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REFLEXÕES KANTIANAS SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DO ENSINO E

DO ENSINO DE FILOSOFIA

Rodrigo Pelloso Gelamo*


gelamo@gmail.com

Nossa intenção neste texto é analisar quatro momentos da obra de


Kant, nos quais ele se dedica ao tratamento do problema da educação e
do ensino, de maneira explícita ou implícita: Sobre a pedagogia1 (1995),
O que é o esclarecimento (1985), O conflito das faculdades (1993), e
Crítica da razão pura (1989). No primeiro momento, em Sobre a
pedagogia, Kant desenvolve seu pensamento acerca da necessidade de
se ensinar e de como ensinar as crianças, tendo como objetivo a
inserção das mesmas no mundo cultural. Neste sentido, propõe
caminhos e problematiza os modos de pensar a educação, tanto pelo
viés da “física”, quanto da “prática”. Em O que é o esclarecimento, Kant
problematiza seu próprio presente ao analisar a sociedade de seu
tempo. A intenção com que Kant escreveu esse artigo foi a de dar uma
resposta ao debate que estava ocorrendo sobre o Aufklärung. Em sua
contribuição para o debate, Kant analisa o uso da razão pública e da
razão privada pelos homens, com vistas à explicitação do que seria o
Aufklärung, um aufklërer e sua oposição à condição de menoridade.
*
Agencia financiadora: FAPESP. Instituição: Mestre em Filosofia e
Doutorando do PPG em Educação pela
Universidade Estadual Paulista
1
Sobre a pedagogia não foi publicado pelo próprio Kant, mas por seu discípulo
Theodor Rink. Existe uma polêmica quanto à autoria do texto. Alguns afirmam
que o texto não fora escrito por Kant e sim compilado por seus alunos. Outros
ainda dizem que eram notas escritas por Kant e que, após sua morte, foram
organizadas e levadas a público. Sabemos que Kant ministrou o curso de
pedagogia na Universidade de Königsberg em 1776/1777, 1783/1784 e
1786/1787. Apesar da polêmica, o Sobre a pedagogia encontra-se nas Obras
Completas de Kant, tomo IX, publicado pela Real academia Prussiana de
Ciências em 1923. Pensamos que o presente texto apresenta de forma
simplificada seu pensamento sobre a educação, o que facilita a entrada na
obra kantiana especificamente nos temas da educação, do ensino e do ensino
de filosofia.
Nessa discussão, Kant apresenta problemas com relação à atitude do
homem, tendo em vista aquilo para o qual deveria estar preparado: usar
sua razão livremente. Assim, podemos inferir, a partir da exposição de
Kant, alguns problemas que estariam atrapalhando ou que teriam
atrapalhado, ou até mesmo impedido, a formação do homem. Em O
conflito das faculdades, Kant apresenta a polêmica em torno das
faculdades superiores e da Faculdade inferior, visando a mostrar a
defasagem da Faculdade inferior e, ao mesmo tempo, apontar um
caminho de conciliação entre as mesmas, tendo como objetivo a
formação do homem. Kant discute nessa obra de que modo elas
cooperam e, muitas vezes, impedem que o homem seja formado para
que se torne um Aufklärer. Além disso, apresenta caminhos para que os
conflitos existentes sejam superados. Por ultimo, na Critica da razão
pura, Kant apresenta, ainda que secundariamente, a função da
educação na formação do sujeito. No entanto, podemos entender essa
obra como uma “metodologia” de como usar bem a razão e de como a
filosofia, entendida como uma critica do conhecimento, é essencial para
a formação crítica do sujeito.
A partir dessas obras, podemos dizer que, para Kant, a máxima do
ensino de filosofia é ensinar a pensar, melhor dizendo, ensinar a cultivar
o espírito, cultivar o pensamento e a capacidade reflexiva do sujeito.
Pensamos que, com isso, Kant pretende criar condições para que o
sujeito possa ter e fazer bom uso da sua razão, condições necessárias
para que tenha uma vida autônoma e livre. Para Kant, a formação
cultural do homem se dá pela preparação critica do sujeito, fundada no
aprendizado do uso da razão, única capaz de possibilitar ao homem a
humanização e a conseqüente culturalização. A filosofia, para ele, tem
um papel central nesse processo, pois ela é capaz de formar o homem
moral e culturalmente, promovendo-o de seu estado natural de
