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Tânia Navarro-Swain

Figuras de mulher em Simone de Beauvoir:


a mãe, a prostituta
Tânia Navarro-Swain
Professora do Departamento de História da Universidade d4e Brasília. Doutora pela Universidade de Paris III Sorbone.
Fez seu pós-doutorado na Universidade de Montreal, onde lecionou durante um semestre e na Universidade du Quebec
à Montreal (UQAM), onde foi professora associada ao IREF, Institut de Rechereches et Etudes Féministes.
Ministrou um curso de Estudos feministas na graduação e tralha em linha de pesquisa
com a mesma denominação na Pós-Graduação.

Resumo: A definição do ser humano como “mulher” organiza práticas sociais que de-limitam sua
importância e suas atividades culturais no tempo e no espaço. No Ocidente temos visto a produ-
ção de imagens e representações negativas do feminino em épocas diversas, constituídas em
densas redes discursivas interligando filosofia, teologia, medicina, direito, educação, senso co-
mum, tradições orais e escritas. Estas imagens, longe de representarem a repetição do mesmo, de
uma situação igual em todos os lugares, indicam apenas a necessidade de interação de normas,
variáveis, porém construtoras de seres subjugados, ou seja, seres que escapam a todo momento das
dominações impostas, que precisam da repetição incessante da disciplina para responder aos
modelos requeridos. Encontramos assim a mãe e a prostituta, imagens que fizeram correr rios de
tinta, desde que foram analisadas por Simone de Beauvoir, binômio inseparável da representação
social das mulheres: mãe/esposa, em discursos sobre família, sexo domesticado, moralidade, espaço
privado, reprodução do social; prostituta, mulher pública, liberação do vício e da devassidão
latentes no feminino.
Palavras-Chave: Práticas Sociais, Representações Culturais, Discursos Instituídos.

Abstract: The definition of the term human being as being a “woman”, organizes social practices
that delimit its importance and its cultural activities in time and space. We have seen the production
of images and negative representations of the feminine character in several times. Those images
are constituted in dense discursive nets which link philosophy, theology, medicine, the laws,
education, common sense, oral and written traditions. Far from representing the repetition of a
same situation everywhere, they simply indicate the need of interaction of norms and variables
which are the builders of subdued subjects. In other words, subjects that escape of the imposed
dominances at every moment and that need the incessant repetition of the discipline to answer
to the requested models. In this way we find the mother and the prostitute – images that allowed
rivers of ink to run, since they were analyzed by Simone of Beauvoir, who is an inseparable
binomial of the women’s social representation: mother/wife, in speeches about family, domesticated
sex, morality, private space, reproduction of the social; prostitute, public woman, liberation of the
addiction and the latent feminine libertinism.
Keywords: Social Practics, Cultural Representations, Instituted Speech.

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Figuras de mulher em Simone de Beauvoir: a mãe, a prostituta

“O que é uma mulher?” perguntou Simone de


Beauvoir em 1949 (Beauvoir,ed.1961:7). As evidênci-
as em geral tendem a se desconstruir quando analisadas
atentamente: o que é o feminino, o que é a feminilida-
de? Fêmea ou mulher ou mulher porque fêmea? Em
que ordem de evidências instituiu-se a reprodução, a
procriação enquanto marco decisivo na divisão dos
seres e em que ordem de representações definiu-se
feminino e masculino em patamares hierárquicos e
assimétricos na constituição das relações sociais?
Meio século de feminismos permitiu uma intensa
produção teórica a este respeito, inspirada de alguma
forma pelo “On ne naît pas femme, on le devient” de
Simone de Beauvoir (Beauvoir,ed. 1966,13), obra in-
contornável para os feminismos contemporâneos. A
releitura do “Segundo Sexo” em 1999 permite a atual-
ização de reflexões em torno dos papéis e dos corpos
sexuados, constituídos em identidades sexuais.
Entretanto, se as teorias feministas continuam a de-
senvolver sua análise crítica do social, debruçando-se
sobre os mecanismos constitutivos da divisão dico-
tômica do humano e do próprio esquema binário de
construção da realidade, os movimentos feministas
vêm perdendo seu lugar de fala, sua força subversiva,
na me-dida em que decretou-se, no senso comum e
nos mídia, que o feminismo acabou, que a igualdade
foi conseguida, que as mulheres já ocupam seu lugar
ao sol.
Tenho ouvido jovens universitárias perguntarem
candidamente se é possível ser feminista e feminina,
mas sobretudo, indagarem se os feminismos são ainda
necessários. Simone de Beauvoir questionava a noção
de feminilidade em 1949 e 50 anos depois as imagens
do “ser mulher”, do “ser feminina” permanecem an-
coradas no imaginário social, traduzidas em trejeitos e
modelos normatizadores que reiteram a naturalização
dos papéis sociais.
Quantas mulheres recusam os feminismos, receo-
sas da assimilação às lesbianas, às “mal-amadas”, às

