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A Asbórnia já quis se separar do Continente.

Não sei exatamente porque isto acabou


por não acontecer. Afinal ela se liga ao Continente por um ístimo, e aparentemente isto
não seria difícil. Também não sei dizer quem lucrou com o insucesso da tentativa, se a
Asbórnia ou o próprio Continente. Ainda hoje, os mais observadores, ao tocar neste
assunto conseguem notar nos asbórnios um suspiro muito leve e uma minúscula
pausa nos movimentos dos olhos, como se buscassem na memória pedaços dos
sonhos que sonharam naquela época.
Estive recentemente na Asbórnia por outros motivos, mas quase todo o meu tempo livre
eu utilizei na tentativa de entender melhor este povo notável e estabelecer alguma
relação entre sua realidade e seus problemas. Viajei muito, conversei muito e sobretudo
comparei muito.
Cheguei a algumas conclusões, que tentarei dividir com vocês, de forma direta e rápida,
para que esta conversa não ultrapasse o disponível de cada um da gente.
Depois de muito refletir, acho que já posso apresentar o que concluí como estando na
gênese das mazelas deles: as casas.

Isto mesmo, na Asbórnia, as casas têm cara de casas!

E tudo o mais, concluí, decorre disto.

Já havia ouvido vagos relatos sobre esta estranha característica daquele povo, com
sua doidivana mania de fazer casas bonitas.
Muitos acreditarão que isto não tem nada a haver com nada. Que esta história e
conclusão não passa de uma cabeça que esquentou um pouco mais neste verão. Mas
mesmo assim eu continuo firme nela, ou seja, os asbórnios se ferraram à custa
desta mania besta.
Mas como pode isto?
Vou esclarecer, principalmente comparando. Comparando com o que o povo de onde
vivo construiu. Ou seja, como nós aqui, do país das Perfurações Generais resolvemos
esta questão básica que acompanha a humanidade desde os seus primórdios, e como
nós colhemos agora os frutos das sábias escolhas que fizemos e continuamos a fazer
este tempo todo.
Para começar, por exemplo, compare estas duas imagens. A da esquerda é na
Asbórnia, a da direita aqui em Perfurações.
Deu pra notar?
Ainda não? Então vamos ver como a incúria nos detalhes compromete o todo.
O que salta aos olhos de imediato é o desperdício geral de espaço na Asbórnia. Um
esbanjamento e uma gastança generalizada dos preciosos metros quadrados que nós,
os perfureiros, tanto prezamos. O resultado são cidades que distanciam as pessoas,
em contraposição ao nosso estilo compacto, que consegue colocar as pessoas bem
mais próximas umas das outras.

Um verdadeiro abuso na ocupação do solo, como se o Continente tivesse lugar


suficiente para tamanho esbanjamento.
E as construções em si?
Aqui principalmente, os asbórnios têm muito que aprender!
Nós, os perfureiros, somos diretos e objetivos, sem perda de esforço em detalhes que
não interessam, ao passo que os asbórnios se esmeram em coisas que não sabemos
se tem alguma utilidade. Vejam por exemplo, a questão dos jardins. Um dispêndio inútil
de recursos e esforços em uma futilidade sem igual. (Sem fotos de Perfurações)

Uma mania desmedida, de jardins bonitos, tanto particular quanto pública.


Quer mais? E a distância entre as casas?
Nós aqui em Perfurações prezamos o contato e a convivência humana, cuja única forma
de proporcionar está em se imprimir a proximidade já nas construções. Lá, por incrível
que pareça, de preferência eles tratam de afastar!

E os muros? Nada que transmita mais segurança e estilo, do que este elemento tão
antigo quanto as primeiras cidadelas. Mas na Asbórnia,frequentemente, eles parecem
desconhecer esta lição, enquanto nós aqui nos esforçamos para incorporar este
elemento desde o princípio da construção,
E as grades? Definitivamente alguém daqui, precisa ir rápido lá ensinar os asbórnios a
gradear uma casa! Compare a fragilidade, com a solidez do que sabemos fazer.

Outra prova da falta de rumo dos asbórnios: parece que eles passam todo o tempo livre
deles, pintando casas. Senão como explicar que 80% das casas parecem ter sido
pintadas na véspera, de tão impecavelmente limpas e coloridas? Prá que isto?
E o que dizer dos telhados? A Asbórnia sempre viveu uma fixação por telhados, que
terminou por a levar ao estado que se encontra hoje. Uma profusão de cores e de
formatos de telhas de barro e cerâmica, que termina por confundir os olhos de visitantes
como eu, que não estão acostumados. Não raro também, é flagrar os asbórnios
lavando telhados, uma suprema forma de desperdício e que confirma, para fim de
discussão, o estado de ócio em que aquele povo deve viver.