menoridade para um estado de liberdade. Neste sentido, nosso objetivo
é cotejar as obras mencionadas com o intuito de verificar de que modo
Kant propõe que o processo formativo do sujeito deva se dar.
Para atingir tal objetivo, vamos, apesar da dificuldade, propor uma
síntese do pensamento kantiano, particularmente no modo como ele
diagnostica o ensino e o ensino de filosofia. Partimos da hipótese de
que, para Kant, o ensino de filosofia visa à formação do sujeito no uso
de sua razão para que este se torne um aufklërer e, consequentemente,
possa usar a razão com liberdade e autonomia.
Em Sobre a pedagogia, Kant parte da constatação de que “O homem é a
única criatura que precisa ser educada.” (1995, p. 11). Neste momento
preciso de sua obra, Kant está considerando a educação como o cuidado
despendido à criança para a sua formação intelectual e disciplinar. Kant
centra a discussão sobre a formação, a princípio, nestes dois elementos
(ou funções) formativos. A primeira delas - formação intelectual - tem
um sentido positivo, uma vez que tem a intenção de dar condições de
autonomia e liberdade ao homem, enquanto que a segunda - formação
disciplinar - tem um caráter negativo, pois busca impedir que as forças
naturais humanas, ou seja, de seu estado inicial de selvageria, se
tornem um empecilho para o uso da razão.
Neste sentido, o homem se diferencia dos animais, uma vez que os
animais não precisam desse cuidado e aprendem por imitação, enquanto
que o homem precisa de cuidados especiais que seriam indispensáveis,
uma vez que precisa aprender, dentre outras funções importantes, a
conviver em sociedade, a se disciplinar e a entrar no mundo cultural a
que pertence a humanidade. Assim, a disciplina tem a função de
transformar aquilo que é “animal” ou selvagem no homem em
humanidade e, além disso, potencializar aquilo que lhe é natural: a
disposição ao pensamento e ao aprendizado. O sentido de humanização
é aqui empregado porque a disciplina tem a função de possibilitar que o
homem possa domesticar em si mesmo algo que lhe é próprio e
transformar isso em socialização. A disciplina teria a função de
direcionar a predisposição humana e afastar o educando das tendências
indesejáveis. Assim, nas palavras de Kant “A disciplina submete o
homem às leis da humanidade e começa a fazê-lo sentir a força das
próprias leis.” (1995, p. 12-13).
Poderíamos supor que a submissão às leis e à cultura não direcionariam
o homem à autonomia e à liberdade, uma vez que o aprisionariam e o
condicionariam. Essa problematização faz sentido. No entanto, para
Kant, a autonomia e a liberdade só poderiam se efetivar quando o
homem fosse humanizado, ou seja, quando passasse pelo processo de
humanização e pelo aprendizado do uso livre e autônomo da própria
razão como oposição ao aprisionamento ao estado selvagem e irracional
em que vivia anteriormente. Deste modo, aquilo que, a princípio,
poderia ser um indicativo de limitação da liberdade e da autonomia é,
para Kant, condição necessária para sua efetivação.
O estado natural do homem não se constituiria apenas de selvageria,
mas traria desde o princípio todas as condições para que o uso da razão
fosse desenvolvido. No entanto, o uso da razão, diferentemente do
estado de selvageria, se desenvolveria e se efetivaria mais rapidamente
se o homem passasse pelo processo formativo que prepararia o homem
para o bom uso da razão. A condição para a formação do homem
estaria, então, na educação dada por meio de seus preceptores, ou seja,
por aqueles que já passaram pelo processo educacional. Nas palavras de
Kant (1995), “O homem não pode tornar-se um verdadeiro homem
senão pela educação. Ele é aquilo que a educação dele faz.” (p. 15). Por
isso a importância de se pensar a educação no processo formativo do
homem, apesar do pressuposto kantiano de que o homem já nasce
predisposto ao pensamento. Sem a educação, o homem teria de trilhar
todo o caminho rumo à humanização sozinho. Fato este muito
complexo, uma vez que a humanidade já adquiriu valores e bens
culturais durante sua história, cuja apropriação por si só, seria algo,