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“feias”, às excluídas do desejo e do olhar dos homens,


sem perceber que continuam a se colocar enquanto o
Outro do “verdadeiro” sujeito, o masculino, assujei-
tando-se às normas da beleza, da sedução, enquanto
eixos norteadores de suas vidas? Quantas mulheres
percebem que se atrelam a um destino “natural”, o da
“verdadeira mulher”, mãe e esposa, cumprindo os
desígnios das representações sociais institucionalizadas?
Um olhar mais amplo percebe, sob o verniz de
“conquistas” liberais em tempos de globalização, a mul-
tiplicidade de experiências no espaço vivido das mu-
lheres: a desigualdade de salários e de oportunidades,
a pobreza e o analfabetismo preferencialmente femini-
no, a violência específica que sofrem em seus corpos
e em seu lugar no mundo, a eliminação sistemática de
bebês-meninas em certos países, a mutilação sexual, a
banalização da prostituição, todas formas de violên-
cia social contra as mulheres enquanto mulheres.
A definição do ser humano como “mulher” orga-
niza práticas sociais que delimitam sua importância e
suas atividades culturais no tempo e no espaço. No
Ocidente temos visto a produção de imagens e repre-
sentações negativas do feminino em épocas diversas,
constituídas em densas redes discursivas interligando
filosofia, teologia, medicina, direito, educação, senso
comum, tradições orais e escritas. Estas imagens, longe
de representarem a repetição do mesmo, de uma situa-
ção igual em todos os lugares, indicam apenas a neces-
sidade de interação de normas, variáveis, porém cons-
trutoras de seres subjugados, ou seja, seres que escapam
a todo momento das dominações impostas, que preci-
sam da repetição incessante da disciplina para
responder aos modelos requeridos.
A construção e desvalorização do ser “mulher”
aparecem como resultado da idéia de uma essência
jungida à um corpo deficiente, à um espírito fraco e
superficial, a uma moral escorregadia e duvidosa que
pedem uma vigilância constante e a domesticação de
seus pendores para o deslize e o mal. Benoîte Groult

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Figuras de mulher em Simone de Beauvoir: a mãe, a prostituta

(Groult, 1993) publicou um livro que reúne as pérolas


destiladas ao longo do tempo sobre as mulheres,
mesclando os discursos de autoridade dos Aristóteles,
Paulo, Agostinho, Tomas de Aquino, Jerônimo, Cri-
sóstomo e outros padres da Igreja, dos Lutero, Freud,
Rousseau, Proudhon, Nietszche, Hegel, dos Baudelaire,
Musset, Balzac , Rabelais etc, que as condenam à ig-
norância, à domesticidade, à submissão, ao silêncio, à
penitência e à resignação, dada sua “natural” inferiori-
dade , marcada em seu corpo ao nascer, pelo estigma
e a maldição do feminino, “segundo sexo”, macho
mutilado e imperfeito.
Diabolizado desde a lendária Eva, (Delumeau,
1978) o feminino seria, porém, resgatado em seu pró-
prio corpo pela fecundidade, pela possibilidade de
reproduzir o humano e sobretudo, o masculino (apud
Paulo, Epístola Coríntios). Em seu lado obscuro, por-
tanto, toda mulher deveria carregar o pecado e a fra-
queza moral e em seu lado luminoso, o dever e a alegria
da maternidade.

