dos tambores pelas peles artificiais produzidas em quantidades consideráveis.

Nota-se que no território, atuam “fios” condutores e mediadores do diálogo entre a tradição e a modernidade, tradição que é dinâmica e está sendo cotidianamente reinventada, mas não necessariamente arruinada pela transformação das manifestações culturais em espetáculo, como se houvesse uma perda inexorável da tradição diante dos processos de transformação cultural.

Vale lembrar que existem relações de troca que não são comerciais, ainda que todo comércio seja uma troca que se utiliza da mercadoria. Vale lembrar também que, mesmo com o processo de globalização, nem tudo se torna global, na medida em que os localismos e regionalismos são reforçados em uma dinâmica cultural que é processual.

Um fato que bem ilustra esta dinâmica de trocas e de negociações entre o tradicional e o moderno acontece na abertura do carnaval paulistano, quando os Afoxés Filhos da Coroa de Dadá e Iyá Ominibú introduzem a primeira noite dos desfiles no Sambódromo do Anhembi. Os afoxés são apadrinhados e aconselhados por pais e mães de santo integrantes de terreiros de candomblé.

No carnaval de 2009, o Afoxé Iya Ominibú homenageou Oxóssi, o orixá das matas, que regia o ano. Segundo declaração do presidente de um dos afoxés ao Jornal O Estado de São Paulo de 20/02/09, Seção Carnaval, a função do afoxé é a de “abrir os caminhos da avenida do samba para que tudo corra bem no carnaval”. Na mesma matéria, o mesmo presidente mencionou o fato de que a São Paulo Turismo - SPTuris, órgão vinculado à Prefeitura da Cidade de São Paulo, teria supostamente nos últimos anos reduzido as verbas a eles destinadas.

Há ainda, na sexta-feira de carnaval, o desfile do grupo de Afoxé Ilú Obá de Mim (mulheres que tocam para o rei, Xangô), cuja bateria é composta e regida exclusivamente por mulheres. O corpo de dança é misto, formado por homens e mulheres, e, desenvolvem uma coreografia pautada pelo xirê 9 do candomblé, com movimentos que homenageiam todos os Orixás, de Exu a Oxalá. O desfile de 2009 trouxe como tema: “Raquel Trindade: a Cambinda”, importante ícone da causa e identidade negra paulista. Todos os anos, a concentração acontece no Viaduto Major

9 Xirê: “Nome da estrutura que organiza a entrada das cantigas e danças ao som do ritmo dedicado a cada orixá” (AMARAL, 2002, p. 51).

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

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Quedinho e o cortejo percorre a Rua Xavier de Toledo, contorna o Teatro Municipal e faz seu encerramento no Largo do Paissandu, em frente à Igreja Nossa Senhora dos Rosários dos Homens Pretos, fundada em 1711 10 .

Nesse ano, as fantasias foram baseadas na história de Raquel Trindade e em seus orixás “de cabeça”, Iansã e Obaluaê, demonstrando, assim, que as expressões artísticas ligadas ao samba a aos afoxés não se limitam ao Sambódromo ou a territórios isolados, uma vez que se realizam no espaço urbano.

Também é possível perceber a coexistência entre o tradicional e o moderno, pois ainda que o formato da apresentação tenha vindo dos barracões do Candomblé, a homenageada é contemporânea e viva, tendo inclusive participado do desfile.

Outro direcionamento dado a esse trabalho procurou observar os dados relativos à história do samba na cidade de São Paulo, desde o final do século XIX até os dias atuais, focalizando principalmente as informações relativas à expansão das escolas de samba e dos sambistas em direção às várias regiões da cidade.

Esse recorte temporal foi estabelecido em virtude deste ter sido o período em que o samba se consolidou na cidade de São Paulo, a partir da matriz rural proveniente do interior do estado, que associada aos primeiros ranchos e cordões carnavalescos já no contexto urbano paulistano, possibilitou a organização ulterior das escolas de samba.

Nesse recorte de tempo e de espaço acima referidos, procurou-se investigar que tipo de evidências e quais cruzamentos seriam necessários para a obtenção dos dados relativos ao equacionamento de nossa problemática de estudo.

Para compreender as territorialidades do samba do ponto de vista das rupturas e das continuidades que se deram na história paulistana, optamos por acionar o recurso da periodização, que constitui uma das variáveis-chave fundamentais no estudo das sociedades contemporâneas, sendo também uma importante ferramenta teórica para os estudos territoriais. Conforme pondera Milton Santos (1979, 1985), a periodização possibilita integrar a dimensão temporal nas análises geográficas. Assim sendo, pudemos entender o samba paulistano a partir de seu contexto histórico, pois “cada período pode ser considerado como um segmento homogêneo de tempo histórico, em que as variáveis

10 Vale mencionar que essa observação me foi feita por Carla Rodrigues, integrante do grupo Afoxé Ilú Obá de Mim. Para maiores detalhes, acessar: http://www.iluobademin.com.br/

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

30

se mantêm em equilíbrio no interior de uma mesma combinação” (SANTOS, 1979, p.

26).

Com esse pressuposto de método, refletimos sobre os batuques rurais e festivos,

além dos rituais religiosos que acontecem desde a chegada dos imigrantes africanos nas

senzalas e nos terreiros do interior paulista 11 . Desta maneira, procuramos entender as

transformações que foram se dando nos elementos presentes no samba, desde os

batuques, até a conformação dos ranchos, cordões e escolas de samba em um contexto

urbano.

Ao especificar a complexidade social, histórica e espacial presente nos fatos ao

samba relacionados, procuramos reconhecer as múltiplas interpretações possíveis a partir

da proposta de periodização do samba paulistano (Quadro 1). Vale lembrar que, como

toda abordagem sintética, essa periodização implica um grau elevado de simplificação e

deixa dezenas de acontecimentos que fazem parte da história do samba paulistano.

1º Período: 1914 a 1969 - Batuques rurais, Batuques festivos, Batuques religiosos,

Cordões Carnavalescos, Primeiras gravações em discos, Presença do samba nas rádios,

Apropriação culta e simbólica do samba pelo Estado, Início da dispersão dos sambistas

dos bairros centrais para os marginais

2º Período: 1969 até 1991 - Oficialização do carnaval paulistano, Samba como produto

de massa (pagode), Exportação do modelo carioca de carnaval, Intensificação da

fundação de escolas de samba, Intensificação da dispersão dos sambistas para as

diferentes regiões da Paulicéia

3º Período: 1991 até hoje Inauguração do Sambódromo do Anhembi, Exacerbação do

carnaval como espetáculo televisivo, Samba como produto de massa (samba de raiz,

samba-rock), Modelo de escolas de samba empresa, Intensificação dos interesses

comerciais públicos e privados no carnaval, Intensificação das ações sociais nas escolas

de samba

Quadro 1: Periodização do samba paulistano Fonte: Concepção e elaboração do autor

11 Já no século XVII foram escritos relatos dos batuques rurais, festivos e religiosos realizados pelos negros, a exemplo dos publicados pelo folclorista Mário Fagner da Cunha (CUNHA, 1937).

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

31

Se tomarmos como ponto de partida a periodização, podemos acrescentar à nossa reflexão a correlação entre a “duração” e o “fluxo” do tempo e a “extensão” e “ordenação” do espaço geográfico. Aqui se trabalha com a noção de espaço geográfico desenvolvida por Milton Santos, em que este é entendido como um conjunto indissociável, solidário e contraditório de objetos e de ações, configurados a partir de uma forma-conteúdo que envolve tanto a materialidade quanto os sistemas de vida e de ações (SANTOS, 1996). Complementarmente, consideramos o espaço geográfico como “o terreno onde as práticas sociais se exercem, a condição necessária para que elas existam e o quadro que as delimita e lhes dá sentido” (GOMES, 2002, pg. 172).

Significativamente, a partir da década de 1970, o tempo do samba passou a estar diretamente associado com o tempo do espetáculo, o “tempo do mundo”, de modo a criar uma dependência da “cultura do samba” com relação ao “calendário” que se impôs destacadamente sobre as grandes escolas de samba 12 .

Nesse sentido, a periodização nos possibilita perceber as continuidades e rupturas que conduziram a um novo período histórico, ou, as interações dialéticas ocorridas entre o samba e o carnaval no contexto espaço-temporal brasileiro.

Admitindo-se que toda manifestação cultural é dinâmica, cabe considerar que a questão do tradicional x moderno ou do autêntico x inautêntico, transforma-se em uma falsa questão quando considerada ao extremo, na medida em que os distintos grupos sociais têm diferentes interesses e visões de mundo, posto que atuam constantemente no contexto do chamado dinamismo cultural 13 . Buscamos fugir de uma denúncia vaga acerca da destruição das formas culturais tradicionais ou da procura por uma justiça social capaz de justificar a relevância do trabalho.

Por esses motivos, a aceitação desta visão dicotômica no estudo das manifestações culturais implica considerar o Modo de Produção Capitalista como sendo

12 Aqui são classificadas como grandes escolas as pertencentes ao Grupo Especial e ao Grupo de Acesso. Em 2009 eram do Grupo Especial: Acadêmicos do Tucuruvi, Águia de Ouro, Gaviões da Fiel, Imperador do Ipiranga, Império da Casa Verde, Leandro de Itaquera, Mancha Verde, Mocidade Alegre, Pérola Negra, Rosas de Ouro, Tom Maior, Unidos de Vila Maria, Vai-Vai e X9 Paulistana. No mesmo ano, pertenciam ao Grupo de Acesso: Barroca Zona Sul, Camisa Verde e Branco, Dragões da Real, Flor de Liz, Morro da Casa Verde, Nenê da Vila Matilde, Uirapuru da Mooca e Unidos do Peruche. 13 Consideração crítica feita pelo prof. Dr. Antônio Carlos Robert Moraes na ocasião do Exame de Qualificação. Vale dizer que, por concordamos com essa assertiva, buscamos ao longo do texto seguir este posicionamento que apresentará esta tentativa de escrita “não dual”, ainda que dificultada pela tendência à dualidade que acompanha o ato de escrever - talvez uma herança constituída a partir dos sistemas filosóficos gregos.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

32

o grande responsável pela destruição da cultura autêntica, e que após a sua ação, passaria

a ser inautêntica, a estar desprovida de tradição ou diluída. Assim, para que as tradições

culturais permaneçam ativas e atuantes, elas têm que se alterar continuamente. Em outros termos, as tradições culturais trazem consigo uma maleabilidade capaz de permitir o acompanhamento do processo de modernização, ao mesmo tempo em que se moldam a fim de se manterem enquanto tradição; “alimentando-se” daquilo que muitas vezes as destroem.

Nesse ponto da argumentação, concordamos com Canclini (1997), ao refletir sobre a questão da autenticidade como uma questão não temporal, visto que as culturas são híbridas. Sendo assim, ainda que o samba aconteça espontaneamente, é em alguns casos apropriado pelas dinâmicas mercantis, terminando-se “institucionalizado” ou “espetacularizado”. Logo, pode-se considerar que os próprios sambistas estão “imersos” em algo que nem eles controlam totalmente, ainda que atuem por meio de ações espontâneas e/ou negociadas.

Similarmente, Homi Bhabha (2007) desenvolve sua noção de hibridismo a partir dos trabalhos textuais acerca do discurso colonial. Para Bhabha, o hibridismo sempre consistiu uma ameaça à autoridade cultural e colonial, na medida em que continuamente subverteu o conceito de origem ou identidade pura da autoridade dominante através da ambivalência criada pela negação e pela imprevisibilidade, dadas pelo confronto político entre posições com poderes desiguais; que realizavam certa “negociação cultural”. Afirma o autor que, pela ótica do hibridismo, torna-se possível “vislumbrar as histórias nacionais, antinacionalistas, do povo” (BHABHA, 2007, p. 69); evitando-se a política da polaridade.

Diante disso, estamos inclinados a resistir às contraposições dicotômicas capazes de reduzir a claridade da análise e das observações, e de contribuir para a perda da “potência” desta pesquisa. Das contraposições encontradas, catalogamos algumas comumente presentes nos trabalhos acadêmicos: público x privado, mercado x não- mercado, cultura de massas x cultura de resistência, passado x presente, genuíno x não- genuíno, Indústria Cultural x Indústria Artesanal, comunidade x sociedade, mito x história.

Este posicionamento já implica tratar a dinâmica cultural como algo que não é totalmente autêntico ou puro, pois ao mesmo tempo, a cultura de massa e a cultura

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

33

popular “colaboram e se atritam, interferem e se excluem, somam-se e se subtraem num

jogo dialético sem fim” (SANTOS, 2002, p. 327).

Nesta direção, Milton Santos alerta que:

La Geografía se ha hecho prisionera de dualidades pertinaces y sagradas, causa, también, de muchas de las ambigüedades de las ciencias sociales. Una primera dualidad tiene que ver con su objeto. ¿Es la naturaleza, es la sociedad? ¿Son los lugares o los hombres? A costa de querer sumarlos y no mezclarlos, la ambigüedad se reafirma y la dualidad triunfa, acompañada por otras fuentes de incertidumbre epistemológica, oponiendo el individualismo metodológico al materialismo metodológico, la deducción a la inducción, el realismo al idealismo. Es en esa misma fuente que se alimentan otros conflictos engañosos, como los que oponen lo global y lo local, lo sincrónico y lo asincrónico, la estructura y la acción, lo material y lo inmaterial, lo real y lo ideológico (SANTOS, 1996, p. 03) 14 .

Porém, apesar de quase sempre estarmos prisioneiros das dualidades, pode-se

dizer que nos últimos anos vem se consolidando na geografia uma postura resistente a

elas. Tal posicionamento se alimenta em muito da dificuldade atual em se realizar uma

reflexão científica pela alusão aos rótulos de posicionamentos dualistas e incompatíveis

com a compreensão da realidade. Ao se renegar uma postura dualista, a melancolia

emerge como lembrança nostálgica diante da irretroatividade das transformações

culturais.

O presente trabalho demonstrará algumas formas de sociabilidade que

poderíamos classificar como “não-produtivistas” ou “pré-produtivistas”, coexistindo com

formas produtivistas e evidenciando o fato de que a cultura é algo em movimento, algo

dinâmico. A própria uniformidade e hegemonia cultural costumam criar, em certos

momentos, novas diferenças; assimilando aspectos culturais em prol da lógica lucrativa.

Nos posicionamentos que aqui serão expressos não é intenção impor maneiras

de pensar, nem persuadir ou convencer o leitor acerca de nossos argumentos formulados

a partir da realidade estudada, ainda que em alguns momentos possamos parecer

melancólicos ou estimuladores de alguns mitos 15 que cercam a história do samba e do

14 Trecho do pronunciamento de Milton Santos na ocasião em que recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Barcelona, no ano de 1996. 15 Sobre esse assunto ver: BARTHES, Roland. Mitologias. São Paulo: Difel, 1982.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

34

carnaval paulistano; sobretudo quando fazemos sobressair as opiniões parciais de nossos entrevistados (que procuramos relativizar e dialogar textualmente).