Nesta mesma linha se enquadra outro detalhe. O reboco. Não consegui ver nenhuma
casa sem reboco, ou com ele pela metade. Por menor que seja a parede, eles rebocam
e pintam. Por outro lado, nós aqui de Perfurações temos explorado todo o potencial
estético, decorrente desta econômica forma de ampliar as sensações visuais em uma
mesma construção.
Outro elemento estético e funcional de extrema importância, e que definitivamente não
existe, na Asbórnia, é o terraço. Esta jóia da arquitetura perfureira, que tanto tem
refrescado (dizem alguns) e quebrado o galho (acrescentam outros) nas residências de
qualquer porte por aqui, simplesmente não existe por lá.

Assim, tanto prédios quanto casas, ficam privados deste importante elemento, o que
tem sido compensado por eles sabe-se lá como.

E por falar em prédios, aqui também se manifesta a recorrente mania dos asbórnios de
desperdiçar espaço e adicionar elementos desnecessários nas suas laterais. Portas,
janelas e sacadas nas paredes laterais, além de desnecessárias distâncias entre eles,
terminam, creio eu, por encarecer desmesuradamente os projetos, sem ganho algum
em comparação com os que fazemos por aqui.
E os passeios? Aqui em Perfurações, salvo em raras exceções, adotamos a sábia
prática do mínimo necessário. Nossos passeios de no máximo 1,5 metros refletem
nosso compromisso com esta sábia lição de vida, enquanto que na Asbórnia passeios
de 2, 3 e 4 metros, são a tônica geral! Depois não sabem o que fazer com tanto espaço
à toa, e ficam gramando e ajardinando grandes porções deles, o que, creio eu, deve
terminar por atrapalhar quem se aventura a andar por eles.

Outra coisa que me prejudicou muito em minhas andanças por lá foi a profusão de
verde e os recuos das residências. Haviam ruas onde nem mesmo se viam as casas!
Este é um problema que praticamente não existe em Perfurações. Compare.
O resumo, é que os asbórnios, estranhamente, parecem priorizar diferente da gente.
Aqui em Perfurações, nada como um automóvel novo e reluzente, de preferência com
um engate na trazeira, que nos atenda servilmente faça chuva ou faça sol. Na
Asbornia eles definitivamente estão em outra, já que não descobriram ainda que o
verdadeiro sentido da vida anda sobre quatro rodas, e o resto, é o resto.
Aqui, definitivamente o progresso econômico, se traduz em melhores condições de vida
para todos, e dá um prazer danado apreciar tanto progresso. Pode colocar dinheiro na
mão da gente, que nós sabemos o que fazer com ele!

O fato é que esta mania besta deles de fazer as casas com cara de casa, termina por
se alastrar também no ramo das construções comerciais, e o desperdício e a
concentração de esforços em coisas inúteis invade esta importante componente da vida
da cidade.
Compare como aqui em Perfurações adotamos um estilo sólido e objetivo, que atende
melhor às necessidades dos nosso intrépidos comerciantes, que tanto fazem por
nossas comunidades.
Também são muito prejudicadas as indústrias da Asbórnia. Principalmente aquelas
próximas às estradas, se sentem envolvidas em uma mania sem sentido de busca por
boa apresentação, de forma que exageros de gramados, afastamentos, jardins e
construções bonitas só servem para penalizar ainda mais a combalida indústria local.
Enquanto isto, aqui em Perfurações, nossos industriais sabem muito bem que todo seu
esforço deve ser concentrado apenas na busca do lucro que sustenta a todos nós, e
que estas coisinhas periféricas definitivamente não interessam.
As indústrias mostradas nestas duas fotos têm alguns produtos em comum, mas vejam
como nós somos muito mais objetivos.

A mesma observação vale para o ramo comercial. Aqui também, os asbórnios passam
longe da objetividade sóbria e elegante das construções comerciais vistas ao longo de
nossas estradas. E olha que não parece ser falta de dinheiro, deve ser falta de outra
coisa. Não dá prá entender, aonde eles querem chegar com isto. Afinal, quando a sêde
aperta, a gente para aonde tiver água e o resto, é conversa mole prá boi dormir.
E por falar em estradas, a Asbórnia se especializou em estradas bonitas, como se
fizesse diferença viajar em estrada feias ou lindas. O que importa de fato em uma
estrada, é que ela sai de um lugar e chega no outro. Esta estória de ficar gramando,
ajardinando e arborizando os acostamentos, canteiros, laterais e taludes, só serve
para aumentar o preço dos pedágios e distrair a atenção dos motoristas, cansando-os
com um movimento ocular e pescoçal desnecessário, de tanto ficar olhando prá cá e prá
lá. Nós aqui nas Generais não distraímos nossos motoristas.
Como se vê, a má fama do sistema rodoviário da Asbórnia é, definitivamente, agravada
pelas construções que se vêem ao longo das estradas. Sejam as construções de
residências, sejam as construções de comércio.
Outra oportunidade perdida pela Asbórnia, e que Perfurações tão sabiamente aproveita
em todo seu potencial, é aquele de se valer das faixas de domínio das estradas, para
minimizar a emergente questão da falta de moradia. Aqui, permitimos e (porquê não?)
incentivamos esta ocupação cabocla, que tanto vem matando dois coelhos com uma só
cacetada: abrigando com qualidade e embelezando nossas estradas.
E se vocês acham que esta mania de casas com cara de casa não afeta o próprio
governo da Asbórnia, vocês se enganam redondamente. Apenas para ilustrar flagramos
um posto policial em uma pequena cidade de beira de estrada. Compare com o estilo
objetivo e econômico daqui de Perfurações em situação idêntica. Mais que isto! Vejam
como em Perfurações a policia sabe fazer muito bem o dever de casa e já começa por
se proteger adequadamente, transmitindo uma segurança, paz e confiança aos nossos
cidadãos, de matar de inveja aos de lá.