senão impossível, ao menos improvável.
Kant imputa à educação e àqueles responsáveis pela educação uma
grande responsabilidade, qual seja: a de bem educar. Assim, os bons
educadores seriam aqueles que são disciplinados e fazem bom uso da
razão. Caso o educador não tenha essas características, não pode
instruir o homem de forma adequada, uma vez que, se não faz bom uso
da disciplina e da razão, não pode ensinar como utilizá-la bem. Durante
o processo educativo, o homem pode ser simplesmente treinado ou,
aquilo que é plenamente desejável, ser ilustrado. No primeiro caso, o
educando aprenderia apenas a usar mecanicamente tudo aquilo que lhe
foi transmitido pela educação que recebeu: ser educado, culto,
moralmente correto e disciplinado, porém, não atingiria o ideal que Kant
almejará para a formação do homem: que este seja um ilustrado, um
Aufklärer, ou seja, que faça uso autônomo e livre de sua própria razão.
O educador não poderia ser qualquer pessoa, uma vez que precisa ser
alguém que tenha passado pelo processo formativo e que tenha
condições de instruir seus educandos para além do puro treinamento.
Assim, mesmo um educador bem formado na disciplina e na cultura
pode não ser necessariamente um educador completo e desempenhar
os dois papéis previstos por Kant no processo educacional: o de instruir
e o de formar para a vida. Nessa diferenciação entre o instruir e o
formar para a vida, está a complexidade do pensamento kantiano acerca
da formação do homem. No primeiro caso, o educador seria o
responsável por formar o educando desde uma educação privada, ou
seja, formar o sujeito para que este seja capaz de seguir regras, leis e
de se inserir na cultura. No segundo caso, na formação para a vida,
além da educação privada, o educador teria de ter condições de formar
o sujeito, também desde uma educação para o uso público da razão, ou
seja, pensar livremente para o engrandecimento de si e da humanidade.
Aí está, para Kant, a diferença entre a instrução, oferecida por um
informator, e a educação, oferecida por um Hofmeister. O primeiro seria
apenas um professor que transmitiria alguns conhecimentos e que
prepararia o sujeito disciplinar e culturalmente, enquanto o segundo
seria o responsável por preparar o educando para a vida, ou seja, para
usar bem a razão tanto particularmente quanto publicamente. (1995, p.
31).
Parece que o papel do Hofmeister é, ao contrário do informator - que se
limitaria ao treinamento e à instrução dos preceitos - criar condições
para propiciar ao educando uma formação na qual esteja preparado
para fazer uso livre de sua razão e, assim, encontre sua autonomia para
fazer “a verdadeira reforma do modo de pensar” (Kant, 1985, p. 104) –
fato que nenhuma revolução, por si só, seria capaz de produzir no
homem (Kant, 1985, p. 104).
Para que o homem tenha condições de usar sua liberdade e autonomia,
para ele se tornar um Aufklärer e abandonar seu estado de menoridade
(Kant, 1985), ele não pode ser apenas um instruído, uma vez que,
“Preceitos e fórmulas, estes instrumentos mecânicos do uso racional,
ou, antes, do abuso, de seus dons naturais, são os grilhões de uma
perpétua menoridade.” (1985, p. 102). O que afastaria o homem da
menoridade e, consequentemente, o tornaria esclarecido, seria o próprio
bom uso da razão. Isso porque, para Kant, “Esclarecimento é a saída do
homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado” (1985, p.
100). Culpado porque apenas dele dependeria fazer a transposição do
uso privado da razão para o uso público, ou seja, a culpa do sujeito
estaria na falta de atitude em usar a razão na qual foi instruído.
A responsabilidade do Hofmeister terminaria, então, no preparo do
sujeito para a vida. No entanto, compete ao próprio sujeito se tornar um
Aufklärer e não ao Hofmeister fazer desse sujeito um Aufklärer, porque,
segundo Kant (1985), apenas o homem, por ele mesmo, é quem
poderia sair do seu estado de menoridade, de não esclarecimento. Não
basta treinar ou condicionar o homem, mas, instruí-lo no uso público de
sua própria razão, ou mesmo prepará-lo para a vida. Neste sentido,