Nesse intento, buscamos articular o samba e a teoria geográfica com o conjunto identificável das múltiplas influências perceptíveis (políticas, econômicas e culturais), além de dialogar com autores de “linhas teóricas” distintas, estimando o pluralismo metodológico como um componente necessário no desenvolvimento do trabalho. Embora não tenha seguido uma única “linha teórica”, procurei manter um encaminhamento textual a partir da vontade de contribuir com o conhecimento geográfico acerca da formação territorial paulistana em sua relação com o samba. Por outro lado, a divisão dos capítulos nas dimensões cultural, política e econômica do “mundo do sambanão significa a desconsideração da inter-relação entre elas; mas trata-se de um recurso de método acionado para a melhor compreensão da problemática posta.

Em seu processo de constituição, pensamos ser interessante clarear concepções, bem como os fundamentos de método que as sustentam. Temos claro que a aceitação de que o método é o caminho que se referencia na teoria e na empiria (indissociáveis), aventa que o explicitemos. Vale mencionar, que optar por essa explicitação sistemática dos fundamentos de método, possibilitou identificar quão numerosas e ricas são as relações que podem ser estabelecidas.

A grande vantagem em explicitar a teoria é que também explicitamos o método,

buscando assim torná-lo relevante em face da assimilação crítica das proposições que se adaptam à complexidade de nosso objeto de estudo. Nesse sentido, acreditamos que a crítica deva sempre vir acompanhada da análise, de modo a permear e completar a teoria.

O estudo que ora se introduz busca compreender o território a partir de seu uso,

entendendo essa operação como uma discussão contextualizada principalmente no momento presente e baseada no exercício do recorte metodológico da cultura. O uso do território pelos sambistas em geral, dá-se de modo econômico, político ou cultural, a partir do uso que os grupos sociais fazem dele.

Cabe assinalar que um método de interpretação da realidade é capaz de abarcar várias possibilidades, ainda mais quando o objeto de análise é concebido a partir do ordenamento do temário e à luz dos preceitos do próprio método. No caso do estudo que ora se apresenta, vale mencionar que fomos surpreendidos ao longo do processo por seu desenvolvimento, tal qual num romance, onde alguns personagens surgem

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

35

inesperadamente como atores principais (neste caso alguns conceitos e categorias de

análise), permanecendo ao mesmo tempo em que outros se tornam coadjuvantes. Essa

interessante analogia foi feita por Milton Santos, em um dos seus escritos mais

metafóricos 16 :

Nossa secreta ambição, a exemplo de Bruno Latour, no seu livro Aramis ou l’amour des techniques (1992), é que esses conceitos, noções e instrumentos de análise apareçam como verdadeiros atores de um romance, vistos em sua própria história conjunta. Não será a ciência, tal como propôs Neil Postman (1992, p.154) “uma forma de contar histórias” ? Nesse processo, levados pelo investigador, alguns atores tomam a frente à cena, enquanto outros assumem posições secundárias ou são jogados para fora. O método em ciências sociais acaba por ser a produção de um “dispositivo artificial” onde os atores são o que Schutz (1945, 1987, p. 157-158) chama de marionetes ou homúnculos. Quem afinal lhes dá vida é o autor, daí esse nome de homúnculos, e sua presença no enredo se subordina a verdadeiras modelizações qualitativas, daí porque são marionetes. Mas o texto deve prever a possibilidade de tais bonecos surpreenderem os ventríloquos e alcançarem alguma vida, produzindo uma história inesperada: é assim que fica assegurada a conformidade com a história concreta (SANTOS, 2002, p.22).

Portanto, nessa busca das relações entre o samba e o território, a noção do

campo disciplinar se impôs, aos olhos dos conceitos e das categorias geográficas. O tema

da pesquisa acabou ficando necessariamente circunscrito a um recorte histórico, que por

sucessivos atos de esforço adquiriram o formato da tese.

Seguindo tal meta, buscamos internalizar o que já foi escrito sobre o samba na

cidade de São Paulo. No processo de constituição dessa tese, o conjunto da obra de

Milton Santos ganhou importância na medida em que nela é possível deslumbrar novas

interações possíveis num futuro imediato, discerníveis através de relações fundamentadas

na solidariedade, atuante por meio de outras formas de racionalidade:

O que muitos consideram, adjetivamente, como “irracionalidade” e, dialeticamente, como “contra-racionalidade”, constitui, na verdade, e substancialmente, outras formas de racionalidade,

16 Vale mencionar que a observação acerca do caráter metafórico desta passagem me foi feita pelo amigo Samarone Marinho.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

36

racionalidades paralelas, divergentes e convergentes ao mesmo tempo (SANTOS, 2002, p. 309).

Torna-se importante resgatar a justificativa deste estudo apresentada no projeto

de pesquisa, que colocava a possibilidade de que um olhar geográficoseria capaz de

desvelar a sociabilidade enquanto fundamento constitutivo das relações entre os

sambistas.

A justificativa tencionava contribuir para o aprofundamento de um tema ainda

pouco explorado pela geografia, que em geral se preocupa em analisar o imaginário

social a partir das letras das músicas ou em tratar da difusão dos estilos musicais, ao

invés de se indagar a respeito da configuração do entorno pelas atividades culturais. Essa

elaboração aparece transcrita abaixo, em sua versão original:

Os trabalhos geográficos que tratam de temas musicais têm se inclinado ao mapeamento da disseminação dos estilos musicais, ou à análise do imaginário geográfico presente nas letras das músicas, adotando deliberadamente um sentido restrito de geografia e oferecendo um ângulo sintético do campo geográfico, ao invés de questionar até que ponto um fato geográfico é capaz de configurar seu entorno (tradução nossa) 17 .

Daí a tentativa de articular a teoria com a prática de campo, alcançando-se uma

explicação crítica do “mundo do samba” na cidade de São Paulo. Nesse entendimento,

temos claro o intuito de legitimar coerentemente a proposta metodológica já exposta e

aprofundada nos próximos parágrafos.

O quadro temporal utilizado por este trabalho procura explicar os aspectos do

presente não somente o considerando como produto do passado, mas também, inserindo-

o em sua relação com o futuro, com o sincrônico. Nessa visão, o samba constitui um

dado empírico do processo histórico, que pode ser reconhecido em um comportamento

cultural determinado. Relutantemente, em distintos locais e situações, ainda que o samba

esteja sendo constantemente criado e recriado, mantém-se “vivo” e atuante na

consciência de determinados agrupamentos sociais. Cabe frisar que o caráter desta visão

17 Geographic work on music has until very recently tended to restrict itself to mapping the diffusion of musical styles, or analyzing geographical imagery in lyrics, working with a deliberately restricted sense of geography, offering the geographer‟s angle on well-trodden ground rather than asking how a geographical approach might refigure that round (LEYSHON, 1998, p. 4).

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

37

é evidente naqueles sambistas que apresentam menor poder aquisitivo e se encontram

mais “ligados” ao lugar.

Aqui, trabalha-se com uma visão totalizadora que busca relacionar os processos

e articular os fenômenos na densa e complexa teia do movimento histórico das

sociedades. Levando-se em conta esta visão relacional, ainda que mundializados, os

lugares não devem ser tratados como a soma das partes que compõe a totalidade, mas sim

como possuidores de um caráter “multi-escalar”, conforme nos orienta Milton Santos:

No lugar, o universal se empiricíza tornando-se um particular, porém sem negar sua origem universal, nem seu destino universal (tradução nossa) 18 .

Para Milton Santos, a busca do todo - enquanto essência - a partir dos variados

percursos de investigação empírica, comprova que o mundo está em todos os lugares e

que temos que trabalhar com todas as escalas. Em outros termos, defende o autor a

necessidade de se trabalhar ininterruptamente com essa relação dialética e “multi-

escalar”, utilizando-se de uma visão totalizadora como preceito de método.

Diante disto, pode-se dizer que a aceitação da multiplicidade das escalas (global,

regional e local) condiciona o resultado do conjunto dos processos investigados. Tal

equacionamento é de central importância, pois é no lugar que encontramos as

possibilidades de realização do mundo, o que faz dos lugares o próprio mundo.

Assim, o lugar emerge como um conjunto estruturado de objetos e de ações

internamente relacionados, capazes de potencializar a totalidade-mundo a partir do

cotidiano. Desse modo, Milton Santos argumenta: “impõe-se, ao mesmo tempo, a

necessidade de, revisitando o lugar no mundo atual, encontrar os seus novos significados.

Uma possibilidade que nos é dada através da consideração do cotidiano” (SANTOS,

2002, p. 315).

Segundo esse mesmo autor, ao se buscar apreender a integridade dos processos

sociais em manifestações empíricas reveladoras de identidade, não se pode deixar de lado

a escala global. Isto é, ao se explicar a autonomia da existência fenomênica de um lugar

18 En el lugar, lo universal se empiriza haciéndose un particular, pero sin negar su origen universal, ni su

destino universal (SANTOS, 1996, p.05).

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

38

unicamente pelo próprio lugar, mascara-se os fatores explicativos que existem, na medida em que a noção de totalidade permite um tratamento objetivo da realidade e de sua universalidade empírica.

O estudo do lugar e de seus aspectos particulares da vida social pode, a partir de uma apreensão totalizante, captar determinações básicas da formação social em que se insere. Por outro lado, o potencial de estudo do lugar se encontra em seu dinamismo próprio e autêntico, podendo atribuir novos sentidos, verdadeiros e enriquecedores à existência de cada indivíduo.

A partir da noção de formação sócio-espacial de Milton Santos (1990), buscamos pensar as especificidades da história de São Paulo, estabelecendo as relações entre os seus diversos agentes e fatores que produzem e produziram a metrópole. É no lugar que essas relações se concretizam, por meio de usos diferenciados do território em determinado momento histórico. É também na trama histórica que se podem entender os mecanismos da produção social do território, que “condicionam o uso dos lugares a cada momento, abrindo, possibilidades analíticas para uma dimensão geográfica na interpretação da história humana” (MORAES, 2001, p. 34).

Conforme expresso anteriormente, optamos por compreender o território a partir de seu uso, pois a partir de seu uso é possível recortar metodologicamente a cultura. De fato, o uso do território pelas escolas de samba, movimentos de samba, rodas de samba e sambistas em geral dá-se de modo econômico, político ou cultural, a partir do uso que os grupos sociais fazem dele.

Esse tratamento do samba como um processo social articulado por estas três dimensões permite “recortar suas manifestações concretas, fornecendo elementos para a particularização do processo universal de valorização do espaço” (MORAES, 2001, p.

39).

Igualmente, esta apropriação dos territórios do sambacom objetividade e intencionalidade, intensifica a importância social destes lugares, que são em grande parte reconhecidos por seus freqüentadores. É esta característica de uso coletivo que torna esses lugares especiais, pois satisfazem muitas necessidades individuais de convivência social.

Por outro lado, eles são um “campo de forças, uma teia ou uma rede de relações sociais que, a par de sua complexidade interna, definem, ao mesmo tempo, um limite,

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39

uma alteridade, a diferença entre nós: o grupo, os membros da coletividade ou

comunidade, os insiders e os outros: os de fora, os estranhos, os outsiders(SOUZA,

1995, p. 89). Tal entendimento, que será retomado na seqüência dos capítulos, aparece

expresso na seguinte formulação de Rogério Haesbaert:

Como uma espécie de cidadão global intermediário, tenho alguma liberdade para traçar meus próprios territórios no interior da cidade, mas absolutamente não sou livre para construí-los em qualquer lugar minha classe social, meu gênero, minha língua, meu sotaque, minhas roupas - cada uma destas características joga um papel diferente na construção de minha territorialidade urbana (HAESBAERT, 2004, p. 351).

Paulo Gomes lembra que a categoria comunidade pode parecer à primeira vista

simpática, por conferir um estatuto de grupo organizado e “harmônico” `as pessoas que a

integram. Entretanto, a comunidade pode agir como um reforço da exclusão “na medida

em que diferencia estas comunidades de uma sociedade urbana global que forma a

cidade”. (GOMES, 2002, p. 15).

Considera-se, desta forma, o samba como mais do que um gênero musical: ele é

também um modo de pensar, de sentir, um gênero ou estilo de vida que permite a

construção de territorializações particulares na cidade.

Para Bourdieu, o estilo de vida se refere ao “gosto, a apropriação material e

simbólica de uma determinada categoria de objetos ou práticas classificadas e

classificadoras” (BOURDIEU, 1983, p. 83). A vivência no “mundo do samba” é capaz

de conceber condutas e convivências distintas, criando um “gosto” particular dos

sambistas, que por sua vez proporciona a constituição da identidade do grupo que os

diferencia dos demais grupos sociais:

A identidade é antes de mais nada um sentimento de pertencimento, uma sensação de natureza compartilhada, de unidade plural, que possibilita e dá forma e consistência à própria existência. O coletivo tem absoluta preeminência sobre o indivíduo, e a construção de uma identidade se faz dentro do coletivo por contraste com o “outro” (GOMES, 2002, p. 60).

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Além disso, a vivência na cidade permite “trocas simbólicas” (BOURDIEU, 1987) com outras manifestações culturais ao samba relacionadas, destacadamente o Candomblé, a Capoeira, os Afoxés, o Funk e o Rap. Vale lembrar que antes de Bourdieu, Vidal de La Blache já havia trabalhado com o conceito de gênero de vida, relacionando-o ao conjunto de técnicas e costumes construídos e transmitidos socialmente, permanentemente sujeitos às alterações ocasionadas por modificações do próprio meio ou pelo contato com outros gêneros de vida (VIDAL DE LA BLACHE, 1954).

É, todavia, no entendimento da organização funcional e social dos territórios do samba, geradores de arranjos territoriais e sociabilidades singulares, que detivemos nossos esforços. Desse modo, o conjunto de micro-espaços simbólicos (Bourdieu, 1983) estabelecidos pelos sambistas e refletidos na apropriação dos locais públicos, no comportamento alegre, desviante e subversivo, na linguagem, na musicalidade, na ritmicidade e na corporeidade; resulta na legitimação do gênero de vida praticado pelos sambistas diante de outros grupos e papéis sociais assumidos no cotidiano.

Assim, surgem personagens que interagem entre si na construção tanto da cultura, em um trânsito processual contínuo que se dá no território. Aqui cabe salientar que toda materialidade e imaterialidade cultural construída pelos grupos sociais se inscrevem em um conjunto social com seu território demarcado, a partir da configuração de territorialidades.

Tendo em vista os objetivos desta pesquisa, partimos das obras já elaboradas acerca do samba paulista, isto é, realizando a pesquisa em fontes secundárias. Além desse levantamento bibliográfico em centros de documentação e bibliotecas, vale destacar a ida à União das Escolas de Samba de São Paulo UESP, cuja documentação ali existente foi imprescindível no estabelecimento de um primeiro rol de dados ligados a origem do samba paulistano, bem como à sua disseminação pelos diversos bairros da cidade.

Igualmente, por meio de uma documentação de caráter complementar:

informações contidas no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros - IEB da Universidade de São Paulo - USP, enriquecemos a análise de nossa problemática que, aos poucos, passou a incorporar reflexões mais aprofundadas.

Também recorremos a instituições ligadas diretamente com a organização do carnaval em São Paulo, entre elas: a Sociedade Amantes do Samba Paulista - SASP, as quais foram importantes no levantamento dos endereços das escolas de samba em São

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Paulo e basilares para o mapeamento realizado. Nesta tarefa em particular, convém salientar que boa parte dos endereços foram obtidos diretamente com alguns entrevistados, em decorrência da mutabilidade freqüente da localização de algumas quadras; por motivos que serão tratados adiante.