O eterno esquema binário


1 Evidentemente existe uma
enorme literatura a este res- Encontramos assim a mãe e a prostituta, imagens
peito, mas escolhi basear-
me o livro de Simone de que fizeram correr rios de tinta, desde que foram ana-
Beauvoir como um discur- lisadas por Simone de Beauvoir1, binômio inseparável
so inaugural das críticas e da representação social das mulheres: mãe/esposa, em
análises feministas sobre a
apropriação dos corpos discursos sobre família, sexo domesticado, moralidade,
transformados em mulhe- espaço privado, reprodução do social; prostituta, mu-
res; estas reflexões teóricas
centram-se, na atualidade,
lher pública, liberação do vício e da devassidão laten-
nas questões de subjeti- tes no feminino.
vação, identidade e cons- Estas categorias, que habitam a imagem do femi-
trução corpórea do femi-
nino social. nino são fundadas nas premissas da heterossexualidade
2 Ver por exemplo, a este res- e nas matrizes institucionais do patriarcado2. Assim, as
peito, as análises feministas mulheres só realizariam seu ser no mundo no encon-
dos anos 1970, feitas por
Monique Wittig, Adrienne tro incontornável com o masculino, para dar-lhe uma
Rich, Christine Delphy, descendência e apaziguar seu desejo. A maternidade
Carole Pateman, Collete
Guillaumin, Nicole-Claude
seria seu destino e sua transcendência, a prostituição a
Mathieu, Gayle Rubin. imanência na impureza de seu sexo.

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O capítulo sobre a maternidade em Simone de


Beauvoir é longo, invocando testemunhos e exemplos
em sua argumentação. O que salta aos olhos é sua di-
mensão política, na medida em que desde o início se
concentra em uma longa análise da questão do aborto,
da liberdade que deve acompanhar a decisão de ser
mãe; aponta para a hipocrisia social que impede o
aborto e se desinteressa pela criança ao nascer
(Beauvoir, 1966:291).
Todo o início de seu discurso sobre a maternidade
é um debate sobre a liberação do aborto, as condições
psicológicas das mulheres cuja gravidez é indesejável
e a necessidade do controle de nascimento. Afirma
que “[…] O “birth-control’ e o aborto legalizado per-
mitiriam à mulher assumir livremente sua maternida-
de. […] Gravidez e maternidade são vividas de manei-
ra muito diferentes, de acordo com suas circunstân-
cias, na revolta, resignação, satisfação, entusiasmo”
(idem,301). Assim, desnaturaliza uma questão que final-
mente é moral e histórica, inserida em uma trama de
valores que se travestem em verdades definitivas.
A maternidade perde assim seu caráter inexorável
e toma em sua análise uma perspectiva de retomada
de seus corpos pelas mulheres, identificando na procri-
ação compulsória uma das chaves do poder patriarcal.
De Beauvoir discute e desmistifica o desejo de mater-
nidade, o amor materno como partes constitutivas
do feminino. Sublinha que “[…] É preciso estar atento
pois as decisões e os sentimentos expressos pela jo-
vem mãe não corresponde sempre à seus desejos mais
profundos”(idem, 301). Afastando o essencialismo que
fixa as mulheres numa classificação e num modelo
único, tenta mostrar o múltiplo da experiência con-
creta das mulheres em práticas sociais diversas.
Mostra a relação contraditória das mulheres em
relação à vontade de ser mãe em diferentes fases de
suas vida ou num misto de desejo/repulsa. Indica
igualmente a força da relação com o pai da criança:
“A mulher modelará muitas vezes seus sentimentos

