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FABIANE VINENTE DOS SANTOS

Filhas de Eva no País das Amazonas: gênero, sexualidade e condição feminina nos jornais

de Manaus (1890-1915)

Manaus

2006

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Dedicatórias

A Jean: amor, amigo, parceiro, companheiro, cúmplice.

A todas as mulheres deste estudo, por tudo o que ousaram e calaram para que eu estivesse aqui.

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Agradecimentos

Agradeço a todos que de alguma forma contribuíram para o resultado deste trabalho:

Ao apoio recebido dos colegas do Centro de Pesquisa Leônidas & Maria Deane, especialmente das pessoas de Alice Alecrim e Ana Felisa Hurtado Guerrero, fundamentais para a conclusão do mestrado que deu origem a este trabalho. Suas palavras e ações de incentivo nos momentos mais difíceis contribuíram para amenizar os dissabores e obstáculos enfrentados nesse período turbulento. Este trabalho também é um pouco de vocês.

A Universidade Federal do Amazonas, minha “casa” desde a graduação, por tudo que ela

representa para a Amazônia e para o Amazonas.

Ao Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia, professores e coordenação, por levarem adiante este projeto tão importante para a formação de um pensamento social compromissado com o conhecimento regional.

Aos professores, Iraildes Caldas e Nelson Noronha, que contribuíram para a estruturação desta pesquisa através da composição da bancas de qualificação e ao Professor Ernesto Renan Freitas Pinto, que generosamente fez preciosas sugestões na banca de defesa do trabalho.

À Professora Heloísa Lara Campos da Costa, orientadora desta minha primeira aproximação

acadêmica com o universo feminino.

À Cinthia Barreto, pela colaboração na coleta de dados em campo.

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“As pessoas já que tiveram o mau ensejo de encontrar-se com a visagem dizem que ela apresenta exterioridades femininas, trajando vestes amplas e pannejantes, mais ou menos parecidas com saias. Enquanto, porém, do conteúdo dessas saias nada se pode conjecturar, porque nem o hábito faz o monje, nem as saias a mulher. Só temos portanto que julgar pelas apparencias, sobretudo porque o fantasma não tem cabeça pela qual se poderia inferir o seu sexo. A falta de cabeça é, entretanto, considerada pelos maliciosos como uma prova evidente de que o fantasma pertence ao bello sexo. Previno às leitoras d’O Rio Negro que não subscrevo tal opinião, pois sou incapaz de negar que as mulheres tenham cabeça. É verdade que algumas filhas de Eva têm a cabeça fraca, mas não a deixam de ter. Diz-se também que as mulheres às vezes perdem a cabeça, mas isso é uma metaphora que não calha ao caso do fantasma – effectivamente destituído da parte culminante da figura humana”.

(Manaus, O Rio Negro, n. 116 de 22/11/1897)

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INTRODUÇÃO

1 PROGRESSO

E

FEMININAS

CIVILIZAÇÃO

SUMÁRIO

NA

REGULAÇÃO

DAS

CONDUTAS

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2 SUBVERTENDO A ORDEM: DIVERSÕES, RESISTÊNCIAS E CRIMINALIZAÇÃO DA SEXUALIDADE

3 USOS DO CORPO FEMININO: A MEDICINA DA MULHER, O SEXO DOENTE E O SEXO PERVERTIDO

CONCLUSÃO

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FONTES CONSULTADAS: PERIÓDICOS

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

161

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01 Tabela 1

Lista de tabelas

p. 88

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INTRODUÇÃO

Sobre escarradeiras, enchentes e relógios…

Disposta em alguns dos muitos cômodos do Teatro Amazonas, em Manaus, no piso

superior, é possível visitar uma exposição permanente de alguns objetos emblemáticos da

história do edifício e da própria cidade.

A coleção conta com objetos peculiares como belas

escarradeiras de porcelana, utilizada pelos expectadores durante os espetáculos, assentos

originais da platéia, binóculos e outros utensílios que remetem os visitantes à estética art

noveau, ao luxo e à glória de uma era mágica, cujos resquícios são conservados com extremo

cuidado e exibidos com a nostalgia devida à lembrança de uma festa inesquecível.

Encravado no coração da cidade de Manaus, com sua arquitetura neoclássica, o Teatro

Amazonas representa a apoteose do espírito burguês que predominou entre o final do século

XIX e início do século XX. Atualmente, o Teatro possui lugar privilegiado nos cartões postais

de Manaus e é parada obrigatória para os visitantes. A exemplo da maioria dos pontos

turísticos, conta com a estrutura de visitas guiadas, tudo para proporcionar aos estrangeiros um

pouco de conhecimento sobre a importância do Teatro e o contexto de sua construção – a “era

dourada” da borracha.

Tomando como ponto de partida a reflexão sobre a aparente hegemonia da Belle Époque

como único passado possível para Manaus,

cabe-nos inicialmente abandonar a disseminada

“naturalidade” com que o acontecimento da borracha é adotado como referência nesta relação

do passado do lugar com seus moradores. Se por um lado o fausto é evocado como um marco

zero destacado dentro da historiografia amazonense, especialmente pelo poder público que o

utiliza proficuamente nas campanhas publicitárias de turismo e eventos culturais a fim de

vender a imagem de uma cidade culta, amante das artes e com uma consolidada tradição a ser

preservada neste sentido, por outro, à medida que mergulhamos nestas constatações, torna-se

mais perceptível a ausência de outros referenciais da cultura e da história local. As obras que

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destacam biografias pessoais de “grandes homens”, por exemplo, esquecem dos demais atores:

os índios, os imigrantes, os seringueiros, as mulheres. Estas ausências estão relacionadas à

forma como um povo lida com seu passado e ao modo como construímos a memória da cidade.

As dimensões tempo e espaço são a essência de nossa representação sobre aquilo que

chamamos de realidade.

Todo o sistema social comporta essas duas noções, e cada sociedade escolhe que

gradações cada um terá. Para os Nuer, povo sudanês, o tempo é calibrado por noções ecológicas

(dia e noite, as estações do ano) e por aspectos singulares da vida dos membros, como as classes

e gerações, marcando o passado pelo nascimento de algum membro mais velho, por exemplo, o

que fornece um significado de tempo totalmente diverso do ocidental. As unidades de tempo,

estas também definidas pelos grupos (dias, meses, luas, estações, a visualização no céu de uma

estrela

determinada),

tornam-se

visíveis

à

medida

que

estão

ligadas

a

uma

atividade

convencionalmente marcada pelo grupo. (Evans-Pritchard, 2000).

A forma pretensamente universal como marcamos o tempo nos países ocidentais,

utilizando medidas oficiais, também está inserida numa determinada formulação cultural –

afinal, nosso “marco zero” é o nascimento da divindade cristã, religião sob a qual a própria

civilização ocidental ergueu-se. Desta forma, nossa noção de tempo foi disciplinada e pôde ser

então apropriada para os mais diversos fins, como os atos de vender e comprar, e para as

diversas tarefas, regulando o tempo de trabalho, de descanso, etc. Apesar da força destes

convencionalismos, diferentes formas de medir o tempo continuam a ser operacionalizadas

paralelamente a oficial. Estas formas “alternativas” estão relacionadas às formulações que

escapam do racionalismo aplicado às convenções universalizantes. Por exemplo, em Manaus

um dos marcadores de tempo mais populares são as cheias do rio Negro. As maiores cheias são

rememoradas para fazer referência a algum fato especial 1 .

1 Quem em Manaus nunca ouviu falar da famosa “cheia de 1953”, ou da de 1988? Estas são evocações comuns na fala dos mais velhos, como se fosse uma escala diferenciada de mensuração do tempo. Um exemplo de concretização deste tipo de marco temporal pode ser visto da régua marcadora das cheias que se encontra no Porto do Roadway, em Manaus, onde aparecem testificadas, com as respectivas marcas d’água, as datas das maiores cheias.

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Segundo DaMatta, para serem concretizados, tempo e espaço precisam ser sentidos e

vividos como “coisas” de um sistema de contrastes. Desta forma, a memória é construída a

partir de uma enciclopédia de temporalidades e espaços, na qual os valores atribuídos variam

em intensidade de acordo com a importância social dada aos fatos e a forma como são

organizados e vividos.

Reter o tempo e torná-lo algo perpétuo, controlado, capaz de voltar todas as vezes em que é invocado. Assim é que cada sociedade ordena aquele conjunto de vivências que é socialmente provado e deve ser sempre lembrado como parte e parcela do seu patrimônio – como mitos e narrativas -, daquelas experiências que não devem ser acionadas pela memória, mas que evidentemente coexistem com as outras de modo implícito, oculto, inconsciente, exercendo também uma forma complexa de pressão sobre todo o sistema cultural (Da Matta, op. cit, 37).

É desta forma que o tempo é evocado de maneiras diversas da homogeneidade

pretendida pelos relógios e calendários, e que certas datas, décadas, séculos ou eventos são

rememorados com mais prazer ou destaque que outras, e também desta forma que certas

temporalidades são “remodeladas” pela imagem mais marcante que a caracteriza, num exercício

de reconstrução do passado pela ação da memória. Esse parece ser o caso de Manaus em

relação ao período que vai das últimas décadas do século XIX às duas primeiras do século XX,

quando a atividade extrativista da borracha (Hevea brasiliensis) proporcionou uma grande

circulação de capital na cidade, repercutindo na aceleração da urbanização e em transformações

na ordem social. Durante o período de circulação do capital proveniente da borracha, toda uma

série de representações sobre o período foi engendrada, a maioria no sentido de enfatizar a

riqueza – tornando esta a marca do período, conhecido como “fausto” e ocultar a desigualdade

social que imperava, a ponto de praticamente subsumi-la.

Assim como outras cidades que reuniam condições econômicas para tal, Manaus sofreu

uma reforma urbana de grandes monta a partir do último quartel do século XIX. Guardadas as

proporções, Paris sofreu processo análogo entre 1853 e 1870, com as reformas urbanísticas do

Barão Haussman (Ortiz, 1991; p. 21), e no Brasil podemos citar o “Bota-abaixo” do prefeito

Pereira Passos no Rio de Janeiro, a partir de 1904, com a demolição de cortiços para a abertura

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de grandes avenidas, o que demonstra que, apesar da fenomenal estruturação proporcionada

pelas reformas urbanas nas “cidades da selva” (Belém e Manaus), estas estavam apenas

sintonizadas com uma tendência geral nas cidades ocidentais: o processo de urbanização e a

elevação das cidades a centro da vida social 2 .

O desenvolvimento urbano não era um processo isolado, mas estava articulado com

outros eventos externos e internos, como a proclamação da República e ao nascimento de uma

ideologia “civilizadora” nascida não apenas em função da borracha, mas em função de um

projeto de sociedade que já vinha se delineando desde a época do Império (DAOU 1988).

Este período coincide com o incremento do capitalismo mercantil na região através do

grande volume de lucro obtido pela venda da borracha no mercado internacional 3 . É necessário

que se lembre do significado da expansão gomífera para a região, que se transforma

repentinamente numa “metrópole das selvas”. As conseqüências dessa transformação foram a

circulação em Manaus - e em outras regiões amazônicas como Belém e algumas cidades no

Peru, Bolívia e Colômbia - de um volume de capital nunca visto, o aumento desmesurado das

imigrações, a ascensão das ideologias liberal no quadro político do republicanismo, e as

reformas

urbanas,

a

formação

de

uma

elite

“gomífera”,

cujo

enriquecimento

rápido

proporcionou a elaboração de um projeto de sociedade onde a riqueza, a beleza e o progresso

caminhariam juntos numa metrópole com arquitetura aos moldes europeus, tudo recheado pelos

2 O que torna a transformação de Manaus tão extraordinária é a rapidez do processo. Manaus só ganha status de vila em 13 de novembro de 1832, quando a denominação tradicional do povoamento, Lugar da Barra, é substituída por Vila da Barra; a Vila passa a sediar a Capitania de São José do Rio Negro definitivamente. Até então, O Lugar da Barra havia alternado o posto de sede da capitania com Mariuá (atual Barcelos), desde a criação da Capitania pela Carta Régia de 03 de março de 1755. Em 13 de novembro de 1832, o Lugar da Barra passou a categoria de vila, com o nome de Vila da Barra. Se levarmos em conta que na década de 1870 Manaus já começava a sofrer a implantação de uma nova dinâmica urbana, o que significa que num espaço de 30 anos temos o desenvolvimento de um processo de urbanização em ritmo acelerado. 3 Caracterizada desde os primórdios da colonização por uma economia fundamentada no extrativismo e na agricultura de subsistência (embora houvesse uma agricultura incipiente), a Amazônia viu-se, no final do século XIX, como um dos elementos fundamentais no desenvolvimento da revolução industrial que alcançava seu ápice na Europa. Embora a borracha (Hevea brasiliensis) já tivesse encontrado uso através da fabricação manufaturada de produtos como sapatos, bolas e seringas, clandestinamente transportados em pequena escala para a Europa já no final do século XVIII, foi somente com o desenvolvimento de técnicas de otimização da borracha como o processo de vulcanização desenvolvido em 1844 por Goodyear que o produto encontrou seu nicho definitivo na pauta de exportações brasileiras, tornando-se junto com o café, o maior produto nacional (SOUZA, 1998).

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ideais do positivismo que penetrava na selva a partir dos segmentos médios urbanos que se

instituía a partir do crescimento da cidade.

Desse modo, temos no século XIX um cenário de grande intensidade social, que

transformaria definitivamente a região e o Amazonas. Escolher uma área urbana delimitada

como no caso da cidade de Manaus, ao invés de analisar outros centros urbanos que se

formavam na Amazônia, nos possibilitou maior facilidade na localização, seleção e reunião de

dados para a pesquisa.

Belle Époque é o termo cunhado posteriormente no século XX na França para

denominar um período compreendido convencionalmente entre os anos de 1880-1914, como

lembra Ortiz (1991). Na Europa, estava associado à “crise” de diversos significados: crise nas

instituições tradicionais, crises financeiras, crise de crenças; mesmo assim, foi guardada na

memória do Ocidente como a era da instituição do desejo pelo belo, da nostalgia que

proporcionou o resgate da estética clássica, expressa na popularização da arquitetura e da arte

que imitava os antigos gregos. Na Amazônia, contudo, a Belle Époque representa a “entrada”

desta região na modernidade, com a disseminação do modo ocidental de vida e profundas

mudanças na ordem das mentalidades. A contextualização da “modernidade nos trópicos”

implica numa reflexão profunda a respeito de qual foi o significados destas transformações sob

o ponto de vista da sociedade da época. Neste contexto, as respostas, e mesmo as questões, não

estão dadas tão simplesmente quanto possa parecer.

Nesta

pesquisa,

trabalhamos

com

a

perspectiva

de

sexualidades

padronizadas

e

resistências a esses padrões. Foi importante abordar quais eram as bases das padronizações, no

caso a cultura burguesa, brilhantemente trabalhada por Peter Gay (1998), além de Ortiz (1998)

que caracterizou os primórdios da modernidade na França, matriz cultural do Ocidente na

época.

A “cultura burguesa” enfatizada por Gay está relacionada a um modo de conceber o

mundo muito particular dos segmentos médios urbanos no final do século XIX e início do

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século XX, pela ascensão da ideologia liberal, o positivismo, o republicanismo e pela

valorização de hábitos e posturas de distinção meritocráticas – ao invés da hereditariedade e da

linhagem, relacionadas à aristocracia européia - como a leitura dos clássicos, o domínio de

outros idiomas como o latim e o francês, além da reificação da ciência e do empirismo como

formas de explicar o mundo e os fenômenos. Por “cultura burguesa” não devemos entender uma

categoria, mas um conjunto de atitudes significativas para a constituição do sentido moderno.

Devemos esclarecer ainda que o uso do termo “cultura burguesa” neste trabalho não

pressupõe o uso da categoria “classe social” – burguesa ou não - como matriz epistemológica, o

que demandaria aportes teóricos bem diversos dos utilizados aqui, onde propomos um diálogo

da Antropologia Social com disciplinas como História e Sociologia. Por outro lado, tornar-se-ia

quase impossível expressar as transformações ocorridas no pensamento social no período sem

fazer uso do termo “burguesia”, tomado aqui na acepção de determinado ethos cultural, da

mesma forma que o fez Peter Gay em A educação dos sentidos (1988). Optamos por trabalhar

com tópicos temáticos relacionados, por exemplo, às prédicas morais para mulheres casadas, às

visões da imprensa sobre a prostituição ou mesmo sobre a questão do corpo feminino e a

intervenção da medicina e suas nascentes áreas especializadas na mulher: ginecologia e

obstetrícia.

A modernidade caracteriza-se ainda pela institucionalização e valorização de modelos

de conduta de “civilidade”, os signos de civilização, como chama Nobert Elias (1995), nascidos

a partir do desenvolvimento da vida urbana e dos valores ocidentais. A moral sexual, que até

então recebera as atenções da Igreja durante o processo de cristianização do Ocidente até o

depois do Renascimento, começa a sofrer um outro tipo de controle, baseado não mais no

sentido religioso, mas em outros pressupostos cunhados nas transformações do momento, que

repercutem por motivos diversos na instituição do modelo heterossexual monogâmico de

família burguesa.

23

Carneiro (2000, p. 21) chama a atenção para a força deste modelo, que por ser tão

característico da civilização ocidental, não chegou a ser contestado nem mesmo pelos autores

mais críticos da herança cultural cristã como Engels e Freud. O confisco da sexualidade

vitoriana pela família conjugal, e seu encerramento no interior da casa e do quarto do casal foi

citado por Foucault (1988). O impacto da instituição desse modelo poderia, segundo sua

hipótese, se mensurado pelo empenho de alguns mecanismos de poder em fortalecê-lo, sustentá-

lo e torná-lo hegemônico.

As chamadas “sexualidades ilegítimas” (op. cit., p. 10), já que não podem ser

subsumidas, foram ocultas, circunscritas a “circuitos de produção do lucro”, no dizer de

Foucault: os bordéis e as zonas de meretrício, onde o sexo teria liberdade para fornecer prazer,

já que este estava excluído da esfera conjugal. Em Manaus não seria diferente. A cidade não se

contenta só com o amor casto e idealizado dos folhetins. Surgem os rendez-vous, as casas de

tolerância e espaços do prazer como a praça dos Remédios, a rua Costa Azevedo e Itamaracá,

porque Manaus emerge sob o signo da satisfação dos desejos e inebriamento dos sentidos,

porque a riqueza e luxúria se misturam: há no poder e no dinheiro um forte elemento erótico.