Ao longo do texto, são resgatados alguns depoimentos, relacionando-os com as observações e as leituras realizadas, buscando, assim, uma articulação coerente com o texto. Evidentemente, o universo de análise dos depoimentos coletados é amplo, tendo no deslindamento desses discursos um exercício constante de busca da importância do aprofundamento das reflexões que guardam orientações geográficas.

Todas as entrevistas realizadas serviram como procedimento para o estabelecimento de novos nexos e a reinserção de elementos históricos e geográficos na articulação das idéias, enriquecendo, assim, o horizonte da pesquisa pela qualidade temática abordada. As entrevistas foram realizadas em diferentes locais da cidade de São Paulo: Fernando Penteado (Quadra da Escola de Samba Vai-Vai na Bela Vista), T. Kaçula (Estúdio de gravações no bairro da Lapa), Antônio Carlos Malacquias Billy (Universidade de São Paulo), Tiaraju Pablo DAndrea (Universidade de São Paulo), Celso de Lima (residência no bairro da Casa Verde), Nanci Frangiotti (Sede da Ouvidoria Geral do Município na Galeria Olido), Edléia dos Santos - Léia, Róbson de Oliveira e Betinho (União das Escolas de Samba de São Paulo UESP), Francisco Rocha (Bar em Pinheiros) e Márcio Michalczuk Marcelino - Lino (residência no Parque Peruche). A todos os entrevistados foi solicitada a permissão para a utilização de seus nomes nesse trabalho. Vale assinalar que, pelo teor de algumas falas, o nome do entrevistado será resguardada.

As entrevistas foram realizadas pelo autor do presente trabalho, apoiadas por um roteiro de questões previamente definidas. Todas elas foram gravadas e transcritas, o que nos permitiu estabelecer algumas regularidades no discurso destes sambistas e entender algumas regras do “ethos” 19 que produz adeptos ao samba em cada bairro da cidade.

Em algumas circunstâncias, houve a convivência com os sambistas e moradores, procedendo-se a aproximação com os habitantes do Parque Peruche e os freqüentadores da escola de samba Vai-Vai. Gradualmente, as delimitações de algumas idéias foram se

19 Conforme a dimensão do conceito trabalhado por Hegel, que o define como sendo o “espírito do povo”. In: (BOBIO, 1995, p. 67).

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configurando, o que possibilitou refletir sobre as relações e a dinâmica da vida nos bairros, que passou a se revelar através do samba. Além dos depoimentos, foram basilares, a observação dos fatos do dia a dia e o ingresso nos bastidores do “mundo do samba” por meio da participação em festas, ensaios de bateria e eventos de samba promovidos pela comunidade local. Sem esta participação, dificilmente algumas informações dessas comunidades poderiam ser obtidas. Gomes (2002) lembra, acertadamente, que embora essa categoria possa à primeira vista parecer simpática, por conferir um estatuto de grupo organizado e “harmônico” a estas pessoas, age na verdade como um reforço da idéia de exclusão, na medida em que diferencia estas comunidades de uma sociedade urbana global que forma a cidade” (GOMES, 2002, p.15).

Na perspectiva de um pesquisador branco”, minha posição distanciada foi perfeitamente compreendida e não gerou nenhuma oposição entre os sambistas. Evidentemente, enquanto pesquisador interessado nas territorialidades do samba, não me deixei levar pela ideologia que apregoa que as manifestações culturais afro-brasileiras devem ser estudadas por pesquisadores negros. Igualmente, a situação de um pesquisador brancode classe média me possibilitou refletir acerca da atualização da falsa idéia de que não é possível estudar uma manifestação cultural sem fazer parte da comunidade enfocada. Assim, tornou-se relevante não se propor uma concepção racialista ou essencialista ao fenômeno cultural; com uma falsa pretensão de se encontrar nele as suas matrizes originárias e puras.

A pesquisa de campo foi complementada com a organização de um vídeo- documentário, o que também se tratava de um pressuposto do projeto de pesquisa inicial. Desse modo, o texto pode ser mais bem compreendido pelas cenas captadas da maneira em que acontecem “micro - estruturalmente”, nos encadeamentos sonoros e corporais que se dão nos “territórios do samba”.

Por intermédio dos entrevistados, conseguimos o apontamento de algumas dezenas de pessoas com as quais se tornaria possível “conversar a respeito do tema”: este foi o primeiro ato de aproximação, que expandiu os contatos necessários para a operacionalização do objetivo de nosso trabalho. Apesar de nossa condição de pesquisador, na maior parte das vezes não se deu atenção a isto, seja por desinteresse ou seja porque o mais importante era a minha indicação por parte de certos membros apreciados pela comunidade. Alguns contatos foram feitos junto com alguns de nossos

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apresentadores (os entrevistados acima citados) durante os eventos de samba, o que dava à conversa o caráter de visita “respeitável”. No entanto, gradativamente, esse auxílio foi deixado de lado surgindo a integração à rotina dos eventos e do cotidiano dos sambistas. Dizia-se apenas que gostaríamos de “conversar sobre samba”, “saber como era a vida no bairro”. Daí em diante, bastava iniciar as entrevistas e as observações. Durante o período em que a pesquisa foi realizada, além de termos conversado com muitas pessoas envolvidas com o “mundo do samba”, visitamos muito mais lugares do que os que são revelados em nosso texto; e que não foram explicitados pela opção do recorte metodológico.

A primeira constatação importante a partir das entrevistas foi a de que existe

uma dinamização do entorno em algumas áreas da cidade, efetivadas pelo comércio especializado em acessórios para o carnaval e pela confecção de camisetas e fantasias por costureiras terceirizadas; o que acaba contribuindo para a captação de recursos.

A segunda é a de que há o reconhecimento da importância do samba enquanto

elemento aglutinador, gerador de sociabilidades e de pertencimento. Cabe mencionar que esses eventos festivos de samba não só mobilizam o conjunto da população, como também oferecem algumas “válvulas de escape” no conjunto das infra-estruturas de lazer da cidade, que são em geral escassas, sobretudo nos bairros mais afastados do centro. Assim, para um sambista residente no bairro onde está sua escola de samba, há uma identificação com a escola e com o próprio bairro, onde se congregam os membros da comunidade.

No posicionamento aqui assumido, o samba não poderia ser alçado com um status “romantizado”, por várias razões, a exemplo dos conflitos políticos e das oposições presentes no âmago do “mundo do samba”. A esse respeito, Thompson (1998) nos adverte que “o próprio termo “cultura”, com sua invocação confortável de um consenso, pode distrair nossa atenção das contradições sociais e culturais, das fraturas e oposições existentes dentro do conjunto” (THOMPSON, 1998, p. 17).

Assim sendo, mesmo a condição de pesquisador de uma manifestação festiva e alegre, obrigou-me a apreendê-la com certo olhar distante (Claude Lévy - Strauss), o que não obstaculizou a observação participante(uma grande contribuição da Antropologia para a Geografia) nem o envolvimento rigoroso com o tema. O uso dessa técnica possibilitou a imersão no cotidiano dos sambistas, partilhando de seus eventos e normas

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de sociabilidade; compreendendo os princípios que elucidam os procedimentos e os processos culturais ao samba relacionados.

Existem várias definições acerca do significado da palavra samba. A partir da definição de Nei Lopes, o samba é entendido como o nome das várias danças populares brasileiras ou das músicas que acompanham essas danças. Segundo este mesmo autor, a palavra originou-se dos quiocos (chokwe) de Angola, cujo verbo significa “cabriolar, brincar, divertir-se como cabrito. Entre os bacongos angolanos e congueses, o vocábulo designa uma espécie de dança em que um dançarino bate contra o peito do outro”

(LOPES, 2003, p. 14). E essas duas formas se originaram da raiz multilinguística semba:

rejeitar, separar, que deu origem ao quimbundo di-semba. Aqui cabe destacar que desde

o continente africano, o dançar da semba esteve acompanhado da umbigada, um

elemento coreográfico fundamental presente nas origens do samba rural paulista, em que

os dançarinos batem seus umbigos uns nos outros.

Cabe destacar ainda que, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a origem do vocábulo samba é banto, embora apresente étimo controverso. Para A. Ramos, o quimbundo samba refere-se a umbigada, um passo de dança presente no batuque, ainda hoje encontrado em Luanda e Angola.

Para o pesquisador da cultura brasileira, Mário de Andrade (1965), o samba primeiramente simbolizou a dança, para posteriormente se transformar em um estilo musical. Em muitas ocasiões, as manifestações de samba foram chamadas de batuque, dança de roda, lundu, chula, maxixe, partido-alto e batucada; convivendo simultaneamente com os acontecimentos carnavalescos, o que muito influenciou sua configuração e associação direta com o carnaval.

Um dos problemas e desafios instigantes a ser enfrentado nas pesquisas sobre cultura e espaço geográfico é exatamente a amplitude dos temas, especialmente após a constatação de que os estudos sobre as questões culturais na geografia nem sempre focalizam as discussões sobre o território definido por seu uso.

As práticas culturais expressam os valores e os sentidos vividos pelos agrupamentos sociais específicos, o que também delimita suas diferenças em relação a outros grupos. Nesta ótica, conforme Paulo Gomes (2001), “a cultura corresponde a certas atitudes, mais ou menos

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ritualizadas, por meio das quais se estabelece uma comunicação positiva

entre os membros de um grupo” (op.cit., 2001, p. 93), ou ainda, “um

conjunto de práticas sociais generalizadas em um determinado grupo, a

partir das quais este grupo forja uma imagem de unidade e de coe rência

interna” (GOMES, 2001, p. 93).

Por outro lado, há um problema nos trabalhos que estão voltados aos fenômenos

culturais: o de tomar o fato cultural a partir de descrições exaustivas, não se

diferenciando da visão antropológica, por exemplo 20 . Segundo Gomes (2008), o feito

mais importante a ser tomado pelo pesquisador geógrafo é a verificação da coerência

interna do sistema de posições e de localizações que se encontra intrínseco ao fenômeno

ou a representação do fenômeno cultural estudado:

A disposição física das coisas materiais, ou mais precisamente essa ordem espacial, possui uma lógica ou uma coerência. É justamente a interpretação dessa lógica do arranjo espacial e de seus sentidos que compõe o campo fundamental das questões geográficas (GOMES, 2002, p. 172).

Daí a importância de se discutir a questão da geograficidade das manifestações

culturais, ou seja, o ponto onde podemos estabelecer o “rótulo” de geográfico a

determinado estudo, discutindo-se também os porquês da dimensão espacial da cultura,

buscando-se as marcas que individualizam o caráter geográfico das pesquisas e que são

“obtidas essencialmente pela importância explicativa atribuída à localização relacional

que se estabelece entre as coisas, os fatos, os fenômenos e as pessoas” (GOMES, 1997, p.

13; 2008, p. 188); observando-se a relação que pode existir entre a localização e as suas

significações.

Nesse entendimento, ao tratar da cultura, a geografia deve buscar compreender a

dimensão espacial inerente aos fenômenos culturais, que guardam sistemas ontológicos

(ordens espaciais) fundamentais em termos de posições e de locais, que devem ser

desvendados pelos geógrafos. Assim sendo, as disciplinas não se definem pelos objetos,

mas o que modela a diferença entre as áreas científicas é o questionamento construído e

20 Esta discussão foi trazida pelo prof. Dr. Paulo César da Costa Gomes no “Encontro Internacional Geografia: Tradições e Perspectivas Homenagem ao Centenário de Nascimento de Pierre Mombeig, realizado no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, em 04 de dezembro de 2008.

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que faz com que a compreensão do fenômeno seja geográfica, a partir de uma forma de se compreender o mundo que deve estar baseada no sistema de posições e de localizações. Assim, torna-se difícil defender a existência de um único método para a geografia ou para a geografia cultural. Vale ressaltar que, durante todo o processo de realização da pesquisa, tivemos em mente essa preocupação com relação à lógica geográfica nela inserida. Igualmente, resistimos a reificar a dimensão cultural, procurando-se inseri-la no âmbito da dimensão econômica e política do “mundo do samba”.

Resta dizer que, na escrita deste trabalho, o uso de algumas letras de música tem a intenção de complementar a pesquisa qualitativa realizada, estabelecendo recortes e isolando processos históricos ocorridos em São Paulo e no Brasil. Esta aproximação textual pode auxiliar na elucidação da estrutura e da dinâmica do “mundo do samba”. De fato, as letras permitem retratar a expansão territorial do samba na cidade de São Paulo, daí as termos utilizado em algumas ocasiões.

Propomos nas próximas páginas averiguar a territorialização dos eventos de samba na cidade de São Paulo, inclusive aqueles de menor repercussão, olhando com atenção para a dinâmica particular de cada um (organização, regras, freqüentadores). Igualmente, buscamos analisar o modo como esses eventos são realizados e, por fim, compreender a sua importância na configuração de territorialidades repletas de representações, capazes de modificar a percepção que os próprios sambistas têm da cidade.

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CAPÍTULO 1

O SAMBA NA CONSTITUIÇÃO DO PROCESSO DE URBANIZAÇÃO DA CIDADE DE SÃO PAULO

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Uma característica marcante dessa pesquisa, com profundas implicações metodológicas, foi a maneira pela qual conduzimos o trabalho junto às fontes primárias, com a intenção de investigar as “raízes territoriais” do samba na cidade de São Paulo, abrangendo o período compreendido entre o final do século XIX até os dias atuais.

Desde a chegada dos escravizados africanos no Brasil, começa a ser gestado o que acabou sendo caracterizado como o samba brasileiro (1º Período). Nesse capítulo, a intenção em retomar a periodização proposta na Introdução foi a de investigar as rupturas e descontinuidades que aconteceram ao longo da história paulistana, averiguando quando e por que isso aconteceu. Com os batuques que aconteciam nas senzalas e nos quilombos, podemos pensar na existência de um “Proto-Samba”, se considerarmos que os batuques foram o embrião para a posterior configuração do gênero musical samba. Nessa trajetória, muitas alterações se deram nos componentes rítmicos, nos instrumentos musicais e na própria configuração das manifestações culturais ao samba relacionadas. Daí a importância de se considerar a transição, já no contexto urbano, que ocorreu nos cordões, blocos e posteriormente nas escolas de samba (2º Período). Até mesmo o local da manifestação sofreu alterações, indo dos bailes de salões aos desfiles de rua; além do meio de transmissão dos desfi les carnavalescos, transformados em espetáculo televisivo amplamente divulgado (3º Período).

Buscamos entender o processo de formação dos primeiros cordões e escolas de samba a partir do núcleo urbano paulistano iniciativo, e na seqüência, analisar a posterior dispersão em direção às demais regiões da cidade. Foi exatamente nessas localidades mais distantes que as classes populares passaram a reproduzir suas manifestações atreladas ao samba, bem como todo seu imaginário e representações simbólicas, acentuando a afeição subjetiva dos participantes do “mundo do samba” nos diferentes quadrantes da periferia da cidade, estruturando nela distintos níveis de vínculos identitários com base territorial (vínculos criados e/ou imaginados). Exemplarmente, no caso da escola de samba Vai-Vai, verificou-se que este vínculo identitário com base territorial pode também estar articulado com territorialidades

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localizadas em qualquer outro ponto da cidade, estabelecendo-se diversamente no tempo e no espaço; além de serem continuamente destruídas, construídas e reestruturadas.