O aprender a pensar, pressuposto pela pedagogia


kantiana, requer que esse aprendizado e esse pensar
ocorram conforme as regras da razão, que,
subjetivamente, o homem pode adquirir por meio do
processo educativo, digamos assim, inspirado no próprio
processo do Iluminismo (Aufklärung). (PAGNI, 2002, p.
117).

Assim, o treinamento e a instrução seriam condições necessárias para


tal, porém, não suficientes. Precisamos lembrar que, para Kant (1985),
“A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem
a direção de outro indivíduo” (p. 100), e continua, “O homem é o
próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na
falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se
de si mesmo sem a direção de outrem.” (1985, p. 100). Ou seja, para
além de toda educação possível no uso público e privado da razão,
imputaria ao próprio sujeito fazer uso da mesma. Concordamos com
Pagni, para quem
A maior dificuldade no processo para a formação do
Aufklärer seria conciliar a submissão ao constrangimento
das leis com o exercício da liberdade. Afinal a liberdade só
seria plena quando, ao final desse processo de
moralização e de educação, o homem fosse capaz de
pensar livremente, reconhecendo os limites do uso público
da razão e do entendimento, segundo um ponto de vista
universal, superior, porque referente ao destino da própria
humanidade e não de sua própria vontade singular. (2002,
p. 117).

Para compreendermos isso melhor, precisamos retornar aos conceitos de uso


privado e público da razão. Para Kant, o uso privado e o uso público da razão
se complementariam e, ao mesmo tempo, entrariam em conflito. O uso
privado da razão, segundo Kant (1985), é aquele que “o sábio pode fazer de
sua razão em um certo cargo público ou função a ele confiado” (p. 104). Nesse
sentido, o sujeito não pode problematizar as regras e as leis a que está
submetido, restando-lhe apenas obedecer e fazer obedecer-lhas. Um exemplo
utilizado por Kant é o do sacerdote, que, no uso privado de sua razão, deve
cumprir seu ofício de modo a seguir as normas de seu ministério sem fazer
questionamentos ou problematizações. No entanto, enquanto sábio, cidadão
livre,
[...] tem completa liberdade, e até mesmo o dever, de dar
conhecimento ao público de todas as suas idéias,
cuidadosamente examinadas e bem intencionadas, sobre o
que há de errôneo naquele credo, e expor suas propostas
no sentido da melhor instituição da essência da religião e
da igreja.” (Kant, 1985, p. 106).

Procedendo assim, estaria fazendo o uso público de sua razão.