A sexualidade impõe-se de forma definitiva na clivagem das mulheres promovidas pela

sociedade da época a partir das normas de comportamento, da circulação nos espaços e do

exercício da sexualidade. Nesse sentido, o espaço possui um papel importante como marco das

categorizações: o espaço doméstico como espaço de circulação das mulheres consideradas

honestas - esposas, mães e filhas, e aquelas que não se enquadravam nesta conceituação, tendo

na rua seu espaço de excelência. Analisar estas distinções e suas diversas formas de

representação foi o principal objetivo desta pesquisa, que partiu basicamente do questionamento

sobre como tem sido construída a imagem da mulher no Amazonas e de que formas as

representações engendradas nesta construção foram estruturadas no sentido moderno de

sexualidade.

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Para empreender a seleção de fontes da pesquisa, realizamos um mapeamento das

principais referências disponíveis sobre a vida social relacionados à sexualidade feminina no

período de 1890 a 1915 em textos de jornais, para em seguida estabelecermos uma criteriosa

análise crítica das fontes, problematizando aspectos relacionados à visão de mundo dos autores

dos documentos; dado o limitado tempo para tal tarefa, fomos obrigados a nos restringir em um

número modesto de referências, em quantidade bem menor do que a desejada inicialmente, nos

limitando a trabalhar com o acervo de jornais disponíveis em microfilmes, de mais fácil

manipulação e facilidade de acesso. 4

Dos vários títulos consultados, alguns de existência fugaz de alguns poucos exemplares,

consultamos jornais satíricos, de notícias e de grupos específicos como os de colônia de

imigrantes e religiosos. Entretanto, a maioria das referências trabalhadas na pesquisa é do diário

O Rio Negro, um jornal de postura republicana, pela sua maior disponibilidade, já que a maioria

dos microfilmes é deste periódico. Este fato reflete-se no caráter de algumas das afirmações que

fazemos ao longo do texto do trabalho, o que por vezes pode dar a impressão de fornecer apenas

“um lado da história”, aparentemente privilegiando o pensamento liberal-positivista. Entretanto,

não consideramos isto um fator negativo, uma vez que a afirmação e expressão dessas idéias

representavam grande parte dos embates ideológicos do período e podem nos fornecer um

panorama privilegiado das questões relacionadas ao papel da mulher na república e na

modernidade manauara. Evitamos jornais de edições únicas que tivessem como objetivo

exclusivo a homenagem de alguma figura pública, como era comum na época.

O jornal como meio de comunicação exerceu um papel político-ideológico importante

na “catequização” cultural que a elite da borracha buscava para se adequar aos novos tempos.

Os jornais periódicos constituíram-se em espaço de pregação dos novos ideais, por ser onde a

4 Lamentamos não ter inserido no trabalho as referências do célebre Jornal do Commércio, um dos mais tradicionais do estado, por não estarem microfilmados, o que tornaria a pesquisa mais demorada, bem como o acervo do IGHA (Instituto Histórico-Geográfico do Amazonas), cujo rico acervo não pode ser facilmente acessado. Os microfilmes aos quais nos referimos estão disponíveis na Biblioteca Estadual do Amazonas e no Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas, gravados pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde estão também alguns dos originais.

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sociedade expressa suas questões mais presentes. Os jornais foram privilegiados como fonte de

pesquisa pelo papel de veículo comunicativo e de convergência dos conteúdos das mentalidades

da época. Segundo Aguiar (2003), os jornais podem ser caracterizados como importantes

instrumentos de pressão para preservação dos interesses da elite dominante:

No cenário da sociedade manauara, as idéias de progresso e modernidade que eram difundidas pelos diversos jornais expressavam, sobremaneira, os interesses capitalistas num empenho de divulgação da mudança cultural, da adoção de novos bens de consumo, de refinamento de hábitos e de vigilância pública. (Aguiar, 2003:48)

O trabalho com documentos, no caso jornais de Manaus de 1890-1920, exigiu,

portanto

posturas

metodológicas

diferenciadas:

primeiro,

foi

necessário

o

abandono

do

conformismo da “ausência de dados”. Num contexto marcado pela pouca quantidade de

trabalhos relacionados especificamente a aspectos sociais do Amazonas nos século XVIII e

XIX, apesar dos esforços de equipes de pesquisadores que tentam reverter este quadro, foi

necessária a negação da idéia de que “não há dados para trabalhar” e que, portanto, o melhor

seria fazer algo a partir de temas já consagrados ou mesmo de algum trabalho já realizado, onde

seria possível saber “o caminho das pedras”. Há um amplo leque de temáticas de pesquisas,

inclusive nos jornais, como o estudo das elites locais, a presença do negro, o papel das mulheres

e das igrejas, para citar alguns exemplos, das quais apenas uma pequena parte foi realizada.

Temos então um enorme campo a ser desbravado 5 .

No que diz respeito a como este período tão característico da modernidade foi vivido e

percebido, tanto no Pará quanto no Amazonas, é considerável a quantidade e a qualidade dos

5 É necessário neste ponto comentar os problemas relacionados às fontes de pesquisa, como o material documental que desejávamos utilizar na investigação, os processos de defloramento e estupro da época, que não conseguimos localizar nos arquivos do judiciário local e que forneceriam dados importantes sobre os discursos relacionados à sexualidade. A histórica ausência de um maior compromisso das autoridades e gestores públicos com a memória local causa danos irreparáveis com a perda de documentos ou mesmo com sua desorganização nos locais onde ainda são guardados. Não contamos até agora com um esforço de sistematização ou disponibilização dos documentos históricos para o público de alguns acervos importantes do estado. Desta forma, o trabalho que envolve documentos históricos no Amazonas está sujeito a uma dupla contingência: a necessidade de analisar competentemente os dados disponíveis em quantidade menor que o desejável e a necessidade de organizar estes dados, o que nem sempre é possível dado o curto tempo que dispomos para apresentar os resultados.

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trabalhos já produzidos a respeito de vários aspectos 6 . A competência e a profundidade com que

o período foi trabalhado não implicam no seu esgotamento como objeto de estudo. Pelo

contrário a Amazônia, enquanto universo social, ainda constitui-se numa grande seara para este

tipo de abordagem. Nesta pesquisa, optamos por abordar uma das facetas da sociedade da

época: as representações sobre as mulheres. Como estas representações eram explicitadas em

periódicos locais por homens, obviamente estamos falando de relações de poder, portanto de

relações de gênero.

Segundo, a superação da “hierarquia” entre os fenômenos. A abordagem de aspectos

cotidianos num estudo etnográfico busca abolir a idéia de que somente algumas coleções de

fenômenos já consagrados pela tradição etnológica merecem atenção, tais como as normas

matrimoniais, a circulação de mercadorias e a economia dos cargos dentro de determinado

grupo social. Para abordar estes fenômenos, elegemos alguns caminhos teóricos que nos

auxiliaram ao longo do trabalho.

Gênero e sexualidade como categorias históricas e sociológicas

A perspectiva de gênero nas ciências sociais surgiu com a crítica ao androcentrismo,

crítica esta possível somente a partir dos anos 60, quando o movimento feminista formula bases

teóricas capazes de dar sustentação à idéia de que a visão masculina predominava também nas

ciências, partindo da premissa do monopólio masculino das informações (os sociólogos,

6 No contexto do Amazonas, alguns desses trabalhos foram utilizados como referência para esta pesquisa as teses de doutorado de Heloísa Lara Campos da Costa, que trata do contexto amazônico, No limite do possível: as mulheres e o poder na Amazônia - 1840-1930 (2000), e mais especificamente sobre Manaus, citamos a de Selda Vale da Costa (1996) O Eldorado das ilusões. Cinema & Sociedade. Manaus: (1897/1935), a de Ana Maria Daou A cidade, o teatro e o “paiz das seringueiras”: práticas e representações da sociedade amazonense na virada do século XIX (1998) e as dissertações de Edinéia Mascarenhas Dias A ilusão do fausto: Manaus 1890- 1920 (1999), a de Lileane P. P. de. Aguiar, Belle Époque: dois atos, dois palcos, defendida na UFAM em 2003 e a de Francisca Deusa Costa, intitulada Quando viver ameaça a ordem urbana: trabalhadores urbanos em Manaus (1890-1915), dissertação de Mestrado em História defendida na PUC de São Paulo em 1997, para citar algumas.

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antropólogos, historiadores, entre outros, são em sua maioria homens, sem perspectiva crítica

sobre sua condição).

Embora a categoria gênero tenha sido inicialmente estabelecida dentro dos círculos

acadêmicos, é necessário fazer um apanhado do seu significado. É importante que se diga que a

categoria gênero, diferente de outras, não nasce apenas em virtude exclusivamente de esforços

explicativos acadêmicos. Ela é fruto principalmente das lutas políticas do feminismo e da

insuficiência que a noção de sexo como matriz de explicação para a questão das relações entre

homens e mulheres, cujo caráter biológico não suportava análises mais profundas sobre a

questão do poder. Durante a segunda metade do século XX, modifica-se o conceito de política,

que se amplia para refletir uma realidade social em mudança. Surgem novos “antagonismos

sociais” que, sem desprezar os de classe, raça e etnia, passam a incluir as relações sexuais e de

gênero, produzindo movimentos reivindicatórios com base nessas identidades emergentes, dos

quais o movimento feminista é o exemplo mais contundente, ajudando a construir novos

sujeitos coletivos da cena política.

Segundo Joan Scott (1990, p.15) por gênero entende-se um elemento constitutivo de

relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos. O gênero é um primeiro

modo de dar significado às relações de poder. A identidade de gênero, portanto, é construída

socialmente, através das relações sociais das quais os indivíduos participam em diferentes

tempos históricos e sociais. A categoria gênero é relacional, uma vez que nasce do confronto

com “o outro”, através de vários mecanismos sociais diluídos na educação e em outras

instituições, traçando estereótipos que separam, desde a infância, indivíduos que devem agir

masculinamente ou femininamente, conforme a cultura em que estão inseridos. Esta diferença é,

portanto, construída socialmente, sendo o substrato biológico apenas um de seus elementos

Swain (2005).

Assim como gênero, a questão da sexualidade também sofreu durante muitos anos

dificuldade para ser determinada fora do enfoque biologicista. A sexualidade, entendida como

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um processo dinâmico e social pressupõe abordagens epistemológicas que rompam com as

teorias essencialistas e mono-explicativas que balizaram os estudos sobre a sexualidade durante

muito tempo. Todavia, há uma grande dificuldade em se obter uma visão unívoca acerca da

sexualidade. Isso é decorrente do fato de que a sexualidade é colocada como legitimadora de sentidos

não

relacionados

diretamente

a

sua

ordem,

além

da

grande

quantidade

de

possibilidades

de

abordagens, o que descondiciona seus conceitos de uma única direção e, de certo modo, torna suas

fronteiras disciplinares quase ilimitadas. Apesar da polissemia característica do campo, Loyola (1999)

aponta alguns aspectos que podem servir de pontos de articulação da questão da sexualidade como

objeto:

O primeiro aspecto diz respeito a forma subordinada como a sexualidade aparece como

objeto de estudo das disciplinas de humanidades. Não existem, na literatura clássica, estudos

relacionados à sexualidade como um objeto em si. Concomitante a este fato há uma tendência

mais contemporânea em buscar a autonomia do campo, o que demonstra que este se encontra

inegavelmente num “estado da arte”, ainda bastante suscetível a interferências em sua

elaboração, delimitação e construção.

Um segundo aspecto que permeia a discussão teórica tradicional sobre a sexualidade na

modernidade é a sua vinculação exaustiva com a genitalidade e com a heterosexualidade. Este

fato tem a ver com os interesses normativos ou terapêuticos dos primeiros sujeitos que se

preocuparam com a questão. Mesmo a medicina, quando se debruça sobre a questão, não tem

finalidades terapêuticas, mas normativas, como lembra Loyola,

uma série de interditos e normas

sexuais, segundo as quais o erotismo deveria ser regulado pela exigência de reprodução da espécie e dos ideais de amor à Deus e à família. É na medicina que a sexualidade termina por ser unificada como instinto biológico voltado para a reprodução da

espécie

transformando em postulados científicos (

(LOYOLA, op. cit: p. 33).

)

De certo modo, a desnaturalização da sexualidade passou a ser um problema

desafiante de todas as disciplinas, e que de certo modo passou a ser enfrentado de várias formas,

embora

esteja

de

certo

modo

presente

nos

conceitos

e

abordagens

clássicas

as

quais

invariavelmente temos que recorrer. Assim como outros como o gênero, a sexualidade, tal como

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a concebemos e como dela falamos – ou seja, composta de práticas sexuais e subjetividades

como o desejo, a partir da relação do indivíduo com sexo, é uma invenção moderna. Segundo

Foucault (1988), a sexualidade moderna é específica de um momento histórico e somente foi

possibilitada por circunstâncias próprias das configurações sociais presentes nesse contexto: a

modernidade. Esta modernidade, entretanto, esconde uma série de disputas de sentido, se

observadas as diferentes configurações que ganha no Novo Mundo.

Como resultado das novas abordagens sobre a sexualidade, das quais Foucault é o

principal expoente, nasce o consenso sobre o fato de que os termos sexuais referem-se a seus

contextos históricos e sociais próprios; como decorrência disso, é mantido um maior cuidado

teórico frente às generalizações, dada a preocupação em mostrar a sexualidade como um

“dispositivo histórico”:

A sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não à realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, da incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e poder (FOUCAULT, 1988)

Em A Vontade de Saber, Foucault rejeita a chamada “hipótese repressiva”, que traduz o

discurso sobre sexo a partir do século XVII como exclusivamente proibitivo. Para ele, o que é

visto como proibição e repressão nada mais é que a tentativa do homem moderno em se

apropriar do seu sexo, conhecê-lo e esquadrinhá-lo, transformando-o em base da questão da

verdade.

Há uma diferença enorme entre a maneira como as pessoas lidam com o sexo na Idade

Média e na Idade moderna; essa diferença estaria relacionada principalmente a uma repressão

característica das sociedades burguesas; através desta repressão o sexo teve que ser apropriado

ao nível da linguagem, controlando sua circulação como discurso, banindo-o das coisas ditas e

extinguindo

as

palavras

que

o

tornam

presente

de

maneira

demasiadamente

sensível,

caracterizando uma censura traduzida na formulação de termos específicos – a maioria da

medicina – para denominar as partes sexuais do corpo e comportamentos a elas relacionadas.

30

No entanto, o efeito de todo esse cuidado é exatamente o inverso: acontece uma verdadeira

“explosão discursiva” sobre o sexo. Uma das questões desta pesquisa é tentar observar como

acontecem as articulações e embates entre as concepções burguesas de sexualidade e as

populares,

expressadas

nos

“comportamentos

dissonantes”

de

indivíduos

na

cidade,

constantemente criticados no primeiro veículo de comunicação de massa surgido, o jornal.

O sexo, de acordo com tal paradigma, não comporta análises que abranjam as dinâmicas

sociais e históricas porque é concebido como matriz, como único, invariável e causal. Em

contraposição a este sexo, Foucault cria o dispositivo da sexualidade:

Em oposição a essa falsa construção do “sexo” como unívoco e causal, Foucault engaja-se num discurso inverso, que trata o sexo como efeito e não como origem. Em lugar do “sexo” como causa e significação originais e contínuas dos prazeres corporais, ele propõe a “sexualidade” como um sistema histórico aberto e complexo de discurso e poder, o qual produz a denominação imprópria de “sexo” como parte da estratégia para ocultar e, portanto, perpetuar as relações de poder (BUTLER, 2003).

Esta normatização, longe de caracterizar de forma negativa o sexo pelas proibições,

vigilância ou coação, é parte do esquema de colocação do sexo em discurso e, portanto,

configura-se em “positividades”. Em vez de procurar os elementos da “economia da escassez”,

Foucault propõe encontrar as instancias de produção dos discursos – e dos silêncios – que

possibilitaram a produção de poder, saber, a história dessas instancias e de suas transformações.

Esta inversão conceitual é um dos pontos altos no pensamento foucaultiano sobre a sexualidade:

Certamente, o papel das proibições foi importante. Mas o sexo é, em qualquer condição, proibido? Ou antes as proibições não são armadilhas no interior de uma estratégia complexa e positiva? (FOUCAULT, 2005).

Esta perspectiva modifica o enfoque dado à sexualidade tradicionalmente. Foucault não

nega a repressão, apenas não aceita que as análises sobre a sexualidade pautem-se a partir delas.

Por isso, aparece nos escritos do autor outros significados para o problema do poder. Foucault

chama a atenção para o fato do poder ser sempre lembrado e falado como lei, interdição,

proibição e repressão, mas nunca como mecanismos e efeitos positivos.

31

Um certo modelo jurídico pesa sobre as análises do poder, dando um privilégio absoluto à forma da lei. Seria preciso escrever uma história da sexualidade que não fosse ordenada pela idéia de um poder-repressão, de um poder- censura, mas por uma idéia de um poder-incitação, de um poder-saber; seria preciso desprender o regime de coerção, de prazer e de discurso que é não inibidor, mas construtivo deste domínio complexo que é a sexualidade (Idem, ibidem.).

Ao invés de falar da lei e dos instrumentos do Estado, o que acaba sendo somente uma

conseqüência, Foucault fala sobre poder disciplinar e biopoder, caracterizado como o crescente

ordenamento em todas as esferas sob o pretexto de promover o bem-estar do indivíduo e das

populações (DREYFUS e RABINOW, 1995). Por este motivo a mulher foi, ao longo da

modernidade, o principal alvo destas práticas reguladoras através da interferência em seu

comportamento sexual e suas opções reprodutivas.

Analisando em linhas gerais as contribuições de Foucault para os estudos da

sexualidade, alguns pontos serão destacados em relação a este trabalho:

Primeiramente, Foucault enfatizou a importância da sexualidade para a constituição do

indivíduo moderno; a questão do indivíduo está intimamente relacionada à busca da verdade,

uma das pedras angulares da própria modernidade. É impossível pensar a modernidade em

termos

apenas

modernidade.

de

instituições.