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Figuras de mulher em Simone de Beauvoir: a mãe, a prostituta

sobre os de seu marido se lhe tem afeto: acolherá gra-


videz e maternidade com alegria ou desagrado segun-
do ele demonstre orgulho ou impaciência”, afirma
(idem, 306).
Esta contextualização do amor materno é inova-
dora na medida em que o discurso social torna inse-
parável a imagem da “verdadeira mulher” e da mãe.
As mulheres tornar-se-iam sexo e sexualidade, na me-
dida em que seu ser só atinge a plenitude na prática
heterossexual. O corpo das mulheres só seria inteligí-
vel se adequado às matrizes determinantes de sua ação
e de suas imagens.
Inserida nesta trama de representações Simone de
Beauvoir, mesmo desconstruindo o essencialismo, nele
recai ao declarar que: “É pela maternidade que a mu-
lher cumpre integralmente seu destino fisiológico: é
sua vocação ‘natural’ pois todo seu organismo é ori-
entado pela perpetuação da espécie”(idem, 290). Esta
afirmação é, entretanto, matizada, pois para ela “[…]
a sociedade humana não é nunca apenas natureza”
(idem, 290).
Temos assim, para a autora, uma base ‘natural’,
biológica, sobre a qual se inscreveriam os ditames so-
ciais: “[…] diz-se de uma mulher que se ela é coquette,
ou apaixonada ou lésbica ou ambiciosa é ‘por não ter
filhos’; sua vida sexual, seus objetivos, os valores que
afirma seriam apenas substitutos de filhos. […] É uma
moral social e artificial que se esconde sob este pseudo-
naturalismo. Que uma criança seja o fim supremo da
mulher, isto é uma afirmação que tem apenas o valor
de um slogan publicitário” (idem,338).
As mulheres retomam, desta forma, a posse de
seu corpo enquanto ser social, cujo destino deixa de
ser atrelado a seu potencial reprodutor: este passa a
ser uma escolha, livre, de um sujeito no mundo. A
possibilidade aqui, apaga a necessidade. A construção
social dos papéis surge claramente nesta análise, marco
importante na quebra da imagem que fazia da mater-
nidade a essência e a razão de ser da mulher, núcleo

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de coerência do feminino. De Beauvoir considera que


“[…] não existe ‘instinto’materno: a palavra não se
aplica de forma alguma à espécie humana. A atitude
da mãe é definida pelo conjunto de sua situação e
pela maneira pela qual ela se assume. E é, como vimos,
extremamente variável” (idem,324).
As reflexões teóricas dos feminismos que se segui-
ram analisaram este determinismo biológico e identi-
ficaram na construção e na apropriação dos corpos
das mulheres o aparatus histórico e social da divisão
binária da sociedade. Deste modo a declaração do
naturalismo “[…] que o status de um grupo humano,
como a ordem do mundo que assim o instaura, é
programado do interior da matéria viva”(Guillaumin,
mars 1978:10) é criticada por Collete Guillaumin: “É
uma idéia singular que as ações de um grupo humano,
de uma classe, são ‘naturais’: que elas são independen-
tes das relações sociais, que elas pré-existem à toda
história, à todas condições concretas determinadas”
(Guillaumin, mars 1978:11).
Betty Friedan, por sua vez, analisa a mística do fe-
minino, e o assujeitamento das mulheres americanas:
“A mística da mulher pretende que o único valor para
uma mulher e seu único dever residem na realização
de sua feminitude. […] que não pode desabrochar
senão na passividade sexual, na aceitação da domina-
ção do marido e o dom de si no amor (Friedan, 1963:
40/41). Para esta autora, tão denegrida e vilipendiada
à época, a imagem desta mulher dos anos 50/60 se
resume na definição: “profissão-do lar” (Friedan, 1963:
41). E acrescenta: “Um mundo sem fronteiras se re-
duzia às dimensões de um lar quente e confortável”
(Friedan, 1963: 41).
A análise de Friedan, que traduz as mesmas inquie-
tações de Beauvoir penetra, entretanto, mais profun-
damente nos mecanismos representacionais que insti-
tuem o feminino enquanto essência imutável: “Quando
uma mística é suficientemente forte ela encarna sua
própria representação nos fatos. Ela se alimenta nos