O caminho para o esclarecimento, segundo Kant, seria a diminuição da
tensão entre a razão privada e a pública, diminuindo o peso daquela e
criando condições de se fazer o uso esclarecido desta. Isso se dá pelo
fato de a razão pública não estar vinculada a nenhuma obrigatoriedade
de cumprimento de ofício e de obrigatoriedade outra, que não a de si
mesma, com a busca da verdade. Por isso, para Kant, vivemos em uma
sociedade em esclarecimento, uma vez, além dessa tensão ainda não
ter sido superada, os homens muitas vezes não fazem uso da razão
autonomamente.
Segundo Pagni (2002),

A liberdade de pensar e esse bom uso público da razão, do


mesmo modo que o respeito à ordem civil e o uso privado
da razão, responsáveis pelo Aufkärung, seriam
plenamente apreendidos nas Faculdades e, justamente,
por meio do conflito das faculdades superiores com as
faculdades inferiores, responsáveis por proporcionar esse
movimento. (p. 117).

Este é o problema que se instaura na busca pelo esclarecimento, uma


vez que, para nos tornarmos esclarecidos, temos de fazer uso público de
nossa razão. No entanto, somos coagidos a cumprir as leis e as normas
imputadas pela razão privada. Para compreendermos a superação deste
conflito, precisamos adentrar na obra O conflito das faculdades (Kant,
1993).
Segundo Kant (1993), as Faculdades em geral são divididas em: (1)
superiores, que compreendem a Teologia, Direito (Jurisprudência) e
Medicina e seriam responsáveis pela doutrinação e pelo ensino das
doutrinas ao homem, e (2) inferior, que compreende a filosofia. Kant
explica que o título de inferior ou superior das Faculdades foi dado por
uma decisão governamental, não havendo consulta aos eruditos para se
chegar a uma melhor deliberação dos títulos a elas atribuídos, mas
apenas à deliberação do governo. Desse modo,

[...] entre as Faculdades superiores contam-se somente


aquelas em cujas doutrinas o governo está interessado, se
elas devem ser constituídas assim ou assado ou
publicamente expostas; pelo contrário, aquela que
unicamente tem de velar pelo interesse da ciência diz-se
inferior, porque pode lidar com suas proposições como lhe
aprouver. O que interessa ao governo é o meio de ele
manter a mais forte e duradoira (sic) influência sobre o
povo, e desta natureza são os objetos das Faculdades
superiores. (Kant,1993, p. 21)

Neste sentido, a Faculdade inferior é responsável por buscar, pelo uso


da razão, o caminho à liberdade, cabendo a ela “a modéstia de ser livre,
e também de deixar livre, de descobrir apenas a verdade para vantagem
de cada ciência e de pôr à livre disposição das Faculdades superiores”
(Kant, 1993, p. 32)2. A Faculdade inferior, assim, não estaria cerceada
2
Esta discussão podemos encontrar na obra O conflito das faculdades,
publicada por Kant em 1798. A obra compreende três dissertações escritas por
Kant em circunstâncias distintas nas quais polemiza cada uma das faculdades
superiores com a de filosofia. A intenção do autor na reunião das dissertações,
segundo ele, é a de criar uma unidade sistemática. No prefácio à edição do
livro, Kant deixa claro seu desacordo com a obrigatoriedade a ele imputada de
não tratar de assuntos religiosos em suas aulas. Segundo o autor, em 1788 foi
feito um edito de religião seguido de uma censura pública, os quais limitavam
pela doutrina imposta pelo governo e teria a liberdade de julgar, de
buscar a verdade e a proferir publicamente, liberdade sem a qual não
seria possível trazer a verdade à luz. (1993, p. 22). No entanto, essa
liberdade não poderia ameaçar ou colocar em risco a ordem instaurada.
Segundo Pagni (2002), a Faculdade de Filosofia não interferiria nos
negócios do Governo e não colocaria em risco a ordem civil instaurada,
pois a ela caberia exercer o papel “da crítica dos objetos das outras
ciências na interlocução com os práticos formados nas Faculdades
Superiores, fazendo-os rever suas doutrinas e a instrução do povo”
(2002, p. 118).
Fazendo a relação entre o uso público da razão e o uso privado com as
Faculdades, podemos aproximar as Faculdades superiores, com seu
ensino voltado para a doutrinação do povo, da preparação do homem
para o uso privado da razão. Por outro lado, à Faculdade inferior da
filosofia caberia o ensino do uso da razão pública, preparando o homem
para usá-la autonomia e liberdade. Neste sentido, apesar de a filosofia
ser colocada no rol inferior das Faculdades, Kant entende que

Reside, porém, na natureza do homem a causa por que


semelhante vantagem (da liberdade), é denominada
inferior; com efeito, quem pode mandar embora seja um
humilde servo de outrem, imagina-se superior a outro que
é, sem dúvida, livre, mas a ninguém tem de dar ordens.
(1993, p. 22).