O

nascimento

do

indivíduo

é

a

própria

expressão

da

Foucault situou os chamados “jogos de verdade” com a questão do poder. Esta

relação, a princípio simples, da maneira refinada como foi construída, foi fundamental para o

desenvolvimento de teorias mais sólidas e abordagens mais direcionadas em relação não

somente à sexualidade, mas à própria diferença entre os gêneros. A noção de gênero, que é

basicamente uma relação de poder, foi especialmente beneficiada pelas idéias de Foucault,

tornando a aproximação dos teóricos e teóricos do gênero, inevitável. (SCOTT, 1988). A

dimensão gênero será de fundamental

discursivas locais.

importância para o entendimento das formações

32

Finalmente, em Foucault é possível identificar a importância de localizarmos os

autores das falas dentro da “economia dos discursos” como fórmula imprescindível para a

contextualização destes.

Um segundo aporte teórico que exploramos nesta pesquisa foi o da sexualidade de

acordo com a antropóloga norte-americana Carole Vance (1995), que define dois tipos de

modelos de abordagem da sexualidade, em contraposição ao essencialismo, de explicação

biológica, que durante muito tempo reinou absoluto nas teorias sobre a sexualidade: o de

construção cultural (de 1920 a 1990) e o de construção social (de 1975 a 1990). A sexualidade,

para os construtivistas, é mediada pela história e pela cultura, embora as opiniões sobre

exatamente quais os aspectos da sexualidade que podem ser construídos pela história e pela

cultura variem.

O construtivismo na sua vertente cultural parte do pressuposto de que a sexualidade é

moldada pela cultura; há uma ênfase no papel da educação e do aprendizado dos papéis sexuais.

O estudo da sexualidade, porém, limita-se aos aspectos reprodutivos e à heterosexualidade,

inquestionadamente adotada como padrão e centro das investigações e universalizada como

noção. Exemplos desta abordagem são os trabalhos de Malinowski (A Sexualidade e a

repressão nas sociedade primitivas) e Margareth Mead (Sexo e temperamento).

O sentido da sexualidade, dentro do modelo de construção cultural, é dado como

universalizante,

comum

a

todas

as

sociedades.

É

geralmente

representado

e

analisado

enfaticamente como pulsão, e desta forma isolado de outras referências sociais. Talvez por esta

maneira vaga como o campo é concebido, em sua abrangência seja disposta uma coleção

caótica de elementos díspares como relações sexuais, sensibilidade, contos eróticos, anedotas,

adornos sexuais e tudo o mais que se relacione com erotismo. Uma das grandes críticas à esta

abordagem, além da acusação de universalização de conceitos ocidentais como o de hetero e

homossexualidade para outras culturas, é a não problematização da questão de gênero. Embora

gênero e sexo apareçam como intercambiáveis e interligados, a relação entre ambos aparece de

33

forma naturalizada e não é questionada; embora os construtivistas tenham em comum a crença

de que a sexualidade é mediada pela história e pela cultura, as opiniões sobre quais aspectos da

sexualidade podem ser construídos são extremamente variáveis. Aceitar a não universalidade

das categorias relativas á sexualidade foi um passo importante para a formulação de novas e

aprofundadas questões sobre a sexualidade moderna e de outros povos.

Uma das correntes do construtivismo social, que aqui elegeremos como aporte para a

pesquisa, concebe a sexualidade como experiência organizada pela cultura, ou seja, por

estruturas cognitivas e construções simbólicas e práticas coletivas, que moldam e dão

significado aos comportamentos individuais, dimensionando os valores e técnicas sexuais. As

escolhas e saberes sexuais seriam não de ordem individual, mas coletivos e influenciados por

outros fatores sociais que vão além da “natureza humana” – aspectos como o econômico, o

educacional, o histórico, o cultural e o político. Embora esta abordagem esteja enquadrada nas

teorias durkheimanas de fato social, ela não exclui o papel do indivíduo nestas escolhas, embora

sua ação seja culturalmente determinada até mesmo quando resiste com se rebela contra a

ordem instituída.

No primeiro capítulo, intitulado Progresso e civilização na regulação das condutas

femininas procuramos discutir o impacto das transformações urbanas e ideológicas do período

na definição do papel da mulher nesta nova ordem, concretizada na valorização da instrução

feminina, na consolidação do casamento como suprema vocação feminina e na condenação

social e legal da bigamia e do adultério, ao mesmo tempo em que não criava formas de solução

para a viuvez desamparada que muitas mulheres enfrentaram em decorrência da guerra de

Canudos.

No segundo capítulo, Subvertendo a ordem: diversões, resistências e criminalização da

sexualidade, exploramos as formas de resistência aos ditames da ideologia liberal-burguesa

representadas pelas mulheres cujas condutas eram publicamente condenadas pelos jornais da

época ou apenas não se enquadravam no modelo de domesticidade estabelecido como ideal para

34

as mulheres como as meretrizes, as atrizes, as arruaceiras, as negras e as artistas. Estes rótulos

diziam respeito não apenas à condição sócio-econômica de tais mulheres, mas principalmente a

forma como exerciam sua sexualidade. Suas identidades estão relacionadas aos locais que

freqüentavam – no espaço da rua, às suas atividades para garantir a sobrevivência em solo

urbano e até às elaborações lúdicas das quais tomavam parte: a dança de salão, os bares e as

outras expressões da cultura urbana marginal que se desenvolveu em Manaus na época.

No terceiro capítulo, A medicina da mulher, o sexo doente e o sexo pervertido,

buscamos esquadrinhar os sentidos da patologização e da criminalização da sexualidade, usando

como ponto de partida a questão da saúde, elaborando um breve panorama da questão sanitária

na província e os desafios para a medicina, representados pelas moléstias tropicais, para em

seguida abordar o nascimento em Manaus da medicina da mulher e o processo de apropriação

do corpo feminino. Um outro aspecto deste processo está relacionado às chamadas “doenças

venéreas”, e nos jornais de Manaus pudemos perceber como as doenças do sexo e seu

tratamento através de medicamentos específicos transformam-se num problema típico da

modernidade e ganham status de signo de distinção sexual entre as mulheres. Finalmente, após

abordamos as moléstias do corpo, dedicaremos espaço à complexa categoria dos crimes e

desvios sexuais, partindo da análise de alguns casos documentados nos jornais da época.

CAPÍTULO 1

PROGRESSO E CIVILIDADE NA REGULAÇÃO DAS CONDUTAS FEMININAS

35

Em

Manaus só tínhamos notícias do Sul depois de cinco dias. Quando os suicídios, os assassinatos, as guerras, o diabo enfim, chegavam na pacata cidade ammazonica, estavam frios, frios de verdade, já tinham mandado rezar a missa de 7.º dia. Hoje não! Arrebenta um canhão na capital da Repúlica, e dahi a meia hora todo Manaós sabe. Um horror! Uma desgraça! E isto chama-se o progresso do século XIX! Adeus sossego! Adeus tranqüilidade de espírito (O Rio Negro, 113, de 13/11/1897).

Antigamente o Amazonas era feliz. Não tínhamos telegrapho. [

]

As rápidas transformações sofridas por Manaus no final no final do século XIX podem

ser bem ilustradas pelo comentário que faz Elizabeth Agassiz que descreve o lugar durante sua

passagem de 1877 como uma “vila miserável” (AGASSIZ E AGASSIZ, 1978). Apenas alguns

anos depois, a imagem da cidade transforma-se radicalmente, com a abertura de ruas mais

largas, a construção de pontes de ferro sob igarapés e a construção de suntuosos edifícios.

Pouco mais de vinte anos depois, em 13 de novembro de 1897 O Rio Negro publicava uma

nota, que transcrevemos acima, de um homem perplexo frente à velocidade da difusão de

informação representada pela chegada do telégrafo à cidade, pois assim como as últimas

novidades eram transmitidas rapidamente, também o eram as notícias sobre as revoluções, as

guerras, os crimes e os eventos de uma época de grande instabilidade política. Sua queixa

refletia a sensação de angústia de um morador de uma vila que de repente assistia um mundo

transformar-se rapidamente a partir da perspectiva da metrópole que se instalava, entre os

lamentos por um tempo de tranqüilidade que jamais retornaria e o deslumbramento frente às

novidades.

Os temores do autor tinham eco em notícias como a publicada na edição de 12 de

novembro de 1897 de O Rio Negro, que noticiava um crime político, um dos primeiros da

República. O novo regime mostrava a face cruel da disputa de poder através de um atentado

contra o primeiro presidente eleito pelo voto direto. A tentativa de assassinato do Presidente

Prudente de Moraes, que tinha nos chamados “florianistas” (adeptos do presidente anterior, o

militar Floriano Peixoto) seus principais inimigos, acabou com o assassinato do então Ministro

da Guerra, Marechal Carlos Machado Bittencourt 7 .

7 Em 5 de novembro de 1897 o presidente sofre um atentado no cais do porto do Rio de Janeiro. Um soldado florianista, Marcelino Bispo, tenta atingi-lo, e acaba matando o ministro da Guerra. O incidente dá pretexto para o Congresso decretar estado de sítio. Com poderes excepcionais, Prudente de Morais prende seus opositores,

36

O Brasil inteiro acompanhava atento e temeroso as agitações políticas, e os jornais do

período refletem a instabilidade desse momento da jovem República, que ainda se defrontou no

mesmo período com a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul e com a Guerra de

Canudos, no sertão nordestino. Assim como ocorrera anos antes, durante a Guerra do Paraguai

(1864-1870), a jovem província do Amazonas mais uma vez era instada a arcar com uma parte

do ônus da guerra, talvez pesada demais para seus ombros.

As

conseqüências

repercutiram

na

província

e

na

Amazônia

como

um

todo:

contribuindo, por exemplo, para o agravamento do alegado “vazio demográfico” em áreas

estratégicas, ocasião em que os homens foram obrigados a embarcar nos piquetes para servir na

capital da república, na maioria das vezes compulsoriamente, como observou Elizabeth Agassiz

em passagem pela província durante o conflito que narrou um caso em que homens foram

acorrentados para o embarque. A ausência dos homens em função do recrutamento pelos

soldados

da

Guarda

Nacional

obrigara

as

mulheres

a

ocupar

posições

de

comando

tradicionalmente próprias deles, como a administração dos negócios, especialmente no interior,

contribuindo para a formação de um sentido diferenciado de autonomia em algumas mulheres

do interior da província (SANTOS, 2005).

Passando pela política regional, a Amazônia ainda sofria com a indefinição de

fronteiras, como demonstram a polêmica diplomática entre Brasil e França, chamada Questão

do Amapá - de 1853 a 1900 (O Rio Negro, n. 108 de 13/11/1897) e a Questão do Acre, entre

Brasil e Bolívia (1899 a 1903) 8 .

Em 1897, Manaus mal começava a acordar para os primeiros acordes do inebriante som

da modernidade. Ainda guardava o aspecto de uma vila, e parecia que ainda não se apropriara

de suas novas funções como capital provincial. A rapidez da informação através do telégrafo

fecha jornais e acaba com qualquer manifestação política, consolida assim definitivamente a presença de civis no poder federal, substituindo o governo dos militares pela Oligarquia dos grandes donos de terra. Prudente de Moraes consegue, desta forma, eleger seu sucessor no mandato seguinte, o também cafeicultor Campos Salles. 8 A Questão do Amapá ocorreu em torno da disputa entre Brasil e França por territórios situados entre o Oiapoque e o Araguari, e foi solucionada mediante o julgamento de um tribunal internacional, que deu ao Brasil a posse definitiva da região contestada. A Questão do Acre foi encerrada através do Tratado de Petrópolis, pelo qual o Brasil comprou da Bolívia o atual território do Acre.

37

possibilitava informações da capital federal em tempo muito menor do que jamais se pensara. É

necessário que diga, contudo, que antes do acontecimento da borracha já havia um “projeto de

cidade civilizada” sendo implantado, projeto este anterior à proclamação da república. Como

assinala Ana Maria Daou, os jornais locais já divulgavam as intervenções do poder público

imperial sob a malha urbana, através das ações dos presidentes da província no final da primeira

metade do século XIX.

Manaus, como capital da província, expressa a vontade do governo imperial e mais especificamente sua intenção em relação ao território que constituía até então uma significativa área do antigo Grão–Pará. Será o ponto avançado da expansão do

Estado monárquico, (

Será ainda o locus por excelência do fazer civilizatório, ali

onde a existência de uma pródiga natureza conjugada à presença de uma população

“considerada” inapta e incapaz recolocava para as elites brasileiras a questão dominante de construção de uma nação “civilizada” (DAOU, 1998; p.162).

).

Esta abordagem apresenta ainda um outro aspecto para reflexão da historiografia local:

vai de encontro às afirmações de que a cidade de Manaus foi produto exclusivo da elite da

borracha 9 . Por outro lado, detecta-se um contraste entre os projetos de cidade engendrados

durante o Império e aqueles levados a termo no período republicano. As ações da administração

provincial eram pontuais, ao contrário da atuação de caráter tecnicista dos engenheiros

republicanos; como a autora demonstra, as distâncias entre os tipos de intervenção podem ser

ilustradas pelos prédios “símbolos” de cada período: no Império, a Igreja da Matriz, na

república, o Teatro Amazonas.

Numa região onde as fronteiras não estavam bem consolidadas e onde as relações de

dependência com a metrópole portuguesa foram rompidas muito mais tardiamente que no resto

do país (mesmo após a independência a Amazônia continuou ligada a Portugal especialmente

em função do grande contingente de portugueses que predominavam nos cargos administrativos

locais), o ônus representado pela guerra não estava só no recrutamento de pessoas, braços

preciosos para a ainda tímida economia regional, mas no impacto cultural que a violência da

guerra proporcionava.

9 A historiadora Francisca Deusa Sena da Costa (1997; p.30), também chama a atenção para o fato de que alguns autores locais contestam a visão de que a transformação da cidade só teria se dado através da economia gomífera.

38

No que diz respeito ao desenvolvimento urbano de Manaus do final do século XIX, a

florescente civilização ocidental nos trópicos ainda debatia-se contra os “resquícios” de um

passado indígena que lutava para sepultar. A própria capital, Manaus, foi emblematicamente

construída sob um cemitério indígena. Focos de resistência indígena ainda atemorizavam os

brancos que se aventuravam pela aventura da borracha nas estradas de seringa dos interiores,

contribuindo para a constituição do imaginário regional negativo sobre a figura do índio, apesar

das epidemias que devastaram a população aborígine desde o século XVI.

O historiador Vitor Leonardi, Costa (1997) argumenta que a inserção da região

amazônica na divisão internacional do trabalho não teve o mesmo efeito que em outras regiões

do planeta, onde o capitalismo, mesmo coercitivamente, contribui para o desenvolvimento das

forças produtivas. Os altos lucros proporcionados pelo extrativismo constituíam-se numa

armadilha perigosa, pois se tornaram obstáculos para o desenvolvimento de outras modalidades

econômicas, requisito para a formação de uma mentalidade capitalista, uma vez que as práticas

de trabalho compulsório e o aviamento dificultavam a constituição e consolidação de um

mercado consumidor local.

Um outro problema, já mencionado, era a constante carência de mão-de-obra para o

trabalho na produção de seringa. As dificuldades para captação de trabalhadores nos seringais

foram constantes durante todo o ciclo. O problema da população foi desta forma, um dos

primeiros a serem abordados pela elite pensante local. O periódico O Rio Negro de 03/08/1897

alertava sobre recentes ataques dos índios Jauapery (em Mauá, no rio Negro) a colonos locais.

O articulista relata o número de 3.000 indivíduos “belicosos”, lembrava da importância da área

pela presença de várias árvores de seringa e castanha.

A questão do índio era alvo das preocupações das mentes iluminadas da época: no bojo

das tendências higienistas que propagavam a necessidade de “limpeza” da raça com a

miscigenação do negro e do branco, em Manaus alguns artigos apontavam para a necessidade

39

de

inserção

de

contingentes

“melhoramento da raça”.

populacionais

externos

que

pudessem

contribuir

para

o

Em artigo sobre a temática das condições para o povoamento da região, publicado em O

Rio Negro, n. 13 de 08/08/1897, Torquato Tapajós aponta a necessidade de um conhecimento

mais amplo e aprofundado sobre o sistema hidrográfico, do solo e das condições climatológicas

da região e propõe a constituição, por parte do governo, de comissões de exploradores que

pudessem

percorrer

a

vastidão

da

província

fornecendo

dados

que

possibilitassem

o

planejamento de ações de colonização em áreas remotas. A lucidez das idéias de Tapajós,

contudo, mascaravam a tentativa de dar uma nova face à população provincial, face esta diversa

da então existente: a indígena.

As soluções propostas pelos intelectuais locais também passavam pelo consagrado

recurso da catequese, como demonstra artigo de 24/01/1898, no mesmo jornal, intitulado

Cathequese e civilização dos índios. É fato que a Igreja foi o grande braço do Império na

pacificação de índios pelos sertões do território, a fim de expandir a área colonizada através de

missões católicas que foram, até o início do século XX, praticamente as únicas interlocutoras da

sociedade nacional com os indígenas de grandes áreas.

Com a valorização internacional do preço da borracha, a falta de mão-de-obra que desse

conta da demanda internacional provocou a elaboração de diferentes soluções. O Rio Negro de

17/11/1897 publicou um anúncio da firma A. Fiorita & Cia. O produto que ofereciam: de mão

de obra migrante do Japão, oferecida aos empresários locais. Ferreira de Castro, no célebre

romance “A Selva” descreve a passagem de um dos navios de japoneses rumo às novas frentes

de trabalho no interior da província.

Contudo, o problema da mão-de-obra persistiu durante muitos anos, sendo um dos

principais obstáculos do empreendimento mercantilista ligado à borracha. São conhecidos os

dados que apontam para o estímulo dos governos locais à migração de nordestinos para a

Amazônia

(cearenses,

maranhenses,

pernambucanos,

entre

outros),

para

o

que

muito

40

contribuíram as secas no Nordeste do final do século XIX e início do século XX, além da

imigração estrangeira, especialmente de portugueses, peruanos, árabes, italianos, alemães,

bolivianos, entre outros.