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Figuras de mulher em Simone de Beauvoir: a mãe, a prostituta

fatos que deveriam contradize-la e se infiltra em cada


interstício da cultura […]” ( Friedan, 1963: 61). De
Beauvoir comenta, porém, que “[…] quantidade de
mulheres são intimidadas por uma moral que mantém
a seus olhos seu prestígio, mesmo se elas não podem
seguí-la em sua conduta […] (Beauvoir, 1966: 298).
Se entendemos as representações sociais como uma
forma de conhecimento socialmente elaborada e par-
tilhada, que nas relações sociais institui a realidade
(Jodelet,1989:36) podemos entender, assim, o assu-
jeitamento das mulheres a um saber elaborado em
lugares de autoridade que as reduz a um corpo/sexo/
matriz.
A instituição social do casamento e a maternidade
como seu corolário aparece nestas imagens constitutivas
do “ser mulher” como o locus ideal do feminino no
social; entretanto, a análise feminista vai além desta
cristalização de um destino binário do mundo, identi-
ficando a matriz heterossexual como o mecanismo
produtor de corpos “diferentes” e complementares,
3 O volume 3 das Dames du inexoravelmente ligados.3
XII siècle de Georges Duby Assim, em 1981, Adrienne Rich indaga se: “[…]a
(Gallimard, 1996) nos traz
os indícios da construção grande questão do feminismo […] não é também a
discursiva, pelo discurso da heterossexualidade obrigatória para as mulheres,
religioso, das representa- como meio de assegurar um direito masculino de uti-
ções de perversidade intrín-
seca das mulheres e sobre- lização física, econômica e afetiva sobre as mulheres?
tudo, da instituição do casa- (Rich, 1981:31). E continua “Mas a incapacidade de
mento e da sexualidade he-
terossexual, como elemento
ver na heterossexualidade uma instituição é da mesma
de ordenação do mundo, ordem que a incapacidade de admitir que o sistema
em uma realidade compos- econômico nomeado capitalismo […] é mantido por
ta de práticas múltiplas. O
autor, entretanto, adota esta um conjunto de forças que compreendem tanto a vio-
linha de análise. lência física quanto a falsa consciência” (Rich, 1981:31).
De fato, a diferença biológica adquire sua impor-
tância num conjunto semiótico e simbólico, que tem
como referente a reprodução; no sistema representa-
cional do patriarcado, onde o masculino se erige como
norma do humano, pólo hierarquicamente superior,
a capacidade de procriação do feminino torna-se o
próprio feminino.

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Isto faz do ser humano, mulher, a fêmea humana,


cuja existência se justifica apenas na sua capacidade de
reprodução. Guillaumin sublinha que “[…] ideologi-
camente as mulheres são o sexo, inteiramente sexo e
utilizadas neste sentido […]. O sexo é a mulher, mas
ela não possui um sexo: um sexo não pode possuir a
si mesmo” (Guillaumin, mars 1978:7). No confina-
mento da mulher à sua função reprodutiva, Beauvoir
já comentava que “[…] ela engendra na generalidade
de seu corpo, não na singularidade de sua existência”
(Beauvoir, 1966:308).
Assim, por um lado, o discurso da ‘natureza’ faz
da possibilidade de procriação a essência das mulhe-
res, tirando-lhes ao mesmo tempo o papel de sujeito
e a posse de seu corpo; por outro, a instituição do
casamento em particular e da heterossexualidade obri-
gatória em geral fazem com que as mulheres possam
ser apropriadas individual e coletivamente pelos ho-
mens em sua força de trabalho e na produção de sua
sexualidade.
Tecida em uma densa rede discursiva que entrelaça
memória, tradição e autoridades diversas a repre-
sentação da verdadeira mulher “mãe e esposa”, “do
lar”, é ainda hoje a imagem e o quotidiano da maioria
das mulheres. A multiplicidade dos desejos e da ex-
periência das mulheres, já apontadas por Simone de
Beauvoir, tende a se fechar em torno da homogenei-
zação do Mesmo. O eterno feminino, está assim pre-
sente nas tecnologias de reprodução do gênero: o senso
comum, os mídia em suas diferentes formas (tele-
visão, cinema, impressos) e os discursos sociais dotados
de autoridade (religioso, político, médico, jurídico,
científico).
A análise de Beauvoir em 1949 é ainda totalmente
válida em nossos dias, ao analisarmos revistas femi-
ninas como Nova, Elle, Marie Claire: “Os jornais
femininos ensinam abundantemente à mulher ‘do lar’
a arte de permanecer atraente sexualmente mesmo
lavando a louça, de continuar elegante na gravidez, de

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Figuras de mulher em Simone de Beauvoir: a mãe, a prostituta

conciliar coquetterie, maternidade e economia […]”


(idem, 342), comenta de Beauvoir.