Muitos sambistas foram “desterritorializados” das áreas centrais, mas se “reterritorializaram” com novas práticas sociais e formas espaciais em outras áreas da cidade. Em alguns casos, houve o estabelecimento direto dos sambistas nas periferias da cidade e a fundação de escolas de samba (a exemplo da Nenê da Vila Matilde, fundada por Seu Nenê, migrante proveniente de Minas Gerais). Ainda hoje, algumas escolas de samba permanecem na região central da cidade, como é o caso da Vai-Vai e da Lavapés.

Alguns bairros paulistanos estiveram tradicionalmente relacionados a redutos de sambistas, sendo os locais onde surgiram os primeiros cordões carnavalescos que posteriormente se transformaram em escolas de samba. Ne sses bairros, a convivência entre os segmentos raciais e étnicos heterogêneos, além da concentração em alguns locais festivos, foi a base para a organização dos primeiros “territórios do samba” na capital paulista.

Todo esse processo de implantação e consolidação do samba foi acompanhado por usos territoriais diferenciados e definidos por interesses também distintos, muitas vezes amparados pelas festas, que ditavam o modo de apropriação social do espaço e do tempo. A formação das “raízes territoriais” do samba na capital acompanhou o uso específico do seu território em cada momento, onde o samba atuou como um dos principais mediadores na construção da identidade da população negra; levando-se em conta que “a identidade comunitária está sempre relacionada a uma identidade territorial” (GOMES, 2002, p. 62).

Com relação ao uso específico do território paulistano em cada momento, assentimos com Antonio Carlos Robert de Moraes ao afirmar que “o território pode ser visto pela análise geográfica como um nexo totalizador, que reintegra a unidade dos sub-campos da Geografia Humana, articulando no movimento histórico de sua formação os processos e fenômenos específicos” (MORAES, 2001, p. 47). Essa foi uma de nossas principais intenções, a de articular a realidade estudada pelo viés

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territorial à teoria geográfica, buscando respostas às indagações a partir do processo de pesquisa realizado.

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1.1 Samba e cultura brasileira: Dos batuques às escolas de samba 21

Mandei preparar o terreiro, que já vem chegando o dia Encourar o meu pandeiro pra entrar na folia E quando começar o pagode Pego o pandeiro e caio na orgia Meu avô, preto de Angola, me ensinava cantoria Foi herança de um passado, quando fez a travessia Na bagagem, a esperança, consciência e valentia Capoeira quilombola derrubava e não caía Eh, jongueiro, bate no couro, que tem festa no terreiro No dizer de minha avó, sambador não tem valia “Samba nunca deu camisa”, minha vó sempre dizia Sambador não ganha nada, vive na calçada e não cuida da família.

Música: Ditado Antigo Autoria: Osvaldinho da Cuíca e Toniquinho Batuquero Cd “Em Referência ao Samba Paulista”

Pensar o samba enquanto gerador e fomentador de elementos presentes na

cultura brasileira, sobretudo em suas festas populares e sonoridades da música popular,

pode contribuir para o entendimento acerca das dinâmicas territoriais do samba

paulistano. Para Jacques Lévi (1999), o meio exerce um importante papel de ativação

sobre a produção cultural, influenciando-a direta e indiretamente:

A ativação pode se duplicar numa metamorfose: o transporte em arte de uma realidade exterior ao trabalho do artista provoca uma transformação no conteúdo do objeto transportado (LÉVI, 1999, p. 302, tradução nossa) 22 .

Nesse texto, o professor Jacques Lévi aborda a questão da produção da música

atonal européia em sua relação com a conjuntura sócio-econômica da Europa, atentando-

se para alguns condicionantes espaciais postos. Dentre eles, a existência de uma rede de

cidades por onde os músicos e compositores circulavam, condição que possibilitou o

21 Muitas contribuições a este sub-capítulo vieram da participação no curso “Introdução às musicalidades afro-brasileiras”, realizado em abril de 2009 e ministrado pelo pesquisador Paulo Dias, na Associação Cultural Cachuera em São Paulo. A maior parte do conteúdo abordado neste curso está registrado no artigo de autoria do mesmo pesquisador, o que explica sua vigorosa utilização nesta seção. 22 L‟activation peut se doubler d‟une métamorphose: le transport em art d‟une réalité extérieure au travail de l‟artiste provoque une transformation du contenu de l‟objet transporté.

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surgimento de idéias e as intensas criações da vanguarda musical vienense, contribuindo

para a “des-ocidentalização” da música européia naquele momento:

A urbanidade vienense, modelo restrito e denso da diversidade do mundo, ativa as conexões favorecendo os encontros aleatórios de objetos de início estranhos uns aos outros. Assim, o deslocamento da nova linguagem musical de Viena a Paris, lhe dá a possibilidade de se impor como estética legítima universal (LÉVI, 1999, p. 311, tradução nossa) 23 .

Similarmente, no percurso de sua origem e evolução, o samba da mesma forma

foi ativado por elementos peculiares à formação territorial brasileira. Aqui, cabe ressalvar

que o acionamento da periodização anunciada na introdução deste trabalho, ainda que de

modo não linear, permite a condução da análise e a organização do texto a partir da

gênese e do movimento transformador ocorrido com o samba 24 . Neste particular, em cada

época, delinearam-se formas preponderantes de reprodução da sociedade, resultado de

múltiplos processos econômicos, políticos e culturais, que em suas articulações nos

revelam lógicas territoriais específicas, além de um sentido histórico em movimento.

O samba ouvido e entoado na capital paulista tem suas origens nos batuques que

eram realizados nas senzalas e nos terreiros, onde desde o período colonial brasileiro, os

tambores são percutidos em rituais religiosos, sejam eles católicos ou não. O mesmo se

aplica às rodas de capoeira e de tiririca (uma espécie de “capoeira sambada”, para se

apropriar da definição expressa, em conversa particular, pelo sambista paulistano

Osvaldinho da Cuíca). Na tiririca, eram comuns as pernadas que visavam derrubar o

“adversário”, além dos batuques, sempre acompanhados de muita dança.

Ao longo dos anos coloniais brasileiros, essas experiências sempre

proporcionaram o entretenimento de seus participantes, especialmente nas ocasiões em

que aconteciam as festividades rurais. Contudo, a aceitação dessas festas de terreiro nas

fazendas escravistas somente acontecia durante as folgas semanais e os dias de feriados,

23 L‟urbanité viennoise, modèle réduit dense de la diversité du monde, active les connections en favorisant les rencontres aléatoires d‟objets au départ étrangers les uns aux autres. Enfin le déplacement de Vienne à Paris du nouveau langage musical lui donne, en le coupant de ses racines, la possibilité de s‟imposer comme esthétique légitime universelle.

24 Para uma avaliação pormenorizada da origem do samba no Brasil, consultar: MUNIZ JÚNIOR, José. Subsídios para a História do Samba. São Paulo: Símbolo, 1976.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

53

ocasião em que os escravos se concentravam coletivamente, já que habitualmente

trabalhavam em separado:

Tudo acontecia africanamente através do canto e do corpo em movimento, ao som dos tambores. Era momento de louvar os ancestrais, de atualizar a crônica da comunidade, de travar desafios capazes de amarrar com a força encantatória da palavra proferida. Os versos metafóricos entoados nessas rodas só ofereciam ao branco um sentido mais literal, inócuo, fato que deixava perplexos os observadores brancos: tratava-se de diversão ou de devoção ? O mistério permanece até hoje, assim como os velhos tambores de tronco escavado, afinados a fogo e venerados como verdadeiras divindades: Gomá, Dambí, Dambá, Quinjengue (DIAS, 1999, p. 01).

No trecho acima, fica nítida a evidência de que a herança cultural africana

aparece como um testemunho inserido no processo de hibridização cultural do povo

brasileiro. Ritualisticamente, os tambores sempre estiveram presentes, criando conexões

entre o presente e o passado a partir de um transe que pode ser momentaneamente

instaurado:

partir de um transe que pode ser momentaneamente instaurado: Foto 1 – Jongo em Pindamonhangaba –

Foto 1 Jongo em Pindamonhangaba São Paulo Fonte: Museu do Folclore Rossini Tavares de Lima, Autoria desconhecida.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

54

No entanto, os batuques sempre foram encarados com um viés preconceituoso e

perseguidos implacavelmente pela polícia, que se esforçava para coibir os atos de

“baderna”.

Indubitavelmente, essas festas sempre foram fundamentais para extravasar as

amarguras da escravidão, através de uma experiência coletiva importante para o

estabelecimento dos valores culturais de um grupo social particular. Referindo-se a estas

visões preconceituosas que sempre afligiram as “comunidades do tambor”, o pesquisador

Paulo Dias destaca que:

Noticiadas por cronistas e viajantes a partir do século XVI, as festas e rituais dos africanos foram quase sempre objeto de descrições levianas e preconceituosas. Sons “monótonos”, danças “lascivas”, ritos “bárbaros”, eram alguns dos qualificativos utilizados por estes escritores e moralistas, sem dúvida um tanto assustados com as multidões de negros que essas festas mobilizavam - multidões que sempre podiam se rebelar contra a minoria branca (DIAS, p. 02, 1999).

Esse mesmo autor destaca que no continente africano, além de servirem como

meio para se fazer música, os tambores ainda hoje atuam como um elo entre o mundo

sensível e o espiritual. Aqui vale mencionar que, em muitas tradições africanas, o tambor

guarda o caráter de divindade e está associado a mitos de origem, o que da mesma forma

se apresenta nos batuques brasileiros 25 .

A história dessa tradição está diretamente vinculada com a gênese do samba no

território brasileiro. Vê-se, no contexto urbano, a mistura e a confusão com outros sons,

ao passo que o samba estabelece identidades e configura hábitos culturais, ainda que seu

modo de produção, circulação e consumo tenha sido muito alterado até alcançar a sua

configuração atual, quando este atinge a plenitude das possibilidades de apropriação

enquanto recurso comercial, narrativo e estético.

Esmiuçando-se a questão da musicalidade do samba, é interessante notar que ela

também está manifestada nos traços musicais dos candomblés:

25 Paulo Dias observa que entre os bantos da África Central tambor é ngoma e não se refere apenas ao instrumento, mas também a dança, o canto e a toda a comunidade que o tambor põe em ação, reunindo-se ao entorno dele para a celebração ritual e prazerosa. Fonte: Anotações de curso do autor.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

55

Traços musicais peculiares aos candomblés Jêje-Nagô, como as escalas de cinco notas (pentatônicas), permanecem praticamente restritos às casas de culto, enquanto o som dos Candomblés Congo-Angola, junto com os batuques e cortejos de origem banto, participam de um universo melódico e rítmico extra- religioso conhecido e reconhecível publicamente por todo o Brasil, entre os quais se coloca o samba (DIAS, 1999, p. 02).

Tendo em vista o eixo central deste trabalho, a compreensão das territorialidades

do samba na cidade de São Paulo, devemos estar atentos para a relevância das

festividades negras que aconteciam nas áreas rurais e continuaram a acontecer na cidade

de São Paulo, notoriamente a partir da conformação dos cordões carnavalescos no

primeiro quartel do século XX.

Gradativamente, a cidade de São Paulo foi concentrando grande quantidade de

negros, destacadamente aqueles provenientes das fazendas interioranas, sobretudo após a

promulgação da Abolição da Escravatura. Esse grupo de pessoas libertas foi atraído para

a capital em busca de trabalho livre, concorrendo com os também pobres, mestiços e

brancos que aqui já se encontravam ou que para cá igualmente migraram.

O samba rural paulista ganhou especificidades quando inserido no contexto

urbano, acompanhando as alterações que sem distinção afetaram a cultura afro-brasileira.

Dentre elas, as atualizações nos ritmos e instrumentos utilizados nos rituais religiosos

e/ou festivos. Em todos estes eventos, os batuques de terreiro sempre tiveram uma função

primordial:

Os Batuques de Terreiro hoje dançados por todo o Brasil têm suas raízes nos eventos com dança e música que promoviam os escravos fixados na zona rural principalmente - fazendas, engenhos, garimpos mas também em algumas áreas urbanas, realizados nos poucos momentos de lazer de que dispunham. Os batuques marcam a presença da cultura banto, trazida pelos africanos vindos de Angola, do Congo e de Moçambique para diferentes rincões do Brasil. São formas vivas dos Batuques o Carimbó paraense; o Tambor de Crioula do Maranhão, o Zambê do Rio Grande do Norte e o Samba de Aboio sergipano. Em Minas, celebra-se o Candombe 26 , no Vale do Paraíba paulista,

26 Esta manifestação cultural acontece em um remanescente quilombola na comunidade do Açude, na Serra do Cipó em Minas Gerais. O ritmo é dado pelo instrumento tambu, que é afinado na fogueira antes do início das festas, que são realizadas principalmente em louvor a Nossa Senhora dos Rosários. Acreditamos que um interessante estudo seria buscar elementos similares presentes no Candombe brasileiro e no

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

56

mineiro e fluminense, o Jongo ou Caxambú; na região de Tietê, em São Paulo, dança-se o Batuque de Umbigada, entre muitas outras manifestações. Sem falar dos primos estrangeiros, como o Tambor de Yuca cubano, ou o Bellé da Martinica, em tudo semelhantes aos nossos batuques (DIAS, 1996, p. 03).

Contudo, cabe aqui precisar que ainda nos dias atuais, os batuques de terreiro

ocupam uma posição marginal na sociedade brasileira. Sabe-se que, neles, revela-se uma

continuidade entre o caráter de sagrado e o de profano, o que possibilita um trânsito entre

ambos e a alteração dos papéis sociais conforme os diferentes contextos sócio-espaciais

envolvidos:

Desde sempre condenados pela Igreja como permissivos e temidos pelos patrões como perturbadores da ordem social, a maior parte dos batuques de terreiro mantêm-se marginais, ainda nos dias de hoje, em relação à sociedade dominante, excetuando- se aqueles que conseguem uma penetração no mundo do turismo e do espetáculo é o caso do Tambor de Crioula e do Carimbó. Com a vinda das populações negras para as cidades, essas danças ancestrais passaram da roça às periferias urbanas. Conservando seu caráter intra-comunitário, ainda hoje se realizam à noite em terreiros pouco iluminados ou em barracões fora das cidades. As fronteiras tênues entre o sagrado e o profano ainda caracterizam algumas dessas rodas, assim como o segredo contido nos versos da cantoria desorientam os que vêm de fora (DIAS, 1996, p. 03).

Um caminho interessante de reflexão a respeito da marginalização dos batuques

de terreiro estrutura-se em torno das manifestações culturais ritualísticas que se

enquadram em um tempo de não-trabalho (aqui não nos referimos ao tempo livre de

trabalho, expresso pelas férias, feriados e finais de semana). Nessa concepção, uma roda

de samba, por exemplo, pode respeitar seu tempo, seu calendário; não obedecendo ao

calendário oficial e dificultando por isso uma possível apropriação pela Indústria Cultural

ou do Turismo.