As preocupações com os problemas da economia gomífera, contudo, estavam longe de

serem os únicos assuntos que figuravam nos jornais. Uma leitura nos anúncios revela a adoção

de novos hábitos de consumo, acessíveis aos enriquecidos com o dinheiro da borracha, direta ou

indiretamente. Ao lado dos reclames das livrarias anunciando a chegada dos últimos romances

de Machado de Assis e Eça de Queirós, e das últimas novidades da Europa em matéria de

roupas para senhoras, temos os anúncios de “farinha suruhy”, “chá de matte”, carne seca, feijão

preto, queijos do Ceará, carne seca, manteiga, goiabada.

Estamos num período especial da história local, quando os primeiros efeitos do

acontecimento da borracha 10 já se fazem sentir, por exemplo, no aumento do número de

publicações na forma de diários de notícias, fundados na cidade durante o período. Através da

leitura dos jornais da emergente Manaus do final do século XIX é possível visualizar o caráter

ao mesmo tempo irremediavelmente provinciano e virtualmente cosmopolita que a cidade

manteve pelo século que se seguiu.

A maior circulação de mercadorias importadas das áreas industrializadas do restante

Brasil e do mundo possibilitou, além das transformações de hábitos de consumo, novidades no

trabalho doméstico. Embora as imagens das revistas da época retratassem as donas-de-casa

como felizes com as tarefas domésticas (MALUF e MOTT, 1988), a realidade é que o trabalho

de casa, considerado o único apropriado à sua fragilidade física, era demasiado pesado e

insalubre: as panelas eram lustradas com a ajuda de areia friccionada na superfície do metal –

daí vem o termo “areiar” - o processo para engomar as roupas era igualmente difícil, com

opções que variavam pelo uso de clara de ovo em certos tecidos, ou somente o uso do pesado

ferro de engomar, um artefato pesado, que tinha seu calor alimentado por brasas incandescentes

10 O termo “acontecimento da borracha” está empregado aqui no mesmo sentido que Daou (2000) emprega: não apenas relacionado às transformações na economia local, mas principalmente no modo de vida e valores da sociedade.

41

e que não raramente proporcionava queimaduras às donas de casa. O fogão era à lenha, e como

não havia tantos produtos de limpeza como hoje em dia, a maioria dos recursos era de

fabricação das próprias mulheres, como sabão à base de gordura, entre outros. A “rainha do

lar”, no final das contas, não passava de uma trabalhadora braçal. Para as que podiam pagar

serviçais, porém, o julgo doméstico era mais ameno. Ter em casa uma mulher que podia

dedicar-se somente à supervisão do lar era um privilégio para poucos e, portanto, funcionava

como um signo de status.

Um arsenal tecnológico é colocado à disposição das classes mais abastadas para facilitar

a vida em casa, luxos da modernidade que se aventurava na selva: “machinas” de café

e de

costura, “philtros para água”, conservas importadas. Para cuidar da vaidade, cintas milagrosas

que prometiam corrigir os corpos e afinar a cintura, toalhas higiênicas para os dias de “regras”,

espartilhos de barbatanas de ferro maleáveis e, é claro, os maravilhosos vestidos, chapéus,

meias e acessórios, segundo a última moda na França. O status de riqueza foi sendo associado

ao poder de compra. Para resguardar as fortunas, cofres a prova de fogo; para cuidar da cultura,

anúncios de livrarias e de novos lançamentos de livros recém-chegados da Europa. A felicidade

estava ao alcance das mãos

que portassem notas para comprá-las.

A grande quantidade de anúncios comerciais reflete uma ampliação considerável do

comércio: anuncia-se de tudo – chocolates, ateliês de fotografia, cervejaria, queijos finos, fitas

de seda, além dos médicos, dentistas, advogados e engenheiros, que passam a anunciar seus

serviços em anúncios, demonstrando o crescimento do segmento dos profissionais liberais na

cidade (O Rio Negro, 11/11/1897).

Para o pensamento local, tais elementos de prosperidade deveriam ser expressos não

apenas da ampliação da rede de serviços a uma parcela privilegiada da população, mas

deveriam ser acompanhados da concretização do fausto através da apropriação da tecnologia

urbana disponibilizada pelo capital. Os articulistas dos jornais eram porta-vozes desses anseios

e anunciadores entusiastas das novidades que chegavam à cidade. A re-inauguração do serviço

42

telefônico em Manaus, ocorrida no dia 1.º de dezembro de 1897, por exemplo, mereceu

insistentes comentários louvando quando os telefones foram reinstalados (O Rio Negro n. 113

de 13/11/1897). A mesma paixão entusiasta, porém, poderia converter-se em cobranças,

demonstrando que o controle social pela imprensa consolidara-se também na república. As

reclamações eram muitas: A The Manaos Eletric Company é criticada por ainda não ter

instalado o sistema de iluminação elétrica na cidade na edição de O Rio Negro de 04/12/1897 e

o serviço de bonds, um dos orgulhos de Manaus, é adjetivado como vergonhoso, com “carros

immundos e indecentes, condutores mal-vestidos, machinas estragadas, impróprios d`uma

capital civilizada

(grifo meu).

As queixas com finalidade didática eram também muitas. Reclamava-se de tudo que não

pudesse ser descrito como hábitos próprios de “uma capital civilizada”, como disse o articulista:

exigia-se que os fiscais de limpeza pública multassem os donos dos prédios que deixavam nas

ruas

os

restos

dos

materiais

que

não haviam sido utilizados

nas construções,

que

se

cadastrassem os cães, que se cobrassem a higiene dos usuários dos bonds e condutores do

serviço, bem como o estado dos veículos urbanos, especialmente as carroças, malvistas pelo

significado rural de sua visão e que tinham sua circulação restrita de várias formas, através de

leis e interditos:

Os mesmos proprietários deveram pintar suas carroças e trazê-las com esmerado, sob pena de multa, e bem assim os proprietários de cocheiras vaccuna e cavallar, deverão trazer seus ferros a esta repartição para serem registrados até o dia 15 de novembro, sujeitos à pena de multa se assim não fizerem (O Rio Negro,

03/12/1897).

Os códigos de postura, como lembram Dias (1999) e Costa (1997), foram instrumentos

eficazes de normatização das condutas em solo urbano. A obsessão por controle, típica da

administração pública moderna, levava a regulação dos atos mais simples, como a pintura e

reforma das casas, até problemas estéticos como as denúncias sobre o “péssimo estado do

Porto”, As preocupações dos articulistas dos jornais também estavam localizadas em aspectos

43

estruturais do crescimento da cidade, como os insucessos da pecuária local e os problemas com

o abastecimento de víveres (O Rio Negro, 30/11/1897).

O tema campeão de reclamações, contudo, era mesmo a permanência de um símbolo

regional nas áreas centrais da cidade: as casas com cobertura de palha. Os jornais noticiavam

com presteza os incêndios em tais locações, com a afirmação de que não havia mais espaço para

tal tipo de construção na paisagem urbana (O Rio Negro, n. 106 de 11/11/1897), ou mesmo

manifestando alívio quando o poder público removia alguma delas.

Até que enfim sahiram da Praça da República as barraquinhas de palha! Não sabemos quem as deveria demolir, sabemos, porem, que o gogo encarregou-se de destruíl-as desentulhando ruas laterais do jardim. Foi um ato digno de benemerência publica e como tal ficará registrado no espírito do povo (O Rio Negro n. 130 de 06/12/1897).

Não há dúvidas, pela análise do que já foi exposto aqui e em outros trabalhos (DIAS,

1999), que a ideologia vigente desenha um quadro de segregação das classes baixas do espaço

urbano como tendência, convergindo no afastamento destes segmentos para a periferia da

cidade através da desapropriação de casas consideradas insalubres ou destoantes da paisagem.

Costa (1997) adverte, porém, que tal processo não pode ser tomado como linear nem direto.

Para a autora, as reformas de valorização dos espaços urbanos não foram as responsáveis diretas

pela expulsão, derrubando as teses “evolucionistas” da historiografia regional que passam a

imagem de uma transformação urbana quase instantânea e não-problematizada.

Segundo Costa, “A Manaus ideal e a Manaus real existiram concomitantemente”, o que

significa dizer que os segmentos populares encontraram soluções para a ocupação do espaço

urbano, fosse através das habitações coletivas, os “cortiços”, cujas bem-cuidadas fachadas,

enquadradas nas exigências dos códigos de postura, escondiam a insalubridade e a pobreza de

seus interiores ou mesmo em porões alugados como dormitórios aos empregados pelos patrões.

A Manaus real também mantinha vivo o modo de viver indígena, fosse nos casebres ocultos

pelos edifícios ou nos hábitos comuns que seus descendentes insistiam em manter apesar da

consternação das autoridades, caracterizando

44

a cidade mestiça que teimava em sobreviver nos arrebaldes [sic] através

dos hábitos populares como o banho de igarapé, o consumo de peixe, o uso da rede

e da casa de palha, já que aí o rigor fiscalizatório era menos intenso. (COSTA, op. cit.: p. 91)

E as mulheres? Na cidade as mulheres não estavam somente no interior das casas,

resguardadas dos olhares públicos. Com a expansão da rede de serviços, a administração

regional cultiva preocupações relativas à formação de uma província desenvolvida, de acordo

com o significado que o termo possuía: foram criados postos de trabalho na área da educação, e

as mulheres já ocupavam um espaço destacado nesta área em virtude do exercício da profissão

de professoras nos colégios religiosos para meninas ou nos domicílios, como preceptoras de

jovens, como demonstram os anúncios dos jornais de oferecimento de serviços.

D. Guilhermina Cruz, de regresso dos Estados Unidos da América do Norte, onde visitou os principais estabelecimentos de instrucção, aperfeiçoando-se nos

methodos modernos de ensino, offerece os seus serviços profissionais aos collegios

e particulares. Pode ser procurada em sua residência à Rua Ramos Ferreira, n.º 17 (O Grêmio, 05/09/1909).

Além de professoras, havia modistas (costureiras), atrizes, domésticas, operárias e

vendedoras ambulantes. Costa (2000) constata que traços de autonomia, como o trabalho

assalariado, é uma característica que foi alcançada pela mulher amazônica antes mesmo que as

mulheres de outras regiões do país. Durante nossa pesquisa exploratória nos jornais antigos,

encontramos uma referência de assalariamento de serventes do sexo feminino que trabalhavam

no quartel da Villa da Barra datada de 1856. Não queremos dizer com isso que o assalariamento

conflui necessariamente para a institucionalização de um sentido de equanimidade entre os

sexos. A mulher ainda é o elemento submisso da sociedade em Manaus e no resto da província,

embora tal submissão possua nuanças diferenciadas.

Os papéis de gênero eram fortemente estabelecidos e difundidos através da educação.

Às mulheres eram atribuídas características que reforçassem seu papel de matriz reprodutora,

qualidades que valorizassem o comportamento submisso e generoso, que viabilizassem a

diluição da individualidade e a entrega total à condição materna, sem esquecer dos atributos

constitutivos de sua imagem de “belo sexo” como a caridade, a presteza e a vaidade. Aos

45

homens e mulheres que ousassem ultrapassar a linha dos papéis atribuídos, mesmo que fosse

num simples gesto, a exposição pública era inevitável, como fica claro no “poeminha” escrito

para um certo Dr. Azevedo que, aparentemente, foi pilhado usando uma espécie de cinta,

provavelmente para reduzir a barriga.

“Notas de um chronista”

O que!?

A moda está sofrendo grandes transformações.

As mulheres bicicletistas já usam calças. Não será impossível que os homens passem a usar saias.

O Sr. Azevedo já espartilha-se

O

caso,

Seriamente tenho medo, Estou mesmo atrapalhado Pois o Sr. Azevedo Andará espartilhado?

Não serão taes notas falsas?

Que importa

Morrerei côas minhas calças

Dê no que der

use saias quem quiser!

(O Rio Negro, n. 06 de 31/07/1897).

sem

dúvida

cômico,

acaba

servindo

de

pretexto

para

um

arroubo

de

masculinidade por parte do articulista e para a reafirmação da definição de papéis sexuais e de

gênero, que inevitavelmente começava a sofrer mudanças, mesmo que as que mais chocassem

os jornalistas fossem as de vestuário. Homens e mulheres deveriam ter papéis e posturas bem

definidos, e tal diferença deveria estar refletida no modo de pensar e agir.

A mulher pensa com o coração, diz o provérbio inglês; o homem com a cabeça. Quantos há que, se pudessem, trocariam bem os papéis! (Ed. Thibaudt) (O Rio Negro, n. 175, 22/01/1898)

A sensação de que alguma coisa estava mudando, porém, permanecia. Com tamanha

perplexidade, não faltou quem prevesse que a humanidade estaria a ponto de sofrer um colapso,

como um certo sábio inglês, objeto de matéria de O Rio Negro de 30/01/1898 que, através de

cálculos matemáticos estatísticos, previa que a humanidade toda enlouqueceria em 400 anos.

Disputas discursivas em torno da mulher: religiosidade e liberalismo

46

Uma das características da ascensão do liberalismo é a crítica ao poder da Igreja. É

importante deixar claro que esta crítica não se direcionava contra a religião propriamente dita; a

religiosidade era parte importante no projeto de sociedade do liberalismo, uma vez que esta se

concatenava com o sentido de ordem, tradicionalismo e estabilidade preconizados por este. Por

outro lado, era preciso retirar da Igreja sua coroa de “senhora absoluta da verdade”. Neste

sentido, o noticiamento de escândalos envolvendo padres como o caso do sacerdote Baptista

Salvi, preso em Roma no dia 18 de novembro de 1898 sob a acusação de cometer “torpezas”

com garotos (O Rio Negro, n. 123, 29/11/1897) ou a nota sobre o suicídio do Parocho Vicenzzo

Ingente foram formas de questionar a Igreja enquanto instituição, sem contudo romper

definitivamente com ela.

A Igreja é colocada em cheque pelos positivistas liberais. Para a elite pensante, a

religião passa a figurar entre os hábitos dos ignorantes, dentre os quais se inclui a mulher, como

demonstra este trecho de um artigo publicado em um jornal local sobre o caráter religioso da

mulher brasileira.

Tua mulher é catholica, quer dizer – meteram-lhe na cabeça o “padre nosso”,

o “Creio em Deus Padre”, a “Ave-Maria’ e depois disso o pendor para o

sobrenatural e o gosto do mystico, levaram-na a ter fé em certa oração de santo ou santa, cuja especialidade é aplacar tempestades como Santa Bárbara e São Jerônimo, ou livrar de espinhas na garganta como São Bráz; esta metade do teu ser

é isto, como geralmente o é a mulher brasileira (O Rio Negro, n. 125 de

01/12/1898).

Apesar das críticas, a devoção religiosa era considerada um atributo desejável nas

mulheres, contanto que tal devoção fosse racionalmente administrada “a mulher não devendo

ser nem devota, nem sábia”, como afirma um outro artigo. Os hábitos religiosos são

considerados uma forma eficiente de manter as mulheres ocupadas em algo que não trouxesse

maiores prejuízos à sua intelectualidade “frágil”, e os homens são admoestados a não

interferirem, e mesmo a acompanhá-las, mesmo que isso nem sempre fosse agradável, como

mostra o artigo “São José de Ribamar”, no qual um homem descreve as agruras pelas quais

passa ao acompanhar sua esposa ao Santuário de São José do Ribamar, no sertão maranhense,

onde supostamente esta iria pagar uma promessa.

47

Sabes o que é o carro da carroça, essa carangueijola de rodas que vão gemendo, cae aqui, cae acolá, em solavancos que se avaliam pelas depressões do

terreno quando, do solo de argila solidamente argamassada ao sol, o passo tardo dos bois resvala e se afunda na areia. Não sabes dou-te a imaginar esta delícia e dava-ta na realidade para com ella te ninares, se eu, ai de mim! não a houvesse experimentado em dia de devota romaria de minha mulher que, segundo minha cartilha, muito anterior à descoberta de Frei Piazza, nos passos de sua devoção, deve ir sempre acompanhada de seu marido, mesmo porque, até em couzas profanas eu penso, como na comedia de Molliere: “deve um marido pelas boas

Permiti-se-lhe rezar, cumprir o

normas, escrever tudo o que se escreve em casa (

voto honesto que encerra uma idéia de religião, uma conspiração, um annelo, uma crença, e da mesma forma permite-se-lhe um devaneio, uma phantasia no authographar do nome (inilegível) ou do rol de roupa que vae a fonte (O Rio Negro, n. 125 de 01/12/1898).

)

Apesar das duras críticas à igreja e a ridicularização de hábitos devotos, a religiosidade

não é desestimulada nas mulheres, pois é tida como uma característica feminina sendo, todavia,

constantemente associada à ignorância e ingenuidade, especialmente nos periódicos liberais.

É tão simples tudo isso e tão delicado, tão genuinamente feminino. Aprecia-o se es alma irmã dessa que elegeste para consorte (O Rio Negro, n. 125 de

01/12/1898).

A mulher, por sua religiosidade, socialmente estimulada, é pintada como um ser

inconseqüente, cuja ignorância a levaria a ter na religião sua única preocupação real. Já o

marido da devota de São José, que relata o caso, reclama o desconforto da viagem, mas acaba

conformando-se, afinal é um traço feminino, mais uma qualidade desejável numa boa esposa,

pois promove a doçura e a obediência.

O trabalho religioso era considerado digno das senhoras e senhoritas de família, através

do qual elas podiam dedicar seu tempo e talento sem maiores consternações:

Amanhã às 16 horas e trinta minutos, na Villa Municipal, a primeira pedra de uma capela que terá como padroeiro, ao que nos informam, N. S. do Perpétuo Socorro. Para essa cerimônia veio convidar este vespertino uma commissão composta de Maria de La salet e das gentis “Signoriñas” Zuila Moreira, Benedicta Lemos e Joana Silva (O Esfola, 13/12/1913).

O Caso da Menina Margarida

Um fato marcante para avaliarmos o quanto a Igreja católica perdia terreno para outras

formas de explicar o mundo foi o ferrenho debate instaurado a partir de um episódio no mínimo

grotesco: uma criança, filha de uma migrante e moradora de uma área periférica de Manaus que

48

nos últimos anos do século XIX, que alegava “incorporar” o espírito de um homem vítima de

assassinato.