O titulo de inferior e a suposta inferioridade da filosofia estariam apenas


no poder que esta tem em relação ao povo. As Faculdades superiores
teriam o poder de ingerência sobre as decisões e sobre o que é
transmitido aos educandos, enquanto que a filosofia não teria poder

a expressão literária e docente a fim de normalizar a ação dos filósofos. Kant


foi questionado pelo Rei Frederico II sobre sua ação pedagógica e literária. As
acusações foram feitas em dois sentidos: (1) na utilização da filosofia para a
degradação e deformação das doutrinas religiosas e (2) no não cumprimento
de seu dever de obediência no que dizia respeito a suas obrigações como
mestre da juventude.
algum, nem de mando nem de ingerência ou decisão. Deste modo, as
Faculdades superiores teriam autorização governamental para se expor
publicamente, uma vez que sua função seria a de manter a ordem
estabelecida. No entanto, a exposição pública de seus pensamentos não
faz dessas Faculdades detentoras do uso público da razão, nos termos
kantianos.
Para Kant, o problema maior não está na autoridade das
Faculdades superiores em relação ao público, mas na desautorização da
filosofia em proferir publicamente seus resultados, restando a esta
apenas um debate com seus pares ou com os eruditos das Faculdades
superiores. Neste sentido, Kant localiza a problemática do não
esclarecimento às predileções dos governantes pelas Faculdades
superiores com a finalidade de controle social. Esse controle social
inibiria o homem de fazer uma problematização dos pressupostos
doutrinários enunciados pelos doutos das Faculdades superiores,
gerando, assim, o apaziguamento do uso da razão para apenas
corroborar ao instituído como verdade sem nunca questioná-la.
A solução desse problema, para Kant, se daria quando

[...] acontecer um dia que os últimos se tornem os


primeiro (a Faculdade inferior a superior), não decerto no
exercício do poder, mas no aconselhamento de quem o
detém (o governo), que depararia assim na liberdade da
Faculdade filosófica e na sabedoria que daí lhe adviria,
bem mais do que na sua própria autoridade absoluta, com
meios para a obtenção de seus fins. (1993, p. 41).

Neste sentido, Kant reivindica a possibilidade de a filosofia não ficar


restrita ao debate interno ou com as outras Faculdades, mas ser
utilizada publicamente por todos e ensinada a todos, inclusive como
conselheira nos problemas enfrentados pelo governo, a fim de as
decisões não serem tomadas a partir das dogmatizações das Faculdades
superiores, mas a partir do uso da razão da Faculdade inferior.
Kant, assim, aponta para a existência da desigualdade no uso e na
divulgação da razão privada (divulgada pelas Faculdades superiores) em
relação à razão pública (ensinada pela filosofia). Isso faz com que
sejamos instrumentos de dominação e, por não termos acesso ao uso
razão pública, nos tornemos escravos do pensamento produzido por
outros. A conciliação entre as razões dar-se-ia apenas quando fosse
permitido e divulgado o uso da razão pública, quando as pessoas fossem
formadas para utilizá-la livre e autonomamente.
O problema, então, não estaria nas normas, nas regras, nas leis, mas
no modo como estas são transmitidas sem que o sujeito possa submetê-
las ao crivo da razão e problematizá-las para estar ciente e convencido
das mesmas.Neste sentido, Kant afirma que

Não nos admiramos de sermos seres sujeitos às leis


morais e determinados pela nossa razão à sua
observância, inclusive com sacrifícios de todos os
confortos da vida a elas antagônicos, porque obedecer a
tais leis radica objetivamente na ordem natural das coisas
como objecto da razão pura: sem correr sequer alguma
vez ao comum e são entendimento inquirir de onde nos
possam vir essas leis, a fim de adiar porventura a sua
observância, até conhecermos a sua origem, ou duvida da
sua verdade. (1993, p. 71).