Nesse quadro, um detalhamento maior revela que a cidade de São Paulo se

configurou historicamente como um importante epicentro da convergência de fragmentos

da cultura afro-brasileira, que até hoje emergem nas escolas de samba e nas rodas de

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

57

samba que acontecem com destaque nos bairros marginais. Estes fragmentos ganham

significado através do tambor, do corpo e da voz:

Assim, foram se agregando em mosaico as muitas memórias afetivamente conservadas. De um lado, o terreiro: o ritmo dos tambores de mão, a cantoria improvisada dos velhos batuques como o Caxambu carioca e o Samba-de-Roda baiano, a ritualidade dos cultos como a Cabula e a Macumba, a malícia corporal dos jogos como a Pernada e a Capoeira. De outro, a rua:

os Cucumbis cariocas, os Ranchos de Reis baianos, os Maracatús nordestinos, as Congadas mineiras, todas aquelas danças de cortejo características das festas deambulatórias do Catolicismo Popular, trazendo porta-bandeiras, reis e sua corte, mascarados, baianas, baterias de tambores portáteis percutidos com baquetas. E o gosto pelo colorido, pelo brilho e pelo luxo, que finca raízes no Barroco Católico da Península Ibérica, e uma disposição peculiar em alas a compor o grande desfile processional (DIAS, 1996, p. 03).

Segundo Nei Lopes (2005), os cortejos de “reis do Congo”, na forma de

congadas, congados ou cucumbis (do quimbundo kikumbi, festa ligada aos ritos de

passagem para a puberdade), foram influenciados pela espetaculosidade das procissões

católicas do Brasil colonial e imperial, constituindo-se na base impulsionadora da

formatação dos maracatus, dos ranchos de reis (posteriormente carnavalescos) e das

escolas de samba (que surgiram para legitimar o gênero que lhes forneceu a essência). O

autor acredita que, nas escolas de samba, o samba foi institucionalizado, organizado e

legitimado como a principal expressão de poder das comunidades negras brasileiras.

As escolas de samba foram instituídas a partir da incorporação da organização

européia dos desfiles carnavalescos, representados notadamente pelos corsos. Junto com

esta adaptação negociada, dá-se a amplificação do reconhecimento social do samba.

Podemos atestar que o samba permeou historicamente muitas relações sociais, tendo

sido, da mesma forma, por elas moldado. Em termos musicais, guardou uma dimensão

que vai além de sua letra e ritmo, expressando também a visibilidade e o orgulho da

população negra.

Em razão mesmo desse papel funcional, as escolas de samba surgiram contendo

uma função social voltada à expressão das tradições musicais afro-brasileiras, em uma

sociedade que não possibilitava grandes oportunidades aos negros. Como já dito, em um

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

58

primeiro momento, o carnaval brasileiro seguiu os padrões do carnaval europeu (a

exemplo do entrudo, uma brincadeira comum na Europa e que envolvia pessoas da

mesma classe), e mesmo do carnaval de salões e de rua, que já se realizava com

máscaras, cortejos, momos, alegorias, carruagens, entre outros elementos.

No caso do entrudo, ao longo dos anos, passou a ser visto como uma prática

superada, embora ainda seja possível encontrar resquícios desta prática, manifestada no

ato de se jogar confetes e espuma no outro brincante (prática comum em muitas festas

carnavalescas brasileiras, sobretudo nas realizadas em clubes). Paralelamente,

organizam-se comitês carnavalescos que importam seus modelos de Paris, Veneza,

Munique, Nice, assim como ganham destaque os personagens Arlequim, Pierrô e

Colombina (personagens da Commedia Dell’Arte italiana e que são inseridos no carnaval

brasileiro) 27 .

No caso do carnaval paulistano, até as primeiras décadas do séc. XX,

encontrava-se abalizado no modelo de corsos (carruagens substituídas posteriormente por

carros motorizados, onde as famílias abastadas desfilavam sua opulência) 28 . Vale lembrar

que os negros e os brancos pobres apenas assistiam os desfiles à distância. Foi nesse

contexto de incerteza e de dificuldade de inserção social que surgiram as primeiras

escolas de samba, assim como se configuraram as religiões da umbanda e do candomblé.

Novamente, vale salientar que as escolas de samba, as tendas de umbanda e os terreiros

de candomblé contribuíram para a legitimação da prática cultural dos negros junto à

sociedade brasileira. Tal entendimento ganha força a partir da percepção do embate

cultural envolvido nestas relações sociais:

Os termos do embate cultural, seja através de antagonismo ou afiliação, são produzidos performaticamente (…) A articulação social da diferença, da perspectiva da minoria, é uma negociação complexa, em andamento, que procura conferir autoridade aos hibridismos culturais, que emergem em momentos de transformação histórica (BHABHA, 2007, p. 21).

27 Sobre esse assunto ver: FERREIRA, Felipe. Inventando carnavais: o surgimento do carnaval carioca no século XIX e outras questões carnavalescas. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005. 28 O trabalho de Olga Von Sinsom apresenta com muita propriedade o momento de transição na cidade de São Paulo, do modelo de ranchos carnavalescos para o de cordões. Para maior detalhamento ver: SIMSON, Olga R. de Moraes. Carnaval em branco e negro: Carnaval popular paulistano: 1914-1988. Unicamp:

Editora da Unicamp, 2007. 396 p.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

59

Essa negociação se deu muito “sutilmente”, contando com estratégias que objetivaram a conquista de oportunidades para a inclusão dos segmentos sociais excluídos, formados majoritariamente pelos negros. A abertura das escolas de samba à sociedade em geral contribuiu para a projeção da festa carnavalesca, o que também colaborou para uma maior projeção da população negra e conseqüente legitimação social do samba.

Não é exagero afirmar que o samba está hoje onipresente em qualquer recanto deste país, e, assim como a capoeira, transformaram-se em relevantes emblemas da brasilidade. Nos batuques que aconteciam destacadamente nos fundos de quintal, foram lançadas as primeiras sementes para a estruturação das escolas de samba. Do ponto de vista musical e retomando o que já foi expresso, os toques dos candomblés angola e dos sambas de roda da Bahia (a exemplo do cabula e do congo de ouro) constituem os principais alicerces rítmicos do samba 29 .

Um instrumento musical que bem ilustra a concepção africana de instrumento grave solista dentro das baterias das escolas de samba é o surdo de terceira, também denominado de cortador ou rebolo. Conforme observa Paulo Dias, os instrumentistas que os tocam são os “brincalhões da bateria”, pois executam o solo no registro grave, sem frases rítmicas previamente estabelecidas. Não seria o caso aqui de aprofundar tais questões, mas apenas de chamar a atenção para tal concepção africana de rítmica solista. É considerável o desconhecimento pelos estudiosos do surdo de terceira como instrumento solista, talvez pela predominância dos solos executados pelos tamborins, o que evidencia a concepção musical ocidental-européia, onde os solos são efetuados no registro agudo, a exemplo do papel atribuído aos violinos orquestrais.

Outra reflexão interessante advém da observação de que nas escolas de samba encontramos instrumentos de fanfarra européia, além de instrumentos de origem africana e árabe; o que salienta o hibridismo ocorrido com relação ao instrumental de acompanhamento existente nas baterias.

29 Vale ressaltar aqui o trabalho de Carlos Sandroni, que ao estudar as matrizes rítmicas do samba, faz no capítulo “A síncope brasileira” uma análise aprofundada desse elemento rítmico no samba. Ver:

SANDRONI, Carlos. Feitiço decente: Transformações do samba no Rio de Janeiro, 1917-1933. Rio de Janeiro: Jorge Zahar/UFRJ, 2001.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

60

1.2 As “raízes territoriais” do samba paulistano

Eu era menino, mamãe disse vou-me embora Você vai ser batizado·no samba de Pirapora Mamãe fez uma promessa Para me vestir de anjo Me vestiu de azul-celeste Na cabeça um arranjo Ouviu-se a voz do festeiro No meio da multidão: Menino preto não sai aqui nessa procissão! Mamãe, mulher decidida Ao santo pediu perdão Jogou minha asa fora E me levou pro barracão Lá no barraco Tudo era alegria Nego batia na zabumba e o boi gemia Iniciado o neguinho No batuque de terreiro Samba de Piracicaba, Tietê e Campineiro Os bambas da Paulicéia Não consigo esquecer Fredericão na zabumba Fazia a terra tremer Cresci na roda de bamba No meio da alegria Eunice puxava o ponto Dona Olímpia respondia Sinhá caía na roda Gastando a sua sandália E a poeira levantava Com o vento das sete saias! Lá no barraco Tudo era alegria Nego batia na zabumba E o boi gemia Lá no terreiro Tudo era alegria Nego batia na zabumba E o boi gemia.

Música: Batuque de Pirapora Autoria de Geraldo Filme LP: “Geraldo Filme”

Esta composição evidencia a importância da cidade paulista de Bom Jesus de

Pirapora (hoje chamada de Pirapora do Bom Jesus), que a partir da segunda metade do

século XIX atuou como um importante local de encontro dos negros que para lá se

dirigiam em toda primeira quinzena de agosto, quando ocorriam os festejos em

homenagem ao patrono da cidade. Por outro lado, a composição narra o preconceito

racial vivenciado por Geraldo Filme, importante sambista paulistano, quando ainda era

criança.

Nessa festa religiosa, os romeiros provenientes não só do estado de São Paulo

como principalmente de Minas Gerais e Paraná costumavam se encontrar. Um pouco

distante da cidade havia dois barracões abandonados, anteriormente ocupados por

seminaristas, onde ficavam alojados os negros, em um ambiente bem descrito pelo

folclorista Mário Fagner da Cunha:

A festa de Bom Jesus de Pirapora tem um aspecto religioso e outro profano. À noite a Igreja não chega para conter as pessoas, todavia, há muita luz e muito barulho. São os negros a sambar, puxados a sanfona que começam a se animar. É a festa profana, que deve durar até alta madrugada (CUNHA, 1937, p. 5).

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

61

Esse mesmo autor explica que a decadência da Festa de Bom Jesus de Pirapora

deu-se devido às pressões exercidas pela Igreja Católica, além da repressão policial

realizada para frear as manifestações dos negros nos festejos, o que culminou com a

proibição definitiva do samba nos barracões onde estes se reuniam para cantar e dançar,

no ano de 1937 (na foto um deles). Preocupada com a expansão das manifestações dos

negros consideradas profanas, a Igreja Católica ordenou a demolição dos barracões.

a Igreja Católica ordenou a demolição dos barracões. Foto 2 – Barracão de romeiros em Pirapora

Foto 2 Barracão de romeiros em Pirapora do Bom Jesus São Paulo Fonte: Autoria e data desconhecida.

Feitas estas colocações, vale agregar à análise o fato de que embora o samba já

acontecesse em algumas áreas da cidade de São Paulo, é a partir dos elementos rurais

provenientes do interior do estado que ele se configura e se impregna de influências

rítmicas e melódicas, primeiramente manifestadas nos ranchos e cordões carnavalescos

que aí se organizaram.

Ao mesmo tempo em que a cidade se urbanizava 30 , recebia a contribuição dos

negros provenientes das cidades interioranas, onde as concentrações de comunidades

escravizadas permitiram a estruturação do samba nas áreas rurais, a partir do batuque, do

tambú e das danças de umbigada. A própria prática do samba atuava como estética para a

criação artística, para o suprimento das necessidades emocionais e a afirmação dos

valores dos negros escravizados, além de destoar do discurso oficial da época e

30 Para um aprofundamento das questões que envolvem o avassalador processo de urbanização paulistana nas primeiras décadas do século XX, ver: SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

62

incomodar pelo tipo de musicalidade que trazia, conforme será evidenciado no próximo

capítulo.

Com o samba, os negros buscavam formas de acalmar a angústia resultante das

sucessivas espoliações sofridas no “cativeiro da terra”, sobretudo nas ocasiões em que

aconteciam boas colheitas de café e eram organizadas as festas de comemoração nas

senzalas, ocasião em que era consentido o batuque e a umbigada. Já no século XVII,

registra-se o relato de Zacharias Wagener, soldado e posteriormente escrivão de Maurício

de Nassau (entre 1637 e 1644), descreve o acontecimento festivo após a semana de

trabalho, acompanhado por danças, músicas e batuques:

Quando os escravos terminam sua estafante semana de trabalho, lhes é permitido então comemorar ao seu gosto os domingos, dias em que, reunidos em locais determinados, incansavelmente dançam com os mais variados saltos e contorções, ao som de tambores e apitos tocados com grande competência, de manhã até a noite e da maneira mais desencontrada, homens e mulheres, velhos e moços, enquanto outros fazem voltas, tomando uma forte bebida feita de açúcar chamada garapa; e assim gastam também certos dias santificados, numa dança ininterrupta em que se sujam tanto de poeira, que às vezes nem se reconhecem uns aos outros (TINHORÃO, 1998, p. 28).

Conforme demonstrado pelos estudos de Olga Von Simson (1989), a origem do

samba paulistano provém do interior do estado e está associada às práticas da população

negra escravizada nas fazendas de café. A partir delas, o samba de roda, o samba de

bumbo e o samba-lenço (próxima foto) eram praticados ao som de tambores, também

utilizados no jongo e no lundu, cavados com fogo nos troncos de árvores e recobertos

com couro de animais. As designações samba-lenço, samba de bumbo, samba -

campineiro e samba de zabumba são encontradas no interior do estado de São Paulo,

especificamente em cidades como Campinas, Piracicaba, Rio Claro, Tietê e Pirapora do

Bom Jesus. Todas essas designações referem-se ao samba rural paulista, muito marcado

pela presença do bumbo ou da zabumba que atuam como instrumentos solísticos 31 .

31 Sobre este tema, ver: MANZATTI, Marcelo. Samba Paulista, do centro cafeeiro à periferia do centro: estudos sobre o samba de bumbo ou samba rural paulista. 2006. Dissertação (Mestrado em Antropologia) Departamento de Antropologia, Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2006.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

63

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo 63 Foto 3 – Samba-lenço em terreiro

Foto 3 Samba-lenço em terreiro de Rio Claro - São Paulo Fonte: Coleção particular de Rodolpho Copriva Jr., 1955.

Os escravizados que saíram das áreas rurais e vieram para a cidade de São Paulo

trouxeram a tradição do batuque rural, que foi sendo gradativamente incorporado ao

samba já em um contexto urbano, nos três territórios negros da São Paulo da primeira

metade do século XX: Bexiga, Baixada do Glicério e Barra Funda (Simson, 1989). De

todo modo, não se pode concluir que antes desta migração campo-cidade nada havia de

samba na cidade de São Paulo, mas sim que a partir dela as rodas de tiririca e as rodas de

samba, ganharam a importante contribuição do samba retumbado nos cafezais do interior

do estado, marcadamente ritmado pelo som grave do bumbo 32 .