Margarida é descrita nos jornais como “uma menina forte, bem disposta, loura e, a ser a

sua idade de doze anos”, de “desenvolvimento é demasiado precoce”. (

).

Filha de uma mulher

portuguesa (que tudo indica que era mãe solteira, já que não há menção ao pai) afirmava

“incorporar”, em transe, o espírito de um homem chamado José Patella, cuja morte era capaz de

descrever em detalhes. As circunstâncias em que Margarida supostamente ganhara o dom eram

quase tão incríveis quanto o mesmo:

Margarida, quando banhava-se em um igarapé, vê duas serpentes e, atemorizada, corre a contar a portuguesa Maria, sua mãe, o que vira. A esta simples narração, o português Chico Folha, que se achava na casa, cahe em pleno sonambulismo e conta o assassínio de Patella por um índio peruano. Naquele estado comunica-se a menor, que pelos modos parece ser hoje paciente de uma doença nervosa, cujas crises se reproduzem. (O Rio Negro, n.03 de 29/01/1898)

O estranho caso levado à polícia e acompanhado com interesse pelos diários locais,

transformando-se no ponto crucial de disputas entre sujeitos de “conhecimentos emergentes”,

como a ciência médica e psiquiátrica, representada pelos esforços em extrair as informações

mediante o uso de hipnose na garota, primeiramente pelo próprio chefe de segurança, que tenta

em vão submeter Margarida a influência hipnótica, sem sucesso 11 , e depois a um médico local,

um certo Doutor Palhano, a quem a menina é levada depois do fracasso do policial. Este

aparentemente obteve êxito, embora os jornalistas desconfiassem que alguma coisa estava

errada:

Diz o nosso colega Comércio que o Doutor Palhano conseguia hipnotizal-a obtendo resposta de todo o questionário que ele fez, com exclusão apenas do referente a morte de Patella. Achamos estranho, entretanto, que estando em tal estado, reagisse por si voltando ao estado natural, o que não nos parece um bom indício de completa hipnotização (O Rio Negro, n. 03 de 29/01/1898).

O Dr. Palhano, contudo, não foi o único a fazer experiências com Margarida. Várias

seções foram realizadas, inclusive com a condução de outros médicos iminentes, acompanhadas

11 Os métodos de hipnose na época, como hoje ainda, não eram de domínio público, o que torna a tentativa frustrada do policial em usar a mesma totalmente pitoresca e até certo ponto cômica.

49

por jornalistas e outros homens de destaque, visto que o fenômeno da “sonâmbula” como foi

chamada em alguns artigos, constituía-se numa forma de dar vazão ao uso de técnicas

científicas modernas como a hipnose, nascidas em campos emergentes como a psiquiatria. Tudo

leva a crer que tais seções constituíram-se em interessantes “laboratórios” de experimentação

dos homens de ciência de Manaus naqueles primeiros meses de 1898 que antecediam a

passagem do século.

não resistiu a influência hipnótica, cujo sono manifestou-se logo. Começou então a repetir o mesmo acionado conhecido: mediu o cumprimento da lâmina do homicida, reproduziu o movimento da punhalada, o impulso que atirou o corpo no igarapé, e o col(?)tar das duas serpes e o trabalho destas devorando o cadáver. Disse as promessas que deveria cumprir, a libra em prata, as mirras, especificando os mandatários que desejava, a conclusão da canoa, onde se devia inscrever seu nome e tudo que já está no domínio público, como sendo José da Costa Patella a vítima do crime. Ao terminar a sessão, manifestou-se na doente uma crise nervosa, em seguida um estado adinâmico (O Rio Negro, 30/01/1898).

Apesar dos jornais mencionarem que a polícia apelara para a prática hipnótica como

forma legítima de tentar elucidar os fatos, tudo leva a crer que em termos técnicos as

autoridades locais não tivessem condições para isso. Além da consolidação de teorias que

originaram a criminalística, onde métodos científicos e médicos começaram a ser usados como

principal suporte para a investigação de crimes, na época a hipnose popularizara-se na Europa

através da Escola de Salpêtrière, na França, que tinha como principal expoente o médico Jean-

Martin Charcot. Em um de seus mais importantes trabalhos, apresentado na Academia Francesa

de Ciências, em 1882, Charcot descreve a hipnose como um estado patológico de dissociação,

no qual o transe seria o equivalente clinicamente “produzido” do processo histérico e das

anormalidades no sistema nervoso.

A vinculação entre hipnose e doença popularizou-se nos meios científicos e marcou toda

a

definição da disciplina e prática hipnótica, lançando sua influência em vários estudiosos como

o

próprio Freud, adepto desta acepção. O emprego de adjetivos como “robusta” e “precoce para

sua idade” para caracterizar Margarida, revela que no entendimento geral o caso tratava-se de

50

uma manifestação de histeria, provavelmente devido a uma maturidade sexual antecipada, como

deixa claro um dos articulistas na passagem abaixo:

A polícia continua a trabalhar para a verificação deste caso estranho, que por nós levamos a conta de uma imaginação doentia, natural aos temperamentos histéricos, como da menor em questão (O Rio Negro, n. 183, 30/01/1898).

Embora os jornalistas mostrassem-se céticos em relação ao fenômeno, creditando o

comportamento de Margarida a crises patológicas, um outro grupo interessou-se pelo caso e

também realizou experiências por sua conta: kardecistas, que realizaram seções espíritas com a

menina, por vezes logo em seguida às seções hipnóticas:

Seguiu-se uma experiência espírita por diversos cavalheiros, na qual Margarida ainda uma vez repetiu a mesma cena, com acréscimo apenas do perdão do assassino – o índio peruano Domingos (O Rio Negro, n. 183, 30/01/1898).

Para compreender a importância da presença dos espíritas na cena social de Manaus e

seu acesso à Margarida, é necessário um breve panorama da emergência do kardecismo no

quadro das idéias do final do século XIX. Este se caracteriza pela reificação da ciência moderna

e racional em oposição à magia, religião e tradição. A ênfase na ciência como detentora da

verdade teve como repercussão o positivismo, o cientificismo, o empirismo e o evolucionismo.

A difusão destas teorias teve um grande impacto na formulação da doutrina espírita por Allan

Kardec, seu fundador, que a concebe como um corpo de conhecimentos racionais. “Além disso,

ele aproximou-se dos fenômenos associados ao espiritismo com uma curiosidade cética e

insistiu em sustentar as credenciais científicas da doutrina” (Emerson Giumbelli,

apud

KANASHIRO, 2004). Assim sendo, o espiritismo é interpretado como uma produção histórica,

encontro de estratégias discursivas desenvolvidas por agentes diversos. Os espíritas reivindicam

reconhecimento

público

como

seguidores

de

uma

doutrina

séria,

pressupostos científicos supostamente verificáveis.

por

ser

baseada

em

Em Manaus, a facilidade de obtenção de informações, a leitura de jornais franceses e o

intenso intercâmbio cultural com a Europa provavelmente tornaram os fenômenos das “mesas

51

dançantes” dos salões franceses conhecidos, e não tardaram a chegar os primeiros adeptos do

kardecismo que, uma vez estabelecidos, instituíram grupos, recrutando membros entre o seleto

segmento dos intelectuais locais, como normalmente acontecia nos locais onde o kardecismo

era introduzido.

As primeiras referências da presença espírita na província do Amazonas, segundo a

própria Federação Espírita Amazonense (1984), são da revista “Reformador”, de 1884,

publicada na então capital federal, a cidade do Rio de Janeiro. As primeiras entidades, contudo,

começaram a reunir-se nos primeiros anos do século XX.

Ao que parece, o caso Margarida tornou-se estopim de uma disputa entre espíritas e

positivistas, ambos em busca de reconhecimento. Os constantes ataques aos kardecistas,

promovidos por liberais de vertente positivista através de chistes e ditos jocosos publicados

gerou a revolta do grupo, que se valeu também dos jornais para expressar sua indignação e

protestar respeito em função da seriedade do espiritismo e do alegado desprezo da doutrina ao

fanatismo e à ignorância.

Em um artigo indignado, publicado em 04/02/1898 e assinado pelo Sr. C. Gonçalves –

em cuja casa encontrava-se hospedada Margarida, os espíritas refutam energicamente o escárnio

contra os espíritos e evocam homens ilustres da ciência para embasar seus argumentos de que o

espiritismo possuiria uma postura séria e comprometida com a busca da verdade através de

procedimentos científicos.

Muito mais interessante que o caso de “mediunidade” descrito nos jornais é a disputa de

poder que se estabeleceu entre agentes sociais diversos. Chama a atenção que em nenhum

momento

seja

representante

mencionado

que

se

seu,

como

um

padre.

tenha

recorrido

ao

Margarida

torna-se

auxílio

da

Igreja

exclusividade

dos

ou

de

algum

médicos,

da

autoridade pública, personificada na polícia, e dos espíritas, representantes de três ordens

sociais distintas, porém relacionadas, em intersecção, uma vez que como vimos, pertenciam a

52

estratos médios urbanos e estavam sobre influência de idéias importadas em função das

possibilidades de comunicação ofertadas na época.

O episódio de Margarida também é emblemático ainda por exemplificar a apropriação da

intimidade pelas disciplinas e tecnologias que tinham como alvo o homem, transformado em

“objeto do conhecimento”: suas pulsões, angústias e transtornos.

Um outro aspecto que chama a atenção é a referência às práticas de confissão,

amplamente citadas por Foucault. Ousamos afirmar que a hipnose insere-se entre as chamadas

“regras meticulosas de exame de si mesmo” (FOUCAULT, 1988), representando inclusive uma

forma extrema dessa tecnologia, uma vez que se acreditava que o estado hipnótico poderia

quebrar as barreiras impostas pelas convenções sociais em busca da verdade absoluta dos

sentimentos mais ocultos.

A hipnose, segundo essa ordem de representação, possibilitaria o acesso à verdade do

corpo e da mente, as grandes aspirações modernas. Percebe-se ainda o esforço dos jornalistas

em apropriar-se da linguagem adequada a tratar dos fenômenos do sexo, emprestada do jargão

médico. Figuram nos jornais termos como biandria, estado adinâmico, histeria.

A condição de Margarida, atribuído a um estado histérico, e portanto característico de

uma sexualidade doentia, era não só contado e recontado várias vezes pela própria como

também ouvido e inquirido pelos médicos, jornalistas e curiosos, concretizando a síntese

foucaultiana da colocação do sexo em discurso.

Modelos de virtude: instrução, casamento, maternidade, família e caridade

Contudo, as representações sobre as mulheres não contavam só com grandes celeumas. A

abordagem dos papéis tradicionalmente destinados às mulheres no período em questão seria infrutífera

se não visasse o diálogo entre as concepções atuais e anteriores sobre gênero as relações de poder

entre os sexos. Neste sentido, podemos dizer que apesar das grandes transformações pelas quais

passou a condição da mulher no Ocidente, alguns “princípios motores”, ou linhas gerais das idéias

53

sobre esses papéis ainda se fazem presentes, embora de forma menos determinante que no século

passado como, por exemplo, a própria situação de gênero e as hierarquizações sociais estabelecidas

entre homens e mulheres, notadamente construídas pelos primeiros.

Por outro lado, temos uma série de elementos cultural e historicamente localizados, relacionados

à realidade específica da mulher amazônica e da mulher na cidade de Manaus. Estes elementos estão

em constante câmbio com as idéias circulantes no restante do mundo, reelaborando e ressignificando

tais experiências externas, construindo uma forma própria de ver a mulher, inclusive no que diz

respeito à normatização dos corpos. Um instrumento importante neste sentido foi o ideal de

feminilidade trabalhado no romantismo, que serviu de balizador para o comportamento das mulheres

que desejassem ser vistas como parceiras socialmente legítimas para o casamento.

A idealização da mulher

Volvamos agora as vistas p’ra aquela linda morena, que traja seda de listas em campo cor de açucena. Repara a maga doçura d´aqueles olhos luzentes, na perfeição de seus dentes da mais esplêndida alvura. Como lhe ficam tão bem no negro de seus cabelos o penteado em novellos, prendendo a flor que´ella tem! Quando seus lábios ginga tem um sorrir de candura, não há mortal que a aventura em alto grau não atinja. E quando sua voz divina desprende notas suaves semelha o canto das aves, saudando a luz matutina. Euclides Faria (O Rio Negro, 29/11/1897)

A idealização da mulher característica da literatura romântica do século XIX tem grande

espaço nos jornais, seja na forma de poemas líricos, nos folhetins onde mocinhas românticas e

virtuosas ganham o coração de algum jovem mancebo, nos comentários elogiosos à beleza de

alguma filha de família eminente ou nas críticas que aquelas que fogem das convenções morais

sofrem.

De acordo com o ideal romântico, a mulher era feita para ser amada, contemplada e

conquistada. No plano da intimidade e das relações entre gêneros a introdução de “avanços

modernos” como a postura menos passiva de algumas moças no jogo da sedução - que até então

só tinha conhecido o protagonismo masculino - causava indignação em alguns homens, que não

toleravam que as mulheres fizessem-se objeto de disputa ou que pretendessem manipular o

processo de conquista, como demonstra o consternado comentário transcrito abaixo:

54

Não é ódio o que sinto por Ella. É pena. Doe-me vê-la tão formosa, tão encantadora, tão ideal e tão indigna do amor que inspira. O seu olhar, o seu sorriso, a sua voz, que dir-se-ia um trinado, tudo faria-a acreditar um ser immaculado, à altura da paixão mais impetuosa e ardente. Como a Cora ou a Graziela do Cantor Jocelyn, a musa inspiradora de um poema. Mas a natureza é assim. Tem caprichos inexplicáveis. Põe no corpo de uma mulher, que é uma estátua, verdadeira criação genial, uma alma que não pode ascender ao céu do sentimento e um coração que não conhece senão pelo avesso o amor. A sua felicidade consiste no maior infortúnio de que se pode ser victima uma mulher: fingir que ama a todos e muito, para se supor muito amada. É um tipo digno de estudo. Estranha psychologia! (O Rio Negro, 13/11/1897).

Apesar do espaço histórico que nos separam do século XIX, percebe-se claramente que os

discursos engendrados nesse processo têm algumas conseqüências diretas e ainda visíveis hoje:

a primeira seria a adoção de um duplo padrão moral – um normatizador, específico para as

mulheres e para o controle de seus corpos, e outro para o homem, privilegiando sua autonomia e

condição de comando. Para Foucault (1984), a vida social moderna está inevitavelmente

vinculada à ascensão de metodologias de normatização das condutas pessoais, o chamado

“poder disciplinar”, responsável pela produção de corpos dóceis, controlados e regulados pela

ordem social, em oposição aos corpos biológicos, instintivos e desejosos, guiados pela natureza

(GIDDENS, 1993). A idéia que sustenta o poder disciplinar é a de que não existe civilização

sem controle. Este é, notadamente, um ponto instigante para nortear as questões referentes ao

estudo das representações locais de sexualidade.

Num contexto como o da Belle Époque, o corpo feminino, controlado e “domesticado”

tem a finalidade de ostentar a riqueza do marido, seja na exclusividade do exercício de funções

domésticas, seja no uso de jóias, trajes e adornos caros. Os jornais são pródigos no anúncio de

lojas de artigos estrangeiros para as damas, confirmando a frase de Michelle Perrot “A mulher é

o espetáculo do homem” (PERROT, 2003). As mulheres deveriam refletir a riqueza e

prosperidade de seus parceiros.

Ana Maria Daou (1998) chama a atenção para o modo como as mulheres apropriam-se do

Teatro Amazonas como palco para sua apoteose “civilizada”. Em oposição à Igreja, que por

muito tempo fora o único espaço permitido às mulheres “honestas” para exibição, geralmente

55

durante a missa de domingo, o Teatro funcionou, no dizer da autora, como uma “escola de

costumes” aonde se ia para observar e ser observado, especialmente as mulheres.

Exatamente as mulheres que duas, três décadas antes eram recorrentemente descritas pelos viajantes em função de sua postura recolhida às casas e por sua ausência em determinadas comemorações que as fizessem se expor em pé de igualdade com seus maridos (DAOU, op. cit., p. 282).

Para preparar as almas femininas para apreciar as diversões requintadas era necessário o

fornecimento de educação de qualidade, mesmo que não que transcendesse as limitações até

então impostas às mulheres em nome das supostas “deficiências” de seu frágil corpo e cérebro

dito incapaz. Assim sendo, a educação feminina logo virou signo de distinção. Foram fundados

colégios religiosos para a preparação das “filhas-familia”, com a missão de convertê-las em

boas esposas e mães, conjugando o estímulo da já citada religiosidade com o brilho da

instrução. Tal cuidado com a formação espiritual, em detrimento da mente, valeu uma piada

publicada em O Rio Negro:

No collegio Sagrado Coração, apresenta-se o pai de uma educanda e pergunta a superiora:

- Que tal a minha filha?

- Eh muito intelligente, muito submissa! Asseguro a V. Exc. Que não a educamos para a Terra!

- Que eh isto? Exclama o pai – a Senhora pretende preparal-a para a Marinha? (O Rio Negro, 04/02/1898).

Os eventos cívicos também passaram a contar com a participação de estudantes

femininas, como no dia 07 de novembro de 1897, as alunas do Gymnasio Amazonense

reuniram-se na escola pra uma ocasião solene: vestidas de branco e portando com fitas azuis de

cetim, elas foram as estrelas da homenagem que a cidade prestava a Candido Mariano,

comandante das tropas da província na Guerra de Canudos. A presença das jovens estudantes

no evento, representantes da nata da juventude manauense, tinha um significado especial.

Embora a escolarização entre as mulheres não tenha sido estimulada no período tanto quanto

entre os homens, a educação feminina era vista como condição para a superação da condição de

56

vila e a incorporação de novos hábitos relacionados ao cultivo da cultura erudita e com a

formação de uma população instruída.