A banalização da prostituição

Isto nos leva à figura da prostituta, o lado sombrio


e negativo da representação construída sobre a mulher-
mãe na historicidade discursiva ocidental. Simone de
Beauvoir inicia seu capítulo sobre a prostituição afir-
mando que “o casamento […] tem como correlato
imediato, a prostituição” e cita Morgan, que, em seu
evolucionismo, assegura a existência da prostituição
desde o início dos tempos.
A famosa frase “a mais antiga profissão do mun-
do” cria e reproduz a idéia da existência inexorável da
prostituição; nesta asserção é mantida no senso co-
mum a noção da essência maléfica e viciosa das mu-
lheres que através dos tempos se concretiza na figura
da prostituta. Beauvoir se insurge contra esta afirma-
tiva e declara que “nenhuma fatalidade hereditária,
nenhuma tara fisiológica pesa sobre elas (as prostitu-
tas)” (idem, 377).
Delimitada pela noção de essência e permanência,
a prostituição vai perdendo sua historicidade e a pró-
pria variação semântica da palavra desaparece sob
generalizações no mínimo insustentáveis. Por exemplo,
a “prostituição sagrada” na antiguidade dos povos
orientais é uma interpretação anacrônica, pois insere
em valores do presente – o sexo mercantilizado – a
4 Ver Merlin Stone. “Quand análise de um ritual simbólico de renovação da vida.4
Dieu était femme”. Ed. Ètin- Mas assegura, no discurso oficial, a representação das
celle, Montréal, 1979.
mulheres enquanto prostitutas desde a aurora dos tem-
pos conhecidos.
A questão é igualmente aqui: o que é uma prostitu-
ta? Cada época tem sua definição e seus limites que
vão desde a mulher que não é casada e tem um amante
até a profissão que ela exerce, como até pouco tempo,
no Brasil, as aeromoças. Se o termo contém uma su-
posta relação mercantil, a representação da prostituta

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atinge todas aquelas que não se enquadram na norma


da esposa-mãe.
Beauvoir afirma que “a prostituta é um bode expia-
tório; o homem descarrega nela sua torpeza e a rene-
ga” (idem, 376) e continua […] a prostituta não tem
direitos de uma pessoa, nela se resumem, ao mesmo
tempo, todas as figuras da escravidão feminina.” E
descreve o que significa para ela a prostituição: “a baixa
prostituição é um trabalho penoso onde a mulher
oprimida sexualmente e economicamente, submetida
ao arbítrio da polícia, à uma humilhante vigilância mé-
dica, aos caprichos dos clientes, destinada aos micró-
bios e à doença, é realmente submetida ao nível de
uma coisa” (idem, 389).
Afirma ainda que “[...] a maior parte das prostitu-
tas estão moralmente adaptadas à sua condição; isto
não significa que elas sejam congenitamente ou here-
ditariamente imorais, mas que se sentem, com razão,
integradas à uma sociedade que reclama seus serviços”
(idem, 388). Estas frases contém um sem-número de
questões: a prostituição como o resultado de relações
sociais hierárquicas de poder; como resultado igual-
mente de uma situação moral invertida; como objeti-
ficação total da mulher nas instâncias sexual e econô-
mica submetida à ordem masculina; como instituição
partícipe do funcionamento do sistema patriarcal;
como uma forma de trabalho. Estes indícios analíti-
cos irão alimentar o debate feminista posterior, como
veremos adiante.
De Beauvoir analisa as possíveis causas que levariam
as mulheres à prostituição e em sua argumentação trans-
parece uma passividade, uma lassidão, uma indiferença
ligada inclusive à classe social. Para a autora, no meio
camponês “[…] há um grande número de jovens que
se deixam deflorar pelo primeiro que aparece e que
acham natural em seguida, dar-se a qualquer um”
(idem, 379). Acrescenta ainda: “[…] elas haviam con-
sentido com indiferença, sem sentir nenhum prazer”
(379). Os exemplos que invoca, de ingenuidade, dei-