Neste ponto, é interessante observar que em grande parte dos países

pertencentes ao continente africano os tambores maiores e mais graves estão associados à

figura da mãe, realizando o papel de instrumento solista, ao contrário do que

hegemonicamente predominou na música européia, onde, conforme já salientado, os

instrumentos agudos historicamente se configuraram como os solistas (flautas, violinos,

etc.). Nas próprias escolas de samba, talvez por essa influência, os tamborins são os

principais instrumentos solistas. Entretanto, como já apresentado neste estudo, ainda se

32 Sobre o tema ver o segundo capítulo de: MORAES, José Geraldo Vinci de. Sonoridades paulistanas: A música popular na cidade de São Paulo Final do século XIX ao início do século XX. Rio de Janeiro:

Funarte, 1995. Sobre a trajetória percorrida pelo samba, do contexto rural ao urbano, ver: MARCELINO, Márcio Michalczuk. Uma leitura do samba rural ao samba urbano na cidade de São Paulo. 2007. 169f. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

64

verificam nas escolas de samba o surdo de corte e o surdo de terceira (instrumento graves

e solistas, que não têm nenhuma figura demarcada e improvisam continuamente.

Embora não seja objetivo do presente estudo, realizar um aprofundamento na

temática das diferenças entre o samba paulista e o carioca, no tocante às variações

rítmicas e aos instrumentos utilizados, deve-se atentar ao fato de que existem

diferenciações na essência da musicalidade presente no samba dos diferentes estados

brasileiros:

O samba de São Paulo vem do tambú e era batido mais no bumbo

No Rio de é um samba

Na África, quem comanda o

) Em

Com as escolas de

)

mesmo (

Janeiro houve uma influência maior de Salvador (

mais batido na palma da mão né (

som são os instrumentos de percussão, com muito bumbo (

São Paulo tinha muito bumbo nos cordões (

samba vieram as caixas, as maracachetas, frigideiras, com sons

mais agudos, que de primeiro não existia (

Aqui em São Paulo

se joga mais pernada, tem a ver com a tiririca, e no Rio se canta

mais entendeu? (

Então a

Na

África ainda hoje não tem caixa, mas só bumbo e atabaques

questão do bumbo é uma questão de cultura mesmo (

no Rio é mais na palma da mão e no canto entendeu? (

Se você faz jogo de perna não pode cantar e

)

bugudum

bugudum bugudum

)

)

)

(

)

)

)

)

(Penteado, entrevista realizada em 24/10/2007).

Em São Paulo o samba descende de certa ruralidade (

de Janeiro tem a influência do candomblé, Minas das congadas,

) No Rio

Pernambuco do maracatu (Kaçula, entrevista realizada em

18/10/2007).

Além disso, deve-se lembrar que o samba surgiu como resistência e protesto à

condição sócio-econômica pesadamente vivenciada pelos negros. Sendo assim, a sua

conformação na cidade de São Paulo também esteve associada à manifestação religiosa

desta população, em um ambiente onde os aspectos ligados ao profano e ao sagrado

conviviam lado a lado.

Neste ponto da argumentação, vale lembrar que além das religiões afro-

brasileiras, o catolicismo teve grande importância na organização dos primeiros cordões

carnavalescos no Brasil. Segundo Simson (1989), nas primeiras décadas do século

passado, era dada permissão policial para a ocorrência dos desfiles dos cordões, na

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

65

medida em que estes se organizavam ao modo das procissões habituais presentes nas

festas religiosas desde o século XIX. Como explica a autora:

Esses embriões de associações não surgiram de repente, do nada, pelo simples fato de famílias negras estarem morando próximas

Deveria haver indicações de experiências festivas anteriores, reunindo essa população, que formassem uma espécie de

bagagem para a criação dessas entidades carnavalescas (

certamente essa vivência festiva, repetida anualmente, que permitiu à população negra paulistana elaborar seus folguedos carnavalescos, baseada em espaços urbanos que lhe eram próprios, em grupos musicais existentes e em experiências

Foi

(

)

)

profano-religiosas anteriores (SIMSON citada por MORAES, 2000, p. 143).

Na cidade de São Paulo, os locais onde a população negra passou a se reunir,

especialmente nos momentos festivos, foram a cercania da Igreja dos Enforcados no

Largo da Liberdade, a Igreja da Santa Cruz no bairro do Glicério e a Igreja da Achiropita

no bairro do Bexiga. Como coloca Simson (1989), a Capela de Santa Cruz das Almas dos

Enforcados reunia grande parte da população pobre e negra da época, em decorrência de

por lá ter sido enforcado o cabo revoltoso Francisco José das Chagas (o Chaguinhas),

contrariando a vontade do povo. “Conta-se que na primeira e na segunda tentativa de

enforcamento a corda se rompera, o que teria sido um sinal da vontade de Deus não

respeitada pelo governo, que mesmo assim mandou executar o réu” (SIMSON, 1989, p.

86).

Outro aspecto interessante era a questão da moradia da população negra recém-

alforriada ou fugitiva chegada a São Paulo, que em grande parte estabeleceu-se no bairro

do Bexiga, conforme explica Penteado, diretor da escola de samba Vai-Vai:

Quando os tropeiros vinham do interior paravam ali onde

atualmente está a Praça da Bandeira (

Alguns escravos

fugiam de lá e vinham para cá, para esta região, o Alto do

Caagaçú como era chamado na época, pois conseguiam uma

visão boa de quem viesse atrás deles para capturá-los (

se formou um quilombo aqui que ficou conhecido como

O pessoal que morava por aqui era

chamado de saracura, porque tinha o brejo do rio com muitas

Quilombo da Saracura (

) Então

com vários tipos de especiarias e escravos (

Havia um entreposto

)

)

)

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

66

Nos arredores onde hoje está a quadra da escola de samba Vai-Vai, drenava o córrego Saracura, onde no século XIX havia uma área florestal que servia como esconderijo de negros escravizados que fugiam das fazendas próximas, conforme relatado pelo entrevistado. A depreciação dos terrenos na região, muitos inundáveis, além da vizinhança com o centro, atraiu grande quantidade de negros; conformando o Quilombo da Saracura (visível no mapa a seguir).

Um campo interessante de pesquisas que a historiografia recente avançou nos últimos anos, refere-se ao tema da escravidão urbana. Alguns estudos comprovam que, no contexto urbano paulistano, era comum a propriedade de escravos. Até mesmo libertos eram proprietários de escravos, que podiam ter certa autonomia de vida 33 . A parada dos tropeiros relatada pelo entrevistado pode ser observada nas fotos a

seguir:

33 Sobre isto, ver: DIAS, Maria O.LS. Quotidiano e Poder em São Paulo no século XIX. São Paulo:

Brasiliense, 1986 e FERREIRA, Maria L. F. de Oliveira. Entre a casa e o armazém: Relações sociais e experiências da urbanização. São Paulo: Alameda, 2009.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

67

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo 67 Fotos 4 e 5 – Largo
As territorialidades do samba na cidade de São Paulo 67 Fotos 4 e 5 – Largo

Fotos 4 e 5 Largo do Piques (atual Praça da Bandeira) Local de hospedaria de tropeiros, leilão de escravos e feira de mercadorias. Fotos de 1860 e 1864 respectivamente Fonte: Coleção Ítalo Bagnoli. DIM-DPH-SMC

Até a década de 1890, essa região descrita por nosso entrevistado ainda se

encontrava pouco ocupada e era pontuada por campos, pastos e chácaras. Dentre as

principais estavam a Chácara do Bexiga, pertencente a Fernando de Albuquerque. Mais a

sudoeste, “beirando o Anhangabaú, os campos do Estaleiro Bexiga e mais ao longe o

Sítio do Sertório. A oeste, a Chácara de Martinho da Silva Prado, onde ficava o Tanque

Reúno ou do Bexiga” (BRUNO, 1954, p. 205). O adensamento populacional somente

começou a ser registrado quando, entre os anos de 1880 e 1890, iniciou-se o processo de

loteamento dessas áreas. Observa-se claramente este processo no anúncio publicado pelo

Correio Paulistano em 28/03/1881, abaixo reproduzido:

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

68

Uma pechincha lucrativa Roberto Tavares Vende sabbado 30 do corrente Ás 5 horas da tarde Por conta e ordem de quem pertencer Terrenos promptos para edificar Situados no Bexiga junto ao Tanque Reuno, 5 minutos da cidade

Estes bel issimos terrenos constam de

30

braças de frente sobre mais de

35

de fundo, banhado pelas águas do

Tanque Reúno Um chafariz De bella e excellente água nativa, Dando maios de 50 pipas por dia, é o que ali ha de mais lucrativo. O terreno é todo cercado por fio inglez e postes.

Além do Bexiga, onde existia o Quilombo da Saracura, a população negra

estava presente em outras áreas, como demonstra o mapa abaixo:

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

69

TERRITÓRIOS NEGROS EM SÃO PAULO - 1881 34

Paulo 69 TERRI TÓRIOS NEGROS EM SÃO PAULO - 1881 3 4 Org. BATISTA, S.C.; OLIVEIRA,

Org. BATISTA, S.C.; OLIVEIRA, W.F. Fonte: BRITO, M.C; CARRIL, L.F. (2006)

Mapa 1: Territórios negros em São Paulo 1881.

34 O Triângulo era formado pela Rua São Bento, Rua XV de Novembro e Rua Direita.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

70

Muitas dessas áreas rapidamente se dinamizavam, acompanhando a importância

econômica adquirida pela cidade de São Paulo que, desde a segunda metade do século

XIX, passou a representar a nova cidade pujante no Brasil, classificada por Pierre

Mombeig (1953) como a “Capital dos Fazendeiros”. Nesse momento, já se pronunciava a

polarização que se consolidaria no século XX:

Os desdobramentos do complexo cafeeiro e o aumento dos negócios levaram fazendeiros, empresários comerciais e industriais, funcionários do governo, além do caudal de imigrantes que vinham se assalariar ou tentar algum negócio por conta própria, a fixar residência na capital. A cidade de São Paulo perdia sua aparência primitiva e homogênea, começando a dar uma impressão cosmopolita de abrigar várias cidades em uma só (PEREIRA, 2004, p.13).

Para auxiliar este processo, há, com o declínio da economia cafeeira o incentivo

da migração de famílias de negros para a capital, atraídas pelo promissor mercado de

trabalho fomentado pelo processo de transformação da sociedade da época, de escravista

para de trabalho livre e assalariado. Neste contexto e momento é que o samba se

consolida na cidade, tendo como matrizes as características rurais trazidas pelos que

chegavam do interior e se tornavam mão-de-obra braçal e barata. Em uma capital em

expansão, os diferentes hábitos culturais se entrecruzavam na configuração do samba

paulistano, a exemplo da co-influência que se deu entre a cultura italiana e a negra no

bairro do Bexiga 35 .

Como já expresso, em um primeiro momento, estas famílias de negros se

concentraram destacadamente no Bexiga, na Baixada do Glicério e na Barra Funda.

Procedendo-se a um levantamento da presença dos negros nestas áreas, percebe-se que

ali existiam moradias que funcionavam como pontos de encontro, vislumbrando-se redes

de sociabilidade, laços de parentesco, amizade, compadrio e relações afetivas informais

que marcavam a vida social e o processo de resistência da época.

Em particular, é a proximidade que no século XIX marcou a trajetória da

fixação dessa população que, ao longo dos anos, deslocou-se com expressividade das

35 Para o aprofundamento desta questão ver: CASTRO, Márcio Sampaio de. Bexiga: um bairro afro- italiano. São Paulo: Annablume, 2008, 108 p.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

71

áreas mais centrais em direção às regiões adjacentes da cidade, no geral ainda pouco

povoadas e com grande disponibilidade de terrenos. O trecho abaixo bem elucida essa

movimentação:

Conforme foi chegando o progresso, a cidade foi

Ali onde hoje está a Câmara Municipal

) Então

Este é o termo

certo, pois os negros foram jogados para a Bela Vista e a Barra

Funda, em um segundo momento para a Casa Verde, Limão e

Freguesia do Ó e em um terceiro momento para o Grajaú, Cidade

Estou te explicando isto porque o

Aqueles sambistas que moravam

por aqui foram para outras áreas da cidade e levaram o samba junto com eles (Penteado, entrevista realizada em 24/10/2007).

“embranquecendo” (

)

era tudo sobrado de cortiços onde moravam os negros (

a cidade foi crescendo e “embranquecendo” (

)

Tiradentes e Tatuapé (

)

samba foi junto, entendeu? (

)

Sobre este ponto, é interessante notar que os proprietários das residências

controlavam a habitação nos cortiços (que surgem como locais de moradia coletiva),

mediante uma vigilância exercida por eles próprios:

Bairros como a Bela Vista (Bexiga), Santa Ifigênia e Liberdade representavam áreas com grande concentração de cortiços. Nessas habitações eram fortes os laços de vizinhança. Essa proximidade fortalecia a solidariedade orgânica no interior desses bairros. Por sua vez, os proprietários, que viviam no mesmo prédio nas partes mais privilegiadas, exerciam uma significativa vigilância sobre os costumes e sua conservação (SCARLATO, 2004, p. 257).

Até a década de 1950, a população paulistana habitava predominantemente as

moradias coletivas, ainda que destinadas às classes mais empobrecidas, e embora fosse

considerado um tipo de moradia voltada às camadas mais desprovidas de recursos,

contribuiu para a organização de um mercado de aluguéis em torno dela. Somente após a

década de 1950 ocorrem alterações no desencadeamento do processo de metropolização e

periferização da cidade de São Paulo, o que leva ao surgimento das periferias em locais

distantes ao centro e acessíveis ao transporte público.

As moradias coletivas alugadas a pequenas distâncias das áreas de produção

industrial passaram a ser gradativamente substituídas por moradias dispostas em

periferias longínquas, no formato de casas construídas pelos próprios moradores; o que

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

72

acompanhou o crescimento da cidade e a intensificação da carência habitacional nessa época.

À medida que a cidade crescia os trabalhadores foram obrigados a buscarem

alternativas ao problema habitacional. Assim, as moradias coletivas na forma de cortiços

aparecem como o resultado desta espoliação que obrigou a moradia em locais sem infra- estrutura básica de saneamento. Conseqüentemente, a habitação em cortiços era vista com desaprovação pela elite paulistana, dado o significativo número de famílias amontoadas em locais tidos como desregrados.

O contato com as fontes, principalmente os textos referentes à cidade do século

XIX, demonstra que em São Paulo as distinções sociais ainda não se reproduziam espacialmente, como ocorrerá no século XX a partir da conformação dos “bairros paulistanos nobres”. Cabe observar que a população mais pobre residia muito proximamente às famílias mais abastadas, a quem serviam como pedreiros, marceneiros, empregadas domésticas, vendedores ambulantes, trabalhadores braçais, quituteiras, dentre outras atividades. Isso ocorria, por exemplo, no Morro dos Ingleses, situado na parte mais alta da Bela Vista, onde se instalou a parcela rica dos moradores composta por fazendeiros de café e investidores ingleses, em oposição aos negros e italianos que habitavam a região mais baixa, como a Rua Treze de Maio; local onde acontecia a festa de Santa Cruz e os negros libertos comemoravam a abolição (TORRES, 1998).

No entanto, esta proximidade não eliminava as desigualdades sociais e os preconceitos, pois havia um monitoramento assíduo dos sambistas para se evitar a “bagunça” nas ruas, em práticas sucessivas de cerceamento de suas ações e usos territoriais 36 . Como anteriormente mencionado, os negros da classe média e alta não podiam freqüentar os clubes da elite, levando-os a fundarem em 1961 a Associação Aristocrata Clube, no bairro de Santo Amaro 37 .