A presença das jovens na homenagem ao militar – aclamado como herói pelo sucesso da

campanha das tropas locais – e não nos custa lembrar a importância simbólica da presença

destas tropas no conflito, visto que a província do Amazonas lutava para obter destaque e

desvencilhar-se não só oficialmente, mas também de fato, do Grão-Pará – tinha um significado

especial, visto que estas garotas representavam o anseio de um futuro brilhante, tanto no campo

da intelectualidade e da prosperidade – pois as mulheres também representavam fertilidade e

continuidade, quanto no da força política, representada pela militarização.

A educação feminina passa a ser um atributo valorizado também na forma de cultivo do

amor às artes, símbolo de refinamento, como o aprendizado do piano, indispensável para

qualquer mocinha prendada que aspirasse a um bom casamento. A imposição do piano

disseminou-se de tal forma que chegou a ser ridicularizada:

- Meu querido Arthur, a tua prima é deliciosa, estou morrendo para que ela seja a minha mulher.

- Tem um defeito!

- Qual e?

- Não sabe tocar piano.

- Pois achas seriamente que isso seja um defeito?

- Ouve! Não sabe tocar piano

Mas toca (O Rio negro, 10/12/1897).

Os jornais, todavia, cada vez mais expressam a valorização da instrução feminina.

Começam a aparecer anúncios pagos de pais parabenizando suas filhas por boas notas obtidas

na escola, como Beatriz Moura Alves, cumprimentada publicamente por seu orgulhoso genitor

nas páginas de O Rio Negro de 13/11/1897 pelas excelentes notas obtidas em seu exame escolar

final. O saber começava a constituir-se em um capital social importante para as mulheres, afinal

somente mulheres instruídas poderiam ter êxito na tarefa de formar cidadãos esclarecidos

57

(ROHDEN, 2001), o que era enfatizado com uma das responsabilidades femininas na república.

Por outro lado, ainda imperava uma grande resistência à profissionalização feminina formal.

Nas escolas técnicas, os cursos franqueados as alunas eram apenas o de economia doméstica, e

visavam quase exclusivamente à atividade do lar, seguidos pelos cursos normais que formavam

professoras.

Notícias como a negação da petição de Mlle. Jeane Chauvin, formada bacharel em

direito pela Universidade de Paris à Ordem dos Advogados para obter o direito de exercer a

profissão ou os sucessos de Maria Augusto Generoso Estrella, a jovem brasileira formara-se em

Medicina em Nova York em 1881, além de cartas da escritora carioca Júlia Lopes 12 ,

prenunciavam uma tímida agitação de um grupo de mulheres locais em prol da participação das

senhoritas manauaras em atividades ditas intelectuais. Assim, foi criado o “Grêmio Recreativo e

Litterário”, jornal com proposta de dar voz à produção escrita de mulheres na capital da

província, liderado por certa Senhorita Matilde Areosa.

Os argumentos das articulistas do Grêmio, que circulou entre 05 de setembro 1909 e 10

de julho de 1910, baseavam-se principalmente no significado que a instrução feminina

representava para as aspirações “civilizatórias” da elite local: “É preciso que os visitantes de

nossa terra fiquem convencidos de que em nosso meio há também moças intelligentes, educadas

e habilitadas”, conclamava Matilde, provocando os homens a apoiarem a nobre causa do

Grêmio com vistas a contribuir para a visibilidade cultural de Manaus frente aos estrangeiros.

Em alguns trechos podemos quase flagrar uma ponta de influência das “perigosas” idéias

feministas, que as autoras em nenhum momento ousam defender, embora citem, como no trecho

12 Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida (1862-1934) era poetiza, romancista e colaborava escrevendo para vários jornais, sendo uma das primeiras mulheres a exercer tal atividade no Brasil. Júlia Lopes de Almeida também estava preocupada com duas instituições sociais e políticas proeminentes: a família e a recém-declarada república. Para ela, a educação adequada às mulheres estaria ligada ao bem-estar social da família e, por extensão, à bem-sucedida consolidação dos ideais republicanos. Júlia defendeu a participação das mulheres na cidadania republicana e a valorizava a família como locus para fortalecimento de seus alicerces, propondo o abandono dos valores considerados ultrapassados e prejudiciais à consolidação de uma nova nação.

58

a seguir, onde grifamos os termos que se aproximam das idéias de igualdade de condições entre

homens e mulheres para o desenvolvimento intelectual:

A intelligencia e a comprehensão da mulher estão em correlação eqüitativa com o do homem, sendo porém a deste mais cultivada. Temos exemplos vivos na América do Norte, em alguns países da Europa e mesmo no sul do nosso paísem que mulheres, munidas de diplomas, desenvolvem as suas diversas actividades provando desta forma que suas intelligencias foram desenvolvidas e aperfeiçoadas, dando ela resultados e inteligência, faltando apenas o cultivo, e no dia em que o tivermos, nesse dia será feita a emancipação da mulher. Possuindo a nossa capital uma sociedade como o Grêmio Familiar Amazonense, porque não collocam as nossas graciosas e intelligentes conterrâneas esta agremiação em uma plase diferente daquella em que está, concorrendo de boa vontade pressurosas para o esplendor dos seus concertos e de suas sessões literárias? Se temos meios para isso, por que assim não os empregamos? (O Grêmio, 05/09/1909).

Apesar de tais “arroubos” feministas, as articulistas estavam longe da defesa de uma

transformação radical das relações de poder entre os sexos, como demonstra o artigo de Areosa

sobre o sufrágio para mulheres. No Grêmio, a defesa do sufrágio para mulheres apoiou-se no

caráter familiar da mulher, representada como o elemento mais próximo à casa, responsável

pela unidade da família e exercendo seu papel de “moralizadora”. A nota transcrita é longa, mas

vale a pena por explicitar vários elementos interessantes para análise:

Um jornal cita dois factos muito curiosos sobre a influência política das mulheres na Austrália e na Noruega. Na Austrália, além de muitos outros, elas gozam de direitos eleitorais amplos; Na Noruega, o voto só lhes foi concedido para todas as medidas relativas a higiene pública. Em 1893, o primeiro parlamento australiano, para o qual concorreram os sufrágios femininos, decretou medidas severíssimas sobre o alcoolismo, regulando de modo a circunscrevel-a extraordinariamente, a venda de bebidas espirituosas. Mais tarde, em 1896, o chamado o Partido Proibicionista, por causa das leis verdadeiramente proibitivas que votava contra o abuso do álcool, foi derrotado. Teve, porém, ainda d’esta vez em seu favor a quase unanimidade dos sufrágios femininos. Na Noruega, a situação ainda foi melhor. Apesar do campo restricto que se entregou a influência da mulher, ela obteve: primeiro o fechamento imediacto de todas as lojas de bebidas e logo após a proibição da venda do álcool sobre todas as formas. E digam que as mulherzinhas não mostraram energias? Um escritor belga, Louis Frank, que sita este fato, diz que imediatamente o alcoolismo cessou de todo na Noruega. Parece que a conclusão era inevitável: sem álcool, não poderia haver alcoolismo. Mas, apesar da sua evidência, faz gosto, escrevel-a bem pleunasticamente, quando se vê que esse grande flagelo, por sua vez, causador de vários outros, tende a estender-se e a crescer de um modo extraordinário em todos os povos. A influência feminina revelada nas medidas votadas, tanto na Austrália como na Noruega, é um grande argumento para as feministas. Isso prova que o receio algumas vezes manifestado de que os votos das mulheres fossem apenas duplicatas dos maridos não tem razão de ser (O Rio Negro, n. 03, 29/01/1898).

59

O jornal não reivindica a igualdade de direitos políticos nem a possibilidade da mulher

exercer um status público semelhante ao do homem, apenas justifica que a atividade política da

mulher poderia ajudar a resolver problemas sociais com os quais a mulher tivesse mais

“identidade”, no caso da higiene social, como se uma vez votando elas pudessem transferir o

cuidado com a família a sociedade em geral. É significativo que o partido fundado pelas

mulheres, ao qual o artigo faz referência, tenha se chamado “Proibicionista”. A mulher

burguesa é representada como agente social, e sua ação “ordeira” é requerida para a resolução

problemas sociais. A sociedade era objeto de uma analogia sutil com o lar, onde as mãos

femininas serviriam para “arrumar a bagunça”. Este parece ser o fundamento do exercício da

filantropia, concretizada em quermesses, chás beneficentes e sociedades de senhoras, muito

comuns na época.

Em Manaus, a Guerra de Canudos foi um dos tantos conflitos que mobilizaram as

respeitáveis damas da sociedade no auxílio das famílias dos militares da Guarda Nacional

mortos durante o conflito e que se constituíam num problema que demandava ações urgentes de

assistência social. Uma das primeiras providências da sociedade local depois da Guerra foi

organizar eventos de caridade para juntar fundos para as famílias das vítimas. Neste momento é

perceptível o protagonismo das mulheres da elite local. Elas tomam para si a tarefa de

organização dos eventos, amplamente noticiados nos jornais locais, como em O Rio Negro, em

sua edição de 11/11/1897. O jornal neste número e nos dois posteriores dá grande destaque à

série de comemorações por conta do retorno das tropas amazonenses de Canudos, quando as

damas organizaram uma “kermese” na Praça da República em benefício das famílias das

vítimas do Batalhão de Polícia do Amazonas. Os nomes de cada dona de barraca, chamada de

“patroa”, aparece em destaque, bem como o das demais participantes e de suas respectivas

barracas, que aliás constituem-se num detalhe curioso pelo que expressam sobre o que se

acreditava ser a cultura local: “Índia Nhamundá”, “El Dorado”, “Choupana das Rosas”,

“Palhoça de Iracema”, “Índia Marajó”, “Palhoça da Yara”, “Maloca dos Barés”.

60

Apesar dos esforços das piedosas senhoras, finado o período de euforia pelo retorno das

tropas, pouco foi feito em prol das famílias dos militares mortos. Aparentemente faltara uma

ação sistemática por parte do governo de amparo às famílias vitimadas, o que se conclui pelo

conteúdo das petições de pensões que as viúvas de Canudos, alegando miséria extrema,

impetram junto ao poder público para buscar uma compensação financeira que minimizasse os

danos pela ausência do chefe da casa e garantisse sua sobrevivência e a de seus filhos nos anos

subseqüentes à guerra, como podemos ver no parecer publicado em

01/02/1898:

O Rio Negro

de

A comissão de justiça foi presente o requerimento em que Maria Francisca de Souza, viúva do 3.º Sargento do 4.º (ou do 1.º) Batalhão de Infantaria do Estado, Manoel Ferreira de Souza, solicita dos poderes uma pensão como arrimo à extrema pobreza em que se acha, conseqüência da morte de seu marido, victimado na gloriosíssima expedição de Canudos. Como, porém, no momento preocupa o espírito do poder Legislativo a crear providencias no sentido de serem amparadas as pessoas das famílias d’aquelles denodados e vallentes soldados que pereceram, dignificando a Pátria, nos arreiaes de Canudos – em cujo número por certo será incluído o do suplicante; entende a commisão que, tratando só assim de estabelecer uma medida de caracter geral, qual é acolhida no Philantropico Projeto n.º 3 tão enthusiastico e cordialmente recebido e acatado no seio deste Congresso, pensa que a suplicante deverá aguardar opportunidade para fazer valer os seus inconclusos direitos.

A Santa Casa de Misericórdia de Manaus, fundada em 1880, que além de ser um dos

únicos serviços de saúde acessível aos pobres, como também funcionava como hospital e

sanatório, acolhia também pedintes, e não raro viúvas, como demonstra um registro de Maria da

Conceição, viúva de 28 anos que conseguira uma guia para entrar na instituição, conforme

notícia de O Papagaio, n. 2 de 13/08/1899.

O fato é que as viúvas pobres eram elementos extremamente fragilizados na ordem

social vigente, visto que uma vez privadas da proteção do marido só lhes restava a miséria,

posto que não possuíam escolaridade nem ofício que lhes sustentasse, demonstrando uma face

cruel de um sistema de exclusão social das mulheres.

Significados Sociais do Casamento Numa Era de Instabilidade

61

O

homem

quando

se

casa

matrimonio, adquire plena liberdade

prende-se

quando

(O Rio Negro, n.º 116, 22/11/1987).

e

a

mulher,

contrae

A quadrinha acima, publicada na seção “Pensamento diário” de um jornal de Manaus,

traduz como a sociedade da época formulava o significado do casamento para homens e

mulheres no final do século XIX. Vamos tomá-la como ponto de partida para nossa reflexão

sobre o casamento e seu papel para a imagem da mulher através dos jornais.

O papel sexual e social destinado à mulher atribuía a esta apenas uma tarefa: a de

convencer um homem, preferencialmente de um nível social igual ou superior ao seu, de pedir-

lhe a mão em casamento. Apesar de historiadores como Peter Gay (1988) afirmarem que a

frieza sexual da mulher burguesa da passagem do século, amplamente apregoada pela tradição

historiográfica, constituir-se num equívoco pela grande quantidade de evidências registradas em

cartas de amor e diários pessoais sobre a existência de paixão e satisfação sexual nos

casamentos, é fato que o papel passivo feminino era encorajado pela educação e considerado

desejável pelas famílias e pelos futuros maridos principalmente.

Sendo assim, cabia às mulheres a difícil tarefa de conquistar pretendentes sem exporem-

se de forma claramente insinuante; para tão complicada missão, uma série de estratégias,

algumas muito criativas, foram criadas para possibilitar a expressão do sentimento amoroso e a

sedução discreta como os códigos secretos de namoro à distância – a moça na janela e o

enamorado na rua - que incluíam além do gestual corpóreo comum aos momentos de sedução,

uma gama de movimentos e mímicas a serem executados com a ajuda de chapéus, bengalas e

lenços, divulgados em almanaques e publicações lúdicas, que tanto nos encantam hoje em dia.

Outra estratégia para chamar a atenção dos partidos locais para as jovens disponíveis na

cidade era a citação dos nomes de senhoritas nas seções de variedades dos jornais, sutilmente

destinadas a listar as jovens disponíveis da cidade, enaltecendo características como beleza,

elegância e inteligência. A gênese do colunismo social baré está, portanto, profundamente

ligado à propaganda de noivas à espera de candidatos.

62

O casamento é um valor fundamental para a mulher da época, chegando a ser critério

para sua respeitabilidade e sanidade. Segundo o ideal da elite, a mulher casada poderia gerir sua

própria casa, seria admitida na vida adulta e estaria apta para o que até então era considerado o

ápice da missão da mulher: a maternidade, que deveria acontecer como a realização do

casamento, e idealmente dentro deste. As mães solteiras, porém, não deixaram de existir por

isso:

- Então menina, você é casada?

- Não, senhor.

- Ah! É filha de família

- Sim, senhor.

- E essa menina que tem nos braços?

- É

neta da família.

(O Rio Negro, 12 de janeiro de 1898).

Se por um lado a sociedade transformava em escândalo o sexo antes do casamento, por

outro era obrigada a conviver com casos da prática continuamente, mesmo punindo quem dele

ousasse fazer uso com a exposição pública. Para isso os jornais se valiam bem. Poucas coisas

poderiam ser piores para uma jovem “de família” do século XIX do que não conseguir casar.

Era algo como um fracasso social, o maior para a mulher da época. Um expediente de estímulo

ao casamento era o dote, um valor pago ao noivo pela família da noiva para apoiar na

construção da nova vida de casados, sendo não raramente o principal estímulo para o

matrimônio, como retrata José de Alencar no romance Senhora ou a quadrinha bem-humorada

publicada em O Rio Negro de 22 de janeiro de 1898, retratando o diálogo entre o pai da noiva e

o futuro genro:

Diálogo importante:

- Está resolvido o Senhor a dar à sua filha o dote de 50 contos. Acho pouco.

- É exacto, mas por minha morte, tudo é da pequena. - Está bem! Mas em que época mais-ou-menos pensa o senhor em morrer?

Moura (2002) relata que em São Paulo a instituição do dote não sobrevive ao século

XIX em função da ascensão de uma pequena burguesia mais ampla – ao contrário das grandes

fortunas do século anterior - e de elementos subjetivos como o sentido de individualismo e as

63

transformações proporcionadas pelo meio urbano nas relações sociais e no próprio papel da

mulher. Para o autor, no contexto social complexo como o paulista, com uma grande maioria de

pequenos proprietários, comerciantes e profissionais liberais, os pais não dispunham dos

recursos semelhantes aos de seus antepassados para dotar suas filhas, de modo que as moças

iam, em boa medida, de “mãos abanando” para o casamento.

O declínio do dote deslocou a mulher de elite para uma posição secundária no casamento, mas também alterou o próprio sentido do matrimônio, já que passaram a não ser mais os atrativos de enriquecimento que levavam o noivo ao altar (MOURA, op. cit., p.20).

Podemos somar a estes aspectos os elementos românticos como a valorização do

casamento por amor, que passa a se fazer mais presente nas negociações maritais, chegando a

transformar-se em aspecto determinante, pelo menos no imaginário popular, até o final do

século XX. Em Manaus, não temos elementos para afirmar, mas supomos que a prática não teve

grande repercussão, especialmente se levarmos em conta o perfil da elite local, que diferente do

Pará, não era formada por famílias de grande tradição (DAOU, 2000). Contudo, mesmo

supostamente não tendo grande peso, o dote parece ter sobrevivido até a entrada do século XX,

mesmo que com outras utilidades, como podemos perceber a partir da nota publicada em O Rio

Negro de 03 de dezembro de 1897, que dava conta do “dotamento” de uma jovem como forma

de “indenizá-la” pelo seu defloramento.

Vimos documento de ter José da Silva Ribeiro desistido da ação que prepuser contra Alberto Alvez Braz Fernandes, por crime de defloramento praticado em sua filha, em vista de este a ter dotado.

A uma jovem de baixa renda, mesmo com a perda da virgindade publicamente

conhecida, o dote poderia ser um grande apelo aos pretendentes e aumentaria suas chances de

conseguir um casamento em breve se não mascarasse uma situação de profunda assimetria

social entre os atores envolvidos, pois livrava o Sr. Fernandes, o deflorador, que se tratava

aparentemente de alguém de posição social e recursos, da obrigação de casar ou mesmo de uma

dívida social.