Assim, a obrigatoriedade estaria no uso da razão, no uso público e


privado, e na observância dos resultados alcançados pelo uso correto
desse bem da humanidade.
Para Kant,

a filosofia não é uma ciência das representações, conceitos


e idéias, ou ainda uma ciência de todas as ciências, ou
ainda algo de semelhante, mas uma ciência do homem, do
seu representar, pensar e agir; - deve apresentar o
homem em todas as suas partes constitutivas, tal como é
e deve ser, i. e., tal como suas determinações naturais
como também segundo sua condição de moralidade e
liberdade. Ora era aqui que a antiga filosofia assinalava ao
homem um ponto de vista inteiramente incorreto no
mundo, ao fazer dele, neste último, uma máquina que,
como tal, deveria ser de todo dependente do mundo, ou
das coisas exteriores e das circunstâncias; fazia, portanto,
do homem uma parte quase simplesmente passiva do
mundo. – Apareceu agora a Critica da Razão Pura e
atribuiu ao homem no mundo uma existência plenamente
activa. (1993, p. 85-86).

Assim, Kant reverte o sentido dado à filosofia de seu tempo e atribui a


ele um outro caráter, qual seja: a de ser uma crítica do pensamento. A
filosofia, então, teria um papel central na formação do homem e no
ensino de como utilizar bem seu pensamento. À filosofia caberia a
função de ser a Hofmeister da sociedade.
Tendo em vista a passagem acima, podemos entender a máxima
kantiana: não se ensina a filosofia, mas se ensina a filosofar. Isso quer
dizer que não se deve ensinar a história da filosofia como um conteúdo
que levaria o aprendiz a filosofar. Ao contrário, deve-se ensinar a usar
corretamente a razão, que, para ele, é sinônimo de filosofar. Neste
sentido, para Kant, o ensino de filosofia é o oposto daquilo que seria
formulado futuramente por Hegel: o ensino da história da filosofia.
Segundo Horn (2006, p. 2),

Kant defende a tese de que se deve ensinar a filosofar e


Hegel defende a tese oposta de que se deve ensinar os
conteúdos da história da Filosofia. Estas posições estão
alicerçadas em pressupostos filosóficos que ambos
construíram a partir de suas práticas como pensadores e
professores de Filosofia. Kant tomou como princípio que
não se deve aprender pensamentos, conteúdos, mas
aprender a pensar. Há neste entendimento uma influência
clara e evidente de Rousseau e do pensamento pedagógico
de sua época.

Deste modo, se pudéssemos supor um programa educativo kantiano,


este estaria fundado nesta máxima: não ensinar a filosofia como um
acúmulo de conhecimento, mas ensiná-la como um modo de formação
do homem para filosofar, para fazer um uso do pensamento crítico.
Neste sentido, segundo Pagni,

[...] pode-se dizer que o ensino de filosofia enquanto


um aprender a filosofar estaria suposto em todo
programa educativo elaborado pela pedagogia
kantiana, mas só seria plenamente apreendido nos
termos supra-expostos na Faculdade de filosofia [...]
Porém, isso só seria possível pela aquisição da cultura
e pelo cultivo da própria razão, dependendo de um
método, que em muitos aspectos seria semelhante ao
método da filosofia, a partir do qual as crianças e os
jovens aprenderiam a pensar o que fosse necessário
à sua vida prática e, quem sabe, ao próprio pensar
[...]” (2002, p. 120).