O resumo disto tudo é que toda esta mania construtiva da Asbórnia, termina por segurar
o país, travando o seu desenvolvimento. Não é à toa portanto, que as pequenas e
médias comunidades da Asbórnia possuem um certo ar bucólico, meio conservador e
meio romântico que contrasta muito com o dinamismo construtivo e o modernismo nas
construções que as comunidades equivalentes daqui de Perfurações exibem.
E se vocês acham que os ricos da Asbórnia também não tem sua parcela de culpa
nesta doideira geral, estão mais uma vez enganados! Com a maior facilidade, dá prá
perceber um exibicionismo inútil e pernicioso das residências mais caras, que termina
por induzir os de menor poder aquisitivo a fazer o mesmo. Trata-se de uma
irresponsabilidade muito grande, já que com tamanha facilidade eles estão a incentivar
e facilitar o trabalho dos meliantes e dos amigos do alheio. Mas problema mesmo vai
ser, quando tendo roubado tudo que tem para ser roubado por lá, eles se voltarem para
Perfurações. Mas não vai ser a mesma moleza. Aqui nossos ricos sabem como proteger
uma residência.

Lá, eles dizem que as cidades são tão bonitas quanto forem as construções que a
compõem. E tratam de fazer construções bonitas e deixa-las a vista.

Mas eu pergunto: e a infraestrutura? Por acaso os asbórnios reconhecem, como nós, a


prioridade da infraestrutura sobre tudo? Sem ela, nada feito. Nada como uma rua
asfaltada, um poste elétrico, uma fiação de telefone, um meio fio, uma torre de celular,
um posto de saúde, uma água encanada e um esgoto para compor uma cidade que dê
de fato prazer de morar e visitar. Aqui nós começamos e terminamos certo.
E como se tudo isto não bastasse, os asbórnios ainda vivem uma suprema e derradeira
ilusão: sonham que podem ganhar dinheiro com o turismo!
É muita pretensão! Que venham aqui aprender como se faz!
Afinal, nenhum deles naquele país, jamais escutou, como eu escutei, da boca do
Presidente de nosso país, que Perfurações tem a coisa mais importante para o turismo;
um povo maravilhoso.

Então, como almejar o turismo? Nós temos o povo maravilhoso.


E daria prá ser diferente? Afinal, o astral, o companheirismo, a boa vontade, a
cidadania, a valorização histórica e cultural, a amizade, o desprendimento, a visão, a
abertura, a educação, a simpatia e a receptividade de um povo, são, sem a menor das
sombras de dúvida, diretamente refletidos nas suas construções, da mesma forma,
como o inverso é verdadeiro, ou seja, o astral das construções e da cidade termina por
determinar o astral de quem habita nelas. Em outras palavras, cada povo têm as
cidades que combinam com ele.

Vejam só. A cidade de Perfurações à direita, abaixo, está incluída, sábiamente, em um


dos vários Circuitos Turísticos que implantamos em nosso país. Nada mais natural, já
que ela exibe todo o vigor da extensa experimentação arquitetônica local sobre as
possibilidades do cinza. Já aquela correspondente da Asbórnia não figura em roteiro
algum.

Assim, por tudo que mostrei, Perfurações é o lugar!


Pujância econômica, que tem levado a cidades maravilhosas, com seu povo
maravilhoso.
Nestas horas dá até um pouco de pena da Asbórnia. Mas também, com tanta coisa
errada, não poderia ser diferente. E olha que eu procurei, na medida do possível,
sempre comparar situações de padrão mais ao menos próximo, para depois não ser
acusado de favorecer Perfurações.

Este é pois o meu relato. Espero que ele sirva de alerta ao sofrido e sem esperanças
povo da Asbórnia e de votos de felicitações e de admiração ao povo de Perfurações
Generais, que eu tanto amo.

Julia de Adelaide

Ano de 2008