64

Portanto, o casamento era o primeiro objetivo da mulher tão logo chegasse à idade

considerada apropriada que, diga-se de passagem, era bem menor que a atual. Com a definição

do conceito de infância, no século XIX, já não eram tão comuns os casamentos de meninas de

12 e 13 anos como no período colonial, sendo este tipo de união considerado indesejável, entre

outros motivos, pela preocupação biomédica com a preparação do corpo da mulher para a

maternidade; entretanto a idade de 15 anos já funcionava como um marcador para a idade

adulta, e não raramente elementos próprios deste universo como os enxovais de noivado eram

começados a ser providenciados bem antes disso.

O papel da mãe da moça, por outro lado, está ligado à preocupação da família em

providenciar um matrimônio para a filha, selecionando candidatos e adulando os pretendentes,

sendo por isso seu comportamento estereotipado pela imprensa como uma intrépida caçadora de

maridos, como aparece nesta nota publicada nas páginas de O Passe-Partout de 23 de

novembro de 1909:

Num baile de casamento, a mãe da noiva, vendo um grupo de moços conversando despreocupadamente a um canto da sala dirige-se a eles dizendo:

- Queiram vir servir-se de chocolate e espero que continuem a freqüentar a nossa casa, pois ainda tenho quatro filhas solteiras!

Tão logo o casamento se realizasse, o papel da mãe da noiva mudava radicalmente; a

amável mãe metamorfoseava-se de aduladora incansável a megera insuportável: a sogra. Esta

sempre aparecia como alvo de chacotas e chistes, por vezes cruéis, como o seguinte, em que um

homem regozija-se por uma suposta viagem de sua sogra a Canudos, certamente o sonho de

muitos genros na época:

Estou imensamente contente, palavra de Jeremias! Quando tive a notícia de que minha sogra ia offerecer-se ao Governo, para seguir com destino a Canudos, que alegria! Rejubilei, exutei, fiquei doido de contentamento! A minha sogra, a minha rica sogra para Canudos! Que enthusiamo, que delírio em toda família! Pobre e desgraçado é Conselheiro, que vae morrer miseravelmente, covardemente pelas dentadas caninas da minha sogra! Ela está num furor patriótico incrível, minha querida mulher! Só fala em guerra, em sangue, em balas, espingarda, canhões e duelos! Diz que há de pagar o Conselheiro – minha sogra é legalista – e espanca-lo, reduzi-lo a pó. Enquanto ela luta em Canudos, eu fico livre dessa canuda! Jeremias (O Rio Negro, 10 de agosto de 1897).

65

Pedro (1988) lembra que as críticas às sogras eram matéria comuns também nos jornais

da cidade de Desterro (atual Florianópolis) no século XIX. Para a autora, o fundamento da

crítica às sogras estava na ridicularização dos comportamentos tidos como desviantes como o

das solteironas, o das mulheres intelectuais e o das sogras, sempre pintadas como perigosas,

especialmente se morasse na mesma casa do genro, como demonstra o “singelo” versinho

publicado em O Rio Negro de 10/12/1897, um dentre tantos que encontramos durante a

pesquisa nas fontes:

Todo moço que se casa Deve ter um pão no canto Para benzer uma sogra, Quando estiver de quebranto.

Embora os papéis submissos fossem destinados às mulheres, uma das únicas formas

dessa situação inverter-se seria na relação entre sogras e genros, onde estas teriam ao seu lado o

status de mãe/mulher sem as suas tradicionais limitações de subordinação em relação ao

elemento masculino, no caso, o marido da filha.

Por outro lado, o casamento antes de ser uma instituição romântica era uma instituição

social, e como tal, servia entre outras coisas para reafirmar o status dos nubentes ou para

oferecer perspectivas de subir níveis, como podemos entender da quadrinha publicada em

04/12/1897 em O Rio Negro:

Confidencia entre duas raparigas:

- Sabes que o Paulo pediu-me a mão?

- E que lhe respondeste?

- Que lha daria quando ele se collocasse.

- Mas, minha amiga, és extraordinária! necessidade de te desposar.

Se elle tivesse se collocado, não teria

A carência de reconhecimento da mulher como sujeito de direito na lei refletia-se no

status jurídico da mulher na república. Apesar das inovações, a imagem construída sobre a

mulher que aparecia no texto do código civil denotava a continuidade do pensamento que via a

mulher ideal como ente dedicado à família e sob o rígido domínio do esposo. No texto do

código é ainda conferida ao marido a chefia da sociedade conjugal, a responsabilidade pública

66

da família e de sua manutenção, e a administração dos bens do casal, inclusive aqueles trazidos

pela mulher na ocasião do casamento (MALUF e MOTT, 1998)

Escândalo! Um caso de bigamia

A edição de O Rio Negro de 28/01/1898 trazia com destaque uma matéria sobre um

suposto caso de bigamia na capital. A julgar pelo destaque dado ao fato e a repercussão do

mesmo – com pelo menos quatro edições seguintes também dedicadas ao tema – percebe-se que

o acontecimento deve ter proporcionado muitos comentários, fossem eles jocosos ou alarmados.

Laureana Maria da Silva, residente em Manaus, havia recebido uma carta de um certo

Antonio dos Santos Monteiro, no dia 05 de novembro de 1897, noticiando a morte de seu

marido, Francisco Arruda do Nascimento, com quem havia contraído matrimônio na igreja, em

Maranguape, Ceará; este aparentemente trabalhava num seringal no Rio Madeira, encontrando a

mulher eventualmente, quando voltava para a casa em Manaus, situação que deve ter sido

comum na época entre os homens que trabalhavam com extrativismo. Antonio era patrão de

Francisco, e além de informações sobre o falecimento de deste, a carta recebida por Laureana

falava da existência de uma herança no valor de 305 mil rés. Francisco teria acrescentado que

só entregaria o dinheiro em sua casa, no Rio Madeira. Mais tarde uma irmã e um cunhado de

Arruda teriam confirmado sua morte para Laureana. Considerando-se viúva, Laureana contraiu

matrimônio, no Amazonas, pela modalidade civil, com Francisco Baptista da Silva, em 1897.

Algum tempo depois, chegam até Laureana notícias de terceiros de que Francisco, o marido

considerado morto, havia reaparecido. O caso, como é fácil de se prever, aguçou a curiosidade

pública e valeu semanas de notas e artigos nos jornais locais.

Escândalo! Uma mulher com dois maridos! Casamento civil e religioso. Um ressuscitado! Marido que julgado morto, reclama os seus direitos! Ao fecharmos nosso expediente, tivemos notícia de um caso escandaloso. Uma mulher de nome Laureana Maria da Silva. O sub-prefeito do terceiro districto da capital, major Barbosa, está tratando do caso. O primeiro marido casou-se religiosamente, o segundo civilmente. Os dois maridos não querem ceder os seus direitos (O Rio Negro, 28/01/1898).

67

O casamento civil no Brasil foi instituído pelo decreto n. 181 de 24 de janeiro de 1890,

fruto das ações dos parlamentares liberais, porta-vozes do Estado-laico, reduzindo o poder

outrora absoluto da Igreja em pontos estratégicos para seu projeto de sociedade como o

casamento. O caso acabou sendo um motivo para embate entre os representantes da antiga

ordem – Igreja e monarquia e os republicanos, adeptos do espírito positivista e legalista.

No embate entre liberais e clero, Maria Conceição da Silva (2003) nos fornece dados

sobre a grande celeuma instaurada em torno da polêmica questão a partir da realidade de Goiás,

que em linhas gerais pode nos dar uma idéia dos ocorridos em outros pontos do Brasil: por um

lado temos as estratégias do clero para convencer os fiéis do perigo que na ótica da Igreja

representava o casamento civil, por outro temos o estado liberal, de inspiração positivista, que

tentava fortalecer-se através de ações restritivas ao seu principal inimigo: o poder do clero.

Não é demais recordar a importância do casamento como instituição social na época,

especialmente a forma como estava ligado à Igreja Católica. Segundo Silva, através do regime

do Padroado – que dividia responsabilidades entre Estado e Igreja, o primeiro delegava à última

a responsabilidade por questões fundamentais para a sociedade como a liberdade de culto, o

sepultamento dos mortos (por meio da gestão de cemitérios) e o casamento. Acrescentamos a

esses pontos, especialmente na Amazônia, a abertura de frentes de expansão para colonização

de territórios através da neutralização de grupos indígenas pela catequese. Não é difícil pensar

no peso da influência da Igreja se levarmos em conta que durante muito tempo a única forma de

registro de nascimento e de identificação eram as certidões de batismo e casamento religioso.

O casamento religioso tinha um caráter social importante, especialmente por ser o único

reconhecido até 1890. Só era possível entre cônjuges católicos, o que significava que, grosso

modo,

estes

tinham

garantido

como

certos

direitos

civis

básicos

como

herança

e

reconhecimento da prole, entre outros. Pelas regras do direito canônico, o casamento reunia os

dois elementos: a identidade de ato jurídico e a de sacramento religioso.

68

Se por um lado os arautos da modernização do Estado apontavam o casamento civil

como condição para a adequação das instituições na nova ordem social, por outro lado a igreja

endurecia-se, adotando uma “linha de romanização conservadora, numa perspectiva marcada

pelo centralismo institucional de Roma” (SILVA, op. cit, p. 46) e, portanto, em rota de colisão

com o ideário liberal. A partir desses elementos, podemos dimensionar os sentidos negociados

no debate sobre o caso de Laureana, que ganhou os jornais em janeiro e fevereiro de 1898.

Embora longa, a citação seguinte foi deixada na íntegra por enumerar de forma clara

várias das questões que levantamos neste momento:

Não parece existir dúvida sobre o primeiro: o marido que casou-se civilmente deve ficar de posse da mulher, por isso que o único casamento aceito é considerado como tal pelas leis em vigor, é o civil. Se, porém há entre os cônjuges, motivos particulares, que determinem a repulsa do legítimo marido, nada mais natural que promover a mulher a ação do divórcio, conferida em lei e continuar em companhia do segundo marido, com quem religiosamente casou-se. Logo depois de promulgado o decreto do casamento civil obrigatório, clarezia, que não queria comprehender bem o facto do casamento, alcançou o colo; e nas predicas, nos conselhos, no mesmo templo sagrado, investia contra as leis sociais, contra os actos do governo, e qualificava de cocumbinato o casamento que não fosse executando como preceitua a religião catholica. Não foram poucos os artigos escriptos sobre o assumpto, artigos até doutrinários para a instrução do povo; mas, sem embargo de tudo isso, a classe menos culta da sociedade preferio attender mais à palavra dos “santos” sacerdotes do que a dos que têm por obrigação explicar e applicar as leis (O Rio Negro, 01/02/1898, grifos meus).

Apesar de pitoresco, o que chama a atenção nas matérias não é tanto o fato curioso da

bigamia, mas a forma como os articulistas se posicionam em defesa da união civil de Laureana

como única legítima e reconhecida, apesar desta ter sido realizada depois do casamento

religioso. O autor do texto também frisa a natureza contratual do casamento civil – que tanto

incomodava aos padres, através da opção do divórcio, instituída na lei em 1891.

Na citação também aparece a defesa da legalidade “irrefutável” que o casamento civil

representa enquanto respeito às leis. No final do texto é feita uma perversa associação da

preferência

pelo

casamento religioso como sinônimo de

ignorância das

classes

baixas,

justamente por ter sido nelas que as campanhas dos padres contra o matrimônio civil fizeram

mais efeito.

69

A autora relata ainda as impiedosas campanhas do clero da época contra o casamento

civil na cidade de Goiás, associando-o à heresia e ao afastamento dos valores familiares. A

autora lembra que o próprio Papa da época, Pio IX, condena de forma enfática o casamento

civil no mundo todo com a frase: “O casamento civil é um torpe e vil concubinato”. Embora se

referindo

a

uma

nacionalmente.

realidade

específica,

temos

evidências

de

que

esse

debate

se

deu

O Rio Negro, de onde extraímos a notícia sobre este caso em particular, apresentava-se

como um veículo adepto das idéias positivistas e liberais, e portanto um crítico por tabela da

igreja, o que justifica seu posicionamento em relação ao casamento. Esta crítica, contudo,

estava estruturada em bases de gênero bem definidas: às mulheres, a religião era um recurso

desejável e um hábito a ser cultivado. Para os homens concatenados aos ideais modernizantes

da república, porém, não.

De qualquer forma, independente da conotação política do caso, transformado em arena

de embate entre dois projetos de sociedade – o da Igreja, que perdia força, e o dos liberais e

positivistas, que construíam seu respaldo na lei - a estória da bigamia rendeu muitas quadrinhas

humoradas, proporcionando boas risadas à população de Manáos:

Dois maridos

Diz um marido o direito

É só meu, de no que der

E o outro a bater no peito:

É meo, mas bem satisfeito

Desisto d éter mulher.

Se este facto é verdadeiro, Se a folha não nos engana Não é nada lisongeiro Para dona Laureana Epla. (O Rio Negro, 01/02/1898).

Uma outra questão igualmente ponderada pelos defensores do casamento civil e

profundamente trabalhada nos anos subseqüentes através de debates nas sociedades médicas

nacionais, era a necessidade de adequar o casamento às preocupações com as variáveis “raça” e

“nação” através da eugenia, ponto no qual vemos convergir com impressionante sincronia as

questões de saúde e as questões jurídicas. Para proporcionar uma população saudável, era

70

necessário na opinião dos médicos acabar com os casamentos consangüíneos, embora segundo

Castañeda (2003), só em 1919 apareça no código civil matéria referente a isso.

O Casamento Em Perigo: Livre União e Infidelidade Nos Jornais

Uma vez que a instituição do casamento provocava em debates apaixonados entre

legalistas e religiosos, o que dizer da “união livre”, uma modalidade “marginal” de união, sem

nenhum respaldo legal na época? Vamos nos aventurar nos comentários que apareciam nos

jornais sobre o assunto.

Uma peça teatral apresentada no Odeon causou comentários indignados por parte de um

dos articulistas, representante do nascente segmento dos críticos de arte, pelo tema da peça: a

união livre.

No Odeon deram peças novas, uma das quaes Menattes, do Beauborg, não alcançou resultado. O auctor tenta demonstrar que a união livre é superior ao casamento, que duas pessoas que se amam têm o direito de se juntar e que o mundo é odioso com seus preconceitos. Um sub-secretario de Estado apaixona-se por uma mulher que está separada do marido. Em vez de promover o divorcio e casar com ella, não o faz, porque receia que suas irmãs não levem em gosto. Afinal, vive publicamente com a tal mulher e queixa-se que a sociedade não ache isso natural. Sabendo mais tarde que a dama teve outro amante antes dele fica indignado e a dama vae para um convento (O Rio Negro, 04/12/1876, grifos meus).

O dramático da peça, com a punição social da mulher através de sua ida para um

convento, não deixa dúvidas sobre a forma como as uniões consensuais eram vistas pela

sociedade da época.

Apesar dos articulistas de O Rio Negro colocarem-se a favor do casamento civil no caso

de Laureana, numa postura aparentemente “liberal” não podemos considerar que condenassem

o casamento e seu valor moral. O status do casamento como fonte de reconhecimento social e

de estruturação da instituição familiar continuou a ser uma idéia cara aos positivistas e aos

idealizadores da Nação moderna na qual pretendiam transformar o Brasil.

A defesa do casamento é feita nas páginas do jornal de perfil positivista de forma

indireta, através da condenação da “união livre”, expressão que denotava idéia de uma união

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consensual, sem compromisso formal – ou seja, sem reconhecimento nem da Igreja e nem do

Estado, como fica claro na resposta cheia de ironia de um articulista, Florival – provavelmente

um pseudônimo, a uma suposta carta escrita por uma jovem viúva local sobre a união livre

como alternativa ao enfadonho casamento:

Conversáramos, - e numa confiança generosa; gratissima ao meu espírito, contou-me que o seu infeliz marido morrera há dois annos, deixando-a sem filhos, sem um consolo, sem uma alegria. Se não falha-me a memória, V. Exc. acrescentou-me que ficara com idéias muito particulares sobre o casamento. Recordo-me que V.Exc. disse – com a pratica do casamento, pratica que muito respeito, e venero, - que não achava verdadeira felicidade no matrimônio. Não tinha sido infeliz, mas essa “união forçada” de dois seres extranhos, passando o período clássico do idyllio, era aborrecida, monótona e fatigante. Pergunta-me a gentil missiva o que penso da “união livre”, sem preconceitos de sociedade, sem escrúpulos tolos d’um burguezismo atrazado. E é eloqüente quando argumenta em prol do amor libertino: “Para ter uma marido, marido de Igreja, marido civil? Um contracto eterno, até a morte, por que? Não julga preferível uma união voluntária, espontanea, que se romperá sem escândalo e barulho quando chegar o fastio e o aborrecimento?” Ah! Minha Senhora, é extraordinariamente delicada a consulta. Sem a prática, não posso responder cabalmente. Mas, com espontaneidade pressuroso, corro ao apello de V. Exc. Nada mais que uma experiência, nada mais que isso. Por que V. Exc. Não escolhe-me para essa primeira “união livre” para introduzir o methodo e o systhema n’este pobre mundo atrazado e tolo? (O Rio Negro,

03/08/1897)

Não sabemos se realmente uma mulher de Manaus do século XIX havia escrito um texto

tão “ousado” para a época ou se a carta era apenas uma construção da mente do jornalista, uma

desculpa para tratar de um tema tão inquietante. De modo geral, não podemos nos esquecer que

a ideologia positivista-liberal via nas instituições como a família e o casamento as formas para

uma sociedade harmoniosa, o que se justificava pela máxima “Só existe ordem no progresso. Só

existe progresso na paz”.

Para Luzia Castañeda (2003), os debates no século XIX guiaram-se, pos dois sentidos: o

primeiro era o da convicção de que o casamento não mais poderia se realizar como ato religioso

e, o outro, da resistência em cogitar a dissolução da instituição. A autora lembra que estas

preocupações já estavam presentes nas discussões do grupo positivista do Brasil que, em carta

enviada ao então ministro do Império, em 1854, discute o projeto do casamento civil.

O casamento não é um contrato, como a maioria dos legistas apregoa. O casamento é a sanção social (cívica ou religiosa) da união fundamental que institui

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a família. e a família é uma associação que se forma espontaneamente em torno da

mulher, em conseqüência dos vários instintos que constituem a natureza moral das

espécies superiores (LEMOS, 1887, apud CASTAÑEDA, 2003).

