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Ulysses Guimarães e Jarbas Vasconcelos / Arte sobre foto de arquivo

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O PA ÍS

O GL OBO

2ª edição • Domingo , 25 de março de 2012

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A HISTÓRIA DE MORA

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• Domingo , 25 de março de 2012 . A HISTÓRIA DE MORA 24 Se meu

Se meu marido pudesse escolher um sucessor político, seu herdeiro ser ia Jarbas Vasconcelos. Confesso que nunca entendi essa relação. Nas conversas entre os dois, o silêncio sempre predominava sobre os diálogos monossilábicos.

Jarbas, o escolhido político de Ulysses

Jorge Bastos Moreno

moreno@bsb.oglobo.com.br

J arbas Va sconcelos é o meu personagem de hoje. Os que conheceram Ulysses de verda- de sabem que não exagero: se meu ma- rido pudesse escolher um sucessor po- lítico, seu herdeiro seria Jarbas Va scon- celos. Confesso que nunca entendi essa rela- ção. Algumas vezes, durante a campa- nha presidencial de 89, quando os dois

estiveram mais próximos, assisti algumas conversas entre eles. Sentados sempre frente a frente, o silên- cio sempre predominava sobre os diálogos monos- silábicos. Os dois ficavam olhando pro teto, até que um puxava o assunto. Aí era olho no olho. Eu repa- rava que o olhar do meu marido a Jarbas não era de- safiador. Eu nem ousava me meter no meio dos dois. Mas, quando Jarbas saía, eu implicava:

— Ulysses, o que você viu nesse rapaz? Ele não

sorri!

Ulysses defendia:

— O Jarbas sorri, sim. Só que seu sorriso não é de aeromoça. Eu também sou assim.

A única vez que soube que Jarbas soltou uma gar-

galhada foi, contou-me Ulysses, num comício em Re- cife. A banda do MDB liderada por Tancredo já tinha aceitado discutir a proposta de uma reforma política que a ditadura queria impor ao Congresso. Meu ma- rido e Jarbas pediam apoio nas ruas contra o pacote

autoritário. Ulysses sabia sentir a multidão. A pla- teia ali, na porta da Assembléia de Pernambuco, era sua. E ele não teve dúvidas e levou o povo ao delírio. No seu velho estilo cênico, meu marido começava conversando:

— Meus amigos, essa gente que aí está (nunca di-

zia o nome do ditador de plantão, era sempre “essa gente que aí está”) inventa cada coisa. Agora, inven-

taram a tal de reforma. Ora, a gente reforma aquilo que é bom, um sofá, uma geladeira

E aí, erguia os braços, ia para frente do palanque e gritava como alguém possuído pelo demônio:

— Reformar o arbítrio é confirmar a sua existên- cia. Arbítrio se extirpa, como um câncer!

E retomava rapidamente a “conversa” com a pla-

teia, já em outro tom de voz, mais veemente:

— Essa reforma é um pecado contra a democracia

Ninguém reforma o pecado. A mulher adúltera, por exemplo, não diz a Deus nem ao o padre: “Vim refor- mar meu pecado. Em vez de trair meu marido todos

os dias, passarei a fazê-lo apenas às segundas, quar- tas e sextas. E, em vez de ter dois amantes, passarei

a ter um só. Assim como o ladrão, o vagabundo, o

assassino, o proxeneta, não diz ao juiz e ao delega- do: vou reformar meu pecado; em vez de matar e rou- bar, agora só vou estuprar e furtar”. E voltava para o palco, aos berros:

--- Dizem que querem ser democratas! Democrata não trai a democracia! Essa é uma reforma adúltera, vagabunda e proxeneta! Ulysses me disse que Jarbas parecia um menino e não parava de gargalhar.

Lições de Ziembinski Aprendi que, quando o homem tem tesão naquilo que faz, ele é ator. A política, meu caro, está cheia de canastrões.

Estão chocados com a linguagem do Ulysses? Não fi- quem, por favor! Meu marido falava a língua do povo. Na campanha contra Figueiredo, o candidato do PMDB, general Euler Bentes Monteiro, teve um diálogo com Ulysses, que ele nunca mais parou de repetir:

--- Doutor Ulysses, conversando, o senhor parece que está dormindo. Quando está nos palanques, o senhor vira um demônio! Aí eu me assusto com a sua agilidade, com seus movimentos em cena! O senhor se transforma em ator! --- Mas eu sou um ator. Sabe, general, frequentei muito o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). Lá aprendi com o meu amigo Ziembinski que quando o homem acredita naquilo que faz, quando tem tesão naquilo que faz, ele é ator. A política, meu caro ge- neral, está cheia de canastrões. Não se iluda, gene- ral, os quartéis também. Do contrário, o senhor e eu não estaríamos aqui, com a idade que já temos, ar- riscando nossas vidas. O senhor estaria tomando sua água de coco, na sacada do seu apartamento lá da Figueiredo Magalhães, em Copacabana, e eu, na fazenda do Severo Gomes, jogando bocha, tomando cachaça e falando mal do doutor Tancredo de Almei- da Neves. Voltando ao nosso personagem, aos poucos passei

a prestar mais atenção nesse rapaz e comecei a no- tar também que, ao contrário do que eu achava ini- cialmente, era muito parecido com o meu marido. Jarbas não inibia necessariamente as pessoas, mas impunha respeito, autoridade. Jarbas presidiu o PMDB quando meu marido foi candidato. Nunca houve sequer um ruído na sua re-

lação com Ulysses, nem no momento delicado da de- cisão de ir ao Colégio Eleitoral. Jarbas era contra e

anunciou que não votaria em Tancredo, por causa do tipo de eleição e por causa de Sarney, não sei se nes- sa ordem. Jarbas pagou, politicamente, um preço muito alto por não ter votado em Tancredo. Sua posição , claro, respingou no meu marido. Tancredo cobrou dura- mente de Ulysses:

--- Ulysses, Jarbas é você e você é Jarbas. O voto dele não vai alterar os resultados. Mas é um voto simbólico. É um absurdo! É como se Nelson Carneiro dissesse que não vai votar em mim!

— Quando você deixou o MDB, quem foi na tua ca-

sa, Tancredo, pedir para você não cometer aquela

besteira?

— A conversa não foi na minha casa, foi na Biblio-

teca da Câmara. Mas o Jarbas me pediu um absurdo:

que eu ficasse no PMDB, mas sem o Chagas (Chagas Freitas, ex-governador do Rio).

— Então, o Jarbas não foi desleal contigo. E tudo o

que ele falou aconteceu: seu projeto de partido foi um fracasso. Agora, o Jarbas colocou na cabeça que Sarney é outro projeto ruim. Cá para nós, e se ele es- tiver certo? --- Não quero nem estar aqui para conferir!

Tr aição dupla a Ta ncredo Eu estava morrendo no hospital, nem a sonda funcionava mais. O Paulo Maluf soube e ficou enlouquecido

E o absurdo aconteceu. Nelson Carneiro também não votou em Tancredo. Ele

foi à casa do candidato e, ainda na porta, avisou:

— Tancredo, vou te trair!

E justificou:

— Eu estava morrendo no hospital em São Paulo,

nem a sonda funcionava mais. O Maluf soube e Com voz embargada, prosseguiu:

— fez de tudo para aliviar meu sofrimento. Dava

bronca nos médicos, trocou vários deles, pedia infor-

mações a especialistas no exterior. Enfim, fez o diabo. Quando consegui urinar, eu chorei de emoção. E, quase aos prantos:

— O Maluf em nenhum momento pediu meu voto. Ele

sabe que voto em você. Aí entra o estadista Tancredo de Almeida Neves:

— Se, depois de tudo isso, você ainda dissesse que

votaria em mim, quem não se sentiria confortável seria eu. Paradoxalmente, a nobreza de seu gesto, ao mesmo tempo em que me faz sentir muito orgulhoso da sua in- questionável estima, enche meu coração de tristeza por não ser eu o agraciado pelo voto mais nobre em que acaba de se transformar a sua decisão. Um dia alguém terá de tornar público este fato para que, quando con-

tarem a história da retomada da democracia neste país, saibam os brasileiros que é possível fazer política com dignidade. Tancredo e Nelson deram um longo e forte abraço.

E Tancredo não perdeu a peraltice, ao se despedir do

velho amigo:

— Não vai dizer ao Ulysses, se não ele me expulsa do

partido, mas, depois de tudo isso, até eu fico com von-

tade de votar nesse danado do Maluf.

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Quando Jarbas saía, eu implicava:

“Ulysses, o que você viu nesse rapaz? Ele não sorri!” Ulysses defendia: “O Jarbas sorri, sim. Só que seu sorriso não é de aeromoça. Eu também sou assim"

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EULER BENTES: o candidato do PMDB contra o general Figueiredo se impressionava com os movimentos e a vivacidade que Ulysses demonstrava nos palanques

ZIEMBINSKI: o grande ator ensinou a Ulysses, quando este frequentou o Te atro Brasileiro de Comédia, uma lição que seria aplicada em sua carreira política

NELSON CARNEIRO: Com uma dívida de gratidão com Maluf, que o auxiliou durante internação em hospital de São Paulo, o senador do MDB não votou em Ta ncredo no Colégio Eleitoral

TANCREDO NEVES: diante do relato emocionado de Nelson Carneiro sobre a ajuda que recebeu de Maluf, não perdeu a peraltice: depois de tudo isso, até eu fico com vontade de votar no Maluf