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Figuras de mulher em Simone de Beauvoir: a mãe, a prostituta

xam, entretanto, perceber o estupro e a violência na


vida das prostitutas: “Srta.G. de Bordeaux, saindo do
convento com 18 anos, deixa-se levar por curiosidade
e sem malícia à uma tenda onde é deflorada por um
desconhecido” (idem, 379), […] S., com 14 anos, deflo-
rada por um jovem que a atrai para sua casa sob o
pretexto de apresentar-lhe sua irmã”, etc(idem, 380),
exemplifica.
A este respeito, Beauvoir comenta: “Estas jovens
que cederam passivamente, sofreram com certeza o
traumatismo do defloramento; gostaríamos de saber
a influência psicológica que esta brutal experiência teve
sobre seu futuro; mas não se psicanalisa “as putas”,
elas não sabem se descrever e se escondem sob os
clichês” (idem, 380).
Meninas abandonadas pelos pais, pelos amantes
ou maridos, falta de oportunidade de trabalho, falta
de capacitação, sedução e exploração, escravidão se-
xual, medo, são causas arroladas por Beauvoir para a
prostituição. Coloca portanto, sob o signo do social a
existência da prostituição num contexto de violência
implícita ou explícita, desmascarando “a mais antiga
profissão do mundo”.
Entretanto, faz uma diferença entre a prostituta e a
hetaïra, da qual a “star” seria o último avatar, pois pa-
ra a autora “Sempre houve entre a prostituição e arte
uma passagem incerta, pelo fato que se associa de
forma equívoca, beleza e voluptuosidade” (idem, 390).
E define: “[…] sirvo-me da palavra ‘hetaïra’ para desig-
nar todas as mulheres que tratam, não somente seus
corpos, mas sua personalidade inteira como um capi-
tal à explorar” (idem,390).
Por um lado Beauvoir desnaturaliza a prostituição
e aponta para um sistema de poder e violência, que
arrasta grande número de mulheres à prostituição; por
outro, analisa as vedettes como “grandes” prostitutas,
que escolhem esta condição para melhor se promo-
ver. Ou seja, é uma decisão de carreira e neste caso, a
profissão passa pelo corpo, obstáculo ou força, mas

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sempre intermediário: a mulher é seu corpo.


Neste caso, diz Beauvoir: “[…] paradoxalmente,
as mulheres que exploram ao extremo sua feminitude
criam uma situação quase igual à de um homem; a
partir deste sexo que as dá aos machos como objetos,
elas se reencontram sujeitos (idem, 392). E acrescenta
[…] o dinheiro tem um papel purificador [...] fazer o
homem pagar […] é transformá-lo em instrumento
[...] a posse sexual é ilusória, é ela que o possui no ter-
reno mais sólido da economia” (idem, 393).
Este argumento é retomado nos dias atuais em
termos de poder: a mulher teria algo tão desejável
que faria o homem se submeter a pagar por isto, diz a
revista Nova em 1999. O patrão que paga um salário
torna-se assim instrumento e posse de seu operário?
Que estranho poder é este que deteria o vendedor,
tributário do comprador? Que tipo de raciocínio é
este que seria destruído em segundos por qualquer es-
tudante de economia e se sustenta na análise da prosti-
tuição? De toda maneira, o dinheiro ganho pelas pros-
titutas raramente fica em suas mãos.
Em nossos dias, o debate gira ainda em torno
destas questões: Beauvoir conseguiu identificá-las e os
termos de sua análise, mesmo que modificados, ainda
estão presentes.5 5 O debate feminista atual so-
bre a prostituição tem se
De fato, no estupro e no abandono material e psi- dividido em dois campos:
cológico encontram-se raízes da prostituição; no o que defende a prostitui-
aliciamento para o mundo artístico, inumeráveis jovens ção como profissão e o que
advoga a extinção da pros-
desaparecem no tráfico de internacional de mulheres; tituição pelos mais diversos
muitas são vendidas e confinadas em bordéis; no apelo meios.
ao consumo e na falta de oportunidades de trabalho,
na ausência de capacitação profissional e mesmo de
alfabetização, outras passam a vender seus corpos.
Estas são situações de fato, levadas em conta pelos
feminismos quando se debruça sobre a experiência
singular das mulheres, colocando-se em sua defesa e
proteção. Sob a égide da legalização da prostituição
encontram-se estes casos díspares e um imenso mer-
cado que mal disfarça seus interesses. A mercadoria é