Como

veículos

de

informação

elaborados

para

homens,

os

jornais

também

se

dedicavam, embora discretamente, a comentar sobre outro inimigo da instituição do casamento:

a infidelidade conjugal:

Um amigo a outro:

- Minha mulher comprou uma caixa de pó-de-arroz, que todas as vezes que lhe dou um beijo parece-me que estou comendo açúcar.

- Homem, é verdade! Exclamou o outro distraidamente, eu também já notei isso (O Passe-Partout, 23/09/1909)

A infidelidade no casamento é mais um dos tantos discursos que tem leitura de gênero

diferenciada. Um dos casos de infidelidade mais marcantes na época, pelo desfecho trágico que

teve, foi

o

do

famoso escrito Euclides da Cunha e de sua esposa Ana de Assis,

cujo

relacionamento com o soldado Dilermando de Assis causou a morte de Euclides em uma troca

de tiros com seu rival em 15 de agosto de 1909. O caso mereceu um texto indignado nas

páginas de O Grêmio, não por acaso um jornal feminino, como vimos, comprometido com a

emancipação feminina:

Nessa mulher o glorioso escritor depositara todas as suas alegrias, todos os seus esforços, todas as suas glórias, todos seus sonhos de ouro, sonhos que ela lhe deu e que depois arrancou. Nela estava depositada a sua honra, a honra de seus filhos queridos, desses órfans que ontem eram tão felizes e que hoje baixarão a cabeça envergonhados de um tão triste acontecimento. No entanto, a infeliz é ela que desapareceu da sociedade e desaparecerá do mundo como um animal qualquer, sem prestígio algum. (O Grêmio, 05/09/1909).

No texto, além da notória condenação de Ana, temos como principal argumento contra

ela a família que ela, como “deusa do lar” manchou com o opróbrio de seu ato. Nota-se que,

mais que a morte de Cunha, o que verdadeiramente se lamenta é a desvalorização da família e

da instituição do casamento, supostamente decorrente da infidelidade de Ana. Sua pena está

explicitada nas palavras que destacam a necessidade de fazê-la desaparecer “da sociedade e do

mundo”, pois na sociedade burguesa brasileira os valores de afirmação social passavam pelo

sentido de honra familiar, do qual a mulher era a guardiã eleita pela tradição, sob a qual o

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sentido de nacionalidade deveria ser erguido, como afirma o conselho às jovens publicado em A

Voz de Loriga, jornal editado em Manaus pela colônia portuguesa, de 01 de agosto 1909:

E vós, moças ingênuas do meu berço, donzellas que a vossa alma se envolve no manto immaculado das vossas aspirações de felicidade conjugal que vos espera! Sede estudiosas, activas nos vossos misteres caseiros que com carinho com o vosso sentimento de boas esposas, quando lá chegardes, a esse ninho em que os actirarvos de vossa alma carinhosa toda a virtude concentra, dareis aos vossos filhos esse nobre dote que se chama instrução, que tereis assim cumprido com o vosso dever dando a pátria um filho digno de vós

A historiadora Joana Pedro (1988) chama a atenção para o fato de que, entre os signos

de status constituídos pela elite, a mulher exclusivamente dedicada às funções de esposa, mãe e

dona-de-casa passa a ser um símbolo para as famílias, e para os homens, cuja renda

possibilitava manter a mulher em casa, ao contrário da população de baixa renda, cujas

necessidades materiais obrigavam as mulheres a trabalhar para reforçar o orçamento doméstico

ou mesmo para sustentar sozinhas as casas através de empregos de serviço ou exercendo ofícios

em casa como as lavadeiras e as doceiras. A casa deveria ser o domínio único do feminino, e a

família sua preocupação. Estas idéias articulavam-se à construção de uma sexualidade,

especialmente nesta definição moderna do papel da família. Por sua penetrabilidade e sua

repercussão voltada para o exterior, ela é um dos elementos táticos mais precisos deste

dispositivo (FOULCAULT, op. cit., p. 105).

A família é o referencial máximo das condutas sexuais, e qualquer coisa que atentasse

contra a estabilidade de uma delas era como um ataque velado à instituição que ela

representava. O casamento, portanto, tinha um papel importante para a reafirmação destes

valores e para garantir à mulher o cumprimento dos papeis a elas destinados, especialmente

porque era o casamento a única possibilidade de, pelas normas sociais, a mulher vir a exercer

sua sexualidade.

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CAPÍTULO 2

SUBVERTENDO A ORDEM: DIVERSÕES, RESISTÊNCIAS E CRIMINALIZAÇÃO DA SEXUALIDADE

Mulheres faladas

Os moradores da Rua José Clemente, 5.ª feira passada, foram despertados

com uma grande algazarra, partida da rua. Eram as célebres cuínas Maroca Não- Vou-Nisso e Constância Batalhão, que quase rompiam o Ano Novo debaixo de

bofetadas, tudo isso porque a cuína Constância queria tomar o seu Nisso (O Chicote, 07/11/1915).

da Não-Vou-

A analítica da sociedade moderna identifica como uma de suas crises originais o

paradoxo do sujeito único e estável. Esta concepção, segundo Sousa e Ratts (2004), entra em

choque com a estruturação de um sujeito “fragmentado” composto de várias identidades,

contraditórias ou não resolvidas de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça, nacionalidade, que

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passam a ser fluidas e cada vez mais intensas. O espaço funciona como um marcador social,

caracterizando quem nele circula, interagindo com papéis e práticas individuais. Roberto

DaMatta (2000) postula a importância dos espaços como marcadores sociais que, independente

das biografias individuais, constituem historicidade própria, emoldurando a vida social; um

exemplo emblemático dessa relação são as praças nas cidades. Nas cidades ibéricas e

brasileiras, a praça abre um território especial, uma região teoricamente do “povo” (DaMatta,

op. cit., p. 44). A constituição de territórios urbanos, diferenciados de acordo com essa

infinidade de culturas, passa a fazer parte de um fenômeno mundial, associado à vida nas

cidades. Deste modo, as “identidades territoriais” também estão relacionadas às transformações

sociais contemporâneas e a dimensão que as questões do poder, do corpo e do sexo passam a

possuir.

É importante que tenhamos em mente o caráter incrivelmente rápido em que se deu a

constituição de Manaus numa grande cidade e as características deste processo. Num espaço de

tempo de menos de 70 anos a cidade aumenta nada menos que doze vezes o tamanho de sua

população, mais de 1.200%, como podemos verificar na Tabela 1.

Tabela 1

População Total da Província, Depois Estado do Amazonas, Segundo o Sexo, nos anos de 1852, 1872, 1890, 1900, 1910 e 1920

Sexo

1852

1872

1890

1900

1910

1920

Homens

-

31.470

80.921

136.636

-

196.202

Mulheres

-

26.140

66.994

113.120

-

166.964

TOTAL

29.798

57.610

147.915

249.756

358.695

363.166

Fonte: Amazonas (1852) apud Relatório do Presidente da província do Pará, Dr. Fausto de Aguiar in: RPP-AM. Vol I. 1906:09 (para 1852). Recenseamentos Gerais de 1872, 1890, 1900 e 1920 e Anuário estatístico do Brasil. 1908-1912, para 1910 apud Daou (1988).

Além dos problemas sociais advindos da falta de estrutura urbana para abrigar o

aumento da população, este fenômeno tem como conseqüência, a constituição de uma

diversificada gama de “tipos humanos”, a partir da complexificação das atividades, a criação de

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novos ofícios e ramos produtivos, além do extrativismo nos seringais. Nesta “fauna” urbana, as

mulheres buscavam seu espaço através do exercício de variadas atividades – possibilitadas ou

não

pela

moral

vigente:

professoras,

costureiras,

ambulantes,

prostitutas,

operárias

das

indústrias locais, que mesmo não existindo em grande número, foi responsável pelo emprego de

mão-de-obra feminina. A ideologia vigente, porém, não endossava àquelas que não se

enquadrassem nos padrões de restrição aos espaços domésticos.

A

disciplinarização

dos

corpos

femininos

constituía-se

em

uma

das

maiores

preocupações do pensamento social. Os mecanismos instituídos para tanto permeavam várias

esferas e instituições. A mulher que quisesse gozar de respeito e aceitação nos círculos sociais

locais deveria ter como principal meta de vida a preparação para o ofício de esposa e mãe. A

sexualidade foi então um aspecto fundamental para este controle, sendo alçadas à condição de

diferencial entre as mulheres consideradas respeitáveis, as “honestas” e as “faladas” (PEDRO,

1998).

A pregação moral foi mais contundente justamente onde os modelos de mulher despida

de iniciativa sexual, frágil e dependente do homem tornavam-se menos valorizados, ou seja, nas

mulheres que não se enquadravam no padrão de vulnerabilidade feminina apregoado pela elite:

entre as que transcendiam o espaço doméstico - as mulheres da rua, as adúlteras e as que

exerciam atividades remuneradas, todas agrupadas numa mesma categoria, embora com perfis

bem diversos.

As representações sobre a sexualidade feminina pautaram-se, como vimos, na suposta

existência de um componente de degeneração de potencial patológico presente no sexo

feminino. A partir deste pressuposto, cuja presença é perceptível em praticamente toda a

produção social na modernidade e especialmente a partir do século XVIII com a reificação da

moral burguesa, a repressão à sexualidade feminina passa a ser construída com base em dois

fundamentos básicos: o primeiro relacionado a chamada “natureza feminina”, denominação que

comumente designava o conjunto de características mentais, psicológicas e neurológicas da

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mulher, e o segundo, referente ao corpo, cuja frágil compleição, afetada pela árdua tarefa de

procriar, estava constantemente sob a influência de humores perigosos, cujo equilíbrio

deficitário provocaria as “doenças do espírito” como a histeria, uma patologia exclusivamente

feminina (GILMAN, 1985; CARNEIRO, 2002).

Nesta concepção, encontramos alguns dos fundamentos da diferença entre os sexos e da

divisão

dos

papéis

sexuais;

de

acordo

com

o

pensamento

do

século

XIX,

a

mulher

caracterizava-se por uma indissociável identidade entre corpo e mente, sendo o primeiro

profundamente afetado pela última. Ao contrário dos homens, cujas representações mostravam-

no como um elemento que gozava de pleno domínio sobre suas emoções e para quem a

dissociação entre corpo e mente era uma exigência social, as mulheres viveriam na limiaridade

da instabilidade proporcionada pela constante ameaça que a biologia representava à sua

integridade.

Uma

das

principais

fontes

de

distinção

entre

mulheres

estava

relacionada

à

estigmatização de comportamentos a partir do local que as mulheres circulam – Casa e Rua,

surgem como categorias relacionais neste processo, como revela Da Matta (1997), o que

acarreta distinções arbitrárias no discurso social, como a que enquadra na mesma categoria de

marginalizadas as meretrizes e as vendedoras de rua, por exemplo. A discriminação lar – rua,

da qual, no caso da mulher, relacionava-se ao exercício da sexualidade articulado ao referencial

do local. O submundo da sexualidade devia ser exercido fora do lar, equilibrando por assim

dizer o saudável e o patológico, desde que cada um estivesse circunscrito à sua própria esfera. O

exercício do prazer só era possível, portanto, no mundo da prostituição, cabendo dentro do lar o

sexo com finalidade reprodutiva. A seguir, veremos como os jornais abordavam as mulheres

que estavam “no extremo” desta diferenciação: as prostitutas.

As meretrizes: a difícil vida fácil no processo de civilização

“Flor de carne” Na alva epiderme de teu corpo gyra O sangue quente de baccante impura,

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E n’essa noite horrendamente escura Do vicio o coração te arde e delira

Embora! amo-te assim, fatal creatura, Lasciva e bela, estéril Hetaira; Em ti o gozo lúbrico suspira E a volúpia frenética murmura.

Há nos teus olhos um luar de estro. Quando tu passas, meu amor sombrio Te segue cheio de císpero desejo.

Sonho-me então victorioso e bruto Com um satyro alegre e dissoluto Amarrotando a rosa de teu beijo.

Livio Barreto (O Rio Negro, 26/11/1897)

Várias eram as denominações pejorativas comumente empregadas para designar as

mulheres que exerciam o ofício da prostituição, continuamente ou não, nos jornais de Manaus

do final

do século

XIX e

início do século XX:

“decaídas”,

“marafonas”,

“horizontais”,

cocottes”,

“polacas”,

“cuínas”,

“bacantes”,

“ratuínas” 13 .

Elas

“rameiras”,

refletem

os

confusos sentimentos que a prostituição despertava na mente do homens e da mulher na

modernidade, explicitando como poucos fatos o fariam os conflitos das definições modernas de

papéis sexuais.

A questão das mulheres que forneciam serviço sexual mediante pagamento é delicada,

pois as fontes estão geralmente cheias de estigmatizações e elementos pejorativos. Mesmo as

abordagens mais cuidadosas correm o risco de incorrerem em erros graves, quer condenando a

prática de comercialização do sexo, ou mesmo, no extremo oposto, deturpando ou ocultando a

natureza financeira da prostituição na esperança de não depreciá-la. Esforçaremos-nos para não

cairmos nestas armadilhas buscando uma abordagem que tente conjugar alguns dos diversos

aspectos da questão.

Antes de tudo, é necessário que se diga que assim como os outros segmentos sociais

havia uma bem marcada hierarquia social entre as prostitutas. A célebre imagem da prostituta

em luxuosos cabarés só foi possível a um reduzido número de mulheres. A prostituição “de rua”

13 O termo “ratuína” parece ser um designativo comum para meretrizes do Norte ao Nordeste do território, nas primeiras décadas do século XX. Encontramos uma referência ao termo no romance “Angústia”, de Graciliano Ramos, publicado em 1936.

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em Manaus foi sem dúvida a mais popular, se levarmos em conta a maior visibilidade que

possuía, sendo constantemente alvo de ataques da imprensa local e dos projetos destinados a

coibi-la. Mas analisar as hierarquizações entre prostitutas pobres e abastadas pela base espacial

– dividindo-as entre as que exerciam a atividade nas ruas e praças e entre as que recebiam seus

clientes em casas de tolerância não parece por si só ser suficiente para dar conta de outras

questões subjetivas das relações sociais que gostaríamos de abordar.

Na busca por captar outros aspectos das diferenciações entre estas mulheres, nos

deparamos com marcadores insuspeitados como a cor da pele. Segundo Tomas Orum (2001),

que se dedicou a estudar a prática da prostituição em Manaus e Belém no final do século XIX,

as mulheres mais valorizadas eram as que destoavam da população local, das caboclas e

mestiças de pele bronzeada.

The Amazon's traditional lack of success in securing European or even Luso- Brazilian immigrants and the small percentage of white women in a region where most inhabitants were phenotypically, if not socially, of color placed a premium on Caucasianness. In Manaus observers called attention to the "few of pure white race" and females a "long way from being white." Amazonians, according to an English botanist, were a "pale coffee colour" (p. 23, grifos meus).

Havia no sucesso das meretrizes européias um forte componente racial: as mulheres

alvas, de sotaques estranhos, foram logo associadas a um dos tantos signos de status dos poucos

que enriqueceram com a borracha, como animais raros ou bens exóticos que só o dinheiro

poderia comprar.

These women were identified in the Amazon as "Panchita de Fulano” or “Margot de Sicrano," being, as one author surmises, a form of public demonstration of economic power. To be seen in the company of an elegantly coiffed and fashionably dressed non-Brazilian Caucasian definitely earned socio-economic status for those who could afford the expense (ORUM, 2001).

Segundo Jeffrey Needell (1993), a partir de 1850, o Brasil começa a receber grande

número de migrantes francesas. As primeiras “polacas”, como eram chamadas as prostitutas

oriundas da Europa oriental (Austro-Hungaras, Romenas, etc.), teriam chegado ao Rio de

Janeiro em 1867. O termo “polaca” acabou popularizado transformado na designação genérica

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para as mulheres européias que exerciam o ofício da prostituição, indiferentemente a sua etnia

ou nacionalidade real. Por conta disso, havia certa confusão entre o uso das terminologias

“francesas” e “polacas”, ambas usadas para denominar as brancas européias que exerciam a

“profissão mais antiga do mundo”.

Orum chama a atenção para um fato até então pouco explorado na historiografia local,

que foi a presença ampla de judias exercendo a prostituição em Belém e Manaus no início do

século XX.

Segundo o autor, com a depreciação das condições de vida na Europa oriental

(especialmente Rússia e Império Austro-Húngaro) pelas guerras constantes, a partir de 1880,

grande parte da população judaica desses lugares migrou para outras regiões da Europa e do

resto do mundo. Soma-se a estes outros cataclismos sociais nos anos posteriores, como a grande

fome de 1891 na Rússia e a epidemia de influenza (gripe espanhola) que varreu a Europa a

partir de 1893, tendo inclusive sido trazida para o Brasil pelos imigrantes, além de um quadro

de grande mobilidade de pessoas, muitas das quais se sentiram atraídas pelas promessas de

enriquecimento rápido no Novo Mundo.

Para Orum, a dificuldade em encontrar evidências sobre a participação de mulheres

judias exercendo a prostituição no demimonde da Amazônia deve-se à confusão de identificação

entre “francesas” e “polacas”, que serviu bem para mascarar as judias, a maioria migrantes

européias. No Velho Mundo a perseguição religiosa era o principal motivo para que ocultassem

suas identidades, no Novo Mundo, porém, os motivos eram outros: muitas se beneficiaram do

alto valor que as francesas tinham no mercado sexual local, passando-se por elas por terem

fenótipos semelhantes, mesmo não sabendo falar mais que duas ou três palavras de francês,

como observa indignado um viajante francês em visita ao Brasil: “All foreigners that can speak

two or three words of our language declare themselves French” (D'ASSIER apud ORUM,

2001).

A cultura francesa urbana em seus diversos aspectos como a língua, a culinária e hábitos

como os cafés, era cultivada em Manaus como símbolo de refinamento e traço de civilização.

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Por outro lado, as inovações nos meios de transporte, como o aumento da velocidade dos navios

transatlânticos possibilitaram a “diminuição” das fronteiras, melhorando a comunicação e o