Com o passar dos anos, a segregação sócio-espacial foi se acentuando e a cidade passou a ser vivenciada de modo distinto pelos vários segmentos sociais nela presentes. Como conseqüência, evidenciou-se a posição de marginalidade da população negra,

36 Todos os anos, no dia 20 de novembro, é realizada a “Marcha do Dia da Consciência Negra”. Além de lembrarem a morte de Zumbi, os participantes costumam percorrer treze locais da cidade de São Paulo em alusão aos 13 de Maio, dia da assinatura da Lei Áurea. É interessante notar que a comunidade negra assegura ter perdido o direito de uso territorial desses locais: praças públicas, igrejas, terrenos, dentre outros. 37 Vale ressaltar que muitas cidades do interior paulista apresentam clubes nesse formato, o que merece um estudo aprofundado.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

73

sobretudo com relação à sua religiosidade, expressão musical, moradia e tipo de

ocupação exercida. Então, dentre as alternativas criadas pelas comunidades negras para

amenizar as situações de injustiças e desigualdades resultantes deste contexto social

discriminatório e hierarquizado, encontrou-se o ingresso nas Irmandades e Confrarias de

pretos e pardos:

A origem das Irmandades Religiosas é encontrada no período

medieval e surgiu a partir do modelo das corporações de ofício, que atendiam aos interesses profissionais de seus integrantes, mas tinham também como objetivo a assistência mútua entre seus membros. Enquanto as corporações limitavam o seu auxílio aos

próprios membros, as irmandades eram formadas por leigos, sem restrições de qualificação profissional e, até mesmo, sem distinção social (MESGRAVIS citada por QUINTÃO, 2002, p.

73).

Segundo Quintão (1991), as Irmandades e Confrarias presentes em São Paulo no

final do século XIX foram importantes focos de solidariedade e resistência, congregando

membros ativos do movimento abolicionista liderados por Antônio Bento, também

conhecidos como caifazes, que atuavam no sentido de promover a libertação dos

escravos. Quintão avalia que:

Além das atividades religiosas que se traduziam na organização

de procissões, festas, coroação de reis e rainhas, as Irmandades

também exerciam atribuições de caráter social como: ajuda aos necessitados, assistência aos doentes, visita aos prisioneiros, concessão de dotes, proteção contra os maus tratos dos senhores e ajuda para a compra da carta de alforria. A mais famosa dentre as inúmeras irmandades de pretos é a de Nossa Senhora do Rosário (QUINTÃO, 2002, p. 75).

No mesmo sentido, Amaral (1991) assinala que as irmandades religiosas

encerravam uma importante função na “cartografia africana da cidade”, sendo as duas

mais importantes a Irmandade de Nossa Senhora dos Remédios e a Irmandade da Nossa

Senhora do Rosário dos Homens Pretos, representando um importante local para a

manifestação das tradições culturais afro-brasileiras.

Embora houvesse a coabitação em mesmas áreas, em muitas ocasiões, a

proximidade entre os segmentos sociais e raciais heterogêneos vinha acompanhada de

hostilidades, a exemplo da proibição de que os negros freqüentassem as mesmas igrejas

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

74

que o segmento sócio-econômico dominante. Até mesmo no Bexiga, bairro fortemente

marcado pela presença negra, encontravam-se placas de aluguel de quartos com as

seguintes palavras: “Aluga-se quarto, não se aceita pessoa de cor” (BARBOSA citado

por MOURA, 1988, p. 216).

As moradias de negros localizavam-se em quase todas as ruas da cidade,

intercaladas a sobrados e a casas térreas, em dispersões que vão mudando de sítio em

função da remodelação urbana intensificada a partir das últimas décadas do século XIX.

Essa coexistência com o segmento médio e alto também envolvia os imigrantes europeus

e asiáticos, que conforme chegavam iam se encontrando em bairros como a Barra Funda

(ocupação favorecida pela proximidade da linha e da estação de trem), Baixada do

Glicério (que desde aquela época até hoje apresenta o alagamento de suas ruas em dias

muito chuvosos e por isso teve seus terrenos desvalorizados no decorrer dos anos), Bela

Vista (Bexiga) e Liberdade; além das ruas transversais às principais.

Rolnik (1981) observa que no início do século XX a elite econômica ainda

ocupava as áreas próximas às ruas São Bento, XV de Novembro e Direita. Só que com o

aumento da vocação comercial do centro, houve uma gradativa transferência desta elite

para as chácaras dos Campos Elíseos, bairro vizinho, onde alguns casarões foram

construídos para que houvesse a instalação de órgãos governamentais e das famílias dos

barões de café, a exemplo do Palácio do Governo. Posteriormente, a elite “subiu” para o

Morro dos Ingleses, situado próximo a elegante Avenida Paulista; e Jardins, situado no

lado oposto da encosta. À medida que o crescimento urbano se intensificou, aumentou a

expulsão dos segmentos sociais mais pobres e a elite impôs sua presença na região

central, buscando apropriar-se do território com medidas de cerceamento impostas:

Quando a Bela Vista começou a se desenvolver, os negros foram primeiramente para a Casa Verde, que era um bairro distante

(risos), havendo um embranquecimento, falando de uma forma bem popular né, ou no linguajar da época, começou a se limpar o

centro (

assim quando fizeram a COHAB José Bonifácio lá no Grajaú,

muita gente nossa foi para lá, ou para a

Cidade Tiradentes, assim como também muita gente saiu da

Barra Funda e do Bom Retiro (

No bairro da Casa Verde,

umas das primeiras (

E

)

Disseram que tinham que tirar a negrada dali (

)

)

)

muitos negros trabalhavam na extração de areia dos rios lá existentes (Penteado, entrevista realizada em 24/10/2007).

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

75

Vale mencionar que essa presença de sambistas no bairro da Casa Verde foi

registrada na composição “No Morro da Casa Verde”, de autoria de Adoniran Barbosa:

Silêncio, é madrugada

No morro da Casa Verde

A

raça dorme em paz

E

lá embaixo

Meus colegas de maloca Quando começa a sambá não pára mais Silêncio !

Valdir, vai buscar o tambor Laércio, traz o agogô Que o samba na Casa Verde enfezou Silêncio !

Música: No Morro da Casa Verde Autoria de Adoniran Barbosa Cd: “Adoniran Barbosa – Raízes do samba”

Segundo Rolnik (1997), o Código de Posturas Municipais de 1886, por meio de

sua legislação urbanística, determinava um território ambíguo para os pobres na cidade

de São Paulo, na medida em que fixava o modelo das vilas higiênicas (pequenas casas

uni - familiares construídas em fileiras nas bordas do núcleo urbano). Esse mesmo

Código de Posturas condenava a existência de habitações coletivas com a argumentação

da impossibilidade e incompatibilidade com o progresso da nação e a vida saudável. O

Código também previa a construção de calçadas largas para a circulação de pedestres, no

estilo das cidades européias.

Todas estas alterações na dinâmica urbana de São Paulo mais a influência do

carnaval carioca, refletir-se-ão no carnaval paulistano, que também se transformará.

Assim, a presença atuante dos cordões carnavalescos dará o tom para o carnaval

paulistano por um bom tempo, até serem substituídos pelas escolas de samba.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

76

1.3 As mudanças na dinâmica do carnaval paulistano

Eu vou mostrar, eu vou mostrar Que o povo paulista também sabe sambar Eu sou paulista, gosto de samba A Barra Funda também tem gente bamba Somos paulistas e sambamos pra cachorro Pra ser sambista não precisa ser do morro.

Música: Eu vou mostrar Autoria de Geraldo Filme LP: “Geraldo Filme”

Quando Geraldo Filme compôs “Eu vou mostrar” com apenas 10 anos de idade,

em resposta a seu pai que dizia que o verdadeiro samba era aquele feito no Rio de

Janeiro, não podia imaginar que a composição se tornaria um dos seus maiores sucessos.

Nascido em São João da Boa Vista, mudou-se para a Barra Funda com cinco anos de

idade. Ao passo que entregava as marmitas feitas por sua mãe, observava as rodas

constituídas por negros carregadores e ensacadores dos armazéns abastecidos pelos trens

da São Paulo Railway, no extinto Largo da Banana. Foi nesse ambiente que ele se

formou “bamba”, passando a manifestar em suas composições uma vigorosa consciência

político-social que enaltecem as heranças culturais negras paulistas e a história dos

negros no Brasil. Posteriormente, ficou famoso como compositor de sambas-enredo para

as escolas de samba Unidos do Peruche (década de 1960) e Vai-Vai (década de 1970).

Apesar de alguns sambistas preferirem utilizar o termo agremiação

carnavalesca, optamos neste trabalho pela designação escola de samba, supostamente

cunhada em 1928 pelo fundador do Bloco Carnavalesco Deixa Falar, Ismael Silva, no

Rio de Janeiro. Segundo Cabral (1986), como nas imediações da casa do fundador

funcionava uma “escola normal”, ele resolveu transformar seu bloco carnavalesco em

escola de samba, alegando que ali seria um ponto formador de professores de samba.

A primeira escola de samba fundada em São Paulo foi a Escola de Samba

Primeira de São Paulo, no bairro de Santa Cecília (o que fez com que os sambistas da

época preferissem chamá-la de Primeira da Barra Funda, por ser um bairro vizinho). “Em

1935, Elpídio Rosa de Faria, que costumava ir ao Rio de Janeiro, formou a Escola de

Samba Primeira de São Paulo. Suas cores eram vermelho, preto e branco, e o grupo foi

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

77

formado para acompanhar cantores no rádio ou fazer apresentações públicas em shows

de mulatas” (SILVA, 2004, p. 127). Até o ano de 1942 a Escola de Samba Primeira de

São Paulo atuou nos desfiles carnavalescos paulistanos, exibindo-se nas ruas juntamente

com os cordões carnavalescos que já exerciam suas atividades influenciadas pelos

costumes “europeus” da elite da época, conforme relata Osvaldinho da Cuíca:

Antes em São Paulo existiam os cordões, onde se cantava música

de sucesso, marchas e marchas sambadas ( muito leves, fazendo músicas européias (

que temos hoje, pois naquela época os sambistas se organizavam em fileiras laterais (Osvaldinho da Cuíca, Depoimento transcrito do documentário Samba à Paulista: Fragmentos de uma história esquecida, 2007, parte I, 21‟34”).

Eles começaram

Era bem diferente do

)

)

Os cordões carnavalescos se caracterizavam por tocar samba e choro quando

estavam parados e samba enquanto caminhavam. Além disso, cantavam e tocavam os

sucessos carnavalescos de época; e criavam novas composições, acompanhados por

instrumentos de sopro, cordas e percussão. Como explicado por Osvaldinho e visualizado

na próxima foto, desfilavam formando fileiras duplas com os balizas na frente

carregando um bastão e fazendo algumas acrobacias com ele. A corte era formada por

figuras aristocráticas, rei e rainha, que vinham depois; juntamente com a porta-

estandarte, os contra-balizas e a bateria. A regência geral era realizada pelo apitador, que

marcava o tempo para o acompanhamento da orquestra e para as evoluções dos demais

membros do cordão (SILVA, 2004).

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

78

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo 78 Foto 6 – Desfile do Cordão

Foto 6 Desfile do Cordão Campos Elíseos em 1935 Rua Conselheiro Botero, São Paulo SP Foto de Claude Lévi-Strauss Fonte: Instituto Moreira Salles

Para Moraes (2000), o samba na cidade de São Paulo assumiu sua real face

urbana nos cordões carnavalescos, como expressão própria da população negra, que

manteve contato com as diversas experiências culturais que se realizavam no início do

século na capital paulista e em regiões próximas. “Os espaços de criação e difusão

cultural do samba paulistano se estabeleceram preponderantemente nas festas populares

religiosas e/ou profanas, sobretudo nos caiapós (proibidos já no final do século XIX), na

Festa de Bom Jesus de Pirapora e no pequeno carnaval de rua” (MORAES, 2000, p.

258).

No início, o carnaval popular de rua acontecia nos bairros centrais; que como já

visto, agrupava diferentes segmentos sócio-raciais. Na Avenida Paulista acontecia o

carnaval das elites, ainda no formato copiado dos corsos de Veneza, que era basicamente

o desfile de foliões fantasiados em carros alegóricos abertos; onde a elite se exibia como

detentora do poder político.

Todavia, é na Barra Funda, tradicional bairro industrial da cidade, que foi

fundado no ano de 1914 o Grupo Carnavalesco Barra Funda, Cordão Carnavalesco que

em 1953 se transformaria na escola de samba Camisa Verde e Branco (seus membros

vestiam calça verde e camisa branca). Vale mencionar que, pela data de fundação, o

Grupo Carnavalesco Barra Funda pode ser considerado precursor dentre as agremiações

carnavalescas nacionais.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

79

Seu fundador foi Dionísio Barbosa, que morou no Rio de Janeiro e conviveu

com sambistas, além de ter participado de alguns ranchos carnavalescos cariocas e ser

freqüentador assíduo das festas de Bom Jesus de Pirapora. Por isso, é tido como o

responsável pela ligação dos elementos percussivos dos ranchos cariocas com os

instrumentos percussivos de sopro e cordas, peculiares no samba paulista (ver foto

subseqüente). O compositor Osvaldinho da Cuíca conseguiu expressar muito bem a

importância do Grupo Barra Funda e do bairro da Barra Funda para o samba paulistano,

em sua composição Samba da Paulicéia:

Na Barra Funda, compadre, Eu vi a terra tremer Ouvi no couro dum bode Uma cuíca gemer Era quizomba ou pagode, Ninguém sabia dizer. Até a lua lá no céu Brilhava com mais prazer

E o Astro-Rei aparecia

Bem mais cedo pra ver

O

samba da Paulicéia nascer

E

viva a alegria do nosso terreiro

E

viva o estandarte que glorificou

Em verde e branco, Barra Funda, o primeiro, Que Dionísio Barbosa criou.

Música: Samba da Paulicéia Autoria de Osvaldinho da Cuíca Cd “Em referência ao samba paulista”, 2006, Selo Rio 8.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

80

É interessante notar que o Bloco Camponeses do Egito, subgrupo do Cordão

Carnavalesco Barra Funda, traz em sua designação o termo “camponeses”; o que

denuncia a ruralidade e o caráter caipira notório no samba paulista:

ruralidade e o caráter caipira notório no samba paulista: Foto 7 – Bloco Camponeses do Egito

Foto 7 Bloco Camponeses do Egito em 1920 Subgrupo do Cordão Carnavalesco Barra Funda São Paulo Autoria desconhecida Fonte: Centro de Memória da UNICAMP

Posteriormente, outros cordões carnavalescos e ranchos surgiram, já nas

primeiras décadas do século XX: o Geraldino na Barra Funda (formado por jogadores de

futebol do time São Geraldo), o Vai-Vai no Bexiga 38 , o Baianas Paulistas na Baixada do

Glicério (formado apenas por mulheres), o Flor da Mocidade na Barra Funda, o

Desprezados nos Campos Elísios, o Esmeraldino na Pompéia, os Marujos Paulistas no

Cambuci, o Caprichosas na Casa Verde, o Mocidade Lavapés e o Baianas Paulistas no

Lavapés, o Caveira de Ouro em Pinheiros. Na região da Liberdade e Baixada do Glicério

surgiram ainda o Príncipe Negro, o Diamante Negro, o Democrata, o Tenentes do Diabo,

o Cravos Vermelhos e o Paulistano (SILVA, 2004; MORAES, 2000).