Poderíamos dizer, então, que pensar não implica ser um erudito ou ser
um profundo conhecedor de toda a história do pensamento. Assim, para
Kant, o ensino de filosofia deveria se concentrar no exercício e no
exercitar o uso da razão. Exercício este que possibilitaria ao homem
fazer o uso correto de sua razão com autonomia para a liberdade.
A discussão kantiana não está focada no aspecto formativo ou na
discussão sobre a educação, a não ser, especificamente, em Sobre a
pedagogia. Notamos, assim, que a preocupação kantiana com a
formação do sujeito não se limita ao preparo para o convívio social e
para a obediência às leis, mas no preparo para a autonomia no uso de
sua razão. A preocupação kantiana reside no preparo de fundamentos
filosóficos para que seja possível a utilização da razão, por isso se
dedica em toda a Critica da razão pura a problematizar quais seriam os
limites da razão, ou seja, determinar até que ponto a razão seria um
instrumento para se encontrar a verdade.
Não obstante, como pudemos notar, os escritos kantianos dão margem
para que possamos pensar juntamente com ele os problemas que
buscava enfrentar em seu cotidiano e que nos auxiliam a pensar os
nossos próprios problemas. Se atualizarmos o pensamento kantiano e o
utilizarmos para problematizar a nossa sociedade, notaremos que a
crítica feita por ele é plenamente possível de ser aplicada aos problemas
que enfrentamos contemporaneamente.
A filosofia, apesar de todo esforço de Kant no sentido de torná-la algo
importante para a sociedade, continua no mesmo lugar, para não dizer
em um lugar ainda mais inferior. A preguiça filosófica que encontramos
atualmente é de constatação inegável. Hoje podemos dizer que as
Faculdades superiores são, além daquelas já apontadas por Kant e que
não perderam seu Status, a de informática, a de comunicação social
(jornalismo televisivo), a de economia e a de administração de
negócios. A sociedade tornou-se cada vez mais tecnicizada e doutrinada
pelos saberes instituidores de uma racionalidade técnica (para utilizar
uma expressão adorniana).
A função crítica está cada vez mais encarcerada dentro das
universidades que, ao invés de problematizar a sociedade, o poder
instituído, de fazer uma crítica ao mercado, colocam-se ornadamente
sentadas diante do Olimpo, esperando que aqueles que se interessarem
por aprender a utilizar a Faculdade do pensamento se aproximem e
recebam as bênçãos sacerdotais que os doutos filósofos podem oferecer.
Bênçãos que, ao invés de serem um preparo para o uso da autonomia
do pensamento, funcionam como uma doutrinação filosófica, produzindo
igrejas, cujos missais são as obras filosóficas. Talvez com isso tenhamos
conseguido fazer da filosofia uma Faculdade superior aos moldes das
Faculdades superiores do período em que Kant viveu.

Referências

HORN, G. B. Do ensino da filosofia à filosofia do ensino: contraposições


entre Kant e Hegel. In:
http://www.anped.org.br/reunioes/26/trabalhos/geraldobalduinohorn.rtf
Acesso em: 10/dez/2006.

KANT, I. (1784) Que é o esclarecimento? (Aufkalärung). In: CARNEIRO


LEÃO, E. (org). Immanuel Kant: Textos seletos. Petrópolis: Vozes, 1985.
pp. 100-117.

KANT, I. (1787) Crítica da Razão Pura. Lisboa: Fundação Kalouste


Gulbenkian, 1989.

KANT, I. O conflito das faculdades. Lisboa: edições 70, 1993.

KANT, I. Sobre a pedagogia. Piracicaba: editora da Unimep, 1996.

PAGNI, P. A. O ensino de filosofia nas obras de Kant, de Hegel e de


Nietzsche: uma breve análise histórico-filosófica. In: Reflexão e ação.
Revista do departamento de educação. UNISC: Santa Cruz do Sul. v.10,
n.2, jul./dez. 2002. pp. 111-135.