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Figuras de mulher em Simone de Beauvoir: a mãe, a prostituta

o corpo ou o sexo das mulheres e meninas. Por vários


motivos, a prostituição não pode ser assimilada a um
trabalho, a uma profissão: numa relação profissional
ou mercantil, o que se vende é o trabalho ou o produto
do trabalho. Na prostituição, o corpo das mulheres
seria seu produto? Como ser força de trabalho e ao
mesmo tempo seu produto? Isto é a re-naturalização
do sexo feminino, a sua transformação de ser hu-ma-
no em carne, cujo destino é a satisfação do desejo de
outrem.
Confundir prostituição e trabalho é dotá-la de uma
dignidade que não possui no imaginário e na mate-
rialidade social – o linguajar popular exprime o des-
prezo social em relação à prostituta ao usá-la como
um dos insultos máximos. É a forma falaciosa de justi-
ficar o completo assujeitamento das mulheres a seu corpo
sexuado, mergulhando-as na total imanência. É a me-
lhor maneira de perpetuar a prostituição, igualmente,
na medida em que as próprias mulheres defenderiam
sua profissionalização, para escapar ao opróbrio, às
perseguições legais e à própria auto-representação,
fincada num imaginário de degradação.
Assim, discriminalizar é uma coisa e profissionalizar
é algo muito diferente: discriminalizar é proteger as
mulheres prostituídas do arbítrio legal e da exploração
dos cafetões; profissionalizar é integrá-la ao funciona-
mento do mercado de trabalho, banalizando e norma-
lizando a apropriação das mulheres pelos homens, na
expressão paroxística da matriz heterossexual, na
reafirmação do patriarcado enquanto sistema.
A prostituição é, portanto, uma instituição social
que materializa a apropriação geral da “classe” dos
homens em relação à “classe das mulheres”, (Guillau-
min, 1978) historicamente constituída nas relações so-
ciais e que tende a ser naturalizada.
A prostituição enquanto “escolha” de uma “profis-
são” obscurece a profunda esquizofrenia do olhar lan-
çado sobre as prostitutas, destituídas de toda perspec-
tiva psicológica, capazes de cindir, no exercício da se-

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Tânia Navarro-Swain

xualidade, da “ profissão” , seu corpo e sua mente,


seu corpo e suas emoções. Evidentemente, os consul-
tórios de psicólogos e psicanalistas estão repletos de
mulheres e homens com problemas sexuais; as prosti-
tutas, entretanto, não são afetadas por estas disfunções,
já que se trata de um “trabalho”, de uma “escolha”.
As imagens que são produzidas pela televisão, pelo
cinema, pela literatura, mostram os bordéis como ca-
sas de alegre convivência, de felizes encontros, de doces
recordações – para os homens talvez – escondendo a
sombria realidade de seres despojados de seu corpo
e de sua humanidade. Imersa em suas condições de
produção e limitada pelos instrumentais teóricos de
que dispunha, Simone de Beauvoir pode, entretanto,
detectar as questões que hoje ainda fazem problema.6 6 A escolha de referências de
autoras feministas dos anos
1970 é proposital, na medida
Pequena questão final em que aponta para o vigor
das análises realizadas à épo-
ca e retomadas, em vários
Falar constantemente de maternidade e de prosti- casos, por autoras de re-
tuição como construções binárias do feminino, não é, nome na atualidade, como
Judith Butler e Teresa de
finalmente, reinstalá-las no discurso social, refazer a Lauretis.
dicotomia, mesmo ao criticá-las? A materialidade das
relações sociais apelam, entretanto, para um posicio-
namento político e a análise crítica é um dos vetores
que pode rasgar as tramas dos discursos e suas práticas.

Referências bibliográficas

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