Esses cordões extrapolaram os limites políticos e territoriais dos núcleos negros,

na medida em que se propagaram para vários bairros da cidade. De certa forma,

contribuíram para a ampliação da importância da vida cultural atrelada ao samba e ao

38 É curioso verificar que ainda hoje, quando falam da Escola de Samba Vai-Vai, alguns sambistas antigos a ela se referem utilizando-se do artigo masculino: o Vai-Vai, uma forma remanescente da sua denominação inicial enquanto Cordão Carnavalesco.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

81

carnaval nesta época. Vale também destacar a presença de dezenas de rodas de samba em

diversos locais públicos; como no Largo do Piques (atual Praça das Bandeiras), na Praça

da Sé (destaque para o samba feito pelos engraxates), na “Prainha” (Praça do Correio),

no Bexiga e no Largo da Banana (Barra Funda atual Memorial da América Latina).

Era na Praça da Sé onde aconteciam as rodas de samba constituídas por

engraxates, que utilizavam as tampas das latas de graxa para tirarem o seu som. Um dos

freqüentadores dessas rodas, o importante sambista paulistano Germano Mathias, gravou

uma música que em tom nostálgico retrata esse cenário:

No coração da cidade

Hoje, mora uma saudade

A velha Praça da Sé

Nossa tradição Da praça da batucada, Agora, remodelada Só restou recordação

Até o engraxate foi despejado

E teve que se mudar com sua caixa

Ai que saudade Da batucada feita na lata de graxa

Música: Lata de Graxa Autoria de Geraldo Blota e Mário Vieira LP “Em continência ao samba”: Germano Mathias

No Largo da Banana, enquanto esperavam por trabalho, os carregadores

batucavam em caixas de madeira ou latinhas de graxa de sapato (MORAIS, 1978;

SIMSON, 1989). Nesse local era comum o trabalho informal realizado principalmente

por negros, a partir da carga e descarga dos produtos provenientes do interior do estado

por meio das estradas de ferro. Muitos negros sambistas que ali trabalhavam como

ensacadores nos armazéns, reuniam-se e organizavam rodas de samba e de tiririca nos

momentos de descanso. Geraldo Filme, reconhecidamente o principal compositor do

samba paulistano, iniciou-se a partir da observação dos sambistas mais velhos, que

mantinham ali um importante território de sociabilidade negra na cidade.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

82

Nessa época eu e o Zeca da Casa Verde entregávamos marmitas e, quando passávamos pelo Largo da Banana, víamos os negros mais velhos jogando tiririca, aquele jogo de rasteira, o samba duro e plantado lá nos morros cariocas. Aí fomos aprendendo com os mais velhos, nos enturmando com eles, até entrarmos de sola no samba 39 .

Com o advento do progresso, o Largo da Banana foi ocupado pelo Viaduto

Pacaembu, o que ficou registrado na composição Último Sambista de Geraldo Filme:

Adeus, tá chegando a hora, acabou o samba. Adeus, Barra Funda, eu vou-me embora. Veio o progresso, fez do bairro uma cidade. Levou nossa alegria, também a simplicidade. Levou a saudade, lá do Largo da Banana. Onde nóis fazia samba todas noites da semana. Deixo este samba que eu fiz com muito carinho. Levo no peito a saudade, nas mãos, o meu cavaquinho. Adeus, Barra Funda.

Música: Último Sambista Autoria de Geraldo Filme CD “História do Samba Paulista I”: Osvaldinho da Cuíca

Ainda que o Largo da Banana não mais exista, ainda é palco de manifestações

associadas ao samba, como comprova a foto seguinte. Curiosamente, é ali um dos locais

onde se realiza o desfile dos blocos carnavalescos afiliados à Associação das Bandas,

Blocos e Cordões Carnavalescos do Município de São Paulo ABBC.

39 Depoimento de Geraldo Filme para o Jornal Hora do Povo, 04 e 05 de novembro de 1995.

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo

83

As territorialidades do samba na cidade de São Paulo 83 Foto 8 - Desfile de Blocos

Foto 8 - Desfile de Blocos Carnavalescos no Memorial da América Latina, antigo Largo da Banana Fonte: Alessandro Dozena, fevereiro de 2007

Para Geraldo Filme, era preciso pesar a origem rural do samba paulista, pois isto

lhe garantiria originalidade, diferenciação e legitimidade. A composição “Eu vou

mostrar”, que abre este capítulo, ilustra bem essa defesa do samba paulista. Ao longo de

sua carreira musical, Geraldo criou várias composições que procuraram divulgar os

pontos principais de ocorrência do samba no estado de São Paulo, além de tratar com

estima a ajuda que os negros proporcionaram ao processo de constituição da sociedade

brasileira.

Até mesmo a defesa atuante do samba paulista realizada por vários sambistas,

não foi suficiente para evitar a descaracterização e decadência dos cordões em São Paulo.

A partir da década de 1930, eles começaram a desaparecer ou a se transformar em

escolas de samba, auxiliados pela influência exercida pelo sucesso alcançado por esse

novo tipo de organização no carnaval do Rio de Janeiro. É no contexto dessas mudanças,

que, em 1934, ocorre a primeira intervenção da Prefeitura Municipal de São Paulo,

promovendo o primeiro desfile carnavalesco, ainda no formato dos cordões.

Paralelamente, desde 1933 havia sido banida a utilização de instrumentos de

sopro no carnaval carioca (uma das principais características dos cordões paulistanos);

além de ter se tornado obrigatória a existência da “ala das baianas” nas escolas de samba.

Essa nova organização dos desfiles carnavalescos deu enorme importância às alas, sob o

argumento de que contribuiriam para o melhor arranjo e composição do desfile.

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A emergência das escolas de samba no final dos anos 30 foi bastante significativa, pois revelou que os tradicionais cordões paulistanos cediam seu espaço como protagonistas privilegiados da música e cultura popular negras. Apesar de sua permanência e convivência com as escolas de samba durante a década de 1940, eles perderam o papel de destaque e referência no quadro das culturas populares da cidade. Ou seja, o carnaval e o samba urbano com características específicas de São Paulo se dilaceravam, tendendo a se tornar uma cultura regional perdida na memória da metrópole, que mais uma vez, rapidamente “sem poder parar”, passava por cima de sua história. (MORAES, 2000, p. 277).

Por um período que vai do final da década de 1930 até a década de 1950, as

escolas de samba mantiveram algumas das características dos cordões, mas que foram

sendo perdidas gradualmente. O bumbo tocado nas marchas sambadas deixa de existir,

bem como as “referências religiosas e rurais do samba rural paulista, tornam-se rarefeitas

na cidade, principalmente em virtude da decadência da Festa de Bom Jesus de Pirapora”

(MORAES, 2000, p. 277).

Gradativamente, os elementos intrínsecos ao samba de origem rural, marcado

pela forte presença das manifestações religiosas, vão sendo substituídos por elementos

essencialmente urbanos e profanos; e o samba praticado na capital passa a não mais ter

relações com o de Pirapora. Para corroborar, a instalação do Estado Novo e do

Departamento de Imprensa e Propaganda no final dos anos 30, aumentou a repressão aos

núcleos de samba e cordões, fazendo com que os sambistas e foliões passassem a

procurar os salões fechados, fortalecendo os denominados “salões de raça” (MORAES,

2000).

Paralelamente, em nível nacional, o samba carioca ganha força, impulsionado

pela indústria do rádio e do disco que reforçava a cidade do Rio de Janeiro como o

principal centro político e cultural do país. A produção musical carioca se torna

“referência para os sambistas e carnavalescos de todo o país, homogeneizando as

composições e formas musicais” (MORAES, 2000, p. 280). De certa forma, julgamos

que a música popular realizada e praticada nesse momento no Rio de Janeiro, contribuiu

para a invenção da identidade e da brasilidade no período do Estado Novo, pois

estabeleceu símbolos nacionais a partir da apropriação de códigos e representações

presentes na cultura popular brasileira.

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Em uma relação dialética, tanto a produção do samba foi transformada e difundida dentro das rádios quanto à programação das rádios foram influenciadas pelas composições de samba. Em outras palavras, na medida em que o veículo rádio necessitou se transformar em popular, ele “bebeu” da própria “cultura do samba; convocando-se os produtores desta cultura para dentro das rádios 40 .

É também, neste momento de intensa negociação com o Poder Público, que vários cordões noticiam o fim ou a adaptação às características organizacionais e estéticas das escolas de samba. Neste sentido, a criação da Federação das Escolas de Samba, Blocos e Cordões em 1967, além da oficialização do desfile em São Paulo no ano de 1968, desencadeou uma apropriação política do samba realizada intencionalmente pelo Poder Público.

A oficialização do carnaval pelo prefeito José Vicente Faria Lima (carioca nascido em Vila Isabel e apreciador de samba) 41 , concorre para a realização das adaptações que estavam em voga. Um ano antes, tinha ocorrido a reivindicação de verba junto à prefeitura pelas escolas, que buscavam organizar melhor os desfiles e toda a sua infra-estrutura. Em contrapartida, o Poder Público exigiu que as escolas de samba fossem representadas pela Federação das Escolas de Samba, Blocos e Cordões Carnavalescos, já vislumbrando o que aconteceria posteriormente com a dinâmica do carnaval paulistano: a apropriação intencional das escolas de samba pelo Poder Público deu-se por meio da aproximação como forma de prestígio eleitoreiro em um primeiro momento, e garantia de retorno econômico em um segundo.

Os diretores ligados às escolas de samba não apenas negociaram com o Poder Público a integração plena no Carnaval oficializado, como também tiveram plena perspicácia por saberem da relevância desta negociação (ainda que isso demandasse condescendências recíprocas) 42 .

40 Este tema apresenta uma ampla bibliografia. Para uma reflexão sobre a incorporação do samba como produto comercial da música popular brasileira, sugere-se: CALDEIRA, Jorge. A construção do samba, de Donga a Noel Rosa. São Paulo: Mameluco, 2004, 224 p; e FROTA, Wander Nunes. Auxílio Luxuoso:

Samba Símbolo Nacional, Geração Noel Rosa e Indústria Cultural. São Paulo, Annablume, 2003,

252p.

41 Lembrando que não necessariamente é preciso nascer inserido nas dinâmicas do “mundo do samba” para delas ter afeição.

42 Sobre a negociação ocorrida no caso do Carnaval carioca, ver: FERNANDES, Nelson da Nóbrega. Escolas de Samba: Sujeitos Celebrantes e Objetos Celebrados. Rio de Janeiro, 1928-1949. Rio de Janeiro: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 2001, 172 p.

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Segundo Moraes (2000) a situação no Rio de Janeiro foi mais favorável ao desenvolvimento do carnaval do que em São Paulo, pois em 1928, a prefeitura carioca já havia financiado o desfile dos clubes, e, em 1933, o carnaval já havia sido oficializado pelo Governo Vargas; que após 1935 passa a subvencionar as escolas de samba 43 .

Embora a atuação da prefeitura de São Paulo se direcionasse para a efetivação de investimentos públicos em infra-estrutura, visando organizar os festejos carnavalescos em vários pontos da cidade, além de instituir verba e premiações; na prática fez com que os recursos fossem destinados para a organização do desfile das escolas de samba; contribuindo para a crise dos cordões carnavalescos.

Até este momento, o local de ocorrência dos desfiles era constantemente alterado, o que revelava a falta de planejamento das atividades carnavalescas. Como explica Silva (2004), em princípio, os desfiles aconteciam próximo às sedes das rádios no centro, pois havia uma maior proteção contra a repressão policial, muito comum na época; além de serem as próprias rádios e lojistas da região os patrocinadores do desfile. Dentre os principais locais, estavam: a Praça da Sé, o Vale do Anhangabaú, a Avenida São João (foto) e a Avenida Tiradentes. Por um período provisório, os desfiles foram realizados no Parque da Água Branca e no Parque do Ibirapuera. Somente com a construção do Sambódromo em 1991, os desfiles das escolas de samba de maior porte (Grupo Especial e Grupo de Acesso) ganharam um endereço permanente 44 .

43 Cabe ressaltar que os blocos carnavalescos não foram abolidos no Rio de Janeiro, havendo atualmente a preocupação em resgatá-los e os incluir na dinâmica do carnaval carioca; embora o foco central dos investimentos públicos e privados esteja nas escolas de samba. Outro fato interessante que deve ser destacado é a recente elevação do samba carioca a Patrimônio Cultural do Brasil, estabelecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 9 de outubro de 2007; intencionando- se preservar e recuperar alguns aspectos relacionados à cultura sambista no Rio de Janeiro. Carlos Sandroni nos mostra, em “Porquê o samba de roda do recôncavo?”, disponível em:

http://www.fluxosmusicais.com/debate/porque-o-samba-de-roda-do-reconcavo, o contexto que antecedeu a elevação do samba carioca a patrimônio, destacadamente a declaração do samba de roda do Recôncavo Baiano Patrimônio Imaterial do Brasil (IPHAN) e obra prima do Patrimônio Oral e Imaterial (UNESCO).

44 Até hoje os desfiles carnavalescos, tanto de blocos de samba ou de escolas de samba de menor porte (Grupo 1, 2 e 3 da UESP), acontecem de modo disperso pela cidade. Em 2009 os locais de desfile eram:

Autódromo de Interlagos, Avenida Escola Politécnica - Butantã, Avenida Guilherme Cotching Vila Maria, Avenida Alvinópolis Vila Esperança e Memorial da América Latina Barra Funda.

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As territorialidades do samba na cidade de São Paulo 87 Foto 9 - População aguardando o

Foto 9 - População aguardando o desfile na Av. São João em 1935 Foto de Claude Lévi-Strauss Fonte: Instituto Moreira Salles

Com a oficialização do carnaval em 1968, as escolas de samba transformaram-

se em entidades civis (com diretoria eleita, conselho fiscal, corpo de associados, estatuto

registrado, etc.) e adotaram um gerenciamento empresarial em suas atividades, pois agora

recebiam verbas da prefeitura. Essas ações vieram acompanhadas da “normatização” do

desfile de acordo com o estatuto carioca, que serviu de base e modelo para o carnaval

paulistano: quesitos de julgamento, tempo de apresentação, instrumentos da bateria,

composição e tamanho das alas, etc. 45 (SILVA, 2004).

Assim, muitos cordões tornaram-se escolas de samba, a fim de poderem

participar do carnaval oficial, com regras claras e a participação contida dos espectadores

nas arquibancadas (foto abaixo). Além do mais, tiveram que aceitar as alterações

impostas na estrutura e organização dos desfiles, que adotaram o modelo existente no Rio

de Janeiro, como explica Penteado (2003) e Urbano (2006):

45 É muito comum encontrarmos comentários na imprensa brasileira de que o samba e o carnaval paulistano estão ficando cada vez mais parecidos com o carioca, não havendo comumente a preocupação com os elementos distintos relacionados à gênese particular de cada área em seu contexto histórico específico. Vale lembrar que embora o carnaval carioca e o paulista tenham adquirido características semelhantes nos dias atuais, deve-se ter cuidado ao afirmar o mesmo com relação ao samba, dadas as gêneses distintas.